Project Gutenberg's Viagens na Minha Terra (Volume II), by Almeida Garrett

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Title: Viagens na Minha Terra (Volume II)

Author: Almeida Garrett

Release Date: January 15, 2008 [EBook #24319]

Language: Portuguese

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     Rita Farinha (Jan. 2008)





OBRAS

DE

J. B. DE A. GARRETT.

IX.

(_SEGUNDO DAS VIAGENS._)




VIAGENS NA MINHA TERRA


POR J. B. DE ALMEIDA-GARRETT.


II.


LISBOA
NA TYPOGRAPHIA DA GAZETA DOS TRIBUNAIS.
1846.




VIAGENS NA MINHA TERRA.




CAPITULO XXVI.


     Modo de ler os auctores antigos, e os modernos tambem.--Horacio na
     sacra-via.--Duarte Nunes iconoclasta da nossa historia.--A policia
     e os barcos de vapor.--Os vandalos do feliz systema que nos
     rege.--Shakspeare lido em Inglaterra a um bom fogo, com um copo de
     _old-sack_ sbre a banca.--Sir John Falstaff se foi maior homem que
     Sancho-Pansa?--Grande e importante descuberta archeologica sbre
     San'Thiago, San'Jorge e Sir John Falstaff.--Prva-se a vinda d'este
     ltimo a Portugal.--O enthusiasta britannico no tumulo de Heloisa e
     Abeillard no Pere-la-Chaise.--Bentham e Cames.--Chega o _auctor_ 
     sua janella, e pasmosa miragem poetica produzida por umas oitavas
     dos Lusiadas.--De como emfim proseguem stas viagens para Santarem,
     e que feito ser de Joanninha.


Se eu for algum dia a Roma, heide entrar na cidade eterna com o meu
Tito-Livio e o meu Tacito nas algibeiras do meu palet de viagem. Alli,
sentado n'aquellas ruinas immortaes, sei que heide intender melhor a sua
histria, que o texto dos grandes escriptores se me hade illustrar com
os monumentos d'arte que os viram escrever, e que uns recordam, outros
presenciaram os feitos memoraveis, o progresso e a decadencia d'aquella
civilizao pasmosa.

E Juvenal e Horacio? o meu Horacio, o meu velho e fiel amigo Horacio!..
Deve ser um prazer regio ir lendo pela sacra-via fra aquella deliciosa
satyra, creio que a nona do L. I.,

    Ibam forte sacra via, sicut meus est mos,
    Nescio quid meditans nugarum...

Deve ser maior prazer ainda, muito maior do que beijar o p ao papa.
Parece-me a mim; mas como eu nunca fui a Roma...

E no  preciso. Pegue qualquer na bella chronica d'elrei D. Fernando, a
que Duarte Nunes menos estragou...

O Duarte Nunes foi um reformador iconoclasta das nossas chronicas
antigas, truncou todas as imagens, raspou toda a poesia d'aquellas
venerandas e deliciosas _sagas_ portuguezas... Em ponto historico pouco
mais eram do que _sagas_, verdade seja, mas como taes, lindas. E o
Duarte Nunes, que era um pobre grammatico sem gsto nem graa, foi-se
s filagranas e arrendados de finissimo lavor gothico d'aquelles
monumentos, quebrou-lh'os; ficaram so os traos historicos que eram
muito pouca e muito incerta coisa; e cuidou que tinha arranjado uma
histria, tendo apenas destruido um poema. Ficmos sem Nibelungen,
podendo-o ter, e no obtivemos histria porque se no podia obter assim.

Pois digo: pegue qualquer na bella chronica d'elrei D. Fernando, obedea
 lei concorrendo com o seu cruzado-novo para o augmento e glria da
benemerita companhia que tem o exclusivo d'esses caranguejos de vapor
que andam e desandam no rio, entre n'um dos referidos caranguejos, em
que, alm da porcaria e mau-cheiro, no ha perigo nenhum seno o de
rebentar toda aquella camara-optica que anda por arames, e que em
qualquer paiz civilizado onde a policia fizesse alguma coisa mais do que
imaginar conspiraes, ha muito estaria condemnada a ir alli caranguejar
para as Lamas  sua vontade. Mas emfim ca no ha d'outros nem haver tam
cedo, graas ao muito que agora, diz que, se cuida nos intersses
materiaes do paiz: e portanto tome o seu logar, passe o mesmo que eu
passei; chegue-me a Santarem, descanse e ponha-se-me a ler a chronica:
ver se no  outra coisa, vera se deante d'aquellas preciosas
reliquias, ainda mutiladas, deformadas como ellas esto por tantos e tam
successivos barbaros, estragadas emfim pelos peiores e mais vandalos de
todos os vandalos, as auctoridades administrativas e municipaes do feliz
systema que nos rege, ainda assim mesmo no ve erguer-se deante de seus
olhos os homens, as scenas dos tempos que foram; se no ouve fallar as
pedras, bradar as inscripes, levantar-se as esttuas dos tumulos; e
reviver-lhe a pintura toda, reverdecer-lhe toda a poesia d'aquellas
edades maravilhosas!

Tenho-o experimentado muitas vezes:  infallivel. Nunca tinha intendido
Shakspeare em quanto o no li em Warwick, aope do Avon, debaixo de um
carvalho secular,  luz d'aquelle sol bao e branco do nublado ceo
d'Albion... ou  noite com os ps no _fender_, a chaleira a ferver no
fogo, e sbre a banca o crystal antigo de um bom copo lapidado a
luzir-me alambreado com os doces e perfumados resplendores do _old
sack_; em quanto o fogo e os ponderosos castiaes de cobre brunido
projectam no antigo tecto almofadado, nos pardos compartimentos de
carvalho que forram o apposento, aquellas fortes sombras vacillantes de
que as velhas fazem vises e almas-do-outro-mundo, de que os
poetas--poetas como Shakspeare--fazem sombras de _Banco_, bruxas de
_Mackbeth_, e at a rotunda pansa e o arrastante espadago do meu
particular amigo Sir John Falstaff, o inventor das legtimas
consequencias, o fundador da grande eschola dos restauradores caturras,
dos poltres pugnazes que salvam a patria de parolla e que ninguem os
atura em tendo as costas quentes.

Oh Falstaff, Falstaff! eu no sei se tu es maior homem que Sancho Pana.
Creio que no. Mas maior pansa tens, mais capacidade na pansa tens.
Quando nossos avs renegaram de San' Thiago por castelhano perro, e
invocaram a San' Jorge, tu vieste,  Falstaff, em sua comitiva de
Inglaterra e aqui tomaste assento, aqui ficaste, e foste o patriarcha
d'essa immensa progenie de Falstaffs que por ahi anda.

Este importante ponto da nossa histria, da demisso de San'Thiago e da
vinda de San'Jorge de Inglaterra com Sir John Falstaff por seu
_homem-de-ferro_--sta grande descoberta archeologica que tanta coisa
moderna explica, como a fiz eu? Indo aos sitios mesmos, estudando alli
os antigos exemplares: que  a minha doutrina.

Em tudo, para tudo  assim. Chegou um dia um inglez a Paris: um inglez
legtimo e _cru_, virgem de toda a corrupo continental; cala de
ganga, sapato grosso, cabello de cenoira, chapeo fillado na
cova-do-ladro. Era enthusiasta de Heloisa e Abeillard, foi-se ao
Pre-la-Chaise, chegou ao tumulo dos dois amantes, tirou um livrinho da
algibeira, ps-se a ler aquellas cartas do Paracleto que tem indoidecido
muito menos excentricas cabeas que a do meu inglez puro-sangue. No 
nada; excitou-se a tal ponto que entrou a correr como um perdido,
bradando por um conego da s que lhe acudisse, que se queria identificar
com o seu modlo, purificar a sua paixo, ser emfim um completo--ou um
incompleto Abeillard.

Eu no sou susceptivel de tammanho enthusiasmo, sbretudo desde que dei
a minha demisso de poeta e cahi na prosa. Mas aqui tem o que me
succedeu o outro dia. Tinha estado s voltas com o meu Bentham, que  um
grande homem por fim de contas o tal quaker, e so grandes livros os que
elle escreveu: canou-me a cabea, peguei no Cames e fui para a
janella. As minhas janellas agora so as primeiras janellas de Lisboa,
do em cheio por todo esse Tejo. Era uma d'estas brilhantes manhans
d'hynverno, como as no ha seno em Lisboa. Abri os Lusiadas  ventura,
deparei com o canto IV e puz-me a ler aquellas bellissimas estancias

    E ja no porto da inclita Ulyssea...

Pouco a pouco amotinou-se-me o sangue, senti baterem-me as arterias da
fronte... as lettras fugiam-me do livro, levantei os olhos, dei com
elles na pobre nau Vasco-da-Gama que ahi est em monumento-caricatura da
nossa glria naval... E eu no vi nada d'isso, vi o Tejo, vi a bandeira
portugueza fluctuando com a brisa da manhan, a trre de Belem ao
longe... e sonhei, sonhei que era portuguez, que Portugal era outra vez
Portugal.

Tal fra deu o prestigio da scena s imagens que aquelles versos
evocavam!

Seno quando, a nau que salva a uns escaleres que chegam... Era o
ministro da marinha que ia a brdo.

Fechei o livro, accendi o meu charuto, e fui tractar das minhas
camelias.

Andei tres dias com odio  lettra-redonda.

Mas de tudo isto o que se tira, a que vem tudo isto para as minhas
viagens ou para o episodio do valle de Santarem em que ha tantos
capitulos nos temos demorado?

Vem e vem muito: vem para mostrar que a histria, lida ou contada nos
proprios sitios em que se passou, tem outra graa e outra fra; vem
para te eu dar o motivo porque n'estas minhas viagens, leitor amigo, me
fiquei parado n'aquelle valle a ouvir do meu companheiro de jornada, e a
escrever para teu aproveitamento, a interessante histria da menina dos
rouxinoes, da menina dos olhos verdes, da nossa boa Joanninha.

Sim, aqui tenho estado extendido no cho, as mulinhas pastando na relva,
os arrieiros fummando tranquillamente sentados, e as ltimas horas de
uma longa e calmosa tarde de julho a cahir e a refrescar com a aragem
percursora da noite.

Mas basta de valle, que  tarde. Oh l! venham as mulinhas e montemos.
Picar para Santarem, que no inclyto alcaar d'elrei D. Affonso-Henriques
nos espera um bom jantar d'amigo--e no  so a _vacca e riso_ de Fr.
Bartholomeu dos Martyres, mas um verdadeiro jantar d'amigo, muito menos
austero e muito mais risonho.

--'Porqu? ja se acabou a historia de Carlos e de Joanninha?' diz talvez
a amavel leitora.

--'No, minha senhora,' responde o auctor mui lisongeado da pergunta:
'no, minha senhora, a historia no acabou, quasi se pde dizer que
ainda ella agora comea; mas houve mutao de scena. Vamos a Santarem,
que l se passa o segundo acto.'




CAPITULO XXVII.


     Chegada a Santarem.--Olivaes de Santarem.--Fra-de-Villa.--Symetria
     que no  para os olhos.--Modo de medir os versos da
     biblia.--Architectura pedante do seculo XVII.--Entrada na Alcova.


Eram as ltimas horas do dia quando chegmos ao princpio da calada que
leva ao alto de Santarem. A pouca frequencia de povo, as hortas e
pomares mal cultivados, as casas de campo arruinadas, tudo indicava as
vizinhanas de uma grande povoao descahida e desamparada. O mais bello
comtudo de seus ornatos e glrias suburbanas, ainda o possue a nobre
villa, no lh'o destruiram de todo; so os seus olivaes. Os olivaes de
Santarem cuja riqueza e formosura proverbial  uma das nossas crenas
populares mais geraes e mais queridas!.. os olivaes de Santarem l esto
ainda. Reconheceu-os o meu corao e alegrou-se de os ver; saudei
n'elles o symbolo patriarchal de nossa antiga existencia. N'aquelles
troncos velhos e coroados de verdura, figurou-se-me ver, como nas selvas
incantadas do Tasso, as venerandas imagens de nossos passados; e no
murmurio das folhas que o vento agitava a espaos, ouvir o triste
suspirar de seus lamentos pela vergonhosa degenerao dos netos...

Estragado como os outros, profanado como todos, o olival de Santarem 
ainda um monumento.

Os povos do meio-dia, infelizmente, no professam com o mesmo respeito e
austeridade aquella religio dos bosques, tam sagrada para as naes do
norte. Os olivaes de Santarem so excepo: ha muito pouco entre ns o
culto das rvores.

Subimos, a bom trotar das mulinhas, a impinada ladeira--eu alvoraado e
impaciente por me achar face a face com aquella profuso de monumentos e
de ruinas que a imaginao me tinha figurado e que ora temia, ora
desejava comparar com a realidade.

Chegmos emfim ao alto; a majestosa entrada da grande villa est deante
de mim. No me inganou a imaginao... grandiosa e magnfica scena!

_Fra-de-villa_  um vasto largo, irregular e caprichoso como um poema
romantico; ao primeiro aspecto, quella hora tarda e de pouca luz,  de
um effeito admiravel e sublime. Palacios, conventos, egrejas occupam
gravemente e tristemente os seus antigos logares, infileirados sem ordem
aos lados d'aquella immensa praa, em que a vista dos olhos no acha
symetria alguma; mas sente-se n'alma.  como o rhytmo e medio dos
grandes versos biblicos que se no cadenceiam por ps nem por sylabas,
mas cahem certos no espirito e na _audio interior_ com uma
regularidade admiravel.

E tudo deserto, tudo silencioso, mudo, morto! Cuida-se entrar na grande
metropole de um povo extincto, de uma nao que foi poderosa e celebrada
mas que desappareceu da face da terra e so deixou o monumento de suas
construces gigantescas.

 esquerda o immenso convento do Stio ou de Jesus, logo o das Donas,
depois o de San'Domingos, clebre pelo jazigo do nosso Fausto
portuguez--seja ditto sem irreverencia  memoria de San'Frei Gil que, 
verdade, veio a ser grande sancto, mas que primeiro foi grande
bruxo.--Defronte o antiquissimo mosteiro das Claras, e aop as baixas
arcadas gothicas de San'Francisco... de cujo ltimo guardio, o austero
Frei Diniz, tanta coisa te contei, amigo leitor, e tantas mais tenho
ainda para te contar!  direita o grandioso edificio philippino,
perfeito exemplar da massissa e pedante architectura reaccionaria do
seculo dezesette, o Collegio, typo largo e bello no seu genero, e quanto
o seu genero pde ser, das construces jesuiticas...

No ha alma, no ha genio, no ha espirito n'aquellas massas pesadas,
sem elegancia nem simplicidade; mas ha uma certa grandeza que impe, uma
solidez travada, uma symetria de calculo, umas propores frias, mas bem
assentadas e esquadriadas com methodo, que revelam o pensamento do
seculo e do instituto que tanto o characterizou.

No so as fortes crenas da meia-edade que se elevam no arco agudo da
ogiva; no  a relaxao florda do seculo quinze e desesseis que ja
vacilla entre o byzantino e o classico, entre o mystico ideal do
christianismo que arrefece e os symbolos materiaes do paganismo que
acorda; no, aqui a _renascena_ triumphou, e depois de triumphar,
degenerou.  a inquisio, so os Jesuitas, so os Philippes,  a
reaco catholica edificando templos _para que_ se creia e se ore, no
_porque_ se cr e se ora.

At aqui o mosteiro e a cathedral, a ermida e o convento eram a
expresso da idea popular, agora so a frmula do pensamento
governativo.

Alli esto--olhae para elles--defronte uns dos outros, os monumentos das
duas religies, a qual mais expressivo e loquaz, dizendo mais claro que
os livros, que os escriptos, que as tradies, o pensamento das edades
que os ergueram, e que alli os deixaram gravados sem saber que o faziam.

Mais embaixo, e no fundo d'esse declive, aquella massa negra  o resto
ainda suberbo do ja immenso palacio dos condes de Unho.

Rodemos o largo e fomos entrar em Marvilla pelo lado do norte. Estamos
dentro dos muros da antiga Santarem. Tam magnfica  a entrada, tam
mesquinho  agora tudo ca dentro, a maior parte d'estas casas velhas sem
serem antigas, d'estas ruas moirescas sem nada de arabe, sem o menor
vestigio de sua origem mais que a estreiteza e pouco aceio.

As egrejas quasi todas porm, as muralhas e os basties, algumas das
portas, e poucas habitaes particulares, conservam bastante da
physionomia antiga e fazem esquecer a vulgaridade do resto.

Seguimos a triste e pobre rua Direita, centro do debil commercio que
ainda aqui ha: poucas e mal providas logeas, quasi nenhum movimento. Ca
est a curiosa trre das Cabaas, a velha egreja de San'Joo do Alporo.
manhan iremos ver tudo isso de nosso vagar. Agora vamos  Alcaova!

Entrmos a porta da antiga cidadella.--Que espantosa e desgraciosa
confuso de intulhos, de pedras, de montes de terra e calissa! No ha
ruas, no ha caminhos,  um labyrinto de ruinas feias e torpes. O nosso
destino, a casa do nosso amigo  aop mesmo da famosa e historica egreja
de Sancta Maria da Alcaova.--Hade custar a achar em tanta confuso.




CAPITULO XXVIII.


     Depois de muito procurar acha emfim o auctor a egreja de
     Sancta-Maria d'Alcaova.--Stylo da architectura nacional
     perdido.--O terremoto de 1755, o marquez de Pombal e o chafariz do
     Passeio-publico de Lisboa.--O chefe do partido progressista
     portuguez no alcassar de D. Affonso Henriques.--Deliciosa vista dos
     arredores de Santarem observada de uma janella da Alcaova, de
     manhan.-- tomado o auctor de ideas vagas, poeticas, phantasticas
     como um sonho.--Introduco do Fausto.--Difficuldade de traduzir os
     versos germanicos nos nossos dialectos romanos.


Depois de muito procurar entre pardeiros e intulhos, achmo-la emfim a
egreja de Sancta Maria d'Alcaova. Achmos, no  exacto: ao menos eu,
por mim, nunca a achava, nem queria accreditar que fsse ella quando m'a
mostraram. A real collegiada de Affonso Henriques, a quasi-cathedral da
primeira villa do reino, um dos principaes, dos mais antigos, dos mais
historicos templos de Portugal, isto?.. esse egrejorio insignificante de
capuchos? mesquinha e ridicula massa d'alvenaria, sem nenhuma
architectura, sem nenhum gsto! risco, execuo e trabalho de um mestre
pedreiro d'aldeia e do seu apprendiz!  impossivel.

Mas era, era essa. A antiga capella-real, a veneranda egreja da Alcaova
foi passando por successivos reparos e transformaes, at que chegou a
sta miseria.

Perverteu-se por tal arte o gsto entre ns desde o meio do seculo
passado especialmente, os estragos do terremoto grande quebraram por tal
modo o fio de todas as tradies da architectura nacional, que na
Europa, no mundo todo talvez se no ache um paiz onde, a par de tam
bellos monumentos antigos como os nossos, se incontrem tam villans, tam
ridiculas e absurdas construces pblicas como essas quasi todas que ha
um seculo se fazem em Portugal.

Nos reparos e reconstruces dos templos antigos  que este pessimo
stylo, sta ausencia de todo stylo, de toda a arte mais offende e
escandaliza.

Olhem aquella impena classica posta de remate ao frontispicio todo
renascena da Conceio-velha em Lisboa. Vejam a implastagem de geo com
que esto mascarados os elegantes feixes de columnas gothicas da nossa
s.

No se pde cahir mais baixo em architectura do que ns cahimos quando,
depois que o marquez de Pombal nos _traduziu_, em vulgar e arrastada
prosa, os _rococs_ de Luiz XV, que no original, pelo menos, eram
flordos, recortados, caprichosos e galantes como um madrigal, esse
stylo bastardo, hybrido, degenerando progressivamente e tomando
presumpes de classico, chegou nos nossos dias at ao chafariz do
passeio-pblico!

Mas deixar tudo isso, e deixar a egreja da Alcaova tambem; entremos nos
palacios de D. Affonso Henriques.

Aqui, pegado com o pardeiro rebocado da capella hode ser. Por onde se
entra?

Por sta portinha estreita e baixa, rasgada, bem se ve que ha poucos
annos, no que parece muro de um quintal ou de um pteo.

 comeffeito aqui; apeemo'-nos.

Recebeu-nos com os braos abertos o nosso bom e sincero amigo, actual
possuidor e habitante do regio alcassar, o Sr. M. P.

Notavel combinao do acaso! Que o illustre e venerado chefe do partido
progressista em Portugal, que o homem de mais sinceras convices
democraticas, e que mais sinceramente as combina com o respeito e
adheso s frmas monarchicas, esse homem, vindo do Minho, do bero da
dynastia e da nao, viesse fixar aqui a sua residencia no alcassar do
nosso primeiro rei, conquistado pela sua espada n'um dos feitos mais
insignes d'aquella era de prodigios!

Entrmos na pequena horta em frma de claustro que une a antiga casa dos
reis com a sua capella. Assim foi sem dvida n'outro tempo: a parede
oriental da egreja  o muro do quintal de um lado, mas as communicaes
foram vedadas provavelmente quando a coroa alienou o palacio e o separou
assim perpetuamente do templo.

Plantado de larangeiras antigas, os muros forrados de limoeiros e
parreiras, aquella pequena crca, apezar dos muitos canteiros e
alegretes de alvenaria com que est moirescamente intulhada,  amena e
graciosa  vista.

Appresentou-nos o nosso amigo a sua mulher, senhora de porte gentil e
grave; beijmos seus lindos filhos, e fomos fazer as ablues
indispensaveis depois de tal jornada para nos podermos sentar  mesa.

O palacio de Affonso Henriques est como a sua capella: nem o mais leve,
nem o mais apagado vestigio da antiga origem. Sabe-se que  alli pela
bem confrontada e inquestionavel topographia dos logares, por mais
nada...

E que me importam a mim agora as antiguidades, as ruinas e as
demolies, quando eu sinto demolir-me ca por dentro por uma fome
exasperada e destruidora, uma fome vandalica insaciavel!

Vamos a jantar.

Commos, conversmos, tommos ch, tornmos a conversar e tornmos a
comer. Vieram visitas, fallou-se politica, fallou-se litteratura,
fallou-se de Santarem sbretudo, das suas ruinas, da sua grandeza
antiga, da sua desgraa presente. Emfim, fomo'-nos deitar.

Nunca dormi tam regalado somno em minha vida. Acordei no outro dia ao
repicar incessante e appresurado dos sinos da Alcaova. Saltei da cama,
fui  janella, e dei com o mais bello, o mais grandioso, e ao mesmo
tempo, mais ameno quadro em que ainda puz os meus olhos.

No fundo de um largo valle aprazivel e sereno, est o socegado leito do
Tejo, cuja areia ruiva e resplandecente apenas se cobre d'agua juncto s
margens, d'onde se debruam verdes e frescos ainda os salgueiros que as
ornam e defendem. D'alm do rio, com os ps no pinque nateiro d'aquellas
terras alluviaes, os riccos olivedos d'Alpiara e Almeirim; depois a
villa de D. Manuel e a sua charneca e as suas vinhas. D'aquem a immensa
planicie ditta do Rocio, semeada de casas, de aldeias, de hortas, de
grupos de rvores sylvestres, de pomares. Mais para a raiz do monte em
cujo cimo estou, o picturesco bairro da Ribeira com as suas casas e as
suas egrejas, tam graciosas vistas d'aqui, a sua cruz de Sancta Iria e
as memorias romanescas do seu alfageme.

Com os olhos vagando por este quadro immenso e formosissimo, a
imaginao tomava-me azas e fugia pelo vago infinito das regies ideaes.
Recordaes de todos os tempos, pensamentos de todo o genero me affluiam
ao espirito, e me tinham como n'um sonho em que as imagens mais
discordantes e disparatadas se succedem umas s outras.

Mas eram todas melancholicas, todas de saudade, nenhuma de esperana!..

Lembraram-me aquelles versos de Goethe, aquelles sublimes e inimitaveis
versos da introduco do Fausto:

    Resurgis outra vez, vagas figuras,
    Vacillantes imagens que  turbada
    Vista accudieis d'antes. E heide agora
    Retter-vos firme? Sinto eu ainda
    O corao propenso a illuses d'essas?
    E appertais tanto!... Pois embora! seja:
    Dominae, ja que em nevoa e vapor leve
    Emtrno a mim surgis. Sinto o meu seio
    Juvenilmente trpido agitar-se
    Co'a maga exhalao que vos circunda.
    Trazeis-me a imagem de ditosos dias,
    E d'ahi se ergue muita sombra amada:
    Como um velho cantar meio-esquecido,
    Vem os primeiros simplices amores
    E a amizade com elles. Reverdece
    A mgoa, lamentando o errado curso
    Dos labyrintos da perdida vida;
    E me est nomeando os que trahidos
    Em horas bellas por fallaz ventura
    Antes de mim na estrada se sumiram.
    ..................................
    ..................................

No me atrevo a pr aqui o resto da minha infeliz traduco: fiel 
ella, mas no tem outro merito. Quem pde traduzir taes versos, quem de
uma lingua tam vasta e livre hade pass-los para os nossos appertados e
severos dialectos romanos?[1]




CAPITULO XXIX.


     Douras da vida.--Imaginao e sentimento.--Poetas que morreram
     moos e poetas que morreram velhos.--Como so escriptas stas
     viagens.--Livro de pedra. Criana que brinca com elle.--Ruinas e
     reparaes.--Idea fixa do A. em coisas d'arte e
     litterarias.--Sancta Iria ou Irene, e Santarem.--Romance de Sancta
     Iria.--Quantas sanctas ha em Portugal d'este nome?


Este sonhar acordado, este scismar poetico deante dos sublimes
spectaculos da natureza,  dos prazeres grandes que Deus concedeu s
almas de certa tmpera. Doce  gosar assim... mas em que douras da vida
no predomina sempre o acido poderoso que stimula! Tirae-lh'o, fica a
insipidez; deixae-lh'o, ulcra porfim os orgams: o gso  mais vivo
porque a aco do stmulo  mais sentida... mas a ulcerao cresce, o
corao est em carne-viva... agora o prazer  martyrio.

