The Project Gutenberg EBook of A Queda d'um Anjo, by Camilo Castelo Branco

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Title: A Queda d'um Anjo
       Romance

Author: Camilo Castelo Branco

Release Date: March 5, 2006 [EBook #17927]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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A QUEDA D'UM ANJO

ROMANCE

POR

CAMILLO CASTELLO BRANCO



LISBOA

LIVRARIA DE CAMPOS JUNIOR--EDITOR

77--Rua Augusta--81

1866




Imprensa de J. G. de Sousa Neves--Rua do Caldeira, 17




*DEDICATORIA*


ILL.^{MO} E EX.^{MO} SR. ANTONIO RODRIGUES SAMPAIO


Meu amigo.


Volto a offerecer-lhe uma das minhas bagatelas. Chamo assim, para me
fingir modesto, bagatelas a umas coisas que eu reputo no maximo valor.
Se no fossem ellas, naturalmente eu no chegaria a grangear a estima de
V. Ex.^a, que m'as tem lido, e alguma vez louvado. J V. Ex.^a, antes de
me conhecer, quiz encravar a roda do meu infortunio, roda com que eu
estou sempre brincando como as creanas com os seus arcos. Que tinha eu
feito para commover a bemquerena do meu prestante amigo? Tinha feito
uns livros futilissimos,  imitao d'este que lhe offereo.

No  esta boa opportunidade de eu vir com a minha oblao de pobre a V.
Ex.^a Lembra-me a sentena do nosso Diogo de Teive:

  _Donat cum egenus diviti
  Retia videtur tendere_.

Os praguentos ho de querer ver aquellas _rdes_, por que no sabem que
V. Ex.^a j me constituiu, ha muito, no dever de eterna e profunda
gratido.

Lessa da Palmeira 27 de setembro de 1865.

CAMILLO CASTELLO BRANCO.




I

*O heroe do conto*


Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de
Freimas, tem hoje quarenta e nove annos, por ter nascido em 1815, na
aldeia de Caarelhos, termo de Miranda.

Seu pae, tambem Calisto, era cavalleiro fidalgo com filhamento, e decimo
sexto varo dos Barbudas da Agra. Sua me, D. Basilissa Escolastica,
procedia dos Silos, altas dignidades da egreja, commendatarios, sangue
limpo, j bom sangue no tempo do senhor rei D. Affonso I, fundador de
Miranda.

Fez seus estudos de latinidade no seminario bracharense o filho unico do
morgado da Agra de Freimas, destinando-se a doutoramento _in utroque
jure_. Porm, como quer que o pae lhe fallecesse, e a me contrariasse a
projectada formatura, em razo de ficar sosinha no solar de Caarelhos,
Calisto, como bom filho, renunciou  carreira das lettras, deu-se ao
governo da casa algum tanto, e muito  leitura da copiosa livraria,
parte de seus avs paternos, e a maior dos doutores em canones, conegos,
desembargadores do ecclesiastico, cathedraticos, chantres, arcediagos e
bispos, parentella illustrissima de sua me.

Casou o morgado, ao tocar pelos vinte annos, com sua segunda prima D.
Theodora Barbuda de Figueira, morgada de Travanca, senhora de raro
aviso, e muito apontada em amanho de casa, e ignorante mais que o
necessario para ter juizo.

Unidos os dois morgadios, ficou sendo a casa de Calisto a maior da
comarca; e, com o rodar de dez annos, prosperou a olho, tendo grande
parte n'este incremento a parcimonia a que o morgado circumscreveu seus
prazeres, e, por sobre isto, o genio cainho e apertado de D. Theodora.

_Remenda teu panno, chegar-te-ha ao anno_, dizia a morgada de Travanca;
e, afferrada ao seu adagio predilecto, remendava sempre, e sergia com
perfeio justamente admirada entre a familia, e fallada como exemplo na
rea de quatro leguas, ou mais.

Em quanto ella recortava o fundilho ou apanhava a malha rta da pinga, o
marido lia at noite velha, e adormecia sobre os in-folios, e acordava a
pedir contas  memoria das riquezas confiadas.

Os livros de Calisto Eloy eram chronices, historias ecclesiasticas,
biographias de vares preclaros, corographias, legislao antiga,
foraes, memorias da academia real da historia portugueza, cathalogos de
reis, numismatica, genealogias, annaes, poemas de cunho velho, etc.

Respeito a idiomas estranhos, dos vivos conhecia o francez muito pela
rama; porm, o latim fallava-o como lingua propria, e interpretava
correntemente o grego.

Memoria prompta, e cultivada com aturado e indigesto estudo, no podia
sair-se com menos de um erudito em historia antiga, e repositorio de
noticias miudas sobre factos e pessoas de Portugal.

Consultavm-n'o os sabios transmontanos como juiz indeclinavel em
decifrar cipos e inscripes, em restabelecer pocas e successos
controvertidos por authores contradictorios.

Sobre castas e linhagens, coisa que elle tirasse a limpo, no dava pga
a duvida nenhuma. Ia elle desenterrar gerao j sepultada ha setecentos
annos, e provar que, na era de 1201, D. Fuas Mendo casra com a filha de
um mesteiral, e D. Dorzia se havia sujado casando mofinamente com um
pagem da lana de seu irmo D. Payo Ramires.

Farpeados pela viperina lingua d'elle, os fidalgos provincianos
retaliavam quanto podiam a prosapia dos Benevides, propalando que
n'aquella familia se gerra um clerigo grande femieiro, beberro e
lambaz, a quem o santo arcebispo D. Frei Bartholomeu dos Martyres, uma
vez, perguntra que nome havia; e, como quer que o padre respondesse
_Onofre de Benevides_, o arcebispo accudira dizendo: Melhor vos acertar
com o nome, segundo a vida que fazeis, quem vos chamar de _Bene bibis_
e _male vivis_.[1] O remoque, talvez por ser de santo, era medianamente
engraado e pouco para affligir; assim mesmo Calisto Eloy,  conta
d'esta injuria dos fidalgos comarcos, tanto lhes esgravatou nas
geraes, que descobriu radicalmente serem quasi todas de m casta.

 superfluo dizer-se a qual doutrinao politica pendia o animo do
morgado da Agra de Freimas. Estava com a deciso das crtes de Lamego.
Fizera-se n'ellas, e cuidava ter assistido, em 1145, quelle congresso
mythologico, e ter conclamado com Gonalo Mendes da Maya, o Lidador, e
com Loureno Viegas, o Espadeiro: _Nos liberi summus, rex noster liber
est_.[2] Todavia, se assim fossem todos os doutrinarios politicos, a
gente apodrecia na mais refestelada paz, e supina ignorancia do
andamento da humanidade.

Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda queria que se venerasse o
passado, a moral antiga como o monumento antigo, as leis de Joo das
Regras e Martim d'Ocem, como o mosteiro da Batalha, as ordenaes
manuelinas como o convento dos Jeronymos.

O mal que d'aqui surdia ao genero humano, a fallar verdade, era nenhum.
Este bom fidalgo, se lhe tirassem o sestro de esmiuar desdouros nas
geraes das familias patriciatas, era inoffensiva creatura. D'este
seno, a causa foi um chamado _Livro-negro_, que herdra de seu tio av
Marcos de Barbuda Tenazes de Lacerda Falco, genealogico pavoroso, o
qual gastra sessenta dos oitenta annos vividos, a colligir borres,
travessias, mancebias, adulterios, coitos damnados, e incestos de muitas
familias n'aquellas satanicas costaneiras, denominadas _Livro-negro das
linhagens de Portugal_.

Em summa, Calisto era legitimista quieto, calado, e incapaz de impecer a
roda do progresso, com tanto que elle no lhe entrasse em casa, nem o
quizesse levar comsigo.

Prova cabal de sua tolerancia foi elle acceitar em 1840 a presidencia
municipal de Miranda. Na primeira sesso camararia fallou de feitio e
geito, que os ouvintes cuidavam estar escutando um alcaide do seculo xv
levantado do seu jazigo da cathedral. Queria elle que se restaurassem as
leis do foral dado a Miranda pelo monarcha fundador. Este requerimento
gelou de espanto os vereadores; d'estes, os que poderam degelar-se,
riram na cara do seu presidente, e emendaram a galhofa dizendo que a
humanidade havia j caminhado sete seculos depois que Miranda tivera
foral.

--Pois se caminhou, replicou o presidente, no caminhou direita. Os
homens so sempre os mesmos e quejandos; as leis devem ser sempre as
mesmas.

--Mas... retorquiu a opposio illustrada, o regimen municipal expirou
em 1211, sr. presidente! V. ex.^a no ignora que ha hoje um codigo de
leis communs de todo o territorio portuguez, e que desde Affonso II se
estatuiram leis geraes. V. ex.^a de certo leu isto...

--Li, atalhou Calisto de Barbuda, mas reprovo!

--Pois seria util e racional que v. ex.^a approvasse.

--Util a quem? perguntou o presidente.

--Ao municipio, responderam.

--Approvem os srs. vereadores, e faam obra por essas leis, que eu
despeo-me d'isto. Tenho o governo de minha casa, onde sou rei e
govrno, segundo os foraes da antiga honra portugueza.

Disse; saiu; e nunca mais voltou  camara.




II

*Dois candidatos*


Desde o qual incidente, o morgado, convicto da podrido dos vereadores
em particular, e da humanidade em geral, prometteu a onze retratos, que
tinha de onze avs, pintados indignamente, nunca mais tocar o cancro
social com suas mos impollutas.

N'este proposito, nem ao menos consentiu que o vigario lhe mandasse o
_Periodico dos Pobres_ do Porto de que era assignante emparceirado com
mais quatro reitores limitrophes, e o mestre escola e o boticario.

Um dia, porm, quando elle saia da festividade de S. Sebastio, cujo
mordomo era, deteve-se no adro, onde o rodearam os mais graudos
lavradores da sua freguezia e das visinhas. N'outro grupo, fallava-se do
sermo, e da constancia do santo capito das guardas do barbaro
Diocleciano, e da desmoralisao do imperio.

Estas puchadas reflexes era o boticario que as expendia, coadjuvado
pelo mestre de primeiras lettras, sujeito que sabia mais historia romana
do que  permittido a um professor da preciosa e capitalissima sciencia
de ler, contar e escrever, pelo que o sabio vinha a grangear para a
humanidade a sciencia, e para elle nove vintens e meio por dia. E comia
o sabio estes nove vintens e meio quotidianos, e ensinava os rapazes, e
sobejava-lhe tempo para ler historia! Podra!... Os governos davam-lhe
frias grandes ao estomago, em proveito do espirito. Se elle andasse bem
nutrido e succado de tripa, no aprendia nem ensinava coisa de monta.
Que a pobresa  o estimulo das maiores faanhas da intelligencia.
_Paupertas impulit audax_[3]. Isto que o Horacio faminto dizia de si,
accomodam-no os regedores da coisa publica aos professores de primeiras
lettras; porm, outros muitos versos do Horacio farto, esses tomam-os
elles para seu uso.

Estava, pois, o mestre-escola, de parceria com o boticario, a castigar a
perversidade dos imperadores romanos, por amor do martyr S. Sebastio,
que, segunda vez, acabava de ser frchado no panegyrico. N'este comenos,
abeirou-se d'elles Calisto Eloy, e para logo se callaram as duas
capacidades, em referencia ao Salomo da terra.

--Que dizem vocemecs?--perguntou Calisto benignamente. Continuem...
Parece que fallavam do santo.

-- verdade, sr. morgado--accudiu o boticario, ajustando os collarinhos
percucientes ao lbulo das orelhas, escarlates do atrito da
gomma.--Fallavamos na malvadez dos imperadores pagos.

--Sim!--disse Calisto, com proeminencia declamatoria,--sim! Horrorosos
tempos aquelles foram! Mas os tempos actuaes no se differenam tanto
dos antigos, que possamos, em consciencia e sciencia, encarecer o
presente e praguejar o passado. Diocleciano era pago, cego  luz da
graa: os crimes d'elle ho de ser contrapesados, e descontados, na
balana divina, com a ignorancia do delinquente. Ai, porm, dos que
prevaricaram fechando olhos  luz da notoria verdade, afim de se
fingirem cegos! Ai dos impios, cujas entranhas esto afistuladas de
herpes! No grande dia, funestissima ha de ser a sentena d'elles, novos
Caligulas, novos Tiberios, e Dioclecianos novos!

Relanceou o pharmaceutico uma olhadella esguelhada ao professor, o qual,
abanando tres vezes e de compasso a cabea, dava assim a perceber que
abundava na admirao do seu amigo e consocio erudito em historia
romana.

Obrigado s orelhas do auditorio attento, Calisto, em toada de Ezequiel,
continuou:

--Portugal est alagado pela onda da corrupo, que subverteu a Roma
imperial! Os costumes de nossos maiores so mettidos a riso! As leis
antigas, que eram o baluarte das antigas virtudes, dizem os sycophantas
modernos, que j no servem  humanidade, a qual, em consequencia de ter
mais sete seculos, se emancipou da tutela das leis. (Alluso bervada aos
vereadores de Miranda, que discreparam do intento restaurador do foral
dado por D. Affonso. Vinham a ser sycophantas os collegas
municipalenses.) _Credite, posteri_!--exclamou Calisto Eloy com enfase,
nobilitando a postura.

O latim no lh'o entenderam, salvo o mestre-escola, que antes de ser
sargento de milicias, havia sido donato no convento dominicano de
Villa-Real.

E repetiu: _Credite, posteri_!

N'esta occasio, saiu da egreja a sr.^a D. Theodora Figueira, e disse
ao esposo:

--Vem d'ahi, Calisto. Vamos jantar, que  uma hora, e j l vae o padre
prgador para casa.

Enguliu o morgado tres phrases de polpa, que lhe inflavam os bocios, e
foi ao jantar, sacrificando-se  regularidade das suas horas
inalteraveis de repasto.

Ficaram o boticario e o professor de primeiras lettras, e mais os
lavradores, ruminando as palavras do fidalgo, e glosando-as de notas
illustrativas, ao alcance das capacidades.

Um dos mais graves e ancios lavradores, regedor, ensaiador e ponto nos
entremezes do entrudo exclamou:

--Aquillo  que dava um deputado s direitas! Um homem assim, se fosse a
Lisboa fallar ao rei, as contribuies haviam de acabar!

--Isso no, perdoar vocemec, tio Jos do Cruzeiro,--observou o
mestre-escola--os impostos  necessario pagal-os. Sem impostos, no
haveria rei nem professores de instruco primaria (observem a modestia
da gradao!) nem tropa, nem anatomia nacional.

O mestre-escola havia lido, repetidas vezes no _Periodico dos Pobres_,
as palavras _autonomia nacional_. Falhou-lhe d'esta feita a memoria,
lapso que no destoou em nenhumas orelhas, exceptuadas as do boticario,
que resmungou:

--Anatomia nacional!

--Que ?!--perguntou ao pharmaceutico um estudante de clerigo.

--Parece-me que  asneira!--respondeu o outro com certa indeciso.

Proseguiu, concluindo, o mestre-escola:

--E, portanto os tributos, tio Jos do Cruzeiro, so necessarios ao
estado como a agua aos milhos. Ora, agora, que ha muito quem bebe o suor
do povo, isso ha; e aquelles, que deviam ser bem pagos, so os que menos
comem da fazenda nacional. Aqui estou eu, que sou um funccionario
indispensavel  patria, e receberia cento e noventa ris por dia, se no
trouxesse rebatidos seis recibos a trinta e seis por cento, de modo que
venho a receber seis e cinco! Que paiz!... O senhor morgado disse bem:
estamos chegados aos tempos dos Dioclecianos e Caligulas!

O auditorio j vacillava em decidir qual dos dois era mais talhado para
ir fallar ao rei a Lisboa, se Calisto, se o mestre escola.




III

*O demonio parlamentar descobre o anjo*


Fermentou na mente dos principaes lavradores e parochos das freguezias
do circulo eleitoral a ida de levar ao parlamento o morgado da Agra de
Freimas.

Os deputados eleitos at quelle anno no circulo de Calisto Eloy, eram
coisas que os constituintes realmente no tinham enviado ao congresso
legislativo. Pela maior parte, os representantes dos mirandenses tinham
sido uns rapazes bem fallantes, areopagitas do caf Marrare, gente
conhecida pela figura desde o botequim at S. Carlos, e affeita a beber
na Castalia, quando, para encher a veia, no preferia antes beber da
garrafeira do Matta, ou outro que tal ecnomo dos apollineos dons.

Em geral, aquella mocidade esperanosa, eleita por Miranda e outros
sertes lusitanos, no sabia topographicamente em que parte demoravam os
povos seus comittentes, nem entendia que os aborigenes das serranias
tivessem mais necessidades que fazerem-se representar, obrigados pelo
regimen da constituio. Se algum influente eleitoral, prelibando as
delicias do habito de Christo, obrigra a urna e o senso commum a gemer
nos apertos do doloroso parto do paralta lisboeta, o tal influente
considerava-se idneo para escrever ao deputado incumbindo-lhe trabalhar
na nomeao d'um vigario chamrro, ou outra coisa, que foi denominao
de bando politico, em tempo que a politica no sabia sequer dar-se nomes
decentes. Pois o deputado no respondia  carta do influente, nem o
requerente sabia onde procural-o, fra do Marrare.

Por muitos factos d'esta natureza conspiraram os influentes do circulo
de Miranda contra os delegados do governo; e a ida de eleger o morgado
foi recebida entusiasticamente por todos aquelles que o ouviram fallar
no adro da egreja, e por quantos houveram noticias da sua parlenda.

O partido, que o mestre-escola ganhra de eloquente assalto, cedeu ao
imperio das rasoaveis conveniencias, e conglobou-se na maioria. A
verbosidade, porm, do professor no ficou despremiada, sendo nomeado
secretario da junta de parochia.

Resistiu Calisto de Barbuda tenazmente s solicitaes dos lavradores,
que o procuraram com o mestre-escola  frente, facto que muito honra
este desinteresseiro e reportado funccionario. N'este encontro, o
professor excedeu o juizo avantajado que elle propriamente fazia de sua
vocao oratoria. Mostrou as fauces do abysmo escancaradas para tragarem
Portugal, se os sabios e virtuosos no acudissem a salvar a patria
moribunda. Calisto Eloy, enternecido at s lagrimas pela sorte da terra
de D. Joo I, voltou-se para a esposa, e disse, como o agricultor
Cincinnatus:

--Aceito o jugo! Asss receio, mulher, que os nossos campos sejam mal
cultivados este anno...

Estavam proximas as eleies.

A authoridade, assim que soube da resoluo do morgado da Agra, preveniu
o governo da inutilidade da lucta. No obstante, o ministro do reino
redobrou instancias e promessas, no intuito de vingar a candidatura de
um poeta de Lisboa, mancebo de muitas promessas ao futuro, que tinha
escripto revistas de espectaculos, e recitava versos d'elle ao piano,
cuja falta ou demasia de syllabas a bulha dos sonoros martellos
disfarava. Redarguiu o administrador do concelho ao governador civil,
que pedia sua demisso para no soffrer a inevitavel e desairosa
derrota.

Quiz assim mesmo o governo alliciar no circulo algum proprietario, que
contraminasse a influencia do candidato legitimista, fazendo-se eleger.
Alguns lavradores, menos afferrados  candidatura de Calisto, lembraram
 authoridade o professor de instruco primaria, estropeando phrases
dos discursos d'elle, proferidos na botica. O administrador riu-se, e
mandou-os bugiar, como parvoinhos que eram.

Por derradeiro, o governador civil fez saber ao ministerio que os povos
de Vimioso, Alcanissas e Miranda se haviam levantado com selvagem
independencia e tintam fugido com a urna para os desfiladeiros das suas
serras. Pelo conseguinte, no pde ser proposto o poeta, que beliscado
na sua vaidade assanhou-se contra o governo, escrevendo umas feras
objurgatorias, as quaes, se tivessem grammatica  proporo do fel, o
governo havia de pr as mos na cabea e demittir-se.

 excepo de uma lista, o morgado da Agra de Freimas teve-as todas. A
que no tinha o nome sympathico aos eleitores, votava em Braz Lobato,
professor de instruco primaria, secretario da junta de parochia, e
ex-sargento das milicias de Mirandella. Parece que votra em si o
mestre-escola. A final, maculou a alvura do nobilissimo desprendimento
com que perorara em pr da eleio de Calisto! Fragilidade humana!

Principiou, desde logo, o morgado eleito a refrescar a memoria com as
suas leituras de historia grega e romana; era isto entroixar sciencia e
enfreixar flores para o parlamento. Depois, releu a legislao dos bons
tempos de Portugal, afim de restaurar os costumes desbaratados, fazendo
remoar as leis, que haviam sido o tabernaculo da moral humana guardado
pelo temor de Deus. Tosquenejou muitas noites sobre os bacamartes
pulvreos; e, desde que a manh raiava at horas de almoo, ia  margem
do Douro, que lhe lambia a ourela da quinta, declamar, como Demosthenes
nas ribas maritimas, ao stridor de uma aude e das rodas de duas
azenhas. Os moleiros, que o viam bracejar, e lhe ouviam o vozeamento,
benziam-se, pensando que o sabio treslra, ou coisa m lhe entrara no
corpo. A sr.^a D. Theodora Figueira, vendo o marido assim tresnoitado,
seguia-o s vezes, de madrugada, espreitava-o de um cabeo sobranceiro
ao rio, e benzia-se tambem, dizendo: Do-me com o homem doido!

Chegou o tempo de partir para a capital.

O deputado mandou adiante por almocreve duas cargas de livros, nenhum
dos quaes tinha menos de cento e cincoenta annos.

Seguia-se, na conducta dos machos portadores, uma carga de persunto e
orelheira, substancia quotidiana da alimentao de Calisto Eloy.

Depois, outra carga de ancoretas de vinho velho, e na entrecarga uma
garrafeira com duas duzias de garrafas de vinho, que competia
antiguidade com a fundao da companhia.

A guarda-roupa do procurador dos povos era modesta, salvo o chapo
armado, calo de tafet e espadim, com que elle, na qualidade de
fidalgo cavalleiro, costumava contribuir para a magestade das procisses
de Miranda, pegando ao pallio.

A pessoa de Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda foi em liteira,
e chegou a Lisboa ao decimo quinto dia de jornada, trabalhada de
perigos, superiores  descripo de que somos capaz.

De proposito, saltamos por cima dos pormenores da partida, para no
descrever o quadro lastimoso do apartamento de Calisto e Theodora.

O apartamento de Theodora e Calisto era titulo para dois capitulos de
lagrimas.




IV

*Asneiras da erudio*


Por fins de janeiro, chegou Benevides de Barbuda a Lisboa, e alugou casa
no bairro de Alfama, por lhe terem dito que, n'aquella poro da Lisboa
antiga, a cada esquina havia um monumento  espera de archeologo
competente.

Ao cabo de tres dias, Calisto mudou-se para rua mais limpa, suppondo que
os lamaaes de Alfama haviam tragado os monumentos, lamaaes em que elle
desastradamente escorregra, e d'onde sara mal-limpo, e assoviado por
marujos e collarejas, seus visinhos mais chegados. Mau agouro! A
primeira chimera de Calisto, seu tanto ou quanto scientifica,
atascara-se na lama d'aquella parte de Lisboa, que devia de ser a
_inclita Ulissea_ de Luiz de Cames!

O deputado, sem embargo de ir habitar o quarto andar de uma casa lavada
de ares e muito desafogada na rua da Procisso, quiz-lhe parecer que a
atmosphera da capital no cheirava bem.

Abriu um dos seus livros velhos, intitulado _Do sitio de Lisboa_ etc.
por Luiz Mendes de Vasconcellos, e leu:

...E assim, de todo o territorio de Lisboa, parece que da terra, fontes
e rios, respiram suavissimos vapores, amigos da natureza humana; porque
 coisa certissima que a benignidade dos ares d'este sitio, no s  por
natureza deleitosa, pelo seu temperamento, mas de grandissimo proveito
para algumas doenas, etc...

Calisto Eloy fechou o livro, e disse de si para comsigo, tomando uma vez
de rap:

--O meu classico no podia mentir. Este mau cheiro  desconcerto da
minha membrana pituitaria.

E alcatroou segunda vez, as ventas com uma pitada desinfectante.

Pareceu-lhe tambem pesada e salbra a agua.

Recorreu ao seu classico Luiz Mendes, no artigo _agua_, e leu que o
chafariz de El-Rei dava uma lympha gostosa e de suave quentura, a qual
limpava a garganta de toda a roquido, e afinava as vozes, _e assim_,
dizia o classico, _no errar quem disser que ella  causa das boas
vozes que em Lisboa docemente ouvimos cantar; e tambem dos bons cares
que conservam as mulheres_.

Em quanto aos bons cares das mulheres, Calisto, que, de um relancear
honesto de olhos, observra os rostos pallidos e esgrouviados de algumas
senhoras de Lisboa, no podendo arguir de fallacia o dizer de Luiz
Mendes, attribuiu  degenerao dos costumes e raas o descarnado e
amarellido das caras; no tocante  suavidade das vozes, ficou indeciso,
no querendo desmentir o seiscentista, nem formar conceito por uns
grunhidos de cantarla barbara com que os vendilhes pregoavam os
comestiveis.

Todavia, como a agua do chafariz de El-Rei aclarava o orgo vocal, e
Calisto,  fora de berrar ao p da auda e azenhas, estava um tanto
rouco, mandou buscar um barril d'aquella salutifera agua, que o Mendes
de Vasconcellos compra  das fontes camenas. Bebeu  tripa frra o
deputado, e teve uma dr de barriga precursora de febres quarts.
Valeu-se ainda do seu classico, e por conta d'elle mandou buscar 
Pimenteira outro barril de agua, a qual, diz o citado author, _se busca
para os doentes de febres_.

O velho criado e enfermeiro, quando viu o seu amo encharcado e cada vez
peior, foi de moto proprio em cata do cirurgio, o qual deu o morgado
rijo e fero em quinze dias com algumas beberagens quinadas.

Desde ento, Calisto Eloy no bebeu seno vinho, e melhorou da garganta
e do espirito, um tanto quebrantado, recitando, a cada garrafa que
abria, o proverbio da sagrada escriptura:--_Vinum bonum laetifical cor
hominis_.[4]

No obstante, o descredito do seu classico deveras lhe doeu, mormente
pelo tom de mofa com que o cirurgio enxovalhou as cs do honrado e
lusitanissimo escriptor Luiz Mendes.

Apenas convalescido, Calisto abria outro livro da mesma edade, escripto
por identico motivo, para averiguar se o author do _Sitio de Lisboa_
claudicra como patranheiro em materia de chafarizes.

O bacamarte consultado era a _Fundao, antiguidades e grandezas da
muito insigne cidade de Lisboa_, etc., escripto pelo capito Luiz
Marinho de Azevedo.

--C est!--exclamou Barbuda em soliloquio--c est explicada a minha
dr de barriga! era destemperana do figado.

O deputado acabava de ler o seguinte periodo de Luiz Marinho:

Encareceu Plinio muito a agua, que vinha a Roma da fonte Marcia, e
Vitruvio a das fontes Camenas, porque nasciam quentes e eram saborosas
no gosto, sendo por esta causa muito sadias e proveitosas para conservar
saude. E posto que (_sic_) Luiz Mendes de Vasconcellos queira que por
estas propriedades tenha a agua do charariz d'El-Rei as mesmas
qualidades; a experiencia mostra que, sendo suave no gosto, o no  nos
effeitos, porque lhe attribuem os medicos a destemperana do figado, que
muitas pessoas padecem, e de que procedem varias enfermidades.

--Fie-se l a gente!--monologou o deputado.-- preciso cuidado com os
classicos a respeito da agua de Lisboa.

E, proseguindo na leitura, encontrou confirmada a maravilha de se
afinarem as vozes com o uso da agua do chafariz d'El-Rei, por estes
termos:

 causa das boas vozes dos musicos naturaes de Lisboa, ou que n'ella
moraram, que tanto lustram em sua real capella, e na da corte de
Madrid[5], conventos e egrejas cathedraes d'este reino e do de Castella:
excellencia que tambem se acha nas mulheres, cuja feminina voz enleva os
sentidos, como se experimenta ouvindo cantar as religiosas dos mosteiros
d'esta cidade, em que mais parece se ouvem cros de anjos que vozes
humanas.

 primeira vez que saiu, andou Calisto em demanda dos conventos de
freiras, e das festividades de cada um. Disseram-lhe, em face de um
repertorio, que a mais proxima festa era, no domingo immediato, em Santa
Joanna. Foi Calisto  festa para ouvir cantar as freiras. No lhe
pareceu cantoria o que ouviu: eram tres narizes roufinhando destoantes.
Calisto saiu do templo, foi ao palratorio, chamou a madre-porteira, e
disse-lhe, com a sua candura de bom homem, que recommendasse s senhoras
cantoras a agua do chafariz d'El-Rei. A madre ficou passada do
disparate, e voltou-lhe as costas.

Como quer que o morgado da Agra de Freimas no fosse homem que estudasse
as materias perfunctoriamente, quiz esquadrinhar a respeito de aguas
toda a substancia d'este importante elemento.

Decepes sobre decepes!

Quando morra na Alfama, observra elle que, n'aquelle bairro, as
mulheres eram sardentas, rxo-terra, e crespas de pelle. Pois o classico
Marinho saa-lhe com este desmentido aos seus proprios olhos:

Tem mais outra propriedade occulta a agua do chafariz (d'El-Rei) que 
conservar os rostos das mulheres, que com ella se lavam, em uma alvura
engraada, e cr natural to encarnada, que no necessita de unturas,
nem confeces, com que ellas se envelhecem antes de tempo: _o que se v
claramente na vantagem que as de Alfama levam s dos outros bairros no
caro, rosto mimoso, e cr que logo se conhece por natural_; e, se
bastra isto, por desengano s que as usam postias, no fra pequeno o
fructo, que se tirra de ler este paragrapho, havendo quem lh'o
recitasse.

Calisto Eloy certamente no iria recitar o paragrapho a nenhuma senhora
pallida e magra, depois da incivil resposta, que lhe deu a porteira de
Santa Joanna, e mais ainda com a desconfiana em que o puzeram os bons
authores da sua predileco.

Parece, porm, que elle andava aporfiado em afogar o seu recto juizo nas
aguas de Lisboa. Lra o deputado que tambem o _chafariz dos cavallos da
rua Nova_ tinha prodigiosas virtudes em cura de molestias d'olhos.
Procurou a rua Nova, que o terramoto de 1755 sotterrra; procurou o
chafariz, que segundo elle, devia de estar na rua dos Capellistas ou
Algibebes successoras d'aquella rua. Ninguem lhe dava conta do _chafariz
dos cavallos_; e alguns logistas interrogados suppuzeram que o
provinciano no podia beber em fonte que no tivesse aquella
applicao.[6]

O erudito respondia aos chacoteadores.

--Pois saibam que se perdeu um mirifico chafariz! Resam os meus livros
que as saluberrimas aguas d'esta fonte perdida tinham a propriedade
occulta de engordar as cavalgaduras que bebiam d'ella; e acrescenta
Marinho d'Azevedo, textualissimas palavras: _e quando ella faz to
conhecidos effeitos nos animaes, os fizera nos corpos humanos, se a
beberam em sua fonte_.

Um bacharel, que ouvira as lastimas de Calisto, disse a um visinho a
meia-voz:

--Este homem parece que tem uma cavalgadura magra no corpo!

Com estas zombarias  que em Portugal os sabios so premiados... Se
Calisto fosse um parvo, o governo dava-lhe um subsidio at elle achar o
chafariz dos cavallos.




V

*Estreia parlamentar de Calisto*


Antes de apresentar-se na sala das sesses, Calisto Eloy de Barbuda leu
o _Regimento interno da camara dos deputados_, juntamente com um collega
transmontano, o abbade de Esteves, sujeito de annos, e doutrina
monarchico-absolutos.

O morgado de Agra embicou logo na frma do juramento, e disse que no
jurava sem aspar as palavras que o obrigavam a ser inviolavelmente fiel
 carta constitucional. O abbade quiz amaciar-lhe a rigidez de
espiritos, absolvendo-o do perjurio, que no era serio, porque j de si
o juramento era irrisorio e mera brincadeira de nenhum peso na balana
da justia divina.

E allegava o clerigo esclarecido que os representantes da nao, com
quanto jurassem fidelidade  religio-catholica-apostolica-romana, eram
alis atheus; jurando fidelidade ao rei, injuriavam-n'o nas gazetas;
jurando fidelidade  nao, avexavam-n'a de tributos, e alguns a queriam
fundir na Hespanha. Comedia e comedoria! exclamava o abbade. Se os
deixarmos a elles jurar e mentir  sua vontade, a monarchia portugueza
d'aqui a pouco no ter mais realidade no mappamundi que a ilha
Berataria do Miguel Cervantes, ou as ilhas beatas do poeta Alceu!

A respeito das ilhas beatas do poeta Alceu, saiu-se Calisto de Barbuda
com uma despropositada torrente de citaes, em que a paciencia do padre
esteve a pique. Era perigoso dar-lhe azo s ejeces da sciencia velha,
que no havia abafar-lhe as valvulas ejaculatorias.

O sabio, l na sua terra, nunca tivera auditorio digno; escutava-se a si
proprio; admirava-se e applaudia-se com perdoavel, seno legitima
vaidade; faltava-lhe, porm, alguma coisa, a qual coisa era o abbade de
Esteves.

Este clerigo, bem que tivesse exercido as funces desembargatorias na
relao ecclesiastica de Braga, era menos lettrado que o antiquario de
Caarelhos, mas um tanto mais illustrado em critica da historia. Por
delicadesa, fingia engulir as araras que o morgado lhe ministrava
guizadas pelo monge de Alcobaa Bernardo de Brito, por Ferno Mendes e
Miguel Leito d'Andrade, e centenares de outros escrevedores de polpa,
que mentiram mais do que permitte a fora humana.

Convencido da irresponsabilidade seria do juramento parlamentar, foi
Calisto Eloy de Silos empossar-se da sua cadeira na representao
nacional. Porm, proferido o juramento, e antes de sentar-se, no teve
mo de si, e disse:

--Sr. presidente!

O abbade de Esteves ainda ciciou um _cio_, como quem lembrava ao
collega que o _Regimento_ lhe tolhia o dom da palavra assim abrupta
n'aquelle acto; mas o presidente, como esperasse alguma extraordinaria
reflexo, deixou violar o artigo 30.^o do titulo e ouviu-o.

Continuou Calisto:

--Sr. presidente! Nos primordios da humanidade, a boa f dispensava os
juramentos: hoje em dia, para tudo se faz mister jurar, porque a boa f
desappareceu _velut umbra_ da face da terra. Se bem me recordo, os casos
de juramentos mais antigos lem-se nas sagradas escripturas. Abraho
jurou ao rei de Sodoma e ao rei Abimelech; Elieser a Abraho; e Jacob a
Labo...

O presidente, como o riso andasse j contagioso na sala e galerias,
observou:

--O sr. deputado est fra das prescripes do regimento. Peo licena
para o convidar a sentar-se do lado que lhe convier.

--Eu concluo em duas palavras, tornou Calisto, conformando-me com o
regimento, e mais ainda com o jurisconsulto Struvius, o qual no seu
_jurisprudencia civilis syntagma_, diz que no deve exigir-se o
juramento quando pde temer-se o perjurio. Preceito de mui remontada
moralidade; sr. presidente! Preceito, cujo despreso,  a causa
efficiente das apostasias que deshonram, dos sacrilegios que condemnam a
alma, e estampam na testa dos precitos lemma de opprobrio indelevel.
Disse.

E foi sentar-se, flauteando cromathicamente uma pitada,  beira do seu
amigo abbade de Esteves.

A maior parte dos legisladores estava como indecisa entre rir-se ou
espantar-se do aprumo com que o transmontano, atando facilmente as
phrases, atirava  cara dos legisladores um murro indirecto. Tres brados
lhe haviam victoriado o cabealho do discurso: eram expanses de
deputados legitimistas, que entre si se ficaram victoriando de terem um
homem bastante audaz, se necessario fosse, para fallar ao imperante como
Joo Mendes Cicioso fallara a El-Rei D. Manuel.

--Fallou  portugueza, sr. morgado; mas extemporaneamente--murmurou-lhe
o abbade de Esteves.

--A verdade  de todas as horas, abbade--redarguiu Calisto--mal de ns
se havemos de esperar que ella caia a talho de fouce!... Deixem-me ir
assim, que os meus constituintes assim me querem, Cato e Cicero,
Hortensio e Demosthenes no fallavam pelo regimento. O conselheiro que
disse a Affonso IV seno procuremos outro rei no pediu licena a
presidente algum, nem viu no regimento se era hora de lh'o dizer. Eu li
de tento e vagar o regimento, amigo abbade; e a mim me quiz parecer que
tudo aquillo  um modo, o mais cerimonioso, de fazer callar aquelles
cujos dizeres desagradam  presidencia, por via de regra, mancommunada
com o governo.

--_Prudentia in omnibus_, diz o sabio--retorquiu o abbade.[7]

O morgado accudiu logo:

--_Estote prudentes, sicut serpentes et simplices sicut columbae_, disse
Jesus, o sabio dos sabios.[8]




VI

*Virtuosas parvoiadas*


A estreia parlamentar de Calisto de Barbuda fez hyperbolico estrondo nos
sales da aristocracia, legitimista, que abriu suas portas ao
esperanoso Berryer de Portugal.

Algum tempo se andou furtando o morgado s solicitadas apresentaes.
Impediam-n'o o natural acanhamento de provinciano, e o affecto
entranhado aos seus classicos, que lhe eram o deleite das horas feriadas
do dia, e dos seres do inverno.

Como  fora, fra elle uma noite, ao theatro lyrico, em companhia do
abbade de Esteves, que amava a musica pelo muito amor que tinha 
guitarra, delicias da sua mocidade, e consoladora da velhice, j saudosa
do tempo em que o corao lhe gemia nos bordes do instrumento
apaixonado.

Calisto inteirou-se do enredo da opera, e assistiu em convulses ao
espectaculo, que era a _Lucrecia Borgia_. Saiu da plata frio de horror
e protestou, em presena de Deus e do abbade, nunca mais contribuir com
oito tostes para a exposio das chagas asquerosas da humanidade.
Rompeu-lhe ento do imo peito esta exclamao sentida: _Amici_, noctem
_perdidi_! Melhor me fra estar lendo o meu Euripides e Seneca, o
tragico! Meda no mata os filhos cantando, como a scelerada Lucrecia!
As devassides postas em musica, do bem a entender que gerao esta !
Brinca-se com o crime, abafando-se os gemidos da humanidade com o
stridor das trompas e dos zabumbas.  um tripudio isto, amigo abbade!
Quem sae do seio da natureza rude, e de repente se acha  lavareda
d'estes focos das grandes cidades,  que atina com a providencial
phylosophia d'estas tramoias de theatros!

Assanhou o abbade de Esteves o azedume do fidalgo, dizendo-lhe que o
estado subsidiava o theatro de S. Carlos com vinte contos de ris
annuaes. Calisto fez p atraz, e exclamou:

--_Obstupui_!... O abbade zomba!... _O estado_!... o meu collega disse o
estado!

--Sim o thesouro... confirmou o clerigo.

--A res publica? o dinheiro da nao?

--Certamente: pois de quem hade ser o dinheiro, seno da nao?

--Pois eu e os meus constituintes estamos pagando para estas cantilenas
do theatro de Lisboa!

--Vinte contos de ris.

Calisto Eloy correu a mo pela fronte humedecida de suor civico, e
sentou-se nas escadas da egreja de S. Roque, por que ao espanto, colera
e dr d'alma seguiram-se-lhes caimbras nas pernas. Minutos depois,
ergueu-se taciturno, despediu-se do abbade, e foi para casa.

Os alvores da primeira manh acharam-no passeando e declamando na
estreita saleta do seu aposento. Via-se-lhe no rosto a pallidez dos
Fabricios.

s onze horas entrou na camara. Dir-se-hia que entrava Cicero a delatar
a conjurao de Catilina. Deu nos olhos dos seus tres correligionarios
que entre si disseram:

--Calisto vae fazer alguma interpellao de grande alcance!

Acabava de sentar-se quando um deputado do Porto se ergueu, e disse:

--Sr. presidente. Muito a meu pezar, e talvez da camara, volto de novo a
expender as razes j tres vezes inutilmente expendidas sobre o dever, e
justia com que o Porto reclama um subsidio para o seu theatro lyrico.
Sr. presidente...

--Peo a palavra! bradou Calisto Eloy, erguendo-se inteirio e
fulminante--Peo a palavra!

O representante do Porto expendeu a quarta edio peorada das suas
idas, sobre o dever e justia, com que o theatro de S. Joo reclamava
subsidio, e sentou-se.

--Tem a palavra o sr. Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda,
disse o presidente.

