Project Gutenberg's Theophilo braga e a lenda do crisfal, by Delfim Guimares

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Title: Theophilo braga e a lenda do crisfal

Author: Delfim Guimares

Release Date: May 15, 2008 [EBook #25479]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK THEOPHILO BRAGA E A LENDA ***




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     *Nota de editor:* Devido  quantidade de erros tipogrficos
     existentes neste texto, foram tomadas vrias decises quanto 
     verso final. Em caso de dvida, a grafia foi mantida de acordo com
     o original. No final deste livro encontrar a lista de erros
     corrigidos.

     Rita Farinha (Maio 2008)




Thephilo Braga

E

A LENDA DO CRISFAL




Obras de Delfim Guimares


PROSA:

*Alma dorida*, com prefcio de Teixeira Bastos, 1 vol broch.      500 ris

*A Viagem por terra do snr. Joo Penha*, (crtica literria)      1 folh. 100 

*O Rosquedo* (Scenas da vida de provncia).     Esgot.^o

*Ares do Minho* (Contos) 1 vol. broch.     200 ris

*Bernardim Ribeiro*: O poeta Crisfal (Subsdios para a Historia da
literatura portugusa) 1 vol. broch.     800 


EM PREPARAO:

*Luis de Cames.--Diogo Bernardes.*


VERSO:

*Lisboa Negra*, 1 fol.     200 

*Confidencias*, 1 vol. broch.     400 

*Evangelho*, 1 vol.     400 

*No! Mil vezes no!* 1 fol.     200 

*Sim! Mil vezes sim!* 1 fol.     100 

*Sonho Garretteano*     Esgot.^o

*A Virgem do Castelo*, (2.^a edio) 1 fol.     100 reis

*Outonaes*, 1 vol. broch.     500 


NO PRELO:

*Flores do mal* (interpretao em versos portuguses de poesias de
Carlos Baudelaire)


TEATRO:

*Aldeia na Crte*, drama em 3 actos, de colaborao com D. Joo da
Camara, representado no D. Amelia, 1 vol. broch.     500 ris

*Juramento Sagrado*, comedia n'um acto em verso, representada no D.
Maria II, 1 fol.     200 


A PUBLICAR:

*Domingo de Pscoa*, pea de costumes minhotos.


OUTROS TRABALHOS:

*A Dama das Camelias*, de _Dumas, filho_ (traduo), 1 vol. broch.     200
ris

*Saudades*, (Histria de Menina e moa), de _Bernardim Ribeiro_, edio
revista (vol. 29 da Coleco Horas de Leitura)      200 

*Trovas de Crisfal*, de _Bernardim Ribeiro_, edio revista     300 

*Versos portuguses*, de _S de Miranda_, edio revista      500 




DELFIM GUIMARES


Thephilo Braga

E

A Lenda do Crisfal


1909
Livraria Editora
GUIMARES & C.^a
68, Rua de S. Roque, 70
LISBOA




THEPHILO BRAGA
E A LENDA DO CRISFAL




I

Razo de ser d'este livro


Quando em maio de 1908 tornamos pblica a concluso a que haviamos
chegado de ser _Crisfal_ um pseudnimo do autor da _Menina e moa_, como
procurmos demonstrar no volume recentemente dado  estampa: *Bernardim
Ribeiro* (_O Poeta Crisfal_), tinhamos o convencimento pleno de que uma
tal nova, divulgada pela imprensa, seria bem acolhida por quantos se
interessam pelo estudo da nossa Histria literria, com excepo apenas
do snr. dr. Thephilo Braga. O laureado professor do Curso Superior de
Letras no perdoa a quem quer que seja que ouse discordar de suas
sentenas, nem v com bons olhos que outros, que no s. ex.^a, encarem
problemas que se prendam com a Histria da literatura portugusa.

E n'este caso do _Poeta Crisfal_, mais do que em nenhum outro, o snr.
dr. Thephilo Braga no desejava que ninguem bulisse, pelo motivo que
teremos ocasio de apontar no decurso d'este livro.

No contavamos com o acolhimento benvolo do infatigavel escritor. Para
fundamentar o nosso juizo, bastava-nos invocar os precedentes sabidos,
tristemente lembrados, e, muito em especial, o desforo pouco generoso
do snr. dr. Thephilo Braga para com a memria d'esse desventurado que
se chamou Antero,--porque o poeta incomparavel dos _Sonetos_ ousara
flagelar o dogmatismo scientfico do antigo camarada universitrio; o
fel que o plumitivo da *Historia da Litteratura* deixa transparecer nas
apreciaes com que, baldadamente, procura amesquinhar a figura
gigantesca de Herculano,--porque o insigne historiador nacional jmais
se associou aos turibulrios do filsofo comtista (sem calemburgo);--o
desdem com que o professor de literatura apoda, soberanamente, de
_gramtico_, o distinto romanista, snr. Epiphnio Dias,--por este haver
despedaado, com a autoridade do seu nome, aquela inveno alegre dos
_cantos de ledino_, em que o snr. dr. Thephilo continua a persistir,
apesar de tudo, com manifesta falta de sinceridade.

Mas no ignorando taes precedentes, e conhecendo que o estudo que iamos
apresentar ao pblico no deixaria de nos acarretar a m vontade do
autor da _Histria da Litteratura Portugueza_, nem por um momento
hesitamos em levar a bom termo o nosso trabalho, tendo em ateno tam
smente que se tratava de desfazer uma lenda, estpida como tantas
outras lendas, que privava de parte da glria a que tinha jus o nome
aureolado de um dos maiores poetas portuguses, o delicado e inditoso
Bernardim Ribeiro, o nosso querido Bernardim.

Derruamos a coluna em que se firmava um espantalho, mas erguiamos a um
pedestal mais grandioso e altvolo a figura amoravel do grande
bucolista.

A literatura portugusa s ganhava com a descoberta. Que, se alguma
cousa perdesse, era sobeja compensao o que se conquistava para a
verdade histrica...

Mas a proclamao de uma tal verdade ia prejudicar um livro, ou livros,
do snr. dr. Thephilo Braga... No havia dvida. Que importava isso?
Para reivindicar para Bernardim Ribeiro a autoria da Carta e da cloga
de _Crisfal_, no valeria a pena sacrificar uma das muitas produes do
operoso escritor?

Bernardim Ribeiro  um dos astros fulgurantes da rtila constelao que
brilha, intensa e perduravelmente, no ceu de Portugal. J conta alguns
sculos, e ainda hoje nos deslumbra o seu fulgor...

Aps a local produzida pelo snr. dr. Alfredo da Cunha no seu _Diario de
Noticias_, dando conta dos nossos trabalhos de investigao, que punham
termo  lenda de _Crisfal_, tivemos a ventura de ver que o snr. Jos
Pereira Sampaio (_Bruno_) havia chegado a concluso idntica  nossa,
como foi registado n'um brilhante artigo de Joo Grave no _Diario da
Tarde_, do Porto, confirmado inteiramente por uma carta de _Bruno_,
reproduzida no jornal citado, em que o prestigioso publicista, com a
reconhecida autoridade do seu nome, que nada deve ao reclamo, afirmava
de maneira absoluta que estavamos com a verdade; que o _trovador_
Cristovam Falco era simples produto de uma lenda, que o criptnimo
_Crisfal_ pertencia a Bernardim Ribeiro.

Do artigo do nosso camarada Joo Grave, e da carta do ilustre escritor
snr. Jos Sampaio, no faremos citaes n'esta altura. Ambos os
preciosos documentos se encontram integralmente exarados no nosso livro
_Bernardim Ribeiro_. No os desconhecem, por certo, aqueles que nos do
a honra da leitura d'este trabalho.

Como recebeu o snr. dr. Thephilo Braga essas comunicaes do _Diario de
Noticias_, de Lisboa, e do _Diario da Tarde_, do Porto?

--Passando a Jos Pereira Sampaio (_Bruno_), e a ns outros, um diploma
de ignorantes!

Em 29 de maio, um amigo salientou-nos no jornal _A Epoca_ a seco que o
escritor snr. Silva Pinto tinha a seu cargo, e que n'essa data
estampava, reproduzida do _Diario da Tarde_ do Porto, a seguinte carta
do snr. dr. Thephilo Braga:


     _Meu caro Joo Grave_:--Encantou-me o favor da sua carta,
     communicando-me o problema litterario que preoccupa o nosso velho
     amigo e luminoso critico Jos Sampaio sobre a apochryficidade do
     auctor do Crisfal, e que annuncia o primoroso litterato Delfim
     Guimares.  sempre boa a vindicao d'uma verdade em qualquer
     campo: no campo litterario e artistico, isso tem o relevo d'uma
     conquista, d'um triumpho.

     Ninguem mais desejaria que fossem possiveis, isto  realidade
     demonstrada, as descobertas de Sampaio (Bruno) ou de Delfim
     Guimares, sobre a identidade de Christovam Falco em Bernardim
     Ribeiro. *Isso, porm, no passa d'uma miragem, por falta de
     conhecimento dos existentes recursos historicos*[1].

     Diogo do Couto falla em Christovam Falco como celebrado auctor do
     Crisfal, quando narra factos praticados por seu irmo Damio de
     Sousa. Ora, Diogo do Couto, contemporaneo d'este na India,
     inventava-lhe um irmo? E tendo sido impresso o Crisfal sem nome
     d'auctor, (no _pliego-suelto_ da Bibliotheca Nacional de Lisboa)
     dava-o como auctor d'essa celebrada cloga a capricho seu? O Padre
     Antonio Cordeiro, na Historia Insulana, (resumo das Saudades da
     terra, do dr. Gaspar Fructuoso, amigo de Cames) tambem faz as
     mesmas referencias ao _poeta_ Christovam Falco. E a edio de
     Ferrara, de 1554, e a de Colonia, de 1559, inscrevendo o seu nome?
     E Frei Bernardo de Brito, fazendo a Silva de Lisardo, ou segunda
     parte do Crisfal, falla nas serras de Lor-vam, onde esteve D.
     Maria Brando, a namorada d'este poeta do Crisfal.

     Nada d'isto leva a admittir a hypothese. No emtanto, que tragam a
     lume os seus resultados. A vantagem  de ns todos.

     Com um abrao do seu, etc.

                                                  Theophilo Braga.


Para o professor do Curso Superior de Letras, a concluso a que, tanto
_Bruno_ como ns, haviamos chegado, no passava *d'uma miragem, por
falta de conhecimento dos existentes recursos historicos*, e esta
sentena autoritria vinha a pblico quando o snr. dr. Thephilo Braga
ignorava em absoluto quaes os argumentos com que ns e o insigne
publicista nosso conterrneo procurariamos fazer vingar nossas teses.

Magoou-nos a impertinncia, confessamos, e no resistimos a manifestar
publicamente a impresso em ns produzida pela prosa do snr. dr.
Thephilo Braga, dirigindo n'esse mesmo dia a seguinte carta a Joo
Grave, que este distinto jornalista fez inserir no numero de 1 de junho
do _Diario da Tarde_:


     _Meu prezado camarada Joo Grave_:--Acabo de ler, reproduzida por
     Silva Pinto na Epoca, a carta que o snr. dr. Thephilo Braga
     dirigiu ao meu caro Joo Grave a propsito do trabalho que preparo,
     em que me proponho demonstrar que Crisfal foi simplesmente um
     anagrama cabalstico de Bernardim Ribeiro, pertencendo por
     conseguinte a este lrico as poesias que uma lenda fez atribuir a
     Cristovam Falco.

     O nosso bom amigo e erudito escritor Jos Pereira
     Sampaio--_Bruno_--, como se viu da interessante carta que estampou
     no Diario da Tarde, como complemento ao artigo que o meu caro
     Joo Grave publicou sobre o assunto, chegara a concluses eguaes, e
     para mim foi extremamente grato que o nome prestigioso de Bruno
     viesse valorizar a minha descoberta com a grande autoridade do seu
     concurso.

     Ao ilustre professor, snr. dr. Thephilo Braga, afigura-se isto uma
     _miragem, por falta de conhecimento dos existentes recursos
     historicos_, que cita, desde Diogo do Couto a frei Bernardo de
     Brito.

     Peo-lhe, pois, meu caro Joo Grave, a fineza de dizer no seu
     jornal que conheo perfeitamente os _recursos histricos_ a que
     alude o incansavel historiador da _Litteratura Portugueza_, como
     no podia deixar de conhecer pela leitura das edies do Bernardim
     Ribeiro e o Bucolismo do snr. dr. T. Braga.

     Que Bruno no ignora nenhum d'esses _recursos_, estou convicto,
     que, de resto, nem o distinto escritor snr. dr. Thephilo Braga
     pde ter dvidas a tal respeito, porque isso seria fazer ofensa ao
     justificado nome literrio de Jos Sampaio.

     Para fechar, devo ainda dizer-lhe, meu bom amigo, que de modo
     nenhum eu vou sustentar que no existiram vrios _cavalheiros_ com
     o nome de Cristovam Falco. Se estes no tivessem existido no
     tomaria vulto at aos nossos dias a lenda do Crisfal!

     No o enfado mais.

     Creia-me, com verdadeira estima,

                                      seu amigo, adm.^{dor} e obg.^{do}

     S/C. Lisboa, 29-maio/90.

                                               Delfim Guimares.


A _Bruno_ tambem no passou despercebido o _amavel_ diploma do professor
do Curso Superior de Letras, e que o ilustre escritor se sentiu
melindrado prova-o suficientemente a carta que dirigiu a Joo Grave, e
que, confiados na benevolncia do sr. Jos Pereira Sampaio, vamos
trasladar das colunas do jornal _A Epoca_, que a reproduziu do _Diario
da Tarde_:


     _Meu caro Joo Grave_:--Novamente o venho importunar, pois entendo
     que, perante a carta, alis to bondosa e honrosa para mim, do dr.
     Theophilo Braga, hontem inserta no seu jornal, me cumpre consignar
     em publico, ainda uma vez, que aps o apparecimento do livro de
     Delfim Guimares, defendendo a propozio de que Christovam Falco
     no  mais do que Bernardim Ribeiro, eu publicarei o meu, j por V.
     na sua folha duas vezes amavelmente annunciado, e onde, entre
     outros, sustentarei egualmente o mesmo ponto, pensando que
     refutarei ahi cabalmente as asseres, na sua carta de hontem no
     Diario da Tarde, pelo nosso doutissimo confrade e illustre
     publicista produzidas, mostrando ento, com todo o respeito devido
     a to indefesso e insigne trabalhador, que a minha hypothese (e de
     Delfim Guimares) no  tal uma miragem e que, pelo contrario, o
     ensino corrente no assumpto  que  inteiramente phantastico e
     chimerico.

     A V., prezado collega, reitero os protestos do meu agradecimento.

                                                        Todo seu

     Porto, 27 de Maio de 1908.

                                          Jos Pereira Sampaio (Bruno).


O snr. dr. Thephilo Braga achou que era prudente no voltar  estacada,
e assim deixou passar em julgado a nossa carta e aquela em que o snr.
Jos Sampaio, por uma frma categrica, visando directamente as lies
ministradas pelo professor de literatura, declarava que o ensino
corrente sobre Cristovam Falco era _inteiramente phantastico e
chimerico_.

Na elaborao do livro: *Bernardim Ribeiro* (_O Poeta Crisfal_)
obedecemos ao propsito de no converter o nosso trabalho n'uma
diatribe, e procuramos suavizar quanto possivel a situao em que eramos
forados a colocar o snr. dr. Thephilo Braga, em obedincia  verdade,
e no porque nos animasse qualquer desejo de ser desagradaveis ao
infatigavel vulgarizador. E, procedendo assim, entendiamos cumprir um
dever, que tinha sobeja justificao nos cabelos brancos do professor do
Curso Superior de Letras, cuja primeira edio do seu _Bernardim
Ribeiro_ coincidiu com o ano do nosso nascimento. No esquecemos nunca
que fomos educados no respeito devido  velhice.

No trabalho da reviso das provas do nosso estudo, em que fomos
auxiliados pela prestante amizade de Henrique Marques, mais de uma vez
modificmos referncias feitas ao professor que contraditavamos, e
sempre da melhor vontade substituiamos um adjectivo, suavizavamos a
salincia de um erro do Mestre, desde que o nosso amigo Henrique
Marques, com o seu apreciavel critrio, nos fazia notar que uma palavra,
uma frase nossa, poderia ser tomada como um desprimor para com o snr.
dr. Thephilo Braga.

Queriamos fazer vingar uma obra de justia; no era nosso intento
agravar quem quer que fosse.

E que no fomos descortses, nem violentos, nem injustos, para com o
professor que contraditavamos, prova-o o testemunho insuspeito do
eminente publicista snr. Jos Caldas, que nos honrou com uma carta
penhorantssima, de que reproduziremos neste lugar algumas linhas:

*A delicadeza das suas referencias, com relao aos auctres cujas
concluses no acceita ou impugna,  verdadeiramente modelar.*

Se houvessemos sido menos cortses para com o snr. dr. Thephilo Braga,
s. ex.^a no se julgaria, com certeza, no dever de agradecer-nos a
oferta do exemplar do nosso trabalho que entendemos enviar lhe. E o
professor do Curso Superior de Letras escreveu-nos a agradecer o livro,
embora na sua carta transparea o despeito que lhe produziu o nosso
estudo sobre Bernardim Ribeiro, em que desvendamos vrios erros contidos
em volumes da _Historia da Litteratura Portugueza_.

Registmos aqui essa carta do snr. dr. Thephilo Braga, que no deixa de
constituir um documento interessante para aqueles que seguirem com
ateno a marcha dos acontecimentos provocados pela pendncia literria
em que estamos envolvidos.

