The Project Gutenberg EBook of Os meus amores, by Trindade Coelho

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Title: Os meus amores
       Contos e baladas

Author: Trindade Coelho

Release Date: August 30, 2007 [Formerly #22463, now included with #17503]

Language: Portuguese

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*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS MEUS AMORES ***




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OS MEUS AMORES


TRINDADE COELHO


*OS MEUS AMORES*

(Contos e Baladas)

_2.^a edio_


LISBOA

Livraria de Antnio Maria Pereira

50, 52--Rua Augusta--52, 54

1894




_LISBOA_

Tipografia e Estereotipia Moderna

11--_Apstolos_--11




Ao Doutor

Antnio Xavier Perestrelo




_Os Meus Amores_


_Folhas dispersas dos meus anos de ouro,
Vivo enxame das minhas alvoradas,
Tenho zelos de vs, folhas sagradas,
As Desdmonas sois de um outro mouro.

As brancas horas que eu em sonhos douro,
Essas horas febris, iluminadas,
Ei-las fugindo, em tristes debandadas...
Levais nas asas todo o meu tesouro.

Folhas: subi, voai ao cu to alto,
Que o cu em estrelas vos converta e mude,
L nas longnquas iluses que exalto;

Como as frementes guas de um aude,
Levai a Deus, no derradeiro salto,
O derradeiro adeus da juventude_...

_Lus Osrio_.




IDLIO RSTICO

_A Fialho de Almeida_.


Quando atravessou a povoao, rua abaixo, com o rebanho atrs dele,
era ainda muito cedo. Ao longo das ruas tortuosas, as portas
conservavam-se fechadas, e no vinha das habitaes o mais
insignificante rudo. Dormia-se a sono solto por todas aquelas casas.
Apenas algum co, subitamente acordado em sobressalto pelo chocalhar do
rebanho, ladrava do alto dos escadrios de pedra onde ficara de
sentinela, ou de dentro das curraladas, onde levara a noite fazendo
companhia aos novilhos. Donde em onde, galos madrugadores entoavam
matinas sonoras, que eram como risadas vibrantes de bomios, nalguma
estrdia, a desoras...

Mas passadas as ltimas casas, o silncio condensava-se para toda a
banda, numa grande pacificao de templo adormecido. Nem vivalma pela
ladeira que levava ao rio, por um caminho em zig-zags. Fulgiam no cu
azul-escuro cardumes prateados de estrelas. A toda a largura, a
paisagem era torva e indecisa, imersa numa luz muito mortia que nem
era bem a da madrugada, nem era bem a da noite. No entanto a manh era
calma; nem rumores de brisa pela rama das azinheiras velhas que faziam
guarda ao crrego por onde o rebanho tomara. Cigarras, grilos nas
ervagens, rs que coaxavam nas regueiras, era o mais que se ouvia acima
do rumor brando dos chocalhos. Nem um balido de ovelha em todo o rebanho
que se ia submissamente  merc do pequeno pastor, parando se ele
parava a colher as amoras frescas dos silvados, recomeando marcha se de
novo ele se punha a caminhar.

Quando passou rente ao meloal da fidalga, ouviu-se o rudo de um tiro,
que o eco levou para longe.

--No gastes plvora, Antnio!--recomendou o pastor.--Ouviste?

E logo a voz do guardador:

--Madrugas hoje, Gonalo!

--P'ra que saibas: c um homem no tem medo.

--Est bem. Adeus!

--Saudinha.

A esse tempo ia-se j definindo a manh, na luz, no som, na cor. Invadia
a amplido da cpula celeste uma tinta alvacenta, onde as estrelas
feneciam no seu brilho. Ao alto, na ladeira de alm, entravam de fazer-se
ntidas as linhas sinuosas das cristas, onde enormes rochedos tinham
altitudes de uma imobilidade misteriosa e sinistra... Neste assomo
de alvorada, as coisas iam despertando lentamente para a alacridade
vigorosa da luz. Das moitas e sebes, calhandras em bandos levantavam-se
repentinamente, em voo perpendicular, e cortavam ares fora, chilreantes
e alegres, at se perderem de vista por detrs dos arvoredos e cabeos.
De cauda em riste e orelhas imveis, o rafeiro espreitava as ervagens
secas, onde algum rptil passasse vagaroso.

--Busca, Turco!--fazia-lhe o Gonalo que tinha medo s cobras.--Busca,
valente!

 medida que descia a ladeira, um marulhar montono de guas ouvia-se,
mais e mais distinto. Era o rio que parecia perto; mas primeiro que l
se chegasse ainda era preciso andar... Era um poder de passos e de
pacincia,--reflectia o pastor, a quem aborreciam de morte os
interminveis torcicolos da vereda. Ia andando, descendo sempre, 
frente do rebanho silencioso. E quando os sapatos comearam de calcar
areia, e ali, perto, o rio lampejava, sob aquele cu ainda estrelado,
o Gonalo desabafou:

--Uff! at que enfim!--E pensava aliviado:--Nada mais fcil do que
terem-me sado os lobos!...

Mas vista quela hora, e no meio de tal silncio, a corrente lquida
tinha o que quer que fosse de sinistro, que evocava lembranas
aterradoras, espectros dos que ali mesmo tinham morrido afogados, numa
luta desesperada com as guas, clamando em vo que lhes acudissem, em
tamanho transe aflitivo. A margem de l, especialmente, era toda
acidentada de rochedos informes, blocos medonhos, por entre os quais no
Inverno o vento assobiava lgubre, e as guas faziam remoinho, o que era
um perigo para os pobres barcos que se aventurassem incautos, num
descuido involuntrio--simples remadela pouco a tempo, manobra menos
segura de leme, ou impulso errado de vara.

E ento, cabeos enormes de um lado e doutro, projectando sobre o largo
leito do rio a sua sombra pesada e desconforme, que mais triste fazia o
sitio e parece que mais solitrio, pois fechavam-no bruscamente, fazendo
limitada a paisagem.

A todo o comprimento da margem, o rebanho ps-se ento a beber manso e
manso, e sem o mnimo rudo.

Foi quando o Gonalo acabou de se convencer que na margem de l, um
pouco mais abaixo, outro rebanho bebia tambm.

--Tate, Gonalo! Aquela chocalhada...

E imvel, remordendo o lbio, com o ouvido  escuta, pensava:

--Ora se ser ela?...

Sbito, estremeceu. Ante o seu esprito infantil perpassou, como um
claro de relmpago, a imagem de uma rapariga, pastora como ele, com
quem se havia encontrado mais vezes, mas que havia muito no vira.

--Ai, se fosse a Rosria!... dizia consigo.

E impondo silncio ao rebanho, que acabara de beber, ps-se atentamente
 escuta do tilintar dos chocalhos na margem oposta.

O rebanho parecia o mesmo, l isso... Agora o pastor  que podia ser
outro que no a Rosria...

Seno quando, uma ideia lhe acudiu que o fez sorrir de contente. Atirou
ao cho a manta e o marmeleiro, e puxando para diante o bornal, feito da
pele de uma ovelha branca, morta pelas segadas, tirou de l a sua
flauta e ps-se a tocar apressadamente um trecho de cantiga rstica.

No mesmo instante, uma voz muito sonora gritou-lhe:

--Eh l, Gonalo, s?

O pastor desatou a rir.

--Uh l, Rosria, eu mesmo! Guarde-te Deus, pimpona!

E logo a voz fresca da rapariga lembrou:

--No te esqueceu a moda, rapaz!

--Isso esquece ela!... Ouviste, Rosria?--Se outra fosse que ma
tivesse ensinado...

Neste meio tempo j o Gonalo retomara a manta e o marmeleiro para ir
ter com a Rosria. Mas primeiro perguntou:

--Boto pela ponte, ou s tu que vens,  cachopa?

--Vem tu da. Por c sempre  outra coisa p'r'as ovelhas. H?

--Basta!

E dando o sinal da partida, o Gonalo ps-se em marcha. Da a
pouco, entrava mais o rebanho pela velha ponte mourisca, toda severa de
construo nos seus trs arcos lanados sem elegncia, atufados de
parasitas seculares que a faziam pitoresca, heras, silvas, ortigas
bravas.

A meio da ponte, mo piedosa fizera construir pequeno oratrio ao Senhor
Salvador, cujo rosto sereno, espreitando por grades de arame, diziam dar
coragem a barqueiros e almocreves, que ante o pequeno e humilde nicho
com respeito se descobrissem, e com devoo rezassem uma velha prece que
era como um talism precioso para livrar de maiores
desgraas--naufrgios no rio, e ento maus encontros por aqueles
caminhos escabrosos, que eram um perigo constante para homens e animais.

Da a pouco, as duas crianas estavam perto uma da outra, cada qual
seguida do seu rebanho.

--Ora viva a Rosria!--disse o pastor muito alegre, parando defronte da
cachopa.

--Bons dias, Gonalo; ento que ventos?

Entre os dois travou-se ento um longo dilogo em que se contaram tudo o
que haviam feito desde aquele dia em que ambos tinham voltado juntos da
feira dos Canios.

--Por sinal que nem rs se vendeu!--lembrou o Gonalo.

--Por sinal!--disse com pena a Rosria.

Mas ele contou que viera por ali muitas vezes, muitas, sempre na f que
a encontrava. V-la agora, s por milagre de santo; quem o havia de
sonhar! Nanja ele...

--Mas se eu estive to doente!--volveu triste a Rosria.

E como o outro acudiu a informar-se, ela explicou:

--Umas quarts que me tiveram mondada! A peste as mate! Febre que era
mesmo lume desde manh at ao escurecer... Uma assim!

E na sua ingenuidade infantil, contou ao Gonalo que muitas vezes, na
febre, sonhara com ele, que se encontravam os dois por montes e prados,
como agora tinha acontecido, tal e qual.

--Assim te Deus salve,  Rosria?--atalhou rpido o pastor, a quem
enchiam de orgulho os sonhos daquela pequena amiga.

--Assim; pois que dvida?--tornou-lhe confiada a Rosria.

--No!--disse agastado o Gonalo.--No hs-de dizer assim... Diz certo,
hs-de jurar direito.

--Pois assim me Deus salve...

--Como  verdade...--Diz tudo, Rosria!--suplicava o pastor.

--Sim, volveu-lhe paciente a companheira,--como  verdade que sonhava
que nos encontrvamos--concluiu por fim, muito risonha.

E sem disfarar o jbilo, prestes o Gonalo a certificou de que tambm
no a esquecera. Tanto  que tirava da flauta as cantigas todas que
ela lhe tinha ensinado.

--Lembras-te?

A Rosria faz que sim com a cabea. E logo, batendo na flauta de
sabugueiro, o pastor apressou-se a declarar:

--Saem daqui sem falhar uma.--E resoluto:--V feito, Rosria, pede por
boca!

A Rosria pediu ento a _Pastorinha_.

--Eu  da que mais gosto,--explicou.-- a mais linda.

--E !--concordou o Gonalo.--Ora escuta l.

E levando aos lbios a avena, ps-se a tocar a _Pastorinha_, enquanto a
Rosria, com a sua vozita em surdina, entrava a tempo com a letra:

Onde _vs_,  Pastorinha,
Ai-li, ai-li, ai-li, ai-l...

--Sabes essa!  mesmo assim!--disse-lhe a Rosria a rir-se.

-- como vs!--afirmou contente o Gonalo.

Aos seus ps tinham-se deitado os rafeiros, e j os dois rebanhos,
confundidos, andavam na pastagem.

--Olha as ovelhas juntas!--notou o Gonalo.

--Tambm ns nos quedmos juntos,--volveu-lhe a pequena, sorrindo.--As
pobres do-se bem, so amigas...--continuou com jbilo.

--E ns tambm, ora tambm, Rosria?

--Tambm--respondeu afoita a pastora.

E foram-se ter conta no rebanho, que choviam as coimas e as denncias.

       *       *       *       *       *

A esse tempo, no cu alto e lavado a estrela da alva fenecera por fim, e
o horizonte comeava de carminar-se ao de leve. Por todo o cu em
cpula, a luz fresca e viva da manh vibrava harmonias estranhas que iam
despertar tudo, a cor da paisagem e a msica dos ninhos, cantigas de
perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manh de Vero, serena,
tranquila, dulcssima. Ia pelo ar um movimento extraordinrio de
asas--passarada alegre que saa agora dos ninhos e voava a matar a sede
 borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em
recncavos de rocha e tomavam para hortejos convizinhos onde a vegetao
era mais rica de seiva e mais fcil a presa dos insectos, perdizes
gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos
vinhedos das encostas, por entre os renques verdejantes, gente em mangas
de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos, em torcicolos,
viam-se os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de
taleigos, e berrando-lhes cada _ch_! que se ouvia na outra ladeira. J
nas povoaes prximas sinos chamavam para a missa de alva ou tocavam a
ave-marias. Nas quintas e casas fumegavam os tectos, dizendo horas de
almoo. De modo que o sol quando rompeu, solene e triunfante no cu
imaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a natureza acordada
para a labuta interminvel do dia. Numa clareira elevada, dominando o
rio e um trecho de paisagem para sul, tinham-se sentado os dois pastores
e continuavam conversa.

Ao pastor parecia-lhe agora mais bonita a pequena amiga, com a sua cor
trigueira levemente plida desde que tivera as maleitas. No se
lembrava com que santa que ele tinha visto se lhe parecia agora a
Rosria...

--Mas o cabelo assim cortado...--disse com mgoa, mirando-lhe a cabea
nua, e passando a mo pela dele,-- que te no fica bem!

Melhor fora que lhe tivessem deixado as tranas. Negras, de mais a
mais, que era como ele gostava...

--Promessa da me se eu melhorasse--explicou a Rosria--Lembranas... A
gente quando est aflita...

--...Quando est aflita...--repetiu como um eco o pequeno. E depois,
amuado:--Se promete os olhos...

A rapariga fitou-o, espantada.

--... porque tos tirava!--concluiu convicto.

Houve um momento de silncio, em que o Gonalo se ps a escavar o cho
com uma pedra, e a Rosria a torcer um fio saliente do seu vestido
grosseiro. Ouviam-se as ovelhas chocalhando nas pastagens, ia a passar
na rodeira, longe, um carro que chiava, com uvas para algum lagar.

--No falas, Rosria?--perguntou o pastor sem levantar os olhos para
ela.

--Tambm tu...--comeou com medo a pequena,--logo te zangas! Olhem a
lembrana dos olhos! Se a me fazia isso, credo!--E depois
animando-se:--J foste  Senhora dos Remdios?

O Gonalo fez sinal que no tinha ido.

--Pois foi l que deixmos as tranas, eu mais a me. Num prego ao lado
do altar, um lacinho verde nas pontas. Ficou lindo.

O pastor teve um movimento de enfado, no lhe agradava a conversa. E
para acabar com ela:

--Que enfim como melhoraste...--fez que concordava, pondo o bilro a
girar.--Olha como dana...--E depois, mais pensativo, batendo com o
bilro nos dentes:

--Que s vezes as promessas pouco fazem...--E interrompendo:--Sabes quem
fez este bilro?

--Foste tu, aposto.

Bateu no peito e fez com a cabea que sim, mostrando-lho
orgulhoso--que visse os _torneados_. Depois continuou:

--Vai uma pessoa andando e os santos no se importam. Ora, os
santos!--Olha a minha Joaquina, tu no conheceste. A gente bem rezou e
bem promessas fez, mas ela foi-se.

E pondo-se de joelhos, comeou a procurar pelo rebanho.

--Aquela ovelha, a branca, no vs? A que se vai agora deitar... Pois
era p'ra Nossa Senhora, repara que  a melhor.--E deitando-se para
trs:--L anda ela a pastar!--concluiu desalentado.

--Mas tinha de ser,--volveu-lhe triste a Rosria,--que as promessas
sempre fazem, l isso...

E convicta, a pequena contou casos acontecidos para convencer o Gonalo
de que sempre valiam as promessas. No entanto, deitado de costas, com a
jaqueta a fazer de travesseiro, as pernas em ngulo tocando-se com os
joelhos, o Gonalo soprava pela palha o bugalhinho que constantemente ia
subindo e descendo, acompanhado pelo olhar bondoso do co que ali perto
se deixara estar sentado. E contando, contando casos, a Rosria ia
entretendo o pastor. Mas quando ela fazia pausa, logo o rapaz acudia,
firme na sua objeco:

--Ora! mas a nossa Joaquina morreu-se! Coitadinha da Joaquina!

       *       *         *       *       *

 medida que o sol ia subindo, no cu glorioso e fulvo, iam os dois
conduzindo as ovelhas para stios mais ensombrados, para se livrarem da
estiagem que ia valente. Calor de rachar, ali por volta do meio-dia, que
foi quando tomaram para a banda das azinheiras, e para os pinheirais,
depois. E sempre ao lado um do outro, os dois companheiros levaram de
conversa quase o dia inteiro. Nunca tinham dado f que as horas
passassem to depressa. Ainda armaram aos pssaros, mas foi o mesmo que
nada, os demnios andavam espantados e j conheciam as esparrelas.

--Olha l no caiam,--tinha dito o Gonalo, j cansado de estar 
espreita, agachado, com o fio da armadilha preso ao dedo.--Se eles
fossem tolos...

E foi-se a recolher as esparrelas, dando ao demnio os pssaros. Ela
ento props que jogassem a pocinha.

--E o fito,  Rosria? Sabes jogar ao fito? No adro, aos Domingos de
tarde, bato-me com qualquer, sabias?

E generoso:--Mas a ti dou-te partido: vinte e cinco s quarenta...

Como o tempo rendia, jogaram tudo--a pocinha, o fito, as necas, a
bilharda. Na bilharda, como o rafeiro trazia  mo, era ele que ia
buscar o pauzinho, quando zinia longe.

--Turco, traz c!

       *       *        *       *       *

No entanto, ia descaindo a tarde. Ao alto, o largo cu esmorecia no seu
azul suavssimo. Em todo o espao o ar estava tranquilo e sereno, e j
comeava para poente a decorao fantstica do ocaso. Parece que se
ouvia mais distinto o marulhar das guas no rio; j no faiscava assim
to viva a areia branca das margens.

Foi quando o Gonalo lembrou que era melhor irem-se chegando, mais as
ovelhas, para as terras onde tinham de pernoitar. E fitando fixamente os
olhos negros da Rosria, disse-lhe assim:

--Mas olha o que prometeste... Inda vais feita no que disseste?

Ora que lhe custava a ela! J que as ovelhas tinham andado juntas todo
o santo dia, que mais era que dormissem no mesmo curral, essa noite?

--E o mais,  Rosria?--perguntou de novo com interesse.

A pequena ficou perplexa. Mas como o pastor no cessava de a olhar,
respondeu:

--Tambm.--E sorriu-se.--Pois eu...

S depois desta segunda promessa o Gonalo se levantou, e deu o sinal
de partida, assobiando aos ces.

Da a pouco, estavam de marcha para o curral, Quando passavam a velha
ponte, a obliquidade dos raios do sol fazia alongar desmedidamente pelo
areal a sombra dos trs arcos. Nas rugas da corrente, uma luz alaranjada
tremeluzia, tirando  gua a sua translucidez normal.

-- bonito!--fez notar o pastor.

A Rosria explicou logo:

--So as moiras a caar com redes de oiro, sabias?

Para a outra banda, um pouco mais abaixo, assomavam  flor da corrente
as cabeas dos dois rapazotes do moleiro. Dentro da _chata_ que vogava
serenamente, a me com o mais novito ao colo no os perdia de vista,
enquanto o pai, em mangas de camisa, de p num topo de fraga, lhes ia
ensinando as _manobras_. Ao fundo, trs vitelas passavam o rio a vau,
muito devagar, parando a espaos, alongando o pescoo para a veia de gua
serena, bebendo mansamente. Sobre o vitelo das malhas brancas, o
guardador cantarolava, acenando com o chapu ao moleiro--boas tardes!
boas tardes! Ao sair da ponte, o rebanho teve de se afastar um pouco
do caminho: aproximava-se um almocreve com a longa fila de machos
carregados, tilintando campainhas.

--Adeus pequenos! cumprimentou.

--Venha com Deus!--tornaram-lhe ambos.

E de novo se puseram em marcha. As ovelhas continuavam confundidas,
confraternizavam os ces como bons e leais amigos.  frente, o Gonalo
ia tocando na flauta o mesmo que a Rosria cantava. O brando rumor dos
chocalhos, que se levantava de todo o rebanho, casava-se com a msica,
fundindo-se numa nota subtil, de um pitoresco ingnuo de balada...

At que chegaram a um topo de serra, escurentado de matagal rasteiro, e
ento, parando um momento, o Gonalo perguntou, colocando na sua frente
a Rosria, e pondo-lhe  cara a flauta, na direco em que devia olhar.

--Vs alm... neste direito? Resvs do castanheiro, no enxergas?

A outra fez que sim com um gesto, e interrogou:

--Ento  ali?

--Ali mesmo--volveu-lhe j de marcha.

E repousando a mo direita sobre o ombro esquerdo da rapariga,
repetiu-lhe muito contente:

-- mesmo alm.

Numa terra de restolho, um largo quadrado de cancelas marcava o espao
que as ovelhas tinham de ocupar essa noite.

--Falta pouco; a gente vai pelo atalho que  s mau p'ra quem passa a
cavalo.

E como ele ia expansivo, e a companheira no dava palavra, quis ento
saber:

--Ests triste,  Rosria?

--Triste... no. J agora... tem de ser--volveu-lhe cabisbaixa.

--Huum! Arrependeu-se...--volveu consigo o pastor.

       *       *       *       *       *

At que por fim chegaram, tinha anoitecido havia instantes. Gado para
dentro e toca a merendar; o que era de um era doutro: ele ainda trazia
azeitonas, um naco de queijo, po. Mal acabaram de comer, o Gonalo
apontou para a cabana que ficava ali perto, e props que se deitassem:
estavam modos da soalheira de todo o dia e da caminhada agora.

Quando o Gonalo e a Rosria entraram na cabana e se deitaram sobre o
colmo, cobrindo-se com as mantas, e achegando para a cabea um do outro
os bornais que faziam de travesseiro, cerrara de todo a noite, e
formigueiros de estrelas cintilavam vivezas de prata polida no azul
indefinido do cu.

--E os lobos?--perguntou a Rosria com medo.

--No h perigo--tranquilizou-a o Gonalo.--Isso  l com os ces.

       *       *       *       *       *

Pouco a pouco, foi-se extinguindo no curral a msica triste dos
chocalhos. A ladrar, os ces faziam eco. O rebanho devia dormir
profundamente, imerso no mesmo sono em que jazia prostrada toda a
Natureza, ao largo. Dentro da cabana, os dois conversaram algum tempo,
num ciciar brando de vozes, at que por fim, vencidos da fadiga, se
deixaram adormecer,--quando a histria das moiras encantadas ia no seu
melhor episdio...

E l no alto cu, mesmo sobre a cabana, a estrela da tarde no era nem
mais pura nem mais luminosa do que a alma simples e boa daquelas duas
crianas...

Quando ao repontar da manh se levantaram, e saram a ver o cu...

--Bonito dia, Gonalo!

--Bonito dia, Rosria! Olha...

...na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas iam voando...
voando...




SULTO

(Copiado do Natural)

_Ao meu Henrique e a Beldemnio, seu amigo_.


I


Ao cair da tarde, o Tom da Eira entrava em casa, cansado, esfalfado de
andar um dia inteiro a mourejar no campo.

--Meus pecados, boa tarde!--dizia ele para a mulher, com um sorriso a
afectar seriedade.

Vinha logo o pequeno, o Manuel, de mos postas pedindo-lhe a bno.

--Deus te abenoe.

--Pai, olhe que o Sulto... ia a dizer o pequeno.

--Bem sei! atalhava logo o Tom.--O Sulto  um maroto e tu s outro.

E enquanto procurava no bolso da jaqueta a sua bela navalha de
_meia-lua_, que lhe custara um pinto havia bons quinze anos, e abria a
gaveta do po, o Tom punha-se a fazer de interesseiro consigo mesmo,
resmungando alto p'ra que a mulher o ouvisse:

-- que por este caminho no tenho um dia descansado... Nem uma hora...

Vinha a mulher com as azeitonas, com o queijo, sem dar palavra.

--...Pois vamos j que j era tempo... Porque p'ra mim h-de chegar... A
modos que vou j cansando...

Mas o Tom no era homem que dissesse estas coisas de corao.
Pareciam-lhe longos, interminveis, os aborrecidos Domingos que passava
sem ir campos fora, madrugador como um melro.

--Uma aquela como outra qualquer! dizia o bom do Tom encolhendo os
ombros, como quem est desgostoso com um gnio assim.

Partiu uma ampla fatia, um naco de queijo muito branco, do leite da sua
cabrada, e veio sentar-se, consolado, ao fundo da larga escada de pedra
que dava para a rua, arregaado, em mangas de camisa, muito  vontade.

Costume velho do Tom:--mal se sentava, mastigando o bocado, dizia
logo para o filho:

--Ouves, Manuel? Bota c fora o Sulto.

O rapazito corria o caravelho de uma pequena porta lateral, que rangia
nos gonzos ao impulso dos seus bracitos rolios, e punha-se a pular de
contente, dizendo c da rua:

--Sulto! Sai c p'ra fora, Sulto!

No fundo negro do pequeno cortelho, na moldura rectangular da porta
baixa, destacava-se ento a cabecita parda de um jumento, orelhas em
riste, grandes olhos de uma tristeza perptua, num movimento moroso de
plpebras pestanudas...

E ali se quedava parado, absorto, muito bem posto nas suas pequeninas
pernas delgadas, a olhar o Tom que o chamava,--um grande riso de
alegria nas feies amorenadas, contente de ver o seu Sulto.

Mas o pequeno jumento no avanava um passo, divertindo-se em arreliar o
Tom, fitando-o com um ar estagnado. Altivo na sua nobre linha de
quadrpede de boa raa, algum lhe poderia ler no olhar, mole e
impassvel, o frio, gelado desprezo a que parecia votar o dono...

Mas era quilo mesmo que o bom do lavrador achava graa. E punha-se
ento a falar muito srio, entre resignado e corts, para o pequeno e
desdenhoso jumento--o po e o queijo esquecidos numa das mos, na outra
a navalha de _meia-lua_:

--Ento, Sulto, no vens?

--No! parecia responder-lhe o animal. E abstracto, continuava a
envolv-lo no seu olhar profundo. A quebrar a harmonia daquela
imobilidade de esttua, apenas de quando em quando uma pequenina patada
na soleira, zap!

--Zangado, Sulto? perguntava o lavrador.--De mal comigo?

E prestes voltava a cara para a outra banda, para se rir 
vontade...--que no fosse v-lo o Sulto... Metia entre dentes um
pedacito de queijo, logo uma cdea de po, e fazendo umas grandes rugas
na testa, de quem comea a zangar-se, voltava-se ento muito srio:

--Ficas a, Sulto? J no s meu amigo?

O jerico abatia um pouco as orelhas, inclinava o pescoo, parece que
fazendo-se humilde...

--Ento se s, anda da. Olha...--E mostrava um pedacito de po.--P'ra
ti se vieres...

O Sulto dava trs passos, e ficava fora do cortelho. E por se vingar,
o Tom carregava o semblante numa seriedade muito pesada, e erguendo o
rosto iracundo chamava-lhe interesseiro, maroto, afirmando que j lhe
no dava o po. E desfechando-lhe enfim a ameaa de o vender a um
cigano, entrava a trat-lo por senhor--_sr_ Sulto...

Mas o pequeno jumento ia andando muito devagar... andando... orelhas
baixas, pescoo cado, a modo de arrependido, parece que pedindo perdo
da arrelia.

Nervoso, sapateando, o Tom voltava a cara para a outra banda, a rir
como um perdido.

--Diabo do jerico! diabo do rato! Capaz  ele de fazer rir as pedras,
o mariola!--E tossia de engasgado, uma migalhita de queijo na goela.

No entanto, o Sulto ia avanando, muito ronceiro, at que tocava com
o focinho, levemente, nos joelhos do lavrador. O Tom sacudia-o:

--Sai-te p'ra l! dizia ele muito amuado, sem se voltar.--Cuidas talvez
que te no conheo, cuidas? J te no quero, vai-te!

Mas como que irreflectidamente, fingindo no querer, chegava-lhe ao
focinho um pedacito do po, o melhor da fatia. Sulto lanava um olhar
oblquo, entre sorrateiro e medroso, levantava cautelosamente o beio
superior, a tremer, e roubava-lho da mo.

Pazes feitas! Era ento rir a perder, numas casquinadas agudas, muito
estrdulas.

--Credo, homem! dizia de cima, da janela, a Sr.^a Josefa.--At pareces
doido!

--Voc assim rouba seu dono? Diga! Voc assim rouba seu dono? perguntava
o Tom, nuns grandes gestos.--Vamos que eu lhe no queria dar da
merenda? Ladro, de mais a mais!... Ora bem! agora brinque.

Era precisamente o que o Tom queria:--ver o Sulto a brincar.

...Nada, com efeito, meus amigos, que mais divertisse o bom do
lavrador, e melhor o indemnizasse daquelas fainas laboriosas que lhe
consumiam os dias, imperturbavelmente, perpetuamente, sob sis
causticantes e chuvas torrenciais.

Por isso, era de ver como ele ria, com uma boa vontade deliciosa, das
partidas e diabruras do Sulto! s vezes, o pequeno jumento,
ferido no sei por que vespa invisvel, despedia sem mais nem menos
numa carreira aberta, focinho entre as pernas dianteiras, agitando a
cauda, por aquela rua fora. Rompia de toda a banda num alarido o
rancho pacfico das galinhas, que j no ar andavam como doidas,
cacarejando, como se um p de vento as levasse. Acudia gente aos
postigos, s portas, s janelas, a ver a polvorosa; e sbito se
inundava a rua de rapazes, rotos, descalos, alguns quase nus, correndo
atrs do burro, gritando-lhe, acenando-lhe, espantando-o--como se o
mesmo vento de folia os houvesse varrido a todos, varrendo a prpria
rua... E um l ia a terra, e sobre esse passavam os outros, e sobre
todos voava o Sulto, apupado, perseguido, aclamado, na malta
espavorida dos inimigos...

--Sulto! eh l! Sulto!

Sbito, como se lhe estalasse a corda, o animal estacava, e logo de
volta dele postava-se a rapaziada, mas num alor de nova fuga, no lhe
desse na bolha atac-los... E abriam alas de repente, quando ele,
tomado de novo acesso, voava para as bandas do dono, que por se no
deixar atropelar investia com o Sulto de braos abertos, o que era,
j se v, um modo de o abraar, fingindo medo. E vinham as gargalhadas
estrdulas, os rogos para que pusesse trguas, as splicas para que se
acomodasse, recuando o lavrador at ao ltimo degrau da escada, onde
se deixava cair,--derrotado!

--P'ra l, Sulto! p'ra l! fazia ento o Tom, opondo-lhe os ps,
desviando-o, apoiando-se nos cotovelos, muito inclinado para trs, a rir
como um perdido.

Ento o pequeno jumento estacava, ofegante. Mas prestes rompia a
girndola dos coices, em que era exmio, sacudindo muito as patas, cauda
no ar, muito direita, ao mesmo tempo que o Tom solcito dava aos
rapazes o aviso de se arredarem--porque era doido, aquele demnio!...

Outras vezes, parece que variando de tctica, entrava de seguir muito
cauteloso, num ronceirismo prfido, como um borrego ou como um co,
certa mulher que passava. At que l ia uma focinhada, e logo aps os
saltos do costume, respondendo com uma ameaa de pinotes  surpresa da
viandante.

--D, tia Lusa! bata nesse maroto! fazia de l o Tom, com ares de
zangado. E depois, batendo o p, pedindo que lhe dessem uma
verdasca:--Sulto! venha j p'r'aqui! intimava.

E se encontrava um co? Se encontrava um co, ia logo direito a ele,
muito devagar, cauda cada, orelhas murchas, num cumprimento humilde
de focinho. O co regougava, desconfiado, entreabrindo a dentua,
preparando a sua dentada. No dava o Sulto sinais de medo, e humilde
prosseguia para o outro, propondo paz. Mas ao primeiro latido, recuava um
passo, espertando da sua indolncia passiva; e de espinha arqueada
ganhava o terreno perdido--fitando impassvel o co... O bruto formava
ento o salto, regougando forte, o plo eriado; e ao investir para a
primeira dentada, salvava-o de um pulo o Sulto, evitando-o, at que
por compaixo lhe dava um pequenino coice, mais feitio que outra
coisa, pondo em fuga o mastim, corrido, ganindo, vencido:

--Eh! valente! gritava-lhe ento o Tom.

E com duas palmadas na anca, espantava-o enfim para o cortelho, dizendo
ao correr a caravelha:

--No h dinheiro que te pague, assim me Deus salve!

E comido o caldo-verde da ceia, nunca o Tom da Eira ia para a cama sem
primeiro descer a ver o Sulto,--de candeia na mo esquerda, e na
direita, contra o sovaco, a bela quarta do gro, acogulada.

Muitas vezes acontecia esquecer-se o Tom a v-lo comer, de candeia
atenta, encostado  manjedoura, sorrindo: e, de cima, a Sr.^a Josefa
tinha de intervir ento, gritando-lhe pelas frinchas do sobrado:

--Tom, v se te vens deitar, meu pasmado! olha que so horas.

E piamente, como fantico, achava verosmil a lenda da burra que
falou,--histria que uma tarde, passando, o abade lhe contara. Tanto
que mais de uma vez, dando ao burro as boas-noites, estranhou com certo
desgosto que o Sulto lhe no respondesse:

--Boas noites!

       *       *       *       *       *

Mas o demnio, que sempre as arma, armou-lha tambm um dia! Foi ao
cortelho, de manh cedo, e no encontrou o burro. Ficou parvo! Ps-se a
mirar, espantado, a loja que lhe pareceu enorme, e alm de
enorme--gelada...

-- Josefa! Josefa! entrou de gritar da rua.-- Josefa!

A mulher assomou  janela, sobressaltada.

--Queres apostar que me roubaram o burro,  mulher?!

--Que te roubaram o qu? fez a Sr.^a Josefa, muito atnita.

--O burro, o Sulto! Vem c ver que mo roubaram!

E como ao tempo acudira j o Manuel, em camisa, descalo, romperam todos
trs na gritaria, defronte do cortelho vazio:

-- d'el-rei!  d'el-rei!  d'el-rei!

At que o regedor, que era compadre, intervindo estremunhado, ps na
peugada do burro, mais dos larpios, os cabos que compareceram.

Mas em vo! Um a um foram regressando, pelo dia adiante, e desfechando
ao peito abatido do Tom a negra e vazia palavra:

--Nada!...


II


Dois anos depois. Tarde de Agosto. Ao longe, fechando o horizonte que a
eira dominava, as arestas dos montes quebravam-se numa sombra igual, e
embaciavam ainda o poente as suaves, brandas pulverizaes doiradas da
ltima luz do sol. Riscos vermelhos de nuvens, como grandes vergas de
ferro levadas ao rubro, destacavam imveis num fundo verde-mar,
esvaecido e meigo, raiado de listres de uma colorao leve de laranja.
Pequenos algodes transparentes, com alvuras de neve, cortavam aqui e
alm, alegremente, a monotonia profunda do azul. Num deslado, sob os
castanheiros prximos, surgiam os telhados da aldeia, a torre branca da
igreja, as paredes caiadas da escola.

A vasta eira comum, levemente acidentada, apresentava quela hora o
aspecto tranquilo e de paz de uma grande oficina em repouso. Poucas
medas, iam no fim as colheitas: mais uma semana, duas quando muito, e
estaria tudo recolhido. J sobre a palha das parvas ou ao sop das
medas altas, entre os utenslios da trilha e a crianada estrdula que
brincava, os da lavoura descansavam--vermelhos da soalheira intensa de
todo o dia, alguns deitados, em mangas de camisa, peito nu, arregaados
os braos musculosos, numa prostrao regalada de matilha que alfim tem
a sua hora de sossego, aps um dia de caada. Parecem prostrados da
fadiga os prprios malhos, os trilhos, as ps, os baleios que levaram
todo o santo dia varrendo o cho em volta das parvas. E aqui e ali,
dando uma sensao agradvel de fartura, perfilam-se os altos sacos no
meio das rasas, extravasando de gro. Alm, gente em mangas de camisa,
ao redor de um grande monto de palha triturada, vai limpando--visto
que sopra um ventinho. E sente-se sobre as ps a chuva do gro, ao
mesmo tempo que a palha, voando, faz monte da outra banda, e os
baleios, em mos de mulheres, no cessam de arrebanhar o gro,
varrendo em roda num af... Em certo ponto, carros vazios; um alm, de
altssimas angarelas, vai-se enchendo de palha; enquanto outros,
atulhados de sacos, em rimas entre as cancelas mais baixas,
estridulamente chiando abalam para as tulhas, levados pelos bois
gigantes.

Eiras alm, livres dos trilhos que ficavam em cima da palha, levas de
bois caminhavam vagarosamente, as largas orelhas pendentes, caudas
oscilantes afagando nas ancas espaosas o luzidio plo. E l vo
encosta abaixo, roando pelos troncos speros dos castanheiros a enorme
corpulncia, fartar o largo bandulho  serena gua das ribeiras,
sorvendo vagarosamente, impando a cada sorvo, pesadamente,
monotonamente, parece que insaciveis no meio da gua em que se atolam,
submissa...

Ao fundo da eira, rente aos castanheiros escuros, um rancho de mulheres
cantava alegremente, em coro. Acabara de ensacar-se o ltimo gro da
farta colheita do Tom da Eira.

--Colheita rica, sim senhor! vinham dizer-lhe os vizinhos.--A primeira
da aldeia!

--Qual? isso sim! vo vocs ver a tulha. Muita palha,  que vocs ho-de
dizer, muita palha e pouco gro...

E muito azafamado, sem prospias de maioral nem jeitos de soberba, as
mangas arregaadas pelos cotovelos, o Tom ia e vinha, dando ordens,
repetindo avisos, distribuindo aqui e alm as ltimas tarefas.

--A vai um saco,  tu!  p'r'as rabeiras. Que no fique nem um
gro, ouviram?  aviar, toca a aviar! Cautela que no fique por a
alguma coisa esquecida: essas ps, esses baleios, tudo isso.
Margarida!  Margarida! qu' da tua rasa? Deixa! se vai no carro est
bem.

E era como um doido a meter-se no servio de todos, muito expedito,
loquaz, alegre, pedindo pelas bentas almas que se no deixassem agora
dormir...

--Vamos l! vamos l! As ps,  tu que cantas? Deixa-me por a alguma,
que eu depois te ensinarei, ouviste?--Que faz a no cho esse
rasouro,  coisa?--Olha p'r'o que ests a fazer, tu: esses sacos que
fiquem bem atados.

O criado, que ia abalar com a carrada, perguntou, j de aguilhada no
ar, se era preciso mais alguma coisa.

--No, podes ir. Ouves? l em casa que tenham a ceia a horas. Avia-te.
Ouves, Francisco? No piques os bois, a carrada  valente. A passo,
deixa ir os animais a passo. Vai-te.

Como o carro chiava, levantou a voz para dizer:

--Olha, descarrega na tulha do meio. Na tulha do meio, no ouves? Os
bois para o lameiro.

Mas o Francisco apontou dois sacos que ficavam:--seria preciso vir por
eles?

--No vale a pena, l iro.

E depois, para aquela gente, observou que bem sabia ele quem os
levava, aqueles dois sacos...

--Com mil demnios! Apostar que vocs no adivinham?

Eles sabiam l?... Quem quer podia levar os dois sacos, olhem agora!

--O Sulto, sabem? o Sulto! Esse  que os levava. E digo-vos ento
que valia o dobro a colheita, assim me Deus salve!

Alguns riram da lembrana. Tinha graa que a cisma do animal no lhe
passava nem  mo de Deus Padre!

--A modos que isso  j mania,  Sr. Tom?

Nisto, porm, o lavrador soltou um oh! de surpresa. Voltaram-se
todos--que era? Na estrada que a eira dominava, um homem ia passando,
a cavalo.

--Vocs no querem ver,  rapazes?! perguntou o lavrador, fazendo-se
plido.--Aquele burro, hein? se no  o Sulto  o diabo por ele...

Recordaram:--estrela malhada na testa, a mo direita branca...

-- ele, com um milho de diabos! no h que ver! E aquele  o ladro!

E cuspindo nas mos, e arregaando mais as mangas da camisa, arrancou,
de um abano, o cabo de uma espalhadoura e botou a fugir direito 
estrada.

Prestes ouviu-se um berreiro, as mulheres do rancho em alarido:

--Que o mata! gritavam todas.--Ai que o mata! Acudam! Ai a desgraa! Nem
a alma lhe deixa! Acudam!

Os homens deitaram a correr atrs dele, aflua gente de todas as
bandas da eira, os ces ladravam.

--Ento, Sr. Tom? olhe que se perde, Sr. Tom! diziam-lhe, j
agarrados a ele.--Largue o cabo, que se desgraa! Tudo se faz a bem,
Sr. Tom, largue vossemec o cabo!

--Qual bem nem qual diabo! Qual larga? Arreda! Racho-lhe as costelas,
mais a vocs, se me no largam! Arreda!

E esbracejava furioso, levando-os de roldo, agarrados a ele mais ao
cabo. Chegou a ferir um, os outros desanimaram por instantes.

--V, Sr. Tom?!

No via nada, no queria ver coisa nenhuma! Arreda! E num rompante de
ira, abrindo brecha com um sarilho, de um pulo saltou  estrada, aos
tropees nas pedras que encontrava, mal se equilibrando.

--Abaixo! intimou.--Voc  um ladro!

--Um qu?

--Um ladro!  meu esse burro! Hei-de mat-lo aqui, seu patife!
Deixem-me! larguem-me! H-de a ficar estendido, como um co!

E no meio da malta em alvoroo, com a arreata do burro na mo esquerda,
e na direita o minacssimo cacete, berrava que o deixassem, que ia tudo
raso--com seiscentos milhes de diabos!

Seguiu-se altercao, vieram razes de parte a parte, insultos.

--J lhe disse que voc  um ladro!

--Ladro ser voc!--tornou-lhe o outro j de p, avanando de punhos
cerrados.--E no mo diga outra vez, que o racho!

Aflitas, algumas mulheres voltavam-se, de mos postas, para a
capelinha prxima, rogando o socorro da Virgem. O lavrador entrava de
tremer como varas verdes, desfigurava-o a raiva, uma saliva muito branca
bordejava-lhe os cantos da boca. Pela camisa rota, via-se-lhe j um
pedao de ombro. Tinham, alfim, conseguido arrancar-lhe o cacete, mas
agora esbracejava, punhos no ar sobre aquelas cabeas em desordem.

J, para uns certos do grupo, o homem do burro se desculpava:--tinha-o
comprado a uns ciganos, fossem l adivinhar que o burro era roubado...

--V, Sr. Tom? acudiram logo uns poucos.--O homem no tem culpa.--E
gritavam-lhe aos ouvidos:--No tem culpa! Comprou o animal na boa f.
Vs--a est!

--Mente! objectava incrdulo o Tom, cada vez mais irado.--Mente!

--Mente?! perguntava o outro de l, assanhado.

--Como um judeu! cuspia-lhe da outra banda o Tom.

De modo que para o convencerem, foi preciso afinal lev-lo quase  m
cara, chamar-lhe homem de rixas, despropositado, bulhento. Ele ento,
abrindo os braos como se fosse para nadar, sossegou um pouco,
amainou,--prometeu levar aquilo com pacincia, s boas. Chegou quase a
pedir desculpa, limpando com a manga branca as bagas das
camarinhas.--Mas tinha perdido a cabea, que lhe queriam?

Chegou-se por fim a um acordo. Sim, senhores, acomodava-se, mas
punha uma condio: largasse ele o burro, e o burro  que havia de
resolver...

--Serve-lhe o contrato?

--Qual contrato?

--Mau! Larga-se o burro, voc entende? deixa se o burro s soltas.
Depois,  p'ra onde ele for. Se o burro larga p'ra trs, l p'r'as
bandas donde voc vem... Voc donde vem?

--Dos Casais.

--Pois a est. Se o burro tomar p'r'os Casais, o burro fica seu...

--E tomando direito  aldeia,  do Sr. Tom,--concluram alguns do
grupo, conciliadores.

--Nem mais! Serve-lhe assim? Diga se lhe serve assim.

Por um desfastio, o outro concordou. Mas l lhe parecia histria que o
burro tomasse para a aldeia... Vinha de to m vontade, que at lhe
custara tir-lo de casa.

--Olhe que vai pr'os Casais! Digo-lhe ento que vai pr'os
Casais...--afirmou.

--Melhor p'ra voc. Mas ns veremos p'ra onde vai. Voc est pelo
dito?--quis saber o Tom.

--Sim senhor, estou! Pois que dvida tem que estou? disse-lhe o outro
num rompante. Olhe: uma, duas, trs; s trs largo-lhe a arreata.

Ia j a abrir a boca para dizer--uma!

--Alto! fez o Tom. Espere l um pouco. Primeiro hei-de fazer duas
festas ao animal.

E ps-se a bater-lhe na anca, no pescoo, no peito, demorando-se um
pouco a fit-lo de frente, para que o animal o conhecesse.

--Sulto! gritou-lhe de repente. Eh! Sulto!

O burro estremeceu... Dir-se-ia que no fundo da sua memria, a
lembrana porventura adormecida daquele nome despertara subitamente...

--Eh! Eh! riu-se muito satisfeito o lavrador. O burro, agora, vira-se
p'ra ali. Isso. Nem  p'r'os Casais nem p'r'o lugar. Assim. Eh! Eh!

E afastou-se para o lado, aguardando.

Uma ansiedade dominava naquele momento os do grupo; o Tom ps-se a
roer as unhas, nervoso...

--Ento voc porque espera? perguntou.

Ouviu-se logo a voz do outro, dizendo:

-- uma!...

O Tom sentiu um calafrio; sapateava nervoso, cheio de medo, o olhar de
esguelha, e entre os dentes ferrados o polegar da mo direita...

--...s duas!

--Ih! c'um raio!... dizia baixo o Tom.

E sem querer, os olhos cerraram-se-lhe com fora.

--...s trs!

Foi ento um barulho de palmas, um berreiro atroador de vivas e
gargalhadas! O Tom vencera: corriam todos a abra-lo, afirmando que
o caso era para foguetes.

--Viva o Sr. Tom! Viva o Sulto! Aquilo  que  burro!

--Aquilo  que  amigo, ho-de vocs dizer!--emendava o Tom a rir.
Tenho-os com dois ps, que no valem metade...

--Oh! Sr. Tom! protestavam alguns.

--Isto no  com vocs, mas  como quem se confessa... Est visto que
no  com vocs.

E ria, ria como um perdido, enquanto, estrada fora, o Sulto corria
que voava, cauda no ar, corda de rastos, perdendo-se por fim l ao
fundo, na poeirada imensa da estrada, como que nimbado num resplendor
de apoteose. E na peugada do burro, esbaforido e como doido, seguia
agora o lavrador, aps o fraternal abrao, pregado no dos Casais...

Quando o Tom chegou a casa, ofegante, a suar, cheio de gestos e de
palavras entrecortadas de riso, j o Sulto, relinchando, pateava 
porta do antigo cortelho, numa grande impacincia, um rap-rap
contnuo na soleira.

--Venham ver! Venham c ver! berrava o Tom para a vizinhana. 
Antnio!  compadre!  Maria Engrcia!

s janelas assomava gente, perguntando se era fogo.

--Qual fogo, nem qual carapua!  o Sulto, mas ! Este inimigo! 
Josefa! Josefa! c temos o burro, este demnio. Assoma.

Ora imaginem agora os senhores, se podem, a efuso do lavrador.
Abraos? E at beijos. Aquilo era um tesouro perdido que reaparecia
alfim. A mulher, do alto da escada, benzia-se, perguntando se o seu
homem teria endoidecido...

--Palavra de rei, Sulto, palavra de rei! Anda da pelos sacos. So
s dois.  Josefa! Ouves? p'ra c esse garrafo que est ao p da arca,
avia-te. A caneca tambm, ouviste? Essa das riscas vermelhas, a maior.

