The Project Gutenberg EBook of O vinho do Porto: processo de uma
bestialidade ingleza, by Camilo Castelo Branco

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Title: O vinho do Porto: processo de uma bestialidade ingleza
       exposio a Thomaz Ribeiro

Author: Camilo Castelo Branco

Release Date: February 26, 2008 [EBook #24691]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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O vinho do Porto

Porto--Imprensa Moderna

CAMILLO CASTELLO BRANCO


O vinho do Porto

PROCESSO D'UMA BESTIALIDADE INGLEZA

EXPOSIO A

THOMAZ RIBEIRO

2. EDIO


PORTO

LIVRARIA CHARDRON

De Lello & Irmo, Editores

1903

Propriedade absoluta dos editores

Reproduco Interdicta




A THOMAZ RIBEIRO


     Como sei que o teu amor s perfidas trtas e manhas da Inglaterra
     no  dos mais acrizolados, venho offerecer ao teu sorriso um
     SPECIMEN de bestialidade ingleza.




Ha trinta e cinco annos que um breto anonymo lavrou na _Westminster
Review_ a condemnao do vinho do Porto como deleterio e empeonhado por
acetato de chumbo e outros toxicos anglicidas. O homem, pelas rbidas
violencias do estylo, parece ter redigido a calumnia depois de jantar,
n'uma exaltao capitosa do tannino do alvarilho que elle confundiu com
as afflices dos venenos metallicos. Relembra lamentosamente, com a
lagrima das bebedeiras ternas, o seculo dezoito, em que o genuino licor
do Porto era um repuxo de vida que irrigra a preciosa existencia de
grandes personagens da Gran-Bretanha. Recorda Pitt e Dundas, Sheridan e
Fox, famigerados absorventes do nosso vinho. Diz que Lord Eldon e Lord
Stowel, graas infinitas ao Porto, reverdejaram e floriram em velhos; e
Sir William Grant, j decrepito, bebia duas garrafas de _Porto_ a cada
repasto, para conservar crystallinamente a limpidez das suas faculdades
mentaes e a rija musculatura de todos os seus membros j locomotores, j
apprehensores, e o resto. Lamenta que Pitt, debil de compleio, com o
uso immoderado d'este tonico, e em resultado de plethoras frequentes
combatidas com ammoniaco e sulfato de magnezia, vivesse dez annos menos
do que viveria, se possuisse o incombustivel estomago curtido do
veneravel Lord Dundas.

Succedeu, porm, ao collaborador da _Westminster Review_ achar-se
dyspeptico, com azas, relaxes intestinaes, eructaes cloacinas, e o
craneo sempre flammejante como suja poncheira, com o encephalo em
combusto de cognac e casquinha de limo--isto depois de saturaes
copiosas dos vinhos adulterados do Porto--_uma mixordia negra_, diz elle
afflicto; mas no sabe decidir de prompto se a degenerao est na raa
saxonia, se no vinho portuguez. Pelo menos e provisoriamente
considera-se envenenado, o bruto.

Pois o veneno que lograr infiltrar-se nas mucosas inglezas deve ter a
potencia esphacelante da Agua Tufana dos Borgias. Em Inglaterra os
porcos engordam na ceva do arsenico. Que fibras de raa aquella!  que a
carne d'um breto diverge muito da carnadura da restante Europa. O
anthropologo Topinard observou que a mortandade nos hospitaes inglezes,
em seguimento s operaes cirurgicas, era muito menor que a dos
hospitaes francezes. O sabio Velpeau, consultado pela Academia de
Medicina, respondeu que _la chair anglaise et la chair franaise
n'etaient la mme_. E no d a razo da differena, por que a no sabia
o grande biologo. Eu, na observancia do dictame do Espirito Santo, pela
bocca do _Ecclesiastico_--no escondas a tua sabedoria illucidarei o
snr. Velpeau. A razo, a scientifica  esta: emborcaes de bebidas
acidas, e mrmente de cerveja, combatem, como coadjuvantes do acido
phenico, a gangrena; ora, o inglez, abeberado de cerveja,  refractario
 podrido dos hospitaes. Como se v, d'esta causal to obvia um
anthropologo  capaz de espremer assumpto para volumes recheados de
coisas abstrusas sobre ethnographia, climatologia, morphologia,
mezologia, o diabo.

Alm da cerveja, a fibrina do porco, saturado de arsenico, entretecida
na fibrina do inglez seu compatriota, faz d'elle um Mithridates para os
saes de chumbo diluidos no vinho do Porto. O inglez no pde morrer por
ingesto alcoolica. Se quer suicidar-se com instrumento liquido, tem de
asfixiar-se, afogar-se no tunel como o lendario Lord. Elle  immortal,
absorvendo; e s pde morrer--absorvido. Estranho animal! E  senhor das
aguas e das melhores garrafeiras! O destino, pela tuba sonorosa de
Cames, disse ao inglez:

  _Entre no reino d'agua o rei do vinho._

                            (LUS. c. VI.)

Que litros de _Porto_ envenenado se calculam efficazes para degenerar um
breto at  dyspepsia e s agonias da morte?

      *      *      *      *      *

N'esta conjunctura, um possuidor de legitimo _Douro_ convidou o
intoxicado a beber o elixir fornecido por um commerciante britannico
estabelecido no Porto. O negociante fornecedor era o Forrester que
desappareceu d'este alfbre de charlates forasteiros, de um modo
tragico, ha vinte e trez annos. Logo te contarei essa catastrophe, meu
amigo.

A sensao intima que o hospede recebeu nas suas entranhas foi uma
novidade, uma deleitao de refrigerio em todas as membranas desde o co
da bocca at ao cego e visinhana onde elle sentia os ardores da zona
torrida. Emborrachou-se como era de esperar, e seria iniquidade
censurar-lh'o; mas o seu cerebro de illuminado espelhava agora as
visualidades ethereas, irisadas, do americano Po. Nem j o ventre lhe
rugia como se l tivesse uma besta-fera embetesgada n'uma latrina, nem
elle nauseado recorria s titilaes na glote para golphar o acetato de
chumbo. O possuidor da garrafeira, para o convencer de que o salvra da
morte propinada pelo vinho homicida do Porto, mostrou-lhe dois opusculos
inglezes recentemente publicados. Um era de J. James Forrester, e
intitulava-se _A Word of truth Port wine_. O outro, por Whittaker, em
reforo ao de Forrester, chamava-se _Strictures on a Word of truth on
Port wine_. _London_, 1848.

Forrester, no seu folheto, desbaratava o valor do vinho do Porto,
increpando os lavradores de no differenarem, no fabrico, as
temperaturas humida, fria, secca e quente; que empregavam promiscuamente
toda a casta de uva, adulterando-a com ingredientes adequados ao paladar
inglez, mas corrosivos. Na operao do lagar, accusa o lavrador de
retardar a fermentao, vasando em cada pipa de msto entre dose e vinte
e quatro galles de agua-ardente. Que, passados dois mezes, a mixordia
era crada com baga, mediante uns saccos de linhagem que espremiam sobre
o vinho, e depois atiravam o residuo ao tunel. Em seguida, novo despejo
de agua-ardente, e dois mezes de descano. Esta beberagem enviada para o
Porto era novamente beneficiada com o veneno alcoolico; e, nove mezes
depois, ao sahir para Inglaterra, como golpe de misericordia, nova
infuso. De modo que o vinho entrava no estomago inconsciente do
Reino-Unido  razo de vinte e seis galles de agua-ardente por pipa.
Depois, descreve o que seja geropiga, e como ella entra n'estes
horrendos mysterios da Brinvilliers. Esta geropiga, como logo direi,
fermentou a bestialidade ingleza que passou victoriosamente na Europa em
1849.

Rematada a lista das falsificaes, fraudes e ladroeiras dos lavradores
e negociantes portuguezes, Forrester exclama: Quem assim deteriora o
vinho , a meu vr, mais criminoso que um ladro vulgar; e conclue o
seu opusculo n'estes termos: Os consummidores inglezes devem dar a
Portugal uma lio prtica, demonstrando que, se a esse paiz convm
desfazer-se da sua agua-ardente, que no  nos vinhos do Porto que nos
deve impingil-a; por que ns, em Inglaterra, podemos comprar baga e
melao por preos muito mais em conta do que Portugal nos incampa o seu
licor de que esses ingredientes formam o principal.

      *      *      *      *      *

Parecia natural e patriota coisa que os negociantes e agricultores de
vinho accusassem este detrahidor  animadverso publica, e que a
imprensa do baluarte da liberdade o cobrisse de injurias, e algum
viticultor mal humorado de bengaladas. No, meu querido Thomaz Ribeiro.
A sua casa luxuosa na Ramada-Alta era o confluente dos prceres
portuenses e da provincia vinicola. Titulares,
desembargadores-conselheiros, ministros de estado honorarios, os maiores
proprietarios do Douro, e poetas arcadicos de pacotilha, que faziam
dithyrambos ao jantar:

  _Evoh._

  _Padre Lyo!_

  _Saboh,_

  _Gro Bassaro!_

Ainda se usavam, na bonacheira dos velhos, estas rancidas semsaborias
remoadas por uma copiosa tintura de bastardo.