, textualmente, como segue:


     Lisboa, 25 de Novembro de 1908


                                           _...sr. Delfim Guimares
                                            e meu presadissimo amigo_


     Muito me penhora a honrosa offerta do seu recente trabalho, em que
     apresenta o seu processo para a identificao do poeta Bernardim
     Ribeiro com o Crisfal ou Christovam Falco. A ninguem interessaria
     tanto o conhecimento d'este problema, como a mim, que esbocei uma
     biographia de Christovam Falco com elementos historicos
     (documentos authenticos) comprovando dados genealogicos. Tive de
     ler immediatamente o seu livro, para vr que materiaes traria para
     o aperfeioamento do meu trabalho. Mesmo no prologo fez-me V. a
     justia de que eu aproveitaria tudo quanto se prestasse a futuras
     emendas. Desde as noticias genealogicas trazidas por Braancamp
     Freire sobre D. Maria Brando, que Christovam Falco amou, sendo
     ambos muito creanas, via-me forado a tomar o nascimento d'elle no
     fim do primeiro quartel do seculo XVI. Isto me impossibilitava de
     continuar a admittir as relaes pessoaes de Christovam Falco com
     Bernardim Ribeiro j velho e dementado em confidencias de amor com
     um rapaz no vio da mocidade; e por tanto as Eclogas em que elle
     figurava interpretativamente tinham de ser lidas a outra luz. V.,
     acabando de fazer a destrina entre o Poeta e seu primo mais
     antigo, deu-me elementos para uma melhor interpretao das Eclogas
     de Bernardim, (eliminadas as relaes com Christovam Falco), e
     mostrando como realmente as poesias d'aquelle, como mestre,
     influiram no mais moo, que como novel chega a fazer centes e
     intercalaes de versos de Bernardim Ribeiro. Ha uma affirmativa
     historica, de Diogo do Couto, na sua _Decada VIII_, que, fallando
     de Damio de Sousa Falco, accrescenta como reforo historico:
     irmo de *Christovam Falco*, aquelle que fez aquellas cantigas
     nomeadas do Crisfal... E tambem no seculo XVI Fructuoso (resumido
     pelo P.^e Antonio Cordeiro na Historia insulana) diz de Christovam
     Falco: parente do Baro velho e do famoso poeta Christovam
     Falco, que fez a celebre Ecloga Crisfal das primeiras syllabas do
     seu nome... Tambem nas edies de Ferrara e Colonia, feitas por
     curiosos sem criterio litterario se repete a attribuio _que
     dizem ser_ de Christovam Falcam, ho que parece alludir o nome da
     mesma Ecloga. No se podem refutar por negativa estes testemunhos
     de homens de letras do seculo XVI, e que se reflectiram nos
     genealogistas. A Ecloga do Crisfal no podia ser publicada pelo seu
     auctor, nem pelo seu consentimento porque era uma _inconfidencia_
     de antigas relaes amorosas com uma senhora que estava casada. A
     edio sem data, de Lisboa, s podia ser feita por 1542, quando
     Christovam Falco estava em Roma; e quando Cames foi para Ceuta em
     1547 na carta que d'ali escreveu emprega muitos versos do
     _Crisfal_, que ento, andava no gosto. Na edio de Lisboa vem duas
     estrophes supprimidas no texto de Ferrara e Colonia, por que
     continham uma _inconfidencia_. Isto leva a explicar como Christovam
     Falco tentaria apagar a paternidade da Ecloga fundamentando-se-lhe
     a imputao com o anagramma das primeiras syllabas do nome. Os
     logares communs a Bernardim Ribeiro e Christovam Falco provam mais
     a favor da imitao de um discipulo, do que  fuso dos dois
     poetas, repetindo-se o mestre na decadencia. Emfim ha dois schemas
     de paixo amorosa que se no confundem: o de Joanna e Fauno, Aonia
     e Bimnarder, e o de Maria e Crisfal. So duas almas, sentindo em
     situaes differentes. Atravs de todo o hypercriticismo o livro
     sobre Bernardim Ribeiro revela um trabalhador fervoroso, que me
     veio revelar a existencia de um exemplar da edio de Ferrara, no
     Porto, e que aqui descobriu o texto precioso da Ecloga _Alexo_
     assignada por S de Miranda. Felicitando-o pelo seu importante
     estudo, sou


                                           admirador obr.^{mo} e amigo

                                                    Theophilo Braga


Comea a carta do snr. dr. Thephilo Braga por um _rebuado de ovos_: o
tratamento de prezadissimo amigo, que no tinha qualquer
justificao... Isto , tinha uma justificao nica, qual era a de nos
adoar a bca, para engulirmos sem relutncia aquela amargosa plula com
que fecha a epstola de s. ex.^a, quando, com generosa magnanimidade,
confessa que o nosso livro _revelou um trabalhador fervoroso_, que ao
professor do Curso Superior de Letras foi _revelar a existencia de um
exemplar da edio de Ferrara, no Porto_, e que em Lisboa _descobriu o
texto precioso da ecloga_ *Alexo* _assignada por S de Miranda_.

E, graas a estas _revelaes-revelativas_, a que no ligavamos
importncia de maior, o historiador da *Litteratura Portugueza*
felicitava-nos pelo nosso _importante estudo_, que, volvidas algumas
semanas, havia de classificar de fruto de _processos  ta_!

Na devida altura, comentaremos largamente a carta substanciosa do snr.
dr. Thephilo Braga.

Por agora, continuemos na catalogao das peas d'este processo, para
que os leitores julguem da justia que nos cabe, e avaliem da
sinceridade, da correco, e dos processos do professor intangivel.

No jornal _O Mundo_, de 3 de dezembro de 1908, na local consagrada 
sesso da Academia das Sciencias de Portugal realizada no dia 2, vimos
que o snr. dr. Thephilo Braga fizera uma comunicao, que outra cousa
no era seno um desmentido formal e gratuito s concluses do nosso
livro,--mas sem a mais leve citao ao nosso obscuro nome, sem a menor
referncia ao nosso desluzido trabalho, embora aproveitando-lhe os
subsdios. Comprehende-se: o ilustre acadmico no desejava contribuir
de modo nenhum para o reclamo que a imprensa estava dispensando ao
volume sobre o _Poeta Crisfal_.

Transcrevemos do _Mundo_ o periodo referente a tal comunicao...
scientfica:


     ...finalmente, trata de Bernardim Ribeiro e Christovam Falco,
     mostrando como a vida amorosa d'este oscilla entre 1525 e 1526,
     sendo n'aquella data moo fidalgo, tendo pelo menos 12 annos, ao
     passo que aquelle era j edoso; evidencia como na Ecloga
     transparecem diversas situaes da vida de Christovam Falco, e
     termina por invocar as opinies de Diogo Couto, Gaspar Fructuoso e
     outros que comprovam a existencia das duas individualidades que
     apesar de similhantes n'algumas situaes da vida, no podem jmais
     confundir-se.


Ante este procedimento do nosso _prezadissimo amigo_, no pudemos ficar
silenciosos, e, como um desforo legtimo, inadiavel, apelamos para o
snr. dr. Brito Camacho, pedindo-lhe se dignasse publicar nas colunas da
_Lucta_ a seguinte carta, que o ilustre jornalista fez inserir no numero
de 4 de dezembro do seu dirio:


                                     _Ex.^{mo} Snr. Dr. Brito Camacho,
                                                meu prezado amigo:_


     Pelos extratos, publicados em alguns jornaes de hoje, do que se
     passou na sesso de hontem da Academia de Sciencias de Portugal, vi
     que o snr. dr. Thephilo Braga disse o que quer que fosse,
     procurando refutar o meu recente trabalho sobre Bernardim Ribeiro,
     e insistindo na lenda do _poeta_ Cristovam Falco de Sousa.

     No me admira que o original autor da Historia da Litteratura
     Portugueza persista n'um erro crasso, s para no se confessar
     vencido, porque j o caso engraadssimo dos _cantos de ledino_ era
     precedente bastante para se ajuizar que o afamado professor do
     Curso Superior de Letras prefere manter um absurdo a ter de
     reconhecer publicamente que errou. Est no seu direito, e ninguem
     lh'o contesta.

     Parecia-me, porem, que, publicado o meu estudo sobre Bernardim
     Ribeiro, em que no torci a meu bel-prazer a verdade, nem
     falsifiquei documentos, o snr. dr. Thephilo Braga tinha o dever
     moral de, pela imprensa ou em livro, dizer da sua justia, antes de
     ir para o seio de uma agremiao, a que eu no perteno, impor um
     desmentido formal e dogmatico, ao mesmo tempo que gratuito, ao meu
     trabalho.

     E tanto mais estranhavel se me afigura o procedimento do snr. dr.
     Braga, contestando  porta fechada a minha tese, quanto  certo que
     s. ex.^a no desconhece que o insigne publicista snr. Jos Pereira
     Sampaio (Bruno) prepara um livro sobre o mesmo assunto do meu.

     Se o afamado professor do Curso Superior de Letras est de boa f,
     quem lhe assegura que os argumentos de Bruno no conseguiro
     convenc-lo, j que os meus, conforme de resto eu esperava, tal no
     conseguiram?

      tempo de pr de parte o _magister dixit_, porque, felizmente, os
     processos crticos dos Farias e Bernardos de Brito so coisas que
     passaram  _historia_, e que no se ressuscitam j facilmente.

     Muito especialmente me obsequeia o meu bom amigo dando publicidade
     na nossa _Lucta_ a esta minha carta, que representa o legtimo
     desabafo de um trabalhador que se preza de ser honesto, e que como
     tal tem jus a ser considerado.

     Mais uma vez agradecido o que se confessa, por estima e dever,


                                                     De V. Ex.^a

                                             amigo, admirador e obrigado

     S/C, Lisboa, 3-12-908.

                                                   Delfim Guimares.


Com o esprito de rectido que todos, amigos e adversrios, so
concordes em reconhecer ao snr. dr. Brito Camacho, o brilhante
jornalista deu acolhimento benvolo  nossa carta, acrescentando-lhe as
seguintes linhas de saudao ao professor do Curso Superior de Letras:


     O nosso ilustre correligionario dr. Thephilo Braga tem as
     columnas d'este jornal s suas ordens para dizer da sua justia,
     como quizer. Trata-se d'uma questo de facto em historia literria,
     e no d'uma birra entre dois homens. Muito prazer teremos em que
     seja o nosso jornal o campo em que se dirima o pleito.


No correspondeu o snr. dr. Theophilo Braga  gentileza do director da
_Lucta_; e at para comnosco estamos persuadidos de que, desde o momento
em que s. ex.^a viu a nossa carta irreverente no jornal de que Brito
Camacho  a alma, o pontfice da _Litteratura Portugueza_ excomungou o
intemerato jornalista. Que o dr. Camacho nos perde a excomunho que,
involuntariamente, lhe acarretamos!

Guardou silncio o snr. dr. Thephilo Braga durante semanas, mas no
esteve inactivo, ao contrrio do que muitos poderiam supor. Com todo o
engenho e arte, s. ex.^a consagrou-se ao fabrico de uma pea, que no
podemos classificar de literria, porque  a negao de todos os
processos literrios dignos de este nome, mas a que poder caber a
designao de produto de arte... culinria. Como _pastelo_, faria honra
a um cozinheiro, mas cremos bem que o snr. dr. Thephilo Braga deseja
passar  posteridade como um discpulo fervoroso de Augusto Comte, e no
como aprendiz ilustre da _scincia_ de Vatel.

A redaco do jornal _O Dia_, seguindo a praxe dos anos anteriores,
honrou o snr. dr. Thephilo Braga pedindo lhe um artigo sobre o
movimento literrio portugus em 1908, para o numero de 31 de dezembro
d'esse ano. Como nunca, recebeu o snr. dr. Thephilo Braga jubilosamente
o amavel convite. Tinha ensejo para impingir... o _pastelo_. Era o
momento oportuno para respostar  nossa carta publicada na _Lucta_, sem
nos dar a honra de deixar sair dos bicos da pena aprimorada a confisso
de que havia lido o nosso protesto. Podiamos, porventura, esperar outro
procedimento por parte do snr. dr. Thephilo Braga? No, evidentemente.
Pois no haviamos ns,--cmulo das audcias!--ousado protestar contra a
comunicao do presidente da Academia de Sciencias de Portugal?!

Reproduzimos do _Dia_ de 31 de dezembro do ano findo a parte do artigo
do snr. Thephilo Braga que diz respeito  questo literria suscitada
pelo nosso livro:


     ...No recente fasciculo (do Archivo historico portugus) ficou
     publicada uma interessantissima monographia sobre a antiga Feitoria
     de Flandres, um dos mais necessarios capitulos da nossa historia
     financeira e administrativa; o sr. Braancamp Freire intitula-o
     _Maria Brandoa a do Crisfal_, por que o pae d'esta dama, que
     inspirou o amor e a Ecloga de Christovo Falco, foi o pae d'ella,
     Joo Brando Sanches, segundo encontrara no nobiliario de Diogo
     Gomes de Figueiredo.

     Em dois nobiliarios da bibliotheca da Ajuda tambem se acha esta
     mesma inscrio: _Maria Brandoa a do Crisfal_; e nos livros dos
     linhagistas Manso de Lima e Rangel de Macedo, da Bibliotheca
     Nacional, vem o mesmo schema genealogico, vendo-se toda a
     parentella da inspiradora de Crisfal no titulo dos Brandes
     Sanches, confundidos por vezes com os Brandes do Porto, com os de
     Coimbra e com os de Elvas. O sr. Anselmo Braancamp Freire, escreve
     em uma nota: Sei que se trata de provar, que a Ecloga de Crisfal
     no foi escripta por Christovam Falco, mas por Bernardim Ribeiro,
     e que por tanto a heroina no  Maria Brando, mas sim a mesma do
     romance _Menina e Moa_ d'aquelle auctor. E accrescenta que o sr.
     Delfim Guimares empenhado na interessante averiguao o
     consultara, communicando-lhe as bases em que fundava a sua
     argumentao, as quaes no conseguiram demovel-o da rotina.

     Quasi ao mesmo tempo, o sr. Delfim Guimares publicava o seu livro
     _Bernardim Ribeiro_--_o Poeta Crisfal_, em que resume o j sabido
     da biographia do auctor da _Menina e Moa_, forando interpretaes
     de versos a significarem os factos que imagina. Como lhe nasceu no
     espirito a ideia de fazer esta descoberta? Pela impresso que lhe
     causra a leitura dos versos de Bernardim Ribeiro e os de
     Christovam Falco,--dois poetas de temperamento semelhante, com
     eguaes influencias e educaes litterarias, com eguaes episodios
     nos seus infortunados amores, e havendo entre ambos versos
     absolutamente eguaes. D'aqui o identificar os dois poetas em um
     unico; como conseguil-o? Considerou a individualidade poetica de
     Christovo Falco como uma lenda estupida formada pelos
     genealogistas, e formou o nome de _Crisfal_ indo buscar  ta as
     palavras _Crisma falsa_, tirando-lhes as syllabas iniciaes para
     designarem a seu talante Bernardim Ribeiro. Fez-se ento uma
     grande luz no nosso espirito. No se tratava de dois poetas muito
     parecidos, de um creador e de um imitador. Bernardim Ribeiro e
     Crisfal eram um e mesmo poeta. O trovador Christovam Falco era o
     producto de uma lenda nascida da interpretao dada pelo vulgo
     (![2]) ao anagrama _Crisfal_. (Op. cit., p. 10). Alcanada a
     convico de que _Crisfal_ era um anagramma de Bernardim Ribeiro, e
     norteados pelo conhecimento de que nas suas produces o poeta
     mudava constantemente os seus nomes pastoris, com pequeno trabalho
     de raciocinio no nos foi difficil deduzir a constituio do
     cryptogramma, que era formado pelas primeiras syllabas das palavras
     _Crisma_ e _Falso_.

     E depois d'este processo que, na opinio do sr. Gonalves
     Vianna--honra a erudio portugueza,--ataca as fontes genealogicas
     d'onde Diogo do Couto e Gaspar Fructuoso acceitaram como ouro de
     lei o peschesbeque de uma lenda estupida tecida pelo vulgo
     ignorante, e posta a correr mundo graas  inepcia dos editores dos
     escriptos legados por esse grande e infortunado poeta que foi
     Bernardim Ribeiro! (Ib. p. 11.) E mais adiante, volta a repetir:
     A uma lenda estupida deveu esse rebento inglorio de John Falconet
     a celebridade que durante seculos usufruiu, em prejuizo do renome
     litterario do verdadeiro _Crisfal_, o doce, o inimitavel e
     inegualado Bernardim Ribeiro, etc. (p. 185.) Mas, como se pde
     chamar estupida a lenda genealogica se os nomes contidos na Ecloga
     de _Crisfal_ condizem com os seus parentes taes como o de
     _Pantaleo_ Dias de Landim seu av, e a Joanna, que lhe denuncia o
     casamento clandestino, uma prima, como o notou o sr. Jordo de
     Freitas?

     Os manuscriptos conhecidos de Bernardim Ribeiro andavam ligados com
     os de Christovam Falco, como se v pela descripo do n.^o 180 da
     Livraria do Conde de Vimieiro: Obras em prosa e verso de S de
     Miranda, Bernardim Ribeiro e Christovam Falco; tambem o Arcediago
     do Barreiro, dr. Jeronymo Jos Rodrigues, examinou no Porto um
     manuscripto analogo ao das edies de 1559, em que vinham a _Menina
     e Moa_, duas eclogas de Bernardim Ribeiro--e at se acham no fim
     algumas poesias de Christovo Falco, do que se faz meno no mesmo
     logar de Nicolo Antonio. (Innocencio, _Dic. Bibliog._)

     Para que chamar ineptos aos editores de Ferrara de 1554 e de
     Colonia de 1559, por terem reproduzido esses textos manuscriptos
     como os encontraram? Quando o sr. Delfim Guimares trabalhava para
     destruir uma miragem de seculos, foi communicar ao sr. dr. Alfredo
     da Cunha a descoberta que tinha feito e que, sem falsa modestia,
     reputava de alta importancia para a historia das lettras
     portuguezas. Era uma Noticia litteraria de sensao, o dr. Alfredo
     da Cunha deu alentos  grande descoberta de que a figura do poeta
     Christovam Falco pertence exclusivamente ao dominio da lenda, por
     isso que tal poeta s existiu na imaginao d'aquelles que viram
     n'um anagrama cabalistico de Bernardim Ribeiro a encarnao de
     outra individualidade.

