The Project Gutenberg EBook of Noticia de livreiros e impressores de
Lisba na 2 metade do seculo XVI, by Jos Joaquim Gomes de Brito

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Title: Noticia de livreiros e impressores de Lisba na 2 metade do seculo XVI

Author: Jos Joaquim Gomes de Brito

Release Date: February 20, 2008 [EBook #24657]

Language: Portuguese

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     *Nota de editor:* Devido  quantidade de erros tipogrficos
     existentes neste texto, foram tomadas vrias decises quanto 
     verso final. Em caso de dvida, a grafia foi mantida de acordo com
     o original. No final deste livro encontrar a lista de erros
     corrigidos.

     Rita Farinha (Fev. 2008)




GOMES DE BRITO


NOTICIA

DE

Livreiros e Impressores em Lisba

NA

2.^a METADE DO SECULO XVI

COMPOSTA EM FACE DE UM CODICE DA CAMARA MUNICIPAL DESTA CIDADE

[Figura]


1911

Imprensa Libanio da Silva
_Travessa do Fala-S, 24_
LISBOA




Livreiros e Impressores em Lisba na 2.^a metade do Seculo XVI




GOMES DE BRITO


NOTICIA

DE

Livreiros e Impressores em Lisba

NA

2.^a METADE DO SECULO XVI

COMPOSTA EM FACE DE UM CODICE DA CAMARA MUNICIPAL DESTA CIDADE

[Figura]


1911

Imprensa Libanio da Silva
_Travessa do Fala-S, 24_
LISBOA




Do _Boletim da Sociedade de Bibliophilos Barbosa Machado_

Tiragem: 50 exemplares

N.^o 44




NOTICIA

DE

Livreiros e Impressores em Lisba

NA

2.^a METADE DO SECULO XVI


At o tempo em que o Cardeal D. Henrique, depois rei, procedeu  nova
circumscripo das parochias de Lisba, erijindo mais cinco freguezias a
ajuntar s vinte e cinco j existentes (1564 a 1569), demarcando-lhes o
territorio nos recortes feitos a quatro destas, a secular compartilha
que resultava deste regimen, estabelecido no intuito de accomodar o
servio religioso s necessidades dos fieis, e sua mais immediata
satisfao, soffrera tres remodelaes. Ordenara a ultima, durante a
regencia do principe D. Joo, ausente em Frana seu pai, o rei D.
Affonso V, o celebre cardeal de Alpedrinha.

Por effeito daquelle regimen, grande numero de vias pblicas lisbonenses
eram, como ainda hoje o so, compartilhadas por diversas freguezias
confinantes. O _Summario_ de Christovo Rodrigues de Oliveira, apezar de
imperfeito neste ponto, nos mostra, pela repetio das _denominaes_,
que no dos _disticos_, porque tal providencia estava ainda por nascer,
quaes e quantas eram as vias pblicas compartilhadas, por effeito da
remodelao parochial ento vigente.

Comprehendia-se entre as deste numero a muito falada Rua Nova,
dividida em dois troos, um mais antigo que o outro; um, o primeiro,
fazendo parte do territorio da freguezia da Magdalena, o outro
pertencendo  freguezia de S. Gio (S. Julio).

Do mesmo modo, esta notavel rua da Lisba medieva, que principiando no
Pelourinho, a entroncar na Calcetaria, era conhecida por duas
denominaes, correspondentes  sua compartilha.  parte oriental,
territorio da parochia da Magdalena, que terminava no Arco dos Barretes,
chama Christovo Rua Nova dos Ferros; a que desde o predito Arco a
embeber-se na Calcetaria, um pouco adiante do Chafariz dos Cavallos, 
designada na relao do _Summario_, referida  freguezia de S. Gio,
pela denominao de Rua Nova dos Mercadores.




I


 em toda a extenso da Rua Nova, de um e outro lado della, que, merc
de um valioso codice pertencente  Camara Municipal de Lisba[1], ns
vamos encontrar, de porta aberta, nos annos intermedios dos j preditos
(1565 a 1567), no s alguns dos livreiros e editores j conhecidos dos
que conversam o passado literario de Portugal, mas outros tambem, ainda
at agora no mencionados.

Comeando a juzante da formosa linha de agua com a qual a Rua Nova
andava, se pode dizer, parallela, o primeiro que se nos depara 
Bartholomeu Lopes, que no deixou de si, que saibamos, memoria
averiguada, mas que poder ser, porventura, membro de uma notavel
gerao de livreiros deste appelido;--os Lopes.[2]

Em 1563, isto , dois annos, apenas, antes do primeiro dos dois a que o
codice de onde extractamos estes apontamentos se refere, havia um
Christovo Lopes estabelecido  Porta da S, segundo se v do titulo
seguinte, que abreviamos, mas se pode ler completo em Innocencio,
_Diccion. Bibliog._ II, 166:

_Exposiam da Regra do glorioso Padre Sancto Augustinho... por frey
Diogo de Sam Miguel, &--Vendense_ (sic) _ porta da See, em casa de
Christouam Lopes Liureyro a dous tostes em papel.--Foy impresso em
Lixboa em casa de Joannes Blavio de Agrippina Colonia--Anno de 1563_.

Vista a propinquidade dos annos, poder acaso Bartholomeu Lopes ter sido
irmo, ou filho (?) de Christovo Lopes, e seu successor, passando o
estabelecimento da Porta da S para a Rua Nova, ou estabelecendo-se elle
ahi de novo.

 possivel tambem que este mesmo livreiro seja pae do livreiro-impressor
Simo Lopes, que deu em Lisba, em 1593, a primeira edio do
_Itinerario_, de Fr. Pantaleo d'Aveiro, as _Cartas do Japo_, etc., e
em 1596 reimprimiu a _Chronica de D. Joo II_, de Garcia de Rezende.

A seguir a Bartholomeu Lopes, seu visinho, estabelecido, at, nas mesmas
casas, tendo ambos por senhorio um tal Jeronymo Corra, tinha a sua
lojinha Sagramor Fernandes. Era livreiro de modestas posses, a julgar
pela avaliao que os lanadores, para tal effeito deputados, deram 
sua fazenda, na proporo de cuja totalidade deveria, como todos, pagar
o respectivo escote. O nome baptismal do homem era novellesco, mas as
_cavallarias_, ao que parece, no eram grandes.

A influencia das novellas de cavallaria faz-se ainda sentir em toda a
sua pujana no codice que nos facilita esta noticia, imprimindo-lhe um
matiz pictoresco e variado.

O nome novellesco do obscuro livreiro no  unico entre os seus
congeneres de ambos os sexos, inscriptos neste curioso recenseamento. A
par dos Sagramor ha os Lanarote; de envolta com as Ginevras passam as
Briolanjas. A procedencia francesa e a italiana, dando-se as mos.
Lanarote  o Lancelot francez; Lancelot du Lac, o heroe cavalheiresco
de Gauthier Mapp, o amigo de Henrique II de Inglaterra. Sagramor  o
Sagromoro milanez, que Jorge Ferreira aportuguesou, fazendo-o heroe do
seu _Memorial_; Sagramor Constantino, designado por el-rei Arthur para
seu successor, se a sorte das armas lhe fsse adversa.

Por aproposito, lembraremos a dvida que Barbosa Machado fez nascer,
cerca da existencia dos _Triumfos de Sagramor_, novella que, segundo
elle, teria sido impressa em Coimbra, em 1554, por Joo Alvarez, mas de
que parece que nem o douto Abbade de Sever, nem, de certeza, o seu
successor, o diligente Innocencio, viram jmais exemplar algum. Ser
esta hypottica novella o proprio _Memorial_, assim duplicado pelo
auctor da _Bibliotheca Lusitana_? Eis um curioso thema, digno, nos
parece, de attrahir a atteno da nossa Sociedade, e a que o artigo de
Innocencio (IV, n.^o 2095, pag. 170) prestaria a base.

Em compensao, porm, algumas lojas mais adiante do modesto Sagramor
achava-se estabelecido o opulento Joo de Borgonha. Livreiro-editor de
nomeada, fornecedor de artigos do seu ramo para a fazenda de S. A.,
proprietario nas visinhanas do seu estabelecimento, e em mais de um
sitio,[3] os seus teres, como negociante, foram avaliados em um conto
de ris.

Na epoca em que o encontrmos, tinha elle por seu obreiro, talvez o
que hoje chamariamos seu director-technico, seu administrador ou seu
apoderado, a um certo Miguel de Arenas, um castelhano, porventura, como
da Borgonha seria, com effeito, o patro; estranjeiros quasi todos,
estes negociantes das letras portuguezas do seculo XVI, que, vindo
concorrer com os nacionaes, faziam, ao que parece, mais fortuna que
elles.[4]

Certo  que Miguel de Arenas estabeleceu-se posteriormente, com o mesmo
ramo de commercio, de sociedade com Joo de Molina; tambem, e mais
vulgarmente conhecido por Joo de Hespanha, outro abastado mercador de
livros, mas no tanto como o seu confrade borgonhez. O negocio de Joo
de Hespanha foi avaliado em duzentos mil ris. Como obreiro de Joo
de Borgonha, Miguel de Arenas devia fazer bons interesses. Dos seus
ordenados--e foi por esta circumstancia que o suppuzemos _empregado
superior_ da casa de seu patro--foram-lhe arbitrados cinquo mill rs,
para na razo delles pagar o respectivo escote.[5]

A Joo de Borgonha segue-se, nas tendas de Alvaro de Moraes, o livreiro
Manoel Carvalho, provavelmente o pae de Sebastio Carvalho, que em 1598
publicou, em 3.^a edio, a _Recopilaam das cousas que conuem guardarse
no modo de preseruar a Cidade de Lisboa_, instruces redigidas em 1569
pelos medicos Thomaz Alvarez e Garcia de Salzedo Coronel, e repetidas na
primeira das datas a que acima nos referimos, por mandado da cidade de
Lisba, &.[6] Sebastio Carvalho conservaria assim na mesma Rua Nova o
estabelecimento paterno.

Apresentam-se, logo em seguida a Manoel Carvalho, Diogo Machado, Joo
Lopes e Graviel de Araujo, dos quaes no viramos ainda noticia, antes
que o codice que lhes revelou a existencia no'los dsse a conhecer. Ao
ultimo destes segue Diogo Moniz, que por ter apresentado carta de
familiar do Santo Officio, foi escuso do escote. Porfim, e quasi no
extremo da parte da rua pertencente  freguezia da Magdalena, o
Grafeo, isto , o livreiro-editor Francisco Grapheo, em cujo
estabelecimento se vendia a novella _Menina e Moa_, de Bernardim
Ribeiro, impressa em Colonia, em 1559,[7] e uma das muitas edies da
_Diana_, do nosso Jorge de Montemor, ao qual ainda no chegara a hora de
ser includo nos _Indices expurgatorios_ das duas Inquisies
peninsulares.




II


Continuando na mesma Rua Nova, agora j no territorio da freguezia de
S. Giam; isto , para a direita do Arco dos Pregos, ainda ahi
encontramos um Francisco Mendes, que estar no caso de Sagramor
Fernandes, visto o diminuto do escote, bem como o framengo Giraldo de
Frisa, que pertence tambem, ou nos enganaremos, ao numero dos da sua
classe, de que no chegra noticia at nossos dias.

Emfim, na mesma Rua Nova, e territorio da sobredita freguezia de S.
Giam (S. Julio), mas da banda das Varandas, encontramos, fronteira ao
Arco dos Pregos, a viuva de Salvador Martel, Leonor Nunes, a qual,
estabelecida, com seu filho, nas casas de Ferno d'Alvarez de Almeida,
teve pelos lanadores a avaliao de duzentos mil ris.

Salvador Martel foi livreiro conhecido. Dever ter fallecido no decurso
das operaes do _Lanamento_, de cujo livro tiramos estas singelas
notas, visto como Tito de Noronha ainda o refere ao anno de 1566.[8]

Algum tanto mais atrs, e tornando ao territorio da freguezia da
Magdalena, voltando da rua de D. Gil Eanes, pelo Pelourinho, para a
rua da Ourivesaria da Prata, em cuja entrada tinham suas lojas os
calciteiros, encontramos o livreiro Jeronymo de Aguiar, que tambem no
conheciamos, e, ali perto, no Poo da Fota, o j mencionado Joo de
Molina, appelidado no codice que vamos percorrendo Joho de Espanha,
livreiro-editor que rivalisava, sem comtudo o hombrear, como j notmos,
com o seu opulento confrade Joo de Borgonha.

No era, porm, s na famosa Rua Nova, e suas immediaes, que se
encontravam os mercadores de livros. Na rua direita da Porta do
Ferro,[9] numas casas que ahi possuia a camareira-mr, estava
estabelecido Jorge Dagiar (Aguiar ou Aguilar?) talvez antecessor de
Antonio de Aguilar, que nesse sitio teve a sua loja em 1576.

Pelas vizinhanas, na travessa da porta travessa da Madalena, que se
ligava  rua do fim do p da Costa, tinham tambem suas lojas Francisco
Fernandes e Bautista da Fonsequa.[10] L para a Porta do Mar, entre a
Mizericordia e a Fonte da Pregia,[11] nas tendas da Cidade que jaziam
nas costas do Terreiro do Trigo, vendia livros um tal Manoel Francisco,
lojista de medianos teres, cuja fazenda foi avaliada em 10$000 ris.

Por pouco mais abastado sera tido um Antonio Dias, com estabelecimento
na rua da Gibetaria,--15$000 ris de fazenda.--E nos mesmos casos Pero
Castanho, l para perto de Valverde, numa travessa que vinha de Paio de
Novaes para aquelle sitio, isto , por perto do Rocio.




III


Estes so os livreiros que encontrmos arrolados em 1565-1567 no _Livro
do Lanamento_ que nos tem guiado.

So _vinte_, isto , mais do dobro dos que Tito de Noronha contou em sua
j lembrada Memoria, referidos aos mesmos annos.

No poderemos, todavia, affirmar que o Joo Lopes (1588), da lista
daquelle auctor, seja o mesmo que figura nestas singelas notas. A
identidade no se nos afigura improvavel.

Do Christovo Lopes (1563), daquella lista, j dissemos o que temos por
presumivel. Quanto ao livreiro Antonio Curvete (1565), mencionado tambem
por Tito, no se nos deparou no longo exame feito ao curioso codice, sob
este particular ponto de vista. Isto no quere dizer que elle se no
ache entre os 15:000 nomes contidos no volumoso recenso. Bem poder,
porm, ter escapado, por isso que nem sempre as profisses dos fintados
lhes acompanham os nomes, ou achar-se-ha substituido por outro dos
arrolados.

Como quer que seja, um e outro do numero total dos livreiros, apontado
por Tito de Noronha e por ns, como estabelecidos em Lisba entre 1565 e
1567, est muito longe do que mencionou Christovo, onze annos
antes[12]--54. Este numero, na verdade, inconcebivel por si s, e sem
mais explicaes,  justificado pelo ignorado auctor da chamada
_Estatistica de Lisboa_, de 1552, que se guarda na Bibliotheca Nacional,
de modo asss plausivel, e que, demais, acerta muito satisfatoriamente a
nossa conta.

Diz, com effeito, o auctor da _Estatistica_:

Tem XX tendas de livreiros, e [na] maior parte delas i i j, i i i j
criados e sser as p^{as} que nellas trabalham huas per outras lx......
60 p^{as}.

Se em vez de Antonio Curvete, que nos falta, pode estar algum dos
diversos desconhecidos, de que damos os nomes, hypothese que no parece
improvavel, haveria nesta capital, de 1565 a 1567, o mesmo numero de
livreiros que foi contado pelo auctor da _Estatistica_, em 1552.

Adoptada, com effeito, a conta dos criados ou obreyros de livreiros
que os lojistas teriam a seu servio, calculada pelo mesmo auctor, ahi
teremos o numero de Christovo assaz justificado.

Ser a seguinte Noticia dedicada aos _Impressores_.




IV


Ao testemunho do curioso codice do Archivo Municipal, que temos seguido,
na famosa Lisba da segunda metade do XVI.^o seculo _seis_ individuos
exerciam a arte impressoria, como a denominou Valentim de Moravia, em
sua traduco do livro de Nicolau Veneto.

O primeiro dos seis imprimidores, segundo se lhes ento chamava, e
elles a si proprios se designavam, encontrados no alludido codice,  o
velho Joo Blavio de Agripina Colonia[13], cujas impresses, conforme a
tabella organisada por Tito de Noronha, em sua to curiosa quanto
instructiva monographia;--_A Imprensa Portugueza durante o seculo XVI_,
remontam a 1554.

, porm, de notar que nesta tabella, ou lista chronologica dos
impressores deste seculo, assigna-se  actividade de Joo Blavio os onze
annos, apenas, que comeam em 1554, e terminam em 1564.

Ora, o rl do _Livro do Lanamento_, onde apparece este impressor, foi
recebido pelos _sacadores_ (os encarregados da cobrana da
extraordinaria imposio) em 11 de maro de 1566, e por elles entregue,
com o producto da cobrana, em 17 de agosto, do mesmo anno.

V-se pois que a actividade de Joo Blavio se prolongou algum tanto mais
do que o indica a citada lista. O que fica para saber,  que genero de
trabalhos produziria este typographo durante o lapso de tempo em que se
averiga agora ter elle ainda conservado a sua typographia, e a data
precisa da sua desappario.[14]

Era pouco importante nesta epoca, segundo parece, a actividade officinal
de Joo Blavio. A moderada avaliao de 3$000 ris, que teve, o est
inculcando.