Ali concorria o desembargador Fortunato Leite cheirando os vinhos que j
no podia deglutir e arrotando pelo nariz sobre os calices. Ao p d'elle
estava o visconde de Veiros, o Mello das Aguas-ferreas, expondo a dois
morgados de Riba-Douro a sua erudio em genealogia, uma sciencia em que
se distinguem muitos parvos, se tem memoria. O ministro de estado
honorario, Joo Elias, alambasava-se em pudding que comia com a faca. O
Affonso Botelho, de Passos, d'uma _gentilhommerie_ transmontana,
paparrta, rorejando as phrases e os circumstantes com uma salivao
caudal expedida d'entre os dentes illegitimos, como do crivo de um
borrifador. Elle chamra patife a Forrester em 1845, no _Periodico dos
Pobres_, e acclamava-o ento nos brindes o anjo tutelar do Douro que lhe
comprava as colheitas a elle Affonso. Avultava o velho Manoel Browne,
dominando a vozeria com as suas gargalhadas estridentes e honradas. O
typico Gonalo de Barros, a correco no despejo, negociante de vinho,
de casamentos proprios e alheios, de tudo que  negociavel, com mais
faras e melodramas e tragedias na sua vida que o Archivo do extincto
theatro do Salitre; insinuando-se com incomparaveis negaas de artista
nos coraes dos amigos e sahindo pelas algibeiras quando achava estas
avenidas areas de mais e metalisadas de menos. Elle foi, no obstante,
um tracista infausto, por haver nascido em um meio estreito de mais para
o largo bracejar das suas faculdades mercantis. Seria o mais sagaz
negociante encyclopedico da monarchia, se os seus parceiros em veniagas
no fossem tambem os negociantes mais sagazes da mesma monarchia, todos
conjurados em desabarem do seu legendario ponto d'alta honra a Praa do
Porto. E a Praa sempre impavida em meio do fracassar das ruinas, como o
homem justo de Horacio, metaphoricamente fallando--_Impavidum_, etc.
Via-se o Eduardo Moser, ento visconde embrionario, a esperteza do alho
e a finura do coral feita homem; manancial de salvaterios commerciaes,
agricolas, industriaes, esterilisados pela inveja e pela ignorancia dos
seus auditorios; raro dom prelucido de profecia, mas condemnado, como
Cassandra, a no ser acreditado. Seria capaz de inventar a Methaphysica
commercial, levando  transcendencia o phenomeno do Cambio. Usa do
telescopio de Herschell para vr o Porto nas dimenses da Philadelfia.
s vezes, cuida que vai scismando em emprezas arrojadas ao longo de
_Regent Street_, e encontra-se na rua dos Caldeireiros entre uma loja de
funis e uma tenda de tamancos. Vive miraculosamente no meio dos seus
collegas da rua dos Inglezes e Cima do Muro como Daniel no fjo dos
lees. De resto, com uma estatura franzina, e menos de mediana, tem um
temperamento de dynamite. Quando lhe  foroso cascar um sco em um
homem alto (e eu j vi) cresce um covado pela medida velha. Tem a
elasticidade do Relatorio e do _boxing_. Produz uns Relatorios colossaes
que, se lhe puxassem tanto pelo corpo como pelo espirito, s. exc. seria
o visconde mais corpulento da sua freguezia. No obstante, e fallando
por figura, elle hade ser sempre o gigante do Relatorio correcto, que
far alguma vez impacientar o ouvinte futilmente leviano, mas nunca far
gemer a Razo filha de Deus, nem a Grammatica filha do Lobato.

Confluia a todos os jantares assignalados o arcediago Cunha Reis, um
velho palaciano de Braga, adiposo, apesar de ressicado interiormente por
diversas ingratas materialistas que elle idolatrava com psycologismo
incomprehendido, mas consentaneo  sua idade sria. Sentindo-se fatigado
e algido da viagem por sobre o dezerto glacial da velhice, foi ao
convento da Falperra, onde morava um egresso, fez confisso geral e
deixou o corao penitente aos ps da Virgem. Depois, renunciando o
corao, nenhum esteio amparador do gsto de viver lhe ficou. Fechou-se
no seu quarto, e, ssinho, morreu de uma congesto de saudade da sua
juventude que fra um manso idyllio de Gessner com ligeiras
intermittencias febrs de Saint-Preux. Este adoravel cavalleiro-professo
chamava-me filho; e, se ouvia fallar de amores, chorava, dissimulando as
lagrimas com um sorriso ironico da sua fragilidade serdia.

Era certo o Joo Nogueira Gandra que recitava sonetos de improviso com
quinze dias de lima e de contagem pelos dedos, sob a torrente da
inspirao. O visconde d'Azevedo lia poemas de sua lavra engenhosa em
frma graphica de copos e garrafas, cheias de versos de varios metros e
de larachas honestas. O Lopes de Vasconcellos, um gordo, governador
civil, ouvindo os poemas bacchicos, dava na barriga palmadas sonoras,
intelligentes, rindo muito, e--que a poesia era aquillo, uma coisa com
pilheria, porque versos de choradeira no os podia tragar,--affirmava,
alludindo ao episodio da Ignez de Castro, do Cames, recitado por Joo
Thomaz Quillinan com uma sentimentalidade plangente e languida, toda
feita de moscatel de 1830. Em cavaqueira sbia e transcendente, o abbade
de Macieira, pregador rgio, um Massillon  altura do paiz, concordando
com o theologista visconde de Azevedo, asseverava que Virgilio
prophetisra o advento do divino Messias; e os dois, com as pitadas
engatilhadas aos narizes rubros, recitavam alternadamente, com emphase:

  VISCONDE

  _Ultima Cummoei venit jam carminis setas_
  _Magnus ab integro sclorum nascitur ordo._

  ABBADE

  _Jam nova progenies coelo dimititur alto_
  _Tu modo nascenti puero..._

O Quillinan, um atheu esclarecido, escutava-os; e, sublinhando o sorriso
heretico, perguntava se o _nascenti puero_ virgiliano no seria o filho
de Asinio Pollio, herdeiro de Augusto, protector do poeta da Eneida. Os
theologos affirmavam que no, sibilando o seu meio-grosso, reserva do
mestre da fabrica.

Concorriam tambem os irmos do D. Jeronymo bispo do Porto, dois velhos
casquilhos, vegetalisados em dois pimentes ao _toast_, sempre  cata
d'umas Suzanas pouco ariscas, Suzanas da barcaa do Joo Coelho a 8
vintns por banho--e mordiscavam com as suas dentaduras de gutta-percha
varios pomos sorvados e nada prohibidos. Fallavam de amores
sardanapalescos com o medico Assis, um frascario de muita experiencia
que lhes recommendava bifes na grelha e parcimonia, sopas de vinho com
canella e alguma pudicicia. Eram a justificao de Lafontaine:

  _...dans les mouvements de leurs tendres ardeurs,_
  _Les btes ne sont pas si btes que l'on pense._

Era tambem infallivel nos lautos banquetes do Forrester o Custodio
Pinheiro, visconde de Villa Verde, a contar ao Joo Elias que a sua
esposa, cosinhava uns ricos _fsferinhos_ (fofinhos) para o ch; mas que
elle j no podia cear seno ch preto com _fateias_. Defronte, o
visconde de Alpendurada, presidente da camara, promettia a um
jornalista, se os eleitores o conservassem  testa do municipio, dotar o
Porto com o embellesamento das latrinas _theodoras_ (inodoras). Um
folhetinista d'aquelle tempo, o creador do espirito nas gazetas
portuenses, Evaristo Basto, dizia-lhe que seria melhor, em vez de dotar
o Porto com latrinas theodoras, o embellesasse antes com algumas
donzellas do mesmo nome. Estes dois viscondes, alis bons homens e
creadores de linhagens de boa medrana, vo j to longe que, quando me
lembram, chego a confundil-os com os primordios das castas nobres, tal
qual como se elles, senhores feudaes, tivessem ido  conquista do santo
sepulchro com os Godofredos e os Tancredos.

Elles, emfim, riam-se uns dos outros, e o Jos Borges, hoje visconde do
seu Castello, ria-se de todos com um sorriso solertemente cortezo.

O Forrester, muito ffo e empantufado, com as suas fanfarronias
_poseuses_, marrafa frizada e gravata branca asss conhecida, e mais os
bofes anilados da camisa, nas illustraes da burguezia dos romances de
Dickens, batia no peito enchumassado e na testa com as pontas dos dedos;
e, com a cara aafroada em arreboes do Paraizo e das adegas do Pinho,
apontava, soluante, para uma primorosa tela de Roquemont--o retrato de
sua defunta esposa que o contemplava do co em moldura de talha dourada;
e elle amava tanto aquella vera effigie, testemunha de suas lagrimas,
que a trocou, e mais outros bonecos de barro por vinhos de Antonio
Bernardo Ferreira. Bem bom negocio para o inglez--est claro.

Ora estes commensaes de Forrester, quasi todos vinhateiros, ignoravam,
excepto dous ou trez, a lingua ingleza e desconheciam portanto o
descredito com que o amphitrio marera os seus vinhos no mercado de
Londres; mas o governo, que possuia idiomas como um Calepino, pegou de
uma cora de baro e pl-a na cabea de J. James--_baro de Forrester_.
E, se no morre to cedo, e faz nova edio das calumnias contra a mais
rica e ameaada industria portugueza--uma segunda edio peorada e mais
incorrecta--o governo luso fazia-o visconde, no  verdade? A pergunta
no  feita ao ministro do reino de 1883:  ao Thomaz Ribeiro que em
1849 entrava na adolescencia.[1]

      *      *      *      *      *

Para corroborar o Forrester e aular as iras contra o vinho do Porto, o
outro pamphletista, Whittaker, invoca a opinio unanime dos medicos
inglezes que reputam o vinho procedente de Portugal uma peste para o
estomago e para o figado; por quanto o summo da uva  quasi uma idea
abstracta na moxinifada de aguardente, baga, melao e _jeropiga_. Elle
no escreve sem desculpavel horror a palavra JEROPIGA.

Porqu? Vaes agora entrar no segredo da bestialidade ingleza, meu amigo.

Foi assim.

