The Project Gutenberg EBook of Alexandre Herculano, by Manuel Caldas Cordeiro

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Title: Alexandre Herculano

Author: Manuel Caldas Cordeiro

Release Date: November 22, 2007 [EBook #23590]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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_CALDAS CORDEIRO_


Alexandre Herculano




MONTEIRO & C.--editores

Agencia Universal de Publicaes

_Rua dos Retrozeiros, 75_

_LISBOA_

MDCCCXCIV


ALEXANDRE HERCULANO


_CALDAS CORDEIRO_


Alexandre Herculano




MONTEIRO & C.--editores

Agencia Universal de Publicaes

_Rua dos Retrozeiros, 75_

_LISBOA_

MDCCCXCIV

_Typ. da Companhia Nacional Editora_




Escoro Biographico


_Alexandre Herculano nasceu no Pateo do Gil, na rua de S. Bento, em 28 de
maro de 1810. Estudou com os padres de S. Filippe Nery, nas Necessidades;
mas em 1831 envolveu-se na revolta do 4 d'infanteria contra o governo de D.
Miguel e teve de fugir de Lisboa a bordo da fragata franceza Melpomne.
D'aqui embarcou num navio inglez e visitou Plymouth, Folmouth, Jersey, S.
Mal, Rennes, Granville. Tomou parte na expedio do Mindello. Em 1833 foi
nomeado bibliothecario da bibliotheca do Porto, logar que conservou at
1836, data em que, espicaado j pela mania burgueza do descargo da
consciencia e dos deveres cumpridos, se demittiu para no prestar
juramento ao governo da contra-revoluo. Em 1837 publica a Voz do
Propheta e dois annos depois  nomeado pelo rei Fernando seu
bibliothecario.  nesta epoca que dirige e escreve no Panorama, onde
publicou numerosos artigos, incluindo os romances: O Monge de Cistr, o
Eurico, O Bobo, A Dama do p-de-cabra, O Parocho d'Aldea, etc, etc.
Este periodo vae at 1846, em que sae o 1. tomo da Historia de Portugal,
contendo as origens historicas de Portugal at ao reinado do 1. rei; em
1847 apparece o 2. que alcana at ao reinado de Sancho II; em 1849 o 3.,
que vae at D. Diniz; em 1853 o 4., que trata da descentralisao
municipal. Depois publica a Historia da Origem e Estabelecimento da
Inquisio. Em 1853  encarregado de dirigir a publicao dos Monumentos
Historicos de Portugal com a dotao annual de 1.000$000 de ris. Como
porm em 1856 fosse nomeado guarda-mr da Torre do Tombo um tal Joaquim
Jos da Costa Macedo, Alexandre Herculano, que o odiava e estava muito
atacado da monomania da perseguio, demitte-se de socio e secretario
perpetuo da Academia, affirmando que no podendo entrar no archivo da
Torre do Tombo deixava por isso de trabalhar nos Monumentos! A Academia
em outubro do mesmo anno reelege-o, e em dezembro nomea-o vice-presidente,
mas Herculano escreve nova epistola persistindo no seu proposito, Na
questo Eu e o clero leva ao apogeu essa monomania da perseguio, que
toda a vida o dominou. Em 1861 regeita a nomeao de par do reino; em 1862
a de gr-cruz de S. Thiago, ordem que ultimamente se tem pendurado ao peito
d'alguns actores. Ao regeitar esta ultima merc, escreve com pacata
ironia:_

_No immenso consumo que se est fazendo, que se tem feito ha 30 annos, de
distinces, de fitas, d'insignias, de fardas bordadas, de titulos, de
graduaes, de tratamentos, de rotolos nobiliarios, o homem do povo que
queira e possa morrer com esta qualificao deve adquirir em menos de meio
seculo extrema celebridade._

_Em 1867, enojado do viver, recolhe-se a Val-de-Lobos, a celebre quinta
perto de Santarem em que se dedicou  cultura do azeite. Vinha a miudo a
Lisboa e os seus logares predilectos eram a livraria Bertrand e a casa do
duque de Palmella. De vez em quando quebrava o silencio a que se obrigou,
publicando um ou outro opusculo sobre as questes d'occasio._

_A 13 de setembro de 1877 morre em Val-de-Lobos, victima d'uma pneumonia.
E doze annos depois  transferido da egreja d'Azoia, com official
solemnidade, para os Jeronymos, onde hoje repousa num sumptuoso mausolu,
quasi visinho do tumulo mais modesto que Portugal reservou aos suppostos
ossos de Cames._

_ costume dizer-se com algum abuso da metaphora, que ha mortos que se
resuscitassem, vendo os escandalos contemporaneos, tornariam a morrer de
vergonha. Qualquer critico carrancudo podia, seguindo esta tradico,
affirmar com algum bom senso que, se Herculano resuscitasse quando o
trasladaram de Azoia para Belem, correria o discursador e os assistentes a
cacete._