Achava-se o velho impressor estabelecido no Beco de Gaspar das Naus,
freguezia de Sam Giam, nas casas de um tal Bento Gonalves. Aquella
minguada arteria de Lisba tinha sua entrada na Calcetaria, entre a rua
dos Fornos, a L. e o beco da Ferraria, a O. Rematando-se, ao N., por uma
especie de cotovello, sem sahida, bifurcava-se na ligao com a rua dos
Fornos, a que se chamava beco do Loureiro. O plano Pombalino,
assentando sobre esta um tanto emmaranhada topographia, mostra-nos, como
pode ver-se na _Est. I_ da obra valedora do sr. Vieira da Silva, _As
Muralhas da Ribeira de Lisboa_, o Beco de Gaspar das Naus atravessado
transversalmente, de cima para baixo, na entrada da rua do Crucifixo,
tendo a sua abertura no quarteiro que fica entre a esquina P. da rua do
Crucifixo e a do N. da rua Nova do Almada, fronteira, por conseguinte, 
parede lateral esquerda da actual igreja da Conceio Nova.

O personagem que deu o nome a este beco, e provavelmente residiu nelle,
fra, a julgar pelo que allega o _Negro_, na _Pratica de oito
figuras_, do poeta Chiado, sujeito que empunhara no mercado a vara da
justia... policial.

Diz com effeito, Gama:

/*
No vou por esse caminho!
Fallae ao que vos pergunto,
Dizei, negrinho sandeu:
saibamos que mal vos fiz,
porque no me daes perdiz,
pois que m'a compraes do meu?
*/

Responde o Negro:

/*
Nunca elle mim acha...
Muito caro, nunca bem...
Mim d-le treze vintem
pr'o dzo; no quer d.
A regatra muito mo!
Mim dize qure vend?
Elle logo saconde...
medo _Gasapar da no
proqu'elle logo prende_.[15]
*/

Gaspar das Naus no  o unico a quem tenha sido applicado o cognome.
Houve por esta epoca um outro individuo, chamado Manoel Lopes, tambem
cognominado das Naus. Ainda no sabemos em que se occupasse.




V


Segue-se, na ordem da leitura, Marcos Borges, que nos apparece arrolado
como imprimidor obreyro, residindo em uma de tres vias pblicas,
enfeixadas pelos _lanadores_ da sobredita imposio num s
titulo:--_Rua de quebra q... com travessa de calca_ (cala) _frades e
Rua de pino vay_[16].

O rol onde figura Marcos Borges foi entregue aos _sacadores_ em 2 de
maio de 1566, sendo por elles restituido ao thesoureiro da imposio em
1 de agosto seguinte.

Ora, ao primeyro de janeiro de 1566 appareceu a pblico, impresso por
este typographo, o _Paradoxo_, de Joo Cointha, lendo-se no
frontispicio da obra, alm da sobredita data, mais a seguinte
indicao:--_Vede se na empressam detraz de nossa senhora da
Palma_.[17]

Se, pois, Marcos Borges j no 1.^o de janeiro de 1566 estava
estabelecido por sua conta, e nos d testemunho irrecusavel do facto na
obra que lhe foi, porventura, estreia, como  que elle nos apparece
classificado como imprimidor obreyro, em maio, deste mesmo anno? No
deviam os individuos que o classificaram conhecer bem a sua posio?

Por outro lado, a indicao um tanto vaga: detrs de nossa senhora da
Palma poderia at agora fazer suppr que Marcos Borges estava, com
effeito, estabelecido nalgumas casas situadas na parte posterior da
capella-mr da ermida daquella invocao, onde, de certeza, havia j
neste tempo casas para alugar, como as continuava havendo em 1755, e a
ellas se referiram os engenheiros encarregados das medies dos Bairros,
ordenadas no comeo do anno seguinte pelo ministro do rei D. Jos.[18]

Desde, porm, que Marcos Borges nos apparece residindo num sitio
differente do indicado na obra, de que ter sido o proprio editor, como
tal indicao nos auctorisa a crr, ainda que ambos os locaes fssem
convizinhos, o que parece curial  entender-se que o impressor do
_Paradoxo_, tendo, com effeito, a sua officina no sitio que a obra
indica, residiria no _Pino Vay_, viela ingreme, quasi fronteira 
parte posterior da ermida, e que laborava a escarpa, no alto da qual
passava a rua detraz de Santa Justa, correspondendo, salvo o actual
aspecto,  rua da Magdalena, na parte que vae da Betesga ao largo dos
Caldas. Vamos ver adiante que Antonio Gonalves, confrade, j agora
celebre, de Marcos Borges, morava numas casas de certa rua, e tinha
nella, e perto, em outras, a sua officina.

Mas, encosta acima, enlaava-se no _Pino vay_ a _travessa de quebra
q..._, que rasgando-se entre a _rua dos torneiros_ e a _Correaria_,
um tanto mais abaixo da abertura inferior do _Pino vay_, a formar com
esta viella, a meio da encosta, o enlace que fica apontado.

So poucos os contribuintes arrolados no grupo das tres vias pblicas em
questo, e tanto se pode suppr que Marcos Borges, sempre na hypothese
de ter a sua officina _atras de nossa senhora da Palma_, morasse no
_Pino vay_ como na travessa predita, ou na _rua de cala frades_.

A circumstancia, porm, de no mencionarem os lanadores pessoa alguma a
fintar na parte posterior da ermida da Palma, justamente no anno em que
este impressor se declarara, na obra que citmos, estabelecido nesse
sitio desde o 1.^o de janeiro, tenta-nos a ver em tal indicao um
_alibi_, por elle empregado, para remediar um inconveniente a que o
decoro devia attender. O que se nos afigura por mais certo,  que os
_sacadores_ encontraram, com effeito, Marcos Borges residindo na mesma
casa onde teria a sua officina, o que era regra, a bem dizer, geral, no
atrs da ermida de nossa senhora da Palma, mas na _travessa de quebra
costas_, uma das tres do grupo onde o seu nome apparece, entre outros, e
da qual se pode admitir, sem grande violencia, que ficasse fronteira,
mas do lado opposto da _Correaria_,  parte posterior daquella ermida.

Quanto  menos exacta qualificao que ao impressor foi attribuida pelos
_sacadores_, pode entender-se egualmente, ou que houve equivoco da parte
destes, ou que elles quizeram favorecer o recem-estabelecido
imprimidor, conservando-lhe a qualificao de obreyro, com o fim de
lhe minorar a importancia do escote. Marcos Borges, typographo
proprietario de officina, poderia,  verdade, ser avaliado em 3$000
ris, como o fra o seu confrade Joo Blavio, e pagaria 21 rs. de
escote, mas passando, por favor dos _sacadores_, por mro imprimidor
obreyro, alcanava o beneficio da menor contia, que eram 2$500 rs.,
correspondendo-lhe a contribuio de 17 rs. Era uma differena
apreciavel. Valia a pena acceitar o favor. Marcos Borges,
_encolhendo-se_, ganhava 4 ris, isto , defraudava S. Alteza em obra de
30 ris, de hoje.

Este impressor, ainda em 1567; isto , no anno seguinte quelle em que
se estabeleceu por sua conta, continuava a dar como sde da sua
typographia o mesmo sitio: _detrs de nossa senhora da Palma_. Assim
se l, com effeito, no fim da _Chronica do valoroso principe e
invencivel capito Jorge Castrioto_, de Francisco de Andrade. Era ento
j impressor delrey nosso senhor.

No continuou, porm, ahi. Do facto ficou testemunho no depoimento de
Pero Alberto, flamengo, seu obreiro, que a 5 de novembro de 1571
declarava seu mestre estabelecido no Arco dos Carangueijos, se no 
Arco do Caranguejo, simplesmente.[19]

A indicao  preciosa, porque nos mostra quem foi o successor da viuva
de Germo Galharde, da qual adiante nos occuparemos com tal qual
individuao.




VI


Ao imprimidor Marcos Borges seguem-se, no codice que estamos
examinando, os seus dois confrades Manoel Joo e Francisco Corra,
encontrados, este na freguezia de Santa Justa, aquelle, na de S.
Christovo.

 Manoel Joo o primeiro, e delle e da sua actividade industrial vamos
dar os breves respigos por ns colhidos nas duas interessantes e
eruditas monographias de Tito de Noronha--_A Imprensa Portugueza_, e
_Ordenaes do Reino_, ambas referidas ao seculo XVI.[20]

Manoel Joo exerceu a sua arte entre os annos de 1565 e 1578. Destes
quatorze annos, porm, os dois primeiros occupou-os o impressor em
Lisba, transferindo-se aps a Vizeu, onde trabalhou durante os
seguintes dz. Em 1576, provavelmente, Manoel Joo ter voltado a esta
capital, publicando nella, datados deste mesmo anno, os _Diesisiete
coloquios_, de Baltazar Collazos. De 1578 em diante, desapparece.

Dever ter sido limitada, e pouco sortida, a actividade industrial deste
impressor, accrescendo que as obras sahidas do seu prlo no se
distinguem por perfeitas. Para o facto concorria tambem o canado tipo
de que disps, e o papel em que imprimiu. A decadencia da Arte comeava
a accentuar-se.

Dos dois primeiros annos do estabelecimento de Manoel Joo em Lisba
conhece-se, impressa no anno de 1565, a 4.^a ed. das _Ordenaes do
Reino_, dada a lume, como as anteriores, por mandado rgio[21]. Esta
edio foi feita  custa do livreiro Francisco Fernandes, e ser o mesmo
que referimos no Cap. II ter encontrado estabelecido na _Travessa da
porta travessa da Madalena_; isto , por perto da actual calada do
Correio Velho.

No anno seguinte dava o nosso impressor a lume a segunda edio da
_Primeira Parte da Chronica dos Menores_, como lembrmos em uma das
notas do Cap. IV. A esta obra seguiu-se a _Orao na trasladao dos
ossos de Affonso de Albuquerque_, e depois os _Artigos das Cizas_,
edio geralmente desconhecida de nossos bibliographos, e de que Tito de
Noronha menciona tres exemplares; o da livraria de Lord Stuart, e os de
dois amadores do Porto[22].

Em Vizeu, onde Tito conjectura se estabelecera Manoel Joo, a convite do
bispo D. Jorge de Atayde, deu este impressor, em 1569, o _Compendio de
Confessores_, e no anno seguinte as _Regulae Cancellariae_, de Pio V.

Tal  a noticia abreviada da actividade officinal de Manoel Joo.
Cumpriria agora ver como se exprimiu Bastio de Lucena, o escrivo da
_voluntaria imposio_, graas  qual nos foi possivel ajuntar as poucas
noticias que constituem o assumpto de nossas singelas notas, ao lanar
no volumoso codice que estamos compulsando, o nome deste impressor entre
os fintados da freguezia de S. Christovo. Antes, porm, importa que o
benevolo leitor nos consinta um breve relance  topographia lisbonense,
da epoca a que pertence o interessante _Livro do Lanamento_ que temos
examinado. Ver-se-ha no ser sem motivo a digresso.




VII


Quem percorrer as to bem ordenadas listas da viao pblica parochial
lisbonense, impressas no _Summario_ de Christovo Rodrigues de Oliveira,
com as suas tres categorias de becos, ruas e travessas perfeitamente
distinctas, e os seus sessenta e dois Postos que nam sam ruas, onde o
auctor, ou os que taes listas organisaram, accommodam os sitios, os
adros das parochias, os arcos, as varandas, os terreiros, ficar de todo
illudido, se cuidar que tudo na vida administrativa de Lisba se passava
com regularidade to exemplar, em pleno seculo XVI, que todos os
habitantes da famosa cidade lhe conheciam as vias pblicas,
destrinando-as umas das outras, como hoje o fazemos, por suas exactas
denominaes e categorias, sem ser preciso designa-las por signaes, ou
auxiliar-se de referencias mais ou menos complicadas, para lhes
descreverem a marcha itineraria.

A prova de que tal regularidade no passou dos roles que os parochos
de Lisba ministraram ao guarda-roupa do Arcebispo, por ordem deste, e
Christovo fez imprimir aps as noticias que a dando das differentes
freguezias, est neste codice que temos manuseado, e de que vamos dando
noticia a nossos benignos leitores. No breve espao dos quinze annos que
medeiam entre a data que  costume attribuir  curiosa obra do solcito
famulo do prelado lisbonense,  o _Livro do Lanamento_, do Archivo
Municipal (1551-1565), um grande numero de vias pblicas de todas as
tres categorias se haviam aggregado s _quinhentas e vinte e uma_, de
que o _Summario_ pretende dar a conta, no em somma total, mas em sommas
parciaes, referidas a cada qual das tres categorias[23].

Estava no seu auge o facto que a _Miscellanea_ de Garcia de Resende
commemora;

/*
Lisboa vimos crescer
Em povos e em grandeza.
E muito se nobrecer
Em edificios, riqueza.
*/

Lisba desenvolvera-se a olhos vistos, e uma nova remodelao do
territorio parochial, diviso unica, de tal qual regularidade por ento
em vigor, e essa mesma mais para o ecclesiastico, do que para o civil,
estava imminente. Ora, desde o 1.^o de janeiro de 1560 que a freguezia
de Santa Catharina do Monte Sinay encetava, pelo funccionamento da sua
parochia, a srie de providencias, que o Cardeal Infante resolvera
promover, para instituir mais cinco freguezias na cidade, recortando-as
no territorio das vinte e quatro j existentes, segundo lembrmos no
comeo destas singelas Notas.

Pois bem: cinco annos depois de ter comeado a funccionar esta parochia,
ainda a grande maioria das vias pblicas que lhe sulcavam o territorio
careca de denominaes, ou os _lanadores_, freguezes nella, e que
haviam formado os roes da _voluntaria_ derrama, lh'os no conheciam.

A calada _do Congro_[24] ahi figura j, na verdade, substituindo se 
denominao bem mais pictoresca de que dispusera, de calada da _Boa
Vista_, no tempo em que, seguindo os roes de Christovo, a vemos
mencionada na freguezia de Nossa Senhora do Loreto, cujo territorio, j
no comeo da segunda metade do seculo XVI, alcanava at o Valle das
Chagas. Nascera igualmente a Rua do Conde, que em nossos dias
mandaram appelidar Travessa do Caldeira[25], a Bica do Bello, de
1551, apparece j em 1565 com a denominao com que ficou, de Rua da
Bica de Duarte Bello, Ferno Rodrigues de Almada d o seu appelido 
rua que ainda agora conserva tal nome, proximo  antiga Cruz de Pao,
desde 1885, Rua do Marechal Saldanha.

Em compensao, porm, os roes dos _sacadores_ falam-nos de 4 ruas que
vo das Chagas para Santa Catharina, assim como de 2 outras que vo
por detrs de Santa Catharina, uma para a Costa, outra para o Valle, e
destas seis no  em nenhuma maneira facil fixar a situao. Por outro
lado, se conjecturamos que a rua dereita [~q] vai p'la calada do
congro abaixo seja a actual rua do Sol, a rua da Cruz para Santa
Catharina a actual rua do Marechal Saldanha, a rua que vai da cruz da
esperana para as casas de Christovo de mello a actual rua dos
Mastros, e assim como estas, outras ruas ou travessas, apenas indicadas
por informaes, nem sempre estas, se se pretendesse fazer um estudo
comparativo local, seriam faceis de precisar.

Ora, consoante a taes exemplos, tirados, alis, do territorio parochial
de uma freguezia incipiente, muitos outros se offerecem neste codice,
dispersos por diversas freguezias, e at por algumas das mais antigas.

Mas no  s isto. Palpita-nos que certas vias pblicas das listas de
Christovo passaram a ser indicadas por differentes designaes, o que
se explicaria pela decadencia da respectiva determinante. Exemplos deste
facto ha-os, at bem mais recentes. A calada de Damio de Aguiar, do
seculo XVII, passou a ser denominada calada do Lavra (alis Lavre),
quando os Lopes de Lavre, do Concelho Ultramarino, vieram, pela
infallivel lei das renovaes, e consequentes substituies, a entrar na
posse do palacio e ermida que haviam pertencido quelle desembargador;
construco que frma a esquina esquerda da referida calada, sobre a
rua de S. Jos. Outra calada, a de Salvador Corra de S, trocou o nome
pelo de S. Joo Nepomuceno, quando os religiosos protegidos pela rainha
D. Maria Anna de Austria fundaram o seu hospicio, daquella invocao,
nas abas occidentaes do monte de Santa Catharina.

De outras vias pblicas do codice em exame se pode inferir que se haja
obliterado a significao do nome que as distinguia, visto como 
evidente que Bastio de Lucena, o escrivo desta derrama, lhes
desfigurou as denominaes, com a mesma inconsciencia com que deformou o
nome do velho Joo Blavio de Agripina Colonia. Uma viela, para exemplo;
uma viela que recordava o appelido de certo parente do arcebispo de
Genova, Agostinho Salvago, e que viera estabelecer-se em Lisba,
apparece-nos transformada por Lucena em "Beco da Salvaje, e assim
outras mais. Do mesmo modo que ha, em summa, no _Livro do Lanamento_
muitas vias pblicas no mencionadas no _Summario_ do guarda-roupa, ha
neste livro noticia de grande numero de outras, de que aquelle codice
no conservou memoria.

Torna-se, pois, a conciliao entre os roes do _Summario_, e a
nomenclatura da viao daquelle repositorio difficil, e no se consegue
que sia perfeita. A impossibilidade de identificao  manifesta.




VIII


Somos assim chegados ao ponto que nos levou  precedente digresso.
Onde, em que rua, travessa ou beco, apparece fintado, na freguezia de S.
Christovo, o imprimidor Manoel Joo?

O titulo desta freguezia l-se no alto da fol. 406, v.^o, do volumoso
codice, redigido nos seguintes textuaes termos:

_T.^o da freguezia De san Xpuo--Comea o primeiro rol No chan Dalcamin
pera a costa_[26].

Vae seguindo o recenseamento, e a fls. 407 l-se:

_Duas ruas [~q] comeo De san Xpuo pera san Loureno_.