O morgado da Agra escorvou-se de rap, trombeteou a pitada, e orou
d'este theor:

--Sr. presidente. Em Grecia e Roma as festas annuaes eram solemnisadas
com espectaculos. Os cidados timbravam em se dispenderem aporfiadamente
para o maior realce das representaes theatraes. Na Grecia, o archonte
eponymo, a cargo de quem o estado delegava as despezas das
representaes, esmava o dispendio de cada uma em dois talentos,
3:250$000 ris, pouco mais ou menos da nossa moeda. Este dispendio
faziam-no espontaneamente os ricos; e se era o thesouro nacional, que
adiantava as despezas, a concorrencia convidava pelo preo diminutissimo
do _theorikon_ ou entrada, que correspondia ao vintem da nossa moeda. E
de Pericles em diante, sr. presidente, tomou o estado  sua conta o
pagamento das entradas dos pobres. Entre os romanos, eram os poderosos,
como Lepido e Pompeu, e, ao diante, os imperadores, que sustentavam do
seu bolsinho as representaes theatraes. Os imperios opulentos, sr.
presidente, os imperios, que digeriam a substancia do universo, os
imperios que edificavam theatros para trinta mil espectadores, no
impunham aos povos a obrigao de se privarem do necessario para
abrilhantarem Athenas ou Roma, com luxuosas superfluidades. Os serranos
das provindas do Lacio no eram constrangidos a pagarem as delicias dos
patricios romanos. Estes, sr. presidente, quando queriam divertir-se em
espectaculos theatraes, pagavam-os, e regalavam a gente pobre em vez de
a obrigarem a entrar no erario com o estipendio dos actores. (_Sussurro
e alguns apoiados provocados pelo sussurro_.)

Sr. presidente--continuou o orador, tomando rap com a soffreguido de
quem teme que o raio inspirativo se arrefente--sr. presidente! Eu tenho
o desgosto de ter nascido n'um paiz, em que o mestre-escola ganha cento
e noventa ris por dia, e as cantarinas, segundo me dizem, ganham trinta
e quarenta moedas por noite. Eu sou de um paiz, sr. presidente, em que
se pede ao povo o subsidio litterario para pagar com elle as tramoias da
Lucrecia Borgia. Eu sou de um paiz, pobrissimo, em que a veia da nao
exangue soffre cada anno a sangria de algumas duzias de contos para
sustentar comediantes, farcistas, funambulos e dansarinas impudicas! Sr.
presidente, v. ex.^a sorriu-se, vejo que a camara est sorrindo, e eu
ouso dizer a v. ex.^a e aos meus collegas, como o poeta mantuano: _sunt
lacrimae rerum_. Aqui  o ponto de se carpirem por seus filhos aquelles,
que se cuidam muito avantajados em civilisao a seus avs. Aqui  o
ponto de nos alembrarmos dos israelitas livres, que sorriam em
Jerusalem, e choravam depois escravos s margens do rio estranho. Depois
ser o declamarmos com o epico:

  Em Babylonia, sobre os rios, quando
  De ti, Sio sagrada, nos lembramos,
  Alli com gran saudade nos sentamos
  O bem perdido, miseros, chorando.

  Os instrumentos musicos deixando

Peo  camara que repare nos tres versos, que completam a quadra e a
prophecia:

  Os instrumentos musicos deixando
  Nos estranhos salgueiros penduramos,

_Hic_, sr. presidente:

  Quando aos cantares que j em ti cantamos
  Nos estavam imigos incitando.

Nos _cantares_, sr. presidente,  que bate o ponto do meu discurso:
(_Hilaridade: susurro nas galerias: o presidente tange a campainha_).

O _orador_:--Sr. presidente! que me no queiram persuadir de que estou
em casa de orates! Que  isto? Que bailar d'ebrios  este em volta de
Portugal moribundo? Como podem rir-se os enviados do povo, quando um
enviado do povo exclama: No tireis  nao o que ella vos no pde dar,
governos! No espremais o ubre da vacca faminta, que ordenhareis sangue!
No queiraes converter os clamores do povo em cantorias de theatro! No
vades pedir ao lavrador quebrado de trabalho os ratinhados cobres das
suas economias, para regalos da capital, em quanto elle se priva do
aprezigo de uma sardinha, por que no tem uma pogeia com que compral-a.

E vinte contos e trinta contos de subsidios que moralidade fomentam, que
lampadas accendem nos altares da civilisao? Eu peo  camara que leia
attentamente o discurso theologico do padre Ignacio de Camargo, lente no
real collegio de Salamanca, cerca dos theatros. No menos
fervorosamente peo a v. ex.^a e s camaras que leiam as mirificas
paginas do nosso oratoriano Manuel Bernardes, sobre representaes
theatraes. O que so comedias? Responda por mim o eminente moralista, e
mais que todos vernaculissimo escriptor: Os assumptos das comedias pela
maior parte so impuros cheios de lascivos amores, de galanteios
profanos, de papeis amorosos, de rondas, passeios, musicas, dadivas,
visitas, solicitaes torpes, finezas loucas, empenhos desatinados,
chimeras, emprezas impossiveis, que as solicita ordinariamente um
criado, uma mulher terceira, uma chave, um jardim, uma porta falsa, um
descuido do pae, ou do irmo, ou do marido da dama, e tudo isto costuma
parar em uma communicao deshonesta, em um incesto, ou em um adulterio,
em que ha muitos lances torpes, louvores lisongeiros da formosura,
expresses affectadas de amor, promessas de constancia, competencias de
affectos, temores, ciumes, suspeitas, sustos, desesperaes, e em summa,
uma gentilica idolatria, ajustada pontualmente s infames leis de Venus
e Cupido, e aos torpes documentos de Ovidio no livro de _Arte amandi_.

_Vozes da galeria_: _Muito bem_! _Bravo_! (Espirram as risadas de varios
sujeitos. Gargalhada compacta).

_O orador_: Sr. presidente! Eu irei contar aos povos, que me aqui
mandaram, as gargalhadas com que fui recebido no seio da representao
nacional, por que ousei dizer que um paiz carregado de dividas no
instaura divertimentos attentatorios dos bons costumes com o dinheiro da
nao. Irei dizer aos meus constituintes que se desfaam das arrecadas e
cordes de suas mulheres e filhas, para enfeitarem as gargantas
despeitoradas das Lucrecias Borgias que custam quarenta libras por
noite!

Sr. presidente, nossos avs, os coevos d'el-rei D. Manuel e D. Joo III,
tiveram theatros. Era no tempo em que as frotas da India rompiam Tjo
acima carregadas de oiro. O Plauto portuguez deliciava os paos dos
reis, e os pateos e tablados do povo. Quando se abriu o erario para
locupletar o alto engenho de Gil Vicente? Quando foi necessario ir mundo
fra em cata de gritadores que vendem to caro o ar dos pulmes vibrado
no mechanismo da garganta?

_Uma voz_: Fez-se a civilisao depois.

O _orador_: E a pobreza tambem. A civilisao que canta e dana, em
quanto tres partes do paiz choram. A civilisao dos civilisados que
dizem: _Coronemus nos rosis antequam marcessant_[9]. A civilisao do
perdulario irrisorio, que traja de luzente lemiste no exterior, e
aconchga da pelle uma camisa surrada e fetida. Magnifica civilisao!
No sei de selvagens que nol-a possam invejar, e queiram cambiar
comnosco a sua selvatiqueza!

Sr. presidente gosem nas boas horas os strapas da capital os deleites
da sua civilisao theatral. Dispendam-se, arruinem-se, doudejem com
essas fices e visualidades, que relembram factos de alto escandalo que
no deviam ser vistos  luz da civilisao, que o meu illustre collega
preconisa. Se gostam, no serei eu, homem de outros tempos e gostos,
quem lhes impugne a racionalidade de seus passatempos. O que eu
requeiro, em nome da justia e da pobreza do paiz,  que se no sizem os
povos provinciaes para manuteno dos divertimentos de Lisboa. O que eu
contesto  o direito de me fazerem pagar a mim e aos meus visinhos as
notas garganteadas dos ganha-pes, que no tem na sua terra officio
honesto em que vivam com seriedade e utilidade commum. O que eu
sobretudo lamento, sr. presidente,  o silencio desapprovador dos meus
collegas. Sou eu s: serei eu s o vencido. No importa! _Victis
honos_![10] As pequenas coisas tratam-n'as os pequenos: _Parvum parva
decent_. Eu abro mo das glorias promettidas ao nobre collega, que,
pouco ha, pediu subsidio para o theatro do Porto. Dem-lh'o. Desenrolem
a onda aurifera do Pactolo do nosso thesouro at Braga. Quem pede
subsidio para o theatro bracharense? A equidade reclama-o. O meu circulo
tambem quer um theatro. Theatro e subsidio para todo o logarejo onde
morar um contribuinte. Estamos em vida ficticia como paiz independente.
Somos como o sapateiro, que se veste de principe no entrudo. Pois bem!
Comedia geral! Seja Portugal um theatro desde Mono ao cabo da Roca!
Peo uma companhia italiana para a minha terra. Os meus constituintes
querem provar o sabor das delicias que tem estipendiadas em Lisboa. Se
eu no posso, sr. presidente, levar-lhes a boa nova de que vo ter
estradas que os liguem  sua nao, seja-me permittida a gloria de lhes
levar a Lucrecia Borgia, a incestuosa e envenenadora Lucrecia, que os ha
de edificar e converter  civilisao. Disse.

_Algumas vozes por entre frouxos de riso_: Muito bem! Bravissimo!

Eram as ironias dos sublimes engenhos, que, s vezes, no sabem como ho
de havel-as com espiritos selvaticos do desplante montezinho de Calisto
de Barbuda.




VII

*Figura, vestido, e outras coisas do homem*


Assim que os personagens dos romances comeam a ganhar a estima ou
averso de quem l, vem logo ao leitor a vontade de compor a physionomia
do personagem plasticamente. Se o narrador lhe d o bosquejo, a
imaginativa do leitor aperfeioa o que sae muito em sombra e confuso no
informe debuxo do romancista. Porm, se o descuido ou proposito deixa ao
alvedrio de quem l imaginar as qualidades corporaes de um sujeito
importante como Calisto Eloy, bem pde ser que a intuio engenhosa do
leitor adivinhe mais depressa e ao certo a figura do homem, que se lh'a
descrevessem com abundancia de relevos e rara habilidade no estampal-os
na phantasia estranha.

No devo ater-me  imaginao do leitor n'este grave caso. Calisto Eloy
no  a figura que pensam. Estou a adivinhar que o inquadraram j em
molde grotesco, e lhe deram a edade que costuma authorisar, mrmente no
congresso dos legisladores, os desconcertos do espirito, exemplificados
pelo deputado por Miranda. Dei eu azo  falsa apreciao, por no
antecipar o esboo do personagem. Acudo pelos creditos do personagem.

Calisto Eloy, n'aquelle tempo, orava por quarenta e quatro annos. No
era desageitado de sua pessoa. Tinha poucas carnes, e compleio, como
dizem, afidalgada. A sensivel e dessimetrica saliencia do abdomen
devia-se ao uso destemperado da carne de porco e outros alimentos
intumecentes. Ps e mos justificavam a raa que as geraes vieram
adelgaando de carnes. Tinha o nariz algum tanto estragado das invases
do rap e torceduras do leno de algodo vermelho. A dilatao das
ventas e o escarlate das cartilagens no eram assim mesmo coisa de
repulso. Estes narizes, se no se prestam  poesia lyrica, inculcam a
seriedade de seus donos, o que  melhor. Eram assim os narizes de Jos
Liberato Freire de Carvalho e de Silvestre Pinheiro. Quasi todos os
estadistas de 1820 se condecoravam com a rubidez nazal. No sei que ha
n'isto indicativo de estudo, gravidade e meditao; mas ha o quer que
seja.

As restantes feies de Calisto Eloy de Silos eram regulares, a no
querermos encarecer a alta e brunida fronte, que poderia servir de
rotulo a um talento abalisado, se o inimigo da Lucrecia Borgia no
fosse, a meu ver, capacidade eminente, viciada pela educao e tradies
de familia. Excedia a estatura me, e era direito de pernas. No tronco
havia tal qual inclinao, que denunciava o arqueamento da espinha por
effeito da incansavel leitura, e minguado exercicio.

O que certamente o desairava era o traje. Calisto Eloy vestia de briche
da Golleg, e dos alfaiates de Miranda. A gola e portinholas da casaca
eram serias de mais para estes tempos em que um homem se veste hoje 
moda, e d'aqui a um mez corre o perigo de sair ridiculamente entrajado.
No se sabe a razo por que o morgado da Agra se affeioara s calas
rematando em polainas abotoadas de madreperola. Vestira assim umas
pantalonas em 1833, quando se matrimoniou com D. Theodora. Ou por que a
esposa gostasse do feitio das calas, ou porque a moda se mantivesse,
mantida pelo fidalgo, na comarca de Miranda, o certo  que desde aquella
poca todas as pantalonas de Calisto foram talhadas pelas primeiras, e a
abotoadura sempre aproveitada.

Ora, isto em Lisboa fez uma rasoavel impresso, especialmente no
espirito observador dos gaiatos. Um d'estes desbragados ousou chamar
gebo ao legislador; e outro levou a gandace ao extremo de planear-lhe
um assalto ao chapo.

Fartas vezes o advertira o abbade de Esteves da necessidade de reformar
o vestido, e entrajar-se conforme o costume. Calisto respondia que no
tinha que intender em costumes, que no fossem, em lusitanissima phrase,
ruins costumes. Em quanto a vestiduras, dizia que o estofo das suas era
portuguez como elle, e o feitio d'ellas era o que mais se aproximava das
usanas dos seus maiores, os quaes andavam mais apontados no trajar do
espirito que nas galanices do corpo. Salvo o abbade, ninguem se atrevia
a contrarial-o, desde que a um joven deputado, que lhe observou o
archaismo do trajo perguntou se elle era o alfaiate da camara, ou se as
modas tinham fiscal subsidiado no parlamento.

Aconteceu ainda que outro deputado lhe analysasse galhofeiramente as
botas aguadas no bico. Sabia Calisto Eloy que este deputado era filho
de um sujeito de Espozende que comeara sua vida fazendo botas. Assim,
pois, que o chocarreiro subiu da analyse das botas para a das polainas
da cala, teve mo d'elle, dizendo-lhe: agora, alto ahi! Em quanto o
senhor escarneceu o feitio das minhas botas, estava no seu officio e no
seu direito. Das botas acima, no.  o caso de eu lhe dizer como Apelles
ao sapateiro, que lhe censurava a pintura: _ne sutor ultra crepidam_; o
que em linguagem quer dizer: no analyse o sapateiro acima da chinela.
Os circumstantes e a victima fizeram-se da cr do nariz de Calisto.

Estas passagens, significativas do salgado espirito do provinciano,
sobre-doiravam a reputao que o trazia nas boas graas da fidalguia
realista.

Sabia Calisto, como profundo genealogico, que existia illustrissima
parentela sua em Lisboa; porm, pesavam graves motivos para que elle no
quizesse recordar parentesco remoto com tal gente. Era o gro caso que,
nos tempos do mestre d'Aviz estava na crte um Martim Annes de Barbuda,
da casa de Agra de Freimas, o qual conjurra com o Mestre na faanha do
assassino do conde Andeiro. At aqui havia muito para que o honrado
portuguez se desvanecesse de tal parente. Martim Annes, todavia temeroso
ou arrependido depois do feito, passou-se a Leonor Telles, e com ella e
sua familia se foi a Hespanha, onde morreu, desprezado e amaldioado dos
portuguezes. Na poca de D. Duarte, os descendentes de Martim voltaram
ao reino, e conseguiram perdo e posse dos seus haveres confiscados para
a cora. Eis aqui a razo do odio de Calisto  raa do mo portuguez.

Estava elle, um dia, folheando a reformao das leis de 1760 por Diogo
de Pina, no intento de cravejar de erudio um projecto de lei
sumptuaria, quando lhe annunciaram a visita do conde do Reguengo.
Calisto estremeceu, e disse de si comsigo: Vens ver o que eram e o que
so os legitimos Barbudas de Agra de Freimas... S bem vindo!

Entrou o conde, e disse com alegre alvoroo:

--Venho apertar nos braos um parente, que me honra tanto com a
intelligencia, quanto seus avs me honraram com a lana.

Calisto permaneceu immovel na cadeira, e, tirando os oculos de prata,
disse:

--Falta saber se meus avs se honraram dos avs de v. ex.^a

--Eu sou o conde do Reguengo---disse o outro, attonito.

--J sei. O conde do Reguengo  o decimo sexto varo de Martim Annes de
Barbuda?

--Sou eu mesmo.

Calisto ergueu-se, montou os oculos, foi mui depausa e a passo mesurado
 estante dos seus livros, e tirou um in-folio. Voltou a sentar-se,
mandou sentar o conde, abriu o livro e disse:

--Esta  a chronica dos reis, escripta por Duarte Nunes de Leo, e
mandada publicar por D. Rodrigo da Cunha, arcebispo de Lisboa. Abro a
pagina vinte e tres, e peo ao excellentissimo conde do Reguengo que
leia.

O conde recebeu entre mos a chronica, e leu o seguinte desde o
paragrapho indigitado por Calisto: As razes que ao Mestre moviam a
apressar sua ida para fra de Portugal, era conhecer a condio da
Rainha, que, alm do natural das mulheres, que  serem vingativas, ella
o era mais que todas; mas, como mulher de grandes espiritos, e astuta
que era, onde maior odio tinha, alli mostrava mais benevolencia, pelo
que o Mestre tinha por mui suspeita a mostra de amizade que lhe fazia, e
se temia mais d'ella, e tanto cria que lhe tinha maior odio, quanto mais
affeioada era ella ao conde Joo Fernandes, de quem elle a apartou.
Ajuntava-se a isto ter ella mandado chamar a El-Rei de Castella. Pelo
que, sendo ella Rainha, e tendo o favor d'El-Rei presente, no confiava
o Mestre que sua vida estava segura, pois em vida d'El-Rei D. Fernando,
no sendo aggravada d'elle, o fez prender e o faria matar. Alm d'isto,
(as seguintes palavras estavam sublinhadas na chronica e emendadas com
um _proh dolor_! da letra de Calisto) muitos dos que se a elle chegaram
o deixavam e se passavam  Rainha, como fez Vasco Porcalho, e Martim
Annes de Barbuda, commendadores de sua ordem, e Garcia Peres Craveiro de
Alcantara, que para elle se viera.

O conde entregou a chronica, e disse n'um tom de abborrido e confuso:

--E ento?

-- v. ex.^a da progenie d'esse Barbuda infamado na pagina eterna de
Duarte Nunes?

--Sou--respondeu ufanamente.

--Pois v em paz, que eu no procedo d'esses Barbudas. Eu sou o decimo
sexto varo de Gonalo Pero de Barbuda, que morreu em Aljubarrota, na
ala dos namorados. Gonalo era irmo de Martim: mas, ao entrar na
batalha, pediu a D. Joo I que lhe legitimasse um filho natural, para
que, no caso d'elle perecer, os filhos do irmo trdo lhe no manchassem
o solar. Gonalo, morreu e D. Joo I cumpriu a vontade do portuguez de
lei.

--O que d'ahi infiro--disse sarcasticamente o conde-- que v. ex.^a
procede de um filho natural.

--A me do filho natural era abbadessa de Vairo, da familia dos
Alvins--redarguiu triumphantemente Calisto.

--Coito damnado!--retorquiu o conde.

--Discutamos esses pontos graves--voltou serenamente o morgado da Agra,
tomando rap.--A decima segunda av de v. ex.^a Jeronyma Talha, era
judia de Cezimbra, e esteve como covilheira dos sobrinhos de um Heitor
de Barbuda com quem casou. Sua tresav enviuvou sem filhos e casou com
um filho do capello. D'este matrimonio nasceu seu av Luiz de Almeida
de Barbuda, que foi o primeiro conde do Reguengo. Reconciliemo-nos, sr.
conde, em quanto ao sangue de coito damnado, se v. ex.^a quer emparelhar
o filho do padre com a abbadessa de Vairo, tia da mulher de Nuno
Alvares Pereira por Alvins.

O conde ergueu-se accendido em raiva, e disse:

--No que no podemos emparelhar, sr. Calisto,  na tolice. Vou-me
embora, com a vergonha de ter aqui vindo.

--No v, acudiu Calisto Eloy, que eu  que me hei de forrar  vergonha
de dizer que v. ex.^a veiu c.

E, passando a penna de ferro na pagina da chronica, rasgou a linha que
dizia _Martim Annes de Barbuda_.




VIII

*Faz rir o parlamento*


Andava o animo de Calisto Eloy martellado pelo desejo de pr cobro ao
luxo da gente de Lisboa, sendo grande parte n'este intento o haverem-lhe
os dois pisa-verdes do parlamento mettido a riso a sua casaca de briche.
Impugnavam-lhe a ida o abbade de Esteves, e outros correligionarios
cordatos, mais entrados do espirito do seculo, e convencidos da
inutilidade de atravessar represas  torrente caudal da indole de cada
poca. O deputado de Miranda respondia que viera de sua terra a
cauterisar as chagas do corpo social, e no a cobril-as de pachos e
lenimentos palliativos em respeito  sensibilidade dos doentes. Rebelde
s admoestaes sisudas de amigos, que lhe receavam alguma queda mortal
no conceito da camara, Calisto, provocado por um debate sobre importao
e direitos de objectos de luxo, pediu a palavra, e o mesmo foi alvorotar
alegremente a camara, desejosa de ouvil-o.

Concedida a palavra, e feito o silencio da curiosidade na sala,
ergueu-se o morgado da Agra, e orou d'este feitio:

--Sr. presidente! Os conselheiros dos antigos reis de Portugal, homens
de claro juizo e sciencia bastante, cortavam os abusos do luxo com
pragmaticas, quando os vassallos se desmandavam em trajos, regalos e
ostentaes ruinosas do individuo, e, portanto, da cidade. O senhor rei
D. Sebastio, que santa memoria haja, promulgou justas e rigorosas leis
sobre o uso das sedas. E, n'aquelle tempo, sr. presidente, Portugal
ainda se banqueteava com a baixella d'oiro do Pegu: ainda as paredes das
salas nobres estavam colgadas de gualdamecins e razes da Persia. Era o
Portugal, j no robusto nem enthusiasta; mas ainda sopitado das
embriagadoras delicias dos reinados de D. Manuel e D. Joo III.

Nas Ordenaes Filippinas, liv. 5.^o t. 82,  4.^o, e seguintes, foram
incluidas as principaes leis da reformao da justia de 27 de julho de
1582.

L se v quo salutar era a vara ferrea da lei no castigo dos contumazes
em proveito da communidade. (_Um deputado boceja contagiosamente: outros
bocejam; e o presidente de ministros adormece_). Vejamos a pena dos
infractores: o peo perdia o vestido defezo, e pagava da cadeia quinze
cruzados; e o nobre pagava da cadeia mais quinze cruzados que o plebeu.
Note a camara que as reformas liberaes no complanaram tanto a egualdade
entre poderoso e fraco. Bradam por ahi os ignaros contra os privilegios
e exempes da fidalguia dos tempos ominosos. Estes democratas, se
acontece de cairem nas presas da justia, gritam pelo codigo das
egualdades, e ento experimentam o que vae da bonita redaco da lei 
execuo d'ella. Recolho-me ao assumpto, sr. presidente....

_Um deputado_: Faz bem.

_O orador_: No me lisongea o beneplacito do collega. Recolho-me ao
assumpto, sr. presidente. Lastimo este luxo que vejo em Lisboa! Por toda
a parte, oiro, pedrarias, sedas, veludos, pompas, vaidades! Parece que
toda esta gente voltou hontem da India nas naus que trouxeram as parias
do Oriente! Essas ruas estrondeiam de carroagens, calechas e berlindas,
como se cada dia se estivesse commemorando a passagem do cabo
tormentorio ou o descobrimento da terra de Santa Cruz, atirando s
rebalinhas os thesouros que de l nos vem. Por entre estas soberbas
carroas...

_Um deputado_: Carroas so de lixo.

_O orador_: E bem pde ser que seja lixo o que vae n'ellas... Por entre
estas soberbas carroas, sr. presidente, vejo eu passar mal arrimados s
paredes, e temerosos de serem esmagados, uns homens de aspecto
melancholico, e mal entrajados. N'estes cuido eu vr D. Joo de Castro,
que empenhou as barbas, e tem duas arvores em Cintra; Duarte Pacheco,
que vae entrar no hospital; e Luiz de Cames que vem de comer as sopas
dos frades de S. Domingos. Cada poca tem centenares d'estas illustres
victimas.

_Um deputado_: V coisas magnificas!

_O orador_: E tambem vejo o dedo do propheta escrevendo na parede o
lemma d'aquelle devasso festim... (_Pausa. O orador conserva o brao em
postura sculptural, apontando  parede. O presidente accorda
estremunhado, com a risada do ministro da fazenda_). O que eu vejo? quer
o illustre deputado saber o que eu vejo?  a industria agricola de
Portugal devorada pelas fabricas do estrangeiro;  o brao do artifice
nacional alugado  escravido do Brazil, porque a patria no lhe d
fabricas;  o funccionario publico prevaricado, corrupto e ladro,
porque os ordenados lhe no abastam ao luxo em que se desbarata;  o
julgador dos vicios e crimes sociaes transigindo com os criminosos
ricos, para poder correr parelhas com elles em regalias;  a mulher de
baixa condio prostituida, para poder realar pelos ornatos sua
belleza;  a alluvio de homens, inhabeis, que rompe contra os
reposteiros das secretarias pedindo empregos, e conjurando nas
revolues se lh'os no do. O que eu vejo, sr. presidente, so sete
abysmos, e  bocca de cada um o rotulo dos sete peccados capitaes que
assolaram Babylonia, Cartago, Thebas, Roma, Tyro, etc.  o luxo, sr.
presidente!

_Um deputado do Porto_:--Peo a palavra.

_O orador continuando_:

--De que desconhecida lua choveu ouro sobre estes paraltas enluvados e
encalamistrados que pejam os theatros, praas, e botequins de Lisboa?
Foi para estes tempos que um sabio e claro varo d'outro seculo
escreveu: Desde o bico do p at  cabea anda um d'estes cavalheiros
bizarros (ou qualquer d'estes bizarros ainda que no sejam cavalheiros)
armado de vaidade e de estudos de sua compostura, que so captiveiros de
espirito, corrupes dos costumes, da republica, e despezas da sua
fazenda, ou talvez da fazenda que no  sua.

Aqui  que bate o ponto: _da fazenda que no  sua_.  custa de quem se
vestem estes Narcisos e Adonis? Que incognitos veios de ouro exploram?
Qual  sua arte, se no devo antes perguntar quaes sejam suas manhas ou
ronhas? Que sabe a policia d'elles?

E eu j vi, sr. presidente, andarem as senhorias e excellencias, as
pobres esfarrapadinhas, por meio d'estes peralvilhos, que saem de casa
do alfayate com o fro grande e o desaforo maior. Que desbarato e
corruptela  esta dos tratamentos em Lisboa? Abandalha-se tudo para
passar a rasoira por sobre um lamaal plano? Isso  congruente; mas
ento tapem l o rto cofre das graas, que a toda hora nos est
despejando coras e veneras, cruzes e mais cruzes, cruzes onde a honra
de Portugal geme cravejada! Fechem l esses decretos de permanente
carnaval, que nos trazem sempre acotovellados com mascaras, que eram
hontem os nossos fornecedores de bacalhau, e hoje nos no conhecem a
ns, receiosos de que os conheamos a elles!

Sr. presidente! v. ex.^a conhece a pragmatica do Sr. D. Joo V, cerca
de tratamentos. Eu tenho de a ler manh a um tendeiro, que me vendeu
figos de comadre, por que o homem se offendeu de receber um _vossemec_,
que eu longanimamente lhe dei. O alvar resa assim: Que aos viscondes e
bares, aos officiaes da minha casa, e aos das casas das rainhas, e
princezas d'estes reinos; aos gentis-homens das camaras dos infantes;
aos filhos e filhas legitimos dos grandes, dos viscondes e bares...
como tambem aos moos fidalgos... se d o tratamento de senhoria.

Senhoria aos ministros no estrangeiro; senhoria aos governadores das
praas; reitor da universidade; senhorias s dignidades prelaciaes e
civis; sr. presidente, falta uma senhoria legal para o homem, que me
vendeu os figos. Cremos esta senhoria, para alliviarmos de escrupulos
os que lh'a derem a medo. Legislemos a podrido dos tratamentos
nobilitarios. Atiremos ao esterquilinio com esta moeda refece. Isto j
no vale nada, no prova nada, no estrema coisa nenhuma. Latissima
licena de condecorar-se a gentalha! Se algum mesteiral, uma vez,
praticar feito nobre, que lhe conquiste justo galardo, havemos de
honral-o chamando-lhe homem do povo, d'aquella raa de povo, que D.
Diniz e D. Joo I amaram cordialmente.

Desviei-me algum tanto, sr. presidente. Vou chegar-me  questo, e
concluir, porque a hora me no permitte delongas, nem a camara ter a
benevolencia de m'as tolerar.

Invoco a atteno dos representantes do paiz para a mortal peonha, que
vae cancerando o machismo vital da nossa independencia. Rdeas ao luxo!
Tranquem-se as alfandegas s drogas estrangeiras. Carreguem-se de
direitos as mercadorias, que incitam o appetite e prevertem as condies
melhormente morigeradas. Vistamo-nos do que podemos colher de nossas
possesses, e do estofo, que nossas fabricas podem dar. Sigam-se as leis
velhas do ultimo rei da dynastia de Aviz. Coimem-se e castiguem-se os
que venderem tecidos estrangeiros e os que os puzerem em obra.

_Um deputado_: Como redigir o illustre deputado similhante absurdo de
lei?

_O orador_: Como redigirei? Facilmente. Como D. Joo II legislou a
respeito das mulas dos frades. Ora aconteceu que os frades teimaram em
cavalgar mulas. Que fez ento o estomagado rei? Deu sentena de morte
aos ferradores, que ferrassem as mulas dos frades. E o caso foi que os
desmontou.

Conclui, sr. presidente.

_O presidente_: Fica reservada para amanh a palavra ao sr. dr. Liborio
de Meirelles, e est fechada a sesso.

O dr. Liborio de Meirelles era o deputado portuense, que pedira a
palavra, durante o discurso de Calisto Eloy.

--Que sair d'aquelle arganaz?--perguntou o morgado de Agra ao abbade de
Esteves.

--Dizem que  moo de muita sabedoria, e que j escreveu livros.

Calisto sorriu-se e disse:

--Estou bem aviado, se elle escreveu livros!




IX

*O doutor do Porto*


O dr. Liborio de Meirelles, sujeito de trinta e dois annos, cara
honesta, e posturas contemplativas, reunia os predicados que nos outros
paizes ou passam despercebidos, ou so solemnisados pela irriso
publica; mas, em Portugal, taes predicados alam o homem ao cume da
escala politica, e do-lhe escolta de absurdos propicios at onde o
parvo laureado quer guindar-se.

Esta pessoa madrugou aos dezoito annos escrevendo poemas satyricos
contra os titulares portuenses, no porque elle se pejasse de vel-os em
sua plana, mas porque lhe fugiram d'ella. O progenitor de Liborio era um
tendeiro, que entrara na estrada franca da fortuna prospera, creando de
sua cabea, para uso de gallegos e carretes madrugadores, um mixto
saboroso e alcalino de licores, que ainda hoje sustentam o credito e
primasia. Afra isto, inventara o pae do dr. a aguardente de nabos.

Liborio foi menos feliz que o pae, no genero a que se dedicou. Os seus
poemas viveram alguns dias afagados pela calumnia, como a belleza das
collarejas lisongeada pelo rosto derrancado dos libertinos. Depois, o
filho do tendeiro, graas  baixesa de sua posio social, antes de
grangear o odio dos insultados, j tinha caido no desprezo d'elles.

Impellido pelo couce do pgaso, Liborio j no podia retroceder. Foi
para Coimbra: fez-se examinar em latim, e foi reprovado. Desde este
funesto dia de sua vida, Liborio comeou a dizer que era sabio, e, por
vingana dos examinadores, traduziu um poema latino com tanta claresa e
fidelidade, que o poema original ficou sendo muito mais intelligivel aos
ignorantes de latim, do que a verso; com que a memoria de Lucrecio fra
ultrajada.

Formou-se e doutorou-se Liborio, sem impedimento de uns _rr_ que, alguma
vez, lhe acalcanharam o orgulho. Em seguida foi visitar a Europa; e, de
volta aos lares, achou-se no regao da estupida fortuna que o beijou, na
fronte, e lhe disse: este anhelito de meus beios ca-te fogo ao
cerebro! Amo-te, porque careo de ti. Eu sou a Circe dos gregos:
bestifico tudo que toco, e em ti delego o condo de radiares tua
bestidade ao cerebro de quem embarrar por ti. Proponho-me transfigurar,
no j em cochinos, mas em mais nobres alimarias, os regedores da coisa
publica de Portugal. Tu, dilecto, vae caminho da gloria. Hoje s
deputado; d'aqui a pouco sers ministro.

De feito, Liborio estava deputado,  mesma hora em que o fidalgo da Agra
de Freimas era fadado a ser um dia verberado no parlamento pelo filho do
inventor da aguardente de nabos.

Calisto entrou  sala, e, digamol-o com espanto de sua fleuma, ia
tranquillo e at contente, sem embargo de lhe haverem dito alguns
collegas quo funesto era o contendor que a sua m sorte e imprudencia
lhe deparara.

O dr. Liborio, dada a palavra, ergueu-se com ademanes no vulgares,
alisou os bigodes, encravou na orbita esquerda um vidro sem grau, e
disse:

--Sr. presidente, discorri crca d'anno por estranhas plagas. Fui-me
mundo fra com o meu bordo e concha de romeiro do progredimento social.
Bebi a tragos nas enchentes de mel hyble que desborda dos mananciaes da
civilisao. Vi muito, vi tudo, que me abraseavam sedes de aprender,
fomes de Ugolino que rompe seus ferros, e se defronta com lautos
estendaes de loirejantes iguarias. Que deliquios de exultao me tomavam
alma! como eu me sentia a tragar luz e humanidade por aquelles climas
onde o supremo architecto chove inventos a frouxo e a flux! Vi muito, e
vi tudo, sr. presidente. Encheu-se-me o peito de anhelos pela sorte da
patria, e d'amores muito seus d'ella, como de filho que do imo das
entranhas lhe quer. Volvi-me no rumo do ninho meu; e mal se enrubesceram
os horisontes d'esta minha e to nossa terra de fragrancias e idyllios,
assim me coou as fibras do seio um como filtro de melancholia, que me
subia aos olhos exsudando lagrimas.

(_Calisto Eloy, em perigo de rebentar, ri-se. Parte da camara ciciou-lhe
um sio prolongado. Calisto accommoda-se e desconfia que a maior parte da
camara  tola_).

_O orador_:  que eu, sr. presidente, muito a dentro d'alma sentia uns
rebates de presagio. Locustas de excruciantissimos toxicos, que me
estavam empeonhando esperanas, enleios, arrobos e dulcissimas chimeras
de ainda ver florejarem os agros da patria, estrellarem-se estes cos
plumbeos e rasgarem-se os horisontes  onda fecundante d'este uberrimo
torro. Doeu-me alma, choraram-me olhos, e comprehendi a angustia
virgiliana do hemestichio: _pulcia linquimus arva_. (_Muitos apoiados_.)

Pois que, sr. presidente? Canariam maguas a quem se lhe antolhasse ter
de ainda ouvir n'esta casa voz de homem, de homem nado do ventre d'este
seculo, de homem que aqui entrou a verter no gasolifacio do templo do
eterno Christo da eterna liberdade, a drachma ou o talento, a mialha ou
o thesouro de sua dedicao, repito, sr. presidente, quem deixra de
estillar bagas de pranto, ao aportar em cho portuguez com o presagio de
que, alguma hora, havia de ouvir n'este _sancta-sanctorum_ das luzes,
blasphemias contra o luxo, que  a arteria, a rta do corpo industrial?
Quem quizera, por tal preo, dizer s naes cultas: eu sou d'aquelle
co, nasci n'aquelle jardim de magas, onde Cames poetou glorias para
invejas do mundo? Sou da terra dos laranjaes onde suspirou Bernardim?
Sou da raa dos bravos que perpetuavam Aljubarrota, Badajoz, Valverde?
(_Apoiados prolongados_.) Na minha terra... (quem querer j dizer!)
nasceram Gamas, nasceram Cabraes, e Castros, e Abuquerques, Nunes e
Regras? Quem sr. presidente?

(_Calisto pede a palavra_.)

_O orador_: Que  o luxo? Perguntae ao selvatico das florestas invias o
que  o seu _hamac_, e ao europeu o que  o seu almadraque de plumas,
to crato e flacido s evolues corporeas. Perguntae s bellas europeas
que lhes faz a grinalda de brilhantes, e s bellas da Florida que prazer
lhes insinuam os vitreos adornos de variegadas cres. Oh! o luxo! o
luxo, senhores,  marco miliario de civilisao, a pomba que se volita
da arca, e se vae espanejando de azas por cos e terras alm, recobrada
dos pavores primeiros, e saltitando de frana em frana. Oh! que
rejubilos de corao para quem fadado lhe foi de cima o entender e amar,
que o comprehender  amar, na phrase incisiva e galharda de Victor Hugo!

Sr. presidente! O corao da Frana, o encephalo, o grande nervo da
Frana  o luxo. E eu estive na Frana, sr. presidente, fui l para me
reverberarem nos cristaes d'alma os lumes d'aquella perla d'Offir! Ai! a
Frana! Quando nos entreluzem os zimborios da moderna Babylonia, _a
esperana remonta-se-nos em rasgado vo para tudo mais vasto, mais
copioso, mais opulento, a espirar vida e bem para o alto, para o largo e
de muita beno, a branquear-nos a casinha da serra, a florir-nos o
pomar da veiga, a dar-nos canes e alegrias no artifice_. [11]

O luxo, sr. presidente,  o espantalho dos animos sandios e cainhos.

_O deputado Calisto_: Seja pelo amor de Deus!

_O orador_: Pois seja, e muito que lhe preste ao collega, que mister se
lhe faz perdo de Deus pelas blasphemias economicas que ejaculou, sem
dar de olhos na civilisaao, matrona prestimosa, que toda se desentranha
em blandicias e florinhas de vio e olor para opulentos e desremediados.

_O deputado Calisto_: Isso que diz em vernaculo?

_O orador_: Que me no falle  mo, se lhe sobranceio o intellecto.
Affigura-se-me, sr. presidente, que tenho pela frente sombra, e sombra
de que no ha temermo-n'os. No sei,  bof, com quem me esgrimo.
Propugnar por artes, pr peito a defender industrias, ruir os canclos
das fabricas, bafejar incentivos  imaginativa do artifice, emfim e
derradeiramente, encarecer a utilidade do luxo, isto me est assetteando
o animo temeroso de desfechar injuria ao progresso,  ida, ao _fiat_, 
humanidade! Para que me estou aqui afadigando e derramando, sr.
presidente se s mumias podem sair-me com esgares, de encontro ao
civilisador principio? (_Muitos apoiados_.)

Corre-me obrigao de silencio. J de contricto me recolho, e da
offensa,  luz me penitenco; que eu me estive a espancar trevas que, em
que pese a pvidos agoireiros, j no ho de espessar-se em derredor do
sol esplendorosissimo.

_E, pois, antevejo que no ha mais dizer, sem entibiar-me a nota de
repeties, aqui ponho fecho_.[12]

_O orador foi comprimentado_.

O _presidente_: Tem a palavra o nobre deputado Calisto Eloy de Silos de
Benevides de Barbuda.

--Sr. presidente!--disse Calisto--Eu entendi quasi nada, porque o sr.
deputado dr. Liborio no fallou portuguez de gente (_riso nas
galerias_.) As laranjas, espremidas de mais, do sumo azedo, que corta a
lingua. O sr. deputado fez do seu idioma laranja azeda. Se a linguagem
portugueza fosse aquillo que eu acabo de ouvir, devia de estar no
vocabulario da lingua bunda. Parece me que os obreiros da torre de
Babel, quando Deus os puniu do atrevimento impio, fallaram d'aquelle
feitio! (_Ordem_! _ordem_!)

O _orador_: Ordem, srs. deputados, peo eu para a lingua portugueza!
Peo-a em nome dos illustres finados Luiz de Sousa, Barros, Couto, e
quantos, no dia do juizo, se ho de filar  perna do sr. dr. Liborio.

O _presidente_: Peo ao illustre deputado que se abstenha de usar
phrases no parlamentares.

O _orador_: Tomo a liberdade de perguntar a v. ex.^a se as locues
repolhudas do illustre collega so parlamentares; e, se o so, peo
ainda a merc de se me dizer onde se estudam aquellas farfalhices.
(Vozes: _Ordem_! _ordem_!)