Infeliz do que chegou a esse estado!

Bemaventurado o que pde graduar, como Goethe, a dze d'amphio que quer
tomar, que poupa as sensaes e a vida, e economiza as potencias de sua
alma! N'esses porm  a imaginao que domina, no o sentimento. Byron,
Schiller, Cames, o Tasso morreram moos; matou-os o corao. Homero e
Goethe, Sophocles e Voltaire acabaram de velhos: sustinha-os a
imaginao, que no despende vida porque no gasta sensibilidade.

Imaginar  sonhar, dorme e repousa a vida no entretanto; sentir  viver
activamente, cansa-a e consomme-a.

Isto  o que eu pensava--porque no pensava em nada, divagava--em quanto
aquelles versos do Fausto me estavam na memoria, e aquella saudosa vista
do Tejo e das suas margens deante dos olhos.

Isto pensava, isto escrevo, isto tinha n'alma, isto vai no papel: que
d'outro modo no sei escrever.

Muito me pza, leitor amigo, se outra coisa esperavas das minhas
Viagens, se te falto, sem o querer, a promessas que julgaste ver n'esse
titulo, mas que eu no fiz decerto. Querias talvez que te contasse,
marco a marco, as leguas da estrada? palmo a palmo, as alturas e
larguras dos edificios? algarismo por algarismo, as datas de sua
fundao? que te resummisse a historia de cada pedra, de cada ruina?..

Vai-te ao padre Vasconcellos; e quanto ha de Santarem, peta e verdade,
ahi o achars em amplo folio e gorda lettra: eu no sei compor d'esses
livros, e quando soubesse, tenho mais que fazer.

So tenho pena de uma coisa,  de ser tam desestrado com o lapis na mo;
porque em dois traos d'elle te dizia muito mais e melhor do que em
tanta palavra que porfim tam pouco diz e tam mal pinta.

Santarem  um livro de pedra em que a mais interessante e mais poetica
parte das nossas chronicas est escripta. Ricco de illuminuras, de
recortados, de flores, de imagens, de arabescos e arrendados
primorosos, o livro era o mais bello e o mais precioso de Portugal.
Inquadernado em esmalte de verde e prata pelo Tejo e por suas ribeiras,
fechado a broches de bronze por suas fortes muralhas gothicas, o
magnfico livro devia durar sempre em quanto a mo do Creador se no
extendesse para apagar as memorias da creatura.

Mas sta Ninive no foi destruida, sta Pompeia no foi submergida por
nenhuma catastrophe grandiosa. O povo de cuja histria ella  o livro,
ainda existe; mas esse povo cahiu em infancia, deram-lhe o livro para
brincar, rasgou-o, mutilou-o, arrancou-lhe folha a folha, e fez
papagaios e bonecas, fez carapuos com ellas.

No se descreve por outro modo o que sta gente chamada govrno, chamada
administrao, est fazendo e deixando fazer ha mais de seculo em
Santarem.

As runas do tempo so tristes mas bellas, as que as revolues trazem,
ficam marcadas com o cunho solemne da historia. Mas as brutas
degradaes e as mais brutas reparaes da ignorancia, os mesquinhos
concertos da arte parasyta, esses profanam, tiram todo o prestigio.

Tal  a geral impresso que me faz sta terra. Almocemos, que ja oio
chamar para isso, e iremos ver depois se me inganei.

Ao almo a conversao veio naturalmente a cahir no seu objecto mais
bvio, Santarem. D. Affonso Henriques e os seus bravos, San'Frei Gil e o
Sancto-milagre, o Alfageme e o Condestavel, el-rei D. Fernando e a
rainha D. Leonor, Cames desterrado aqui, Frei Luiz de Sousa aqui
nascido, Pedralvares Cabral, os Docems, quasi todas as grandes figuras
da nossa historia passaram em revista. Porfim veio Sancta Iria tambem, a
madrinha e padroeira d'esta terra, cujo nome aqui fez esquecer o de
romanos e celtas.

Quem tem uma idea fixa, em tudo a mette. A minha idea fixa em coisas de
arte e litterarias da nossa peninsula so as xacaras e romances
populares. Ha um de Sancta Iria.

Porque  a Sancta Iria da trova popular tam differente da Sancta Iria
das legendas monasticas?

A trova  sta, segundo agora a rectifiquei e appurei pela collao de
muitas e vrias verses provinciaes com a ribatejana ou bordalenga, que
em geral  a que mais se deve seguir.[2]

    Stando eu  janella co'a minha almofada,
    Minha agulha d'ouro, meu dedal de prata;

    Passa um cavalleiro, pedia pousada;
    Meu pae lh'a negou: quanto me custava!

    --'Ja vem vindo a noite,  tam so a estrada...
    Senhor pae, no digam tal da nossa casa,

    Que a um cavalleiro que pede pousada
    Se fecha sta porta  noite cerrada.'

    Roguei e pedi--muito lhe pezava!
    Mas eu tanto fiz que porfim deixava.

    Fui-lhe abrir a porta, mui contente entrava;
    Ao lar o levei, logo se assentava.

    s mos lhe dei agua, elle se lavava;
    Puz-lhe uma toalha, n'ella me limpava.

    Poucas as pallavras, que mal me fallava,
    Mas eu bem sentia que elle me mirava.

    Fui a erguer os olhos, mal os levantava,
    Os seus lindos olhos na terra os pregava.

    Fui-lhe pr a cea, muito bem ceava;
    A cama lhe fiz, n'ella se deitava.

    Dei-lhe as boas noites, no me replicava:
    Tam m cortezia nunca a vi usada!

    L por meia noite que me eu suffocava,
    Sinto que me levam co'a bcca tapada...

    Levam-me a cavallo, levam-me abraada,
    Correndo, correndo sempre  desfilada.

    Sem abrir os olhos, vi quem me roubava;
    Callei-me e chorei--elle no fallava.

    D'alli muito longe que me perguntava
    Eu na minha terra como me chamava.

    --'Chamavam-me Iria, Iria a fidalga;
    Por aqui agora Iria, a cansada.'[3]

    Andando, andando, toda a noite andava;
    L por madrugada que me attentava...

    Horas esquecidas commigo luctava;
    Nem fra nem rogos, tudo lhe mancava.

    Tirou do alfange... alli me matava,
    Abriu uma cova onde me interrava.


    No fim de sette annos passa o cavalleiro,
    Uma linda ermida viu n'aquelle outeiro.

    --'Minha Sancta Iria, meu amor primeiro,
    Se me perdoares, serei teu romeiro.'

    --'Perdoar no te heide, ladro carniceiro,
    Que me degollaste que nem um cordeiro.'


Ou houve duas sanctas d'este nome, ambas de aventurosa vida e que ambas
deixassem longa e profunda memoria de sua belleza e martyrio--o de que
no tenho a menor idea--ou nos escriptos dos frades ha muita fbula de
sua unica inveno d'elles que o povo no quiz acreditar: alias 
inexplicavel a singeleza d'esta tradio oral.

Tam simples, tam natural  a narrao poetica do romance popular, quanto
 complicada e cheia de maravilhas a que se auctoriza nas recordaes
ecclesiasticas.

O caso  grave, fique para novo capitulo.




CAPITULO XXX.


     Historia de Sancta Iria segundo os chronistas e segundo o romance
     popular.


A milagrosa Sancta Iria--Sancta Irene--que deu o seu nome a Santarem,
donzella nobre, natural da antiga Nabancia[4], e freira no convento
dupplex[5] benedictino que pastoreava o sancto abbade Celio, floreceu
pelos meados do septimo seculo. Namorou-se d'ella extremosamente o joven
Britaldo, filho do conde ou consul Castinaldo que governava aquellas
terras, e no podendo conseguir nada de sua virtude, cahiu infrmo de
molestia que nenhum physico acertava a conhecer, quanto mais a curar.

 sabido que a mais sancta lhe no pza de que estejam a morrer por
ella; e, mais ou menos, sempre sympathisa com as victimas que faz.

Sancta Iria resolveu consolar o pobre Britaldo; e ja que mais no podia
por sua muita virtude, quiz ver se lhe tirava aquella louca paixo e o
convertia. Sahiu, uma bonita manhan, do seu convento--que no guardavam
ainda as freiras tam absoluta e estreita clausura--e foi-se a casa do
namorado Britaldo.

Consolou como mulher e ralhou como sancta, e porfim, impondo-lhe na
cabea as lindas e bemdittas mos, n'um instante o sarou de todo achaque
do corpo; e se lhe no curou o d'alma tambem, pelo menos lh'o
adormentou, que parecia acabado.

Mas como o demo, em chegando a entrar n'um corpo humano, parece que no
sai d'elle seno para se ir metter n'outro; tam depressa o inimigo
deixou ao pobre Britaldo, como logo se foi incaixar em no menor
personagem do que o monge Remigio, que era o mestre e director da bella
Iria.

Arde o frade em concupiscencia, e no obtendo nada com rogos e lamentos,
jurou vingar-se. Disfarou porm, fingiu-se emendado, e deu-lhe, quando
ella menos cuidava, uma bebida de sua diabolica preparao, que apenas a
sancta a havia tomado, lhe appareceram logo e continuaram a crescer
todos os signaes da mais apparente maternidade.

Corre a fama do supposto estado da donzella, chovem as injrias e os
insultos dos que mais a tinham respeitado at ento. E Britaldo, que se
julga escarnecido pela hypocrisia d'aquella mulher artificiosa, em vez
de a esquecer com desprzo--sente reviver-lhe, seno tam pura, muito
mais ardente, toda a antiga paixo.

Tam mysterioso  o corao do homem!--tam vil! diro os asceticos--tam
inexplicavel! direi eu com os mais tolerantes.

Novas tentativas, promessas, ameaas do furioso amante... A sancta
resiste a tudo, forte na sua virtude.

Costumava a devota donzella ir todas as noites a uma occulta lapa que
jazia no fim da crca e juncto ao rio Nabo, para alli estar mais so com
Deus, e desabafar com Elle  sua vontade. Soube-o Britaldo, espreitou a
occasio e alli a fez apunhalar por um seu criado cujo nome a legenda
nos conservou para maior testimunho de verdade: chamava-se Banam.

Banam!  um verdadeiro nome de mellodrama.

Morta a innocente, Banam despiu-lhe o hbito e lanou o corpo ao rio,
que depressa a levou s arrebatadas correntes do Zezere em que desagua;
e logo este ao Tejo--que defronte da antiga Scalabicastro lhe deu
sepultura em suas louras areas, para maior glria da sancta e perptua
honra da nobillissima villa que hoje tem o seu nome.

Mas emquanto ia navegando o corpo da sancta, teve Celio, o abbade do
convento, uma revelao que lhe descobriu a verdade e os milagres do
caso; e communicando-a logo aos monges e ao povo de Nabancia, sahiu com
todos de cruz alada, e foi por esses campos da Golegan fra, at chegar
 Ribeira de Santarem. Ahi benzendo as aguas do rio, stas se retiraram
cortezes e deixaram ver o sepulchro que era de fino alabastro, obrado 
maravilha pelas mos dos anjos.

Chegaram aop do tumulo, abriram-n'o, viram e tocaram o corpo da sancta,
mas no o poderam tirar, por mais diligencias que fizeram. Conheceu-se
que era milagre; e contentando-se de levar reliquias dos cabellos e da
tunica, voltaram todos para a sua terra.

As aguas tornaram a junctar-se e a correr como d'antes, e nunca mais se
abriram seno d'ahi a seis seculos e meio, quando a boa rainha sancta
Isabel, mulher d'el-rei D. Diniz, tam fervorosas oraes fez aop do rio
pedindo  sancta que lhe apparecesse, que o rio tornou a abrir-se como o
mar Vermelho  voz de Moises, dizem os devotos chronistas, e patenteou o
benditto sepulchro.

Entrou a rainha a p inchuto pelo rio dentro, seguida de seu real espso
e de toda a sua crte; mas por mais que rezasse ella, e que trabalhassem
os outros com todas as fras humanas, no poderam abrir o tumulo;
quebraram todas as ferramentas, era impossivel. Desinganado el-rei de
que um podr sobrehumano no permittia que elle se abrisse, mandou a
toda a pressa levantar um padro muito alto sbre o mesmo tumulo, e tam
alto que o rio na maior inchente o no podesse cubrir.

O rio esperou com toda a paciencia que os pedreiros acabassem, e quando
viu que podia continuar a correr, deu aviso, retiraram-se todos,
tornaram a junctar-se as aguas e o padro ficou sobresahindo por cima
d'ellas.

Passaram mais tres seculos e meio; e no anno de 1644 a camara de
Santarem mandou refazer de cantaria lavrada o ditto marco ou pedestal
que no era seno de alvenaria, e pr-lhe em cima a imagem da sancta.

Ainda l est, asss mal cuidado com tudo; l o vi com estes olhos
peccadores no corrente mez de julho de 1843. Mas, sem milagre nem
oraes, o rio tinha-se retirado, havia muito, para um cantinho do seu
leito, e o padro estava perfeitamente em scco, e em scco est todo o
anno at comearem as cheias.

Tal , em fidelissimo resummo, a historia da Sancta Iria dos livros.

A das cantigas , como ja disse, muito outra e muito mais simples,
conta-se em duas palavras. A sancta est em casa de seus paes; um
cavalleiro desconhecido, a quem do pousada uma noite, levanta-se por
horas mortas, rouba a descuidada e innocente donzella, foge a todo o
correr de seu cavallo, e chegado a um descampado d'alli muito longe,
pretende fazer-lhe violencia... A sancta resiste, elle mata-a. D'alli a
annos passa por ahi o indigno cavalleiro, ve uma linda ermida levantada
no proprio stio onde commetteu o crime, pergunta de que sancta ,
dizem-lhe que  de Sancta Iria. Elle cai de joelhos a pedir perdo 
sancta, que lhe lana em rosto o seu peccado e o amaldioa.

E acabou a historia.

Sera o povo que se esqueceu nas suas tradies, ou os frades que
augmentaram nas suas escripturas? Pois a legenda monastica  realmente
bella e cheia de poesia e romance, coisas que o povo no costuma
desprezar.

 difficil de explicar-se este phenomeno, interessantissimo para
qualquer observador no vulgar, que n'estas crenas do commum, n'estas
antigualhas, desprezadas pela suberba philosophia dos nescios, quer
estudar os homens e as naes e as edades onde elles mais sinceramente
se mostram e se deixam conhecer.

A extrema simplicidade do romance ou xacara de Sancta Iria, o ser elle,
d'entre todos os que andam na memoria do nosso povo, o mais geralmente
sabido e mais uniformente repettido em todos os districtos do reino, e
com poucas variantes nas palavras, nenhuma no contexto, me faz crer que
sta seja das mais antigas composies no so da nossa lingua, mas de
toda a peninsula. A phrase tem pouco sabor antigo: este  um d'aquelles
poemas quasi aborigines que a tradio tem vindo intregando, e ao mesmo
tempo traduzindo, de paes a filhos insensivelmente; e tambem no 
porcerto dos que desceram do palacio s choupanas e fugiram da cidade
para as aldeas, como em muitos outros se conhece: este visivelmente
nasceu nos arraiaes, nos oragos dos campos, e por l tem vivido at
agora.

A frma metrica da composio  a que a phrase didatica das Hispanhas
chamou _romance em endechas_. Eu, adoptando para elle, mais que para a
frma ordinaria do metro octosyllabo, a theoria do ingenhoso philologo
allemo, Deeping, tam benemerito da nossa litteratura peninsular, creio
que estes so verdadeiros versos de dze syllabas, e que as coplas no
constam seno de dous versos cada uma, segundo a bvia significao da
palavra. O povo cantando no separa os hemistychios d'estes versos como
fazem os que os escrevem: e ao contrrio nos romances da medida mais
commum, o canto popular reparte distinctamente cada membro de oito
syllabas sbre si.

No sei se me ingano, mas desconfio que as quatro coplas ltimas, em que
muda completamente a rhyma, sejam additamento posterior feito  cantiga
original. Todavia estes oito versos apparecem, com ligeiras variantes,
em toda a parte.




CAPITULO XXXI.


     Quommodo sedet sola civitas.--Santarem.--Portugal em verso e
     Portugal em prosa.--Exquisito lavor de umas portas e janellas de
     architectura mosarabe.--Busto de D. Affonso Henriques.--As
     salgadeiras de Affrica.--Porta do Sol.--Muralhas de
     Santarem.--Voltemos  historia de Fr. Diniz e da menina dos olhos
     verdes.


Eram mais de dez horas da manhan quando sahimos a comear a longa
viasacra de reliquias, templos e monumentos que so hoje toda Santarem.

A vida palpitante e actual acabou aqui inteiramente: hoje  um livro que
so recorda o que foi. Entre a historia maravilhosa do passado que todas
stas pedras memoram, e as prophecias tremendas do futuro que parecem
gravadas n'ellas em characteres mysteriosos, no ha mais nada: o
presente no , ou  como se no fosse: tam pequeno, tam mesquinho, tam
insignificante, tam desproporcionado parece a tudo isto.

D vontade de intoar com o poeta inspirado de Jerusalem: 'Quommodo sedet
sola civitas!' Portugal , foi sempre uma nao de milagre, de poesia.
Desfizeram o prestigio; veremos como elle vive em _prosa_. Morrer, no
morre a terra, nem a familia, nem as raas: mas as naes deixam de
existir.--Pois embora, ja que assim o querem. A mim no me fica
escrupulo.

Passmos a egreja da Alcaova, que achmos ja fechada; e tomando sempre
sbre a esquerda, fomos pelo que hoje parece uma azinhaga de entre
quintas, mas que visivelmente foi n'outras eras a rua mais _fashionavel_
d'esta villa cortezan. Aqui esto quasi aop da egreja umas portas e
janellas do mais fino lavor e gsto mosarabe que me lembra de ter visto.

E a proposito, porque se no hade adoptar na nossa peninsula sta
designao de _mosarabe_ para characterizar e classificar o genero
architectonico especial nosso, em que o severo pensamento christo da
architectura da meia edade se sente relaxar pelo contacto e exemplo dos
habitos sensuaes moirescos, e de sua luxuosa e redundante elegancia?

De que palacio incantado foram stas portas tam primorosamente lavradas?
Que bellezas se debruaram d'essas arrendadas janellas para ver passar o
cavalleiro escolhido do seu corao? So tam lindas, tam elegantes ainda
stas pedras desconjunctadas, e mal sustidas de um muro insosso e
grosseiro que as facea, que naturalmente despertam a mais adormecida
imaginao a quanto sonho de fadas e trovadores a poesia fez nascer dos
mysterios da edade-mdia.

Pouco mais adeante est, em um mau nicho escalavrado e feio, um
pretendido busto de D. Affonso Henriques, a que attribuem grande
antiguidade. No me fez esse effeito a mim.

Chegmos  porta do _Sol_; sentamo'-nos alli a gosar da majestosa vista.
 majestosa mas triste. A ribanceira que d'alli corta abaixo, at ao
rio,  arida e quasi calva: cobrem-n'a apenas, como a mal povoada nuca
de um velho, alguns tufos de verdura cinzenta e grisalha de um arbusto
rasteiro, meio _frutex_ meio herbaceo que aqui chamam 'Salgadeira' e que
a tradico diz ter vindo de Affrica para segurar a terra n'estes
taludes e precipicios. O aspecto e hbito da planta  realmente
affricano e oriental, no tem nada de europeu. Mas sta derradeira e
occidental parte da nossa Hespanha , geologicamente fallando, ja tam
affrica, tam pouco europa, que no sera necessaria a transplantao
talvez; e porventura ficou sta memoria entre o povo do uso que os
moiros faziam da planta para esse fim.

sta porta do sol dizem que  onde se faziam as execues em tempos
antigos. Foi bem escolhido o stio; no o ha mais triste e melancholico.
Aop est um torreo quadrado da muralha que ahi frma canto para seguir
depois na direco de sul a norte. D'este lado as fortificaes e lanos
de muro esto todas pouco estragadas; e do mirante a que subimos,
pde-se formar perfeita idea do que era uma antiga cidade murada.

Sera aqui, dizia eu commigo, que o nosso Fr. Diniz de quem ja tenho
saudades--o velho guardio de San'Francisco veio chorar o seu ultimo
threno sbre as ruinas da antiga monarchia? Sera aqui n'este logar de
desolao e melancholia que correram as suas derradeiras lagrymas! Elle
que ja no chorava, acharia aqui quem desse aos seus olhos as fontes de
agua que o corao lhe pedia para se desaffogar dos pezares que o
rallavam na aridez e seccura de sua desconsolada velhice?

Passavam-me stas ideas pelo pensamento quando o historiador que tantos
capitulos nos retteve no vale, contando-nos os successos de Joanninha e
da sua familia, nos disse:

'Sentemo-nos aqui na sombra que faz sta muralha e acabemos a historia
da menina dos rouxinoes. De tarde vamos  Ribeira saudar a memoria do
Alfageme. manhan de manhan est detalhado que iremos ver a Graa, o
Sancto milagre, San' Domingos e San' Francisco. Concluamos hoje sta
historia.'

'Seja' respondemos ns.

Entraremos portanto em novo capitulo, leitor amigo; e agora no tenhas
medo das minhas digresses fataes, nem das interrupes a que sou
sujeito. Ir direita e corrente a historia da nossa Joanninha at que a
terminemos... em bem ou em mal? D'antes um romance, um drama em que no
morria ninguem era havido por semsabor; hoje ha um certo horror ao
tragico, ao funesto que perfeitamente quadra ao seculo das commodidades
materiaes em que vivemos.

Pois, amigo e benevolo leitor, eu nem em principios nem em fins tenho
eschola a que esteja sujeito, e heide contar o caso como elle foi.

Escuta.




CAPITULO XXXII.


     Tornmos  historia de Joanninha.--Preparativos de guerra.--A
     morte.--Carlos ferido e prisioneiro.--O hospital.--O
     infermeiro.--Georgina.


'Escuta!' disse eu ao leitor benevolo no fim do ltimo captulo. Mas no
basta que escute,  preciso que tenha a bondade de se recordar do que
ouviu no capitulo XXV e da situao em que ahi deixmos os dous primos,
Carlos e Joanninha.

N'este despropositado e inclassificavel livro das minhas Viagens, no 
que se quebre, mas inreda-se o fio das historias e das observaes por
tal modo, que, bem o vejo e o sinto, so com muita paciencia se pde
deslindar e seguir em tam imbaraada meada.

Vamos pois com paciencia, caro leitor; farei por ser breve e ir direito
quanto eu podr.

Lembra-te como n'uma noite pura, serena e estrellada, aquelles dous se
despediram um do outro no meio do valle, como se despediram tristes,
duvidosos, infelizes, e ja outros, tam outros do que d'antes foram.

N'essa mesma noite, a ordenada confuso de um grande movimento de guerra
reinava nos postos dos constitucionaes.  longa apathia de tantos mezes
succedia uma inesperada actividade. Preparavam-se os sanguinolentos
combates de Pernes e de Almoster, que no foram decisivos logo, mas que
tanto appressaram o termo da contenda.

Carlos achou ordem de se appresentar no quartel-general, partiu
immediatamente. O pensamento absorvido por ideas tam differentes, tam
confuso, tam alheado de si mesmo, seguiu machinalmente o corpo. Foi,
chegou, recebeu as instruces que lhe deram, e voltou mais satisfeito,
mais tranquillo.

Tractava-se de morrer. No sabe o que  verdadeira angstia d'alma o que
ainda no abenoou a morte que viu deante de si, o que a no invocou
ainda como unico remedio de seu mal, ou, o que  mais desesperado, como
unica sahida de suas fataes perplexidades.

Estes momentos so raros na vida,  certo; mas quando occorrem, no ha
exaggerao nenhuma em dizer que antes, muito antes a morte do que
elles.

Oh! e se a morte que se contempla  de honra e glria, se o enthusiasmo,
tirando fortemente a corda dos nervos, os faz vibrar n'aquelles tons
secretos e mysteriosos que arrebatam, e elevam o corao do homem 
sublime abnegao de si, e de tudo o que  piqueno, baixo e vil na sua
natureza--oh ento a morte parece um triumpho, uma bemaventurana
porcerto!

Carlos esqueceu-se de tudo, menos da sua espada que affiou com
escrupuloso cuidado, e das suas boas e seguras pistolas inglezas que
limpou minuciosamente, carregou e escorvou com um verdadeiro amor de
artista que se compraz no ltimo acabamento de um trabalho predilecto.

O pouco da noite que lhe restava passou-se n'isto, a marcha comeou
antes do dia. E os primeiros raios do sol foram saudados pelo fuzilar
das espingardas, e pelo trovejar dos canhes.

Combateu-se larga e incarniadamente--como entre irmos que se odeiam de
todo o odio que ja foi amor--o mais cruel odio que tem a natureza!

O dia declinava ja quando n'um hospital em Santarem entravam muitas
maccas de feridos, e entre elles, um todo crivado de ballas e cuberto de
sangue que, assim pelos restos do uniforme como por certo ar bem
conhecido--e charecteristica ento, se via claramente ser do exrcito
constitucional.

Eram muitas e perigosas as feridas d'esse homem; estenderam-n'o n'uma
especie de tarimba sbre que havia alguma palha, e quando lhe chegou a
sua vez foi examinado e penado como os outros. No dava signal de
padecer, tinha os olhos fechados, o pulso forte mas no agitado de
febre; no proferia uma syllaba, no soltava um ai, e prestava-se a tudo
o que lhe diziam e faziam, menos a soltar da mo esquerda que apertava
contra o peito o que quer que fosse que alli tinha seguro e que lhe
pendia ao pescosso de uma estreita fitta preta.