I

IDAS GERAES


Pontifice das lettras, Alexandre Herculano no teve, como muitos, a
benevolencia, a fraqueza, uma cynica bondade de confundir os mediocres e os
de talento; e perseguiu com o seu rancor todos os que a inutilidade
levantara, elevados pela politica, pela camaradice, pela intriga. Foi um
amarguroso e um triste. Por despeito? por tedio da sua epoca? por canao
do seu espirito! Interrogaes irrespondiveis, antes de se analysarem as
causas que levantaram este homem  imminencia, d'onde nunca cahiu, e d'onde
tanta vez lanou sobre o seu tempo os threnos e as maldies d'um propheta
que no pede perdo para a miseria humana, antes invoca a colera de Deus
sobre as velhas cidades corrompidas. Ezequiel d'uma epoca indigna de
historia, s comeou a rugir, no por mando de Jehovah, mas depois de
conhecer os homens e de se ter entediado d'elles. O seu temperamento
soturno, a sua mente convulsiva, o seu caracter d'uma rectido, to
inabalavel, to egoista--que hoje nos chega a parecer estudada--eram o
producto d'uma hereditariedade que nunca se desmentiu e lhe deu esse bello
cunho de portuguez, inquebrantavel e forte.

Aos vinte annos, viu-se obrigado, por uma revolta militar do corpo a que
pertencia, a refugiar-se no estrangeiro, por onde pairou algum tempo,
visitando a Inglaterra e a Frana. No sei se foi decisiva para a sua
vocao essa viagem; o estado em que ento se encontrava a Europa pode
fazel-o crer. Uma outra era abria-se aos espiritos inquietos e
convulsionarios. As naes, que durante quarenta annos se tinham agitado em
guerras terriveis, nas epicas campanhas de Bonaparte, nas guerrilhas da
Italia, na politica da Austria, sentiam a necessidade de pacificar-se.
Comeou pois a revoluo na arte.

O inquieto Chateaubriand e o desesperante Byron tinham feito as suas obras
no meio das agitaes d'essa Europa, de que elles invocaram o passado,
poetisando-o com as saudosas melancolias que desperta em todas as mentes
doloridas. Na Allemanha Goethe e os irmos Schlegels, Leopardi na Italia,
cunhavam os seus escriptos com esse desespero de descontentes, de sempre
tristes. O sol das batalhas apagara-se em Santa Helena ao mesmo tempo que o
sol da poesia expirava ao avistar a Grecia, que ia libertar. Bonaparte e
Byron foram os deuses d'essa gerao; e, para completar a trindade,
poder-se-hia juntar-lhe Leopardi. Mas o poeta do _Amor e da Morte_, o atheu
sem esperana, o heroico resignado, no teve a influencia dos dois
primeiros, nem a quiz. O vencedor de Marengo e o poeta de _Manfredo_,
convulsivos e desesperados, tiveram o enthusiasmo e a aco; o triste que
escreveu essa admiravel elegia ao _Passaro Solitario_, em nada acreditava,
seno na inutilidade da vida e no repouso da morte. No era portanto um
guia que escolhessem os que viam a existencia mais complicadamente.

Byron, Vigny, Goethe, Musset, Shelley, Moore, Hugo, punham no que escreviam
a nostalgia d'epocas remotas da historia, que elles lembravam com saudade.
Outras indoles, partilhando o mesmo enthusiasmo, tentaram estudar esses
seculos para reconstituil-os com os documentos e as memorias. D'aqui a
historia e o romance historico.

O seculo XVIII foi para Portugal e para Frana o seculo da decadencia da
arte.

Entre ns,  poesia das escolas chamadas _italiana_ e _hespanhola_ succedeu
a _Arcadia_, agrupamento onde alguns vates semsabores e massadores
inventavam os meios de torcer a lingua em versos duros e corneos. A
Francisco Rodrigues Lobo, a S de Menezes, a Santa Ritta Duro succederam
Antonio Diniz, o engraado do _Hyssope_, que hoje ninguem l sem bocejar, o
barbeiro Quita, Garo, Francisco Dias Gomes, e o nunca esquecido Filinto
Elysio, o mais monstruoso escangalhador da simples e bella lingua
portugueza, o mais inevitavel hymnifero de pindaricas, de epithalamios, de
dithyrambos. Na prosa o abysmo era to profundo: depois de Francisco Manoel
de Mello, de fr. Luiz de Souza, de Manoel Bernardes, o padre Theodoro
d'Almeida e o Candido Lusitano!

O seculo XIX iniciou-se sem presagios de mudana. O velho Lafes na
Academia chamada das sciencias, fazia propaganda hypocrita das graolas
semsaboronas de Voltaire; mas, cousa sempre digna de ser observada nos
philosophos portuguezes que applaudiam os encyclopedistas:--todos assistiam
s novenas, aos _lausperennes_, s procisses com que n'essa epoca
caprichavam em passar o tempo. A essa Academia podia-se juntar outra,
tambem ainda florescente: a Arcadia.