No v.^o desta folha, e no alto della, assentou Bastio de Lucena o 8.^o
lanamento deste titulo. Diz:

It Manoel Joho Inprimidor em casas Do doutor Joo de bairos av.^{do}
[~e] seis mill rs. paguara rij rs[27]

Portanto, tudo quanto se colhe de similhante informao, sem nada
adiantar ao nosso proposito,  que este sitio soffreu, em epoca no
facil de determinar, ainda que no estejmos longe de fixa-la de 1756
para diante, consideravel alterao. Hoje, rua que comece de S.
Christovo para S. Loureno, apenas conhecemos todos _uma_; a rua das
Farinhas,  qual o auctor do _Summario_, ou quem para elle escreveu esta
parte do livro, chama Rua das Farinheiras. Poderia, porm, ter-se em
considerao que no terreno que fica entre a parochial de S. Christovo
e a garganta por onde se penetra na rua das Farinhas, e  denominado
rua de S. Christovo, haveria modo de existir nas eras remotas que nos
occupam, qualquer viela que, embebendo-se em outra similhante, dssem
ambas as duas ruas que comeam de S. Christovo para S. Loureno,
segundo o abreviado modo de exprimir-se dos lanadores da imposio. ,
pelo menos, o que resulta das medies do Tombo do _Bairro do Rocio_,
(1756), a fls. 121, onde se l: Largo da Igreja de S. Christovo--Corre
o seu comprimento N. S. Tem de comprimento desde a rua do Regedor at _
travessa que vai para a rua das Farinhas_, 214 p.; de largura pelo N. 35
p., e pelo S. 45.

Ora, a lista das vias pblicas, do _Summario_, que laboravam o
territorio parochial de S. Christovo comporta 9 ruas, 3 travessas, 1
adro, 2 terreiros, 1 beco e 1 arco.

De toda esta estatistica de viao, apenas uma rua, a do Crucifixo,
uma travessa, e os dois terreiros se no podem identificar com a actual
topographia da parochia[28]. E como naquelle tratado, a disposio das
Ruas, tal qual quem ordenou a lista das vias pblicas della as foi
escrevendo, nos mostra que se comeou do N. para o S. da freguezia, isto
 da Rua das Fontainhas, compartilhada pelas parochias de S. Loureno
e de Santa Justa, para a extrema opposta; para a Rua do cho dalcamim,
segue-se que a Rua do Crucifixo, por maior que seja o nosso desejo de
precisar qual das duas ruas que vo de S. Christovo para S. Loureno
era a que habitava, com a sua officina, o tipographo Manoel Joo, no
parece que possa ser a designada, visto como se apresenta na lista
parochial aps a Rua do Regedor, isto , do lado diametralmente
opposto  provavel situao daquellas duas ruas.

Assim pois, se a tal travessa que vai para a rua das Farinhas, do
Tombo Pombalino, no era, como, de facto, no parece ter sido, a rua do
Crucifixo, do _Summario_ de Christovo, ainda existente, e conhecida
por esta denominao em 1712, como se mostra na _Corografia_ de Carvalho
da Costa, e se no era, portanto, nella que Manoel Joo estava arrolado,
tudo que se pde concluir,  que o nosso impressor teve a sua officina
no territorio da freguezia de S. Christovo, e numa via pblica muito
proxima  sde da parochia, mas para o N. do territorio desta.

Em algum dos proximos capitulos veremos que a frma imperfeita como os
_lanadores_ organisaram os roes da derrama d motivo a iguaes
hesitaes e perplexidades que nos no deixam satisfeito, quanto ao
sitio em que teve a sua operosa officina tipographica o celebre Germo
Galharde, e onde vamos ainda encontrar a sua viuva.




IX


Como o seu confrade Manoel Joo, tambem Francisco Corra, seguindo as
noticias que deste impressor nos d Deslandes, em sua _Historia da
Typographia Portugueza_, exerceu a sua arte fra de Lisba.

Provavel obreiro de imprimidor de Germo Galharde, acaso foi convidado
para ir dirigir em Coimbra a officina do Estudo Real, estabelecida na
rua da Sophia, como seu presumivel mestre o fra igualmente, para ir
organisar a imprensa dos Cruzios, daquella cidade.

Em tal situao ali se demorou, com effeito, Francisco Corra desde o
anno de 1549, em que principia a apparecer, at 1555. Passando por este
tempo ao Porto, ali deu  estampa o compendio de arithmetica, de Bento
Fernandes[29]. Transferindo-se em seguida a Lisba, onde assentou prlos
at 1585, anno que parece ter sido o do seu fallecimento, ainda em 1580
imprimiu em Almeirim, de parceria com seu confrade Antonio Ribeiro,
segundo informaes de Tito de Noronha, _in A Imprensa Portugueza_, as
_Allegaes de direito_ por parte da Infanta D. Catharina, sobrinha do
Cardeal Infante.

Alm destas noticias, publca tambem Deslandes em sua predita obra o
Alv. de 12 de novembro de 1566, concedendo a Francisco Corra iseno de
direitos, at certa quantia, do papel que despachasse em cada anno, a
comear no de 1565. Pelo restante teor deste diploma se prova, outrosim,
que Francisco Corra foi arrendatario das officinas que, por morte de
Joo Blavio, ficaram em Lisboa e na India, em Ga, muito mais que
provavelmente, sendo-lhe concedidos os 40$000 ris que os herdeiros
daquelle impressor haviam alcanado se descontassem nos direitos do
papel que despachassem para o expediente das preditas duas officinas.

Taes so em breve resumo, e salvo a supposio de que Francisco Corra
fsse compositor na officina de Germo Galharde, que  nossa, as
noticias colhidas nas obras de Deslandes e de Tito de Noronha, acima
apontadas, cerca deste notavel tipographo, cujos trabalhos, alm de
numerosos, se avantajam, a testemunho do segundo daquelles dois
auctores, em sua to curiosa monographia das _Ordenaes do Reino_, em
nitidez e satisfactorio aspecto, aos do seu confrade Manoel Joo.


Ao percorrermos no _Livro do Lanamento_ o 3.^o rol da freguezia de
Santa Justa, ahi se nos deparou a Rua de Valverde, e nella, como
16.^o contribuinte:

Francisco corea [~e]presor [~e] casas de margaida de matos avaliado
[~e] seis mill rs paguara Rij rs.

O rol a que nos referimos teve comeo na rua que a do mosteiro de S.
Domingos para a Porta de Santo Anto. Comprehendia a rua do Chafariz do
Rocio para a Mancebia, a que a da estrebaria del-rei ao longo do muro
para a Porta de Santo Anto, a rua do beco do chafariz do Rocio, e
finalmente, a rua de Valverde, que laborou, provavelmente, parte da
actual Praa dos Restauradores, da banda do S., e vindo imbeber-se,
talvez, na rua de Mestre Gonalo, isto , no terreno da rua do Principe,
e por perto da actual calada do Duque.

Para o seguinte estudo, a viuva de Germo Galharde, a que acima
alludimos, e o glorioso impressor da primeira edio dos Lusiadas,
Antonio Gonalves.




X


Vamos folheando o volumoso recenseamento, onde colhemos as informaes
que temos transmitido a nossos benignos leitores, e achamo-nos agora em
face do 7.^o e ultimo rol da freguezia da Magdalena[30].

Comeam os sucintos apontamentos itinerarios dados neste rol aos
_sacadores_ encarregados da cobrana das _voluntarias_ fintas, pela:

_Rua Dos torneyros [~q] travessa para as pedras negras pela rua de
Ilusuarte Peris[31] ate a rua drt.^a da Costa_.

No ocorreu ao escrivo desta derrama, escrevendo para comparochianos,
conhecedores como aos seus dedos de todas as enredadas arterias da sua
freguezia, que alguns seculos depois, compatricios seus viriam que
tivessem interesse em perceber, mais do que as suas garatujas
pictorescas, as suas abreviadas, e at menos exactas indicaes do
territorio parochial a que se referiam!

Se tal, com effeito, se houvera dado, no s Bastio de Lucena no
estabeleceria, contra a exacta nomenclatura local, que a _rua_ dos
Torneiros atravessava para as Pedras Negras, vertendo assim uma confuso
de desnortear na compartilha parochial, mas no sacrificaria  extrema
conciso que adoptou a precisa clareza, para sabermos agora a que via
pblica, entre as comprehendidas na sua abreviada indicao, viria a
pertencer o 35.^o lanamento, dos 38 lanados sob o correspondente
enunciado, e que  o seguinte:

_It A molher de germo galharde [~e]primidor em casas suas avaliada
[~e] settenta mill rs paguar i i i j c l v rs_[32].

Com effeito, uma vez que se nos deparra aqui a viuva do celebre
impressor francs, que tanto realce deu  typographia lisbonense do
XVI.^o seculo, e to util foi s letras portuguesas destas afastadas
eras, bem natural fra que desejassemos precisar o sitio, a rua, a
travessa ou beco onde a digna matrona residisse. O mesmo seria que
ficarmos sabendo precisamente onde seu defuncto marido ter tido a sua
operosa officina.

A difficuldade, porm, mostra-se insuperavel, ainda quando reponhamos,
at, em seu logar a desfigurada topographia local, e se, posteriormente,
nenhum outro indicio nos no fizer suspeitar onde possa ter estado
estabelecida esta to interessante imprensa, teremos o desgosto de nos
contentarmos,  semelhana do que nos aconteceu, tratando de Manoel
Joo, com as vagas indicaes que ficam expressas.

Procurando formar ida da ordem que presidiu  elaborao dos roes desta
freguezia, conclumos que os lanadores adoptaram a orientao
topographico-descriptiva do sul para o norte, isto , das muralhas
marginaes da cidade para cima; Rua Nova dos Ferros, Porta d'Erva e
Porta da Ribeira, Carnaarias Velhas, Pelourinho, Misericordia,
Rua do Principe, Rua da Ferraria Velha, por detrs da Conceio,
Cristaleiras, Rua dos Fanqueiros, Rua dos Corrieiros de obra grossa
e delgada, &, &. Todos estes sitios, todas estas vias pblicas entram
nos seis anteriores roes, com outras que, por abreviar, se no
mencionam. Este 7.^o rol comprehende, portanto, a zona alta da
freguezia, e dentro delle observa-se disposio igual  que se adoptou
para os anteriores.

Se bem entendemos, pois, o breve apontamento de Bastio de Lucena, havia
na freguezia da Magdalena uma via pblica, uma viella, como tantas
outras deste tempo, que, partindo de qualquer ponto, por agora
indeterminado, atravessava, mas no directamente, para as Pedras Negras.
A travessia fazia-se com o auxilio da rua de Ilusuarte Peris. Portanto,
o que se queria indicar aos _sacadores_,  que, principiando _as suas
visitas_ pela tal via pblica, erradamente classificada e denominada
Rua dos Torneiros, e continuando-as pela rua de Ilusuarte Peris, que
se lhe seguia, fssem indo at alcanar a rua direita da Costa, nesse
tempo, como agora e sob a denominao de calada do Correio Velho,
limite lste da predita freguezia. Uma vez chegados quella rua, os
_sacadores_, conforme se deprehende da continuao da leitura deste 7.^o
rol, desc-la-am, entrariam na rua do Arco de Dona Tareja; isto ,
retrocederiam para Oeste, e desta rua continuariam o seu itinerario por
onde j nos no importa segui-los.

Est tudo muito bem, menos uma circumstancia importante. No houve em
Lisba, em tempo algum, nenhuma rua dos Torneiros, nem na freguezia da
Magdalena, nem em nenhuma outra freguezia da cidade. Existiu, sim, a
rua da Tornoaria, mas essa pertencia  freguezia de S. Nicolau.
Passava pela parte posterior do edificio parochial deste orago, e era,
por conseguinte, o mais septemtrional dos successivos tramos em que se
fraccionava a longa, e em parte alcantilada via pblica que ligava uma 
outra as duas sdes parochiaes.

Para se ir da Magdalena a S. Nicolau, haveria de percorrer-se a
Correaria, a Fancaria, a Tornoaria, e ainda quando se quizesse admittir
que os _lanadores_, e Bastio de Lucena com elles, haviam chamado rua
dos Torneiros  rua da Tornoaria, daqui se v que tal rua no podia ser
compartilhavel entre a freguezia de S. Nicolau e a da Magdalena, como o
no eram as suas duas parceiras, a Correaria e a Fancaria.

Temos, pois, de recorrer ao Summario, de Christovo Rodrigues de
Oliveira, para destramar a meada.

Em boa hora o fazemos, porque a via pblica que o solicito guarda-roupa
do arcebispo D. Fernando nos aponta como situada na freguezia da
Magdalena, em 1551,  a _travessa dos Torneiros_. Ora,  evidentemente
tal _travessa_ aquella a que se referem os lanadores, porque
partindo, c em baixo, da Tornoaria, em sentido transversal para L.,
galgava a barreira que separava o valle da Baixa das cumiadas que iam
terminar na Alcaova, e surdindo muito proximamente no local fronteiro 
actual Travessa das Pedras Negras, a soldar-se  Rua de Ilusuarte
Peris. Cumpre, no emtanto, advertir que o sitio que no seculo XVI.^o deu
origem  denominao Pedras Negras no era precisamente onde se
rasgam, pela planta Pombalina, a rua e a travessa d'esta denominao, e
que a rua de Ilusuarte Peris, ou desapparecera nos provaveis aspectos
diversos que o sitio apresentou entre os seculos XVI.^o e XVIII.^o, ou
se conservava ainda, acaso, s vesperas do terremoto de 1755, mas com
differente denominao; o que no seria de extranhar, como j
observmos. As Pedras Negras, como era o sitio a que deram o nome,
anteriormente ainda ao seculo XVI.^o, pde vr-se a configurao
provavel que tiveram em mais escuras eras, na planta que acompanha a
obra valedora do sr. Vieira da Silva:--As Muralhas da Ribeira de Lisboa.

A rua de Ilusuarte Peris  que na mencionada planta no apparece, e
mal se suppe onde possa ter sido[33]. A travessa dos Torneiros  o
Beco de Nossa Senhora da Conceio, da sobredita planta, muito mais
que provavelmente.




XI


Fixados como , j agora, possivel faz-lo, a muito perto de trezentos e
cincoenta annos de distancia, e com to escassos elementos
topographicos, estes indispensaveis pormenores, digamos agora o que se
sabe do activo industrial de quem fra molher a pessoa a quem se
referiu o lanamento que  assumpto ao nosso despretencioso estudo.


Germo Galharde, francs de nao, o que elle no deixou de recordar-nos
em algumas de suas assignaturas[34], foi, como anda sabido, o mais
operoso impressor que teve o XVI.^o seculo portugus. Estabelecido em
Lisba pelos primeiros annos delle, conhecem-se, executadas no espao de
mais de quarenta annos, e at 1560, data da sua morte, 70 edies
sahidas da sua officina, sem contar as leis avulsas, impressas, em
geral, numa folha apenas[35].

Quem poder dizer quantas mais obras Germo Galharde ter executado, de
que o seculo ultimo e o acual no lograram j ter
conhecimento?--Interrogao  esta que ter de ficar sem resposta.
Sabe-se apenas que da sua officina comearam a apparecer edies datadas
de 1519, e que um lapso de reviso, importante, levou alguns
bibliophilos a retro-fixar o comeo da operosa actividade do celebre
impressor no ultimo anno da primeira dcada do seculo que o viu
trabalhar; no de 1509.

Foi o caso que o _Missal_ da igreja de Evora, de que se guarda um bom
exemplar na Bibliotheca Nacional, apresenta como data de impresso este
predito anno. Notou-se o facto, e houve quem, no lhe occorrendo de
quantos lapsos anda tecida a historia da typographia, em geral, tirasse
delle irreflectido motivo para declarar Galharde estabelecido desde
aquelle supposto anno. O academico Silva Tullio, que tanto no caso
estava de desilludir os menos avisados, constituiu-se exactamente o
paladino d'elles, sustentando contra Tito de Noronha a hypothetica
possibilidade de ter o _Missal_ sahido das officinas de Galharde no anno
impugnado.

Rebateu Tito, a nosso ver humilde com raciocinios de pso, as razes que
Tullio bem escusra de ter produzido, visto como, se a verdade historica
bem pouco poderia ganhar com semelhante improvavel accrescimo 
actividade officinal do impressor francs, asss mal parados ficaram, em
troca, os crditos do prestante conservador, insistindo em sustentar a
mra presumpo que tudo se conjurava para invalidar[36].

Tito, tendo feito notar o isolamento em que a data de 1509, attribuida
quelle livro, ficava das obras por Galharde impressas em 1520, e quo
pouco provavel era que entre um e outro anno obra alguma, naquella
typographia impressa, viesse quebrar o largo periodo de onze annos de
inactividade officinal, lembrou que o _Missal Eborense_ poder ter sido
impresso em _1529_, tendo faltado na subscripo latina o vocabulo
_vigesimo_[37]. Esta probabilidade nada tem, com effeito, contra si
que a invalide, e um facto, porque assim o digmos hodierno, a vem
demonstrar plausivel:

Convidou o editor Fernandes Lopes a Innocencio Francisco da Silva para
dirigir a reimpresso do _Elucidario_, de Santa Rosa de Viterbo. Em 1865
sahiu, com effeito, a lume esta obra dividida em dois tomos, como a 1.^a
edio, imprimindo-se no 1.^o uma Advertencia preliminar do illustre
bibliographo, a qual elle datou do 1.^o de junho de 1865. Pois bem;...
na capa e no frontispicio de cada um dos dois tomos assignou-se a esta
reimpresso, por data, o anno de MCCCLXV! Este lapso, sendo to patente,
salta para logo aos olhos de quem manuzear a obra[38].

Continuemos agora a examinar quanto se nos offerea, do pouco
aproveitavel que nos tem sido possivel ajuntar, que se relacione com a
vida deste grande trabalhador typographo, que tanto illustrou a sua
arte, e tantos testemunhos nos deixou, apesar das muito mais que certas
lacunas da lista das suas impresses, da perfeio com que sustentou os
crditos da sua officina.




XII


Dos antecedentes do operoso impressor nada se conhece. Que terra de
Frana lhe fsse a terra natal; quando tenha vindo para Lisba, e se
para esta cidade veiu, acaso, contratado como _obreiro de imprimidor_
de algum de seus tres antecessores, Valentim de Moravia, Joo Pedro de
Cremona ou Hermann de Kempis, que entre ns ficou Armo de Campos,
hypotheses que nos no parecem descabidas, outras tantas interrogaes
so que teem de ficar sem resposta.