Assim o deixaram largo tempo: elle adormeceu. No sera largo, mas foi
profundo o seu dormir. Quando acordou ja se no viu no vasto
caravanseray d'aquelle confuso hospital, mas n'um pequeno quarto
arejado, limpo, e quasi confortavel que em tudo parecia cella de
convento, menos na boa cama em que jazia o doente, e na extremada
elegancia do infermeiro que o velava.

O quarto era comeffeito uma cella do convento de San'Francisco em
Santarem, o doente o nosso Carlos; e o infermeiro que o velava, uma
bella mulher de estatura no acima de ordinaria mas nem uma linha menos,
involvida nas amplissimas pregas de um longo roupo de seda d'aquella
acertada cr que, em dialecto da rua Vivienne, se diz _scabieuse_; a
cabea toucada de finissima Bruxellas, com uns laos de preto e cr de
granada que realavam a transparencia das rendas, a infinita graa dos
longos e ondados aneis louros do cabello, e a pureza symetrica de um
rosto oval, classico, perfeito, sem grande mobilidade de expresso mas
bello, bello, quanto pde ser bello um rosto em que pouco d'alma se
reflecte, e em que a serena languidez de uns olhos azues entiba e
modera a energia do sentimento que no  menos profundo talvez, mas
certamente se expande menos.

De joelhos juncto ao leito de Carlos, com a mo direita d'elle nas suas,
os olhos seccos mas fixos nas descahidas palpebras do soldado, aquella
mulher estava alli como a esttua da dor e da anxiedade. A uma porta
interior e que abria para uma especie de alcova obscura, em p, os
braos cruzados e mettidos nas mangas, o capuz na cabea, estava um
frade velho, alto mas curvado do pso dos annos ou dos soffrimentos.

O frade contemplava o infrmo e a infermeira, mas visivelmente no
queria ser visto n'essa occupao, porque ao menor estremecimento do
doente recuava apressado e como assustado para o interior da sua alcova.

Uma so vela de cera allumiava este quadro, accidentando-o de fortes
sombras, e dando-lhe um tom de solemnidade verdadeiramente magico e
sublime.

Carlos segurava ainda na esquerda com o mesmo affrro o relicario ou
talisman, o que quer que era que no queria desprender de seu corao. A
bella infermeira beijava de vez em quando aquella mo tenaz que
estremecia a cada beijo, por mais suave e mimoso que fosse o leve
contacto d'esses labios delicados.

A outra mo estava nas mos d'ella, mas era insensivel a tudo, essa.

O silencio era o do sepulchro: so se ouvia o respirar incerto e
descompassado do infrmo.

Derepente Carlos entreabriu as palpebras e exclamou em inglez: '_Oh
Georgina, Georgina, I love you still._'--(Georgina, Georgina, eu ainda
te amo).

Duas lagrymas--duas perolas, d'estas que se criam com tanta dor no
corao e que s vezes sahem com tanto prazer dos olhos--romperam do
celeste azul dos olhos da dama e suavemente correram por aquellas faces
de uma alvura pallida e mortal.

Carlos accordou de todo, abriu os olhos e cravou-os fixamente no rosto
angelico d'essa mulher.

Esteve assim minutos: ella no dizia nada nem de voz nem de gesto:
fallavam-lhe so as lagrymas que corriam quietas, quietas, como corre uma
fonte perenne e nativa d'agua que mana sem esfro nem impeto, por um
declive natural e facil.

--'Onde estou eu, Georgina?'

--'Nos meus braos.'

--'Que me succedeu?'

--'Que no podes ser feliz seno n'elles: bem sabes.'

--'Sei... devia saber.'

--'Hasde sabe-lo agora. O passado...'

--'O passado! qual?'

--'O passado deixou de existir.'

--'E o futuro?'

--'Eu no creio no futuro.'

--'Porqu?'

--'Porque tu me disseste que no cresse.'

--'Eu!.. Eu sou um...'

--'Um homem.'

--'Oh!'

--'Basta e descana. Amanhan fallaremos.'

--'Estou ferido, muito; e doe-me agora... no me doa.'

--'Ests, mas sem perigo: e estou eu aqui. Dorme.'

--'No posso. Que casa  sta?'

--'San'Francisco de Santarem.'

--'Deus de misericordia!'

--'Es prisioneiro: sra, e eu te livrarei.'

--'Tu!--E tu aqui, como?'

--'Vim buscar-te, e achei-te assim.'

--'Georgina!'

--'Que tens tu ahi tam seguro na mo esquerda?'

--'V: a medalha com o teu cabello.'

--'Ento amas-me tu ainda?'

--'Se te amo! Como no primeiro...'

--'No mintas, Carlos... E dorme.'

--'Oh meu Deus, meu Deus! Georgina aqui, eu n'este estado e... E a minha
gente?'

--'A tua gente est salva.'

--'Aonde?'

--'Aqui mesmo, em Santarem.'

--'Quero... no quero... Oh sim, quero mas  morrer. Tende misericordia
de mim, meu Deus!'

--'Socega, Carlos.'

Mas Carlos no socegava: immudeceu porque a torrente de seus
pensamentos, o incontrado d'elles, e o inesperado d'aquella situao lhe
imbargavam a voz, e o quebramento das fras lhe tolhia os movimentos do
corpo; mas o espirito inquieto e alvoraado revolvia-se dentro com um
phrenesi louco. Era pasmar o que elle soffria.

 fra de bebidas calmantes o accesso diminuiu, a noite passou mais
tranquilla; e pela manhan o doente no dava cuidado ao facultativo que o
veio ver.

Prohibiram-lhe fallar; e Georgina tinha a coragem de lhe resistir, de
lhe no responder todas as vezes que elle tentava quebrar o preceito de
que dependia a sua vida... e a d'ella, porque a infeliz amava-o... oh!
amava-o como se no ama seno uma vez n'este mundo.

Passaram dias, semanas, Carlos estava melhor, estava salvo; Georgina
pde dizer-lhe um dia:

--'Carlos, meu Carlos, tu ests livre de perigo, vou restituir-te aos
teus.'

--'Os meus!'

--'Os teus. Tua av, tua prima...'

--'Joaninha! oh! Joanninha...'

--'Tua av que tambem tem estado a morrer mas que emfim est escapa,
ignora que tu estejas aqui. Occultmo-lo egualmente a tua prima.'

--'Ah!'

--'Sim, assentmos de lh'o no dizer a uma nem a outra at que
tivessemos certeza da tua melhora. Hoje porm vais ve-las. E eu...'

--'Tu!'

--'Eu no tenho aqui mais nada que fazer.'

--'Georgina!'

--'Carlos!'

--'Tu ja me no amas?'

--'No.'

Seguiu-se um silencio torvo e abafado como o da calma que precede as
grandes tempestades. O rosto de Georgina estava impassivel, Carlos
estorcia-se debaixo de uma compresso horrivel e incapaz de se
descrever.




CAPITULO XXXIII.


     Carlos e Georgina. Explicao.--Ja te no amo! palavra
     terrivel.--Que o amor verdadeiro no  cego.--Frade no caso outra
     vez. _Ecce iterum Crispinus_; ca est o nosso Fr. Diniz comnosco.


--'Tu ja me no amas, Georgina, tu!' exclamou Carlos depois de uma longa
e penosa lucta comsigo mesmo: 'Ja me no amas tu, Georgina? Ja no sou
nada para ti n'este mundo? Aquelle amor cego, louco, infinito, que
derramavas em torrentes sbre a minha alma, em que trasbordava o teu
corao; aquelle amor que eu cheguei a persuadir-me que era o maior, o
mais sincero, talvez o unico verdadeiro amor de mulher que ainda houve
no mundo, esse amor acabou, Georgina? Seccou-se no teu peito a fonte
celeste d'onde manava? Nem as recordaes de nossa passada felicidade,
nem as memorias dos crueis lances que nos custou, dos sacrificios
tremendos que por mim fizeste, nada, nada pde acordar na tua alma um
echo, um echo sumido que fosse, da antiga harmonia de nossas vidas--da
nossa vida, Georgina, porque ns chegmos a confundir n'um s os dois
seres da nossa existencia--Oh! porque vivi eu at este dia? E tu, tu que
refinada crueldade te inspirou o salvar uma vida que tinhas condemnado,
que tinhas sacrificado quando a separaste da tua?'

--'Carlos,' respondeu Georgina com a fria mas compassiva piedade que
mais o desesperava:--'Carlos, no abuses da pouca saude que ainda tens.
O esfro d'alma que ests fazendo pde-te ser prejudicial. Socega. Tu
illudes-te, e sem querer, procuras illudir-me tambem a mim. Entra em ti,
Carlos, e discorramos pausadamente sbre a nossa situao, que no 
agradavel porcerto nem para um nem para outro, mas que pde supportar-se
se tivermos juizo para a incarar toda e sem medo, e para nos
convencermos com lealdade e franqueza do que ella realmente . Ouve-me,
Carlos: tu amaste-me muito...'

--'Oh como, oh quanto! Nenhum homem...'

--'Poucos homens,  certo, amaram ainda como tu... quem sabe! talvez
nenhum.--No quero perder sta ltima illuso... ja no tenho outra...
Talvez nenhum amou como tu me amaste ou... ou cuidaste amar-me. Eu...
oh! eu quiz-te... pelo eterno Deus que me ouve! eu quiz-te com uma
cegueira d'alma, n'uma singeleza de corao, com um abandno tam
completo, uma abnegao tam inteira de mim mesma, que realmente creio,
este  o amor que so a Deus se deve, que so ao Creador a creatura pde
consagrar licitamente.

Bem castigada estou: mereci-o.'

--'Georgina, Georgina!'

--'Deixa-me, quero desabafar eu tambem agora. Ouve-me, tens obrigao de
me ouvir.--Se te dei provas d'este amor, tu o sabes; se desde que te
amei, uma palavra, um gesto, um pensamento unico, um so e o mais leve
relampejar da imaginao desmentiu em mim d'esta absoluta e exclusiva
dedicao de todo o meu ser... dize-o tu.'

--'No, minha alma, no, minha vida, no; tu s um anjo, tu es...'

--'Sou uma mulher que te amava como creio que ordinariamente se no
ama.'

--'No, certo, no.'

--'Fomos felizes,  verdade; e creio que poucos amantes ainda foram tam
felizes como ns nos breves dias que isto durou.--Tu partiste para a tua
ilha; era foroso partir, conheci-o e resignei-me. Consolavam-me as tuas
cartas, as tuas cartas de fogo, escriptas, oh se o eram escriptas com o
mais puro sangue do teu corao. Nunca duvidei do que me ellas diziam:
no se mente assim, tu no mentias ento.  falso que o amor seja cego:
o amor vulgar pde s-lo, amor como o meu, o amor verdadeiro tem olhos
de lynce: eu bem via que era amada. Nunca me escreveste a protestar
fidelidade, e eu saba, eu via que tu me eras fiel.--Assim passaram
meses, annos. Na ilha e no Porto foste o mesmo. Eu padecia muito, mas
confortava-me, vivia de esperanas... triste viver mas doce! Emfim
vieste para Lisboa, para aqui... e as tuas cartas que no eram menos
ternas nem menos apaixonadas...'

--'Se eu nunca deixei, nem um momento...'

Com um gesto expressivo, e de suave mas resoluta denegao, Georgina ps
a mo na bcca do pobre Carlos, como para o impedir de dizer uma
blasphemia. Elle segurou-a com as suas ambas e lh'a beijou mil vezes com
um arrebatamento, uma _furia_, n'um paroxismo de lagrymas e de soluos,
que partiriam o corao ao mais indifferente. Commoveu-se, vacillou a
inalteravel rigidez do bello rosto da dama, abaixaram-se as longas
palpebras de seus olhos; mas se chegou at elles alguma lagryma mais
rebelde, prompta refluiu para o corao, porque ao levant-los outra vez
e ao fix-los tranquillamente nos do seu amante, aquelles olhos puros,
celestes e austeros como os de um anjo offendido, estavam seccos.

Ella continuou:

--'As tuas cartas, que no eram menos ternas nem menos apaixonadas,
comearam todavia a ser menos naturaes, mais incarecidas... eram menos
verdadeiras por fra. Senti-o, vi-o, e cuidei morrer. Uma familia da
minha amizade vinha ento para Portugal, accompanhei-a. Apenas cheguei,
procurei e obtive os meios seguros de tranzitar pelos dous campos
contendores: presagiava-me o corao que me havia de ser preciso. E foi;
cheguei ao valle no dia em que tu o deixavas para aquella fatal aco
que te ia custando a vida. Vim-te incontrar prisioneiro e meio morto no
hospital dos feridos. Aop de ti estava um frade...'

--'Um frade! Meu Deus, se seria elle?'

--'Era elle.'

--'Pois tu sabes?..'

--'Sei: eu disse-lhe quem era e o que tu me eras...'

--'Tu a elle... disseste?..'

--'Disse. No sei se fiz mal ou bem, sei que me no importava o que
fazia. Vi depois que me no inganra na confiana que posera n'elle.
Trouxemos-te para este convento, trattmos de ti, conseguimos salvar-te
a vida... E em quanto esse cuidado me livrava de outros, fui... fui
feliz. A tua gente... a tua familia do valle tambem veio para
Santarem... tua av e tua prima, Carlos...'

--'Joanninha! Joanninha est aqui?'

--'Est; socega; ja t'o disse, logo a vers.'

--'Eu! Eu para qu? Eu no quero...'

--'Quero eu: hasde ve-la. Ja sabes que sei tudo.'

--'Tudo o qu, Georgina?'

--'Queres que t'o repitta? Repettirei. Que tu amas tua prima, que ella
que te adora. E por Deus, Carlos eu ja lhe quero como se fra minha
irman. Intendes bem agora que te no amo? Comprehendes agora que tudo
acabou entre ns, e que no vejo, no posso ver em ti ja seno o espso,
o marido da innocente criana que tomei debaixo da minha proteco, e a
quem juro que hasde pertencer tu?'

--'Juras falso.'

--'Como assim! Pois queres mais victimas? No ests satisfeito com a
minha ruina? Eu aomenos no sou do teu sangue. E essa velha decrepita
que  tua av, que duas vezes foi em verdade tua me porque te
criou,--essa innocente que te ama na singelleza do seu corao... e esse
pobre frade velho...'

--'Oh! aqui anda elle, bem o vejo, aqui anda o genio mau da minha
familia. Malditto sejas tu, frade!'

O desgraado no acabra bem de pronunciar stas palavras, quando a
porta da alcova se abriu de par em par, e a rigida, ascetica figura de
Fr. Diniz estava deante d'elle.




CAPITULO XXXIV.


     Carlos, Georgina e Fr. Diniz.--A peripecia do  drama.--


Carlos estava meio sentado meio deitado n'uma longa cadeira de recsto;
Georgina em p, com os braos cruzados e na attitude de reflexiva
tranquillidade. Um sol brilhante e ardente, um sol de maio, feria os
estreitos vidros da pequena janella que so dava luz quelle quarto: a
excessiva claridade era velada por uma longa e ampla cortina.

Carlos lanou derepente a mo a essa cortina e a affastou para avivar a
luz do aposento. Um raio agudissimo de sol foi bater direito no macerado
rosto do frade, e reflectiu de seus olhos incovados, um como relampago
de ra celeste que fez estremecer os dous amantes.

No foi porm seno relampago; sumiu-se, apagou-se logo. Aquelles olhos
ficaram mortaes, mudos, fixos, invidraados como os de um homem que
acabou de expirar e a quem no cerraram ainda as palpebras.

E assim mesmo aquelles olhos tinham o podr magnetico de fixar os
outros, de os no deixar nem pestanejar.

Curvo, incostado a um bordo grosseiro, o seu chapeo alvadio debaixo do
brao, o frade deu alguns passos tremulos para onde estavam os dous,
arrastando a custo as sltas alpercatas que davam um som bao e batido,
e faziam--no sei por qu nem como--estremecer a quem as sentia.

Parou a pouca distancia, e tirando a voz fraca e tenue, mas vibrante e
solemne, do ntimo do peito, disse para Carlos:

--'Tu mal disseste-me, filho, e eu venho perdoar-te. Tu detestas-me,
Carlos, de todos os podres da tua alma, com toda a energia de teu
corao; e eu venho-te dizer que te amo, que tomra dar a minha vida por
ti, que do fundo das intranhas se ergue este immenso amor que no tem
outro egual, a pedir-te misericordia, a clamar-te em nome de Deus e da
natureza, a pedir-te, por quanto ha sancto no ceo e de respeito na
terra, que levantes essa maldico, filho, de cima da cabea de um
moribundo.'

Eram dittas em tal som estas vozes, vinham pronunciadas l de dentro
d'alma com tal vehemencia, que lh'as no articulavam os labios,
rompiam-n'os ellas e sahiam.

O soldado parecia desaccordado, confuso e sem intelligencia do que
ouvia. Georgina impassivel at alli, rigida e inabalavel com o seu
amante, sentia commover-se agora d'aquella angstia do velho.  que
partia pedras a dor que vinha n'aquellas fallas sepulchraes, que
trassudava d'aquelle rosto cadaverico.

Ao mesmo tempo, um som confuso, um tumulto vago e abafado de mil sons
que pareciam arredar-se, incontrando-se, tornando, indo e vindo, e
dispersando-se para se tornar a unir, e tornando a dispersar-se emfim,
reboava ao longe pela villa, extendia-se nas praas, concentrava-se nas
ruas, e mandava quella solitaria e remota cella do convento uns echos
surdos, como os do mar ao longe quando se retira da praia no murmurar
melancholico que precede um temporal d'equinoxio.

--'Ouves esse borburinho confuso, Carlos?  a tua causa que triumpha, 
a d'estes loucos que succumbe,  a de Deus que a si mesmo se desamparou.
A hora est chegada, escreveram-se as lettras de Balthasar; a confuso e
a morte reinam sos e senhoras na face da terra. Eu quero ir morrer onde
haja Deus... Perdoae-me, Senhor, a blasphemia!.. onde o seu nome no
seja profanado e malditto...

Ao canto de uma pedra, debaixo de uma rvore hade ser, n'algum logar
escuso d'essas charnecas, onde me no rasguem aomenos sta mortalha, e
m'a no insultem nos ultimos instantes, porque eu sou frade, frade,
frade... o malditto frade! Mas frade quero morrer, e heide morrer. Oh!
assim tivera eu vivido!'

--'Mas que foi; que succedeu?'

--'O resto do exrcito realista evacua n'este momento Santarem; vo em
fuga para o Alemtejo. Os constitucionaes venceram na Asseiceira, e tudo
est ditto para ns. Para mim, Carlos, falta uma palavra so: querers tu
diz-la?'

--'Eu?'

--'Sim tu, Carlos. Revoca as palavras terriveis que proferiste, e em
nome de Deus, filho, perdoa a teu...'

A Carlos revolvia-se-lhe no peito uma grande lucta. O horror, a
compaixo, o odio, a piedade iam e vinham-lhe alternadamente do corao
s faces, e tornavam do rosto para o peito. Uma exclamao involuntaria
lhe rebentou dos labios em meio d'este combate:

--'Padre, padre! e quem assacinou meu pae, quem cegou minha av, e quem
cubriu de infamia a minha... a toda a minha familia?'

--'Tens razo, Carlos, fui eu; eu fiz tudo isso: mata-me. Mas oh!
mata-me, mata-me por tuas mos, e no me maldigas. Mata-me, mata-me. 
decreto da divina justia que seja assim. Oh! assim meu Deus! s mos
d'elle, Senhor! Seja, e a vossa vontade se faa...'

O frade cahiu de bruos no cho, e com as mos postas e extendidas para
o mancebo, clamava:

--'Mata-me, mata-me! aqui ha pouca vida ja: basta que me ponhas o p
sobre o pescoo; esmaga assim o reptil venenoso que mordeu na tua
familia e que fez a sua desgraa e a de quantos o amaram. Sim, Carlos,
s tu o executor das ras divinas. Mata-me. Tantos annos de penitencia e
de remorsos nada fizeram; mata-me, livra-me de mim e da ra de Deus que
me persegue.'




CAPITULO XXXV.


     Reunio de toda a familia.--Explicao dos mysterios.--O corao da
     mulher.--Parricidio.--Carlos beija emfim a mo a Fr. Diniz e abraa
     a pobre da av.


Georgina disse para Carlos:

--'D a mo a esse homem, levanta-o e dize-lhe as palavras de perdo que
te pede.'

Carlos fez um gesto expressivo de horror e de repugnancia. Georgina
ajoelhou aop do frade, tomou as mos d'elle nas suas, e lh'as affagou
com piedade; depois levantou-lhe o rosto, incostou-o a si e gradualmente
o foi accalmando. O velho parecia uma criana mimada e sentida que se
vai accalantando nos braos da me: agora so murmurava de vez em quando
alguns soluos, a mais e a mais raros.

Estavam de joelhos ambos, o frade e a dama; elle mal se tinha, ella
amparava em seus braos e contra seu peito o amortecido corpo do velho.
E Georgina disse com aquelle som de voz irresistivel que as filhas de
Eva herdaram de sua primeira me, e que a ella ou lh'o tinham antes
insinado os anjos, ou o apprendeu depois da serpente,--um som de voz que
 a ltima e a mais decisiva da seduces femininas--disse:

--'Este homem vai morrer, Carlos: e tu hasde-o deixar morrer assim, _meu
Carlos_?'

Todo o odio, todas as offensas se callaram, desappareceram deante
d'aquellas palavras do anjo supplicante. _Meu Carlos_ ditto assim, no o
ouvra elle ha muito tempo, no lhe pde resistir: extendeu os braos
para o frade, cahiu de joelhos aop d'elle, e um so abrao uniu a todos
tres.

Como no eterno grupo de Lacoonte, o velho e os dous mancebos sentiam
estreitar-se das cobras da mesma dor, e affogavam junctos da mesma
angstia.

Assim estiveram longamente; e no se ouva entre elles seno algum
gemido slto, e aquelle sussurrar sumido das lagrymas que mais se ouve
com o corao do que com os ouvidos.

O frade disse emfim com uma voz apenas perceptivel de timida e de fraca:

--'Carlos, meu Carlos, perdoa tambem... oh perdoa  memoria de tua
desgraada me!'

O mancebo saltou convulsamente como o cadaver na pilha galvanica. Em p,
hirto, horrivel, tremendo, exclamou com um brado de trovo:

--'Demonio! demonio incarnado em figura de homem, que vieste
recordar-me? Dizias bem indagora, monstro: so s minhas mos deves
morrer. E hasde.'

Lanou-se a um enorme velador de pau-sancto que lhe jazia aop, massa
terrivel d'Hercules, e bastante a fender craneos de ferro, quanto mais a
descarnada caveira do frade! D'ambas as mos a levava no ar; e o velho
extendeu para elle a cabea como na ancia de morrer... Georgina fechou
involuntariamente os olhos, e um grande e medonho crime ia
consummar-se...

Dous gritos agudissimos, dous gritos de desespro e de terror,
d'aquelles que so sahem da bcca do homem quando suspenso entre a morte
e a vida--soaram repentinamente no apposento; uma velha decrepita e meia
morta, arrastada por uma criana de pouco mais de dezeseis annos, estava
deante de Carlos, e ambas cubriam com seus debeis corpos a fragil e
extenuada figura da sua victima.

--'Filho, meu filho!' arrancou a velha com stertor do peito: ' teu pae
meu filho. Este homem  teu pae, Carlos.'

O ponderoso velador cahiu inerte das mos do mancebo, e rolou pesado e
bao pelo pavimento. Carlos cahiu por terra sem sentidos. De um pulo
Georgina estava aop d'elle, e o fez incostar na longa cadeira de
braos. Estava lavado em sangue; era uma ferida do pesco que o excesso
da commoo lhe fizera rebentar. Os dous velhos vieram ajoelhar-se aop
d'elle. As duas mulheres moas lidavam pelo restaurar e lhe estancar o
sangue. A cambraia dos lenos, as rendas do collo e das cabeas, tudo se
fez em ataduras e compressas: o sangue parou emfim.

Admiravel belleza do corao feminino, generosa qualidade que todos seus
infinitos defeitos faz esquecer e perdoar! Essas duas mulheres amavam
esse homem. Esse homem no merecia tal amor: no, por Deus! o monstro
amava-as a ambas: est tudo ditto. E ellas que o sabiam, ellas que o
sentiam, e que o julgavam digno de mil mortes, ellas rivalizavam de
cuidados e de ancia para o salvarem.

De tanto no somos capazes ns.

E por isso admirmos tanto.

E perdomos tanto.

E esquecmos tanto.

Mas amar tanto, no sabemos: verdade, verdade...

Ammos _melhor_; sim, isso sim: _tanto_ no.

O mancebo permanecia em deliquio. Fr. Diniz e a velha rezavam. Georgina
e Joanninha--ja vereis que era Joanninha--olharam uma para a outra,
coraram e ficaram suspensas. A ingleza extendeu a mo  amavel criana,
estremeceu involuntariamente, mas disse-lhe com firmeza:

--'O ditto ditto, Joanninha! Eu ja o no amo; prometto.'

--'Eu amo-o cada vez mais, Georgina: elle  tam infeliz!'

--'Juras-me tu de o no deixar, de velar por elle sempre, de o defender
de si mesmo que  o peior inimigo que tem?'

--'Se juro!'

--'Ento adeus, Joanninha! Eu estou de mais aqui. Ja tenho ouvido o que
no devia ouvir. Os segredos da tua familia no me pertencem. O corao
d'esse homem no  meu, nem o quero.  um nobre e grande corao,
Joanninha; mas... No te deixes dominar por elle se o queres segurar.
Adeus!--Santarem est desamparada pelos realistas; eu vou para Lisboa.
Consola tua boa av, e esse pobre velho. Elle no  tam criminoso, estou
certa...'

--'Oh no! Carlos cuida-o assassino de seu pae; e  falso. Minha av ja
me disse tudo.'

--'Falso!' murmurou Carlos sem abrir os olhos: ' falso? Pois no foi
elle que matou meu pae?'

--'No, filho, clamou a velha: 'no, meu filho; teu pae  este infeliz.'