Qualquer d'estas duas corporaes eram gremios recreativos, onde o culto
das musas era um passatempo e o escrever prosa um trabalho mechanico.
Apenas o bilioso Jos Agostinho, o obsceno Bocage e o assucarado Tolentino,
lanavam no concerto de numes uma nota alegre e discordante.

Bocage escrevia:

  Cames, grande Cames, quo semelhante
  Acho teu fado ao meu quando os cotejo!

Respondia-lhe com uma tremenda descompostura o padre, que queria arranjar
um Cames para uso da crte de Joo VI e dos frades gracianos. O Tolentino,
que nunca entendeu nada de litteratura, rabiscava versos, pedindo jantares
e dinheiro.

No se levantava uma voz dolorosa ou eloquente, um grito de convulsivo
desespero, uma poesia d'arrebatadora inspirao. Tudo era pautado,
mesquinho, uniforme como uma ceremonia da crte. O povo apenas, heroico
resignado, conservava o grande refugio no desdem e na indifferena. Nenhum
vate da Arcadia o cantou; nenhum escriptor punha a penna ao servio da sua
causa, para o despertar. Massa inconsciente, que formigava n'um zumbido,
sempre insistente, sempre pavoroso, como onda de temporal quebrando-se em
rochedo terrivel--que lhe importava a elle que D. Joo VI fugisse e os
francezes invadissem o reino? Atrophiado durante dois seculos--o decimo
septimo e o decimo oitavo da nossa era--que to inexoravelmente comeam a
ser julgados por uma historia mais visualisadora--sem poder tirar d'entre
os seus uma das altivas figuras que fazem revolues; enterrado at 
crapula, ao asco,  immundice,  lama, mas n'uma immundice quasi
aterradora, tanto era enorme, quasi epica, tanto era medonha, ninguem lhe
poude infiltrar energia, ninguem lhe soube provocar coragem. Paulino
Cabral, Thomaz Pinto Brando, Bocage poetisaram (e de que maneira!) a
vila, a boneja, a marafona, a meretriz, o frade vicioso e o fadista;
Nicolau Tolentino, professor de grammatica e empregado publico, era o
cantor dos papelinhos dos frizados das senhoras, das reunies burguezas,
dos chs, dos namoros a altas horas com despejos de fezes em cima do
peralvilho embasbacado. Curiosos de certo, caracteristicos, pittorescos
mesmo, e muito mais interessantes do que os Arcades, bachareis e
magistrados que se apellidavam pastores e cysnes, nenhum ainda assim
deu s obras o cunho e o relevo do talento que as torna impereciveis. E
Bocage, Jos Agostinho, Tolentino eram os que representavam a litteratura
livre e sem peias; eram os idolos de que o povo sabia os versos e a vida, e
se apontavam nas ruas.

Esses temperamentos que ficam assignalados n'uma epoca pelo amor, pelo
heroismo, pela tristeza, pela infelicidade, j Portugal os no podia
produzir. As lyricas de Cames e Bernardim Ribeiro, as desditas de
Francisco Manoel de Mello, eram substituidas pelas piadas eroticas d'Elmano
Sadino e as aventuras burguezas dos dois padres Macedos. Dos humildes que
ento soffriam, dos resignados que supportaram a vida, no chegou at ns
um grito, um arranco, uma palavra. Almas desditosas e obscuras, ninguem
soube pr no papel os vossos desalentos, as vossas dores, as vossas
hesitaes! Quando a vossa crena era tentada, tinheis _Te-Deums_ para no
cairdes na desconfiana do intendente Pina Manique; e para as humilhaes
heroicas, das vidas obscuras, as suaves melancolias, os crueis desesperos,
Filinto Elysio entoava um epithalamio ou um dithyrambo, Bocage versejava
sobre um mote brejeiro, Tolentino escrevia a _Funco_, etc.

Castilho em 1830 era ainda um arcade, Garrett quasi um ignorado. Em 1837
Herculano publicou anonymamente a _Voz do Propheta_--uma especie de threnos
biblicos, d'uma eloquencia solemne e triste. Ahi se adivinhava a inclinao
do novo escriptor para a historia, poetisada pela saudade e pelas
recordaes. Era a primeira chamma que se ateava n'esse espirito. Altivo,
insoffrido e taciturno, resignando-se n'um trabalho em que as mais das
vezes tinha de martellar o cerebro e soffrear os impetos da imaginao
poetica,  com enthusiasmo e vibrao que escreve as paginas mais
alentadoras da sua _Historia_, os quadros mais artisticos e definitivos dos
seus romances, os versos mais ricos das suas poesias.