Por igual, destinadas esto ao mesmo resultado as que se referem ao modo
como o activo imprimidor constituiu familia. Germo Galharde casou
aqui, e tarde, ou veiu j casado para Lisba, o que no parece? Sua
mulher era estrangeira, ou nascera em Portugal? Que o velho typographo
deixou um filho, por ventura continuador da sua prole, eis o de que no
resta dvida. E que falleceu deixando-o ainda menor, tambem no  menos
certo. O livro que estamos examinando no-lo confirmar.

Suppondo que nascera em 1490, por exemplo, Germo Galharde poderia
contar vinte e tres annos, quando, ao que Tito de Noronha conjectura,
veiu a fallecer Valentim Fernandes[39]. E se tal data estivesse certa
pouco teriam sobrevivido ao Patriarcha da Imprensa em Portugal os seus
consocios Joo Pedro de Cremona e Armo de Campos, bombardeiro de
el-rei, successivamente desapparecidos, em 1514, o primeiro, em 1518 o
segundo.

Valentim Fernandes, porm, segundo adiante vai ver-se, ainda n'este
ltimo anno trabalhava, e se este, afinal, tem de ser considerado o
ltimo da sua vida, bem poder ter-se dado que Germo Galharde,
obreiro--quem sabe?--de qualquer d'estes seus tres antecessores, se
habilitasse com o material do celebre impressor da viuva de D. Joo II,
para comear a sua laborao de conta propria, logo no anno seguinte ao
do desapparecimento d'este. Em 1519, com effeito, parece ter-se Germo
Galharde estreiado com a primeira edio da _Arismetyca_, de Gaspar
Nicolas,[40] levando desde ento a vida cheia de laboriosa occupao at
os provaveis setenta annos, se exceptuarmos os dois que passou em
Coimbra, em Lisboa, e, porventura, na mesma casa.

Aonde era ella situada?

Vr-se-ha n'este estudo se  possivel responder, por presumpes, a tal
pergunta.




XIII


Chamou-se Anna Picaya a mulher do operoso impressor, e se no foi
portuguesa, que a no deixa parecer compatriota nossa o appelido,
arriscado ser attribuir-se-lhe esta ou aquella nacionalidade.
Confessemos, emtanto, que se um desengano d'esta ordem pudesse
admittir-se _por palpite_, inclinados temos sempre estado a que Anna
Picaya haja sido biscainha.

Casou Germo Galharde moo ainda? Esperou, pelo contrario, a idade da
experiencia, para dar-se ao matrimonio? No temos, como j ficou
observado, modo de responder desenganadamente a taes perguntas. Tudo que
pudmos conjecturar,  que o filho que deixou menor ter vindo ao mundo,
adiantado j seu pae em annos, se muito no erra a conta que lhe dmos,
ao vir busca-lo a Morte.

Esta circumstancia, comtudo, no se oppe a que j houvesse outros
filhos, e at poderia parecer que os houve, com effeito, se fsse
possivel interpretar um tanto latitudinariamente certas expresses de um
documento que no tarda a vir transcripto a este estudo.

No emtanto, e posto que a typographia da _Viuva de Germo Galharde_ se
sustentasse ainda durante alguns annos, depois do fallecimento do seu
celebre fundador, o seu material veiu a passar a novo proprietario, e
nada nos indica terem-se filhos maiores, se os havia, ou ter-se o menor
que ficou ao tempo do obito paterno, occupado, homem feito, na arte, que
o progenitor tanto illustrou.

Este appelido, a partir d'ento, mergulha no esquecimento, pelo menos
aqui, em Lisba; e apenas a meio do seculo XVII o nosso illustre
polygrapho D. Francisco Manoel se lembrra, escrevendo ao seu amigo
Azevedo, da lenda dos _Galhardos_ da Serra da Estrella, que alis
nenhuma relao tem com os de que aqui tratamos, para comparao da
brevidade com que fizera um seu livrinho. Esta carta, porm, indita
ficra, com a colleco a que pertence, at que um distincto cultor da
memoria de to infeliz quo abalisado epistolographo a trouxe a lume em
nossos dias[41].

Assim contina o esquecimento, sem interrupo, por esses tempos fra. A
meiados porm do XVII.^o seculo apparece-nos, de repente, um typographo
Galhardo. Diplomava-se com o titulo de _Impressor do sr. Cardeal
Patriarcha_; chamou-se Antonio Rodrigues Galhardo, e teve a sua casa,
com capella, horta e mais officinas, no Pateo a que a sua familia dava o
nome;--o _Pateo dos Galhardos_, a Santa Izabel[42]. Muito depois, (1837)
filhos seus, ligados sob a firma _Galhardo & Irmos_, imprimem na rua
da Procisso, n.^o 45, entre outros livros, a _Chronica de El-Rei D.
Sebastio, por Fr. Bernardo da Cruz, publicada por A. Herculano e o Dr.
A. C. Payva._

Antonio Rodrigues Galhardo  descendente do imprimidor francs Germo
Galharde? Quem, j agora, poder affirma-lo, ou quem estar habilitado
para nega-lo?

Emtanto, a coincidencia  para notar, e para notar fica sendo, tambem,
que esta familia Galhardo veiu a apparentar-se com Alexandre Herculano,
pelo casamento de um amigo de juventude do Grande Escriptor, e depois
seu camarada na emigrao, o fallecido general da arma de artilharia,
que foi, quando coronel, director da Escola do Exercito, Joaquim Antonio
Rodrigues Galhardo, com a irm do Auctor da Historia de Portugal.




XIV


Quando Germo Galharde falleceu, andava-se imprimindo na sua officina a
_quarta_ edio do _Reportorio dos Tempos em linguajem portugues_.

Este Repertorio, composto pelo saragoano Andr de Ly, fra vertido em
linguagem, com addies, por Valentim Fernandes, que dedicou a traduco
a Antonio Carneiro, secretario do rei D. Manoel.

Ora acontece--e n'este passo se patenteia quo arriscadas so
affirmativas peremptorias em especies to dubitativas--; acontece, amos
dizendo, que em _Documentos para a Historia da Typographia Portugueza_,
impressos em 1888, affirmou o to sabedor Deslandes no ser conhecido
exemplar algum da impresso d'este _Repertorio_ feita por Valentim
Fernandes, comquanto se deva ter por certo que a houvesse dado  estampa
em sua vida.

--Que veiu a dar-se ento?--Veiu a dar-se facto igual ao succedido com o
exemplar do _Testamento da Infanta D. Maria_, impresso em 1610, e que o
catalogo da Livraria Fernando Palha, ao descrever o exemplar que aquelle
bibliophilo possua declara _seul exemplaire connu d'une pice non
cite par les bibliographes_.

Succede, porm, que em 1907, percorrendo ns um Inventario de Codices
adquiridos pela Bibliotheca Nacional, publicado no _Boletim das
Bibliothecas e Archivos_, N.^o 1--3.^o anno, 1904, depara-se-nos a
meno de certo Codice da Coll. Vimieiro, em cujo milo vimos a
encontrar um exemplar do predito _Testamento_, da mesma edio de 1610!

Tal achado annulou, por conseguinte, o privilegio de _seul exemplaire
connu..._, attribuido pelo catalogo sobredito ao exemplar que
descreveu!

Ao diligente bio-bibliophilo Deslandes outro tanto acontecera. No lhe
fra dado conhecer a bibliotheca do curioso architecto Jos Maria
Nepomuceno, e eis que, fallecido este, divulga-se em 1897 o catalogo da
famosa livraria de que era possuidor intelligente. Ora, sob o N.^o 683,
ahi appareceu minuciosamente descripto um exemplar do _Reportorio dos
tempos_, que posto no traga indicado o logar da impresso, nem o anno,
se pde quasi affirmar ter sido composto em Lisba, e no anno de 1518,
por isso que as taboas (astronomicas) indicam comearem no presente
anno,--o predito.

E j agora, observaremos que, sendo este _Reportorio_, como no rosto
indica, trelladado e empremido por Val[~e]tym ferndes alemam, est
n'estes termos implicito o testemunho formal de que o celebre impressor,
contra o que julga Tito de Noronha, _in_ Ordenaes do Reino, ainda
cinco annos aps o de 1513 era vivo, e exercia a arte.


Por voltar a Germo Galharde, sabe-se que por A. de 17 de maro de 1539,
lhe foi outorgado privilegio de dz annos, para imprimir de novo o
_Reportorio_ de que se trata. Deslandes, porm, affirma, e d'esta vez
ainda no se apresentou facto que o contradiga, no conhecer, nem lhe
constar que outrem conhecesse, exemplar algum da impresso d'este livro,
tirada durante os dz annos do mencionado privilegio.

Declara, comtudo, em contraposio, _ter visto_ exemplares sahidos da
officina de Galharde em 1521 e 1528; edies estas que no andam notadas
por nossos bibliographos.

Por frma que, havendo j _tres_ edies conhecidas do _Reportorio dos
tempos_, bem parece que sja, por ora, capitulada _quarta_, como o
fizmos, a de que se est tratando. Isto, em obsequio s que se dizem
datadas de 1519, bem como  de 1557, citada por Barbosa, das quaes, at
agora, no se achou porque se confirme a existencia.




XV


Foi Anna Picaya que terminou a impresso do _Reportorio_, objecto do
anterior capitulo.

Na Nota[43] _infra_ trasladmos a competente subscripo.

A seguir a este livro, vem em 1561, editado pelo opulento Joo de
Borgonha, o to fallado elogio da Siga, de Mestre Andr de Resende; em
1563, nova edio do precioso _Reportorio_, especie de _Diario
Ecclesiastico_, dos Oratorianos, sem o qual nossos avs do XVIII.^o
seculo no podiam passar. Finalmente, em 1564, d ainda a Viuva de
Germo Galharde o _Exemplo pera bien bivir_, de Ferno Peres de Gusmo,
obra acabada a 21 de maro do predito anno[44].

D'esta data em diante, at 5 de setembro de 1898, nada mais se soube que
se relacionasse com a officina typographica da viuva Galharde. Naquelle
dia, porm, publica o dr. Sousa Viterbo, como notmos no fcho do Cap.
V. e correspondente nota, destes _Estudos_, resumido e commentado, o
depoimento, por denncia feita na Inquisio em 5 de novembro de 1571,
do flamengo Pero Alberto, obreiro de Marcos Borges.[45] Resulta de tal
depoimento o ficarem desde ento confirmados dois factos; mais proximo
um, mais remoto o outro. Pelo primeiro, corrobora-se a existencia da
typographia da viuva Galharde em 1563. Este no  essencial. Que a
celebre typographia funccionava ainda 1564 j ns sabiamos, e o leitor
comnosco. O que tem valr  o outro facto; o que revela a transferencia
da imprensa de Marcos Borges de _detrs de nossa Senhora da Palma_
para o Arco do Carangueijo. A indicao considermo-la preciosa, porque
nos indicava quem fra o successor da viuva Galharde; isto , porque
vinha concorrer, ainda que de modo indirecto, para nos fortalecer na
presumpo de que era no Arco do Carangueijo, com effeito, onde vamos
dentro em pouco encontrar Anna Picaya, com seu filho menor, que Germo
Galharde fundra a officina por elle mantida durante 41 annos.


Que ter, porm, succedido entre 21 de maro de 1564, data do ultimo
livro, conhecido, impresso pela Viuva Galharde, e 1571, anno em que
Marcos Borges nos apparece estabelecido, segundo todas as
probabilidades, na casa que ella occupara?

Tudo que  possivel responder, resume-se no seguinte:

Qualquer que haja sido o motivo, o velho estabelecimento typographico
pouco mais ter produzido, depois de 1564, sob a gerencia da viuva de
Germo Galharde, e se mais alguma obra veiu a lume, aps a de Ferno
Peres de Gusmo, perdeu-se, como quasi de certeza outras se perderam,
impressas pelo fundador da casa.[46]

Certo  que a meiados de 1566, e contra o que estabeleceu Tito de
Noronha, j Antonio Gonalves, o nomeado impressor da 1.^a ed. dos
Lusiadas, trabalhava por sua conta, muito distante do Arco do
Carangueijo, com material que pertencra  officina de Galharde.

Com effeito, do exame comparativo de algumas das obras impressas em uma
e outra das duas officinas resulta absoluta certeza que Antonio
Gonalves utilisou frontispicios e letras iniciaes de phantasia que
pertenceram quelle. J Tito de Noronha deixra notado o facto, em uma
de suas to copiosas quanto instructivas monographias.

Por nossa parte, temos por bem possivel que o 4.^o de dez folhas n. n.,
onde se acha impresso o _Auto das Regateiras_, de Antonio Ribeiro, o
_Chiado_, e que no tendo segundo Innocencio narra, logar, data, nem
nome de impressor, apresenta, comtudo, na portada letras que parece
quererem designar _Germo Galharde_, haja sado da officina de Antonio
Gonalves, applicando-lhe este alguma gravura de frontispicio que haja
feito parte do material daquelle impressor.

No temos, nesta occasio, o vagar preciso para examinar este folheto,
que se acha na Bibliotheca Nacional, e pertenceu  livraria de D.
Francisco de Mello Manoel da Camara. Acaso do exame resultaria alguma
cousa de mais positivo. Seja, porm, como fr, uma prova de decidir  a
propria composio do frontispicio dos Lusiadas, impressos por Antonio
Gonalves em 1572. As peas que o compem pertenceram ao material de
Germo Galharde. Esta assero comprova-se, pondo em conspecto o
frontispicio da edio _princeps_ dos Lusiadas (a do pelicano com o
collo para a esquerda do leitor, bem entendido), e a do _Summario_, de
Christovo Rodrigues de Oliveira, sahido a lume procedente da officina
de Galharde, depois de 1551, com toda a certeza, e talvez em 1554.

J em 1570 Antonio Gonalves aproveitra este mesmo frontispicio no
_Reportorio dos tempos_, que lhe coube imprimir tambem, edio que a
Innocencio parece ter escapado, mas de que ha um exemplar nos Reservados
da Bibliotheca Nacional. Este sempre lembrado impressor ter comeado
por ser imprimidor-obreiro do velho typographo francs, sendo bem
possivel que se haja conservado na casa, aps a morte de seu mestre.
Resolvida Anna Picaya a fechar a officina, ou, porventura, fallecida,
ter o seu official, disposto a estabelecer-se, uma vez que a casa
acabava, comprado os aprestos desta. Tudo parece conciliar-se para
acreditar tal supposio.

Mais difficil  o precisar desde quando Marcos Borges ter passado a
occupar as casas da viuva, e o motivo que lhe facilitaria o
estabelecer-se nellas. No parece, com effeito, que as duas
operaes--venda do material a um, e cedencia da casa a outro, se
cedencia foi, hajam resltado da mesma causa;--o desfazer da velha
officina. Lembremo-nos que em 1567, isto , um anno aps o
estabelecer-se Antonio Gonalves, como provaremos, ainda Marcos Borges
imprimia a _Chronica de Jorge Castrioto_ no mesmo sitio onde comera a
sua laborao; _atrs de nossa senhora da Palma_. Presumivel ser,
pois, que Anna Picaya se haja conservado, com seu filho, nas suas casas,
aps ter acabado com a officina, vindo, porventura, a fallecer depois de
1568, adquirindo--quem sabe?--Marcos Borges a propriedade, e
estabelecendo-se nella.

Como quere que sja, vamos ver agora como se chegou a presumir que a
typographia de que temos tratado haja sido no Arco do Caranguejo.




XVI


Fallecido Germo Galharde, procedeu-se a inventario, sendo Anna Picaya
nomeada titor de seu filho Antonio. Concorriam mais filhos, j
maiores,  herana? Eis o de que no ha certeza. Das quatro obras unicas
de que nos restam exemplares, sahidas da officina do extincto, aps a
morte deste, tres dizem-se impressas _em casa da viuva molher que foi
de Germo Galharde_. No titulo e subscripo da quarta, porm, segunda
na ordem chronologica da impresso, l-se:

_Lvdovicae Sigaeae_ | _Tvmvlvs_ |  _L. Andrea Resendio_ | _Auctore_ |
 _Apvd haeredes Germani_ | _Galiardi. An._ | _MDLXI_ |  _Olyssippone_
|  _Venalis apud Iohannem de Borgo_ | _Regium Bibliopolam, in vico
nouo_.[47]

Ora, esta excepo, _haeredes_, que alis no resolve a dvida, por
isso que realisado o casamento de Galharde  moda do reino,
co-herdeira com o filho menor era a viuva, meieira na casa, parece-nos
ter sido muito de proposito empregada naquelle impresso por motivo que a
occasio tornava perfeitamente plausivel. Corria por esse tempo o
inventario seus termos, e habilitavam se  herana do chefe da familia a
sua viuva e o filho menor. A expresso _haeredes_, posta na subscripo
do _Elogio_, de Mestre Andr de Resende, em 1561, era, portanto, de todo
o ponto bem cabida; exprimia a situao de ambos, como inventariantes e
como industriaes. Por isso se empregou.

Quando os saccadores, em desempenho do seu cargo, _convidaram_ a viuva
impressora a entregar-lhes a importancia do escote que lhe coubera na
_voluntaria_ imposio, (entre 15 de fevereiro e 31 de outubro de 1566)
pagou ella, sem repugnar, os 455 rs. em que foi fintada. Especie de
contribuio extraordinaria de maneio, a que s escapavam os
privilegiados;--familiares do Santo Officio, servidores de S. A. e quem
quer que tivesse armas e cavallo, e jogasse lana de dezoito palmos
para cima[48],--era para todos os mais a commum sorte; no havia
fugir-lhe.