James Forrester, to respeitador dos vinhos portuguezes como da nossa
orthographia, tinha escripto Jeropiga com J. Parece que d'esta
bagatella no devia surdir grande equivoco na percepo do pensamento;
porm, succede que a palavra com _G_ ou com J d duas significaes de
coisas e serventias, e entradas e sahidas muito diversas. Whittaker,
para saber radicalmente o que era _Jeropiga_, abriu o _Diccionario
portuguez_ de Constancio, e encontrou: JEROPIGA, _Ajuda_, _clyster_,
_bebida medicinal_.

Tremulo de indignao e livido de njo, brada o inglez: Esta ultima
expresso (_bebida medicinal_)  o mesmo que _mzinha_; quanto s duas
primeiras (_ajuda_, _clyster_) so a mesma coisa, tem o mesmo sentido, e
dispenso-me de as traduzir. Que _bellas_ coisas a gente bebe!

 Thomaz Ribeiro, quem no sentiria vontade de mandar o inglez beber
outras?

Mas o peor da passagem foi que a droga do clyster diluida no vinho do
Porto fez abalo intestinal no mercado de Londres. Raro seria o
consummidor de vinhos portuguezes que no levasse as mos convulsas 
regio hypogastrica, com ptyalismo e vomitos. O artigo foi logo
trasladado a francez, em Bruxellas, na _Revue Britannique ou choix
d'articles traduits des meilleurs crits priodiques de la
Grande-Bretagne_ (1849). Em Paris foi commentada desabridamente, com
chalaas, a porca e pelintra fraude lusitana em um artigo da _Revue
OEnologique_. Portugal,  conta do execravel _jota_ de Sir James
Forrester, foi considerado um paiz de immunda selvageria que,
ministrando clysteres pela bocca, tornava communs de duas entradas as
suas mzinhas. Triste!

A honra e a limpeza de Portugal seriam desaffrontadas, se Forrester,
Whittaker e os seus traductores ignaros procurassem _Geropiga_, com _G_,
no Constancio ou no Moraes, JEROPIGA (esclarece o segundo), _liquor
feito de mosto de vinho, sobrecarregado de aguardente, que se usa no
Douro para tempero de vinhos_. E accrescenta: JEROPIGA, _differe_.

      *      *      *      *      *

O aleivoso clyster que, provavelmente, ainda hoje traz impressionados e
receosos os espiritos e os baixos ventres dos nossos fieis alliados,
conspurca bastante a memoria do baro de Forrester. Foi este inglez
quem, empunhando a seringa da calumnia involuntaria por insufficiencia
de orthographia, deu essa antecipada ajuda ao sinistro destino que j
ento vaticinava a catastrophe do paiz vinicola. Avoluma-se, porm, o
delicto do baro quando  notorio que elle deixou correr o aleive
bestial do seu patricio, e no acudiu a corrigir o erro e as sujas
consequencias e derivaes que Sir Whittaker tirou do drastico _jota_.
Se elle fsse um ignorante honesto, sahiria a protestar que a geropiga,
no sendo clyster alimentario, nem medicamentoso, nem narcotico, nem
laxante, nunca tentou usurpar as virtudes emolientes e diluentes das
malvas, nem do laudano de Sydenham, e muito menos da jalapa e da mamona.
Quanto ao mechanismo de ingerir a geropiga no corpo humano, deveria ter
explicado que funcciona por meio de taa, calice, copo, garrafa, pichel,
cabaa, cangiro, caneca, e tambem borracha, mas sem canudo recto ou
curvo; e, para destruir pela raiz a calumnia, deveria jurar pela sua
honra que nenhum portuguez, quando absorve geropiga, faz uso do
Clyso-bomba de Darbo, ou do irrigador Eguisier; sendo certo que, na
ingesto de tal liquido, se d sempre a completa ausencia de canudos,
bombas, torneiras, embolos e engrenagens que desandam e esguicham. A
geropiga bebe-se, engole-se, escorrupicha-se; mas no se seringa jmais.
Que o saiba a Inglaterra. A no ser na perfida Albion, em parte alguma
do velho e novo mundo o vinho do Porto incutiu suspeitas de penetrar nas
entranhas humanas por um impulso ascensional, com intenes dissolventes
ou refrigerantes. Os nossos irmos transatlanticos, afeioados
patrioticamente ao vinho do Porto, jmais o infiltraram na sua economia
intima sob a hypothese pharmaceutica de que elle contenha anda-au,
cayap, tayuy ou a purga de Joo Paes.

Nicolau Tolentino, no soneto realista dedicado  conjugicida Isabel
Clesse,--soneto pouco digno de entrar no seio das familias, e quasi
indecente como obra de mestre de Rhetorica--deixou, em dois versos, bem
definido o methodo de matar clystermente:

  _Que novo invento  este de impiedade_
  _Que extirpar gente vem pela trazeira!_

Elle, como se v, designa com rigor topographicamente anatomico a parte
vulneravel. Essa inverso do processo homicida, isto , o clyster
bebido, apenas seria explicavel e at plausivel, se os catholicos
lavradores do Douro, quando punham no vinho a substancia irritante da
ajuda, tivessem d'lho acabar com os hereges inglezes, seguindo o
conselho do poeta no mesmo soneto:

  _Se tens desejos d'estas obras pias,_
  _Vae fazer aos hereges esta esmola,_
  _Sers a extirpao das heresias!_

Se Forrester, consultando este expositor, e mais o _Diccionario_ sobre
_Geropiga_, e as praticas desobstruentes dos esponjosos desembargadores
avinhados seus comensaes, houvesse atirado aos quatro ventos da Europa
estas leaes explicaes, teria lubricado o ventre da sua alma perante a
justia divina com esse mesmo clyster que lhe peorou as condies
excrementiciaes.

      *      *      *      *      *

A morte desastrosa do baro de Forrester, em 12 de maio de 1861,  uma
das mais notaveis vinganas que o rio Douro tem exercido sobre os
detractores dos seus vinhos. A familia Ferreirinha da Regoa, composta de
D. Antonia Adelaide, de seu marido Silva Torres, o millionario, digno de
o ser pela bizarria das suas generosidades, de sua filha e genro, condes
da Azambuja, tinham ido, rio acima,  sua celebrada quinta do Vesuvio, e
convidaram o baro de Forrester a passar uma semana em sua companhia. No
dia 12, um alegre domingo, sahiram todos do Vesuvio, na inteno de
jantarem na Regoa. O Douro tinha engrossado com a chuva de dois dias, e
a rapidez da corrente era caudalosa. Aproando ao ponto do _Cacho_,
formidavel sorvedouro em que a onda referve e redemoinha
vertiginosamente, o barco fez um corcovo, estalou, abriu de golpe e
mergulhou no declive da catadupa. O baro soffrra a pancada do mastro
quando se lanava  corrente, nadando. Ainda fez algum esforo por
apgar  margem; mas, fatigado de bracejar no tzo da corrente ou
aturdido pelo golpe, estrebuchou alguns segundos de agonia e
desappareceu. Salvaram-se os outros, no todos, com a proteco de uns
barcos que ahi estavam para recolher o despojo de outro naufragio de um
transporte de cereaes. Livrou-se Torres, o futuro par do reino, agarrado
a um barril de azeite, at que o recolheram a um dos barcos. D. Antonia
e o conde de Azambuja aferraram-se s dragas do barco. A condessa foi
salva por um marinheiro. Um juiz de direito, Arago Mascarenhas,
agarrou-se  vra do barco rijamente, qual o temos sempre visto filado 
vara da Justia, em naufragio de trapaas. Mas nem todos sahiram com
vida. Um creado de Torres foi logo tragado pela cachoeira; e, abraada
com a vella, j quando se lhe estendia um brao redemptor, afogou-se uma
creatura a quem os noticiaristas no deram a minima importancia.

Pois foi uma prda insubstituivel. Era a Gertrudes, um thesouro de joias
culinarias que a voragem enguliu. Foi esta mulher uma alma transmigrada
das refinadas civilisaes pagans, a metempsycose de algum genio do lar
que presidira s ucharias da Roma dos Cezares. Foi a cozinheira
primacial do Porto, onde residia. Tinha sido chamada por D. Antonia
Ferreira para dirigir os jantares dados ao baro de Forrester, no
Vesuvio.

Ali acabou. O rlo de uma onda regeitou-a morta contra um lapdo
carcomido de cavernas sonoras a gottejar o lodo da babugem.

      *      *      *      *      *

Devo a esta creatura o gaudio ineffavel de me sentir viver nas
palpitaes de uma felicidade edenica desde os vinte e tres annos de
idade at esta decrepitude verdejante de bucolicos musgos. Mal me lembra
que pequeno servio eu fizera ao marido d'ella, um bravo e envelhecido
alferes de veteranos que se reformra em 1835 por impedido de servir,
crivado de ferimentos graves em algumas batalhas do crco. Agora me
recordo: o alferes estava servindo em um dos antigos telegrafos de
paineis, no pincaro de qualquer serra muito agreste, e gemia o seu
rheumatismo seis mezes e saudades da mulher o resto do anno. Consegui
que o deixassem viver com a sua Gertrudes, que o no acompanhra s
solides dos telegrafos de taboinhas por no prescindir do grande
estipendio como directora de cozinha nas lautas Lupercaes politicas, por
esse tempo, frequentes no Porto.