E atirando as mos ambas para a albarda, montou muito regalado, de um
pulo.

--Ah!

A senhora Josefa assomava, ajoujada com o enorme garrafo.

--Anda, mulher, pe aqui diante de mim. Avia-te.

Ia a boa da senhora Josefa arriscar uma observao, um conselho,
qualquer coisa de tomo...

--Adeus, minhas encomendas! No me fanfes, mulher, no me fanfes. Pe
aqui, que mando eu, avia-te. Assim. Est bem.

--Nome do Padre...

--Ento que lhe queres? Deu-me agora p'r'aqui!

--Nome do Padre, nome do Filho...

--A caneca! Venha de l agora a caneca!

--...nome do Esprito Santo!

--Passa bem,  mulher,--concluiu s gargalhadas, entre as gargalhadas
dos demais.--Ouves? Quando o Manuel vier dos ninhos, esse maroto,
manda-mo s eiras. A trote, Sulto! Eh! valente!

E l parte, veloz como uma seta. J de longe volta-se do repente:

--Josefa!  Josefa! nesse alguidar do meio umas sopas de vinho p'r'o
Sulto, ouviste? No do meio. O grande  muito grande, e esse pequeno
no presta. Ouves? mas quer-se coisa que farte, bem entendido.

E de novo despediu como uma flecha, abraado ao garrafo. Arreata para a
direita, arreata para a esquerda, pernas a dar a dar, ele l vai numa
corrida, sumido numa onda de poeira, at chegar s primeiras medas.

--Vinho, rapaziada!  Maria do Carmo, toma l uma pinga, mulher! L por
andarmos de mal h 15 anos isso acabou-se!

E o Tom atravessou a eira sempre a cavalo no Sulto, caneca de
vinho para a direita, caneca de vinho para a esquerda.

       *       *       *       *       *

Meia hora depois regressava, o Sulto pela arreata, o Manuel no meio
dos sacos, e adiante do Manuel o belo garrafo--sem pinga...

Pelo caminho, a todos o Tom contava a histria, a rir como um perdido,
num ah! ah! de gargalhadas sonoras, muito ntimas.

--Colheita rica, sim senhores, um colheito!

E parando  porta, ainda a mulher se benzia do alto da escada, mexendo e
remexendo o alguidar de barro:

--Nome do Padre, do Filho, do Esprito Santo.

...Ao mesmo tempo que o Tom, abrindo os braos, respondia reclamando
as sopas:

--men!




LTIMA DDIVA

_Ao dr. A.A. da Fonseca Pinto_.


Distante do rio apenas um tiro de bala ficava o horto do Jos Cosme,
belo horto ainda que pequeno, todo mimoso de frutas e hortalias,
fechado entre velhas paredes musgosas, atufadas em silvedo, comunicando
com a estrada por um pequeno portelo mal seguro. E eis ali quanto ao
pobre homem restava dos seus antigos haveres:--o horto, a um canto a
nora, e perto da nora, sob a umbela tufada e virente da antiga magnlia
gigantesca, a msera casinhola de alpendre, apenas com uma porta e duas
janelitas laterais mas toda pitoresca das heras que a revestiam, que
lhe pendiam dos beirais enlaadas com as trepadeiras.

De modo que na Primavera, quando as parasitas abriam serenamente os seus
melindrosos clices sobre esse fundo de verdura reluzente, e a magnlia
toda se toucava de flores fazendo docel  vivenda, aquele pequeno canto
de horto, com a sua nora e com a sua gua espelhante e lmpida, tomava a
feio ingnua de uma delicadssima tela de paisagista, aguarela
deliciosa, alegre e idlica, cheia de encantos na poesia rstica da sua
simplicidade.

No Vero, s horas de calor, quando o sol caa a pino sobre a larga
paisagem adormecida e turva, e as rvores da estrada no davam sombra
que aliviasse, aquela tranquilidade com que o Jos Cosme ressonava sob
o alpendre, braos nus e peito nu, o chapeiro de palha grossa
resguardando-lhe a cara, fazia inveja aos que por ali passavam, cansados
e cheios de poeira, flagelados por aquela estiagem inclemente.

-- tio Jos!--gritavam-lhe do caminho.--Tio Jos!  regalado!

Mas os que entendiam de lavoura, proprietrios e maiorais, esses
deixavam dormir o Jos Cosme e ficavam-se a admirar o horto.

Ora na verdade!... Belo horto, sim senhores! Por aquelas redondezas
no havia outro que se lhe comparasse, to esmerada era a sua
cultura--to esmerada e to completa, pois que de mais a mais nem palmo
de terra ficara inculto. Nas leiras, dispostas com simetria agradvel,
verdejavam cheios de vio, frescos e medrados, legumes de todas as
castas--desde a alface muito tenra, de folhas verde-claras, toda
acaapada no cho hmido das regas, at s trepadeiras das vagens que
enroscadas ascendiam pela basta rodriga de castanho aparada com todo o
esmero, formando macios de verdura sombria que os casulos esguios dos
feijes crivavam de alto a baixo. rvores, apenas as precisas para
aformosearem o horto, sem prejudicarem com a sombra a vegetao franca
das hortalias. Mas todas as que havia eram mimosas de frutas nas
estaes competentes--cerejas, peras, mas, pssegos mesmo.

Poucas flores: uma coisa que todos notavam com estranheza. Mas desde que
lhe morrera a mulher mais a filha, o Jos Cosme deixara-se de as
cultivar, e nos canteiros assim devolutos tinha semeado repolhos, que
por sinal vinham enfezados. S teve o cuidado de no deixar morrer os
goivos. Uma vez por ano, em fins de Maio, colhia-os todos de uma vez, e
ia lev-los em braado  sepultura rasa das suas defuntas.

Exactamente nessa tarde tinha ele ido ao cemitrio fazer a fnebre
visita. Quando se recolheu era j noite. Mal acabou de cear levantou-se
bruscamente da mesa e foi-se para o horto, com uma grande vontade de
chorar. Estava nas suas horas tristes, nessas horas em que as energias
todas da sua alma e at as do seu corpo vergavam sob o flagelo de uma
dor violenta, exacerbada agora pela saudade dos que lhe tinham
morrido... E para maior desgraa fugira-lhe o bem das lgrimas. De modo
que sem esse lenitivo, aquelas medonhas tempestades custavam o dobro a
suportar. Abstracto, numa espcie de entorpecimento idiota, percorria
sem descanso todas as ruas do horto, cabisbaixo, acabrunhado, autmato.
Se por vezes parava, recolhendo-se numa quietao atenta, logo um
gesto brusco desmanchava a sua imobilidade de esttua, soltava um fundo
gemido, e punha-se de novo a andar.

--Vens ou no vens?--perguntava ele, evocando com dorido esforo a
imagem da mulher ou da filha. No vinha; e quando aparecia era como se
fosse um relmpago, apagava-se logo.

Nesta lua com a sua dor as horas iam passando longas. Era j tarde,
talvez a uma da noite. Luz, apenas a das estrelas, pois que o luar
nascia tarde. Pesava sobre toda a paisagem o largo silncio da noite,
apenas cortado, ao longe, pela melopeia sonolenta do rio.

Um rapaz que ia na estrada olhou por acaso para o horto do Jos Cosmo e
viu um vulto perpassar de repente e de repente sumir-se num recanto
onde a sombra era mais densa.

--Temos histria...--resmungou consigo o rapaz.

E, rente a uma rvore, quedou-se alapardado,  espreita. No desconfiou
que fosse o Jos Cosme: aquilo era mariola de larpio que vinha por ali
fazer das suas. Agachou-se ento, e ps-se a procurar uma pedra. Apanhou
duas, para o caso de no acertar a primeira.

--Co do diabo!--exclamou baixo o rapaz, pondo-se em posio de jogar a
pedra.--Espera que eu te arranjo...--E j ia arremess-la na direco do
canto, quando o vulto saiu da sombra e tomou por um carreiro, direito ao
lugar onde o rapaz estava.

--Melhor! Mais a jeito ficas...

E debruando-se um pouco na parede, ps-se a fixar o vulto que avanava,
para ver se o conhecia. Quem quer que era trazia a jaqueta sobre os
ombros, alvejavam-lhe as mangas da camisa. A meio do carreiro, mesmo
defronte dele, parou. Foi ento que o rapaz se lembrou do Jos Cosme.
O vulto parecia, com efeito, ser o dele; lembrava-se agora de ter
ouvido que o pobre homem, quando o ralavam saudades da mulher e da
filha, levava noites em claro, a percorrer como doido aqueles carreiros
por onde elas tinham andado.

Quando ouviu soluar, acabou ento de se convencer. Insensivelmente,
deixou cair as pedras e perguntou:

--Tio Jos!  tio Jos! Sou eu, o Lus... Vossemec que tem?

O lavrador no respondeu, parece que nem tinha ouvido. O rapaz insistiu:

--Di-lhe alguma coisa,  tio Jos?

--No di, no. Sabes que mais? peo-te pelas alminhas que me deixes.
Bem me bondam as minhas aflies. Vai com Deus, vai.

O rapaz ficou surpreendido, triste do tom de splica dorida que o Jos
Cosme dera quelas palavras, e retirou-se silencioso, quase aterrado
agora com a ideia de que poderia ter matado o pobre homem, caso jogasse
a pedrada.

No entanto a noite ia avanando, grave, soturna, sem outro rudo que no
fosse o das guas do rio. E o Jos Cosme, sem despegar do seu fadrio,
ia e vinha pelas ruas do horto, lembrando um autmato ou um sonmbulo.
s vezes abeirava-se da porta de casa e punha-se a escutar. Como no
sentia nada, voltava de novo ao seu passeio. Nisto, de uma vez que
passava em frente do cancelo, pareceu-lhe ouvir passos.

-- Toms!

--Sr. Jos!--respondeu o que entrava, numa voz que era mesmo voz de
barqueiro.

O Cosme sentiu ento uma grande vontade de chorar, mas remordendo os
beios dominou-a. Como o barqueiro estranhasse encontr-lo a p, ele
ento redarguiu-lhe que nem se tinha deitado.

--Como tinha de madrugar...

--Pois so horas de largar, Sr. Jos; isto vai p'r'as duas. No tarda
que comece a amanhecer.--E como estavam  porta de casa:--Ser bom
acordar j o pequeno: veste, no veste,  tempo que se vai.--Iam  vela
se o tempo no mudasse. Era bom aviar, por isso.

Mas  ideia de ter de acordar o pequeno, o Jos Cosme deixou-se cair
sobre o banco que estava debaixo do alpendre, e desatou a chorar
violentamente.

O barqueiro tentou anim-lo, constrangido.

--Ento, Sr. Jos?... O chorar  l para as mulheres. Olhem agora que
homem!--E tentava levant-lo, p-lo de p.--Limpe l essas lgrimas, que
vai afligir o pequeno! Ou quer que ele v a chorar todo o caminho?

O Cosme fez que no com a cabea, violentamente, e ps-se a enxugar os
olhos com a manga da camisa.

--Pois ento levante-se l.--E segurou-o com fora por baixo dos
braos.--Assim! L porque o pequeno vai para o Brasil no fique
vossemec a pensar que o no torna a ver.

Mas era isso mesmo o que ele pensava...

--Porque no sei que me adivinha que no torno a ver o pequeno--concluiu
a chorar o Jos Cosme.

--Cismas! lembranas que vm  gente quando est aflita. Mas h-de
v-lo que o no h-de conhecer, digo-lho eu. Mais ano menos ano,
aparece-lhe a rico...

Rico! bem lhe importava a ele que o pequeno viesse rico. O que desejava
era que voltasse e que ele ainda fosse vivo s para o abraar.

Pois sim, mas era preciso aviar, que tivesse pacincia: o Jos Cosme que
se animasse para animar o pequeno--recomendava o barqueiro.

--Sim... sim...--tartamudeava o Cosme.--Vamos l com Deus! Com'assimU+2026.

E num profundo ai dolorosssimo, foi-se direito  porta para chamar a
pequeno. No havia remdio, tinha nascido em m hora, havia de ser
desgraado at que o levassem para a cova... Sobre a estreita e humilde
cama o filho dormia profundamente. Que dor, ter de o acordar! Vieram-lhe
tentaes de mandar embora o Toms e deixar dormir a criana. Quem sabe
se a sua sorte futura, se toda a sua vida, valeria a boa tranquilidade
daquele sono! No tinha coragem para o acordar, faz-lo vestir: era
quase um pecado quebrar aquele ltimo sono dormido sob o tecto
paterno... O ltimo sono! o ltimo sono!

--Ainda se o deixssemos acordar...--aventurou-se a dizer o triste.

Mas o Toms que estava com pressa, lembrou secamente que eram horas de
pr o barco a andar.

O Jos Cosme acendeu ento a candeia, receoso de que a luz o
acordasse, e achegando-se do filho ps-se a escutar-lhe a respirao.
Dormia!... Mas brandamente pousou-lhe a mo sobre a cabea e chamou
baixinho, quase ao ouvido, beijando-o, sobressaltado como se fosse
praticar um grande crime:

--Filho, olha que so horas, meu filho...

Quando o pequeno se sentou na cama, estremunhado, ainda sob o
estonteamento do sono, cerrando os olhos quela hostilidade viva da
luz, o pai agarrou-se a ele num abrao, e ambos romperam a chorar.

--Adeus, pai!

--Adeus, filho!

Confrangido, o Toms que se deixara ficar  porta, avanou para desatar
aquele abrao.

--Olhe que  tarde, Sr. Jos. Perdoe, mas olhe que  tarde!

O pai vestiu o pequeno, beijou-o ainda muito, e saram. Debaixo do
alpendre, o Joaquinzito ficou-se um instante a olhar o tecto.

--A andorinha, filho?--perguntou o Jos Cosme.--Deixa que eu hei-de
olhar por ela, mais pelos filhos quando os tiver. Vai sossegado.

Mas o pequeno quis v-la, pediu ao pai que o erguesse, era s um
instante. L estava ela, coitadinha! sentiu-a estremecer quando lhe
tocou com as pontas dos dedos...

--Adeus!--disse-lhe o pequeno afagando-a.

A esta palavra, o pai retraiu os braos e tomando o filho no colo
seguiu. Atrs, o barqueiro levava ao ombro a msera arca de pinho: toda
a bagagem do Joaquim.

Ao transpor o cancelo o Jos Cosme deteve-se um pouco e perguntou
soluando:

--Quando voltars ao horto, meu filho?

O pequeno no respondeu. Chorava constantemente de ver que o separavam
de tudo o que adorava--a andorinha, depois da andorinha o horto, as
rvores, a velha nora, o cancelo, tudo enfim.

Atravessaram ento a estrada e tomaram para a banda do rio. Quando o
sentiram murmurar, aperraram mais o abrao, deram-se um longo beijo,
hmido das lgrimas que ambos derramavam. Ah, como o triste pai desejava
que o rio ficasse ainda longe, mui longe, que fugisse diante deles, de
modo que nunca o alcanassem! Mas eis que a areia principiava,
divisava-se j perto o vulto escuro do barco onde os da tripulao
falavam alto.

--Pronto?--perguntou ainda de longe o Toms.

Do barco responderam que era s marchar, de mais a mais ia romper a lua.

Chegaram enfim. Num leve silncio de acaso ouviam-se os soluos dos
dois, parece que prolongados infinitamente, na sua expresso de
angstia, pelo deslizar montono das guas... Aquilo confrangia o
barqueiro, ele tambm era pai... Por isso, mal chegaram  beira do rio,
apressou-se a dizer para o pequeno:

--Ora bem, Joaquinzinho, beija a mo a teu pai e dize-lhe adeus.

Ouviu-se um chorar lancinante, a voz do pobre Jos Cosme a querer animar
o filho:

--Ento, meu filho?... Deus te abenoe, meu amor... Nossa Senhora te
veja ir.--E fez-lhe prometer que havia de rezar sempre a Nossa Senhora,
ele tambm lhe rezaria, pois era ela quem dava sade, quem fazia a
gente feliz.

--No te esqueas dela mais da alminha de tua me e de tua irm...

Mas o pequeno chorava cada vez mais, agarrado ao pescoo do pai,
beijando-o sofregamente, acarinhando-o, sem foras para dizer palavra.
Ento o Jos Cosme, perdida a esperana de animar o filho, s exclamava
desvairado:

--Valha-me Deus! O Senhor me valha pela sua infinita misericrdia!

E o Joaquim sempre agarrado a ele, beijava-o na cara, na cabea, nas
mos. At que o Toms teve de intervir, era preciso despegar dali por
uma vez.

--Com'assim, Sr. Jos, isto tem de ser...--E segurando o pequeno com
fora puxou-o para ele. Quando j o tinha nos braos, ouviu-se o Jos
Cosme que suplicava de mos postas:

--S um instante, s um quase-nadinha, Toms!--E o pobre pai caa de
joelhos na areia, numa atitude de splica.

Mas nesse momento, o barqueiro saltou de um pulo para o barco, levando
ao colo a criana.

--Rema!--intimou em voz rpida.

O barco recuou ento subitamente, ao mesmo tempo que os remos fizeram
_plhau_! sobre a gua.

Ento o choro do Jos Cosme tornou-se de uma violncia desesperada, ao
ouvir a voz lacrimosa do pequeno dizendo-lhe adeus l do barco.

--Adeus, Joaquim, adeus!

--Adeus, pai!

--Adeus!

Mas repentinamente, com voz resoluta e firme, o Jos Cosme gritou na
direco do barco:

--Toms!  Toms! por alma de teu pai faz l alto um instante.

Acabou-se! custara-lhe tomar aquela resoluo, mas j agora era melhor
ficar sozinho de todo. E segurando nos dentes um pequeno objecto,
arremessou a jaqueta ao areal e de um lance deitou-se a nado. O Toms
que ouvira o mergulho do corpo, fez recuar o barco; mas o Jos Cosme,
velho nadador destemido, com meia dzia de braadas ganhou-lhe de
pronto a quilha. O filho tinha-se debruado, na nsia de esperar o pai,
de o ver ainda outra vez. Num movimento rpido, o Jos Cosme entregou
ao pequeno o que levava entre os dentes, dizendo-lhe a chorar:

-- a medalha, Joaquim;  a medalhinha de tua me, meu filho!...
Reza-lhe, sim?!

E chorando cada vez mais, o pobre Jos Cosme pediu ao barqueiro que lhe
chegasse o pequeno para o ltimo beijo...

Dado o ltimo beijo, o barco ps-se de novo em marcha. Vinha a romper a
lua, enorme, torva, afogueada, como se viesse de algum banho de sangue
em regio misteriosa de lgrimas... E no silncio agoireiro da noite,
apenas cortado pelo bater montono dos remos e pelo bracejar desalentado
do triste nadador,  voz do filho que chamava respondia cada vez de mais
longe--longe como se fora do Infinito! a voz lacrimosa do pai--com o seu
fnebre _adeus_! que ele bem sabia ser eterno...

       *       *       *       *       *

...S quando o eco do ltimo adeus do Joaquim, perdido na distncia,
diludo no luar que surgia, desfeito no lugente murmrio das guas,
fundido no derradeiro suspiro da brisa matinal, deixou de chegar 
praia,  que o pobre abandonou o areal e se foi, sempre a chorar,
tiritando ao frio da sua desgraa, como a um vento agudssimo do Plo,
na direco do horto silencioso...




COMDIA DA PROVNCIA

_A Alberto Braga_.


I

PRELDIOS DE FESTA


Esse ano, a festa da senhora das Dores devia ser coisa de estalo. A
comear pelo juiz, todos os da mesa eram de respeito--abonados e
decididos. Tanto assim, que o fogo preso, que afinal era o melhor da
festa, vinha l de Chaves, longe que nem seiscentos diabos. Mas era obra
de jeito, acabou-se! Tinha-se dito ao homem que trouxesse coisa que
representasse uma cegonha. O homem respondera que sim, e dava mesmo a
entender que traria mais animalejos, uma bicharada, talvez um macaco, se
tivesse tempo de o acabar.

--Homem de uma cana! resumiu o juiz quando acabou de ler a carta. E
correu a espalhar a notcia, orgulhoso de que no seu ano a _coisa_
fosse de arromba! Depois, era um despique. No ano atrs, o Jos da
Loja, que tinha sido o juiz, gabara-se do seu fogo, s porque vinha l
uma pea que era um castelo a dar tiros, assim: Fff! Pum!

--Ora deixa estar que eu te arranjo... murmurou com os seus botes o
Antnio Fagote. E sorria satisfeito, de se lembrar que na noite do
arraial todo o povo o havia de aclamar, dar-lhe vivas pelo fogo que
apresentara. Espalhou-se a novidade. Uma hora depois, na vila, ningum
falava noutra coisa.

--Ento voc j sabe?

--J sei. A cegonha.

--A cegonha e o mais: um cavalo, um bezerro...

--O que eu quero ver  o camelo. Feio bicho, j viu?

--Pintado. No Monteverde se me no engano. Logo adiante do _Valente Rei
Arauto Fiel_.

Enganava-se.

O escrivo da Cmara, que tinha laracha, encontrou-se na rua com o Alves
aferidor.

--At que enfim, amigo Alves. At que enfim vou ter o gosto de o ver
arder.

O outro no percebeu. Que se explicasse...

--Um urso, no arraial queima-se um urso.

--Ento ardemos ambos, redarguiu embezerrado o Alves.--Tambm se l
queima um burro.

s duas por trs, o Antnio Fagote viu a casa cheia de gente. Quem no
ia, mandava recado: todos queriam saber se vinha o animalejo da sua
predileco.

O homem comeava a azedar-se. Chegou mesmo a mandar fechar a porta, por
dentro.

--Pe a tranca, se for preciso.

Mas ento era c da rua:

-- Sr. Antnio!

E na porta as pancadas ferviam:

--Truz! truz! truz! Sr. Antnio!

--na! c'um raio de diabos!--fazia l de dentro o homem, furioso.

--O senhor faz favor?  s uma palavrinha.

 janela assomava ento o Antnio Fagote, com os culos na ponta do
nariz e a carta do foguetrio na mo.

--O camelo? perguntava zangado.--O urso?! Camelos me parecem vocs,
ouviram? O que o homem diz  isto.

E lia a carta, rematando:

--Uma cegonha, outros animalejos, quem sabe l o que sero, e talvez o
macaco, se houver tempo de o acabar. E agora, sabem que mais?... Tirava
os culos e ia-se embora, capaz de os trincar a todos.--Irra!

E l de si para si pensava que era melhor ter guardado segredo. No
fosse ele burro... Mesmo porque cada um comeou logo a inventar
animais, e todos  que no podiam vir. Claro! E no vindo todos, a
tnhamos ns descontentes. E havendo descontentes, quem lucrava era o
Jos da Loja.

--Temos o caldo entornado! pensava aflito o Fagote, amedrontado com
aquele espectro do Jos da Loja, o seu rival! De mais a mais, j lhe
tinha chegado aos ouvidos que o outro agoirava mal do negcio...

--Farfias! tinha dito o Jos da Loja. Farfias!

--Pois se mo diz na cara, arrebento-o! vociferava o Fagote, quando tal
soube.

E arrebentava, que o Fagote era homem para isso, tinha pulso. Desde
rapaz que uma lenda de valentia se fizera na sua vida: contavam-se
proezas, desde uma vez que varrera uma feira, por causa de eleies.
Depois, bom olho para a caadeira. Duma ocasio, que foi preciso dar
montaria aos ladres, portou-se como um leo, foi ele que deu voz de
preso ao chefe da quadrilha. E como foi que lha deu? A frase ficou
lendria:

--Como-te a alma se te mexes!

--E o outro no se mexeu, que ele comia-lhe a alma! comentavam
convictos.

Como esta, muitas outras. E foi talvez por estas proezas que a sua
figura adquiriu para a velhice o jeito desempenado que tinha. Estava com
60 anos e a sua atitude viril impressionava ainda agora. No era
nutrido, mas era sanguneo, tez morena, cara rapada, olhos pequenos, uma
largura de ombros que era o principal indcio de fora. Pescoo curto.
Mesmo a brincar, quando cerrava os punhos e arremetia com fora,
conhecia-se-lhe a rijeza dos msculos naquele movimento sacudido.

--Safa! que isso a  de ferro! diziam os rapazes. Duma cana, hein?

Mas bom homem, de uma grande franqueza de modos, simples e afvel. Para
se sair era preciso pic-lo. E uma vez, quando era juiz ordinrio, uma
testemunha tanto o picou em audincia, que ele desceu l da cadeira,
foi-se a ela e quebrou-lhe a cara. Por isso falava srio quando
prometia arrebentar o Jos da Loja. A mulher interveio pacificadora:

Que no desse ouvidos a ditos. Deixasse o homem, que no era to mau
como o pintavam.

-- mulher! cala a caixa e no me defendas esse velhaco! redarguiu o
Fagote. Do que ele  capaz sei eu.

Mas nesta ocasio, de todas as velhacarias do Jos da Loja, s lhe
lembrava uma: ter sido juiz o ano atrs!

Isto parecia-lhe com efeito uma velhacaria, feita a ele que era juiz
este ano.

--Pois tu que pensas? dizia ele para a mulher. Quem me meteu a festa
em casa foi ele. Ele  que se lembrou de me escolher, como quem diz:
entrego-te a vara, sempre quero ver como te arranjas...

--Nome do Padre, do Filho... A mulher benzia-se das ideias do seu
Antnio.

--Sejam ideias, que no sejam! teimou o Fagote. Isto foi tal e qual,
assim me Deus salve!

--Mas quem to disse, homem? Quem foi que to disse?

--Quem mo disse? Olha! E mostrou-lhe o dedo mnimo da mo direita.--Foi
este mindinho. No falha.

E ento desabafou: que no pensasse o Jos da Loja, que o havia de
levar  parede. Agora levava! A festa h-de se fazer, e festa de
arromba; _nanja_ como a dele que s levava seis anjos, e no sei
quantos andores, acho que meia dzia!

-- mulher, ento  para que saibas onde chega o brio de um homem!
Caramba! Sendo preciso, ouves? sendo preciso at vendia a camisa do
corpo. Nem trinta sanfonas como o sanfona do Jos da Loja! E espipava
olhos de clera para a mulher que remendava uns sacos, compungida de
ver assim o seu Antnio.

E ps-se ento a renovar ordens, recomendaes que a mulher j estava
farta de ouvir. Mas com tempo  que as coisas se pensavam, no era ao
atar das sangrias!

--Leites se os c no houver, manda-se o Miguel  cata deles por
esses povos  roda. Querem-se de 7 semanas, trs pelo menos.

A mulher contraveio:--dois seriam bastantes...

--Mau que a principiamos ns!--E ps-se a assobiar e a rufar com o p
no soalho, arreliado.--Trs  que ho-de ser. No quero c dois, porque
dois eram os do _outro_, o ano passado.

A esta razo, a mulher calou-se. O Antnio Fagote gostou do silncio da
mulher, que o lisonjeava nos seus despeitos contra o _outro_.

--Agora no fanfas tu... insistiu ele, risonho.  assim mesmo que eu
gosto. Sinal  que tens vergonha. A _outra_ tamm no  mais que a ti.

A _outra_ era a mulher do Jos da Loja, est visto.

--Nem mais, nem tanto, emendou a Lusa Fagote, abespinhada.

--Isso mesmo! abundou o juiz da festa. No me lembrava agora que antes
de casarem...

--E olha que depois de casada... insinuou a Sr.^a Lusa, de venta no ar,
enfiando a agulha. Cala-te boca.

Faamos de conta que a boca se calou, com efeito. Que no se calou.
Mas neste particular, o resto do dilogo convm que se omita, mesmo
porque afinal nem eu nem os senhores queremos mal  mulher do Jos da
Loja. H-de perdoar-me o Antnio Fagote, mas nisto no lhe fao a
vontade. O pudor acima de tudo! E ademais ele bem sabe que eu sou
conhecido da mulher. Adiante. Basta que lhes diga que por uma associao
lgica de ideias a conversa veio parar em vitelas...

-- preciso vermos como h-de ser isso da vitela, disse o Antnio
Fagote. Sem vitela  que se no faz nada. Uma perna sempre se gasta.

Combinaram falar com tempo ao Manuel Cortador, segurar esse negcio. De
mais a mais sabia-se que o pregador dava o cavaco por um bom pedao de
vitela assada.

--O pregador  que arrasta a muita gente, observou a Sr.^a Lusa. Para
um bocado de sentimento no h como ele. Quando foi das misses, o que
ele dizia daquele plpito abaixo!  quanto se pode!

--A mim o devem, se c vem!--disse orgulhoso o Fagote. Que o homem no
queria vir, desculpava-se com a sade: que tinha de ir a umas caldas, e
14 lguas a cavalo por estas canculas eram de acabar com ele.

--Isso desaba a o poder do mundo! Em se sabendo que  o missionrio...

Estavam nisto, quando bateram  porta. O Fagote foi ver  janela.

--Bem, muito obrigado. E a senhora mestra? Estimo, estimo.

Era a criada da mestra rgia, foram abrir.

--A senhora mestra manda muitos recadinhos, saber como est a Sr.^a
Lusa, e este bilhetinho para o Sr. Antnio.

Entraram todos na saleta. Como era j tarde, o Antnio Fagote foi
acender uma luz.

Que conversassem, enquanto ele via se tinha resposta.

--Muito calor, comeou a Sr.^a Lusa.

--E ento a casa da Sr.^a mestra que  mesmo um forno, disse por demais
a criada.

E antes que a conversa pegasse, avisou a Sr.^a Lusa, ao ouvido, de que
lhe queria uma palavrinha.

Foram para uma varanda que havia nas traseiras. A tarde descaa, numa
serenidade calma. Sentaram-se uma junto da outra, muito familiares.

--Est-se aqui bem! exclamou consolada a Sr.^a Lusa.

--Est. E ento bonitas vistas. Mas o que eu queria dizer era pedir-lhe
um favor, disse atrapalhada a criada.

--Se estiver na minha mo...

A outra comeou: A Sr.^a Lusa estava ao facto do que se dizia dela
com o criado do ingls. Decerto estava ao facto. Mas era mentira.
Jurava-lhe pelo que havia de mais sagrado que era redonda
mentira.--Estamos para casar!  o que estamos! Ele j mandara vir os
papis l da terra, no podiam tardar.--Est claro que eu tenho
afeio ao rapaz...

--Ele esteve a doente uma temporada, interveio a Sr.^a Lusa, para
dizer alguma coisa.

--Esteve. Umas quarts que o iam arrebanhando. Mas  a que eu quero
chegar.

--Que experimente o limo azedo, aconselhou a Sr.^a Lusa.  milagroso
nas quarts. No se aflija, que isso no h-de ser nada.--E
dispunha-se a consolar a rapariga, a dizer-lhe tudo o que sabia de bom
para matar quarts, pensando que era o que ela queria, afinal.

--No senhora. O rapaz est melhor. Caso  que no recaia. Mas  por via
disso que eu lhe quero pedir um favor.

Chegou para ela o banco de cortia e confidenciou:

--J o andam a desinquietar para ir com os mais furtar a bandeira,
qualquer noite. E ele vai, prometeu que sim. Mas veja, naquele
estado! inda no h nada que saiu da cama.

--Pelos modos, os rapazes vo este ano longe pelo pau, disse com pompa
a Sr.^a Lusa.--Muito longe!

--Ouvi que  Ribeira Velha, ao lameiro do Canelas. E logo com quem
eles se vo meter, o Canelas! Se desconfia, vai-se para l de clavina
e faz alguma desgraa. Mais ele, que  atrevido!

Cautelosa, a mulher do juiz redarguiu que l onde eles iam pelo pau 
que ela no sabia.

--A outra noite  que para a estiveram a combinar, o meu Antnio mais
os mordomos. No ouvi.

--Pois  l! exclamou a criada. Mas o que eu queria, Sr.^a Lusa,  que
o seu marido me no deixasse ir o rapaz na malta,--suplicou aflita a
rapariga.

--L isso, esteja descansada, no vai! prometeu com grande autoridade
a Sr.^a Lusa.--Digo-lhe eu que no vai. E se no quer mais nada...

--Era s isto, muito agradecida  senhora.

Nesse momento entrava o Fagote, em mangas de camisa, os culos para a
testa.

--Ora pois ento aqui vai a resposta. M letra, a Sr.^a mestra que
desculpe. Mas enfim que leia como puder.

--Ento muita maada co'a festa? inquiriu solcita a rapariga.

--Muita. Faz l ideia? Maada e despesa. Olhe que se faz despesa. Todos
os dias so precisas coisas, mais isto, mais aquilo. A est que j
hoje mandei pedir para o Porto uma palheta para o clarinete do Alves.

--Chh! fez admirada a rapariga.

--Pois  verdade. Fora o mais! fora o mais! Nicas! E depois de uma
pausa:--S com o que se gasta no jantar, e  verdade que h muita coisa
de casa, mas s com o que se gasta no jantar, a bem dizer que se fazia
uma horta, alm no prado.

--Muita gente... disse a rapariga.

--Muita! e depois de certa aquela...  mesa talvez vinte e quatro
pessoas...

A rapariga benzeu-se!

--Vinte e quatro, p'ra mais que no p'ra menos, insistiu o Antnio
Fagote.--Olhe: o pregador...

--Isso dizem que  coisa asseada! interrompeu a rapariga.

--. No o h melhor. Missionrio...--explicou o juiz. Pois o pregador,
um; com mais quatro padres, cinco; com quatro msicos, nove; o compadre,
os pequenos, dois, doze.

--A comadre no vem! que pena! fez do lado a Sr.^a Lusa.

--No. O compadre e os pequenos j disse. Doze. O Morgado da Fonte e o
Antnio Capador, catorze. O Teles,  verdade, Teles escrivo, quinze.
(_Pausa_). Com mais algum que venha, vinte e quatro. Pode-se contar com
mais de vinte e quatro pessoas  mesa.--E a rir-se: Mas h-de sobrar
muita coisa, graas a Deus... E depois os pobres?

--Isso ento  uma praga! exclamou a Sr.^a Lusa. At parece que vm do
cho assim... E colocava em pinha os dedos todos das mos ambas.
Assim...

Mas fazia-se tarde, a rapariga despediu-se.--Adeusinho! o que havia de
estimar  que tudo corresse como desejavam.--E se for preciso qualquer
coisa... ofereceu-se. As minhas fracas posses...

--Obrigada. No faltaro ocasies. Muitos recadinhos  senhora
mestra...

--E que hei-de estimar que o mano chegue de sade, concluiu o Antnio
Fagote.

E ento explicou  mulher: Aquele bilhete da mestra era a mandar-lhe
perguntar se sempre era certo vir o macaco de fogo.

--Diz que o irmo, o brasileiro, assim que souber que h macaco de fogo
no arraial, no tem mo em si que no venha. E Deus o queira, porque o
ponho ao plio. Como trs e dois serem cinco.

A senhora Lusa quis saber a resposta que lhe mandara.

--Disse-lhe que sim. Pois?! O que eu quero c  o brasileiro. Sempre 
homem que sabe dar o merecimento s coisas... Mas o diabo agora  o
macaco! ponderou muito apreensivo. Est para a meio mundo  espera
do macaco...

A senhora Lusa quedou-se pensativa, absorta no seu receio de que o
bicho no viesse.

--Tate! fez o Antnio Fagote, batendo uma palmada rija na testa.--D c
da a minha vstia. Manda-se uma parte ao homem.

--Tambm pode ser, concordou a senhora Lusa. Mas hoje  que no,
aquilo j est fechado, o fio.

--Vai amanh. Agradeo favores. Traga macaco sem falta. Isto. Talvez
acrescente: No se olha a dinheiro. Mas  que acrescento, por via
das dvidas.

Ento, a senhora Lusa confidenciou quase ao ouvido do homem:

--Ouves? j se no pode ir ao lameiro do Canelas pelo pau.

--H? qual pau?

--O da bandeira. Todo o mundo j o sabe.

Ele riu-se.

--Todo o mundo, hein? Melhor! Oh! oh! todo o mundo!...

E como ela ficasse estupefacta.

--Nunca ouviste dizer que se pe o ramo numa porta e que se vende o
vinho noutra?

--Ah!...

--Mas so verdes. Pois a  que vai a histria, e cantarolou,
satisfeito:

O ladro do negro melro
Onde foi fazer o ninho

       *       *       *       *       *

Mas o melhor do caso foi no dia seguinte, quando logo de manhzinha o
Antnio Fagote sentiu bater  porta, de rijo.

--Vai l ver o que ser,  Lusa!--disse da cama o Fagote sobressaltado.

No tardou nada que o Jos Manco lhe entrasse de rompante pelo quarto.

--Vista-se, homem! Ande da depressa! Vista-se.

--H novidade? perguntou logo o Fagote, sobressaltado.

--Vista-se! com dez milhes de diabos! Insistiu o outro.

--Hom'essa! fez espantado o Fagote. Algum  morte?

--Pior do que isso! resumiu o Jos Manco.

--Pior do que isso, ento no sei...

--No tardar que o saiba. Avie-se, que eu c o espero na rua.

O Antnio Fagote vestiu-se  toa, aparvalhado. Foi j na rua que acabou
de enfiar a jaqueta. As correias dos sapatos iam de rastos, no levava
chapu.

--Pronto! c estou!

--Venha comigo, avie-se. Abotoe as calas, se faz favor.

E rodaram rua acima.

--Diabo! mas ento...? ia perguntando o Fagote.

--Aguarde, que j vai saber. No tarda.

De quatro escanchadas foram dar ao adro da igreja.

--Roubaram Nosso Pai, aposto?!

--Pior! redarguiu o outro. Pior! Alto a! Ora arregale-me esses olhos
e veja vossemec isto, esta porcaria!

E tragicamente, o Jos Manco apontou para meia folha de papel, pregada
na torre com miolo de po centeio mastigado. Era um pasquim! Vrios
desenhos de animais, sobressaindo um burro de grandes orelhas, aos
coices. E no fundo, em grandes caracteres, isto:--_Farfia_!

Por um pouco, Antnio Fagote, de mos atrs das costas, amarasmou-se,
com os olhos fitos no papel.

E quando o outro pensava que ele ia romper desaustinadamente numa
escamao, aos lbios do Antnio Fagote aflorou apenas um sorriso.

--Hum! resmungou. Bem sei...

--No tem que saber,--fez o outro.

--O patife do Jos da Loja...

--Pois est visto.

--Bem, levar quatro lambadas, epilogou com grande sossego o
Fagote.--Arranque l isso, e venha voc da, se quer ver.

O Jos Manco no queria ver, fazia ideia. Mas opinou prudentemente que
era melhor botar o patife ao desprezo.

--Pois sim, disse o Antnio Fagote, dobrando em quatro o papel e
metendo-o na algibeira de dentro.--Pois sim!

Mas o outro que o conhecia, insistiu no pedido, com certos argumentos
arrancados do cdigo penal. Que no fosse agora pagar por bom
semelhante estafermo. Como mordomo, tambm era com ele a ofensa, com
ele Jos Manco. Mas fazia de conta... Como o outro que diz, vozes de
burro no chegam ao cu.

--Bem, levar s uma lambada, atendendo a que mais ningum viu isto,
disse num grande ar de condescendncia o Fagote.--E voc v l regar a
horta.

Foi-se dali direito  casa do Jos da Loja. Estava ainda fechada.
Ps-se  coca, de longe, com a ira muito exulcerada pela arrelia
daquela demora.

--Grande co! grande co! monologava.

At que enfim reparou que a porta se abria. Era o rendeiro em pessoa, de
casaco de lona e chinelos de trana, muito fresco. No deu pelo Antnio
Fagote seno quando se viu ao p dele, cara a cara entre o balco e a
porta.

-- Sr. Jos.

--Dir.

--Venho aqui saber de um caso.

Tirou do bolso o papel, desdobrou-o, devagar, e depois de lho pr ao p
da cara:

--Foi o Sr. Jos que fez isto?

O outro olhou-o, atnito.

--Sim! se foi o Sr. Jos que fez isto?

--Nada, eu no senhor.

--Jura pela boa sorte dos seus filhos?

Aqui, o tendeiro entupiu, desconfiado.

--Jura pela boa sorte dos seus filhos? repetiu mais de rijo o Fagote.

O Jos da Loja, moita! Ento o juiz explicou-lhe:

-- porque se jura, muito bem. Se no jura o caso  outro.

-- outro, que outro?!--disse arrogante o Jos da Loja, num mpeto,
barriga panda sob o casacrio de lona.

--Isto!--E foi-lhe uma bofetada para a cara.--E muito caladinho, que eu
tambm no digo nada. Agora o papel, olhe! F-lo em pedaos, e
atirou-lhe com eles  cara aparvalhada.

Saiu dali e foi _matar o bicho_, tranquilamente, como quem vem de
cumprir uma obra de misericrdia.

       *       *       *       *       *

Na vspera da festa, um sbado s 10 horas da manh, o fogueteiro
passava enfim num deslado da vila direito  capela da Senhora das
Dores. Largou um foguete, que estrondeou no ar, galhardamente.

--O fogueteiro! chegou o fogueteiro!

Por toda a vila passou um longo frmito de entusiasmo quando se ouviu o
foguete. Desabituados, os ces ladravam, em correria doida pelas ruas.
O rapazio levantou-se em algazarra, e correu ao encontro do fogueteiro,
a admir-lo, a oferecer-se. Na labuta viva das casas renovavam-se
ordens j dadas. Aquele foguete era a bem dizer o primeiro rudo da
festa, no havia tempo a perder. De casa dos mordomos saam esbaforidas
as criadas, com ordem de se informarem do que precisaria o Sr.
fogueteiro. Alguns mais previdentes mandaram almoo, e que dissesse o
que queria para o jantar.

Solenemente, o juiz da festa atravessou quase a correr a vila,
perguntando a todo o mundo se o que estoirara tinha sido efectivamente
um foguete.

--Foi foguete! pois que dvida! diziam-lhe radiantes. Prometia, sim
senhor! prometia! Se fossem todos assim... Caramba! que estoiro! Pum!

--P'ra que saibam! clamava o Antnio Fagote. E ento isto? e punha-se a
girar de volta com o brao--o que  fogo do cho?--Mas tinha-se visto em
calas pardas para que o homem no faltasse. Complicaes! Pelos modos
tinham-no convidado para outra festa, com mais bagalhoa, est claro. O
caso tinha estado srio!

Mentia.

--Hein? mas no o enganavam?

--Qual! era o fogueteiro sem tirar nem pr. L ia ele a atravessar as
eiras, com duas bestas carregadas. Caramba! duas cargas de fogo!

O juiz botou a fugir. Quando passou pela porta do abade, gritou c da
rua:

--Senhor abade!  senhor abade!

--Que  l?

--Chegue  janela, faz favor?

--Mas est muito sol, entre voc, se quer.

--S duas palavras:

O abade, um rapaz novo, assomou  janela.

--Que ?

--Chegou o homem!

--O homem! que homem?

--O fogueteiro, quem h-de ser?

--Ah, sim, disse o abade a rir-se, velhaco. E voc vai ter com ele?

--De cara.

--Faz-me ento um favor?

--Dir.

--D-lhe recados meus.

E retirou-se da janela, a rir, enquanto o Antnio Fagote prosseguia no
seu caminho, esbaforido, espalhafatoso, perguntando a toda a gente se
aquilo tinha sido o fogueteiro.

--Grande homem! com seiscentos diabos!

Quando chegou ao adro estava tudo cheio de rapazes, em redor dos dois
machos carregados. O Fagote cuidou morrer de contente. Foi-se ao
fogueteiro, com fria.

--Esses ossos! e abraou-o arrebatado, enternecido, chamando-lhe seu
amigo, seu grande amigo.

--Rapazes! gritou ele ento. E tirou o chapu da cabea, muito
solene.--Viva o senhor fogueteiro!

--Viva!

...Isso no juro, porque no reparei. Mas estou em dizer aos senhores
que o Antnio Fagote--chorou!...


II

TIPOS DA TERRA


Desembocaram num largo. Era o ponto mais central da terra,--_a
praa_.--Aqui e ali, ao acaso, algumas rvores enfezadas, quase tudo
olmos brancos, vegetavam a medo, com os troncos protegidos por velhas
grades de madeira, desmanteladas. Era um terreiro vasto, muito chato,
com casas em volta,--o que na vila havia de melhor em construes.
Ficava ao meio o pelourinho, extico, mutilado, de uma pedra grosseira e
muito negra. Era uma alta coluna de oito faces, com o seu anel de
ferro ao meio, e uma argola pendente do anel. A coluna, que se eleva
sobre um pedestal de trs degraus, em hexgono, terminava ao alto num
grande _X_ de pedra deitado horizontalmente. Um espigo de ferro, de
trs gumes como os floretes de esgrima, irrompia hostilmente do meio do
_X_, perfurando o espao. Em volta, a casaria era triste, sem estilo,
sem gosto, sem cal. Algumas _pedras de armas_ em velhas paredes
decrpitas, desequilibradas, hidrpicas, atestavam aristocracias
remotas, agora de todo extintas. Ao alto, dominando a negrura
chamuscada dos telhados, o velho castelo, romano de origem, fazia
tristeza com as suas ameias derrocadas, e as grossas paredes em runas.
Ao lado do castelo erguia-se destacadamente a velha torre do relgio,
de uma arquitectura primitiva. Tinham dado onze horas, mas eram apenas as
sete: aquele--_estafermo_-- que no andava nunca direito. De dia
ningum o entendia, com o seu ponteiro de ferro girando num mostrador
sem letras, de uma pedra azulada. De noite fartava-se de badalar,
alvoroando a povoao como se fosse a fogo, ora atrasado ora adiantado,
dando meia-noite quando eram quatro da tarde, e meio-dia mal despontava
o sol.

Eram as sete. quela hora  que os--_figuros_--da terra, quase tudo
empregados pblicos, vinham para o largo,  fresca. Alguns
passeavam,--seu fraque, sua bengala de cana com casto, chapelinho 
banda, sapato branco um ou outro. Nas escadas do pelourinho, sentados,
outros do mesmo feitio cavaqueavam,--coletes desabotoados, perna
cruzada, chapu para a nuca, s trs pancadas. Um de pra comprida, no
degrau superior, contava faccias. Os outros riam alarvemente,
chamavam-lhe intrujo. Algumas--_madamas_--pelas janelas em volta,
nostlgicas, anafadas, de claro.  porta do estanco, em cima, havia
outra roda,--uns de p, outros sentados em caixas, alguns montando
cadeiras de pinho. Era a--_roda mais forte_,--quase tudo maiores
burocratas:--o Melo da Administrao, o Antunes da Cmara, o Escrivo
de Fazenda, o Rodrigues do Real de gua. E outros.  porta, perfilado e
muito cerimonioso, o dono do estanco, alto, esguio, flexvel, com a sua
cara rapada e o seu chin castanho, eriado e velho. Era de maneiras
feminis, uma falinha melflua, cantante, viva, muito desempenado
quando andava, saracoteando-se todo, em biquinhos de ps como se fosse
levantar voo. Chamavam-lhe Ernestinho. No se podia falar diante dele
num rato morto, numa carocha. Aquilo fazia-lhe nervoso, enojava-o,
ficava-se a cuspinhar meia hora, dizendo constantemente:

--Ai Jesus! ai Jesus! Caticha! Nossa Senhora do Carmo! Nem sei como no
lano fora.

E se riam, ele exasperava-se: no compreendia como pudessem falar em
tais coisas... De resto, bom sujeito, finrio para o seu negcio,--um
poucochinho beato,--diziam-lhe.

--Meu proveito. No que eu no quero a minha alma nas penas do inferno,
a arder. Leiam a _Misso Abreviada_, leiam esse rico livro.

E as palavras saam-lhe a correr, espremidas nos seus lbios delgados,
um poucochinho sibiladas nos _ss_.

--Cigarros, Ernestinho, um vintm deles. Querem-se dos de Lima,
desses fortes.

Declarou que tambm havia dos especiais. Algum senhor queria? Tinham
chegado trs maos, p'ra ver. Oito por um vintm.

--Pois guarde-os!--disseram alguns, horrorizados com a ideia de dar um
vintm por oito cigarros.--Guarde-os!

O senhor engenheiro, quando vinha  vila, perguntava-lhe sempre por
eles. Dos de Lima nem o cheiro, no gostava.