     No noticiario de outro jornal sairam affirmaes absolutas,
     proclamando a sensacional descoberta, com uma sinceridade
     inconsciente que affasta de todo a ideia de ironia. A verdadeira
     descoberta pertence ao sr. Braancamp Freire determinando a epoca em
     que esteve em Flandres Joo Brando Sanches, e quando elle morreu,
     dando nos assim a data em que existiram os amores de sua filha
     unica D. Maria Brando, a do Crisfal, que plausivelmente se fixam
     em 1530. O documento de 1527 referindo-se a Christovam Falco, com
     a tena de mo fidalgo, leva a deduzir que nascera em 1512. Ha
     portanto a eliminar todas as relaes pessoaes entre Christovam
     Falco e Bernardim Ribeiro, como julgamos nos nossos estudos,
     corrigindo a interpretao da Ecloga I e III de Bernardim. Os
     logares communs a Christovam Falco e Bernardim Ribeiro provam a
     distancia da edade que levou o mais novo a imitar aquelle que j
     era admirado, cujos versos, Cames, na sua Carta de Africa,
     intercalava na sua prosa.


Esta produo peregrina do snr. Dr. Thephilo Braga veio publicada no
jornal _O Dia_ com a assinatura do professor do Curso Superior de Letras
em _fac-simile_, e ainda bem, para que no se pudesse ajuizar tratar-se
de uma brincadeira de mau gosto de quem quer que fosse.

Quando lemos um tal documento, a primeira impresso que se apoderou de
ns foi a de revolta; mas logo um outro sentimento veio substituir
esta--um sentimento muito fundo de tristeza, de sincera mgoa...

E, sem prazer, pudemos constatar que a impresso que o snr. Dr.
Thephilo Braga deixra nos leitores inteligentes do seu tendencioso
_Movimento Litterario_ era egual  nossa,--uma sincera mgoa.

Mas no artigo do eminente professor eramos tam directamente alvejados, e
o nosso trabalho depreciado com tal rancor e m f, que no podiamos
ficar silenciosos.

No jornal a _Lucta_, do dia 3 de Janeiro d'este ano, como protesto,
publicamos o artigo que vamos reproduzir:


*Os processos... scientficos do snr. dr. Thephilo Braga*

No se dignou o sr. dr. Thephilo Braga aceitar o oferecimento que o
distinto jornalista que dirige _A Lucta_ lhe fez em 4 de dezembro
ultimo: pondo  disposio de s. ex.^a as colunas deste dirio, para que
o professor do Curso Superior de Letras dissesse da sua justia em face
da carta que tive ensejo de dirigir ao meu bom amigo snr. dr. Brito
Camacho, estampada n'este jornal, motivada pelo procedimento estranhavel
seguido para comigo pelo snr. dr. Thephilo Braga.

Passaram-se dias, passaram-se semanas, e, quando todos julgavam que o
professor do Curso Superior de Letras adoptara de Conrado o prudente
silncio, eis que o sr. dr. Thephilo Braga, a pretexto de pr os
leitores do _Dia_ ao corrente do movimento literrio no ano findo, com
ares dogmticos e desdenhosos, enche perto d'uma coluna d'aquele jornal
com um aranzel cheio de lugares comuns, procurando refutar as concluses
do meu recente estudo sobre Bernardim Ribeiro.

No me surpreendeu o rancor que transparece no artigo do snr. dr.
Thephilo Braga. Imagino quanto deve ser doloroso para o professor do
Curso Superior de Letras o ter de refundir mais uma vez dois dos volumes
da sua chamada edio integral da _Historia da Litteratura Portugueza_:
S de Miranda e Bernardim Ribeiro. Isto, junto ao conhecimento que
possuo da maneira de ser do snr. dr. Thephilo Braga,  para mim
explicao bastante do seu ressentimento, que a prosa do infatigavel
carreador de materiaes no consegue disfarar.

A todos os pontos tocados no aranzel do snr. dr. Thephilo Braga, darei
resposta em livro, e d'essa tarefa procurarei desempenhar-me em curto
praso, com a largueza e documentao que o assunto requer, o que no 
compativel com o espao que a trabalhos d'esta espcie pode dispensar um
jornal da ndole da _Lucta_.

Por hoje, e certo da amabilidade com que me distingue o meu prezado
amigo snr. dr. Brito Camacho, desejo apenas salientar, muito ao de leve,
algumas inexactides flagrantes do artigo _Movimento litterario_, do
snr. dr. Thephilo Braga, que bem demonstram a _correco_ dos
processos... scientficos do professor do Curso Superior de Letras.

Referindo-se ao ultimo tomo do _Archivo Historico_, a revista dirigida
pela superior competncia do snr. Braamcamp Freire, em que este escritor
encetou a publicao da sua monografia sobre Maria Brando, diz o snr.
dr. Th. Braga que a monografia ficou publicada, procurando assim dar a
entender que o estudo do snr. Braamcamp Freire est ultimado, quando 
facto que ainda lhe falta o captulo em especial referente a Maria
Brando, destinado por certo a ser o mais curioso, pela luz que ha de
fazer jorrar sobre a figura da suposta amada do poeta _Crisfal_.

Mas ao snr. dr. Thephilo Braga conveio torcer a verdade, para que com
maior presteza os leitores ingnuos acreditassem nos seguintes perodos
ardilosamente engendrados:


    O sr. Anselmo Braancamp Freire escreve em nota: Sei que se trata
    de provar que a Ecloga de Crisfal no foi escripta por Christovam
    Falco, mas por Bernardim Ribeiro, e que por tanto a heroina no 
    Maria Brando, mas sim a mesma do romance _Menina e Moa_ d'aquelle
    auctor. E accrescenta, que o sr. Delfim Guimares, empenhado na
    interessante averiguao, o consultara, communicando lhe as bases em
    que fundava a sua argumentao, as quaes no conseguiram demovel-o
    da rotina.


Ao contrrio da afirmao do snr. dr. Thephilo, o snr. Braamcamp Freire
no declara tal que eu o consultara sobre a averiguao que fiz, como
no escreveu na nota citada pelo snr. dr. Thephilo Braga aquilo que s.
ex.^a gratuitamente lhe atribue.

Reproduzo textualmente o perodo que o snr. dr. Thephilo Braga
interpretou a seu bel-prazer, para melhor juizo dos que me lem:


    O sr. Delfim de Brito Guimares, que anda empenhado na interessante
    averiguao, teve a bondade de me comunicar as principaes bases que
    serviro de alicerce  sua argumentao: entretanto, emquanto no
    apparecerem os considerandos e a sentena sobre a prova nelles feita
    no transitar sem apelao em julgado, no me compete intervir no
    pleito e continuarei com a rotina.


Como se v, o snr. Braamcamp Freire no escreveu que eu lhe comunicara
as _bases_ em que fundava a minha argumentao, mas sim unicamente _as
principaes bases_, e o consciencioso investigador no declarava que taes
bases _no conseguiram demov-lo da rotina_, mas sim que em quanto no
aparecessem os considerandos e a sentena sobre a prova nelles feita no
transitasse sem apelao em julgado, _no lhe competia intervir no
pleito e continuava com a rotina_.

Para que torceu, a seu talante o snr. dr. Thephilo Braga a nota cheia
de correco do ilustre escritor?--Para se servir, como de um escudo
protector e cmodo, do nome prestigioso de Braamcamp Freire, procurando,
com tal engenho e arte, fazer acreditar aos papalvos desprevenidos que
tinha a apoiar o seu desmentido formal s concluses do meu trabalho a
individualidade, a todos os ttulos eminente, do ilustre director do
_Archivo Historico_.

Ora a nota invocada pelo snr. dr. Thephilo Braga encontra-se logo na
2.^a pagina do estudo do snr. Braamcamp, e foi produzida quando o
erudito escritor traou os primeiros perodos do seu trabalho,
conhecendo apenas as bases principaes com que elaborei o meu livro
_Bernardim Ribeiro (O Poeta Crisfal)_.

Depois da leitura do meu modesto estudo, o snr. Braamcamp Freire teve a
gentileza de me comunicar que os meus argumentos haviam logrado
convenc-lo. E por tal frma o convenceram que o ilustre escritor logo
abandonou a rotina, no carecendo para isso que a sentena sobre a prova
feita transitasse em julgado--muito embora isto pese ao snr. dr.
Thephilo Braga, que at viu com desgosto que o abalisado professor snr.
Gonalves Viana, achasse que o meu livro _Bernardim Ribeiro_ fazia honra
 erudio portugusa.

Mais, o snr. Braamcamp Freire no s me felicitou calorosamente pelo
xito do meu trabalho, que representava a justa reparao devida a um
dos maiores poetas da nossa terra, como teve a bondade de enviar-me a
prova tipogrfica de uma passagem do seu estudo, ento no prlo, em que
o conceituado escritor confessava publicamente que Maria Brandoa, a
lendria amada do Crisfal, passara  historia...

Foi fazer companhia aos _cantos de ledino_...

Tal passagem se encontra a pag. 402 do ultimo tomo do Archivo
Historico, mas o snr. dr. Thephilo Braga seguindo os processos...
scientficos que o enaltecem, ocultou-a propositadamente,
intencionalmente, aos leitores do seu artigo estampado no _Dia_.

 como segue:


     ...do catalogo porm limitar-me-ei agora a extrair os nomes dos
     oficiaes da feitoria, reservando-me para aproveitar d'elle, n'outro
     capitulo, um dado importante para a biographia de *Maria Branda,
     j, coitadita! quando este estudo aparecer a publico, apiada de
     heroina da ecloga Crisfal*.


s afirmaes, em apoio da minha tese, feitas em maio de 1908 no _Diario
da Tarde_, do Porto, pelo insigne publicista snr. Jos Pereira Sampaio
(_Bruno_), refere-se tambem o snr. dr. Thephilo Braga da seguinte
maneira:


     No noticiario de outro jornal sairam afirmaes absolutas,
     proclamando a sensacional descoberta, com uma sinceridade
     inconsciente que afasta de todo a ida de ironia.


O snr dr. Thephilo Braga, referindo-se, com desdem,  _sinceridade
inconsciente_ de Bruno, no nos maga smente a ns, que votamos uma
grande estima ao ilustre escritor portuense: ofende as Letras
Portugusas, que teem no snr. Jos Sampaio uma das suas mais legtimas
glrias.

Tristes processos est seguindo o snr. dr. Thephilo Braga!


                                                  Delfim Guimares



O snr. dr. Brito Camacho, dando hospitalidade nas colunas da _Lucta_ ao
nosso artigo, nvamente ps o seu jornal  disposio do snr. dr.
Thephilo Braga, para que s. ex.^a, querendo, dissesse de sua justia. O
professor do Curso Superior de Letras no aceitou o oferecimento que
pela segunda vez lhe era feito.

E, em verdade, que havia o autor do artigo _Movimento Litterrio_ de
dizer em contestao do libelo documentado que tinhamos produzido?
Nenhuma justia lhe assistia, e por consequncia no ousou reclamar.
Recolheu-se ao silncio,--quele prudentssimo silncio que se seguiu 
publicao do notavel trabalho do Dr. Slvio Romero sobre a _Patria
Portugusa_.

No artigo que publicamos na _Lucta_, de 3 de janeiro do ano em curso,
tommos o compromisso de tratar em livro todos os pontos tocados pelo
snr. dr. Thephilo Braga no seu aranzel do _Dia_, com a largueza e
documentao que o assunto exige, em homenagem  memria de Bernardim
Ribeiro; pelo dever moral que nos impusemos de contribuir, quanto em
nossas mingoadas foras caiba, para que justia seja feita, embora
tardia, a um dos mais belos temperamentos poticos da nossa terra.

Uma lenda  fcil de forjar, e com facilidade toma corpo e lana raizes,
obcecando muitas vezes os mais esclarecidos espritos.

A nossa Historia Literria est cheia de lendas e embustes, graas aos
Farias e Sousa e Bernardos de Brito. Mas a Verdade, superior a todas as
lendas, e a todas as reputaes de historiadores burles e de crticos
trapaceiros, acaba sempre por triunfar, embora isso leve anos, embora
decorram sculos.

Na defeza da causa que prosseguimos, que  nobre e justa, no nos animam
quaesquer intuitos de evidenciao, no nos move qualquer mesquinho
sentimento de despeito; lutamos pela verdade, procuramos contribuir com
o nosso esforo de modestos obreiros das letras para desfazer um erro
que a ignorncia engendrou, que a rotina no-te-ralesca imps como um
dogma, e que a vaidade irritada e irritante do snr. dr. Thephilo Braga
persiste em sustentar, a torto, que no a direito, impondo-o
autocraticamente a quantos vem no professor do Curso Superior de Letras
o pontfice mximo, ditador inviolavel e sagrado da Republica... das
letras portugusas.




II

O snr. dr. Thephilo Braga, descobrindo a verdade, e procurando
enterr-la


Ao preparar os materiaes para a refundio de seu livro sobre Bernardim
Ribeiro, o snr. dr. Thephilo Braga teve ensejo de reconhecer que a
figura do _trovador_ Cristovam Falco era mero produto de uma lenda, mas
no teve a coragem precisa para vir a pblico declarar que tinha errado
ao dar  estampa o seu primeiro volume sobre os poetas bucolistas, em
que, seguindo a rotina, dera existncia real ao suposto poeta, que j
havia classificado de *ultimo eco do alade provenal, modificado pelo
gosto hespanhol de Padron e Stuniga*.[3]

E no querendo confessar que errara, como se semelhante facto
constituisse desdoiro ou apoucasse de qualquer frma seus mritos, o
autor do livro _Bernardim Ribeiro e o Bucolismo_ procurou, por um
processo que no nos atrevemos a chamar genial, enterrar a verdade,
sepultando-a sob um pedregulho enorme, para que ali dormisse um sono de
sculos, tantos sculos pelo menos como a lenda contava, para que,
assim, ninguem pudesse aludir ao erro em que se deixara enredar o
professor do Curso Superior de Letras.

Como o snr. dr. Thephilo Braga procedeu, vo os leitores conhecer, e
depois ficaro habilitados a julgar da sinceridade com que o infatigavel
escritor impugna o nosso livro sobre o poeta _Crisfal_.

A pag. 356/7 do seu livro _Bernardim Ribeiro e o Bucolismo_, na parte
respeitante a Cristovam Falco, escreveu o snr. dr. Thephilo Braga:


     *O primeiro documento historico que encontramos acerca do poeta,
     de um modo irrefragavel,  datado de 1517;  uma graa rgia
     motivada talvez pela sympathia que suscitava a sua desgraada
     paixo, ou apparentemente pelos servios de seu pae. Em um alvar
     ao Almoxarife de Coimbra foi passada ordem para que d o rendimento
     d'este anno de 1517 a Christovam Falco: 97:000 ris. Recebeu-os o
     seu procurador Mestre Jorge.*


Como se v da transcrio feita, o autor declarava que o documento
invocado referia-se ao suposto poeta *de um modo irrefragavel*, isto :
*irrecusavelmente, incontestavelmente*. Esse documento dizia respeito,
segundo inculcava o snr. dr. Thephilo Braga, a _uma graa rgia_, merc
de _97$000 ris_, concedida ao suposto bardo _talvez pela sympathia que
suscitava a sua desgraada paixo, ou apparentemente pelos servios de
seu pae_.

Ora fazendo taes afirmativas, autoritria e catedraticamente, o snr. dr.
Thephilo Braga abusava da boa f dos seus leitores, por isso que s.
ex.^a muito bem conhecia que estava deturpando a verdade, a seu
bel-prazer, que nada d'aquilo que apregoava como autntico era
verdadeiro.

Nem o alvar de 1517 dizia respeito ao suposto poeta, nem semelhante
alvar mencionava a verba de 97$000 ris.

Tratava-se de uma tena de 97$734 reis (resultante de dois padres) que
pertencia a Cristovam Falco, senhor da vila de Pereira, e no ao
suposto poeta Cristovam Falco de Sousa.

Ignorava, porventura, o snr. dr. Thephilo Braga a existncia dos dois
padres constituitivos da referida tena?--No ignorava. E a prova de
que os no desconhecia est nas citaes que s. ex.^a faz a paginas
331/2 do seu mencionado livro, atribuindo-os a quem eles diziam
respeito, isto  a Cristovam Falco, senhor da vila de Pereira, que nada
tinha que ver com o suposto poeta, como o snr. dr. Thephilo Braga, de
resto, muito bem estabelecia.

Mas a existncia de uma tena de 97$000 reis, pelas alturas de 1517, a
favor de Cristovo Falco de Sousa, comprovaria de certo modo a data em
que o snr. dr. Thephilo Braga fixou habilidosamente o nascimento do
_ultimo eco do alade_, e permitia ao fantasioso escritor justificar tam
rasgada merc rgia atribuindo-a  _sympathia que suscitava a sua
desgraada paixo_.

D'esta maneira, servindo-se de um alvar que no dizia respeito ao
suposto poeta, e alterando-lhe caprichosamente a quantia mencionada, o
snr. dr. T. Braga creava um _recurso histrico_ graas ao qual os
discpulos do professor do Curso Superior de Letras podiam aceitar que
pelas alturas do ano da graa de 1517 j existia um afamado poeta com o
nome de Cristovo Falco, tam desventurado em seus amores que el-rei,
compadecido, lhe fizera merc da tena, verdadeiramente principesca, de
97$000 ris! E sucedendo um _caso_ d'estes em nossos dias, ainda ha quem
ache estranho que Faria e Sousa e frei Bernardo de Brito improvisassem
( este o termo prprio?) documentos... histricos!

Ao publicarmos o nosso trabalho sobre Bernardim Ribeiro, no salientamos
devidamente estes pouco recomendaveis processos do snr. dr. Thephilo
Braga, poupando, com generosidade, o nome do encanecido trabalhador, em
respeito aos seus cabelos brancos.

E  nossa manifesta generosidade correspondeu o aclamado professor
apodando os nossos processos crticos de:--processos...  ta!

Que nome conceder a esses processos do snr. dr. Thephilo Braga?

Mas no ficaram por aqui as habilidades de que se serviu o autor da
_Historia da Litteratura Portugueza_. E chamamos-lhes _habilidades_, por
no encontrarmos  mo um termo mais anodino, mais suave, mais doce,
para definir o feito, e no por qualquer propsito agressivo.