Comia-se ento muitissimo no Baluarte por excellencia. Ministro ou
general que chegasse a fazer ou desfazer revoltas, cabecilha eleitoral
que viesse arregimentar as suas hostes, enchendo-lhes a consciencia de
liberalismo e carneiro guisado com batatas, era contar com opiparas
comezanas em que os cabralistas levavam enorme vantagem na profuso. Os
homens de Setembro, os _patulas_, em 1849, distinguiam-se na
frugalidade. Os irmos Passos alimentavam rusticamente os seus
organismos plebeus, de Cincinnatos, endurecidos na educao do toicinho
e das feculas de Bouas. Os seus correligionarios andavam ainda na
aprendisagem de comer, e ameaavam a magra meza do oramento para
praticarem. Ainda no tinha surgido de vez o Apicio de todos os
paladares, o Rodrigo da Fonseca Magalhes, com as suas raposas, o qual,
entendendo com Aristoteles que o homem  um animal essencialmente
politico, inaugurou o elasterio membranoso de todos os esphagos, sob o
especioso lemma de homogeneidade de principios, pela fuso de todos em
uma s consciencia que vinha a ser nenhuma propriamente dita, ou o
relaxamento de todas as consciencias n'um estomago commum de duas ou
trez politicas. E assim conseguiu que todos os candidatos  panella do
Estado esmoessem o corneo blo indigesto das suas _Bernardas_ no largo e
fundo estomago da alma, _mentis nostrae stomachum_, como disse S. Pedro
Damio, profetisando a physiologia do espirito politico do seculo XIX
(OPUSC. 12. c, 38. _mihi._)

Gertrudes no tinha mos a medir, se vinha ao Porto um ministro de obras
publicas que deitasse passeio at  Foz e outro passeio at Leixes,
tracejando barras com a badine nos pramos do Azul. Ento, a classe
argentea, uma casta que se investira no patriciado pelo js da moeda
falsa, da escravatura, do contrabando, e talvez do clyster no vinho do
Porto, se esse escandalo coubesse no possivel--os philistinos, uma
fidalguia com a raiz da arvore de gerao na Noruega,  americana--_the
codfich's aristocracy_--senhores de navios e balces unctuosos de
substancias alimenticias adulteradas, andavam  compta, a vr qual
havia de espiritualisar mais os ventriculos encephalicos do ministro,
ingerindo-lhe altas dzes de phosphoro por intermedio dos rodovalhos
celebrados nos triclinios dos Cressus e Lucullos das Congostas,
Rebolleira e alfurjas circumjacentes. As barras da Foz e Leixes ahi se
ostentam uns primores d'arte hydrographica attestando que os ministros
segregaram perfeitamente o phosphoro, o rodovalho--comeram o peixe e
mais a isca. Os amphitries, esses representam o anzol do anexim; mas,
norteando a outras regies, revelaram uma phantazia oriental, malabar,
nos jogos de Bancos.


PARENTHESIS

O AUCTOR (_ parte_)

No Porto ha um grupo invulneravel de negociantes que preservam
incontaminadas as tradies da probidade antiga. So esses os mais
expostos ao azar de partirem os braos, se tentarem encravar as
engrenagens dissolventes. No ha fortuna grangeada com honra que ouse
atravessar sem mdo as maltas dos salteadores que sahem s encruzilhadas
da politica, se no topam viandantes incautos nas incruzilhadas do
negocio.

Se a estocada dos melindres resvalou no arnez d'esta satisfao dada aos
homens de bem, fecha-se o parenthesis.

      *      *      *      *      *

--Que ha de novo, madame Brillat-Savarin?

Esqueceu-me prevenir-te, Thomaz Ribeiro, de que eu chamava _madame
Brillat-Savarin_  Gertrudes. Custava muito aos melindres estheticos do
meu espirito caprichoso em onomastica chamar-lhe _Gertrudes_, um nome de
que resa o Agiologio,  certo, mas no sa lyricamente a orelhas
classicas nem romanticas. Auctorisado com as minhas faculdades
poeticamente episcopaes de chrismar, chamra-lhe _Gertruria_. Ella,
porm, no comprehendendo a delicadeza do imperfeito anagramma, tomava-o
como galhofa. Depois, fiz-lhe entender, que os seus talentos a
nivellavam com um auctor de fama universal nas delicias do paladar, e
por isso me deixasse dar-lhe a ella, feminisando-o, esse nome glorioso e
novo no mais descurado ramo das artes uteis entre os portuguezes,
incultos hottentotes quanto  culinaria, nutrindo-se com um _menu fort
chiche_, pouco avantajado  cosinha dos epicos Affonsos que no
conheceram os alimentos nervosos, e devoravam, para acerar o musculo,
javalis inteiros na braza como os esquims comem os ursos e os kangurus.
E Gertrudes consentiu que eu, maridando-a espiritualmente com o immortal
regalo da Frana, lhe chamasse _madame Brillat-Savarin_.

Contava-me ella ento os jantares que dirigira, a pedido de quem e para
quem, com interessantes pormenores, miudezas, bisbilhotices,
ridicularias da vida intima. Dest'arte, estava eu em dia com o
evolucionismo politico, com a sociologia, com a ethnographia, com as
crizes catemeniaes da CARTA constitucional, com o fomento das obras
publicas, especialmente barras de Leixes e Foz. Emfim, eu sabia tudo,
sem resalva das abominaes procedentes do fogo; e os deuses me so
testemunhas de que eu em cento e tantos volumes de analyse de ruins
costumes nunca fiz mo uso dos segredos de Gertruria, quanto a uns
pasteis de lagostins e mexilhes que ella cosinhava, a pedido de varias
familias, para entreterem sempre accso o fogo da amisade--o fogo
sagrado das vestaes, segundo a lei Ppia.

      *      *      *      *      *

Agora te vou contar como ella me salvou aos vinte e tres annos.

Em 1849, a invaso subita de uma anemia vampirisou-me o pouco sangue
desoxigenado, desfibrinado, e me poz os ossos em decomposio
gelatinosa, a ponto de me deixar em uma ressicao ssea; e, se eu ia
durando,  porque j me no restava carne em que se aferrasse a garra
adunca da dura Parca de ento, ou da sinistra rameira como ultimamente
lhe chamam os vates.

Gertruria, desde que eu fui  cama, visitava-me a miudo no
Hotel-Francez, na rua da Fabrica, um velho palacio que tinha ao rs da
rua a officina e escriptorio do _Nacional_, redigido pelo professor
egresso Antonio Alves Martins, Almeida e Brito, Damazio, Parada Leito,
Nogueira Soares, Evaristo Basto, Lobo Gavio, Eu tinha a meu cargo a
seco das frioleiras. O meu chorado amigo bispo de Vizeu exterminra-me
do districto srio do jornal, quando descobriu que os meus
_artigos-de-fundo_ eram commentarios perpetuos e paraphrases miguelistas
ao _Rei-chegou_, escriptas _un peu  la diable_. E, na verdade, Thomaz
Ribeiro, eu, quelle tempo, sentia pelos monarchas absolutos tamanho
affecto quanto  o odio que hoje professo  canalha absoluta. Um dos
meus collegas do andar-nobre d'aquelle edificio de papel ordinario da
Abelheira, Sebastio d'Almeida e Brito, dous annos antes, sendo ministro
da Junta Suprema do Porto, quando viu a rel armada, urrando morras aos
cabralistas proprietarios, enfardelou a sua bagagem para emigrar para
Tuy. Alguns dos outros meus collegas nada enfardelaram, porque pouco
mais tinham que estylo, um glossario de phrases redondas e polidas como
bolas de strychnina contra o conde de Thomar; alguns cabealhos de
proclamaes ao Povo chamando-lhe rei coroado de espinhos; a tragedia de
Jesus, o calvario, a esponja, etc., a proposito de um patriota eximio a
quem os caceteiros chamrros amolgaram duas costellas; varios threnos
gemebundos sobre a patria agonisante de Viriato, da Brites
d'Aljubarrota, de Joo Pinto Ribeiro e Fernandes Thomaz; e, afra isto
que  de facil transporte para quem emigra, todos tinham palpitantes
anhelos na carta de conselho, nas dragonas de general, na escrivaninha
de direito, no baculo prelaticio, etc. Pois todos aproaram e abicaram 
terra da promisso: s eu fiquei um perpetuo cultor da seco das
frioleiras. Nem sequer j possuo uma e unica distinco que tinha, por
que ha muitos annos se dissolveu, sem ser dissoluta, a _Philarmonica_ da
Rua das Hortas de que fui socio; de maneira que hade ser muito difficil
provar-se perante a posteridadade perplexa, a minha identidade de
portuguez do seculo decimo nono por falta de um habito de Christo. Nem
um habito de Christo at  data d'esta! Que este suspiro te no chegue 
alma como um remorso,  Thomaz Ribeiro, ex-ministro do reino,
ex-claviculario do cofre das Graas rgias! Ah! no. Eu sei que me
consideras sobejamente afidalgado com as caricias das outras Graas
parnasianas, filhas de Jupiter e de Venus, tres tarascas incortiadas,
flatulentas, com hysterismos senis, fistulas e dres ostecopas,
repercusses de antigas lubricidades, em saturnaes de batuques
compassados por cithara e arrabil com os lascivos Aonios e Melybeus nos
outeiros monasticos, nas academias, e nos natalicios das Marcias e
Francelias. Sim: ns c vamos vivendo, ellas e eu, n'um soccorro mutuo
de cataplasmas de linhaa, de rap e chs de tilia.

Tudo mais acabou. O palacio ardeu; os meus mestres e camaradas do
_Nacional_ morreram todos; e este arcaboio, que resta e conserva o nome
que eu tinha ento, devem-o  Gertrudes a litteratura nacional e as
dezenas de boticas que eu tenho consummido, como um suicida recatado que
no quer escandalos.