--Olha o figuro!--disseram a rir. Por esse mundo fora sempre h muito
idiota! forte cavalgadura!

O Ernestinho veio com os cigarros, em feixe nas pontinhas dos dedos. 
porta, antes de os entregar contou-os de novo. Doze. Estavam certos.

--O senhor Ernesto, se faz favor, ponha isto l no caderno, ao p dos
outros.

Ernestinho foi para dentro, contrafeito, fazer o apontamento. Houve um
silncio oprimido, o dos cigarros tossiu para o quebrar, ao mesmo tempo
que num gesto acanhado, receoso, fazia meno de oferecer:--algum
era servido?

Dentro do balco, ao p das garrafas com licor, e das botijas de
genebra, Ernestinho somava a conta. Era j taluda.--E vo dois e dois
quatro e dois seis, seiscentos e vinte! Sabe Deus quando os
receberia!--E suspirava, arrumando os maos encetados, sob o olhar
tranquilo e indiferente do Santo Antoninho que l estava em cima, ao
alto das estantes quase vazias, no seu nicho feito de um caixote forrado
a verde, com flores artificiais muito sujas e duas velinhas dos lados.
Mas resignava-se, que no tinha outro remdio. Eram os ossos do
ofcio...

C fora tinham dado f, acotovelavam-se chamando asno ao
Ernestinho,--um pulha a quem ajudavam a viver... Se hoje no h
dinheiro, h-o amanh, essa  boa! E pagava-se, c'os diabos! E
pagava-se. Mas no senhor! aquela besta mostrava sempre m cara, o
alarve! A culpa tinham-na eles, afinal que o procuravam, que o
preferiam. Tomaram os outros ter aquela freguesia...

O dos cigarros fiados anua, assobiando baixo o _gua leva o
regadinho_. Por fim levantou-se, lentamente, com um ar de enfado, um
sorrisinho de despeito nos lbios, encolhendo os ombros.

--Estender as pernas,--disse. Quem vem da?

Todos ficavam, era uma estopada andar p'ra trs p'ra diante, naquela
sensaboria da praa.

--At logo. Voc aparece no _stio_,  noite?

--Apareo, vou  desforra.

E cumprimentando em roda:

--Meus caros! Muito boa tarde, Sr. Ernesto.

Foi-se, puxando para baixo as pernas da cala, alisando as joelheiras.

--Que tal est o asno, hein? Quer, ainda por cima, que o Ernestinho lhe
diga _bem-haja_...

Era um parvo.--Era um tolo.--Tinha dvidas nos outros estancos.--Em toda
a parte.--L em casa a famlia passava fomes.--Um batoteiro de marca.

Houve agitao, alguns puseram-se de p, outros mudaram de lugares. Ia a
passar um grande carro de palha chiando muito. Ernestinho chegava-se de
novo, muito ronceiro, roendo as unhas.

--Com que ento... _ponha l ao p dos outros_?--disseram-lhe, para o
lisonjear nos seus despeitos.--Bem bom fregus!

Ele encolheu os ombros e cerrou os olhos, beatificamente, num gesto
de mrtir resignado. E no disse palavra--p'ra falar daquele tinha de
falar tambm deles...

Mandaram vir limonadas,--trs limonadas!

--A vo trinta ris!

Diabo! era preciso animar aquilo. Assim no tinha jeito. E puseram-se a
falar do tempo, das moscas, daqueles idiotas que andavam na praa a
dar-se ares. Ensoberbecia-os a ideia de que iam tomar trs limonadas,--e
sentiam-se felizes, alegres, um tanto estroinas.

O Ernestinho deu dois passos fora da porta, e chamou para a varanda,
onde grandes manjerices floriam:

-- Emlia! Emilinha!

A mulher assomou, gorducha, muito mole.

--Trs limonadas, ouves? Trs limonadinhas, depressa.

As conversas animavam-se. Pois senhores! havia de ser difcil encontrar
uma coleco de asnos assim. Falavam dos que passeavam na praa, aos
grupos.--Deus os faz, Deus os ajunta. O palerma do Fernandinho dera-lhe
agora para cantar. L andava ele. Volta meia volta,

_Vai alta a lua na manso da morte_

com umas tremuras na voz, que eram mesmo de o esbofetear. Estava
antiptico, aborrecido, desde que andava de namoro com a Marques. S
tinha uma coisa boa--a caligrafia.--Um talhe de letra
bonito,--confessavam.--E as calas, hein? reparem vocs naquelas
calas, vai flamante. Casualmente, Fernandinho olhou de longe para os
do estanco, disse-lhes _adeus_ com a mo, afvel. Corresponderam todos,
muito risonhos, mas a chamar-lhe nomes por entre os dentes:--idiota,
palerma, pechisbeque...

Sozinho, numa lentido moribunda, olhos nas botas, olhos no cu, o
Teles escrivo passava ao largo, ruminando alguma poesia. s vezes
quedava-se exttico, suspenso, o polegar esquerdo entre os dentes, um
olho cerrado fortemente, a meditar. Vinha um gesto e punha-se de novo em
marcha, contrafeito.

-- senhores! mas no me diro em que anda a parafusar o Teles, aquele
telhudo? E isto:--e ps-se a imitar o escrivo.

Riram. O Melo imitava-o bem, o alma do diabo, no andar especialmente.
Mas aquilo era um logogrifo. H uma semana s turras a um logogrifo
em acrstico.

--Isso  o Teles!--fez um que vinha da praa.--Aquilo  um intrujo.
Na rua no  que se adivinham logogrifos.  Ernestinho, voc ainda tem
daquilo que _ferve_?

O Ernestinho deixou descair o lbio, no percebia...

--Homem! daquilo que vinha numas garrafrias escuras, compridotas...

--Quer dizer gasosas. Uma rolha segura com guitas...

--Ora  isso mesmo, nem mais.

--Bem sei.

Mas no tinha j. Nem mesmo queria mais, p'ra qu? Achavam caro um
tosto...

--Eram aos trs para beber uma garrafa...

--Pudera! Por um pataco, trinta ris levando o acar, fazia o _Ervas_
uma soda,--objectaram alguns. Ponha l que em gosto  a mesma coisa.

--E aquela porcaria,  Ernestinho, e aquela porcaria amarela que
sujava tudo de escuma?

Alguns cuspiram, disseram ao Alves que se calasse, que vomitavam, com
seiscentos diabos!

--Cerveja!--disse o Ernestinho--cerveja! uma coisa que l p'ra baixo
toda a gente bebe por gosto, as senhoras mesmo.

E com um sorriso de desdm, exclamou:

--O que  ser do calcanhar do mundo! Em nome do Padre, e do Filho...

Mas na praa um grupo altercava. Ouviu-se distintamente a
palavra--_pulha_--pronunciada com fora. Saram em tropel, ficaram s
trs.--O que pagava as limonadas exultou:--Homem! nem de propsito!
Ficava exactamente quem ele queria, estava mesmo a ver que aquela
scia lhe chupava o refresco:

--T Rua! j l vai esse tempo.

Precisamente, a senhora Emlia chegava, com os copos numa bandeja:--Que
provassem, diriam se precisava mais acar. Mas parecia-lhe que devia
estar bom...

Beberam de um trago, estava ptima. A senhora Emlia tinha dedo para
aquelas coisas.

--Obrigado,  Melo!

--Obrigado,  menino!

E os dois saram de rompante, chamando _pato_ ao Melo, rindo-se dele
e limpando os beios.

Quando o Melo ia sair,--a ver o que ia na praa,--o Ernestinho, muito
corts, objectou-lhe que faltavam trinta ris:--Se ali no tinha,
depois. Isso era o mesmo...

--Mas trinta ris?!... De que so os trinta ris?--perguntou desconfiado
o Melo.

--Do acar, foi do refinado,--explicou o Ernestinho. O mascavado
acabou-se. Amanh ou depois j devo ter mais. O senhor Melo desculpe.

No tinha que desculpar; somente notava que aquelas coisas diziam-se no
princpio.--E saiu sem dar mais palavra, furioso:--Uma ladroeira! Trs
vintns no valiam os dois que lhe tinham chupado o refresco...

Na praa tinha cessado a altercao, os grupos, reunidos, formavam uma
grande roda, comentava-se. O Melo quis informar-se:--que lhe
contassem--_o escndalo_.

Ora! no fora nada: o Veiga que se tinha lembrado que as
correspondncias na _Voz do Distrito_ eram escritas pelo Albano.
Disse-lho na cara. O Albano negou, deu a palavra de honra. O Veiga que
 casmurro, teimou:--que no acreditava, ainda assim!--Vai o outro
chama-lhe pulha, iam-se pegando. Ora a est!

--Mas afinal, quem diabo escreve aquilo?--quis saber o Melo. Aquilo
h-de ser escrito por algum, est claro.

Dez ris pela novidade! Que havia de ser escrito por algum sabiam
eles...

--Quem, ento?

Divergiam as opinies. Podia ser Fulano, podia ser Beltrano. Um ou outro
dava a sua palavra de honra que tambm no era ele, jurava-o. Houve um
que se lembrou se aquilo seria do padre Mendona.

--Qual! Do padre Mendona no . Fazia coisa melhor, se se metesse
nisso. Olha o padre Mendona, o da _gibreira_ de Braga...

Mas o da ideia insistiu, renitente:--havia ali suas coisas que o faziam
lembrar, certas faccias, como a de chamar _Frei Asneira_ ao Reitor e
_Cabea de Comarca_ ao Felisberto.

--Pois se  ele, que se regale, pode limpar as mos  parede. Mente
como um alarve, mente da primeira linha at  ltima!--disse firmemente
o verdadeiro autor das correspondncias. Olhem o que ele diz do juiz
de direito, s calnias! O juiz! um homem teso! Tem l o seu fraco
pelas saias, mas isso, que diabo! isso no  defeito.

De resto, eram todos acordes em que as correspondncias eram uma
infmia. O que se chama uma infmia pegada. Mexericos e mais nada, uma
coisa de soalheiro. E depois, o dizer-se l que entre os rapazes no
havia duas amizades leais, que era tudo uma impostura...

Houve um silncio significativo, talvez de aprovao.

--S de pulha!--rematou, por fim o Nunes da Fazenda, o tal que escrevia
as correspondncias com o pseudnimo de _Aramis_. Vejam vocs aquelas
galegadas ao comendador. Aquilo chama-se l fazer poltica?!
Discuta-se o homem como presidente da Cmara, sim senhor, discuta-se o
homem pblico, o funcionrio; mas deixe-se-lhe em paz a _marreca_, os
fundilhos das calas; ningum quer saber se os criados lhe param em casa
ou se no. E depois, aquelas aluses  famlia, aquelas piadas  D.
Engrcia, pobre velha...

--A quem?--interrogaram uns poucos.  Dona qu?

-- D. Engrcia, est bem de ver. Aquela beata que fazia pegas de l
aos missionrios  ela. Presumo eu que  ela--fazia o Nunes das
correspondncias com um grande ar de suposio. Eu c foi para onde
deitei.

Os outros no. E como o das correspondncias tinha prometido explorar a
crnica beata, aguardariam mais informaes. Supunham, no entanto, ser
com a D. Joana, a do--_ch de erva-cidreira_.--Outra canalhice! A D.
Joana, para festejar os anos da filha, convidara tudo, _lazares e
penicheiros_, no fizera poltica. Depois foi aquela tareia que se
viu:--que o ch era erva-cidreira, que tinham bolor os doces de ovos,
que ela parecia a Quaresma e a filha o Entrudo. Ora isto no se diz, a
pobre mulher doeu-se. Citavam-se de cor frases inteiras da
correspondncia. Por exemplo:--_A deusa da festa dizem que recebeu
telegramas de... amor_.--Uma faccia de mau gosto aludindo ao Proena
telegrafista. Depois do que por a se diz,  forte... Que afinal, quem
sabe l? Entre os dois que diabo pode haver? Namoro?

No grupo alguns tossiram forte, rindo. O Nunes interveio:

--No senhores! Isto agora alto l. A Amlia  uma rapariga sria...

Riram s gargalhadas, foi um barulho com a tosse.

--Quando digo uma rapariga sria... Mau! Acomodem-se l com o _banz_,
vocs deixem falar,--tornou o Nunes, formalizado. Quando digo uma
rapariga sria, quero dizer... sim... quero dizer...--e procurava a
frase, entalado,--por exemplo, que ela no  capaz de receber ningum,
alta noite, l pelos quintais, como o tal das correspondncias quer
fazer suspeitar.

Iam replicar-lhe, mas ele atalhou:

--Chama-se quilo ser canalha s direitas, arre! Isto agora  falar
franco.

Saltaram-lhe:

--E voc jura,  Nunes? voc jura?--perguntou, com gesto perfurante, o
Alves dos Pesos e Medidas.

No... isso agora...Jurar, no jurava, mas, c'os diabos! pelo que se
via, pelo que se podia julgar...

--Lria!--disseram todos.

O Nunes parece que estava com os beios com que mamara. Com que ento,
para ele era tudo uma rcua de _santas_? Desenganasse-se, que era tudo
uma canalha, uma corja de sonsas. Que diabo de ingenuidade!

O Nunes observou modesto, quase agradecido:

--Ingenuidade, eu te digo... No  bem isso... O que sou  prudente.
Desconto sempre noventa por cento quilo que vocs dizem, a  que
est...

--Vocs  um modo de falar,--emendaram alguns.

--Vocs, digo eu, vocs... quando escrevem correspondncias,--explicou
sofisticamente o Nunes.

Calaram-se, disfararam. Prximo deles, a Amlia toda de verde, com
guarnies de fita preta, caminhava ao lado da me, solenemente.
Tiraram todos o chapu, cortejando risonhos, respeitosos. O Nunes foi
cumpriment-las, submisso.

--Dar o seu passeio, no  verdade?--E apertando-lhes a
mo:--Vosselncia como passou? A senhora D. Amlia? Obrigadssimo.
Assim... assim...

Ento? que diziam quele calor?

--Abafava-se, ali pelas duas. Que forno!

--O Brasil tal e qual--reforou o Nunes.

Mas que fora feito, que as no tornara a ver desde os anos? Uma noite
de truz, aquilo sim!

--Olhe, senhora D. Amlia, a flauta... a flauta  que nem por isso, foi
pena! O Abelzito andava constipado.

A D. Amlia explicou. A me ficara doente, j no era para aquelas
noitadas.--E em voz mais baixa, quase dolente:

--Depois, veio a _Voz do Distrito_, aquilo chocou-a muito.

--No h tal!--fez a me. Meteu-se-te isso na cabea. Deixe-a falar,
senhor Nunes.

E por pouco que no chorava ao dizer isto.

O Nunes afectou um sentimento profundo:--Era melhor no falar nisso,
no pensar em tal; todos as conheciam, todos lhes faziam justia. Tinham
acabado de falar na tal correspondncia, agora mesmo. Uma
garotada!--resumiu o Nunes.--E em tom confidencial:

--Anda-se na pista do garoto. Ele h-de aparecer. E depois... e
depois... Muito boa tarde, minhas senhoras! O que for soar.  preciso
dar um exemplo,--concluiu terminantemente. Uma severa lio!

Despediram-se, elas agradeceram ao Nunes--a parte que tomava no seu
desgosto.--E seguiram cumprimentando para as janelas, perguntando se
vinham da, um bocadinho at  capela, espairecer.

As Silvas pediram que subissem. Um bocadinho s. Ficava muito bem
aquele vestido  Amlia.

No podiam subir, talvez  volta.

--Pois sim, hs-de ver o meu bordado a missanga. O papagaio est quase
pronto, que trabalho!

Estava na dvida se lhe poria o bico assim, de gancho. No gostava. O
risco era do Fernandinho. J lhes fizera outro, talvez mais bonito.
Coisas de anjinhos:

--Vers.

Os grupos tinham-se reunido em volta do Pelourinho. Passava gente que
vinha do trabalho, da labuta spera da eira,--homens com malhos, e
mulheres de cestas  cabea. A tarde descaa numa serenidade calma. No
degrau de cima, o Paula, oficial da administrao, com fama de tipo de
chalaa, cantava em surdina umas cantigas de caserna, obscenas,
zaranzando na barriga como se fosse uma guitarra. De volta, os outros
formavam roda. Todos riam, pediam _bis_.

--Tu hs-de conhecer isto,  Chico,--dizia o Paula para o Francisco
Maria, um cabo que estava de licena. Tu hs-de conhecer isto.

O administrador do concelho, um pobre diabo desmazelado e filsofo,
afirmava que lhe lembrava Coimbra, a pndega das vielas. Ao Paula
valia-lhe a prenda, palavra de honra que lhe valia a prenda, seno j o
tinha demitido, s vezes que lhe entrava borracho pela repartio. E
pedia a rir, boalmente:

-- Paula, aquela do _bate-bate_, canta l.

E trauteava as primeiras notas, castanholando com os dedos.--Se era
preciso, o Fernandinho ia pelo violo.

-- verdade, voc que fez hoje que no me apareceu na repartio, 
Fernando?

--Dormi, est claro. Ao senhor doutor acontece-lhe o mesmo s vezes.
Olhem que pergunta!

Mas o Paula tinha-se calado, bocejava.

--Ento,  Paula...--suplicava o administrador.

--Est fechado o realejo... Depois.

Quem lhe dera que fossem as nove para irem at ao stio. Ou perder ou
ganhar; tinha ali seis tostes que eram para um _mico_.

--Mas eu no lhe dizia, Sr. doutor? eu no lhe dizia ontem que a _dama_
se negava? Eu estava mesmo a ver aquilo... Bem feito! gramou um
entalo que se consolou.

--Quatro coroas.--Na vspera tinha ganho um quartinho.

Nesse momento passava o juiz, sozinho como sempre. Todos tiraram o
chapu, ele passou gravemente, cortejando.

--Quem eu te quero  perna  o _Aramis_...--rosnou o Teles escrivo que
embirrava com o juiz desde que o suspendera uma vez.--E ainda ele no
sabe tudo...--insinuava perfidamente.

--Pois o resto diga-lho voc, diga-lho no _Almanaque de Lembranas_, em
verso--fez de um lado o Rodrigues do Real dU+2019.gua.

O Teles, com famas de literato, redarguiu que no dava confiana a
analfabetos.

--E eu a brutos, sabe voc?

Mau! que eles l comeavam. Oficiais do mesmo ofcio...  senhores,
l porque ambos faziam versos no se seguia que devessem embirrar um com
o outro. Pelo contrrio.

O Teles, furioso, disse que no embirrava com o outro, que nem lhe dava
essa importncia, essa honra.

O Rodrigues ia saltar-lhe, tiveram mo nele. Mas jurou que doutra vez
seria, que fizesse de conta que j l tinha na cara quatro bofetadas
tesas.

--Tesas, hein? ol! quatro bofetadas tesas.

Havia de dar-lhas, to certo como dois e dois serem quatro, s para ter
o gosto de dizer depois, num comunicado, que desafrontara as letras
portuguesas,--ele, o Rodrigues, ele, um simples fiscal do Real dU+2019.gua.

Aquilo fez surpresa, convidaram-no a explicar-se.

--No senhores! dizia colrico o Rodrigues, com grandes gestos.--Bem sei
que no valho nada. Escrevi,  verdade que escrevi; fao ainda o meu
verso quando me d na cabea. Uma rapaziada! Esto maus? Concordo. Mas
no h de ser aquele _ngalh_ que o h-de dizer. No o julgo
habilitado. L porque tem soletrado dois romances, no se segue. Mas o
que mando para pblico sim, o que entrego aos prelos-- meu!--E batia no
peito com a larga mo espalmada, furioso, numas raivas, de orgulho
triunfante.--No roubo! nunca roubarei!--afirmou mais alto o
Rodrigues, para que o Teles que se ia retirando, no meio de dois
amigos, conciliadores, o ouvisse.--Repito: no roubo, no fao como
ele!--E as palavras saam-lhe salivadas, violentas, por entre os
lbios espumantes, atiradas ao Teles como pedradas.

Os outros escutavam agora com interesse. Estavam a dar razo ao
Rodrigues, instintivamente, sem compreender bem o que ele queria
dizer.

--As provas...--e meteu a mo no bolso do seu casaco de lona, com
mpeto:--as provas, v-las aqui esto!

Mostrou no ar a brochura verde do _Almanaque de Lembranas_.--Era do ano
que vem, tinha-lhe chegado hoje. Ali estava o Peres do correio que lho
tinha entregado ele mesmo.

--Sou testemunha--confirmou do lado no sei quem.

O Rodrigues, ento, afirmou que era preciso historiar, contaria a coisa
em duas palavras. O Sr. Teles, o borra-botas do Sr. Teles, lembrara-se
um dia de ser escritor, de ser poeta. O alarve! Todos os anos--zs!
versalhada para o _Lembranas_...

--Era colaborador--disse o Antunes da Cmara que admirava o talento de
Teles.--Era colaborador.

--Era qu?--interrogou logo o Rodrigues, de mo atrs da
orelha.--Maador, maador  que ele era. Nunca lhe admitiram as
asneiras, se me faz favor, nunca! Na _correspondncia_ troavam-no,
chegaram a dizer-lhe que podia fazer fortuna pelas tombas, que o no
chamava Deus para as letras. Aquele _Serei ousado_?  ele, sei que 
ele. Nunca o admitiram.

--Lembro-lhe a _Flor do Campo_, Sr. Rodrigues, lembro-lhe esses
versos--insistiu o Antunes.

O Rodrigues teve um risinho feroz, fitando o Escrivo da Cmara. No lhe
respondeu. Subiu os trs degraus do _pelourinho_, pausadamente, com
pompa, e chamou a ateno dos amigos. Ia ler. Abriu o _Almanaque de
Lembranas_, onde trazia um papel, e rompeu:--Indignidade.

--Em letras bem gradas, queiram inspeccionar.

E colou ao peito o _Almanaque_, voltando para fora na pgina onde o seu
dedo reboludo apontava a terrvel palavra, escrita ao alto em
epgrafe.

Houve um sussurro, alguns pediram silncio. O Rodrigues que lesse.

Os versos intitulados _Flor do Campo_, que viram a luz no _Almanaque de
Lembranas_ do ano extinto, foram-nos remetidos pelo Sr. Jos Maria
Teles, escrivo.

--Copiados por mim, uma letra floreada--esclareceu o Fernandinho.--Ele
depois assinou--e fez no ar, com o dedo, o trao complicado da firma
complicada do Teles.

Pediram silncio outra vez. O Rodrigues continuou:

Publicmo-los na convico de que eram da lavra daquele senhor, pois
que ele os assinava.

--E ento?--perguntaram uns poucos, sem compreender ainda.

--Pura iluso!--continuou solenemente o Rodrigues.--Escreve-nos o
mimoso e assaz conhecido poeta Sr. Alfredo Mendona, dizendo que os
versos lhe pertencem, e que o Sr. Teles os roubara (sic) do seu volume
_Lira Matutina_.

Foi uma estupefaco! O Rodrigues prosseguiu mais alto, fugindo aos
comentrios:

Averigumos, e disso alfim nos convencemos. Os leitores avaliaro a
probidade do Sr. Teles, a quem mais de uma vez tnhamos fechado a nossa
porta por incapaz. Hoje damos-lhe com ela na cara--por indigno.

E o Rodrigues fechou o livro com estrondo, como os outros fechariam a
porta na cara do Teles escrivo; tomou praa fora, o livro debaixo do
brao, e foi-se para o estanco do Ernestinho, altivo, solene,--vingado!

Os da roda seguiram-no silenciosos, corridos de vergonha, desnorteados,
porque alm de sempre terem julgado o Teles muito superior ao
Rodrigues--e o Rodrigues bem o sabia, olha ele!...--tinham dado uma
sorte de mil demnios, agora  que eles viam! distribuindo no teatro,
por ocasio da festa de Santa Barbara, a _Flor do Campo_ que eles
tinham mandado imprimir avulso--para lisonjear o Teles que tivera o
trabalho de os ensaiar no _Santo Antnio_. Hein? quem diabo havia de
dizer que aqueles papelinhos de cor, uns verdes, outros amarelos,
chovendo sobre a plateia entre o segundo e o terceiro acto, e quase
disputados a murro, num alvoroo de seiscentos diabos, encerravam uma
insdia,--um logro  boa-f,  credulidade ingnua de toda a comarca!

E relembravam episdios, particularidades quase extintas: o Fernandinho
vestido da menino do coro, batina vermelha e roquete de rendas,
cobrindo-se de teias de aranha l pelo forro do teatro, de gatinhas e
com um toco de vela na mo, aos tropees, s para ter o gosto de ser
ele a despejar do _culo_ aquela papelada; o Melo da administrao,
vestido de Frei Antnio, sandlias e grande chin de calva redonda,
feita de uma bexiga de porco, com o Teles em triunfo por entre os
bastidores, seguido pela turbamulta dos companheiros, em hbitos de
frade e fardetas de galuchos, dando vivas ao _poeta_! ao grande Teles,
ensaiador da rapaziada!

Que desastre! Afinal tinha-lhes sado um intrujo! E quase se regalavam
da sorte que tinham dado, pelo prazer que sentiam de o ver agora
humilhado, corrido, esbofeteado pelo ridculo. Bem feito!

O Antunes da Cmara, sobretudo, estava furioso. Fora ele o da lembrana
de se mandar imprimir a versalhada. Escrevera para Coimbra ao Manuel
Caetano, ao Manuel Caetano da Silva, Praa Velha n.^o 11, que mandava os
impressos para a Cmara, e pedira-lhe aquilo como especial favor. O
homem--pronto. Duzentos exemplares, quinze tostes. Quinze tostes que
se tinha combinado dividir por todos, contas do Porto, mas que
desembolsara ele s, afinal. Bem feito! ningum o mandava ser burro.
Arre! cavalgadura!

E dava patadas no cho, cada vez mais furioso, apoplctico.

--Mas a bem dizer, tudo isso  nada!--continuou comovido o Antunes.--
senhores! e a figura que eu fiz... sim, a figura que eu fiz naquele
intervalo do drama para a farsa?...

Todos desataram a rir, tinha sido fresca... Ele sempre acontece cada
uma! E relembravam:--levantara-se o pano quando os ouvintes menos o
esperavam. Os que tinham sabido l fora, s doceiras, voltaram
apressadamente com os cartuchos na mo, ensacando os rebuados. Ia um
rebolio pela plateia. Na galeria dos camarotes para onde s iam
senhoras, gente fina, comeavam a aparecer caras barbadas de sujeitos
que iam saber que tal, perguntar se ia uma pinguinha de licor, um
docinho. Em cima, na galeria alta, criadas e raparigas do povo,
debruadas no parapeito, apontavam para o palco, de olhar atnito.

--Ele que dianho ?--perguntavam.

De baixo, da plateia, todos faziam _chut_! voltados l para cima:

--Caluda, sua gentalha!

No palco estavam todos perfilados, trajando como na pea. O Freitas da
recebedoria com o seu fato de Marco Aurlio; o Paula de cardeal, bculo
em punho e a cara metida numa estriga; o Fernandinho de menino de
coro, todo lpido; a Ana Pisca muito acanhada no seu fatinho de Olvia;
a Margarida que tinha feito de anjo no quadro final da _Glria_, em que
ela subira num cesto vindimo  regio sidrea dos astros; o pai de
Santo Antnio, em ceroulas e de saia branca pelo pescoo, lvido como
sara do tmulo; aquela canalha da tropa--todos enfim!

Nisto, entra pelo fundo o Teles todo de preto, no meio do Melo
vestido de Santo Antnio e do Proena telegrafista que fazia de Frei
Incio. Avanaram. Em baixo, o Felisberto mandou tocar o Hino da Carta
 meia dzia de msicos que no entravam na pea. O hino rompeu com
grande estampido de pratos, numa cadncia fnebre. No palco, tudo
imvel. Ningum sabia o que era aquilo, no estava no cartaz.
Esquecimento do Fernandinho, talvez... pensavam.

Mas ao acabar o hino, o Antunes da Cmara, com farda de centurio,
durindana e botas de gua, irrompe furioso do buraco do ponto e prega um
discurso na bochecha exttica do Teles:

No era ele o mais competente, de certo, o mais... etc. Mas tinham-no
encarregado, obedecia... e tal. S sentia no ter frases, oratria,
porque enfim estava falando a um poeta...--colaborador do _Almanaque de
Lembranas_ para Portugal e Brasil--acrescentou voltado para o pblico,
esclarecendo. Enfim, finalmente... vinha para aquilo: dar-lhe um abrao
em nome de todos...--e abraou-o comovido, enquanto os espectadores
berravam _apoiados_, dando palmas--... e para isto--acrescentou
fazendo com a mo que se calassem, que se calassem depressa.

Houve um sussurro de aplauso, dos camarotes crianas gritavam--
Emilinha! Era com efeito a Emilinha, a filha do Alves dos Pesos e
Medidas, que saa tambm do buraco do ponto, vestida de anjo, tules
verdes e muita lantejoula a brilhar.

Ficou-se a olhar a plateia, imvel, muito fria, ensaiada, enquanto o
Felisberto preludiava na flauta. Em certa altura, num requebro doce da
melodia, ele fez-lhe com a cabea que entrasse, e a Emilinha rompeu
nuns guinchos, cantando a _Flor do Campo_, com msica da _Muchagateira_
original do Peres do correio.

O Teles sorria, entre glorioso e modesto, falando a Santo Antnio e a
Frei Incio:--Era de mais, era de mais, ele no merecia...--Ora essa!
pareciam dizer-lhe os outros--seramos ingratos se...

A cantoria acabou, o teatro parecia desabar com palmas, tudo berrava,
um ou outro co latia. Se no quando, os do palco desataram a rir,
cosendo-se uns aos outros, fingindo um grande medo de que as bambolinas
do tecto desabassem.

Todos olhavam, curiosos. E naquela expectao viram de repente descer
do alto, sobre o palco, agarrado a uma corda, o Freixedas da Mercearia
vestido de Lusbel, rubro e com chavelhos. Cuidaram de estoirar a rir. Da
boca muito inchada saam-lhe falhas, do algodo a arder que l trazia
dentro. Fazia caretas horrendas, arremedando Satans nos mpetos da
clera. O pano comeou a descer, oblquo, esfarrapado de uma banda. O
Freixedas, suspenso, atirou fora o algodo e gritou, furibundo:

--Alto! suas bestas! Inda no!...

Voltou-se de costas para o pblico, e um letreiro que trazia de ombro a
ombro dizia em caracteres amarelos--_C'est fini_! O pano desceu
ento, estabalhoadamente. Os espectadores olharam uns para os outros,
no tinham percebido... Foi nesse momento que o Sr. Antoninho, que
tinha estudado em Braga, traduziu de um camarote, em voz alta:

--_ findo_!




V[AE] VICTORIBUS!

_A Maria Lucila_.


Em Dezembro, s seis  noite cerrada. Mais bocado, menos bocado, a
essa hora recolhia do monte o Jos Gaio, sozinho, sachola ao ombro, um
pouco atarantado com a trovoada que rugia ao longe, em surdina. Por cima
dele, o cu ia-se fazendo cada vez mais negro, dessa negrura espessa
de tempestade que infunde pavor  gente, e da qual os prprios pssaros
tm medo. Cessara de chover. Mas o vento do sul principiava agora,
agitando os grandes ramos despidos dos castanheiros, fazendo-os murmurar
no sei que estranha elegia... A um relmpago mais vivo, o Jos Gaio
apressou o passo, e, benzendo-se, rezou a _Magnificat_. O trovo chegou,
depois, lgubre, cavernoso, alastrando-se em roldes na larga amplitude
do cu. Debaixo dos ps, o Jos Gaio sentia o caminho lamacento,
encharcado das enxurradas valentes de todo o dia. Mas a ponte j no
ficava longe. Depois, a ladeira, e no meio da ladeira a casa.

--Vamo' l com Deus! fazia ele animando-se.

Um claro sbito de relmpago deslumbrou-o. Diante dele surgiu de
repente a paisagem, e de repente desapareceu, feericamente iluminada.
Deitou ento a correr, aterrado; mas to forte veio em seguida o trovo,
que ele instintivamente parou e levou ao cu as mos aflitas, num
gesto de quem implora misericrdia. Naquela iminncia de perigo as
prprias rvores lhe pareciam imobilizadas pelo terror,  beira do
caminho. E atravs dos castanhais, o surdo rumor do vento era como a voz
implorativa da natureza, unindo-se  voz dele num longo coro de
suplicas...

O Jos Gaio ia transido. Mas pior ficou quando de repente, sem saber
donde, algum chamou por ele, lugubremente:

-- Jos Gaio!

O homem parou. E como perto dele apenas enxergasse os braos da cruz
negra, que era o sinal de ali terem matado o Jos Tendeiro, h anos,
apertou o passo e tomou por um atalho, direito  ponte. Mas ento a
mesma voz tornou-lhe mais de perto:

-- Jos Gaio!

Quis fugir, mas o medo parece que lhe tolhia as pernas. Nisto veio um
relmpago que iluminou a mil cores a paisagem. Ele cerrou os olhos com
fora, nervosamente, ferido por aquele deslumbramento que por milagre o
no prostrou. E quando o trovo bramiu, rudemente, uma imobilidade de
esttua prendia o campons  terra. Foi ento que veio de novo aquela
voz, como um prolongamento do trovo:

-- Jos Gaio!

Ia avanar para ganhar a ponte. Parecia-lhe que, uma vez transposta,
galgaria a ladeira num instante. Mas involuntariamente, cedendo a uma
fora violentssima, entrou de retroceder, cambaleando. Aquele rugir da
gua que logo abaixo da ponte fazia cacho, rugir violento mas montono,
infundiu-lhe um grande pavor. Teve medo e deixou-se retroceder... Seno
quando, estacou ouvindo a mesma voz:

-- Jos Gaio!

E logo atrs da voz, com um rastro, um intensssimo relmpago cor de
sangue. Viu tudo vermelho, afogueado, tudo menos aquela cruz preta de
longos braos, sempre abertos e sempre firmes, que pareciam desafiar a
tempestade...

Aquela serenidade da cruz estonteou-o. Dir-se-ia que esse nobre
exemplo de altivez vinha agora humilhar mais a sua fraqueza. Desviou os
olhos e cerrou violentamente as plpebras. Mas em vo! que fora to vivo
o deslumbramento, e tanto lhe ferira o crebro, que num fundo cor de
sangue, como num transparente de mgica, ele via nitidamente
desenhada, sempre firme e sempre altiva, a cruz que o estonteara. Ento
deram-lhe mpetos de fugir; uma onda de coragem parecia dilatar-lhe o
peito impelindo-o. Precisamente nesse momento, a voz tornou a chamar:

-- Jos Gaio!

Sentiu-se alquebrado, transido at ao mais ntimo do seu ser. Um longo
desfalecimento invadiu-o todo, quebrando-lhe a ltima fibra de energia,
como se quebra um vime seco. Aquela paralisia atacou-lhe tambm o
crebro: no formava um s raciocnio nem elaborava sequer uma ideia, a
mais simples. E foi preciso um grande trovo para todo ele tremer,
abalado como a prpria terra. Depois, outro relmpago fez reviver nele
a vida do esprito; sentiu um grande pavor quele aspecto sbito do
campo que diante dele se perdia de vista, afogueado como se estivesse
todo em chamas. Aqui, um pinhal, uma ermida alm, para toda a banda
Casais, surgiam de repente, ntidos nos seus contornos, definidos
maravilhosamente nas suas atitudes. As grandes rvores despidas,
sobretudo, tinham um ar fantstico, nessa pureza ntida de recorte que
traava na luz as sinuosidades mais delicadas dos troncos e ramarias. No
meio deste cenrio de mgica, a um tempo majestoso e ttrico, o triste
campons sentia-se apavorado, jactitante e quase inerte, ali chumbado 
terra, hirto como a cruz que tinha diante. E nem um s gesto
implorativo, e nem uma s palavra de splica lhe saa dos lbios
crispados. Porque uma vez que tentara uma palavra, o mais formidvel
trovo cortara-lha na primeira slaba. Depois, aquela voz no o
largava, imperturbvel e montona:

-- Jos Gaio!

E ele, no respondendo nem falando, pensava esconjur-la, exorcism-la
como se fosse a voz de um duende. E para esta evocao do sobrenatural
muito concorria, como os senhores compreendem, esse aspecto sereno da
cruz negra, inabalvel sob a asa agitada da procela.

Nisto veio a chuva, em grossas gotas a princpio, em cordas de gua
depois. Ela varejava-o inclemente, impelida agora por um vento sul
furioso. No deu um passo para procurar um abrigo, no se mexeu sequer.
Como todo ele ardia em febre, aquele dilvio era quase um celeste
benefcio para a sua cabea num vulco. Mas quando os relmpagos
vieram, aquela reverberao da luz nas cordas de gua fez-lhe um
deslumbramento mais forte. E caiu inerte sobre o caminho lamacento por
onde a gua escorria impetuosa, ao mesmo tempo que a voz do costume,
sobrelevando o trovo, repetia do lado da cruz:

-- Jos Gaio!

Cobarde, sujo como um sapo, encharcado at aos ossos, como caiu assim
ficou--de borco. Depois, quando abriu os olhos, na larga poa onde quase
tinha a cara, via reflectir-se a cruz, a cada relmpago. Ela l estava
no seu posto, altiva, serena, intemerata, recta como um exemplo... E
pois que parara o dilvio, dos seus braos abertos as gotas da chuva
caam, vermelhas  luz, como grossas lgrimas de sangue...

Cobarde! Nenhuma comparao pode dar ideia do estado de prostrao desse
miservel, reduzido pelo terror a uma quase inaco de besta morta.
Dir-se-ia um imundo trapo ali cado, abandonado ali na lama ignbil
de um caminho,  espera da enxurrada que o levasse... Era abjecto!... E
enquanto esse animal assim jazia, atordoado, como boi que uma malhoada
prostrou, ao fundo do horizonte, para sul, o encastelamento fantstico
das grandes nuvens plmbeas, listradas de negro e roxo, metralhando com
fria o largo espao, aos quatro ventos, era tudo quanto o nosso
esprito pode conceber de mais grandioso e de mais sublime, pico e
trgico a um tempo, soberbo, majestoso, imponente.

Mas a voz sempre a ouvia, por cima do vento e por cima dos troves,
aquela voz:

-- Jos Gaio!

Assim largo tempo, horas talvez. O torpor do frio agravava-lhe o outro,
o do medo. Parecia colado  lama, preso ao caminho como se fosse uma
rocha. No entanto, a espaos, tinha a compreenso clara da sua posio
e do seu estado. E ento uma raiva sbita galvanizava-o: queria
erguer-se, fugir, desaparecer--erguer-se como aquela cruz, fugir como
aquele vento, desaparecer como esses relmpagos, que nem deixam rastro
na treva...

Tais rebates de coragem eram, porm, efmeros, impotentes para lhe
provocarem um movimento. Aquele diabo tinha de morrer ali,
miseravelmente, ignobilmente, como um co a que houvessem amputado as
quatro pernas. E esta ideia, que o instinto de viver lhe sugeriu,
apavorou-o ainda mais que a prpria tempestade. Morrer ali! Mas que
dvida, se ningum lhe vinha acudir, se no passava por ali vivalma, a
tais desoras! Era horrvel! No meio de um caminho, numa noite medonha
de tempestade, ao p daquela cruz negra de longos braos
hirtos--morrer ali!... Eram ento j por ele as lgrimas que essa cruz
parecia chorar?...

Estava nisto, quando num silncio de acaso ouviu passos  distncia.
Vinha gente. Quem quer que era tinha de passar por ali, de tropear
nele, talvez. Subitamente, sentiu-se reviver. Estava salvo. Em breve
estaria de p,--de p como essa cruz que um relmpago muito vivo acabava
de lhe mostrar... No entanto, a voz  que se no importava:

-- Jos Gaio!

Mas os passos vinham-se chegando; e ento, como se receasse que o
calcassem, reuniu num supremo esforo as mximas energias, e rebolou-se
para um lado, at ficar detrs dumas urzes. Coisa notvel foi,
senhores, que esse miservel em vez de gritar calou-se, e todo se
recolheu numa absoluta quietao, com medo que o surpreendessem... E
quem quer que era passou, cabea nua, diante da cruz gotejante... Aos
ouvidos do miservel chegou um como murmrio de prece... No ia s a
rezar; ia tambm chorando, aquele homem...

...Quem seria?

Um claro branco de relmpago fez irromper da treva, lvido como um
espectro, o filho do Jos Tendeiro...

O desgraado ia a chorar pelo pai, ali assassinado havia anos, por uma
noite como aquela...

Passou, ladeira abaixo, na direco da velha ponte. S aquele cobarde
no se mexeu, prostrado sobre as urzes, quase arrumado  cruz.

E assim esteve horas e horas, at que, noite velha, cessou a tempestade,
perdida num murmrio longnquo, l na extrema fmbria do horizonte...
Quando a lua rompeu, lvida num cu de anil, nem a grande sombra da
cruz, incidindo sobre aquele corpo, como um beijo ou uma bno, logrou
reanim-lo. Tinha morrido, o estafermo!

Ao outro dia, est claro, foram l os da justia. O velho abade foi
depois, buscar o corpo. Os mdicos nem lhe tinham mexido.

--Sangue pelos olhos, sangue pela boca, sangue pelo nariz, uma
congesto muito linda--dissera um a rir.

--E muito mal empregada--fizera o outro do lado, indiferente.

Mas quando os da maca disseram a um tempo--_Upa_!--esse bom velho do
abade caiu de joelhos diante da cruz, numa convulso agudssima de
choro. E elevando ao cu as mos mirradas--ao cu que um divino azul
fazia difano--ele exclamou, soluando:

--Senhor! Senhor! a vossa justia  tremenda, como  infinita a vossa
misericrdia!

...Segredo de confisso...--mas o abade bem sabia quem tinha ali
matado o Jos Tendeiro...




BALADAS

_A Lus Osrio_


I

MARICAS


Vocs lembram-se da Maricas, aquela magrita de cabelos muito
castanhos, quase louros, que morava defronte da redaco, lembram-se? A
boa da rapariga era nossa amiga, pois no era? Sempre benvola e
complacente para as nossas balbrdias e algazarras de todo o dia e de
toda a noite. E vocs bem sabem que tais elas eram, as nossas
balbrdias e algazarras...

Eu, na Maricas, admirava uma virtude rara, toda original e
encantadora--a de no mostrar jamais na sua amizade preferncia por
algum de ns. Dir-se-ia que era nossa irm, ou mesmo nossa me, pois
que nos queria a todos por igual, a pobre Maricas de olhar azul e
brando...

No sei se j vos disse: adivinho o interesse com que ela vos
perguntaria por mim, nos meus dias de cbula, pela solicitude e
interesse com que me perguntava por vocs, quando faziam gazeta ao
escritrio.

--Ento esses cbulas? ento esses marotinhos? Doente, algum?

--Na estrdia, Maricas. Andam todos por l...

--Ora vejam!--fazia ela quase escandalizada.

Ah, como eu me lembro neste momento da vivacidade franca dos sorrisos
que nos mandava, quando todos em pinha, furando pelos ombros uns dos
outros, palreiros conversvamos com ela de janela para janela, num
_tte--tte_ que durava horas, muito familiares, muito dados, quase que
chamando-lhe por tu e ela a ns!

Como eu me lembro!

Ela tinha sempre uma resposta e um sorriso para cada uma das mil
perguntas que lhe fazamos, e ento uma grande pacincia inexaurvel.
Ns, os estroinas, quase que chegvamos a adorar aquela ingenuidade
singela do seu corao de vinte anos. A boa da Maricas era adorvel,
toda ela bondade e pacincia para os nossos distrbios e para as nossas
algazarras de toda a hora e de todo o instante.

Mas como se familiarizou ela connosco e ns com ela,  que me no
lembra, e porventura a nenhum de vocs, acho eu. O que  certo, rapazes,
 que ns como que a considervamos uma companheira de redaco, espcie
de directora com casa  parte e viver independente pois que se entrvamos
no escritrio (parece mesmo que estou a ver aquela barafunda
de escritrio!) e, assomando  janela, a no vamos na sua, dizamos
quase sem querer, mas invariavelmente:

--Mau! falta hoje a Maricas! Diacho! mas onde iria a Maricas?

E passados instantes debandvamos todos, um agora, outro logo, 
formiga, mal nos convencamos de que ela passava a tarde fora, em casa
da _freira_ de Quebra-Costas--dessa lembram-se vocs... No entanto,
deveis recordar-vos que ela, no dia seguinte...--coitada!--...a
primeira coisa que fazia era justificar a sua falta, estive aqui,
estive ali, fui a umas compras com a mam, um pouco ruborizada e
confusa, como se na realidade a sua obrigao fosse estar ali a
aturar-nos. Por pouco ela nos no pedia de mos postas que lhe
perdossemos, a boa da rapariga.

E ns ento galhofeiros, brincalhes:

--Sem mais _aquelas_, D. Maricas! A congregao risca-lhe a falta, ora
essa!...

E ela mais confusa, fazendo girar no dedo o seu anelzito de cobra:

--Pois sim, mas  que s vezes...

--s vezes qu?...

No! ora adeus! Ningum desconfiava que ela estivesse zangada
connosco. Sara, porque tinha de sair, essa  boa...

--Pois no era verdade--perguntvamos-lhe--que ela adorava aquela
_trupe_ de bomios?

--So todos muito bons rapazes--dizia j a sorrir.--Todos me tratam
muito bem...

E quando dizia isto, o seu rosto miudinho e muito plido todo se
iluminava de prazer e sorria de ntima gratido. Mas porque
simpatizava ela connosco, a pobre Maricas?

Quando nos via em palestras interminveis, nas libaes do _congnac_ e
do caf, ouvia-se l da janela um _pschiu_! muito sibilado.

--Que manda a D. Maricas?  servida?

E ela, levantando os olhos da costura, com ares de formalizada:

--Mando que escrevam, que trabalhem! J fizeram o jornal?

O cuidado que lhe dava o jornal!

--Ora faz favor de no falar em coisas tristes? Olhem agora que
lembrana, o jornal!

Ela ento, por nica resposta, dizia-nos s vezes que na semana passada
o tipgrafo viera queixar-se de que havia falta de originais, quantas
vezes o garoto da imprensa viera pedir as provas emendadas.

E por falar em provas:--a Maricas sabia todos os sinais das emendas,
todos.

--Olhe l, Maricas, est aqui uma letra a mais nesta palavra.

--Risco por cima, risco  margem, e um _d_ cortado;  fcil.

--Um _m_ de pernas para o ar, e esta?

--Risca-se, e um trs cortado,  margem. Est farto de o saber...

Quando via algum sentado  mesa, a rabiscar, pedia sempre que lhe fosse
mostrando as tiras,  medida que as escrevesse, talvez porque adivinhava
que isso era um estmulo. A gente fazia-lhe ento a vontade, e mal
escrevia a derradeira letra pegava da tira e dizia-lhe para a janela,
acenando-lhe com o papel:

--Maricas, c est uma, v contando. Veja: escrita de alto a baixo.

 terceira que se lhe mostrava, ela saa-se de l com um _bravo_! e
recomendava, solcita, cinco minutos de folga, enquanto se fumava um
cigarro.

A Maricas era quem nos cortava as cintas para o jornal e quem nos fazia
a goma nos dias de expedio. Que ricas cintas e que bela goma! Em
paga, quando o jornal chegava da imprensa, quase sempre nos sbados 
noite, o primeiro exemplar era para ela. Como a rua era estreita
atirava-se-lhe da janela.

--Maricas, a vai ainda fresquinho!

--'st bem, obrigada. Vou ler, at amanh.

Corramos todos  janela, a dar as boas-noites  nossa amiga.

--Durma bem, ouviu?

E no dia seguinte, a Maricas repetia a cada autor frases e frases do
artigo publicado, jurava que nos conheceria no estilo ainda que
mudssemos de pseudnimo. De resto, sempre benvola: achava tudo muito
bom, escrito com muita graa e muito bem, como ela dizia.