Mas, fechara-se, emfim, o inventario, julgara-se a partilha, e
liquidou-se o que vinha a tocar ao menor; a sua legitima. Importava em
cincoenta e nove mil, quinhentos e vinte e dois ris. Havia mais
orphos em semelhantes circumstancias. A proviso de S. A.
beneficiava-os, para os effeitos da _voluntaria_ derrama, com o desconto
do tero do valor total apurado, para que sobre o remanescente
recahisse o talho. Anna Picaya, tutora de seu filho, teria de pagar por
elle duzentos e oitenta ris. Reclamou. Agora, no era a obrigao do
estabelecimento; era a legitima do orpho, despiedada,--provaria
at--illegalmente desfalcada. O menor Antonio Galharde era filho de um
homem que durante mais de quarenta annos tinha prestado assignalados
servios s letras do pas que adoptara por patria. Os seus prlos no
tinham gemido s em servio de quantos praticavam a nobre arte de
escrever, seno que tinham tambem trabalhado para a cora. Antonio
Galharde era filho de um official impressor da casa real[49]; a
iseno de que seu pae, se vivo fra, gosaria, porque no mandava S. A.
que aproveitasse ao filho menor?

Que S. A., pois, inclinasse por um pouco a magestade.  triste viuva,
sobrecarregada com os encargos da tutella e ao filho orpho
devia-se-lhes contemplao. Ambos receberiam merc no favoravel despacho
com que S. A. se servisse attende-los.

E se isto assim se passou, pode affirmar-se que a titor do menor
Antonio Galharde venceu! No traslado da certido do orphanologico que
baixara aos encarregados da cobrana, e foi lanado a fl.^s 685 e segg.,
do _Livro do Lanamento_, riscou-se a designao do escote, escripta na
margem esquerda, averbando-se na direita a significativa cota, constante
do proprio documento remissor que segue:


ORFFAOS

T^o Dos orfos que Joho Do sal escrivo Delles Mandou a esta cassa do
lanam.^{to} per sua sua certido
...........................................................................
...........................................................................

It Ant.^o filho de Jermo Galharde Imprimidor tem de ligitima cinquota
e noue mill e quinhtos e vinte e dous rs abatido o terco paguara
doztos e oytenta rs e sua titor[50] Ana Picaya sua may m^{or} ao arquo
do cangreijo

A margem direita do livro est escripto: abatido p.^{la} proviso de S.
A. no vay a Rol


Parece, pois, poder concluir-se do teor desta certido que a casa que
Germo Galharde possuia, e onde residia e tinha a sua officina
typographica, era _ao Arco do Carangueijo_, isto , no extremo N. da rua
deste nome, para alm da actual rua das Pedras Negras, partindo em linha
obliqua do comeo da travessa do Almada. O chanfro existente no cunhal
posterior do predio que faz face ao Largo da Magdalena, do lado de L., e
que todos podem notar,  quanto resta do Arco de Dona Thereza, de onde
ascendia para o N. a Rua do Arco do Carangueijo.

Passaremos agora a tratar de Antonio Gonalves, e findaremos.




XVII


Affirmmos no cap. XV.^o d'estes _Estudos_ que a meiados de 1566 j
Antonio Gonalves, o nomeado impressor da 1.^a ed. dos Lusiadas,
trabalhava por sua conta, muito distante do Arco do Caranguejo.

Vamos procurar dizer onde era.

Preliminarmente, porm, preciso se torna lembrar que na segunda metade
do seculo XVI, correspondente ao anno supra mencionado, Lisba, sob o
ponto de vista da sua diviso ecclesiastica, a unica por ento
estabelecida, achava-se, de um modo geral, dividida em tres grandes
zonas; a oriental, a central e a septentrional. Confrangidas em torno
dos pendores da primitiva cidade, e descendo para a vertente sul que
lhes corresponde, todas as parochias de limitado territorio,
successivamente fundadas durante os quatro seculos anteriores. Na
extrema esquerda, imminente ao Tejo, a de Santo Estevo,
excepcionando-se do acanhado territorio de todas as mais, pela tira
enorme que a alongava at Enxobregas[51]. Ao centro, S. Nicolau e Santas
Justa e Rufina, soffregas de territorio, dominando tudo, abrangendo
tudo, reservando apenas cada uma d'ellas para si as eminencias
correspondentes  orientao das respectivas sdes. A primeira,
alastrando-se por boa parte do valle central da cidade, e trepando para
o Bairro do Almirante, o Carmo e circumvisinhanas, bracejava, a
oeste, para os ferragiaes atinentes s muralhas, dando a mo s suas
duas convisinhas dos Martyres e do Loreto. A freguezia de Santa Justa,
mais extensa ainda do que a de S. Nicolau, dominando, ao septemtrio, o
resto da cha que aquella lhe deixava, investia pelo povoado em fra at
 Areia Gorda, por um lado, at Arroios, pelo outro, galgava o monte de
Sant'Anna, laborava as cumiadas que a aproximavam da Alcaova, mal
permittindo, suzerana desdenhosa, como a sua possante companheira, que
algumas pequenas parochias circumstantes affirmassem a desvaliosa
existencia.

Eis porque se l no Livro do Lanamento que temos manuseado, a fls.
539, v.^o, o seguinte titulo:

_Comea o quatorzeno Rol Da freguezia De Santa Justa: Na Rua das Casas
de Manoel a.^o_ (Affonso) _at ao postiguo De Santo Andr_.

Estamos, pois, junto ao, de nossos dias, chamado Arco de Santo Andr,
que acaba de ser derribado, e que a Diviso Parochial do Patriarcha D.
Fernando de Sousa e Silva, de 1780, mandou considerar, por dentro e por
fra, no territorio da freguezia daquella invocao constituindo em 1566
extremas de N. E. da parochia de Santa Justa.

Por escusado temos affirmar que nas listas da viao parochial,
estampadas no Summario de Christovo Rodrigues d'Oliveira, organisadas
em 1551, ou pouco depois,[52] no se encontra semelhante denominao de
rua, se tal modo de indicar uma via pblica pode ser classificado
denominao. , com effeito, evidente que o redactor d'esta especie de
matriz, conteda no Livro do Lanamento em exame, sabia bem quem era o
individuo a quem chamou Manoel Affonso, seu contemporaneo ou no. Por
nossa parte estamos persuadidos que Bastio de Lucena grandemente se
equivocou, atribuindo o baptismal Manoel a um individuo que se chamou
Estevo, pois que esse  que teve casas na rua de que se trata, tendo
ambos o mesmo sobrenome. Manoel Affonso, que foi um dos sacadores deste
Quatorzeno Rol, era proprietario, sim, mas no Beco do Poo do Ceitil.
Tinha ahi uma _atafana_[53] e n'ella residia. Da coincidencia de
sobrenomes ter, porventura, nascido o equivoco.

Como quer que seja, o designar semelhante indicao a rua onde deviam
comear as operaes da cobrana, apresenta-se, tanto para o lanador
das fintas como para os sacadores d'ellas, facto natural, correntio. A
via pblica de que se tracta poderia ter outra qualquer denominao, que
para uns e outros esta que lhe foi attribuida bastou.

E bastou tambem para ns.

De facto, se esta cobrana devia comear n'uma rua que ia at o postigo
de Santo Andr, que importa que lanador e sacadores lhe chamassem, ou
verdadeira ou equivocadamente, Rua das casas de Manoel Affonso, se
dvida no pode haver que tal via pblica outra no , seno o troo
mais ou menos modificado, no material e no aspecto topographico, da
actual Costa do Castello que vae do baluarte de S. Loureno ao agora j
derribado Arco de Santo Andr?

Aquelle baluarte, entreposto nos lanos do norte da _crca velha_ da
primitiva Lisboa, foi aproveitado pelos constructores da crca de D.
Fernando, para lhe apoiarem no paramento o arco do postigo que tomou
aquella denominao, tambem conhecido por Postigo da Rosa, depois da
fundao do mosteiro da rua das Farinhas.[54] Qualquer de nossos
benevolos leitores pode ver ainda agora os vestigios das nervuras do
arco embebidas no vetusto panno do baluarte, assim como, do lado
opposto, os restos desfigurados do cubello onde o mesmo arco ia
assentar. Tudo isto foi arrasado no ultimo anno do seculo XVIII.

Do postigo de S. Loureno, a _crca nova_ descia a escarpa que vinha
confundir-se no labiryntho de vielas que demoravam, como ainda agora,
entre o vetusto edificio do chamado Colleginho e a Mouraria. Era-lhes
canal de communicao com a rua de Manoel Affonso a Rua do Poo do
Ceitil, entalada entre a muralha nova e os muros da crca da Casa de
Santo Anto, a que depois se chamou o Velho para o distinguir da
nova casa dos jesuitas, actual Hospital de S. Jos. Esta Rua do Poo do
Ceitil, desde muito desapparecida, mas de que a carta topographica da
Commisso Geodesica, dada a lume em 1875, ainda nos quere parecer que
marca os vestigios, constituiu a cabeceira do Trezeno rol da freguezia
de Santa Justa.

Conclue-se daqui pois que os arroladores continuavam a adoptar a marcha
ascencional, como em nosso anterior estudo vimos, por isso que,
explorada a zona de que aquella rua era o comeo, passaram a encabear o
14.^o Rol pela via publica immediata.




XVIII


Alm destas razes de congruencia, confirmando ser, com effeito, a Rua
das casas de Manoel Affonso o troo da atual Costa do Castello que
ficou indicado, outros testemunhos positivos existem que nos asseguram a
identidade da rua do seculo XVI com a via publica do seculo XX.

No podemos dispensar-nos de os apresentar, por muito que tal resoluo
possa parecer extranha ao nosso objecto. Ver-se-ha que o no .

Por Alv. datado de Evora, a 8 de junho de 1573, foi commettida ao
Licenceado Luiz Loureno a organisao do tombo das propriedades
foreiras  Camara desta cidade. De tal diligencia se conservam os
respectivos Livros no Archivo Municipal. Examinando o segundo destes
Livros, que tem seu comeo na Rua do Arco do Rosio, da banda da praa
da palha, na freguezia de Santa Justa, averigua-se que de 1547 a 1565
havia a Cidade effectuado dez aforamentos na rua que vai da porta de
Santo Andr para o postigo de Sam Loureno, que por outro nome se chama
Villa Quente[55].

Confrontado este titulo com o que Bastio de Lucena escreveu no Livro
que estamos estudando, acha-se que a situao da via pblica do Tombo da
Cidade  de todo o ponto a mesma que se l naquelle Livro, salvo a
orientao, que diametralmente diverge, visto que o juiz do Tombo partiu
do postigo de Santo Andr para o de S. Loureno, e Bastio de Lucena fez
o contrario, para o que, segundo acabamos de ver, teve uma excellente
razo de ordem.

Ora, que tanto uma como outra das duas descripes se accomodam sem
obice algum  topographia actual, no resta dvida, pois que o caminho
de nossos dias municipalmente chamado Costa do Castello, comeando na
sua extrema oriental no fim da rua do Milagre de Santo Antonio, passa,
ao inflectir para o N., rente ao panno de muralha do baluarte de S.
Loureno, e contina at terminar junto do agora derruido Arco de Santo
Andr.

Se o leitor paciente o seguir comnosco, encontrar,  sua direita, antes
da rampa que termina a Costa e atinente a um lano de muralha que
sustenta um pequeno quintal, uma porta, tendo o n.^o de policia 92 A,
dando accsso a extenso escadorio, que torneja, l no alto,  direita, e
segue em varios e apertados lanos at encontrar,  esquerda, a
famigerada _Porta do Moniz_, aquella porta do Castello, origem da lenda
que Herculano pulverisou.[56] No Tombo do Licenceado Luiz Loureno, as
escadas alludidas so a Rua que vai da rua direyta para o Postigo do
Moniz. As casas que ladeavam a entrada de tal Rua foram levantadas em
chos pertencentes  Cidade.

As da banda do Postigo de S. Loureno, na frente do muro do quintal
acima alludido, e vinham a ser as derradeiras casinhas quando querem
voltar da dita rua pelo caminho que vai ao Postigo do Moniz, possuia-as
um casal, Antonio Fernandes e sua mulher Barbara Gonalves, parda. As
da banda do Postigo de Santo Andr pertenciam a Estevo Affonso,
porteiro. E eis porque desta circumstancia nos veiu a tentao de achar
que Bastio de Lucena se equivocou, atribuindo a Manoel Affonso as casas
deste Estevo. Se o porteiro foi dos primeiros edificadores que teve
este troo da Costa do Castello (1547),  bem provavel que o seu nome
servisse de conhecena para a _sua_ rua, ento quando era este individuo
o segundo de quantos foreiros a Cidade teve n'aquelle sitio, e aquelle o
modo de distinguir as vias publicas lisbonenses umas das outras.

Alem dos emphiteutas da Camara acima mencionados, outros havia que
figuram em ambos os documentos que temos citado. Assim, a Cidade tinha
aforado ao dr. Affonso Figueira, desembargador da Casa do Civel e
Ouvidor do crime, em dois annos diversos, 1555 e 1557, tres chos, sobre
os quaes este magistrado levantara casas, e um quarto que elle reservara
para seu quintal, e que o era ao tempo do Tombo que vamos seguindo. A
loja de uma das casas estava em 1566 ocupada pelo tecelo Joo
Francisquo, conservando-se senhorio, o magistrado sobredito. Este ahi
mesmo residiria, mas a toga excepcionou-o da obrigao do escote, e por
isso s naquella qualidade apparece no rol da derrama. Do mesmo modo
aforara a Cidade, em 1542 e 1547, dois outros chos perto dos
antecedentes, a uma Guiomar Dias. Esta, precedendo a competente licena,
fez venda, em 1561, de uma das casas que n'elles edificara a Ambrosio
Luis, feitor da imposio dos vinhos.

Ora, tanto o magistrado Affonso Figueira como o funccionario fiscal
apparecem em sua devida altura no Rol de Bastio de Lucena, isto , so
mencionados como proprietarios das respectivas casas, indo do Postigo de
Santo Andr para o baluarte de S. Loureno, sendo a concordancia
perfeita entre os dois documentos, por isso que umas das casas do dr.
Affonso Figueira so no Tombo da Cidade, as primeiras, indo do Arco de
Santo Andr, partindo pelo N. E. com as de Ambrosio Luis e com outras de
outro aforamento, realisado por aquelle magistrado dois annos
depois.[57]

Absolutamente certos, pois, de que dizer Rua das Casas de Manoel
Affonso at o Postigo de Santo Andr, e Rua que vai da Porta de Santo
Andr para o Postigo de Sam Loureno  referir-se a uma mesma via
pblica, e que tal referencia corresponde ao troo actual da Costa do
Castello, que vai do Baluarte de S. Loureno at o desembocar da mesma
Costa no alto da calada de Santo Andr, pedimos ao leitor benigno nos
perdoe a longa e porventura enfadonha digresso topographica, na
considerao de ser necessaria a nosso empenho:--o precisar, sem especie
nenhuma de dvida, onde foi que teve a sua officina typographica o j
agora to nomeado Antonio Gonalves, imprimidor da notavel edio
_princeps_ do poema Os Lusiadas, do Grande Epico Luis de Cames, das
duas que trazem a data de 1572, a que apresenta o _Pelicano_
frontispicial com o collo voltado para a esquerda do leitor.




XIX


A 17 de setembro de 1566, Manoel Affonso, atafaneiro, morador ao Poo do
Ceitil e Jeronymo Gonalves, serralheiro, morador na rua dos
Cavalleiros, escolhidos para _sacadores_ do quatorzeno rol da
freguezia de Santa Justa, receberam nos Paos do concelho desta mui
nobre, sempre leal cidade de Lisboa, onde se tratava de dar execuo ao
Regimento da cobrana do _voluntario_ imposto a que nos temos referido,
as competentes copias do predito Rol, e trataram de avial-as.

Deviam comear, como vimos, da extrema superior da Rua do Poo do
Ceitil, que desembocava, segundo dissemos, proximo do Baluarte de S.
Loureno, pela parte posterior do Postigo da _Cerca nova_, sendo a
primeira do trezeno Rol.

Percorrendo toda a rua at o Postigo de Santo Andr, voltavam os dois
_sacadores_ para a calada desta denominao, internavam-se na Rua da
Amendoeira, davam volta  travessa desta rua, que l vimos ainda hoje, e
sahindo pela rua das Tendas, que parece no logrra ainda um qualquer
nome, vinham  dos Cavalleiros, findando-lhes a tarefa no Beco de Thom
Correa; um beco sem sahida, de nossos dias chamado _Beco do Forno_,
primeiro  esquerda naquella rua, indo da Mouraria, e que tem l, no
sabemos porque bullas, advertencia de ser _logradouro particular_(!).

Acompanhemos os honrados exactores na sua perigrinao pela rua que a
do Baluarte de Sam Loureno ao Postigo de Santo Andr.
Despedir-mo-nos-hemos ahi d'elles. O que deste Postigo por diante
haveriam de fazer no nos interessa. Depois veremos, por simples
curiosidade, qual foi o importe da sua cobrana na area que lhes fra
designada.

Por agora, attentemos um momento na feio da discutida via publica
lisbonense, como ella parece ter sido no 2.^o semestre do anno de 1566.

Devia apresentar, ao menos por partes, mais largura do que hoje vemos
ter, posto que no se avantajasse grandemente, neste particular, s
convisinhas. Muito mais desafogada era ella, por certo, do que  hoje.

Ao longo da sua margem direita, indo para Santo Andr, e at
alcanar-lhe o Postigo, 21 propriedades, se a tal classificao poderiam
aspirar as modestas casinhas que se iam encostando  barbac do
Castello, tendo na sua frente uma larga perspectiva panoramica, de
surprehendente effeito. Da esquerda, a ondulada ribanceira, por onde,
ainda 35 annos antes, se espreguiava a miseranda Villa Quente, at ir
topar com a crca do Colleginho. L quasi ao comear o forte declive
que, tal qual hoje, terminava a rua, o postigo aberto na muralha por
onde se comeava a subir para o do Moniz. Diante d'elle, atravessada no
caminho, a cruz de pao, demarcatoria nos titulos do Tombo municipal. Por
ahi perto, talvez, sempre da esquerda, algum pequeno grupo de casinhas,
restos da subvertida povoao. Aps, os declives sobre os quaes se
levantou, no seculo seguinte, o palacete que assenta no espigo da
calada de Santo Andr.

Isto, quanto  topographia local.

Vejamos agora quanto respeita s construces, e, porfim, aos que as
habitavam.