Existem na Torre do Tombo cartas autgrafas do suposto autor do
_Crisfal_. A simples publicao d'essas cartas constituiria um golpe
decisivo na lenda que atribuia produes de Bernardim Ribeiro a
Cristovo Falco de Sousa, por isso que taes documentos revelam que
este, alem de iletrado, no escrevia meia dzia de linhas sem uma
enfiada de asneiras...--_uma acumulao de tolices_, no dizer
insuspeito de uma ilustre escritora.

Que fez o snr. dr. Thephilo Braga?

Publicou essas cartas, alterando-lhe, paternalmente, a ortografia e a
gramtica, e deixando assim transparecer que o autor de taes escritos
poderia muito bem ter produzido as poesias buclicas que lhe atribuiam.

Para que se no ajuzasse que faziamos uma afirmao gratuita ao dizer
que o snr. dr. Th. Braga publicara _emendada_ a obra... em prosa de
Cristovam Falco, dmos no volume _Bernardim Ribeiro_ (O Poeta Crisfal)
uma reproduo foto-zincogrfica de uma das cartas do suposto poeta, e,
no desejando colocar n'uma situao pouco invejavel o professor do
Curso Superior de Letras, escrevemos, procurando desculpar o seu
procedimento:


     ........o copista, a quem o distinto professor encarregou de
     reproduzir o documento existente na Torre do Tombo, forneceu-lhe
     uma reproduo _com summa deligencia emendada_, que o snr. dr.
     Thephilo, com a melhor boa f, estampou no seu livro, e que muito
     se afasta do original.[4]


Nem na sua comunicao  Academia das Scincias de Portugal, nem no seu
artigo do jornal O Dia, nem na carta que nos dirigiu, se referiu,
embora ao de leve, o snr. dr. T. Braga  carta de Cristovam Falco de
Sousa... Compreende-se. O documento  tam esmagador, que o infatigavel
polgrafo foge d'ele como dizem que o diabo foge da cruz.

Mas, embora isso no agrade a s. ex.^a, vamos dar aqui a reproduo
paleogrfica de outra carta de Cristovam Falco de Sousa, devendo
elucidar os leitores que o snr. dr. Thephilo Braga j deu publicidade a
tal documento a pag. 368/70 do seu _Bernardim Ribeiro_ (edio
refundida). Mas deu-lhe publicidade: _emendando-o_...

Como no temos a peito celebrizar o alto engenho e mais partes que
concorriam na pessoa do suposto poeta, reproduzimos a carta fielmente,
e, para desfazer algum erro de leitura ou qualquer _gralha_ que passe 
reviso, juntamos em foto-gravura o seu _fac-simile_.

Eis a carta:

[Figura: Reproduco foto-zincogrfica da carta de Cristovam Falco de
Sousa]


     Sor. mjnha jrm dona bracajda faleceo da ujda presemte a dez dias
     deste mes pasado estando eu nesa corte [~e] serujo de v. a. onde
     me foy a noua pera [~q] viese prover [~e] alg[~u]as cousas da su
     alma por me ela dejxar por seu testam[~e]tejro c seu marido ejtor
     de figuejredo. fiquou-lhe h[~u] s filho e doutro marido [~q] deste
     no ouve nenh[~u] e to Riquo [~q] me diz[~e] que foy posta a
     faz[~e]da de seu pay qudo faleceo (que eu no era no Rejno) [~e]
     doze contos. fez meu pay antes [~q] eu de la partise petio a uosa
     a. [~q] lhe mdase [~e]tregar seu neto e tirar de poder de seu
     padrasto. sayo lhe na petio [~q] Requerese ao Juiz dos orfos da
     uila donde ho moo est que he borba donde seu padrasto he natural
     e alquajde mor pelo duque de bragana e que ele prouerja e que no
     no faz[~e]do proverja [~e]to vosa a. a qual delig[~e]cia eu tenho
     fejto que Requery ao Juiz [~q] lho tjrase de poder e que fose loguo
     por [~q] eu tjnha sabjdo [~q] eitor de figueiredo detremjnaua
     quasar ho moo c sua f.^a no fim deste mes [~e] que lhe dizi que
     ho moo faz quatorze anos pera ho matrimonjo ser valioso. mdou ho
     Juiz dar ujsta de meu Requerim.^{to} a eitor de figueiredo e njsto
     e [~e] ele Responder pasaram ojto dias e nestes me fizero mujtos
     agrauos alomgdo me ho tempo e me fizero perdedia h[~u]a petjo
     dagrauo na qual agrauaua pera v. a. apresemtandoa eu [~e] audiencja
     onde foy lida e jsto tudo por ele ser alquajde mor e ser toda a
     ujla de seus paremtes e criados e por [~q] da li no paso os
     agrauos se no pera ho ouujdor do duque onde to b[~e] me deterjo
     pera ho moo chegar ao termo dos quatorze anos detremjney dejxar a
     cousa neste termo e fazelo saber a v. a. pera [~q] proueja njsto
     como lhe parecer serujo de deos e seu que mjlhor proueja [~q] pois
     t[~e] tal faz[~e]da que v. a. ho quase c qu[~e] ouuer por seu
     serujo [~q] no [~q] ho orfo seia asy Roubado. no que v. a. deue
     loguo prouer como pay dos orfos [~q] he quanto mais [~q] quarega
     jsto sobre ccj[~e]cja de v. a. por h[~u] alu.^{r} que vosa a.
     pasou a ejtor de figueiredo ao t[~e]po [~q] quasou c mjnha Jrm
     pelo qual tjrou a titorja a meu pay de seu neto por lha dar a ele.
     ao qual agora ajnda se pega, como se no fose cerada a cousa por
     morte de mjnha Jrm. e o [~q] me parece [~q] se deue fazer he pasar
     v. a. logo alu.^{r} por esta quarta [~q] pode serujr de petjo,
     [~q] polo qual mde a h[~u] dos quoReiadores destremoz elvas ou por
     talegre [~q] qualquer deles va a borba e tjre ho moo de poder de
     seu padrasto e [~e]tregue sua p.^a a meu pay seu au ou a meu jrmo
     barnab de sousa [~q] t[~e] faz[~e]da p.^a ho mjlhor mter [~q]
     biue [~e] portalegre onde ho moo t[~e] parte de sua faz[~e]da e
     lhe he j dado por tutor desta fazemda e despois do moo tjrado
     prouer v. a. [~e] qu[~e] seia seu tutor e seja ouujdo ejtor de
     figuejredo das Rezomis [~q] diz ter pera [~q] ho moo quase c sua
     f.^a mas jsto deuela ser amte v. a. [~q] qua no sey quto se
     gardara Justia e ho aluar pode v. a. mdar dar a demjo de sousa
     meu irmo [~q] la amda [~q] ele ho far vir c mujta delig[~e]cia
     [~q] eu fiquo qua esperamdo p.^a ho Requerer e apresemtar. e
     l[~e]bro mais a uosa a. [~q] mde ao mesmo coReiador que
     [~e]t[~e]da nas partjlhas e jmb[~e]tajro [~q] doutra manejra ser
     Roubado ho orfo e asi [~q] o t[~e]po aquaba p.^a fim deste mes e
     eu s.^{or} neste trabalho n pretendo mais [~q] fazer ho [~q] deuo
     e tenho dejxado os Requerjm.^{tos} que trago c v. a. [~e] mo de
     ferno daluarez peo a v. a. que n perqua por ausente de ser
     despachado. a qu[~e] deos a ujda e Real estado acrec[~e]te. de
     portalegre sete de novembro. as Reajs mos de v. a. bejjo. xpouo
     falco de sousa.[5]

     !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


Ao leitor deixamos a faculdade de comentar a carta _primorosa_ do
sarrafaal engenho que durante alguns sculos gosou da fama de poeta
insigne, em prejuizo do nome aureolado de Bernardim Ribeiro.




III

Anotaes  carta que nos dirigiu o snr. dr. Thephilo Braga


*1*

     A ninguem interessaria tanto o conhecimento d'este problema, como
     a mim, que esbocei uma biographia de Christovam Falco com
     elementos historicos (documentos authenticos) comprovando dados
     genealogicos.

                                        _Carta do snr. dr. Th. Braga._



No ha a menor dvida quanto  primeira parte d'esta afirmao.

Com efeito, o snr. dr. Thephilo Braga esboou uma biografia de
Cristovam Falco, e ninguem ousar contestar-lhe o mrito de haver sido
o Plutarco do suposto trovador.

Esboando-lhe a biografia, o abalisado professor de literatura serviu-se
de documentos autnticos... mas utilizando alguns que no diziam
respeito ao pseudo-poeta, e sim a um outro Cristovam; e interpretando,
modificando e adulterando outros documentos ao sabor do seu paladar, ao
capricho da sua fantasia.

No capitulo XIX do nosso estudo sobre Bernardim Ribeiro destrinamos os
documentos histricos que o snr. dr. Thephilo Braga propositadamente
confundiu, e restabelecemos o texto de uma das cartas de Cristovam
Falco de Sousa que o habil professor _emendara_, com o zelo de Plutarco
cioso do bom nome do seu heroe... lendrio.

No segundo captulo d'este livro, ficou tambem fielmente reproduzida
outra carta de Cristovam Falco, que o infatigavel historiador havia
_corrigido_, como se se tratasse de um tema de algum discpulo seu.
Mesmo quando se entrega a trabalhos de reconstituio histrica, o snr.
dr. Thephilo Braga no se esquece de que  professor de literatura
portugusa!

Depois de isto, como ousa o snr. dr. Thephilo Braga invocar os
documentos autnticos de que tam mau uso fez?


*2*

     Tive de ler immediatamente o seu livro, para ver que materiaes
     traria para o aperfeioamento do meu trabalho.

                                     _Carta do snr. dr.  Th. Braga._


Tem graa, e no ofende!

Se leu imediatamente o nosso livro, no foi para ver que novos subsdios
forneciamos para o estudo da histria da literatura portugusa, mas sim
para conhecer quaes os materiaes que lhe facultariamos para o
aperfeioamento do seu trabalho...

Cabe n'esta altura, a talho de foice, deixar consignada certa passagem
de uma palestra que o snr. dr. Thephilo Braga teve com um dos seus mais
inteligentes discpulos a propsito da publicao do nosso livro sobre
Bernardim Ribeiro:

V. compreende... Eu sou como um mestre de obras... na construo de um
edificio. Ha vrios pedreiros... Vo-me chegando s mos diversas
pedras... Aproveito aquelas que se me afiguram de feio, geitosas,
convenientes para a minha obra, e as outras ponho as de parte, deito-as
fra.

E a um distinto confrade nas letras, ainda por motivo da publicao do
nosso livro, o professor do Curso Superior de Letras teve ensejo de
referir-se  nossa obscura pessoa, fazendo o favor de nos reconhecer
talento, mas... _que os estudos de investigao histrica eram umas
teclas muito dificeis, muito complicadas_...

O apreciado _mestre de obras_ (segundo a frase de s. ex.^a) escusava de
ter lido o nosso trabalho. O sub-ttulo do livro, _O Poeta Crisfal_,
demonstrava suficientemente ao snr. dr. Thephilo Braga que nenhuma
pedra de feio poderiamos proporcionar-lhe para o _aperfeioamento_ da
sua obra, porque o nosso livro lhe atirava a terra com os alicerces em
que se firmava o edificio... ou monumento erguido ao falso _Crisfal_.

Foi um castelo de cartas que um sopro deitou ao cho...

Oh! os estudos de investigao histrica so realmente... umas teclas
muito complicadas!


*3*

     Mesmo no prologo fez-me V. a justia de que eu aproveitaria tudo
     quanto se prestasse a futuras emendas.

                                        _Carta do snr. dr. Th. Braga._


No escrevemos tal no prlogo do nosso livro que o snr. dr. Thephilo
Braga aproveitaria d'ele _tudo quanto se prestasse a futuras emendas_.

O que ns escrevemos a pag. 24 do nosso estudo sobre Bernardim  o
perodo que segue:

Embora, em resultado da nossa descoberta, o snr. dr. Thephilo Braga
tenha de refundir mais uma vez os seus trabalhos sobre Bernardim Ribeiro
e S de Miranda, estamos plenamente convencidos de que ninguem estimar
mais do que o incansavel professor do Curso Superior de Letras a luz
derramada sobre a figura do grande poeta bucolista, amigo de Francisco
de S.

Nas linhas transcritas, o que havia da nossa parte era um cumprimento de
cortesia,--uma gentileza, uma amabilidade, prpria de quem, no tendo
qualquer agravo do snr. dr. Thephilo Braga, procurava colocar s. ex.^a
em bom terreno, oferecendo lhe, por assim dizer, uma ponte, uma tboa de
salvao, pela qual, sem quebra de linha, o escritor consagrado pudesse
atravessar, reconhecendo, ou fingindo reconhecer, o mau terreno que
estava pisando, e abraando honestamente a verdade evidenciada.

Era um cumprimento, repetimos; no um acto de justia, que a ele no
tinha jus o inftigo escritor. E da mesma natureza, no decurso do nosso
trabalho, outras demonstraes de cortesia ficaram assinaladas,
prestando homenagem  vida laboriosa do escritor encanecido cujos erros
combatiamos.

Mas como as amabilidades se agradecem, e os actos de justia no so
credores de qualquer agradecimento, aprouve ao snr. dr. Th. Braga ver
nas nossas palavras um acto de justia.

No lhe queremos mal por isso, pode crer o venerado professor.

Cada qual segue os impulsos do seu temperamento.


*4*

     Desde as noticias genealogicas trazidas por Braancamp Freire sobre
     D. Maria Brando, que Cristovam Falco amou, sendo ambos muito
     crianas, via-me forado a tomar o nascimento d'elle no fim do
     primeiro quartel do seculo XVI.

                                        _Carta do snr. dr. Th. Braga._


Quando chegmos a esta altura da preciosa carta do snr. dr. Thephilo
Braga ficamos verdadeiramente surpreendidos, para no dizer
boquiabertos!

Lemos e tornamos a ler o perodo transcrito, pesamos detida e
pacientemente cada uma das palavras que o constituem, e, ao cabo,
alcanamos o convencimento de que uma tal afirmao constituia uma
habilidade, um processo, uma engenhoca,--deixem chamar-lhe assim, embora
o termo deste, por menos acadmico,--a que o professor de literatura
recorria para no confessar ter sido o nosso trabalho que o obrigava a
aceitar o nascimento do suposto poeta no fim do primeiro quartel do
seculo XVI.

Fra pelas noticias genealogicas trazidas pelo snr. Braamcamp Freire
sobre D. Maria Brando que o snr. dr. Thephilo Braga, conforme nos
escrevia, se vira forado a no insistir no nascimento do pseudo Crisfal
no ano de 1497, se no antes!

Mas como podia isto ser, se o trabalho do ilustre escritor invocado pelo
snr. dr. Thephilo ainda no fra dado  estampa?

Teria o professor do Curso Superior de Letras recebido qualquer
comunicao sobre o assunto por parte do snr. Anselmo Braamcamp
Freire?--No, no tinha recebido, como o demonstram eloquentemente os
seguintes perodos de uma carta que em 5 de dezembro de 1908 nos
dirigiu, em resposta a uma nossa, o primoroso director do _Archivo
Historico_:


     Vamos agora  sua pergunta de hoje originada pela carta do dr.
     Teofilo Braga. Elle no conhece nada do meu trabalho sobre a Maria
     Brandoa, e faa-me a justia de crer que, no lho tendo mostrado a
     si, no o mostraria a mais ninguem. No lho mostrei a si, porque
     nas 150 paginas j impressas, de que em breve lhe mandarei um
     exemplar, nada digo a respeito de Maria Brandoa: trato dos Brandes
     do _Cancioneiro_ e da Feitoria de Flandres.


Depois da transcrio d'estas linhas, eloquentes e insuspeitas, do snr.
Braamcamp Freire, tornam-se desnecessrios de nossa parte quaesquer
comentrios  afirmao sem base do snr. dr. Thephilo Braga.

Passemos adeante sobre este caso triste!


*5*

     Isto nos impossibilitava de continuar a admittir as relaes
     pessoaes de Cristovam Falco com Bernardim Ribeiro j velho e
     dementado em confidencias de amor com um rapaz no vio da mocidade;
     e por tanto as Eclogas em que elle figurava interpretativamente
     tinham de ser lidas a outra luz. V. acabando de fazer a destrina
     entre o Poeta e seu primo mais antigo, deu-me elementos para uma
     melhor interpretao das Eclogas de Bernardim, (eliminadas as
     relaes com Cristovam Falco), e mostrando como realmente as
     poesias d'aquelle, como mestre, influiram no mais moo, que como
     novel chega a fazer centes e intercalaes de versos de Bernardim
     Ribeiro.

                                        _Carta do snr. dr. Th. Braga._


Pelo exposto, entende o snr. dr. Thephilo Braga que ns lhe demos
elementos para uma melhor interpretao das clogas de Bernardim, o que
importa implicitamente a afirmao de que no soubemos interpret-las,
ou que erramos a exegese com que julgavamos ter corrigido as lies
ministradas pelo ilustre professor.

Aguardemos, pacientemente, que o snr. dr. Thephilo Braga refunda mais
uma vez o seu livro sobre Bernardim Ribeiro, para ento apreciarmos as
novas interpretaes que o imaginoso historiador se prope apresentar
das clogas de Bernardim, e ficarmos tambem conhecendo quaes os _centes
e intercalaes_ de versos de Ribeiro que o novel Falco introduziu nas
suas produes... em prosa, nicas que obrou. Obrou, no sentido de:
produziu, claro est.


*6*

     Ha uma affirmativa histrica, de Diogo do Couto, na sua _Decada
     VIII_, que fallando de Damio de Sousa Falco, accrescenta como
     reforo historico: irmo de *Cristovam Falco*, aquelle que fez
     aquellas cantigas nomeadas de Crisfal... E tambem no seculo XVI
     Fructuoso (resumido pelo P.^e Antonio Cordeiro na Historia
     insulana) diz de Cristovam Falco: parente do Baro velho e do
     famoso poeta Cristovam Falco, que fez a celebre Ecloga Crisfal das
     primeiras syllabas do seu nome... Tambem nas edies de Ferrara e
     Colonia, feitas por curiosos sem criterio litterario, se repete a
     attribuio _que dizem ser_ de Cristovam Falco, ho que parece
     alludir o nome da mesma Ecloga. No se podem refutar por negativa
     estes testemunhos de homens de letras do seculo XVI, e que se
     reflectiram nos genealogistas.