Nos seres que fazamos e que por via de regra no passavam de um
interminvel cavaco, dizia-se mal das mulheres, discutiam-se escndalos,
desvendavam-se segredos, tal e qual como em todas as redaces... Mas da
Maricas ningum tinha que dizer seno bem; era a privilegiada naquelas
sesses de m lngua. Quase sempre a conversa degenerava em
algazarra--um que se lembrava de cantar, outro que ia pela guitarra e
gemia fados com acompanhamento de violo. E era de ver o Santos Melo,
de olhos cerrados e cabea  banda, como cantava a sua quadra predilecta:

Sei cantigas misteriosas,
Cantigas de endoidecer,
Que os lrios dizem s  rosas,
Que as rosas me vm dizer.

Mas no meio desta inferneira havia sempre um que recomendava silncio.

Com mil demnios! no viam que a Maricas no podia pregar olho...

Todavia...-- suprema bondade!--...ela nunca se queixava quando no dia
seguinte nos vinha dizer at que horas durara a estroinice, o que se
tinha tocado, o que se cantara, quem tinha rido mais, e, at, as vezes
que as cadeiras tinham cado.

Ora viam?! No a tnhamos deixado dormir! A Maricas que desculpasse;
palavra de honra! doravante...

Ela ento acudia logo, como a remediar uma grande desgraa:

--No, no, eu at gosto. Entretm-me v-los alegres, faz-me bem, ora
essa...

       *       *       *       *       *

Pois, meus amigos, a boa da Maricas--morreu! vocs no sabiam! E morreu
tsica, a desgraada Maricas! S depois que o soube,  que eu comecei a
pensar naquela tossezinha muito seca em que s  vezes a
surpreendamos, naquele branco plido das suas faces, no bistre das
suas olheiras, naquela magreza transparente das suas mozitas de
marfim...

Pobre Maricas!

Haver trs meses que ela me desapareceu da sua janela, onde
continuei a v-la depois que o jornal acabou. Eu sabia l para onde ela
tinha ido?!...

Mal diria eu que estavas no cemitrio, to longe e to s! porventura na
vala comum, sem umas folhas de rosa sobre a tua sepultura
humilde,--onde neste instante cai chuva e chuva! Ainda se as noites
fossem todas de luar... Minha triste amiga! como eu agora relembro cheio
de mgoa a tua frase de infinita bondade e de infinita resignao:

--...Entretm-me v-los alegres, at me faz bem...

Compreendo agora tudo: vivias da nossa alegria, j que a tua alma era
triste... Mas porque foi que nos no disseste, pobrezinha! que nessa
frase singela ia a revelao do pressentimento que tinhas da tua morte
prematura?! Triste criana que ns no mais veremos!

       *       *       *       *       *

Olha, Maricas, escrevi quatro tiras. J me no dizes--_bravo_!--ora
no?...

       *       *       *       *       *

...Bom Deus! bom Deus! para que a terra produza diamantes, e dela
rebentem flores, so talvez precisos estes corpos a avigorar-lhe as
seivas...


II

PARA A ESCOLA


No velho casaro do convento  que era a aula. Aula de primeiras
letras. A porta l estava, amarela com fortes pinceladas vermelhas, ao
cima da grande escadaria de pedra, to suave que era um regalo subi-la.
Obra de frades, os senhores calculam... J tinha principiado a aula
quando a Helena entrou comigo pela mo. Fez-se um silncio nas
bancadas, onde os rapazes mastigavam as suas lies e a sua tabuada,
num ritmo cadenciado e montono, cantarolando. E ouviu-se ento a voz
da Helena dizer para o senhor professor, um de culos e cara rapada,
falripas brancas por baixo do leno vermelho, atado em n sobre a testa:

--Muito bons-dias. L de casa mandam dizer que aqui est a
encomendinha.

Oh! oh! a encomendinha era eu, que ia pela primeira vez  escola. Ali
estava a encomendinha!

--Est bem, que fica entregue. E l em casa como vo?

E enquanto o velho professor me tomava sobre os joelhos, a Helena
enfiava-me no brao o cordo da saquinha vermelha, com borlas, onde ia
metido nem eu sabia o qu. Meu pai  que l sabia... E ali estava eu
entre os joelhos do senhor professor, com o _bonnet_ numa das mos e a
saquinha vermelha na outra, muito comprometido. A Helena, que sorria
contrafeita, baixou-se para me dar um beijo, e disse-me adeus.

--Adeus, Josezinho, logo venho c pelo menino.

Choraminguei, quis sair na companhia dela.

--No, agora o menino fica--disse-me a Helena.--Isto aqui  a escola, 
onde se aprende a ler.--E agachando-se, diante de mim:--Olhe tanto
menino, v?

--Mas fica tu tambm--disse-lhe eu ento.

Nas bancadas houve hilaridade geral. O mestre teve de intervir,
iracundo:

--Caluda, sua canalha! No vem que est gente de fora? Caluda, que vai
tudo raso com bolaria!

Foi ento que reparei em toda aquela rapaziada. Ah, eles eram todos
meus conhecidos! Vivam l vocs! E estavam todos alegres, p'los modos.
Reanimei-me. Ento j eu podia ficar, estavam ali os meus amigalhotes,
cheguei mesmo a rir das caretas que me faziam alguns, o Estvo
principalmente.

--Isto  preciso muita pacincia, senhora Helena, muita soma de
pacincia. Um mestre precisa de ser um santo.--(Pausa. Olho duro sobre
as bancadas.)--Mas est bem, diga l que a encomendinha c fica. Em boa
hora entrasse...

--Entrou, ele h-de estudar. Ora h-de, Josezinho?

Das bancadas alguns acenavam-me que no, arregalando muito os olhos.

-- verdade,--insistiu por sua vez o professor--o menino h-de estudar
as suas lies, no  assim?

--Diga, sim senhor--ensinou-me ento a Helena.--Hei-de estudar muito e
ser sossegadinho na aula, diga.--E a meia voz para o professor:--isto em
casa  o vivo mafarrico; faz l ideia?

Ele riu, j sabia; as crianas so todas assim, enquanto esto no mimo
das mes. Mas uma vez metidas na escola, as coisas mudavam um pouco. E
piscando o olho, designou a palmatria. A Helena ficou transida.

--Faz milagres, Sr.^a Helena. Digam l o que disserem, olhe que faz
milagres.

Eu tinha percebido. Comeava de novo a _embezerrar_, com vontade de sair
quando a Helena sasse. Aquilo sabia eu para que servia, a
palmatria...

--Mas para o nosso Zezito no h-de ser precisa, ora no?

--Diga assim: no senhor, porque eu hei-de cumprir com as minhas
obrigaes, diga.

--Ora a  que est--atalhou o professor.--V, Sr.^a Helena? Aqui j os
pequenos tm a sua obrigaozinha, os seus deveres a cumprir, as suas
coisas...

--Sim senhor, sim, enquanto que em casa...

--Em casa  o que ns sabemos. Tudo so mimos, meu menino isto, meu
menino aquilo. Vo assim criados  lei da natureza, sabe vossemec? 
mau isso, pssimo! Porque  que os rapazes so todos teimosos?--E bateu
num Monteverde pousado sobre a mesa, dizendo:--Olhe, aqui est neste
livro: _de pequenino_...

--..._ que se torce o pepino_--concluiu rpida a Helena, orgulhosa de
saber o que estava no livro, coitada!

--Nem mais. A modos que isto faz rir. Um pepino  uma coisa que se cria
na horta...

Risota dos rapazes!

--Ora v isto, Sr.^a Helena? v estes brutinhos?--E com entono, de
palmatria alta, fazendo-se carrancudo:

--Caluda, seus fedelhos! Caluda, porque se peo licena  Sr.^a Helena,
comeo numa ponta e levo tudo a eito, corro tudo a bolos, tudo, mas o
que se chama tudo!

E fitou-os altivo, sereno, minaz. Sob aquela ameaa, os rapazes ficaram
transidos, cabisbaixos, olhos pregados nos livros.  verdade que ele
podia pedir licena  Sr.^a Helena, e mesmo diante dela _cascar_ de
rijo... Uma sombra de terror passou por toda a sala, sossegaram; at o
Estvo deixou de me fazer caretas.

-- o que v, Sr.^a Helena--disse ento vitorioso, a sorrir-se, o bom
do professor.-- o que v! Um mestre sem palmatria  um artista sem
ferramenta, no faz nada. _Santa Luzia_ milagrosa! Aqui onde a v tem
feito muitos doutores.

--Essa?--perguntou ingenuamente a Helena, disposta a venerar aquele
pedao de pau de buxo, se na verdade ele tivesse feito muitos doutores.

--No, mulher, se no foi esta, outras como esta, essa  boa! Isso no
faz ao caso.

Pela resposta bem se v que foi indiscreta a pergunta da pobre Helena.
Tambm ele, velho naquele ofcio, muitas vezes investigara com mgoa
o motivo por que a sua palmatria no fazia um nico doutor... Morreria
sem ter essa glria, decerto! Forte martrio que a Helena veio
recordar-lhe!...

Houve uma interrupo, um rapaz que se levantou e de brao no ar pedia
para ir l fora.

--_Licte_!--foi como ele disse, arremedando o latim _licet_. Outros
havia que diziam, por troa, _Aniceto_!

--Ora j a mim me admirava,--tornou-lhe o professor.--Se tu no havias
de pedir para ir l fora, tu...--E ficou-se a fit-lo, meneando
pausadamente a cabea.--Ora v voc l fora.

O rapaz saiu apressado, com grande estrupido de ps.

--Ol?--chamou zangado o Sr. professor.

O outro assomou  porta, contrafeito.

--Para a outra vez faz-se menos barulho com esses ps, ouviu? No sei se
percebes... Ora j que tem tanta pressa, eu no tenho nenhuma; faa
favor de esperar um pouco.

Ps-se ento a correr a vista pelas bancadas, resmungando:

--Tu no... tu no... tu no... Tu, ol, venha c!

Levantaram-se uns poucos, foi um barulho.

--Canalha!--gritou-lhes ento, batendo o p.--Corja de atrevidos!
Sentados, j!

Grande silncio nas bancadas. Um perguntou de l, humilde, se era ele,
apontando para o peito.

--Sim, s tu, p'ra que queres os olhos? Avance e perfile-se.

Mediu-o de alto a baixo. Depois:

--Isso mesmo. Essa mo no bolso  que no  do _regulamento_, fora com
ela. Agora, sim senhor. Ora vs alm aquele sujeito? o tal das
pressas?...

--Vejo, sim senhor.

--Bem sei que vs, se o no vissem  porque eras cego; que tal est o
palerma? Ora acompanhe-o, j sabe p'ra qu. E sempre quero ver se tenho
de vos ir l buscar pelas orelhas.

Saram. Mal tinham salvado a porta, gritou-lhes o Sr. professor:

--Ol?

Eles assomaram, outra vez, atrapalhados.

--Ento, seus cabeas de avel, torres de vento, ento no falta nada?

Os dois puseram-se a coar a cabea, muito comprometidos. Faltava com
efeito alguma coisa...

--Ento  a?

Eles avanaram at ao meio da sala, tropeando um no outro.

--Ora passa por esta vez, em ateno a estar aqui a Sr.^a Helena.--E
enrugando o sobrolho, comandou em tom marcial:--Ordinrio! marche!

Faltava aquilo. Em obedincia aos seus velhos hbitos de militar, dava
o Sr. professor aquela voz, sempre que mandava algum aluno cumprir
ordens suas:

--Ordinrio! marche!

Sentou-me ento no joelho e perguntou:

--Olha l, Josezinho, tu queres ser militar, queres? Assim como o Sr.
capito do destacamento, que l est aboletado em casa, queres?

--Corneta, mais queria ser corneta. Ou ento como o Sr. prior, dizer
missas.

Riram-se. Quem sabia l o que dali sairia? Mas o Sr. professor fez
notar que era bom que os pequenos tivessem j assim uma tendncia
qualquer. E ps-se a puxar-me o nariz, a dar-me palmadinhas nas
bochechas.

--Corneta ou prior, hein? Pois isso  que  preciso escolher.--E para a
Helena:--Pois olhe que os tenho conhecido, Sr.^a Helena, que respondem a
ps juntos que no querem ser nada. Mau sinal, pssimo, Sr.^a Helena!
Quando eles assim dizem, de ordinrio assim fazem, depois. Nunca so
gente.--E virando-se para mim:--Mas ento, Josezinho, em que ficamos?
Corneta ou prior?

Preferia ser prior. Sempre me parecia melhor, mais bonito, especialmente
em dias de festa, com aquela capa toda doirada...

--Muito bem, escolheste bem. _Telha de igreja_...

--..._sempre goteja_--concluiu a Helena que ainda hoje  forte em
adgios.

O bom do professor tinha finalmente chegado onde queria.

--Prior, ento! Est muito bem, seu reverendo. Pois olha, Josezinho,
para ser prior  preciso estudar, saber ler no missal, ora ?

--.

--Ah!... No  assim que se diz. , sim senhor--emendou a Helena.

O Sr. professor teve um gesto de indulgncia.

--Mas tu no sabes ainda, ora no?

--No senhor.

Ele ento, fingindo uma grande surpresa, perguntou se o que eu trazia
na saca era um livro.

--Querem ver que  um livro?...

--Diga--ensinou a Helena-- o meu livro para aprender a ler. Mostre-o l
ao Sr. professor, tome.

Houve na sala um murmrio, ao verem a capinha verde, toda lustrosa, do
meu livro.

--Muito bem! muito bem!--aplaudiu o Sr. professor.--Mas este livro 
mesmo para aprender a prior... O menino j tinha dito l em casa que
queria ser prior, ora j?

Fiz que sim com a cabea. Era verdade aquilo; mas como  que ele o
sabia?

--Bem se v por este livro.  livro para prior. Queres ento principiar,
no queres?

--Quero, sim senhor,--ensinou ainda a Helena e eu repeti.--O que eu
quero  dizer missa quanto mais cedo melhor, diga.

--Primeiro do que aqueles?--perguntou voltando-me para as bancadas.

Ento fui eu mesmo que respondi:--Sim senhor!--contente com a
lembrana de vir a dizer missa, e de a vir a dizer primeiro do que todos
aqueles. At podia acontecer que o Estvo das caretas me ajudasse a
alguma...

--Ora ento est muito bem, estamos entendidos.--E com inteno, ferindo
muito as palavras, para mas gravar no esprito:--A primeira coisa que 
precisa para prior  saber bem isto, vs?--E punha-me diante dos olhos o
livro aberto na primeira pgina.--Isto aqui  j missa, chama-se o _a b
c_, e  aquilo que os priores dizem quando vo para o altar.

--_Ito_?--inquiri curioso, furando a pgina com o dedo.

--Sim, isto. E amanha j me hs-de trazer sabido daqui at ali. Hein?
valeu?

--Diga que sim, menino, diga. Valeu, sim senhor.

Eram as seis primeiras letras, ainda me lembro bem. A minha primeira
lio!

_A B C D E F_!

A minha primeira lio!

--Ora sabe vossemec o que isto , Sr.^a Helena? isto que eu tenho
estado a fazer?

--Sim senhor, sei...  assim... como quem diz... ...

--No sabe, no admira,--disse complacente o Sr. professor.--Puxar o
gosto, Sr.^a Helena, puxar o gosto  que isto . Nem todos os mestres o
fazem, todos o deviam fazer. O pequeno, assim, at j vai estudar com
mais gosto, digo-lho eu; ol se vai!

Mas ele no a queria demorar mais, tinha l em casa as suas
obrigaes, as suas voltas, e deviam ser horas.

--Pois isso  verdade, Sr. professor; mas no sei que , custa-me a
separar do menino...--disse a boa da Helena, quase a chorar.

--Foi ama, deu-lhe o seu leite, a  que est a coisa. Pois tenha
pacincia. Aprender  to preciso como mamar--concluiu numa prosa que 
mesmo poesia.

--Pois  preciso, !...

E a pobre Helena beijou-me, para se ir embora. Quando me beijou, senti
na minha cara as lgrimas daquela boa amiga. Retirava-se, deixando-me
ainda sobre o joelho do meu velho professor, quando este a chamou:

--Sr.^a Helena!

--Meu senhor!--respondeu, levando aos olhos o avental.

--J agora, espere mais um instante.

Percorreu com a vista, minuciosamente, as bancadas todas da aula.
Depois, intimou:

--Tu, Francisco, ol, chega acima. E tu do lado, como te chamas, abaixo
um pouco.--E virando-se para a pobre mulher lacrimosa:--Ora  ali,
Sr.^a Helena, ali  que  o lugar do pequeno. Leve-o l, ande, que lhe
no deve pesar.

E dos braos do meu professor passei para os braos da ama. Novo beijo,
lgrimas mais quentes, e saiu a boa da Helena, deixando-me no meu
lugar...--o meu primeiro posto na arriscada milcia das letras...

Depois, s vi isto: o mestre a sorrir-se para a porta e a conversar por
acenos com a pessoa que estava de fora. Pequeno como era, percebi, no
entanto. O mestre vinha a dizer na sua mmica:

--Bolos?... No?!... Perdoe a Sr.^a Helena, mas isso, quando forem
precisos... Pois sim... l isso sim... pequeninos... Han? mesmo com a
mo?... Est bem... Descanse... Mesmo com a mo...

E ela devia sorrir por entre lgrimas, porque foi tambm por entre
lgrimas que o bom velho se sorriu, dizendo adeus...

       *       *       *       *       *

...Helena, minha boa amiga! Acabo de chegar ao fim da viagem que
principiei nesse dia. No volto mais  escola! Venho hoje restituir-te,
querida amiga, aquele beijo--dulcssimo beijo aquele!--que tu ento me
deste. E afinal no fui prior, ora v!... Mas ainda bem. Se o fosse,
acho que parecia mal beijar-te, minha boa e santa amiga! Pois ainda bem
que no fui prior, ainda bem... No  verdade, Helena?

Em Coimbra, no dia do meu acto de formatura.




TRAGDIA RSTICA


I

_Madrugada de segunda-feira de Entrudo, tapada dos Nobres, Alentejo, 
porta do Jos Grilo_


Truz! truz! truz!

Os de casa acordaram, sobressaltados.

--Schiu! nem pio!--fez o Jos Grilo para a mulher.--Moita!

--Truz! truz! truz!

Do seu cubculo, a Ana, filha do Jos Grilo, ps-se a chamar pelo
pai.--Bem ouvia, que deixasse bater. Algum bruto que se queria
divertir...

Mas logo outra vez na porta:

--Truz! truz!

--Arre que  bruto! v bater ao inferno, quem ! gritou de dentro o Jos
Grilo, zangado. E pois que se ps  coca, de orelha fita, olhos
cravados na telha-v do casebre, sentiu distintamente os passos de
algum que fugia.

--Eu no te disse? aquilo foi bruto que se quis divertir--explicou ele
para a mulher.

Mas palavras no eram ditas, pareceu-lhe ouvir o vagir de um
cachorrinho, mesmo rente  porta. Veio-lhe logo  ideia que lhe tinham
vindo pr zorro...

-- mulher, queres tu ver que h novidade?

De um pulo saltou da cama, embrulhou-se na manta e abriu a porta do
casebre.

--Ele que demnio de embrulho...?

Pegou-lhe com muito jeito. Era efectivamente uma criana, envolta em
dois trapinhos muito velhos.

--Coitadinho! fez o ganho achegando ao peito a criancinha.

--Grandes cadelas!--E ps-se logo a fazer uma algazarra, alarmando a
gente da casa.

--Andem! a p! levantem-se! est aqui este inocentinho que vem dar os
Bons-dias  gente!

Correu a filha, veio a mulher. Mas ao tempo, j o bom do Jos Grilo
metera a criana na cama, visto que a pobrezinha estava gelada...

--Ele quem diabo h por a que tenha leite? A filha do Antnio das
Varedas,  verdade, a Brites que lhe morreu o cachopo.

Despediu imediatamente a filha, a Ana,  procura da Brites que
chegasse o peito ao inocentinho. E da porta, gritando para a rapariga
que ia correndo:

--Que se no demore, ouves? que se lhe paga aquilo que for.

Mas a mulher do Jos Grilo, a senhora Joana, de p no meio da casa, a
saia amarela deitada pela cabea, de braos cruzados, muito
embezerrada, permanecia sem dizer palavra.

-- mulher, nada de aflies,  tal e qual como se fosse nosso, faz de
conta...--observou-lhe logo o Jos Grilo que percebia o ar taciturno da
fmea.

Ela s redarguiu que _nosso_ era um modo de falar. Seria dele, mais
de qualquer desavergonhada...

O Jos Grilo, que estava a enfiar as calas, parou no servio e
pregou-lhe uma gargalhada.

--Ajeita-me o pequeno, ouves? V l que talvez esteja molhado. E
deixa-te de cantigas, que hoje  dia de Entrudo.

A mulher ia reguingar; mas ele, pegando-lhe de um brao, levou-a ao p
da criana, afirmando-lhe s  risadas que sim, que o pequeno era filho
dele.

--O pequeno?... mas  que pode ser cachopa--disse o Jos Grilo para a
mulher.--E certificando-se:--Nada!  rapaz.

Seguiu-se uma altercao. A senhora Joana, a chorar, ia jurando pela
sua salvao que o criano era filho do seu homem.

--Ai Jesus que estou perdida! chamava ela muito cmica, braos no ar, o
balandrau da saia amarela enfiado pelo pescoo num jeito de
sobrepeliz.--M hora em que me eu casei! ai Jesus que vai ser de mim!

--Olha que  rapaz, ouves? anda c ver que  rapaz--disse-lhe de l o
Jos Grilo, muito fleumtico, debruado sobre a criana.

Mas como visse que a mulher continuava num estardalhao, muito
aflita, desaustinada pelos cantos da casa, o Jos Grilo virou-se para
ela e disse-lhe muito solene:

--Pois assim me Deus salve como no  meu o rapaz.

Ao ouvir assim falar o seu Jos, a senhora Joana voltou-se logo para
ele, olhos esbugalhados, muito suspensa.

--Juras pelas cinco chagas,  homem?

--Juro pelas cinco chagas.

--Assim te Deus d sade,  Jos?

--Assim me Deus d sade.

--Preto sejas tu como o teu chapu?

--Preto seja eu como o meu chapu.

A senhora Joana botou-se logo a correr para um canto da casa, e abrindo
a arca de pinho, do bragal, entrou aos beijos a uma Nossa Senhora da
Conceio, pegada na face interna da tampa, com bocadinhos de hstia.

Depois desabafou, muito aliviada:

--Ai!

O Jos Grilo ps-se a rir.--O demnio da Joana, com cimes!

--Mas cimes de qu,  mulher? no fars favor de me dizer de que diabo
tens tu cimes?--perguntava muito casto o amigo Jos Grilo, serenssimo
diante da mulher desconfiada.

A outra, muito delambida, redarguiu com ironia--que o seu homem era um
santinho...--O Jos Grilo ia defender-se. Mas ela, atalhando logo,
reguingou de alto:

--Sabes tu que mais? estafermos  o que mais h. Olha a cadela que
enjeitou este...

Aqui, fez uma suspenso; depois perguntou, muito lampeira:

--Mas quem seria a grande cadela?

Ps-se ento a mirar muito o pequeno, a ver se lhe dava ares de algum,
murmurando frases de dio, moralistas:

--Precisava ser enforcada, a tua me; quem quer que  tem mesmo
entranhas de lobo.

O pequenino entrou a vagir, muito friorento, embrulhado numa camisa do
Jos Grilo.

-- fome, coitadinho! o infeliz inda no sabe que coisa  mamar--disse
contristado o lavrador.

Foi-se logo  porta, a ver se a Brites chegava. Mas quem vinha com a
Ana era a outra, a Doroteia do Antnio das Veredas.

--Tua irm, tua irm  que se c precisava. Que demnio vens tu c
fazer? Ouves? no me dirs que diabo vens tu c fazer?--E deu um bofeto
na filha, para que soubesse dar o recado.

A Doroteia ps-se a explicar que a rapariga no tinha culpa. A irm 
que a mandara para levar a criana, porque ela, adoentada, fazia-lhe
mal sair de casa assim cedo...

--S se lhe queres tu dar de mamar--insistiu ainda o Jos Grilo, virado
para a Doroteia, irreverente pelos seus dezanove anos inda virgens.

A senhora Joana fez-lhe de dentro que se calasse:

--Credo, homem! essas coisas no se dizem, nem por graa.

--Eu sei l se no se dizem?--observou o lavrador, muito zangado.--D c
da o pequeno.

Veio a senhora Joana com o embrulhinho, que entregou ao Jos Grilo. O
lavrador dep-lo nos braos da Doroteia, com mil cuidados, e depois
ele mesmo ajudou as mulheres a ajeitar o pequenino, em termos que fosse
bem quente.

--Roda forte, ouves? E diz l a tua me que eu de tarde por l apareo,
p'ra ver isto do ajuste.

A rapariga saiu. E como o lavrador desse f que tinham ali ficado os
farrapos, gritou para a rapariga:

-- D'roteia! espera que inda c ficou isto.

Ento ps-lhe os farrapos ao ombro--uns pedaos miserveis de velha
chita--e a Doroteia partiu onde  irm.


II

_Quarta-feira anterior a Domingo Gordo. Monte do Rosrio. Em casa de
Antnio Palma, casado com Rufina Maria_


O Antnio Palma tinha acabado de jantar, rodeado da pequenada. A mulher,
a Rufina, principiava a lavar a loia, quando  grade do quinchoso uma
voz chamou:

-- Sr.^a Rufina!

Vieram os pequenos, veio o Antnio Palma, a mulher com as mos
fumegantes. Foi preciso fazer calar o _Farrusco_ para se poder ouvir o
que dizia aquela mulher que lhes estava falando do caminho.

--Queria-lhe uma palavrinha, a si mais ao seu homem.

O Palma foi abrir o cancelrio. E foi com grande desgosto que deu de
cara com a Francisca Fortunata, de grande ventre alado, uma
desavergonhada que tinha fugido ao marido, o Jos Toms negociante de
gado. Entrou, fizeram-lhe uma recepo fria. Os prprios pequenos
olhavam desconfiados e silenciosos aquela grande mulher gorda que eles
no conheciam. Ela sentou-se logo num saco, muito esfalfada, enquanto
o Palma e a mulher afectavam procurar ambos um banco, acotovelando-se,
com trejeitos de quem se sentia arreliado com a visita. O _Farrusco_
investiu com a mulher, achando-a estranha; mas uma vez enxotado com o
pontap do Palma, fez-se na casa um grande silncio, e a mulher comeou
assim:

--Venho pedir por caridade e esmola que me deixem aqui estar uns dias.
J vem como eu ando, isto deve estar por pouco. Logo que tenha o meu
filho, em arribando da quebreira do parto, deixo-os e vou-me embora. L
em casa de minha me aquilo  uma grande misria, passam-se dias que
no comemos. No h uma cama, a gente dorme sobre umas palhas, sem
jeitos de roupa com que se cubra. Mas eu ando neste estado, bem vem
como eu ando...

Aqui desatou a chorar, levando aos olhos o avental miservel. O Palma e
a mulher diziam no sei que monosslabos, o _Farrusco_ rosnava. A outra
prosseguiu:

--No  por mim, sabem? no  por mim.  este inocentinho que tem de
nascer no cho, como os ces... Bem sabem que isto custa. Pouco se me
dava de morrer, afinal, mas queria que o meu filho vivesse...
Coitadinho!

Ergueu-se num mpeto, depois caiu de joelhos, mos erguidas para o
Palma e para a mulher.

--Pelas cinco chagas de Nosso Senhor! exclamou.

O Palma fez para a mulher um gesto resignado e de lstima. Cada um de
seu lado, ajudaram-na a levantar-se, dizendo-lhe submissamente que tudo
se havia de arranjar, que sossegasse.

--Que a falar os pontos de verdade, Sr.^a Fortunata, vossemec  que
tem a culpa desses trabalhos, disse-lhe logo o Palma.

Ela escondeu a cara no avental, fazendo-lhe com a mo que se calasse.

--M sorte daquele pobre Jos Toms, acabou-se! Quando ele casou com
vossemec antes tivesse quebrado uma perna.

Ela chorava cada vez mais, parecendo muito aflita.

--Agora a o tem, anda por esses caminhos que parece doido. Nem gado,
nem o diabo. Des'que vossemec alvorou que o rapaz no vai a uma feira.
Pois olhe que era homem para juntar, videiro como poucos.

Ps-se a fazer um cigarro, olhando os pequenos atnitos. Depois
continuou:

--Esteve aqui um destes dias, por sinal que sentado nesse mesmo
saco...

A Fortunata levantou-se num mpeto, como se o saco a repelisse. O
Palma prosseguiu:

--Sente-se vossemec, mulher, o saco no faz ao caso. Pois foi a
mesmo que ele esteve, at parecia um pobre de pedir. Nem botes na
camisa, coitado! Mas pela conversa bem se v que inda lhe no quer mal.
Que a bem dizer ele quase no conversa, anda a modos que amalucado,
sempre a levar a mo  cabea, como se l dentro aquilo andasse azoado.
E mais  que bem pode o rapaz dar em doido...

A senhora Rufina foi de parecer que doido j ele andava. Passavam-se
dias que no aparecia em casa do tio Jos Garo, que o levara logo
para ele, mal a Sr.^a Fortunata o deixara. Por onde andava? que fazia?
Contava-se que uma noite dormira numa coutada, no mesmo telheiro que os
porcos. Que doutra vez fora ter com o vigrio para que lhe baptizasse o
filho, dizendo que j tinha nascido.

--No filho inda ele aqui se ps a falar, lembrou o Palma.--Anda com
ela ferrada que o filho j nasceu.

Aqui, a Fortunata, de p junto  porta, rompeu numa choradeira, ouvindo
falar no filho. O Palma interveio, condodo, dizendo que se no
afligisse, que o filho sempre teria uma caminha onde nascesse.

Ela ia ajoelhar, o Palma no deixou.

--No  por vossemec, mulher, assim me Deus salve como no  por
vossemec. Mas  que o inocentinho que a traz esse  que no tem
culpa. Fao de conta que  o pai que me pede, o pobre Jos Toms.
Vossemec bem sabe que eu era amigo do Jos Toms. Diabo! a gente j
diz _era_, j fala nele como se o pobre tivesse morrido...

Nisto vieram chamar o Palma, que no lameiro ali em baixo andavam uns
bois que no eram dele. Foi-se a buscar um marmeleiro, e depois,
quando j ia para sair, disse em resumo:

--Fique vossemec ento, Sr.^a Fortunata. Ouves, Rufina? Talvez que ela
inda no jantasse. Faz-lhe a cama l dentro, e o resto arranjem-se.

Caso  que a Maria Fortunata, amanhecendo para Domingo Gordo, desentupiu
e teve um filho. Mas nem sequer o tinha ainda beijado, nem lhe tinha
feito uma carcia, quando por volta do meio-dia a av do pequeno ali
chegou, vinda de longe. O Palma que estava no quinchoso, a dar a bolota
aos cevados, ficou espantado:

--Pois senhores! havia de jurar que voc adivinha, Sr.^a Ana!

Ela, sem mais rodeios, perguntou se a criana j tinha nascido.

--J nasceu, sim senhora, v l dentro se a quer ver. Venha da.

Mas iam ainda  porta, quando a velha, filando o brao do Palma, lhe
perguntou num sobressalto:

--Vivo ou morto, Sr. Antnio?

O Palma percebeu. O estafermo da velha queria que a criana nascesse
morta. Aquilo fez-lhe nojo, deram-lhe ganas de correr a mulher a
pontaps. Conteve-se. Mas todo ele vibrou de clera, quando em presena
do pequenino a velha, sem o beijar, perguntou o que se lhe havia de
fazer.

O Palma, furioso, repeliu a mulher com desprezo. E como ela insistisse
com a pergunta: que se h-de agora fazer a isto? ele redarguiu,
irado;

--Dar-lhe de mamar, est bem visto. Inda voc pergunta o que se h-de
fazer  criana. Talvez voc queira que o pequeno v j cavar...

A velha ia falar.

--Nem pio, seu estafermo! Que tal  o amor que voc lhe tem, que inda
nem sequer a beijou. Nem a me o beijou ainda, coitadinho! Voc j viu
uma cadela quando tem os filhos, j viu? Com mil diabos, qualquer
cadela vale mais que vocs duas.

O Palma ia-se pondo amarelo, a Sr.^a Rufina interveio, aconselhando-o a
que sasse.

--Saio, e vou-me embora, ouviste? Ouviste? Aparelho a gua e vou-me de
vspera at  feira.

Ps-se a procurar pelos cantos, aqui os estribos, alm o freio da gua.

--Tanto faz ir amanh cedo, como ir j agora.  j de cara. Mete-me
qualquer coisa nos alforges, que vou j aparelhar a gua.

Da a meia hora, o Palma montava  porta, no meio do rancho dos
cevados, e chamando a mulher dizia-lhe com m cara:

--Em estando capaz, rua!

--Daqui a trs dias, talvez...

--Ento at daqui a quatro. Ouves? E olha se defumas a casa, quando
esses estafermos sarem.

Ora o Antnio Palma a virar costas, e a velha a sair porta fora--com o
embrulhinho do neto ao colo...

Como ela corre, a maldita! Parece que o leva roubado...

Onde passou ela o dia? Onde passou ela a noite? No sei. Caso  que na
madrugada seguinte, a desavergonhada abandonava o pequenino  porta do
Jos Grilo.

Madrugada de Fevereiro, nevava...


III


Quando a Doroteia saiu com o pequeno, para o levar  irm, tinha
amanhecido havia pouco. A neve cessara; mas um nordeste frigidssimo
retalhava a cara da rapariga, encolhida sob aquela atmosfera de gelo.
Nunca o souto que ia atravessando lhe parecera to comprido e to
triste. Os grandes castanheiros despidos, cheios de neve at ao alto,
faziam-lhe mais viva e mais cortante aquela impresso de frio. O cho
estava coberto de neve; e l em cima, muito alto, o cu muito azul
anunciava um dia de sol.

A rapariga ia triste. Dir-se-ia que a tristeza lhe nascia toda
daquele lado em contacto com o pequenino...

Por isso quando passou pela azenha, e que a mulher do Paulo lhe
perguntou o que levava ali, erguendo a voz sobre o rudo forte da
levada, a rapariga entrou de chorar e respondeu que era um enjeitadinho.

--Um qu, mulher? que dizes tu? insistiu a outra.

Mas o moleiro, que vinha chegando, especou diante da mulher, e repetiu
como um eco:

--...Um enjeitadinho.

Entreolharam-se os trs, numa incerteza vaga.

--Sim, um enjeitadinho, deve ser isso...--continuou o moleiro.--E
da... pode ser que no seja...

A rapariga, muito impaciente, perguntou se sabiam alguma coisa.

--Nada! pode ser que a histria seja outra--elucidou o moleiro.--Onde
foi que isso foi posto?

--Esta madrugada,  porta do Jos Grilo.

--Ol! isso ento pode ser coisa dele--observou a rir o moleiro.--Esse
diabo no  seguro.

Puseram-se a rir da lembrana. J dentro do moinho, o homem ps-se a
explicar  rapariga:

-- que ontem  noite veio aqui um homem pedir pousada, um homem a
modos que adoidado. Boa figura de homem, por sinal. Assim s  primeiras,
tanto eu como a Lusa tivemos o nosso medo...

-- Doroteia! interrompeu a mulher do moleiro, d c o menino e
senta-te. Vou-lhe dar de mamar, que o pobrezinho h-de ter fome.

A Doroteia passou a criana para os braos da moleira. Foi uma alegria
ao verem-no sugar no peito, minsculo, com os olhitos inda fechados.

--Meu rico anjinho, meu amor! A fome que o desgraadinho tem! Quem seria
a desavergonhada?...

--Mas depois? inquiriu a Doroteia, voltando-se para o moleiro.

--Depois, dormiu c, a lhe demos da ceia e a ficou. Mas d-se o caso
que o homem no pregou olho em toda a noite, sempre a malucar, num
falatrio pegado. Que o filho era dele, que se a cabra da me
teimasse em o enjeitar, ele ia dar parte  justia. Um arrazoado
assim, muito comprido.

Espantada, a Doroteia ia falar.

--Mas espera, que o melhor da festa  que o homem to depressa dizia
isto, como dizia que o filho j tinha nascido, que era muito lindo, que
onde ele o tinha escondido ningum lho ia roubar.

Ficaram-se um instante a mirar consolados a criana.

A pobrezinha vagia, mamando com sofreguido.

--Mas ento sempre ele sabe do filho, reatou com interesse a
Doroteia.--Ora! assim este enjeitadinho soubesse quem era o pai,
coitadinho!

A Sr.^a Lusa, que no gostara que se recolhesse o homem, resumiu com ar
compungido:

--Um doido, o pobre de Cristo! Deix-lo ir!

Fez-se um silncio, mirando todos a criana. A taramela do moinho
batia, num ritmo vivo. Maquiando uns sacos, o moleiro explicou ainda
que o homem alvorara muito cedo, debaixo de neve, sem ao menos dizer
obrigado. Mas que perguntando-lhe onde ia aquelas horas, o outro lhe
respondera:--Para a feira. Vender um gado.

--Ora v l o diabo entender isto!--rematou por fim o moleiro. Um doido
a vender gado.

Conversaram sobre o caso, algum tempo. At que a Doroteia, com pressa
por causa da irm, pegou outra vez na criana e abalou pela porta fora,
direita  casa do pai.

--Olha os trapos,  Doroteia! olha que deixas c isto.--E o Paulo
correu a levar  rapariga os trapos segunda vez esquecidos, e que eram
todo o enxoval do triste pequenino...

Ia mais contente, a Doroteia. Ao menos levava a certeza de que a
criana no ia com fome. E para que tambm no fosse com frio, a boa da
rapariga achegava ao peito o enjeitadinho, numa solicitude toda
materna.

--Louvado seja Deus! ia dizendo a rapariga. Como haver gente que seja
capaz destas crueldades! A nevar, e deixa-se assim um inocentinho,
embrulhado em dois farrapos, na soleira de uma porta! Vamos que o Jos
Grilo no dava f! Ali se morria de frio o anjinho, capaz de virem
depois os ces e com-lo.

E espreitando pela fenda estreita do xaile:

--Meu anjinho! que ruim cadela que foi a tua me, ora foi?

--Foi! rugiu uma voz detrs dela, como um eco.

A Doroteia deitou a fugir, espavorida. Mas aquele homem que j de
longe a acompanhava, sem ela dar f, corria tambm atrs dela, e no
tardou que a filasse, como um lobo. A rapariga soltou um grito, ia cair
com o susto; mas valeu-lhe que nesse mesmo instante uma voz que ela
conhecia gritou ali de perto:

--Larga a rapariga,  Jos Toms! Larga a cachopa!

E de um pulo, o pastor caiu entre os dois, separando-os.

-- o Jos Toms que est doido,--explicou o pastor.--Desde que a
mulher lhe fugiu, que o pobre anda assim, coitado!

Mas palavras no eram ditas, eis que o Jos Toms de novo se arremessa
 rapariga.

--Tu que levas a? Tu levas a o meu filho!--rugiu ele com voz
furiosa.

E como se sentisse agarrado, e visse que acudia mais gente, o pobre
lanou-se por terra, de joelhos sobre a neve, as mos erguidas,
impetrando a chorar que lhe dessem o seu filho...

A Doroteia cobrou nimo, ao ver-se rodeada de gente.

E fez-se luz no seu esprito, quando reparou que os trapos do
enjeitadinho eram reconhecidos pelo doido que os estava mirando, a
rir-se...

--Conheces? perguntou-lhe a rapariga.

No xtase em que cara, mirando e remirando os farrapos, o doido no
respondeu.

--Se conheces isso? perguntaram-lhe uns poucos.

Nem palavra. Nada a no ser um riso nervoso que o sacudia todo. Como
estava de joelhos, quiseram levant-lo; mas ele ento ops-se, caindo
sobre os calcanhares.

E ria... ria... enquanto dos olhos amortecidos, cravados no miservel
farrapo, as lgrimas corriam, copiosas...

Mas da a pouco, pelas palavras soltas do doido, todos ficaram
percebendo. Os farrapos que embrulhavam a criana eram da saia da me. A
me era a mulher do Jos Toms, e o pequenino era filho dele... A
grande cadela tinha abandonado o pequeno, depois de ter fugido ao
homem!

--Um raio venha que a parta! rogou do lado o pastor.--Ora vs a um
estafermo que precisava que a matassem!

O Jos Toms ps-se a rir muito, fitando aquela gente. Uma forte
impresso de piedade estampava-se em todos os rostos.

-- Doroteia! chamou ento um dos do grupo. Traz aqui o menino. Um pai
deve sempre beijar o seu filho. Traz c o pequeno,  rapariga.

Mas no foi preciso; que o Jos Toms, sempre de joelhos sobre a neve,
foi para ela de mos postas humilde como um rafeiro... E como aos
lbios do pai a rapariga achegasse o pequenino, no silncio que se fez
ouvia-se o rir convulso do louco, beijando de joelhos o filho.

Como se fora uma chuva de ptalas, do cu de madreprola a neve caa
mais densa...--ao mesmo tempo que nos ramos altos dos castanheiros, como
no seio imenso de um rgo, o vento sul--gemia...




ABYSSUS ABYSSUM...


Nesse dia, os dois pequenitos tinham jurado que haviam de ir ao rio.
Assim eles tivessem uma coisa boa!... Mas que tentao para ambos, o
rio! Ainda lhes soavam aos ouvidos, com todo o seu entono vibrante de
ameaa, aquelas terrveis palavras com que a me os intimidara, um dia
que lhe apareceram em casa tarde e s ms horas.

--Ouvistes?--ralhara-lhes a me.--Olhai se ouvistes: se voltais ao rio,
mato-vos com pancada. Andai l...

Ih! como ela dissera aquilo, Me Santssima! Colrica, ameaadora, com
a mo em gume sobre as suas cabecitas loiras... Lembravam-se de haver
tremido, cheios de susto, muito chegados um ao outro, humildes sob
aquela ameaa terminante. E ento, nesse dia, eles no tinham ido ao
rio. Aos pssaros sim...--l estavam as calas rotas do Manuel a
diz-lo--...aos pssaros  que eles tinham ido. Ao rio era bom! a me
que o soubesse...

Ah, mas ento no os deixassem dormir naquele quarto. Logo de manh,
mal abriam as janelas, a primeira coisa que viam era o rio, uma
corrente muito lisa e esverdeada, serpeando entre os renques baixos dos
salgueiros. L estava a ponte velha, donde os rapazes se atiravam
despidos, de cabea para baixo, e ento o barquinho branco do
fidalgo,--lindo barquinho!--sempre  espera que o fidalgo o desamarrasse
para passar  grande quinta que tinha na margem de l.

De modo que o primeiro desejo que logo pela manh assaltava os dois
rapazes era o de irem por ali abaixo, muito madrugadores, to
madrugadores como os melros, meterem-se dentro do barco, desprend-lo
da praia, e deix-lo ir ento por onde ele quisesse, contanto que fosse
sempre para diante... Quando fechavam as janelas para se deitar, a sua
vista seguia, mesmo atravs da escurido da noite, a linha que ia dar ao
barco. Era o seu--adeus at amanh!--quele pequeno objecto que valia
tesouros, que para os dois valia mais que tudo, tudo...

Ah! tivessem eles assim um barquinho, que no queriam mais nada...

--Mais nada?

--Isso no... mais alguma coisa. E a me que no ralhasse, est visto.

Mas nessa manh, bela manh, na verdade! a me viera acord-los mais
cedo. Ia j pela aldeia um claro rumor de vida--gente que passava para
os campos, os solavancos dos carros no empedrado pssimo da rua, os
patos da vizinhana que saam em rancho para a digresso pelos prados,
grasnando ruidosamente, levantando-se em voos curtos, espantados da
agresso acintosa dos rapazes. Havia mais de uma hora que ali perto
se ouvia o retimtim agudo do martelo do ferrador atarracando cravos na
bigorna. J o reitor passara para a missa, em batina, muito hirto e
vagaroso, as chaves da igreja na mo esquerda e na direita a cabacita do
vinho. E quela hora, onde iria j a missa! A ltima beata, encapuada
e lenta, recolhera, trazendo consigo a esteira em que ajoelhara na
igreja. Havia mais de meia hora que o Joo carpinteiro, no meio da rua,
dava com valentia num carro cujo eixo _ardera_ na vspera, e que era
urgente compor, p'los modos. At o Ernestinho do estanco abrira j a
loja, e subira  varanda a regar os manjericos. Comeos da labuta
diria, enfim; os senhores sabem.

Pois como lhes disse, a me viera nessa manh acordar mais cedo os dois
pequenos.

--Fora, mandries, vamos!  preciso afazerem-se a madrugar, que tal
est! Ai, ai, dia claro h que tempos, vem a o sol, e os morgadinhos
na cama.--E enquanto falava, ia-lhes abrindo as janelas.--Persignar e
vestir, vamos! Calas... colete... os jaquetes... tomem.

E ps-lhes tudo sobre a cama.

--Me, a bno!--balbuciaram os dois, tontos do sono ainda.

--Deus os abenoe. Que Deus no abenoa mandries, ouviram? Ora eu j
volto. Queira Deus que no vos encontre c fora, tendes que ver.

Os dois sentaram-se na cama para se vestir, contrafeitos, fechando os
olhos quela hostilidade viva da luz que invadira o quarto num jacto
repentino e brutal. Pela abertura larga da camisa assomava-lhes o peito
que eles afagavam numa ltima carcia, suavemente, docemente. Seria
to bom tornar a adormecer, assim mesmo sentados! O mais novito ainda
tentou deitar-se outra vez, pesaroso de ter de abandonar j o aconchego
morno da cama, onde se estava to bem! onde os sonhos eram to lindos!

Mas a me no tardava ali. Era preciso vestirem-se, que remdio! Foi
ento que o Manuel, mais esperto do sono, olhando para o campo o achou
encantador, todo resplandecente de verduras.

--Bonita manh, no vs? As rvores parecem mais lindas, repara. Porque
ser?

O outro encolheu os ombros, no sabia: s se fosse por no haver
nuvens...

Pela janela aberta, avistava-se um trecho de paisagem que a luz viva da
manh fazia muito ntida. As vinhas tinham um verde encantador, muito
suave, trepando encosta acima, fazendo contraste com a rama escura das
laranjeiras que cerravam alas nos pomares hmidos das baixas. Revestidos
de folhagem, ascendiam ares fora os olmos gigantescos. Pedaos de horta
estavam em toda a pompa do seu vio e da sua frescura. Viam-se as rodas
das noras, latadas compridas a cuja sombra regalam as merendas.

Um renque de choupos esguios marcava a borda do rio que nessa manh
deslizava muito sereno, esverdeado de guas, espelhante sob aquele cu
imaculado.

--Ah! ah!...--riu-se o Manuel, contemplando-o.--O rio! Que te parece?
Olha que  lindo, o rio; ora ,  Antnio?

--, l isso... Mas _tamm_ de que vale?--tornou-lhe com desalento o
irmo.--A gente no pode l ir... Olha se a me o soubesse, han?--E
mirando por sua vez a paisagem perguntou:--J reparaste no barco, 
Manuel?

--To bonito!

Os dois riram.

--Parece pintado de novo... E nem se mexe, repara.

--Pudera!...--explicou o Manuel--...amarrado com uma corda...--E depois
radiante, gesticulando para o irmo:--Mas eu era capaz de o
desamarrar...

--Ai eras!--disse duvidoso o Antnio, para o incitar.

Calaram-se. Era bom pod-lo desamarrar, l isso era. Ambos dentro
dele, sozinhos, isso  que seria bom! E eles ento que estavam mortos
por ir s  azenhas, e pelo rio era um instante enquanto l chegavam. O
barco! Era to bom andar no barco! E aquele ento era lindo, como no
tinham ainda visto outro. Nunca lhes haviam esquecido--olhem l no
esquecessem!--aquelas tardes em que o fidalgo os levara dentro do
barquinho, ensinando-lhes como se remava.

O Manuel foi o primeiro que se vestiu, e foi logo direito  janela.
Passava naquele instante um bando de andorinhas, chilreando.

--Est um dia lindo, avia-te.

--Olha avia-te! p'ra qu?--perguntou o Antnio torcendo e retorcendo o
p para enfiar o sapato, apoiado com as mos ambas na borda da cama.