Visitando a Inglaterra e a Frana, a saudade da patria amargurou-lhe o
prazer da forada viagem. Nas horas vagas d'essa vida de tribulaes e
cuidados, vida errante, refugiada apenas em longos labores e lentas
meditaes, pezou bem o seu destino. Tinha um temperamento de ferro; em
cousas que a sua vontade decidisse, era inquebrantavel. No se bandeou na
politica, no se apulhou na litteratice. Pobre chimerico! acreditou na
honra, desdenhoso dos estadistas e dos parlamentares; teve esperana na
arte pura, e cultivou-a como o seu unico idolo. Depois tambem cultivou o
azeite de Val-de-Lobos com idolatria, por que estava farto da epoca e dos
homens. D vontade de morrer! disse elle. Hoje qualquer noticiarista,
tendo apanhado alguma indigesto de lagosta ou sardinhas, repete a miudo a
exclamao, confundindo assim a vontade de morrer com a de vomitar.

Joseph Prudhomme dissra em tempos que a invaso das diversas attribuies
produz em tudo a anarchia, e como elle ainda  autoridade para as classes
burguezas e dominantes, no nos  licito duvidar. Que a litteratice ou a
monomania litteraria invade tudo e todos,  inegavel. Ainda ha pouco, uma
notabilidade medica, o sr. Manoel Bento de Souza, apercebendo-se d'isto,
fez no _Elogio do Doutor Antonio Maria Barboza_ a comparao de tres
medicos-operadores com tres litteratos, explicando que usava d'esse meio
para que os que no entendiam de medicina o comprehendessem melhor.

Imagine-se Sainte-Beuve, Taine e o sr. Oscar Wilde applicando este processo
 critica! O esthetico inglez, por exemplo, comparando Morel-Makenzie com
Dante Gabriel Rossetti; o philosopho das _Origens da Frana Contemporanea_
approximando a maneira d'operar de Robespierre (e que medonho operador!) da
do velho anatomista Bichat.

Para qu insistir sobre as surprezas que este methodo provocaria a cada
momento?

Ao espirito severo d'Herculano, cerrado ao moderno, o espectaculo das
contradices e das inconsciencias da nossa epoca repugnava. Por isso a sua
obra foi uma evocao do passado e dos tempos gloriosos. Elle escrevera no
_Bobo_ (pag. 13-14) estas linhas:

Pobres, fracos, humilhados, depois dos to formosos dias de poderio e
renome, que nos resta seno o passado? L temos os thesouros dos nossos
affectos e contentamentos. Sejam as memorias da patria, que tivemos, o anjo
de Deus que nos revoque  energia social e aos sanctos affectos da
nacionalidade. Que todos aquelles a quem o engenho e o estudo habilitam
para os graves e profundos trabalhos da historia, se dediquem a ella. No
meio d'uma nao decadente, mas rica de tradies, o mister de recordar o
passado  uma especie de sacerdocio. Exercitem-no os que podem e sabem;
porque no o fazer  um crime.

E a arte? que a arte em todas as suas formas externas represente este nobre
pensamento; que _o drama, o poema, o romance sejam sempre um echo das eras
poeticas da nossa terra_. Que o povo encontre em tudo e por toda a parte o
grande vulto dos seus antepassados. _Ser-lhe-ha amarga a comparao_. Mas
como ao innocentinho da Jerusalem Libertada, homens da arte, aspergi de
suave licor a borda da taa onde est o remedio que pde salval-o.

Cumpriu a misso que impozera ao espirito?  analysando-lhe as diversas
phases da obra que se pde responder  interrogao.




II

O POETA


N'uns a poesia nasce com as primeiras illuses da mocidade, os primeiros
amores, as suaves chimeras; n'outros, quando as desilluses comeam a
enevoar a alma, as tristezas a pairar na mente, o corao a seccar-se, a
ser fugitivas as horas alegres, continuos e uniformes os dias funebres, e o
sopro da traio envenena os amantes,  que a poesia ergue os primeiros
vos, triste e amargorosa, como as aves da tempestade. Dos primeiros so
raros os que conservam a frescura e pureza da musa; os annos augmentam, as
flres murcham, e quando se quer voltar, por saudade ou por distraco, ao
trabalho mitigador, as palavras embrulham-se, as rimas escasseam e o
cerebro torturado s consegue periodos tortuosos e seccos, concepes
alambicadas e banaes. Alguns, ensaiando a rima e o verso, procuram adquirir
 custa d'um trabalho seguido, a magnifica fora da forma solida e quasi
definitiva: so os artistas, e as suas estrophes sonoras teem sons
musicaes.

Byron, Moore e Shelley alliaram os primores da forma  sublimidade da
imaginao. Mesmo a lingua ingleza, dulcificada pela cuidadosa versificao
de Milton, Pope, Chatterton e Cowper, attingiu com os grandes poetas do
comeo d'este seculo uma perfeio inegualavel.

Em Frana, ao contrario, teve de operar-se um completo trabalho de
renovao. Os pequenos abbades libertinos e poetastros, os fazedores de
novellas patetas e assucaradas, nunca cuidaram do estylo. O verso
cultivaram-n'o os padres Florian e Delile, a quem Rivarol disse uma vez,
vendo-o com um rlo de manuscriptos Ah, senhor, se no o conhecessem,
roubavam-n'o! A prosa era manejada por Voltaire. Se o enorme talento de
Diderot e o doloroso genio de Jean-Jacques, estavam distantes do lodaal em
que se afogavam quasi todos, o chistoso Piron, Gresset e toda essa horda de
pandegos semsabores, concorreram para escangalhar a lingua, que
Montesquieu, La Fontaine e os escriptores ligados pela tradico aos do
seculo XVII, tinham enriquecido.