--'E minha me?'

--'Tua me... e eu somos duas desgraadas. Que mais queres saber? Tua
me amou esse homem...'

--'Ah!' disse Carlos: 'ah!' e abriu os olhos pasmados para a av e para
o frade que cravaram os seus no cho, e ficaram como dous ros na
presena do seu inflexivel juiz.

--'Mas esse homem que ... que por fra querem que seja meu... meu
pae... Sancto Deus! elle matou o outro.'

--'Defendi-me, foi defendendo sta vida miseravel... Oh nunca eu o
fizera! E paraqu? Paraque quiz eu viver? Para isto!'

--'E meu tio, o pae de Joanninha? Tambem esse era preciso que morresse?'

--'Ambos se junctaram para me assassinar, e me accommetteram
atraioadamente na charneca. No os conheci; foi de noite escura e
cerrada. Defendi-me sem saber de quem, e tive a desgraa de salvar a
minha vida  custa da d'elles. Filho, filho, no queiras nunca sentir o
que eu senti, quando pegando, um a um, n'esses cadaveres para os lanar
no rio, conheci as minhas victimas... Era hynverno, a cheia ia de valle
a monte: quando abateu e se acharam os corpos ja meios desfeitos,
ninguem conheceu a morte de que morreram; passaram por se ter affogado.
Ninguem mais soube a verdade seno eu--e tua infeliz me a quem o disse
para meu castigo, a quem vi morrer de pezar e de remorsos, que expirou
nos meus braos chorando por elle, e maldizendo-me a mim. No sera
bastante castigo, meu filho?--No foi, no. Este burel que ha tantos
annos me roa no corpo, estes cilicios que m'o desfazem, os jejuns, as
vigilias, as oraes nada obtiveram ainda de Deus. A sua ra no me
deixa, a sua cholera vai at a sepultura sbre mim... Se me perseguir
alm d'ella!..'

Fez-se aqui um silencio horroroso: ninguem respirava; o frade proseguiu:

--'No me dei por bastante castigado com a agonia de tua me, a mais
horrorosa e desesperada agonia que ainda presenciei, oh meu Deus!.. Tive
o cruel nimo de explicar a tua av as negras circumstancias d'aquella
morte, e de lhe patentear toda a fealdade e hediondez do meu crime.
Rasguei-lhe o corao, e vi-lhe sahir sangue e agua pelos olhos, at que
lhe cegaram. Que mais queres? Cuidei que podia morrer sem passar por
sta derradeira expiao. Deus no o quiz. Aqui estou penitente a teus
ps, filho. Aqui est o assassino de tua me, de seu marido, de teu
tio... o algoz e a deshonra de tua familia toda.--Faze de mim como fr
tua vontade. Sou teu pae...'

--'Meu pae!.. Misericordia meu Deus!'

--'Misericordia, filho, e perdo para teu pae!'

Carlos levantou-se deliberadamente, veio ao velho, tomou-o a pso nos
braos, foi sent-lo na cadeira que acabava de deixar, e pondo-se de
joelhos, beijou-lhe a mo em silencio. Depois foi abraar-se com a av,
que o apalpava soffregamente com as mos trmulas, e murmurava baixo:

--'Agora sim, ja posso morrer, ja posso morrer porque o abracei, porque
o senti juncto a mim, o meu filho, o filho da minha filha querida...'

Carlos  que no proferiu mais palavra; tinha-se-lhe rompido corda no
corao, que ou lhe quebrra o sentimento ou lh'o no deixava expressar.
Sahiu da cella fazendo signal que vinha logo: mas esperaram-n'o em
vo... no tornou.

D'ahi a tres dias, veio uma carta d'elle, de juncto d'Evora onde estava
com o exrcito constitucional.




CAPITULO XXXVI.


     Que no se acabou a historia de Joanninha.--Processo ao corao de
     Carlos.--Immoralidade.--Defeito de organizao no 
     immoralidade.--Horror, horror, maldico!--Um baro que no
     pertence  familia lineana dos bares propriamente dittos--Porta de
     Atamarma.--Senatus consulto santareno.--Nossa Senhora da Victoria
     _afforada_.--Threnos sbre Santarem.


--Pois ja se acabou a historia de Joanninha?

--No, de todo ainda no.

--Falta muito?

--Tambem no  muito.

--Seja o que for, acabemos, que est a gente impaciente por saber como
se concluiu tudo isso, o que fez o frade, o que foi feito da ingleza,
Joanninha e a av que caminho levaram, e o pobre Carlos se...

--Pois interessam-se por Carlos, um homem immoral, sem principios, sem
corao, que fazia a crte--fazer a crte ainda no  nada--que amava
duas mulheres ao mesmo tempo? Horror, horror! como dizem os dramaticos
romanticos: horror e maldico!

--Horror seja, horror ser... e horror , sem dvida. E maldico que
deitaram ao pobre homem. Mas immoralidade! Immoralidade  inganar, 
mentir,  atraioar: e elle no o fez. Desgraa grande ter um corao
assim; mas no me digam que  prva de o no ter. Eu digo que elle tinha
corao de mais: o que  um defeito e grande,  um estado pathologico e
anormal. Physicamente produz a morte; e moralmente pde matar tambem o
sentimento. Bem o creio: mas  molestia commum, e com que vai vivendo
muita gente, at que um dia...

--Um dia, o orgam, que progressivamente se foi dilatando, no pde
funccionar mais, cessa a circulao e a vida. Deve ser horrivel morte!

--Fallam physicamente?

--Physicamente. Mas no moral anda pelo mesmo. E se esse  o defeito de
Carlos...

--Sentir muito?

--No; ter sentido muito: que o corao, como orgam moral, no se dilata
a esse ponto seno pelo demaziado excesso e violencia de sensaes que o
gastaram e relaxaram. Se esse  o defeito, a molestia de Carlos, digo
que ja sei o fim da sua historia sem a ouvir.

--Ento qual foi?

--Que um bello dia cahiu no indifferentismo absoluto, que se fez o que
chamam sceptico, que lhe morreu o corao para todo o affecto generoso,
e que deu em homem politico ou em agiota.

--Pde ser.

--Mas qual das duas foi, deputado ou baro? queremos saber.

--Sabero.

--Queremos ja.

--E se fossem ambas?

--Oh horror, horror, maldico, inferno! Ferros em braza, demonios
pretos, vermelhos, azues, de todas as cres! Aqui sim que toda a
artelharia grossa do romantismo deve cahir em massa sbre esse monstro,
esse...

--Esse qu? Pois em se acabando o corao  gente...

--Eu no creio n'isso. Acaba-se l o corao a ninguem!..

Houve gargalhada geral  custa do pobre incredulo, e levantamo'-nos para
ir ver o Sancto-milagre, que era a hora apprazada, e estava o prior 
nossa espera.

manhan o fim da historia da menina dos olhos verdes.

No caminho incontrmos o nosso antigo amigo, o baro de P.--baro de
outro genero, e que no pertence  familia lineana que n'esta obra
procurmos classificar para illustrao do seculo--cavalheiro generoso,
e typo bem raro ja hoje da antiga nobreza das nossas provincias, com
todos os seus brios e com toda a sua cortezia d'outro tempo, que em
tanto relvo destaca da grosseria villan d'essas notabilidades
improvisadas...

Vinha em nossa procura para nos guiar. Seguimo-lo.

Fomos de passagem observando algumas das mais interessantes coisas
d'aquella interessantissima terra em que se no pde dar um passo sem
que a reflexo ou a imaginao incontre objecto para se entreter.
Inclinando um pouco  direita, dmos na celebrada porta de Atamarma.

Por aqui entrou D. Affonso Henriques, por aqui foi aquella destemida
surpreza que lhe intregou Santarem, e acabou para sempre com o dominio
arabe n'esta terra.

Os illustrados municipaes Santarenos tem tido por vezes o nobre e
generoso pensamento de demolir sta porta! o arco de triumpho de Affonso
Henriques, o mais nobre monumento de Portugal!

A idea  digna da epocha.

Felizmente parece que tem faltado o dinheiro para a demolio; e o
senatus consulto dos dignos padres conscriptos no pde ainda
executar-se.

No que eu creia este arco o genuino arco moiresco por onde entraram os
bravos de D. Affonso; mas creio que essa porta da antiga villa se foi
reparando, concertando e conservando em suas successivas alteraes, at
chegar ao que hoje est: e ainda assim como est,  um monumento de
respeito que so barbaros pensariam desacatar e destruir.

Porcima d'ella est uma capellinha de N. S. da Victoria: quer a
tradico que primeiro erguida e consagrada  Virgem pelo heroico
fundador da monarchia e da independencia portugueza. Este  um dos
muitos pontos em que a religio das tradies deve ser respeitada e
crida sem grandes exames, porque nada ganha a crtica em pr dvidas, e
o espirito nacional perde muito em as acceitar.

Deix-la estar a Virgem da Victoria sbre o arco de Affonso Henriques.
Prostremo'-nos e adoremos, como bons portuguezes, o symbolo da f
christan e da f patriotica levantado pelas mos insanguentadas do
triumphador!

Mas sera elle ou no que levantou essa capellinha? os documentos
faltam, os escriptores contemporaneos guardam silencio; a historia deve
ser rigorosa e verdadeira...

Deve: e os grandes factos importantes que fazem epocha e so balizas da
historia de uma nao, tambem eu os regeitarei sem d quando lhes
faltarem essas authnticas indispensaveis. Agora as circumstancias, para
assim dizer, episodicas de um grande feito sabido e provado, quem as
conservar seno forem os poetas, as tradies, e o grande poeta de
todos, o grande guardador de tradies, o povo?

Eu creio na Senhora da Victoria de Santarem, e em muitos outros sanctos
e sanctas, que a religio do povo tem por esses nichos e por essas
capellas e por esses cruzeiros de Portugal, a recordar memorias de que
se no lavrou outro auto, no se escreveu outra escriptura, de que no
ha outro documento, e que os frades chroniqueiros no julgaram dever
escrever no livro de tera ou de noa, em nenhum livro preto nem
incarnado, porque o tinham por melhor escripto e mais bem guardado nos
livros de pedra em que estava.

Coitados! no contaram com os apperfeioadores, reparadores e
demolidores das futuras civilizaes que, para pr as coisas em ordem,
tiram primeiro tudo do seu logar.

A camara de Santarem, no podendo demolir o arco, tomou um meio termo
que appsto que ninguem  capaz de adivinhar. Afforou a capella por cima
d'elle, com altar, com sanctos e tudo: e assim esteve afforada alguns
annos, no sei paraqu nem porqu; o caso  que esteve.

O anno passado porm (1842) comeou a manifestar-se sta reaco
religiosa que os especuladores quizeram logo converter em ganancia
pessoal, descontando-a no mercado das agiotagens facciosas; mas perdem o
seu tempo, inda bem! Veio, digo, sta reaco nas ideas das gentes; e a
capella da Senhora da Victoria sbre o arco, no sei tambem como nem
porqu, foi _desafforada_, e restituida ao culto popular.

Subimos a ver a capella por dentro:  um rifacimento ridiculo e
miseravel, sem nenhuma da solemnidade do antigo, nem elegancia moderna
alguma.

Desappontou-me tristemente. Vamos ao Sancto-milagre depressa, que me
quero reconciliar com Santarem: e ja comea a ser difficil.

Mas  injustia minha. Que culpa tem ella, coitada?

Ai Santarem, Santarem, abandonaram-te, mataram-te, e agora cospem-te no
cadaver.

Santarem, Santarem, levanta a tua cabea coroada de trres e de
mosteiros, de palacios e de templos!

Mira-te no Tejo, princeza das nossas villas: e vers como eras bella e
grande, ricca e poderosa entre todas as terras portuguezas.

Ergue-te, esqueleto colossal da nossa grandeza, e mira-te no Tejo: vers
como ainda so grandes e fortes esses ossos desconjuntados que te
restam.

Ergue-te, esqueleto de morte, levanta a tua foice, sacode os vermes que
te poluem, esmaga os reptis que te corroem, as osgas torpes que te
babam, as lagartixas peonhentas que se passeiam atrevidas por teu
sepulchro deshonrado.

Ergue-te Santarem, e dize ao ingrato Portugal que te deixe em paz ao
menos nas tuas ruinas, myrrhar tranquillamente os teus ossos gloriosos;
que te deixe em seus cofres de marmore, sagrados pelos annos e pela
venerao antiga, as cinzas dos teus capites, dos teus lettrados e
grandes homens.

Dize-lhe que te no vendam as pedras de teus templos, que no faam
palheiros e estrebarias de tuas egrejas; que no mandem os soldados
jogar a pella com as caveiras dos teus reis, e a bilharda com as
cannellas dos teus sanctos.

Tiraram-te os teus magistrados, os teus mestres, os teus seminarios...
tudo, menos o intulho e a calia, as immundices e os monturos que
deixaram accumular em tuas ruas, que espalharam por tuas praas.

Santarem, nobre Santarem, a Liberdade no  inimiga da religio do ceo
nem da religio da terra. Sem ambas no vive, degenera, corrompe-se, e
em seus proprios desvarios se suicida.

A religio do Christo  a me da Liberdade, a religio do Patriotismo a
sua companheira. O que no respeita os templos, os monumentos de uma e
outra,  mau amigo da Liberdade, deshonra-a, deixa-a em desamparo,
intrega-a  irriso e ao odio do povo......................................
...........................................................................

Vamos ao Sancto-milagre.




CAPITULO XXXVII.


     A Graa e sua bella fachada gothica.--Sepultura de Pedr'alvares
     Cabral.--Outro baro que no  dos assignalados.--Egreja do
     Sancto-milagre.--Bellos medalhes mosarabes.--De como, chegando o
     prior e o juiz, houve o A. vista do Sancto-milagre, e com que
     solemnidades.--Monumento da muito alta e poderosa princeza a
     infanta D. Maria da Assumpo.--Casa onde succedeu o milagre,
     convertida em capella de stylo philipino.--O homem das botas, e o
     que tem elle que haver com o Sancto-milagre de Santarem.--Admiravel
     e graciosa esperteza da regencia do Rocio.--Aaroun-el-Arraschid: e
     theoria dos governos folgases; os melhores governos
     possiveis.--Volta o paladio scalabitano de Lisboa para Santarem.


Inclinmos o nosso caminho para a esquerda, e fomos passar deante do
arrendado e elegante frontispicio gothico da Graa. A ausencia de no
sei que regedor, ou insignificante personagem de egual importancia que
tem as chaves da egreja e convento, nos fez perder toda a esperana de
visitar a sepultura de Pedr'alvares Cabral que alli jaz, assim como
outras bellas e interessantes antiguidades de no menor preo.

Fomos seguindo at casa do baro d'A., outro illegitimo, porque no
pertence aos bares assignalados

    Que, sem passar alm da Taprobana,
    No velho Portugal edificaram
    Novo reino que tanto sublimaram.

Incontrmo-lo prompto a accompanhar-nos, e a presidir, como juiz da
irmandade que ,  grande cerimonia da exposio e ostenso do
Sancto-milagre.

Junctos descmos  egreja, que  perto.

A egreja pequena e do peior gsto moderno por dentro e por fra. Notavel
no tem nada se no uns quatro medalhes de pedra lavrada com bustos de
homens e mulheres em relvo que visivelmente pertenceram a edificao
antiga, e que actualmente esto incrustados na tosca alvenaria do
cruzeiro.

Os bustos so de puro e finissimo lavor gothico, altos de relvo e
desenhados com uma franqueza que se no incontra em esculpturas muito
posteriores.

So talvez reliquias da primitiva egreja do Sancto-milagre que nas
successivas reedificaes se teem ido conservando. Abenoado seja o
escrupuloso que as salvou d'este ltimo _melhoramento_ que houve no
desgraado e desgraioso templo: o que no foi ha muitos annos por
certo.

Chamo gothico ao lavor d'aquellas cabeas por que  a phrase vulgar e
impropria usada de toda a gente: segundo ja observei n'outra parte, com
mais exaco se devra dizer mosarabe.

Chegou o prior, o Sr. juiz deu as suas ordens, vieram uns poucos de
irmos com tochas, distribuiram-nos a cada um de ns a sua, e
processionalmente nos dirigimos  porta lateral do altar-mor, da qual se
sobe, por uma escada asss larga e commoda,  especie de camarim que
est parallelo com o mais alto do throno em que perpetuamente se
conserva o grande paladio santareno.

Subimos, accompanhados do prior em sobrepeliz e estola; chegados ao
alto, ajoelhmos em roda d'elle que subiu a uns degrausinhos, abriu, com
a chave dourada que trazia pendente ao pescosso, uma como porta de
sacrario, depois ajoelhou, incensou, tornou a ajoelhar, disse alguns
versetos a que respondeu o sacristo, e finalmente tirou de seu
repositorio uma especie de ambula de ouro de fbrica antiga, mas no
mais antiga que o decimo sexto, ou decimo quinto seculo, quando muito.

Depois de nos inclinarmos e receber a benam que o padre nos deitou com
a reliquia, foi-nos permittido erguer-nos, e chegar perto para ver e
observar.

Entre uns cristaes ja bem velhos e imbaciados se descobre comeffeito o
pequeno vulto amarellado-escuro que piedosamente se cr ser o resto da
particula consagrada que a judia roubra para seus feitios.

Escuso contar a historia do Sancto-milagre de Santarem que toda a gente
sabe. O bom do prior, ex-frade trino gordo e bem conservado, no nos
perdoou o menor ponto d'ella, que tivemos de ouvir com a maior
compunco.

Incerrada outra vez a ambula com as mesmas solemnidades, entrmos em
conversao com o prior.

N'aquelle mesmo camarim juncto  devota reliquia se conservaram, por
espao de cinco ou seis annos, se bem me recordo do que o bom do parocho
nos contou, os restos mortaes da senhora infanta D. Maria da Assumpo,
que fallecra em Santarem nos ultimos mezes da occupao d'aquella villa
pelas fras realistas. O cadaver, mal imbalsemado e com ms drogas, foi
mettido n'um caixo de folha de Flandres. Em pouco tempo a corrupo
estragou e rompeu a folha, e uma infeco terrivel apestava a egreja.
Soffreu-se isto annos, representou-se ao govrno por vezes, mas nenhuma
resoluo se pde obter. At que afinal, declarando o prior que, se no
mandavam tomar conta d'aquelles tristes restos da pobre princeza, elle
se via obrigado a mett-los na terra, foi-lhe respondido que fizesse
como intendesse; e elle intendeu que os devia sepultar no cruzeiro da
egreja, como fez, do lado da epistola, isto ,  direita.

E ahi jaz em sepultura raza, sem mais distinco nem epitaphio, a muito
alta e poderosa princeza D. Maria, filha do muito alto e poderoso
principe D. Joo o VI, rei de Portugal, imperador do Brazil, e da
conquista e navegao etc.

Assim  o mundo, as suas grandezas e as suas glrias!

A visita ao Sancto-milagre no  completa sem se ir ver a casa onde elle
se operou. Conservou-se ella por alguns seculos em grande venerao, e
em mil seiscentos e tantos se converteu porfim em capella. Hoje est
abandonada, chove em toda ella, e apenas tem uma m porta que a defende
das incurses dos animaes. Pena e desleixo grande, porque  elegante e
graciosa a capellinha, lavrada de bons marmores, no melhor gsto do
decimo-sexto seculo, de renascena ja muito adiantada no classico:  um
verdadeiro typo do stylo philippino, que tanto predomina n'essa epocha
em toda a peninsula.

A historia do Sancto-milagre de Santarem muitas vezes tem andado ligada
com a historia do reino; e ja n'este seculo, no tempo da guerra da
independencia, veio prender com um dos factos mais importantes, e tambem
com a mais curiosa e comica aventura de que em Lisboa ha memoria.

Alludo nada menos que ao 'homem das botas.' E perdoem-me as senhoras
beatas a irreverencia apparente, que bem sabem no ser eu de motejar com
as coisas srias e sanctas. Mas o facto  que a historia do
Sancto-milagre est ligada com a clebre historia do 'homem das botas.'

Saiba pois o leitor contemporaneo, e saiba a posteridade, para cuja
instruco principalmente escrevo este douto livro, que pela invaso de
Massena, o grande paladio scalabitano foi mandado recolher a Lisboa, e
ahi se conservou alguns annos at muito depois da completa retirada dos
francezes.

Passado todo o perigo de que o exrcito invasor roubasse--ou
profanasse--que era o mais provavel--a sancta reliquia, comeou a
reclam-la o senado e povo santareno, e a mostrar muito pouca vontade de
lh'a restituir o senado e povo ulyssiponense. Era uma questo d'entre
Alba e Roma que dava serio cuidado aos reflectidos Numas da regencia do
Rocio.

Em poucas preplexidades tam graves se viu aquelle pobre govrno que
tantas teve, e de quasi todas se sahiu tam mal.

No assim d'esta, que a evitou com o mais inesperado e admiravel
stratagema, digno de ornar os maravilhosos fastos do grande Aaroun
el-Raschid, ou de qualquer outro principe de bom humor, d'esses poucos
felizes que em felizes tempos reinaram a brincar, e zombaram com o seu
povo, mas fazendo-o rir.

Pois, senhores, apertada se via a regencia d'estes reinos com a
restituio do Sancto-milagre que era de justia fazer-se a Santarem,
mas que Lisboa recusava, e ameaava impedir. Temia-se alborto no povo.

No sei de quem foi o alvitre, mas foi de magano de bom gsto; e bom
gsto teve tambem o govrno em o acceitar e approveitar. Para o dia em
que o Sancto-milagre devia sahir de Lisboa Tejo acima, e que se esperava
fosse com grande solemnidade e pompa ecclesiastica,--fez-se annunciar
por cartazes que um fulano de tal passaria o rio, de Lisboa a Almada, em
umas botas de cortia nas quaes se teria direito e inchuto, navegando a
p sem mais embarcao, vela nem remo.

A lograo era gorda e grande; melhor e mais depressa foi ingullida. No
dia apprazado despovoou-se a capital, e uns em barcos outros por navios,
outros por essas praias abaixo, tudo se encheu de gente de todas as
classes, e todos passaram o melhor do dia  espera do homem das botas.

No emtanto, muito surrateiramente imbarcava o Sancto-milagre no seu
barco de agua-arriba, e navegava com vento e mar para as ditosas
ribeiras de Santarem.

Ninguem o viu sahir, nem soube novas d'elle em Lisboa seno quando
constou da sua chegada a Santarem, e das grandes festas que lhe fizeram
aquelles saudosos e devotos povos ribatejanos.

Os Aarouns-el-Raschids do Rocio riram de soccapa: e nunca tam
innocentemente se riu govrno algum de ter inganado o povo.

Ns celebrmos a historia como ella merecia, e fomos jantar  Alcaova,
para irmos de tarde ver a Ribeira, e procurar os vestigios do seu
inclyto alfageme.




CAPITULO XXXVIII.


     Jantar nos reaes paos de Affonso Henriques.--Sauts e
     salmis.--Desce o A.  Ribeira de Santarem em busca da tenda do
     Alfageme.--A espada do Condestavel.--Desappontamento.--O salo
     elegante. Dissipam-se as ideas archeologicas. Os fosseis.--Tudo
     melhor quando visto de longe.--O baile pblico.--Soire de piano
     obrigado.--Theatro. Desafinaes da prima-dona. Syphlis incuravel
     das traduces. Destempro dos originaes.--A xcara de rigor, o
     subterraneo e o cemiterio.--Sublime gallimathias do ridiculo.--A
     bella e necessaria palavra 'gallimathias.'--Se as saudades
     matam.--Perigo de applicar o scalpello ou a lente ao mais perfeito
     das coisas humanas.--De como a logica  a mais perniciosa de todas
     as incoherencias.


Esperava-nos comeffeito em casa do nosso bom hspede, nos regios paos
de Affonso Henriques, um esplendido jantar a que assistiram quasi todos
os cavalheiros da terra.--No quero dizer as notabilidades, por ser
palavra peralvilha a que tenho invencivel zanga.--As iguarias de
legtima eschola portugueza, no menos saborosas e delicadas por
apparecerem estremes de _sauts e salmis_ extrangeirados. Brilharam
sbre tudo os productos das duas grandes vendimas rivaes, do Ribatejo e
Ribadouro. Foi largo e alegre o jantar.

Acabmos tarde, montmos logo a cavallo, e pela porta de Atamarma
descmos  Ribeira; era quasi sol psto quando la chegmos.

 o suburbio democratico da nobre villa, hoje o ricco e o forte d'ella.
Faz lembrar aquellas aldeas que se criaram  sombra dos castellos
feudaes e que, libertas, depois, da oppressora proteco, cresceram e
ingrossaram em substancia e fra: o castello, esse est vazio e em
ruinas.

Por aqui se faz quasi todo o commercio da Extremadura e Beira com o
Alemtejo. Os habitantes laboriosos e activos conservam os antigos brios
e independencia do character primitivo:  a unica parte viva de
Santarem.

Cruzmos a povoao em todos os sentidos, procurando rastrear algum
vestigio, confrontar algum stio onde podessemos collocar, pela mais
atrevida supposio que fosse, a tenda do nosso alfageme com as suas
espadas bem 'corregidas', as suas armaduras luzentes e bem postas--e o
joven Nun'alvares passeando alli por p, ao longo do rio--como diz a
chronica--namorado d'aquella perfeio de trabalho, e dando a 'correger'
a bella espada velha de seu pae ao rustico propheta que tantos
vaticinios de grandeza lhe fez, que o saudou condestavel, conde d'Ourem
e salvador da sua patria.

Nada podmos descubrir com que a imaginao se illudisse siquer, que nos
dsse, com mais ou menos anachronismo, uma leve base tamsomente para
reconstruirmos a gothica morada do clebre cutileiro-propheta que a
historia herdou das chronicas romanescas, e hoje o romance outra vez
reclama da historia.

Em Santarem ha poucas casas particulares que se possam dizer
verdadeiramente antigas; na Ribeira, nenhuma. As implastagens e
replastagens successivas teem anachronizado tudo.  uma feliz expresso
do Sr. Conde de Raczinski bem applicada por elle ao estado de quasi
todos os nossos monumentos, sta de anachronismo.