O Manuel sorriu-se, triste.--Era verdade... Aviarem-se p'ra qu? A me
no os deixava ir ao rio... E se no que fossem! Mato-vos com pancada
se desceis a ladeira. J se v que depois disto...--E os dois
suspiravam, desgostosos. Que pena serem pequenos!

Nisto o Antnio chegou-se tambm para a janela. Que lindo, o campo!
Mas os olhos dos dois no se desfitavam do barco, fascinados. Demnio de
tentao! E para mais, tinham-no pintado de novo: sobre o branco, a todo
o comprimento, uma faixa azul-clara destacava nitidamente, parece que
apenas meio palmo acima do nvel da gua.

--Tate,  Manuel! E se fugssemos?

--Ora! se fugssemos!... E depois? A gente tnhamos de voltar...

Ora a esta! isso  que era o pior! A me, depois, era capaz de fazer o
que tinha prometido. E arregalando muito os olhos, imitando a clera da
me:--Se voltais ao rio... Ai, ai, a triste sorte!

Recaram em silncio. Ficaram-se por instantes a ver o sol que rompia
ao nascente, numa exploso violenta de luz, acendendo coloridos na
largura muito ampla da paisagem.

--Mas palavra que o barco parece pintado de novo... relembrou com
alegria o Manuel.

--Mas  que est, palavra que est. Agora  que h-de ser bom andar
dentro dele...

Os dois riram-se muito quela ideia encantadora de andarem no
barquinho, assim pintado de novo. Diacho! e porque no? Por isso,
cobrando nimo, o Antnio disse resoluto:

--Olha agora o medo! Seguro que nos mata.--E puxando-o pela
jaqueta:--Vamos l,  Manuel?

O Manuel fez que no com a cabea, e espreitou se vinha a me. Como no
vinha, disse baixo ao irmo:

-- tardinha, hein? dois pulos e estamos l. No  to fcil dar pela
nossa falta, ali  tardinha. A gente finge que vai para o adro.
Levam-se os pees...

--H-de ser mesmo assim!  tardinha!--concordou o Antnio.--Eh! eh! eu
c desatraco.

--E eu remo,--disse logo o Manuel com gesto de quem remava.

--Ao leme vou eu: o leme  aquilo que regula--explicou.

--Pois sim, mas  vinda pertence-me a mim, remas tu. Se quiseres
assim...

--Pois est bem, quero! Assim mesmo  que h-de ser!

E recapitulando, para melhor ficarem combinados:

--Ao p'ra baixo remo eu, ora remo?

--Remas.

--E tu regulas, ora regulas?

--Regulo.

--Ao p'ra cima  s  avessas, ora ?

--.

Muito bem, basta palavra! E ambos ao mesmo tempo, um ao outro se
impuseram segredo...

--Schiu!...

--Schiu!

       *       *       *       *       *

A tarde descaa lmpida. Na vasta cpula do cu, penachos de nuvens
alvejavam, imveis.

Acesas naquela exploso rubra do ocaso, as arestas dos montes
franjavam-se de prpura e oiro, na decorao mgica dos poentes.
Comeava de cair sobre os campos a larga paz tranquila dos crepsculos,
e uma quietao dulcssima e vagamente melanclica entrava de adormecer
a natureza para o grande sono reparador de toda a noite.

...E a tarde ia descaindo, cada vez mais lmpida.

Naquela luz indecisa de crepsculo que mansamente se ia acentuando,
os montes do sul tomavam um torvo aspecto de sombras gigantescas,
imobilizados num fundo em que se iam apagando ao de leve todos os
cambiantes de luz. Os pormenores da paisagem perdiam-se naquela
indeciso vaga de noite que vinha descendo, e uma espcie de silncio
confrangedor dominava a natureza toda, recolhida num como espasmo
amedrontador e sinistro que dentro de ns evoca a essa hora no sei que
vagos receios ou medos inconscientes que fazem com que na imaginao as
coisas criem vulto, e no mundo exterior obrigam a retina a exagerar as
formas s  coisas...

Muda de gorjeios, atravessando o espao em voos muito rpidos, a
passarada demandava os ninhos onde se acoitasse do frio que acordava.
Caam j pesadas sobre os vales as sombras das montanhas, e um
fumozito subtilmente azulado nadava  flor das coisas, velando-as para o
tranquilo sono em que iam adormecer.

E a tal hora e no meio de tal silncio, o barquinho branco deslizava
mansamente sobre a gua tranquila do rio, onde as primeiras estrelas
comeavam de lampejar. Dentro dele, os dois irmozitos silenciosos
iam-se deixando enlevar naquele rudo suave dos remos abrindo fendo
nas guas... No! era bem certo que eles no tinham jamais sentido uma
to poderosa e viva alegria--alegria doida que lhes transvazava do peito,
fundindo-se em energia nos msculos e cristalizando-se nos lbios em
sorrisos.

Dentro daquele adorado barco, assim no meio do rio, eram senhores
absolutos da sua vontade, poderiam ir para onde lhes parecesse, livres
de admoestaes alheias, sozinhos, independentes. E esta feliz convico
de liberdade alcanada, fazia-os agora orgulhosos, alm de os encher de
alegria. Por certo eles nunca tinham sido to felizes, e quem sabe se o
seriam jamais?... No entanto a noite acentuava-se. Espertava nas
margens o marulho da gua nas razes fundas dos salgueiros. No cu alto
e sereno cintilavam as estrelas em cardumes.

--Remas, Antnio?--perguntou o do leme.--Olha se a vs...--E apontava
para Vsper, a estrela que mais brilhava.

Tinham os dois concebido o estranho desejo de alcanar a estrela cujo
brilho diamantino os fascinava. To linda!

--Anda-me tu com o leme!--tornou-lhe com intimativa o Manuel.--Ai a
estrelinha! Deixa que ela faz-se fina, mas havemos de passar-lhe
adiante, s por isso...

--Olha o milagre! Ela est queda!--fez o outro, convencido da
facilidade da empresa.

--Est queda, est queda, mas sempre na frente de ns; vai l
entend-la. Olha como brilha,  Antnio.

--Mas rema que eu c vou, falta pouco. Ao direito daquela fraga  que
ela est.

No era difcil passar-lhe adiante, qual era? Era menos de meia hora
era certo alcan-la.

E engastada no azul escuro do cu, a estrela parecia brilhar mais,
quanto mais a olhavam.

--De que so feitas as estrelas?--perguntou o mais novito.

--De prata, pois est visto.

Ento o outro, lanando um amplo olhar  vastido infinita do cu,
exclamou:

--Eh! tanta prata!

--O sol, esse  de oiro--disse ainda o Manuel.

--Bem de ver!--volveu-lhe convencido o irmo.--Que eu, se me dessem 
escolha, antes queria as estrelas. Olha que rebanho!

--Pois eu antes queria o sol. Com licena do teu querer, sempre  mais
grande.

E enquanto falavam, os dois no desfitavam olhos da estrela feiticeira
que perseguiam. Os remos, no entanto, iam abrindo fenda na gua, com
certo rudo muito doce... E l no alto cu, dir-se-ia que de instante
para instante a feiticeira estrela mais brilhava, incitando-os.

--V-la a fazer assim?--e ps-se a pestanejar, imitando a palpitao
crebra e irregular da luz sideral.

-- que tem sono--respondeu o outro.

--Olha que no. Aquilo  a fazer-nos negaas, _tamm_ to digo.

--Ai ?! Pois que faa as negaas e que se descuide: se malha c baixo,
bem se afoga...--E apontando-lhe um punho cerrado, gritou a rir:--Eh,
_boieira_!

Neste momento, uma estrela cadente abriu esteira de prata no azul,
sumindo-se rapidamente. Os pequenos ficaram com medo e ambos murmuraram
em tom de reza as palavras rituais:

Deus te guie bem guiada,
Que no cu foste criada.

--Vs? disse o Manuel que era dos dois o mais supersticioso.--Torna a
apontar para elas... Eu c no aponto, que nascem cravos nas mos.

--A ti talharam-te o ar,  Manuel.

--Diz a me.  meia-noite levaram-me  fonte e esparrinharam-me gua
para o corpo. E a gua havia de estar fria... observou, encolhendo os
ombros. Depois, viraram-me para as estrelas e disse ento a me:

Ar vejo,
Lua vejo,
Estrelas vejo:
O mal do meu corpo
Pr'a trs das costas o despejo.

Riram muito. O Manuel, despidinho, couracho ao colo da me, havia de ser
engraado. E ento todos de volta, a ver quando o ar se talhava.

--Mas talhou-se. Agora, em paga, uma vez por ano, ao menos uma vez por
ano, tenho de olhar pelos ralos do leno p'r'as _cinco chagas_, umas
estrelas que alm esto, e rezar uma ave-maria.

--Sempre, sempre?

--At que morra. Depois de morrer vou morar trs dias com trs noites
dentro de uma.

--Ora! tornou-lhe incrdulo o irmo.--Tu no cabes l...

--No sei: assim  que anda nos livros.

...Mas os braos doam j dos remos, doam muito...

Devia ser tarde, e eles sem darem f, enlevados como iam no desejo
louco de alcanar a estrela.

A noite estava calma, no bulia nas ramagens ramo verde de salgueiro, um
silncio contnuo dominava tudo em volta. E amolentadora e mrmura, a
gua da corrente ia espumando na quilha, com certo rudo de uma brandura
suavssima e doce.

...Mas os braos cada vez doam mais!...

Agora, no cu, havia muitas estrelas brilhantes, muitas, mas nenhuma
como aquela, ainda assim. Entretanto os dois pequenos entraram de olhar
menos para ela, pois que irresistivelmente a cabea lhes pendia para o
peito, e as plpebras se lhes cerravam, a despeito de todo o esforo.

...E os braos sempre a doerem!...

Por algum tempo, os remos foram com a p mergulhada na corrente,
cortando-a com levssimo rudo. Imobilizara-se tambm o cabo do leme,
sem que nenhum dos dois irmos desse f do sbito desleixo do outro.

...E os braos j no doam, nem ao de leve sequer...

O pequeno barco vogava agora  merc da corrente, sem impulso algum
estranho. Dentro dele... a msica levssima das respiraes dos dois
pequenos adormecidos...

Algum tempo assim. Seno quando, um rudo surdo, e logo um movimento
brusco de balano, fez acordar o do leme.

Na grande alucinao do perigo, desvairado pelo medo, gritou
imediatamente:

--Manuel!  Manuel!

O remador acordou, sobressaltado.

--A estrela? Ainda l est, olha!--disse incoerente, estonteado pelo
sono.

--Uma fraga de cada lado! Ouves o rio?  j muito tarde!--continuou
aflito o Antnio.

--Ento no lhe passamos adiante?--perguntou ingenuamente o Manuel,
referindo-se ainda  estrela.

Mas o irmo, sacudindo-o convulsamente, procurando cham-lo  realidade,
de novo lhe gritou, com lgrimas na voz:

--Manuel, acorda! Olha que estamos perdidos, Manuel!

E mal conheceram o grande perigo em que estavam, ambos romperam num
choro muito convulso, agarrados um ao outro, feridos de um terrvel
susto que a hora e o lugar aumentavam cruelmente. Parecia-lhes medonho
aquele marulhar contnuo da corrente, afligia-os como se fosse o
psalmodiar montono e rouco de uma legio de espritos maus,
preludiando-lhes as agonias lentas da morte. Aos dois pequenos os
rochedos informes das margens afiguravam-se-lhes negros gigantes, que
num requinte de malvada indiferena houvessem jurado assistir
impassveis e mudos  escura tragdia da sua desgraa.

E o barco sempre encalhado, no havia foras que o arrancassem dali.
Tinham perdido os remos. Teriam de esperar que amanhecesse e algum
viesse acudir-lhes, algum que ouvisse de longe os seus aflitivos
gritos.

Crudelssimo transe!...

E ento os braos continuavam a doer, doa-lhes agora o corpo todo, ao
mesmo tempo que uma tristeza mais e mais pesada lhes oprimia o
esprito, parece que embrutecendo-os.

--Mas a estrela sempre alm...--notou ainda o Manuel, balbuciante de
medo, como se quisesse increpar a prpria estrela da sua indiferena
criminosa, no meio daquele enorme infortnio em que por causa dela
se haviam precipitado.--Se ela pudesse acudir-nos...

At que por fim, prostrados da fadiga e das lgrimas de novo se deixaram
adormecer, era j alta noite.

Mas na sua fria constante, a corrente que ali era muito forte no
cessava de bater contra as pedras o pobre barco indefeso. At que aps
tamanho lidar, o rio safou-o de repente para um lado onde as guas se
contorciam em remoinho, e entrou de girar com ele, violentamente.
Quando a gua se precipitou para dentro, os dois pequenos assim de
sbito acordados romperam em gritos lancinantes:

--Ai quem acode! Ai Jesus, quem nos vale!

Tinha surgido a manh, serena, tranquila, cheia de gorjeios e de azul.
Mas como ningum acudisse e a luta no rio fosse desigual, num repelo
mais violento o pobre barco esfacelado investiu de proa com o abismo e
l se sumiu para sempre! Feridos de morte, no ltimo paroxismo da sua
enorme dor desesperada, os dois irmozitos abraados sumiram-se tambm
com ele!...

       *       *       *       *       *

...Nesse mesmo instante...--e mais longe do que nunca--...a estrela
feiticeira acabava de cerrar tambm a plpebra luminosa!...




ME!

_Ao Dr. J.C. da Moita Prego_


Bela cabra, a Rua!--posso diz-lo aos senhores. A melhor da manada,
luzida, de plo macio, sem salincias de ossos como as outras, altiva
de porte quando  frente do rebanho parecia comand-lo, badalando
cadencialmente o seu chocalho enorme--tlo! tlo! Era no rebanho a que
mais dava que fazer ao pastor, requerendo vigilncias particulares no
seu atrevimento, pois que se a deixassem livre no havia rvore a que
no trepasse, oliveira especialmente, nem rebento novo que no
triturasse esfomeada no seu dente acerado de roedora.

E depois, ali onde a viam, estava cara s pelas coimas, que muitas
vezes iludira ela a ateno do pastor, e se ficara por hortas e
quintalrios, causando estragos que os louvados depois avaliavam caro.
Por isso Alpio Jos, pastor, a quem doam as denncias, ao pescoo da
Rua prendera o chocalho, para dar do atrevido animal mais fcil
rumor, pois era de timbre muito distinto dos demais, e muito mais
grave.

Em pastagens pelos montados, a Rua era de uma audcia extrema. Fazia
gosto v-la trepar s  ltimas cumeadas, subir destemidamente s  arestas
superiores dos rochedos, muito serena, erecta nas suas pernas delgadas,
pescoo alto, ajoelhando destemida a retoiar as ervas dos declives
alcantilados e escorregadios, no medindo perigos nem se importando com
abismos, enquanto as companheiras se ficavam pelas encostas e crregos,
saboreando as giestas, sem se atreverem a segui-la nas suas excurses
arriscadas de _touriste_.

Se a miravam de baixo, sentia-se orgulhosa de superiores audcias, e
ento cabriolava em saltos funambulescos, de rochedo em rochedo ou de
garganta em garganta, pouco se lhe dando de perigos. Cobra que
encontrasse por essas paragens era para ela um desespero--tamanha a
fria com que a perseguia, e a insistncia com que se ficava s  marradas
na lura onde se lhe acoitava. O chocalho ento badalava com fora, e o
Alpio que dormia  sombra das azinheiras, de chapu sobre a cara,
levantava-se sobre um cotovelo e intimava para o alto, com o seu
vozeiro que fazia eco:

--Toma tento, Rua!

E depois, de ventre para baixo, estirado sobre a manta, cotovelos
fincados no cho, os queixos entre as mos espalmadas, Alpio Jos
ficava-se a olhar a cabra, invejoso daquela facilidade em subir aos
ltimos pinculos, admirado dos saltos que ela fazia para salvar
gargantas pedregosas e perpendiculares, onde, se casse, a morte seria
infalvel. E por l andava dias inteiros a Rua, naquela
vagabundagem por stios inacessveis ao resto do rebanho,
resguardando-se da chuva em recncavos de rocha, onde as guias faziam
ninho.

       *       *       *       *       *

Foi num desses stios que a Rua teve o primeiro filho, e por l se
deixou ficar, acho que dormindo ou toda a noite velando. Ao outro dia
quis ela descer, e vir para o rebanho que a aguardava. Mais de cem
vezes, fitando o topo da ladeira, Alpio Jos gritara c debaixo, cada
vez mais desesperado:

--Volta ao rebanho, Rua!

E, cuidando que mais lhe feria assim a ateno, punha-se a agitar com
fria o molho dos chocalhos, gritando sem cessar:

--Rua! torna ao rebanho, Rua!

Mas impossvel! que a no deixava a quebreira em que toda ela ficara do
parto, nem o pequeno poderia--pobrezinho!--descer por tais ladeiras, de
pedregosas e speras que eram.

Mas de noite o frio era intenso naquelas alturas, e o pequeno
congelava unindo-se  me que o bafejava para o aquecer, e a si o
aconchegava mais e mais para lhe transmitir o natural calor do seu
corpo enfraquecido e doente.

Por altas horas da noite, na solido lgubre daquele stio,
alcantilado e ngreme, entre penedias escarpadas onde o vento sibilava
lugubremente, num como choro dolente e prolongado, o balido da me,
traduzindo angstias e desesperos ntimos, respondia ao vagido fraco do
filhito, cuja vida parecia ir-se apagando de hora a hora e instante a
instante, inteiriando-se-lhe com o frio os membros delicados e tenros.

Eram assim as noitadas dos desgraados. Por tais frios e doenas,
impossvel dormir. Toda a noite velavam e gemiam, achegando-se mais e
mais num como abrao de eterna despedida--amigos que se iam apartar
para uma longa viagem de trevas, com o corao alanceado pela saudade,
soluando e gemendo, num adeus! que era infinito, como o infinito amor
que os unia...

E a cada momento, como um dobre de finados, o chocalho badalava
lugubremente, assustando o animalzinho, como se aquele fora o sinal
para o transe derradeiro...

Para maior desgraa, as noites eram sem lua. Encravadas na abbada, as
estrelas bocejavam dormentes, numa criminosa indiferena por aquela
dor suprema de que eram as nicas testemunhas.

E balando muito, e balando sempre, a pobre cabra imprecava ao cu a vida
do filho, ao menos,--ora splice em balidos de resignao que uma
profundssima dor ungia, ora desvairada e louca, em gritos que
significavam blasfmias, blasfmias de desespero contra o cu que a
no ouvia, e contra a morte que bem sentia aproximar-se para lhe
estrangular o filhinho que ela amava tanto.

E a fazer-lhe mais incruenta a sua enorme dor--a ironia acerba da
chocalhada longnqua das companheiras, que se iam pelos montes da outra
banda, deixando-a a ela sozinha com o filho,  espera da morte que era
inevitvel.

Ento ergueu-se por instantes! Agitou convulsamente o pescoo, e pelo ar
fora o som triste do chocalho espraiou-se lentamente, num adeus! adeus!
de despedida s  companheiras felizes que l iam, num rudo longnquo de
chocalhos...

       *       *       *       *       *

Naquela solido os dias eram melhores. Com os primeiros raios do sol
entravam de reanimar-se os dois; pouco a pouco os membros desentorpeciam
e o sangue circulava.

E o cabritinho sem poder ainda descer!...

De p, ao lado do filho, a pobre cabra lanava olhos compungidos para as
escarpas da ladeira, ia para um lado e outro, desvairada e trmula, como
que a escolher o melhor caminho por onde levasse o filho. Mas eram todas
horrveis! Silvedos e rocha viva era o que mais se via. E depois o rio,
l baixo, rugia nas cachoeiras, aumentando-lhe o receio.

Impossvel! impossvel!

E sentia-se enfraquecer  mngua de sustento, pois a erva, por ali,
estava comida e recomida pela pastagem miservel de trs dias.

Num momento de desespero, quando os gemidos do filho eram mais dolentes
e crebros, refez-se de coragem a cabra, e segurando entre os dentes o
chibo tentou o primeiro passo, arrastando-o pela ladeira, do lado em que
o declive era menor. Mas em breve desanimou a pobre, que o filhito,
assim arrastado, mais e mais gemia, convulsionado e trmulo...

Impossvel! impossvel!

Nada que signifique a dor daquela me, e traduzir possa em linguagem
toda a gama de sentimentos e emoes no seu balar expressos. Atirou-se
de joelhos sobre o corpinho do filho que hirto chorava e tremia,
estendido para ali, na prostrao pesada do ltimo desalento; animava-o
com carcias, aproximava-lhe da boca os beres j flcidos e
amolentados, convidando-o a mamar, como se aquele leite pudesse levar
ao filho a coragem que a ela prpria faltava em tamanho transe
aflitivo...

Mas pouco a pouco a noite ia caindo. Tinha-se j apagado a ltima
cambiante do poente, e sobre as gargantas dos montes passavam
subtilmente as primeiras nvoas, alvadias e tnues.  medida que a treva
se condensava, decresciam os rudos em todo o horizonte, acentuando-se
cada vez mais a melopeia sonolenta do rio nos audes. Perpassavam pelo
ar as aves para os ninhos. Bandos de pombas, como flocos volteis de
arminho, cortavam em voos mansos a profundidade calma do cu, demandando
os pombais e os povoados, onde se acolhessem da noite que vinha caindo.
Revoadas de perdizes e de tordos passavam por ali alegremente, num
chilrear sonoro, caindo de chofre sobre o monte, a esconderem-se nos
estevais e nas urzes. Pelas ervagens secas rastejavam apressados os
rpteis, e sob os tojais bravios a lebre buscava a cama...

...E tudo tinha ninho--pombas que voavam e perdizada sonora, quem
passava no ar e quem rastejava no monte, lagartos, sardes, cobras, toda
a colnia vagabunda de rpteis e de aves, que passou alegremente o seu
dia, e se ia recolher agora para recomear dia amanh...

S a desgraada cabra, ali, junto do filho tenro, no mais fizera
passo. Com as brumas da noite, as brumas da tristeza para o seu corao
alanceado de me. A vinha o frio inclemente flagelar-lhe o filho...--o
filho que j tremia a ela aconchegado--o triste pobrezinho!

Rompia de toda a banda o gri-gri sonoro dos grilos, vivo e cantante
naquele silncio que se definia. Cerrou de todo a noite. O cu era
baixo e torvo de nuvens. Estrelejava a espaos a abbada, irradiando
uma luz mortia e alvadia, que levava a pensar em ltimos transes de
crianas, em que a vida gradualmente se extinguisse, num latejar
vagaroso de plpebras sonolentas...

Mais lgida fazia a noite, e mais pesada de melancolias, essa torva
aparncia da atmosfera e do cu. Noite pior do que as outras, porm
com menos balidos, pois que me e filho estavam extenuados de foras e
nem gemer podiam. E a morte que no vinha arranc-los do abrao em que
se uniram, mal cerrara a noite!

A pequena distncia, o monte era cortado de profundssima garganta em
rocha viva. Do lado oposto, e quase defronte dos moribundos,
acenderam-se na treva dois pontos fosforescentes, de uma claridade
esverdeada rtila. E, imveis, esses dois olhos estoirados de lobo, a
que parecia terem arrancado as plpebras, projectavam a sua luz sinistra
na direco do grupo que velava. A natureza inteira retraa-se num
como pavor medonho, concentrado de ntimos terrores e silncios lbregos
de horas altas. Cerrava-se mais no cu a falange muda das nuvens,
densificando-se em tintas negras, impenetrveis e caliginosas, sem
cintilas de estrelas, por fugidias e tnues que fossem...

E sempre, e constantemente imveis na escurido pesada, aqueles dois
olhos flamejavam, de instante a instante mais vivazes, perscrutando a
treva da direco mais exacta do grupo. Transida de susto, arquejando
convulsamente no ltimo paroxismo da sua enorme dor, a pobre me no
ousava arriscar um nico movimento e mais e mais cerrava contra si o
corpo inanimado do filhito que parecia adormecido.

Assim durante horas que aquele atrocssimo suplcio fez enormes, quase
eternas, tumultuosas de acerbos sofrimentos e de indizveis angstias,
vazias de esperana na vida do seu pequenino filho.

De repente, aqueles dois pontos brilhantes apagaram-se na treva, e de
novo os viu brilhar a cabra, mas j a maior distncia. Estremeceu a
pobre de sbita alegria,--e no abalo que sofreu o seu corpo, at ento
retrado, o chocalho badalou. Voltou a correr o lobo, e ento a
desgraada viu errarem na treva, como dois grandes colepteros de asas
fosforescentes, os olhos at ento imveis do inimigo. E por ali
levou a noite toda, farejando e uivando, at que cansado de perscrutar o
insondvel, se foi ladeira abaixo, aos primeiros assomos da madrugada
que vinha, docemente, alumiando pncaros e arestas.

       *       *       *       *       *

Ao romper da alva o cu era azul. Apenas de longe em longe penachos de
nuvens brancas ondulavam as suas cristas alvadias, que se esfarpavam
lentamente ao menor sopro da aragem. Pouco a pouco o azul ia desmaiando,
diluindo-se na luz esbranquiada que vinha do alto em gradaes
imperceptveis e suaves.

Comeavam de animar-se os longes da paisagem, e a retina acusava j as
diferenas mais salientes dos campos e herdades, pedaos esbranquiados
de restolhos, tons pardos de olivais, terras plantadas de vinhedo, e
pinheirais cerrados galgando desfiladeiros e investindo com o cu no
alto dos montados.

Pelas ladeiras dalm, caminhos e atalhos corriam em torcicolos at ao
areal da margem. Em turbilhes de espuma alvssima precipitava-se a gua
nos audes, marulhando nos altos penedos marginais, denegridos e
informes, de uma mudez contemplativa e perptua. Do tecto do moinho, l
em baixo, uma coluna azulada de fumo elevava-se tranquilamente no ar
sereno e doce, at se desfazer no espao amplo e benigno, como uma
ambio ou como um sonho...

       *       *       *       *       *

Foi ento que Alpio Jos,  frente do rebanho, de novo abordou quelas
paragens, no intuito de procurar a cabra tresmalhada.

--Rua! torna ao rebanho, Rua!

Mas precisamente a essa hora, a Rua exalava o ltimo alento, pendida
sobre o cadver do pobre filhinho morto!...

E ao pino do meio-dia, quando o sol faiscava causticando nos
rochedos--passava na direco da montanha, crocitando lugubremente, a
esfaimada legio dos amaldioados corvos...




ARRULHOS

_A M. da Silva Gaio_.


Ao fundo do jardim ficava o pombal--uma casinhola redonda, com orifcios
triangulares no alto, em toda a volta, alegre na alvura impecvel do
muro que falava ao longe, muito ao longe, a lguas de distncia.

--Pombal da Morgada! diziam.--L se v alm...--E um gesto muito longo
levava a vista horizontes fora,  cata do Pombal da Morgada, que
alvejava longe, muito distante, na meia sombra dos montes sobranceiros,
como um pequenino ermitrio cheio de lendas, onde santos de carne e osso
provocassem romarias, promessas avultadas de pessoas ricas, e onde
seriam encantadoras as tardes quentes de estio,  sombra de rvores
seculares em cuja ramagem trinassem pssaros em barda, pardalada sonora,
gralhadora, rindo da nossa merenda e da nossa sem-cerimnia--frangos
assados e boa vinhaa da terra.

Pombal da Morgada porqu? Histria singular que vou contar-lhes. A
Morgada era uma senhora rica, muito rica, tinha vinte e cinco anos e
outras tantas quintas, viva antes de casar, pesarosa da morte
desastrada do noivo--um trambolho de um cavalo que o matara logo ali,
sem mais pio, num ai.

A recordar esse amor--um casal de pequeninos pombos que ele lhe dera na
vspera, simbolizando, dizia ele, a pureza da sua alma dela, e a
castidade das suas intenes dele...

Muito bem. Fez-se ento o pombal, o casal procriou, vieram pombos
novos--todos brancos uns, raiados outros, de um _gris_ delicadssimo
alguns, todos encantadores, veludneos, muito mansos.

Belos pombos, na verdade!

Todas as tardes, quando as tintas do crepsculo comeavam de esbater-se
numa uniformidade vagarosa de tons, e a percepo clara das coisas
entrava de se desfazer em imperceptveis _nuances_ subtis, num
_smorzando_ melanclico onde palpitavam vagos terrores de noite que vem
caindo, quando os vales se cobriam de uma sombra azulada e a vida
cessava no campo e comeava no cu em cintilaes argnteas de
estrelas--todas as tardes, digo, quem quer poderia ver aberta a
estreita porta do pombal, e uma mulher nova, vestida de preto,
espalhando no pavimento trreo, com solicitudes de _menagre_, as
provises de um pequeno cabaz que lhe pendia do brao--milho em
abundncia e fartura de alpista.

Assim todas as tardes, ia j em quatro anos, que no havia foras que
levassem a Morgada para fora do seu pequeno solar, onde vivia s,
retirada de tudo, a tudo indiferente, impassvel a pedidos de amigas
que saam para as praias, no Inverno para Lisboa, e que a queriam levar
para que se distrasse, para que se alegrasse--era nova ainda, podia
arranjar noivo, nada mais fcil...

--E as pombas? objectava.--Mas era pecado deix-las, dizia consigo.
Quando voltasse estaria deserto o pombal, umas que fugissem, outras que
matassem, haviam de at roub-las, entrar de noite no pombal, lev-las
todas.

--Que no e que no! insistia renitente;--que tivessem pacincia, que se
divertissem muito, ela ficava.

--Platonismos! gargalhavam depois as amigas.--Saudades do outro que
rebentou do trambolho. Bem tola!

E partiam ss, rindo da Morgada e do seu amor pelas pombas, achando-a
ridcula com aquele seu luto perptuo, escarnecendo da simplicidade
habitual da sua _toilette_--vestido preto todo liso, muito afogado, um
pequeno _ruche_ no pescoo e mangas, nem uma prega, nem sequer um lao.

Muito respeitadas, as pombas da Morgada. Caador que as visse no
desfechava sobre elas. Assim, a manada crescia de hoje para amanh,
desenvolvia a propagao o bom tracto, a habitao confortvel, muito
abrigada de ventos, onde a chuva no entrava e os ninhos eram
flcidos--folhas de milho mudadas cada dois dias.

Que bom, ser pombo da Morgada!

A msica dos arrulhos, uma volata muito lnguida, comeava com o
aclarar, muito cedo, depois do descanso do sono na placidez do ninho,
quando as foras eram ss e as asas pediam vos.

Hora dos amores!

Pombos atrevidos, sanguneos, de ris rutilante e ndole impaciente,
lanavam-se sobre as pombas, foravam-nas, perseguiam-nas se voejavam,
ameaando-as de bicadas primeiro, picando-as nas cabecitas se resistiam,
possuindo-as  fora, a tremer, asas em concha, penugem eriada,
arrulhando muito, arrulhando sempre, caindo desfalecidos depois,
hirtos, plpebras cerradas, trementes, frementes, em espasmos de luxria
e paroxismos do gozo; enquanto elas, as pombas, se emplumavam agora de
contentes, sacudindo as asas, pescoo levantado, orgulhosas talvez,
muito felizes.

Outros ento, mais meigos ou mais pachorrentos, mais velhos por certo,
quedavam-se horas seguidas, horas longas, defronte da sua eleita, numa
doura plangente de musicais arrulhos, frementes de desejos, mas pedindo
s  boas, no querendo violncias, detestando-as, bem se via,
suplicando, rogando, comovendo. E se logravam intentos, redobravam os
carinhos, havia meiguices de jeitos e friccionamentos leves de
penugens, arrulhos mais doces e toques delicadssimos de bicos--beijos
com certeza.

Isto todos os dias, nas manhs enevoadas especialmente. Imagine-se a
vida do pombal quelas horas:--pombas que voejavam assustadas, esquivas
mesmo, e pombos que as perseguiam; pombas que condescendiam e pombas que
queriam arrulhos: quem no voasse arrulhava, quem no arrulhasse voava;
e tudo gozava--quem era feliz e quem estava para o ser, quem era
sanguneo e quem era pachorrento.

Ar dos campos, depois; alegres, muito amigos, pousando todos quando um
pousava, retomando voo se um voava, sempre juntos, sempre na mesma
direco, a beber no mesmo ribeiro, em linha, todos a um tempo, num
rudo muito doce de bicos que sorviam.

Ainda com sol, iam pousar de revoada no telhado da casa onde habitava a
Morgada, participar-lhe por certo que iam recolher, cumpriment-la ao
balco da sua janela, alegre de trepadeiras em flor, pousar-lhe nos
ombros, na cabea as mais ousadas ou as mais amigas, segredando-lhe no
sei que arrulhos que ora a faziam sorrir, ora lhe traziam lgrimas, mas
que sempre provocavam novos afagos, afagos interminveis:

--Minha pombinha... minha amiguinha... minha querida...

Dali para o pombal, continuar aquela vida de bomios felizes, vida
de concubinagem, numa promiscuidade sem limites e numa libertinagem de
harm.

Poligamia desenfreada!

Excepo a ela, apenas um casal--a melhor pomba da manada, pomba
branca, de uma alvura impecvel de neve, e ento um pombo raiado, preto
e cinzento, de _nuances_ azuis-escuras, ares aguerridos de lutador
vaidoso, um D. Juan emplumado, tentador.

Era o pombo mais atrevido do pombal, o de gnio mais insofrido e
espasmos menos longos, muita vida, numa mobilidade contnua de pescoo,
nervoso, libertino. Pomba que desejasse possua-a, sem arrulhos prvios,
sem pedidos, brutalmente se resistia, pacificamente porque muitas se lhe
entregavam, preferiam-no, vinham deitar-se-lhe no ninho, disputando
primazias  fora de bicadas.

E umas atrs de outras, e dias aps dias, sempre assim!

Mas todas fugiam em seguida, no sei se de esfalfadas, se para dar lugar
a outras; uma s, a pomba branca, se quedava ao lado dele, paciente,
resignada, num arrulhar cada vez mais doce, cheio de ternuras, muito
meigo, idealmente brando, que agradava ao raiado, que o ufanava,
incitando-o, convidando-o, provocando-o. Por isso entrou de aborrecer as
outras, achando-as menos pombas, umas desavergonhadas que se iam
entregar a outros, e de se afeioar  branca, a ela s, acarinhando-a
muito, arrulhando com ela, alternadamente, ora um ora outro, gemendo
amores.

No imaginam os senhores nem h nada que possa dar ideia da desordem, da
perturbao que isso levou ao rancho to dado a instintos cmodos de
poligamia, to avesso a duetos daquela natureza, onde os pombos eram
de todos e as pombas eram comuns.

E tal desordem subiu de ponto com o proceder do casal que levava dias
inteiros dentro do pombal, sem sair, numa concubinagem que revoltava de
egosta. E quando saam no se juntavam com os outros--uma desfeita! uma
ofensa!--tomavam rumo diferente: para a direita se os outros iam para
a esquerda, para a esquerda se os outros iam para a direita, sempre ao
contrrio.

Recolhiam mais cedo, com sol ainda, e quando os outros vinham, j os
encontravam no pombal, em ninhos contguos a princpio, no mesmo ninho
depois!

Um escndalo! Um desaforo!

E planeavam-se ataques, desfeitas ao casal, muitas desfeitas.

Se os dois eram felizes arrulhando manso, entravam os outros a arrulhar
forte, troa talvez, desespero decerto, todos juntos, combinados. E se
isto no bastava, comeavam todos a voar, batendo muito as asas,
levantando a palha dos ninhos, precipitando-se sobre o casal, fingindo
quedas, dando bicadas os mais raivosos, ou ento os mais despeitados...

Prestes o raiado saltava do ninho, opunha defesas de asas sobre a pomba
branca e tmida que o susto transia, inquieto, colrico; reagia depois,
lutava por fim, levando-os no raro de vencida, obrigando-os a fugir do
pombal em vergonhoso tropel, muito assustados, vencidos. E noite alm,
entravam um a um, vagarosos, muito mansos, sem rudo de asas, receando
acordar o casal que dormia aconchegado, muito quente, pescoo escondido
sob a asa veludnea.

Dois meses assim--dois meses!--numa fidelidade conjugal ininterrupta,
digna de servir de exemplo a outros bpedes que eu conheo, que os
senhores conhecem, no?... Vida boa, na verdade, perfumada de arrulhos e
esplndida de alegrias, passada em belas digresses campos fora,
pousando no mesmo ramo, bebendo na mesma poa, dormindo no mesmo palmo
de ninho, sonhando os mesmos sonhos, talvez...

Mas no fim desse tempo o raiado entrou de ter desconfianas, suspeitas
de inconstncias e receios de infidelidades, de noite, enquanto dormia.
Havia certa frieza nos jeitos da pomba, menos ternura nos arrulhos,
modos de enfadada s  vezes, certas perrices, resistncias mal
disfaradas. Ficava-se em casa se o raiado saa, impassvel a
splicas, muito mona, com elanguescimentos de plpebras e quebramentos
de asas, uma desleixada; e espreitando-lhe o voo, tomava para norte se o
raiado ia para sul, vinha tarde e ia aninhar-se s, para lhe fugir.

Estava farta, v-se. E como os outros a no queriam--rameira do
raiado!--um dia levantou voo e fez-se ao largo.

       *       *       *       *       *

Abade de aldeia, conhecem, desses mui dados aos latins e ao
_vinagrinho_ de Xabregas, muito nacional e muito fino, bons velhos de
_quinzena_ e cala de alapo, feros, muito rijos,  prova de
reumatismo e  prova de vintm, felizes na sua pobreza, amigos das
crianas, bem humorados sempre, flores de uma rvore que ora vai dando
cardos. Perto do solar da Morgada, a trs quilmetros s, havia um assim,
o abade das Donas, bom pregador noutras eras, com famas de telogo
ainda ao tempo.

--Disse-o o das Donas, colega! disse-o o das Donas!--era assim que
muitas vezes acabavam disputas acaloradas, salpicadas de vrios latins,
sobre textos da Bblia e passagens dos apstolos.

--Teologia velha, diziam, a genuna!

A casa da residncia era uma casa muito antiga, portas em arco, paredes
a desabar,--uma invernada forte e ia abaixo. O ptio da entrada era
trreo, rimas de lenha seca de um lado e doutro, seguia-se a cozinha,
um pequeno corredor, e ao fim uma velha varanda em runas que dava para
um quintalrio, e cujas pedras se deslocavam, de mal assentes que
estavam.

Preferia-a o bom do abade para a reza das suas devoes, e nessa tarde
quem quer o poderia ver passeando-a a todo o comprimento, culos na
ponta do nariz, brevirio na mo direita, a dois palmos, a esquerda a
segurar a aba da _quinzena_, e um pequeno solidu com borla
resguardando-lhe a calvcie.

A interromper a leitura, de quando em quando, umas pequenas exclamaes
de desgosto, arremessos de brevirio, e por fim levantando a voz:

--Fome as pombas, Sr.^a Lusa: no fazem seno saltar...

--Bem fartas!--retorquiu de dentro, da labuta da cozinha,--mas tm l
visita, pomba que arribou.

E depois informando:

--Pomba guapa, toda branca. So agora trs ao todo, e ento o pombo...

--Huum!... resmungou o abade em voz de reticncias.--Percebo... percebo
perfeitamente...--E foi meter-se no quarto, continuar a
leitura.U+2014.Deix-las! concluiu evanglico.

Era a pomba do raiado, adivinharam, que ali viera parar  reles
pelintragem daquele metro de gaiola feita de um caixo velho, com
grades s na frente, muito suja sempre, arrumada p'r'ali ao fundo da
varanda, hmida de guas entornadas, exalando maus cheiros, um nojo.

Quando a mostrava  criada, o abade dizia-lhe sempre:

--A sua vergonha, Sr.^a Lusa; a vergonha da sua cara. Como se os
animais no fossem tambm criaturas de Deus...

As pombas eram magras e o pombo era esqueltico.

Fez-se de amores com ele, tomou-lhe os hbitos canalhas, manchando a
alvura imaculada das penas na imundcie ftida da gaiola em que ambos
se aninhavam, arrulhavam, se espojavam. E como ela era gorda e bem
tratada, flcida de penugens e de carnao consistente, apetitosa, o
pombo no a largava--gnio de libertino em corpo de tsico.

Em breve perodo entrou a pobre de emagrecer, sem foras para voar se
queria voar, quedando-se dias inteiros ao canto da gaiola, encolhida,
tristonha, arrependida talvez de ter deixado o pombal,--saudosa do
raiado, o seu primeiro amor, quem sabe!

E depois, o pombo sujo j no se importava com ela, desprezava-a,
tentara mesmo expuls-la de parceiro com as outras, dando-lhe maus
tratos,-- intrusa. Dor incomparvel!

Mas um dia o ataque foi mais violento e ela teve de fugir, de voar,
descansando amiudadas vezes, porque lhe faltavam as foras, arquejando
sempre, arrastando-se em voos baixos, sentindo vertigens se subia mais
alto. Para passar um ribeiro descansou uma hora, e quando cobrou alento
e comeou o voo, viu-se na gua e estremeceu, molhou ainda as asas, viu
um corvo na sua prpria imagem, um corvo negro que a perseguia
silencioso, traioeiramente, que a ia talvez devorar... O que ela tinha
sido e o que era!...

Lembrou-se ento do pombal, do seu primeiro ninho, do raiado... Oh! o
raiado!... Receou primeiro, quem sabe se ele a quereria, tinha pomba,
decerto... Iria?... No iria?... O pombal ficava perto, um voo valente e
estava l, acharia tudo em casa, era cedo ainda.

Fez-se de voo e partiu.

       *       *       *       *       *

A manh era calma e o cu era azul. Canes de cotovias vibravam pelo ar
que as balseiras alastravam de aromas, perfumando-o. A estrela da alva
tinha os ltimos bocejos para fechar de todo a plpebra cansada e
adormecer no azul; e o oriente comeava de animar-se de um alaranjado
esplndido--decorao triunfal com que se orna aguardando a visita de
quem tem de rolar pela eclptica, alumiando o hemisfrio e fecundando
tudo--o cardo que rasteja e o cedro que v longe...

Naquele repontar da manh, o alto cu era de uma limpidez cristalina.
Evolava-se de toda a banda um perfume virginal de dulcssima paz, e
pelas ramagens verdejantes a volata suavssima dos ninhos comeava, como
uma saudao ao dia que vinha rompendo. No altar das laranjeiras,
florido como em Domingo de festa, o rouxinol cantava a missa de alva.

Em manhs plcidas como aquela, quantas vezes a branca no fizera as
suas excurses alegres de _touriste_, na companhia do raiado,
perdendo-se com ele atravs do horizonte quela hora tranquilo e para
toda a banda transparente!

Como tudo isto lembrava, agora!

Em todos esses pinheirais, ao largo, os dois haviam descansado muitas
vezes, muitas, expandindo em arrulhos de uma ternura inefvel o amor
extraordinrio que os unia! Em toda a largura no se descobria um s
campanrio ou um s telhado onde no tivessem pousado ambos, alegres,
contentes, doidos! E ela sempre ufana, acompanhava o macho nos seus
voos ainda os mais arrojados, perdia-se com ele para alm das serranias
mais distantes, destemida com a companhia que levava--um amigo que
empenharia a vida s para salvar a da amante.

E que bela manh, aquela! Tudo to alegre! Era ver como as calhandras
acordavam contentes, e se atiravam ares alm no seu voo perpendicular e
rpido!

Entravam de animar-se cada vez mais as ramarias, com a vida dos ninhos;
melros ensaiavam solcitos a sua partitura vibrante. Mas a toda a
largura--nem uma asa de pomba palpitava. Ela s, desalentada e cheia de
mgoas, ia para onde a levava o destino,--quem sabe se para a morte...

Ento chegou a branca ao pombal e voejou em torno espadanando as asas
contra o muro, arremetendo os buracos, desejando entrar, faltando-lhe a
coragem, voejando de novo para arremeter em seguida. Os seus antigos
companheiros sentiram-na, conheceram-na, e arrulhando muito, e
arrulhando forte, saram em tropel e foram pousar no telhado, batendo
muito as asas combinando ataque.

E como a pomba teimava em entrar, corriam a opor-se, vedando-lhe a
passagem.

De repente, um pombo negro abriu muito as asas, agitando-as, tenteou voo
nuns pequeninos saltos nervosos e investiu com a pomba, com a
desgraada pomba, e os mais aps ele. Havia sangue nos bicos e penas
voando em elipsides, um barulho de asas que se chocavam com fria. Por
fim um baque, a pomba caiu no cho, toda sangrenta, um olho arrebentado,
bico aberto, num arquejar convulso, cortado de um arrulho gutural de
vida que se esvai lentamente, gradualmente, com dor. Um estremecimento
de membros por fim, uma agitao geral repentina, e--morta!

Ares alm, os assassinos em bando voavam  busca talvez de um ribeiro
onde lavassem os bicos ensanguentados...

       *       *       *       *       *

E o raiado?--ho-de os senhores perguntar. Demorem-se um pouco e
v-lo-o sair da janela das trepadeiras, alegre, felizo, bomio,
depois de uma noite passada na meia sombra dos cortinados leves de um
leito, a rir, a amar, beijando o colo da Morgada, arrulhando com ela,
arrulhando, ora um ora outro,--debicando... debicando... debicando...




BATALHAS DOMSTICAS




BATALHAS DOMSTICAS[1]

_A Lus Trigueiros_.


Para o meu propsito,  intil narrar-lhes esse pequenino e perfumado
idlio, cor-de-rosa, que foi na vida de ambos, durante um ano, o seu
mais vivo encanto. Isto em Lisboa, onde ele, Joaquim Seabra, maior,
empregado de escritrio comercial, vivia desde pequeno uma furiosa
vida de trabalho. A me tinha-lhe morrido, ainda ele era fedelho: e
passados poucos meses, tinha o Joaquim sete anos, uma doena complicada
levara-lhe tambm o pai--homem de lavoura, pobre mas honrado, bronco mas
leal, que nascera e levara a vida no me lembra em que aldeia da Beira,
nas abas da Serra da Estrela.

Sentindo-se morrer, o Joo Seabra pediu os sacramentos. Deram-lhos. E
quando o reitor ia retirar-se, grave, revestido, aconchegando ao largo
peito o vaso sagrado das partculas, solene sob a umbela branca de
grandes ramagens amarelas, o pobre homem preveniu o padre de que em
podendo lhe desejava uma palavra.

--Volto por aqui de caminho, dissera o reitor.

Assim fez. Mas caso  que ao abeirar-se de novo do catre do doente,
junto do qual estava o Joaquim, descalo, mal remendado, o velho,
entreabrindo os olhos e cerrando-os logo para sempre, mal tivera tempo
de lhe murmurar, designando vagamente o filho:

--O pequeno, coitadinho!

De modo que foi o prprio reitor em pessoa, quem, passados dois anos,
veio meter o rfo, como marano, numa loja de ferragens da baixa,
loja escura, funda, com uma ventana de vidraas, combalida, dando para
uns sagues de prdios contguos. De marano subiu com o tempo a
caixeiro; e como era aplicado, humilde, suportando com uma placidez
resignada de beiro um trabalho por vezes superior s  suas foras, pulou
um dia para a escrivaninha da casa, no andar de cima, vaga pela sada
para a cadeia do outro que cometera umas falcatruas.

--Precisava um tiro nos miolos, esse co! dissera diante dos patres o
Joaquim.

E a incisiva frase que fora, enquanto remexia a papelada, todo o seu
comentrio ao procedimento irregular do companheiro, valera-lhe a
involuntria conquista do lugar, como revelao, que era, das qualidades
fundamentais do seu carcter,--comuns, de resto, ao tipo beiro,
profundamente animal, audaz, sbrio, musculoso, no fundo generoso e bom.