Coube a gloria d'iniciar essa revolta contra as velhas formas, a estreita
syntaxe, a poetica convencional e restricta, ao homem contradictorio e
enigmatico que se chamou Chateaubriand.

Em 1801 appareceu o _Genio do Christianismo_. A gerao inquieta e
guerreira, exhausta da materialidade dos insipidos deuses do seculo
anterior, comprehendeu que nascera um escriptor, um corao insoffrido, um
espirito pairante. A forma d'esse livro  quasi classica; mas no emtanto,
atravez aquellas paginas, quanta melancolia, quanta amorosidade; s vezes
phrases dignas de Shakespeare, Balzac ou Byron, como essa do episodio de
_Ren_: foule, vaste dsert d'hommes!

Hugo veio fazer no verso o que Chateaubriand fizera na prosa; deu  lingua
assucarada e debil, vibrao, enthusiasmo e consistencia.

Appareceu ainda outro, embebido nos poetas inglezes, um cysne, mirando-se
nos limpidos lagos de crystal, com o olhar todo offuscado pelas grandes
paysagens dos Pyrineos. Era Vigny, o cantor d'_Eloa_ e _Dolorida_, o
philosopho da _Colera de Sanso_, esse grande e symbolico poema do
fatalismo no amor, que comea pelos versos celebres:

  Prs de ce compagnon, dont le coeur n'est pas sur
  La femme, enfant malade et douze fois impur.

Estes revolucionarios deram  prosa e ao verso uma symetria, uma
profundeza, uma sumptuosidade desconhecida.

Muitas das obras d'esta epoca trazem um cunho d'invocao historica em
bloco. Vigny formulara o seu processo no prefacio de _Cinq Mars_: tudo
_devia_ ter succedido assim.

Portugal at 1836 seguira distanciadamente o movimento de renovao.

As primeiras poesias d'Herculano resumbram a nostalgia da patria e recordam
as suas luctas de soldado. O sentimento que em todas ellas repassa  uma
tristeza de saudoso, uma vibrao de descontente. A forma  frouxa como em
quasi todos os seus versos.

Ha um phenomeno curioso a observar nas grandes individualidades
litterarias: sentem, transplantam o sentir, alcanam a nota mais elevada do
pathetico, mas os seus versos so coxos e maus, e muitas vezes inferiores,
segundo as regras da poetica, aos d'um banal poeta de lyrismos discretos e
perfumados. Camillo e Herculano so d'isso exemplos culminantes. Estes dois
grandes homens tinham demasiado pudor e orgulho para encherem columnas de
versos de vulgarismos falsos e mystificaes irritantes.

Herculano, apezar de tudo, attinge os acumes da elevao poetica nas
poesias religiosas, essas meditaes profundas e serenas, em que elle se
identifica com Klopstock, misturando a taciturnidade da sua indole aos
arrebatamentos do seu espirito. N'esta indole triste os primeiros vos da
musa pairam por sobre as velhas torres gothicas e mouriscas, as cathedraes
rendilhadas, os castellos agoirentos e enegrecidos. Era a primeira chama
que se ateava n'esse insoffrido.

A _Cruz Mutilada_ testemunha eloquentemente como o seu talento attinge o
sublime, elevado nas azas da crena e da saudade; e o velho cerro de Cintra
e a gruta que avista o mar, d'onde se enxergou a primeira caravela vinda da
India, foram o amphitheatro escolhido por este homem para ahi se inspirar
no maravilhoso canto, que mais parece um hymno de Santo Agostinho ou S.
Thomaz.

_Deus_, a _Semana Santa_, a _Arrabida_ so, como a _Cruz_, o grandioso da
sua obra em verso. E no direi da sua obra poetica, por que todos os seus
trabalhos respiram poesia--a mais altiva, a mais elevada.  curioso como
este homem, acusado de secco, duro, rancoroso, incapaz d'abrir o seu
corao ao amor, fosse o artista que escreveu as paginas arrebatadas e
potentes de ciume, de paixo, d'embates amorosos entre o espirito e a
carne; paginas, que dilaceram, fazem tombar lagrimas e constituem as mais
admiravelmente escriptas do _Monge de Cistr_, do _Bobo_, do _Eurico_.




III

O ROMANCISTA


Em Inglaterra os romances de Scott invocavam a idade-media as cruzadas, os
velhos burgos.

Poetas, romancistas, escriptores pendiam para os estudos e para a critica
historica.