O _orador_: Quando aquelle senhor me chamou _sandio_, no foi violada a
ordem? (_Apoiados_). Ora pois: eu no quero desordens. Vou pacificamente
responder ao sr. deputado, como souber e podr. Estou a desconfiar que a
minha linguagem secca e desornada raspar nos ouvidos da camara, que
ainda agora se deleitou com a rethorica florida do sr. deputado do
Porto. Sou homem das serras. Creei-me por l no tracto facil e cho dos
velhos escriptores: aprendi coisa de nada, ou pouquissimo. A mim,
todavia, me quer parecer que o fallar gente palavras do uso commum 
coisa util para nos entendermos todos aqui, e para que o paiz nos
entenda. Do menospreo d'esta utilidade resulta no poder eu
aperceber-me de razes para cabalmente responder aos argumentos do
discreteador mancebo. Percebi, a longes, pouquinhas idas; porm,
querendo Deus, hei de, se me ajudar a paciencia com que estudei o idioma
de Thucydides, decifrar os dizeres de s. ex.^a no _Diario das
Camaras_. (_Riso_).

O illustre deputado quer que o luxo indique a riqueza das naes. Isto 
o que eu entendi do seu arrasoamento. Em Frana viu s. ex.^a mosquitos
por cordas. Pois, sr. presidente, eu li que, em Frana, onde o luxo 
maior, ahi  menor, em proporo, o numero dos individuos ricos (Vozes:
_apoiado_!) Este caso, se  verdadeiro, corta pela haste as flores todas
dos jardins oratorios do sr. dr. Liborio. Que mais disse s. ex.^a?
Faa-me a graa de m'o achanar na linguagem caseira com que o diria 
sua familia em _pratica como do lar_, consoante phrase a D. Francisco
Manuel de Mello na _Carta de Guia_.

O _dr. Liborio de Meirelles_: No velei as armas do raciocinio para me
ir  lia da absurdeza. Melhores fadas me fadaram; e no me estou aqui
sabbatinando como em pleitos de bancos escolares. (Vozes: _Muito bem_.)

O _orador_: Muito bem o que?... Vae-me parecendo historia isto, sr.
presidente!... Eu queria-me entender com o sr. deputado, afim de
tirarmos algum proveito d'este debate; mas s. ex.^a, pelos modos por me
vr assim minguado de affeites poeticos, acoima-me de absurdidade, e
despreza-me!... Valha-me Deus! Se o sr. dr. Liborio me no lanasse da
sua presena com tamanho desamor, havia de perguntar-lhe por que foram
Athenas e Roma bem morigeradas quando pobres, e corrompidas quando ricas
e luxuosas? Havia de perguntar-lhe que artes e sciencias progrediram
entre os sybaritas e lydios, povos que a mais elevado gro de luxo
subiram? Havia da perguntar-lhe por que foi que os persas acaudilhados
por Ciro cortados de vida aspera e privada do necessario, subjugaram as
naes opulentas? Havia de perguntar-lhe porque foram os persas, logo
que se deram s delicias do luxo, vencidos pelos lacedemonios?

A suprema verdade, sr. presidente, a verdade que os arrebiques da
rhetorica no seduzem,  que  medida que os imperios antigos se
locupletavam, o luxo ia de foz em fra, e os costumes a destragarem-se
gradualmente, e o pulso da independencia a quebrantar-se, e os cimentos
das naes a estremecerem. Depois, era o cair do Egypto, da Persia, da
Grecia e Roma.

At aqui a historia, sr. presidente; d'aqui em diante o sr. dr. Liborio
de Meirelles, o moo poeta, que foi a Frana, e achou desmentidos
Xenophonte e Thucidydes, Livio e Tacito, Plutarcho e Flavio.

O sr. dr., a meu juizo,  sujeito de grande imaginativa. Bonita coisa 
idear fabulaes em academia de poetas; porm, n'esta casa, onde a nao
nos manda depurar a verdade dos fallaciosos ornatos com que a mentira se
arrea, mister  que sejamos sinceros. J o insigne author dos _Apologos
dialogaes_ disse que a _imaginao era curral do conselho, onde, por no
ter portas, todo o animal tinha entrada_. Bom  tambem que os moos
muito imaginativos seno pavoneem at ao philaucioso sobrecenho de
passarem alvar de sandeus  gente que raciocina mais porque imagina
menos.  permittido aos versistas poetarem em prosa; mas as liberdades
poeticas no ajustam bem nos debates circumspectos da res publica.

Vou concluir, sr. presidente, votando contra a proposta do illustre
collega, que propoz a reduco dos direitos aduaneiros das sedas, e
pedindo ao sr. dr. Liborio, que, se outra vez me der a honra de imbicar
com este pobre homem l das montanhas da raia, haja por bem de se
expressar em linguagem correntia. No sou homem de salvas e rodeios:
digo as coisas  moda velha. Quero-me portuguez com os do sujeito, verbo
e caso no seu competente logar. E, se assim no fr, ir-me-hei com
aquellas palavras que ouviu Arsenio: _Fuje, quesce, et tace_; foge,
socega, e no falles.

Sentou-se Calisto Eloy. Alguns deputados ancios do partido liberal
foram cumprimental-o; e outros, que se pejaram de imitar os velhos,
encararam no rustico provinciano com cortezia e tal qual venerao.
Calisto Eloy ganhra considerao na camara e no paiz.

Os deputados governamentaes acercaram-se d'elle, convidando-o em termos
delicados a aceitar, no banquete do progresso, o logar que a sua
intelligencia reclamava. Os deputados opposicionistas conjuravam-no a
no levantar mo de sobre os projectos depredadores com que a faco
governamental andava cavando novas voragens ao paiz.

O morgado da Agra respondia que estava descontente de gregos e troyanos,
e acrescentava:

--No sei, por ora, de qual dos lados da camara se falla peor a lingua
patria. Tenho ouvido os quinhentistas  la moda, e os galliparlas. Todos
ressabem  hervilhaca; uns esto gafados de francezias, outros tresandam
nos seus dizeres o bafio que os bons seiscentistas regeitaram. Carecem
de cunho nacional estes homens. O mo portuguez principia a sel-o, desde
que mareia a pureza de sua lingua. Dem-me portuguezes de lingua, e eu
me bandearei com elles, como com portuguezes de corao. Com aquelle dr.
Liborio do Porto nem para o co. Tenho medo que Deus o no entenda, e
nos ponha ambos fra de cambulhada.




X

*O corao do homem*


Entremos no corao de Calisto Eloy.

Cuidava o leitor que no tinhamos que entender com aquella entranha do
homem? Estou que a julgaram inviolavel s suspeitas da historia em acto
de tanto alcance na biographia d'este personagem!

J se disse que orava pelos quarenta e quatro o morgado. N'aquella
edade, se ha fibras virginaes no corao, eram as d'elle.

Casra com sua prima Theodora, menina estimabilissima por virtudes, mas
mais feia do que pede a razo que seja uma senhora honesta. A noiva
deixou-se ir pela mo do pae  casa do esposo. No ia alegre nem triste.
Tanto se lhe dava casar com o primo Calisto como com o primo Leonardo.
Logo que o pae lhe consentiu que levasse para Caarelhos umas tres
duzias de gallinhas e parrecos, que ella creara, no lhe ficou na casa
natal coisa para srias saudades.

Encontrou marido ao pintar. Coraram ambos ao mesmo tempo, quando o
bulicio das festas nupciaes se aquietou e a me do noivo lhes disse:
Meninos, cada mcho a seu soito phrase amenissima que em pouco e
depressa exprime a muita poesia de toda aquella famlia.

Calisto, ao outro dia da primeira noite de esposo, por volta das sete
horas da manh, j estava a ler a _Viagem  terra santa_, por frei
Pantaleo de Aveiro; e,  mesma hora a noiva andava de p sobre um catre
de pau preto rendilhado, com uma bassoira de giesta, a limpar teias de
aranha do tecto.

Almoaram, e foram visitar o pae e o sogro, em cuja casa jantaram.
Durante a visita, a sr.^a D. Theodora esteve a ensinar uma criada a
engommar as camisas do pae; e Calisto, como descobrisse n'um armario um
tratado de alveitaria de 1610, levou-o de um folego, e tirou
apontamentos, visto que o sogro se tratava por aquelle tratado,
diminuindo as doses das drogas. No sei quem lhe dissera a elle que o
sr. D. Joo IV, nas doenas graves, se medicava com um veterinario.

Ora, d'este comeo de amores infiram v. ex.^as o restante d'aquella doce
vida!

Theodora tomou a cargo os cuidados domesticos de sua sogra, e muitos do
tracto com caseiros, vendo que o marido, tirante as horas de comer, no
saia da livraria, onde a mulher, como amavel sombra, o ia visitar, e
olhando com desdem sobre os infolios, dizia-lhe:

-- homem, ainda no acabaste de ler estes missaes?

--Isto no so missaes, rapariga. No estejas a profanar os meus
classicos.

A esposa no entendia isto, e pedia-lhe que lhe lsse pela vigesima vez
as _Sete partidas de D. Pedro_. E o bom marido lia-lhe pela vigesima vez
as _Sete partidas_, porque estavam escriptas em portuguez de lei. Vida
para invejar! paraiso em que Deus se esqueceu de mandar o anjo do
montante de fogo vedar a entrada!

Discorreram annos, sem que o morgado tivesse de perguntar  sua
consciencia a explicao do minimo alvoroto de sangue na presena de
mulher estranha. Andava por feiras, quando a mulher o mandava comprar
utensilios agricolas; pernoitava por diversas casas da provincia,
famosas pela belleza das donas, e contava-lhes casos mirificos de suas
leituras, se acontecia no achar livro velho, que lhe deliciasse o
sero.

Da maior, e talvez unica dr litteraria da sua vida, fui eu causa.
Calisto, pernoitando em no sei que solar de damas dadas  leitura
amena, pediu algum livro, e deram-lhe um romance meu. Consta-me que
deixou o volume com as margens annotadas de gallicismos e nodoas de toda
a casta. Imaginem quantas punhaladas eu dei n'aquelle lusitanissimo
corao!

Afra este incidente, as boninas da vida campestre floriam
immarcessiveis para o homem de bem, raro exemplo de compostura; salvo
quando lhe beliscavam a estirpe que, ento, como j disse, retaliava
descaridosamente, e revelava a quebra contingente de todo homem
imperfeito de sua natureza. Isto creou-lhe inimigos; mas detrahidores de
sua fidelidade marital nenhum tentou infamar-lhe o bom nome. Das
virtudes conjugaes de Theodora at me treme a penna smente de escrever
isto para encarecel-as! Duvide-se da pureza das onze mil virgens, antes
de maliciar suspeitas d'aquella matrona, em tudo romana, do puro estofo
das Cornelias, Poncias e Arrias.

Com esta pureza de vida entrara em Lisboa o morgado da Agra.

Ahi est um como Daniel  beira da fornalha. Ahi est o homem-anjo!
Quarenta e quatro annos immaculados! Um corao que, se algumas imagens
tem gravadas, so as dos frontispicios apparatosos de alguma edio
princeps, d'algum Elsevir annotado por Grenobio.




XI

*Santas ousadias!*


Natural coisa  que este sujeito, intangivel s caricias do amor, seja
severo e intolerante com as fragilidades do corao.

Aconteceu-lhe frequentar, uma noite por outra, a sala d'um antigo
desembargador do pao, que era pae de duas galantes senhoras, uma casada
e outra solteira.

Soou aos ouvidos de Calisto Eloy, que uma das illustres damas innodoava
sua gentileza e prosapia, violando os deveres de esposa. Fez-lhe sangrar
o corao honrado to funesta nova, e communicou elle o seu espanto e
dr ao collega abbade. O abbade desfechou-lhe na cara uma estrallada de
riso civilisado, e disse-lhe:

--Ora o morgado tem coisas! V. ex.^a parece que caiu, ha pouco, de algum
planeta! Olhe que Lisboa no  Miranda, meu amigo. Se o morgado tem de
espantar-se por cada caso d'estes que chegar ao seu conhecimento, a sua
vida na capital tem de ser um permanente ponto de admirao!... Deixe
correr o mundo...

--Que remedio!--atalhou o morgado--mas o que eu farei  sacudir o p dos
meus botins  porta das casas, cuja desordem de costumes me escandalisa.
No voltarei a casa do desembargador Sarmento.

--Faa v. ex.^a o que quizer; porm, consinta que eu reprove similhante
procedimento, por duas razes; seja a primeira, que o desembargador e a
familia receberam o sr. morgado com cordeal affecto; segunda razo, 
que v. ex.^a j no est em edade de perder a sua virtude seduzida por
mos exemplos. Faa como eu: lamente as miserias dos homens, e viva com
elles, sem participar-lhes dos defeitos; porque, meu nobre amigo, se a
gente vae a regeitar as relaes das familias, justa ou injustamente
abocanhadas pela maledicencia, a poucos passos no temos quem nos
receba.

--Eu tenho os meus livros, accudiu Calisto.

--E os seus livros, as suas chronicas, os seus classicos gregos e
latinos no lhe contam enormes desmoralisaes? V. ex.^a, que leu a vida
romana em Tacito, e Apuleio, e no Festim de Trimalico de Petronio...

--De qual Petronio?--interrompeu o morgado. Foram doze os Petronios em
Roma, e todos escreveram com mais ou menos despejo.

--Pois melhor. Se v. ex.^a leu doze, eu li um, que era o ecnomo, ou
arbitro dos prazeres de Nero, e este me bastou para edificao do meu
espirito. Pois se o meu amigo pde ler sem horror as infamias das
saturnaes, e os mysterios da deusa Bona, e quejandas protervias dos
antigos tempos, como pde espantar-se do que ouve dizer da filha do
desembargador Sarmento, que a final de contas, pde estar innocente do
crime que lhe assacam?! No a v v. ex.^a filha cuidadosa, me
estremecida, e esposa honesta na apparencia? J a ouviu defender theses
da moral do adulterio? Que lhe importa a v. ex.^a o que se passa l na
vida privada da mulher?

Calisto deteve-se breves instantes com a resposta, e disse:

--Acho-lhe razo, sr. abbade, no tanto pelo que disse, como pelo que
no disse. As pessoas de vida impolluta devem acercar-se d'aquellas que
prevaricam. L vem uma hora em que o conselho  taboa salvadora... Quem
sabe se eu terei predestinao de desviar aquella senhora do caminho
mo!?...

-- verdade--assentiu o abbade;--mas  justo e urbano que v. ex.^a no
v interrogal-a sobre coisas do fro intimo.

--No me ensine as leis da cortezia, abbade--replicou algum tanto
affrontado o fidalgo da Agra.--Eu no me fiz em alcatifas de salas; mas
aprendi a policia e trato humano nas lies de gals afamados como D.
Francisco Manuel. E, demais d'isso, meu caro sr. abbade, no me pea
Deus conta de minha soberba, se lhe eu digo que o bom sangue como que j
tem congeniaes e infusas em si as regras da urbanidade cortez. No se
fazem mister directorios de civilidade a sujeitos, que herdam com a
fidalguia a indole de avoengos palacianos, feitos nas crtes, e affeitos
a sentarem-se na ourella dos thronos.

--No ponho duvida n'isso;--obtemperou o abbade, e accrescentou com
malicia e bem rebuada ironia--alguns fidalgos muito mal-creados que
tenho topado, em quanto a mim, no lhes faltou a herana de polidez;
foram elles que propriamente derrancaram sua indole, at se fazerem
plebe grosseira e ignobil.

--Acertadamente--disse o morgado.

--Eu ensinar cortezia a v. ex.^a!--insistiu o deputado bracharense.--A
minha observao tendia a moderar os impulsos descomedidos da sua justa
censura aos mos costumes da sr.^a D. Catharina Sarmento. _Noli esse
multum justum_, diz o Ecclesiastico.[13] Bem fidalgos e policiados eram
S. Domingos de Gusmo, S. Francisco de Borgia, e Santo Ignacio de
Loyola, todavia, bem sabe v. ex.^a com que exempo e santa descortezia
elles invectivavam as corruptelas da mais elevada sociedade, em rosto
dos proprios delinquentes.

--Mas eu no sou apostolo--acudiu Calisto.--Conheo que j no vim a
tempo, nem a misso me condecora.

Assim mesmo, sem desaire das pessoas, hei de pr a pontaria aos vicios,
e, se poder, influirei pensamentos de emenda ao animo dos viciosos.

N'uma das seguintes noites, foi Calisto ao ch do desembargador
Sarmento. Achou mais abatido e melancholico o antigo magistrado.
Estiveram conversando  puridade sobre o desgosto que revia  face do
hospedeiro ancio. Cr-se que Sarmento lhe dissera que sua filha
Catharina, depois de haver casado por paixo, com cedo se desaviera da
vontade do marido, e este da estima d'ella; de modo que raro dia
deixavam de altercar e renhir por motivos insignificantes. D'isto
resultava a tristeza constante do velho, acrescentada agora com ter-lhe
dito alguem que sua filha andava infamada pela voz publica.

--Ferro penetrante--exclamou o desembargador--que me traspassou este
corpo j fraco, e pendido  campa.

Calisto apertou-o nos braos e clamou:

--Amigo e senhor meu! A desgraa no derrete o ao dos peitos fortes.
Tenha-se v. ex.^a arrimado ao bordo de sua honra, que no ho de
adversidades derribal-o. Aqui me ponho de seu lado, com a fortaleza da
amizade, para, como filho de v. ex.^a e irmo da sr.^a D. Catharina,
minha senhora, tirar a limpo da sugidade da calumnia, se o , a virtude
d'ella, e o contentamento de v. ex.^a. Aqui vem de molde o repetir as
palavras affectivas do meu dilecto Heitor Pinto, no tractado da
_Tribulao_: O que eu queria  que a boceta de vossas angustias
estivesse depositada em minhas entranhas, e que os meus bens fossem
vossos, e os vossos males fossem meus.

Ouvido isto, o desembargador commoveu-se at s lagrimas, e disse com
mui entranhado affecto:

Quem me dera assim um marido para a minha Adelaide, que n'esta casa
reinaria o socego da virtude! Agora vejo que l nos escondrijos dos
mattos da provincia se refugiaram as reliquias da honra portugueza!
Ditosa senhora a que avassallou to honesta alma!

D'ahi a pouco, o morgado da Agra, buscando azo de estar apartado com
Catharina a um canto da sala, e praticando sobre livros perigosos,
rompeu elle n'esta pergunta:

--A sr.^a D. Catharina j leu Homero?

-- romance? disse ella.

--Romance ou fabulado de alta moral lhe havemos de chamar; no j
romances d'uns que, de oitiva o sei, por ahi impestam a sociedade. Na
Iliada de Homero achei dois pares de casados; um  Paris, que se
matrimoniou com Helena; o outro  Ulysses, que se casou com Peneloppe.
Os primeiros, cubiosos e voluptuarios, cobriram a Grecia de
calamidades; os segundos, prudentes e discretos, foram o modelo do
thalamo ditoso.

Fez Calisto uma longa pausa, e proseguiu, interpollando os dizeres com
algumas pitadas, que solemnisavam a gravidade das fallas.

--Ninguem devera casar sem muito lr e sem applaudir aquelles preceitos
do casamento, escriptos pelo eminentissimo Plutarcho.

--No conheo, disse a dama... Li _Le mariage_, de Balzac.

--No sei quem : deve ser francez.

--Pois no leu?

--Eu no leio francez. No me chega o meu tempo para tirar aguas sujas
de poos infectos. Plutarcho  oraculo n'esta materia. Um pensamento lhe
li que me chegou  medula, e que ainda agora em Lisboa me saiu
explicado. Diz elle algures. No podem as mulheres convencer-se de que
Pasiphae, bem que esposa d'um rei, se enamorasse apaixonadamente de um
touro; ao passo que esto vendo, sem espanto, mulheres que menospresam
maridos benemeritos e honrados, e se dedicam a homens bestificados pela
libertinagem. Asseveram-me os pilotos peritos n'estes mares verdes e
aparcellados da capital, que ha d'isto muito por aqui.

-- possivel... balbuciou D. Catharina.

--E porque no ha de ser, se algumas senhoras conheo eu casadas, tornou
Calisto, que andam com os braos nus fra das alcovas do seu leito
nupcial!...

--E isso que tem?--atalhou a dama-- a moda...

--A moda, que franqueia as portas aos ruins desejos, s cogitaes
viciosas, aos afrontamentos, ao pudor. Aquella filha de Pytagoras, a
quem encareceram o feitio do brao, respondeu: Bello ; mas no para
ser visto. Na Andromacha de Euripedes, Hermion exclama:
Infelicitei-me, consentindo que de mim se achegassem mulheres
preversas. Quantas damas de hoje em dia podero dizer, e na consciencia
o estaro dizendo: Consenti, para minha desgraa, que preversos homens
convisinhassem de mim!...

--Mas onde quer v. ex.^a chegar com o seu discurso? interrompeu a filha
do desembargador.

-- razo da sr.^a D. Catharina, minha senhora.

--Como assim?! quem o auctorisa...

--As lagrimas de seu ex.^{mo} pae.

--Veja l, sr. Barbuda, que se no equivocasse com as lagrimas de meu
pae... A minha reputao e costumes repellem similhantes alluses, se o
so.

--Peores do que estas, sr.^a D. Catharina, minha senhora, peores
referencias do que estas lhe faz a voz do mundo.

--A mim?

-- f! que sim! Dou-lhe em penhor da verdade a minha honra.

--Mas--interrogou irada e rubra de despeito a dama--que ousadia a de v.
ex.^a fallar assim a uma senhora, que apenas conhece!... Olhe que essas
liberdades de provincia no se usam c em Lisboa.

--No se moleste assim, minha senhora--tornou Calisto.--Respeito tanto
v. ex.^a quanto estimo seu venerando pae. O atrevimento  grande, maior
ser a magnanimidade de v. ex.^a em perdoar-m'o. Lagrimas de velho e de
pae do estranho ousio. Desgraas sobranceiras incutem alentos
destemidos nas mais fracas almas. No proposito de conjurar a tormenta,
que se encapella e ameaa de sossobrar a felicidade de uma familia
illustre,  que eu, sr.^a D. Catharina, me affoitei a ser o advogado
espontaneo do bem de todos.

--Agradeo o zelo; mas agradecera-lhe mais a discrio--disse D.
Catharina; e, retirando-se, fez uma ceremoniosa mesura a Calisto.

No voltou mais  sala a dama. O desembargador no desfitava olhos de
Calisto Eloy, que se assentou meditativo no mais assombrado do recinto.

Erguera-se do voltarete o abbade de Esteves, e abeirou-se d'elle,
dizendo:

--Desconfiei que v. ex.^a estava missionando a dama... Amolleceu-a?

Calisto ergueu a fronte, enclavinhou os dedos das mos sobre o peito
consternado, e murmurou:

--Agora acabo de entender o meu padre Manuel Bernardes.

E repetiu em tom cavo:

...Converto minha atteno, e temor a ti  Lisboa, Lisboa, considerando
o que em ti passa. Medo me fazem tuas corrupes to graves e to
devassas, que j o lanar-t'as em rosto, no seja nos zelosos falta de
prudencia, seno obra de magua.

Depois, suspirou, e cheirou rap.




XII

*O anjo custodio*


Santa audacia! Bizarra indole de antigo cavalleiro, que abriga no peito
a generosidade com que os heroes dos Lobeiras, Barros, e Moraes se
lanavam s aventurosas lides, no intento de corrigir vicios e
indireitar as tortuosidades da humana maldade!

No desanimou Calisto Eloy, to desabridamente rebatido por D. Catharina
Sarmento.

Averiguou quem fosse o galan d'aquella cega dama, e facilmente lh'o
nomearam. Era um gentil moo, ouzeiro e vezeiro de similhantes baldas,
enfatuado d'ellas, e respondendo por si com sabre ou florete, quando
gente intromettida em vidas alheias lhe fallava  mo.

O informador do morgado esplanou diffusamente as qualidades do sujeito,
relatando as victimas, e os acutilados na defeza d'ellas.

Occorreu  memoria de Calisto aquella apostolica e heroica intrepidez de
fr. Bartholomeu dos Martyres, quando foi a defrontar-se com um criminoso
e faanhudo balio, que promettia engulir o arcebispo de Braga, e o
collegio dos cardeaes com o proprio papa, se necessario fosse! Grande
coisa  ter lido os bons classicos, se desejamos saber a lingua
portugueza, e crear alentos para atacar velhacos!

Ahi vae o esforado Calisto Eloy de Silos em demanda de D. Bruno de
Mascarenhas. Um escudeiro annuncia ao fidalgo um ratazana.

--Quem  um ratazana?--pergunta D. Bruno.

 um sujeitorio, diz o criado, vestido ratonamente, e no diz o nome,
porque v. ex.^a o no conhece.

--Que quer elle?

--Fallar com v. ex.^a

Vae perguntar-lhe quem , d'onde vem, e que quer.

Interrogou o criado com mo semblante o morgado.

Calisto escreveu n'uma pagina rasgada da carteira, e perguntou ao criado
se sabia lr. Disse que no o interrogado.

--Pois entrega esse papel a s. ex.^a

D. Bruno leu, meditou algum espao, e perguntou:

--Sabes se em casa do desembargador Sarmento ha algum criado chamado
Custodio?

--No, senhor, no havia at hontem; s se entrou hoje.

--Esse homem que ahi est d ares de criado?

--No, senhor:  assim um jarreta vestido  antiga, com uma gravata que
parece um colete.

--Manda-o entrar para aqui.

D. Bruno releu a linha escripta a lapis, e disse entre si:

--Que Custodio  este!?

N'isto, assomou Calisto Eloy.

Bruno de Mascarenhas adiantou-se a recebel-o, e disse-lhe maravilhado.

--Eu j tive a honra de comprimentar v. ex.^a no escriptorio da _Nao_.
V. ex.^a  o sr. Calisto Eloy de Barbuda.

--Sou, e agora me recordo que j tive o prazer de o encontrar...

--Mas v. ex.^a n'este bilhete diz que  Custodio!--tornou Bruno.

--Custodio, que  sinonymo de anjo-da-guarda, ou anjo-custodio da
ex.^{ma} sr.^a D. Catharina Sarmento.

Abriu o moo a bcca, e disse:

--Ah... agora  que eu entendi... Mas... queira v. ex.^a sentar-se... Eu
no sei que alluso possa ser esta... que... a respeito de...

Calisto sentou-se, estendeu o brao direito com a mo aberta, e atalhou
o enleio de Bruno, dizendo solemnemente:

--Vou fallar.

E, apoz curta pausa, relanceou discretamente os olhos  porta, como quem
receia ser ouvido.

--Pde v. ex.^a fallar, que eu fecho a porta, disse o confuso
Mascarenhas.

--O sr. Bruno de Mascarenhas--proseguiu o morgado-- solteiro. Cedo ou
tarde ha de ser casado, por que  varo de preclarissima linhagem, e
duas foras invenciveis ho de compellil-o a propagar-se: o sentimento
congenito da especie, e a gloria, que vangloria no , da prosecuo da
raa.

(Este exordio abrupto invencilhou os espiritos de D. Bruno, os quaes
eram pouco entendidos em estylo garrafal.)

Faamos de conta--proseguiu Calisto--que v. ex.^a  hoje, como ser,
volvidos mezes ou annos, casado com uma dama egual em sangue, de honrada
fama, acatada do conceito geral, dama emfim, na qual v. ex.^a empregou
suas complacencias todas.  boa dita de esposo succede-lhe a
prosperidade de pae. V v. ex.^a em redor de si umas alegres
creancinhas, que o beijam e o furtam com graciosas blandicias s graves
cogitaes dos negocios, e aos aborrimentos que salteam as existencias
mais descuidadas e desprendidas. A me dos filhinhos de v. ex.^a  o
cofre de oiro: as creanas so as joias inestimaveis que v. ex.^a l
encontrou e l encerra.

A me  a flr, os filhos so o fructo. V. ex.^a arde de amores d'elles
e d'ella. Por que a sua familia  no smente a sua alegria domestica,
seno que lhe  fra de casa um prego da honestidade e honra que vae
n'ella.

De repente, quando v. ex.^a est meditando nos jubilos da velhice, com
seus filhos j homens, com sua esposa laureada pelas cans sem macula, de
repente, digo, ha um amigo em lagrimas, ou um inimigo secretamente
satisfeito, que, lhe diz: Tua mulher deshonra-te; essas creanas, que
tu affagas, e para quem ests multiplicando os teus haveres, podem no
ser teus filhos, por que tua mulher prevaricou. Pergunto eu ao ex.^{mo}
Bruno de Mascarenhas: a sua agonia, n'essa hora de atroz revelao, como
ho de expressal-a os que a no sentiram ainda?

--No sei...--respondeu Bruno--S, no caso de se darem as circumstancias
que v. ex.^a diz,  que se pde responder.

--Todavia, o seu entendimento e corao, j antes da experiencia, podem
antever qual deva ser a agonia do marido deshonrado pela ignominia de
sua mulher...

--Sim...

--At aqui a hypothese em v. ex.^a: agora o exemplo em Duarte de
Malafaya, marido de D. Catharina Sarmento. Duarte era rico, e dos mais
fidalgos; por excesso de amor casou com D. Catharina, filha de um
nobilissimo cavalheiro, porm magistrado empobrecido pelos desconcertos
da politica. Duarte entrou n'aquella casa, restaurou a decencia antiga,
e encostou ao seio as cans do magistrado octogenario, assegurando-lhe o
socego e contentamentos dos annos ultimos da vida.

Decorridos cinco annos, Duarte tem cinco filhos. So anjos que descem a
povoar o paraiso d'aquella ditosa familia. Brincam  volta de sua me, e
como que lhe esto dando os alegres emboras da felicidade que elle est
gosando, e lhe augura a elles.

 n'este ensejo que o inferno se abre aos ps d'esta familia honrada e
ditosa. Surge das tenebrosas agonias um homem que despedaa s mos os
laos humanos e divinos da santa unio do velho, da filha, do genro, e
dos netos. Ora, o homem que os assaltou no seu eden, foi o sr. D. Bruno
de Mascarenhas.

--Eu!...--exclamou o moo com artificial espanto.

--V. ex.^a. Vejo-o admirado, no sei se da minha affoitesa, se da
responsabilidade que lhe pesa, sr. D. Bruno!

--Mas que houve em casa do Sarmento?--perguntou alvoroado o fidalgo.

--O que eu antes de hontem vi foi a face do ancio lavada de lagrimas. O
que eu vi hontem  noite foi Duarte de Malafaya fitar os olhos nas
creancinhas, e escondel-os para que o no vissem chorar. O que hoje
verei em casa do desembargador Sarmento, se v. ex.^a o no presagia...
No temos tempo para conjecturas: a chaga deve ser cauterisada j, para
no ser gangrena manh. Quer v. ex.^a ajudar-me a conjurar a nuvem
negra que vae rasgar-se em torrentes de desgraas?

D. Bruno reflectiu dois segundos, como se houvesse pejo de responder, no
primeiro instante:

--Da melhor vontade. Eu desisto d'estas relaes, para evitar desgostos
serios  sr.^a D. Catharina.

--Falla-me um honrado portuguez, que tem o appellido dos Mascarenhas?
perguntou com solemnidade o Barbuda.

--Juro pela honra de meus avs.

--Que vae fazer v. ex.^a?--tornou Calisto.

--Antecipo um passeio que mais tarde tencionava fazer  Europa. Parto no
paquete de manh para Frana.

--Sem dizer, nem fazer saber  sr.^a D. Catharina que esteve aqui um
amigo do desembargador Sarmento...

--Nada direi sr. Barbuda.

--Aperto-lhe e beijo esta mo. Agradeo-lh'o em nome dos cinco filhos de
Duarte de Malafaya, ou dos cinco anjos que lhe chamam pae.

--E sau com os olhos marejados.

       *       *       *       *       *

D. Bruno cumpriu a promessa com tanta pontualidade como o faria um
sujeito de menos fidalgos brios, se lhe dissessem: Afasta-te, se no
queres o encargo de amparar uma familia, cujo esteio ests quebrando.

 coisa que pouquissimo custa, em condies analogas, o ser pontual. s
vezes, at se vinga fama de prudente e ajuizado.

Como quer que fosse Calisto Eloy foi d'alli em direitura  poltrona do
magistrado, e disse-lhe:

--Cobre animo, amigo e senhor meu. O inimigo levantou o cerco. A
maledicencia descaridosa, se no mudar de juizo, esquece-se.

Seguiu-se a narrativa do acontecido, e as alegrias do ancio
interpolladas de agradecidas lagrimas.




XIII

*Regenerao*


 corao sensivel!  peccadora Catharina, que vaes agora expiar o teu
crime nas agonias da saudade! Aquelle Calisto, cuidando que te salvava,
matou-te!

No foi tanto quanto diz a apostrophe; mas, de feito, Catharina, quando
recebeu de Bruno de Mascarenhas uma carta saturada de ss doutrinas e
reflexes, como as faria S. Francisco de Salles a mad. du Chantal,
entendeu de si para comsigo que devia morrer de despeito e raiva. O
fugitivo escrevia-lhe pouco antes de embarcar-se. No referia o dialogo
com Calisto; dava porm como certa uma tempestade a prumo das cabeas
d'elles delinquentes. Irei, dizia elle, morrer longe da mulher que amo,
para lhe no sacrificar os creditos e os filhos. Se souberes que eu
morri, recompensa-me esta virtude rara, dizendo em tua consciencia que
eu te amei, como j ninguem ama sobre a face da terra.

Depois, seguiam-se na carta os conselhos ajustados  felicidade da vida.
Expunha as consequencias funestas das paixes. E terminava dizendo que
as lagrimas o no deixavam continuar.

Que dama resistiria, depois d'isto,  morte?

Encerrou-se a filha do desembargador, no intento de providenciar em
artigo de morte, e entrouxar para a eternidade.

N'estas cogitaes a surprehendeu a mana Adelaide, mostrando-lhe uma
carta de um certo Vasco da Cunha, que escrevia desde muito, e
honestamente a menina solteira, no proposito de casamento. Este Vasco,
de boa linhagem, conhecia Bruno, e via com desprazer os amores da dama,
que havia de ser sua cunhada. Eventualmente soubera elle do embarque do
Mascarenhas. Pessoas que o viram a bordo, referiram-lhe que o sujeito,
perguntado cerca dos amores de Catharina Malafaya, respondera
fatuamente que se ia escapando a um aguaceiro de escandalos, com que
elle no queria brincar, por que a mulher, enthusiasta e apaixonada mais
que o necessario, seria capaz de o fazer assumir as funces de marido
no canonico.

Pouco mais ou menos, era d'aquella amavel contextura o periodo que D.
Adelaide leu a sua irm lagrimosa.

D. Catharina levantou-se com fidalgos brios, chamou pelos filhos,
abraou-se n'elles, e disse  irm:

--Estou bem! Deus me perdoar, rogado por estes innocentes. Meu amado
marido, como eu te quero hoje! como eu sinto o teu corao a consolar-me
n'estes remorsos!...

Ora, eu no tenho a caridade de crr nos remorsos de D. Catharina; mas
piamente acredito que a mulher se estava sentindo mais amiga do marido,
fineza que elle devia agradecer-lhe com as suas mais melifluas caricias.

E veiu logo a succeder que o esposo, surprehendido pela extremosa
ternura da senhora, estranhou o caso, e requereu brandamente a
explicao da improvisa mudana. Catharina, imaginosa como todas as
pessoas que amam muito, explicou, entre alegre e lagrimante, que a final
se convencera de que o seu Duarte a no trahia: suspeita de tanta fora
para ella, que podra empeonhar, com as serpes do ciume, a felicidade
de duas almas, ligadas por paixo.

Duarte ficou lisongeado e satisfeito. Seguiu-se confessar elle tambem as
suas vagas desconfianas emquanto  lealdade da esposa. Aqui  que foi a
scena, digna de mais conspicuo narrador. A offendida senhora pregou os
olhos no firmamento de madeira, espreitou por elle o azul do empyreo,
com a dupla vista que d a angustia, e murmurou:

--Cos! que injustia!

Era dr que lhe encolhia os folipos das lagrimas. No arranjou a chorar.
Cau de golpe na poltrona de mais capacidade e flacidez para quedas
d'aquella natureza! e, tapando a face com as mos alvissimas, balbuciou,
desentallando-se dos suspiros:

--Oh! que infeliz! que infeliz!

Duarte inclinou-se com os labios ao colo de Catharina, e disse
affectuosamente:

--Perdoemos um ao outro. Estes ciumes reciprocos dizem que nos amavamos
por egual.

No queria a magoada senhora perdoar; porm, como lhe faltasse flego de
despejo para sustentar a scena, envergonhou-se de si mesma, e teve d do
marido, a quem ella, e pae, e irm, deviam a decencia, estado,
representao e sociabilidade com as primeiras familias de Lisboa.

Instantes foram estes de consciencia rehabilitada, que poderam muito com
ella no decurso da vida, e promettem ser-lhe amparo at ao fim.

-me pequeno o peito para o prazer que sinto, relatando este caso, que 
unico dos meus apontamentos, em egualdade de circumstancias. Ainda ha
gente boa e de muitissima virtude: isto  que  verdade.

O fautor d'este successo, com que a gente se consola, foi, sem debate,
Calisto Eloy, aquelle anjo!

Com que delicias d'alma contemplava elle a restaurada ventura d'aquelles
casados, e o jubilo do desembargador! E os agradecimentos do ancio, que
bem lhe faziam ao peito honrado! E os affectos de Catharina, que de todo
ignorava ter sido elle o agente do seu socego; porm muito lhe queria
pelo tom grosseiro, mas paternal com que lhe admoestra a culpa!

Afra o desembargador, uma pessoa unica sabia que o morgado tinha sido o
conciliador engenhoso da paz da familia: era Adelaide. Esta menina
vivera receosa de que o seu Vasco, rapaz timbroso, a no quizesse
esposar, fazendo-a cumplice dos desvios da irm. Agora, j mais
esperanada na realisao do casamento, via com olhos agradecidos o bom
provinciano, e attendia-o com os disvelos de extremosa amiga. A isto a
incitava o pae, que frequentes vezes lhe dizia:

--Se este honrado fidalgo fosse solteiro, e podesses amal-o, filha, que
prazer o nosso se...

---Oh! pap...--atalhava quasi sempre a menina--pois eu havia de casar
com elle?...

--Por que no? Honra, riqueza, sciencia e nobreza... que mais querias
tu, filha?--perguntava o pae.

Adelaide sorria-se, e murmurava de si comsigo.

--Ainda bem que elle  casado, seno eu tinha que vr com a jarrta da
creatura!...

No entanto, a reconhecida senhora, no auge da sua gratido, jogava a
sueca emparceirada com Calisto de Barbuda, e ensinou-lhe a jogar as
damas, prenda em que o morgado revelou uma inhabilidade que excede todo
o encarecimento.




XIV

*Tentao! Amor! Poesia!*


Eis que, a subitas, do corao de Calisto resalta a primeira faisca de
amor!

Conheo que este desastre no se devia contar sem grandes prologos. Sei
que o leitor ficou passado com esta noticia. Grita que a
inverosimilhana  flagrante. No pde de boamente consentir que se lhe
desfigure a sisuda physionomia moral do marido de D. Theodora Figueira.
Quer que se limpe da fronte d'este homem o stigma de um pensamento
adultero. Honrados desejos!

Mas eu no posso! Queria e no posso! Tenho aqui  minha beira o demonio
da verdade, inseparavel do historiador sincero, o demonio da verdade que
no censentiu ao sr. Alexandre Herculano dizer que Affonso Henriques viu
coisas extraordinarias no co do campo de Ourique, e a mim me no deixa
dizer que Calisto Eloy no adulterou em pensamento! Estes so os ossos
malditos do officio; esta  a condemnao dos infelizes artifices que
edificam para a posteridade, e exploram nas cavernas do corao humano
os cimentos da sua obra.

Ai! Se Calisto Eloy foi de repente assalteado do drago do amor, como
hei de eu inventar preludios e antecedencias que a natureza no usou com
elle!? Se o homem, espantado, a si mesmo se interrogava, e dizia: isto
que ?! como hei de eu dizer ao leitor o que foi aquillo?!

O que elle sabia e eu sei  que, estando Calisto de Barbuda a jogar a
sueca de parceiro com Adelaide, a razo de cruzado novo a partida, a
menina passou a sua bolsinha de filagrana para a mo do parceiro, e
disse-lhe:

--Administre-me o meu thesouro, sr. morgado. Tenho ahi o meu dote.

--Pois sejam todos muito boas testemunhas da quantia que recebo da
ex.^{ma} sr.^a D. Adelaide, minha senhora;--disse Calisto, esvasiando a
bolsinha.

Com as moedas de prata e oiro, que a bolsa continha, sau um pequeno
corao de oiro esmaltado com iniciaes.

Ah!--acudiu Adelaide pressurosa--isto no!...--E retirou sofregamente o
coraosinho.

Algum dos circumstantes disse:

--Ento o sr. morgado no serve para administrar coraes?!