As 21 casas da margem direita, que a rua contava pertenciam a outros
tantos proprietarios. Destes, 12 habitavam nas proprias casas, ou ss,
ou tendo inquilinos. De todos os 21, o senhorio mais importante, era o
clerigo Francisco Dias. O seu predio--algumas barraquitas,
provavelmente--alojava 9 inquilinos, entre os quaes, 2 cegos. De
considerao, na ordem social, Joanne Fernandes, moo da camara da
Infanta D. Isabel, tendo na loja por inquilino um sapateiro remendo.
Joanne Fernandes morava nas proprias casas de que era dono, e foram-lhe
avaliadas em 30$000 ris. Pegado ao postigo de Santo Andr, no esquea
o nosso conhecido magistrado Affonso Figueira, e confrontando com elle,
o Ambrosio Luiz, que superintendia na imposio dos vinhos. Algures, ali
perto, um Joanes, cantor de el-rei, que nem por ser tal, se esquivou ao
escote. Fecham a lista trs senhoras do appelido Viegas; Filippa,
Antonia e Anna.--Tres irmas?--Que sabemos ns? Os predios das duas
primeiras, avaliados em 50$000 ris cada um, obrigaram-nas a 350 ris de
contribuio. As casas de Anna Viegas,--coisa parecida,  mais que
certo--com as barracas do Padre Dias, foram computadas no dobro; em
100$000 ris, e por isso teve de pagar 700 ris.

O predio devia valer a somma em que foi avaliado. Alem da senhoria,
habitavam n'elle mais 6 inquilinos; 3 vares e 3 femeas, como se diz em
estatistica de populao. Entre as femeas, duas eram viuvas; dos vares,
um fallecera ao tempo de chegarem l os _sacadores_, outro abalara para
parte incerta. O terceiro era typographo;--chamava-se Antonio Gonalves,
e tinha aqui a sua officina. Elle e Maria Luiz, sua mulher, moravam mais
abaixo, para o lado de Santo Andr, no predio do pintor Garcia
Fernandes.




XX


Estava, pois, Antonio Gonalves estabelecido j em setembro de 1566,
isto , dois annos mais cedo, do que o que lhe supps Tito de Noronha,
na tabella com que enriqueceu a sua to valiosa monographia _A Imprensa
Portugueza durante o seculo XVI_.

 evidente que o auctor se governou, para a inscripo da data 1568,
pela data do primeiro livro que se conhece, sahido dos prlos deste
impressor;--as obras poeticas de Cadaval Gravio. (Pag. 82). O facto,
porm, corrobora o asserto j por ns enunciado nestas Notas; convem a
saber: que hemos de convencer-nos, todos os que perlustramos estas
materias, que, assim como a nenhum habitante da Terra ser jmais
permittido ver a outra face do globo lunar, assim nos est vedado, e aos
que depois de ns vierem, o descortinar quantas obras, e quaes assumptos
vieram a lume, s no seculo XVI que seja, em Lisboa, que para sempre de
ns e dos porvindouros ficaro ignorados.

 provavel que Antonio Gonalves continuasse a residir na Costa do
Castello, e ahi mantivesse egualmente a sua officina, at passar a
melhor vida. Nestas afastadas eras, o _inquilinato_ ainda tinha mui
fracas as azas. Voejava pouco, e com pouco se contentava. Ahi onde se
constituia familia, ahi onde se ganhava a vida, ahi se criavam affectos;
ahi se lanavam raizes. Na mesma parochia, onde marido e mulher uma vez
se desobrigavam, at o ultimo dia da vida se ficavam desobrigando.
N'ella recebiam a agua lustral do baptismo, n'ella se casavam, n'ella
continuavam a prole. Depois, no cho sagrado que todos os fieis pisavam,
vindo adorar a Deus, tinham todos, quantas vezes de gerao em
gerao!--o proprio e final encerro.

Pela nota com que fechamos, emfim, estes singellos apontamentos, que um
acaso nos permittiu redigir, se ver desde quando e at quando se
conhecem impresses sahidas da officina de Antonio Gonalves, e quaes as
obras que se sabe terem sido objecto d'ellas.

No esquea referir que a officina de Antonio Gonalves foi avaliada em
5$000 ris, pagando o futuro impressor dos Lusiadas o escote de 35 ris
para as necessidades da cora.

A 26 de abril de 1567 deram os honrados _sacadores_ do Quatorzeno Rol
da Freguezia de Santa Justa por finda a sua tarefa, entregando, com a
nota de 239 addies cobradas, ao Thesoureiro da Cidade, Andr Luiz,
recebedor do dinheiro deste Lanamento, a quantia de 26$476 ris, em que
ellas importaram, jurando aos Santos Evangelhos terem procedido como
homens de bem.

Eis a Nota das impresses conhecidas, sahidas dos prlos de Antonio
Gonalves, redigida por simples apontamentos, por se no ter prestado a
occasio a uma minuciosa e integra descripo bibliographica das que
ser ainda possivel ver.

     1568--_Pythographia e Brachyologia_--Poemas publicados por Cadaval
     Gravio, segundo Tito de Noronha, in _A Primeira Edio dos
     Lusiadas_, pag. 82.

     1569--_Constituies Extravagantes do Arcebispado de Lisboa_ (3.^a
     ed.)--aos 7 dias do mes de Fevereiro. Mencionadas por Innocencio,
     _Diccion_, Tom. II, 105.

      --_Leis extravagantes_ collegidas e relatadas por mandado do
     muito alto e muito poderoso rey D. Sebastiam, nosso senhor, por
     Duarte Nunes do Liam.--Innoc. II, 210.

     1570--_Repertorio dos Tempos_. Visto por ns na Sala dos
     _Reservados_ da Bibliotheca Nacional--B--11. Tem o frontispicio
     dois annos aps empregado pelo mesmo impressor _in_ Lusiadas, de
     Luiz de Cames. Material que pertenceu a Germo Galharde.

     1571--_De Rebus Emmanuelis_, do Bispo D. Jeronymo Osorio. Cit. por
     Innocencio--Letra J. pag. 272.

     1572--Os Lusiadas--por Luiz de Cames. Frontispicio que pertenceu a
     Germo Galharde--(_Pelicano tendo o pescoo voltado para a esquerda
     do leitor_).

     1572--_Primeira Parte do Compendio da Chronica da Ordem... do Monte
     do Carmo_, por Fr. Simo Coelho. Deve cotejar-se a noticia de
     Innocencio com a descripo impressa no _Catalogo_ n.^o 7 da
     Livraria de Jos dos Santos & Irmo.

     1573--_Commentario do crco de Goa e Chaul_, &--Ha um exemplar na
     Livraria da Torre do Tombo.

     1574--_Successo do Segundo Crco de Diu_, de Jeronymo
     Crte-Real.--Ha um exemplar entre os _Reservados_ da Bibliotheca
     Nacional, mas no chegmos a v-lo, por falta de occasio.

      --_Regras que ensinam a maneira de escrever a orthographia
     portuguesa_, por Pedro de Magalhes de Gandavo. Informaes de
     Innocencio, pois se no conhece exemplar algum.

     1576--_Historia da provincia de Sancta Cruz_, &, pelo mesmo auctor
     supra-citado.  util ler a informao de Innocencio, cerca deste
     rarissimo livro.

Por muito satisfeito nos daremos, que esta _Noticia_ logre alcanar o
agrado de nossos consocios, mais certos leitores que ella poder ter.
Por sua especial bondade nos relevaro elles, de certo, as deficiencias
que se nella notarem, antes filhas da mingua de recursos, do que da
falta de boa vontade em alcanar o impossivel;--d-las completas.


          Julho, 1913.

                                    Gomes de Brito.




ADDENDA


Aos cinquo dias do mes de novembro de mil e qujnhentos setenta e hum
annos em Lisboa nos estaos na casa do despacho da Santa Inquisiam
estando hi os senhores jnquisidores perante elles pareceo Pero Alberto,
flamengo de naam, natural de Envres de jdade que dise ser de vimte e
dous pera vimte e tres annos e dise que hee jmpremidor e trabalha na
jmpres de Marcos Borjes ao Arco de Cramgejo e pera em todo dizer
verdade lhe deu juramento dos Santos Evangelhos e prometeu de a dizer e
denunciando dise que elle vinha a este Santo Officio pera desencarregar
sua consciencia e dizer o que sabja o qual hee que avera oito annos que
elle partio desta cidade pera Arrochella com hum Joo de Leam, frances
lyurejro o qual lhe disseram em Castella que estava nesta cidade e que
fora ja preso pollo Santo Officio e jsto de preso lhe diseram aquj em
Lisboa e tambem ffoj com elles hum cornelio flamengo de naam, naturall
de Olanda que tambem hee jmprimidor e trabalhava en casa da viuva de
Germam Galhardo e asj foj com elles hum frances por nome Pierres
d'Alltabel casado nesta cidade com hua criada ou paremta de Njcolao
Botardo que viuja na rua noua e vende papel e tambem era jmpresor ajnda
que o nam usaua muito os quaes todos quatro hiam determjnados pera
jmpremjr huas horas de Nosa Senhora em portugues e o Joo de Leam fazia
o gasto e o Pierres e elle confesante e outro hiam por obrejros e
chegando Arrochella por lhe nam quererem dar licena pera as jmprjmjr as
no jmprimjram e jmprimjram em lugar das oras ha gramatica de Joannes
Espauterio e dizendo elle denunciante ao Cornelio em hum domjnguo se
jriam ouvir mjssa e ouvindo jsto Joo de Leam perguntou ao Cornelio que
era o que elle denunciante dezja e o Cornelio lhe respondeo que elle
denunciante querja jr ouvjr mjssa ao que respondeo o dito Joo de Leam
dizendo que senam podia ouvir mjssa na Arrochella porem queriam a
pregaam e dizendo jsto antes de jamtar s oito ou noue horas o dito
Joam de Leam os leuou todos tres a hua casa grande onde estaua muita
gente e muitos banquuos e comearo a camtar por huns libros que tinham
nas mos e dezio Joam de Leam e Cornelio que aquillo que cantavam eram
Salmos mas elle denunciante nam entendeo a linguoa e despois se pos hum
homem em hua cadejra alta a ler por hum liuro em frances espao de hua
hora e o que leo elle denunciante nam entendeo e acabado de ler se
sajram todos da dita casa e se foram a jamtar e dahj a tres ou quatro
dias elle denunciante, dejxou a dita companhia na Arrochella e se foj
pera Leam de Frana, perguntado que gente era aquela que estaua na casa
da Arrochella onde elle denunciante foj com ho dito Joam de Leam e
Cornelio e Pierres ouvjr cantar os salmos, disse que eram lutheranos,
perguntado que doutrjna era a que se lia na dita casa ou se lho diseram,
dise que Joam de Leam lhe disera que aquela era doutrjna e lej de
Christo e toda aquela gente se chamavam ugunotes, perguntado se era
aquella doutrjna que aly se jnsinaua a gente a jgreja catholica Romana
disse que aquella doutrjna nam era da jgreja Romana porque nem a casa
onde se lia era jgreja se nam hua casa sem santos como cavalaryza,
perguntado se allgua pesoa o presuadio ou lhe dise que crese aquella
doutrjna que alj ensinav, dise que nam, perguntado com quem entrara na
dita casa e onde estiveram sentados dise que com Joam de Leam e Cornelio
e o Pierres e todos quatro se sentaram juntos em hum banquo e estiueram
todos asj atee o cabo da predica que se sajram perguntado se sabe que
allgua pesoa aprouaua a dita doutrjna que se lia na dita casa disse que
soomente Joam de Leam lhe disse que aquella doutrjna era muito boa e lej
de Christo e que os papistas chamavam aquella gente ugunotes e o mesmo
lhe dise Pierres d'Alltabel perguntado quntas vezes foram a dita casa
onde se lia a dita doutrjna dise que hua soo vez foj la com os que dito
tem, perguntado se vira jr allgua pesoa aos ditos ajuntamentos majs
vezes, dise que nam, que os companhejros nam sabe se tornaram laa majs
vezes porque elle se partio como dito tem pera Leam de Frana e dispois
destar seis ou sete meses em Leam de Frana se tornou a Espanha onde foj
preso pollo Santo Officio de Toledo e saio reconciliado com habito que
lhe tiraram loguo no cadafalso e lhe deram em pena que estivesse alj em
Toledo hun anno o qual esteue e despois pedio licena pera jr trabalhar
a Salamanqua e outras partes e lhe diser que podia andar por toda
Espanha e porem que se nam embarcasse pera outro reyno sem sua licena e
que ho principall intento que o trouxe a esta casa ffoj por lhe parecer
que se podia saber nella que elle foj, estando na Arrochella aquela casa
com ho dito Joam de Leam e os companhejros ouvir a doutrjna dos
lutheranos por quoto hum Alexandre Lopez christo novo e outros que a
ese tempo la estavam lhe diseram que elle denunciante fora ouvir a dita
doutrjna e que se vem dasemto pera trabalhar aquj em seu officio e que
ja isto confesou em Toledo com ho majs hall nam dise e do costume dise
estava bem com todos e lhe ffoj mandado ter segredo no caso e elle o
prometeo sob carguo do dito juramento e por o promottor fiscal requerer
a elles senhores inquisidores que por ser o dito denunciante estrangeiro
e se poder absentar pera lugar nam certo lhe reteficasemos em fforma
elles senhores mandaram chamar os muito reverendos padres frej Belchior
de Sam Mjguel e frej Estevam Caveira, ambos da ordem do bem aventurado
Sam Domingos e pregadores perante os quaes despois de tomarem juramento
de ter segredo em forma o dito denunciante disse que o dito contheudo em
esta sua denunciaam que eu notario lhe li toda de verbo ad verbum e
lida e por elle entendida disse que asj o disera e estava escripto na
verdade e afirma e ratefica e de nouo torna a dizer e asjnou com os
ditos senhores inquisidores e os ditos padres que estiveram presentes
por honestas e religiosas pesoas e eu Joam Velho notario appostolico o
sprevi, diz no riscado Symam de Saa Pereira e declarou sendo perguntado
que na dita casa onde estava o dito ajuntamento de gente segundo seu
parecer, Pierres tinha hum liuro na mam e que todos os ditos seus
companhejros a saber Joam de Leam e Pierres e Cornelio cantavam com ha
majs gente os ditos Sallmos em frances que elle denunciante nam entendia
e asynou com elles Senhores padres e eu Joam Velho notario appostolico o
sprevi (aa.) _Jorge Gonsallvez Ribeiro_--_Pedro Alberto_--_Simo de Saa
Pereira_--_Frej Belchior de So Miguel_--_Frej Estevo Caveira_.

_Livro de Denuncias do Santo Officio_ (n.^o 106).




Notas:

[1] O _Livro do Lanamento e Servio que a Cidade de Lisboa fez a El-Rei
Nosso Senhor_, de que dmos abreviada noticia no jornal _Novidades_, de
9 de junho de 1897, tendo comeado em 15 de abril de 1565, e terminado
em 6 de setembro de 1567 as operaes da cobrana, de que o alludido
_Livro_  muito curioso registo.

[2] _T.^o da fr. Da Madalena--Rua Nova dos feros Danbas as bandas_
f.^o 44, V.

[3] Joo de Borgonha era proprietario de umas casas na rua da
Gibetaria, que tinham 5 inquilinos. Tinha outras casas na rua do
Terreiro da Portagem, onde eram seus inquilinos um Pedro de Sousa,
ourives de ouro, e um Joo Fernandes, mercador, recem-chegado do Peru.

Os outros dois inquilinos, dos 4 que o predio tinha, no so de
importancia.

Finalmente, este abastado livreiro-editor ainda possuia umas tendas
nas costas do Terreiro do Trigo.

[4] s vezes, tambem no eram de todo bem succedidos em suas um tanto
arriscadas especulaes; testemunha, Alonso de Leon, que, em 1575, foi
denunciado  Inquisio por um tal Raphael Perestrello, porque entre os
livros de que era mercador, em Lisba, vendia alguns, impressos em
Flandres ou em Frana, _e falavam contra o officio divino e contra a
missa_.

_Arch. Histor. Portug._ fasc. n.^{os} 75 e 76, pag. 153.

[5] It Migel darenas liureiro seu obreiro......... avaliado [~e] cinquo
mil rs... (fol. 45 do cit. codice).

cerca deste Miguel de Arenas e de seu parceiro Joo de Molina, assim
como de Joo de Borgonha, e outros livreiros e impressores de que esta
Noticia se occupa, leem-se com fructo os artigos que lhes respeitem _in
Docum. para a Hist. da Typogr. Portug. &_, de Venancio Deslandes,
Lisboa, Imp. Nac., 1888.

[6] A _Recopilaam_ tivera, segundo as primordiaes informaes de
Barbosa Machado, posteriormente ampliadas por Innocencio, duas edies;
uma, de Coimbra, por Antonio de Maris, 1569, outra, de Lisba, por
Marcos Borges, 158O. Nem de uma, nem de outra apparece, desde muito,
exemplar algum.

De uma terceira edio,--aquella a que o texto se refere--apenas existia
um exemplar na copiosa livraria do convento de S. Francisco da Cidade.
Delle se serviu Alexandre das Neves Portugal, para ajuntar  2.^a ed.
das _Advertencias dos meios que os particulares podem usar para
preservar-se da peste, &_, por aquelle naturalista redigidas, e mandadas
publicar pela Academia, em 1797 (?)

Exhausta, com effeito, esta 1.^a ed., voltou a douta corporao a fazer
reimprimir 2.^a, em 1801, ajuntando-lhe, porm, agora, mas com rosto e
paginao especial, o opusculo dos dois medicos sevilhanos, o qual na
1.^a apenas fra objecto de simples referencia, impressa no Prologo. O
formato das duas edies das _Advertencias_  de 12.^o

Ficou, pois, a _Recopilaam_ em 4.^a ed., copiada da de 1598, conforme
se v na folha do rosto.