Os romances mesmo e as memorias, que to cultivadas teem sido nos ultimos
cincoenta annos d'este seculo, so apenas variedades da historia e da
critica. O pensamento do romancista  identico ao do critico e do
historiador. Tem de documentar e historiar um meio, uma epoca, onde se
agitam personagens contemporaneos ou remotos.  assim que nos livros do sr.
Henry James, n'esses pequenos contos, que nos parecem rabiscados na meza de
fumar d'algum rico hotel das grandes cidades, est toda a vida, toda a
ancia, toda a nostalgia, e todas as hesitaes nervosas d'essa gerao
fluctuante, que emigrou para a America, se regenerou e fortificou ao
contacto d'outro meio e d'outro clima, e s se definha e soffre, quando
inveja e macaqueia essa velha Europa, onde tantos vem matar as saudades e
desedentar a sede dos vicios morbidos que herdaram.

Quando ha cincoenta annos appareceu o _Monge de Cistr_, o romance
historico no existia em Portugal. Como reflexo pallido da litteratura
ingleza, apparecera entre ns uma ou outra tentativa isolada e obscura. Foi
Herculano que o vulgarisou; elle mesmo nas _Lendas e Narrativas_ o
confessa, orgulhando-se que os seus ensaios provocassem a publicao do
_Arco de Sant'Anna_, do _Anno na Crte_, _Odio Velho_, _O Conde de
Castella_, _Irmos Carvajales_, _O que foram Portuguezes_. Estes trabalhos,
excepto o primeiro, so productos mediocres de cerebros canados; a
curiosidade que os recebeu tombou, com o tempo, em gelida indifferena.

Quem l os romances d'Herculano no pde procurar n'elles nem a analyse da
vida, nem mesmo o estudo exacto da epoca em que se passam. O poeta triumpha
sempre e, se aqui e ali, apparece o historiador--ou melhor o cerebro
transbordando de conhecimentos historicos e obrigado a revelal-os em tudo
quanto escrevesse--o visualisador sempre nos arrasta e empolga com as suas
illuses. O que vibra com uma intuio admiravel nos seus romances,  a
nota desesperante do amor. As paixes d'esses personagens eram um fogo que
os minava e consumia. A religio e o despotismo medieval carregaram ainda
mais funebremente o espirito dos barbaros. Qualquer sentimento que os
escravisasse, era para esses brutaes uma fora, como que sobrehumana,
contra a qual luctavam, subjugados pelas supersties e pelos prejuizos.

O Egas Moniz do _Bobo_, o Eurico, o Vasco do _Monge de Cistr_, o D.
Fernando das _Arrhas por fro d'Hespanha_ so entes que se movem na vida
sob a aco dominadora d'um amor, to despotico como a tyrannia d'essa
idade de ferro. Estes amorosos so como lees algemados que a cada instante
rugem o seu desespero.

O sempre triste Eurico[1] escreve a Theodemiro:

Examina bem a consciencia e diz-me qual  para os coraes puros e nobres
o motivo immenso, irresistivel das ambies do poder, da opulencia, do
renome?  um s--a mulher:  esse o termo final de todos os nossos sonhos,
de todas as nossas esperanas, de todos os nossos desejos. Para o que
encontrou na terra aquella que deve amar para sempre, aquella que  a
realidade do typo ideal que desde o bero trouxe estampado na alma, a mira
das mais exaltadas paixes  a aureola celestial que cinge a fronte da
virgem, idolo das suas
adoraes.

.....................................................................

Tirae do mundo a mulher, e a ambio desapparecer de todas as almas
generosas. Realidade ou desejo incerto, o amor  o elemento primitivo da
actividade interior;  a causa, o fim, e o resumo de todos os effeitos
humanos.

Theodemiro eu amei como ninguem, talvez, ainda amra. Este amor foi
desprezado e ludibriado e, depois, comprimido pelo desprezo e pelo ludibrio
no fundo do corao do teu pobre amigo. Sabes o que faz um amor immenso
assim recalcado?--Devora e consome o futuro e entenebrece para sempre o
horisonte da vida. Nada ha, depois d'isso, que possa restaurar o que elle
tragou: nada que possa rasgar as trevas que elle estendeu. No mesmo
sepulchro no ha porvir d'esperana, nem, porventura, luz de consolao;
porque o passamento do corpo precedeu a morte do espirito.

  [1] _Eurico_ pag. 76, Lisboa, 1864.

D. Fernando, o doloroso apaixonado, conhecendo a ignominia a que desceu,
diz a Leonor Telles:

 por que sabes que esse amor no pde perecer, que esse amor  como um
fado escripto l em cima--interrompeu D. Fernando--que tu me fazes tingir
as mos de sangue, para satisfazer as tuas crueis vinganas;  por que
sabes que esgoto sempre o calix das ignominias quando as tuas mos m'o
apresentam, que me sacias de deshonra. Ters, acaso, algum dia piedade
d'aquelle que fizeste teu servo, e que no pde esquivar-se a ser tua
victima[2].

  [2] _Lendas e Narrativas_, 1. vol. Lisboa, 1865.