Mas alli, na villa alta ou Marvilla, no Santarem propriamente ditto, ha
os templos, os conventos, a crca das muralhas que todavia conservam a
physionomia historica da terra; aqui nem isso ha.

Voltei completamente desappontado da Ribeira, isto , da sua pedra e
cal: gsto immenso da sua gente.

Outra surpreza de mui differente genero nos esperava  noite em
Marvilla, no elegante salo da B. d'A. com quem fomos tomar cha.

Em meio das ruinas e desconfrto d'aquelles desertos e mortos pardeiros
circumstantes, ir incontrar uma casa em plena florescencia de
civilizao e de vida; ver a amabilidade e a elegancia fazendo
graciosamente as honras d'ella--por mais que se devesse esperar--sempre
espanta  primeira vista: parecia golpe de varinha de condo.

Em tam agradavel e joven companhia todas as ideas archeologicas se
desvaneceram, apezar de dous ou tres fosseis que alli appareciam para se
no perder detodo a cr local talvez.

Largamente se conversou, de Lisboa principalmente, dos nossos mutuos
amigos, das festas do ltimo hynverno, das probabilidades que se deviam
esperar do futuro.

Ralhmos muito da sociedade portugueza; exaltmos Pars e Londres e no
sei se Pekim e Nankim tambem, e concluimos que antes Timbokotuo do que a
seccante capital do nosso pobre reino. E comtudo estavamos com saudades
d'ella; e concesso d'aqui, concesso d'alli, viemos a que no era tam
m terra como isso.

Admiravel condico da natureza humana, que tudo nos parece melhor e
menos feio quando visto de longe!

O baile pblico mais semsabor, detestavel de barulho e confuso, em que,
para repousar os olhos n'um rosto conhecido e agradavel, foi preciso
furar por entre centenas de cotovellos barbaros que se no sabe d'onde
vieram, levar desalmadas pisadellas do danante novio, do deputado
recemchegado, e das botas novas do novo director da Galocha--e, mais
horrivel que tudo! ver as absurdas toiletes, os penteados fabulosos, as
caras incriveis e as antidiluvianas figuras de tanta mulher feia e
desastrada... pois esse mesmo baile, quando ja no  seno reminiscencia
que acorda no meio do infado ronceiro de uma terra de provincia, parece
outro. As luzes, as flores, a musica, toda aquella animao lembra com
prazer, o mais esquece, e involuntariamente se descai um pobre homem a
suspirar por elle.

A soire mais massante, de piano obrigado, com dueto das manas, polka
das primas e casino das tias velhas--recordada em eguaes circumstancias,
tambem ja no accode  memoria seno como uma reunio escolhida e
ntima, de facil e doce tracto... oh! o verdadeiro prazer da sociedade.

Pois o theatro... Que se lembre alguem, na provincia, dos martyrios que
soffreu o ouvido com os berros da prima-dona, as desafinaes do tenor,
ou com o infadonho resonar d'aquella adormecida orchestra de San'Carlos!

A injoativa traduco de uma comedia da Rua-dos-condes, roda de
incuravel syphilis, figura-se avelludada de todas as graas do stylo de
Scribe.

E o destempro original de um drama plusquam romantico, laureado das
imarcessiveis palmas do Conservatorio para eterno abrimento das nossas
bccas! L de longe applaude-o a gente com furor, e esquece-se que
fummou todo o primeiro acto ca fra, que dormiu no segundo, e conversou
nos outros, at  infallivel scena da xacara, do subterraneo, do
cemiterio, ou quejanda, em que a dama, soltos os cabellos e em penteador
branco, indoudece de rigor,--o gallan, passando a mo pela testa, tira
do profundo thorax os tres _ahs!_ do stylo, e promette matar seu proprio
pae que lhe apparea--o centro perde o centro de gravidade, o barbas
arrepella as barbas... e maldico, maldico, inferno!... 'Ah mulher
indigna, tu no sabes que n'este peito ha um corao, que d'este corao
sahem umas arterias, d'estas arterias umas veias--e que n'estas veias
corre sangue... sangue, sangue! Eu quero sangue, porque eu tenho sde, e
 de sangue... Ah! pois tu cuidavas? Ajoelha, mulher, que te quero
matar... esquartejar, chacinar!'--E a mulher ajoelha, e no ha remedio
seno applaudir...

E applaude-se sempre.

E no  de mim que fallo, que eu gsto d'isto: os outros  que se
infastiam e cansam de tanta barafusta, sempre a mesma...

Mas emfim o que digo  que na provincia no ha tal fastio, que esquece a
canceira, e que nem o sublime gallimathias do ridiculo d'alli se
percebe.

Peo aos illustres puritanos que,  fra de sublimado quinhentista, tem
conseguido levar a lingua  decrepitude para a curar de suas
infermidades francezas, peo-lhes que me perdoem o _gallimathias_,
porque elle  muito mais portuguez que outra coisa. A clebre orao
_pro gallo Mathiae_ deu origem a sta bella e expressiva palavra, que
sim foi procreada em francez, mas hoje precismos ca muito mais d'ella
que em parte nenhuma.

Volto ja da digresso philologica: tornemos  optica e  catoptrica.

Grande coisa  a distancia!

E dizem que saudades que matam! Saudades do vida; so a salvao de
muita coisa que, em seu pleno gso e posse pacfica, pereceria de
inanio ou morreria da oppressora molestia da saciedade.

Por isso eu no gsto de metter o scalpello no mais perfeito da
construco humana, nem de applicar a lente ao mais fino e delicado do
seu funccionar...

Vamos usando d'estas palavras que herdmos, sem metter louvados na
herana; no succeda descobrirmos que estamos mais pobres do que se
cuidava... vamos repetindo stas phrases que nos formularam nossos
antepassados sem as analysar com muito rigor; no succeda vermos claro
demais que temos passado a vida a mentir...

Detesto a philosophia, detesto a razo; e sinceramente creio que n'um
mundo tam desconchavado como este, n'uma sociedade tam falsa, n'uma vida
tam absurda como a que nos fazem as leis, os costumes, as instituies,
as conveniencias d'ella, affectar nas palavras a exactido, a logica, a
rectido que no ha nas coisas,  a maior e mais perniciosa de todas as
incoherencias.

No fallemos mais n'isto, que faz mal, e acabemos aqui este captulo.




CAPITULO XXXIX.


     Processo de scepticismo em que est o auctor.--Moralistas de
     _requiem_.--O maior sonho d'esta vida, a logica.--Differena do
     poeta ao philosopho.--O corao de Horacio.--O collegio de
     Santarem.--Jesuitas e templarios.--O alliado natural dos
     reis.--'Ficar na gazeta' phrase muito mais exacta hoje do que
     'Ficar no tinteiro.'--San'Frei Gil e o Doutor Fausto.--De como o A.
     foi ao tumulo do sancto bruxo e o achou vazio.--Quem o roubaria?


O final do captulo antecedente , bem o sei, um terrivel documento para
este processo de scepticismo em que me mandaram metter certos moralistas
de _requiem_ de quem tenho a audacia de me rir, d'elles e da sua
querella e do seu processo, protestando no me aggravar nem appellar,
nem por nenhum modo recorrer da mirifica sentena que suas
excellentissimas hypocrisias se dignarem proferir contra mim.

Feita sta declarao solemne, procedamos.

E quanto a ti, leitor benevolo, a quem so desejo dar satisfao, a ti,
se ainda te cansas com essas chymeras, dou-te de conselho que voltes a
pagina obnoxia, porque essas reflexes do ltimo captulo so tam
deslocadas no meu livro como tudo o mais n'este mundo. Dorme pois, e no
despertes do bello-ideal da tua logica.

 uma descuberta minha de que estou vaidoso e presumido, sta de ser a
logica e a exaco nas coisas da vida muito mais sonho e muito mais
ideal do que o mais phantastico sonho e o mais requintado ideal da
poesia.

 que os philosophos so muito mais loucos do que os poetas; e de mais a
mais, tontos: o que est'outros no so.

Voltemos, voltemos a pagina comeffeito, que  melhor.

Amanheceu hoje um bello dia, puro e sublime. Dorme nas cavernas do padre
Eolo aquelle vento scco e duro, flagello dos estios portuguezes.
Suspira no ar uma virao branda e suave que regenera e d vida. Mal
impregado dia para o passar a ver ruinas! No seio da sempre joven
natureza, sob a remoada espessura das rvores, sbre a alcatifa sempre
renovada das grammas verdes e variegadas boninas, queria eu que me
corresse este dia em ocio bemaventurado de corpo e d'alma, sentindo
pulsar lento e compassado o corao livre e slto de todo impenho, o
verdadeiro corao de Horacio,

    Solutus omni foenore!

Tomra-me eu no valle outra vez, com a irman Francisca a dobar  porta,
a nossa Joanninha a deslindar-lhe a meada; e embora venha o terrivel
spectro de Fr. Diniz projectar sua funesta e tragica sombra no idilio
d'este quadro suave, que no pde destruir-lhe toda a amenidade
bucolica, por mais que faa.

L voltaremos ao nosso valle, amigo leitor, e l concluiremos, como  de
razo, a historia da menina dos rouxinoes. Por agora almocemos, que 
tarde, e terminemos os nossos estudos archeologicos em Marvilla de
Santarem.

C estamos no Collegio, edficio grandioso, vasto, magnfico, propria
habitao da companhia--rei que o mandou construir para educar os
infantes seus filhos.

Creio que sta e a de Coimbra eram as duas principaes casas que para
isto tinham os Jesuitas em Portugal.

Foram os templarios dos seculos modernos, os Jesuitas. A potencia
formidavel e quasi rgia que aquelles levantaram com a espada, tinham
estes fundado com a doutrina. Riquezas, podr, influencia, uns e outros
as tiveram com applauso e acquiescencia geral; uns e outros as perderam
do mesmo modo.

Extinctas e perseguidas, ambas as ordens renasceram no mysterio, e se
converteram em associaes secretas para conspirarem; ambas tomaram
diversos nomes e variadas mscaras para o fazerem mais seguramente.

Ambas em vo!

O predominio, crescente ha seculos, do elemento democratico annulla
todas essas conspiraes. Sos e sem elle, os reis tinham succumbido... 
a alliada natural dos reis a democracia.

O edificio do Collegio  todo philippino, ja o disse: a egreja dos mais
bellos specimens d'esse stylo, que em geral scco, duro e sem poesia,
no deixa comtudo de ser grandioso.

Aqui esteve depois muitos annos o seminario patriarchal, cujas aulas
frequentava a mocidade do districto. Hoje leem-se alli outras palestras
da cathedra administrativa.  a sde do govrno civil chamado: corrumper
a moral do povo, sophismar o systema representativo  o thema das
lices.

Todo outro insino se tirou de Santarem. Falla-se n'um liceu e no sei em
que mais 'que ficou na gazetta:' phrase portugueza moderna que deve
supprir a antiga e antiquada de--'ficou no tinteiro'--por muitas razes,
at porque hoje no fica nada no tinteiro seno o senso commum, tudo o
mais de l sai, tudo. E muitas graas a Deus quando no passa s ballas
do impressor para dar a volta do mundo.

Santarem  das terras de Portugal a melhor situada e qualificada para um
grande estabelecimento de instruco e de educao pblica. Porque no
hade estar aqui o Collegio-militar ou a Casa-pia, ou outra grande
eschola, seja qual for? Porque hade ser sta centralizao d'insino em
Lisboa? Em que se funda um privilegio dado  capital em prejuizo e 
custa das provincias?

Sahimos do Collegio, fomos direitos a San'Domingos, um dos mais antigos
estabelecimentos monasticos do reino e que eu tanto desejava visitar.
No sei descrever o que senti quando a inferrujada chave deu a volta na
porta da egreja e o velho templo se patenteiou aos nossos olhos. Acabra
de servir, no imaginam de qu... de palheiro!

A derradeira camada de palha que apodrecra, adheria ainda ao lagedo
humido, e exhalava um forte vapor mephitico que nos suffocava. Mal
podmos ver os tumulos dos Docems e tantos outros interessantes
monumentos que abundam na parte superior do templo. A inferior, ou corpo
da egreja como dizem,  de um miseravel e moderno anachronismo.

Respirando a custo aquelle ar infecto, todo o tempo que lhe pudesse
resistir, quiz approveit-lo em examinar a principal e mais interessante
reliquia da profanada egreja--a capella e jazigo do grande bruxo e
grande santo, San'Frei-Gil.

Algures lhe chamei ja o nosso Doutor Fausto: e  comeffeito. No lhe
falta seno o seu Goethe.

    Vixere fortes ante Agamemnona multi.

Houve fortes homens antes de Agamemno, e fortes bruxos antes e depois
do Doutor Fausto. Mas sem Homero ou Goethe  que se no chega 
reputao e fama que alcansaram aquelles senhores. Ns precismos de
quem nos cante as admiraveis luctas--ora comicas, ora tremendas--do
nosso Frei Gil de Santarem com o diabo. O que eu fiz na 'Dona Branca' 
pouco e mal esboado  pressa. O grande mago lusitano no apparece alli
seno episodicamente; e  necessario que apparea como protagonista de
uma grande aco, pintado em corpo inteiro, na primeira luz, em toda a
luz do quadro.

Ento o seu ardente e anciado desejo de saber, os seus vastos estudos,
os reconditos mysterios da natureza que descobriu at penetrar no mundo
invisivel--a sde de oiro, de prazer e de podr que o perseguia e o fez
cahir nas garras do espirito maligno--o fastio e saciedade que o
desincantaram depois--o seu arrependimento emfim, e a regenerao de sua
alma pela penitencia, pela orao e pelo desprzo da van sciencia
humana--ento essas variadas phases de uma existencia tam
extraordinaria, tam poetica, devem mostrar-se como ainda no foram
vistas, porque ainda no olhou para ellas ninguem com os olhos de grande
moralista e de grande poeta que so precisos para as observar e
intender.

Lembra-me que sempre entrevi isto desde pequeno, quando me faziam ler a
historia de San'Domingos, tam rabujenta e semsabor s vezes, apezar do
incantado stylo do nosso melhor prosador; e que eu deixava os outros
capitulos para ler e reler somente as aventuras do sancto feiticeiro que
tanto me interessavam.

Com todas stas reminiscencias que me reviviam n'alma, com os admiraveis
versos do Fausto a acudir-me  memoria, e com uma infinidade de
associaes que essas ideas me traziam, caminhei direito  capella do
sancto, cheio de alvoro, e como tocado, para assim dizer, de sua
magica vara de condo.

A capella--oh desappontamento! a cappella de San'Frei Gil  um mesquinho
rifacimento moderno, do lado esquerdo da egreja, sem nenhum vestigio de
antiguidade, nenhum ornato characteristico, pesada, grosseira--velha sem
ser antiga--um verdadeiro non-descriptum de mau gsto e semsaboria. Quem
tal dissera?

O tumulo do sancto est elevado do altar n'uma especie de mau throno.
Subi acima da degradada e profanada credencia para o examinar deperto.

 de pedra o jazigo; mas ultimamente ve-se que tinham pintado a pedra;
no tem lavor algum.--E estava vazio, a loisa levantada e quebrada!..

Quem me roubou o meu sancto?

Quem foi o anathema que se atreveu a tal sacrilegio?..




CAPITULO XL.


     As Claras.--Aventura nocturna.--Se as freiras mettem medo aos
     liberaes?--O Psalmo.--Tres frades.--Prctica do franciscano.--O
     corpo de San' Fr. Gil.--Que se hade fazer das freiras?--Mal do
     govrno que deixar comer mais aos bares.


ra de noite, reinava a confuso, a desordem, o susto e a anciedade nos
muros de Santarem, tres homens chegavam, por horas mortas, ao antigo
mosteiro das Claras, davam  portaria um signal surdo e mysterioso;
respondiam-lhe de dentro com outro egual; e d'ahi a pouco, sem rumor e
com as mais escrupulosas precaues se abria quietamente a porta da
clausura.

Os tres homens entraram, a porta fechou-se sbre elles do mesmo modo
precatado.

Que ser?

Os homens levavam uma especie de cofre que parecia conter preciosidades
de grande valor: tal era o desvello com que o resguardavam.

Ha um mysterio que se figura criminoso n'esta aventura. Mas os tempos
so para tudo.

Era no anno de 1834.

Entremos n'esse convento das pobres Claras, tam afflictas e
desconsoladas agora que as ameaam de dissoluo como aos frades.

No ser assim: aquellas instituies no mettem medo aos verdadeiros
liberaes, e os outros l teem o espolio dos frades para devorar; esto
entretidos: as freiras salvam-se porora.

Taes eram as esperanas dos tres homens que entravam a essas deshoras
nos vedados precinctos do mosteiro. Sigamo-los porm, que  tempo.

Chegavam elles a uma pequena capella do claustro das freiras, foram
depor sbre o altar o cofre que traziam, e ajoelharam devotamente deante
d'elle. Logo se ouviu ao longe o psalmear baixo e sumido de vozes
femininas; e d'ahi a pouco, toda a communidade das Claras, de tochas na
mo, em duas alas, e a abbadessa com o seu baculo atraz, entravam
processionalmente no claustro e se dirigiam  mesma capella.

O psalmo que cantavam era este:

[6] 'Meu Deus, vieram os barbaros s tuas herdades, polluiram o teu
sancto templo, pozeram Jerusalem como um grannel de fructos.

'Pozeram os cadaveres de teus filhos de cevo s aves do ceo; as carnes
dos teus sanctos s alimarias da terra.

'O sangue d'elles derramaram-n'o como agua nos valles de Jerusalem; ja
no havia quem sepultasse.

'Estamos feitos o opprbrio dos nossos vizinhos; o escarneo e a zombaria
dos que vivem por nossos arredores.

'At aonde,  Senhor, te hasde irar emfim; e se hade accender o teu zlo
como fogo?

'Vrte a tua ra sbre as gentes que te no conheceram, contra os reinos
que no invocaram o teu nome;

'Que devoraram a Jacob; e desolaram suas terras.

'No te lembres de nossas iniquidades passadas, e depressa nos alcancem
as tuas misericordias; ja que tam pobres de mais estamos.

'Ajuda-nos Deus, salvador nosso; e pela gloria do teu nome livra-nos,
Senhor, amercea-te de nossos peccados por causa do teu nome.'

Cantavam assim as pobres das freiras, cantavam em latim que ellas mal
intendiam; mas dizia-lhes o instincto do corao, dizia-lhes a tam
excitavel imaginao feminina, que era chegada a hora de se cumprir a
seus olhos, e sbre ellas mesmas tambem, a tremenda prophecia do psalmo
que intoavam.

Havia pois lagrymas n'aquellas vozes que assim cantavam, sahiam d'alma
aquelles sons e n'alma vibravam tambem com profunda e solemne
melancholia.

Chegadas juncto  capella aonde estava o cofre, as freiras pararam
conservando as mesmas duas alas da procisso e continuando no accentuado
mormrio de seu psalmo.

Os tres vultos de homem permaneceram de joelhos e curvados deante do
altar.

Findou o psalmo e seguiu-se breve intervallo de silencio. Depois, os
tres homens levantaram-se, e cahindo-lhes para os lados as longas capas
em que vinham involtos, viu-se que o do meio era um frade velho, magro,
curvado e scco, trajando ainda, apezar da lei, o burel preto dos
franciscanos e cingido com sua corda. Os outros dous eram dominicos e
vestiam de preto e branco segundo as cres de seu tambem proscripto
instituto.

O velho franciscano subiu com passo trmulo os degraus do altar, beijou
o cofre que estava sbre elle, e voltando-se para a communidade que o
contemplava em religioso silencio, disse com uma voz cava que parecia
vir do sepulchro mas accentuada e forte:

'Irmans, vimos intregar-vos este depsito precioso. Deus no quer que os
cadaveres dos seus sanctos fiquem expostos s aves do ceo e s alimarias
da terra. Este  o sancto corpo de um dos maiores sanctos que produziu
sta terra de Portugal quando era abenoada. Hoje  malditta e no devia
conservar as suas reliquias. Os filhos de San'Domingos foram expulsos de
sua casa, assim como ns fomos, ns os filhos de Francisco,
incontrmo'nos sem tecto nem abrigo uns e outros, e junctmos as nossas
miserias para as chorarmos como irmos que somos, como filhos de paes
que tanto se amaram e ajudaram. Perigrinaremos junctos por essas
solides da terra, e junctos iremos bater por essas portas que cerrou a
impiedade e a indifferena, a pedir o po de cada dia porque temos fome.

'Que importa! no professmos ns, no nos honrmos ns de ser mendigos?
De que vivmos ns sempre seno de esmolla?

'No choreis irmans, no choreis sbre ns. Deus que o permittiu bem
sabe o que fez. Louvado seja elle sempre! Ns tinhamos peccados para
mais! Ainda foi misericordioso comnosco o Senhor da justia e do
castigo.

'A ns tiraram-nos tudo, tudo! At stas mortalhas que tinhamos
escolhido em vida e que nem a morte ousava roubar-nos.

'A furto e como quem se esconde para um acto criminoso, ns as vestimos
sta noite para commetter o que elles chamaro um furto, e que era uma
obrigao sagrada nossa.

'Fomos  antiga casa de nossos irmos e roubmos o corpo do
bemaventurado San'Frei Gil.

'Aqui vo-lo intregmos; guardae-o. Emquanto estes muros estiverem em pe,
que o abriguem dos desacatos d'essa gente sem Deus nem lei. A vs no
ousaro expulsar-vos d'aqui: talvez vos matem  fome... No pde ser:
Deus no hade permitti-lo.

'Mas qualquer que seja a sua vontade, resignae-vos a ella, minhas
irmans. So elle sabe como nos ama e como nos castiga. Louvemo'-lo por
tudo.'

Aqui foi um chorar e um supplicar fervente como so se ouve na hora da
angstia.

As afflictas monjas, estavam prostradas nas lages humidas do claustro,
sbre as sepulturas de suas irmans, sbre seus proprios jazigos que
haviam de ser. O frade com os braos extendidos pronunciou as solemnes
palavras de beno, descrevendo com a direita o augusto symbolo da
redempo:

'Bemdiga-vos Deus omnipotente, Pae, Filho e Espirito-sancto!' 'Amen!'
respondeu o cro; e os tres proscriptos se retiraram, deixando a salvo o
seu thesoiro.

Assim desappareceu do tumulo o corpo de San'Frei Gil de Santarem.

Ninguem saba d'elle: soube eu e guardei o segredo religiosamente.

Os tempos so outros hoje: os liberaes ja conhecem que devem ser
tolerantes, e que precisam de ser religiosos. No ha perigo em dizer-lhe
onde elle est.

Quando houver em Portugal um govrno que saiba ser govrno, hade regular
e consolidar a existencia das freiras, hade approveit-la para as
piedosas instituies do insino da mocidade, da cura dos infermos, e do
amparo dos invalidos.

Os bares andam-lhe com o cheiro nos poucos bens que lhes restam s
pobres das freiras. Mal do govrno que deixar comer mais aos bares!




CAPITULO XLI.


     O roubador do corpo do sancto descuberto pela arguta perspicacia do
     leitor benevolo.--Grande lacuna na nossa historia.--Porque se no
     preenche?--Pgina preta na historia de Tristam Shandy.--Novellas e
     romances, livros insignificantes.--O adro de San'Francisco e as
     suas acacias.--Que ser feito de Joanninha?--O peito da mulher do
     norte.--Vamos embora: ja me infada Santarem e as suas ruinas.--A
     corneta do soldado e a trombeta do juizo final.--Eheu, Portugal,
     eheu!


Porcerto, leitor amigo, no franciscano velho que vai de noite roubar os
ossos do sancto ao seu tumulo, e os vem esconder na clausura das
freiras, porcerto, digo, reconheceu ja a tua natural perspicacia ao
nosso Frei Diniz, o frade por excellencia--frade por teima e acinte.

Pois esse era, no ha dvida.

Assim se passou aquella scena e assim m'a contaram. Do que medira entre
ella e o acontecido com o frade, Carlos, Joanninha, a av e a ingleza,
d'isso  que nada pude saber.

 uma grande lacuna na nossa historia; mas antes fique assim do que
ench-la de imaginao.

Oh! eu detesto a imaginao.

Onde a chronica se calla e a tradio no falla, antes quero uma pagina
inteira de pontinhos, ou toda branca--ou toda preta, como na veneravel
historia do nosso particular e respeitavel amigo Tristo Shandy, do que
uma so linha da inveno do chroniqueiro.

Isso  bom para novellas e romances, livros insignificantes que todos
leem todavia, ainda os mesmos que o negam.

Eu tambem me parece que os leio, mas vou sempre dizendo que no...

Emfim, tornemos ao frade, e tornemos s minhas viagens.

Cheio d'elle e da sua memoria, palpitando com a recordao das tremendas
scenas que, havia tam poucos annos, se tinham passado em seu antigo
mosteiro, eu me approximei emfim do real convento de San'Francisco de
Santarem.

Dei pouca atteno ao bello adro e  solemne vista que d'elle se
descobre--e menos ainda s doentias acacias que ahi vejetam infezadas e
rachiticas, como plantadas de m mo e em m hora--porque mas so
ellas,  visivel: poseram-n'as ahi depois de extincto o convento. So
triste mas verdadeiro symbolo da apagada e facticia vida que se quiz dar
ao que era morto.

Vamos dentro, e vejamos pelas baixas e aguadas arcadas do claustro,
pelas altas naves do templo se descubrimos algum vestigio do ltimo
guardio d'esta casa, e d'essa fadada familia cujo destino em hora
aziaga tam estreitamente se ligou com o d'elle.

Ja me interessa isto mais, confesso, ai! muito mais, do que todos esses
tumulos e inscripes que por ahi esto, e que tanto characterizam este
um dos mais antigos e mais historicos edificios do reino.