--Serve para os dominar com a sua bondade, e enchel-os de affectuosa
estima--respondeu com adoravel graa a menina.

Foi n'este instante que o morgado da Agra de Freimas sentiu no lado
esquerdo do peito, entre a quarta e quinta costella, um calor de
ventosa, acompanhado de vibraes electricas, e vaporaes calidas, que
lhe passaram  espinha dorsal, e d'aqui ao cereblo, e pouco depois, a
toda a cabea, purpureando-lhe as mas de ambas as faces com o rubor
mais virginal.

D'isto no deu tento Adelaide nem a outra gente.

Duas enfermidades ha ahi, cujos symptomas no descobrem as pessoas
inexpertas; uma  o amor, a outra  a tenia. Os symptomas do amor, em
muitos individuos enfermos, confundem-se com os symptomas do idiotismo.
 mister muito acume de vista e longa pratica para descriminal-os. Passa
o mesmo com a tenia, lombriga por excellencia. O aspecto morbido das
victimas d'aquelle parasita, que  para os intestinos baixos o que o
amor  para os intestinos altos, confunde-se com os symptomas de graves
achaques, desde o hidrotorax at  espinhela cada.

E aqui est que Calisto Eloy--ia me esquecendo dizel-o--tambem sentiu a
queda da espinhela, sensao esquisita de vacuo e despgo, que a gente
experimenta, uma pollegada e tres linhas acima do estomago, quando o
amor ou o susto nos leva de assalto repentinamente.

Sem embargo da concumitancia de tantas enfermidades, Calisto de Barbuda
embaralhou as cartas, passou-as  esquerda, e jogou a primeira partida
com tamanha incuria e desacerto, que Adelaide, no acto do pagamento da
aposta observou ao parceiro que era preciso administrar com mais zelo o
dote da sua amiga.

E ajuntou:

--V. ex.^a esteve a compor algum bello discurso para a camara...

O morgado cacarejou um sorriso, e mais nada.

Proseguiu o jogo. Calisto deu provas de supina bestidade em quatro
partidas de sueca. Adelaide, dissimulando a m sombra do fastio com que
estava jogando, aturou at ao fim a partida, com grande desfalque do seu
peculio.

Tinha-se feito uma atmosphera nova em redor dos pulmes de Calisto. A
loquacidade, embrechada de sentenas e latinismos, com que elle
costumava aligeirar as palestras dos eruditos amigos do desembargador,
desamparou-o n'aquella noite. Isto causou extranhesa e cuidados ao
amoravel Sarmento, que presava Calisto como a filho.

A partida acabou taciturna e triste.

Fechado em seu gabinete de estudo, o morgado da Agra, sentou-se  banca,
apanhou entre dois dedos o beio superior, e esteve assim meditabundo
largo espao. Depois, ergueu-se para dar largas ao corao que pulava, e
andou passeando com desusada agilidade e aprumo de corpo. Parou diante
da livraria, tirou d'entre os poetas classicos o dilecto Antonio
Ferreira, sentou-se, abriu  sorte, e leu, declamando os dois quartetos
do soneto V;

  Dos mais fermosos olhos, mais fermoso
  Rosto, qu'entre ns ha, do mais divino
  Lume, mais branca neve, oiro mais fino,
  Mais doce fala, riso mais gracioso:

  D'um Angelico ar, de um amoroso
  Meneo, de um spirito peregrino
  S'acendeu em mim o fogo, de qu'indino
  Me sinto, e tanto mais assi ditoso.

Repetiu, fez pausa, suspirou, e declamou ainda o primeiro verso do
terceto:

  No cabe em mim tal bem-aventurana!

N'isto, a imagem de sua prima e esposa D. Theodora Figueira, trazida
alli por decreto do alto, antepoz-se-lhe aos olhos enleados na imagem de
Adelaide. Calisto estremeceu de puro pejo de sua fraqueza, e lanou mo
da ultima carta que recebra de sua saudosa mulher. Resava assim,
escripta por mo de uma filha do boticario de Caarelhos, com
orthographia mais imaginosa que a minha:

Meu amado Calisto. C soube pelo mestre-escla que tens botado algumas
fallas nas crtes, e que tens muita sabedoria. O sr. abbade j c veiu
ler-me um pedao do teu dito, e oxal que seja para bem da religio.
Olha se botas abaixo as decimas, que  o mais necessario. Aqui veiu um
padre de Miranda para tu o despachares para abbade; e o regedor tambem
quer que tu lhe arranjes um habito de Christo para elle, e uma penso
para a tia Josepha, que  viuva de um sargento de milicias de
Mirandella. Assim que arranjares isso, manda para c.

Sabers que mandei trocar os bois barrosos  feira dos onze, e comprei
vaccas de cria. Os sevados no saram de boa casta, e acho que ser bom
trocal-os na feira dos dezenove. A porca russa teve dez leites hontem
de madrugada. E, com isto, olha se isso l acaba depressa, que eu ando
por c triste e acabrunhada de saudades. Na semana que passou andei mal
das reins, e muito despegada do peito. Hoje vou vr medir seis carros de
centeio, que vo para a feira, por isso no te enfado mais. D'esta tua
mulher muito amiga, _Theodora_.

Por mais que recolhesse o espirito vagabundo, Calisto no dava tento
d'estes dizeres de Theodora, encantadores de simplicidade e boa
governana de casa. Arrumou a carta, re-abriu o seu Antonio Ferreira, e
leu no soneto XXXIII:

  Eu vi em vossos olhos novo lume,
  Qu'apartando dos meus a nevoa escura.
  Viram outra escondida fermosura,
  Fra da sorte e do geral costume...

Deitou-se por deshoras, e dormitou sobresaltado. Ante-manh espertou com
as alvoradas de uns pintassilgos e calhandras, que lhe cantavam
amorosamente na alma. Eram as alegrias do primeiro amor, aquelles
momentos de co, visita dos anjos, que todo corao hospedou na
infancia, na virilidade, ou j na decadencia na vida. Sau alegre do
leito, e leu algumas lyricas de Cames e Filintho Elysio.

Nunca em sua vida poetra Calisto Eloy de Silos. O amor no lhe havia
dado o belisco suavissimo, que por vezes, abre torrentes de metro da
veia ignorada. Eis que o corisco da inspirao lhe vulcanisa o peito.
Levanta machinalmente a mo  fronte, como a palpar a excrescencia
febril que todo o poeta apalpa no conflicto sublimado do estro.
Senta-se: pega da penna, e o corao distilla por ella este fragmento de
madrigal, que, a meu vr, foi o ultimo que o sincero amor suggeriu em
peito portuguez:

  Senhora de gro primor,
  Meu amor,
  Formosissima deidade,
  Arde meu peito em saudade,
  Quem fui hontem, no sou hoje;
  Minha alegria me foge,
  Se vos olho.
  J captivo em vs me aclho,
  Havei de mim piedade;
  Sde minha divindade;
  No leveis a mal que eu chore
  Com tanto que vos adore
  Gentil e nobre menina
  Como Cames a Cath'rina
  E como Ovidio a Corinna.

Posto isto, o morgado da Agra relanceou os olhos com desdem para o
taboleiro do almoo, e com muita repugnancia, consentiu ao appetite que
se desejuasse com uma linguia assada, almoo que elle alternava com um
salpico frito.

Depois quando se estava vestindo, olhou para a casaca de briche e para
as pantalonas apolainadas, e teve engulho d'esta fatiota. Vestiu-se,
sau apressado, entrou no estabelecimento do sr. Nunes na rua dos
Algibebes. Aqui o vestiram o mais desgraciosamente que puderam, com um
farto palet de panno cr de rato, e umas calas, de xadrez cinzento, e
colete azul, de rebuo, com botes de coralinas falsas. No Chiado
abjurou um chapo de molas de merino, e comprou outro de castor, 
ingleza. Cumpria-lhe vestir as primeiras luvas de sua vida. No vestil-as
arrostou com difficuldades, que venceu, rompendo a primeira luva de meio
a meio. Disse-lhe a luveira que no introduzisse os cinco dedos ao mesmo
tempo, e ajudou o na ardua empreza.

Dois mancebos galhofeiros, que estavam na loja, riram indelicadamente da
inexperiencia do sujeito desconhecido. Um d'elles, confiado na inepcia
tolerante do provinciano, ou supposto brazileiro, disse, a meia voz, ao
outro:

--Quatro ps nunca vestiram luvas.

Calisto encarou n'elles com sorriso minacissimo, e disse  luveira:

--As luvas so boa coisa para a gente no dar bofetadas com as mos.

Os joviaes sujeitos olharam-se com ar consultivo, sobre o despique digno
da affronta, e tacitamente concordaram em se irem embora.

Ao meio dia, entrou o morgado na camara, e fez sensao. As calas de
xadrez eram uma das grandes desgraas, que a providencia, por intermedio
do sr. Nunes aljubta mandra a este mundo. Como se a substancia no
fosse j um crime de leso gosto e lesa seriedade; ainda por cima as
pernas caam sobre as botas em feitio de boca de sino.

A camara afogou o riso, salvo o dr. Liborio do Porto, que tirou de
dentro esta facecia puchada  fieira do costumado estylo:

--Guapamente intrajado vem mestre Calisto! Faz-se mister saber que rolos
de pragmaticas lhe impendem entre as botinas e as pantalonas. Certo, que
o urso se pule e lustra. Bom seria que o cerebro se lhe vestisse de
roupagens novas e hodiernos afeites!...

Foram festejados estes apdos pelos tolos mais convisinhos do dr.
Liborio.

Calisto houve noticia da zombaria do doutor: a intriga politica no
perdeu lano de acirrar o morgado contra Liborio, que era governamental.

N'esta sesso fra dada ao deputado portuense a palavra, na discusso de
uma proposta de lei sobre cadeias. O morgado, assim que lh'o disseram,
aguardou opportunidade de desforrar-se da chacota.

Ai da patria, quando os talentos parlamentares se incanzinam n'estas
pugnas inglorias!




XV

*Ecce iterum Crispinus...*


Corrido um quarto de hora, fez-se na camara o silencio da subterranea
Pompea.  que o dr. Liborio ia fallar.

--Sr. presidente, e senhores deputados da nao portugueza!--disse
elle--_Vem-nos agora sob a mo assumpto, at aqui pretermittido_.[14]
Pelo que toca e friza com cadeias patrias, direi os cinco stygmas que um
estylista de folego esculpiu nos frontaes d'esses antros:

INJUSTIA!

IMMORALIDADE!

IMMUNDICIE!

INSULTO!

INFERNO!

Inferno, sr. presidente, inferno dantesco, inferno theologico em que ha
o ranger de dentes, _stridor dentium_!

Que  da civilisao d'esta miserrima e to coitada terra? Quem nos
lampeja verdade n'esta escureza em que nos estorcemos? Ai! _A verdade
ainda no matiza de rosicler a alvorada do novo dia_. As idas entre ns
esto como _flores palpitantes no gomo nascente_. Eu me esquivo, sr.
presidente, _o lavor de historiar as successivas phases que tem
percorrido os methodos do aprisoamento_. Urge primeiro pregoar a brados
que se faz mister funda cauterisao na lei. O direito no se estudou
ainda em Portugal. Pois que  o direito? _No seu todo synthetico e como
corpo doutrinal, o direito  a sciencia da condicionalidade ao fim do
homem_. Consoante vige e via o nosso direito de punir, sr. presidente,
_o juiz  o delegado de Deus, o carrasco o substituto do anjo S.
Miguel_.[15]

Calisto Eloy pediu a palavra. O orador proseguiu:

--Sr. presidente, n'este paiz no se attende s bossas. Os legisladores
no estudam o crime com o compasso sobre um craneo esbrugado. _Se fordes
a Windsor Castle e vos metterdes de grra com os guardas que mostram o
castello, ouvireis que um dos filhos da rainha tem uma irresistivel
tendencia para a rapina:  uma pga humana_. Uma pga humana,
rapacissima, a mais no! Sr. presidente, _do nosso rei D. Miguel se
conta, que j mancebo saodo da puericia, se entretinha a maltratar
animaes, chegando um dia a ser encontrado arrancando as tripas a uma
gallinha viva com um sacarolhas_.[16]

--_Vozes_:  ordem!  ordem!

--_O orador_: Pois em que me transviei da ordem?

--_Uma voz_: No se diz no seio da representao nacional: _o nosso rei
D. Miguel_.

--_O orador_: Eu referi o caso com as expresses em que o acho narrado
n'um livro mirifico e sobre-excellente do sr. dr. Ayres de Gouveia.

--_Uma voz_: Pois no faa obra por inepcias do dr. Ayres de Gouveia.

--_O orador_: Retiro a dessoante phrase, que impensada destilei do
labio, e ao ponto me revrto. Sem a sciencia de Porta e de Blumenbache
toda a penalidade sar vsga, bestial, e infernalissima.  natural, sr.
presidente, que o sentimento se corrompa, assim como o _calculo se
empedra, e arraiga o cancro nas entranhas, e o corao se ossifica, e o
hydrocephalo se gera, ainda nos mais solicitos em hygiene_:

Posto isto, sr. presidente, cumpre dividir os sexos, pelo que diz
respeito ao calibre do castigo. Eu citarei com quanta emphase me cabe
n'alma, algumas linhas do jovem explendido de verbo, que auspicia e
promette o primeiro criminalista d'esta terra. Fallo de Ayres de
Gouveia, e n'elle me estribo. O douto viajeiro diz: O individuo, para
quem a lei legisla, e a quem tem em vista,  o homem (_vir_), no a
mulher (_mulier_), desde os vinte e um annos, ou poca do predominio
racional, at aos sessenta, ou principio do periodo debilitante, no
estado generico, ou que constitue a generalidade de ser homem, no
descendo sequer s gradaes principaes, que tornam o _homo_ homem, o
genero especie.[17]

 certo, sr. presidente, que _a femina toca o requinte da depravao, e
chega a effeituar horrores cuja narrao  de si para gelar ardencias de
sangue, para infundir pavor em peitos equanimes_, porem, o mobil dos
crimes seus d'ellas  outro: _as faculdades da mulher agitam-se
perturbadas;  um periodo de evoluo_, e no ha ahi _arcar com
evidencia_.

Que farte me hei despendido em razes que superabundam no caso em que me
empenho, de pararia com Victor Hugo, e com quejandas lumieiras que
esplendem na vanguarda d'esta caravana da humanidade, que se vae
demandando a Meca da perfectibilidade. Faa-se a lei, restaure-se a
justia, e depois crie-se a penitencia, regimente-se o criminoso
_aprisoado_! Aos que j metteram rlha e adubo no torro do novo
plantio, d'aqui me desentranho _em louvores e muitos e francos e
perennes_.

Sr. presidente! Em quanto a cadeias, estamos no mesmo _p de idas da
inquisio_! Que esterquilinios! que protervia! Eu quero, com o dr.
Ayres, que _todo o preso seja de todo barbeado semanalmente, lave rosto
e mos duas vezes por dia, e tenha o cabello da cabea cortado 
escovinha_. Eu quero, com o doutor supracitado, que elle no fume, nem
beba bebida fermentada. _gua em abundancia_, e mais nada potavel. No
quero que os presos se conversem, porque, no dizer do insigue patricio
meu, e abalisado humanista, _das cadeias saem delineamentos de assaltos,
e assassinatos de homens que sabem ricos_.

_Lastimado isto_, sr. presidente, um preso descomedido entre os de mais,
_ qual febricitante despedido do leito que como setta voada do arco,
exaspera em barulho os males de toda a enfermaria_.

Eu quero que o preso funcionne intellectivamente, e de lavores corporaes
se no desquite. O homem sem instruco _obra instinctivamente, obra
egoistamente, obra septicamente_, se lhe escaceia religio. Ao preso
_lide-lhe a mo na tarefa, sim; mas lide-lhe tambem a cabea na ida_.
_Inclinando rasoamento_ para isto, em todas as cadeias europeas lustram
sciencias, pulem saber, e se amenisam instinctos. Veja-se o que diz o
nunca de sobra invocado Ayres, honra e joia da cidade de S de Menezes,
d'Andrade Caminha, de Garrett, cidade onde me eu rejubilo de haver
vagido nas faixas infantis.  mister que se entranhe o sacerdote no
cancro das masmorras; mas o sacerdote _atilado de engenho e todo
impeccavel de costumes_; e no padres cuja _unco sacrosanta se lhes
convertesse no corpo em lascivos amavos_. Quem sabe ahi _joeirar o
optimo para capelles de prises_?

Depois quer-se _um director, olho e norma_. _E to boas partes se lhes
requerem, que ainda scismando talhal-o um composto de virtudes, o no
viriamos delinear seno escoro_.

Deu a hora, sr. presidente. A materia  tal e to rica, e para tamanho
cavar n'ella, que se me confrange alma de lhe no dar largas. Aqui me
fico, e do imo peito espido brado de louvor, que louvaminha no , ao
illustre membro d'esta camara que mandou para a mesa a proposta da
reformao das cadeias. Benos lhe chovam, que assim, com valida mo,
emborca a froixo urnas de balsamos sobre a esqualidez da mais ascosa
ulcera da humanidade. (Prolongados applausos. _O orador foi
comprimentado por pessoas graves, que tinham estado a rir-se_.)

Calisto Eloy contemplou-o com a fixidez de medico, que estuda os
symptomas da demencia nos olhos do enfermo. Depois, voltando-se contra o
abbade de Esteves, disse:

--Eu queria ver como este dr. Liborio tem a cabea por dentro.

E rythmando o compasso com os dedos na tampa da caixa declamou:

  Quantos folgam fallar a prisca lingua
  Qual Egas, qual fallou, Fuas Roupinho,
  Qual esse conde antigo, que levra
  A villa de Condeixa por compadre!
  Mas como a fallam? Pem sua mestria
  Em palavras sedias, termos velhos
  Termos de saibo e mofo, que arrepiam
  Os cabellos da gente...
  Que dizes d'isto?
  Como chamas a estes?.....
  Que eu no acerto a dar-lhe um nome proprio.
  Que bem quadre a to rancidos guedelhas?
  Quando estas coisas desvairadas vejo
  Do-me engulhos de riso, ou j bocejos,
  Como arrepiques certos de gran fome![18]




XVI

*Quantum mutatus!...*


 noite, no salo do desembargador Sarmento, soube-se que o morgado da
Agra havia de orar no dia seguinte. Entre as pessoas alvoraadas com a
noticia, a mais empenhada em ouvil-o era D. Adelaide. Ao encontro de
Calisto Eloy saiu ella pedindo-lhe com requebrada doura, tres entradas
na galeria das senhoras, para ella, irm e pae.

--J sou considerado senhora, amigo Barbuda!--ajuntou o velho--So as
tristes honras da ancianidade!... E l vou, l vamos ouvil-o. Ha seis
mezes que no sa de casa, nem saria para ouvir o proprio Berryer ou
Montalembert.

--Beijo-lhe as mos pela cortezia, meu benigno amigo--disse Calisto;
porm olhe que ha de chorar o tempo malbaratado. Eu no vou discorrer,
nem cogitei ainda no que direi. Pedi a palavra, quando uma brava sandice
me esfusiou nos tympanos, e estorcegou os nervos. Soou-me l que o
carrasco estava substituindo o anjo S. Miguel!...  meu caro
desembargador, eu entro a desconfiar que a besta do apocalipse j tem
tres ps bem ferrados no parlamento! Quando l metter o quarto p, a
gente escorreita  posta fra da sala a couces. Peo a vv. ex.^{as}
perdo do pleismo do termo--disse Calisto voltando-se para as damas, que
estavam examinando com espanto as transfiguradas vestes do morgado.--A
boa policia, continuou elle, perde-se com a paciencia. Hei gro medo de
volver-me s minhas serras mais rudo do que vim.

--Est-se desmentindo v. ex.^a--acudiu D. Catharina graciosamente--com
os trages cidados que apresenta hoje! Cuidavamos que havia jurado nunca
reformar a sua _toilette_ de 1820!

Calisto sorriu contrafeito, e sentiu-se algum tanto molestado no seu
pundonor e seriedade. Como a causa da mudana do vestido era pouco menos
de irrisoria, o homem foi logo castigado pela propria consciencia. A si
lhe quiz parecer que era j ante si proprio, outro sujeito, e que os
estranhos lhe liam no rosto o desaire inquietador. Ento lhe foi
desabafo o corao. Soccorreu-se d'elle para contradizer as reprimendas
do juizo; e o corao, coadjuvado pelas maneiras e ditos affectuosos de
Adelaide despontara as ferroadas do juizo.

Os visitantes habituaes do desembargador e as senhoras da casa notaram
certa mudana nos modos e linguagem de Calisto. Dir-se-ia que o palet e
as pantalonas lhe tolhiam a liberdade dos movimentos, e aquella assim
rude, que sympathica espontaneidade da expresso.

Authorisados philosophos e christos disseram que o vestido actua
imperiosamente sobre o moral do individuo. Nas paginas immorredouras de
fr. Luiz de Sousa est confirmado isto.  nossa natureza muito amiga de
si (diz o historiador do santo arcebispo) e experiencia nos ensina que
no ha nenhuma to mortificada, que deixe de mostrar algum alvoroo para
uma pea de vestido novo. Alegra e estima-se ou seja pela novidade ou
pela honra, e gasalhado que recebe o corpo. At os pensamentos e as
esperanas renova um vestido novo.[19]

O adoravel dominicano, pelo que diz da alegria que influe no animo um
vestido em folha, enganou-se a respeito de Calisto Eloy. O homem dava ar
de quebranto e melancholia, salvo se o jubilo se lhe introvertera ao
corao. Creio que era isto. Era o amor abscondito a magoal-o docemente.
E a no ser o amor, o que poderia ser seno as calas de xadrez? De
feito, o amor quando  serio, pe s canhas o mais pespontado espirito,
e o mais mazorral tambem. O amoroso de grande loquella, volve-se
parvoinho em presena da sua amada; o sandeu tem inspiraes e raptos,
que seriam influxo do co, se no soubessemos, que o demonio tentador
costuma incubar-se e parvoejar eloquentemente no corpo d'estes palermas.

Calisto Eloy pagou o tributo dos espiritos esclarecidos. Umas eloquentes
simplezas, com que elle costumava alegrar o auditorio; as maximas
joviaes de Supico e outras com que elle intermeava a conversao; as
gargalhadas provincianas, as liberdades desmaliciosas, o ar de familia
com que elle se fazia bem-querer e desculpar de alguma demasia menos
urbana do que permitte a conveno das salas: tudo isto, que lhe ia to
bem ao morgado, se demudou em recolhimento cogitativo, sombra triste e
acanhada parvolez.

N'esta noite, concorreu  partida do desembargador aquelle Vasco da
Cunha, galanteador de Adelaide, mancebo bem composto de sua pessoa,
sisudo, e muito catholico. Este fidalgo, representante dos melhores
Cunhas, mencionados na Historia Genealogica da Casa Real e no
Villas-boas alm do brilho herdado, estava-se gosando de lustre
propriamente seu, figurando sempre nos annuncios pios em que os fieis
eram convidados a assistir a tal festividade religiosa, ou convocando
assemblas de irmandades, para o fim de consultas attinentes  maior
pompa do culto divino. Dito isto, dispensa o leitor que se annumerem
outras virtudes a facto s por si to significativo. As outras virtudes
ho de vir apparecendo naturalmente.

Alguem disse a Calisto Eloy que o circumspecto Vasco da Cunha no era
estranho ao corao de Adelaide. Esta nova sobresaltou o peito do
morgado, sem comtudo, lhe innevoar os olhos do discreto juizo, a ponto
de se dar em espectaculo de risivel ciume. Reparou no porte de ambos; e
to graves e cerimoniosos os viu durante a partida, que no achou razo
para os crer enamorados bem que, n'esta noite, Adelaide jogasse o
voltarete com Vasco da Cunha, e seu cunhado Duarte Malafaya.

s onze horas, Calisto Eloy retirou-se taciturno e contristado.

A s com a sua consciencia, e debaixo do olhar severo dos seus livros, o
marido de D. Theodora Figueira reflectiu conturbado na transformao do
seu modo de viver e sentir. Gritou-lhe a razo que fizesse p atraz no
caminho que o levava  ladeira de algum abysmo, ou s fauces
voracissimas do amor que to illustres victimas tinha ingulido. A
memoria, alliada da razo, abriu-lhe os fastos desgraados do corao
humano, desde o perdimento de Troia at  extinco do imperio godo nas
Hespanhas. Viu desfilarem, uma por uma, todas as mulheres fataes, desde
Dalila at Florinda, a forada do conde Julio; e, no couce de todas, a
phantasia febril da insomnia afigurou-lhe Adelaide.

Aos quarenta e quatro annos a razo pde muito, se o corao j est
enervado e enfraquecido de luctas e quedas; todavia, a razo dos
quarenta e quatro annos  ainda frouxa e transigente, se o corao
comea a amar to a deshoras. No se calculam as miserias e parvoiadas
d'esta serodia mocidade!

No obstante, Calisto, pouco antes de adormecer por volta das quatro da
manh, protestra esquecer Adelaide, perguntando a si proprio se seria
crime amal-a como os paladinos dos tempos heroicos amaram incognitamente
grandes damas, sem mais logro de seus amores que adorarem-n'as? Com isto
queria elle responder  imagem plangente de Theodora, que o estava
arguindo.

Pobre senhora! quella hora j ella andaria a p, a moirejar pela
cosinha, a fim de mandar almoados para a lavoura os servos, e cuidar
dos leites.

Ai! maridos, maridos! Quando a Providencia vos enviar mulheres d'este
raro cunho, encostae a face ao regao d'ellas, e no queiraes saber como
 que o inimigo de Deus enfeita as suas cumplices na perdio da
humanidade!




XVII

*In Liborium*


Estavam cheias as galerias da camara.

Entre as mais formosas, extremava-se a filha do desembargador Sarmento.
A pedido de Calisto Eloy, fra o abbade de Esteves levar as entradas ao
magistrado, e offerecer-se a conduzir as senhoras  galeria.

O vistoso coreto das damas exornavam-n'o, talvez mais que a formosura,
algumas senhoras doutas enfrascadas em politica, amoraveis Cormenins,
que aquilatavam o merito dos oradores com incontrastavel rectido de
juizo e apurado gosto. Lisboa tem dezenas d'estas senhoras Cormenins.

No drei que o renome de Calisto attrahisse as damas illustradas: era
grande parte n'este concurso femeal a esperana de rirem. A nomeada do
provinciano, bem que favorecida quanto a dotes intellectuaes, cobrra
fama de coisa extravagante e impropria d'esta gerao.

Entrou Calisto na sala um pouco mais tarde que o costume, porque fra
vestir-se de cala mais cordata em cr e feitio. No me acoimem de
archivista de insignificancias. Este pormenor das calas prende mui
intimamente com o cataclismo que passa no corao de Barbuda. Aquella
alma vae-se transformando  proporo da roupa. Assim como o leitor, 
medida que o amor lhe fosse avassalando o peito, escreveria paginas
intimas, ou ainda peor, cartas corruptoras  mulher querida, Calisto, em
vez d'isso, muda de calas.

As damas, que o esperavam vestido conforme a fama lh'o pintra,
desgostaram-se de vl-o trajado no vulgar desgracioso, do commum dos
representantes do paiz.

Apenas Calisto Eloy se assentou, entrou-se na ordem do dia, e logo o
presidente lhe deu a palavra.

Cessou o rebolio e fallario d'aquella feira veneranda, assim que o
deputado por Miranda, comeou d'este theor:

--Sr. presidente! Muito ha que se foi d'este mundo o unico sujeito, de
que me eu lembro, capaz de entender o sr. dr. Liborio, e capaz de fallar
portuguez digno de s. ex.^a. Era o chorado defuncto um personagem que
foi uma vez consultar o dr. Manuel Mendes Enchundia, cerca d'aquella
famigerada casa que elle tinha na ilha do Pico, com um passadio para o
Baltico. V. ex.^a e a camara, podem refrescar a memoria, lendo aquelle
pedao de estylo, que presagiou estas farfalharias de hoje.

Sr. presidente, a mim faz-me tristeza contemplar a ribaldaria, com que
os belfurinheiros de missangas e lantejoulas adornam a lingua de Cames,
despojando-a dos seus adereos diamantinos. A pobresinha, trajada por
mos de gente ignara, anda por aqui a negacear-nos o riso como moura do
auto, ou anjo de procisso de aldeia. Se acerta de lhe pagarem os
farrapinhos broslados de folha de Flandres em algum silvedo, a mesquinha
fica na, e ns a crarmos de vergonha por amor d'ella.

 foroso, sr. presidente, que a linguagem castia v com a patria a
pique?

 hora final da terra de D. Manuel, no haver quem lavre um protesto em
portuguez de Joo Pinto Ribeiro, contra os Iskariotas, Julies,
Vasconcellos e Mouras, que nos vendem?

_Vozes_:  ordem!

_O orador_:  contra o regimento d'esta casa, repetir o que est dito na
historia, sr. presidente?

_O presidente_: Sem offensa de particulares.

_O orador_: Authorisa-me portanto, v. ex.^a a crer que n'esta casa est
Iskariotas, e o bispo Julio, e Miguel de Vasconcelos, e...

_Vozes_:  ordem!

_O orador_: Pois ento eu calo-me, se offendo estes personagens a quem
me no apresentaram, ainda bem! As minhas intenes so inoffensivas, no
entanto, desconsola-me a camaradagem. Se eu soubesse que estava aqui
similhante gente, no vinha c, palavra de homem de bem!

_O dr. Liborio_: Mais prestimoso fra ao cosmos, se o sr. Calisto
estanceasse no agro do seu covil a lidar com a fereza dos javalis.

_O orador_: No percebi o dito bordalengo: faa favor de explicar-se.

_O dr. Liborio_: J disse que no deso.

_O orador_: Se no desce, cair de mais alto. Refiro a v. ex.^a a fabula
da aguia e do kgado, na linguagem lidima e chan de D. Francisco Manuel
de Mello.  o _Relogio da Aldeia_, que falla no dialogo dos _Relogios
fallantes_: ...Lembra-me agora o que vi succeder a um kgado com uma
aguia, l em certa lagoa da minha aldeia: veiu a aguia, e de repente o
levantou nas unhas, no com pequena inveja das rs, e de outros kgados,
que o viam ir subindo, vendo-se elles ficar to inferiores a seu
parceiro. Julgavam por gran fortuna que um animal to para pouco, fosse
assim sublimado  vista de seus eguaes. Quando n'isto, eis que vemos
que, retirada a aguia com sua presa a uma serra, no fazia mais que
levantar o triste animal, e deixal-o cair nas pedras vivas, at que
quebrando-lhe as conchas com que se defendia... no me lembra bem se D.
Francisco Manuel diz que a aguia lhe comeu o miolo.

Se o sybillino collega figura na moralidade d'este conto, offerece-se-me
cuidar que no  a aguia.

(_Pausa do orador: riso das galerias_.)

Sabido, pois, sr. presidente, que as citaes historicas fazem
repugnancias ao regimento e  ordem, abjuro e exorciso os demonios
incubos e succubos da historia, pelo que rogo a v. ex.^a muito rogado
que me descoime de desordeiro.

Direi de Quintiliano, se este nome no desconcerta a ordem. Trata-se de
oradores, e de estylos viciosos. Diz este mestre dos rethoricos que ha
um natural prazer em escutar qualquer que falla, ainda que seja um
pedante, e d'aqui aquelles circulos que a cada hora vemos nas praas 
roda dos charlates N'esta nossa edade, Quintiliano redivivo diria:
nas praas e nos parlamentos.

_Vozes_:  ordem?

_O orador_: Pois tambem Quintiliano?!

Bem me quer parecer que rarissimas vezes o admittem aqui a elle!...

_O presidente_: Lembro ao nobre deputado, que a camara no  aula de
rethorica.

_O orador_: Assim devo presumil-o, vendo que todos a professam com
dignidade, exceptuado eu, que me no desdoiro, em confessar que sou o
discipulo unico e mo de tantos mestres. Eu direi a v. ex.^a qual
eloquencia considero necessaria n'esta casa da nao:  a eloquencia que
a nao entenda. A arte de bem fallar, _ars bne dicendi_,  o estudo da
clareza no exprimir a ida. Os affectos, as galas da linguagem, que lhe
tolhem o mostrar-se e dar-se a conhecer dos rudos, no  arte, 
tramoya, no  luz,  escuridade. Os meus constituintes mandaram-me aqui
fallar das necessidades d'elles em termos taes que por elles v. ex.^a e
a camara lh'as conheam, ponderem, e remedeiem.

Sou da velha clientela de Quintiliano, sr. presidente. Com elle entendo
que por de mais se enganam aquelles que alcunham de popular o estylo
vicioso e corrupto, qual  o saltitante, o agudo, o inchado, e o pueril,
que o mestre denomina _proedulce dicendi genus_, todo affectao
menineira de florinhas, broslados de pechisbeque, recamos de fitas como
em bandeirolas de arraial.

Eis-me j de fora inclinado  substancia do discurso do sr. dr.
Liborio. Primeiro me cumpre declarar que no sei pelo claro a quem me
dirijo. Ha dias me regalei de ler o succoso livro de um doutor grande
lettrado que escreveu da _Reforma das Cadeias_. Achei-o lusitanissimo na
palavra; mas hebraico na locuo. Tem elle de bom e singular que tanto
se percebe lendo-o da esquerda para a direita como da direita para a
esquerda. Soou-me que o sr. dr. Liborio, amador do que  bom, se
identificra com o livro, e aformosentra o seu discurso com muitas
louainhas d'aquelle thesouro.

No sei, pois, se me debato com o sr. dr. Ayres, se com o sr. dr.
Liborio. _Se me debato_, desavisadamente disse! O discurso no d pga a
debates que no sejam philologicos. Estes no vem aqui de molde.
Rethorica, grammatica e logica, se alguem quizer tratal-a n'este predio,
entretenha-se l em baixo no pateo com o porteiro, ou com as viuvas e
orphos, que pedem po com a logica da desgraa, e com a rethorica das
lagrimas: grammatica no sei eu se a fome a respeita: parece-me que no,
por que na representao nacional ha famintos que a no exercitam
primorosamente. (_Murmurio e agitao na direita. Applausos na galeria.
Um bravo estridulo do desembargador Sarmento. Um cautelleiro d palmas
na galeria popular. A tolice  contagiosa. O presidente sacode a
campainha. Restabelece-se o silencio. Calisto Eloy tabaqueia da caixa do
radioso abbade de Esteves_.)

_O presidente_: Relembro, j com magoa, ao sr. deputado que se abstenha
de divagaes alheias do debate.

_O orador_: De maneira, sr. presidente, que v. ex.^a quer  fina fora,
subjugar as minhas pobres idas em _aprisoamento_, como disse
gentilmente o illustre collega!

Pois assim sou esbulhado de um sacratissimo direito?  ento certo, como
disse o sr. dr. Liborio, que no ha direito em Portugal? V. ex.^a sem o
querer, est sendo, na phrase ingrata do illustre deputado, o
_substituto do anjo S. Miguel_! (_Riso_) Oh! V. ex.^a no ser algoz do
pensamento, j de si to intanguido que no  mister matal-o: basta
deixal-o morrer... Callar-me-hei, se estou magoando v. ex.^a.

_Vozes_: Falle! falle!

_O orador_: O illustre collega referiu o que vem contado no livro do sr.
dr. Ayres de Gouveia: _que o nosso rei D. Miguel j mancebo, saido da
puericia se entretinha a maltratar animaes, chegando um dia a ser
encontrado, arrancando as tripas a uma gallinha com um sacarolhas_. 
pasmoso, sr. presidente, que os dois doutores, protestando pela
legitimidade do seu rei, um no livro, outro no discurso, refiram a
sanguinaria historia do sacarolhas nos intestinos da deploravel
gallinha! Eu suei quando ouvi este canibalismo, suei de afflico, sr.
presidente, figurando-me o desgosto da ave!

Protesto, sr. presidente, protesto contra a suja aleivosia cuspida na
sombra de um principe ausente, indefeso e respeitavel como todos os
desgraados. Que historia vill  esta? Quem contou ao sr. dr. Ayres o
caso infando do sacarolhas nas tripas da gallinha?! Em que soalheiro de
antigos lacaios de Queluz ou Alfeite ouviram os refundidores da justia
estas anedoctas hediondas, e mais torpes no squalr de recontal-as?

E, depois, sr. presidente, que me diz v. ex.^a e a camara quelle filho
da rainha da Gr-Bretanha, que  um rapinante: _uma pga humana_! Que
musa de tamancos! _uma pga humana_! Que imagem! que allegoria to
ignobil, e extractado do vocabulario da ral!...

Em desconto d'estas repugnantes noticias, fez-nos o sr. doutor o bom
servio de nos dizer que homem em latim  _vir_, e mulher  _mulier_, e
que, em alguns casos, _homo_ tambem  homem. Ficamos inteirados e
agradecidos. Uma lio de linguagens latinas para nos advertir que a lei
no legisla para a mulher!... Teremos ainda de assistir  repetio do
concilio em que havemos de averiguar se a mulher  da especie humana? Se
os srs. drs. Ayres ou Liborio, alguma vez, dirigirem os negocios
judiciarios e ecclesiasticos em Portugal, receio que os legisladores
excluam a mulher das penas codificadas, e que os bispos lusitanos as
excluam da especie humana!... E peior ser se algum d'estes ministros,
no intento de punil-as, as classificam nas aves, e nomeadamente nas
gallinhas! O horror dos sacarolhas, sr. presidente, no me desaperta o
animo!

Porque no ha de ser castigada a mulher por egual com o homem? Resposta
sria  pergunta que tresanda a paradoxo: Porque, no delicto, as
faculdades da mulher agitam-se perturbadas;  um periodo de evoluo. A
mulher, que mata, por ciume  que mata; a mulher, que propina venenos,
por ciume  que despedaa as entranhas da victima. Isto  crime, ao que
parece; crime, porm, de _faculdades que se agitam perturbadas, e
periodo de evoluo_. Se o termo fosse parlamentar, eu diria
_farelrio_!

Quem ha de enristar armas de argumentao contra estes odres de vento?

O que eu melhor entendi, graas  linguagem correntia e pedestre da
arenga, foi que o illustre collega, avenado com o sr. dr. Ayres, querem
_que todo o preso seja de todo barbeado semanalmente, lave o rosto e
mos duas vezes por dia, e tenha o cabello cortado  escovinha, e beba
agua com abundancia, e no beba bebidas fermentadas, nem fume_.

N'este projecto de lei a pequice corre parelhas com a crueldade. Que o
preso lave a cara duas vezes por dia, isso bom  que elle o faa, se
tiver a cara suja, mas obrigal-o a lavatorios superfluos,  risivel
puerilidade, juizo pouco aceiado que precisa tambem de barrela.

Privar do uso do tabaco o preso que tem o habito de fumar inveterado, 
requisito de deshumanidade que sobreleva  pena de priso perpetua ou
degredo por toda a vida. Tirem o cigarro ao preso; mas pendurem logo o
padecente, que elle ha de agradecer-lhe o beneficio.

Estes reformadores de cadeias, sr. presidente, parece que tem d'olho
apertar mais as cordas que amarram o condemnado  sentena; picar-lhe as
veias, e desangral-o gota a gota, na inteno de o regenerar e
rehabilitar! Optima rehabilitao! humanissimos legisladores! Querem que
o preso se regenere hydropaticamente. Mandam-n'o lavar a cara duas vezes
por dia. _Agua em abundancia_, conclamam os dois doutores. Fazem elles o
favor de dar ao preso agua em abundancia; mas descontam n'esta
magnanimidade prohibindo-os de fallarem aos companheiros de infortunio,
com o formidavel argumento de que _sem das cadeias delineamentos de
assaltos, e assassinatos de homens que sabem ricos_!...

Delineamentos de assassinatos! Que  isto? _Assassinato_  coisa que
me no cheira a idioma de Bernardes e Barros. Seja o que fr,  coisa
horrivel que se das cadeias com seus delineamentos, contra homens que
os _presos sabem ricos_. Aqui, sr. presidente, n'este _sabem ricos_,
quem soffre o _assassinato_  a grammatica. O alticismo d'esta phrase 
grego de mais para ouvidos lusitanos.

O que  um preso descomedido, sr. presidente? Dil-o-hei? _Vox faucibus
haesit_!...

_ febricitante despedido do leito, que, como setta voada do arco,
exaspera em barulho os males de toda a enfermaria_. Que se ha de fazer a
um patife que  setta voada do arco? Faz-se-lhe lavar a cara terceira
vez!

Que desperdicio de poesia para descrever um preso bulhento!

_Setta voada do arco_! Que infladas necedades assopram estes estylistas
de m morte!