                                        _Carta do snr. dr. Th. Braga._


A habilidade, ou antes o processo habilidoso, ou, melhor, a tendenciosa
redaco d'estes perodos no consegue iludir ninguem... Julgou talvez o
snr. dr. Thephilo Braga que nos desnortearia com esta subtileza de
processos... crticos. Tal no conseguiu, como ter de reconhecer no
foro ntimo da sua conscincia.

Vamos por partes:

Foram os editores de Ferrara e Colnia que propagaram pela imprensa a
lenda de que a paternidade da carta e ecloga de Crisfal era atribuida a
Cristovam Falco, e, fazendo-o, limitaram-se, com honestidade, a
escrever: que dizem ser... ao que parece aludir o nome da mesma
ecloga. Ao contrrio do que o snr. dr. Thephilo Braga procura fazer
incutir, tendenciosamente, os editores citados no repetiram uma
atribuio de homens de letras do seculo XVI...

Os homens de letras do seculo XVI  que repetiram, fazendo-a certa, a
atribuio feita com reservas pelos editores das obras de Bernardim
Ribeiro em 1554 e 1559. Aceitaram por boa, sem se darem ao trabalho de a
verificar, uma simples atoarda.

Quem eram os editores de 1554 e 1559 das obras de Bernardim Ribeiro?

Di-lo, judiciosamente, o snr. dr. Thephilo Braga na carta que vamos
analisando:

Eram *curiosos sem critrio literrio*.

Ser a estes obscuros obreiros do sculo XVI que o laureado professor
quer guindar  categoria de homens de letras com foros de autoridades?

No, os editores de 1554 e 1559 foram realmente creaturas sem o menor
critrio literrio, e por isso deram alentos  lenda forjada pelo vulgo;
mas no resta a menor dvida de que eram pessoas de bem, porque
consignaram uma _tradio vaga_, sem se atreverem a regist-la como um
facto positivo, indiscutivel, incontroverso. A cobrir a sua
responsabilidade de editores conscienciosos, l estamparam: que dizem
ser... ao que parece aludir. Outros fossem eles, que asseverassem que
as duas produes, carta e cloga, pertenciam a Cristovam Falco
incontestavelmente, irrefragavelmente!

Ignorava, porventura, o snr. dr. Thephilo Braga que os editores da obra
de Bernardim Ribeiro, ao produzirem as rbricas respeitantes ao suposto
autor do Crisfal, mencionavam apenas uma atoarda, uma vaga tradio?

No; o venerado professor no ignorava isso. Testemunha-o o que s. ex.^a
escreveu a paginas 21 da sua chamada edio crtica das obras de...
Cristovam Falco:

*As rubricas do editor de Colonia, encerram as tradies vagas, que,
passados nove annos, ainda corriam cerca d'aquelle infeliz namorado.*

Para que veio pois o snr. dr. Thephilo Braga asseverar que _tambem nas
edies de Ferrara e de Colonia se repete a atribuio_?

Mais diz o apreciavel escritor que no se podem refutar por negativa
as atribuies que Diogo do Couto e Frutuoso fizeram, repetindo _como
certo_ o que os editores das obras de Bernardim registaram _sob
reservas_.

No se podem refutar por negativa, no; mas podem refutar-se cabalmente,
pondo em confronto da obra potica atribuida a Cristovam Falco a obra
em prosa que ninguem ousar disputar ao suposto trovador.

E a admitir alguem, de reconhecida inteligncia e critrio, que o autor
das cartas em prosa podia ser o poeta da Carta e da Ecloga de _Crisfal_,
o mesmo equivaleria a aceitar como razoavel que Rosalino Candido pudesse
firmar as obras do snr. dr. Thephilo Braga, e que, consequentemente, o
laureado professor de literatura fosse capaz de produzir a obra
gigantesca de Victor Hugo.

 realmente desolador, para a fabula consagrada, que a Torre do Tombo
conserve os autgrafos de Cristovam Falco de Sousa!


*7*

     A ecloga de Crisfal no podia ser publicada pelo seu autor, nem
     pelo seu consentimento porque era uma _inconfidencia_ de antigas
     relaes amorosas com uma senhora que estava casada.

                                      _Carta do snr. dr. Th. Braga._


Esta bizarra revelao do snr. dr. Thephilo Braga constitue,
naturalmente, uma desenfastiada brincadeira de s. ex.^a.

Pois qual  a obra _lrica_ onde se no encontrem _inconfidncias_
semelhantes s da ecloga de Crisfal?

O snr. dr. Thephilo Braga, que aos catorze anos j se entregava a
devaneios poticos, no deixou certamente de dar publicidade a versos em
que foi decantada alguma dama unida pelos laos matrimoniaes... E
estamos convencidos de que ninguem chamou _inconfidncias_ aos suspiros
poeticos do trovador aoreano. As inconfidncias no servem de tema s
locubraes dos vates; onde existe arte, no bom sentido da palavra, no
ha inconfidncias, embora n'este ponto estejamos em absoluta
discordncia com a doutrina exposta pelo professor do Curso Superior de
Letras.

Em toda a obra, prosa ou verso, de Bernardim Ribeiro, vive, palpita, a
histria ingnua da sua vida, o trama dos seus mal-aventurados amores
por uma dama que trocou a afeio do poeta pela de um outro zagal. Foi
um inconfidente o magoado Bernardim?--No, foi um artista, foi um poeta
apaixonado, alma de eleio que da sua dor fez um poema, como diria
Goethe. E que adoravel e sentido poema nos legou o grande poeta
bucolista!

Mas no vale a pena insistir mais n'este ponto. A afirmativa do snr. dr.
Thephilo Braga constitue, naturalmente, um gracejo inofensivo de s.
ex.^a.


*8*

     A edio sem data, de Lisboa, s podia ser feita por 1542, quando
     Cristovam Falco estava em Roma; e quando Cames foi para Ceuta em
     1547 na Carta que d'ali escreveu emprega muitos versos do
     _Crisfal_, que ento andava no gosto.

                                      _Carta do snr. dr. Th. Braga._


Reproduzamos aqui o que o autor da _Historia da Litteratura Portugueza_
escreveu a paginas 394/5 do seu volume _Bernardim Ribeiro_ (edio
refundida):


     N'esta folha volante no vem a _Carta_, nem as _Cantigas_ e
     _Esparsas_ incluidas na edio de Colonia. Parece mais uma
     vulgarisao popular, talvez uma das muitas que tornaram a Ecloga
     _muy nomeada_, e de que a reproduo de 1571, feita em Lisboa
     (existiu na Livraria de Joaquim Pereira da Costa) seria o typo que
     serviu para a reproduo de 1619, em que apparecem elementos s
     conhecidos pela edio de 1559.

     A folha volante _sem data_ diverge do texto de Colonia
     profundamente; basta observar as variantes entre as lies das
     estrophes 51 e 52. Attribuimos a impresso das _Trovas de Crisfal_,
     a 1536, quando appareceram tambem em folha volante as _Trovas de
     Dois Pastores_ (Ecloga III) de Bernardim Ribeiro.

     A vinheta do Pastor com capuz e cajado no _Crisfal_  a mesma que
     serve nas _Trovas de dois Pastores_; o typo gothico corpo 12 do
     titulo do folheto de 1536  o empregado no texto do _Crisfal_.
     Tambem a vinheta da Dama, que vem no titulo, appareceu empregada em
     outra folha volante de 1536, intitulada _Tragedia de los amores de
     Eneas y de la reina Dido_.


Procedemos ao mesmo exame a que o snr. dr. Thephilo Braga sujeitou o
_pliego-suelto_, e chegamos a egual concluso. Algumas vezes nos
haviamos de encontrar em concordncia de vistas com s. ex.^a. E porque o
nosso pensar sobre o assunto egualava o do ilustre professor, escrevemos
a pag. 119 do livro _Bernardim Ribeiro_ (O Poeta Crisfal), aludindo ao
folheto sem indicao de data nem de lugar de impresso:

[Figura]

...mas reconhecendo-se, pelo confronto com outros folhetos, ser de
1536).

Como muito bem observou o snr. dr. Thephilo Braga, etc.

Seguiu-se a transcrio do pargrafo do snr. dr. Th. Braga que atrs
reproduzimos.

Mudou o abalisado professor de opinio quanto  data do _pliego-suelto_,
querendo agora fixar-lhe o ano de 1542, como poderia fixar-lhe o de 1552
ou 1562, arbitrariamente.

Se ao menos s. ex.^a tivesse a condescendncia de indicar-nos quando
seguiu os _processos inductivos da crtica moderna_! Ao fixar a data de
1536 ou quando arbitrou a de 1542?

Em folha apensa, damos uma reproduo foto-zincogrfica das primeiras
pginas dos tres folhetos que levaram o snr. dr. Thephilo Braga a fixar
a data da primeira edio conhecida das _Trovas de Crisfal_ em 1536.

Se nos perguntarem se estamos dispostos a quebrar lanas para sustentar
a antiga opinio do historiador da _Litteratura Portugueza_,
responderemos, com toda a franqueza, negativamente. O que no podemos
admitir  que se procure agora determinar-lhe _com preciso_ a data de
1542, com o simples fundamento de que n'esse ano estava em Roma o seu
suposto autor...

Alude o snr. dr. Thephilo Braga ao facto de Cames empregar versos do
_Crisfal_.

A explicao, a nosso ver,  muito simples:

Em Faria e Sousa, o insigne fabulista, autor muito da predileco do
snr. dr. Thephilo, encontra-se uma afirmativa, que constitue em nosso
juizo uma das raras que merecem algum crdito, no obstante a impureza
da _fonte_.

Referindo-se a Bernardim Ribeiro, escreveu Faria e Sousa: poeta bien
conocido y a quien llamava su Enio el divino Cames.

No desconhece isto o professor do Curso Superior de Letras, porque a
pag. 131 da primeira edio do seu _Bernardim Ribeiro_ reproduziu da
_Fuente de Aganipe_ o dizer de Faria.

Como demonstrmos no volume sobre o _Poeta Crisfal_, Cames glosou o
magoado solau da _Menina e moa_, de Bernardim Ribeiro.

Em uma das cartas atribuidas ao cantor dos _Lusiadas_, encontra-se uma
aluso directa ao autor das _Saudades_, indicando-lhe o nome: _Bernardim
Ribeiro_.

Se Bernardim era o seu _Enio_, naturalssimo  que Cames se deixasse
influenciar pelo Mestre, imitando alguns dos seus versos.

A no ser que o snr dr. Thephilo Braga queira concluir que, sendo
Bernardim o _Enio_ de Cames, Cristovam Falco era o _Enio_ numero 2 do
mesmo poeta,--assim a modos de um _Enio_ barato, para trazer por casa.

Prossigamos...


*9*

     Na edio de Lisboa vem duas estrophes supprimidas no texto de
     Ferrara e Colonia, por que continham uma _inconfidencia_. Isto leva
     a explicar como Cristovam Falco tentaria apagar a paternidade da
     Ecloga fundamentando-se-lhe a imputao com o anagramma das
     primeiras syllabas do nome.

                                     _Carta do snr. dr. Th. Braga._


Salvo erro, o snr. dr. Thephilo Braga quer referir-se apenas a uma, e
no a duas estrofes.

E  estrofe que reza:


    Muitos pastores buscaram
    mas um pastor por ser-te amigo,
    e outro por ser-te enemigo,
    um e outro se escusaram.
    E do-lhe logo comigo
    gados que faro mil queijos;
    mas como se despediam
     j mostrar que temiam
    que o sabor dos teus beijos
    na minha boca achariam!


Falava-se em _beijos_... Era uma _inconfidncia_, e gravssima, e por
isso a estrofe foi suprimida nas edies de Ferrara e de Colnia! Est
claro, e tam claro que, no dizer do snr. dr. Th. Braga, _isto leva a
explicar como Cristovam Falco tentaria apagar a paternidade da
Ecloga_...

Ora admitindo por um momento que Cristovam Falco houvesse sido poeta, e
tivesse a lembrana de escrever uma cloga abundante em
_inconfidncias_, pespegava-lhe, sem mais nem menos, com um anagrama
deduzido das primeiras slabas do seu nome, para que toda a gente logo o
apontasse a dedo como _inconfidente_?

De mais a mais, como quer o snr. dr. Th. Braga na sua exegese, se o
suposto poeta empregasse os nomes verdadeiros de todas as personagens
que a cloga alvejava, isso constituiria um _apagamento_ de paternidade
muito pouco apagado...

Todo o mistrio, o discreto veu da fantasia, a cobrir a realidade dos
episdios que a cloga do _Crisfal_ menciona, equivaleria  ingenuidade
infantil d'aquela antiga adivinha: Branco , galinha o pe!

Ponha se o snr. dr. Th. Braga no lugar do pseudo-trovador, imagne que
resolvia arquitectar uma cloga cheia de _inconfidncias_, e diga-nos,
com franqueza, se, desejando apagar a paternidade de um tal feito,
assinaria a sua produo com o anagrama _Theobra_?

Logo os seus discpulos concluiriam, triunfalmente: C temos mais um
poema do Mestre! E fosse l s. ex.^a convenc-los de que no era tal o
autor da _inconfidncia_!


*10*

     Os logares communs a Bernardim Ribeiro e Cristovam Falco provam
     mais a favor da imitao de um discipulo, do que  fuso dos dois
     poetas, repetindo-se o mestre na decadencia.

                                    _Carta do snr. dr. Th. Braga._


Com o respeito devido ao professor de literatura, de modo nenhum podemos
aceitar a sentena de s. ex.^a

A _subtileza_ do snr. dr. Thephilo Braga, proclamando que os lugares
comuns a Bernardim Ribeiro e Cristovam Falco provam mais a favor da
imitao de um discpulo do que  fuso dos dois poetas,  da natureza
do conhecido artifcio pelo qual se pde sustentar que cinco vintens no
so um tosto, ou vice-versa!

Admitindo que Cristovam Falco tivesse sido um imitador de Bernardim,
como quer o abalisado professor, explica-se porventura que levasse tam
longe a sua improbidade literria, que roubasse por inteiro versos e
cantigas ao seu mestre, com a maior desfaatez? Pois o autor da _Carta_
e da _Eclga de Crisfal_, a ser um imitador, no teria o bom senso
suficiente para reconhecer que, roubando versos de Bernardim, no
alcanaria renome de poeta, mas o apodo de salteador literrio?

Um imitador, por mais inexperiente e tacanho, no se aproveita dos
textos que imita de maneira a que lhe possam apontar os versos
_palmados_. Ou no ser isto o que a lgica permite conjecturar?

Como ignoramos _os processos inductivos da critica moderna_,  possivel
que estejamos em erro, e que da mesma ignorncia resulte no alcanarmos
o sentido das palavras do snr. dr. Thephilo Braga quando afirma que o
mestre (Bernardim Ribeiro) se repetiu na decadncia.

Que repeties? e que decadncia?


*11*

     Emfim ha dois schemas de paixo amorosa que se no confundem: o de
     Joana e Fauno, Aonia e Bimnarder, e o de Maria e Crisfal. So duas
     almas, sentindo em situaes differentes.

                                      _Carta do snr. dr. Th. Braga._


Ha dois schemas de paixo amorosa que se no confundem, diz o snr. dr.
Thephilo Braga na carta que, pacientemente, estamos anotando.

 verdadeira esta afirmativa?

--No, no  verdadeira, e o professor do Curso Superior de Letras sabe
muito bem que o no .

Em 1897, ao publicar a sua edio refundida do livro _Bernardim
Ribeiro_, confrontando versos de Bernardim com os atribuidos a Cristovam
Falco, escreveu o professor de literatura.

V-se que  medida que *a situao dos amores de Bernardim Ribeiro
seguia o mesmo desfecho dos amores de Cristovam Falco*, os dois poetas
communicavam entre si os seus versos, sendo por este modo que se
salvaram as poesias do auctor do _Crisfal_.[6]


Ha dois schemas de paixo amorosa que se no confundem, diz s. ex.^a,
procurando agarrar-se a uma boia salvadora...

Mas tanto a paixo  uma s que o snr. dr. Thephilo Braga, na cloga em
que Bernardim se personifica sob o nome buclico de _Persio_, viu n'essa
personagem *Cristovam Falco*! E estamos em crer que o ilustre professor
no ir agora sentencear que a cloga primeira de Bernardim tambem foi
elaborada pelo suposto trovador...

Pois se o snr. dr. Thephilo Braga at concluiu que tanto Bernardim como
Cristovo Falco sofreram as agruras do _carcere privado_!

Como pde suceder que o distinto escritor j se no recorde do que
escreveu a pag. 76/78 da sua edio refundida do livro Bernardim
Ribeiro, arquivemos aqui algumas das suas passagens:

     ...No ignorava Bernardim que o namorado de Maria tambem estivera
     em carcere privado:

         _Vi-me j preso_; contente
         A meu mal queria bem.

     Na Carta, que escreveu _estando preso_, e mandou quella com quem
     estava casado a furto, diz Christovam Falco:

         Mal cuja dor se no cr
         de _priso_ e de ausencia!
         .............................

         Bem se enxerga nos meus danos
         _que estou preso ha cinco annos_,
         afra os que heide estar...

     Retratando o cuidado de Persio, diz Bernardim Ribeiro:

         Logo ento comeou
         _Seu gado a emagrecer,
         Nunca mais d'elle curou_,
         Foi-se-lhe todo a perder
         Com o cuidado que cobrou.

     Em Christovam Falco l-se:

         Crisfal no era entam
         dos bens do mundo abastado,
         tanto como de cuidado,
         que por curar da paixo
         _no curava do seu gado_.