Mas em vo interrogo pedra a pedra, lage a lage: o echo morto da solido
responde tristemente s minhas perguntas, responde que nada sabe, que
esqueceu tudo, que aqui reina a desolao e o abandno, e que se
apagaram todas as lembranas de outro estado...

Que foi feito de ti, Joanninha, e dos teus amores? Que ser feito d'esse
homem que ousou amar-te amando a outra? E essa outra onde est?
Resignou-se ella devras? Sepultou comeffeito, sob o glo apparente que
veste de triplice mas falsa armadura o peito da mulher do norte, todo
aquelle fogo intenso e ntimo que solapadamente lhe devora o corao?

No tenho esperanas de saber nada d'isso aqui.

So pude descubrir que, no dia immediato  scena nocturna das Claras, Fr.
Diniz sahiu de Santarem, no se sabe em que direco--que n'esse mesmo
dia Georgina sahra tambem pela estrada de Lisboa, levando em sua
carruagem a av e a neta, ambas meias mortas e ambas meias loucas--que
no houvera mais novas de Carlos--e que a sua ltima carta, aquella que
escrevra de juncto d'Evora, Joanninha a levava apertada nas mos
convulsas quando partra.

Pois tambem eu me quero partir, me quero ir embora. Ja me infada
Santarem, ja me cansam stas perptuas ruinas, estes pardeiros
interminaveis, o aspecto desgracioso d'estes intulhos, a tristeza
d'estas ruas desertas. Vou-me embora.

E comtudo San'Francisco  uma bella ruina, que merecia examinada de
vagar, com outra paciencia que eu ja no tenho.

Se tudo me impacienta aqui!

Da bella egreja gothica, fizeram uma arrecadao miltar; andou a mo
destruidora do soldado quebrando e abolando esses monumentos preciosos,
riscando com a baioneta pelo verniz mais pulido e mais respeitado
d'esses jazigos antiquissimos: os lavores mais delicados esmoucou-os,
degradou-os. Levantaram as lages dos sepulchros; e ao som da corneta
militar acordaram os mortos de seculos, cuidando ouvir a trombeta
final...

Decididamente vou-me embora, no posso estar aqui, no quero ver isto.
No  horror que me faz,  nusea,  asco,  zanga.

Maldittas sejam as mos que te profanaram, Santarem... que te
deshonraram, Portugal... que te invilleceram e degradaram, nao que
tudo perdeste, at os padres da tua historia!..

Eheu, eheu, Portugal!




CAPITULO XLII.


     Protesto do auctor.--Desaffinao dos nervos.--O que  preciso para
     que as ruinas sejam solemnes e sublimes.--Que Deus est no Colliseu
     assm como em San'Pedro.--Quer-se o auctor ir embora de
     Santarem.--Como, sem ver o tumulo d'elrei D. Fernando?--Em que
     estado se acha este.--Exemplar de stylo byzantino.--Coroa real
     sbre a caveira.--O rei d'espadas e o symbolo do imperio.--Quem
     nunca viu o rei cuida que  de oiro.--Brutalidades da soldadesca
     n'um tumulo real.--O que se acha nas sepulturas dos reis.--A
     phrenologia.--Vindicta publica, tardia mas ultrajante.--Cames e
     Duarte Pacheco.--A sombra falsa da religio.--Regimen dos bares e
     da materia.--A prosa e a poesia do povo.--Synthese e analyse.--O
     senso ntimo.--Se o auctor  demagogo ou Jesuita?--Jesu Christo e
     os bares.


No chamem exaggerado ao que vai escripto no fim do ltimo capitulo;
senti o que escrevi, senti muito mais do que escrevi. O que poder haver
 desacrto nas palavras, porque em verdade no sei explicar a impresso
que me faz uma ruina n'este estado. Desaffinam-me os nervos, vibram-me
n'uma discordancia e dissonancia insupportavel. Queria ver antes estes
altares expostos s chuvas e aos ventos do ceo,--que o sol os queimasse
de dia,--que  noite,  luz branca da lua, ou ao tibio reflexo das
estrellas, piasse o mocho e sussurrasse a coruja sbre seus arcos
meio-cahidos.

No me parecia profanado o templo assim, nem descahido de majestade o
monumento. Podia ajoelhar-me no meio das pedras sltas, entre as hervas
humidas, e levantar o meu pensamento a Deus, o meu corao  glria, 
grandeza, o meu espirito s sublimes aspiraes da idealidade. O
material, o grosseiro, o pesado da vida no me vinham affligir ahi.

Deus, a idea grande do mundo--Deus, a Razo Eterna--Deus, o amor--Deus,
a glria--Deus, a fra, a poesia e a nobreza d'alma--Deus est nas
ruinas escalavradas do Colliseu, como nos zimborios de bronze e marmore
de San'Pedro.

Mas aqui!.. nos pardeiros de um convento velho, concertado pelas
Obras-pblicas para servir de quartel de soldados--aqui no habita
espirito nenhum.

Quero-me ir embora d'aqui!

E como? sem ver o tumulo d'elrei Fernando? No pde ser,  verdade.

Onde est elle?

No cro alto.

Subamos ao cro alto.

    Oh! que no sei de njo como o conte!

O bello jasigo do rei formoso e frivolo, tam dado s delicias do prazer
como foi seu pae s austeridades da justia, em que estado elle est!

Oh nao de barbaros! Oh malditto povo de iconoclastas que  este!

O tumulo do segundo marido de D. Leonor Telles  um sarcophago de pedra
branca, fina e friavel, elegante e simplesmente cortada, com mais
sobriedade de ornatos do que tem de ordinario os monumentos do seculo
XIV, mas de uma acabada sculptura, casta e continente, como o no foi a
vida do rei que ahi incerraram depois de morto.

Percebem-se ainda vestigios das vivas cres em que foram induzidos os
relevos da pedra branca:--stylo byzantino de que no sei outro exemplar
em Portugal. Este --ou antes, era--precioso.

Era; porque a brutalidade da soldadesca o deturpou a um ponto incrivel.
Imaginou a estupida cubia d'estes Allanos modernos que devia de estar
alli dentro algum grande haver de riquezas incantadas,--talvez cuidaram
achar sbre a caveira do rei a coroa real marchetada de perolas e rubis
com que fosse interrado,--talvez pensaram incontrar appertado ainda
entre as sccas phalanges dos dedos myrhados, aquelle globo de oiro
macisso que lhes figura o rei d'espadas do sujo baralho de sua tarimba,
e que elles teem pela indisputavel e infallivel insignia do supremo
imperio;--talvez supposeram que mesmo depois de morto, um rei devia de
ser de oiro... Emfim quem sabe o que elles cuidaram e pensaram? O que se
sabe, porque se ve,  que quizeram abrir e arrombar o tumulo. Tentaram,
primeiro, levantar a campa; no poderam: tam solidamente est soldada a
pedra decma ao corpo ou caixo do jazigo, que o todo parece macisso e
inconsutil. Mas n'este impenho quebraram e estallaram os lavores finos
dos cantos, os caireis delicados das orlas; e a campa no cedeu: parece
chumbada pelo anjo dos ltimos julgamentos com o sllo tremendo que so
se hade quebrar no dia derradeiro do mundo.

A cubia estolida dos soldados no se aterrou com a religio do
sepulchro, nem lhe causou attrio, ao menos, sta resistencia quasi
sobrenatural das pedras do moimento. Ve-se que trabalhou alli, de
alavanca e de ariete, algum possante e ponderoso p-de-cabra; mas que
trabalhou em vo muito tempo.

Desinganaram-se emfim com a tampa; e resolveram atacar, mais brutalmente
mas com mais vantagem, as paredes do sarcophago, que justamente
suspeitaram de menos espessos. Assim era; e conseguiram na parede da
frente abrir um rombo grosseiro por onde entra facil um brao todo e
pde explorar o interior do tumulo  vontade.

Assim o fiz eu, que metti o meu brao por essa abertura barbara, e achei
terra, p, alguns ossos de vertebras, e duas caveiras, uma de homem,
outra de criana.

No me lembra que haja memoria alguma de infante que ahi fosse sepultado
tambem, segundo faziam os antigos muitas vezes que punham os cadaveres
das crianas nos jazigos dos paes, dos parentes, at de meros amigos de
suas familias.

Tive, confsso, uma especie de prazer maligno em imaginar a estupida
compridez de cara com que deviam de ficar os brutaes profanadores,
quando achassem no tumulo do rei o que so teem os tumulos--de reis ou de
mendigos--ossos, terra, cinza, nada!

Por mim, estive tentado a furtar a caveira d'elrei D. Fernando. Se
acreditasse na phrenologia, parece-me que no tinha resistido. No creio
na sciencia, felizmente--n'este caso--para a minha consciencia. Tambem
no sei o que faria se a caveira fosse de outro homem. Mas o 'fraco rei'
que fez 'fraca a forte gente' no so reliquias as suas que se guardem.

Oh! e quem sabe? sta profanao, este abandno, este desacato do tumulo
de um rei, alli na sua terra predilecta--D. Fernando era santareno de
affeio--no ser elle o juizo severo da posteridade, a vindicta
pblica dos seculos, que tardia mas ultrajante, cai emfim sbre a
memoria reprovada do mau principe, e lhe deshonra as cinzas como ja lhe
deshonrra o nome?

Quero acreditar que tal no podia succceder aos tumulos de D. Diniz, de
D. Pedro I, dos dois Joannes I e II, de...

Sim: e aonde est o de Cames? O de Duarte Pacheco aonde _esteve_? que
ainda  mais vergonhosa pergunta sta ltima.

Em Portugal no ha religio de nenhuma especie. At a sua falsa sombra,
que  a hypocrisia, desappareceu. Ficou o materialismo estupido, alvar,
ignorante, devasso e desfaado, a fazer gala de sua hedionda nudez
cynica no meio das ruinas profanadas de tudo o que elevava o espirito...

Uma nao grande ainda poder ir vivendo e esperar por melhor tempo,
apezar d'esta paralysia que lhe pasma a vida d'alma na mais nobre parte
de seu corpo. Mas uma nao piquena,  impossivel; hade morrer.

Mais dez annos de bares e de regimen da materia, e infallivelmente nos
foge d'este corpo agonizante de Portugal o derradeiro suspiro do
espirito.

Creio isto firmemente.

Mas ainda espero melhor todavia, porque o povo, o povo povo, est so:
os corruptos somos ns os que cuidmos saber e ignormos tudo.

Ns, que somos a prosa vil da nao, ns no intendemos a poesia do
povo; ns, que so comprehendemos o tangivel dos sentidos, ns somos
extranhos s aspiraes sublimes do senso-ntimo que despreza as nossas
theorias presumposas, porque todas veem de uma acanhada anlyse que
procede curta e mesquinha dos dados materiaes, insignificantes e
imperfeitos;--em quanto elle, aquelle senso-ntimo do povo, vem da Razo
divina, e procede da synthese transcendente, superior, e inspirada pelas
grandes e eternas verdades que se no demonstram porque se sentem.

E eu que escrevo isto serei eu demagogo? No sou.

Serei fanatico, jesuita, hypocrita? No sou.

Que sou eu ento?

Quem no intender o que eu sou, no vale a pena que lh'o diga...

Perdoa-me, leitor amigo, uma reflexo ltima no fim d'este captulo ja
tam seccante, e prometto no reflectir nunca mais.

Jesu Christo, que foi o modlo da paciencia, da tolerancia, o verdadeiro
e unico fundador da liberdade e da egualdade entre os homens, Jesu
Christo soffreu com resignao e humildade quantas injustias, quantos
insultos lhe fizeram a elle e  sua misso divina; perdoou ao matador, 
adltera, ao blasphmo, ao impio. Mas quando viu os bares a agiotar
dentro do templo, no se pde conter, pegou n'um azorrague e zurziu-os
sem dor.




CAPITULO XLIII.


     Partida de Santarem.--Pinacotheca.--Impaciencia e
     saudades.--Sexta-feira.--Martyrio obscuro.--A figura do
     peccado.--Estamos no valle outra vez.--Evocao de incanto.--A
     irman Francisca e Fr. Diniz.--A teia de Penelope.--E
     Joanninha?--Joanninha est no ceo.--A mulher morta a dobar
     esperando que a interrem.--A esperana, virtude do
     christianismo.--Uma carta.


Estou devras fatigado de Santarem; vou-me embora.

Despedimo'-nos saudosos d'aquella boa e leal familia que nos hospedra
com tanto carinho, com toda a velha cordialidade portugueza; partimos.

Apenas comecei a respirar o ar fresco da manhan nos olivaes, senti
desaffogar-se-me alma d'aquella constrico cansada que se experimenta
na longa visita a um museu de antiguidades, a uma galeria de pinturas.

Perdoem-me que no diga 'pinacotheca': bem sei que  moda, e que a
palavra  adoptavel segundo as mais strictas regras de Horacio, pois
'cai da fonte grega' direitamente e sem mistura: mas soa-me tam mal em
portuguez que no posso com ella.

Santarem fatigou-me o espirito, como todas as coisas que fazem pensar
muito. Deixo-a porm com saudade, e no me heide esquecer nunca dos dias
que aqui passei.

De qu e como sou eu feito, que no posso estar muito tempo n'um logar,
e no posso sahir d'elle sem pena?

Ja me est custando ter deixado Santarem. Porque no haviamos de partir
manhan, e ter ficado ainda hoje alli?

E hoje que  sexta-feira?... Mau dia para comear viagem!

Sexta-feira! Era o dia aziago do nosso valle, da pobre velha cega que
ahi vivia sua triste vida de dores, de remorsos e desconfrto, esperando
porm em Deus, conformada com seu martyrio: martyrio obscuro, mas tam
insanguentado d'aquelle sangue que mana gotta a gotta e dolorosamente do
corao rasgado, devorado em silencio pelo abutre invisivel de uma dor
que se no revela, que no tem prantos nem ais.

Era na sexta-feira que o terrivel frade, o demonio vivo d'aquella mulher
de angstias, lhe apparecia tremendo e espantoso deante de seus olhos
cegos, elevado pela imaginao s propores descommunaes e gigantescas
de um vingador sobrenatural.

Era a figura tangivel, e visivel  vista de sua alma, do enorme peccado
que contra ella estava sempre.

Creio que escuso dizer que no tenho eu sta superstio dos dias
aziagos que tinha a desgraada velha, que a sua Joanninha partilhava.
Mas confesso que, recordando as fatalidades d'aquella familia e
d'aquelle dia, no gostei de voltar n'elle ao valle de Santarem.

Estavamos porm no valle; e ja eu via de longe aquellas rvores e
aquella janella que tanto me impressionaram, quando stas reflexes me
acudiam ao espirito e m'o contristavam.

Affrouxei insensivelmente o passo, deixei tomar larga dianteira aos meus
companheiros de viagem; e quando chegava perto da casa, tinha-os perdido
de vista.

Involuntariamente parei defronte da janella; mordia-me um intersse, uma
curiosidade irresistivel... Nem viva alma por aquelles arredores;
apeei-me e fui direito para a casa.

Apenas passei as rvores, um spectaculo inesperado, uma evocao como de
incanto me veio ferir os olhos.

No mesmo stio, do mesmo modo, com os mesmos trajos e na mesma attitude
em que a descrevi nos primeiros capitulos d'esta historia, estava a
nossa velha irman Francisca...

Ella era, e no podia ser outra; sentada na sua antiga cadeira, dobando,
como Penelope tecia, a sua interminavel meada. No havia outra
differena agora seno que a dobadoira no parava, e que o fio seguia,
seguia, inrollando-se, inrollando-se contnuo e compassado no novllo; e
que os braos da velha lidavam lentamente mas sem cessar no seu
movimento de authomato que fazia mal ver.

Defronte d'ella, sentado n'uma pedra, a cabea baixa, e os olhos fixos
n'um grosso livro velho, que sustinha nos joelhos, estava um homem scco
e magro, descarnado como um esqueleto, livido como um cadaver, immovel
como uma esttua. Trajava um non-descriptum negro, que podia ser sotana
de clerigo ou tunica de frade, mas descingida, slta, e pendente em
grossas e largas pregas do extenuado pescosso do homem.

Tambem no podia ser seno Frei Diniz.

Cheguei juncto d'elles; no me sentiu nenhum dos dois; nem me viu elle,
o que so via dos dois.

Sem mais reflexo, e continuando alto na serie de pensamentos que me
vinha correndo pelo espirito, exclamei:

--'E Joanninha?'

--'Joanninha est no ceo':--respondeu sem sobresalto, sem erguer os
olhos do seu livro, a sombra do frade--que outra coisa no parecia.

--'Joanninha, pobre Joanninha! Pois como foi, como acabou a infeliz?'

--'Joanninha no  infeliz: foi ser anjo na presena de Deus.'

--'E... e Carlos?' balbuciei eu hesitando, porque temia a
susceptibilidade do frade.

--'Carlos!' respondeu elle erguendo emfim os olhos e cravando-os em
mim...

E oh! que nunca vi olhos como aquelles, nem os heide ver!

--'Carlos!... E quem  que m'o pergunta? quem  que tanto sabe de mim e
dos meus?.. Dos meus! Eu no tenho meus: sou so.'

--'So! No est aqui, que eu vejo?..'

--'Ve essa mulher morta que ahi ficou, que a matei eu, e que aqui est 
espera que d a hora de a eu interrar, mais nada. Eu estou so e quero
estar so. Morreu tudo. Que mais quer saber?'

--'Venho de Santarem...'

--'Santarem tambem morreu; e morreu Portugal. Aqui no, vive seno o meu
peccado, que Deus no perdoou ainda, nem espero...'

--'A nossa religio fez uma virtude da esperana.'

--'Fez.'

--'E n'isso se distingue das outras todas.'

--'Pois ainda ha quem o saiba n'esta terra?'

--'Ha mais do que no houve nunca--pelo menos ha mais quem o saiba
melhor.'

--'Pde ser: os juizos de Deus so incomprehensiveis.'

--'E infinita a sua misericordia.'

--'Mas a sua cholera implacavel, a sua justia tremenda.'

--'A misericordia  maior.'

--'Quem lhe insinou tudo isso?'

--'O evangelho, o corao, e minha me que m'os explicou ambos.'

--'Sente-se aqui... aop de mim.'

Sentei-me. O frade pegou-me na mo com as suas ambas, e ps-me os olhos
com uma expresso que nenhuma lingua pde dizer, nem nenhum pincel
pintar.

Esteve assim algum tempo, como quem me observava. Vi-lhe apontar
claramente uma lagryma, vi-lh'a retroceder, e ficarem-lhe inchutos os
olhos. Senti-lhe estrangular um suspiro que lhe vinha  garganta;
percebi distinctamente o estremeo que lhe correu o corpo; mas observei
que todo se serenou depois.

Disse-me ento com voz magoada mas placida e sem aspereza ja nenhuma:

--'Sabe a historia do valle?'

--'Sei tudo at  partida de Carlos para Evora.'

--'Aqui tem a carta que elle escreveu.'

Tirou do breviario um papel dobrado, amarello do tempo, e manchado, bem
se via, de muitas lagrymas, algumas recentes ainda.

--'Leia.'

Li.

sta era a carta de Carlos.




CAPITULO XLIV.


     Carta de Carlos a Joanninha.




                                       Evora-monte...
                                     de maio de 1834.


 a ti que escrevo, Joanna, minha irman, minha prima, a ti so.

Com nenhum outro dos meus no posso nem ouso fallar.

Nem eu ja sei quem so os meus: confunde-se, perde-se-me sta cabea nos
desvarios do corao. Errei com elle, perdeu-me elle... Oh! bem sei que
estou perdido.

Perdido para todos, e para ti tambem. No me digas que no; tens
generosidade para o dizer, mas no o digas. Tens generosidade para o
pensar, mas no pdes evitar de o sentir.

Eu estou perdido.

E sem remedio, Joanna, porque a minha natureza  incorrigivel. Tenho
energia de mais, tenho podres de mais no corao. Estes excessos d'elle
me mataram... e me matam!

Tu no comprehendes isto, Joanninha, no me intendes decerto; e 
difficil.

Es mulher, e as mulheres no intendem os homens. Sempre o entrevi, hoje
sei-o perfeitamente. A mulher no pde nem deve comprehender o homem.
Triste da que chega a sab-lo!..

E d'ahi... quando se tem de morrer, antes saber a morte de que se morre,
do que expirar na ignorancia do mal que nos matou.

Tu es joven e inexperiente, a tua alma est cheia de illuses doces; vou
dissipar-t'as em quanto se no condensam, que te offusquem a razo e te
deixem para sempre escrava cega do maior inimigo que temos, o corao.

Quero contar-te a minha historia: vers n'ella o que vale um homem.

Sabe que os no ha melhores que eu; e tam bons, poucos. Olha o que ser
o resto!

Tu no ignoras ja hoje o porque fugi da casa materna: saba-a manchada
de um grande peccado, e imaginei-a polluida de um enorme crime.

Esse homem que  meu pae, no o podia ver; hoje que sei o que me elle
... Deus me perdoe, que ainda o posso ver menos!

Minha av, julguei-a cumplice no crime; ella so o era no peccado.
Perdoe-lhe Deus; e bem pde e bem deve, ja que a fez tam fraca. Minha
pobre me succumbiu por sua culpa, por sua irremissivel complacencia...

Deus pde e deve, repitto... mas eu, como lhe heide perdoar eu este
rubor que sinto nas faces ao nomear minha me?

Tem padecido e soffrido muito... coitada! A sua penitencia  um
martyrio, a sua velhice uma longa paixo, e esse homem que a perdeu um
verdugo sem piedade. Mas tudo isso  com Deus, no  commigo.

Eu sou filho; minha me morreu sem perdoar--no posso perdoar eu.

E quem me hade perdoar a mim? Ninguem, nem quero.

No sers tu, minha irman; no, que no deves. Porque eu amei-te com um
corao que ja no era meu; acceitei o teu amor sem o merecer, sem o
podr possuir, trahi quando te amava, menti quando t'o disse, menti-te a
ti, menti-me a mim, e no guardei verdade a ninguem.

Mas espera, ouve; deixa-me ver se posso atar o fio d'esta minha incrivel
historia--incrivel para ti, bem simples para quem conhea o corao do
homem.

Sahi de Portugal, e posso dizer que no tinha amado ainda. Inclinaes
de criana, galanteios de sociedade, ligaes que nasceram da vaidade,
ou que so os sentidos alimentam, no merecem o nome de amor.

Eu no tinha amado.

Ha tres especies de mulheres n'este mundo: a mulher que se admira, a
mulher que se deseja, e a mulher que se ama.

A belleza, o espirito, a graa, os dotes d'alma e do corpo geram a
admirao.

Certas frmas, certo ar voluptuoso criam o desejo.

O que produz o amor no se sabe;  tudo isto s vezes,  mais do que
isto, no  nada d'isto.

No sei o que ; mas sei que se pde admirar uma mulher sem a desejar,
que se pde desejar sem a amar.

O amor no est definido, nem o pde ser nunca. O amor verdadeiro; que
as outras coisas no so isso.

Eu vivi poucos mezes em Inglaterra; mas foram os primeiros que posso
dizer que vivi. Levou-me o acaso, o destino--a minha estrella, porque eu
ainda creio nas estrellas, e em pouco mais d'este mundo creio
ja--levou-me ao interior de uma familia elegante, ricca de tudo o que
pde dar distinco n'este mundo.

Extranhei aquelles habitos de alta civilizao, que me agradavam
comtudo; moldei-me facilmente por elles, affiz-me a vejetar docemente na
branda atmosphera artificial d'aquella estufa sem perder a minha
natureza de planta extrangeira. Agradei: e no o merecia. No fundo
d'alma e de character eu no era aquillo por que me tomavam. Menti: o
homem no faz outra coisa. Eu detesto a mentira, voluntariamente nunca o
fiz, e todavia tenho levado a vida a mentir.

Menti pois, e agradei porque mentia. Sancto Deus! para que sahiria a
verdade da tua bcca, e para que a mandaste ao mundo, Senhor?

Havia tres meninas n'aquella familia. Dizer que eram as tres graas 
uma vulgaridade cansada, e tam bannal que no d idea de coisa alguma.
Tres anjos seriam; tres anjos posso dizer com mais propriedade. E quando
em nossos longos passeios solitarios, por aquelles campos sempre verdes,
por aquellas collinas coroadas de arvoredo, tapessadas de relva macia,
os seus vestidos brancos, singelos, simples, trajados sem arte,
fluctuavam com a brisa da tarde... e os longos anneis de seus
cabellos--os de uma eram loiros, os de outra castanhos, no ha nome para
a indefinida cr dos da terceira--quando esses longos anneis descahiam
de sua ondada spiral com o orvalho humido do crepusculo--e que a essa
luz vaga e mysteriosa eu as contemplava todas tres com adorao e
recolhimento devoto d'alma--sinceramente exclamava: 'So tres anjos
celestes que  foroso adorar!..'

E assim  que os adorava os tres anjos, todos tres, e no podia adorar
um sem os outros.

Que me queriam ellas,  certo; que insensivelmente se habituaram  minha
companhia e ja no podiam viver sem ella... ai! era preciso ser um
monstro para o no confessar com lagrymas de gratido e de remorso.

Os mais difficeis e delicados apices da perfeio de sua tam caprichosa
e tam expressiva lingua, as bellezas mais sentidas de seus auctores
queridos, o espirito e tom difficil de sua sociedade tam desdenhosa e
fastienta, mas tam completa e tam calculada para sublimar a vida e a
desmaterializar--isso tudo, e um indefinivel sentimento do _gentil_, que
so com natural tacto se adquire,  verdade, mas que se no alcansa com
elle so--isso tudo o apprendi alli das suaves lices que
insensivelmente recebia a cada instante.

Se valho alguma coisa, tudo valho por ellas; se tenho merecido alguma
considerao no mundo, toda lh'a devo.

Ves que confesso a dvida, vers como a paguei.