O sombrio Egas, despedindo-se de Dulce, diz-lhe:

  Vae-se o vulto do meu corpo
    Mas eu no;
  Que a teus ps c fica morto
    O corao.[3]

  [3] _O Bobo_, pag. 145, Lisboa, 1878.

Herculano tocou como poucos na eterna chaga da alma apaixonada:--a duvida,
a desconfiana. E como o ciume e o desespero se manifestam
psychologicamente n'uma inalteravel uniformidade em todas as epocas,
segue-se que um Egas, um Fernando, um Vasco, um Eurico, so typos
caracteristicos dos amorosos e tristes.




IV

O HISTORIADOR


Vimos como as principaes figuras intellectuaes do comeo do seculo penderam
para as reconstituies do passado. Em Inglaterra Hume abrira no seculo
anterior a corrente que depois Lingard e Macaulay proseguiram; em Frana
Augustin Thierry, Quinet, Guizot do aos estudos historicos uma nova phase.
Herculano seguiu esta corrente, que dominou toda a obra. O investigador
surgiu primeiro do que o poeta ou poeta fez surgir o investigador? Um e
outro apparecem to confundidos em todos os seus livros que  impossivel
responder  interrogao. Que o historiador no destruiu a alma
poetisadora, v-se logo no 1. volume da Historia de Portugal, que fecha
com estas saudosas palavras sobre o nosso primeiro rei:

Se uma crena de paz e de humildade no consente que Roma lhe conceda essa
cora, outra religio tambem veneranda, a da patria, nos ensina que, ao
passarmos pelo pallido e carcomido portal da igreja de Santa Cruz, vamos
saudar as cinzas d'aquelle homem, sem o qual no existiria hoje a nao
portugueza, e, porventura, nem sequer o nome de Portugal.


O trabalho sobre a descentralisao municipal da idade-media, inserto no
4. volume da _Historia_ tem sido, at hoje, considerado como obra
definitiva.

O peso da investigao carregara a indole d'este homem d'estudo; o seu
cerebro transbordou. Planeando apenas escrever sobre Portugal na
idade-media, viu que podia alargar os seus trabalhos; mas a polemica
provocada pela publicao do 1. tomo da sua _Historia_, serviu-lhe de
pretexto para fingir que truncava um trabalho, que elle mesmo
talvez--apenas um momento--pensasse em proseguir.




V

O POLITICO


Quando em 1840 Herculano foi eleito deputado por Cintra, teve occasio de
pedir a palavra no parlamento; tinha uns apontamentos que consultava, 
medida que ia falando.

O que seria a camara dos deputados em 1840?

Cheia d'abbades somnolentos, de provincianos ridiculos, de bachareis
grotescos e analphabetos inconscientes, no  hoje muito facil fazer uma
ida approximada do que era ento esse antro de palradores.

No meio do discurso, um pouco interrompido, do deputado por Cintra ouviu-se
o grito de: larga a sebenta! que produziu o riso contido d'aquella camara
patusca. O homem que pronunciou esta phrase symbolisou depois a tagarelice
parlamentar e petulante no seu apogeu; palrou durante vinte e tantos annos,
acclamado por uma burguezia que lhe admirava a cabea e a careca, fez
discursos que so o mais irresistivel narcotico dos poucos que teem a
coragem de consultal-os, morreu conhecido e feliz. Tem duas estatuas--uma
defronte de S. Bento, d'essa casa de cuja inutilidade prejudicial elle foi
o mais triste e curioso symbolo, outra em Aveiro. Chamou-se Jos Estevo.

Alexandre Herculano, ferido no seu orgulho, nunca mais quiz frequentar
aquella feira de gado.

Os seus trabalhos resumbram todos um invencivel rancor aos politicos e 
politica. A sua indole triste sombreou-se. O despeito e o tedio azedou-lhe
o caracter. Adivinhou a vulgar corrupo que se alastrava por todas as
classes e, com a integridade inherente ao seu espirito, fugiu. Esta
desero d'um campo, onde o paiz lhe podia merecer tantos servios, era
inevitavel. O presente no o tentava. Com uma ancia vulgar nos espiritos
que chegaram s cumiadas da cultura intellectual, tentou brutificar-se na
vida do campo, beber a grandes tragos a alegria que a natureza entorna na
alma dos animaes e das plantas. Mas estava muito intellectualisado.