     E continuando o parallelismo, por onde se v que os dois poetas
     eram mutuos confidentes, e se influenciaram, temos mais estes
     traos com que Bernardim Ribeiro retrata o _Crisfal_:

         Sentava-me em um penedo
         Que no meio d'agua estava;
         Ento alli s e quedo
         A minha frauta tocava.

     E no _Crisfal_, quasi pela mesma maneira:

         Alli sobre uma ribeira
         de mui alta penedia,

         d'onde a agua d'alto caa,
         dizendo d'esta maneira
         estava a noite e o dia...

     Bastam estas comparaes para se reconhecer a communho artistica
     entre os dois namorados poetas.


Depois de haver escrito o que acaba de ler-se, como se compreende que o
snr. dr. Thephilo Braga venha proclamar, com a maior sem-cerimnia, que
ha _dois schemas de paixo amorosa que se no confundem_!

Quanto a _Fauno_, nome pastoril que, em uma das clogas, Bernardim d ao
seu amigo, confidente e colega Francisco de S de Miranda, quer o snr.
dr. Thephilo Braga que seja a personificao do prprio B.
Ribeiro,--talvez para no confessar que ns acertamos na interpretao
apresentada no _Poeta Crisfal_.

Temos certa curiosidade em saber se na futura refundio do livro sobre
os poetas bucolistas o seu autor transferir para S de Miranda o crisma
de _Persio_, na impossibilidade de continuar a ver na mesma figura os
traos de Cristovam Falco...

De uns versos de Francisco de S, imitando uma cano de Petrarca, j o
ilustre professor concluiu que o amigo de Bernardim sofrera a priso,
por motivo de amores...  meio caminho andado para que, na fantasia de
s. ex.^a, o douto S de Miranda v tomar o pouso do derreado Falco.

A ver vamos... como dizia o cego, e cada vez via menos!


*12*

     Atravs de todo o hypercriticismo, o livro sobre Bernardim revela
     um trabalhador fervoroso, etc.

                                       _Carta do snr. dr. Th. Braga._


Duas palavras apenas:

A nosso juizo, aquele _atravs_ est a substituir, amavelmente, o
advrbio _apesar_...  o que julgamos depreender da sequncia da frase.

No nosso modesto e desvalioso estudo, o snr. dr. Thephilo Braga apenas
viu _hipercriticismo_, o que de modo nenhum pde agradar ao historiador
da _Litteratura Portugueza_, que s emprega os modernos processos da
crtica scientfica,--graas aos quaes... se v obrigado a refundir
amiude os seus trabalhos!

Continuaremos, impenitentes, a cultivar o _hipercriticismo_, deixando ao
snr. dr. Thephilo Braga o uso exclusivo dos seus processos, que no nos
seduzem, com toda a franqueza o dizemos.




IV

A comunicao do presidente da Academia das Sciencias de Portugal


No seio da sociedade scientfica e litraria, de que  ilustre
presidente, proclamou o snr. dr. Thephilo Braga,  porta fechada, isto
, em reunio privativa dos scios d'aquela Academia, que a vida amorosa
de Cristovam Falco _oscila entre 1525 e 1526, sendo n'aquella data
moo fidalgo, tendo pelo menos 12 annos_.

Cristovam Falco de Sousa era moo fidalgo em 1527, como se demonstra
indubitavelmente pelo registo exarado n'um livro que existe no arquivo
da Torre do Tombo, registo que reproduzimos com fidelidade a paginas
168/9 do nosso estudo sobre Bernardim Ribeiro.

Na sua erudita comunicao  Academia das Sciencias de Portugal, afirmou
o snr. dr. Thephilo Braga que o suposto autor do _Crisfal_ tinha _pelo
menos 12 anos  data de 1525_...

No indicou o douto acadmico o documento ou _recurso histrico_, em que
se estribava para sentencear, sem admitir rplica, que o pseudo-trovador
tinha _pelo menos 12 anos  data de 1525_, mas  possivel que s. ex.^a
esteja munido de concludentes provas para demonstrar a justeza da sua
afirmativa, se alguem se lembrar de contestar-lhe tam peremptria
opinio.

Se o ilustre professor no possue a tal respeito documentos bastantes,
pde dar-se o caso de alguem vir manhan, quando mais no seja para
fazer pirraa a s. ex.^a, declarar que Cristovam Falco de Sousa,  data
de 1525, no era ainda nascido, ou, quando muito, teria doze mses, e
no 12 anos...

Mas  possivel que o snr. dr. Thephilo Braga tenha conseguido descobrir
qualquer documento em que apoie a sua sentena.  at muito possivel!

O importante, por agora,  verificar que o laureado acadmico fixou o
ano do nascimento do pseudo-poeta em 1513, poucos mses mais, poucos
mses menos, se a lgica no  uma cantata para adormecer meninos.

Ora, sendo assim, v-se que alguma cousa se ganhou com a publicao do
nosso livro sobre o _Poeta Crisfal_, onde a paginas 176 escrevemos:

*Quanto a Cristovam Falco de Sousa, moo fidalgo em 1527, por muito
que se queira afastar a data do seu nascimento, no poder esta ser
fixada em ano anterior a 1510. Fixando-se o seu nascimento entre os anos
de 1510 a 1515,  natural que se fique muito prximo da verdade.*

O snr. dr. Thephilo Braga, em face do nosso estudo, escolheu o ano de
1513, cifra que se encontra compreendida _entre 1510 a 1515_, salvo
erro.

Ns, porm, com inteira franqueza o dizemos, temos ainda suas dvidas, e
aps recentes pesquizas, em que vamos prosseguindo, inclinamo-nos a
ajuizar que o pseudo-_ultimo eco do alade_ ainda no era nascido no ano
de 1516...

Mas, para aclarar este ponto de capital importncia, aguardemos a nova
verso que o snr. dr. Thephilo Braga tem na forja sobre os poetas
bucolistas.

Alm de ter modificado a sua antiga doutrina sobre a epoca em que
floresceu o falso _Crisfal_, na sua comunicao ao grmio literrio a
cujos destinos preside, o snr. dr. Thephilo determinou que a vida
amorosa do homenzinho oscilara *entre 1525 e 1526*,--isto  no perodo
ingnuo e vioso dos doze para os treze anos, quando a suposta mulher
amada pelo Xpouo contaria, na melhor das hipteses, as suas fagueiras e
menineiras dez primaveras...

Mas, decorrido menos de um ms sobre a comunicao... scientfica, o
egrgio conferente emendou este seu parecer, como se ver quando
analisarmos o artigo epigrafado _Movimento litterario_.

Segundo o extrato publicado no jornal O Mundo, que condizia com os de
outras gazetas, o snr. dr. Thephilo Braga _evidenciou que na ecloga
Crisfal transpareciam diversas situaes da vida de Cristovam
Falco_.

Infelizmente, os jornaes no nos forneceram qualquer pormenor
elucidativo sobre a referida _evidenciao_, pelo que ficamos, com
verdadeiro pesar, privados de reconhecer a maneira engenhosa pela qual o
distincto professor de literatura conseguiu demonstrar, _urbi et orbi_,
que na magoada cloga de Bernardim Ribeiro transpareciam _diversas
situaes da vida de Cristovam Falco_.

 possivel, porm, que na prxima futura refundio do seu livro sobre
os bucolistas, o snr. dr. Thephilo Braga inclua um largo captulo em
que trate o assunto com o devido desenvolvimento, completando o extrato
que os jornaes fizeram da sua apreciavel comunicao, com o que
preencher uma sensivel lacuna. Oxal assim suceda.

Terminou o conferente a sua palestra por invocar, mais uma vez, Diogo do
Couto e Gaspar Frutuoso; e mais uma vez afirmou que as duas
individualidades (Bernardim Ribeiro e Cristovam Falco de Sousa) _no
podem jmais confundir-se_.

Perfeitamente de acordo, n'esta parte, com o venerado professor!

Cristovam Falco, o iletrado autor das _Quartas_, no pde jmais
confundir-se com Bernardim Ribeiro, o mavioso autor da _Carta_ e da
_Ecloga de Crisfal_...

Pelo que, implicitamente, fica demonstrado que ns no temos dvida em
adoptar uma ou outra das concluses do presidente da Academia das
Sciencias de Portugal, apesar de todo o nosso hipercriticismo, como est
vendo o nosso _prezadssimo amigo_!




V

O artigo Movimento litterrio


Como os leitores viram, pela reproduo que fizemos no primeiro captulo
d'este trabalho, no artigo que publicamos nas colunas do dirio A
Lucta, sob a epigrafe: _Os processos... scientificos do snr. dr.
Thephilo Braga_, salientmos vrias inexactides contidas no capcioso
desarrazoado que o professor do Curso Superior de Letras estampou no
jornal O Dia, a pretexto de dar notcia do movimento literrio
portugus no ano de 1908.

No insistiremos sobre os pontos j visados, embora prestassem o flanco
a mais largas consideraes, mas nem o tempo nos  sobejo nem tam pouco
desejamos abusar da benevolncia dos que nos lem, prolongando
demasiadamente este comentrio desenfastiado e despretencioso s
refutaes embrogliadoras e falhas de sinceridade do snr. dr. Thephilo
Braga.

Sem a publicao do artigo _Movimento litterrio_, aguardariamos
pacientemente a futura refundio do livro consagrado ao estudo dos
poetas bucolistas pelo egrgio professor, e s em face das novas
exegeses fantasiadas pelo snr. dr. Thephilo Braga viriamos a pblico
dizer o que se nos oferecesse, defendendo, o melhor que soubessemos e
pudessemos, as concluses que apresentmos no nosso trabalho sobre o
_Poeta Crisfal_.

No o quis assim o distinto escritor aoreano. Seja feita a sua vontade!


*1*

     ...o snr. Delfim Guimares publicava o seu livro _Bernardim
     Ribeiro--O Poeta Crisfal_, em que resume o j sabido da biographia
     do auctor da Menina e Moa, forando interpretaes de versos a
     significarem os factos que imagina.

                               _Do artigo Movimento Litterario_.


Na opinio soberana do consagrado professor, no nosso livro sobre
Bernardim Ribeiro resumimos o _j sabido_ da biografia do autor da
_Menina e moa_, e formos interpretaes de versos a significar os
factos que imaginmos!

Tem carradas de razo o implacavel crtico quando proclama, desdenhoso,
que ns resumimos o que j era sabido da biografia do grande poeta
bucolista.

Resumimos quanto pudemos, exageradamente talvez, o que _j era sabido_
da biografia de Bernardim Ribeiro, mas muito de propsito assim
procedemos, para que ninguem, em face do nosso trabalho, pudesse dizer
com justia que fra nosso intento fazer substituir no mercado o livro
do snr. dr. Thephilo Braga pelo nosso.

 certo que nos poderiamos ter conduzido pela mesma frma adoptada pelo
consciencioso escritor ao _resumir_ no seu _Garrett_ o trabalho
desenvolvido de Gomes de Amorim, mas no quisemos seguir semelhante
conduta, muito embora pudessemos invocar, como modlo, o exemplo que nos
fornecia o historiador da *Litteratura Portugueza*.

No quisemos enveredar por esse caminho, e no estamos arrependidos,
apesar do remoque com que fomos alvejados. Cada qual segue os processos
que muito bem entende, mais em harmonia com o seu temperamento ou
educao.

Resumimos o j sabido da biografia de Bernardim,  um facto; mas tivemos
o cuidado de no aproveitar aquela descoberta mais que problemtica que
localizou a _Quinta dos Lobos_ na _Quinta da Piedade_, em Sintra, e nem
por um momento nos passou pela cabea perfilhar as palavras do snr. dr.
Thephilo Braga quando v *a persistencia do elemento mauresco, na
paixo exaltada do poeta e no calor surprehendente da sua
linguagem*.[7]

No seguimos tam pouco na esteira do eminente exegeta quando s. ex.^a
pinta, ao sabor da sua fantasia rocamboliana, Bernardim Ribeiro:
*moreno, fino e enchuto de carnes, com a perdio no olhar e a
fatalidade invencivel no amor*.[8]

Resumimos o j sabido da biografia de Bernardim, alto e bom som o
declaramos; mas alguns erros tivemos ocasio de apontar ao bigrafo
ilustre do autor da _Menina e moa_, para que os corrija, querendo, nas
futuras edies, pelo que nenhum agradecimento nos deve, seja dito.

Que teria perdido o renome universal do Mestre em se mostrar, no
diremos mais benevolente, mas mais justo? Oh! o positivismo!...

Mas assevera o snr. dr. Thephilo Braga que ns *foramos interpretaes
de versos a significarem os factos que imaginamos*!

Onde viu s. ex.^a essas interpretaes foradas?

Tendo-as visto, por que motivo no veio indic-las em pblico, para
exautorao do nosso _hipercriticismo_, para maior glria do seu
laureado nome, para mais intenso fulgor da nossa Histria literria?

Formos interpretaes de versos!

Se o professor de literatura estivesse de boa f, e entendesse realmente
que ns haviamos errado a interpretao de versos de Bernardim, que lhe
competia fazer, que lhe cumpria fazer?

--Indicar-nos onde haviamos errado, fazendo-nos ver que estavamos em
erro; e quando s. ex.^a nos convencesse da razo das suas corrigendas,
ou reprimendas, acredite o snr. dr. Thephilo Braga que havia de ver-nos
confessar, com honestidade, sem o menor rebuo, que tinhamos errado, e
no fugiriamos a apregoar que o ilustre censor nos aplicara umas
palmatoadas merecidas.

Mas quando mesmo (o que no est demonstrado) tivessemos incorrido em
erros ao interpretar versos de Bernardim, tinha, porventura, o snr. dr.
Thephilo Braga a precisa autoridade para os apontar por aquela frma
agressiva, com semelhante crueza?

--No tinha. S. ex.^a no pde arguir quem quer que seja de _forar
interpretaes_, porque ninguem como o professor do Curso Superior de
Letras  useiro em amoldar interpretaes de versos ao sabor da sua
imaginao.

Para que ninguem nos incrimine de injustos para com o snr. dr. Thephilo
Braga, vamos demonstrar com exemplos colhidos em obras do Mestre algumas
_interpretaes_ bizarras, que oferecemos ao critrio dos que nos lem:

N'uma das clogas de Bernardim Ribeiro, o poeta bucolista, referindo-se
a uma visita que lhe fez o seu amigo S de Miranda, escreveu a narrar o
facto:


    .......................
    e neste mo chegou
    um pastor seu conhecido,
    e que dormia cuidou.

    Franco de Sandovir era
    o seu nome, e buscava
    [~u]a frauta que perdera,
    que elle mais que a si amava.
    Este era aquelle pastor
    a quem Celia muito amou,
    ninfa do maior primor
    que em Mondego se banhou,
    e que cantava melhor.

Veja-se como o snr. dr. Thephilo Braga anotou estes versos:


     *Deve entender-se que foi o pastor, que se banhou no Mondego, e
     no Celia, como pode inferir-se*.

                          _S de Miranda e a Eschola Italiana, p. 49_


       *       *       *       *       *


Na cloga em que Bernardim adoptou o criptnimo _Crisfal_, descreve o
poeta a apario da mulher amada, que v em sonho


    vestida de *arenoso*,


ou seja de amarelo, a cr simblica do pesar ou desespero, o que
qualquer bronco namorado de aldeia sertaneja no ignora.

Pois o snr. dr. Thephilo, querendo fazer da mulher amada por _Crisfal_
uma freira cisterciense, interpretou a passagem aludida pela seguinte
maneira:


     *Crisfal viu a sua Maria vestida de cr de arenoso, ou do habito
     amarellado da Ordem cisterciense*...

                                  _Obras de Christovam Falco, p. 11_


Ora o hbito da Ordem de Cister no era amarelado, mas branco!

No obstante, seguindo o mesmo critrio, o distinto professor tambem
quis reivindicar para o suposto poeta Falco a paternidade de uma poesia
de Bernardim Ribeiro consagrada a _uma senhora que se vestiu de
amarelo_...


    T aqui me pude enganar,
    mas agora que podeis
    trazer a *cr do pesar*
    pera mim s a trazeis...


que o snr. dr. Thephilo Braga comentou pelo seguinte processo
_inductivo_:


     *Ora o amarello s podia ser cr de pezar no caso de representar a
     cgula cisterciense; e em vista dos factos sabidos, s estava no
     caso de escrever esta cantiga Christovam Falco, e no Bernardim
     Ribeiro pelo que se sabe da sua vida*.

                                      _Obras de Christovam Falco, p. 12_


Mas, felizmente para a memria do poeta bucolista, a poesia em questo
foi uma das que o benemrito Garcia de Rsende reproduziu no Cancioneiro
Geral, publicado em 1516, quando Cristovam Falco de Sousa... ainda
andava de coeiros, se  que j pertencia ao numero dos vivos...

Ora que distino concederia o ilustre professor quele dos seus
discpulos que, interrogado sobre a _cr branca_ do cavalo de Napoleo
1.^o, lhe respondesse que o sobredito imperial cavalo _branco_... era
_amarelo_?


       *       *       *       *       *


Em uma das suas clogas, o poeta-filsofo S de Miranda, aludindo ao
Amor, causa da desventura do seu camarada Bernardim Ribeiro, expressa-se
por esta frma:


    Amor burlando v, muerto me deja;
    Tiene de que por cierto; a su merced
    Como de seor vine; arm la red,
    Puso me en prision dura, ende me aqueja;
    Cada ora mas se aleja
    De mi, mucho cruel. Quien me desmiente?
    Ah que lo saben todos! quien gan
    El precio de la lucha, ese perdi!
    Enemigo seor que tal consiente!


Pois no Amor, no travesso, inconstante e cruel Cupido, o snr. dr.
Thephilo viu nada menos que a personificao do favorito d'el-rei D.
Joo III, D. Antnio de Atade, conde da Castanheira!

Para que os leitores no julguem que fomos ns que interpretamos mal
quaesquer palavras do arguto exegeta, reproduzimos a sua anotao:


     ...*aquelle retrato do inimigo senhor que tal consente, bem se
     parece com o omnipotente valido o conde da Castanheira*.