_Inclinando rasoamento_ (peo venia para me tambem enriquecer com esta
locuo do sr. dr. Ayres) inclinando rasoamento a pr fecho n'este
palanfrorio com que dilapido o precioso tempo da camara, sou a dizer,
sr. presidente, que a melhor reforma das cadeias ser aquella que
legislar melhor cama, melhor alimento, e mais christ caridade para o
preso. Impugno os systemas de reforma que disparam em accrescentamento
de flagelao sobre o encarcerado. Visto que Jesus Christo, ou seus
discipulos, nos ensinam como obra de misericordia visitar os presos,
conversal-os humanamente, amaciar-lhes pela convivencia a ferocia dos
costumes, no venham c estes civilisadores aventar a soledade aos
ferrolhos, o insulamento do preso, aquelle terrivel _voe soli_! que
exacerba o rancor, e os instinctos enfurecidos do delinquente.

Tenho dito, sr. presidente. No redarguo ao mais do discurso, porque no
percebi. Sou um lavrador l de cima, e no adivinhador de enygmas.
_Davus sum, non OEdipus_.

_O orador foi comprimentado por alguns provincianos velhos_.




XVIII

*Vae cair o anjo!*


A respeito do ultimo discurso de Calisto Eloy, as gazetas governamentaes
estamparam que a sala da representao nacional nunca tinha sido
testimunha de insolencias de tamanha rudesa e to audaciosa ignorancia.
Os jornaes da opposio liberal disseram que o representante de Miranda,
 parte as demasias escolares do seu discurso, dra uma util, bem que
severissima lio, aos meninos que jogueteam com o paiz, indo ao
sanctuario das leis bailar em acro-batismos de linguagem, que seriam
irrisorios em palestra de estudantes de selecta segunda.

Em casa do desembargador  que o morgado deslumbrou o renome dos
fulminadores de catilinarias e filippicas. A numerosa roda do fidalgo
legitimista encarava com venerabundo assombro em Calisto Eloy. As raas
godas, que o no conheciam, concorreram a dar-lhe os emboras a casa de
Sarmento. Sangue dos Affonsos e Joes no se dedignava de inventar em
Calisto um primo. Todos queriam ter nas arterias sangue de Barbudas. E
elle, o genealogico por excellencia, modestamente contradictava o
empenho de alguns parentes honorarios; bem que, de si para si, e para
alguns amigos, se ufanava de no carecer de tal parentella para
egualar-se barba por barba com os mais antigos titulares em limpeza de
sangue. As expresses laudatorias que mais calaram no animo de Calisto
Eloy disse-as Adelaide. A menina, confessando sua surpresa no
parlamento, foi sincera. No o julgava to denodado e destemido em face
de gente nova, que parecia acovardar-se diante da coragem de um
provinciano algum tanto achamboado. Disse ella  mana Catharina que a
fronte de Calisto parecia allumiada, e no todo das feies e ademanes se
revelava certa nobreza e garbo, que o faziam parecer mais novo.

E era assim. Os quarenta e quatro annos do morgado, vividos na aldeia, e
no resguardo da bibliotheca, viavam ainda frescura de mocidade. A
reforma do trajar fra grande parte n'isto. A casaca antiga, e o
restante da roupa trazida de Miranda, tolhiam-lhe a elegancia das
posturas e movimentos, nos primeiros discursos.

Cicero e Demosthenes, se entrassem de frak, no forum ou na gora,
desdouravam os mais luzentes relevos de suas esculpturaes oraes. A
estatuaria do orador pende grandemente do alfaiate. Vistam Casal Ribeiro
ou Latino Coelho, Thomaz Ribeiro ou Rebello da Silva, Vieira de Castro
ou Fontes, de casaca de brixe e gravata sepulchral da mandibula
inferior: ho de vr que as perolas desabotoadas d'aquellas bocas de
oiro se transformam em graniso glacial no corao dos ouvintes.

--Eu estava encantada de ouvil-o, sr. Barbuda--disse Adelaide--Tem uma
voz muito s e argentina. Gostei de vr a presena de espirito de v.
ex.^a, quando se levantou aquella algazarra contra as suas ironias.
Lembrou-me ento que prazer sentiria sua senhora, se o escutasse!

--Minha prima Theodora de certo me no attendia--observou o morgado.--Em
quanto eu fallasse, estaria ella pensando no governo da casa, e na
calacice dos criados. Eu j disse a v. ex.^a que minha prima Theodora
entendeu no summo rigor da expresso a palavra casamento. _Casamento_
deriva de _casa_. Senhora de casa e para casa  que ella . E eu assim a
acceitei e assim a prso.

--Mas o corao...--atalhou Adelaide.

--O corao, minha senhora, ninguem l nos disse que era necessario 
felicidade domestica. Tanto sabia eu o que era corao, como aquella
creancinha, que sua ex.^{ma} mana tem nos braos, sabe o que  sensao
do fogo. Ora veja como ella est estendendo as mosinhas inexperientes
para a chamma das velas... Se as tocar, que dr no sentir ella?

--Ento, volveu a filha do magistrado, hei de crr que v. ex.^a ainda
ignora o que seja corao... o que seja amor?

--Se ignoro o que seja...--balbuciou Calisto.--Sabe v. ex.^a--proseguiu
elle, reanimado, apoz longa pausa--sabe v. ex.^a que no paraizo existiu
uma celestial ignorancia, at ao momento em que na arvore da sciencia
tocou Eva?

--Sim... E Ado lambem tocou...

--Depois, minha senhora. Mas no discutamos a primasia: tocaram ambos, e
eu comprehendo que deviam ambos peccar. Maior crime sera a resistencia
a Eva que a Deus. Perdoe-me o co a blasphemia!... A que hei de eu
comparar nos nossos tempos, e n'este instante, a arvore da sciencia, da
sciencia do corao?!... Comparo-a a v. ex.^a.

--A mim?! que ida!

--A v. ex.^a. Eu contemplei-a, e... aprendi!... Hoje sei o que 
corao: agora comeo a estudar a maneira de o matar ao passo que elle
vae nascendo.

Calisto levantou-se, agradecendo  Providencia a chegada de um ancio
respeitavel que se aproximava d'elle a cortejal-o.

Adelaide quedou pensativa. Reflectiu, e considerou-se molestada e
mescabada no respeito que devia s suas virtudes um homem casado.

Receiosa de ajuizar mal, por equivoca intelligencia do que ouvira,
buscou azo de provocar explicaes de Calisto Eloy. Como o ensejo lhe
no saisse de molde, consultou a irm, referindo-lhe o supposto
galanteio do morgado. D. Catharina dissuadiu-a de pedir esclarecimentos,
aconselhando-a a simular que o no entendra.

Pouco antes de terminada a partida, um moo legitimista recitou um
poemeto dedicado ao nascimento do terceiro filho do sr. D. Miguel de
Bragana. Perguntou alguem a Calisto se conversava alguma hora com as
musas, ou se,  maneira de Cicero, escrevia o desgracioso:

    _ fortunatam natam, me consule, Romam_.

Disse o morgado relanceando os olhos a Adelaide, que o seu primeiro
parto metrico apenas tinha de vida quarenta e oito horas, e to aleijado
sara, que elle se envergonhava de o offerecer ao apadrinhamento de
pessoas authorisadas.

Instaram damas e cavalheiros pela amostra da obra prima, que certamente
o era, attenta a modestia do poeta.

--So versos, disse elle, que se poderiam mostrar aos quinze annos, e
que seriam deriso e lastima aos quarenta e quatro.

Objectaram as damas argumentando que o homem de quarenta e quatro annos
devia receber as inspiraes dos vinte, porque no vigor da edade  que o
corao fulgura em toda a sua luz.

Tregeitou Calisto uns esgaros de satisfao ridicula. Eram os
percursores de alguma enorme necedade.

Embora resistisse  exposio da sua estreada musa, no se conteve que,
despedindo-se de cada uma das senhoras da casa, disse,  puridade, a D.
Adelaide:

--V. ex.^a ver as trovas que s Deus viu, e ninguem mais ver no mundo.

D. Adelaide ficou embaada. Seria aggravar as meninas de dezoito annos,
e educadas como a filha do desembargador, e amantes como ellas de um
compromettido esposo, estar eu aqui a definir a entranhada zanga que lhe
fez no espirito d'ella o desproposito de Calisto. A estima affectuosa
que lhe ella ganhra, por amor d'aquella cavalheirosa aco, por onde a
paz domestica se restaurra, no teve fora de rebater o tedio e o odio
do tom mysterioso do provinciano.

Em quanto ella confiava da irm o despeito e averso com que a deixaram
as ultimas palavras de Calisto Eloy, estava elle no seu gabinete
retocando e peorando aquellas linhas rimadas, a cuja rebentao assistiu
o leitor com piedosa tristeza.




XIX

* mulheres!...*


Seguiram-se horas de insomnia. O juizo dava-lhe tratos amarissimos ao
corao. O homem sentava-se na cama, e remechia-se inquieto como se o
escarneo o estivesse picando d'entre a palha do enxergo.

Os intervalos lucidos eram-lhe intervalos do inferno. Os axiomas
classicos sobre o amor caiam-lhe na memoria como chuva de dardos. Quem
mais o suppliciou foi o seu mestre e amigo D. Amador Arraiz. Este santo
bispo apresentou-se-lhe em viso, com D. Theodora Figueira ao lado, e
disse-lhe as palavras do capitulo XLV dos _Dialogos_: Em a lei de
Christo a fidelidade que deve a mulher ao marido, essa mesma deve o
marido  mulher; e, se as leis civis do mais poder aos maridos que s
mulheres, no  para as offender e maltratar, nem para um ter mr
jurisdio sobre si que o outro.

Seguiram-se outras vises de no somenos pavor. Ahi pela madrugada,
Calisto Eloy amodorrou-se em roncado dormir; mas a fada que lhe abrira
os thesouros virgineos do corao, a esbelta Adelaide bateu-lhe com as
azas brancas nas palpebras, e o homem acordou estremunhado a desgrudar
os olhos, que se haviam fechado com duas lagrimas, as primeiras que o
amor lhe esponjra do seio, e cristalisra nos cilios, como diria o dr.
Liborio. Ento foi o trabalharem-n'o umas cogitaes to sandias, que
seriam imperdoaveis, se no estivessem na tresloucada natureza de todo
homem que ama.

Entrou a inventariar as alteraes que devia fazer no substancial e
accidental da sua personalidade.

O uso do meio grosso pareceu-lhe incompativel com um galan. Aquelles
sibilos da pitada, bem que denotassem espiritos cogitantes e gravidade
de juizo, deviam de toar ingratamente nos ouvidos de Adelaide. De mais
d'isso, a saraivada de bagos de rap que elle sacudia dos sorvedouros
nasaes, algumas vezes obrigava as damas a formarem sobre os olhos com os
dedos um antemural sanitario contra as insuflaes immundas do sabio.
Deliberou, portanto, immolar as delicias pituitarias.

Viu-se no espelho de barbear, modesto utensilio do estojo de bezerro, e
conveio no deslavado prosaismo da sua cara clerical. Resolveu deixar
pera e meia barba, como transio para o bigode, que devia ir-lhe bem na
tez um tanto moreno-pallida.

Como o estudo lhe havia extenuado os olhos, e por amor d'isso usava
oculos de prata quando lia, adoptou a luneta de oiro com molas pensis.

N'este proposito, saiu a delinear as reformas capillares; fez alinhar as
bases de uma cabelleira, que trouxera escadeada da provincia; e
consentiu que lhe encalamistrassem dois topes rebeldes ao ferro.

Depois, quando a ancia de uma pitada comeava a importunal-o, fez
proviso de charutos, e fumou o primeiro com afflictivas caretas, e
engulhos de estomago.

Colheu informaes dos alfaiates de melhor fama, e foi ao Keil
encommendar duas andainas de fato. O artista offereceu-lhe os figurinos;
e, como lhe fallasse francez, Calisto suppoz que o attencioso alfaiate
lhe dava a conhecer os retratos de alguns sujeitos illustres da Frana.
Corrido do engano, depois de lr as indicaes das _toilettes_, saiu
d'alli a procurar mestre de linguas, e a comprar diccionarios e guias de
conversao.

Se o leitor, mais perseguido da fortuna esquerda, nunca passou por
lances analogos, no se tenha em conta de desgraado.

Quem tivesse conhecido, um mez antes, Calisto Eloy de Silos e Benevides
de Barbuda, devia choral-o, quando o viu entrar n'um caf a pedir agua
para combater os vomitos provocados pelo charuto!

Ir perder-se aquella alma to portugueza, aquelle exemplar marido,
aquelle sacerdote e glorificador dos classicos lusitanos?

O amor abrir no pavimento da camara um alapo, onde se afunda aquelle
grande brilhante, desluzido, mas promettedor de refulgente lume?

_Di meliora piis_!

 Lisboa!...

 mulheres!...




XX

*Proh dolor!...*


Adelaide, temerosa de algum imprevisto accidente, que a desmerecesse no
conceito de Vasco, por causa do morgado da Agra, relatou ao pae o
dialogo da antevespera, e a promessa da poesia para a noite seguinte.

O desembargador duvidou do entendimento da filha, antes de acreditar na
insania do seu melhor amigo. Como havia de crer elle no intento
deshonesto de um homem que lhe emergira a outra filha da voragem? E,
crendo, como se comportaria em lano de tanto melindre?

Meditou, e discretamente resolveu que suas filhas e genro fossem passar
alguma temporada da primavera na sua quinta de Campolide; e se
pretextasse a doena de uma neta, para que a saida se fizesse n'aquelle
mesmo dia. Pde mais com o velho a gratido que a offensa.

Calisto Eloy chegou  hora costumada. J no entrava  presena do
magistrado com a facilidade e lhanesa de outros dias. A sisudeza do
semblante arguia o incommodo da consciencia. Mais lh'a inquietava a
estudada jovialidade, com que Sarmento o recebeu. Antes de perguntar
pelas senhoras, lhe disse o velho o motivo da inopinada saida para ares.
Calisto passou o restante da noite com os amigos da casa; porm,
insolitamente abstraido, concorreu a augmentar a lethargia d'aquelles
velhos soporosos, que pareciam ajuntar-se para se narcotisarem, e
entrarem emparceirados nas silenciosas regies da morte.

Fez sensao na assembla tirar Calisto de uma charuteira de prata um
charuto, e baforar columnas de fumo, com uns modos aperalvilhados, e
improprios de sua gravidade. Sarmento, com delicada liberdade, observou
a preponderancia que os costumes de Lisboa iam actuando sobre o animo do
seu bom amigo. Sentiu que os ruins exemplos vingassem quebrantar aquella
admiravel singeleza de trajo e maneiras que o morgado trouxera da sua
provincia. Lamentou que, em menos de tres mezes, o modelo do portuguez
dos bons tempos, se baralhasse com os usos modernos e viciosos.

Calisto Eloy defendeu-se froixamente, allegando que as mudanas
exteriores no faziam implicancia s faculdades pensantes; e ajuntou
que, sciente de que tinha sido incentivo da mofa entre os seus collegas,
 conta da simpleza um tanto anachronica dos seus costumes, entendera
que a prudencia o mandava viver em Lisboa consoante os costumes de
Lisboa, e na provincia, segundo o seu genio e habitos aldeos. Concluiu,
dizendo que: _Cum fueris Roma, Romam vivito mora_,[20] e que o fazer-se
singular importava fazer-se ridiculoso; e que os seus annos no eram
ainda bastantes para authorisarem a distinguir-se no mero accidente dos
trajos.

Perguntado por que deixra de tomar rap, costume indicativo de homem
pensador e estudioso, respondeu que alguns escriptores modernos
attribuiam  ammoniaca componente do rap, o deperecimento das
faculdades retentivas, pela aco deleteria que o poderoso alcali
exercitava sobre a massa encephalica. Alm de que a fumarada do charuto,
sobre ser purificante e anti-putrida, dava aos alvolos solidez, e
consistencia aos dentes.

Estas explicaes no evitaram que o desembargador, com os seus velhos
amigos, prognosticassem o derrancamento do morgado da Agra, depois que
elle se retirou, algum tanto azedado das reflexes d'aquella gente
encanecida.

Sarmento no o convidra a ir visitar as filhas a Campolide, nem de
leve; no correr da noite, fallou d'ellas. Calisto Eloy tambem no
suscitou conversao relativa s senhoras, porque j a doblez do
espirito lhe tolhia a usual franqueza e familiaridade.

Entrou a dementar-se aquella desconcertada cabea. A saudade, em vez de
lhe tirar lagrimas do intimo amadurou-lhe temporamente a apostma de
sandices, que em todo homem se cria paredes-meias com o corao. Ahi
comea elle a imaginar que o desembargador Sarmento, adivinhando os
amores mal recatados de Adelaide, a obrigara a sair de Lisboa.
Corroborava a suspeita no o convidar elle a visitar as damas. Isto
sobre excitou-lhe o sentimento; por que, a seu vr, Adelaide estava
penando, havia uma victima, um corao sopesado, uma alma em abafos de
paixo.

Esta conjectura atirou com Calisto para os tempos cavalleirosos.

O olhar em si, e ver-se maneatado pelos vinculos sacramentaes, no o
reduzia  compostura e honestidade de seu estado e annos. Ainda assim,
sejamos justiceiros e ao mesmo tempo misericordiosos com esta alma
enferma: na cabea allucinada de Calisto de Barbuda no havia ida
ignobil e impudica.

O amor, resaltando da cratera abafada quarenta e quatro annos, dizia-lhe
que era fidalguia de alma no transigir, por conveniencias e respeitos
sociaes, com a oppresso, e alvedrio paterno. Se Adelaide o amava como e
quanto Calisto j no podia duvidar, sua honra d'elle era pr peito 
defesa da oppressa, beber metade do absyntho do seu calix, luctar, sem
desdouro da probidade de um Barbuda, at perecer, exemplo de amadores de
antiga tempera.

Amou quem isto l, e tresvariou aos vinte annos? Passou por uns hrridos
eclipses de entendimento, que apoz si deixam lagrimas tardias e
vergonhas insanaveis?

Amisere-se, pois, d'aquelles lucidissimos espiritos de Calisto, que por
um se vo apagando ao ventar rijo da paixo, quaes se apagam em co de
bronze as estrellas do mar alto, j quando o naufrago desesperanado
finca os dedos recurvos na espuma das vagas.

 mal-sorteado Calisto! que aureola de patriarcha te resplendia em volta
do teu chapo de merino e ao, quando entraste em Lisboa! Que anjo eras,
entrajado na tua casaca de saragoa sem nodoas! Aquella scientifica boa
f com que procuravas monumentos em Alfama, e agua depurante do muco
catharroso no chafariz d'El-Rei, e querias que os aljubtas da rua de S.
Julio te dessem conta do chafariz dos cavallos!...

Que te valeram as maximas de boa vida colhidas a centenares nos teus
classicos, e enceleiradas n'essa alma, refractaria  ternura de tanta
moa escarlate e succada, que, l em Caarelhos, se enfeitava para achar
graa em teus olhos?

Cairias tu nas piozes d'esta princeza dos mares, d'esta Lisboa que
filtra aos nervos dos seus habitantes o fogo que lhe estua nas
entranhas?

Cairias tu, anjo?




XXI

*O mordomo das tres virtudes cardeaes*


Era por uma noite escura e fria de abril.

O vento esfusiava nas ramalheiras de Campolide.

A lua, a longas intermittencias, parecia, wagon dos cos, correr
velocissima entre nuvens pardas, para ir ingolfar-se n'outras. Ento era
o carregar-se a escurido da terra, e mais para pavores o rangido das
arvores sacudidas pelos bulces do septentrio.

Soaram doze horas por egrejas d'aquelles valles. Era um como crebro
soluar da natureza por pulmes de bronze. Era o gro clamor da terra em
angustias parturientes de alguma enorme calamidade.

quella hora, e por aquella noite capeadora de assassinos e
bestas-feras, Calisto Eloy, embrulhado n'um capote de tres cabees e
mangas, que trouxera de Caarelhos, passava rente com o muramento da
quinta de Adelaide.

Depois, como saisse da vereda escura a um recio que defrontava com a
frontaria da casa, aqui parou, e cruzando os braos, se esteve largo
espao quedo, e fito nas janellas.

Nem lua nem scintilla de estrella no co! As confidentes d'aquelle
amador torvo como o cerrado da noite, negro como o corao que lhe arfa
a lapela esquerda do collete, so as trevas. Quiz accender um charuto.
Nem os phosphoros vingavam lampejar na escurido.

E o vento assoviava no vigamento da casa, e nas orelhas de Calisto, o
qual, levado do instincto da conservao, levantou a gola do capote 
altura das bossas parietaes, e disse, como Carlos VI:

--Tenho frio!

E passou-lhe ento pelo espirito um painel da sua situao tirado pelo
natural. Viu-se no espelho, que a razo lhe offereceu, e cobrou horror
da sua figura.

Bem que tal acto no implicasse delicto, nem affrontasse os bons
costumes, Calisto, apertado no transito difficil das indoles que se
passam do comportamento austero e captivo s liberdades e solturas do
vicio, olhava com saudade o seu passado, as suas alegrias puras; e, mais
que tudo, quella hora, como o frio cortava as orelhas, lembrou-se da
quentura e aconchego do leito nupcial.

E como esta viso honesta, para mais o pungir, havia de ser encarecida
com uma imagem de mulher leal e immaculada, Calisto viu D. Theodora de
touca, n'aquelle dormir placido de quem adormeceu com a alma quieta e
intemerata. No bastava a touca, to hygienica quanto pudica, a
penitencial-o com remordentes saudades: viu-lhe tambem o leno de tres
pontas de algodo azul com que ella costumava resguardar os hombros,
antes de subir as quatro escadinhas que conduziam ao alteroso leito de
po santo.

Se vises analogas, alguma vez, puzeram guerra ao demonio tentador dos
maridos infieis e o venceram, d'esta feita no se logra a s virtude do
triumpho.

 que as toucas e lencinhos pudibundos, sobre no serem enfeites mui
seductores, algumas vezes tornam a virtude ranosa e tamsmente boa para
adubar palestras de avs com as netas casadoiras. Este mal deve-se s
artes da estatuaria, artes em que a imaginativa no pe nada seu, porque
tudo  copiado da natureza nua, ou quasi nua. Nem se quer as Niobes, as
Lucrecias e Penelopes o buril respeita. Nos casos mais lacrimaveis e
tragicos, querem fados mos que os olhos achem sempre pasto  cobia,
quando a impresso devera ser toda para levantamentos de espirito, e
vises altas como diz o bom S de Miranda.

Quando a arte deshonesta no despe as figuras, veste-as de feitio que
pelo ondeado das roupas transparentes esteja o peccado a fazer negaas a
conjecturas taes que, certo estou, Calisto Eloy, antes de se empestar em
Lisboa, se taes impudicias visse, romperia no parlamento os vesuvios da
sua eloquente indignao. E a posteridade, ajuizando da moral d'esta
nossa edade de limos e alforrecas, viria a este lameiral esgaravatar a
perola da edade aurea, caida dos labios do marido de D. Theodora, a
qual, segundo fica dito, dormia de touca e lencinho de algodo azul de
tres pontas.

Esta peregrina imagem no bastou a desandar Calisto pelo caminho de
Lisboa, e do seu gabinete, onde os pergaminhos dos seus livros pareciam
rever lagrimas de amigos descaroavelmente desprezados. O infeliz no
desfitava olhos de certa janella, desde que vira perpassar uma luz pelos
resquicios das portadas. Podia a trahida Theodora antepr-se aos olhos
extasiados do esposo, com a pudenda touca, ou com as madeixas
estrelladas de brilhantes, que elle no a via nem queria ver.

Ahi por volta de meia noite estava Calisto recordando o que dissera, em
circumstancias analogas, Palmeirim aquelle gro cavalleiro de Francisco
de Moraes, diante do castello de Almourol que fechava em seus arcanos a
formosa Miraguarda. N'isto scismava, comprehendendo ento as phrases
mlicas dos famosos amadores, quando as portadas da janella se abriram
subtilmente, e logo a vidraa foi subindo mui de leve.

O recanto, em que o morgado da Agra se abrigra do vento, estava fra do
caminho, e sumido aos olhos da pessoa que abrira a janella. Ao mesmo
tempo, ouvia elle passos na estrada, e logo viu acercar-se um vulto
rebuado da casa de Adelaide, e parar debaixo da janella que se abrira.

Conjecturou Calisto de Barbuda, que D. Catharina Sarmento, a esposa
infida, reincidira nas presas do velho peccado, e sentiu algum tanto
molestada sua vaidade de regenerador de coraes estragados. Tambem
suspeitou que Bruno de Vasconcellos, quebrando a palavra jurada, voltra
do estrangeiro a reatar a criminosa alliana. No lhe deram tempo a mais
conjecturas. O encapotado espectorou um cacarejo de tosse secca; da
janella, como contra-senha, respondeu outro cacarejo de mais sympathico
som, e logo as duas almas se abriram n'este dialogo:

--Ainda bem que recebeste a minha carta, Vasco!...--disse
Adelaide--Estavas em casa da tia condessa? Eu mandei l por me lembrar
que se fazia l hoje a novena das Chagas...

--Fiquei espantado--disse Vasco da Cunha--Que rapida deliberao foi
esta?! Vir para uma quinta com to mo tempo! Foi caso de maior!...

--Fui eu a causa--tornou ella--So melindres do meu corao, que, por
amor de ti, no soffre que outra voz de homem lhe falle a linguagem que
eu s quero e acceito de tua bocca. Antes me quero aqui escondida com a
tua imagem, que ver-me obrigada a tolerar os atrevimentos do Calisto de
Barbuda...

--Que!--atalhou Vasco--pois aquelle homem to serio!... to temente a
Deus!...

-- um hypocrita com a brutalidade de um provinciano!... Offereceu-me
uns versos em segredo! Que ultraje! que falta de respeito  minha
posio...

--E que desmoralisada e irreligiosa creatura! Casado, j d'aquelles
annos, legitimista, e catholico, segundo diz, e ousar... Estou
espantado! E a tia condessa que me tinha encarregado de o convidar para
assistir, no domingo  festa das Chagas! Fiem-se l!... E tu no faltes,
 festa, Adelaide. Esto anno fazemol-a com toda a pompa. O prgador j
me leu o discurso, e trata eruditamente a materia. A prima Lacerda vae
cantar um _Benedicite_, e a prima viscondessa de Lagos canta um _Tantum
ergo_. Havemos de fazer melhor festa que a do conde de Melres. Eu comeo
manh a colher flores e a pedil-as para enfeitar o altar dos tres reis
magos e das tres virtudes cardeaes, de que me fizeram mordomo, no sei
se sabias?

--No sabia, meu amor--disse Adelaide, congratulando-se com os
enthusiasmos pios do excellente moo.

A palestra proseguiu n'este tom por espao de uma hora. A lua espreitava
estas duas pessoas por entre as nuvens, que a pouco e pouco se foram
descondensando. O co azulejou-se e estrellou-se para galardoar a
virtude do mordomo das tres virtudes cardeaes e da bella menina
destinada a maridar-se com o mais energico influente da festa das
Chagas, com que o devoto conde de Melres se havia de dar a perros.

No entanto, Calisto Eloy, consultando a sua consciencia a respeito de
Vasco da Cunha, decidiu que o homem, se no era um santo, propendia
grandemente para a semsaboria de idiotismo. Esta critica  a prova de um
animo j iscado da peonha da meia impiedade que degenera em impiedade
inteira. J como castigo de escarnecer um moo virtuoso, sentia elle
encher-se-lhe de amargura o corao. No bastava ouvir-se qualificado de
hypocrita brutal por Adelaide; quiz de mais d'isto a providencia dos
amantes lerdos, providencia que eu no posso escrever se no com _p_
pequeno, quiz, digo, que Vasco da Cunha, mancebo em flor d'annos e
gentileza, se estivesse alli rejubilando em novenas e mordomias das tres
virtudes cardeaes, em quanto elle Calisto, a mais de meio caminho da
morte, ardia em fogo impuro e cobia peccaminosa, com os olhos cerrados
 viso duas vezes pura de uma esposa de touca e lencinho azul de tres
pontas sobre as espaduas no despeciendas, segundo me consta.

Merecem escriptura as ultimas phrases de Adelaide e Vasco.

A menina, interrompendo os enlevos do devoto moo, que se deleitava em
conjecturar a zanga do conde de Melres, perguntou-lhe, com doce
requebro, quando viria o dia suspirado de sua unio.

Vasco deteve a resposta alguns segundos, e disse:

--Deixemos vr se morre minha tia Quiteria, que me quer deixar os
vinculos do Algarve.

--Pois ns--volveu Adelaide magoada--no poderemos ser felizes sem os
vinculos de tua tia Quiteria, meu Vasco?

--Ningum  feliz desobedecendo aos seus maiores, replicou Vasco. A tia
Quiteria quer que eu espere a volta d'el-rei para depois tomar ordens
sacras, e trazer mais uma mytra episcopal  nossa linhagem onde estavam
como em vinculo as principaes prelazias do reino.

Adelaide, no obstante o corao, quando aquillo ouviu, sentiu-se mal do
estomago.




XXII

*Outro abysmo*


Esta pungente lancetada no esvermou a postema do peito de Calisto de
Barbuda. Desde que qualquer sujeito perde o siso do corao, escusado 
esperar que a razo lh'o restaure: em to boa hora que elle o recupera
depois das amargas provas. O homem, porm, que amanhece tolo aos
quarenta e quatro annos, a mim me quer parecer que ao entardecer-lhe a
vida a tolice refinar.

Tenho dois grandes exemplos d'isto: um  Calisto de Caarelhos; o outro
 Henrique VIII de Inglaterra. Este, ahi pelas alturas dos quarenta
annos, to bom homem era, que at escrevia contra o impio Luthero, e
vivia santamente com sua esposa, Catharina de Arago. Insandeceu de
amor, vinte annos depois de marido exemplar, e d'ahi por diante sabe o
leitor que golpes elle deu no peito invulneravel do papa e no fragil
pescoo das pobres mulheres.

Calisto Eloy no ser capaz de repudiar nem degolar Theodora, porque
n'este paiz ha leis que reprimem os patetas sanguinarios; todavia, eu
no assevero que elle seja incapaz, alguma hora, de lhe chamar parva e
hedionda, e de lhe atirar com a touca e com o leno azul de tres pontas
 cara vermelha de pudor. Veremos.

Calisto, digamol-o sem refolhos, caiu. Atascou-se. Foi de cabea ao
fundo do pgo em que deram a ossada o ultimo rei dos godos, e Marco
Antonio, e o rei enfeitiado pela combora Leonor Telles, e Simplicio da
Paixo, e varias pessoas minhas conhecidas, que experimentaram todos os
systemas de desfazer a vida, desde o muro de S. Pedro d'Alcantara at s
cabeas dos palitos phosphoricos.

Este enguiado Barbuda, na volta de Campolide, no teve uma lagrima que
chorasse sobre a sua dignidade esfarrapada. Circumvagou a vista pelos
seus livros, figurou-se-lhe vr na lombada de cada in-folio o olho de um
demonio zombeteiro, bem que aquelles pergaminhos encadernassem almas, no
co bem-aventuradas, e na terra immorredoiras, almas que n'este mundo se
chamaram fr. Joo de Jesus Christo, fr. Pantaleo d'Aveiro, fr. Antonio
das Chagas, e dezenas d'estes talismans, que tem salvado o leitor e a
mim de soobrarmos nos parceis que esbravejam  volta de Calisto.

Eram duas horas da manh, quando o morgado experimentou uma sensao,
que viria a definir-lhe o espirito, se alguem carecesse de vr este
homem a luz extraordinaria.

Nas aguas-furtadas do andar, em que elle morava, residia uma viuva de um
tenente, senhora d'annos insuspeitos, de muitas lerias, minguada de
recursos, e, por amor d'isso, se offerecra a cuidar da casa e da
cosinha do deputado. s duas horas, pois, bateu Calisto  porta da
visinha, e, como ella lhe fallasse, exprimiu elle a sensao imperativa,
que o levou alli, por estes termos:

--Sr.^a D. Thomazia, ha por ahi alguma coisa que se coma?

--No ha nada feito; mas eu vou fazer ch, sr. Barbuda, e o que v. ex.^a
quizer.

--Olhe se me pde frigir uns ovos com presunto--volveu elle.

--Pois l vo ter d'aqui a pouco.

--Veja l que se no constipe, sr.^a D. Thomazia--recommendou elle.

--No tem duvida. Olhe que eu tenho muito que lhe dizer. Achou um
bilhete de visita na escrevaninha? perguntou D. Thomazia pelo buraco da
fechadura.

--No achei.

--Pois l est. Faz favor de ir, que eu vou vestir-me.

--Ento a sr.^a D. Thomazia est-se constipando? Ora esta! Isso  que eu
no queria!... C deso, e at logo.

O bilhete, que o deputado encontrou, dizia: Iphigenia de Teive Ponce de
Leo, e logo a lapis: _viuva do tenente general Gonalo Telles Teive
Ponce de Leo_.

Desfilaram por diante do espirito de Calisto Eloy regimentos de
illustres familias oriundas dos Telles e dos Teives e dos Ponce de Leo.
Na linhagem dos Barbudas tambem alguma vez tinham entrado os Teives, e
uma decima nona av de Calisto viera de Hespanha, e era Ponce, dos
Ponces genuinos dos duques de Banhos.

Estava o morgado combinando estes parentescos contrahidos ahi pelo
ultimo quartel do seculo XII, quando D. Thomazia entrou com o presunto e
ovos. Calisto assentou o prato sobre dois volumes da Historia
Geneologica, que lhe tomavam a banca: e quanto a deglutio lh'o
permittia, n'alguns intervalos, foi perguntando:

--Ento quem  esta senhora, que me procurou?

--Eu s sei dizer, respondeu D. Thomazia, que  uma creatura linda,
linda quanto se pde ser!

--Como assim?! atalhou Calisto, retendo uma lasca de presunto entre os
dentes molares, pois ella no  a viuva de um tenente general, que
naturalmente havia de morrer velho?

--Pde ser que elle morresse velho; mas a viuva o mais que pde ter 
trinta annos.

--E com que ento galante?

-- uma imagem de cera. V. ex.^a ha de vl-a. E ento elegante! A
cintura cabe aqui, proseguiu D. Thomazia, formando um annel com dois
dedos. Eu, quando ouvi parar uma carruagem, cuidei que era v. ex.^a e
vim abrir as portas do escriptorio. A senhora veiu subindo, e puchou 
campainha. Eu espreitei l de cima, e, a fallar verdade, lembrei-me se
seria a sua esposa, que lhe quisesse fazer uma agradavel surpreza.
Perguntou-me ella pelo sr. Barbuda de Benevides, e foi entrando comigo
para a sala. Levantou o vo, e disse: No est em casa? Que voz, sr.
morgado, que voz de creatura aquella!

--E isso a que horas foi? atalhou Calisto. Era por noite alta?

--No, meu senhor. Eram seis horas da tarde. V. ex.^a tornou s oito,
mas saiu logo; e, quando eu voltei de fazer uma visita, j o no achei
para lhe dar esta noticia.

--E depois a senhora que mais disse?

--Mostrou-se pesarosa de o no encontrar, e prometteu de voltar hoje s
tres horas.

--E a sr.^a D. Thomazia saber o que me quer essa dama?

--No sei; o que ella smente disse foi que v. ex.^a era um genio.

--Pois ella disse-lhe isso sem mais nem menos?

--Foi a respeito de vr aqui estes livros muito grandes, acho eu. Esteve
a reparar n'elles com uma luneta... E a graa com que ella punha a
luneta!... Mulher assim!... Os homens s vezes por mais asneiras que
faam, teem desculpa!...

--As paixes, minha sr.^a D. Thomazia...--obtemperou o morgado, e lambeu
os beios molhados da libao de um vinho nervoso d'aquella garrafeira
j mencionada. E proseguiu.--As paixes do amor... Nem os grandes sabios
nem os grandes santos se exemptaram d'ellas. Somos todos de quebradio
barro; somos uns pucarinhos de Extremoz nas mos infantis das mulheres.
O tributo  fatal: quem o no pagou aos vinte annos, ha de pagal-o aos
quarenta, e mais tarde, quando Deus quer... Deus ou o demonio, que eu
no sei ao justo quem fiscalisa estes malaventurados successos de amor,
que a historia conta e a humanidade experimenta cada dia...

-- um gosto ouvil-o!--interrompeu D. Thomazia--Bem no disse aquella
senhora: v. ex.^a  um genio, e falla de modo que se mette no corao da
gente. Quer que lhe diga a verdade, sr. Barbuda? Foi bom que v. ex.^a me
encontrasse n'esta edade. Se eu fosse moa e bonita, como dizem que fui,
um homem como v. ex.^a havia de me dar cuidados.

--Ora, minha sr.^a D. Thomazia, isso  lisonja e favor. Eu j no estou
tambem na edade de tocar coraes, nem os meus habitos vo muito para
ahi!

--Edade!--accudiu a viuva do tenente--v. ex.^a pde dizer que tem trinta
e cinco annos, que ninguem lh'o duvida.  mania agora dos rapazes
quererem  fina fora passar por velhos. Pergunte quem quizer  visinha
do primeiro andar se o acha velho. Est-me sempre a perguntar se v.
ex.^a me diz d'ella alguma coisa... Conhece-a?

--Bem sei: uma mocetona cheia, com umas fitas escarlates na cabea...
No  m...

--E sabe v. ex.^a que mais? Eu vou apostar que esta senhora, que veiu
c, traz coisa no corao, que a obrigou. Assim uma senhora nova,
sosinha, to encantadora!... Aquillo, em quanto a mim,  que j o ouviu
no parlamento, e apaixonou-se. Ha muitos casos assim c em Lisboa de
senhoras apaixonadas pelos homens de talento. O talento  uma coisa
muito bonita! Meu marido casou comigo quando era sargento do treze de
infanteria, e andava nos estudos. Era feio, e ao principio tinha-lhe
medo; mas assim que elle me mandou um acrostico... V. ex.^a sabe fazer
acrosticos?

--Ainda no me puz a isso.

--Pois como eu me chamo Thomazia Leonor e tenho quatorze letras fez-me
elle um soneto que me deu volta  cabea, e tamanho incendio me tomou o
peito, que o amei at  morte, e ainda agora, ficando eu viuva aos
trinta e nove annos, fui, sou e serei fiel  sua memoria.

N'este ponto, D. Thomazia, ferida n'alma pelo acrostico memorando,
chorou.

Calisto represou-lhe os prantos com algumas maximas consoladoras sobre a
morte, e bocejou, j por que eram tres horas e meia da manh, j por que
o dialogo descaira nos aborrimentos de uma palestra em dia de fieis
defuntos. D. Thomazia comeou a espirrar, por que se no agasalhra
bastantemente, e assim se apartaram estas duas pessoas, que uma hora de
expanso aproximara.

Calisto, conforme ao antigo uso, levou um livro para a cabeceira do
leito. Escolheu poeta, e saiu-lhe o seu j to querido outr'ora S de
Miranda. Abriu ao acaso, e saiu-lhe n'uma pagina _d'Os Estrangeiros_
esta maxima: _Duas sortes de homens ha no mundo que se possam servir: ou
muito parvos ou muito namorados, e ainda os namorados tem grande
vantagem_.

A meu vr, o espirito d'aquelle honrado doutor, que to santo marido
fra de Briolanja de Azevedo, at de saudades d'ella se deixar morrer,
alli lhe viera, quella hora, relembrar occasionalmente e a ponto uma de
suas maximas, como em paga do affectuoso respeito com que Barbuda o lia
e inculcava  mocidade depravada.

Calisto Eloy pde ainda admirar o lidimo portuguez da maxima, e
adormeceu.




XXIII

*Tenta o seu anjo da guarda salval-o mediante uma carta da esposa*


Calisto dormiu mal.

As alvoradas de um dia feliz so mais tempors que as da estrella
d'alva. O corao acorda primeiro que os passaros. O amor diz o seu
_fiat lux_ primeiro que Deus. Estas tres sentenas, a meu vr, so mais
intelligiveis que o contentamento do morgado da Agra, ao levantar-se da
cama em que dormitra algumas escassas horas alvoroadas.

O desastre de Campolide quebrantaria um homem qualquer que viesse a
cumprir n'este mundo os vulgares destinos da maxima parte dos mortaes.
Individuos notaveis j sairam scepticos e bravos cynicos de aperturas
menos dilacerantes. Os annaes ensanguentados da humanidade esto cheios
de facinoras, empuxados ao crime pela ingratido injuriosa de mulheres
muito amadas e perversissimas. Superabundam casos de embaadellas
analogas  de Calisto: d'estes lances obscuros tem saido aparvalhada
muita gente que era escorreita, e que se volve daninha  republica. So
uns homens que vos namoram as criadas, se vos no podem requestar a
familia; uns vampiros de sangue femeal, que trazem o demonio da vingana
no corpo, demonio meridiano e nocturno, que bebe lagrimas de mulher, em
quanto os possessos d'elle bebem cognac e absyntho. Um homem d'estes,
encostado a frade de esquina,  o leo que espreita da sua caverna
lybica a antilopa descuidosa. Officiala de modista, que se espaneja nas
verduras do jardim da Estrella, como alvola nas praias borrifadas de
espuma, se o anjo da guarda a desampara um quarto de hora, tem os seus
dias contados. O scelerado, com o simples auxilio de um gallego, em que
por vezes se ingere e chafurda o confidente de Fausto, arranca da fronte
da alegre palmilhadeira de botinhas a grinalda de laranjeira em boto,
que esperava a sua primavera, o seu abrir-se e rescender, no primeiro
dia nupcial. Que tristeza! E ninguem falla d'isto seno eu, porque me
cumpre fazer o elogio de Calisto Eloy, que no fez cousa nenhuma
d'aquellas.