A vida comeou ento a ter para ele umas entreabertas mais risonhas,
livre dessa priso estreita da escura loja, onde os seus instintos
hereditrios de independncia, acordados no fundo de uma natureza
brbara de hermnio, tinham, de quando em quando, uns bruscos, violentos
repeles de rebelio... At que um dia, numa dessas guinadas que mesmo
 escrivaninha o assaltavam, pensou em ir  terra onde no voltara desde
pequeno. Ainda l tinha uns tios, vivia ainda o reitor. E numa
introverso de momentos, mirando atravs da janela o claro cu azul,
alto naquela manh serena de Maio, o Seabra teve a remota viso do seu
passado--das coisas da sua infncia, da sua pobre e humilde aldeia
encravada num declive de serrania que ao longe elevava o dorso, nitente
de neves eternas. E como se mirasse tudo atravs de um binculo
invertido, ele l via alm, muito longe para as sugestes do seu
desejo, muito afastado para as dbeis reminiscncias da sua memria,
tudo isso que ele dizia em trs palavras--a minha terra!--isto ,
esse monto informe de velhos tectos chamuscados onde havia um debaixo
do qual nascera; o campanrio alto e esguio; a igreja oblonga; a fita
branca do muro do cemitrio onde seu pai e sua me jaziam; a paisagem
circundante cortada de canais e regueiras, que parecem fios de prata
serpeando na esmeralda das baixas, toda retalhada em hortejos; e ento a
velha legio amiga das rvores--o zimbro ao alto dos morros nus; depois,
descendo, as urzes brancas; os piornos; os belos carvalhos altivos; e
j a meio da encosta, estendendo sobre a zona agrcola e hortcola o
verde e tenro pra-sol das suas soberbas folhas--o castanheiro, enfim.

Atravs da sua vida de balco, duramente mourejada a mover barras de
ferro, feixes pesados de vergas, ceires informes de pregaria, com
intermitncias raras de descanso, algum Domingo, pelas hortas dos
arredores, ou s  vezes num bote, pelo Tejo,--a sensao melanclica da
sua paisagem nativa no chegara a obliterar-se-lhe no crebro, nem to
pouco a lembrana dos seus velhos conhecimentos de infncia, dos seus
companheiros de escola que iam todos os dias, de manh e de tarde, 
lio a casa do reitor, naquele velho sto da residncia, com paredes
denegridas e tecto de madeira com manchas...

E que seria feito deles? Talvez que os no conhecesse, que o no
reconhecessem, agora. Talvez. E esta dvida, esta desconfiana, dava ao
seu desejo de os ver, de se lhes mostrar,--com o seu fraque, a sua
bengala, a sua cadeia de oiro escorrendo sobre o colete claro--o encanto
subtil e ingnuo de uma vaidade. E acabou de o decidir, enfim, a propor
aos patres essa viagem, certa imagem de rapariga loira, olhos azuis e
toda rosada de ctis, que ele, sem quase dar por isso, espontaneamente,
insensivelmente, fora sabendo, de longe, que se conservava ainda
solteira...

...a Emlia!

E porque seja estranho ao meu propsito, e quase indiferente  histria
que lhes vou contando, a crnica preliminar desse consrcio, direi que
a velha estola do reitor os uniu enfim uma manh--manh de Julho, na
velha e ampla igreja da freguesia, toda banhada de sol, toda rumorejante
de vozes, e sobre a qual caa sem despejar, como uma chuva alegre de
ptalas, a saraivada metlica dos sinos, repicando... At que passados
dias, ei-los enfim em Lisboa, instalados no sei em que beco da Baixa,
perto da obrigao do Joaquim, que era, como lhes disse, o
escritrio.

E aqui rompe a histria; e se  do agrado dos senhores, comecemos.

       *       *       *       *       *

Bem, aquele primeiro ano. Por uma banda a Emlia a cuidar da casa,
toda se desvelando nos mnimos pormenores do interior, na cozinha, no
amanho das roupas, no decorativo, mesmo, dos quartos e saletas que a
moblia, comprada de novo, tornava alegres e confortveis. Ele, por
outra banda, trazendo-lhe nos fins dos meses intacto o seu ordenado, e
trazendo-lhe, cada dia, uma carcia mais fresca e mais suave. E dada a
homogeneidade dos seus temperamentos, a provenincia comum das suas
naturezas, originrias do mesmo solo, filhas da mesma raa, temperadas
do mesmo sangue, ricas das mesmas infiltraes de seiva e de sade,
explica-se logicamente esse paralelismo absoluto de vontades que os
dois levavam na vida, sem um choque nas suas aspiraes, sem um encontro
avesso nos seus desejos, sem a mnima divergncia no seu modo de ver e
de pensar. Educados em meios diferentes, embora! o que nas suas
naturezas havia de fundamental, e at de intensamente uniforme no raio
visual das suas inteligncias, tornara podemos dizer nulo, sem
consequncias no fio comum das suas vidas, esse largo perodo passado
em latitudes diferentes:--ela, onde ambos tinham nascido, debaixo do
mesmo cu,  luz do mesmo sol,  sombra das mesmas rvores; ele,
sequestrado de tudo isso, mas num meio sem cor para ele definida,
pardo, estreito como uma gaiola, e onde, portanto, a sua natureza se
conservara estagnada,--estagnada como uma pequena lagoa, dormente
debaixo do luar melanclico...

Vinha da, e do fundo ingnuo das suas almas, estreladas das mesmas
supersties, povoadas das mesmas imagens, embaladas, ao nascerem, ao
ritmo da mesma cano, essa forte, dulcssima corrente de ternura
espiritualizada que era o motor primeiro dos seus abraos, o mais vivo e
fresco perfume dos seus beijos, a mais alta, a mais serena e orvalhada
eflorescncia do seu profundo amor... E pois que havia tambm no sangue
de ambos--bem como no seio de um diamante as iriaes mordentes--as
rubras, incandescentes falhas de uma animalidade impetuosa, adivinha-se
quanto seria intensa nos dois a vida sexual,--casta a despeito de tudo,
vivente como um largo pmpano, nimbada, enfim, como certas telas
clssicas, por umas cabecitas loiras de crianas, frescas, ridentes, cor-de-rosa...

Da, como lhes disse no princpio, esse pequenino e perfumado idlio,
cor-de-rosa, que fora na vida de ambos, durante um ano, o seu mais vivo
encanto...

       *       *       *       *       *

Em certo dia, porm, regressava o Joaquim do escritrio, noite cerrada
j, quando uma rapariguita que lhes servia de criada havia dois dias,
vindo abrir a cancela, lhe desfechou estas palavras no acento beiro:

--A minha madrinha est muito mal.

--Muito mal?

--Sim, parece que lhe deu pela cabea no sei qu.

Joaquim Seabra estacou, como que fulminado. E encostando-se  umbreira,
para no cair, sentiu passar-lhe pelo crebro, como um tufo de peste,
uma ideia que lhe fez vertigens. Teve um pressentimento... E cobrando
alentos, confuso diante da rapariguita que o olhava, disse-lhe com a voz
trmula, no tom de quem procura, comprometido e humilde, esconder um
pensamento:

--Bem sei... Isso costuma-lhe dar... Uns ataques... Foi depois que veio
da Beira.

--Parece que lhe chamam flatos, volveu-lhe a pequena.--Fica-se como
doida...

--Sim... chamam-lhe flatos... fica-se como doida...  isso.

E como se sentissem passos subindo a escada, inquilino ou pessoa do
andar de baixo,--talvez algum que o procurasse!--fechou a porta com
fora; e apagando a luz, com um sopro trmulo, coseu-se a um canto
impondo silncio, com a mo sobre a boca arquejante da rapariga.

--Cala-te, ouviste? disse-lhe quase com o bafo--Se te calares hei-de-te
dar dinheiro. Cala-te.

A rapariga calou-se, aniquilada, toda enroscada a um canto, como um
novelo. E passados instantes, quando um grande silncio envolvia todo o
prdio, ouvindo-se apenas, de quando em quando, o rodar de algum trem
nas ruas prximas, o Seabra tomou nos braos trmulos a pequena, e foi,
cauteloso como um bandido, lev-la  cama.

--Ouves, Lusa? No faas bulha. Dorme.

E fechando-lhe a porta  chave, respirou, hirto no meio do corredor em
trevas. Devia de ser assim a sepultura: aquele silncio, aquela
escurido impenetrvel! E ele, como um catalptico, ali encafuado
vivo...--triturado pela mgoa, rodo pela dor, desfeito pela desgraa,
como se milhes de larvas o triturassem, roessem, desfizessem,
implacveis e cruis, famlicas da ltima partcula da sua carne,
sedentas da ltima gota do seu sangue, famlicas e sedentas at da sua
prpria alma... Vivo,  Deus cruel!  Deus desapiedado! Vivo e no
entanto... morto: vivo para a sensao esfaceladora da sua atroz
desgraa, do seu cruel, cruciantssimo martrio; morto, aniquilado,
desfeito, para a viso auroreal das suas esperanas...--as suas
esperanas! revoada alegre de pombas, cndidas, serenas, imaculadas,
que um tufo de desgraa varrera do ninho do seu peito, para longe e
para sempre...

E humilde como um rafeiro ou como um trapo, numa prostrao de louco
embriagado, dir-se-ia que o crebro deixara de funcionar nesse
infeliz--como relgio subitamente parado, marcando um momento fatal!--e
que tudo quanto ele sentia, e que tudo, oh Deus! quanto ele gozava!
era essa impresso aniquiladora do _Nada_, que o fundia na treva
circundante, com ela identificando-o, irmanando-o, confundindo-o, e
tanto e to intimamente, que ele prprio nela se sentia diludo, e no
silncio...

Sbito, porm, a um gemido, a um grito, a um ranger, escoado ali de
perto como um rptil, escoado ali de perto, como um verme,
fosforejante na treva  semelhana de um demnio, que agitasse um
_pierrot_ de cascavis,--uma centelha de vida animou esse corpo
aniquilado, e dentro daquele crebro fez repontar, como luz de
lmpada funrea alumiando um cenbio silencioso, a chama de uma
ideia... E teve ento de si prprio a estranha, diablica viso de um
esqueleto carcomido, desossado, alquebrado, mirando pelo arco imvel
das rbitas, donde dois feixes de luz escorriam--aquele trapo
miserando ali cado, informe, esqulido, repelente, monto de gelo, e
lgrimas, e trevas...--que era ele tambm!...

Entretanto, e como por fora mesmo dessa alucinao desvairada e
trgica, o crebro perdera nele a recta, serena faculdade do
raciocnio, ele continuava absorto, incompreendido, estpido, diante
da sua desgraa--como diante de um grande mar de negrume, profundo e
estagnado, por uma noite sem lua e debaixo de um cu sem estrelas,
torvo de um burel cerradssimo de nuvens, a sombra de um espectro... E
assim em breve, retombou nessa altitude que diremos irracional,--mudo,
aniquilado, desfeito, no meio da treva silenciosa, como no lodo fundo
de um poo um bloco inanimado...

       *       *       *       *       *

No escuro do seu cubculo, a pequena soluava a espaos. E era como se a
prpria treva soluasse, esse chorar abafado da criana, espavorida das
coisas que a cercavam, para ela misteriosas e fnebres. Era como se um
alegre pintassilgo, vivo, irrequieto, palreiro, fosse do seu ramo florido
de amendoeira, por uma tarde serena de Abril, pousar, num voo de acaso,
na mansarda tristonha de um morcego, em qualquer frincha desabrigada de
velho muro, abandonado algures...

E porque viera? E para que viera? No sabia. No entanto, ao contrrio do
que lhe tinham prometido, que saudade infinita, repassada de profunda
nostalgia, da telha v do seu humilde casebre, atravs do qual passavam
os primeiros alvores da manh, como um perfumado beijo de frescura! Dois
dias, apenas! Entretanto, j dois dias! Tanto tempo em to pouco tempo!
E no tornara mais a ver pssaros! e no mais tornara a ouvir, de manh,
tocando  missa de alva, tangendo  tarde a ave-marias, o seu querido e
alegre sino de aldeia...--alm, naquela riba suave e pitoresca,
prateada, beijada do luar quela hora!... E o fio do seu pensamento,
que outrora derivava lmpido, sereno, cristalino, como pequenino
arroio murmurante que vai entre duas alas de flores singelas,
torvelinhava agora estupidamente, desnorteado, ao acaso, convertido num
veio torvo, lodoso e borbulhante, soluando, como se fora de lgrimas,
oculto sob a folhagem plida...

       *       *       *       *       *

A dois passos, no corredor escuro, o outro continuava prostrado, junto
da porta que dava para o quarto onde a mulher, deitada, devia talvez
dormir, de borco sobre a roupa revolta, ou no cho talvez... Mas como
acontece s  tempestades da natureza, tambm a tempestade daquela alma
de homem entrou de se diluir em pranto, pouco a pouco, serenamente,
gradualmente. Chorou. E como se fora o vu das lgrimas que lhe no
deixara ver at ento os pormenores do seu infortnio, deste
permitindo-lhe apenas uma sensao que diremos informe, entrou de se
fazer com a vazante mais lcido o raciocnio, mais precisa e mais
esperta a ideia que se lhe acendeu no crebro, como luz que pouco a
pouco vai surgindo na lmpada de um claustro, alumiando nitidamente,
sob o docel frio das sombras, as arestas marmreas de um sepulcro...

Ah! mas ento, sob a impresso raciocinada e fria da sua tragedia, cujas
linhas contornais pareciam feitas de gelo, uma nova tempestade
rebentou,--como uma trovoada enorme em tarde seca de Maio. E foram
ento as imprecaes, os gritos estrangulados irrompendo, em surdina,
por entre as maxilas ferradas, do fundo do peito em nsias. Ento foi o
arrancar convulsivo dos cabelos, s  guinadas, teimosamente, num duelo
de loucura com a dor fsica, desafiando-a, espicaando-a, dando-lhe a
beber o prprio sangue do peito, rasgado pelas dez unhas crispantes,
lacerantes como se foram de abutre.

--Ah! raios do cu, e no morro!

E como o grito lhe saiu mais alto, prestes levou ao cho, como
beijando-o, os lbios estranhamente rasgados pela clera. Veio-lhe ento
o pudor melindroso da sua desgraa, o medo horrvel de que se
divulgasse, de que os outros a soubessem,--de que a pequenita, mesmo, a
conhecesse... O que diriam? o que pensariam? E todo ele se encolhia, e
todo ele se sentia gelado at ao mais ntimo da sua alma, supondo-se
na rua, como outrora, ao vivo e claro sol, levando aderente s  costas,
como um ferrete ou como um custico o olhar de toda a gente... E com
as unhas ferradas na testa, escondia da prpria treva, com as mos
ambas, o rosto cobarde e arrepanhado.

--Diabos do Inferno! levai-me!

A este novo grito, porm, sbito se recolheu num grande pavor
religioso. Do fundo da sua natureza alguma voz se elevou, serena, doce,
harmoniosa, como na paz tranquila do campo o fumo azul-claro de um
casal... E teve a doce viso de um arco-ris, bonanoso e rutilante,
repontando luminoso no burel asprrimo da sua alma, onde uma clareira se
abria. E foi quase a sorrir, chorando as primeiras lgrimas tranquilas,
que dos seus lbios quase serenos voou como uma pomba alvinitente, que
transporta no rosado bico um ramo de oliveira, esta palavra de amor:

--Deus!

E para logo sentiu sobre a sua fronte, de manso e manso erguida num
como enlevo de viso, um ruflar de asas de pombas...  hora da alva...
sobre os campos... numa clara manh de Maio, perfumada...

E como se mo invisvel o erguesse, devagar, serenamente, enxugando-lhe
da orla das plpebras a ltima lgrima de sangue deposta ali pela sua
alma, o pobre foi submissamente escoando-se para o quarto contguo, onde
sua mulher estava, o seu anjo, o seu tesoiro, a sua vida... E foi
submissamente, como um co duramente batido que volta aos afagos do
dono, que sobre os lbios da adormecida esposa, secos, plidos,
desbotados, ao claro luar vindo do cu, o triste uniu os seus lbios
frementes,--...num beijo suavssimo de perdo. Ao mesmo tempo que ela,
num delrio, repetia a frase cruel:

--Mais vinho!




NOTAS:

[1] Sendo necessrio completar o nmero preestabelecido de pginas de
cada volume desta _Coleco_, nmero alm do qual se no pode ir e
aqum do qual se no deve ficar,--o editor pediu e obteve do autor, em
vez de novo conto, um excerto do seu livro em preparao, livro
provisoriamente baptizado com o ttulo de _Batalhas domsticas_. O
excerto pode dizer-se que constitui s por si, como os leitores vero,
um trabalho literrio, independente e uno, o que de certo modo lhe d
lugar nesta coleco, ao lado dos precedentes, estabelecendo, alm
disso, a transio do esprito do autor para uma nova fase, literria
e artstica.

N. do E.




NDICE


Idlio rstico

Sulto

ltima ddiva

Preldios de festa

Tipos da terra

V[ae] Victoribus

Maricas

Para a escola

Tragdia rstica

Abyssus abyssum

Me

Arrulhos

Batalhas domsticas




OS MEUS AMORES E A CRTICA


Da Revista Ilustrada (extracto da crnica):--..._Os meus amores_, de
Trindade Coelho,  um volume de contos para toda a gente, em condies
agradabilssimas ao paladar de ambos os sexos, e com delicadas
circunstncias a prazerem, principalmente, ao feminino. Porque uma das
preocupaes literrias mais evidentes deste escritor primoroso 
fazer jus  amizade das leitoras, e como dispe de percia no ferir de
certas notas emoventes e no tocar certas fragilidades de sentimento,
consegue-o.--_Alfredo Mesquita_.


Jornal da Noite:--Trindade Coelho--Este ilustre escritor, nosso
talentoso colega do Portugal, brindou-nos com um exemplar do seu novo
livro de contos _Os meus amores_.

De entre a pliade de prosadores, que por a mourejam no mundo das
letras, a individualidade de Trindade Coelho destaca-se distintamente,
e impe-se  admirao dos que apreciam os talentos brilhantes
privilegiados.

Os trabalhos do ilustre escritor, se pela estrutura original e
encantadora so dignos do maior apreo, pela elegncia da forma,
burilada a primor num estilo finssimo e cintilante, despertam os
mais francos, sinceros e entusisticos encmios dos que os lem.

Quem conhece o formoso talento de Trindade Coelho, e o seu belo
carcter, avalia bem, por certo, como ambos estes seus caractersticos
sero traduzidos no novo livro de contos do nosso distinto colega.


Dirio Popular:--_Os meus amores_.--Assim se chama um livro de
graciosos contos, retratando aspectos da vida da aldeia e do campo, que
acaba de aparecer, firmado por Trindade Coelho.

O escritor, como verdadeiro artista que , localiza todas as suas
atenes, de h muito, no trabalho de apreender com fidelidade o
viver campesino, sobretudo da vasta regio transmontana, a qual lhe foi
bero. Por isso o seu fabrico literrio se aprimora de dia para dia
numa escala crescente de sinceridade, e por tanto mrito: _Os meus
amores_ o atestam, quando postos em paralelo com os primeiros contos
publicados avulso.

Trindade Coelho cultiva com cuidado especial o dilogo que busca e
consegue fotografar com particular exactido. Em vez dos descritivos,
quase desprezados, so trechos sucessivos de conversas de uma
encantadora rudeza ingnua que formam o estofo principal de todas as
suas produes. Isto e a felicidade com que sabe observar, do o cunho
pessoal da sua obra, que proporciona agradveis e confortveis momentos
de leitura.

Dirio Ilustrado:--Abrem _Os meus amores_, de Trindade Coelho, com um
admirvel soneto de Lus Osrio, que depomos nas mos da leitora, como o
perfumado ramo de cravos valencianos, a flor actual das suas
predileces femininas: (_segue o soneto inicial._)

E pelo brao do poeta da _Alma lrica_ subimos ao doce convvio
espiritual da alma de Trindade Coelho.

O conto _Me_, uma rica jia engastada neste livro, brilhando a por
todas as suas facetas cortadas em diamante, e buriladas com a fina arte
de um joalheiro florentino, bastaria para autenticar-lhe o valor e para
aferir os dotes mentais de Trindade Coelho, que tem no seu brilhante
estilo moderno, fluente e sbrio, incisivo e profundo, vibrtil e
meldico, o diploma do seu notvel talento.

 principalmente pela sinceridade intuitiva e pela naturalidade
espontnea que estes contos nos cativam.

O autor diz-nos, sem preocupaes de escola e sem pretenses a abrir
caminho pela deslocao do vocbulo ou pela selva escura do escndalo, o
que viu, analisou, observou e sentiu.

As suas doces narrativas, penetradas da alma campestre, deslizam
suavemente, tocadas a espaos de uma inigualvel melancolia
contemplativa que lhes duplica o encanto.

Mas nesses singelos contos, artisticamente concretizados, Trindade
Coelho revela o superior poder evocativo da viso ntima, que o
singulariza.

A complexa natureza, para tantos inexpressiva e muda, tem para ele,
como para todos os artistas de raa, atitudes, expresses, cores e
sons, que o autor v, adivinha, sente e traduz com a fascinadora
eloquncia dos iniciados, e o misterioso enternecimento, que s nos
transmite a simples leitura dos poetas.

H rpidos traos de anlise emotiva ou de comoo reflexa que valem
poemas.

E no sero o _Idlio rstico_, a _Me_ e outros contos, soberbamente
delineados e intimamente vividos, verdadeiros poemas em prosa?

Felicitamos calorosamente Trindade Coelho, o nosso querido amigo, pelo
seu primeiro livro, que embora glorifique o seu nome, no  de certo o
seu primeiro triunfo.--_Gabriel Cludio_.


Jornal do Porto:--_Os meus amores_.--A coleco Antnio Maria Pereira
aumentou-se de um novo volume original. Intitula-se _Os meus amores_ e
est escrito pelo nosso ilustre colega e literato distinto o Sr.
Trindade Coelho.

Deste livro que, pelas suas destacadas qualidades literrias, deve
achar grande aceitao no nosso pblico, escreveremos em breve as
palavras apreciadoras que ele merece.


Correio Elvense:--Trindade Coelho.--Este nosso amigo e festejado
escritor, publicou agora o seu primeiro livro de contos e baladas a
que deu o ttulo: _Os meus amores_, editado pela acreditada livraria de
Antnio Maria Pereira.

Trindade Coelho, que hoje ocupa um proeminente lugar no jornalismo da
capital, fez ainda h pouco algumas das suas melhores armas na imprensa
em Portalegre, onde criou dois jornais, um dos quais ainda vive, que
tiveram vida gloriosa enquanto os animou o trabalho do distinto
estilista.

No s nos seus escritos passados, mas ento, conhecemos o grande valor
que indiscutivelmente possui. No nos surpreendem pois os seus
triunfos e rejubilamo-nos com eles com a alegria e sinceridade de bons
e sinceros amigos.

Num dos prximos nmeros falaremos da impresso colhida em _Os meus
amores_, agradecendo desde j as expresses afectuosssimas que
acompanham a dedicatria do livro, que o seu autor nos ofertou.


Correio do Norte:--_Os meus amores_.--Contos e baladas.--Trindade
Coelho, o j conhecido e apreciadssimo escritor, acaba de publicar um
livro de contos com o ttulo acima indicado.  esta uma bela novidade
para o nosso mundo literrio, onde Trindade Coelho de h muito soube
conquistar um lugar dos mais distintos, pelo seu belo talento e
poderosas qualidades de escritor.

Limitamo-nos por agora a dar esta simples notcia do aparecimento do
novo livro, para depois escrevermos mais detidamente sobre ele.

Agradecemos ao nosso prezadssimo amigo a delicadeza do seu
oferecimento.


O Globo:--_Os meus amores_.--Mais um livro editado pela livraria de
Antnio Maria Pereira. Intitula-se _Os meus amores_ e subscreve-o o nome
de Trindade Coelho.

No o lemos ainda porque o recebemos agora; mas h-de ser por certo
trabalho de grande valor artstico, como inveno e como execuo,
porque Trindade Coelho  incapaz de produzir uma obra literria m. A
sua educao literria est feita, e os seus numerosos trabalhos to
apreciados, to portuguesmente escritos, to sentidos e to espontneos
revelam qualidades de escritor de raa. Ele tanto pode ser um
jornalista eminente como  um contista original.

_Os meus amores_  uma coleco de contos e baladas. Conhecemos alguns
captulos, que so primorosos, mas carecemos de ler todo o livro para
no errar na apreciao. Vamos l-lo com a convico de que teremos de
saborear um desses raros mimos literrios que s os privilegiados de
talento sabem oferecer aos seus leitores.


Dirio de Notcias:--_Os meus amores_.--_Contos e
baladas_.--Anuncimos, em tempo, o prximo aparecimento deste
trabalho, com que o brilhante contista e nosso colega do _Portugal_, o
Sr. Trindade Coelho, ia aumentar a coleco, j to valiosa, das
edies do Sr. Antnio Maria Pereira.

O livro acha-se, enfim, publicado, e em nada desdiz do conceito que
desde logo nos autorizaram a emitir os elevados mritos literrios do
seu autor, tantas vezes comprovados em numerosos escritos anteriores.

Com uma observao escrupulosa, e um pitoresco estilo, de uma pujana e
de uma riqueza no vulgares, sem atentados contra o bom gosto, nem
rebeldias contra o bom senso, os contos do Sr. Trindade Coelho so, a
todos os respeitos, um verdadeiro primor, uma obra que h-de entrar, sem
hesitaes, na aceitao do pblico, e que h-de ficar longo tempo, a
atestar, numa formosa prova, a riqueza de um esprito, superiormente
educado, dctil e prontamente malevel.

Porque esses contos so a obra de um genuno artista, cuja _maneira_,
simultaneamente fcil e apuradssima, revelando a espontaneidade de uma
fecunda fantasia, traduz e afirma a fina sensibilidade de uma alma
delicadamente temperada, a viveza de um talento exuberante de vigor e de
seiva.

No pode entrar nos curtos limites de uma simples notcia, a mais
desenvolvida crtica desse trabalho, que tem, na prprio nome do seu
autor, o melhor e o mais seguro ttulo de recomendao para obter do
pblico a consagrao de um largo e legtimo sucesso.

Apenas acrescentaremos que abre o livro um encantador soneto de Lus
Osrio--preciosa chave de oiro, na realidade bem merecida por aquele
rico e primoroso escrnio de verdadeiras e puras jias literrias.


A Actualidade:--_Os meus amores_.--Este nome  o de um novo livro da
coleco Antnio Maria Pereira. Pelo ttulo presume-se um volume de
versos; mas no , o que no quer dizer que nele se no surpreenda
legtima poesia. Trata-se de contos e baladas, originais do Sr.
Trindade Coelho, um dos nossos mais apreciados e brilhantes escritores.

Eis, muito resumidamente, as prendas que distinguem este primoroso
contista:

Estilo correcto, elegante, vivo; descries ricas de observao e
atraentes tanto pelo colorido como pelo esmerado da forma; despidos de
grandes artifcios os entrechos, mas subjugantes pela muita
naturalidade; o dilogo, em suma, admirvel pela singeleza e, sobretudo,
pela propriedade.

Com estes predicados o livro _Os meus amores_, do Sr. Trindade Coelho,
deve incontestavelmente ser de valor. E . So encantadoras todas as
narrativas que contm. Logo ao abrir depara-se-nos um _Idlio rstico_,
que embriaga e predispe para a leitura de todo o volume, onde se
encontram quadros soberbos, reproduzidos do natural com um notvel poder
de observao e que deixam o esprito suavemente impressionado. Leiam, e
vero que no exageramos na opinio que a deixamos rapidamente
exposta.

Ao autor o nosso reconhecimento pelo mimo da oferenda.


Correio da Manh:--Registar o aparecimento de um livro bom, linguagem
elevada e singela, desartificioso e artstico, repositrio vasto de
observao, vibrado por uma grande impresso pessoal e subjectiva, 
sempre agradvel  crnica, neste tempo sobretudo de literatura
gafada, ou de arte ainda literria quase pornogrfica.

_Os meus amores_ que amavelmente acaba de nos oferecer Sr. Trindade
Coelho  um livro desses. Coleco primorosa de contos e baladas, em
que no mais despretensioso dos estilos nos conta recordaes e idlios e
nos mostra uma galeria rica de tipos e de figuras cuidadosamente
observados e primorosamente expostos.

O ltimo conto _Para a escola_, que dessa bela coleco acabamos de
ler,  encantador de verdade, de singeleza, de arte, e assemelha-se
notavelmente  maneira de Gustavo Droz.

No  o lugar nem a acasio de fazermos a crtica do livro e a
apreciao deste novo, deste debutante, que ao primeiro assalto parece
estar j senhor da batalha.

 por isso que sinceramente o felicitamos.


Vanguarda:--_Os meus amores_.--O nosso colega, o Sr. Trindade Coelho,
que quase s conhecamos pelos seus libelos acusatrios, acaba de nos
enviar um livro primoroso com este ttulo, no qual a feio carregada e
sombria do agente do ministrio pblico desaparece por completo, para
nos deixar apreciar s o esprito finalmente delicado do homem de
letras conhecedor dos melhores processos de arte e verdadeiramente
sabedor do seu ofcio.

Confessamos que nos apraz muito mais admirar este Trindade Coelho, que o
outro que temos visto apertado dentro da negra vestimenta de agente do
ministrio pblico, que parece lhe oblitera s  vezes as suas excelentes
faculdades.


Primeiro de Janeiro:--_Os meus amores_.--Acabamos de receber o
formosssimo livro de contos _Os meus amores_, de Trindade Coelho.

No  ainda a ocasio de pormos em relevo todas as qualidades
literrias, complexas e brilhantssimas, que se evidenciam neste
livro, demonstrando um dos talentos mais vivos e assinalveis entre os
mais ilustres cultores da prosa portuguesa.

Os contos por onde _Os meus amores_ se repartem no so apenas
maravilhas de linguagem, onde to somente se destaquem destrezas e
fulguraes do estilo: a aco que os anima constitui uma deliciosa
galeria de quadros, aspectos ntimos e exteriores da vida, colhidos em
flagrante com uma extraordinria subtileza e lucidez de observao e
trasladados a uma forma superiormente artstica, onde h firmemente
acentuados todos os caracteres de uma esplndida organizao
literria.

 um livro vibrante e magnfico--adorveis pginas intensamente ou
delicadamente emocionadas e primorosamente escritas, cuja leitura  um
verdadeiro encanto.

As nossas cordiais felicitaes a Trindade Coelho, a quem agradecemos a
gentilssima oferta do seu livro.


Folha do Povo:--_Os meus amores_.--Est publicada em volume uma srie
de _contos e baladas_ com que o Sr. Trindade Coelho, o brilhante
colaborador do _Portugal_, vem enriquecer a literatura _contista_
entre ns, hoje to querida do pblico, depois que os trabalhos de
Fialho de Almeida deram a esse gnero literrio um valor at ento
mesquinho.

A primeira qualidade que notamos logo nos _contos e baladas_ do Sr.
Trindade Coelho  um estilo muito seu, cheio de uma cristalina
naturalidade, _afastando-se completamente dessas excrescncias de mau
gosto_, que ultimamente tm abastardado a lngua portuguesa,--prova da
superioridade intelectual do escritor de que nos ocupamos--, visto
que no mira a uma falsa glria, conquistada facilmente pelas
excentricidades de estilo, que so hoje uma verdadeira mania entre
alguns escritores da chamada gerao moderna.

O Sr. Trindade Coelho escreveu a sua prosa obedecendo  espontaneidade
das suas impresses, ao seu sentir, sem deixar de se revelar um artista,
porque nunca a frase lhe sai banal, nem to-pouco envolvida em ouropis
de mau gosto literrio.

E no entanto encanta-nos,--prova de que est ali um primoroso
escritor, um esprito delicado, reproduzindo todos os cambiantes da
natureza por uma forma de observao, que no  desta nem daquela
escola.  simplesmente sua, individual.

Notamos mesmo um progresso no livro do Sr. Trindade Coelho; porque as
suas primeiras produes literrias ressentiam-se de uma tal ou qual
preocupao de _efeito_ no modo de construir a frase. Hoje, o
escritor adquire a independncia da sua maneira, do seu processo, e
feito a tirar decorre fatalmente dessa independncia, visto que os seus
quadros obedecem apenas a uma rigorosa e fiel reproduo do que o
artista observa em volta de si.

Certamente que o pblico ler com encanto o novo livro do Sr. Trindade
Coelho, pelo que felicitamos o autor, e--podemos mesmo dizer--a
literatura portuguesa.--_Silva Lisboa_.

Dirio Ilustrado:--De tempos a tempos chegava-nos do Alentejo um
peridico que no deixvamos nunca de ler pelo fino gosto literrio,
pitoresco e moderno, que se revelava em todos os seus artigos,
incluindo os polticos. Esse peridico era redigido por Trindade Coelho,
cujo talento conhecamos desde Coimbra, e cuja individualidade
literria vamos agora acentuar-se com um vigor de originalidade
verdadeiramente notvel.

De quando em quando, Trindade Coelho obsequiava-nos com um artigo para o
_Dirio Ilustrado_ e, vindo estabelecer residncia em Lisboa, algumas
vezes tivemos a honra de receber nesta redaco a sua visita, sempre
agradabilssima para ns, porque a sua conversao cintilante
aligeirava as nossas pesadas horas de trabalho.

Pois bem, Trindade Coelho acaba de reunir num volume--que faz parte da
coleco _Antnio Maria Pereira_--os seus deliciosos contos, cheios de
observao, de verdade, de simplicidade artstica, que , a nosso ver,
suprema expresso de beleza neste gnero de composies literrias.

_Os meus amores_ so um belo livro, em que o estilo se no contorce
atormentado, como em tantos outros, em que os rebuscados esplendores da
forma literria denunciam uma carncia absoluta de espontaneidade. Tudo
ali deriva naturalmente, tanto na sequncia lgica dos caracteres e dos
episdios, como na contextura fcil, mas colorida, dos perodos.

Numa palavra, _Os meus amores_ so a obra de um artista, de um homem
que sabe do seu ofcio, e que tem uma individualidade bem definida por
traos profundos de verdadeira originalidade.


Voz Pblica:--_Os meus amores_.--Trindade Coelho, inegavelmente um
talento de primeira gua, acaba de brindar a literatura portuguesa com
um excelente livro de contos subordinado quele ttulo e que constitui
o duodcimo volume da elegantssima _Coleco Antnio Maria Pereira_.

_Contos e baladas_  o subttulo do livro, e muitos ao lerem-no
julgaro que se trata de versos; mas no,  em prosa, em prosa
verncula, correcta e vibrante que esto escritos os belos contos de
que se compe este livro, digno a todos os respeitos de ser lido.

So todos eles uns contos ligeiros, encantadores pela espontaneidade e
verdade dos seus tipos e das suas situaes, lembrando um tudo-nada os
formosos tipos de aldeia, to magistralmente desenhados pelo malogrado
autor da _Morgadinha dos Canaviais_ e dos _Fidalgos da Casa Mourisca_.

Lemos de um flego o magnfico livro, e ningum que o comece a ler
deixar de o fazer como ns; to atraente  a forma por que Trindade
Coelho conduz todos os ligeiros contos de que ele se compe, que sem
querer, sem se sentir mesmo, chega-se ao fim e fica-se como triste
dele ter acabado.

Todos magnficos, dizemos, mas se alguns h que mais nos prendessem,
foram os que se intitulam _Tipos da terra_ uma galeria curiosa de tipos,
e _A me_, um conto de natureza, simples e comovente na sua
simplicidade, e notvel pela sua originalidade.

Recomendar o livro de Trindade Coelho  prestar um servio aos nossos
leitores.


Ordem do Dia:--_Os meus amores_.--Este  o titulo do 12.^o volume da
coleco Antnio Maria Pereira, inegavelmente a publicao mais
elegante, mais barata e mais interessante do pas.

_Os meus amores_ so uma srie de contos e baladas, em prosa, devidos 
pena de um moo talentosssimo, de h muito conhecido nas lides do
jornalismo, Trindade Coelho, mas que ainda no lanara ao mercado um
livro; com este debuta o autor, e  uma estreia auspiciosssima a sua.

A leitura do volume, longe de fatigar, faz-se com agrado, e nele 
cultivado um gnero--o de contos, alguns  maneira de Gustave Droz, que
prendem e interessam o leitor em todo o sentido.

Foi gratssima a impresso que ele nos deixou no esprito e esperamos
que Trindade Coelho continue a brindar o pblico com as suas belas
produes, porque estamos certos de que quem ler _Os meus amores_ ser
com sofreguido que esperar novo volume do distinto escritor, tal  o
encanto da sua escritura.


O Sorvete, (com o retrato do autor):--Dr. Trindade Coelho.--Mais uma
prova do seu brilhantssimo talento! Mais uma vez justificada a alta
competncia e finssimo esprito de escritor distintssimo!

O novo livro de Trindade Coelho,--_Os meus amores_--contos e
baladas--editada pela casa Antnio Maria Pereira, de Lisboa, , no
dizer dos entendidos em literatura,--uma verdadeira jia.


O Esposendense:--_Os meus amores_ (contos e baladas) por Trindade
Coelho.--Faz parte este volume da interessantssima coleco Antnio
Maria Pereira, to bem aceite do pblico, pela superior escolha das
obras publicadas e pela modicidade extraordinria dos seus preos.

_Os meus amores_  um precioso agrupamento de contos, alguns inditos,
outros j conhecidos, e que Trindade Coelho espalhara com aplauso por
diferentes jornais do pas. Decorridos quase todos em plena aldeia
trasmontana, cujos costumes o autor conhece de sobra, pois  natural de
Trs-os-Montes, e foi durante alguns anos, delegado do procurador rgio
numa cidade de provncia--os contos desta coleco tornam-se
sobretudo notveis pela propriedade e pela fidelidade da aco,
verdadeiros, ntidos, reais, palpitando da cor prpria da paisagem,
vivendo da vida natural, ntima e intrnseca, dos personagens e das
coisas.

Entre as nossas obras literrias originais, _Os meus amores_ merecem,
pois, um lugar  parte, no como uma estreia auspiciosa, que o nome de
Trindade Coelho  j demasiado conhecido de todos quantos se interessam
pela literatura nacional, mas como a poderosa afirmao de um prosador
elegante e de um contista distinto, no meio da grande maioria da chata
vulgaridade indgena.

_Os meus amores_ , em suma, um livro de valor, bem cabido nas mais
escolhidas bibliotecas.


O Portugus:--_Os meus amores_.--Delicioso ttulo de um livro
delicioso.

O livro  uma coleco de graciosos contos, editorada pelo Sr. Antnio
Maria Pereira; e o autor  o nosso colega do _Portugal_, Sr. Trindade
Coelho, que, nos cios da magistratura, de que  digno representante,
cultiva as letras com desvelado amor.

Em Coimbra, estudante ainda, era j literato apreciado, colaborando,
com aplauso dos mais doutos, em jornais e revistas, que h mais de dez
anos tornaram o seu nome festejado e querido. Hoje, rene ao seu ttulo
de jornalista a invejvel nomeada de contista esmerado, e brinda as
letras portuguesas com um volume, que est tendo a mais justa e
lisonjeira acolhida.

O primeiro conto do livro, _Idlio rstico_, no obstante ser agora
publicado pela primeira vez, cremos ns,  j nosso conhecido, porque
apareceu manuscrito num concurso literrio da extinta _Associao
dos jornalistas_, sendo premiado. Depois da consagrao de um jri, ter
agora a consagrao do pblico.

Depois do _Idlio rstico_, vem o _Sulto_, um quadro magnfico da vida
campesina, notvel de simplicidade e graa; e a _ltima ddiva_; e os
_Preldios de festa_; e os _Tipos da terra_; e as _Baladas_; e a
_Tragdia rstica_; e a _Me_; e os _Arrulhos_; e as _Batalhas
domsticas_: outros tantos primores, que s  vezes nos fazem lembrar as
deleitosas e serenas paisagens de Daudet.

Agradecendo ao autor a gentileza da sua oferta, congratulamo-nos por
no haver ainda expirado entre ns a literatura s, que, ou nos
desperte o sorriso ou nos obrigue a lgrimas, no nos deixa no esprito
a impresso doentia das nevroses literrias...


Jornal da Manh, Porto:--_Os meus amores_.--Mais um volume acaba de ser
publicado da coleco Antnio Maria Pereira, por sem dvida a mais
elegante, a mais escolhida e a mais econmica biblioteca que se publica
em Portugal.

 o primeiro livro de Trindade Coelho, _Os meus amores_, contos e
baladas, em que o talentosssimo escritor acaba de reunir todos os
seus contos dispersos por vrios jornais, e alguns inditos.

Do primeiro ao ltimo, os contos que compem _Os meus amores_ so
espcimes no gnero, porque, alm de constiturem uma esplndida galeria
de quadros ntimos, de retratos, de tipos, so a confirmao de uma
verdade j por ns h muito aceite: que o seu autor tem todos os
requisitos de um escritor de primeira ordem; estilista vibrante,
correcto e sempre elegante.

E se formos a escolher o melhor desses contos, ver-nos-emos em srios
embaraos, porque so todos por igual deliciosos, constituindo a sua
leitura um verdadeiro encanto; entretanto, se h que mostrar
predileces por algum deles parece-nos que os melhores sero _A Me_
e _Para a escola_, aquele uma delicada e emocionante histria arrancada
flagrantemente  natureza, e este saudosas recordaes de um passado que
no volta.

A edio, escusado  diz-lo,  nitidssima.


O Tempo:--_Os meus amores_.--Este livro teria vindo melhor nas noites
invernosas para seres s  lareiras crepitantes:--as fascas de ouro
subindo no tecto, o vento zunindo fora aoitando a chuva, e dentro, no
conforto recolhido, gozar-se o contraste das paisagens alegradas pelo
sol, espelhadas na gua rumorosa, com gorjeios e trinados de aves,
paisagens que o Sr. Trindade Coelho sabe encantar com a delcia suave e
subtil de iludidor ameno. Mas no se pode aconselhar o leitor a que se
prive de sabore-lo desde j, tanto mais que os tempos vo agoireiros
para a arte de manancial, e os que a cultivam tm de separar-se dos
estragadores d'Ela e das cabeas quase vazias que espremem e segregam o
pus nauseabundo do sadismo medocre.

Estes esto agora entretendo o pblico arrebanhado para saborear com
prazer as estapafurdices atoleimadas, e que os iguala--o vingador--ao
imbecil que escreveu o _Senhor Dupont_ e aos autores das _Pimentinhas_
e _Berbiges Ardentes_.

Que o livro de glorificadora arte do Sr. Trindade Coelho seja o
perfumador dos excrementcios e aparea em plena luz nas mesas e nas
famlias dos que compravam os outros,  o voto que faz o alinhavador
destas linhas corredias, na certeza de que recomenda  ateno um
artista recolhido que sabe ter fora nos traos tnues e meias-tintas
dos seus quadros, que capricha em suavizar idilicamente as dores
vulgares da vida aceite, da materialidade animal, dourando-as com
recantos de natureza chilreante. Que me perdoem insistir na
impertinncia: mas, o que no livro mais particulariza o talento de quem
o assina  a compreenso das paisagens, o sab-las colorir, animar,
p-las ante os olhos que lem.

As grandes dores obscuras e sinceras, as brandas afeies, amizades
arreigadas, a placidez do recanto habitado, os amores simples
sustentados por ingnuas crenas e suavizada f, tudo o que a aldeia tem
de ameno, de atraente, de pitoresco, de consolador, os seus ridculos
mesmo, vestindo atitudes de pardia em teatrinho de curiosos, tudo
reveste bem o Sr. Trindade Coelho, e aligeira com um optimismo de bom
humor, sublinhando aqui e acol umas notas reais, bem apanhadas, como se
diz, e que refrescam o rosto num aberto sorriso de ventarola. O livro
encanta porque traz todo o aroma da aldeia onde o autor encerrou por
anos a sua nostalgia--a pior de todas: nostalgia de
delegado!--apertando os voos do seu esprito de artista que ama pairar
com a fantasia para o longnquo, para o que se Imagina, para o Distante,
o Inacessvel, o Insacivel. Sonhos e fantasias que morreram e se
dispersaram como o fumo e as cinzas das fogueiras a que se aqueceria nas
noites uivantes do Inverno trasmontano; mas que deixaram sementes de
recordao e de saudade donde brotou o livro, escrito decerto nas
horas feriadas do trabalho rido, com a documentao da natureza que
vivifica, com a elaborao pachorrenta de quem no tem pressa e se
compraz na arte libertadora.

Especificar um ou outro conto no  depreciar os no citados, mas dar
preferncia pessoal--e talvez pecadora--ao _Idlio rstico_,  _ltima
ddiva_,  _Me_, s  _Batalhas domsticas_, que fecham o livro e deixam
entrever no autor um desejo de animar os personagens tanto como anima a
natureza onde eles sentiram. H contos nos _Meus amores_ que fazem
lembrar um Cladel menos retumbante e por isso mesmo livram quem l da
patada pica do que fez _Crte-Rouge_ e _Ompdrailles_.

O Sr. Trindade Coelho  um escritor to distinto quanto aclarado pelo
jorro de arte que vem de h muito confundindo os convulsionrios do
talento; os serenos no desdm; os entusiastas; o que, despindo o
metafrico, quer significar que ele est em posio artstica onde
decerto o seu talento e o seu trabalho continuaro a chamar ateno e
respeito.--_M. Caldas Cordeiro_.


Antnio Maria, (com o retrato do autor, desenho de Rafael
Bordalo):--_Os meus amores_ por Trindade Coelho.--A livraria
portuguesa tem tido uma enchente, como raramente lhe sucede, na ltima
quinzena. Depois do xito do romance de Abel Botelho e do livro de
memrias de Lus Palmeirim, veio o volume de contos de Trindade Coelho,
com a amvel denominao de _Os meus amores_.

Aqui o temos, j todo aberto, j todo lido...  originalssimo,
agradabilssimo o modo de escrever, de descrever, de dizer, de contar,
que usa o autor deste belo livro,--agradabilssimo contista,
escritor originalssimo, cujo nome a bibliografia regista hoje, to
notavelmente, como o jornalismo de h muito o registara.

A quem o ler, garantimos, sob a palavra de honra do nosso gosto, algumas
horas muito bem passadas, passeadas por aquelas paisagens e recantos
provincianos que ele pinta, to real e verdadeiramente como se l se
estivesse; em companhia daqueles tipos que ele retrata, to
fotogrficos, to ntidos, que  estar a gente a v-los, a ouvi-los, a
falar-lhes...

--_Os meus amores_, meus amores, que encanto!


O Tempo:--_Os meus amores_.-- como Trindade Coelho intitula a
coleco de formosos contos, publicados em volume, editado pela
livraria do Sr. Antnio Maria Pereira.

H muito tempo que conhecemos e apreciamos o talento de escritor de
Trindade Coelho, desde quando lhe lemos as suas produes literrias
num jornal de Coimbra, e que eram as primcias de trabalhos mais
primorosos, como so hoje os contos a que nos vimos referindo.

O livro de Trindade Coelho  dos raros que se lem da primeira  ltima
pgina sem um momento de cansao ou de fastio. O esprito do leitor
delicia-se seguindo todas aquelas cenas campesinas, de uma singeleza
to comovente, e que nos _Meus amores_ so descritas numa forma em
que se revelam todas as qualidades de um distinto e notvel escritor.
S pode apreciar bem o mrito daqueles contos quem souber quanto
cuidado h no labor paciente do artista para conseguir dar ao estilo o
tom de naturalidade e de espontaneidade, que se requer neste gnero de
pequenas novelas, talvez o mais difcil de todos.

No nos demoraremos a falar dos _Meus amores_, que contm preciosas
jias literrias, e ao qual est, sem dvida, destinado um honroso
lugar na nossa literatura contempornea.


Correio Elvense:--Trindade Coelho.--Este nosso amigo e festejado
escritor publicou agora o seu primeiro livro de contos e baladas que
deu o ttulo: _Os meus amores_, editado pela acreditada livraria de
Antnio Maria Pereira.

Trindade Coelho, que hoje ocupa um proeminente lugar no jornalismo da
capital, fez ainda h pouco algumas das suas melhores armas na imprensa
de Portalegre, onde criou dois jornais, um dos quais ainda vive, que
tiveram vida gloriosa enquanto os animou o trabalho do distinto
estilista.

No s nos seus escritos passados, mas ento, conhecemos o grande valor
que indiscutivelmente possui. No nos surpreendem pois os seus
triunfos e rejubilamo-nos com eles com a alegria e sinceridade de bons
e sinceros amigos.

Num dos prximos nmeros falaremos da impresso colhida em _Os meus
amores_.