                         _S de Miranda e a Eschola Italiana, p. 206_


       *       *       *       *       *


Por um recente trabalho do nosso estimado camarada Hemetrio Arantes
sobre Frei Agostinho da Cruz, j os leitores no ignoram que o professor
do curso Superior de Letras fez de *um gato bravo... uma cavalgadura*, e
do *Monte do Lobo... um lobo* carniceiro que devorou, chamando-lhe um
figo, a sobredita cuja cavalgadura!

Para fechar esta exposio, referiremos ainda mais um interessante
episdio exegtico da obra do Mestre:

Em uma das poesias lricas de Luis de Cames, alude o grande poeta 
desventura que desde a infncia o perseguia, como se v dos seguintes
magoados versos:


    Foi minha ama uma fera; que o destino
    No quis que mulher fosse a que tivesse
    Tal nome para mi, nem haveria.
    Assi criado fui porque bebesse
    O veneno amoroso de menino...


de que tambem se conhece a seguinte variante:


    Por ama tive [~u]a fera, que o destino
    No quis que melhor fosse a que tivesse
    Para o que elle de mi fazer queria...


Em face da segunda verso, concluiu o snr. dr. Thephilo Braga,
arguciosa e sibilinamente:


     *Esta verso tira todo o sentido figurado  antecedente, e d'aqui
     se conclue, que Cames fora amamentado por uma alimaria, etc.*

                    _Historia de Cames, Parte II, Livro II, p. 564_


Esta ideia verdadeiramente original de interpretar os versos de Cames,
dando-lhe por ama uma *alimria*, ou seja uma cavalgadura ou uma besta,
corre parelhas com a interpretao dada  _gineta_ de Frei Agostinho da
Cruz.

No se pde dizer que o eminente professor faa de um argueiro um
cavaleiro, mas no ha a menor dvida de que s. ex.^a transforma um gato
bravo e uma brava ama de leite... em cavalgaduras!

Pelo que respeita  ama de Cames, o que vale ao snr. dr. Thephilo
Braga  o facto do nosso grande pico no poder, com facilidade,
escapulir-se do tmulo em que repousa no Panteo dos Jernimos, _si vera
est fama_! De contrrio, o _Trincafortes_ era capaz de fazer uma das
suas.


Parece-nos que fica suficientemente demonstrado quem  que fra
interpretaes de versos alheios a significarem aquilo que imagina...


*2*

     Como lhe nasceu no espirito a ideia de fazer esta descoberta? Pela
     impresso que lhe causra a leitura dos versos de Bernardim Ribeiro
     e os de Christovam Falco--dois poetas de temperamento semelhante,
     com eguaes influencias e educaes litterarias, com eguaes
     episodios nos seus infortunados amores, e havendo entre ambos
     versos absolutamente eguaes.

                                    _Do artigo Movimento litterrio_


Pela transcrio que o snr. dr. Thephilo Braga indica, pde alguem
acreditar que foram realmente aquelas as palavras por ns empregadas no
nosso estudo. No foram. O ilustre professor modificou a seu bel-prazer
o que ns escrevemos, que se l a paginas 6 do nosso livro sobre
Bernardim:


Muito embora o temperamento dos dois poetas fosse semelhante, mesmo
muito semelhante, e eguaes as influncias e educaes literrias que
houvessem recebido; embora fossem eguaes os episdios dos seus
infortunados amores,  estranho que por frma tam absolutamente
semelhante traduzissem o seu sentir, revelassem o seu temperamento
artstico, chegando a empregar versos absolutamente eguaes! etc..


Porque no reproduziu, _fielmente_, o snr. dr. Thephilo Braga aquilo
que escrevemos? Estranha maneira de exercer a crtica... moderna!


*3*

     D'aqui o identificar os dois poetas em um unico; como conseguil-o?
     Considerou a individualidade poetica de Cristovam Falco como uma
     lenda estupida formada pelos genealogistas, e formou o nome de
     _Crisfal_ indo buscar  ta s palavras _Crisma falsa_,
     tirando-lhes as syllabas iniciaes para designarem a seu talante
     Bernardim Ribeiro.

                                   _Do artigo Movimento litterrio_


Afirma o snr. dr. Thephilo Braga que consideramos a individualidade
potica de Cristovam Falco como uma lenda estpida formada pelos
genealogistas... Onde encontrou s. ex.^a a base em que firma a sua menos
verdadeira afirmativa?

Vamos reproduzir o que escrevemos a paginas 9/10 do nosso livro, para
desfazer a arbitrria interpretao do venerado professor.


     Cotejmos ento as referncias de Bernardim a Francisco de S com
     a aluso que na cloga de _Crisfal_ haviamos interpretado como
     visando esse poeta, e qual no foi a nossa alegria, a nossa viva
     satisfao ao reconhecer que os versos de _Crisfal_ que alvejavam
     Miranda condiziam perfeitamente com as referncias das clogas de
     Bernardim ao seu grande amigo e confidente! No condiziam apenas:
     completavam, aclaravam, a nosso ver, essas aluses.

     Fez-se ento uma grande luz no nosso esprito. No se tratava de
     dois poetas muito parecidos, de um creador e de um imitador.
     Bernardim Ribeiro e _Crisfal_ eram um nico poeta. O trovador
     Cristovam Falco era o produto de uma lenda nascida da
     interpretao dada pelo vulgo ao anagrama _Crisfal_.

     E, para que o nosso convencimento mais se robustecesse, l estavam
     os dizeres alusivos  ecloga de _Crisfal_ da edio de Colnia,
     revelada pelo snr. dr. Th. Braga, e estudada pelo snr. Epiphnio
     Dias: _que dizem ser_ de Cristovam Falco, _ao que parece aludir_
     o nome da mesma cloga.

     _Que dizem ser_... _ao que parece aludir_...

     Isto, a nossos olhos, era decisivo. Os editores de 1559 das obras
     de Bernardim Ribeiro, e antes de eles os de 1554, como depois
     viemos a apurar, tinham registado com relao  cloga uma fbula
     que devia datar da primeira edio das _Trovas de Crisfal_, etc.


O que ns dissemos, pois, e isso sustentmos,  que a individualidade
potica de Cristovam Falco nascera da errada interpretao prestada
pelo vulgo ao anagrama _Crisfal_,--fbula que os editores de 1554 e 1559
das obras de Bernardim Ribeiro tinham registado, _sob reservas_.

Como haviamos ns de propalar terem sido os genealogistas que formaram a
lenda, se os genealogistas, depois de 1554 e 1559,  que foram buscar as
_tradies vagas_ recolhidas pelos editores de Bernardim?

Onde esto os genealogistas anteriores s edies de Ferrara e de
Colnia que se fizessem co da fbula do _Crisfal_?

Ah! malfadados _processos inductivos da crtica moderna_!


Diz o snr. dr. Thephilo Braga que ns fomos buscar _ ta_ as primeiras
slabas das palavras _Crisma_ e _falso_ para a nosso alvedrio designarem
Bernardim Ribeiro!

No foi _ ta_, como inculca o nosso acerbo censor, que conseguimos
apurar a constituio do criptnimo _Crisfal_; e que no foi  ta
sabe-o muito bem o implacavel critico, que no deixou de ler, e que at
a reproduziu, a explicao que sobre tal facto demos:


     Alcanada a convico de que _Crisfal_ era um anagrama de
     Bernardim Ribeiro, e norteados pelo conhecimento de que nas suas
     produes o poeta mudava constantemente os seus nomes pastoris, com
     um pequeno trabalho de raciocnio no nos foi dificil deduzir a
     constituio do criptograma, que era formado pelas primeiras
     slabas das palavras _Crisma_ e _Falso_.


E corroborando estes dizeres do prlogo do nosso livro (p. 10),
escrevemos mais adeante (p. 82/83) ao tratar da interpretao da cloga
atribuida ao suposto _Crisfal_, Cristovam:


     Bernardim deduziu o anagrama com que se denomina n'esta cloga das
     palavras _Crisma_ e _Falso_, de que aproveitou as primeiras
     slabas, formando assim a palavra _Crisfal_.

     Os nomes pastoris que figuram n'esta cloga, obedecendo  ideia
     que fundamentou a composio, so todos les _crismas falsos_,
     sendo dificil profundar quaes as personagens reaes que o poeta ps
     em scena, o que deu lugar a erradssimas interpretaes,
     contribuindo para que tomasse vulto a lenda, que resultou do
     prprio anagrama _Crisfal_, que foi tomado como deduzido dos nomes
     de Cristovam Falco.


No foi  ta mas seguindo uma orientao criteriosa, que alcanmos a
verdade, que nenhuma subtileza conseguir destruir j agora.

Outro-tanto no se pde dizer da maneira pela qual o snr. dr. Thephilo
Braga conseguiu, por exemplo: decretar os *cantos de ledino, estampar
como documento do sculo XVI um apcrifo contendo versos do sculo
XVIII, e fazer Cames bacharel formado... em latim pela Universidade de
Coimbra*!

Se ns, invocando esses precedentes, ousassemos retorquir que _ ta_
costumava proceder o escritor que contraditmos, caa-nos em cima o
Carmo e a Trindade!

_ ta!_...  realmente forte, e no deixa de ofender.


*4*

     Mas, como se pde chamar estupida a lenda genealogica se os nomes
     contidos na cloga de _Crisfal_ condizem com os seus parentes taes
     como o de _Pantaleo_ Dias de Landim, seu av, e a Joanna, que lhe
     denuncia o casamento clandestino, uma prima, como o notou o snr.
     Jordo de Freitas?

                                  _Do artigo Movimento litterrio._


_Lenda genealgica_, chama o snr. dr. Thephilo Braga  lenda do
_Crisfal_, como se fossem os genealogistas que a inventassem, quando s.
ex.^a muito bem sabe que estes no tiveram tal primasia... O caso est
sobejamente debatido, e por isso no vale a pena perder mais tempo com
tam ruim defunto.

Tratemos do _Pantaleo_...

Na eclga de _Crisfal_, refere se Bernardim ao _Val de Pantaleo_...

O snr. dr. Thephilo Braga, interpretando erradamente uma passagem da
_Pedatura_ do genealogista Alo de Moraes, em que se mencionava o
casamento de uma parenta remota de Maria Branda com um Joo _Patalim_,
escreveu a pag. 344 do seu livro _Bernardim Ribeiro e o Bucolismo_:


     Pelo Manuscripto j citado de Alo de Moraes acha-se noticia do
     aqui chamado _Val de Pantaleo_: D. Joanna, tia av de D. Maria
     Brando, casara a primeira vez com Joo _Pantalio_; etc.


No nosso estudo sobre Bernardim Ribeiro, desfizemos esse erro,
escrevendo a pag. 159:


     O ilustre professor equivocou-se na leitura do texto. No se trata
     de nenhum Joo _Pantalio_, como erradamente leu, mas sim de um
     Joo _Patalim_, que  o que se l no manuscrito de Alo de Moraes,
     como verificmos por nossos prprios olhos.


Desfeita essa interpretao, no se d o snr. dr. Thephilo Braga por
vencido, e vae agarrar-se a um avoengo de Maria Branda para justificar
a referncia ao _Val de Pantaleo_...

Quanto  _Joana_, o caso no  menos interessante...

Vejamos o que, no seu _Bernardim Ribeiro e o Bucolismo_ (pag. 342),
escreveu o snr. dr. Thephilo Braga em 1897:


     Esta Joanna, que denunciou os amores de Crisfal e Maria, era D.
     Joanna Pereira, sua irm mais velha; Maria era a mais nova, de
     cinco filhos que tinha o Contador Joo Brando.


Foi esta mais uma _gaffe_ em que o snr. dr. Thephilo incorreu, por
haver confiado demasiadamente nos crditos do genealogista Alo de
Moraes.

A pag. 162 do nosso livro sobre o _Poeta Crisfal_, desfizemos esse erro,
escrevendo:


     Maria Brando, a lendria amada do _Crisfal_, no teve nenhuma
     irman! era filha nica!


Em face da corrigenda, o distinto escritor no se sentiu com coragem
para sentencear que Joana era irman natural de Maria Branda, mas
procurou arranjar (iamos a escrever _ ta_, mas no tivemos coragem)
outra Joana, e,  primeira que encontrou  mo, chamou-a em seu auxlio.

Dera-se o caso de o snr. Jordo de Freitas, distinto funcionrio da
biblioteca da Ajuda, no louvavel empenho de auxiliar aqueles que
quisessem discutir a questo literria suscitada pelo nosso livro,
publicar no Diario de Noticias o resultado das suas pesquizas nos
arquivos, reproduzindo quanto julgou interessante para o estudo do
problema.

Fez s. ex.^a meno de uma parenta de Maria Branda com o nome de
Joana...

Como um naufrago, que se agarra  primeira tboa que lobriga ao alcance
da mo, o snr. dr. Thephilo agarrou-se (no bom sentido da palavra, bem
entendido!)  sobre-dita Joana, e, radiante de contentamento,
exclamou:--Estou salvo!

E, julgando-se, realmente, salvo da rascada, escreveu ufano:


     ...a Joanna, que lhe denuncia o casamento clandestino, uma prima,
     como o notou o sr. Jordo de Freitas.


A esse engano de alma, ledo e cego, foi arranc-lo o snr. Jordo,
desapiedadamente na carta que, a propsito, dirigiu ao Dia, e de que
reproduziremos a parte essencial:


     O sr. dr. Thephilo Braga equivocou-se na sua referencia a Joanna
     e ao que diz ter sido notado por mim.

     .................................................................


     ...tive unicamente em vista assentar que Joanna Brando no era tia
     av de Maria Brando, como erroneamente escrevera o sr. dr.
     Theophilo Braga, mas sim sua prima remota.

     To remota, direi agora, que era neta de um irmo (Diogo Lopes
     Brando) do 4.^o av (Gonalo Brando) de Maria Brando
     (Bibliotheca Real da Ajuda, 49-XII-28, pag. 259).

     Sendo assim, nem  presumivel que aquella chegasse a viver no
     tempo de Maria Brandoa, quanto mais que andasse a pastorear com
     ella, etc.[9]


Veremos, depois de este insucsso, que nova Joana nos apresentar na
primeira oportunidade o distinto escritor...

Quem sabe se a Joana do _Crisfal_ no teria sido aquela encantadora
Joaninha dos olhos verdes, que tanto enfeitiou Garrett... Mas no; em
caso contrrio o autor das _Viagens_ no deixaria de mencionar essa
circunstncia!

       *       *       *       *       *

Na estrofe de Bernardim Ribeiro, na cloga _Crisfal_, em que a amada do
poeta se refere a ter passado para o _casal da Figueira_ do _Val de
Pantaleo_, designaes que a nosso ver disfaram, sob _falsos crismas_,
os nomes verdadeiros da casa e localidade para onde se transferiu,
talvez aps o casamento, a decantada _Aonia_, encontra-se, ntida, a
aluso  ultima entrevista dos namorados:


    Quando contigo falei
    aquela ultima vez,
    o choro que ento chorei,
    que o teu chorar me fez,
    nunca o esquecerei.
    Foi esta a vez derradeira,
    mas comeo de paixo,
    passando-me eu ento
    pera o casal da Figueira
    do Val de Pantalio.


Achamos interessante reproduzir, n'esta altura, do captulo XXVIII da
_Menina e moa_, os periodos referentes  ultima entrevista de
_Bimnarder e Aonia_ para que os leitores, com maior facilidade, possam
orientar o seu juizo, verificando a absoluta identidade entre as duas
produes de Bernardim Ribeiro:


...Buscando achaque de querer l ir pera detraz das casas, levando Enis
consigo, ouve tempo pera Aonia entrar onde elle (Bimnarder) estava ento
deitado, escontra a outra parte da parede, chorando, porque no vira
Aonia ao passar, que bem se podera elle erguer. E como isto perdera,
cuidava tambem que avia de perder a tornada; porque um mal nunca lhe
viera sem outro; pelo que estava no maior pranto do mundo, antre si.

Entrada Aonia, deteve-se um pouco, e sentiu que elle chorava, e
suspirava baixo, de maneira que como, naquello, se forava a si mesmo.

Ella, para ver se poderia saber o porqu, que tudo desejava saber
d'elle, deteve-se ainda mais; mas elle, com pensamentos muitos, que
sobrevinham ao choro, mais o acrescentava do que o diminuia.

Assentando-se ento Aonia na borda d'aquella sua pobre cama, lhe ps a
mo, e quisera-lhe dizer alguma cousa, mas no pde, que lhe faleceu o
espirito.

Virando-se Bimnarder, e vendo a, tambem lhe faleceu o seu.

Estiveram assi ambos um grande pedao sem se dizerem nada um ao outro:
e elle, com os olhos postos em Aonia, e Aonia postos os seus no cho,
que, em se virando Birmnarder, tomou vergonha. Levando-os assi  terra,
cobriu-se-lhe o seu fermoso rosto de uma tamalavez de cr, alem da
natural; e soa dizer meu pae (que parte d'esta historia em seu tempo se
soubera) que no parecia se no que viera aquella cr como por ajudar
ainda Aonia escontra Bimnarder, tam formosa a ella, formosa, fizera.

Mas, estando assi nisto elles ambos, e no estando elles ambos ali,
chegou Enis muito rijo  porta, dizendo que se queriam j ir, e que a
mandavam chamar.

Assi, foi forado levantar-se Aonia, e ir se, e Bimnarder ver tudo, e
ficar.

Mas Aonia, que bem via os olhos de Bimnarder como ficavam, tomou uma
manga de sua camisa, e, rompendo-a, pera remedio de suas lagrimas lh'a
deu, significando, na maneira s de como lha deu, o pera que lh'a dava;
que parece que a dor grande que sentia no lh'o deixou dizer por
palavras; mas, em lh'a dando, ps os olhos nos seus, dizendo-lhe s
assi:

--Pesa-me, pois a minha ventura ou desaventura, no quis que eu vos
deixasse de magoar com o que eu no quisera.--

E estas palavras lhe disse j fora da porta.

E com ellas, e com o que sentiu ao dizer d'ellas, duas e duas, lhe
comearam as lagrimas a correr dos seus fermosos olhos, e, pelas suas
faces fermosas abaixo, lhe iam fazendo carreiras por onde iam, que
Bimnarder a tanto pranto convidou quanta era a rezo d'elle, pois perdia
a vista.