[7] Parece ser esta a 3.^a edio, havendo entre esta e a de Ferrara,
1554, uma de Evora, 1557-58. Nas edies de Ferrara, e de Colonia
chama-se  novella: _Hystoria de Menina e Moa_. Veja-se no pref. de
_Menina e Moa_, ed. do Porto, 1891, a Nota ^1 de pag. LXXVIII, do punho
do nosso consocio, sr. D. Jos Pessanha. Innocencio no mencionou a ed.
de Ferrara, por onde entende ser 2.^a esta de Colonia.

[8] _A Imprensa Portugueza no Seculo XVI_, cap. 4.^o--Livreiros. No
Archivo da Camara desta capital ha uma carta de venda, em que interessa
a corporao dos livreiros da Irmandade de Santa Catharina, datada de 11
de maio de 1557, e na qual Salvador Martel assigna como testemunha de
certas diligencias. Vid. _Elem. para a Hist. do Mun. de Lisboa_, Tom.
II, 584, nota da pag. anter.

[9] _T.^o da freguezia da See_, fol. 9.

[10] A rua da Costa, da relao de Christovo, na freguezia da
Magdalena. Nesta freguezia d a mesma relao Duas travessas que no
tem nome. Uma destas poder ser aquella onde estavam estabelecidos os
dois livreiros.

[11] Como se v por este exemplo e o outro supra, Bastio de Lucena,
escrivo deste recenceamento, obrigava a syllaba gi a soar como gui,
o que no  peregrino entre a gente menos letrada deste seculo.

A Fonte da Preguia ficava alm da Porta do Mar, para oeste das casas
de Affonso de Albuquerque que tem as pontas de diamantes, e logo a
seguir a outras que pertenciam  Cidade, segundo o que se l no _L.^o
1.^o do Tombo das propriedades foreiras  Camara_, codice do Archivo
Municipal.

Sobre a fonte erguiam-se umas casas, onde, na occasio deste arrolamento
(1565), morava um tal Francisco d'Arruda, de quem, infelizmente, Bastio
de Lucena no mencionou a occupao.

[12] Temos a opinio de que o _Summario_ no sahiu a lume antes de 1554,
embora se haja inferido das expresses de seu antes compilador, do que
auctor, a data de 1551.

[13]  foroso confessar que Bastio de Lucena, o escrivo deste
recenseamento, teria feito, se de tal se lhe quizesse suppr o
proposito, quanto houvera sido preciso para negar  posteridade a
existencia do velho Johanes Blavius, to mal affirmada nas folhas
amarelladas do codice, onde lhe foi desfigurado o nome.

O respectivo lanamento diz, com effeito, e em verdade, o seguinte:

It cladio colon Inprimidor em cassas de bento giz av^{do} [~e] tres
mill rs paguara xxj rs

Ora, no s no houve nenhum impressor estabelecido, deste tempo, que se
chamasse Claudio, querendo ver a falta de um u no nome proprio escrito
por Lucena, nem o imprimidor arrolado era simples obreyro; isto ,
official typographo, para ns desconhecido, porque, nesse caso, o
escrivo do recenseamento o declararia tal, como o fizera a respeito de
Miguel de Arenas, e o fez, referindo-se a Marcos Borges, segundo adiante
veremos.

O presumivel, pois, ser que Bastio de Lucena haja desfigurado o nome
de Joo Blavio, reunindo em dois inintelligiveis vocabulos o appelido do
impressor, e a indicao da sua terra natal.

[14] De certeza, temos que a _Primeira Parte da Chronica dos Menores_,
de Fr. Marcos de Lisboa, que Joo Blavio imprimira em 1557, editada por
Joo de Borgonha, foi reimpressa por Manoel Joo, em 1566. Pareceria
curial que o impressor da 1.^a edio, estando ainda vivo, e
estabelecido, como o vemos pelo texto, fosse o encarregado da
reimpresso, tanto mais que foi o mesmo Joo Blavio que em 1562
imprimiu, por conta daquelle opulento editor, a _Segunda Parte_ da
indicada _Chronica_.

Pelo numero de obras, de que ha noticia terem existido, sem que
chegassem at ns, se pde fazer ida de quantas se tero perdido, em
edies que se no repetiram, e no conheceremos jamais.

No anda liquido qual fsse a 1.^a ed. do _Palmeirim_, em linguagem
portugusa, sendo certo que, se o conselheiro Macedo teve a que dizia
ser 3.^a ed., impressa em 1564, outras duas anteriores houvera j, que
assim como esta, se no conhecem.

Tampouco se conhece a 1.^a ed. da _Aulegraphia_, de Jorge Ferreira de
Vasconcellos, deduzindo-se apenas pelo titulo da de 1561 dever ser esta
a 2.^a, pelo menos.

Da _Comedia Ulysipo_, do mesmo Jorge Ferreira, tambem se no conhece a
1.^a ed., muito anterior, por certo,  que seu genro D. Antonio de
Noronha emprehendeu em 1619. Quanto aos _Triumphos de Sagramor_, do
mesmo Ferreira, resta saber se as conjecturas de Innocencio, cerca da
existencia desta obra prevalecero, ou no.

Enfim, uma prova, ainda que indirecta, de que se imprimiram no seculo
XVI^o. obras, de que nenhuma noticia resta,  que ha, applicados a
outras obras conhecidas, frontispicios que decerto no foram feitos para
ellas, seno para outras, em que pela primeira vez appareceriam, sem se
saber quaes fossem, e quem hajam sido seus autores.

[15] Obras do Poeta Chiado, colligidas, &, por Alberto Pimentel.

[16] _T^o Da freguesia De San Nicolo_, fol. 176.

It Marcos Borjes Inprimidor obreyro em cassas da molher do doutor ant^o
medis/Bracal paguara x b j i rs

[17] Eis o texto completo do rosto desta obra:

_Paradoxo ou sentena philosophica contra a opinio do vulgo: Que a
natureza no fez o homem seno a industria. Dirigido ao muy alto &
inuictissimo Rey de Portugal dom Sebastio Primeyr_ (sic) _deste nome.
Por Jo Cointha Senhor des Boulez Fidalgo frances... Agora nouamente,
feyto & impresso nesta cidade de Lixboa em casa de Marcos Borges
empressor del Rey nosso senhor. Ao primeyr_ (sic) _de Janeyro de 1566.
Vede se na empresso detras de nossa senhora da Palma_.

Em 29 quartos de papel, sem numerao. Innocencio descreve o exemplar
deste raro opusculo pertencente a Figanire.

[18] Arcos por traz da Ermida da Palma. Lado de L. 4 propriedades;
lado do S. outras 4. _Tombo do Bairro do Rocio, fls. 156 e 156 v.^o_

Como simples esclarecimento, que facilite o ajuisar da situao desta
ermida, diremos que ficava por muito proximo do pequeno largo ainda
agora conhecido por largo dos Torneiros, rasgando-se na rua dos
Fanqueiros, na extrema L. da rua de S. Nicolau.

[19] _A Imprensa em Portugal no seculo XVI_, artigo de Sousa Viterbo
_in Diario de Noticias_, de 5 de setembro de 1898.

[20] O segundo destes valiosos estudos foi dado a lume na _Archeologia
Artistica_, 1.^o anno, vol. I, fasc. II, publicada pelo sr. Joaquim de
Vasconcellos--Porto, 1873.

[21] Manoel Joo rubricou os fchos do 1.^o e do 2.^o Livros desta
compilao, imprimindo Manoel, empregando, comtudo, o u nos tres
ultimos. Notemos que Tito de Noronha  tambem um de nossos diversos
auctores modernos que seguem o exemplo dos que, nomeadamente no seculo
XVII.^o, adoptaram o o na graphia do nome proprio Manoel,
distinguindo-o assim, e crmos que bem, do seu igual castelhano.

Francisco Manoel, Bocage, que adoptou para distinctivo academico o
anagrama do seu baptismal: _Elmano_, e j bem proximo a ns o estadista
Manoel da Silva Passos, ortographaram com o o seu nome proprio. A
mesma pratica se observa entre as familias nobres que usam deste nome
proprio, por appellido ou sobre-nome.

[22] Uma anterior edio deste _Regimento_, datada de 1542, sahira dos
prlos de Germo Galharde. Innocencio cita-a na letra A (Artigos), e
Tito igualmente se lhe refere na monographia _Ordenaes do Reino_, pag.
82.

[23] O pobre do guarda-roupa, improvisado pregoeiro das grandezas de
Lisba, no attendendo a mais nada, sommou os roles das vias pblicas
das 23 freguezias que os tiveram (porque S. Martinho no teve role), e
achou o total das 521, das tres categorias, que pormenorisou quasi no
final do livro, sem contar as 2 caladas e alguns adros que elle, ou
outrem, fez entrar na especial dos 62 Postos, a que no texto se fez
referencia.

No attentou, porm, o diligente chronista lisbonense na _compartilha
parochial_, e sommando, sem mais exame, as 23 relaes de vias pblicas
que os priores e curas da cidade lhe facilitaram, por ordem do
Arcebispo, no deu porque 38 destas, obedecendo quelle sistema, se
apresentam _80 vezes_ repetidas por 2 e 3 freguezias, o que reduziu, por
conseguinte, a 479 o numero verdadeiro das vias pblicas constantes do
_Summario_.

Deve porm advertir-se que na Lisba do tempo deste livro havia j muito
antigas vias pblicas que, por qualquer circumstancia, nelle no
figuram. Daremos para exemplo, por ter adquirido a particular
notoriedade que lhe vem de figurar no _Monge de Cister_, a celebre rua
de D. Mafalda, que os lanadores de 1565 arrolaram, com suas travessas
e hospital (o dos Palmeiros), na freguezia da Madanela.

[24] J deixmos explicado como o vocabulo congro traduz, neste caso,
um acentuado barbarismo. Ao vulgo,  mais que certo, escapou
naturalmente o termo letrado combro, de que poucos estariam, neste
tempo; como ainda agora, no caso de alcanar o significado. A ignorancia
dos letreireiros que, ao alvorejar o seculo transcurso, foram
encarregados pela Administrao Geral dos Correios de appr os disticos
nas vias pblicas da nossa capital, foi origem a muitos desconcertos
desta ordem. Assim, o Pateo do Porcili, appelido italiano, foi
convertido em Pateo do Pocildes, o beco dos Beguinos ficou-se
chamando beco dos Biguinhos; outro beco, o da Calheta,
transformou-se em beco da Galheta, a Praa dos Remolares foi muito
tempo conhecida por Praa dos Romulares, &. Infelizmente, no occorreu
verificar se a graphia dos _artistas_ sara triumphante da prova, e por
isso, ainda agora se andam remediando estas aberraes ortographicas
municipaes.

[25] Este _Conde_ era um Domingos Fernandes, que tinha por alcunha _o
conde_. Era porteiro do concelho, e morava na rua a que dra a
alcunha, em casas suas.

Pela coincidencia, notaremos que, ha quarenta e tantos annos,
estacionava na ento denominada Rua de S. Francisco, um moo de fretes,
chamado tambem Domingos Fernandes, e que tendo sido criado de Almeida
Garrett, era conhecido pela alcunha: _o visconde_, do titulo daquelle
que fra seu patro.

[26] No se nos afigura fra de proposito esclarecer que o Cho
d'Alcamim (Alcamim, hortalia scca, segundo Fr. Joo de Sousa, _in
Vestigios da Lingua Arabica_), antigo cemiterio mourisco, e
posteriormente provavel cemiterio da freguezia de S. Mamede, formava a
divisoria territorial das duas freguezias, esta, e a de S. Christovo,
uma das suas convisinhas. Ficava sobranceiro ao modesto mas antiquissimo
edificio parochial daquella invocao; isto , occupava o terreno por
onde agora discorre a calada do conde de Penafiel, e ligava-se  Costa
do Castello, tal qual esta calada se liga  junco da extrema da rua
do Milagre de Santo Antonio com o principio da sobredita Costa. A igreja
parochial de S. Mamede assentava no sitio da meia laranja, denominada
Largo do Correio-Mor.

Ainda em principios da segunda metade do seculo passado, o terreno
montuoso onde fra o Cho d'Alcamim era vulgarmente conhecido pela
denominao de _Entulhos da rua de S. Mamede_. No alto da rampa que se
rasga sobre a Costa, e no rez-do-cho do predio que para ella faz
esquina,  esquerda de quem sobe, estava estabelecida, na face de leste,
sob o n.^o 5, a tipographia de Luis Correia da Cunha, onde se imprimia,
em 1860, a edio em 16.^o dos Lusiadas, de Luis de Cames, adoptada
para texto poetico nos Institutos de ensino livre, daquella poca. Esta
edio foi repetida pelo mesmo tipographo, em 1864, em formato igual, e
igual numero de paginas.

[27] Como estamos no terreno resvaladio das supposies e das
probabilidades, seja-nos permittido aventurar a supposio de que este
dr. Joo de Barros possa ser o proprio homonymo do auctor das _Decadas_,
com quem alguma vez foi confundido, e que em 1540 deu a lume na cidade
do Porto o _Espelho de Casados_, impresso por Vasco Dias Tanco de
Frexenal. Dr. Joo de Barros ou nasceu no Porto ou em Braga, e vivia
ainda em 1553, mas, se como informa Barbosa Machado, elle foi do
Desembargo do rei D. Joo III, e seu escrivo da camara, no sera
impossivel que, fixando residencia, por tal facto, era Lisba,
adquirisse para sua habitao a casa onde Manoel Joo estabeleceu a sua
officina.

[28]  patente que todo aquelle plaino, aquella _achada_ de que ahi
perto se perpeta a secular recordao (largo e rua assim denominados)
passou, e por mais de uma vez, por grande transformao, depois do
terremoto de 1755. Os antigos paos de S. Christovo, que occupavam na
parte posterior muito maior area, do que a do actual palacio que foi dos
Vagos, ficaram circumscriptos ao que ahi vemos. O lado esquerdo das ruas
do Regedor e de S. Christovo foi refeito. O proprio adro da parochia,
onde havia _dois_ cruzeiros, foi modificado. A medieval travessa do
monturo do benete converteu-se, se no no todo, em parte ao menos, nas
Escadinhas de S. Christovo; o arco de Joo Corra, que se encostava 
esquina dos velhos paos, donde a gentil princeza, irm de Affonso V,
sahiu desposada para Allemanha, refeito com o palacio novo, desappareceu
posteriormente, deixando por testemunha da sua existencia ali o grande
chanfro que modificou o cunhal do palacio, tal qual o l vemos.

[29] Esta noticia, transcripta como no texto advertimos, do livro
opportunissimo de Venancio Deslandes, e se l a pag. 42, nota 1,
conjugada com os largos esclarecimentos da pag. 63 e seg. nota 1, da
mesma obra, cerca do rarissimo _Tratado_ de Bento Fernandes, vem
esclarecer o intrincado caso a que Innocencio se refere, ao registar
este auctor, no vol. II do seu _Diccionario_.

Aps ter inscripto a obra, sob o n.^o 1858, seguindo a indicao de
Antonio Ribeiro dos Santos, que em suas _Memorias_, a pag. 108, dra
noticia della, como impressa no Porto, em 1541, por Vasco Dias Tanco de
Frexenal, parecendo, todavia, no a ter visto, nota, com effeito, o
experiente bibliographo que Barbosa j se referira a esta mesma obra,
como impressa em 1555. Innocencio fecha a sua noticia, confessando que
tambem nunca vira o _Tratado_, nem sabia onde existisse.

Agora se concilia, pois, tudo. Bento Fernandes ter, com effeito, dada
uma 1.^a edio em 1541, tirada dos prlos de Vasco Dias Tanco,
repetindo 2.^a no proprio anno em que parece ter fallecido, a julgar
pelo que escreveu o auctor da _Descripo Topographica do Porto_; isto
, em 1555, utilisando agora os servios de Francisco Corra.

Accrescente se que Noronha, no final das _Tabellas_ da _Imprensa
Portugueza no Seculo XVI_, pag. 29, assigna a Vasco Dias Tanco os annos
de 1540 1541, como os da sua permanencia no Porto, onde teria impresso 3
obras. Do mesmo modo, na Introduo do _Espelho de Casados_, do dr. Joo
de Barros, fol. 7, v.^o, regista a presena de Francisco Corra naquella
cidade em 1555.

V-se, pois, que os dois auctores esto perfeitamente concordes, no
tocante a cada uma das phases da vida dos dois tipographos, supra
alludidas.

[30] T.^o da fr. da Magdalena, f.^o 82 v.^o

[31] Alis _Lisarte_, de que, definitivamente, veu a formar-se
_Lisardo_, por ex. _Silvya de Lysardo_ (1597), passando assim o que
parece ter sido nome proprio a appelido, como o seu consimilhante
_Jusarte_, que de ambos os modos foi, de frequencia, empregado.

A Jusarte Pacheco, morto no accomettimento de Calecut, filho do grande
Duarte Pacheco, chama Gaspar Corra Lisuarte Pacheco, segundo se l na
_Lenda de Affonso de Albuquerque_, pag. 19. Na descendencia do genovs
Salvago, naturalisado pelo rei D. Manoel, anda um Jusarte Salvago, a
quem D. Joo III nomeou Almoxarife dos Armazens de Lisboa.

De Jusarte, appellido, se deriva Zuzarte, e assim o nota o sr. Anselmo
Braamcamp Freire, descrevendo o Braso dos Jusartes na _Armaria
Portuguesa_, pag. 284, da folha appensa ao Arch. Hist. Port., vol. VIII,
fasc. 87 e 88.

Ao passo, porm, que Jusarte alterna com Lisuarte ou Lisarte, como nomes
proprios, vmos Jusarte empregado n'este mesmo seculo, e muito proximo
aos tempos dos Pachecos, na India, como appelido.

Assim, o proprio Gaspar Corra, alm de outros de menos nomeada, se
occupa extensamente na _Lenda_ do 5.^o Governador D. Duarte de Meneses,
de Martim Affonso de Mello Jusarte, capito de Ormuz, cujos trabalhos em
Malaca e outras partes narra com individuao.