      *      *      *      *      *

Foi assim que ella me salvou ... Mas receio enfastiar-te, meu amigo, sem
chegar a sensibilisar-te. O exterminio da Rhetorica foi uma calamidade
para os que pretendem commover. A gente, dantes, conhecia umas figuras
de eloquencia que puxavam arithmeticamente um certo numero de lagrimas
das coisas, _lacrimae rerum_, aos olhos das pessoas. Se a glandula do
liquido sentimento no se abria ao toque da metaphora, era seguro
fender-se golpeada pela penetrante hyperbole. Hoje em dia j se no
chora seno com uma ophtalmia. De mais a mais, os artistas superiores no
officio de escrever, alveneis do templo da Memoria, Vitruvios e
Possidonios do eterno Pantheon, com pouca argamassa de phrases,
ageitavam uns rendilhados nichos de immortalidade para os seus amigos,
em quanto eu, cabouqueiro de obra grossa, terei de ser enfadonhamente
palavroso para esquadriar uma lousa, brunil-a, gravar-lhe um _vale_ de
saudade agradecida, e assentai-a sobre uma campa ... Uma campa! No a
teve a pobre Gertrudes. L se desfez na leiva barrenta de qualquer adro
desconhecido d'aquellas desoladas charnecas do Douro.

      *      *      *      *      *

Assistira, um dia, Gertrudes ao meu jantar e viu que eu me confrangia
enjoado pelo espectaculo repulsivo de meia franga recozida e um caldo
branco em que boiavam uns olhos amarellos da enxundia do oveiro da ave.
Ella cheirou de longe o caldo fumegante, e disse com engulho:

--Captiva! isto nem com fome de co se podia tragar!

Que o medico me no deixava comer outra coisa,--balbuciei to extenuado
e offegante que me parecia despegar-se o ultimo colchete da existencia
n'um esvahir de desmaio.

--Sinto-me morrer ...--murmurei flebilmente.

--E morre decerto!--confirmou ella com sinistra solemnidade--morre, se
no mudar de comida. Quer que eu o ponha rijo? Diga  dona da hospedaria
que a sua enfermeira e cozinheira sou eu.

No esperou resposta e sahiu. Pouco depois, voltou muito afreimada,
tirou a mantilha de sarja, mudou de calado para no fazer bulha com os
taces das botinhas, cingiu um leno na fronte recolhendo os bands,
atou um avental de riscadinho na cintura e foi para a cozinha. Quando
entrou com uma caoula coberta, o perfume vaporado do rebordo da tampa
abriu subitamente no meu olfacto uma fonte de vida, uma sensao entre
espiritual e nazal, um quasi extasis, como a evidencia da immortalidade
do _eu_. Arranjou a meza de leito com o talher, afofou-me as
travesseirinhas nas costas angulosas, escadeadas como um pedao de velho
cancllo desengonado, a cahir das dobradias despregadas,--e passou
para uma travessa o acepipe fumegante. Eram duas mos de boi guizadas,
loiras, de uma unctuosidade oleosa que punha caricias ferozes nos
dentes, e aguava na abobada palatina as cobias dantescas do faminto
Ugolino e de um professor portuguez de instruco primaria. Devorei uma
das mos, sopeteando no molho pedaos de po que engulia inteiros,
soffregamente, n'uma intallao.

--Poderei comer a outra mo, snr. Gertrudinhas? perguntei esperando em
anciosa incerteza a resposta duvidosa.

--Se tem vontade, coma. Que sente l por dentro?

--Fome, snr. Gertrudes, fome!

--Ento coma; a natureza que lh'o pede,  por que no lhe faz mal.

E no fez. Fumei um charuto que at quelle momento me nauzera. Pedi
caf e cana de Paraty. Estive quasi a pedir as calas para me levantar.

--Nada de boticadas! intimou ella; e, pegando em dous frascos de pilulas
de ferro de Blaud e de Vallet, e de meia garrafa de vinho quinado
despejou tudo na primeira vasilha concava que se offereceu  sua
indignao.--Fra com a porcaria!--bradava gesticulando, com a clera
scientifica e a justia indefectivel de um medico homeopata.

No dia seguinte deu-me de jantar troixas de recheio, bifes de presunto
de Melgao e meio melo. O medico assistente, o Joo Ferreira, grande
clinico, veio  tarde, e poz-se a farejar.--Que lhe cheirava a melo! se
eu praticra a loucura de comer melo?!--A Gertrudes acudiu  minha
perplexidade:--que fra ella quem o comra; que eu, coitadinho, estava a
caldos e aza de franga, uma desgraa!

O doutor tomou-me o pulso, e fez um gesto de satisfao
tranquillisadora:--que eu estava melhor quanto ao pulso, um pouco
rapido, mas regular; auscultou-me a regio precordial; j mal percebeu o
_ruido de folle_; porm, continuava a fariscar o melo, desconfiado,
chegando o seu descompassado nariz absorvente ao meu perfido halito,
quando me auscultava as arterias carotidas.

 noite, visitou-me outro medico, interessado na minha cura duvidosa,
como amigo. Era Camara Sinval, lente da Escla Medico-Cirurgica, um que
prgava, no por hypocrisia, mas por paixo desvairada da Arte dos
Vieira e Bourdaloue, sermes ultramontanos empavezados de sapiencias
academicas com grandes empolas de latim pago. Nunca me receitava. Para
as insomnias mandava-me lr philosophos e poetas epicos. Disse-me que,
na sua clinica, empregava primeiro as epopeas desde a _Iliada_ at 
_Henriqueida_; e, em ultimo recurso, os systemas philosophicos desde
Plato at Victor Cousin. Que tivera--contava--um doente de insomnia
rebelde que resistira singularmente ao 1. e parte do 2. Canto dos
_Luziadas_; mas, perdidas as esperanas de anesthesia, lhe lra duas
paginas de Kant, e o enfermo ficra sopitado n'um lethargo de
Epimenides. Aconselhou-me a Homeopathia, medicina inoffensiva e de
vantagem para fantasistas supersticiosos. Apenas lhe achava o defeito de
ter entre os seus medicamentos uma _Eufrazia_ e uma _Ignacia_; por que,
se tivesse tambem uma _Athanasia_, seriam as trez Parcas com pseudonymos
lethaes. Entretanto, achou-me espantosamente melhor. No acreditava.
Queria saber o que eu tinha tomado. Referi-lhe a verdade--as mos de
boi, os bifes de presunto, as troixas, o melo, a Providencia, sobre
tudo a Providencia na pessoa de Gertrudes.

-- uma grande clinica a Gertrudes, disse elle; mas, se ella manh lhe
der lampreia, congro de caldeirada, timbal de camares ou sallada de
pepino, aconselho-lhe que se abstenha. A morte pela fome e a morte pelo
enfartamento andam sempre de brao dado.

--Mas, se a natureza pede ...--atalhei plagiando Gertrudes.

--Nada de pantheismo. A natureza compe-se de dois elementos em
propores desiguaes: Deus como um, e Diabo como trez. Sou manicheu.
Apenas concedo ao Bem a quarta parte de aco na regedoria do universo.
O Diabo  quem faz os venenos dos vegetaes e dos mineraes, o frio que
gela o sangue e o calor que abraza o cerebro, e a hydrophobia, e o raio
e os terramotos, e a cholera asiatica, os miasmas homicidas dos pantanos
e cavernas, e, sobre todos os flagellos, o homem que, fornecendo uma
pequena parte de si, uma costella, produziu essa pessima coisa--a
mulher. No se fie na natureza, e muito menos na humana, por que essa 
a mais corruptivel, e a mais fetida quando apodrece de todo. Por
emquanto v comendo as mos de vacca; mas fique por ahi que no v
metter os ps pelas mos.

Isto, com embrechados de latim de Horacio e da Biblia, abalou-me quanto
 dieta.

      *      *      *      *      *

Conversemos um pouco a respeito d'este medico, meu querido Thomaz
Ribeiro. Sinval era geometricamente materialista, uma razo emancipada
das intercadencias pathologicas da F. E fazia e prgava sermes nas
egrejas catholicas. Como n'esta fara da vida  ridiculo o papel dos
homens mais intelligentes! Era atheu; por que se existisse Deus (dizia
o precto) duas das suas muitissimas perfeies seriam a Bondade e a
Presciencia. Ora a _maldade_ da creatura contradiz a _bondade_ do
creador; e a _liberdade_ do homem, condemnado por causa d'ella, faz
repugnancia  _presciencia_ de Deus que teria creado o homem livre para
o condemnar como insubordinado. Cacologia!--exclamava elle.

Mas que falta de logica! Se eu, n'um impeto de erudio entupidora, lhe
citava o invicto argumento de Voltaire: Se no existisse Deus, seria
preciso invental-o, Sinval respondia-me com Diderot: _C'est ce qu'on a
fait_. E quem ficava entupido, a final, era eu, por que as minhas
lettras theologicas eram uma lastima. Havia de ser hoje!... Quanto 
immortalidade da alma, dizia elle que havia de esclarecer-se depois da
morte. Eu no lhe replicava, por tambem me parecer esse expediente o
mais acertado.

--Mas desconfio que todas as minhas trez almas so mortaes--acrescentou
elle.

--Trez?!

--So trez as almas que o divino Plato me concede no _Timeu_. D-me uma
alma immortal na cabea, e duas almas mortaes, uma no peito, e outra na
barriga, separadas pelo diaphragma.

E, com effeito, verifiquei depois que Plato, considerado por alguns SS.
PP. o precursor do christianismo, dava trez almas a cada pessoa; e, nas
minhas especulaes physiologicas, encontrei sugeitos com as trez almas,
porm todas na barriga.

Lembram-me algumas definies d'este sensualista que sabia o seu
Lucrecio de cr. Definia elle a virtude _um producto artificial da
politica e da vaidade_. Aqui ha bastante sensatez; mas esta definio
estava dada por Mandeville e impugnada por Berkeley, seculo e meio antes
de Sinval nascer.

Definio do _homem_: O homem  um organismo servido por bons e mos
instinctos, alguns mais ferozes que os das alimarias, e nenhum to
intelligente como os do castor, das formigas e das abelhas; alm d'isso,
tem o dom da palavra, se lh'a ensinam, e vai muito alm do papagaio em
glotica. Ha uma s distinco que extrema o homem de todos os outros
animaes ...