O tom perfeito da sociedade ingleza inventou uma palavra que no ha nem
pde haver n'outras linguas emquanto a civilizao as no aparar. _To
flirt_  um verbo innocente que se conjuga alli entre os dois sexos, e
no significa _namorar_--palavra grossa e absurda que eu detesto--no
significa 'fazer a crte';  mais do que estar amavel,  menos do que
galantear, no obriga a nada, no tem consequencias, comea-se,
acaba-se, interrompe-se, addia-se, contina-se ou descontina-se 
vontade e sem compromettimento.

Eu _flartava_, ns _flartavamos_ ellas _flartavam_...

E no ha mais doce nem mais suave intertenimento d'espirito do que o
_flartar_ com uma elegante e graciosa menina ingleza; com duas  prazer
angelico, e com tres  divino.

Para quem nasceu n'aquillo, no  perigoso; para mim degenerou, breve,
aquella placida sensao em mais profundo sentimento.

Veio a admirao primeiro.

E como as eu admirava todas tres as minhas gentis fascinadoras!

E ellas conheciam-n'o, riam, folgavam e estavam incantadas de me
incantar.

Fizeram nascer os desejos!

Julguei-me perdido, e quiz fugir.

No me deixaram e zombaram de mim, da ardencia do meu sangue hespanhol,
da vehemencia das minhas sensaes...

Em breve eu amava perdidamente uma d'ellas--queria muito s outras duas;
mas amar, amar devras, d'alma cuidava eu, de corao ia jur-lo, era a
segunda--Laura, a mais gentil, mais nobre, mais elegante e radiosa
figura de mulher que creio que Deus moldasse n'uma hora de verdadeiro
amor de artista que se dignou tomar por esse pouco de greda que tinha
nas mos ao form-la.




CAPITULO XLV.


     Carta de Carlos a Joanninha: contina.


Laura no era alta nem baixa, era forte sem ser gorda, e delicada sem
magreza. Os olhos de um cr-de-avelan diaphano, puro, avelludado,
grandes, vivos, cheios de tal majestade quando se iravam, de tal doura
quando se abrandavam, que  difficil dizer quando eram mais bellos. O
cabello quasi da mesma cr tinha, demais, um reflexo dourado,
vacillante, que ao sol resplandecia, ou antes, relampejava,--mas a
espaos, no era sempre, nem em todas as posies da cabea:--cabea
pequena, modelada no mais classico da statuaria antiga, poisada sbre um
collo de immensa nobreza, que harmonizava com a perfeio das linhas dos
hombros.

A cintura breve e estreita, mas sem exaggerao, via-se que o era assim
por natureza e sem a menor contrafeio d'arte. O p no tinha as
exiguidades fabulosas da nossa peninsula, era proporcionado como o da
Venus de Medicis.

Tenho visto muita mulher mais bella, algumas mais adoraveis, nenhuma tam
fascinante.

Fascinante  a palavra para ella.

O rosto oval e perfeitamente symetrico, pallido; so os beios eram
vermelhos como a rosa de cr mais viva.

A expresso de toda sta figura  que se no descreve. A bcca breve e
fina surria pouco; mas quando surria, oh!..

Ve-la n'um baile, vestida e calada de branco, cingida com um cinto de
vidrilhos pretos--toilete inalteravel para ella desde certa epocha--sem
mais ornato, sem mais flores, apenas um farto fio de perolas
derramando-se-lhe pelo collo--era ver alguma coisa de superior, de mais
sublime que uma simples mulher.

Tal era Laura, Laura que eu amei quanto podia e saba amar. Era pouco,
sei-o agora; entao parecia-me infinito.

Disse-lh'o a ella, disse-lh'o um dia que passeavamos ss, e depois de
andarmos horas e horas esquecidas, sem trocar uma phrase. Pensavamos, eu
n'ella, ella no sei em qu.

Sera em mim?

Sera mas no m'o confessou.

E ouviu-me sem dizer palavra, sem olhar para mim uma so vez, sem fugir
com a mo que lhe eu appertava, que lhe beijava, e que sentia fria e
humida nas minhas que escaldavam.

Era tarde, dirigimo'-nos para casa.  porta disse-me: 'No entre'; e
vi-a banhada em lagrymas. Quiz segui-la, fez-me um gesto imperioso que
me confundiu. Pela primeira vez, depois de tanto tempo, fui so, triste e
melancholico para a minha pobre habitao, onde passei a noite.

Quando era madrugada quiz-me deitar. No dormi.

No dia seguinte recebi uma carta de Julia: assim se chamava a mais
velha, a mais sensivel e a mais carinhosa das tres irmans.

O bilhete parecia indifferente; no continha seno palavras usuaes,
pedia-me que fosse almoar com ella... no fallava nas irmans.

Senti que era chegada a minha hora, pareceu-me que ia ser expulso
d'aquelle Eden de innocencia em que tinha vivido. A lettra de Julia, uma
lettra linda, perfeita, natural, figurava-se-me um aggregado de signaes
caballisticos terriveis que incerravam o mysterio da minha condemnao.

Vesti-me, fui, achei-me so com Julia no _parlour_ elegante de seu
exclusivo uso.

Era um pequeno gabinete de estudo, ornado somente de umas _etagres_ com
livros e musicas, uma harpa e um cavallete.

Sbre o cavallete estava o meu retratto esboado, na estante da harpa
uma romana franceza a que eu tinha feito lettras portuguezas...

A urna asoviava sbre a mesa, Julia fazia o cha e no parecia attender a
mais nada.

 preciso que eu te descreva a piquena Julia--Julietta como ns lhe
chamavamos--ns, as duas irmans e eu que rivalizavamos a qual lhe havia
de querer mais...

Oh! que saudade e que remorso para toda a minha vida n'estas recordaes
de fraternal intimidade!

Julia era piquena, delicadissima, propriamente infantina no rosto, na
figura, na expresso e no hbito de toda a sua incantadora e diminutiva
pessoa.

Nenhuma ingleza, desde o tempo da rainha Bess, teve p e _ancle_ mais
delicado. Nenhuma, desde o rei Alfredo, se occupou tam elegantemente dos
elegantes cuidados de um interior britannico--gentil quadro 'de genero'
como no ha outro.

Lady Julia R. era a mais piquena e a mais bonita subdita britannica que
eu creio que tenha existido.

Vista  lua, no meio do seu parque, volteiando por entre os raros
exoticos que no curto vero inglez se expoem ao ar livre, facilmente se
tomava pela bella soberana das fadas realizando aquella preciosa viso
de Shakspeare, o 'Midsumer night's dream.'

Seus olhos de azul celeste, sempre humidos e sempre doces, os cabellos
de um claro e assedado castanho todos soltos em anneis  roda da cabea
e cahindo pelos hombros, espalhando-se pelo rosto, que era uma lida
contnua para os tirar dos olhos, um corpo airoso, uma bcca de beijar,
os dentes miudos, alvissimos e apertados, a mo piquena estreita, e de
cera--tudo isto fazia de Julia um typo ideal de bondade, de candura, de
innocencia angelica.

E era um anjo... oh se era!

Contemplei-a muito tempo em silencio: ella surria-me tristemente de vez
em quando, mas no fallava. Emfim almomos, levaram o trem.

Ella disse  sua aia:

--'Phebe, eu estou so com Carlos; e quero estar so. Em casa para
ninguem.'

--'Sim, minha senhora.' Resposta obrigada do criado inglez a tudo.

E ficmos sos completamente.




CAPITULO XLVI.


     Carta de Carlos a Joanninha: contina.


Julia levantou finalmente para mim os seus olhos humidos, assombrados
das mais longas e assedadas pestanas que ainda vi em olhos de mulher, e
disse-me:

--'Carlos, eu estou triste. Devia consolar-me; diga-me alguma coisa que
me console. Falle-me.'

--'Que heide eu dizer?..'

--' um cavalheiro, Carlos: diga-me que o , e desassombre-me d'este
terror em que estou.'

--'Pois duvda, Julia?..'

--'No duvido. Queremos-lhe todos muito aqui... muito demais... receio:
como havemos de duvidar?'

--'Oh Julia, perdoe-me!' exclamei eu lanando-me a seus ps, tomando-lhe
as mos ambas nas minhas, e beijando-lh'as mil vezes n'um paroxysmo de
verdadeira contrico. 'Perdoe-me, Julia: bem sei que fiz mal, e
prometto...'

--'No prometta nada, seno que hade ser cavalheiro. Isso sei eu e sinto
que o pde cumprir.'

--'Juro por... por ella.'

--'Ella!.. Ella ama-o, Carlos.  melhor dizer a verdade de uma vez, e
incarar todas as consequencias de uma posio difficil, do que
illudir-se a gente sem as evitar. Laura ama-o, mas no deve nem pde
am-lo. Se fosse livre, no sei o que diria--no sei o que faria eu...
Mas no se tratta de mim'--proseguiu com volubilidade febril--'no se
tratta de mim, Carlos, tratta-se d'ella. Laura no o pde amar, est
compromettida. Hade partir em tres mezes para a India.'

--'Para a India!'

--'Sim:  verdade: velo-ha. O seu noivo  capito ao servio da
companhia, e parte em casando.'

Eu sentia-me morrer o corao dentro do peito: foi a primeira dor
verdadeira d'alma que soffri... Aquelle era o primeiro amor sincero da
minha vida, e aquella foi tambem a primeira excruciante pena d'amor por
que passei.

Eu que de taes penas zombra sempre, que as desterrava da realidade para
os romances, eu!.. Ai! que poeta ou que novellista soube nunca pintar um
padecer como eu experimentei n'aquella hora?

No sei o que fiz nem o que disse; no me recordo seno que senti as
lagrymas de Julia cahirem-me sbre a face e misturarem-se com as minhas
que corriam em abundancia. Levantei os olhos para ella, e a expresso
que vi nos seus... oh! como a heide esquecer nunca?

Quanto ha de piedade e compaixo no thesouro infinito de um corao
feminino se derramava d'aquelles olhos celestes para me consolar. L no
ficava seno uma tristeza profunda, desanimada e mortal...

No sei que vago pensamento, que idea louca... ou antes, que
presentimento indeterminado e confuso me atravessou pelo espirito--ou
sera pelo corao?--n'aquelle momento...

Se Julia?..

Mas no pde ser.

--'Julia, Julia' bradei eu 'quero v-la: heide v-la uma vez ao menos.
No me negue este ltimo favor. Sei que devo, que preciso, que  foroso
fugir d'ella. Mas antes heide dizer-lhe...'

--'O qu?..'

--'Que a amo como nunca amei, como nunca mais heide amar...'

--'Ai Carlos!'

--'Que para sempre, sempre...'

Julia levantou-se sem dizer palavra, e lanando sbre mim um olhar de
ineffavel compaixo, sahiu rapidamente do quarto.

Achei-me so, no sei o que pensei nem se pensei. Sentia-me aturdido da
cabea, exhausto do corao--n'uma depresso d'espirito que tocava na
estupidez. Se me apontassem uma pistola aos peitos, no levantava o
brao para a arredar... Ja no sentia pena nem desejo. Parecia-me que
comeava a morrer; e no achava que morrer custasse muito.

N'este estado fiquei no sei que tempo; muito no foi. Percebi que se
abria a porta, no tive fra para levantar os olhos. At que senti uma
doce e querida mo na minha... era Julia... e era Laura tambem... sancto
Deus! que estavam aop de mim ambas.

Julia tinha a minha mo na sua; e Laura incostada ao hombro da irman,
deixava cahir sbre mim aquelles olhos em que a severidade habitual se
tinha relaxado n'uma indulgencia tam doce, n'uma compaixo tam celeste
que, juro por Deus, n'aquella hora acreditei firmemente que tinha deante
de mim dous anjos seus, baixados nas azas da piedade divina para me
trazer todo o perdo, toda a misericordia do ceo  minha alma.

Como te direi eu, Joanna, querida Joanninha, como te direi a ti que me
amas, a ti que eu amo--porque te amo, e Deus me castigue que deve!
porque te amo, cegamente te amo com este infame e abominavel corao que
Elle me deu--como te heide eu dizer a ti, e para qu, as palavras que
alli dissemos, os protestos que alli fiz, os juramentos que alli se
deram, as promessas que alli foram trocadas?

Julia foi para a janella--indulgente chapero que nos no via e fingia
no nos ouvir. O dia passou-se assim, um longo dia de junho que tam
curto e rapido nos pareceu. Era noite quando fomos jantar.

 mesa Laura appareceu em trajos de viagem; partia n'aquella noite para
o paiz de Galles onde tinha uma amiga, com quem ia estar at o dia
terrivel, e preparar-se para elle, me disse, longe de mim, no seio da
amizade.

Imagine-se aquelle jantar. Nem comer fingiamos. Ao sahir da mesa achmos
 porta da casa a caleche posta, o cocheiro na almofada, e o criado 
portinhola. Montmos, as tres irmans e eu.

Eram duas milhas d'alli  estalagem onde tocava a malla-posta e onde
Laura devia incontr-la. Fizemo-las sem proferir palavra nenhum dos
quatro.

A lua ia grande e bella com sua luz triste e fria por um ceo sem nuvens.
Era uma d'aquellas noites raras, mas admiraveis do breve estio
britannico.

A areia que rangia com o attrito das rodas da carruagem nas lisas ruas
do parque, os ramos descahidos das rvores por que roavamos levemente
ao passar, os veados mansos que se levantavam para nos ver--os phaeses
que erguiam seu rasteiro voo de moita para moita ao sentir o estalido do
chicote, com que o cocheiro mais moderava do que excitava os seus
cavallos, tudo para mim eram impresses de nunca sentida e inexplicavel
tristeza. Ficava-me a alma apoz tudo aquillo, sentia fugir-me a
felicidade para sempre, e que era eu que a affugentava, e que me ia
incontrar so, desamparado e proscripto no deserto da vida.

No me sentia fra para blasphemar, para maldizer de Deus, seno
tinha-o feito.

Tinha: e outras ancias mais angustiadas e mortaes me teem afflicto na
vida; em nenhuma me senti tam capaz de renegar de Deus e descrer d'elle
como n'esta.

Sera effeito de sua inexhaurivel piedade que talvez quiz acudir  minha
alma antes que se perdesse, sera por certo--pois n'esse mesmo instante
distinctamente me appareceu deante dos olhos d'alma a unica imagem que
podia cham-lo do abysmo: era a tua, Joanna! Era a minha Joanninha
piquena, innocente, aquelle anginho de criana, tam viva, tam alegre,
tam graciosa que eu tinha deixado a brincar no nosso valle: o nosso
valle rustico, tam grosseiro e tam inculto! oh como as saudades d'elle
me foram alcanar no meio d'aquellas allinhadas e perfeitas bellezas da
cultura britannica! Os raios verdes de teus olhos, faiscantes como
esmeraldas, atravessaram o espao, e foram luzir no meio d'aquell'outros
lumes que me cegavam. A esteva brava, o tojo aspero da nossa charneca
mandavam-me ao longe as exhalaes de seu perfume agreste, e matavam o
suave cheiro do feno macio d'essas relvas sempre verdes que me rodeavam.
As folhas crespas, sccas, alvacentas das nossas oliveiras como que me
luziam por entre a espessura cerrada da luxuriante vegetao do norte,
promettendo-me paz ao corao, annunciando-me o fim de uma peleja em que
m'o dilaceravam as paixes.

E tu, Joanna, tu, pobre innocente, e desvallida criancinha, tu
apparecias-me no meio de tudo isso, extendendo para mim os teus
bracinhos amantes como no dia que me despedira de ti n'esse fatal,
n'esse querido, n'esse doce e amargo valle das minhas lagrymas e dos
meus risos, onde so me tinham de correr os poucos minutos de felicidade
verdadeira da minha vida, onde as verdadeiras dores da minha alma tinham
de m'a cortar e destruir para sempre...

Oh! de qu e como  feito o homem, para qu e porque vive elle? Que vim
eu, que vimos ns todos fazer a este mundo?

Eu sentado alli nas almofadas de seda d'aquella splendida e macia
carruagem, rodeado de tres mulheres divinas que me queriam todas, que eu
confundia n'uma adorao mysteriosa e mystica--cego, louco d'amores por
uma d'ellas, no momento de lhe dizer adeus para sempre... eu tinha o
pensamento fixo n'uma criana que ainda andava ao collo!--Revendo-me nos
olhos pardos de Laura que eu adorava, eram os teus olhos verdes que eu
tinha n'alma! Os sentidos todos embriagados d'aquelle perfume de luxo e
civilizao que me cercava,--era o nosso valle rustico e selvagem o que
eu tinha no corao...

Oh! eu sou um monstro, um aleijo moral devras, ou no sei o que sou.

Se todos os homens sero assim?

Talvez, e que o no digam.

Joanna, minha Joanna, minha Joanninha querida, anjo adorado da minha
alma, tem compaixo de mim, no me maldigas. No quero que me perdoes,
nem tu nem ninguem, que o no mereo: mas que tenhas d e lstima de
mim.

Ai! que isso mereo eu, oh sim.

Deixa-me parar aqui. Falta-me o nimo para me estar vendo a este
terrivel espelho moral em que jurei mirar-me para meu castigo, d'onde
estou copiando o horroroso retratto de minha alma que te desenho n'este
papel.

Saba que era monstro, no tinha examinado por partes toda a hediondez
das feies que me reconheo agora.

Tenho espanto e horror de mim mesmo.




CAPITULO XLVII.


     Carta de Carlos a Joanninha: contina.


Chegmos ao Inn (estalagem), triste casa solitaria no meio dos campos 
borda da estrada. A malla chegava ao mesmo tempo quasi.

Eu dei a mo a Laura para sahir da caleche e entrar no coche; e apenas
tivemos tempo para um convulsivo shake-hands e para nos dizer adeus!
adeus! com a affectada seccura que exige a lei das conveniencias
britannicas.

A malla partiu ao grande trote... E dir-te-hei a verdade ou queres que
minta? No, heide dizer-te a verdade. Pois senti como um alvio
desesperado, uma consolao cruel em a ver partir. Senti o que imagino
que deve sentir um infrmo depois da operao dolorosa em que lhe
amputaram parte do corpo com que j no podia viver, e que era foroso
perder ou perder a vida.

Tambem deve de ser assim a morte: um descano apathico e nullo depois de
inexplicavel padecer.

Era como morto que eu estava; no soffria pois.

E ja no pensava em ti, ja te no via na minha alma: eu no existia,
estava alli.

Voltmos ao parque; apeei silenciosamente as minhas duas gentis
companheiras, e eu fui so, ap, com passo firme e resoluto para a minha
habitao. Nenhuma d'ellas me procurou retter, nem me disse nada, nem
tentou consolar-me. Paraqu?

L. William R. chegava, na manhan seguinte, de uma de suas habituaes
excurses a Londres. Veio ver-me assim que chegou, e trazer-me cartas de
Portugal que eu esperava ha muito.--Disse-me que partia no outro dia
para Swansea, a terra de Galles para onde Laura fra; e que me
incarregava de fazer companhia s duas filhas que ficavam sos.

A mim!..

Estive tres dias sem as ver: em todos tres no fiz mais do que escrever
a Laura.

No quarto dia fui ao parque. Julia deu um grito de alegria quando me
viu: raro exemplo de excepo s formuladas regras que tyrannizam a vida
ingleza, que prescrevem at a cara com que se hade morrer, e teem
graduado o tom em que se deve exhalar o ltimo suspiro.

Mas a natureza chega a triumphar s vezes at da propria etiqueta
britannica.

Julia cuidava que eu no queria voltar quella casa, tinha-se resignado
a no tornar a ver-me; no pde reprimir a alegria que lhe causou a
minha inexperada appario.

Passmos todo o dia junctos e sos: quasi todo se nos foi passeando no
parque, ou sentados  sombra de seus espessos arvoredos, ou mirando-nos
nas crystallinas aguas de uma vasta represa povoada de aves aquaticas e
rodeada d'aquelles immensos mantos de velludo verde de que perpetuamente
se infeita a terra ingleza e que so desapparecem quando vem o hynverno
extender-lhe porcima seus alvos lenoes de neve.

Quiz ver o que eu escrevia  irman; dei-lhe a carta, leu-a, meditou-a,
restituiu-m'a sem dizer palavra.

Que horas passmos n'este silencio, n'esta eloquente mudez que no vem
seno do muito de mais que a alma sente, do muito de mais que diria se
fallasse!

 despedida, essa noite, deu-me uma bolsa de rede que Laura tinha estado
fazendo para mim e que lhe deixra para me intregar. Senti que tinha
dentro o que quer que fosse a bolsa, no quiz examinar. Achei, quando
voltei a casa, que era o _fadado cinto_ de vidrilhos pretos que eu tanto
tinha admirado em certo baile onde foramos junctos, e que Laura no
deixra de pr nunca mais em se vestindo de branco e que fizesse alguma
toilette.

Ainda o conservo aquelle cinto precioso, Joanna; ainda a tenho, no meu
thesoiro mais guardado, aquella joia, aquella reliquia. E amo-te, e
amo-te a ti so como realmente nunca amei nem poderei tornar a amar. Mas
aquelle cinto  uma sorte, um talisman, um amuleto em que est o meu
destino.

Amei... isto , amei... pois sim, amei, ja que no ha outra palavra
n'estas estupidas linguas que fallam os homens; pois amei outras
mulheres, e nos dias de maior enthusiasmo por ellas, no deixei nunca de
beijar devotamente aquelle cinto, de o appertar sbre o meu corao, de
me incommendar a elle--como o salteador napolitano se incommenda ao
escapulario da madona que traz ao peito, com as mos insanguentadas de
matar, ou carregado do roubo que acaba de fazer.

Ai, Joanna, no te digo eu que estou perdido, sem remedio, e que para
mim no ha, no pde haver salvao nunca?

Vivi assim dois mezes. Laura no me escrevia: recebia as minhas cartas e
respondia a Julia: por este modo nos correspondiamos. Julia era parte de
ns, era uma poro do nosso amor, viviamos n'ella a nossa vida. E ja as
confundia ambas por tal modo no meu corao que me surpreendia a no
saber a qual queria mais. Julia parecia feliz d'este estado; eu era-o.
Insensivelmente me habituei a elle, ja no tinha saudades do passado. E
quando se approximou o casamento de Laura, que ella tinha de voltar de
Galles, e que eu, fiel ao que promettra, devia pretextar negcio
urgentissimo em Londres que me obrigasse a ausentar-me at  sua partida
para a India, eu tive uma pena, uma difficuldade em cumprir o que
promettra que me invergonhava.

Parti porm; e alli me demorei um mez. Julia escrevia-me todos os dias e
eu a ella. Na vspera do dia fatal em que Laura ia ser de outro homem,
Julia escreveu-me stas palavras sos:--'O nosso romance acabou; comea
uma historia sria. Laura manda-lhe o seu ltimo adeus.'

E nunca mais se escreveu nem se pronunciou o nome de Laura entre ns
dous.

O galeo que me levava para o Oriente as ruinas de toda a minha
esperana ha muito que navegava; entrava outubro e o hynverno inglez com
suas mais asperas, e n'este anno tam precoces, severidades. Eu sentia-me
morrer de tristeza e de isolamento no meio da populosa e turbulenta
Londres, Julia percebeu-o, e mandou-me voltar a ----shire. Voltei.




CAPITULO XLVIII.


     Carta de Carlos a Joanninha: contina.


O que eu senti quando, apezar de tam desfigurados pelos tres-altos de
neve que os cubriam, comecei a reconhecer aquelles sitios da vizinhana
do parque, e a confrontar as rvores, os pastios, os casaes d'aquelles
arredores!

Era outra a expresso de physionomia da paizagem, mas as queridas
feies eram as mesmas, e uma a uma lh'as ia estremando.

Emfim o meu _stage_ parou  entrada do parque, e eu tomei ap pela longa
avenida. Eram nove horas da manhan, e a manhan brumosa, fria, mas o
tempo macio, no estava _cru_, segundo a expressiva phrase do paiz.

Por entre a nevoa que me incubria a antiga manso e involvia as rvores
circumstantes n'um sudario cinzento e melancholico, fui caminhando,
quasi pelo tacto, at meia alameda talvez.

Parei a reflectir na minha posio e no que eu ia ser n'aquella casa que
de novo me abria suas portas hospitaleiras, quando, atravez da neblina
brancacenta e onde ella era mais rara, descubri um vulto que vinha a mim
de entre as rvores do parque.

O vulto era de mulher e parecia uma sombra, uma appario phantastica em
meio d'aquella scena mysteriosa, so, triste.

Na distancia figurava-se-me alto em demazia: Julia no era nem podia
ser; Julia a mais diminutiva e delicada de quantas fadas bonitas e
graciosas teem trazido varinha de condo. Laura... ai! Laura tam longe
estava d'alli... Quem sera pois? So se fosse!.. Quem?

Aquella elegancia, aquelle cabello slto e annellado, aquelle ar gentil
no podia ser seno d'ella...

D'ella, quem?

Ainda te no fallei, quasi, da ltima das tres bellas irmans que me
incantavam, no t'a descrevi, no t'a nomeei pelo seu nome. Repugnava-me
faz-lo. Mas  preciso: custa-me, no ha remedio.

Era Georgina...

Georgina que tu conheces, Georgina que... era Georgina a que vinha a mim
n'aquella--fatal ou feliz?--manhan; Georgina que de todas tres era a que
menos me fallava, que eu verdadeiramente menos conhecia.

Este meu corao,  fra de ferido e de mal curado que tem sido,
pressente e adivinha as mudanas de tempo com uma dor chronica que me
d. Pressenti no sei qu ao ver approximar-se Georgina...

--'Como foi bom em vir! Estou realmente feliz de o ver. E Julia, a pobre
Julia, que alegria que vai ter, hade cur-la de todo.'

--'Pois qu! Julia est doente?'

--'No o saba!... Ai! no, bem sei que no: ella no lh'o quiz dizer.
Julia est doente; mas no  de cuidado. Eu sempre quiz advirti-lo antes
que a visse, por isso calculei as horas do coche e vim para aqui
esper-lo.'

stas palavras eram simples, no tinham nada que me devesse impressionar
extraordinariamente, e todavia eu sentia-me agitado como nunca me
sentira. Olhava para Georgina como se a visse a primeira vez, e pasmava
de a ver tam bella, tam interessante.

 uma situao d'alma sta que no sei que a descrevessem ainda poetas
nem romancistas: desprezam-n'a talvez, ou no a conhecem. Est recebido
que as subitas impresses causadas por um primeiro incntro sejam as
mais interessantes, as mais poeticas.