O brado que levantou a favor dos monges e dos padres pobres, foi recebido
pelos livres-pensadores burguezes como uma contradio com os ataques na
celebre questo _Eu e o Clero_. A Herculano, temperamento religioso por
educao, repugnava, o abandono e a miseria em que o governo deixara os
antigos frades, negando-se mesmo a pagar o insignificante subsidio que
promettera aos que se secularisassem.  sua indole, estreita e
inquebrantavel em questes de rectido, custava a comprehender que os
ministros renegassem todos os programmas com que subiam ao poder e
faltassem a todas as promessas, como se elles tivessem sido inventados para
outra cousa! Esta surpreza n'um homem ambicioso, transformou-se mais tarde
n'um rancor que, nos ultimos annos da sua vida, se affogou em desprezo por
tudo que dissesse respeito  politica. D. Pedro V, de quem Herculano foi o
mentor, consultava-o a miudo sobre os negocios do estado e a maneira de
resolvel-os. Herculano gostava d'este papel de ministro do culto e, pde
affianar-se que se o tivesse exercido por mais tempo, muitos dos que elle
desprezava, teriam sentido por detraz do manto do rei, a pata do leo,
atirando-os  insignificancia d'onde nunca deviam ter saido. Este poder,
exercido por um mais longo prazo, se o reinado de D. Pedro V tivesse sido
duradouro,  foroso dizel-o, embora no muito democratico, seria benefico
e talvez evitasse a lenta agonia em que Portugal agora se revolve. Mas quiz
o destino que tal no succedesse. Herculano, apenas chegou a Lisboa a
rainha Estephania, sentiu o espirito accesso em ciume contra a mulher que
ia dominar o rei com o mesmo, ou talvez maior, prestigio com que elle--o
grande intellectual--tinha dominado. Este resentimento explica-se bem:
Herculano olhava D. Pedro com o carinho affectuoso d'um pae e, o que mais
, d'um pae que houvesse podido identificar  sua alma a alma d'esse filho
do espirito. A rainha fra para a indole religiosa e casta de D. Pedro a
esposa, a symbolisadora do amor santo; Herculano julgou que ella vinha
roubar-lhe uma parte do dominio que elle exercia no rei--e odiou-a. Este
odio, comprehende-se bem, nunca revestiu as formas bruscas d'um completo
rompimento; e, como provinha d'um sentimento do espirito que, se no era
muito elevado, estava muito longe de ser mesquinho, manifestou-se apenas
por pequenos embates de palavras e dois ou tres casos anecdoticos mais ou
menos conhecidos.

Por morte da rainha e do rei, Herculano, que j quasi se affastara do pao,
foge e vae isolar-se em Val-de-Lobos.

A historia em Portugal acaba no reinado de D. Pedro V.

Com Luiz I comea essa longa opera-buffa, ridicula e sinistra a um tempo,
com um cunho to enorme de corrupo e de infamia, a que se assiste n'um
suffocamento de indignao e lagrimas, que arrastou Portugal a este fim
desesperado.

O centenario de Cames foi o unico ponto claro no horisonte negro. Mas
Herculano morreu tres annos antes de se realisar esse grande acontecimento
nacional--onde Portugal affirmou pela ultima vez a sua fora desesperada no
meio da agonia.

Herculano, podendo desempenhar um elevado papel na politica portugueza,
nada fez. O unico homem em quem elle exercera uma salutar influencia--o
rei--morreu, deixando o seu mentor afogado em nojo pelos homens e pela
existencia.


N'algumas maneiras de pensar e de sentir, Herculano revelou-se
superiormente; depois a nausea pela vida e pelos viventes, communicou-lhe
esse desprezo que pareceu to grande porque tombava de muito alto, e lhe
deu o cunho d'intransigencia e de fora, n'um tempo em que todos so
maleaveis e fracos.

Analysei as manifestaes intellectuaes da altiva personalidade a quem a
burguezia idolatrou, mais por ouvir contar certas particularidades rudes do
seu viver, do que por lhe ter lido as obras.

Homem d'um seculo convulsionado e contradictorio foi, como elle,
impersistente e convulsivo. O critico exclusivista que condemnasse qualquer
obra por trazer uma rajada d'azedume, esquecendo-se da epoca em que foi
feita, seria to extraordinario como o medico que quizesse persuadir um
agonisante de que estava curado.

 impossivel exigir d'alguem que seja alegre, que tenha saude e f em
tempos de tristeza, de desalento e de duvida.

Herculano podia repetir a phrase d'um homem muito diverso d'elle, o
melancolico Amiel: sem ter ainda morrido, sou uma alma d'outro mundo; os
outros parecem-me sonhos, e eu sou um sonho dos outros.

O homem que foi um poetisador sombrio e solitario, no devia amar um seculo
de sciencia e d'industria. No o amou Herculano, como o no amam os
espiritos atormentados a quem o tedio do viver exagerou a nostalgia pelos
tempos que passaram--e onde tantos doloridos pem o ideal d'uma felicidade,
chimerica e impossivel para os grandes taciturnos.




INDICE


_Escoro biographico_      5

I--Idas geraes      13

II--O poeta      31

III--O romancista      40

IV--O historiador      49

V--O politico      51




Obras de Caldas Cordeiro


_O Marquez de Pombal._ Porto, 1890.      100

_Envelhecer_, (contos).--Lisboa, 1892.      300

_Coraes inquietos_, (romance).--Lisboa, 1893.      500

_Alexandre Herculano_, (estudo).--Lisboa, 1894.      300





End of Project Gutenberg's Alexandre Herculano, by Manuel Caldas Cordeiro

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