O Dia:--_Os meus amores_.--Se fosse no sculo passado, os fazedores de
promios, prlogos e conversaes preambulares com os pios leitores, 
falta de jornalistas que noticiassem ou criticassem, por certo
aproveitariam a ocasio para sobre o nome do autor glosarem vrios
elogios ao livro, visto que aquele se chama Trindade e  ao mesmo tempo
um poeta sincero, um escritor de raa, e um observador atento,
qualidades que se equilibram por tal sorte, que do conjunto nasceu uma
obra formosssima, animada de verdadeira comoo, sentida nas suas mais
pequenas mincias, sempre elevada, sempre humana e sempre artista.

A vida e a poesia trasmontana encontram-se a cada passo nesta reunio
de contos, que o Sr. Trindade Coelho dialogou com um cuidado meticuloso,
copiando do natural, e em que os personagens foram surpreendidos nos
seus labores de cada dia ou nas suas ntimas cogitaes.

No temos espao nem tempo para nos alongarmos na notcia deste livro,
e por isso nos limitamos a recomend-lo como leitura atraente, como
obra de arte tratada com esmero, embora nem sempre com a mesma igualdade
nem com o mesmo flego, como uma grande lio literria aos fazedores
de naturalismo brutal.

Ao autor agradecemos a remessa do seu livro, ficando fazendo votos para
que eles sejam tantos, que afoguem os autos e libelos em cujo meio o
magistrado tem de viver, e donde sai amiudadas vezes para nos provar
que quando se  artista l de dentro, o contacto dos escrives no
prejudica a ndole do escritor.


Novidades,(entrevista com Joo de Deus acerca dos
_novos_):--_Literatura nova_.--Eu conheo limitadamente os novos,
porque no leio jornais, e no os leio porque os literrios ocupam-se
na propaganda da imoralidade, e os polticos na propaganda do suicdio,
e na do jogo das lotarias, que seduz principalmente os enjeitados da
fortuna, mais sequiosos de domarem, num acaso da sorte, as agruras da
sua vida. E enquanto o rico joga o suprfluo, o pobre joga os trinta
ris de trs quartos de um po.

Mas aqui est o livro do Trindade Coelho, que me encheu de verdadeira
alegria!  um rapaz de talento! O que  preciso  que ele dispa a toga,
que lhe impede os movimentos. No o conheo, mas dizem-me que trabalha
muito. J leu o _Sulto_? Se ainda no leu, no o deixo sair de c sem
lho ler.

--Li j todo o livro.

--E depois, meu amigo, ns andvamos precisados de uma coisa casta, onde
fossemos purificar o esprito dessas tais observaes fisiolgicas, e
no sei que mais, que por a aparecem todos os dias. O livro do
Trindade Coelho tem o que eu chamo graa, e que no posso bem
definir-lhe. Olhe: ali est aquele quadro, em que os traos so
correctos e a execuo perfeita, mas no tem graa; e aqui, este, uma
bela cabea de rapariga, a fisionomia doce, o olhar abstracto: este
tem graa. At a Virgem Maria se chama cheia de graa, e foi me de Deus
por ter graa. A graa na literatura  tudo, mas  muito rara.


Novidades:--_Novelas rsticas_.--Trindade Coelho.--_Os meus amores_
(contos e baladas.)--Lisboa, livraria de Antnio Maria Pereira--1891.

No seu penltimo artigo do _Temps_, dizia M. Anatole France, esse
cptico amvel e pirrnico, que tem sido o terrvel sapador de todas
as doutrinas axiomticas da crtica: Il y a beaucoup moins de lecteurs
pour les nouvelles que pour les romans, par cette raison suffisante que
seuls les dlicats savent goter une nouvelle exquise, tandis que les
gloutons dvorent indistinctement les romans bons, mdiocres ou
mauvais.

O conto moderno  como o romance, essencialmente analtico e
psicolgico, escrito em estilo tcnico, e destinado sobretudo a
apresentar uma imagem precisa de qualquer meandro torcicolado da alma
humana. A literatura contempornea tem procurado, quase
invariavelmente, os seus temas entre os vcios, as paixes e todas as
energias depravadas do corao. A arte do Sr. Trindade Coelho  muito
diferente disso, porm. O seu idlico livro de contos e baladas,
aberto sobre um fundo de verdura reluzente, amorosamente evocado da
paisagem trasmontana, e habitado por heris simples, colhidos com
intencional singeleza no meio do seu viver provinciano, no tem,
decerto, parentesco nenhum com os volumes carimbados com a etiqueta
actualmente em moda.  natural at que o leitor, habituado aos livros
dos escritores realistas, sinta uma profunda sensao de espanto ao
empreender a leitura dos _Meus amores_, duzentas pginas suaves e
simples, sem pedantescas pretenses a passarem como tratado didctico de
psicologia.

Disse-se de Jlio Dinis que ele era principalmente um paisagista, e que
as suas figuras s serviam para dar expresso e vida  paisagem.

O Sr. Trindade Coelho possui, igualmente, a sensao visual
particularmente desenvolvida, e as suas descries so tambm, como as
do autor das _Pupilas do Sr. Reitor_, magicamente poetizadas, como que
apercebidas de longe num esbatido vago de sentimento e de saudade.
Chega-se s  vezes a ter a iluso de que o artista est ali, pginas a dentro
do seu livro, fazendo reviver no pensamento a lacre impresso
das madrugadas lactescentes e dos poentes doirados da sua aldeia natal,
cuja lembrana, ele conserva sempre viva, como nos versos de Salvador
Rueda:

Por donde voy me sigue como memoria tierna
tu imagen que en mi pecho conduzco en un altar;
y mi cerebro canta como una estrofa eterna
el coro que tus rboles entonan  la mar!

A tm, para prova, esse trecho de um descritivo de manh alde,
quando o sol comea a subir na linha ainda indecisa do horizonte:

A esse tempo, no cu alto e lavado a estrela da alva fenecera por fim,
e o horizonte comeava de carminar-se ao de leve. Por todo o cu em
cpula, a luz fresca e viva da manh vibrava harmonias estranhas que iam
despertar tudo, a cor da paisagem e a msica dos ninhos, cantigas de
perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manh de Vero, serena,
tranquila, dulcssima. Ia pelo ar um movimento extraordinrio de
asas--passarada alegre que saa agora dos ninhos e voava a matar a sede
 borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em
recncavos de rocha e tomavam para hortejos convizinhos onde a vegetao
era mais rica de seivas e mais fcil a presa dos insectos, perdizes
gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos
vinhedos das encostas, por entre os renques verdejantes, gente em mangas
de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos em torcicolos, viam-se
os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de taleigos, e
berrando-lhes cada _cho_! que se ouvia na outra ladeira. J nas
povoaes prximas, sinos chamavam para a missa de alva ou tocavam a
ave-marias. Nas quintas Casais fumegavam os tectos, dizendo horas de
almoo. De modo que o sol quando rompeu, solene e triunfante no cu
imaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a Natureza acordada
para a labuta interminvel do dia.


No notvel estudo de psicologia literria de M. Fr. Paulhan sobre a
descrio pitoresca, ento habilmente apreciados os elementos
constitutivos da pintura do meio, em todas as suas maneiras diversas na
qualidade e na intensidade.

Chama-se imaginao sensvel, diz o distinto observador, o acto pelo
qual ns nos representamos um objecto ausente, e esta representao,
como tem sido h bastante tempo notada, no ,--principalmente se
considerarmos s certas classes de imagens,--seno uma cpia
enfraquecida de uma sensao. Por exemplo, se eu trato de me representar
um momento, um quadro, uma esttua, qualquer coisa que imagino, se as
minhas recordaes so bastante ntidas,  uma espcie de cpia
enfraquecida da sensao que eu terei, se vi realmente o monumento, o
quadro ou a esttua. A imaginao, tomada at no sentido restrito que
lhe damos aqui, varia muito de uma pessoa para outra, quer em
intensidade, quer em qualidade. Por um lado, certas pessoas tm as
imagens, as representaes muito mais enfraquecidas, mais vivas, mais
concretas; em uma palavra, as suas imagens aproximam-se muito da
sensao; outras, pelo contrrio, so inclinadas para as ideias
abstractas e tm necessidade de um esforo para se representarem as
sensaes de uma maneira um pouco ntidas. Tem-se reparado que a viso
mental, nitidssima em geral nas crianas e nas mulheres, torna-se muito
fraca e por vezes desaparece nas pessoas preocupadas sobretudo de
ideias abstractas, ou habituadas a no exercer a sua imaginao visual.
Eis uma pequena experincia indicada por Wundt, que, mostrando as
analogias entre a imagem e a sensao, parece pr em relevo tambm as
diferenas individuais com relao  intensidade com que a imagem
concreta  percebida. Sabe-se que quando fixamos o olhar por algum tempo
num objecto corado, se voltamos os olhos para uma superfcie parda,
vemos uma mancha corada da cor complementar da primeira. Se o objecto
era vermelho, a mancha ser verde, e reciprocamente; se o objecto azul-ndigo,
a mancha ser amarela, etc. Ora  possvel, mas isto no
sucede a toda a gente, perceber esta cor complementar no s depois de
ter fixado um objecto corado, mas simplesmente depois de o ter
imaginado. Pode-se, por exemplo, pensar numa cruz vermelha: lanando em
seguida os olhos para um papel pardo, deve-se ver uma cruz verde, se h
uma boa imaginao visual.

Essa imaginao parece t-la o Sr. Trindade Coelho. A vivacidade,
tonificada qui por um poucochinho de nostalgia, do seu descritivo,
que nos d conjuntamente a impresso da forma, da cor, do som, e at s
vezes do aroma, representa um fenmeno especial de evocao
sensacional. E o maior encanto da sua obra  esse, e, depois desse, a
ntima satisfao que faz aflorar, aos lbios do leitor inteligente, um
sorriso de doce comoo, a cada singelo episdio das suas narrativas,
todas frescas e sadias, e cujo menor mrito no , decerto, o de serem
escritas numa linguagem airosa e despreocupada, mas tersa e
legitimamente portuguesa.

O livro do Sr. Trindade Coelho no  para ser sujeito a longas anlises
introspectivas, o papel da crtica perante _Os meus amores_  bem fcil,
porque ela deve quase cingir-se  afirmao do seu aplauso
incondicional, ou ao registo da repulso do processo do escritor, o que
pode muito bem representar uma livre depravao de gosto.

Por mim confesso sinceramente que me deixou no esprito a mais amvel
recordao, pura e oxigenada, a leitura dessas belas novelas
rsticas, todas impregnadas de uma ideal graa campesina, tilintando de um
eco amorvel de arroio murmurante, que discorre mansamente por entre
margens baixas, bordadas de scias e papoilas: e, para a minha
simpatia, desejo mencionar especialmente o conto que abre o livro e o
caso do _Sulto_.--_Armando da Silva_.


Tim Tim Por Tim Tim:--Um grande poder de observao e uma enorme justeza
de expresso, constituem, quanto a mim, as duas essenciais qualidades
literrias de Trindade Coelho, puras auxiliares da sua alma de
verdadeiro artista, aberta  compreenso ampla da natureza, e fundindo
os fenmenos, as coisas e as criaturas num conjunto ntido que se
desata em descries opulentas de vida e de calor, fulgurantes
de energias dominadoras, prdigas de imagens que o melhor cristal de
Veneza no teria reflectido to bem, avigoradas em onomatopeias
possantes que prendem o esprito mais inculto e o obrigam, ali, a fixar
e a compreender o objecto que o autor quis frisar.

E essas qualidades ressaltam brilhantemente de todos os contos que
compem _Os meus amores_, realadas ainda pela fina emotividade que o
delicado sentir do autor transmitiu a cada cena onde o corao tem
parte, ou seja o corao de qualquer daqueles dois pequenos do _Idlio
rstico_, ou o da _Rua_, a bela cabra que no meio de mil angustias de
me morre junto ao filhinho. E se o querem surpreender a ele prprio,
a Trindade Coelho, em flagrante de uma ternura honesta, viva e sentida,
vejam o afecto que irradia daquele _Para a escola_, quando fala da
velha e boa criada que o levou ao mestre das primeiras letras.

Se das coisas afectivas, que mais o namoram, e das descries
naturais, que mais o apaixonam, Trindade Coelho desce a brincar um
pedao caricaturando uns tipos com tanta sobriedade de _charge_ que mais
nos parece estar fazendo retratos, saem-nos ento figures como os da
vilria da _Comdia na provncia_, que entretm a tarde na praa a
dizer mal uns dos outros. To verdadeiro nos _croquis_ como nos hbitos.
E quando aos tipos pode juntar um estudo de costumes, aquela _Vspera
da festa_ exemplifica vantajosamente o que ele sabe fazer.

No fim do livro, foi para mim surpresa aquele excerto das _Batalhas
domsticas_, onde me pareceu descobrir uma novssima orientao do
autor, inspirada porventura numa atmosfera densa de inovaes que vai
por a. Claro que o seu talento adapta-se mais essa forma com a
maleabilidade com que a tudo se sujeita, mas se eu tivesse a
caracterstica literria de Trindade Coelho, evidenciada em tantos
escritos, no a sacrificaria a coisa alguma.

O que o livro , em suma,  um conjunto de belezas que tem sido
largamente apreciado pelos fanticos da Arte; e oxal seja apenas a
promessa de muitos outros, que penas como aquela no devem
calotear-nos na contribuio que nos devem.

--Mas,--perguntou-me um dia destes algum--porqu _Os meus amores_, e
no qualquer outro ttulo?

No respondi. E demais eu sei porque deu Trindade Coelho esse nome ao
livro onde h tantos trabalhos de tempos que lhe so saudosos e em que
lhe foi grande parte da alma, da sua bela alma de rapaz que nenhuma
lama deste mundo  capaz de conspurcar.--_Santos Gonalves_.


Revoluo de Setembro:--_Os meus amores_, contos e baladas por
Trindade Coelho.--Um livro peregrino, que se l com encanto e que nunca
mais se esquece.  um talento e  um artista quem escreve assim. Uns
contos singelos, atraentes, delicadssimos, admirveis de observao e
de honesto realismo. Esbocetos apenas; mas que admirvel simplicidade de
colorido em alguns deles e que tons inapagveis de verdade!

Uma bela obra de arte e uma altiva lio.

Ali est como se pode chegar ao naturalismo na literatura, sem
estropear a lngua e sem chegar s  torpezas da pornografia. Para
atrair, para ser original, para impor a supremacia do seu talento,
para conquistar o aplauso sincero dos que lem, Trindade Coelho no
precisou de escrever extravagncias, nem de escalavrar pstulas, nem de
escancarar bordis.

A fica uma rpida notcia do livro. Voltaremos a falar dele, se o
tempo nos chegar para a homenagem que desejamos prestar ao seu autor.


Correio Elvense:--_Os meus amores_.--Com poucos dias de intervalo as
letras portuguesas contaram dois ruidosos sucessos de livraria.

Depois de apreciar o _Baro de Lavos_, obra de anlise, de profunda
observao, ressentida do exagero do naturalismo e do carcter quase
cientfico que actualmente se pretende imprimir aos livros, que devem
ser exclusivamente literrios, mas que, no obstante este pequeno
seno, confirmou plenamente todas as esperanas que o nome de Abel
Botelho criara com os seus livros anteriores, a crtica tem de render
respeitosa homenagem ao trabalho de um outro escritor novo como aquele
e como ele igualmente distinto pelos brilhantes dotes do seu esprito,
pela sua notvel orientao literria e pelo esplendor de forma que
caracteriza todos os seus escritos, mesmo os mais despreocupadamente
feitos.

Sinto um delicioso prazer de conscincia ao traar estas linhas.
Momentos como este so mesmo os nicos osis em que se reconfortam os
que, dia a dia, esgotam o melhor das suas faculdades na faina
improdutiva e inglria do jornal.

Trato de apreciar o trabalho de um amigo, de algum a quem me unem
ntimas relaes de confraternidade e simpatia e ao ter de formular o
meu juzo conheo que posso manifestar o mais incondicional louvor e
aplauso sem que se suspeite que as minhas palavras so reflexo de um
sentimento pessoal, mas sim a expresso exacta e verdadeira de uma
admirao justamente sentida, solidamente baseada.

O livro a que me refiro intitula-se: _Os meus amores_. E em tudo
corresponde ao encanto deste ttulo.

Com que saudade li as ltimas pginas!

Por vezes desejava espaar essa leitura para demorar o delicado prazer
que sentia, noutras precipitava-a sfrego de admirar a naturalidade
das descries, a limpidez e o cristalino do estilo emocionante e
simples, to delicado e ao mesmo tempo to poderoso que d vida aos mais
diversos sentimentos desde o pavor do remorso do assassino Jos Gaio,
at  recordao saudosa e terna que o autor sente do primeiro dia em
que entrou na aula de instruo primria da sua modesta aldeia.

Dando a impresso singela e despretensiosa que me causaram _Os meus
amores_, no vou referir-me demorada e especialmente a cada um dos
pequenos quadros que formam esse livro verdadeiramente consolador. Na
poca actual quando os vcios da sociedade e a decadncia dos nossos
dias nos gravam no esprito, a cada hora, um carimbo de desnimo e
descrena, quando a literatura, obedecendo  vertigem mais do que
nervosa, alucinada, que caracteriza o _fin de sicle_, cria as escolas
mais extravagantes que se comprazem em baralhar todas as ideias, em
apedrejar as normas mais impecveis e at agora consagradas da arte, e
em descrever todos os aspectos da natureza com as palhetas mais escuras
e muitas vezes asquerosas, sente-se conforto, adquire-se nimo,
desanuvia-se o esprito ao ver que ainda h algum, a quem sobeja
talento e tenacidade, que escreve 200 pginas de prosa s, eminentemente
sentida, deliciando-se na descrio das cenas mais simples e tocantes,
na apoteose da natureza em toda a sua magnificncia e no convvio da
vida campesina, to cheia de sinceridade e de encantos, to livre das
convenes e pretensiosidades que do um tom falso e mentido aos
sentimentos da sociedade em que vivemos.

Disse em cima que no me alongaria no esmiuar de perfeies de cada um
dos contos e baladas que formam _Os meus amoes_. No representa este
propsito ideia de menos considerao pelo livro ou por quem com tanto
amor o escreveu. Ao contrrio, sinto que no posso, a no transformar
este artigo num hino laudatrio, referir-me especialmente a cada um
daqueles contos e baladas. Mais do que este motivo domina-me o de no
poder alongar demasiadamente a apreciao que estou fazendo.

Muitas das pginas que Trindade Coelho reuniu no seu livro j as
havamos lido e simultaneamente admirado, publicadas em diferentes
jornais. Como escritor conhecamos tambm o primoroso estilista dos
_Meus amores_ pelos seus trabalhos jornalsticos, j na bomia coimbr,
j em pequenas folhas de provncia e ultimamente nos jornais da capital,
trabalhos em que ele empregava o escrpulo e a correco que nunca
abandonam os verdadeiros artistas.

Pelos seus trabalhos literrios h muito que formara a opinio de que
ele se podia alistar sem desdouro ao lado do Conde de Ficalho, de
Fialho de Almeida e de Teixeira de Queirs que, no meu parecer, so, em
Portugal, os mais distintos escritores contemporneos deste gnero,
na aparncia to ligeiro, mas no fundo to complexo e difcil, a que
se denomina: _Contos_.

A leitura do recente livro enraizou-me mais a opinio formada.

Pelo sentimento descritivo, pela verdade dos _tipos_, pela naturalidade
do dilogo, e pela modalidade do estilo que se apropria sem o mnimo
esforo a todas as impresses que pretende transmitir, o autor dos
_Meus amores_ prova que no desconhece nenhum dos segredos do gnero de
literatura que to brilhantemente cultiva, e que no  inspirada na
amizade a opinio dos que, no obstante ele terar agora quase as
primeiras armas, o consideram j como um escritor distintssimo e num
futuro muito prximo um mestre consagrado.

O livro abre com um soneto formosssimo e nem podia deixar de ser assim
desde que se saiba que o firma Lus Osrio. Prtico apropriado s
belezas que nas pginas que se seguem se acumulam com uma riqueza
oriental.

No obstante o meu propsito de no me referir nomeadamente a nenhum dos
pequenos quadros, no posso deixar de dizer rapidamente da impresso que
me causou a _ltima ddiva_, um primor de sentimento, uma pgina emotiva
arrancada em flagrante a uma das cenas em que to variadamente se
divide a tragdia em que se debate a humanidade; o _V[ae] victoribus_,
onde passa um flego de epopeia, em que o estilo atinge alturas quase
desconhecidas, casando-se com uma verdade admirvel a grandiosa ideia em
que se inspira o conto; _Para a escola_, quadro delicioso a cuja leitura
cada um de ns sente acordar uma recordao muito querida de infncia
descuidada e alegre, e por ltimos: os _Arrulhos_, em que Trindade Coelho
ostenta gloriosamente todas as qualidades do seu estilo to malevel e
to justo.

Alm destes contos, que especialmente destaco pela admirao que me
inspiraram, so modelos de humorismo e de verdade os dois _Preldios de
festa_ e _Tipos da terra_.

Quem escreveu os _Preldios de festa_ e especialmente os _Tipos da
terra_,  porque estudou com muita ateno, com muito cuidado, os
personagens que mais avultam na vida das nossas aldeias e terras
pequenas. So tipos tirados do natural, com uma perfeio fotogrfica
em que Trindade Coelho denota o mesmo rigor de execuo que demonstra na
descrio da natureza nos seus mais variados aspectos.

Por ltimos, e para no se dizer que eu neste pas de m lngua realizei
o cmulo de escrever um artigo s de palavras encomisticas e sem a
mnima censura ou reparo, devo dizer que no gostei do _Sulto_,
lastimando que Trindade Coelho gastasse tantas pginas de um estilo
formosssimo num assunto que sem dvida  verdadeiro, mas que no
comove o leitor, nem lhe imprime, pelo menos assim o julgamos, a mnima
impresso duradoura. Para Trindade Coelho manifestar todos os seus
recursos de estilista, no precisava realmente do _Sulto_.

O livro faz parte da edio mensal de obras portuguesas, editada por
Antnio Maria Pereira, um trabalhador incansvel a quem as letras
portuguesas devem assinalados servios.

Est impresso com o maior escrpulo e revisto com um cuidado e esmero a
que nem sempre estamos habituados.

Terminando estas linhas to despretensiosas como sinceras, fazemos votos
para que Trindade Coelho possa continuar a furtar algumas horas 
sensaboria dos autos e a deliciar-nos com novos livros, to perfeitos
como este, para honra do seu nome de escritor j to justamente
laureado, e agradecemos ao amigo a oferta do seu livro, arquivando a
dedicatria que ele contm como nova prova de uma amizade a que somos
profundamente gratos, e devotadamente retribuidores.--_Loureno
Caiola_.


Tribuno Popular:--_Os meus amores_.--Recebemos o volume da _Coleco
Antnio Maria Pereira_, que sob aquele ttulo contm alguns contos do
apreciado contista Trindade Coelho.

Pela rpida leitura de dois deles--_O Sulto_ e _Tipos da terra_,
parece-nos que a coleco  estimvel, e que os contos so jias de
grande preo da nossa literatura, pela linguagem pura genuinamente
portuguesa, e pela graa da contextura originalssima, nacional, sem
laivos de imitao estrangeira, em que se pintam cenas e episdios,
cheios de verdade e de encantadoras descries, da vida portuguesa nas
provncias.


O Sculo:--_Os meus amores_, por Trindade Coelho.-- um livro de
contos, editado pela casa editorial do Antnio Maria Pereira, a
publicao recente que mais tem emocionado, com justo motivo, o nosso
meio literrio, bem pouco acarovel e mazorro no fundo,
sobressaltando-se com tudo quanto perpetra o escndalo de no ser
rotineiro, ou vulgar, e bem pouco emocionvel tambm--diga-se a verdade.

Parece uma contradio; mas no . Se o nosso bom pblico fosse dado a
esbanjamentos de emoo artstica, no o sobressaltaria tanto a
pessoalidade, e o imprevisto.

O Sr. Trindade Coelho acumula com o seu cargo oficial de magistrado
severo, a profisso, ou antes o desenfastio espiritual de ser homem de
letras, nas suas horas de remanso.

 s, porm, como homem de letras, que nos compete em tal lugar
aquilatar-lhe a estesia, e as faculdades de emoo, ou de ateno
artstica.

Ambas estas possui o Sr. Trindade Coelho, em subido grau. A forma
adapta-se perfeitamente ao fundo, e  sempre fluente, verncula,
concisa, e precisa.  sbrio no descritivo, e no raras vezes
enternece. No comete a velharia de desenterrar obsoletos termos
clssicos, sem inciso, sem propriedade, e sem cor, muito parecidos com
o latim, mas que no fundo no so nem latinos, nem portugueses, nem
onomatopaicos, e que fizeram a delcia de Filinto. Nem perpetra tambm o
mau gosto de empregar neologismos inteis, e risveis, possuindo na
linguagem ptria instrumentos magnficos de expresso. Sabe a sua lngua,
como raros: e o conto, que , quanto a ns, a forma mais perfeita, mais
completa, e mais delicada da prosa, e tambm a mais transcendente e
lapidar, achou nele um hbil e equilibrado intrprete. Os contos
_Sulto_, _Maricas_, _Tipos da terra_, _Me_ e sobretudo _Para a
escola_, no contam muitos rivais na lngua portuguesa nem nas
estranhas.

O seu pequeno livro h-de ficar na literatura nacional, quando de
centenas de romances em seiscentos volumes j ningum rememorar o ttulo
sequer.--_Gomes Leal_.


Revista Ilustrada:--_Os meus amores_, de Trindade Coelho.--Que
deliciosa impresso me deixou aquele livro, to adoravelmente simples e
sentido!

Antes, porm, de comear a analisar, conto por conto, esse fino trabalho
de Trindade Coelho, preciso dizer duas palavras explicando a razo
porque me merece tanta simpatia o seu autor, que de nome conheo s.

Li pela primeira vez o seu nome em umas correspondncias de Portalegre,
notavelmente bem feitas, e em que ele elogiava muito um pequenito,
distinto em todos os exames.

Aqueles adjectivos de amigo bom e entusiasta fizeram-me convencer de
que--o delegado de Portalegre--era um excelente rapaz.

E digo rapaz, porque todos ns temos o hbito de considerar sempre muito
novos aqueles que so da nossa idade... Depois, graas a uma amiga
minha, escritora de grande talento soube que Trindade Coalho era um
grande admirador de Loti--o meu preferido romancista!--admirao
entusiasta que ele descrevia em cartas deliciosas de uma vibrao que
fazia pena no ser repercutida mais longe... Fazia pena ser indiscrio
public-las!

Traduzia ele ento o Pescador de Islndia; traduo esplndida que a
_Gazeta de Portalegre_ publicou e que o trazia _empoign_. Para ele era
j uma sugesto, aquele trabalho primoroso.

E desde ento, Trindade Coelho ficou sendo para mim um artista. Dava a
Loti todo o valor que ele tinha e que ultimamente algum se comprazia
em querer negar ao acadmico gentil.

Em seguida li uma suavssima elegia escrita  memria de Antnio
Fogaa--uma flor ceifada ao desabrochar!--Eram meia dzia de palavras
cortadas por soluos:--eu sei, infelizmente, quando se escreve assim!...

Finalmente, o seu nome vibrou de novo aos meus ouvidos, quando os
jornais anunciaram que ele arrancara um preso  cadeia de Portalegre.
Um preso que era um inocente, e que, como tantos outros, estava
condenado a ouvir soar, em vida, a hora da justia... Publicavam tambm
o efusivo telegrama em que Trindade Coelho agradecia ao nosso
magnnimo rei o seu perdo.

E eu dessa vez chorei! Como me sucede sempre que um homem pe a
lucidez do seu talento e o entusiasmo do seu corao ao servio da
humanidade que sofre...

O nome do dr. Trindade Coelho gravou-se ento indelevelmente na minha
alma.

Eu s fixo o nome dos bons.

E pensei em que devia ser uma grande mulher a me daquele homem! Os
filhos herdam, geralmente, o corao das mes...

       *       *       *       *       *

Ultimamente a imprensa anunciou o livro que acabei de ler. Pedi-o
rapidamente para Lisboa, e li-o de um flego.

Abre com um soneto delicioso, escrito pelo esprito gentil de Lus
Osrio--uma alma luminosa, que brilha na transparncia dos seus versos
filigranados e vibrantes...

Segue-se o _Idlio rstico_--um amor--atravs do qual ns vemos subir
lentamente a estrela da alva que iluminava, coando a sua doce luz pelo
colmo da cabana, duas cabecinhas gentis, adormecidas junto uma da
outra...

Depois o _Sulto_ um conto singelssimo cheio de naturalidade, em que o
Tom nos comunica a sua alegria contagiosa levada  loucura com a
volta do... amigo--bem mais fiel do que muitos outros!

A _ltima ddiva_, um braado de goivos atirados por um simples a uma
sepultura onde lhe ficara preso o corao para sair de l no dia em que
teve de se diluir, na esteira do barco que lhe levara o filho para o
Brasil.

A _Comdia da provncia_, magnifica de cor local. Magnfica,
principalmente para quem conhece tipos semelhantes e j tem visto a
_Morgadinha de Valflor_--essa prola!--representada pelo Marques do
correio... vestido de saias! Para quem d todo o valor a esse esplndido
estudo de costumes provincianos.

_V[ae] victoribus_, uma sugesto de remorso primorosamente traada...
_Maricas_, uma adorvel poesia escrita em prosa. _Para a escola_, um
beijo de gratido de uma singeleza adorvel. _Tragdia rstica_, um
vibrantssimo estudo das misrias humanas.

_Abyssus abyssum_, o agonizar de dois anjos, sob o olhar de uma
estrela... _Me_, a flor mais linda do ramo, enlevo e agonia de todas
as mes que eram capazes de morrer assim--sem abandonarem os filhos...
E, finalmente, as _Batalhas domsticas_.

Repito, deixou-me uma impresso deliciosa o livro de Trindade Coelho,
que , a par de um primor de delicadeza, sentimento e arte, um livro
honesto, que no fatiga os homens nem faz corar as mulheres. Por isso
aconselho a todos que o leiam.--_Margarida de Sequeira_.


Portugal:--_Livros Novos_.--A acolhida feita ao notabilssimo livro
_Os meus amores_, do nosso querido amigo e ilustre confrade, Trindade
Coelho, tem sido a que em tempo lhe vaticinmos: em toda a linha o mais
legtimo, o mais espontneo, o mais unnime e o mais carinhoso triunfo.

Bem o merece o cristalino talento, e a inelutvel tenacidade no
trabalho, do brilhante escritor, que em meio dos violentos paroxismos
que na caa de sensaes e efeitos novos hoje pavorosamente
desarticulam o _meio_ literrio europeu, tem uma fora de restringir-se
a soltar suavemente, com uma sobriedade campesina e tranquila, a
melodia emocionante, ingnua e simples do viver aldeo; e que por entre
o estrdulo _hallali_ de obscenidades, imprecaes, blasfmias, dores,
gemidos, que doloridamente reboam pelas soturnas naves deste imenso
hospital, que  o mundo, ainda encontra a suprema arte de fazer escutar,
enternecedoramente, um doce _trillo_ sentimental, uma ou outra ligeira
nota afectiva, algum limpo e cativante movimento do corao.

Bem-haja.

Do coro unssono de quase incondicional aplauso com que a imprensa tem
celebrado a apario d'_Os meus amores_ transcrevemos hoje um magnfico
artigo do _Correio Elvense_, devido  pena de um dos mais lcidos e
impetuosos engenhos da novssima gerao. (_Seguia-se a transcrio._)


Dirio Ilustrado:--_Os meus amores_, contos e baladas, por Trindade
Coelho.--A forja do tempo caldeia-nos o esprito  proporo que
envelhecemos.  por isso que os rapazes se desdoiram s  vezes de ouvir
os velhos, e parece-me que tm razo, porque nem sempre o so juzo de
uma experincia larga, sabe limar as arestas da caturrice no estudo
circunspecto... Eu tenho acompanhado, cantarolando e um pouco a rir com
singular cepticismo, este meu sculo, que est no fim, e com ele tenho
vindo estudando e aprendendo. Ruram as teocracias literrias,
revoluteou-se a filosofia, criaram-se novos processos de estilo,
arrancou-se o chir s  velhas frases, e todo um mundo novo,
extravagante e fantstico tem surgido,--mau grado as frias rbidas de
escritores paleontolgicos, aparafusados  Arte e  Crtica de h 50
anos e cheios de amor e melancolia... Ora essa aprendizagem do meu
sculo tem-me custado amarguras aterrantes, desequilbrios de esprito e
um desfolhar de verdes iluses, que eu tenho visto irem-me fugindo num
_marche-marche_ triunfal, para nunca mais voltarem,--ai! para nunca
mais voltarem!...

A vida do escritor moderno, toda torturante e nevrtica, d-me a
impresso tenebrosa dos contos de Poe, postos palpitantemente na vida
real de nossos dias. E lembro Camilo pedindo ao pedao de chumbo de uma
cpsula o ponto final redentor de agonias crudelssimas; Jlio Machado,
de pulsos cortados, fitando com olhar sangrento o retrato bem amado do
filho,--a alegria ruidosa dos olhos da sua alma,... e quantos outros,
bom Deus! Dir-se-ia que uma _m sina_ persegue os homens de
letras:--quando no  a navalha de barba,  o revlver,  a consumpo,
 a tsica,  o retraimento amargo,  o abandono prprio e alheio! Por
isso o meu vizinho Gervsio todo se ufana, com certo profundo bom-senso
prtico, da insistncia com que quer fazer do filho um _artista_
pintor--de portas, e de fora de portas...

Na _troupe_ de escritores em flor do meu tempo,--parece-me que j l
vo 30 anos, e tudo isto  apenas de ontem!--havia, joeirados com
singular amor de arte pura, uma dzia de rapazes de incontestvel valor
literrio, desabrochando esbanjamentos de talento pelas gazetas e
revistas mundanas. Poetas e prosadores, contistas e dramaturgos,
miniaturistas da poesia, do romance e da crnica, dessa pliade de
rapazes, um tanto insubmissos e um tanto bomios, alguns treparam
triunfantes,--poucos; outros, quase o resto, ou foram ainda verdes da
vida para os cemitrios das suas aldeias, ou, o que  quase o mesmo,
deram-se a calejar as mos, dissolvendo as suas aptides de plumitivos
incipientes, nas minas de oiro e de ferro da luta pela vida. Dos
_felizes_, dos que triunfaram,--como quem diz, dos vencidos da
vida,--me sorria eu s  vezes em horas de bom humor, lembrando-me como
eles com um livro de versos foram nomeados cnsules; com um tratado
sobre a cultura do repolho abriram o _Banco Mineral do Douro_, por
aces; com um drama em _D. Maria_ foram eleitos deputados; ou como com
uma crtica do _Salon_ de S. Francisco, se guindaram a bibliotecrios
das belas artes e hortalias correlativas... Dos outros, dos _perdidos_
pouco me lembra! Eduardo Salamonde foi-se a espantar os filisteus do
Par, aplicando-lhes aos fgados hipertrficos a vermelha caudal da
sua prosa mirabolante; Xavier de Carvalho desapareceu em Paris pelo
alapo macabro da _correspondncia_ barata; Gualdino Gomes anda a
amparando o seu reumatismo a uma certa _maneira_ de m lngua e a uma
bengala de cana; Leopoldino Gonalves viaja como mdico da armada; e
Fortunato, quando as saudades lhe so mais amargas, abandona o Alentejo,
onde toma pulsos a doentes pela tabela da Cmara, e aparece s  vezes
ndio, cor de fiambre, cheio de barbas, a olhar com tdio os copinhos de
cognac do _Leo_...

De todos os rapazes do tempo das minhas alegrias cor-de-rosa, o que me
traz mais doces recordaes  Trindade Coelho,--porque eu ligara  minha
a alma dele, num tempo em que dos salgueirais de Coimbra ele me
fazia para uma folha alegre de que eu era director, umas crnicas
soberbas, vivas, rendilhadas, cheias de colorido e de afirmaes de uma
personalidade literria. A sua prosa, a um tempo humana e lrica,
dava-me a impresso de um romantismo degenerado... De Coimbra, como
sabem, alm de bacharis annimos, tem-nos vindo a _elite_ das letras. 
da tradio universitria, fazerem os doutores as suas primeiras armas
de literatos e de poetas, na academia, a intervalos do pesado estudo
do Lobo e do direito pblico, esvurmado s  cavaleiras do nariz de
Pedro Penedo... Toda a nossa legio distintssima de poetas e
prosadores modernos deriva literariamente da bomia
coimbr:--Tefilo, Ea, Junqueiro, Joo de Deus, Antero, etc.  a
afirmao do bom Antnio Ferreira feita axioma:

     _No fazem mal as musas aos doutores_.

E no fazem. Tem-se visto. Vo l inquirir a Junqueiro das belezas do
Cdigo Civil, meio metafisicamente original e meio copiado dos cdigos
de Napoleo! Ah, mas em compensao que aparea a o primeiro advogado
a escrever a _Morte de D. Joo_ e a _Musa em frias_!

Os cantos de Trindade Coelho so narrativas ligeiras, descries numa
bela prosa colorida e transparente, trechos de psicologia trasmontana,
e um ou outro caso humano superiormente observado. Sobretudo a _maneira_
do proceder literrio deste escritor  deliciosa de cor e de verdade,
sem grandes esmerilhamentos de frase, nem deslumbramentos de imagens na
aparncia cor de oiro, que, em regra, no fascinam seno os saloios
ingnuos dos cordes de lato... Tem-se chegado a, no abuso da
originalidade do estilo, a fazer uma prosa estrelicada, engomada,
cabelinho  banda, com risca, como os caixeiros de modas ao domingo! O
burgus j conhece os processos da _chinoiserie_, e da no h
espant-lo com nefelibatismos doentios, de importao barata; bem sabe
ele que debaixo dessas belezas est a oleografia reles de porta de
escada, da sultana escarlate que apara as unhas, ou do frade que enxota
a mosca do nariz,--muito de apreciar nos covis da municipal em
Alcntara...

O livro de Trindade Coelho tem um certo ressaibo de saudvel trabalho,
feito com honestidade e sem as preocupaes deplorveis que levam os
corifeus da escola modernssima, mais que zolasta,  descrio e
estudo de patologias e casos espordicos, ou no vivos, ou pouco
vvidos. Este livro  quase um parntesis aberto como uma clareira
consoladora na torrente ultra-realista dos ltimos trabalhos
aparecidos, do _sujet_ de um dos quais, que  em todo o caso a
monografia de um carcter, assombrosamente executada, o _Gil Blas_
dizia,--_qu'on ne peut lui serrer la main que par derrire_...

A feio literria de Trindade Coelho parece-me que se define na parte
do livro subtitulada _Baladas_. Os _Arrulhos_, principalmente, so uma
dzia de pginas encantadoras, que lembram Droz e Daudet.  uma
elegia... trgica, _encadre_ numa linguagem cor de opala, em que a
gente parece estar vendo Hoffman brao dado a... Joo de Deus!  uma
obra-prima. Assim a _Tragedia rstica_ e a _Me_. Dos _contos_ destaco
eu os _Preldios de festa_, _Idlio rstico_, os _Tipos da terra_, onde
h pginas soberbamente observadas, sugestivas, _d'aprs nature_.
Magnfico o assassino _Jos Gaio_.

Trindade Coelho  inquestionavelmente um lrico. E nem eu sei como ele
chegou at aqui sem trazer na mala um volume de versos--_Florinhas de
Luar_, por exemplo! Devemos-lhe o grande favor de no conhecer os
dicionrios de rimas, seno a estas horas era uma vez um contista
encantador... soobrado!--_Incio da Silva_.


Nova Alvorada:--_Meu caro Trindade Coelho_.--Sabe voc, amigo Trindade,
que as palavras afectuosas que me endereou no oferecimento do seu
livro _Os meus amores_, vislumbraram no meu esprito um mundo de
saudosas recordaes, como se foram fugazes emanaes balsmicas de uma
quadra primaveril que no volta mais--a vida coimbr?

Parece-me que tenho ainda presente na retina a sua figura um pouco baixa
mas robusta, as _suas feies msculas e enrgicas_, e a sua _allure_ um
pouco receosa ao dobrar a soleira da legendria Porta Frrea.

Com o seu olhar penetrante e incisivo, mas velado por umas lunetas de
grau apurado, sob a pasta de um quintanista, mirando  direita e 
esquerda, entrou voc nos _Gerais_ resignado a um dilvio de troas,
martrios, horrores...

Os segundanistas, de cuja respeitvel corporao eu fazia
orgulhosamente parte, no o arreliaram logo, talvez porque lhe no
encontrassem uma fisionomia de chuchadeira, como a de um Armelim, nem um
rosto gretado, empedernido, de homem tercirio, como o do bom Rafael do
Ranhados.

Mas em que diabo foram eles depois embicar, os malvados!

Em uma medalha de oiro que voc trazia,  guisa de berloque, na corrente!

O amigo arrancou pressuroso a _pedra de escndalo_, de forma que a
tempestade de piada desanuviou-se a tempo no seu horizonte de novato.

Depois, um ou dois anos, aparece o amigo com acentuaes de acadmico
falado, o seu nome a salientar-se das vulgaridades escolsticas, a sua
individualidade a destacar-se, como se fora um _urso_. E assim se
falava do Trindade, como do Lus Osrio ou Feij por causa dos versos,
do Pssaro pela fina chalaa, do Saraiva pela fora, do Miguel
Baptista--pobre amigo!--pelo talento e pelas abstraces, do Banalidades
pela gralhadora loquacidade, e tutti-quanti.

Voc desencubou o seu nome, p-lo em evidncia--o Trindade--, mas foi por
causa de um excelente resumo das lies de direito romano, de um belo
discurso no centenrio pombalino, e sobretudo das suas graciosas
crnicas no _Dirio Ilustrado_.

Ah! e lembra-se voc daquele ano em que formmos repblica na Rua
da Trindade, tendo por criada a Sr.^a Maria de qualquer coisa, que
denominvamos a _Gorda_, matrona muito carovel e de enxundiosas formas?

ramos uns poucos:

O Sousa, que j tem o galo branco dos tribunais administrativos,
esprito fcil, perspicaz e alegre, nada para maadas, que tinha
orientaes definidas em poltica partidria e expedientes reservados de
galopim grado contra os progressistas da Barca.

O Manuel Nunes, hoje em Barcelos, muito lucianista, devorando o
evangelho do _Correio da Noite_, sempre em questinculas com aquele por
causa dos seus ideais polticos encontrados, grande passeador e jogador
de manilha, um tanto lambaz porque saa mais cedo e sorrateiramente dos
teatros, dizia-se, para comer a ceia dos retardatrios, guardada pela
_Gorda_ num cantinho do fogo.

E o Figueiredo que se ria pelos olhos e pelo hirsuto bigode quando lhe
chamvamos o Pegas, o Covarruvias, e lhe lamos um imaginrio plano,
rigoroso e draconiano, de reforma dos Estatutos da Universidade? Muito
desconfiado e estudioso, s no encavacava quando lhe dizamos que ele
se aplicava... 25 horas por dia!

Depois o Rocha Peixoto, o Bicho, de aspecto _sournois_, olhos  bufo, que
no falava ainda que o esmurrassem, pobre caloiro silencioso e
contumaz!

Em seguida o Srgio Carneiro, o Grilo, seu comprovinciano e hoje
conservador algures, com cara de cera, esboada, sem feies lavradas,
muito guitarrista e risonho, se bem que inteligente e aplicado.

ramos mais--voc e eu. Voc que se metia muito com a literatura,
fechado no quarto, lendo... lendo... escrevendo...; e eu, que por sinal
dediquei um fado aos membros da repblica, o qual nas vsperas de
feriado se cantava, em algazarra tonitruante, quando o Grilo
condescendia em o acompanhar na guitarra.

Depois de 1883 creio que nunca mais nos vimos. O amigo marchou mais
tarde para Sabugal e eu para Cuba, e hoje est nos tribunais de Lisboa e
eu no bero da monarquia.

Agora vejo-o, literato conhecido e conceituado, a publicar os seus
belos contos em um elefante volume--_Os meus amores_.

E belos na verdade, como todos dizem.

A _Me_, aquela cruciante tragdia da pobre _Rua_, morta de terror e
de amor,  para mim o mais aprecivel e sentido conto da sua coleco.

Costuma-se dizer de uma me descarovel, de uma Francisca Fortunata-- uma
cabra!--; mas o amigo teve artes de desmentir o erro grosseiro, vingando
as caluniadas afeies dos pobres ruminantes.

Quem ler as angstias da msera _Rua_, na expectativa do filhito
devorado pelo esfaimado lobo circunvagante, restituir quele
inofensivo animal o sentimento de amor maternal, a natural compreenso
das suas obrigaes de me e protectora.

E os _Arrulhos_? Se me no engano voc escreveu esse conto em Coimbra.
Creio at que um dia, estando a jantar, o amigo recebeu um jornal
qualquer de Vigo, Corunha ou Pontevedra, em que a sua bela produo
vinha traduzida no idioma de Cervantes com o titulo de _Palomas_.

Nos restantes contos, entre os quais me no agradaram menos _V[ae]
Victoribus_, o _Abyssus abyssum_ e o _Sulto_, revela o amigo a fora da
sua educada fantasia, moderada por um largo peclio de observao; a
sua poderosa intuio artstica; o seu dilogo curto, vibrante e
natural; o seu estilo j caracterstico pela feio franca, _saccade_,
de dizer e narrar; a propriedade das locues; o bom emprego dos termos;
a verdade das suas descries e pinturas, que, ao contrrio de muitos,
no repete, tinta para aqui, tinta para acol e vice-versa, numa
pobreza reles de palheta, que faz lembrar casacos virados ou coisa
semelhante.

Olhe, amigo. Eu careo de jeito para a crtica literria; mas, enquanto
me  licito exprimir a minha humlima opinio, dir-lhe-ei que voc
alarga cada vez mais e com mais rapidez a sua reputao de literato
distinto e de contista precioso; e que este conceito  merecido,
atestam-no os seus valiosos escritos dispersos e a sua elegante
brochura recm-editada.

Resta-me felicit-lo cordialmente, amigo Trindade, a agradecer-lhe a sua
fineza com um abrao de--Velho amigo--_Eduardo Carvalho_.


Nova Alvorada:--_Os meus amores_.--Acabamos de ser distinguidos com a
oferenda do novo livro de Trindade Coelho,--o simptico e distinto
escritor que de h tempos se vai honrosamente evidenciando no certame
das letras ptrias, onde j agora a sua individualidade tem uma
reputao firmada.

_Os meus amores_  o ttulo que o Sr. Trindade Coelho escolheu para o
seu livro de contos e baladas, e se assim lhe chama, segundo cremos,
no  porque estas 200 pginas sejam um auto-historiogrfico dos
idlios romanescos do autor, naquela urea quadra da sua vida
acadmica, ou um repositrio de alheias aventuras amorosas com
acompanhamento obrigado ao bandolim do trovador lendrio.

No. A razo do ttulo parece-nos antes proceder da afectividade
psicolgica do autor para com a sua obra, e induzimos isto do soneto
com que Lus Osrio prefacia o livro, e cuja primeira quadra diz:

_Folhas dispersas dos meus anos de ouro,
Vivo enxame das minhas alvoradas,
Tenho zelos de vs, folhas sagradas,
As Desdmonas sois de um outro mouro_.

Se no fosse assim, afirmar-se-ia mais uma vez a verdade do
aforismo--o hbito no faz o monge--, porque o _Idlio rstico_, com que
abre esta bela coleco de contos, no seria bastante para justificar
o ttulo sob que se enfeixam.

Mais que o idlio, preponderam no correr do livro a comdia, o drama e a
tragdia: e basta percorr-lo em rpida leitura, para averiguar-se que
se h na urdidura dos vrios contos muitas situaes que nos pintam o
ridculo, a desgraa ou o crime, poucas h, entretanto, que nos prendam
o esprito ao devaneio piegas de um Romeu e de uma Julieta.

Mas, ou bem ou mal baptizado, o que  consoladoramente verdadeiro  que
os contos do Sr. Trindade Coelho constituem uma das mais belas
coleces que no gnero conhecemos.