Assim que se ergueu cuidou em aformosear a saleta, cuja decorao era
menos de modesta. Saiu aodado ao armazem dos mais elegantes estofos, e
comprou alfaias magnificas. O homem pasmava dos nomes d'aquelles
objectos, nenhum dos quaes soava portuguezmente.

--Porque chamam a isto _chaise-longue_?--perguntava Calisto Eloy ao
engenhoso Margoteau.

--Porque chamam?!

--Sim: eu creio que se no offende a Frana no caso de chamarmos a este
movel uma cadeira longa, ou uma preguiceira, que sa melhor. E _tagre_
e _console_ e _tte--tte_, e _onaise_? E  carissimo tudo isto! A
gente, pelos modos, de fra parte os objectos, tambem paga a lio de
francez de samblador, que vem aqui aprender?

Sem embargo d'estes reparos, o oiro saiu-lhe generosamente da algibeira
bem apercebida.

A pobre saleta do morgado, dentro em pouco, transformou-se em recinto
digno de uma Ponce de Leo. Calisto, refestelado nos coxins elasticos da
ottomana, contemplava os restantes adornos do aposento, quando lhe
chegou do correio carta da sua esposa.

Dizia assim:

J com esta so tres que te escrevo, e  por hora nem uma nem duas da
tua parte. Marido! que fazes tu, que no respondes? Ando a futurar que
no tens o miolo no seu logar. Longe da vista, longe do corao, diz l
o ditado. Ora, queira Deus que no seja por minga de saude; e, se ,
dil-o para c, que eu estou aqui estou l.

O primo Affonso de Gamboa esteve c ha dias, e a modo de caoada foi-me
dizendo que l na capital as mulheres inguiam os homens, e fazem
d'elles gato sapato. Eu fiquei sem pinga de sangue, meu Calisto! Mal fiz
eu em te deixar ir s crtes. Bem tolo  quem est bem na sua casa, e se
mette n'estas coisas dos governos, que s servem para quem no tem que
perder, como diz o primo Affonso.

O peor  se tu pegas a doidejar com as mulheres, e saes do teu srio.
Eras um marido perfeito como a santa religio o quer, e tenho c uns
agouros no peito que me no deixam fechar olho ha tres noites. Deus te
defenda, homem, e te traga aos braos da tua mulher so e escorreito da
alma e do corpo.

Sabers que o mestre-escola anda de candeias s avessas por que tu lhe
no respondes  carta em que elle te pediu uma venera. Olha se lhe
arranjas isso ainda que te custe pedir ao rei ou l a quem  a tal
coisa. O homem tem-me feito favores, quando eu preciso que elle me leia
a relao dos foreiros. A vacca preta comeu o bicho, e morreu hontem 
noite. L se vo cinco moedas e um quartinho com a breca. O centeio da
tulha do meio deu-lhe o gorgulho, e tratei de o vender, a trezentos e
quinze, foi bem bom arranjo; eram mil e duzentos alqueires.

Olha c, meu Calisto, disse-me a Joanna Pedra, que ouvira dizer ao
Manuel da Loja, que ouviu dizer ao compadre Francisco Lampreia, que veiu
de Bragana que l lhe disseram que tu mandaras ir de casa de um
negociante mais de cem moedas de ouro!!! Fiquei estarrecida. Pois tu l
no recebes do rei dinheiro que te sobre? Em que affundes tu tantas
moedas, homem? V l no que andas mettido, Calisto! E, se te fr muito
necessario algum dinheiro, c estou eu para t'o mandar. Aquelle caixote
de peas de duas caras fui ha dias escondl-o na lareira da cosinha
velha, porque tenho medo  ladroeira desde que tu andas por l.

No te enfado mais. Responde sem demora, que estou muito consternada.

  Tua mulher que muito te quer
  _Theodora_.

Calisto Eloy dobrou a carta vagarosamente, e disse de si para comsigo:

--Pobre mulher! j me sinto enfadado com as tuas cartas... J as tuas
sinceras babozeiras me incommodam e enjoam!... Agora vejo que tu eras
quasi nada na minha vida. No sei em que logar do meu corao estiveste,
porque no dou pela falta, nem sequer a saudade me chama para ti!... Os
contentamentos da minha vida passada deu-m'os o estudo. O corao dormia
como os ventos da tempestade no bojo da nuvem negra, que serenamente se
vae acastellando no horisonte. Eil-a comea a desfechar agora relampagos
e coriscos. Mas o viver  isto! eu quero e preciso amar. Levam-me os
impetos de uma vontade juvenil, e a vontade  vida como diz o Jorge
Ferreira na Eufrozina. Amor! amor! que me caldeaste e retemperaste o
peito nas tuas forjas! emborca-me os teus nectareos phyltros,
embriaga-me este corao, que j no pde respirar de afogado nos seus
ardores!...

Disse, e tirou de uma charuteira de canudos de prata um havano, cujas
ondulaes de fumo lhe perfumaram o quarto e subtilisaram a phantasia.

Depois, com forado tregeito, estendeu o brao sobre uma banqueta de
charo, em que assentava um tinteiro de crystal, e escreveu  esposa,
n'este theor:

Prima Theodora e estimada esposa.

Passo bem de saude; mas saudoso de ti. No te tenho escripto, porque os
negocios do estado me levam todo o tempo. Mandei vir dinheiro de
Bragana, para emprezas de grande vantagem. No te d cuidado os meus
gastos, que somos muito ricos, e no temos filhos. At aqui vivemos
miseravelmente, quando eu voltar a casa, quero que mudes de vida, prima.
Hei de reformar o nosso palacete de Miranda, e viveremos como nossos
avs, com representao e commodidades proprias d'este tempo.  preciso
gosarmos a vida, que  curta. No andes por l a medir gro nem a tratar
das aves. Entrega isso s criadas, e faz-te a senhora e fidalga que s.

Em quanto ao mestre-escola, e  sua exigencia do habito de Christo, devo
dizer-te que o mestre-escola  um asno. No respondo a taes cartas.
Manda-o  tabua, e no admittas similhante palerma  tua conversao.
Lembra-te que s uma Figueira, casada com um Barbuda.

Se receberes ordem minha, em mo de algum negociante de Bragana, paga o
dinheiro que disser a ordem.

No te lembres de infidelidades do teu Calisto. O primo Gamboa  um
patarata sem juizo, que te diz essas coisas para te disfructar.

Quando vier o recoveiro de Miranda, manda-me presunto, salpices, e
algumas ancoretas do vinho da Ribeira.

  Teu muito affecto e extremoso
  _Calisto_.




XXIV

*A mulher fatal*


s tres horas em ponto, parou uma sege de praa,  porta de Calisto Eloy
de Silos. O bolieiro subiu ao terceiro andar, perguntando se s. ex.^a
estava em casa. O morgado arregaou com o pente as mechas do cabello,
que lhe escondiam poro das escampadas fontes, apertou os cordes do
rob-de-chambre na volta mais airosa da cintura, e desceu ao pateo a
receber a visita.

Saltou da sege, amparando-se levemente na mo de Calisto, uma mulher
d'aquellas que Lucifer fazia, quando assaltava no deserto a pudicicia
dos Antonios, dos Paulos, dos Pacomios e Hilarioens.

Era alta e pallida: rutilavam-lhe os olhos como lustrosos azeviches 
flor de um busto de marfim, algum tanto emaciado. Calisto machinalmente
levou a mo ao corao: traspassara-lh'o uma azagaia electrica.

-- muita delicadeza da parte de v. ex.^a, disse Iphigenia.

--Oh, minha senhora!... tartamudeou o morgado da Agra, offerecendo-lhe o
brao.

--Parece, tornou ella quando iam subindo, que o meu palpite no me
enganou...

--O palpite de v. ex.^a?

--Sim... eu contava com um cavalheiro no rigor da palavra... Delicadeza
egual ao talento, qualidades que raras vezes se conformam.

Entraram  sala. O morgado conduziu Iphigenia ao soph, e disse com voz
tremida:

--A que devo eu a honra d'esta visita, minha senhora?

--Abreviarei a minha historia e a minha preteno. As suas horas deve-as
v. ex.^a ao bem da patria, e indiscreta fui eu obrigando-o a estar fra
do parlamento a esta hora...

--Minha senhora... que vale a patria, em comparao da honra que v.
ex.^a me d?! atalhou Calisto Eloy, com o corao nos labios a sorrir.

--Sou brazileira. Pela falla me ter j conhecido...

--Sim: eu estava notando no fallar de v. ex.^a, uma graa indisivel...

--Meu pae era portuguez, capito de mar e guerra. Foi de Portugal com D.
Joo VI, e casou no Rio de Janeiro, com minha me, senhora de boa
linhagem, mas de pouquissimos recursos. Nasci em 1830, e casei em 1846
com um official general, do exercito do imperador do Brazil. Meu marido
tinha sessenta e seis annos. Emigrra em 1834, com a patente de
brigadeiro dada por D. Miguel, tendo sido coronel ainda no reinado de D.
Joo. Gonalo Telles offereceu a sua espada e intelligencia a Pedro II,
serviu bravamente o imperio, e subiu em postos. Eu vivia orph de pae e
me, na companhia de parentes maternos, que pensavam constantemente em
me dar posio. Casaram-me, e, se me no fizeram feliz, deram-me pae,
amigo e mestre na pessoa de Gonalo Telles.

Ha dois annos que meu marido morreu. Deixou-me pouco, porque ninguem
pde grangear muito com honra, principalmente na vida militar. Pouco
antes de cair enfermo, me disse que, se algum dia me faltassem recursos
e beneficios do governo brazileiro, viesse a Portugal e procurasse o
amparo de alguns grandes fidalgos, seus parentes que elle me nomeou um
por um; e ajuntou que, se os parentes me no amparassem, pedisse ao
estado uma tena em atteno aos muitos servios que elle fizera 
patria em trinta annos, at ao dia em que foi promovido a coronel de
cavallaria.

Ha tres mezes que cheguei a Lisboa. Procurei os parentes do meu marido.
Apeei  porta de grandes palacios, e esperei largas horas em grandes
salas de espera, como viuva que anda requerendo esmola. Enganaram-se.

Alguns, por mais tractos que deram  memoria, j no conseguiram
lembrar-se de Gonalo Telles de Teive Ponce de Leo; outros, os mais
velhos, recordavam-se do sujeito, e lastimavam que elle deixasse o
servio da patria. Quando eu no tinha mais que lhes dizer nem elles a
mim, eu levantava-me, elles levantavam-se, e despediamo-nos
cerimoniosamente. A altivez com que eu os despreso, sr. Barbuda,
authorisa-me a dizer-lhe que os miseraveis so elles: eu tenho comigo a
riqueza do meu orgulho; e, se conservo os appellidos de meu marido, 
porque elle foi talvez o unico de sua raa que os no desdourou...

--Diz v. ex.^a muito bem--atalhou Calisto.--Que nobre alma as suas
palavras me manifestam!

--Ha dias, por no ter de portas a dentro coisa que me distraisse de
pensares melancholicos, fui ao parlamento. Segui umas senhoras que iam
subindo para as galerias. Um homem pediu-me o meu bilhete de admisso:
eu no tinha bilhete, e ia descer algum tanto envergonhada, quando um
deputado cortezmente me disse: aqui tem uma entrada, minha senhora.
Agradeci, posto que a minha vontade seria regeitar. Entrei, quando v.
ex.^a comeava a fallar. Impressionou-me a sua eloquencia ch, os seus
ares graves, a compostura, um no sei qu mais srio que os seus annos,
permitta-me assim fallar. E, ao mesmo tempo, lembrou-me a recommendao
de meu marido, respectivamente aos direitos que elle tinha de ser
remunerado na pessoa de sua viuva. Eu nada sei de leis nem consultei
quem as soubesse; ignoro se tenho direito a reclamar o que meu marido
nunca reclamou. V. ex.^a pde de prompto responder-me?

--No, minha senhora. O que eu de prompto posso asseverar a v. ex.^a 
que, em honra da memoria e cinzas do honrado brigadeiro do sr. D.
Miguel, no erguerei minha voz humilde no parlamento, pedindo aos
inimigos de D. Miguel favores para a viuva de Gonalo Telles.

--Em tal caso...--balbuciou D. Iphigenia--baldou-se a minha preteno.

--Queira v. ex.^a ouvir-me...--Molesta-se com o fumo do
charuto?--perguntou elle erguendo-se.

--No, senhor.

Calisto accendeu o charuto com ademanes theatraes, e voltou a sentar-se,
proseguindo:

--Se o marido de v. ex.^a houvesse profundamente estudado a sua arvore
genealogica, ajuntaria alguns nomes, mais obscuros mas no menos
antigos,  lista dos parentes em Portugal. Mais obscuros, digo eu;
porm, a illustrao dos mais claros no  de invejar, minha nobilissima
senhora. Entre aquelles que se honram do parentesco dos Telles, dos
Teives e ainda dos leonezes chamados Ponces de Leo, ha um que dispensou
estes appellidos por se no demasiar em composturas nobiliarias. E esse,
minha senhora e prima, sou eu.

--V. ex.^a?!--acudiu Iphigenia.

--Eu, que no costumo fallar de meus antepassados, sem invocar o
testemunho dos tratadistas nobliarchicos, dos chronistas, dos
genealogicos impressos e no impressos. Devo poupal-a a discursos, alis
curiosos, de agradaveis e historicas noticias: mais tarde v. ex.^a
ouvir com interesse as allianas travadas entre os meus maiores e os de
meu parente Gonalo Telles de Teive. Achou, pois, v. ex.^a um parente em
Portugal. Boa estrella nos fez confluir a Lisboa; em boa hora me deixei
vencer das instancias dos meus constituintes.

--Eu estou maravilhada!...--exclamou Iphigenia--Ha presentimentos
prodigiosos!... Que fora estranha era esta que me impellia para v.
ex.^a!? Subi as escadas de sua casa com desusada affoiteza. Comecei a
fallar-lhe com segurana e tranquilidade extraordinarias! No me lembrei
que estava diante de um cavalheiro, que podia intender-me falsa e
desairosamente... Em fim, eu fallava a v. ex.^a como se deve fallar... a
um primo.

--E mais que tudo a um amigo. E, como amigo, ouso perguntar a v. ex.^a
qual  actualmente a sua situao.

--Francamente responderei. Entrei em Lisboa com dinheiro, que poderia
bastar  minha economica subsistencia de dois annos; porm, como ao fim
de tres mezes, no se me antolhava amparo de ninguem, nem esperanas de
alcanar a paga dos servios de meu marido, pensei em trabalhar para no
exhaurir o peculio que tinha. Li um annuncio, convidando mestra de
linguas ingleza e franceza para collegio. Confiei bastante em mim, e
apresentei-me aos directores. Fallei francez, e cuidaram que eu nascra
em Frana; em quanto a inglez, deram-me como bastante conhecedora da
lingua. Pareceu-me que a minha posio melhorava; mas enganei-me. Eu
levava comigo o fatal condo de algumas mulheres; dizem que ainda no
estou velha nem feia...

--Que favor lhe fazem, minha senhora!--atalhou Calisto mui risonho.

--Pois este accidente, de que tanto se desvanecem algumas mulheres,
tornou-se para mim supplicio. No querem crr que eu envolvi meu corao
na mortalha de meu marido, no tumulo d'elle o fechei; e, se podesse,
este resto de formosura atirara quella campa, que me roubou um pae.

--Ento  certo que minha prima abjurou todas as alegrias do
corao?--perguntou Calisto, j ferido n'alma por este desengano 
paixo que o ia queimando com um crescer e desenvolvimento para pavores!

--Todas as que no condigam com a minha situao de viuva.

--Pois se a Providencia lhe deparasse um marido digno...

--Maridos dignos so unicamente aquelles que affagam como a filhas as
mulheres; so aquelles que as mulheres estremecem como paes; so os que
concentram todo o seu viver no pequenino ambito da familia, na placidez
e silencios de almas que se contemplam mudas, quando as vozes do corao
j no tem que dizer. Eu experimentei estes contentamentos ao lado de um
pae, que me deu todo o seu saber quando j no tinha foras para manejar
a espada. No se podem repetir as situaes do meu passado; lembro-as
com saudade; mas no cogito nem levemente em revivl-as. Aqui tem v.
ex.^a a sincera exposio do que sou. Veiu isto a dizer-lhe que a vida
de mestra, que adoptei, me  golpeada de desgostos e repugnancias que me
fazem desgraada.

--E como seria v. ex.^a feliz?--interrompeu Calisto.

--N'uma casinha entre duas arvores, com os meus livros e com as minhas
saudades. Ambiciono muito, porque ha pessoas abastadas que nunca puderam
conseguir esta felicidade, to moderada apparentemente.

Ergueu-se Calisto Eloy de golpe, avisinhou-se da brazileira, tomou-lhe a
mo com solemnidade, e abriu do peito estas graves e doces vozes:

--Prima Iphigenia, eu no permittirei que a sua mocidade v
emmurchecer-se n'uma casinha entre duas arvores. Para as arvores e
flres se fizeram as aves; e, todavia, na estao desabrida, umas aves
desferem remontado vo a outros climas, e outras pipilam enfezadas de
frio e fome. Na estao das manhs regorgeadas e das tardes inspirativas
ter v. ex.^a a sua casa bem assombrada de arvores e rodeada de relvas e
fontes que retemperem as calmas do estio. Porm, no inverno, gosar o
aconchgo e regalos que as grandes populaes offerecem. No lhe admitto
replicas, prima. Achou um parente de edade authorisada, que requer
obediencia. Agora, fallar-lhe-hei de mim. Sou rico, no tenho filhos,
com quanto seja casado...

N'este ponto do discurso, Calisto de Barbuda fez ama visagem funebre, e
correu os dedos vertiginosamente por sobre o bigode, ainda escasso.
Depois, desentranhou um suspiro cavo, e continuou:

--Minha prima e mulher, se alguma vez se encontrar com v. ex.^a
abrir-lhe-ha os braos de parenta.  uma creatura feita no campo, dotada
apenas das luzes naturaes, que a levam pelo melhor caminho da felicidade
n'este mundo. Casei, por que era necessario que o vinculo dos Figueiras
voltasse  casa d'onde sara. Acho-me ha vinte e alguns annos ligado 
mulher, que no devia ser minha. E, se ella  feliz, isso prova a muita
probidade e resignao com que me tenho conformado ao meu destino...

Fez uma breve pausa, e proseguiu:

--V. ex.^a deu largas  sua alma: consinta que eu seja avaro do prazer
de uma expanso.

--Porque no ha de sl-o?--accudiu D. Iphigenia, interessada na
commovente historia.

--No sei o que  felicidade. Tenho quarenta e quatro annos, e ainda no
vi uma aurora benigna. Muitos annos procurei aturdir-me no estudo.
Roa-me o abutre de um desejo vago; mas eu, que me segregra do mundo
para o escondrijo da minha bibliotheca, se s vezes passava de relance
entre mulheres, que poderiam espertar-me paixes, fitava n'ellas como
idiota que perdeu a memoria da terra natal, e se quda espantado das
coisas que ligeiramente lhe espertam a lembrana. Se alguma vez me
surpresou algum sentimento estranho de affecto, podia tanto comigo a
consciencia da sujeio ao dever, que o mesmo era cerrar os ouvidos da
alma ao quer que era, entidade dupla, que me segredava delicias de uma
vida incognita. Estas breves e poucas pelejas, com o discorrer dos
annos, cessaram. Eu tinha consummado a paralysia do corao, e chamado
sobre mim todos os habitos da velhice. A minha vinda para Lisboa foi o
resurgimento da vida, sepultada antes de haver consciencia de si.
Achei-me entre homens, aquecidos  luz d'este seculo. Na athmosphera
d'esta cidade ha perfumes que vaporam do corao das esposas amadas, das
amantes queridas, das pombas ideaes, que volteam  volta dos espiritos
anhelantes de cada homem. Pulou-me como arfar de vulces a vida no
peito. Vi-me no passado, e tive pesar, e saudade, e pejo da minha
mocidade... Onde vo estas candidas revelaes do meu pobre corao? No
na enfadam porventura minha senhora?

--Interessam-me e commovem-me--disse com affectuosa sympathia a
brazileira--Vae dizer-me que se apaixonou?

--Tive um delirio--respondeu o morgado, compassando as palavras em tom
muito do intimo--Um delirio, sonho de infeliz, que se desperta a
arrancar do seio uma frecha. Foi o estremecer do terremoto, que alarma
terrores, e se aquieta. Medi a profundeza da minha alma, e pude vr que
eu seria capaz de um crime... E, todavia, se algum seio de mulher
podesse comprehender quanta pureza sanctificava os meus affectos!... Se
alguem visse a aguia que por to alto avoeja, sem descer s searas a
roubar um gro!... Fallo a um espirito elevado, que tem obrigao de me
comprehender... Agora, senhora, perdo! Eu disse tudo: confessei-me
diante de um anjo de Deus. Mostrei-lhe o desamparo d'este meu viver. E,
se estas lagrimas alguma coisa significam,  uma supplica de amizade. Eu
vejo ahi uma formosura que dobra a alma, e ouso procurar o
compadecimento de uma amiga, porque sei agora que ha mulheres, diante
das quaes um homem precisa chorar.

Calou-se o morgado. Iphigenia encarava n'elle com certo assombro e
estranheza de pessoa que no pde, nem quer conhecer dos sentimentos que
a alvoroam. O inesperado remate d'este dialogo figurou-se-lhe a ella a
passagem de um romance, que se no presa de muito verosimil. Porm, como
quer que a viuva do general Ponce de Leo fosse grandemente lida em
novellas francezas, o caso no lhe pareceu to extraordinario como ao
leitor e a mim, quando m'o referiram.

Passados momentos, Iphigenia, contemplando, sem as vr, umas figuras
chinezas do seu leque, disse:

--De maneira que esta appario imprevista de uma mulher desafortunada,
se deu logar  expanso, tambem foi causa a uma dr de v. ex.^a!...

Calisto entrelaou os dedos em postura supplicante, e exclamou:

--Chovam-lhe os archanjos do Senhor quantas felicidades a
bem-aventurana encerra! Nunca uma nuvem escura lhe ennegrea os seus
sonhos de felicidade! Multipliquem-se em alegrias eternas para v. ex.^a,
estes instantes de ventura que me deu, minha misericordiosa amiga!

Nenhuma paixo subita estalou ainda com estrondos d'este tamanho. A
gente comprehende como estas coisas acontecem; casos se podem ter dado
comnosco da mesma natureza, mas o que ns no fizemos nunca, se o amor
nos assaltou de improviso, foi fallar assim, romper to depressa em
vehemencias de enthusiasmo. Ns, homens creados mais ou menos por salas,
affeitos a subordinar o sentimento s praticas da civilidade,
desafogmos em extasis e suspiros, contemplamos embellezados a mulher
que nos endoudece, respondemos com frioleiras gagas a uma pergunta, que
nos ella faz com toda a presena do seu espirito. Toda a lastima  pouca
para os ridiculissimos tregeitos que fazemos ento.

Ora, isto  bom que assim continue a ser. Esse quarto de hora de suprema
realeza das mulheres  tudo que ellas tem, e pouco mais. Esse espao de
fascinao, que nos embrutece,  a divinisao d'ellas. s pobresinhas,
quando o tempo as apa dos altares, e os maridos convertem a prata dos
thuribulos em caixas de rap, fica-lhes sempre a memoria consolativa
d'aquelle quarto de hora.

Tornando ao ponto, queria eu dizer, que o morgado da Agra de Freimas no
fallaria d'aquelle modo, nem to do intimo da alma apaixonada, se
tivesse experiencia dos usos da boa sociedade. Os bons usos ordenam que
o homem se declare  mulher que ama, depois que as impresses repetidas
de vl-a e ouvil-a bajam desfalcado o vigor do sentimento. A praxe
requer primeiro o extasis, depois as semsaborias tratamudas, ultimamente
a declarao, com intervalo de tres mezes ao extasis.




XXV

*Perdido!*


Fecharam-se as camaras.

Calisto Eloy desamparra a sua cadeira do parlamento, quinze dias antes
de encerrada a legislatura. Era opinio geral que o deputado de Miranda,
desgostoso do governo e da opposio, se retirara, convicto da fraqueza
de seus hombros contra o colosso, que tombava sobre o desangrado
Portugal.

As gazetas realistas indigitavam Calisto como exemplo de peito illustre
e invulneravel no marnel de febres podres em que ardiam e patinhavam
miseraveis ambiciosos. Deram-lhe,  conta d'isso, varios nomes gregos e
romanos, que lhe ajustavam to a primor, como a verdade historica 
legenda das fabulosas virtudes de Grecia e Roma. A opposio liberal
lamentava que as medidas obnoxias e hybridas do governo afugentassem da
camara um deputado como Benevides de Barbuda, a cuja alta intelligencia
e virtude repugnavam os desatinos da camarilha. Calisto Eloy lia estas
coisas nas gazetas, e dizia entre si:

--Como hei de eu crer no que vejo escripto a respeito dos outros!...

Ao tempo que estes juizos dos publicistas eram impressos e mandados 
posteridade, estava o morgado da Agra no hotel de Cntra, cuidando em
alugar e trastejar com elegancia britannica uma casa, entre moitas de
arbustos, a qual parecia feita para a rainha das flores ou para
repousar-se em fresca sesta a aurora.

Decoradas as paredes interiores, cobertos de oleado os pavimentos, e
afestoadas as paredes exteriormente com lilazes e jasmineiros, baunilhas
e eras de verdejante urdidura, entrou n'aquella casa D. Iphigenia,
conduzida pelo brao de Calisto, e seguida de uma senhora de porte
honesto e recommendavel, que vinha a ser aquella D. Thomazia Leonor, em
honra de quem as musas do defuncto tenente suspiraram acrosticos. Mais
atraz, iam duas criadas, e um servo fardado de casimira cr de pombo,
com gola e canhes escarlates, golpeados de listas amarellas,
distinctivos da libr dos Ponces de Leo de Hespanha.

Iphigenia foi surprehendida pelo seu gabinete de estudo, decorado de
graciosas estantes e _tagres_, cheias de livros luxuosamente
encadernados, acondicionados com to elegante symetria que induziam
muito mais  contemplao que  leitura. O restante d'aquella vivenda de
fadas era por egual magnifico, em gosto e riqueza.

Calisto deu posse da casa a sua prima, e retirou-se ao hotel, para que
ella sestiasse e se recobrasse da fadiga e calma da jornada.

Ao descair da tarde, o morgado foi bater  porta d'aquelle eden.
Iphigenia saiu-lhe ao encontro com um ramilhete de flores, e disse-lhe:

--Aqui tem as primicias do seu jardim, primo.

Calisto aspirou o aroma das flores, osculou a mo que lh'as offerecera,
e murmurou:

--Fechem-se os meus olhos, quando eu as poder vr sem lagrimas de
gratido.

--Lagrimas... para que?--Volveu ella com meiguice.--As lagrimas
deixemol-as aos infelizes. O primo no comparte do meu contentamento?
No v que me realisou o meu sonho com tamanho excesso de delicias, que
eu no me atrevera, sequer, a imaginar? Sinto-me ditosa!... Ainda no
quiz pensar um instante se estas alegrias podem descair em magoas...
Estou sonhando, e no quero que me acordem. Seria crueldade dizerem-me
que ha viboras debaixo d'estas alcatifas de flores. Isto deve ser
paraizo sem culpa, ignorancia santa do porvir sem pomo de arvore da
sciencia que m'o descubra. No  assim?...

--Que fallar o seu prima!--disse com vehemente, mas suffocado amor, o
morgado--Que melodias!... Eu no sei responder-lhe... Apenas sei
escutal-a. N'uma composio dramatica de S de Miranda, chamada
_Vilhalpandos_, ha um epitheto dado a uma mulher, o qual eu no podia
perceber, sem que o baptismo das doces lagrimas me chamassem o corao 
vida.

--Sempre lagrimas!...--atalhou Iphigenia--Ento que  que diz o S de
Miranda?

--Na bocca de um amante, que encontra a sua amada, pe estas palavras:
mulher santissima. Quem disse mais n'este mundo? os seus poetas
francezes disseram coisa mais peregrina?... E n'esta mesma scena, poucas
linhas abaixo, diz o amante a Fausta: Sabes que sonho?. Que immenso
amor devia de ser o de Antonioto, que assim perguntava  vida de sua
alma: Sabes que sonho?

--_Fausta_!...  um nome lindo, disse a mimosa viuva.

--Se no existisse Iphigenia...--accudiu Calisto. J este nome me soava
docemente quando, na minha mocidade relia as angustias da filha da
Agamemno, cujo sacrificio o oraculo de Aulida demandava.

--Ah! tambem eu conheo essas angustias da tragedia de Racine. Quantas
vezes eu, nas minhas horas tristes, repetia com a Iphigenia do grande
poeta francez, e com o espirito na alma de minha me, assim como ella o
tinha no afflicto rosto da sua:

  _Ah!
  Sous quel astre-cruel avez-vous mis au jour
  Le malheureux objet d'un si tendre amour?_

O primo, continuou ella, conhece perfeitamente Racine e Corneille?

--Perfunctoriamente. Conheo melhor Euripedes e Seneca. Pendi sempre 
lio de classicos gregos, latinos e portuguezes. Cr-se nas provincias
que o saber humano est n'isto. Os francezes comeo a presal-os agora,
porque... no ha linguagem que no se divinamente fallada por minha
prima.

--Essas lisonjas--volveu ella sorrindo--aprendeu-as nos seus livros
velhos, primo Calisto?

--A lisonja deixar alguma hora de ser mentira?... Eu no podia
mentir-lhe, prima Iphigenia. No!... Os meus classicos s me ensinaram
duas palavras, que eu possa dizer-lhe: Mulher Santissima!

Iphigenia deixou-se amorosamente beijar nos dedos.

A natureza de Cintra, incluindo os rouxinoes d'aquellas ramarias,
poderia espantar-se: eu, no.




XXVI

*E ella amava-o!*


Era j pleno estio. Os galans mais hardidos de Lisboa estanceavam por
Sitiaes, por Pises, e por aquellas varzeas de Collares, a engarrafar
lyrismo para gastarem por salas nas noites de inverno.

O primeiro d'elles que descortinou por entre arvores a formosa
brazileira foi alviarando aos outros a ondina incognita, que saira das
vagas a buscar camilha de folhagem e boninas entre as fragas da serra da
lua.

Entram os agitados monteiros da estranha caa a circumvagarem nas
encostas e oiteirinhos que rodeavam a vivenda de Iphigenia. Uns a viam
ao sol posto, outros ao arraiar da manh, e outros, quando ella
perpassava por entre aleas de cylindras para uma gruta fechada como
concha de perola.

A presena de Calisto Eloy, confundido com os arbustos floridos da
casinha mysteriosa, augmentou a curiosidade dos indagadores. Uns
consideraram esposa do deputado a bella esquiva; outros aventaram
hypotheses mais romanticas, mas menos honestas.  primeira conjectura
oppunha-se uma forte razo negativa: se era marido, porque vivia no
hotel do Victor?  segunda conjectura, contradictava outra razo
ponderavel: se era amante, que descuidado amante era elle, que se
encerrava no seu quarto do hotel, durante as noites,--facto averiguado
minudenciosamente pelos interessados? O mysterio, pelo conseguinte, a
nublar-se, e as esporas de uma curiosidade impaciente a picar os moos
ociosos, e os ricassos velhos, que espreitavam por entre a rede das
sebes verdejantes, esta Susana, mais cuidadosa do que a outra, que
accendia fogos nos lubricos juizes de Israel.

Entre os mancebos, estremava-se um, que passava grandes espaos de tempo
em quietismo esculptural debaixo de um olmo, que sobranceava a casa de
Iphigenia. Sempre que ella,  hora da maior calma, se aproximava da
janella do seu gabinete a respirar o frescor do jardim, via o
contemplativo sujeito de braos cruzados, e olhos fitos. Mas, assim que,
ao intardecer, os arredores da casa comeavam a ser frequentados, o
moo, como quem se resguarda, desapparecia.

Era este sujeito aquelle Vasco da Cunha, que esperava a herana de uma
tia para casar com Adelaide Sarmento. Os olhos indifferentes de
Iphigenia assetearam-lhe a pia alma, n'um d'aquelles dias em que elle
viera de Lisboa a Cintra para assistir  novena de Santo Antonio de
Padua, celebrada solemnemente na capella de uma tia marqueza. Ou porque
o ascetico fidalgo andasse com o corao amollecido pelas praticas
piedosas, ou porque Iphigenia se lhe figurasse algum d'aquelles
seraphins que visitavam os anachoretas da Thebaida, o certo  que no
houve mais despegar-se-lhe a phantasia d'aquella imagem, que se
interpunha entre elle e o santo filho de Martim de Bulhes.

Iphigenia attentou na pertinacia do homem, e contou ao primo Calisto,
gracejando, a tempestade amorosa que lhe andava imminente na pessoa
d'aquelle sujeito. Assomaram differentes cres ao rosto do morgado.
Quizera elle dissimular o sobresalto com o sorriso: mas a rubidez
sanguinea dos olhos, se o dramaturgo inglez a visse, arranjaria
d'aquelle aspeito feroz assumpto para mais scelerado preto.

Iphigenia lisongeou-se d'aquella exploso de lavas que archejavam na
testa do homem.

_Lisongeou-se_!... Pois amava-o ella?!

No sei com que direito me fazem esta pergunta assim com uns visos de
espanto! Amava-o como quem no tinha amado nunca. E para lisongear-se de
incutir ciume no lhe fra mister amal-o, digamol-o de passagem, e em
nome da consciencia incorruptivel das senhoras, cuja atteno e reparo 
felicidade que eu anteponha a todas.

Amava-o, sem pensar os beneficios extremamente delicados com que elle
lhe dulcificava a existencia. Amava-o captiva do quer que  que primeiro
prende a vontade da mulher, sem dependencia dos dons da alma. Calisto
Eloy de Silos estava uma esbelta figura de homem. A cara compuzera-se
arabicamente. O bigode cerrado e negro caa-lhe sobre as claviculas. O
descostume da leitura restituira-lhe o aprumo da espinha dorsal. O
ventre baixou s propores rasoaveis. No trajar; refinava em elegancia
e gosto, subordinando-se ao alvitre do alfaiate. Todo aquelle ar de
meneios, posturas e geitos accusava os fidalgos espiritos, resgatados da
brutesa da antiga vida. Pde ser que alguma affectao lhe maculasse os
modos e garbo das attitudes: sem embargo, o senhor da Agra de Freimas
era homem para merecer, sem favor, a considerao de qualquer dama
superciliosa na escolha.

Se isto no bastasse a ponderar no animo de Iphigenia, mal poderia
resistir-lhe o corao aos respeitos, porventura demasiados, com que
elle interpunha largo stadio entre as expanses da palavra e o minimo
vislumbre de qualquer intento menos decoroso. Casos houve era que ella o
surprehendeu com os olhos marejados de lagrimas e um sorriso nos labios,
sorriso supplicante, de perdo para as lagrimas. Casos houve em que ella
sentiu ferver-lhe o desejo de lhe pedir que, em vez de lagrimas, lhe
desse um beijo na face, um d'aquelles beijos, que no tiram nada 
formosura do corpo nem da alma, porque no rosto augmentam o rubor--o que
 bello--; e na alma convencem a consciencia da adorao--o que 
sublime. Difficil coisa ser achar a virtude que se furta a estes
conflictos! Virtude, que se esconde e encolhe para no ser alcanada
pela flecha de um beijo, s vezes acontece que, por muito esquivar-se,
apouca-se, vapora-se, safa-se e ninguem sabe como ella se foi, nem como
 possivel que um vaso fechado de essencias aromaticas apparea vasio
sem ter sido quebrado. Este caso, naturalmente, anda explicado na
esthetica. Eu hei de vr o que  isto quando tiver vagar.

Vamos j rodeando por longe dos ciumes de Calisto Eloy. Revertamos ao
assumpto.

Iphigenia tomou-lhe amorosamente da mo e disse-lhe:

--Meu primo, eu no quero lr em sua alma uma pagina que se no
assimelha s outras.

--Pois que , prima?... perguntou elle enleado e tremente.

--Eu no quero ter de justificar-me, tornou ella balbuciante.

--Justificar-se....

--Sim. Duas palavras que bastem a definir-me. Se eu perder a sua
amizade, quero morrer. Veja quanto eu farei para lh'a merecer.

Calisto dobrou o joelho, e beijou a mo, que lhe estreitava
calorosamente, a d'elle.

Seguiu-se silencio de alguns minutos.

Se houvesse elos na cadeia da felicidade humana, o ultimo, a maxima
perfeio, devia prender com os gosos celestiaes. Esse ultimo elo no o
ha: se existisse, o morgado, n'aquelle instante, perderia a consciencia
d'esta vida, e entraria na exaltao beatifica dos anjos.

A fortuna dos coraes que desbordam da felicidade no amor, deve ser
aquella _Fortuna parva_,  qual Servio Tullio erigiu templos. Tito
Livio, a meu vr, toma o _parva_ no sentido de _baixa_ ou _pequena_: eu
traduzo latamente fortuna lorpa; porque no conheo, quem, n'uns
lances analogos ao de Calisto, mantivesse a inteireza de sua razo e
espiritos.  que o morgado no disse coisa que merea escriptura, elle
que to donosamente, em supremos apertos, face a face do dr. Liborio,
tirou da veia copiosa repuchos de eloquencia!

No dia seguinte, quando as aves abraseadas do sol das onze horas, se
embrenhavam nos tufos das ramagens, l estava Vasco da Cunha debaixo da
arvore.

 mesma hora, Calisto Eloy circuitava a parede da matta em que se
emboscava o religioso mancebo, saltava de manso, e quasi a subitas
passava rente d'elle hombro a hombro.

Vasco no conheceu o homem que o fitava com sobranceria. Tres mezes
antes se havia encontrado em casa do desembargador Sarmento com um
Calisto, que no tinha que vr com aquelle homem.

Sorriu-se o morgado, e disse-lhe:

--Costuma v. ex.^a intermear as suas novenas com a orao mental nas
brenhas e florestas,  imitao dos antigos padres? Ou est pedindo aos
deuses infernaes que lhe levem a alma da tia, e lhe deixem o vinculo da
mesma para poder maridar-se com a sr.^a D. Adelaide Sarmento?

Alumiou-se Vasco de uns longes de suspeita, e cuidou estar ouvindo a voz
mesurada e sonora de Calisto.

--O senhor... disse elle.

--Eu, que?--atalhou o morgado  suspenso do moo.

--Com que direito vem aqui incommodar-me?--tornou o mordomo das tres
virtudes cardeaes.

--No o incommodo, nem me incommodo. Dir-lhe-hei muito de relance que
mora alli n'aquella casa uma prima de um Barbuda, e accrescentarei que
tal dama no faz novenas a santo nenhum das particulares devoes de v.
ex.^a. Se o sr. Vasco da Cunha aqui voltar manh, continuaremos a
palestra.

Vasco no voltou.




XXVII

*A saudade e a sciencia em dialogo*


Dois mezes depois de fechado o parlamento, D. Theodora Figueira, farta
de escrever cartas, e de esperar respostas que lhe iam a razo de uma
por dez, mandou chamar aquelle Braz Lobato, professor de instruco
primaria, e, com os olhos vermelhos de chorar, abriu do peito oppresso
estas palavras:

--Que me diz vocemec sr. Braz,  demora do meu homem?

--Eu estou passado, fidalga!--disse o mestre-escola empunhando e
sacudindo o queixo inferior.--Seu marido, a minha opinio  que ficou
por l embeiado n'alguma mulher. Lisboa  uma Babylonia, fidalga. Quem
para l vae com um bocado de temor de Deus, perde-o; e quem no tiver
muito lume no olho, e alguns annos de tarimba e experiencia do mundo,
como eu, pde contar que em l chegando fica reduzido  expresso mais
simples.

--E que  ficar reduzido ... que? como disse vocemec? perguntou D.
Theodora.

--Quero dizer que d com as canastras n'agua. Foi o que succedeu ao
fidalgo, futura-se-me isto! Sabio era elle, mas faltava-lhe a pratica do
mundo. Foi uma asneira mandal-o a crtes; eu bem no queria... mas
emfim... tanto me azoinaram os abbades e os lavradores, que eu deixei-me
ir com os outros... (O impostor que tinha votado em si!) E que diz elle
nas cartas a v. ex.^a?