Este appelido, revivescendo no seculo XVII na pessoa do escriptor Fr.
Pedro da Cruz Jusarte, vem at nossos dias ligado a uma das familias
mais consideradas do Alemtejo; a dos Condes de Avillez, cujos
antepassados e descendentes o empregam logo a seguir ao sobrenome--p.
ex.: Jorge d'Avillez Jusarte de Sousa Tavares de Campos.

Quanto ao ramo dos Zuzartes, vemos, ainda no _Tombo Pombalino_ D.
Marianna da Silva Zuzarte, proprietaria em 1755 de casas no beco do
Bugio. Quando, posteriormente, se formou a rua da Sadade, derrubada a
parte do beco onde taes casas eram, foi-lhes marcado terreno e
alinhamento na nova rua, para a reconstruco, que veiu a receber o
numero de policia 8. Em nossos dias, era proprietario d'estas casas um
cavalheiro Araujo Zuzarte, antigo administrador de um dos Bairros d'esta
Cidade.

[32] Isto : 455 ris.

[33] Este Ilusuarte Peris, cujo nome e appelido parecem ter soffrido a
truculenta sorte de Joo Blavio de Agripina Colonia, sob a pena barbara
de Bastio de Lucena, era proprietario na rua que tinha o seu nome,
sendo elle que, provavelmente, a _fundou_,  semelhana de outros muitos
exemplos mais, quer por aforamentos feitos  cora dos terrenos onde se
edificavam as primeiras casas, quer por qualquer outro modo que
attribusse aos _fundadores_ um tal qual direito de propriedade no
denominar das vias pblicas.

As casas de Ilusuarte Peris constam dos lanamentos 27 a 29 do grupo
comprehendido no titulo expresso no texto, e tinham por inquilinos:

Margaida Ribeyra, Francisca Anriquez, molher cortezan e Eytor
Fernandes, Indio.

O mesmo Ilusuarte Peris tinha tambem outras casas na rua das
Cristaleyras e ahi eram seus inquilinos uma viuva e um tintureiro. Esta
rua apparece j nos roes de Christovo (1554?). A de Ilusuarte Peris
deve ter-se formado nos annos que separam a obra do guarda-roupa do
Arcebispo lisbonense do recenseamento que estamos examinando.

[34] Em qualquer das duas edies da _Pratica Darismetyca_ (1519 e
1530), impressas por Galharde, se declara este _frcez_, passando a
primeira por ter sido a sua estreia, como chefe de officina. Por igual
lhe declara a nacionalidade a subscripo do Livro 2.^o das
_Ordenaes_, bem como a do 3.^o, e ainda a dos _Statutos da Ordem de
Santiago_, no sendo difficil que se registem mais exemplos.

Tambem no _Memorial de Pecados_, de Garcia de Resende, impresso em 1521,
apparece o appelido d'este impressor composto, em parte, 
francesa;--_Gaillarde_, e nas _Ordenaes_, _Galhard_. Alm d'estas,
ha outras variantes, taes como, a da _Cronica llamada el triunfo, &_,
onde parece que se l _Gallarde_, e a do _Cerimonial da missa_, que
imprime _Gallardo_. Na _Cartilha que cont[~e] breuem[~e]te_  que o
appelido do celebre impressor apparece como veiu a ficar:--_Galhardo_.

Na diplomatica de D. Joo III chama se-lhe: _Germo Galharte_.

[35] Affirma-o, como facto por elle proprio verificado, o conspicuo
bibliographo Tito de Noronha, _in_ Ordenaes do Reino--Seculo XVI,
_apud_ Archeologia Artistica, _1.^o anno, vol. 1, fasc. II, cap. XI_,
pag. 76 (1873).

Repetiu a affirmativa _in_ A Primeira Edio dos Lusiadas, Porto, 1880,
a pag. 80, nota (68), _in fine_.

[36] _Jornal do Commercio_, de 2 de maio do 1871.

[37] Mais outra vez vem a lume o titulo d'este livro quasi quatro vezes
secular.  como segue:

Missale secumdum consuetudinem Elborensis ecclesiae noviter impressum.

Na subscripo final l-se:

Impressum Ulixipone expensis magistri Antonii Lermet Elborensis
civitatis librarius per Germanus Galhardum. Anno salutis nostre
millessimo _quingentessimo nono_. Pridie Kalendas martii. Deo Gratias.

Assim, pelo plausivel alvitre de Tito de Noronha, entre
_quingentessimo_ e _nono_ devia ter-se composto _vigesimo_, falta
que s quem no sabe quanto  facil de escapar, ainda ao mais attento
revisor, o salto da composio de um vocabulo entalado entre outros, e
n'uma data, principalmente, no comprehender. No texto se exemplifica
um curioso similhante caso de nossos dias.

[38] Em sua Bibliographia Historica Portugueza consigna Figanire ter
visto em um exemplar da terceira Decada da *Asia*, de Joo de Barros,
impresso por Joo de Barreira em 1563, a omisso typographica M. D.
LIII.

[39] Isto , em 1513-Ordenaes do Reino--Seculo XVI, pag. 31.

Adiante veremos que a conjectura no se confirma.

[40] Gaspar Nicolas, natural de Guimares, foi escrivo da tabola de
Coimbra e das cizas da mesma cidade, como consta de varios diplomas de
nomeao e quitao, das chancellarias de D. Manoel e D. Joo III, no
Arch. Nac. da Torre do Tombo.

Era, pois, como hoje diriamos, um funccionario de fazenda, e, portanto,
no caso de se occupar da materia que foi assumpto ao seu, desde seculos,
rarissimo livro.

Tito de Noronha determinou, em 1874, o comeo da actividade officinal de
Germo Galharde, pelo conhecimento que teve do exemplar e edio citados
no texto; exemplar, pertencente, ou que veiu a pertencer ao sr. visconde
de Azevedo. Innocencio, porm j em 1859 notava que no catalogo da
livraria de Joaquim Pereira da Costa andava descripto um exemplar da
_Pratica Darismetyca_, com a data de 1519. Ao diligente bibliographo,
parecia, comtudo, _erro_ semelhante data, e aqui vmos como se enganou!

Germo Galharde, como est registado no comeo da nota ^1, de pag. 44,
fez 2.^a edic. do Tratado sobredito em 1530.

[41] Eis as expresses do fecundissimo polygrapho:

Duvido se tem V. m. j noticia de outro livrinho que estou imprimindo,
e o fiz mais depressa do que a _Calsada dos Galhardos_. Chamo-lhe
Pantheon, ter quatro at sinco folhas, com 2500 versos.

Bibliot. Nacion. de Lisba--MM s.--Fundo antigo, 155. Cartas de D.
Francisco Manuel de Mello a Antonio Luiz de Azevedo, com introd. e
notas, por Edgar Prestage--Imp. Nac. 1911.  a n.^o 24, e o passo l-se
a pag. 70.

[42] Este pateo  o primeiro,  esquerda, na rua de Santo Ambrosio,
tendo o porto que lhe d entrada o n.^o 17. Depois que os Galhardos o
largaram, habitaram ahi _as Patinhas_, isto , as filhas de um Don Jos
Patio que exerceu aqui, em Lisba, qualquer cargo official do seu
pas.--Um appelido estrangeiro convertido em assumpto de galhofa.

Morreram _as Patinhas_, e succedeu na denominao do pateo um tal Jos
Alexandre, que ahi persistiu at ha pouco.

Hoje, o Pateo  _Villa_, porque os estrangeirismos, ainda que prestem a
riso, so-nos mais bem acceitos, do que o que sempre teve sabor
nacional. J o dizia, ainda que por frma muito mais conceituosa, no
seculo XVII, um dos nossos mais distinctos escriptores.

Emfim, a _Villa_ appellida-se _Domingues_, e voltar a andar por ali
outra vez o dominio castelhano...

[43] Frontispicio:

_Reportorio dos tempos em linguajem portugus.

Foy impresso em Lixboa em casa de Germo Galharde, Anno 1560._

Fecho:

_Acabou-se o Reportorio dos Tempos em linguagem portugus. Agora
nouamente emendado e impresso c muytas cousas acrescentadas de nouo_,
etc., _O qual foy impresso em a muy nobre e s[~e]pre leal cidade de
Lixboa, em casa da viuua, molher que foi de Germo Galharde [~q] sancta
gloria aja. Anno de 1560._

[44] Reservados da Bibliotheca Nacional--A--443.

[45] Tendo nosso presado amigo, sr. dr. Antonio Baio, publicado no
Archivo Historico Portuguez, vol. VII, pag. 150 e seg., (1909) o
extracto desta denuncia, como fazendo parte de suas noticias cerca da
_Inquisio em Portugal e Brazil_, appensaremos aos presentes _Estudos_
o seu teor, na integra, para que nossos benignos leitores possam ajuisar
plenamente do valor deste documento, no s quanto ao caso que nos
occupa, seno tambem quanto ao que elle revela, sob o ponto de vista do
triste estado dos espiritos em Portugal, na poca to bem retratada no
predito documento.

Ao nosso presado amigo muito agradecemos o grande obsequio que lhe
ficmos devendo, com a copia deste depoimento, que to amavel quo
solicitamente se serviu communicar-nos.

[46] Entre as gravuras frontispiciaes conhecidas do seculo XVI algumas
ha que foram executadas para obras que no chegaram at ns. Lembra-nos,
por exemplo, a que se v na Sala dos Reservados da Bibliotheca Nacional,
n.^o A--149, que deve ter sido expressamente aberta para obra differente
daquella em que ali se nos patenteia, e que todavia, se no conhece.

Porventura se ter presente o que, referindo-nos em uma das Notas do
Cap. IV,  _Primeira Parte da Chronica dos Menores_, de Fr. Marcos de
Lisboa, se nos offereceu ponderar, a respeito de obras que se sabe terem
sido impressas, mas que de todo desappareceram.

[47] Nosso venerado Patrono, Diogo Barbosa Machado, j dra noticia
desta obra, com a competente indicao, _ipsis verbis_, do respectivo
titulo.

A ella se referiu, repetindo-o, ainda que menos pontualmente, o
incanavel Innocencio, notando, com asss de razo, as imperfeies
infelismente commettidas pelo douto Antonio Ribeiro dos Santos, no
tocante a este particular motivo.

Ultimamente, o Sr. Anselmo Braamcamp Freire deu a descripo da obra, e
seu titulo, imprimindo este com toda a perfeio, _in_ Archivo Historico
Portuguez, vol. VIII, n.^{os} 8 a 11 (92 a 95--1911), fielmente
transcriptos uma e outro dos que lhe deu a Sr.^a D. Carolina Michalis
de Vasconcellos, por copia do exemplar que a S. Ex.^a pertence.  este
mesmo titulo que est presente na occasio, e se transcreve de
preferencia aos dois citados _supra_.

[48] Manda, todavia, a Ordenao, no Liv. II, Tit. 61, que qualquer
pessoa que de ns tiver Privilegio, de qualquer sorte que seja, ou que o
tenha por respeito da pessoa com quem viver, em qualquer maneira que
pelo Privilegio da tal pessoa guardado fr, tenha lana de _vinte
palmos_, ou dahi para cima, em sua casa.--Isto , tenha lana de
4,^{m}40, ou superior a esta medida.

V-se, portanto, do confronto dos dois textos que a medida-padro destas
armas diminuira, pelo discurso do tempo, muito perto de 0,50.

Na Europa do XIV.^o seculo, a medida mais commum das lanas com que se
armava a gente collecticia a soldo de qualquer procer, era, segundo
Cibrario, _in_ Economia Politica da Meia Edade, de _dezoito ps_, o que
corresponde a 5,^{m}94.

[49] Carta de 14 de fevereiro de 1530, _in_ Deslandes, Doc. para a Hist.
da Typ. Portug.

[50] Este vocabulo, e o seguinte em abreviatura, morador, denunciam
uns restos de barbarismos de concordancia, que ainda nesta epoca j
adiantada do seculo, e at no seguinte, transparecem aqui, ali, no
commum falar e escrever.

Reinava uma como especie de preguia em acommodar  frma feminina os
vocabulos em _or_, e um que outro mais.

A materia foi superiormente versada pelo to infeliz, quo abalisado
philologo Francisco Dias Gomes, que em sua _Analyse sobre a elocuo e
estylo de S de Miranda_, deu, entre varios exemplos, um, com o
primeiro dos dois apontados vocabulos, tirado de Ruy de Pina:--E a
entregou aa Ifante Dona Briatriz como _titor_ que era do duque Dom Diogo
seu filho.

Correlativamente, os determinativos no acompanhavam a frma feminina
que designavam, como n'aquelle caso que nos occorre do informador de
Christovo Rodrigues de Oliveira: _Os_ dignidades que ha na See.

A Memoria de Francisco Dias l-se entre as de Litteratura da Academia,
tom. IV, pag. 26 e segg.

[51] A freguezia de Santa Engracia s teve Breve de desannexao da de
Santo Estevo em 1568. S depois de 1606  que o edificio parochial foi
patente ao culto. O parocho de Santo Estevo pastoreou durante _trinta e
um annos_ ambas as freguezias cummulativamente; isto , desde 1576, anno
em que comeou, emfim, a vigorar a desannexao, at 1607, em que havia
j na nova parochia cartorio proprio, e independente da parochia
_mater_. Veja-se o que escrevemos no vol. VIII, pag. 5, do Archivo
Historico Portuguez--1910--Art. _As Tenas Testamentarias da Infanta D.
Maria_.

[52] J temos advertido que o livro do guarda-roupa do Arcebispo de
Lisboa no pode ser da data que anda em costume attribuir-se-lhe;--1551.
O proprio livro contm em alguma de suas paginas, ao referir-se 
Misericordia, e s esmolas que esta Instituio recebia, a confirmao
do que affirmamos.

Como, porm, o auctor conta ter sido no anno de 1551 que o Arcebispo lhe
commetteu o encargo de fazer o livro, nada se oppe a que desde este
anno elle comeasse a colligir os materiaes para elle, dirigindo-se aos
parochos, para alcanar os roles das vias publicas, feitos--
evidente-- face das _desobrigas_. E como entre encommenda-los e o
conseguir have-los  mo sempre mediaria algum tempo, sendo 25 os
parochos collaboradores n'esta obra de louvores s grandezas e
magnificencias lisbonenses, pareceu-nos que pelos termos que empregmos
alcanariamos exprimir com exaco o nosso pensamento.

[53] E portanto _atafaneiro_.  vz arabica;--_atahana_.

[54] O traado descrito e os pormenores so os que resultam da leitura
do passo respectivo no Tom. VIII dos _Elementos para a Historia do
Municipio de Lisboa_, de nosso to distinto colega, sr. Freire de
Oliveira, aliada  do muito elucidativo texto tecnico da valedora
monografia _A Crca Moura de Lisboa_, do nosso prestante amigo sr.
Vieira da Silva.

Nossa,  s a conjectura de que os edificadores da crca de D. Fernando
apoiariam o postigo de Santo Andr  torre que a _barbac_ ou cinta
muralhada que circundava o monte do Castello ali poderia ter,
aproveitando os lanos d'esta para ligarem  velha a nova crca,
partindo, para a continuao da obra, do baluarte de S. Loureno. Resta
uma pergunta:--Tinha _toda_ a muralha que abraava o monte do Castello,
desde a Porta de D. Fradique at  porta da Alcaova ou de S. Jorge ou
vice-versa, antiguidade egual  do baluarte de S. Loureno? Por outra, 
tudo obra mourisca, ou anterior, se tal baluarte o  tambem?

[55] Villa Quente, que um desagregamento do solo pendurado do monte do
Castello subvertera em 1531, e passa, a nosso vr, menos
justificadamente, por um _tremor de terra_ mais, a ajuntar  longa lista
dos que tem affligido Lisboa, no decorrer dos seculos, era um punhado de
humildes casas, semeadas entre o comeo da actual calada de Santo
Andr, e o caminho que a ao postigo do Monis, diante de cuja entrada
havia uma cruz de pao. A rampa que o pequeno povoado occupava para o
N. da cinta muralhada que circumdava o monte do Castello, e o abrangia
como um annel, em toda a sua circumferencia, estendia-se pelo limitado
espao que servia de recosto  crca de Santo Anto (Colleginho), vindo
confundir-se com os meandros de betesgas e encruzilhadas que o separavam
da Mouraria, constituindo o que alguma vez se chamou o bairro da rua
suja.

[56] _Historia de Portugal_, vol. I, 3.^a ed. MDCCCLXIII; nota XXIII, a
pag. 531.

[57] Aforamento de um cho junto da Porta de Santo Andr, da banda de
fra, no principio da rua que vai da dita Porta para o postigo de Sam
Loureno, feito pela cidade ao dr. Affonso Figueira, onde este
magistrado edificara umas casas que partiam da banda do Poente _com muro
e torre da cidade, &_.

Esta _torre_  a que suppomos existir j na barbac do Castello, no
angulo formado pelo lano que devia descer da Porta de D. Fradique a
entestar com a parte que se continuava na rua que ia ao baluarte de S.
Loureno.

Deveria jazer pela parte posterior do actual _Passo_, e ter sido
aproveitada para guarda do Postigo de Santo Andr. Dominava assim a
aspera calada que se lhe desenrolava em frente, e vinha ligar-se 
muito antiga Rua dos Cavalleiros.



Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+---------------------+----------------------+
  |          |      Original       |      Correco       |
  +----------+---------------------+----------------------+
  |#pg.   11| Bernaldim           | Bernardim            |
  |#pg.   16| testemunh           | testemunho           |
  |#pg.   22| ondo                | onde                 |
  |#pg.   22| admtitir            | admitir              |
  |#pg.   46| typographfa         | typographia          |
  |#pg.   57| quo                 | que                  |
  |#pg.   66| persuadido          | persuadidos          |
  |          |                     |                      |
  |#nota   38| Portugteza          | Portugueza           |
  +----------+---------------------+----------------------+


Os smbolos de igual (da pg. 81) foram substitudos por traos longos
('--').





End of the Project Gutenberg EBook of Noticia de livreiros e impressores de
Lisba na 2 metade do seculo XVI, by Jos Joaquim Gomes de Brito

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Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
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