Eu no nego o effeito theatral d'essas primeiras e repentinas sensaes;
mas sustento que interessa mais ess'outra inesperada e extranha
impresso que nos faz um objecto ja conhecido, que vramos com
indifferena atalli, e que derrepente se nos mostra tam outro do que
sempre o tinhamos considerado...

Mas sta mulher  bella realmente! E eu que nunca o vi! Mas aquelles
olhos so divinos! Onde tinha eu os meus atgora? Mas este ar, mas sta
graa onde os tinha ella escondidos? etc. etc.

Vo-se gradualmente, vo-se pouco a pouco descobrindo perfeies,
incantos; e o sentimento que resulta  mil vezes mais profundo, mais
fundado, sbretudo, que o das taes primeiras impresses tam cantadas e
decantadas.

Que mais te direi depois d'isto? Entrmos em casa, vi Julia, fallmos de
Laura muito e muito. Mas eu ja o no fiz com o enthusiasmo, com a
admirao exclusiva com que d'antes o fazia...

Julia recobrou, breve, a saude, e com ella o equilibrio do espirito.
Renovou-se toda a alegria, todo o incanto das nossas conversaes
ntimas, dos nossos longos passeios. Laura lembrava com saudade; mas
suavizava-se, imbrandecia gradualmente aquella saudade.

Georgina, que atalli parecia impenhar-se em se deixar eclipsar pela
irman, agora, ausente ella, brilhava de toda a sua luz, em graa, em
espirito, por um natural singelo e franco, por uma exquisita doura de
maneiras, de voz, de expresso, de tudo.

Julia revia-se n'ella, e eu acabei pela adorar. Vergonha eterna sbre
mim! mas  a verdade: quiz-lhe mais do que a Laura, ou pareceu-me
querer-lhe mais... que tanto vale.

Eu sei?.. No, no lhe queria tanto. Mas amei-a.

Amei, sim, e fui amado!

Tres mezes durou a minha felicidade.  o mais longo periodo de ventura
que posso contar na vida. Falsa ventura, mas era.

A imperiosa lei da honra exigiu que nos separassemos, que partisse para
os Aores. Fui. Ninguem sacrificou mais, ninguem deu tanto como eu para
aquella expedio. A historia fallar de muitos servios, de muitas
dedicaes. Quem saber nunca d'esta?

A historia  uma tola.

Eu no posso abrir um livro de historia que me no ria. Sbretudo as
ponderaes e adivinhaes dos historiadores acho-as de um comico
irresistivel. O que sabem elles das causas, dos motivos, do valor e
importancia de quasi todos os factos que recontam?

Ainda no sei como parti, como cheguei, como vivi os primeiros tempos da
minha estada n'aquelle esclho no meio do mar, chamado a ilha Terceira,
onde se tinham refugiado as pobres reliquias do partido constitucional.

Habituei-me porfim. A que se no affaz o homem?

Levaram-me uma tarde  grade de um convento de freiras que ahi havia. O
meu ar triste, distrahido, indifferente excitou a piedade das boas
monjas. Uma d'ellas, joven, ardente, apaixonada, quiz tomar a empresa de
me consolar. No o conseguiu, coitada! O meu corao estava em ----shire
em Inglaterra, estava na India, estava no valle de Santarem,

    Pelo mundo em pedaos repartido;

estava em toda a parte, menos alli, que nada d'elle estava nem podia
estar.

Era Soledade que se chamava a freirinha, e com o seu nome ficou.
Disseram o que quizeram os falladores que nunca faltam, mas mentiram
como mentem quasi sempre, inganaram-se como se inganam sempre.

Eu no amei a Soledade.

E comtudo lembro-me d'ella com pena, com sympathia... Se eu sou feito
assim, meu Deus, e assim heide morrer!

Viemos para Portugal; e o resto agora da minha historia sabes tu.

Cheguei porfim ao nosso valle, todo o passado me esqueceu assim que te
vi. Amei-te... no, no  verdade assim. Conheci, mal que te vi entre
aquellas rvores,  luz das estrellas, conheci que era a ti so que eu
tinha amado sempre, que para ti nascra, que teu so devia ser, se eu
ainda tivera corao que te dar, se a minha alma fosse capaz, fosse
digna de junctar-se com essa alma d'anjo que em ti habita.

No , Joanna; bem o ves, bem o sentes, como eu o sinto e o vejo.

Eu sim tinha nascido para gosar as douras da paz e da felicidade
domstica; fui creado, estou certo, para a glria tranquilla, para as
delicias modestas de um bom pae de familias.

Mas no o quiz a minha estrella. Embriagou-se de poesia a minha
imaginao e perdeu-se: no me recobro mais. A mulher que me amar hade
ser infeliz por fra, a que me intregar o seu destino, hade v-lo
perdido.

No quero, no posso, no devo amar a ninguem mais.

A desolao e o opprbrio entraram no seio da nossa familia. Eu renuncio
para sempre ao lar domstico, a tudo quanto quiz, a tudo quanto posso
querer. Deus que me castigue, se ousa fazer uma injustia, porque eu no
me fiz o que sou, no me talhei a minha sorte, e a fatalidade que me
persegue no  obra minha.

Adeus Joanna, adeus prima querida, adeus irman da minha alma! Tu
accompanha nossa av, tu consola esse infeliz que  o auctor da sua e
das nossas desgraas. Tu, sim, que podes; e esquece-me.

Eu, que nem morrer ja posso, que vejo terminar desgraadamente sta
guerra no unico momento em que a podia abenoar, em que ella podia
felicitar-me com uma balla que me mandasse aqui bem direita ao corao,
eu que farei?

Creio que me vou fazer homem politico, fallar muito na patria com que me
no importa, ralhar dos ministros que no sei quem so, palrar dos meus
servios que nunca fiz por vontade; e quem sabe?.. talvez darei porfim
em agiota, que  a unica vida de emoes para quem ja no pde ter
outras.

Adeus minha Joanna, minha adorada Joanna, pela ltima vez, adeus!




CAPITULO XLIX.


     De como Carlos se fez baro.--Fim da historia de
     Joanninha.--Georgina abbadessa.--Juizo de Fr. Diniz sbre a questo
     dos frades e dos bares.--Que no pde tornar a ser o que foi, mas
     muito menos pde ser o que . O que hade ser, Deus o sabe e
     prover.--Vai o A. dormir ao Cartaxo.--Sonho que ahi tem.--Volta a
     Lisboa.--Caminhos de ferro e de papel.--Concluso da viagem e
     d'este livro.


Acabei de ler a carta de Carlos, intreguei-a a Fr. Diniz em silencio.
Elle tornou-me:

--'Leu?'

--'Li.'

--'Que mais quer saber? Sinto que lhe posso dizer tudo: no o conheo,
mas...'

--'Mas deve conhecer-me por um homem que se interessa vivamente...'

--'Em qu? nas eleies, na agiotagem, nos bens nacionaes?'

--'No senhor. Fui camarada de Carlos, no o vejo ha muitos annos e...'

--'Nem o conhecia se o visse agora: ingordou, inriqueceu, e  baro...'

--'Baro!'

--' baro, e vai ser deputado qualquer dia.'

--'Que transformao! Como se fez isso, sancto Deus! E Joanninha e
Georgina?'

--'Joanninha inlouqueceu e morreu. Georgina  abbadessa de um convento
em Inglaterra.'

--'Abbadessa?'

--'Sim. Converteu-se  communho catholica; era ricca, fundou um
convento em ----shire e l est servindo a Deus.'

--'E sta pobre senhora, a av de Joanninha?'

--'Ahi est como a ve, morta de alma para tudo. No ve, no ouve, no
falla, e no conhece ninguem. Joanninha veio morrer aqui n'esta fatal
casa do valle, eu estava ausente, expirou nos braos d'ella e de
Georgina. Desde esse instante a av cahiu n'aquelle estado. Est morta,
e no espero aqui seno a dissoluo do corpo para o interrar, se eu no
for primeiro, e Deus queira que no! quem hade tomar conta d'ella, ter
charidade com a pobre da demente? Mas depois... oh! depois... espero no
Senhor que se compadea emfim de tanto soffrer e me leve para si.'

--'Mas Carlos?'

--'Carlos  baro: no lh'o disse ja?'

--'Mas por ser baro?..'

--'No sabe o que  ser baro?'

--'Oh se sei! Tam poucos temos ns?'

--'Pois baro  o succedaneo dos...'

--'Dos frades... Ruim substituio!'

--'Vi um dos taes papeis liberaes em que isso vinha: e  a unica coisa
que leio d'essas ha muitos annos. Mas fizeram-m'o ler.'

--'E que lhe pareceu?'

--'Bem escripto e com verdade. Tivemos culpa ns,  certo; mas os
liberaes no tiveram menos.'

--'Errmos ambos.'

--'Errmos e sem remedio. A sociedade ja no  o que foi, no pde
tornar a ser o que era;--mas muito menos ainda pde ser o que . O que
hade ser, no sei. Deus prover.'

Ditto isto, o frade benzeu-se, pegou no seu breviario e poz-se a rezar.
A velha dobava sempre, sempre. Eu levantei-me, contemplei-os ambos
alguns segundos. Nenhum me deu mais atteno nem pareceu conscio da
minha estada alli.

Sentia-me como na presena da morte e atterrei-me.

Fiz um esfro sbre mim, fui deliberadamente ao meu cavallo, montei,
piquei desesperado d'esporas, e no parei seno no Cartaxo.

Incontrei alli os meus companheiros; era tarde, fomos ficar fra da
villa  hospedeira casa do Sr. L. S.

Rimos e folgmos at alta noite: o resto dormimos a somno slto.

Mas eu sonhei com o frade, com a velha--e com uma enorme constellao de
bares que luzia n'um ceu de papel, d'onde choviam, como farrapos de
neve, n'uma noite pollar, notas azues, verdes, brancas, amarellas, de
todas as cres e matizes possiveis. Eram milhes e milhes e milhes...

Nunca vi tanto milho, nem ouvi fallar de tanta riqueza seno nas mil e
uma noites.

Acordei no outro dia e no vi nada... so uns pobres que pediam esmola 
porta.

Metti a mo na algibeira, e no achei seno notas... papeis!

Parti para Lisboa cheio de agoiros, de inguios e de tristes
presentimentos.

O vapor vinha quasi vazio, mas nem por isso andou mais depressa.

Eram boas cinco horas da tarde quando desimbarcmos no Terreiro-do-Pao.

Assim terminou a nossa viagem a Santarem: e assim termina este livro.

Tenho visto alguma coisa do mundo, e apontado alguma coisa do que vi. De
todas quantas viagens porm fiz, as que mais me interessaram sempre
foram as viagens na minha terra.

Se assim o pensares, leitor benevolo, quem sabe? pde ser que eu tome
outra vez o bordo de romeiro, e va perigrinando por esse Portugal fra,
em busca de historias para te contar.

Nos caminhos de ferro dos bares  que eu juro no andar.

Escusada  a jura porm.

Se as estradas fossem de papel, fa-las-iam, no digo que no.

Mas de metal!

Que tenha o govrno juizo, que as faa de pedra, que pde, e viajaremos
com muito prazer e com muita utilidade e proveito na nossa boa terra.




NOTAS




NOTAS

AO LIVRO SEGUNDO.



*Nota A.*


     Ficmos sem Nibelungen

                                                                pag. 3.



Colleco de antigas rhapsodias germanicas contendo o maravilhoso e
poetico de suas origens historicas e que  para os povos theutonicos o
que era a Ilada para os hellenos. So se no sabe o nome do Homero
allemo que as redigiu e uniformizou como hoje se acham.


*Nota B.*


     Caranguejar para as Lamas

                                                               pag. 3.



Fundo baixo do Tejo, ao longo da praia de Sanctos, que tem este nome e 
onde vo apodrecer as carcassas dos navios velhos e ja inuteis.


*Nota C.*


     Os ps no _fender_

                                                               pag. 4.



Fender se chama em inglez a pequena e baixa tea de metal que defende o
fogo nas salas, paraque no caiam brazas nos sobrados. Descanam n'elle
os ps naturalmente quando a gente se est confortavelmente aquecendo em
liberdade.


*Nota D.*


     Perfumados resplendores do _Old sack_

                                                               pag. 5.



Tem-se disputado muito sbre qual seja a bebida espirituosa celebrada
por Shakspeare tantas vezes com este nome. A opinio mais acceita  que
fosse boa e velha aguardente de Frana.


*Nota E.*


     Renegaram de San'Tiago por castelhano

                                                               pag. 5.



O grito de guerra commum a todas as naes christans hespanholas era:
San'Tiago! Quando na accesso da casa de Avis nos allimos intimamente
com a Inglaterra contra Castella, comemos a invocar San'Jorge.


*Nota F.*


     Vacca e riso de Fr. Bartholomeu dos Martyres

                                                               pag. 9.



Singela e original expresso do sancto arcebispo n'uma carta de convite
a um seu amigo. Fez-se, como devia ser, proverbial sta phrase.


*Nota G.*


     Feliz expresso do Sr. Conde de Raczinski

                                                             pag. 124.



Na sua obra intitulada 'Les arts en Portugal', Paris 1845.


*Nota H.*


     O centro perde o centro de gravidade, o barbas arrepella as barbas

                                                             pag. 127.



Centro e barbas so qualificaes e nomes de impregos theatraes.




INDICE.


Capitulo XXVI--Modo de ler os auctores antigos, e os modernos
tambem.--Horacio na sacra-via.--Duarte Nunes iconoclasta da nossa
historia.--A policia e os barcos de vapor.--Os vandalos do feliz systema
que nos rege.--Shakspeare lido em Inglaterra a um bom fogo, com um copo
de _old-sack_ sbre a banca.--Sir John Falstaff se foi maior homem que
Sancho-Pansa?--Grande e importante descuberta archeologica sbre
San'Tiago, San'Jorge e Sir John Falstaff.--Prva-se a vinda d'este
ltimo a Portugal.--O enthusiasta britannico no tumulo de Heloisa e
Abeillard no Pre-la-Chaise.--Bentham e Cames.--Chega o auctor  sua
janella, e pasmosa _miragem_ poetica produzida por umas oitavas dos
Lusiadas.--De como em fim proseguem stas viagens para Santarem, e que
feito ser de Joanninha.      1

Capitulo XXVII--Chegada a Santarem.--Olivaes de
Santarem.--Fra-de-Villa.--Symetria que no  para os olhos.--Modo de
medir os versos da biblia.--Architectura pedante do seculo
XVII.--Entrada na Alcova.      11

Capitulo XXVIII--Depois de muito procurar acha em fim o auctor a egreja
de Sancta-Maria d'Alcova.--Stylo da architectura nacional perdido.--O
terremoto de 1755, o marquez de Pombal e o chafariz do Passeio-pblico
de Lisboa.--O chefe do partido progressista portuguez no alcassar de D.
Affonso Henriques.--Deliciosa vista dos arredores de Santarem observada
de uma janella da Alcova, de manhan.-- tomado o auctor de ideas
vagas, poeticas, phantasticas como um sonho.--Introduco do
Fausto.--Difficuldade de traduzir os versos germanicos nos nossos
dialectos romanos.      19

Capitulo XXIX--Douras da vida.--Imaginao e sentimento.--Poetas que
morreram moos e poetas que morreram velhos.--Como so escriptas stas
viagens.--Livro de pedra. Criana que brinca com elle.--Ruinas e
reparaes.--Idea fixa do A. em coisas d'arte e litterarias.--Sancta
Iria ou Irene, e Sanctarem.--Romance de Sancta Iria.--Quantas sanctas ha
em Portugal d'este nome?      29

Capitulo XXX--Historia de Sancta Iria segundo os chronistas e segundo o
romance popular.      39

Capitulo XXXI--Quommodo sedet sola civitas.--Santarem.--Portugal em
verso e Portugal em prosa.--Exquisito lavor de umas portas e janellas de
architectura mosarabe.--Busto de D. Affonso Henriques.--As salgadeiras
de Affrica.--Porta do Sol.--Muralhas de Santarem.--Voltemos  historia
de Fr. Diniz e da menina dos olhos verdes.      49

Capitulo XXXII--Tornmos  historia do Joanninha.--Preparativos de
guerra.--A morte.--Carlos ferido e prisioneiro.--O hospital.--O
infermeiro.--Georgina.      55

Capitulo XXXIII--Carlos e Georgina. Explicao.--Ja te no amo! palavra
terrivel.--Que o amor verdadeiro no  cego.--Frade no caso outra vez.
_Ecce iterum Crispinus_; ca est o nosso Fr. Diniz comnosco.      69

Capitulo XXXIV--Carlos, Georgina e Fr. Diniz.--A peripecia do drama.      79

Capitulo XXXV--Reunio de toda a familia.--Explicao dos mysterios.--O
corao da mulher.--Parricidio.--Carlos beija emfim a mo a Fr. Diniz e
abraa a pobre da av.      87

Capitulo XXXVI--Que no se acabou a historia de Joanninha.--Processo ao
corao de Carlos.--Immoralidade.--Defeito de organizao no 
immoralidade.--Horror, horror, maldico!--Um baro que no pertence 
familia lineana dos bares propriamente dittos.--Porta de
Atamarma.--Senatus consulto santareno.--Nossa Senhora da Victoria
_afforada_.--Threnos sbre Santarem.      99

Capitulo XXXVII--A Graa e sua bella fachada gothica.--Sepultura de
Pedr'alvares Cabral.--Outro baro que no  dos assignalados.--Egreja do
Sancto-milagre.--Bellos medalhes mosarabes.--De como, chegando o prior
e o juiz, houve o A. vista do Sancto-milagre, e com que
solemnidades.--Monumento da muito alta e poderosa princeza a infanta D.
Maria da Assumpo.--Casa onde succedeu o milagre convertida em capella
de stylo philippino.--O homem das botas, e o que tem elle que haver com
o Sancto-milagre de Santarem.--Admiravel e graciosa esperteza da
regencia do Rocio.--Aaroun-el-Arraschid: e theoria dos governos
folgases, os melhores governos possiveis.--Volta o paladio scalabitano
de Lisboa para Santarem.      111

Capitulo XXXVIII--Jantar nos reaes paos de Affonso Henriques.--Sauts e
salmis.--Desce o A.  Ribeira de Santarem em busca da tenda do
Alfageme.--A espada do Condestavel.--Desappontamento.--O salo elegante.
Dissipam-se as ideas archeologicas. Os fosseis. Tudo melhor quando visto
de longe.--O baile pblico.--Soire de piano obrigado.--Theatro.
Desaffinaes da prima-dona.--Syphlis incuravel das traduces.
Destempro dos originaes.--A xcara de rigor, o subterraneo e o
cemiterio.--Sublime gallimathias do ridiculo.--A bella e necessaria
palavra 'gallimathias.'--Se as saudades matam.--Perigo de applicar o
scalpello ou a lente ao mais perfeito das coisas humanas.--De como a
logica  a mais perniciosa de todas as incoherencias.      121

Capitulo XXXIX--Processo de scepticismo em que est o
auctor.--Moralistas de _requiem_.--O maior sonho d'esta vida, a
logica.--Differena do poeta ao philosopho.--O corao de Horacio.--O
collegio de Santarem.--Jesuitas e templarios.--O alliado natural dos
reis:--'Ficar na gazeta' phrase muito mais exacta hoje do que 'Ficar no
tinteiro'.--San'Frei Gil e o Doutor Fausto.--De como o A. foi ao tumulo
do sancto bruxo e o achou vazio.--Quem o roubaria?      131

Capitulo XL--As Claras.--Aventura nocturna.--Se as freiras mettem medo
aos liberaes? O Psalmo.--Tres frades.--Prctica do franciscano.--O corpo
de San' Fr. Gil.--Que se hade fazer das freiras?--Mal do govrno que
deixar comer mais aos bares.      141

Capitulo XLI--O roubador do corpo do sancto descuberto pela arguta
prespicacia do leitor benevolo.--Grande lacuna na nossa
historia.--Porque se no preenche?--Pgina preta na historia de Tristam
Shandy.--Novellas e romances, livros insignificantes.--O adro de
San'Francisco e as suas acacias.--Que ser feito de Joanninha?--O peito
da mulher do norte.--Vamos embora: ja me infada Santarem e as suas
ruinas.--A corneta do soldado e a trombeta do juizo final.--Eheu,
Portugal, eheu!      151

Capitulo XLII--Protesto do auctor.--Desaffinao dos nervos.--O que 
preciso para que as ruinas sejam solemnes e sublimes.--Que Deus est no
Colliseu assim como em San'Pedro.--Quer-se o auctor ir embora de
Santarem.--Como, sem ver o tumulo d'elrei D. Fernando?--Em que estado se
acha este.--Exemplar de stylo byzantino.--Coroa real sbre a caveira.--O
rei d'espadas e o symbolo do imperio.--Quem nunca viu o rei cuida que 
de oiro.--Brutalidades da soldadesca n'um tumulo real.--O que se acha
nas sepulturas dos reis.--A phrenologia.--Vindicta pblica, tardia mas
ultrajante.--Cames e Duarte Pacheco.--A sombra falsa da
religio.--Regimen dos bares e da materia.--A prosa e a poesia do
povo.--Synthese e anlyse.--O senso ntimo.--Se o auctor  demagogo ou
Jesuita?--Jesu Christo e os bares.      157

Capitulo XLIII--Partida de Santarem.--Pinacotheca.--Impaciencia e
saudades.--Sexta-feira.--Martyrio obscuro.--A figura do
peccado.--Estamos no valle outra vez.--Evocao de incanto.--A irman
Francisca e Fr. Diniz.--A teia de Penelope.--E Joanninha?--Joanninha
est no ceo.--A mulher morta a dobar esperando que a interrem.--A
esperana, virtude do christianismo.--Uma carta.      167

Capitulo XLIV--Carta de Carlos a Joanninha.      177

Capitulo XLV--Carta de Carlos a Joanninha: contina.      187

Capitulo XLVI--Carta de Carlos a Joanninha: contina.      195

Capitulo XLVII--Carta de Carlos a Joanninha: contina.      207

Capitulo XLVIII--Carta de Carlos a Joanninha: contina.      215

Capitulo XLIX--De como Carlos se fez baro.--Fim da historia da
Joanninha.--Georgina abbadessa.--Juiso de Fr. Diniz sbre a questo dos
frades e dos bares.--Que no pde tornar a ser o que foi, mas muito
menos pde ser o que ? O que hade ser, Deus o sabe e prover.--Vai o A.
dormir ao Cartaxo.--Sonho que ahi tem.--Volta a Lisboa.--Caminhos de
ferro e de papel.--Concluso da viagem e d'este livro.      227

Notas      237




Notas:

[1] Transcrevemos aqui o original allemo, para se avaliar o que fica
ditto no texto.

    Ihr naht euch wieder, schwankende Gestalten,
    Die frh sich einst dem trben Blick gezeigt.
    Versuch ich wohl euch diesmal fest zu halten?
    Fhl' ich mein Herz noch jenem Wahn geneigt?
    Ihr drngt euch zu! nun gut, so mgt ihr walten
    Wie ihr aus Dunst und Nebel um mich steigt;
    Mein Busen fhlt sich jugendlich erschttert
    Vom Zauberhauch, der euren Zug umwittert.
    Ihr bringt mit euch die Bilder froher Tage,
    Und manche liebe Schatten steigen auf;
    Gleich einer halbverklungen Sage
    Commt erste Lieb' und Freundschaft mit herauf;
    Der Schmerz wird neu, es wiederholt die klage
    Des lebens labyrintisch irren Lauf,
    Und nennt die Guten, die, um schne Stunden
    Vom Glck getuscht, vor mir hinweggeschwunden

[2] Nas notas a Adozinda, vol. I do 'Romanceiro,' nota N, citei
differentemente sta copla pela imperfeita lico de um Ms. do Minho,
unico que tinha  mo.

[3] Outra lico, e talvez melhor diz _a coitada_.

[4] Thomar.

[5] De frades e de freiras.

[6] Deus, venerunt gentes in hereditatem tuam. Ps. 78.




Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+----------------------+----------------------+
  |          |      Original        |      Correco       |
  +----------+----------------------+----------------------+
  |#pg.    2| et mos               | est mos*             |
  |#pg.    5| Faltaffs             | Falstaffs            |
  |#pg.   17| San'Joo-de-Alpiara | San'Joo do Alporo* |
  |#pg.   17| egrea                | egreja*              |
  |#pg.   43| retiraam             | retiraram            |
  |#pg.   50| recordam             | memoram*             |
  |#pg.   62| stil                 | still*               |
  |#pg.   81| da intranhas         | das intranhas        |
  |#pg.   99| Horor                | Horror               |
  |#pg.  118| quelle               | aquelle              |
  |#pg.  118| digno do ornar       | digno de ornar       |
  |#pg.  119| LisboaTejo           | Lisboa Tejo          |
  |#pg.  123| confrontar- algum    | confrontar algum     |
  |#pg.  138| extistencia          | existencia           |
  |#pg.  213| com com              | com                  |
  |#pg.  217| desdescrevi          | descrevi             |
  |#pg.  218| ma curado            | mal curado           |
  |#pg.  241| modernas             | modernos             |
  |#pg.  241| Flastaff             | Falstaff             |
  +----------+----------------------+----------------------+


* correces feitas com base na errata do prprio livro.

Shakespeare, San' Thiago e Joanninha surgem neste livro como Shakspeare,
San'Tiago e Joaninha respectivamente. Dada a repetitividade constante,
decidi manter de acordo com o original.





End of the Project Gutenberg EBook of Viagens na Minha Terra (Volume II), by 
Almeida Garrett

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGENS NA MINHA TERRA (VOLUME II) ***

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