--L por milagre recebo alguma... Aqui tem vocemec a que veiu aqui ha
dias atraz. Ora leia l isso.

Braz montou os oculos de cobre, e leu:

Prima Theodora. Cessa de ter cuidado com a minha saude: eu passo
soffrivelmente. No me pude ainda desembaraar dos negocios do estado,
que me no deixam tomar flego.  vista te contarei o que tenho feito a
favor da nao. Tem tu saude, e descana da vida trabalhosa que tens. Ha
de ir ahi um sujeito de Bragana para lhe entregares oito centos mil
ris. Vende o gro todo que houver, e diz aos lavradores que por l tem
dinheiro a juro que eu preciso recolher essas quantias para negocio de
mais interesse. Teu primo e affectuoso marido _Calisto_.

Ahi tem vocemec!--continuou a esposa atribulada, com os braos em cruz
e as mos nos sovacos.--O dinheiro, que ha sete mezes tem saido d'esta
casa,  um louvar a Deus! Ainda o dinheiro v que o leve a breca! mas
andar-me por l o marido, o meu homem, que d'antes, se ficava uma noite
fra de casa, era l uma vez de anno a anno, e dizia elle que no estava
bem seno  beira de sua mulher!... Que me diz a isto sr. Braz? Ento
vocemec  de parecer que elle est por l embeiado? Pois o meu Calisto
seria capaz d'isso?!

--Olhe fidalga--respondeu o professor de instruco primaria fazendo com
os beios um bico e logo um arco, tregeitos meditabundos com que elle
usava solemnisar os dizeres graves.--Um homem c nas aldeias  uma
coisa, e nas cidades  outra. Eu corri mundo, e sei o que fui. As
mulheres das cidades tem umas artes e manhas, que, se um homem se no
precata, s duas por tres, no sabe de que freguezia . Ainda que a
gente no queira aquelles demonios taes esparrelas armam, que no ha
remedio seno cair em fragilidades proprias da fragil natureza humana,
como o outro que diz. O sr. morgado j no  rapaz; mas tambem no 
velho. Aquillo, em quanto a mim, e oxal que eu me engane, deu por l
com alguma menina que o embruxou...

--Sabe vocemec que mais--interrompeu com abrupta resoluo D.
Theodora--pgo em mim, metto-me n'uma liteira, e vou por ahi abaixo at
 capital.  o que eu fao!

--Essa ida precisa de ser pensada com prudencia--observou o
mestre-escola, erguendo-se, e dando alguns passeios na eira, onde
estavam dialogando--Se a fidalga fr, esta casa fica sem dono, entregue
 criadagem, e o sr. morgado pde zangar-se. De mais a mais, ora
supponhamos ns que o senhor seu esposo est, como elle diz na sua,
occupado em negocios do estado; a ida de v. ex.^a vae atrapalhal-o, por
que elle no a ha de deixar sosinha na estalagem. Depois a fidalga vae,
palavra puxa palavra, um diz uma coisa, outro diz outra, e afinal
desavem-se, e comeam a viver de esgulha. A minha opinio  que v.
ex.^a se deixe estar em sua casa, e espere a vr para onde correm os
ventos. Se elle por l anda com a cabea a juros, deixal-o pagar o
tributo, que elle cair em si. Antes isso que quebrar uma perna. L o
dinheiro isso  o menos. A casa d para tudo, graas a Deus. A fidalga
no sabe o que tem de seu. L em quanto ao marido, uma extravagancia no
lhe d nem tira. Salomo foi o mais sabio dos homens e teve trezentas
mulheres e setecentas concubinas, e mais acho que foi santo. David,
tambem era santo, e caiu tambem na fraqueza de amar a mulher de um
capito, general, ou uma coisa assim. As sagradas escripturas contam
muitos casos d'estes... Pois emfim, a fidalga no esteja ahi a chorar.
Seu marido ha de voltar so e salvo. O mais que eu posso fazer-lhe  ir
por ahi abaixo ter com elle, e desenganar-me por meus proprios olhos.

--Isso  que era bom, sr. Braz!--exclamou Theodora, limpando as lagrimas
ao avental de chita.

--Eu estou ainda com a ida ferrada do habito de Christo.  c uma birra
com o boticario, que disse ao cirurgio que eu havia de ser cavalleiro
do habito quando elle fosse papa. O sr. morgado no me responde s
cartas:  um ingrato d'aquella casta; mas, emfim, os favores que lhe fiz
na eleio no me arrependo de lh'os fazer... Emfim, fidalga, se v.
ex.^a quer, eu vou ter-me com o sr. morgado, e pde ser que venha com
elle para cima e com o habito.

--Est dito!--clamou Theodora--Vocemec vae, e eu fao-lhe as despezas.

--Isso l como v. ex.^a quizer... Eu, a fallar verdade, no estou muito
indinheirado, e alguns vintens que tenho todos me ho de ser precisos
para pagar os direitos da merc.

       *       *       *       *       *

Ahi vem Braz Lobato, caminho de Lisboa.




XXVIII

*Ingratido de um deputado*


Braz Lobato, antigo sargento de milicias, e antigo borra de frades
franciscanos, era legitimo homem para farejar Calisto em Lisboa. Cuidou
elle que encontraria o marido de D. Theodora de Figueira nos logares
mais celebrados e admirados da capital, segundo  fama nas provincias.
Como o no encontrasse na Memoria do Terreiro do Pao, foi procural-o ao
Aqueducto das Aguas-Livres. Depois de baldadas estas pesquisas, outro
qualquer sujeito desanimaria; Braz Lobato, porm, resolveu ir ao Pao
das Necessidades em busca do seu patricio, porque, no seu modo de julgar
as correlaes dos altos poderes do estado, Calisto Eloy devia
frequentar regularmente a casa real.

Perguntou o mestre-escola affoitamente  sentinella do pao se o
representante nacional, morgado da Agra estava em palacio. A sentinella
mandou-o entrar, e que perguntasse ao commandante da guarda. O
commandante mandou-o a um fidalgo que vinha descendo, e o fidalgo
interrogado mandou-o  fava.

Com o qu, Braz Lobato saiu  rua, e perguntou a um aguadeiro se alli
no morava o rei. E, como soubesse que a familia real estava em Cintra,
conjecturou que os deputados, e particularmente Calisto, deviam estar em
Cintra para de l governarem a monarchia.

Chegou o mestre-escola a Cintra, e descavalgou do jumento portador, 
porta do palacio. Fez as suas perguntas  sentinella com aquelle ar
marcial que lhe ficou das milicias. Esperou a vinda de um camarista,
velho fidalgo attencioso, que sorriu da supposio do provinciano, e lhe
disse que o deputado Calisto Eloy residia no hotel do Victor.

Chegado ao hotel,  hora mais de passeio, por fim da tarde, no
encontrou Calisto, e foi demandal-o nos logares mais frequentados.
Abeirou-se de um grupo de sujeitos, que inculcavam gente grave, e
perguntou por Calisto Eloy de Silos Benevides de Barbuda.

Esta pergunta coincidiu com o caso de estarem aquelles individuos
aventando hypotheses sobre a formosa solitaria, cujo ninho de folhas e
flores apenas Calisto de Barbuda frequentava.

O ar provinciano de Braz fez crr aos curiosos que o homem, sendo
patricio de Calisto, poderia esclarecel-os cerca da creatura
mysteriosa.

--D'onde conhece vocemec o sr. Barbuda?--perguntou um.

--Conheo-o desde menino, que  da minha terra, e eu sou o professor de
instruco primaria l do concelho do sr. morgado da Agra de Freimas.

--Ento, volveu outro, ha de saber se a senhora que est com elle em
Cintra  parenta d'elle, ou mulher ou amante.

--A mulher do sr. morgado ficou em casa; parenta no me consta que elle
tenha c nenhuma. Isso ha de ser negocio de contrabando, em quanto a
mim. Fazem favor vv. s.^as de me ensinarem o caminho da casa onde elle
est?

Conduzido  espessa cancella de ferro, que estremava o jardim do caminho
publico, Braz Lobato puchou a campainha. Fallou lhe um criado de libr,
o qual, perguntado se o sr. morgado estava em casa, respondeu que
n'aquella casa morava a viuva do general Ponce de Leo.

Dada a resposta, o criado rodou solemnemente nos calcanhares, e deixou o
mestre-escola com o nariz n'um orificio da grade, e os olhos n'outros
orificios, espreitando os massios de murtas, que escondiam a fachada da
casa.

D'ahi a pouco lobrigou elle entre os arbustos um galhardo homem com uma
senhora pelo brao, atravessando vagarosamente para um bosque de
aveleiras.

Fitou-se n'elle; mas no viu coisa que lhe dsse lembranas do fidalgo
da Agra. Cuidou que o tinham enganado os lisboetas, e desandou para a
hospedaria.

Novamente informado, resolveu esperar que o morgado entrasse s dez
horas, consoante o costume.

Sentou-se  porta do pateo.

Viu entrar um empavesado sujeito retorcendo as guias do bigode, com os
olhos postos na lua atravez de uma luneta. Levou urbanamente a mo ao
chapo. Calisto, divertido pela aco civil do sujeito, ia corresponder,
quando reconheceu o mestre-escola.

--Voc aqui, Braz! disse elle.

O professor arregaou as palpebras, e exclamou:

--Que vejo! a voz  a do fidalgo!

--Sou eu, no tenha duvida nenhuma.

Braz levou a mo  testa, e da testa ao peito, e de um hombro ao outro,
murmurando:

--Em nome do Padre, e do Filho, e do Espirito Santo! Coisa assim nunca
os meus olhos esperaram vr!... V. ex.^a  outro homem!... Eu estarei a
dormir! E esfregava os olhos, desconfiando seriamente que estava
dormindo.

--Entre c dentro, disse o morgado.

Entrados  sala, perguntou o fidalgo com um ar secco:

--Que novidade o traz aqui?

--Vim por ahi abaixo, afim de vr v. ex.^a, e ao mesmo tempo...

--Bem sei no que quer fallar. O habito de Christo, sim?

--No sendo coisa muito de costa acima...

--Ha de arranjar-se. E que mais?

---E que mais?...

Braz Lobato sentia-se como esmagado pelo tom rispido e sobranceria do
fidalgo. A conciso e rapidez das perguntas enleavam-no a ponto de o
engasgarem nas respostas.

--Como ficou minha prima? disse Calisto.

--Est muito contristada, senhor.

--Porque?

--So saudades. Ainda na vespera da minha vinda esteve a chorar na
eira... O melhor seria que v. ex^a viesse comigo para casa... Mas como o
fidalgo est mudado!... Ento v. ex.^a, pelos modos, era o mesmo que eu
vi, ao fim da tarde, n'aquella casa que tem porta de ferro! Bem me
diziam que v. ex.^a estava l com uma madama, e eu no o conheci.

--Aonde?--atalhou desabrido o morgado.

--N'aquella casa que tem muitas flores.

--Quem o mandou l?

--Uns fidalgos a quem eu perguntei por v. ex.^a

--E quem o manda perguntar por mim?! Quem lhe disse que eu estava em
Cintra?

--Foi no palacio do rei que...

--Ento foi-me procurar ao palacio do rei! O sr. Braz  parvo!... Bem.
Eu preciso recolher-me. Quer mais alguma coisa?

--No, sr. fidalgo... E v. ex.^a no quer nada l para a terra?--volveu
logo o antigo sargento com o nariz rubro de colera.

--No quero nada.

--Pois eu para c vou. Passe muito bem por c, e at l.

No pde ter mo de si o professor: voltou ao limiar da porta, que se
fechava, e disse:

--Sr. morgado...

--Que ?

--Eu, para a outra vez, elegerei deputado que me arrange o habito de
Christo. Faa favor de se no incommodar.

-- asno!--murmurou Calisto batendo a porta com impeto.




XXIX

*O demonio em Caarelhos*


Estava D. Theodora presidindo  limpeza do lagar em que se havia de
fabricar o azeite, quando Braz Lobato, ainda empoado da jornada, assumou
 porta, e chamou de parte a fidalga.

--O meu homem veiu!--exclamou ella.

--Faz favor de me ouvir aqui fra, disse elle  puridade.--E, retirados
ao escuro de um bosque de castanheiro, continuou:

--Seu marido est perdido, sr.^a morgada.

--Que me diz? bradou a pallida consorte.

--Estragou-se; d'alli ao inferno no tem mais que morrer.

--Credo! Ento que ?

--Seu marido est tolhido! A mulher que o roubou  patria, e  esposa, e
aos amigos, est l n'uma serra, cercada de arvores, e de grades de
ferro![21] Dizem que  a viuva de um general, e bonita como os serafins.
Eu ainda a enxerguei pelo brao do fidalgo; ia vestida de branco, e
parecia uma estrella.

--Ai! que eu estalo! clamou Theodora, apertando a cabea entre as mos.

--Seu marido, se a senhora o vir agora no o conhece. Est mais apanhado
do corpo; aquella barriga, que elle tinha, sumiu-se-lhe. Tem um bigode
muito grande, e aqui no queixo uma moita de pellos, como os bodes. Traz
os cabellos puchados para cima e retorcidos. Usa oculos  moderna, de
oiro, pendurados ao pescoo. O panno de roupa luzia como vidro, e andava
apertado n'ella e puchado  substancia que parecia espremido no peso do
lagar. Repito: a sr.^a morgada, se o vir, no o conhece.

--E ento elle est l com essa mulher? insistiu soluando a quebrantada
senhora.

-- verdade, l a tem como uma princeza. Agora j sabe a fidalga no que
elle estraga o dinheiro.

--E vocemec no lhe disse que viesse para sua casa?

--Ora se disse! chamou-me parvo e asno. Asno a mim fidalga! E eu
acommodei-me, porque no quero testilhas com doidos. Afinal, eu estava a
vr quando me empurrava pela porta fra! Aqui tem o que ha a tal
respeito. Sirva-lhe de governo, sr.^a morgada. Agora, faa por ter mo
na manta. A casa  grande; mas tem-se visto acabarem casas maiores. O
que a fidalga deve fazer  no deixar ir pela agua abaixo o seu
patrimonio.

--No, que eu vou a Lisboa!--exclamou ella batendo o p, e vibrando
murros contra o ar.--Vou a Lisboa, e fao l o diabo!... Ento a tal
mulher est n'uma serra? Vocemec disse que ella estava n'uma serra?...

-- serra; mas a terra  bonita. Ha por l arvores do comeo do mundo, e
cada pedao de jardim que dava trezentos alqueires de centeio. Chama-se
Cintra, e est l o rei e a fidalguia.

--Pois vou l, que o meu homem  meu--vociferou ella voz em grita.--Se
elle no quizer vir para casa, vou fallar ao rei e aos governos.

--Fidalga, pense bem no que faz, e oua o que lhe diz o senhor seu primo
Lopo de Gamboa, que sabe mais do que eu. D'aqui me vou a vr a minha
gente, e at amanh, fidalga.

Doida de afflico, a traida esposa mandou logo um criado  casa da
Verdoeira chamar o primo Lopo de Gamboa.

Este Lopo, bacharel em direito, homem de trinta e tantos annos, e sagaz
at  protervia, vivia na companhia do irmo morgado, comendo o
rendimento da sua escassa legitima de filho segundo. Tinha mo nome em
materia de mulheres. A bruteza dos espiritos no lhe implicava o
exercicio de tramoias e bom palavriado com que mareara a reputao de
muitas moas, que,  conta d'elle, ficaram solteiras; e tambem de
algumas casadas, que no conservam as costellas todas.

Calisto desadorava este primo de sua mulher, em razo das suas ruins
manhas; no obstante, admittia-o ao seu trato familiar, e consentia que
Theodora, uma vez por outra, lhe dsse alguns pintos para charutos, j
que o morgado lh'os no dava, sem lanar o emprestimo a desconto da
legitima.

Theodora, com quanto o excedesse em edade uns quatro annos, tinha sido
creada com elle, e por suas mos lhe fizera o enxoval, que o primo Lopo
levou para Coimbra. Esta poesia de infancia converteu-se n'ella em
sentimentos benignos de generosidade para com as privaes monetarias do
sujeito, algumas das quaes lhe remediou liberalmente a occultas do
marido. Mais se afervorou a estima da prima Theodora, quando viu que
Lopo, na ausencia de Calisto, amiudava as visitas, e lhe fazia companhia
ao sero nas noites de inverno.

Mandou, pois, a esposa angustiada chamar o primo Lopo de Gamboa. J
raivosa, j em mavioso soluar, contou Theodora o que ouvira ao
mestre-escola.

--Bem t'o agourava eu, prima!--disse Lopo, concluidos os queixumes de
Theodora.--Eu sei o que so homens. Quando meu irmo morgado e outros
santarres me apontavam como exemplo as virtudes de teu marido,
dizia-lhes eu: Tirem-n'o da aldeia para Lisboa ou Porto, deixem-n'o l
estar dois mezes, e fallem-me depois  mo. O Calisto vivia bem com
todo o mundo e comtigo, Theodora, porque se apaixonou pela livralhada, e
encheu a cabea d'aquellas velhas arlas dos seus classicos, e no
queria saber de mais nada. E, alm d'isso, diz-me tu prima, que grande
amor era o d'elle por ti? Passavam-se dias e noites que o no vias,
seno enterrado na livraria. Nunca lhe vi fazer-te uma meiguice!

--Pois fazia; ests enganado, Lopo--atalhou D. Theodora, molestada no
instincto da sua vaidade de esposa.

--Parecia-te isso, prima, porque tu no viste ainda como os bons maridos
acariciam as suas mulheres. Nunca te levou aos banhos do mar, precisando
tu de tonicos; nunca te levou a festa nenhuma de Miranda nem de
Bragana; sendo tu a mais rica herdeira d'estes arredores, deixou-te
viver para ahi sujamente; a cuidar em sevados e gallinhas. As senhoras,
que no te chegam em fidalguia aos calcanhares, vivem  lei da nobreza,
visitam-se, tem os seus bailes, vo s romarias ricamente vestidas; e
tu?... chorava-me o corao, quando vim de me formar, e te visitei, e
vim dar comtigo a cortar couves para fazer a comida dos patos.

--Isso  porque eu gosto.

--Muito embora gostasses; teu marido no devia consentir que o fizesses.
Trabalhar  bom e necessario; mas cada qual trabalhe segundo a pessoa
que . As senhoras cozem, bordam, marcam, e do-se a outros muitos
cuidados domesticos e limpos. Os servios, que tu fazias, pertencem s
criadas da cosinha. De maneira que a tua riqueza no te dava o descano
e bem estar que desfrutam as pessoas da lavoira. Esta casa parecia-me
sordida; e, apezar das grandes sabenas de teu marido, ainda no vi
casados que to estupidamente vivessem! Ahi est agora teu marido a
despejar sacas de dinheiro no regao de uma amasia, e tu aqui de vestido
de chita e chinellas! Tu!... de chinellas!... Foi bom que levasses vida
de negra vinte annos para elle agora levar em Lisboa vida de principe!

--No ha de levar, que eu vou l!--bradou Theodora assanhada pelas
reflexes do primo.

--No vaes, prima, que os teus parentes no consentem que tu vs ser em
Lisboa motivo de gargalhadas d'aquella gente, e maltratada por Calisto.
A morgada de Travanca, a filha de Francisco de Figueira, no vae, como
as mulherinhas da ral, procurar o marido fra de sua casa. Se elle
vier, veiu; se elle ficar, fique embora. Gaste o que quizer, mas que no
gaste a casa de sua mulher. N'este paiz ha leis que separam do mo
marido a esposa affrontada, e prohibem que os bens dos Figueiras sejam
desbaratados em devassides de um extravagante.

--Eu no quero separar-me do meu homem!--balbuciou ella afogada de
soluos.

--Tambem te no aconselho a que o faas por em quanto, prima. Ainda 
cedo. Pde ser que teu marido caia em si, e se arrependa. Isto da
separao  um remedio extremo, que se ha de applicar no caso de
continuarem os saques de dinheiro como at aqui, e os embustes infames
com que o Calisto te tem enganado. Ai! prima, prima, grande desgraa foi
para ti e para mim, que te esquecesses do nosso amor de creanas, e to
depressa aceitasses o casamento com este homem! Eu estava a concluir a
minha formatura, resolvido a pedir-te, e casar comtigo, quer teu pae
quizesse, quer no. Nunca t'o disse; digo-t'o agora, porque a minha dr
me obriga. No serias tu mais feliz, se casasses com teu primo Lopo?

--Eu sei c?...--disse ella, alimpando as lagrimas.

--Pois duvidas, Theodora?

--Tu tens sido um estroina com mulheres...

--E no sabes por que?

--No...

--Desesperado por te encontrar casada, quando cheguei de Coimbra, no
tratei mais de me ligar seriamente ao corao de mulher nenhuma. Queria
distrahir-me, e fazia desatinos que me tornavam ainda mais desgraado. A
minha consolao unica era estar alguns momentos ao p de ti; mas
quantas vezes, eu saa do teu lado com o corao cheio de fel!... Nunca
te disse uma palavra por onde tu desconfiasses o meu estado, pois no?

--Tu o que me dizias s vezes  que estavas afflicto por causa de
dividas, e eu dava-te o dinheiro que podia arranjar...

-- verdade: foste sempre o meu bom anjo, prima; mas olha que essas
mesmas dividas as fazia eu para poder sair d'estes sitios; ia para as
feiras, para as caldas, por toda a parte  busca de distraces, e no
achava coisa que me distraisse de ti o pensamento. Toda a gente da nossa
parentella me aborrecia, menos tu. Ora imagina, prima, que tormentosa
vida a minha desde os dezenove annos! Amar-te, amar-te sempre, e vr-te
mulher de outro homem; e, de mais a mais, de outro homem indigno de ti!
Cos! que martyrio! que martyrio!

Lopo cobriu a cara deslavada com as mos enormes.

Theodora estava como idiota a olhar para aquillo, sem poder atinar com
as sensaes atrapalhadas que aquellas palavras lhe causavam.

Ergueu-se o velhaco de golpe, e disse:

--Adeus, prima: eu estou profundamente magoado com a tua desgraa;
doem-me mais os teus pezares que os meus. Disse-te o que me pareceu
rasoavel a respeito de teu marido, d'esse cruel que me roubou a mulher
do meu corao, da minha alma, da minha vida, e da minha morte. Adeus,
prima!

--Tu vaes afflicto, Lopo!--exclamou ella, resahindo do spasmo tolo em
que estivera--Vem c; se te aconteceu alguma desgraa, remedeia-se como
poder ser.

--Ha doenas sem remedio, prima. A minha  mortal.

--Ento que tens, primo? que te de?

--Doe-me a certeza de que estou morrendo desde o primeiro dia da tua
unio com este homem!... a certeza de que o has de amar sempre, ainda
que elle te despreze como j te desprezou.

--Pois se elle  o meu homem recebido  face do altar!...

--Por isso, por isso,  que eu perdi o teu amor, Theodora!...

--Pois eu sou casada, bem no sabes, seno teria casado comtigo.

--No fallemos mais n'isto--atalhou com muita serenidade Lopo--J
chorei, e fiquei melhor!--continuou elle esborrachando os olhos at
elles reverem agua--Estas lagrimas estavam aqui no peito ha vinte annos.
Foi bom que tu as visses para que saibas que o homem que chora por ti,
bem mais te merecia que o outro que te despreza... Queres mais alguma
coisa de mim, prima? Queres que eu escreva a teu marido, e lhe diga que
seja honrado e digno da melhor das esposas? Queres que eu mesmo o v
procurar a Cintra?

--Se tu l fosses, Lopo, no seria mo!--disse ella.

Lopo de Gamboa, como grande farola que era, sentiu impulso de desfechar
uma risada na cara da prima. O homem viu-se ridiculo at onde a
consciencia de um bargante se pde vr a si mesma.

Reteve-o, porm, a coherencia do seu plano. Resolutamente disse que iria
a Cintra, bem que nenhum sacrificio lhe podesse ser mais cruelmente
imposto ao corao.

--Irei, disse elle, irei buscar o marido da mulher que adoro. Venha mais
esta punhalada da tua mo, prima.

---Valha-me Deus!--exclamou ella afflictivamente.--Tu dizes-me coisas
que me fazem endoudecer! Pois tu no vs que eu j no posso dar o meu
corao a outro em quanto fr casada com um?

--Vejo que me no amaste nunca, Theodora. Diz a verdade... Nunca me
tiveste amor?

--Eu sei c, primo!... Se me casasse comtigo, tinha-te amor... Assim
como casei com o meu marido, que hei de eu fazer agora?

--Matar-me!--disse com vehemencia Lopo, deixando cair os braos, e
descendo ao cho os olhos amortiados.

--Ai! que peccados os meus! exclamou Theodora--Eu no sei o que te hei
de fazer, Lopo!

--Diz-me quando queres que eu parta para Lisboa--tornou elle gravemente.

--Ento sempre queres ir, primo?

--manh, hoje, quando quizeres.

--E no te custa?

--E a ti no te custa que eu v?

--Eu queria que fosses, a vr se trazias para casa aquelle perdido.

--Irei, j t'o disse.

--Ento eu vou buscar-te dinheiro, primo, quanto queres tu levar?

--Nada, prima. Se alguma vez aceitei as tuas franquezas, foi por que tu
ignoravas quanto eu te amava, e eras minha proxima parenta, filha de uma
prima de minha me. Hoje que sabes que te amo, no posso, no me
consente a minha honra que receba de ti o mais pequeno favor de
dinheiro.

--Ento no quero que vs--accudiu ella--que tu no podes ir  tua
custa...

N'este comenos, Theodora escuta muito attenta um rumor de campainhas, e
brada:

-- uma liteira! Ser o meu homem?

Corre a uma janella; o primo vae depoz ella: affirmam-se na liteira que
desce uma congosta, e reconhece Calisto Eloy, no pela figura; mas por
que uns rapazes vinham adiante gritando que era o fidalgo. Theodora
espede tres ais, que pareciam de ave nocturna, e perde os sentidos. Lopo
amparou-a nos braos, foi sental-a n'uma cadeira incourada de espaldar
alto, e desceu ao pateo a receber nos braos o primo Calisto de Barbuda.




XXX

*Como ella o amava!*


O morgado previu o seguimento funesto da desabrida recepo e despedida
que deu ao mestre-escola.

A sua felicidade era d'aquellas que o possuidor receia, a cada hora,
perder; e o desaccordo com sua mulher podia redundar-lhe em dissabores
grandissimos. De todos, o de que elle mais se temia,--o dissabor por
excellencia monstruoso--era a vinda de Theodora a Cintra, a isso
aguilhoada por o professor de primeiras lettras, azedado pelo desprezo.
Envergonhava-se elle, alm de muitas outras vergonhas, que a morgada de
Travanca lhe apparecesse em Cintra com a cintura do vestido sobre o
estomago, com as ancas desprovidas de balo, com a cara incavernada n'um
chapo de 1832, que l chamavam barretina, de immensas orelhas de palha
amarellada pelo rodar dos annos. Era-lhe aviltante o caso aos olhos de
toda a gente, e especialmente aos de Iphigenia.

Para prevenir esta e outras calamidades, saiu Calisto, caminho de
Caarelhos, quatro dias depois de Braz Lobato, e afim de encurtar tempo,
embarcou em o vapor, e do Porto para cima accelerou as jornadas,
repousando poucas horas. Contava elle anticipar-se ao mestre-escola.
Chegou tarde; mas o corao da esposa estava ainda aberto.

--Tua senhora desmaiou de alegria, primo--disse-lhe Lopo de
Gamboa--estava chorando comigo quando ouvimos a guizalhada da liteira.
Muito te quer a nossa santa prima? Boas as fizeste por l... Olha que o
patife do mestre-escola veiu contar tudo!

--J chegou?!

--Hoje s cinco da tarde.

--Que disse?

--Contou que tens l em Cintra uma mulher teda e manteda...

--Que infame embusteiro!--clamou o fidalgo--Chama-me um lacaio, que lhe
vou mandar cortar as carnes, com um tagante!

Merecia-o! Mas quem deu c o lacaio?  coisa que ainda c no vi!

Assim dialogando, entraram  sala em que D. Theodora estava ainda
muitissimo intalada de soluos.

--Ento que  isto, Theodora?!--perguntou brandamente Calisto, pondo-lhe
as pontas dos dedos na face.

Ergueu-se ella arrebatada, e pendurou-se-lhe ao pescoo exclamando:

--Meu Calisto, meu Calisto, cuidei que te no tornava a enxergar!

--s tola, s tola, prima!--disse elle, asss incommodado com o aperto
do abrao--Pois eu no havia de tornar?! Quem te metteu essa na cabea?

Theodora entrou a encarar no homem muito de fito, e rompeu n'um choro
desfeito.

--Que tens tu?--perguntou elle.

--Como tu ests mudado! no me pareces o meu homem!... Corta essas
barbas; por alma de tua me, corta-me essas barbas, que pareces o diabo,
Deus me perde!...

Calisto sorriu-se, com um profundo tdio de sua mulher. N'aquelle
instante alanceou-o mortalmente a saudade de Iphigenia. Aquella casa de
Caarelhos e a mulher pareceram-lhe um retalho do inferno, d'aquelle
inferno alagado e frio de que falla o padre A. Vieira.

Comeou a passeiar na sala, e a despedir baforadas de anciada respirao
do peito. A mulher no lhe despregava os olhos das barbas, e de vez em
quando arrancava um ai das entranhas.

--A fallar verdade--observou Lopo de Gamboa--ests um homem
completamente differente! E o caso  que pareces muito mais novo! J nem
andas corcovado, nem tens aquella proeminencia da barriga. Olha os ares
de Lisboa o que fazem, primo Barbuda!

Calisto exprimia o seu nojo de tudo aquillo, sorrindo-se. Tirou da
algibeira um charuto, e accendeu um phosphoro. Eis que a mulher rompeu
em mais desentoada choradeira, dizendo:

--O meu homem a fumar!... Que feitiaria te fizeram, Calisto!...

--De maneira, disse o morgado vencido pela impaciencia, de maneira que
me recebes com choradeiras, e observaes estupidas, Theodora! Ora
acabemos com esta feia comedia, e manda-me preparar jantar, que preciso
comer e dormir.

Saiu Theodora cabisbaixa da saleta, e Lopo de Gamboa despediu-se,
pedindo-lhe que tolerasse com generosidade as tolices de sua prima, que
tudo aquillo n'ella era rudeza e bondade do corao.

--Bem sei, bem sei...--disse Calisto Eloy, e recolheu-se  sua
bibliotheca, a principiar uma carta, que dizia:

Minha querida Iphigenia.

No te asseguro tres horas da minha vida, se me disserem que hei de aqui
viver tres dias. No  enjo,  peior,  horror o que me faz tudo isto!
Deixa-me pedir coragem ao teu retrato.  imagem da filha do meu corao,
salva-me, resgata-me, arranca-me d'este tumulo!  consoladora d'esta
agonia sem nome, vale-me, tem mo n'esta vida, que me foge...

Entrou Theodora esbofada de dar ordens, de cortar o presunto, de ir 
cesta dos ovos, de andar  pilha da mais gorda gallinha.

Correu a abraar-se outra vez n'elle com mais possante enthusiasmo,
emquanto o marido com um brao a cingia ao peito, e com o outro escondia
o retrato.

--Meu Calistinho--suspirava a esposa palpitante--meu amado marido, no
tornes mais para Lisboa, eu no te deixo sair mais de tua casa!...

--Que remedio seno ir, Theodora!...--disse elle--Sou obrigado por esta
desgraada posio de deputado a assistir mais algum tempo na capital.

--No  isso, no  isso!--clamou ella, saindo-lhe dos braos, que a
largaram facilmente--Bem sei o que ...

--Sabes o que?--interrompeu com violentada placidez o marido--Sabes as
calumnias que te veiu contar o Braz, o villo que se vingou como canalha
por lhe eu no alcanar o habito de Christo!  o que faltava! pendurar a
imagem da cruz n'um peito cheio de tanta porcaria!... Ento que te disse
elle?...

--Que tinhas l outra... e que te viu a passeiar com ella.

--Viu-me a passear com uma nossa parenta, viuva de um general. Quem
disse ao javardo que esta senhora era minha amante? Hei de
perguntar-lh'o diante de ti. Manda-o chamar  minha presena.

--Agora mando! que o leve a breca!--disse Theodora com alegre
aspecto--Como tu vieste, foi o que eu quiz; agora, pilhei-te c, e no
te deixo ir embora. Mas tu has de cortar estas barbas, sim? e no
estejas a fumar por isso, que me fazes embrulhar a estomago, no?

O tom e gesto caricioso, com que ella dizia isto, no moveu medianamente
o esposo. Impava de zangado e aborrecido dos languidos amorinhos com que
a meiga senhora se lhe quebrava langorosamente nos braos.

--Eu preciso escrever umas cartas que ainda hoje ho de ir para Miranda,
disse elle, afastando brandamente a esposa. Vae-te embora, e logo
conversaremos.

Theodora estava n'um d'aquelles elevados gros de amoroso sentimento, em
que a mulher menos esperta conhece, que  desamada. Repellida d'aquelle
modo, ainda as lagrimas lhe vidraram os olhos; mas o despeito seccou-as.

--No me podes vr  tua beira! disse ella com altiveza. V-se mesmo na
tua cara que me aborreces! Ainda agora chegaste, e j ests a fallar na
ida para Lisboa. Escusavas ento de c vir. Mal haja a hora em que
saiste d'esta casa. J no tenho marido!...

N'este ponto, no pde represar as lagrimas. Acocorou-se no cho a
chorar, com a cara mettida entre os joelhos.

Calisto saltou da cadeira n'um empucho de raiva, e passou  sala
immediata, gesticulando com phreneticos saces de braos.

Que diabo vim eu aqui fazer? dizia entre si o desesperado.

O demonio da expiao j andava s cavalleiras do homem. A saudade de
Iphigenia era uma serpente de fogo que lhe abafava os respiradouros das
goelas.




XXXI

*Vence o demonio! choram os anjos!*


Para distrahir-se do supplicio de alguns dias, Calisto Eloy, sem
consultar a esposa, entretinha-se a ajuntar os cabedaes, espalhados por
mo de lavradores, e a remir alguns foros, que sommaram consideravel
quantia.

Theodora presenciava com suffocada ira as diligencias do marido, e
acautellava o sacco das peas de duas caras, que trouxera de casa de seu
pae, thesouro antigo na familia de Travanca, trazido por seu bisav,
governador do Brazil. Era um dos soberanos gosos de Theodora addicionar
mais uma pea de D. Maria e D. Pedro III s mil e duzentas que seu
bisav reunira. Bem que o marido respeitasse sempre aquelle peculio,
Theodora receiava muito que os respeitos d'outro tempo no podessem nada
agora com elle, e dispoz-se a resistir a todo trance ao sacrilegio.

No carecia o morgado de lanar mo de alguma verba do patrimonio de sua
mulher: tinha muito que explorar no propriamente seu, antes de alienar
alguma das quintas; no entanto, quando a consorte abespinhada lhe disse
que as peas eram d'ella, e no cuidasse elle que as havia de levar,
Calisto encarou na mulher com tal enchente de odio, e logo desprezo, que
lhe voltou as costas para lhe no redarguir.

D'ahi em diante, nas quarenta e oito horas que o morgado se deteve em
Caarelhos, baldaram-se as tentativas conciliatorias de Theodora.
Fechado no seu quarto, que elle desde a chegada fizera propriedade sua
exclusiva, ou encerrado na bibliotheca, onde escrevia monologos
saturados de lagrimas, em vo a esposa o espreitava pelos orificios das
fechaduras, e lhe assoprava suspiros dignos de mais humano marido.

No dia da partida, a despedaada senhora experimentou um ataque de
eloquencia. Entrou com o almoo no gabinete do marido, e bradou:

--Ento que  isto? Entendamo-nos.

--Isto qu?

--Sempre vaes para a vida perdida?

--Vou hoje para Lisboa--respondeu serenamente Calisto Eloy, dobrando em
massos os titulos de sua casa.

--E ento da tua mulher no queres saber mais nada?

--Minha mulher fica em sua casa, e eu vou cumprir os meus deveres como
deputado.

--Mas eu no quero saber d'isso.

--Ento que queres tu saber, prima Theodora?

--Quero saber a lei em que hei de viver.

--Vive na lei de Deus.

--E tu na do diabo, ein?

--Berra pouco.

--Hei de berrar o que eu quizer.

--Pois berra, que eu no te hei de ouvir muito tempo.

--Se isto  assim, quero separar-me.

--Separa-te.

--Vou para o meu morgadio de Travanca.

--Pois vae.

--Cada qual fique com o que  seu.

--Pois sim. Leva d'aqui o que fr teu.

A desesperao de Theodora augmentava  medida que a fleugma do marido
lhe cravava o dardo do desengano no corao ainda fiel. Comeou a pobre
mulher a saltar no pavimento, sem proferir sons articulados. Expedia uns
grunhidos roucos, que fizeram pavor a Calisto. Este feissimo tregeitar
desfechou n'um insulto nervoso, com symptomas epilepticos.

A commiserao feriu as estragadas entranhas do morgado. Foi apanhar a
mulher do cho, reteve-lhe os braos que escabujavam, e levou-a d'alli
para um leito, onde a deixou entregue s criadas e ao primo Lopo de
Gamboa, que vinha entrando.

Passada a crise, Theodora ardia em febre, e dava pouco tino das pessoas
que a rodeavam. Pareceu-lhe, porm, sentir um beijo nas costas da mo
esquerda; e, olhando apressada na supposio de que era o marido, viu o
rosto lastimoso do primo Lopo, que lhe disse a meia voz:

--Esquece o ingrato, prima!... Guarda a tua vida para quem te ama!...

Calou-se, porque entrava uma criada com um ch de sidreira e macella.
Tomou elle das mos da criada a chavena, e ministrou o charope a
Theodora, que o foi bebendo com muitos vgados da cabea desfallecida
para sobre a espadua de Lopo, que se ageitra para amparal-a.

 hora final Calisto entrou ao quarto, e no se commoveu. Disse algumas
breves e seccas palavras de despedida, acrescentando que fechado o
segundo anno da sua legislatura, viria para casa.

Theodora ainda balbuciou:

--E deixas-me assim doente, homem?

--Esse incommodo  passageiro, prima. Logo que tu reflexiones um pouco,
levantas-te curada. Mal da patria, se os deputados casados obedecessem
aos caprichos das mulheres, que lhes impedem irem onde o dever os chama.
Pensas assim, porque foste educada rusticamente. Era minha teno
tirar-te d'aqui, levar-te para terra de gente, dar-te alguma educao,
para depois te poder levar comigo para qualquer terra culta; vejo,
porm, que desatinas e te fazes creana n'uma edade impropria de ciumes.

--Olha que no s mais novo que eu!--bradou ella.--Tens quarenta e
quatro e eu quarenta.

--Est bom, est bom--obviou elle--no discutamos edades. O que se segue
 que ambos envelhecemos: razo de mais para justificar a toleima dos
teus zelos e desconfianas... No posso demorar-me, que j ahi est a
liteira, e a jornada de hoje  muito grande. Adeus. Primo Lopo, olha tu
se ds juizo a tua prima, e manda-me no que quizeres em Lisboa.

--Parece-me que me no pes mais os olhos, Calisto!--clamou ella com
profunda angustia.

--Adeus, adeus, minha tola; no penses em tal.

E saiu alegre como o encarcerado da priso de longos annos. As azas
candidas de Iphigenia sacudiam-lhe do espirito saudades e remorsos.




XXXII

*A virtude de Theodora em paroxismos*


Em outubro d'aquelle anno, a friza dezeseis do theatro de S. Carlos
expoz uma cara desconhecida de todos, excepto de alguns raros rapazes da
nata social que a tinham visto de relance, entre as aves e flores de
Cintra.

Era Iphigenia, a formosa do novo-mundo, que uns chamavam a feio
genuina da Circassia, outros a romana herdeira do perfil correcto das
Faustinas e Fulvias; e os mais circumscreviam a sua admirao  mulher
dispensando-se de lhe esquadrinhar o typo.

De feito, Iphigenia era belleza das que smente se assimelham
propriamente a si.

Ao lado d'esta mulher estava um homem, cuja nobre e fidalga presena
abonava e encarecia a qualidade da dama: era o morgado da Agra de
Freimas, Benevides de Barbuda.

A opinio publica da plata e camarotes estava ou duvidosa ou indecisa.
Aqui dizia-se que Iphigenia era parenta do cavalheiro, alm
desdouravam-lhe a posio, sem comtudo os rostos se voltarem corridos do
escandalo.

Iphigenia,  sada do theatro, entrava n'uma luxuosa caleche tirada por
hanoverianos soberbos. Calisto Eloy apertava a mo da dama, e entrava
n'outra sege. A caleche parava na rua de S. Joo dos Bem Casados, no
pateo de um palacete; o morgado apeava da sege em frente do hotel
inglez, a Buenos-Ayres.