Uma urdidura fcil e clara, movimentada em harmonia com os melhores
preceitos da arte.

Uma linguagem correcta e elegante, sempre amoldada  naturalidade das
situaes e dos dilogos.

Uns assuntos de felicssima escolha, a reproduzirem fielmente costumes,
a pr em jogo com a maior verdade os vcios e as virtudes do povo.

Como os contos magnficos de Bento Moreno, os contos do Sr. Trindade
Coelho so a fiel expresso da vida rstica do nosso povo, e fcil  de
compreender a importncia moral que estes livros tero quando as
geraes que nos sucedam queiram inventariar nas suas tradies o modo
de viver, de sentir e de pensar das populaes sertanejas, neste
perodo histrico em que vamos.

Sem descer aos excessos da escola ultra-realista, a que Zola preside
como Sumo Pontfice, o Sr. Trindade Coelho, consegue ser de uma verdade
inexcedvel, de um realismo incontestvel, de um naturalismo a toda a
prova, que por igual se evidenciam no assunto, na narrao e nos
personagens.

E, sobretudo isto, h nos seus contos, como nos de Franois Cope e
Theodore de Bauville, a artstica encenao que, sem desvirtuar-lhe a
naturalidade da forma e do fundo, lhes imprime o atractivo romanesco
que fala  imaginao do leitor.

O _Idlio rstico_, com que o livro abre,  de uma suavidade deliciosa,
e de uma naturalidade to justa quanto encantadora.

A _ltima ddiva_  a expresso fiel de muitas cenas que a emigrao
multiplica cruelmente pelas nossas provncias do norte.

A aco deste conto  conduzida com uma tal uno de sentimentalidade,
que nenhum leitor, por mais rebelde que seja a comoes, se poder
esquivar a partilh-la.

O conto--_Tipos da terra_  a descrio fiel, fidelssima, da mesquinha
intriga que fervilha invariavelmente em todas as pequenas terras de
provncia.

_Os Preldios de festa_ so de um cmico admirvel; _Maricas_  de um
sentimentalismo comovente; _V[ae] Victoribus_ de uma moralidade
edificante; _Arrulhos_, _Me_, _Tragdia Rstica_, tudo, tudo neste
livro  bom, e de til e agradabilssima leitura.

A forma--j o dissemos-- correctamente verncula e elegantemente
rendilhada.

A ttulo de amostra, para aqui trasladmos do conto--_Sulto_--este
belo _croquis_ de uma tarde de Agosto:

Ao longe, fechando o horizonte que a eira dominava, as arestas dos
montes quebravam-se numa sombra igual, e embaciavam ainda o poente as
suaves e brandas pulverizaes doiradas da ltima luz do sol. Riscos
vermelhos de nuvens, como grandes vergas de ferro levadas ao rubro,
destacavam imveis num fundo verde-mar, esvaecido e meigo, raiado de
listres de uma colorao leve de laranja.

Pequenos algodes transparentes, com alvuras de neve, cortavam aqui e
alm, alegremente, a monotonia profunda do azul.

E assim o livro de Trindade Coelho: uma obra  altura da boa reputao
do autor.

A redaco da _Nova Alvorada_ congratula-se com o seu ilustre colega
por to brilhante produo, e daqui lhe envia um cordialssimo aperto
de mo.


A Independncia:--_Os meus amores_.--Acabamos de ler o primoroso livro
de Trindade Coelho, _Os meus amores_. Sem largas aspiraes,
modestamente, apenas com a conscincia tranquila de quem escreve bem e
com critrio,--Trindade Coelho juntou e concatenou no delicioso volume,
que acaba de dar  estampa, algumas produes literrias que a sua
vida de jornalista tinha atirado para a vala comum das pginas de
revistas e dirios.

No , pois, um trabalho completo, inteiro e homogneo o que se nos
oferece para apreciar: so pequenas jias literrias, buriladas por
mo de artista e de um fino sabor de naturalismo.

Considerado assim, sem dependncia de escola e confrontao de
originais, o livro  bom.

As suas descries so perfeitas, correctas, desenhadas por quem se
acostumou, desde criana, a ler muita e a adivinhar mais na bblia
riqussima e inexaurvel da Natureza.

H vida e colorido em tudo. As telas dos cus pincelaram-se com as
tintas prprias, e os diversos personagens que nos vo passando sob os
olhos, romanescos e srios uns, grotescos e ridculos outros, deixam-nos
uma impresso agradvel de realismo, e alta compreenso. So tipos
exactos, sem os grandes enfeites que aborrecem e sem frases banais que
enjoam. Antnio Fagote  um espcime do juiz de festa das nossas
aldeias, basofo e vingativo, pronto, ol! a gastar as ltimas moedas
da venda do ltimos gado e a deixar fulo e arreliado o seu antecessor; e
a deliciosa balada _Me_  uma preciosidade literria, magnificamente
pensada escrita, digna da pena dos nossos primeiros escritores.

No encomiamos, pois, o valor do livro, dizendo que ele  digno de
figurar ao p das mais belas produes dos nossos escritores mais
consagrados.


Correio de Portalegre:--_Os meus amores_, contos e baladas por
Trindade Coelho.

Acorda-lhes no esprito um eco de simpatia o nome do autor, pois no?

Eu creio bem isso, porque a verdade  que apesar da celeuma que Trindade
Coelho a levantou, granjeando com o seu gnio turbulento algumas
antipatias nenhuma delas alvejou o seu talento, que os senhores
jamais negaram, e lhes ficou sendo simptico.  por isso que escolhemos
para encetar esta seco a produo brilhante do distinto literato,
editada h pouco por Antnio Maria Pereira, um incansvel editor
escrupulosssimo.

Li o livro que o talento do autor recomenda, impondo-o, quase, a
ateno do nosso crebro,  contemplao da nossa alma; e essa leitura,
feita numas horas que um encanto enorme fez parecer to breves, deu-me
d'_Os meus amores_ a agradabilssima impresso de uma carcia, que
persiste a sorrir consoladora.

Trindade Coelho, que os senhores conhecem pelo menos do _Comrcio_ e da
_Gazeta_, tem, como viram, o poder invejvel de dar  ideia,--algumas
vezes injusta, diro alguns,--a mais correcta forma, iriada sempre da
limpidez mais viva; e isso, num trabalho feito agora para aparecer
amanh,  pressa sempre, numa fugida aos calhamaos manuscritos que
demandam a sua ateno de magistrado, e em que o perodo mais
sugestivo  o do _Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo_.

-lhes fcil por isso pressupor o livro, que o vagar do autor desbasta,
remodela, lima, muito tranquilamente, muito sossegadamente, sob a
vigilante direco do seu delicado gosto artstico.

_Os meus amores_ tm poesia, e tm verdade; e na maioria dos seus
diferentes quadros, adorvel descrio das cenas simples da vida do
campo, da natureza singelamente formosa, o sentimento vibra
intensssimo, e  encantadora a frase, que um conhecimento profundo
ditou, de que uma subtil observao ressai. H ali retratos de um brilho
sem limite, _tipos_ que resumem um estudo fidelssimo.

 um cofre de belas jias, o livro, que nos deixa embaraadssimo, se
queremos escolher alguma,--to valiosas so todas.

Todavia,--e isto  uma modesta opinio perfeitamente pessoal,--_V[ae]
victoribus_, de to grandiosa ideia, e de to elevado estilo, _Para a
escola_, to grata, a evocar uma saudosa recordao dos bons tempos de
criana, e os admirveis contos de fina graa e to verdadeiros,
_Preldios de festa_ e _Tipos da terra_, so os meus eleitos, depois
de uma dificuldade enormssima de escolha, de entre tantos quadros da
perfeio mais rara, e onde a _Maricas_ e _Arrulhos_ cativam tambm a
minha admirao.

O livro , como todos os sados na _Coleco Antnio Maria Pereira_,
esplendidamente impresso em bom papel, e cartonado elegantemente em
percalina.

Nesta notcia breve, digne-se o distintssimo autor d'_Os meus
amores_ receber o preito da nossa homenagem, prestada to agradvel como
sinceramente.


O Nordeste:--Editado pela casa Antnio Maria Pereira, de Lisboa, em
volume de impresso nitidssima, escrupulosa, foi recentemente publicado
o primeiro livro de Trindade Coelho--_Os meus amores_, que vieram pr em
relevo as complexas e brilhantssimas qualidades literrias do autor,
um _novo_ que j hoje ocupa, por direitos justamente adquiridos, um
lugar proeminente entre os nossos melhores escritores.

_Os meus amores_ tm obtido na imprensa do pas uma acolhida
entusistica, fervorosa e sendo Trindade Coelho um trasmontano, nosso
conterrneo quase, cometeramos uma flagrante descortesia se nos
leitores do _Nordeste_ no dssemos conta da apario desse livro,
juntando ao coro unssono de aplausos as nossas sinceras saudaes.

Escritos em prosa vibrante, fluente e musical, correctssima, esses
contos, transcendentemente lapidados, com a fina mestria de joalheiro
primoroso, constituem um verdadeiro encanto, cativando-nos com a
espontnea naturalidade da narrativa e com a emocionante escolha dumas
histrias aldes, de uma simplicidade campesina, repassadas por vezes
de um sentimentalismo suave, lrico...

A ns, que temos por Trindade Coelho uma vivssima simpatia, um afecto
antigo e veemente, seguindo com interesse quaisquer particularidades da
sua vida, consolando-nos com os triunfos literrios que tm
glorificado o seu nome e com a sua merecida reputao de magistrado
inteligente e trabalhador, ganha durante a sua carreira de delegado do
procurador rgio, estava-nos impacientando o desejo de ler o seu livro,
e foi nervosamente, sofregamente, que o abrimos quando o correio no-lo
trouxe. E, agradabilssima coincidncia! sucedeu-nos deparar com o
conto _Para a escola_, quadro tocantssimo que marca distintamente os
dois mais notveis estdios da vida do escritor: a altura em que entra
na escola primria, regida por um msero professor, bondoso e marcial,
de vilota sertaneja, e aquela em que sai de uma outra, habilitado com
as suas cartas de formatura a encetar a carreira pblica, na qual de
contnuo evidenciar as suas superiores qualidades de talento e carcter
diamantino.

Essa histria, exposta num estilo formosssimo, malevel e correntio,
deliciou-nos e impressionou-nos profundamente, a ponto--sem pejo o
confessamos...--de lgrimas espontneas nos marejarem os olhos, to
enternecedoras so essas pginas que evocam em ns as reminiscncias
queridas de um passado que no volta, e no esprito nos reproduzem, com
uma preciso fotogrfica, completa, cenas iguais da nossa infncia,
como de certo acontecer a todos quantos lograrem a felicidade de l-las
e senti-las...

Terminado esse conto, foi de um flego, a bem dizer ininterruptamente,
que _devormos_ o livro, onde o autor, num esbanjamento prdigo de
verdadeiras prolas literrias, se expande em ligeiras narrativas,
descritas numa prosa colorida e vibrtil, cintilante e rtmica,
apresentando-nos uma srie de quadros, colhidos em flagrante, _d'aprs
nature_, com uma extraordinria lucidez de observao, e um outro _caso_
humano trasladado para pginas de uma forma impecvel, acentuadamente
artista, e que so uma eloquente afirmao da distinta personalidade
de Trindade Coelho, ao presente um dos mais assinalveis e esmerados
cultores da prosa portuguesa.

No querendo, e no nos sobejando espao para tanto, ampliar esta breve
notcia a uma crtica a todo o livro, impossvel se nos torna enumerar
todos os contos em que ele se reparte, emitindo detalhadamente as
impresses que nos sugeriram. Por isso o nosso aplauso caloroso para
todo o livro, sem predileces por este ou por aquele conto; e daqui,
desta coluna de modesto jornal de provncia, enviamos ao nosso
queridssimo Trindade Coelho, numa efuso de acrisolada estima, com um
aperto de mo, as felicitaes que merece, fazendo votos para que no
deixe de ser um cultor assduo da literatura nacional, e continue a
honrar o seu nome, j laureado, com a publicao de novos e bons
livros.--_Jos Pessanha_.


Da Revista do Minho:--_Os meus amores_.--Poucos livros tero vindo 
luz da publicidade ultimamente em Portugal to esplndidos como aquele
cujo ttulo serve da epgrafe a esta notcia. Em todas as suas pginas
se rene o belo e o agradvel, tornando esta obra de slido mrito, e
estimvel debaixo de todos os pontos de vista.

Este volume pertence  formosssima coleco Antnio Maria Pereira, e 
devido  brilhantssima pena de um dos nossos mais festejados
escritores--Trindade Coelho.

No precisamos alongar-nos em chamar a ateno do pblico para esta
obra, pois  ela sobejamente j bem conhecida dos amadores de bons
livros.


Revista Ilustrada:--_Os meus amores_.--H tempo,--no h
muito,--comeou um jornal de Lisboa a publicar, de quando em quando,
umas cartas de provncia,--_Cartas alentejanas_, nos parece,--assinadas
pelo nome, ento desconhecido, de Trindade Coelho. Lida por ns a
primeira, nunca mais nos descuidmos de procurar as outras, e foi com
verdadeiro desprazer que as vimos ir rareando, at deixarem de aparecer
de todo.

Essas cartas eram a revelao de um formoso talento; eram a alvorada
jubilosa e cantante de um bom escritor. Trindade Coelho entrava nas
letras portuguesas pela porta urea dos vitoriosos, apresentando
natural e simplesmente a sua individualidade, como a fundira numa s
pea o seu talento aliado com a sua observao e o seu estudo, sem
esgrimir com os que tinham chegado primeiro, sem acotovelar os que
avanavam ao seu lado, sem o apregoarem tambores nem charamelas de
apaniguados e sequazes.

Escrevia de um canto da provncia, da sua terra, em horas desocupadas;
escrevia de assuntos comezinhos, de coisas que tinha ali  mo, das
cenas campestres a que assistia, e, sobretudo, do sentimento que a sua
alma encontrava no tracto simptico da natureza inteira. Falava de um
ou outro livro, que mo amiga lhe fazia chegar  solido do seu
eremitrio, sempre com acerto, propenso ao louvor, despido de invejas.
Era um talento e era um carcter.

Depois, houve na sua vida literria um momento de eclipse. Cremos que
deve ter correspondido ao perodo ocupado e trabalhoso da sua
formatura. Bom sinal. O estudioso srio sabia reprimir as impacincias
do amor prprio, sacrificando s  altas ocupaes do seu curso os
brilhos atraentes da fcil nomeada. O escritor experimentara j o
pulso; agora conhecia a sua fora e sabia e podia esperar.

Eis que nos aparece um dia, sbito, no foro, honrando e glorificando
num processo de reabilitao a sua toga de magistrado. O caso deu-lhe
celebridade, e ensejo para ser recordado o nome de homem de letras, que
ele soubera fazer distinto e conhecido logo aos primeiros trabalhos.

Alguns meses de colaborao diria, num jornal bem lanado e bem
redigido, avigoraram no conceito pblico o renome conquistado, e
Trindade Coelho tomou serenamente, na imprensa do pas, o lugar a que
tinha direito, sem ningum lho discutir nem contestar.

Estreia-se agora no livro, e dificilmente imaginaramos apresentao
mais prometedora e mais simptica.


_Os meus amores_ so uma coleco de esbocetos, alguns dos quais, como
o _Idlio rstico_, _ltima ddiva_, _V[ae] victoribus_!, _Abyssus
abyssum_, chegam a ter a perfeio, o acabamento de verdadeiros quadros.
Revelam o amor, o cuidado, o esmero com que o autor os trabalhou,
solcito na sua obra, no empenho de uma execuo imaculada. No porque
se conhea o esforo; mas sim porque se sabe que sem ele era impossvel
conseguir to completo efeito, to seguro resultado.

O estilo do prosador , quase sempre, firme, opulento, erudito, original
e variado. No tem reminiscncias deste ou daquele, e realiza uma das
condies essenciais que deve ter em mira todo o escritor
consciencioso: conservar uma feio prpria e individual, sem se afastar
da pureza da lngua, evitando ao mesmo tempo o retrocesso arcaico, e
contribuindo para a evoluo progressiva dela.

Trindade Coelho, por uma intuio que nos no cansaremos de louvar, em
vez de se cingir a modelos cuja originalidade maior ou menor lhe seria
fcil assimilar, em vez de decorar mestres e de compulsar estilistas,
procurou modo de iluminar a sua frase e de colorir a sua palavra, na
fonte natural de todas as inspiraes. Penetrou, para isso, nas camadas
mais primitivas do povo campesino, enriquecendo nesse manancial o
tesouro das locues, e trazendo de l, simultaneamente, cenas e
quadros do um sentimento encantador, e de uma singeleza nativa e
adorvel.

 de indiscutvel beleza a pastoral com que abre o volume.
Afigura-se-nos estar lendo algumas pginas de Longo. A descrio da
madrugada na aldeia, o encontro dos dois pastores, Gonalo e
Rosria,--Daphnis e Chloe,--tm um sabor antigo, como o de uma
narrativa idlica, passada nos tempos legendrios da Grcia, e ao mesmo
tempo toda a verdade de uma cena campestre dos nossos dias.  de um bom
gosto supremo a forma subtilmente delicada como o narrador, deixando
primeiro recear a queda dos seus personagens numa brutalidade
instintiva, os conduz por fim nas asas da inocncia e da candura a uma
situao divinamente sublime.

E, finda a narrativa, o leitor fica deliciado e satisfeito, numa doce e
prolongada abstraco, seguindo com os olhos do esprito aqueles dois
vultos de criana a esfumarem-se nas distncias do espao e do tempo,
longe, muito longe, numa paisagem ideal, vista nos dias da infncia,
vista talvez em sonhos, talvez em Virglio ou Tecrito, talvez mais
longe ainda, na Bblia...--seguindo, com os olhos da alma, em esquecida
contemplao, longe, muito longe,

...na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas, voando, voando.

Em _V[ae] victoribus_!, outro quadro de mestre, h como que um misto do
trgico fatalismo grego e do supersticioso horror cristo. No  vulgar
a concepo do assunto, nem vulgar, tambm, o desenvolvimento que o
escritor lhe deu, o cenrio  horrvel e magnfico. Est bem
descrito; bem descrita a tempestade, que primeiro se anuncia, depois
se aproxima, depois finalmente cresce e se desencadeia numa convulso
pavorosa e enorme; bem descrito o terror angustioso e supliciante do
msero assassino, o qual v, na chama de cada relmpago, projectada a
cruz negra que marca o lugar do seu crime e que lhe prende os ps ao
cho, enquanto o seu ouvido, alucinado pelo terror, lhe d a sensao
de uma voz insistente, que detrs de cada rvore, da espessura de cada
moita, de cima de cada pedra, da ressonncia de cada trovo, o chama
inexoravelmente pelo nome:-- Jos Gaio!  Jos Gaio!  Jos Gaio!

Bastava simplesmente esta narrativa para granjear a Trindade Coelho
foros de distinto e primoroso escritor. Edgar Poe no enjeitaria o
assunto, se lhe ocorresse, nem o trataria com muita maior perfeio.
Dar-lhe-ia pasto para algumas pginas to engenhosas como as da _Gnese
de um Poema_, para alguma composio to extraordinria e to
transcendentalmente bela como _O corvo_ ou _Ulalume_.

Mas como se quisesse mostrar a maleabilidade da sua pena, ou como se
quisesse certificar-se a si prprio da multiplicidade e da variedade das
suas aptides literrias, o prosador que recortou nos mais perfeitos
moldes aquelas pginas clssicas ou estas sinistras, detm-se na
comovente e lacrimosa narrativa da _ltima ddiva_ e nas ligeiras e
facetas descries dos _Tipos da terra_, dos _Preldios de festa_, do
_Sulto_, onde transparecem dotes de observao sarcstica, de ironia
graciosa e de bem humorado esprito.

Um livro de tantas promessas no pode ser, contudo, e por isso mesmo, um
livro definitivo. Trindade Coelho experimenta apenas a mo para se
abalanar a empresa maior, estamos certos disso. J no final do
presente volume, em nota do editor a um trecho intitulado: _Batalhas
domsticas_, se anuncia a transio da presente fase literria e
artstica do autor, para uma outra fase progressiva.

Progressiva, dizemos ns, porque assim o cremos. Qual h-de ser, porm,
a predominante caracterstica dessa fase? Pode a crtica conjectur-la
desde j? Talvez o pudesse; mas seria arriscado faz-lo. Porque, a
verdade  que o seu talento tem recursos com que lhe  dado contar, que
o seu temperamento literrio tem energias que lhe ho-de abrir novos
caminhos, e que, na sua vida de homem de letras, h j precedentes, que
enormemente o obrigam.

Temos confiana em que a sua prosa, j segura e elegante, despir-se-
ainda de um ou outro francesismo escusado, e h-de adquirir novos dotes
de clareza, conciso e vernaculidade. Trindade Coelho sabe onde
procur-los. No  em lxicos, nem em alfarrbios, nem em cartapcios.
 na escola, aberta sempre a todos os investigadores, onde aprenderam a
falar o portugus do povo, os seus tipos populares.

No se pode ser bom prosador, sem se ter o sentimento profundo do som,
da melodia. Uma das maneiras de adquirir percia nesta forma de
escrever, consiste na pratica de versificar. Fazer bons versos  um
exerccio til para chegar a fazer boa prosa. No , porm,
indispensvel, bem entendido.

Contudo, no admitimos que repute possuir as qualidades completas de
escritor, aquele que s de uma das duas formas da arte de escrever seja
conhecedor. Os mais elegantes cinzeladores da prosa, so os que
praticaram largamente no manejo da metrificao e da rima.

Trindade Coelho, apesar de todos os dons singulares da sua natureza
artstica, teria muito a ganhar, e conseguiria maior fluidez na frase e
maior cadncia no perodo, se praticasse um pouco a arte do verso,
embora como simples exerccio. E esteja certo de que lhe vale a pena
empregar todos os esforos para atingir uma perfeio, que no est
longe, e de que o seu talento prprio e a sua estudiosa boa vontade
continuamente o aproximam.--_Fernandes Costa_.


Aurora do Lima:--_Os meus amores_, contos e baladas, por Trindade
Coelho. Quando prometi  _Aurora do Lima_ esta ligeira notcia
bibliogrfica acerca do livro do brilhante escritor e meu querido
amigo Trindade Coelho, mal cuidava eu que a doena me obrigasse a
retardar o cumprimento da promessa, ao ponto de me encontrar entre os
ltimos da ltima fila, nas saudaes entusisticas  obra e ao seu
autor.

Tenho para mim como certeza indiscutvel que o pblico se comeou a
fatigar dessas obras torturantes de anlise fria, cruel, desoladora. Os
que se encontram feridos das asprrimas lutas da vida--e estes
constituem a maior parte dos que lem e estudam, preferem as obras
consoladoras, de cuja leitura fica uma sensao delicada, uma recordao
docemente suave. Assim, Pierre Loti ainda hoje triunfa sobre Zola,
apesar do enorme _rclame_ que antecede sempre a obra do velho mestre da
escola realista.

Ora o livro do Sr. Trindade Coelho pertence ao nmero dessas obras
consoladoras, de serenidade e de paz.  um livro sincero, que prende
pela emoo ntima, que interessa pela simplicidade elegante com que
est trabalhado, que impressiona pela correco impecvel do seu estilo,
malevel e harmnico.

Abre-se o livro e depara-se com o _Idlio rstico_, que  uma soberba
tela, amoravelmente tratada, denunciando logo s  primeiras linhas um
alto valor artstico, na verdade rigorosa da observao, na delicadeza
suave do colorido, na simplicidade graciosa dos dois pequenos pastores.

Segue-se-lhe o _Sulto_; e em boa verdade direi que me parece ser este
um dos contos mais formosos do volume, em que pese s  opinies
contrrias e at ao prprio autor, que no perde ocasio de o
depreciar.

Assunto simples, esse, e todavia absolutamente verosmil. A descrio
da eira, do labutar alegre, da paisagem e dos personagens deste pequeno
quadro, so um primor notabilssimo de execuo artstica, de rigorosa e
completa observao.

_ltima ddiva_, um episdio comovente, completa a primeira parte do
livro, a que se segue a _Comdia da provncia_, onde h preciosos
estudos da vida provinciana; as _Baladas_, onde se depara com o formoso
conto _Para a escola_, de um alto valor literrio; _Arrulhos_, uma
esplndida fantasia, etc.

Eis uma ligeira notcia do volume de contos _Os meus amores_, que
tamanho xito conseguiu obter, acordando de surpresa a habitual atonia
do nosso acanhado meio literrio, com os merecidssimos aplausos que
lhe foram dispensados.

Dos mritos literrios de Trindade Coelho falam mais alto do que a
crtica os seus trabalhos, espalhados em todos os jornais do pas,
especialmente no _Portugal_, onde escreve como o pseudnimo de _Ch. A.
Verde_, e na _Revista Ilustrada_, do editor Antnio Maria Pereira.  um
infatigvel e primoroso jornalista, sabendo dar ao mais frvolo assunto
um delicioso relevo literrio, que prende e interessa o esprito do
leitor.--_Lus Trigueiros_.


Os Gatos:--Vem a propsito de histrias, falar, bem sei que tarde, dos
_Meus amores_ de Trindade Coelho, como do moderno livro portugus que
mais juvenilmente fascia o talento de narrar, em poliedros de
multplices aptides. Os contos dos _Meus amores_ so pela maior parte
uma bagagem de vida acadmica, assimilativa (Trindade Coelho, muito
novo, findou h quatro ou cinco anos o curso jurdico) e como tal saem
da pena do escritor ainda sem uma cristalizao homognea de forma e
de processo. Porm na sua factura ondeante l-se o ascenso de um esprito
buscando a perfeio com escrpulos de eleito; de sorte que o volume at
como autobiografia se insinua, ele precisando as fases, ntulas, e
predileces literrias do contista, e enfim, depois de hesitaes,
emancipando-o num dos mais delicados microscopistas do corao, das
nossas letras. Como  provinciano, provinciano de aldeia, e natureza
contempladora inda por cima, Trindade Coelho cativa-se principalmente
dos assuntos buclicos, pequenas cenas de cabana, tempestades de
campanrio, pastorais, vida de povo, e sente-se que o no faa por
diletantismo de escritor avocando de cor dramas lambidos, seno por
esse estro de viso retrospectiva dos melanclicos despasados em
terras hostis, e que protestam contra o egosmo ambiente, recluindo-se
no passado, como num santurio de mmias adoradas.  a tendncia geral
dos nossos mais modernos narradores, buscarem na vida dos humildes,
especialmente dos campos, matria-prima para seus contos e poemetos. Em
poucos porm a predileco se escora na sinceridade e conhecimento
prtico da vida rstica, e em menos ainda h perspiccias para uma
autpsia sagaz da natureza psquica e moral do campons. Grande parte dos
que tm posto o povo em cena, contenta-se com recortar-lhe os andrajos
num cenrio de conveno, e com o fazer falar aos bonequinhos mancos
que resultam, aravias mais ou menos inventadas de um pitoresco sorna, em
cuja trama no h vislumbres de alma regional, de carcter profissional,
de individualismo tpico, ou de paixo. Se alguma vez tiverem pachorra,
mandem vir a coleco dos contistas rsticos portugueses, e riam 
larga das fantasias lorpas que l virem. Em dilogos amorosos h por
exemplo coisas nicas! Cavadores de aldeia debitam s  namoradas protestos
de paixo, em linguagem que seria preciosa at na boca de um pisa-flores
do Martinho e da Havanesa. Elas, de lhes retrucar em frase
equivalente, e de se mexerem em cena com os ademanes que a _Dama das
Camlias_ consagrou na cachimnia dos autores, como os mais prprios
para mimar o amor que as enxaqueca.

Em paisagens e descries de interior, a mesma ausncia de detalhe certo
e de viso prpria, que reduzem esses quadros, a meras caganifncias
de aguarelistas amadores. De tal maneira que o grupo de _campestres_ a
quem a arte confia a misso de leccionar aos desregrados habitantes das
cidades, os prazeres simples da vida pastoral, em vez de persuadirem os
seus leitores, o mais que fazem  pintar-lhes o campo como uma banal
imitao da Rua do Ouro, e o campons como uma arreglo grotesco do
alfacinha.

Ora, entre os poucos argutos dedicados a perscrutar a essncia da
paisagem provincial, e a alma do provinciano e do campnio, Trindade
Coelho  dos que mais lucidamente traduzem o seu critrio do problema,
em forma de arte, e dos que mais progressivamente vo crescendo  vista
do leitor, que no mais lhe perder de vista os voos poticos, e a
singular gracilidade irnica dos seus quadrinhos de gnero, colhidos em
prolongadas estaes nas duas mais tpicas provncias de Portugal, o
Alentejo e Trs-os-Montes. H assim nos _Meus amores_, a par dalgumas
benignas composies representativas da transio crtica do rapaz para
o homem, e do debutante para o laureado, outras de tal guisa iguais,
sbrias, seguras, que no hesito em as apontar como modelos, e dentro da
minusculeria da sua trama, como verdadeiras e encantadoras obras-primas.
_Tipos da terra_ e _Preldios de festa_, por exemplo, so duas narraes
que mordem fundo a ateno de quem nas l, e que por sua admirvel
sobriedade, intuito pictural, e observao ridente sobre o vivo, cuido
que ficaro modelarmente apontadas aos coleccionadores de literatura
tpica.

Qualquer das peas abrange apenas o flego de uma ou duas dzias de
pginas, deliciosas porm como factura, admirveis de bonomia, e de uma
sade moral que faz desejos de estimar pessoalmente o seu autor.

A est efectivamente revelado no s um talento plstico e bastante
rico em cambiantes, como tambm a pura gua de um carcter cheio das mais
finas intenes. _Tipos da terra_  o quadro satrico de uma m lngua
de aldeia, tendo por clube a porta da tenda, por cenrio a praa pblica,
e por personagens o pessoal burocrtico e elegante da terriola.
_Preldios de festa_  um estmulo de festeiros preocupados de qual
far a festa do orago mais sumptuosamente. Os tons so leves, os tipos
rpidos, a descrio dita a correr, mas no conjunto h um tal
equilbrio esttico, a meia-tinta  to fluida, e as intenes irnicas
sublinhadas to de manso, que se adivinha logo um mestre miniaturista,
Hogarth com laivos de Tenier, raro de sabor entre os sensabores que por
a medram, e certamente fadado a uma supremacia qualquer no moderno
romance portugus.--_Fialho de Almeida_.


Jornal de Santo Tirso:--_Os meus amores_.--Foi penhorante e comovente
para ns a gentilssima oferta que Trindade Coelho nos fez do seu
adorvel livro de contos, que tem por ttulo a epgrafe desta singela
notcia.

O nome de Trindade Coelho era j gloriosamente festejado quando o
brilhante contista frequentava ainda as aulas da Universidade; hoje,
porm, aparece mais radiantemente no seu precioso livro, onde a
primorosssima forma se alia com o mais delicado critrio de artista
d'_lite_ e com a fina observao de um talento verdadeiramente superior.

O que deixamos dito  profundamente sentido, que a nossa humilde e
obscura pena no est--seja este o seu nico mrito!--habituada a vir
entregar ao sagrado lume da imprensa os elogios sandeus que cada dia se
prodigalizam aos medocres e aos banais, que se desvanecem entre as
ondas desse barato incenso.

Os nossos leitores melhor ajuizaro, em presena do trecho que lhes
oferecemos como mimo de rara valia.


Dirio Ilustrado, (com o retrato do autor):--Trindade Coelho.--Nesta
spera vida das letras, cortada de tantas amarguras que ningum sonha,
h, entre outras, uma grande e profunda alegria,--que nem a todos  dado
experimentar, acrescente-se.

Essa alegria, sentem-na os poucos susceptveis de compreend-la,--na
elevada faculdade de admirar o que se impe pelo dominador prestgio do
talento ao culto mental, e sobretudo no ntimo orgulho de adivinhar,
logo aos primeiros passos, a revelao de Algum, que vai ser
unanimemente admirado.

Devo a Trindade Coelho, que figura hoje por direito de conquista na
galeria do nosso jornal, este incomparvel jbilo.

Adivinhei-o (consintam-me esta vaidade) quando poucos o conheciam;
admirei-o, muito antes dele trazer  literatura ptria o livro _Os
meus amores_, que foi como que a sbita iluminao do seu nome.

Que delicioso livro esse, onde Trindade Coelho nos aparece em toda a
sua inconfundvel originalidade de narrador, em todo o desartificioso
encanto da sua maneira de observar e referir, revendo-se-lhe o
temperamento de artista, impressionvel e vibrante, na fluidez do
estilo, que lhe repercute nitidamente todas as modalidades!...

O campo, que a maioria dos escritores conhecem superficialmente, de
rpidas excurses alpestres, sem o menor vislumbre de identificao,
vive no livro de Trindade Coelho, com um singular relevo de verdade, com
um profundo sentimento do natural. Entre os poucos argutos dedicados a
perscrutar a essncia da paisagem provincial, e a alma do provinciano e
do campnio, escreve dos _Meus amores_ o nosso grande crtico Fialho
de Almeida, Trindade Coelho  dos que mais lucidamente traduzem o seu
critrio do problema, em forma de arte, e dos que mais progressivamente
vo crescendo  vista do leitor, que no mais lhe perder de vista os
voos poticos, e a singular gracilidade irnica dos seus quadrinhos de
gnero, colhidos em prolongadas estaes nas duas mais tpicas
provncias de Portugal, o Alentejo e Trs-os-Montes.

Antes dos _Meus amores_, Trindade Coelho comeara a afirmar a sua
poderosa individualidade em uma seco do _Dirio Ilustrado_, _Cartas
alentejanas_, crnicas expedidas de Portalegre, em um arranque de
talento, com exuberncia de fantasia, modos de ver e dizer,
flagrantemente modernos, traos de soberbo humorismo  Vacherai, velados
a espaos de um ligeiro fumo de melancolia, que lhe avivava a frisante
originalidade.

Por esse tempo, o nosso brilhante cronista empreendeu, no exerccio
das suas funes de delegado, em Portalegre, a tarefa humanitria de
arrancar um pseudo-criminoso ao rigor da lei, que injustamente o
condenara.

E em torno do nome de Trindade Coelho, que emplumava para os largos
voos, fez-se um coro de bnos, como que uma apoteose de amor, que
dever ter sido na sua vida e para a fina sensibilidade da sua alma
efusiva e entusiasta, um destes supremos jbilos, superiores a todas
as desditas e inacessveis a qualquer desencanto.

D-se em Trindade Coelho e nos transcendentes dotes que o caracterizam e
lhe assinalam o ponto culminante em que se evidenciam, uma dualidade,
verdadeiramente fenomenal.

 que, sendo ele um artista, na rigorosa acepo titular da palavra,
namorado do ideal, amando a Arte com religioso fanatismo, vivendo na
exttica adorao de tudo quanto ela sobredoira do seu brilho imortal,
 ao mesmo tempo um funcionrio exemplar, um delegado do procurador
rgio, que viu de repente o seu nome respeitado e temido, de tal sorte
Trindade Coelho encarna em si, na austeridade do seu carcter e no
correcto exerccio da sua profisso, toda a prestigiosa soberania da
Lei. Diz ainda Fialho de Almeida, inteiramente insuspeito, quando se
trata de aquilatar o mrito de um autor:

A est efectivamente revelado no s um talento plstico e bastante
rico, em cambiantes, como tambm a pura gua de um carcter cheio das
mais finas intenes.

s vezes, o magistrado recorda-se do artista e estremece de saudade
nostlgica ou treme de frio... legal.

 ento que ele murmura, (perdoa a indiscreta aluso, meu caro
Trindade Coelho?) Ah! que apertada gaiola esta, em que vejo fechado, o
meu esprito! O meu trabalho, amo-o porque  o meu dever. Mas como eu
ando longe, afastado, extraviado... de mim mesmo! No faz ideia, no!
Dentro desta jaula de ferro, veja! E l fora, e l em cima--que amplo
cu azul para voar!

Mas nesse azul para onde lhe foge o esprito, quantos triunfos ainda o
esperam, meu ilustre amigo?--_Guiomar Torrezo_.


Revista de Portugal:--(Excerto de um artigo crtico acerca do _S_ de
Antnio Nobre).--Alma doente, o Sr. Antnio Nobre soube extrair da sua
doena efeitos de Arte singulares e s  vezes intensos. Outros
atingiram o mesmo objectivo pela descrio das emoes naturais e pelo
apelo aos instintos sos do corao humano. Acabo de reler o livro
de um escritor tambm novo: _Os meus amores_ de Trindade Coelho. Com
casos da vida corrente e com sentimentos que podem ser compreendidos
por qualquer dos seus leitores, uma despedida, a afeio de dois
pastorinhos perdidos na solido do campo, os remorsos de um homicida
junto  cruz da sua vtima, o amor materno de uma cabra que se deixa
morrer sobre o cadver do filho recm-nascido, consegue o narrador
interessar e comover vivamente o esprito de quem o acompanha atravs
dessas duzentas pginas impregnadas dos sucos da terra e do suor dos
lavradores. Demonstrao cabal de que a Arte  vasta e a capacidade
pessoal decisiva para a beleza das obras.--_Moniz Barreto_.


Da Vid'Airada: Trindade Coelho.--Uma vez na sua frente, face a face,
olhando-o bem, medindo-o de alto a baixo,--o que no seria difcil mesmo
no caso de que a medida dos homens se tirasse a palmos--fixando o olhar
no seu olhar, e no perdendo uma s das suas palavras na mais simples
conversa de algum quarto de hora,--ao separar-se ele de ns, porque j
ento a gente no se atreve a separar-se dele, tem-se adquirido a
certeza de que aquilo  o que , e chegado  mais slida convico de
que toda a verdade, toda a sinceridade de um temperamento e de um
corao de homem, nunca se manifestaram mais expressivamente, mais
insubmissas ao menor propsito do menor disfarce, do que na sua
fisionomia bem aberta, iluminada em cheio pelo brilho intensssimo do
seu olhar muito lmpido, muito penetrante, se expressam toda a
sinceridade, toda a verdade do seu grande corao e do seu impetuoso
temperamento.

E ao v-lo partir pela rua fora, decidido e teso, resoluto e rijo, a
cabea alta, assentando com firmeza o p pequeno, despejando caminho que
d gosto v-lo, no resistem os olhos ao desejo de acompanh-lo de
longe, at que o percam na dobra da primeira esquina, e a gente diz ou
pensa:--Demnio!... Com meia dzia assim, poderia fazer-se _alguma
coisa_ ainda!...

Porque no meio desta espcie de contgio, que os perversos e as suas
perverses vo espalhando em redor de si, fazendo estremecer os honestos
quando com eles se cruzam, e tentando para o mal os fracos quando
passam--s a presena de homens bons e sos poder melhorar este solo e
purificar esta atmosfera.

Na travessia dos dois mundos diversos a que este homem dedicou a viagem
da sua vida,--o mundo literrio e o mundo judicial--afigura-se-me
ele, talvez, como um antpoda de si mesmo, ora imprimindo o indelvel
cunho da sua vigorosa e honesta individualidade em preciosos documentos
para a dilacerante historia patolgica da sociedade portuguesa neste
agonizar de sculo, quando aponta o implacvel ndex do Ministrio
Pblico contra os altos rus de certas causas clebres,--ora imprimindo
nalgumas obras de pura arte literria, em que a elegncia da forma 
posta sempre ao servio das emoes mais doces e das mais penetrantes,
esse outro cunho, dessa outra individualidade que nele h, e to
diversa , to original e to rara, to contemplativa e to terna.

...Sim! toda a verdade, e toda a sinceridade do seu grande corao e do
seu impetuoso temperamento!

No tribunal, quando articule algum libelo acusatrio em que as suas
palavras se no limitam ao cumprimento do dever de ofcio, no tardar
que  serena exposio dos primeiros articulados suceda a expresso
calorosa, indmita, sempre crescente, da indignao, e da clera, que
lhe provocam e aulam os factos e as razes de que vai deduzindo a
tremenda acusao contra o ru--...esse ru que ali est, ali!
sentado naquele banco, sentenciado j, e de grilheta aos ps!
Agita-se-lhe a circulao do sangue, a respirao acelera-se, a face
ruboriza-se, todas as veias do pescoo e fronte se distendem, o peito
enche, as narinas dilatam-se, tremem, fumegam... A excitao do crebro
vigoriza-lhe os msculos, afirma-lhe a energia, parece transport-lo ao
imprio da fora, num arrebatamento em que os dentes rangem, e as unhas
se crispam, punhos cerrados, braos erguidos, completamente desordenado
a frentico!... A voz, sempre vibrante, chega a parar-lhe na garganta,
quase ronca, vociferando, em discordncias agudas que vem ferir de
arrepios a espinha dorsal do auditrio... J no  para a justia dos
homens que ele apela; no lhe bastam, no o saciam as penas mximas
dos Cdigos! Quer o castigo do Cu, quer a justia de Deus!

...O que no tira, ainda assim, que resgatasse da morte civil, bem pior
que a morte natural, um desgraado que a cegueira da justia humana
havia condenado por assassino e ladro--o pobre Manuel Barradas. Muito
comentou a imprensa o facto, espantada de que um agente do Ministrio
Pblico, um feroz acusador, empenhasse dois anos agoniados da sua vida
em apurar uma inocncia... Trindade conserva, encadernada, a coleco
desses jornais, e legou-a em vida ao filho, ao Henrique, pondo-lhe no
princpio estas palavras: Meu filho, pela lei de Deus, a vida  s um
pretexto para boas obras. Observei um dia a lei do Senhor, e Ele, em
prmio da minha obedincia, concedeu-me o poder legar-te um pedao vivo
do meu corao. Queres ouvi-lo bater? Ausculta essas folhas... Bendito
seja Deus! sero ainda minhas as tuas lgrimas enternecidas, e, ainda
depois de morto, viverei na tua comoo e na tua alegria, para a
comoo e para a alegria da minha obra...

Mas passa a tempestade, e volvido o bom tempo, que singular contraste
nos oferece a outra fase desse mesmo esprito, quando o vulto austero
do magistrado, cedendo o lugar  delicada individualidade do homem de
letras, o desembaraa da toga e o deixa que v, em mangas de camisa,
muito  vontade e  fresca, pelas tardes serenas do seu bom humor, a
vaguear pelos campos do seu sonho--sonho feito de saudade, dessa muito
viva e muito afectuosa ternura que  sua alma de artista d, e que a
sua prosa to sentidamente traduz, a recordao de felizes tempos que
no voltam mais, e que por isso mesmo nunca mais esquecem,--recordao a
que andam para sempre ligados, numa doce e meiga associao de ideias,
certos lugares, certas pessoas, certas oraes, certa ermidinha e certo
olmo, que j l estavam quando ele nasceu, que o embalaram nos
primeiros sonos e lhe deram amparo nos primeiros passos; que ao
baptismo o levaram, e o conduziram  escola; alegrando-se com as suas
alegrias, entristecendo-se com as suas lgrimas...

Nesses momentos, sob o domnio desse lindo sonho, inundado do luar da
sua terra, desanuvia-se-lhe o rosto, alisa-se-lhe a fronte, v-se
pousar-lhe nos beios e nas plpebras a serenidade meiga de um sorriso,
como que o doce agradecimento  alma de sua me, que tivesse vindo,
muito devagarinho, muito devagarinho, abeirar-lhe o leito,
aconchegar-lhe a roupa, e pousar-lhe nos olhos e nos lbios a amorosa
carcia dos seus beijos...

Por isso, a msica do seu estilo produz sobre a nossa sensibilidade
essas emoes e excitaes violentas, em que a tremura dos msculos e a
efuso das lgrimas realizam o fenmeno das emoes reais.

Os seus escritos obedecem sempre  lgica influncia desta convico
em que ele est, quando me diz, bem medindo e pesando cada uma das suas
palavras:

--Positivamente, meu amigo, o pblico deseja, antes de mais nada, que o
escritor preste na sua obra o culto que  devido  sua lngua. Depois,
deseja que o comovam, que honesta e consoladoramente o emocionem,
preferindo que o assunto do quadro seja a explorao das coisas
triviais da vida, certamente porque reside no Simples a frmula mais
natural da Verdade... Compreendo que o esprito dos que lem est
fatigado dessa confuso do _romance_ com o _estudo_, e convenci-me,
enfim, de que a obra de arte literria tem, como primeiro dever, e como
condio primeira de agrado, de ser consoladora e suave, tocada sempre
de uma pontinha ligeira de poesia que v direita ao corao e
entretenha, em quem l, as faculdades emotivas, de preferncia, mesmo,
s  faculdades intelectuais...

Releio _Os meus amores_, o livro dos seus contos.  o primeiro deles,
_Idlio rstico_, de uma deliciosa simplicidade de aguarela, parece que
feito sobre um esbatido de cu purssimo, cor de sovaco de andorinha e
no sei com que singular sabor eucarstico de primeira comunho... 
um sonho de absinto, que serve de aperitivo divino para a leitura
sfrega de todo o livro. Dois pastoritos ingnuos, a Rosria e o
Gonalo, encontram-se e aproximam-se, numa indecisa alvorada de
derrio, cheios de boas tenes e puros ideais. Acontece, porm, que por
viverem longe, raras vezes se falam, e quando essa ventura lhes  dada,
imaginem os que como eles se amem a alegria que inunda aquelas duas
almas! Duma vez, passada alguma dessas ausncias longas, quis Deus que
os dois inesperadamente se topassem, pela madrugada, quando iam levando
seus rebanhos ao pasto. Logo combinaram juntarem-se as ovelhas, como
juntos os coraes traziam, e desde que nasce o sol at que o sol se
pe, vagueiam nas frescuras marginais do rio, a par, e ss, ele
dedilhando a flauta, ela recordando cantigas, com murmrios de gua
correndo, e balidos suaves dos langeros, numa paz de alma idlica de
iluminura. E quando a noite chega, porque lhes custe imenso a
separao, o Gonalo a convida a continuarem juntos, deixando que as
ovelhas durmam em mistura e que passem eles a noitada sobre o mesmo
colmo, ao abrigo da mesma cabana. No sem certa instintiva relutncia,
Rosria aceita; e como se deitem ao lado um do outro, tornando as
mantas cobertor comum, e pousando as cabeas nos bornais unidos,
parecer-vos-, como a mim pareceu, que ali rompem os beijos
desmedidos... Nada disso, perversos! A pouco e pouco vai escurecendo, e
os bons dos namorados, numa plcida orquestrao final que se smorza,
referem-se casos de moiras encantadas, e assim pegam no sono e
adormecem... Tem a gente remorsos do que foi julgar: sente a tristeza da
maldade nossa.

Depois, depois os outros, que seguem pelo livro fora, e que vamos
bisando e saboreando a pequeninos golos, durante algumas horas bem
fugidas, passeadas por aquelas paisagens e recantos provincianos que
ele nos pinta, to real e verdadeiramente como se l estivssemos; em
companhia daqueles tipos que ele retrata, to fotogrficos, to
ntidos, que  estar a gente a v-los, a ouvi-los, a falar-lhes, a
deitar-lhes o brao pelo ombro...

Antes dos seus contos nunca a prosa portuguesa me havia dado, posta ao
servio da moderna arte, o inefvel gozo de to estranhas, to novas,
to encantadoras surpresas! Quisera eu, indita, bem fresca, pela
primeira vez usada a respeito da sua escrita, esta flagrante
comparao:--dir-se-ia traada com uma pena de guia... arrancada de uma
asa de pomba.

Os seus livros ficaro pertencendo ao nmero daqueles que parecem
possuir o raro condo de nunca envelhecerem no esprito de quem os l.
Reler o que ele escreve  sentir o mesmo prazer, sempre renovado, de
quando se contempla pela centsima vez algum querido, precioso objecto,
que noventa e nove vezes se contemplara j: privilgio esse de eterna
seduo, que s desfrutam as obras em que o artista deixou pedaos da
sua alma.--_Alfredo Mesquita_.


Do Poema do Ideal:

_Os meus amores_! que livro
To fragante e saboroso!
Centelhas ureas e vivas,
Dum prosador luminoso!

Brisas da serra!
Trechos idlicos
Da nossa terra!

_Fernandes Casta_.















End of the Project Gutenberg EBook of Os meus amores, by Trindade Coelho

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS MEUS AMORES ***

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