--A alma--interrompi eu perspicazmente.

--No. A mentira. O homem  o unico animal que mente.

Definio da _vida_:  uma alternativa de assimilao e desassimilao,
de secreo e excreo. _Pensamento_  o resultado de combinaes
chimicas.

--Ento, vida organica e vida da consciencia  tudo chimica? E o Amor
tambem?

--, e da mais grosseira e trivial, por ser a unica exercitada na
retorta do boticario da aldeia. O amor do homem primitivo e selvagem era
uma paixo genesica, typica, servida em todo o reino animal por orgos
identicos, histiologicamente e physiologicamente semelhantes, e a final
de contas uma funco exosmosica de um lado e endosmosica do outro,
percebe voc? O amor do homem actual e culto  a mesma exuberancia bruta
do organismo, modificado por alguns sonetos  fmea; porm, no fundo da
Natureza, est o inalteravel _clich_.

E eu, melancolicamente, com gestos desolados:

--Com que ento, _endosmose_ o amor de Beatriz, de Laura e Leonor!...
oh! oh!

E elle sorridente:

--_Sensiblerie_ piegas, amigo meu, as suas interjeies theatraes. Se
Beatriz e as outras meninas, em vez de gerarem, por inspirao, sonetos
e poemas, tivessem occasio de gerar meninos robustos--com o qu a
litteratura de cabotagem teria perdido bastante--voc mal poderia
explicar-me transcendentalmente o phenomeno psychico do amor do Dante e
dos outros e de Beatriz e das outras. Nas regies selvaticas onde o
sensualismo se retoia desenfreadamente em promiscuidade de homens e
mulheres, como classifica voc esse estimulo bruto da carne?  talvez o
classico Cupido que desembesta do arco flechas de amor aos coiros fuscos
dos australezes, hein? V perguntar a um cafre kuza se elle sabe o que 
_amor_, e pergunte  cafrina se ella entende o que seja _pudor_ ...

--Perdo! o pudor  universal, particularmente nas mulheres sem excepo
das raas mais atrazadas. Haja vista s tangas ...

--Ora muito obrigado pelas suas tangas ...--atalhou Sinval a impulsos de
riso.--O celebre viajante Cook, na sua _Primeira viagem_, conta que em
Taiti as mulheres, por um refinamento de educao esmerada, quando
cumprimentam alguem, exhibem aquella metade do corpo menos usual nas
exposies ao ar livre.

--Quo delicadas!

--E quo pudibundas!... Ha tribus selvagens, alis muito castias, em
cuja linguagem falta a palavra _amor_, nem mesmo conhecem o beijo, essa
mimosa delicia da epiderme que os homens aprenderam dos pombos e das
rolas, por que a bsta humana era incapaz de inventar o beijo.

D'uma vez, resentido com aquella _litteratura de cabotagem_ em que elle
mentalmente me classificava, e, de mais a mais, ferido nas minhas
convices metaphisicas, sahi  lia impavidamente, e discorri por
largo, e bem, com muita felicidade, provando a existencia de Deus pelo
facto da minha existencia, e a divina formao do mundo pelo facto da
materia bruta no se poder espontaneamente formar a si, alis o homem,
materia menos bruta, faria alguma coisa com elementos novos.
Innegavelmente despenhei-o; mas elle, como o Lucifer de Milton e do Braz
Martins no _Santo Antonio_ ainda regougava l do fundo do abysmo:

--Voc conhece a philosophia de Xenophanes?

Fiz um gesto de cabea affirmativamente patarata, e elle proseguiu com
um riso mordazmente suspeitoso de que eu no sabia nada de Xenophanes.

--Xenophanes--disse Sinval solemnisando o aspeito--aos noventa e dois
annos de idade lia os seus poemas didaticos de moral santa, e pedia
esmola aos ouvintes para sepultar os filhos. Morreu mais de centenario
estudando sempre; e, pouco antes de expirar, fez esta profecia: Ninguem
soube, nem sabe, nem saber nada respectivamente a Deus e  formao do
mundo; e aquelle que mais egregiamente fallar d'essas coisas, ser to
ignorante como os outros. Ora voc acaba de fallar egregiamente.

E retirou-se, provavelmente, confundido.

Nunca me esqueceu a opinio scientifica d'este medico a respeito do
adulterio. Dizia elle com aprumo cathedratico e um sorriso
rabelaiseano:--Esposa perfida e esposo trahido so effeitos necessarios
e fataes de influencias celestes--coisas do Zodiaco. Uns homens, os
seductores, nascem no Signo de Leo, e d'ahi vem chamarem-se _lees_;
outros homens, os minotaurisados, nascem no signo de Capricornio, e
d'ahi vem chamarem-se o que voc sabe.  como eu penetro n'esta escura e
hedionda voragem do adulterio, com o facho mathematico da Astronomia.

--Em que Signo nasceria eu?--murmurei meditabundo, ingenuamente.

E elle, com solemnidade comica:

--No Signo de _Libra_ no seria por que o vejo bastante falho d'essa
especie. Persuado-me que seria no de _Caranguejo_, (_Cancer_) quando
leio na gazeta as suas theorias sociologicas; mas,  vista do candor
donzel da sua lyra amorosa, bem pde ser que voc nascesse no Signo de
_Virgem_ (_Virgo_). Fsse como fsse, fao votos amigos e sinceros por
que no nascesse no de _Capricornio_, nem no de _Touro_ (_Taurus_), nem
no de _Carneiro_ (_Aries_), por que todos tres possuem excrecencias
symbolicas por onde se explica a profuso dos influenciados. Ha pontas
de mais no Zodiaco, no acha?

--Sim, acho bastante sortido o Zodiaco. Parece a capital de um reino
civilisado.

--Pois os legisladores no percebem d'isso nada. Esto ainda com o
direito canonico da idade-mdia, permittindo que o trahido mate a
adultera, e mandando em paz o marido adultero colhido em flagrante
delicto. E note voc--exclamava Sinval n'uma irritao de consciencia
revoltada--note voc que a legislao christianisada da idade-mdia,
muito cruel para as mulheres e indulgentissima para os homens, era feita
sob o influxo dos concilios! Realmente as mulheres devem grandes
obsequios ao christianismo, e pdem fiar-se nos prgadores e nos
moralistas _rococos_ dos Semanarios religiosos que, uns por ignorancia e
outros por obrigao do officio, a bigodeam com a sua emancipao! A
certos respeitos, no ha paiz como este nosso para ossificaes de umas
certas ignorancias convencionaes. Conta-se que Jesus perdora a uma
adultera, por que entre os seus proprios discipulos e o mulherigo que a
seguia escandalisado na piugada dos esbirros, no havia creatura limpa
do mesmo peccado que lhe atirasse a primeira pedrada. Bem boa corja,
_cela va sans dire!_ Pois, quer seja facto, quer seja parabola, temos
muito que deslindar entre a philosophia messianica de Christo e a
religio dos christos. O ideal humanissimamente caridoso de Jesus,
quanto  fragilidade da mulher, no tem que vr com o _Matrimonio do
jesuita_ Sanches e o _Livro V das Ordenaes_. Logo que Jesus, immolado
inutilmente  arraia-miuda da Galila, fechou os olhos, as adulteras
judias e as conversas ao christianismo deturpado de Paulo, continuaram a
ser apedrejadas; e, rodados 1849 annos de civilisao desde a tragedia
do Golgotha at  comedia da Carta-Gaioso, certo artigo do Codigo Penal,
que nos rege, permitte que o esposo trahido estrangule a adultera, sem
lhe dar tempo a invocar o misericordioso perdo exemplificado por
Christo. Pobres mulheres! que rica emancipao![2]

Este trecho de discurso no era incontestavelmente um modlo de
eloquencia do pulpito catholico; mas o caso  que eu no sabia ento
destecer-lhe os fios do sophisma. Havia de ser hoje!... E este
homem--que tinha um talento anecdotico, relampejante de remoques de
Swift e de Voltaire, ironias feitas de potassa caustica, indultando com
risos sarcasticos os vicios sociaes que afogam em lagrimas as suas
victimas--Camara Sinval padecia no cerebro uma doena irrisoria, a
monomania de prgar sermes bombasticos crca do S. Sacramento, que por
ahi andam em um grosso volume posthumo, com um prefacio meu, ha mais de
vinte annos. A prosa de Sinval tinha a sonoridade rythmica do verso
heroico. Possui impressa uma das suas oraes proferidas na abertura das
aulas medico-cirurgicas. Comeava assim: _Tem o sanhudo leo falcadas
garras, tem a timida lebre agudo ouvido, vista perspicaz a aguia
generosa ..._ So trez hendecassyllabos arcadicos bem feitos, pomposos.

      *      *      *      *      *

Voltando  minha enfermidade mortal, no dia seguinte restringi-me ao
bacalho assado muito saturado do alho estomacal. O bacalho conquistou
na moderna therapeutica das gastrodyneas, nas dyspepsias e gastrites
chronicas uma reputao tonica, restaurante; quanto ao alho, esse gosa
creditos de antidoto da raiva; porm, n'aquelle tempo, o reles pescado
da Terra Nova era considerado comestivel apenas assimilavel a estomagos
de patages, com a potencia digestiva de ogres; e, a respeito do alho,
pessoa que cheirasse a elle tinha as inquiries tiradas desde malandro
at scelerado.