As pesquizas sincavam n'esta diversidade de paragens. Sabia-se que o
deputado frequentava o palacete a horas em que se visitam senhoras
cerimoniosamente. Sabia-se que morava alli a viuva do general Ponce de
Leo, o qual morrera no servio do Brazil. A pouco e pouco, a
maledicencia ajuntou  admirao o respeito.

Uns parentes do general, porventura filhos d'aquelles que se
entre-lembravam de terem sido procurados por uma viuva, levaram os seus
cumprimentos ao palacete de S. Joo dos Bem Casados. Iphigenia fez-lhes
saber pelo seu escudeiro que lhes agradecia a delicadeza e a honra do
parentesco. E mais nada.

Ora, Calisto Eloy, sem embargo da seriedade e gentil compostura de sua
pessoa, no podia de todo poupar-se ao riso de certas pessoas da plata.
Estava alli gente que o ouvira fulminar no parlamento o theatro lyrico,
e nomeadamente a Lucrecia Borgia. Estava quem se lembrasse d'aquellas
calas de polainas assertoadas de madre-perola, e do farfalhoso colete,
e das pantalonas axadrezadas do aljubeta Nunes & filho. O doutor
Liborio, do Porto, principalmente, ainda estomagado da reprimenda,
saboreava a vingana, indigitando-o  hilaridade dos camaradas parelhos
em nascimento, asnidade e estylo.

N'uma noite, Iphigenia reparou na atteno e nos sorrisos de um grupo.
Ao voltar a vista para seu primo, encontrou os olhos d'elle, com uma
tempestade sobranceira, que era o avincado profundo da testa. Andava por
alli n'aquella fronte sangue de Traz-os-Montes, sangue de Barbudas.

Calisto estremara o doutor Liborio de Meirelles, entre a roda dos
peraltas, que bebiam da garrafeira do paternal tendeiro, prodigalisada
ao filho das esperanas suas e da patria.

N'um intervallo, saiu Calisto Eloy do camarote, e como no encontrasse
no portico nem nos corredores o risonho deputado portuense, entrou 
plata.

Avisinhou-se de Liborio, que o encarou com semblante de cr incerta.

--O collega por aqui?--disse o doutor--Reminiscencias me no acodem de
havel-o visto na plata!

Calisto, sem o fitar no rosto, respondeu:

--Venho vr as dimenses das suas orelhas.

--Como assim!...--balbuciou Liborio.

--Tenciono puchar-lh'as at  bocca, no proposito de tapar com ellas um
riso alvar que vossa merc tem, e que me incommoda grandemente. Veja l
se a operao lhe convm aqui ou l fora.

--No comprehendo a razo do insulto!--disse Liborio.

--Ser l fora--concluiu Calisto e saiu.

A gente, que rodeava o doutor portuense, comportou-se bem: cada qual,
dizia de si para comsigo, que, se o caso fosse com elle, o provinciano
enguliria a injuria com uma balla; assim, como no era com elles o caso,
Calisto mereceu a Deus a felicidade de no ser varado de ballas.

O que passa como certo  que Liborio nunca mais desfranziu um riso
voltado para a friza de Iphigenia.

N'uma d'essas noites, estava na friza fronteira  de Calisto a familia
Sarmento. Adelaide no despregava o occulo de Iphigenia, salvo quando
Catharina lh'o tirava da mo, para lh'o assestar.

Calisto exultava em delicias incomparaveis. Era a vingana, a
carapinhada dos deuses n'um meio dia de julho, a vingana de amador
menoscabado. Este cuidar que se vingam, mulheres e homens,  inepcia de
marca maior, a que no houve esquivar-se aquelle sujeito de condio
muito ajuizada se o confrontamos com outros, a quem o amor aleijou de
todo em todo.

Reparou Calisto que no camarote de Duarte Malafaia, marido de D.
Catharina Sarmento, entrara um sujeito que lhe no era desconhecido.
Examinou-o com o binoculo, e reconhecera aquelle D. Bruno de
Mascarenhas, a quem elle se apresentara na qualidade de anjo Custodio de
D. Catharina. Sorriu-se o morgado para dentro por que lhe j no ficava
bem indignar-se por dentro nem por fra. A esposa de Duarte, segundo
parecia, raro relance de olhos desfechava sobre o perturbador da sua
consciencia de outro tempo. O morgado entendeu que a esposa regenerada
reincidira na velha culpa. Enganara-se.

Permanecia ainda o salutar effeito da faanha moralisadora de Calisto
Eloy. Bruno era odioso a Catharina: o anjo advogado dos maridos a estava
sempre lustrando com as lagrimas do arrependimento. No sei se o morgado
da Agra levar ao desconto do juizo final duas aces que pesem tanto
como esta na balana.

Passaram dois mezes sem que D. Theodora escrevesse ao marido. Embargada
no leito pela enfermidade, que a poz em comeos de phtisica, a pobre
senhora, esteiada no amparo da piedade, fazia penosas promessas a santos
da sua particular devoo, pedindo-lhes a amizade e restituio do
marido. D'esta feita, pelo que a gente est vendo, os santos no levaram
a melhor da legio de demonios que resaltam dos olbos de uma brazileira
galante. No obstante, a proteco dos privados do co valeu-lhe o
levantar-se da cama, e convalecer-se com leite de jumenta e oleo de
figados de bacalhau. Mas o corao estava ainda, e cada vez mais
encancerado; a saudade crescia consoante a ausencia e desprezo do marido
se augmentava.

Por ventura, aquelles santos to rogados estavam em volta d'ella a
defendel-a das tentaes do primo Lopo. J Theodora o repulsava
desabridamente, quando se via no risco de ser abalada em sua fidelidade.
A pervicacia, porm, do astuto negociador de seus vilissimos interesses,
servidos por infames lagrimas e exclamaes compungentes, alguma vez a
surprehendeu quasi desprotegida do escudo celestial.

Mas--honra  virtude que cae mais tarde que o costume!--honra  virtude
de Theodora, que lhe punha sempre diante dos olhos, nas conjuncturas
perigosas, a imagem do marido, e de sua me e avs todas esposas
immaculadas!

Passemos a esponja por sobre Penelopes e Lucrecias.

Comeou Calisto a receber cartas de sua mulher. Algumas, que abriu, no
pde digeril-as. Como a dr sincera no costuma ser eloquente, nem a
orthographia da filha do boticario exprimia com certeza as singelas
lastimas de Theodora, o cru marido queimava as cartas para desmemoria
eterna.




XXXIII

*Escandalos*


Abriram-se as camaras.

A opposio espantou-se de vr o deputado por Miranda conversando muito
mo por mo com os ministros. O abbade de Esteves ousou perguntar ao
seu collega, amigo e correligionario, de que rumo estava. Calisto
respondeu que estava de rumo em que o pharol da civilisao alumiava com
mais clara luz. O antigo desembargador do ecclesiastico redarguiu com
admoestaes benevolas. O morgado sorriu-lhe na cara veneranda, e
disse-lhe:

--Meu amigo, abra os olhos, que no ha martyrologio para as toupeiras.
As idas no se formam na cabea do homem; voejam na athmosphera,
respiram-se no ar, bebem-se na agua, coam-se no sangue, entram nas
moleculas, e refundem, reformam e renovam a compleio do homem.

--Segue-se que est liberal?--perguntou o pavido abbade.

--Estou portuguez do seculo XIX.

--Apostatou!--disse com pesar mui entranhado o padre--Apostatou!...

--Da religio dos nescios.

--Mercs!--accudiu o abbade.

--Sem direitos--retorquiu o sardonico Barbuda.

No tornaram a fallar-se, at um dia do anno seguinte em que o padre,
despachado conego da s patriarchal de Lisboa, aceitou o parabem e o
sorriso pungitivo de Calisto Eloy.

Na primeira votao importante para o ministerio, Calisto Eloy defendeu
o projecto que era vital para o governo, e fez-se desde logo necessario
 situao. Orou por vezes, com seriedade tal de principios, que no
servem para romance os seus discursos. Explicou a profisso da sua nova
f, respeitando as crenas politicas dos seus antigos correligionarios.
Disse que escolhia o seu humilde posto nas fileiras dos governamentaes,
por que era figadal inimigo da desordem, e convencido estava de que a
ordem s podia mantel-a o poder executivo, e no s mantel-a, seno
defendel-a para consolidar as posies, obtidas contra os cubiosos de
posies. Reflexionou sisudamente, e fez escola. Seguiram-se-lhe
discipulos convictissimos, que ainda agora pugnam por todos os governos,
e por amor da ordem que est como poder executivo.

Preparava Calisto um projecto de lei para a abolio dos vinculos,
quando recebeu a seguinte carta de Lopo de Gamboa:

Primo e amigo.

Recommendaste-me que dsse juizo a tua senhora e minha prima. Contra
paixes no ha conselhos. Tu l o sabes por theoria e experiencia, como
eu que no tenho dado mo burro ao dizimo, um coisas de corao.

Prguei-lhe prudencia, conformidade e paciencia. O abbade tambem lhe
citou exemplos admiraveis de esposas sanctificadas pela ingratido dos
maridos. No conseguimos nada. Cada vez te ama com mais furor. Diz que
te ha de ir buscar s entranhas da terra e aos abysmos do brathro. Isto
vae de galhofa; mas eu tenho sincera pena da nossa pobre prima.
Desculpo-te, porque s homem, porque amas outra mulher, e porque esta
realmente, deve pouco  formosura e graas. No sou de ambages: digo o
que sinto.

Contou-me o primo Gasto de Villarandlho que te vira em S. Carlos, e
comtigo no camarote uma deidade arrebatadora. Se  essa a rival da
Theodora, quem ousar chamar-te ao caminho da probidade conjugal?! J
agora, s milagre. Nas nossas edades, meu amigo e primo, amores que
entram, no ha juizo purgativo que os ponha fra do corpo.

Vamos agora ao que importa.

Est tua senhora resolvida a ir procurar-te a Lisboa. Tenho tido mo
d'ella; mas j no posso. Como lhe no respondeste  carta,
desesperou-se, declarou-te guerra de morte, e tens que vr com uma
mulher furiosa. Fiz-lhe vr que pde ser mal recebida e desprezada.
Responde que quer esganar quem lhe roubou seu marido. Est doida; mas
quem ha de contel-a?! Alguns parentes nossos do-lhe razo:  o diabo
isto; espicassam-n'a, e ella volta-se contra mim, dizendo que sou um
patife como tu. Isto  bonito!

Em divorcio no quer que lhe fallem. Diz que quer o seu homem e no ha
tiral-a d'aqui.

Prevejo os crueis desgostos que te vae ahi dar, alm das vergonhas.
Disse-lhe que no fosse, sem se vestir ao estylo das senhoras de Lisboa.
No quer. Apparece-te ahi gothicamente vestida, com o fatal vestido do
casamento, e o fatal chapo, que  um monstro de palha. Ha dois annos te
dizia eu que vestisses tua mulher senhorilmente. Respondias-me que os
melhores enfeites de uma virtuosa so as virtudes. Agora, atura-a. Se
ella ahi fr vestida de virtudes, diz l a essa gente que se no ria
d'ella.

E se tu tens de a vr a testilhas com essa _diva_, que em quanto a mim
no  _casta_? Ento  que ellas so, primo Barbuda! Sobre arranhaduras,
escandalo! A tua posio seria feita ludibrio da canalha. Os jornaes a
fustigarem-te, e tu com a cabea perdida! Eu imagino-me na tua situao,
e tenho horror.

Que has de tu fazer n'estes apertos? Tens uma boa cabea; mas eu estou
mais a sangue frio para te aconselhar. O meu parecer  que sias de
Lisboa com essa dama, e vs para onde Theodora no te veja o rasto. Olha
que vae com ella o tio Paulo Figueira de Travanca, besta finoria que ha
de dar comtigo, se te no esconderes a bom recado.

A lealdade impoz-me o dever de te dar esta m noticia. Mais m seria, se
t'a levasse tua senhora. Sei que outra pessoa te faria reflexes
inuteis; mas eu tenho obrigao de conhecer os homens. No entanto, faz o
que teu bom juizo te suggerir.

  Teu primo muito dedicado
  _Lopo_.

No dia seguinte, Calisto Eloy pediu licena  camara para retirar-se por
algum tempo de Lisboa, a cuidar de sua saude.

Ao outro dia embarcou para Frana.

Perguntava-lhe Iphigenia, contente da repentina deliberao:

--Porque  isto, primo? Nunca me fallaste em visitarmos Paris!

--Quiz dar-te o prazer da surpreza. As melhores coisas, muito pensadas
antes de possuidas, desmerecem quando se possuem.

Partiram.

No palacete da rua de S. Joo dos Bem Casados, ficou governando os
criados, aquella sr.^a D. Thomazia Leonor, que fra j desde Cintra,
recebida como dispenseira e aia de Iphigenia.




XXXIV

*Perdida!...*


Para leitores entendidos na perversidade humana, a carta de Lopo de
Gamboa  uma refinada e suja barganteria, estudada e escripta com um
despejo no vulgar em bachareis d'aquelles sitios. Aquelle homem, se
tivesse nascido em terras onde ha a centralisao dos biltres, morria
com um nome para lembrana duradoura. Assim, nascido n'aquellas serras,
onde no apgou ainda romancista de medrana, se o eu no transplantar
para a corja dos birbantes das minhas novellas, o homem escorrega l da
serra no inferno, sem que a execrao publica o cubra de maldies.

Repulso do corao da prima, que incessantemente se estava entregando 
proteco dos santos, mudou o plano das insidias, incitando-a a procurar
o marido em Lisboa, como ultimo desengano e final affronta. Convinha-lhe
que a pobre mulher afogasse em lagrimas as ultimas e mais entranhadas
raizes da sua pureza.

Em companhia de um velho inexperiente e credulo, o honrado Paulo de
Figueira, que nunca saira das ruinas solarengas de Travanca, metteu-se
D. Theodora a caminho de Lisboa. Deu um geito s abas do chapo que se
entortara na canastra esquecida, lavou as fitas e a palha com ch da
India, arejou o bafio do vestido de veludo que embolecera no inverno
passado, e d'este geito entrajada se encaixotou na liteira, defronte do
tio, que tinha a sinceridade de achar sua sobrinha muito bonita, vestida
assim  moderna.

Nas differentes villas que atravessou at ao Porto, D. Theodora prendeu
o espanto publico. Muita gente, alis urbana, ria-se a cair. Onde
parasse a liteira, o gentio fazia-lhe roda, e queria saber d'onde vinha
aquella creatura incomparavel. Theodora,  entrada de Penafiel, a pedido
respeitoso do liteireiro, tirou o chapo e cobriu a cabea com um
lencinho de tres pontas. Ainda assim, o vestido de veludo cr de ginja
dava nos olhos. Os padres de Penafiel, quando avistaram a liteira,
cuidaram um momento que vinha alli alguma preeminencia ecclesiastica,
como cardeal, ou coisa assim. A desharmonia do lencinho com o vestido
offendia o bello ideal, e a symetria esthetica das damas da terra, as
quaes ao verem-na saltar da liteira para o pateo da estalagem com o
chapo na mo, similhante a um cabaz de cavacas das Caldas, soltaram
grande estrallada de riso. As meninas da estalagem, condoidas do aspecto
doentio e honesto da viandante, informaram-se da qualidade da pessoa, e
romperam no louvavel excesso de se insinuarem na fidalga, para lhe
pedirem que se vestisse de outra maneira.

Accedeu sem repugnancia Theodora. As risadas francas do povo haviam-na
amolecido. O velho tambem votou pela reforma dos trajos. E, como alli
pernoitasse e deliberasse esperar o dia seguinte, deu tempo a que a
provessem de chapo rasoavel, e vestido com o competente palet de seda,
nas quaes coisas collaboraram todas as modistas da terra. Regenerada
pelo vestido, parecia outra. As meninas pentearam-lhe os opulentos e
negros cabellos a Stuart, segundo ellas disseram. Descobriram-lhe a
fronte bem talhada. Deram-lhe umas lies de pisar e arregaar-se, para
a desacostumarem de ir com os ps sobre a orla do vestido, ou mostrar os
calcanhares na andadura. O mirinaque foi um golpe certeiro no desaire da
fidalga de Travanca. Ella mesma, olhando em si, dizia no secreto da sua
consciencia illustrada em Penafiel:

--Eu assim estou melhor, a fallar verdade!

O tio Paulo torcia um pouco o nariz ao mirinaque, dizendo:

--Pareces-me uma boneca de roda de fogo! Tens aleijados os quadris,
salvo tal logar! Mas, se  moda, deixa-te ir assim, menina at Lisboa;
porm, quando entrares em casa, manda espetar esses arcos n'um pau, para
espantar os pardaes da sementeira.

Como o velho fidalgo desejasse vr o mar, resolveram ir para Lisboa no
vapor. Theodora, quando principiou a enjoar, pediu os sacramentos;
animada, porm com as risadas de outras senhoras, convenceu-se de que
no era mortal a sua afflico.

Hospedaram-se no ces do Sodr. D. Theodora, no obstante a anciedade em
que ia de avistar-se com o marido cuidou em reparar as foras com um
dormir d'aquelles que a Providencia concede s consciencias puras e s
pessoas que desembarcam enjoadas.

Paulo de Figueira saiu para a rua, no intento de informar-se da
residencia de Calisto. Porm, como encontrasse na rua do Alecrim um
macaco encavalgado n'um co, que trotava a compasso de realejo,
deixou-se ficar pasmado no espectaculo; depois, foi subindo at ao largo
das Duas Egrejas, e quedou-se a ouvir um cego de oculos verdes que
pregoava e referia o successo negro de um homem que matra seu av.
Terminava o cego, offerecendo a noticia impressa, onde tudo estava
declarado. Comprou o fidalgo da Travanca a pavorosa noticia, e esteve
largo tempo a soletral-a, sentado  porta da egreja do Loreto.

Terminada a leitura, o velho disse entre si:

--Isto  m terra! Tomara-me eu d'aqui para fra!... Os netos matam os
avs!...

Chamou um gallego, que o guiou ao palacio das crtes. Perguntou ao
porteiro se estava l dentro o deputado Calisto Eloy, morgado da Agra de
Freimas.

--No sei--disse mal encarado o funccionario.

--Eu sou tio d'elle; faa favor de lhe ir dizer que est aqui o tio
Paulo de Figueira.

--No posso l ir--volveu o porteiro, mais brando.--Pea quelle sr.
deputado, que ahi vem que lh'o diga.

Paulo dirigiu-se a um sujeito de exterior sacerdotal. Era o abbade de
Esteves.

--Essa pessoa est fra de Lisboa, creio eu--disse o deputado--pelo
menos pediu licena s camaras para retirar-se.

--Iria para casa?--perguntou o velho.

--Creio que no. Ento o senhor  tio d'elle!

--Sou tio d'elle em terceiro gro, e sou irmo do pae da esposa d'elle.

--Pobre senhora! Murmurou compassivamente o padre.--Ella perdeu um
excellente marido e o partido legitimista um strenuo defensor.

--Ento meu sobrinho--atalhou Paulo--j no  legitimista?!

--Qual! fez-se um malhado acerrimo. Est com esta gente, e demais a mais
fez-se governamental!...

--Oh! que maroto!...

--E tudo isto, meu caro senhor, deve-se  desmoralisao de uma mulher,
que lhe tirou o juizo e a dignidade, e lhe ha de dar cabo da casa.
Apresenta-se com ella nos theatros, e tem-na em palacete com carruagem
montada, e lacaios e estado de princeza. E a pobre senhora l na
provincia a economisar as rendas, que elle est por c delapidando!...

--Minha sobrinha veiu comigo--observou o velho.

--Veiu? Coitada da infeliz senhora! Quanto desejava eu poder ir
comprimental-a; mas como estou indisposto com o sr. Barbuda, no quero
que elle me julgue capaz de irritar sua consorte com os meus despeitos.
Pois senhor, se sua sobrinha quizer vr a pompa e luxo com que est
vivendo a manceba de seu marido, que v  rua de S. Joo dos Bem
Casados, e veja o palacio, que est ao cimo da rua, onde l os visinhos
dizem que mora a chamada fidalga brazileira.

--Faz favor de tornar a dizer?--pediu Paulo desenrolando o nastro de uma
enorme carteira escarlate, para fazer nota da residencia da brazileira.

--Se eu lhe prestar de alguma coisa, aqui estou como principal amigo que
fui do desgraado sr. Calisto Eloy--ajuntou o abbade de Esteves.

Ao fim da tarde d'este dia, D. Theodora, que fremia de raiva desde que o
tio lhe revelou as informaes do padre, entrou com o velho n'uma sege
de praa, por lhe dizerem que era muito longe a rua de S. Joo dos Bem
Casados.

Apeou  porta do palacete, que um logista lhe indicou. Perguntou ao
criado, que lhe fallou por um postigo da cavallaria, se estava em casa
o sr. Calisto.

--No mora aqui--disse o lacaio.

--Mora aqui!--teimou D. Theodora.

--J lhe disse que no mora aqui--recalcitrou o criado.

--Ento aqui no est uma mulher viuva?

--Mulher viuva?

--Sim.

--Est l em cima uma mulher viuva, que  a governante da casa.

--Essa mesma  que eu quero vr, disse D. Theodora.

--Quem lhe hei de eu dizer que a procura?

--Diga-lha que  uma pessoa.

--A este tempo estava j na janella a sr.^a D. Thomazia Leonor, cuja
atteno fra chamada pelo desabrimento do dialogo.

--Quem  a senhora?--perguntou a viuva do tenente.

D. Theodora impertigou o pescoo, e como visse uma mulher de touca
parda, e j avelhentada, conjecturou que fallava com uma criada.

--Quero fallar  senhora viuva.

--Abra a porta, Jos--disse D. Thomazia ao criado.

--Subiu a fidalga com o tio, entraram na sala de espera, que j estava
aberta, e d'ahi a pouco entravam n'outra sala, que era a das visitas.

D. Theodora olhava em de redor de si por sobre aquelles riquissimos
setins e marmores, e dizia intallada:

--Olha o meu dinheiro por onde anda!...

Paulo benzia-se e murmurava:

--Parece o palacio do rei!

D. Thomazia demorara-se a mudar de touca, de cazebeque e botinhas.
Entrou na sala com o garbo de lisboeta, e disse a D. Theodora:

--Eu desejo saber com quem tenho a honra de fallar.

--Ento a senhora  que  a viuva?

--Eu  que sou a viuva do tenente de infanteria 13, Joo da Silva
Gonalves. Dar-se-ha caso que v. ex.^a seja uma prima que meu marido
tinha na provincia do Minho?

--No sou quem a senhora pensa.

--Ento tem a bondade de dizer...

--Pois a senhora  que  a tal pessoa?...--tornou Theodora, j menos
raivosa, que espantada do depravado gosto do marido.

--Que pessoa? no sei de quem v. ex.^a falla.

--A amasia de meu marido...

--Amasia de seu marido!... Cruzes!... a senhora veiu enganada... Eu sou
uma viuva honrada; chamo-me Thomazia Leonor. Quem  o marido da
senhora?! Isto tem graa!...

--Meu marido  o deputado Calisto Eloy.

--Ah!--exclamou Thomazia--Ento v. ex.^a  esposa do sr. morgado...

--J me conhece?!...--disse sorrindo ferozmente Theodora.

--Agora tenho a honra de a conhecer; mas eu no sou a pessoa que v.
ex.^a procura. Bem v que sou uma mulher de edade, e por desgraa estou
aqui n'esta casa da prima do sr. morgado como dispenseira, e aia da
fidalga.

--E que  da tal fidalga?

--Anda a viajar pela Europa.

--Onde  a Europa?--perguntou D. Theodora colerica.

--A Europa  este mundo por onde anda a gente, minha senhora--respondeu
promptamente a viuva.

--Mas  longe onde est a tal prima de meu marido?

--Muito longe: elles j embarcaram ha seis dias... Deus sabe onde elles
esto agora.

--Pois foram os dois?--bradou Theodora, sacudindo murros fechados.

--Foram sim, minha senhora.

--E quando voltam?

--Quem sabe!... Os fidalgos no disseram nada: pde ser que passem
alguns mezes l por fra.

--Raios os partam!--vociferou Theodora.

--Deus os defenda!--emendou Thomazia--Pois v. ex.^a deseja tanto mal a
seu marido, que  um anjo, e a sua prima, que  um serafim!...

--A minha prima?!--ululou a morgada.

--Sim, minha senhora; pois to prima  ella do marido de v. ex.^a como
sua.

--Ella o que , sabe que mais?  uma desavergonhada, e tudo que aqui
est  meu, foi comprado com o meu dinheiro.

--Seria--disse Thomazia algum tanto enfadada--seria, mas eu no tenho
nada com isso, minha senhora. A sr.^a D. Iphigenia Ponce de Leo
entregou-me a sua casa, quando foi viajar: hei de entregar-lh'a como a
recebi; e v. ex.^a l se avenha com seu marido, quando elle voltar. D.
Theodora Figueira, empuchada por impulsos dos nervos, corria de angulo
para angulo o salo. De uma vez, olhou por entre duas portadas mal
fechadas para o interior de outra sala, e exclamou:

--Olhe, meu tio! olhe que riqueza aqui vae!

Deu um pontap nas portadas, e entrou, bradando:

--O meu dinheiro! o meu dinheiro!...

Era ali o sumptuoso gabinete de leitura e musica de D. Iphigenia.
Ornavam as paredes dois retratos a corpo inteiro: Calisto Eloy com a
farda de fidalgo cavalleiro; e Iphigenia trajada de amazona.

--Olha o meu marido!--clamou Theodora--aquella  a tal mulher? perguntou
 espantada Thomazia.

--Aquella  a sr.^a D. Iphigenia.

--Vou rasgar aquelle diabo!--berrou a morgada, puchando uma cadeira para
trepar.

--Isso alto l, minha senhora!--acudiu irada a dispenseira--V. ex.^a no
estraga coisa nenhuma. E, se continua n'esse disparate, eu mando chamar
o cabo da rua para a pr l fra.

--Pr-me a mim l fra?! bradou Theodora!

--Sim, minha senhora, que isto no so termos. Nem me parece senhora! c
em Lisboa aces d'estas s as praticam as peixeiras.

Paulo foi ao p da sobrinha, e disse-lhe:

--Theodora, vamos. A mulher tem razo, porque  criada da casa e tem de
dar contas.

--No sou criada; sou aia da fidalga--corregiu a viuva, offendida nas
dragonas do seu defunto tenente.

--Aia, ou o diabo que --tornou Paulo--Vem d'ahi, sobrinha--e tirou-a
pelo brao, em quanto ella assestava os punhos fechados ao retrato de
Iphigenia.

 saida d'aquella casa, D. Theodora, a consorte fiel, a mulher que fez
eclypse nas virtudes conjugaes do Indosto, sentiu quebrar-se o ultimo
cabello que a prendia  historia das esposas exemplares.

N'aquella hora funesta, lembrou-se com saudades do primo Lopo de Gamboa.

O patife vencra!




XXXV

*A felicidade infernal do crime*


Recebeu Calisto Eloy em Paris a minudenciosa narrativa dos factos
acontecidos, e escondeu de Iphigenia a carta de D. Thomazia.

Foi tamanha sua vergonha e odio, que d'alli escreveu a Lopo de Gamboa,
reagradecendo-lhe o aviso que lhe dera do infame projecto de Theodora;
e, lhe asseverava que, depois de to incrivel e original desaforo, se
considerava viuvo, e nunca mais diante de seus olhos consentiria
similhante furia. Ajuntava que, na volta para Portugal, ia requerer
divorcio, e separao dos casaes, se a esse tempo Theodora se no
houvesse recolhido  sua casa de Travanca, sem tocar no minimo dos
valores pertencentes ao casal da Agra de Freimas.

Tirante o que, n'esta carta, dizia respeito ao aviso enviado para
Lisboa, Lopo leu declamatoriamenle as ameaas de Calisto, e os epithetos
injuriosos com que elle castigava a petulancia da mulher. Ao tempo
d'esta leitura, superflua j era to rija catapulta para derrubar a
virtude de Theodora.

Quasi impassivelmente recebeu ella os insultos. Cuidou logo em
transferir-se para o seu solar, e repartiu entre o velho Paulo e seu
primo Lopo, o cuidado da administrao dos seus abastosos vinculos. Ora,
o primo Lopo, afim de esmerar-se na tarefa que lhe era confiada, mudou a
sua residencia para casa da prima, e cuidou de restituir quelle solar a
antiga magestade dos defuntos Figueiras. Para isto, lhe transmittiu sua
prima aquelle caixote das peas, que para alli estavam amuadas, desde
que o governador da India voltra com ellas d'alm-mar, provavelmente
adquiridas com tanta honestidade como agora iam ser esbanjadas.

Graas s modistas de Penafiel, e, mais ainda, s meninas da estalagem,
D. Theodora Figueira affeioou-se ao merinaque, e ao feitio e estofo do
vestido e palet. O primo Lopo dizia-lhe, algumas vezes, que ella, em
companhia de Calisto, era um diamante bruto; e se n'isto havia
encarecimento, at certo ponto o bacharel maravilhava-se do influxo que
o trajar exercitava nas frmas de sua prima. A cintura adelgaou-se;
apequenou-se-lhe o p; alargaram-se-lhe os encontros; amaciou-se-lhe a
cutis; branquearam-se-lhe os braos; escampou-se-lhe a fronte com o
riado dos cabellos; toda ella adquiriu no andar certo requebro e
donaire que lhe ia to ao natural como se tivesse sido educada por salas
e adextrada em flexuras da dana! A mulher, com effeito,  um mysterio!
Estas methamorphoses aos quarenta annos s podem fazer-se e estudar-se a
espelho, cujo ao tem composio dos laboratorios d'aquelle imaginoso
chefe dos rebeldes, que Deus despenhou do empyreo, sem todavia o
esbulhar dos dons da intelligencia!

E, por sobre tudo isto, para que ninguem duvide da interveno diabolica
n'este caso, Theodora vivia contente, esquecida, feliz!




XXXVI

*Saldo de contas conjugal*


Chegou a Paris a boa nova, desacompanhada de pormenores deshonrosos.
Dizia apenas o feitor do morgado que a fidalga se retirara para
Travanca, deixando tudo que encontrra, e levando tudo que trouxera.
Lopo de Gamboa industrira o feitor na direco que havia de dar 
carta. Faltou-lhe apurar o desvergonhamento ao extremo de continuar
correspondencia com o marido de sua prima.

Calisto desandou para Lisboa, prevenindo Thomazia que occultasse de
Iphigenia a indecorosa scena que sua mulher fizera.

Na volta de Paris, o morgado aposentou-se no palacete da brazileira. O
passeio  Europa limpou-lhe do espirito as teias:  bom desempoeirar os
olhos com a virao salutar dos ares de Frana e Italia. Lisboa pareceu
a Calisto Eloy terra pequena de mais para sacrificios tamanhos.
Emancipou o corao, e obedeceu-lhe.

Assistiu ainda o deputado a algumas sesses parlamentares. Floreou os
seus discursos com as recordaes do progresso industrial no
estrangeiro. Enlevou-se nas delicias de Frana, e no andou por muito
longe da phrase arrobada do dr. Liborio de Meirelles na apologia dos
esplendores estranhos, e lamentaes das miserias da patria.

Providenciou sobre negocios de sua casa, para que os recursos lhe no
minguassem nas pompas do seu viver em Lisboa, e comeou um doce viver,
no mareado de minimo dissabor. Renasceu-lhe no espirito, j livre dos
sobresaltos do corao, o amor  leitura de livros modernos, em que se
lhe deparavam luzes e idas, que elle, a furto, conseguia entrever nas
litteraturas antigas. Avermelhava-se-lhe o rosto, quando lia o seu
discurso cerca do luxo, e o outro mais tlo sobre Lucrecia Borgia do
theatro lyrico. A sciencia moderna flagellava-o. Tinha elle escripto nos
dois primeiros mezes alguns quadernos de papel, no proposito de dar 
estampa um livro contra o luxo. Releu com pejo a sua obra, e ordenou a
um criado que queimasse o manuscripto. O criado no o queimou.
Escondeu-o sem mo intento; e alguma vez saber o mundo litterario como
aquelles papeis vieram  minha mo, e ainda me so deleite e lico de
s linguagem e ss doutrinas.

Decorreram alguns mezes sem successo que d capitulo d'algum interesse.
Fechado o triennio da legislatura, Calisto Eloy foi agraciado com o
titulo de baro da Agra de Freimas, e carta do conselho. Sondou o animo
de alguns influentes eleitoraes de Miranda para reeleger-se pelo seu
circulo. Disseram-lhe que o mestre-escola lhe hostilisava a candidatura,
emparceirado com o boticario. Comprou o baro dois habitos de Christo
que fez entregar, com os respectivos diplomas, aos dois influentes. Na
volta do correio foi-lhe assegurada a eleio, que, de mais a mais, o
governo apoiava.

Por esta occasio, Braz Lobato, religada a amizade antiga, escreveu ao
fidalgo uma carta em que, pouco menos de brutalmente, reproduzia os
boatos correntes cerca do procedimento da sr.^a D. Theodora com o seu
primo Lopo de Gamboa.

O baro experimentou um mal-estar de especie nova, que se desvaneceu a
pouco e pouco, e s mui levemente se repetiu no dia seguinte. Eu creio
que o homem aprendra em Paris dois consolativos versos de Molire:

  _Quel mal cela fait-il? la jambe en devient elle
  Plus tortue, aprs tout, et la taille moins belle_?

Averiguei quanto em mim coube o viver interno de Iphigenia e do primo.
Convinha-me descobrir amarguras l dentro, para tirar d'ellas o symptoma
da expiao. No descobri coisa alguma, que no fosse invejavel. O mais
que se me deixou vr de novidade foram duas creanas loiras, lindas,
alvas de neve, e amimadas entre Iphigenia e Calisto como dois penhores
de felicidade infinita.

Como ali cairam dos pombaes do co aquellas duas avesinhas, que
saltitavam dos braos de um para o colo do outro, no sei. Eu digo ao
leitor o que as mes de recem-nascidos dizem aos filhos mais velhos:
vieram de Frana n'uma condecinha.

Ouvi rosnar que no sollar de Travanca tambem appareceu um ropolhudo
menino, que pelos modos, tambem veiu n'um csto de alguma parte. Se no
fossem estas remessas prodigiosas de creanas, acabavam duas
illustrissimas familias sem posteridade. A natureza  muito engenhosa.

O baro esperava que a mulher morresse, para legitimar os seus meninos,
um dos quaes se chamava Mem de Barbuda como seu decimo setimo av, e o
outro Egas de Barbuda como seu decimo oitavo av.

A baroneza, que, digamol-o depressa, no regeitou o titulo do marido,
esperava que o marido se anniquillasse na perdio dos seus costumes,
para tambem legitimar o seu Bernab. Chamava-se Bernab aquelle gordo
menino, gordo que no parecia fructo outonio de arvore j to
esgravinhada e resca! O amor  to engenhoso como a natureza.




*Concluso*


Deixal-o ser feliz: deixal-o. Calisto Eloy, aquelle santo homem l das
serras o anjo do fragmento paradisico do Portugal velho, cau.

Caiu o anjo, e ficou simplesmente o homem, homem como quasi todos os
outros, e com mais algumas vantagens que o commum dos homens.

Dinheiro a rdo!

Uma prima que o presa muito!

Dois meninos que se lhe cavalgam no costado!

Saude de ferro!

E baro!

Conjectura muita gente que elle  desgraado, apezar da prima, do
baronato, dos meninos, do dinheiro e da saude.

Eu, como j disse, no sei realmente se l no recesso dos arcanos
domesticos ha borrascas.

Na qualidade de anjo, Calisto, sem duvida, seria mais feliz; mas, na
qualidade de homem a que o reduziram as paixes, l se vae concertando
menos mal com a sua vida.

Eu, como romancista, lamento que elle no viva muitissimo apoquentado,
para poder tirar a limpo a s moralidade d'este conto.

Fica sendo, portanto, esta coisa uma novella que no ha de levar ao co
numero d'almas mais vantajoso que o do anno passado.


FIM




*INDICE*


Dedicatoria
I--O heroe do conto
II--Dois candidatos
III--O demonio parlamentar descobre o anjo
IV--Asneiras da erudio
V--Estreia parlamentar de Calisto
VI--Virtuosas parvoiadas
VII--Figura, vestido, e outras coisas do homem
VIII--Faz rir o parlamento
IX--O doutor do Porto
X--O corao do homem
XI--Santas ousadias!
XII--O anjo custodio
XIII--Regenerao
XIV--Tentao! Amor! Poesia!
XV--Ecce iterum Crispinus
XVI--Quantum mutatus!
XVII--In Liborium
XVIII--Vae cair o anjo!
XIX-- mulheres!
XX--Proh dolor!
XXI--O mordomo das tres virtudes cardeaes
XXII--Outro abysmo
XXIII--Tenta o seu anjo da guarda salval-o mediante uma carta da esposa
XXIV--A mulher fatal
XXV--Perdido!
XXVI--E ella amava-o!
XXVII--A saudade e a sciencia em dialogo
XXVIII--Ingratido de um deputado
XXIX--O demonio em Caarelhos
XXX--Como ella o amava!
XXXI--Vence o demonio! choram os anjos!
XXXII--A virtude de Theodora em paroxismos
XXXIII--Escandalos
XXXIV--Perdida!
XXXV--A felicidade infernal do crime
XXXVI--Saldo de contas conjugal
Concluso




*NOTAS*


[1] _Bebes bem_ e _vives mal_. Fr. Luiz de Sousa confirma este caso,
algures, na _Vida do arcebispo de Braga_.

[2] _Ns e nosso rei somos livres, etc_.

[3] L. II, Epist. II, v. 51.

[4] O bom vinho alegra o corao do homem.

[5] Marinho escreveu no periodo da usurpao dos Filippes.

[6] Duarte Nunes de Leo ainda via os cavalleiros de bronze cujos
cavallos deram o nome ao chafariz. Historiando o reinado de D. Fernando,
e a invaso de castelhanos em Lisboa, escreve a pag. 205 e seguintes, da
primeira parte da chronica dos reis:

...E ardeu toda a rua nova, e a freguezia da Madanella e de S. Gio e
toda a judaria com a melhor parte da cidade. E para memoria daquelle
grande incendio, tomaro h[~u]as fermosas portas da alfandega da cidade
para levarem a Castella quando se fossem. E assi quisero levar h[~u]s
cavalleiros de bronze, mui bem feitos, [~q] stav no chafariz, a que
ficou o nome dos cavallos por cuja bocca sahia aquella grossa agua. Mas
os cidados preveniro nisso, e os guardaro [~q] lh'os no tomassem,
por ser cousa publica, e [~q] sendo levado o terio por affronta. Estes
cavallos que... por aquella differena [~q] os antigos tivero sobre
elles os houveram de conservar os governadores da cidade, nestes dias
proximos, como poucos curiosos de antiguidades, mandaram sem proposito
tirar, donde tantos tempos estiveram.

[7] Prudencia em tudo.

[8] Sede prudentes como as serpentes, e simplices como as pombas. _S.
Matt._ c. x. v. 16.

[9] Coroemo-nos de rosas em quanto ellas no fenecem.

[10] Gloria aos vencidos.

[11] O orador forrageou os elegantes dizeres, que vo sublinhados, na
feracissima seara de um livro do sr. dr. A. Ayres do Gouveia Osorio,
intitulado: _A reforma das prises_.

[12] Esta chave de oiro do peregrino discurso foi tambem roubada dos
thesouros do sr. dr. Ayres de Gouveia, ministro da justia. Pag. 150,
2.^o vol. da _Reforma das prises_.

[13] No sejas por demasia justo.

[14] Palavras e phrases sublinhadas so plagiatos. O dr. Liborio tinha
vasta leitura da _Reforma das Cadeias_ do insigne escriptor, A. Ayres de
Gouveia, ministro da justia, ao fazer d'esta nota (20 de maro de 1865,
meia-noite).

[15] J se disse que os primores sublinhados so despejadamente
forrageados no livro do sr. dr. Ayres de Gouveia.

[16] _A Reforma das Cadeias_, part. I, pag. 26.

[17] _Ibid._, pag. 17.

[18] Antonio Ribeiro dos Santos, 1.^o vol., p. 186.--_A. Alexis_

[19]  egual o sentir do padre Manuel Bernardes. Diz assim: Adverte que
as varias disposies e accidentes que tocam ao nosso corpo, pegam o seu
modo tambem ao espirito... Diversa feio e actualidade tem o espirito
de quem vae montado em um formoso cavallo, e o do que vae em um
despresivel jumento. Se o teu vestido fr pobre e roto, repara que o
espirito recebe d'aqui alguma disposio differente da que tem quando o
vestido  novo e asseado: e assim nas mais cousas. (Luz e Calor. _Silva
de varios dictames espirituaes_.)

[20] Se fores a Roma, vive  moda de Roma.

[21] Creio que os grandes effeitos d'esta narrativa foram detidamente
estudados e calculados pelo caminho.






End of Project Gutenberg's A Queda d'um Anjo, by Camilo Castelo Branco

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