Como quer que seja, eu, alternando o bacalho com as tripas de boi--as
tripas, o heroico brazo do Porto--um complexo aphrodysiaco de chispe,
de paio, aves, hervanos e coloro, recuperei, ao cabo de duas semanas,
foras extraordinarias e tamanhas que, n'um transporte de gratido,
levantei Gertruria e passei-a triumphalmente nos meus braos. Quando as
chloroses e as anemias esto grassando nos grandes centros como doena
endemica da gerao nova depauperada, eu faltaria ao sagrado dever
altruista, se no offerecesse este boletim sanitario aos que padecem.
Que elles principiem pela mo de vacca e concluam a sua cura com tripas
sortidas.

Entretanto, o doutor Joo Ferreira propalava a minha cura da perigosa
opilao como a mais rara e inesperada da sua clinica, mediante o ferro
e o vinho quinado. Tinha-me arrancado das przas da morte, dizia-se; e a
minha engomadeira, uma devota velhinha, asseverava que fra o martyr S.
Torquato de Guimares que a obsequira mais uma vez, curando-me.

      *      *      *      *      *

Depois, no resvalar de doze annos, as vagas aparcelladas da minha
derrota em demanda do Prestes-Joo do Ideal, sendo piloto o marido asss
conhecido de Psyche, baldearam-me a regies inhospitas onde no podia
encontrar Gertrudes. Nunca mais a vi; mas, como a saudade me estava
sempre negaceando para aquelle tempo, a imagem d'ella acompanhava as
minhas recordaes de perdas irreparaveis, desde uns aureos sonhos de
trovador que eu sonhra, at outros sonhos de farinha e manteiga que a
Gertrudes fazia com o auxilio dos ovos. Eu sentia, a um tempo, o perfume
dos anhelitos de Marilia bella e o das murcellas incomparaveis de
Gertruria. A vergonhosa dualidade do corao do homem! Se no fossem as
falacias metrificadas, e o lyrico, depondo o alaude, se confessasse
ingenuamente em prosa, no haveria arrbo de alma que no sahisse
apelintrado pela concumitancia ignobil das caoulas.

      *      *      *      *      *

Quando li a noticia da morte de Gertrudes, e no pude duvidar que a
naufragada era a minha restauradora, meditei solver a minha divida de
gratido com um artigo necrologico, por no ter sufficiente confiana na
utilidade de uma missa _de requiem_, a doze vintens, vinho por conta do
padre.

Eu tinha pertencido por algum tempo a uma sociedade de homens de
lettras, quasi exclusivamente dedicados  especialidade necrologias de
defunctos illustres. Eramos os gatos-pingados do Baluarte. Choravamos
enormes artigos bem phraseados e estrangulados de interjeies
afflictas, com epigraphes em latim, sobre defunctos analphabetos que, 
mingua de instruco primaria, no poderiam na celeste manso tomar
conhecimento da nossa prosa. Andavamos to assanhados n'esse fariscar de
chacaes o cvo litterario de carne morta que seriamos capazes de
assassinar pessoas distinctas, se as indigestes, as tuberculoses, a
cachexia mercurial, o escrofulismo, os figados engorgitados e a
pharmacia nos no dispensassem de alimentar com sangue humano o
cannibalismo da Arte elegiaca. O presidente da sociedade era Jos
Barbosa e Silva, um moo de grande talento, diplomata em Berlim,
deputado por Vianna do Castello, sua patria. As necrologias que este
adoravel rapaz estampou so as de todos os mortos seus contemporaneos,
seus amigos, seus conhecidos, ou apenas amigos ou conhecidos de uns
sujeitos que elle podia vir a conhecer. No torvelinho dos prazeres, que
todos experimentou, Jos Barbosa parava de repente a olhar para o golpho
que lhe sorvia um companheiro; e, como presagiava morrer aos vinte e
oito annos, quando carpia os outros, ponderando a tristeza da morte,
parecia chorar sobre si mesmo.

Fallecido Barbosa e Silva, o maior numero de seus amigos escriptores
tomou a srio a desgraa da morte, e experimentou a impossibilidade de
escrever necrologias quando a dr  sincera e inconsolavel. Os socios da
instituio carpideira j quasi todos naufragaram por essas restingas
dos cemiterios. Os raros que ainda restam, sentados  ourella do rio
negro, encolhidos, a tiritar na algidez de decrepitos, e de mos
inclavinhadas nos joelhos, ainda ouvem as commemoraes funebres da
actualidade, e por vezes rejubilam na sua jactancia senil quando se vem
plagiados n'estas frmas da necrologia moderna:

     Mais uma saudade para a terra, mais um anjo para o co, etc.

     Mais uma vida ceifada em boto pela fouce, etc.

     A aza negra da impavida morte acaba de roar as faces do nosso
     amigo, etc.

     A sangrenta Parca acaba de cortar, etc.

     A cega Atropos que tanto bate  porta do palacio como da choupana,
     etc.

E estes dizeres que j fram formulas srias, sacramentaes, e estimulo a
torrentes de lagrimas, so hoje em dia uns humorismos inconscientes que
despojam a morte de toda a sua respeitabilidade e circumspeco.

      *      *      *      *      *

Pois, Thomaz Ribeiro, no pude redigir a necrologia de Gertrudes!

Tu que s sensivel e conheces os arcanos da arte,--que possues illesas
do golpe dos desenganos as cellulas funccionaes das illuses queridas,
(isto --a alma incolume, com as suas 3 potencias, numerao antiga); e
conservas a candura juvenil do corao, (_corao!_ o musculo nutriente
com auriculas e ventricolos!--releva o archaismo provenalsco que me
faz coevo de Macias, o Enamorado), do musculo, digo, que no encaneceu
em breves annos de infortunio sem treguas; e, na idade da prosa de
ministro da cora, ainda te commoves sob o impressionismo affectivo do
inolvidavel poeta do D. JAYME, imaginas, porventura, que eu no pude
escrever por que as dres immensas so mudas, e os repelles da paixo
turbulenta impedem que a phrase se acepilhe e pula e arredonde. Agradeo
o teu conceito que ao mesmo tempo me lisongeia e adultra; mas a razo 
outra-- deploravel. Queres saber por que no escrevi a necrologia da
humilde mulher que me salvou?--foi por que ella me salvou como
cozinheira. Por mais combinaes que fiz com as grosas de allegorias de
que dispunha, por mais embrechados de figuras que os canones de
Quintiliano me liberalisassem, no atinei com uma evasiva consentanea
com a minha cathegoria de philaucioso casquilho em _redingotes_ do
Catarro e lettras amenas. Eu tinha escripto bastantes artigos funebres,
catadupas de pranto sobre os esquifes de matronas vrias que haviam
nascido _gertrudes_, e do tamborte da cozinha avoenga se esvoaaram nas
azas da bebada fortuna para os divans bysantinos e d'ahi para os jazigos
marmoreos. A penna corria-me de vontade, no fremito da inspirao, e as
perolas, crystalisaes do muco lacrimal, saltavam-lhe dos bicos quando
a defunta levava atraz da sua podrido muitas carruagens, e era
suffragada na egreja refulgente de tochas, em uma neblina de incenso,
por uma berrata fanhosa e barbarsca de levitas, com barrigas
basilicaes, que decerto, se os transportassem s misses africanas,
ririam s escancaras da algazarra que fazem os cafres  volta de um
morto.

Figurou-se-me, alm d'isso, que a imprensa, moderadamente democratica e
cheia de conveniencias melindrosas, se constrangeria tolerando nas suas
columnas, por comprazer  minha ridicula magua, a necrologia da
cozinheira Gertrudes. De mais a mais, eu no sabia como alar o estylo
prismatico, de adjectivos rutilos, de modo a deslumbrar a critica soez,
e a no desafiar o sorriso gaiato dos dandys pela importancia que eu
dava  minha sanidade physiologica restaurada pela mo de vacca.
Ser-me-hia talvez possivel equilibrar na gymnastica de locues
explosivas, victorhuguescas, onomatopaicas o interesse da morta,
descrevendo o naufragio do barco rabllo com os horrores do brigue
_Mondego_ ou da fragata _Medusa_. Eu conhecia umas esfusiadas
pyrothechnicas de metaphoras que punham enthusiasmos furiosos na
dramatologia epileptica do Theatro-Normal, volcanisando as familias
incendiarias da rua dos Bacalhoeiros; e ainda agora no passam de todo
despercebidas  minha pasmaceira de minhto palerma.

Ainda cheguei a ensaiar o genero ... _Os relampagos afuzilavam ... O co
phosphoreava as suas lampadas sinistras para vr a lucta do abysmo. Eram
os albatrozes, n'um arquejar estridente, a pairarem na treva superior
com as suas azas de fogo. As aguias do Maro, acossadas pelos bulces
das cumiadas, acolhiam-se s concavidades da serra, e passavam grasnando
o threno da desolao por sobre o paroxismo dos naufragos. Zuniam
furaces assobiando pelas espaldas angulosas dos penhascaes ... A
tripulao, n'um clamor de agonias, a bradar misericordia! ... O baixel
arfava no dorso do vagalho, ou, cuspido s nuvens, resvalava na voragem
onde as pranchas descosidas ringiam asperrrrrrimamente._
(Onomatopeia) ... _Castellos de nuvens atras desabavam_ _n'um estrallejar
de ribombos; o escarceu verde-bronze, topetando com o ether zebrado de
coriscos, baqueava-se depois n'um marulhar de espumas rugidoras ... O
cahos de cima a descer, a descer com a mortalha de treva sobre o abysmo
que subia, subia n'uma ressonancia de maldies ao FIAT, creador das
sevas angustias ineluctaveis do homem. E o naufrago cravava olhos
piedosos no co; e via listrarem-se as centelhas dos raios, como se os
Titans revolucionados arrojassem  cara de Jupiter as escumalhas igneas
das suas forjas. E o baro de Forrester, ao portal, hirto, impavido
como Nelson no Trafalgar.., etc._ Tudo isto e o resto me sahiu ao
pintar, e exacto como uma photographia, na descripo de um desastre de
barco de pipas ido a pique entre dois calhos do Douro; mas, a final, o
que eu no sabia era diluir em synonimias e paraphrases coherentes com a
tremenda catastrophe o qualificativo cozinheira. Ainda se Gertrudes,
filha de um desembargador miguelista ou d'um brigadeiro capitulado em
Evora-Monte, com alguns appellidos historicos, houvesse descido as
escaleiras da necessidade, sem deslise da honra, at  baixeza do seu
officio, talvez que eu ousasse arcar com a necrologia, apostrophando o
flagello da guerra civil que acorrentou  grilheta do fogo e da bateria
de panellas aquella mulher nascida para rastolhar, sobre tapetes,
_moires_ crepitosas, laminadas de brilhos metalicos ondulantes, e para
saltar com tregeitos desenvoltos, n'um derrengue arregaado e
esquadrilhado de _cuyre_, da estribeira do _landeau_, armorejado de
paquifes arrogantes e escudos e timbres com passaros prehistoricos e
hydras assanhadas,  porta das modistas;--para reinar, emfim, nos
theatros, no turbilho dos bailes, nos balces dos bazares
philantropicos, na Caridade-_Flirtation_, e talvez no _sport_ e no
_turf_. Mas Gertrudes no tinha appellidos: era miseravelmente
_Gertrudes Engracia_, d'um plebeismo razo, filha da Engracia, j celebre
cozinheira dos fidalgos Mellos, casada com o Bento, cozinheiro famoso
dos fidalgos Cyrnes, o qual cazra com uma cozinheira no menos
distincta dos fidalgos Pamplonas. Esta genealogia, entre duas receitas
de pudins de batata, encontrei-a escripta pelo pae de Gertrudes nas
costas do frontispicio de um velho livro que ella me deu chamado _Alivio
de tristes e consolao de queixosos_. E da mesma arvore de gerao
constava que seu terceiro av materno fra abbade de Miragaya e sua
quinta av paterna era filha de um frade loio. Estes dois clerigos
propagadores, como elementos genealogicos, no me pareceram
imperiosamente exuberantes de moralidade e justia para que eu,
apostrophando a execravel guerra civil, a responsabilisasse pela
decahida posio servil da neta do frade e do abbade.

      *      *      *      *      *

Aqui tens, Thomaz Ribeiro, um corao aberto pelo remorso que se
offerece  disseco do teu bistur. Santo Agostinho, imbecilitado pela
piedade, e J. J. Rousseau, desbragado pela sua dissimulada philosophia
cynica, deram-me o exemplo de vir  praa com a confisso tardia de uma
pusillanimidade que d a medida da miseria humana, e particularmente dos
artistas de necrologias. N'este escripto, vim justiar duas
bestialidades protervas: a minha ingratido e o clyster inglez. Agora,
sinto-me bem, muito desabafado. Talvez lhe deva a elle,  _jeropiga_
desobstruente do Forrester, este desempacho da consciencia. Ha exemplos
confirmados por aforismos de Hippocrates.

Se chegaste aqui sem fastio, s um anjo de paciencia e de problematico
bom-gosto. Decerto uzurpei  patria uma hora das tuas contemplaes
sanitarias sobre a reviso da CARTA, que anda agora mui frequente na
revista--o que me parece rasoavel, se ella, no obstante a _bigoterie_
do Artigo 6., se tornou suspeita de virginismo insufficiente para reger
um paiz pudibundo.

Seja como fr, n'este opusculo esfervilham episodios desvairados que
desatremam do assumpto e do titulo. So exuberancias que extravasam de
uma grande medida cogulada de annos e de reminiscencias. O criticismo
unhar o abuso do subjectivismo indisciplinado, a desorientao do
abjectivo impessoal, da Arte Pura com maiusculas, finalmente--o
romansco. Affoito-me, todavia, a esperar que os criticos prticos,
tendo em vista os episodios extravagantes, afra os gallicismos de que 
capaz o seu aristocrata Tokay, usaro com o meu modesto vinho do Porto
a sua costumada indulgencia generosa. E permitta a minha benigna
estrella que os almotacs d'este folheto, quando hajam de aquecer o seu
criterio no calorifico de alguma beberagem nervosa e suggestiva,
prefiram o Johannisberg palaciano ao garoto Cartaxo do _Jos dos
Caracoes_; por que, a final de contas, nem todos os criticos espiritados
por vinhos canalhas tem o _humour_ faiscante de Poe, de Hoffmann, de
Marlowe, de Zacharias Werner e de Bocage--uma constellao de bebados
immortalmente classicos.

      *      *      *      *      *

Ainda se no disse tudo.

N'este pedao de litteratura da decadencia, ou decahida de todo, observe
a critica escorreita que ha dois projectos: um  patente, o outro 
clandestino. O primeiro --arrazar Inglaterra; e, com effeito,
arraza-se. O projecto clandestino, um tanto arteiro,  obter pelo
sophisma tortuoso da lettra redonda, typo-Elzevir, o que o mercieiro
alcana com o correcto syllogismo dos azeites e dos farinhaceos. O
Espiritual ousa correr o prio com o Comestivel: a meta  o habito de
Christo. Que o mercieiro, melindrado na sua prosapia de anthropoide, no
se agaste, se eu o lano n'estas correrias de hippodromo. No lhe
conheo outros dons que o habilitem a entrar no _sport_.

Emfim, quando voltares a ministrar os negocios do reino, Thomaz Ribeiro,
no me percas d'lho o meu habito de Christo, merecido pela faanha
heroica e pouco trivial de arrazar Inglaterra. Bem vs que estas
ambies alis temerarias, confesso, no ultrapassam desmedidamente as
balisas do meu merecimento. A almejada venera  a infima, penso eu, a
mais piranga caracteristica ethnica da raa que domina esta nesga
rasgada da Espanha, (que m'o releve D. JAYME)--umas noventa leguas,
metade incultas; e, assim mesmo, na povoao d'essa metade, inam e
pompeiam, segundo conta o _Almanach Commercial para 1884_, cento e vinte
dois condes, trezentos e quatro viscondes, e cento e noventa bares.
Quanto a commendadores, quem contou as gotas do mediterraneo, as areias
do Saharah e as estrellas da Via-Lactea? Ora, a respeito do habito de
Christo, isso j agora, bem sabes,  uma coisa que se exporta para o
estrangeiro como amostra da nossa unica industria; mas envia-se
gratuitamente como os _Grands Magasins du Printemps_ nos remettem de
graa, francos de porte, os retalhinhos das suas fazendas.

Ah! que eu no morra n d'esse habito! Concedam-me, na morte ao menos,
essa insignia de christo em terra de moiros.

  _S. Miguel de Seide, abril, 20, 1884._

    [1] Quando o baro de Forrester pereceu por desastre, um dos mais
    authorisados jornaes do paiz, escreveu sentimentalmente o seguinte:
    ... A morte desgraada do snr. baro de Forrester a todos
    penalisava, pois o muito que aquelle illustrado cavalheiro se
    interessra sempre pela sorte do Douro, os bons servios que lhe
    prestou com os seus escriptos ... o tornaram geralmente estimado ...
    Mostrou-se sempre muito dedicado a este paiz, e por muitas vezes
    associou o seu nome aos dos que mais trabalharam para os seus
    melhoramentos e progresso.--_O Commercio do Porto_, de 14 de maio
    de 1861.

    Um correspondente da Regoa para o mesmo jornal e no numero seguinte,
    escreveu:  sincero o sentimento geral que produziu a noticia da
    morte do snr. Forrester, e so bem justas as lagrimas que se
    derramam por to desastroso acontecimento.  uma divida sagrada que
    se paga  memoria do distincto cavalheiro que tanto se sacrificou
    por este paiz. Portugal e especialmente o Douro muito lhe devem ...
    Apesar de estrangeiro era portuguez do corao por que poucos filhos
    d'esta patria mais fizeram por ella nem mais a amaram ...

    Parece, pois, que os exemplares da diffamao do vinho do Porto eram
    desconhecidos em Portugal. Que f nos hade merecer a historia e a
    biographia escripta por contemporaneos, quando o facto social
    erradamente julgado, ou a vida de um individuo favorecida pela
    adulao, ou deturpada pelo odio, no tiverem contradictores, tambem
    coevos, a contrastal-a!

    [2] _Nota illustrativa._--Joseph Gregorio Lopes da Camara Sinval era
    esturrado patula da Junta rebelde do Porto, e commandra com honras
    de coronel o batalho academico. Alm d'este predicado faccioso,
    Sinval tinha o exemplo do austero historiador A. Herculano, que
    escrevra: _A historia do liberalismo  uma comedia de mo gosto._
    E, resalvando as duas nobres personagens, D. Pedro IV e Mousinho da
    Silveira, accrescentra: _O resto no vale a penna da meno. So
    financeiros e bares, viscondes, condes e marquezes de fresca data e
    mesmo de velha data, commendadores, gro-cruzes e conselheiros: uma
    turba que grunhe, borborinha, fura, atropellando-se e
    acotovellando-se, na obra de roer um magro osso, chamado oramento,
    e que grita aqui-d'el-rey! quando no pde tomar parte no regabofe._
    Quanto  Carta-Gaioso a gente velha ainda conheceu no Porto a
    corista d'aquelle appellido que cantou o hymno da Carta Restaurada
    no theatro de S. Joo, e desde ahi ficou identificada, a Gaioso, com
    o codigo das liberdades ptrias.





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bestialidade ingleza, by Camilo Castelo Branco

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1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
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1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
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LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
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LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
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1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
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written explanation to the person you received the work from.  If you
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1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
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If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
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1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
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with this agreement, and any volunteers associated with the production,
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or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


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     http://www.gutenberg.org

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