Foi tanto o choro, que no lhe abastavam os seus olhos s suas
lagrimas...


*5*

     Os manuscriptos conhecidos de Bernardim Ribeiro andavam ligados
     com os de Christovam Falco, como se v pela descripo do n.^o 180
     da Livraria do Conde de Vimieiro: Obras em prosa e verso de S de
     Miranda, Bernardim Ribeiro e Christovam Falco;

                                _Do artigo Movimento litterrio._


 com verdadeiro pesar que vemos o encanecido trabalhador recorrer a
processos como o que ressalta da afirmao que deixamos transcrita, s
pela caturrice de no querer confessar que errou...

O leitor desprevenido ficou julgando, certamente, por honra da firma que
subscrevia o artigo _Movimento litterario_, que na livraria do Conde de
Vimieiro tinham existido _os manuscritos conhecidos de Bernardim
Ribeiro_, que _andavam ligados com os de Christovam Falco_...

Pois, se tal ficou julgando, enganou-se redondamente.

O snr. dr. Thephilo Braga adulterou a verdade dos factos, procurando
talvez iludir-se a si proprio, pois no podemos admitir que s. ex.^a
imaginasse, por tal processo, mistificar alguem.  at possivel,
muitissimo provavel mesmo, que o ilustre escritor no pesasse
devidamente as palavras de que se serviu, e que assim incorresse, na
melhor boa f, n'uma indesculpavel inexactido.

Vejamos onde o snr. dr. Thephilo Braga foi fazer a descoberta preciosa
dos _manuscritos conhecidos de Bernardim Ribeiro_...

Ao n.^o 180 do catalogo da Livraria do Conde de Vimieiro, como consta do
tomo V da _Colleam dos documentos, e memorias da Academia Real da
Historia Portugueza_.

O distinto professor no indicou a _fonte_, certamente por lapso, mas
ns conseguimos descobri-la sem carecer do auxlio de _dunguinha_.

Ouamos agora a conferncia do Conde da Ericeira, D. Francisco Xavier de
Menezes, em relao ao codice N.^o 180:


     Tem o volume que examinei 287 folhas, as quaes nos primeiros
     numeros eram 330, porem as que lhe falto, parecem mudadas para
     outras Colleces, e sendo a letra, e papel de duzentos annos de
     antiguidade, pois a folhas 122 se acabo as noticias com a morte
     del Rei D. Manoel, que foi a 13 de Dezembro de 1521; se conserva
     este manuscripto inteiro, e em bom estado.......................

     (Traz a diviso do livro em 5 partes e segue:

     A segunda diviso deste livro consiste em algumas Memorias de
     successos raros de Europa, como so uma carta del Rei Ludovico de
     Hungria para o Emperador na ultima batalha que deu ao Turco, uma
     Relao dos infelizes principios de Luthero, e outros. Seguem-se
     cartas de homens celebres d'aquelle tempo pelo seu engenho, e
     graa, que entre as aluses jocoserias descobrem memorias
     particulares: deste genero so sete de Antonio Ribeiro Chiado, duas
     de Loureno de Caceres, e outros. As obras em prosa, e verso de
     Francisco de S de Miranda, as de Bernardim Ribeiro, Christovo
     Falco, Andr Soares, Francisco de Moraes, Gil Vicente, Duarte de
     Oliveira, o Baro D. Diogo Lobo, e outros Poetas antigos, servem de
     verificar as varias lies das impressas, e de restituir as
     manuscriptas.[10]


Como se v, por uma frma irrefragavel, no se tratava dos manuscritos
conhecidos de Bernardim Ribeiro, como no se tratava egualmente de
manuscritos de Cristovam Falco...

Tratava-se de uma miscelnea manuscrita, em prosa e verso, que continha
produes de vrios poetas, e, entre essas, as que se atribuiam ao
suposto _Crisfal_. A simples citao do nome de Cr. Falco logo aps o
de Bernardim no bastar para se ajuizar que no manuscrito havia cpia
das poesias que nas obras de B. Ribeiro vinham atribuidas, sob reservas,
ao suposto trovador?

Se ns, para documentarmos o nosso livro _Bernardim Ribeiro_, tivessemos
recorrido a expedientes semelhantes, como no seriamos julgados pelo
snr. dr. Thephilo!


*6*

     tambem o Arcediago do Barreiro, dr. Jeronymo Jos Rodrigues
     examinou no Porto um manuscripto analogo ao das edies de 1559, em
     que vinham a _Menina e Moa_, duas eclogas de Bernardim Ribeiro--e
     at se acham no fim algumas poesias de Christovam Falco, do que se
     faz meno no mesmo logar de Nicolo Antonio. (Innocencio, _Dicc.
     Bibliog._)

                                   _Do artigo Movimento litterario._


O arcediago do Barreiro, invocado pelo snr. dr. Thephilo Braga, era o
arcediago do Barroso, cujos apontamentos manuscritos foram explorados
por Innocencio.

Vejamos o que o benemrito biblifilo escreveu a pag. 379 do seu
_Diccionario Bibliographico portuguez_:


     Nos apontamentos manuscriptos do arcediago de Barroso Jeronymo
     Jos Rodrigues, de que j outras vezes me aproveitei n'este volume,
     encontro cerca do auctor da _Menina e moa_ o trecho que se segue:


         As obras de Bernaldim Ribeiro (que assim se acha escripto o seu
         nome no manuscripto que lemos, e assim diz Nicolau Antonio na
         _Bibl. Hispanica_, que vulgarmente era chamado) por sua muita
         raridade so difficeis de encontrar, e duvidamos que se hajam
         impresso todas. A _Bibl. Lus._ faz s meno da Menina e moa, ou
         _Saudades de Bernardim Ribeiro_. Alm das impresses que alli cita,
         que so tres, faz Nicolau Antonio meno de uma, impressa em Lisboa
         em 1559, em 8.^o, que em tudo tem muita semilhana com o
         manuscripto, que tivemos alguns tempos em nossa mo, e que vamos
         aqui extractar. O titulo em nada desmente do que traz a _Bibl.
         Hisp._, e at se acham no fim algumas poesias de Christovam Falco,
         de que se faz meno n'este mesmo logar de Nicolau Antonio.--O
         titulo que se l no manuscripto : _Historia da Menina e moa, por
         Bernaldim Ribeiro_. Principia: _Menina e moa me levaram de casa
         de minha may para muito longe_, e acaba: _Com demasiada ira disse
         contra a Donzela que ho aly trouxera estas palavras_. Consta de
         historia em prosa, e inclue em alguns lugares poesias de gosto so
         e pura linguagem, etc. E alm da historia, acham-se no manuscripto
         duas eclogas de que o abbade Barbosa talvez no teve noticia. Na
         primeira so interlocutores Persio e Fauno; principia: _Nas selvas
         junto do mar_, e consta de trinta e quatro estancias de dez versos
         cada uma.--Na segunda so interlocutores Jano e Franco, principia:
         Dizem que havia um pastor, e acaba: Tambem tempo  tormento.

         De tudo o que diz aqui o arcediago de Barroso concluo, que no s
         elle ignorou a existencia da moderna edio da _Menina e moa_,
         feita em Lisboa no anno de 1785, mas tambem s conheceu de nome as
         edies anteriores sem que lograsse ter presente algumas d'ellas,
         pois que a tel-as visto, nenhuma novidade encontraria nas duas
         clogas que cita do tal manuscripto, onde pelo que se mostra
         faltavam todas as outras j ento impressas.


No conheceu Innocencio a edio das obras de Bernardim Ribeiro
publicada em Ferrara em 1554, porque se a houvesse conhecido logo
concluiria que o manuscrito examinado pelo arcediago de Barroso outra
cousa no era mais do que uma cpia incompleta d'essa edio.

Ignora o, porventura, o snr. dr. Thephilo Braga?

Se o no ignora, para que veio a pblico com a citao incompleta da
passagem do Diccionrio de Innocncio?

Bom servio prestou o arcediago de Barroso trasladando o perodo inicial
na novela na edio de 1554, conforme o manuscrito que teve entre mos:
Menina e moa me levaram de casa de minha may...


*7*

     Para que chamar ineptos aos editores de Ferrara de 1554 e de
     Colonia de 1559, por terem reproduzido esses textos manuscriptos
     como os encontraram?

                                 _Do artigo Movimento litterario_.


Chammos ineptos aos editores das obras de Bernardim Ribeiro, e que no
erramos em nossa apreciao demonstra-o evidentemente o prprio snr. dr.
Thephilo Braga, quando na carta que nos escreveu, referindo-se s
edies de Ferrara e de Colnia, diz terem sido feitas _por curiosos sem
critrio litterrio_.

Se esses curiosos no fossem ineptos, podia porventura o ilustre
professor negar-lhes _critrio_?

As rbricas da edio de Colnia, em 1559, so reproduo das de 1554,
como o snr. dr. Thephilo Braga no desconhece.

Pertencem as rbricas da edio de 1554 ao seu editor ou este no fez
mais do que reproduzi-las da primeira edio?

Sem que seja conhecida a edio principe das obras de Bernardim Ribeiro,
no  possivel aclarar este ponto, mas o que ninguem pde dizer com
autoridade  que taes rbricas: que dizem ser... ao que parece
aludir... pertencessem aos manuscritos do infortunado Bernardim.

Por terem reproduzido _esses textos_ manuscriptos como os encontraram,
escreveu o snr. dr. Thephilo Braga, procurando incutir que taes edies
foram feitas sobre os manuscritos pertencentes ao Conde de Vimieiro e
sobre o outro examinado pelo arcediago do Barroso!

A primeira edio das obras do poeta bucolista resultou dos manuscritos
de Bernardim Ribeiro, recolhidos aps a morte do apaixonado cantor de
Joana, ou no ultimo perodo da sua desventurada existncia, e dados 
estampa por qualquer curioso sem critrio literrio...

E proclamando isto, que representa a expresso do nosso sentir pessoal,
estamos convencidos de que est com a nossa opinio o snr. dr. Thephilo
Braga, que sempre tem sustentado que as edies das obras de Bernardim
se fizeram sobre os manuscritos encontrados no seu esplio....

Mudar s. ex.^a de orientao? At prova em contrrio, no acreditamos.


*8*

     ...o dr. Alfredo da Cunha deu alentos  grande descoberta...

                                   _Do artigo Movimento litterrio_


_Grande descoberta_,  como o snr. dr. Thephilo Braga chama,
ironicamente, ao resultado dos nossos trabalhos... Pequena ou grande
descoberta, o facto  que est de p, no conseguindo o abalisado
professor destrui-la.

Compreendemos bem que isso seja pouco agradavel a s. ex.^a, que tanto se
havia empenhado em pr um pedregulho sobre o caso do poeta _Crisfal_,
mas ns, s pelo prazer de ser agradaveis ao ilustre escritor,  que no
vamos ressuscitar o trovador Cristovam Falco. Deix-lo dormir em paz,
serenamente.

Quanto a descobertas grandes, lembra-nos citar uma que _in illo tempore_
fez o snr. dr. Thephilo Braga...

Dirigia o distinto poeta snr. Joaquim de Araujo uma publicao
camoneana, cujo ttulo nos no ocorre.

Vae se no quando recebe uma comunicao do snr. dr. Thephilo Braga...
Uma descoberta importante... Nada menos que um parente ignorado do
grande pico Luis de Cames.

Chamava-se o homem _Pero Cames_, segundo o ilustre professor lera,
radiante, em determinado texto...

Pois, senhores, na volta do correio, Joaquim de Araujo prevenia
generosamente o Mestre de que este errara a leitura do texto... O _Pero
Cames_ do snr. dr. Thephilo Braga era um simples e inofensivo *pero
camos*!


*9*

     No noticiario de outro jornal sairam affirmaes absolutas,
     proclamando a sensacional descoberta, com uma sinceridade
     inconsciente que affasta de todo a ideia de ironia.

                           _Do artigo Movimento litterrio_


Por esta frma pouco... _generosa_ se referiu o snr. dr. Thephilo Braga
s palavras de caloroso elogio com que o ilustre escritor snr. Jos
Pereira Sampaio, em carta publicada no Diario da Tarde, do Porto,
valorizou com o prestgio do seu nome o fruto do nosso trabalho.

Contra a injusta apreciao do professor do Curso Superior de Letras, j
lavrmos o nosso protesto, de amigos e admiradores de _Bruno_, no artigo
que publicmos na Lucta e que vae transcrito no primeiro captulo
d'este livro.

Quando mesmo, o que no sucede, o ilustre escritor portuense estivesse
em erro, era digna de todo o respeito a sua opinio, e no seria nunca o
snr. dr. Thephilo Braga, com a sua consciente falta de sinceridade,
quem teria direito para o arguir pela maneira inslita por que o fez.

Ser, porventura, o _positivismo_ inimigo inconciliavel da Justia?


*10*

     A verdadeira descoberta pertence ao snr. Braancamp Freire
     determinando a epoca em que esteve em Flandres Joo Brando
     Sanches, e quando elle morreu, dando nos assim a data em que
     existiram os amores de sua filha unica D. Maria Brando, a do
     Crisfal, que plausivelmente se fixam em 1530. O documento de 1527
     refere se a Christovam Falco, com a tena de moo fidalgo leva a
     deduzir que nascera em 1512.

                                  _Do artigo Movimento litterrio_


Fixa o snr. dr. Thephilo em 1530 os amores do suposto poeta com a sua
suposta amada Maria Branda.

Muito bem.

Admitindo que assim fosse, s depois de 1530 Cristovam Falco poderia
ter produzido a _Carta_ e a _cloga_ que lhe foram atribuidas...

Ora como podia isto ser, em face dos _processos inductivos da critica
moderna_, tam preconizados pelo snr. dr. Thephilo Braga?

Ouamos a lio autorizada do ilustre professor, que se l a pag. 4 da
sua chamada edio das obras de Cristovam Falco:


     *Se Christovam Falco escrevesse depois de 1527, quando S de
     Miranda propagou as frmas da poetica italiana, teria ento
     adoptado o verso endecasyllabo, a frma da OUTAVA e do TERCETO, o
     SONETO, e teria perdido o conceito provenalesco dos poetas que
     seguiam o INFERNO DO AMOR; Falco desconheceu esta nova poetica.*


Pela mesma maneira se exprimiu o snr. dr. Thephilo Braga na sua edio
de _Bernardim Ribeiro e os Bucolistas_.

Repudia s. ex.^a o que com tanta clareza e preciso deixou estampado?

Seria caso para invocar o _era, no era, andava lavrando_...

Para o nascimento do pseudo-trovador, escolhe o snr. dr. Thephilo
Braga, em ultima anlise, a data de 1512, sem se lembrar talvez de que
por essa frma caa em contradio consigo proprio...

Vejamos:

Na carta que nos dirigiu, escreveu o distincto escritor:

...D. Maria Brando, que Cristovam Falco amou, _sendo ambos muito
crianas_...

Ora tendo Cristovam nascido em 1512, como afirma o snr. dr. Thephilo
Braga, e fixando-se as suas relaes amorosas em 1530, como quer s.
ex.^a, tinha o mancebo quando comeou a namoriscar os seus dezoito anos
seguros...

A um rapazola de 18 anos ninguem com propriedade poder classificar de
_muito creana_, a no ser por troa,--salvo melhor opinio.


*11*

     Ha portanto a eliminar todas as relaes pessoaes entre Cristovo
     Falco e Bernardim Ribeiro, como julgamos nos nossos estudos,
     corrigindo a interpretao da Ecloga I e III de Bernardim.

                                    _Do artigo Movimento litterrio_


No s corrigimos a interpretao das eclogas I e III de Bernardim
Ribeiro como todas as outras do desventurado poeta... Mas o snr. dr.
Thephilo Braga entende em seu alto critrio que s ha a corrigir as
duas que citou, e essa correco reserva-se s. ex. faz-la, certamente.
Aguardemos a futura refundio do livro sobre os bucolistas, para
ajuizarmos da fertilidade inventiva do ilustre professor,--_de fantasia
fertil em combinaes_, no dizer autorizado da senhora D. Carolina
Michalis.


*12*

     Os logares comuns a Cristovam Falco e Bernardim Ribeiro provam a
     distancia da edade que levou o mais novo a imitar aquelle que j
     era admirado, cujos versos, Cames, na sua carta de Africa
     intercalava na sua prosa.

                                  _Do artigo Movimento litterrio_


Como comentrio nico, permitir nos-emos enderear algumas perguntas ao
snr. dr. Thephilo Braga:

Estando Bernardim Ribeiro louco no ano de 1532, como o prprio snr. dr.
Thephilo tem sustentado, como explica o ilustre professor que no
esplio do poeta bucolista fossem encontradas as composies atribuidas
ao falso Crisfal?

Na edio refundida do seu livro sobre os bucolistas, em 1897, o snr.
dr. Thephilo Braga explicou o facto da seguinte maneira:


...*os dois poetas communicavam entre si os seus versos, sendo por este
modo que se salvaram as poesias do auctor do Crisfal.*


Ora no podendo o abalisado professor continuar persistindo em que
Bernardim Ribeiro teve por amigo e confidente Cristovam Falco de Sousa,
como poder s. ex.^a explicar que entre os manuscritos legados por
Bernardim se encontrassem as composies do... _ltimo eco do alade_?

Para prevenir qualquer subtiliza de argumentao,  conveniente no
esquecer s. ex.^a que na cloga _Crisfal_ se encontram lugares comuns a
todas as clogas de Bernardim Ribeiro e  prpria novela _Menina e
moa_.

E no esquecer egualmente que, aps a publicao do nosso estudo sobre o
_Poeta Crisfal_, j o snr. dr. Thephilo Braga foi obrigado a reconhecer
que: no podia continuar a admittir _as relaes pessoaes de Cristovam
Falco com Bernardim Ribeiro j velho e dementado em confidencias de
amor com um rapaz no vio da mocidade_.

Bernardim nasceu em _1482_,  bom no olvidar tambem.

Cristovam Falco de Sousa nasceu em... _1512_, conforme a ultima verso
apresentada pelo articulista do _Movimento litterrio_.

Os amores de Falco e Maria Branda foram fixados pelo snr. dr.
Thephilo Braga, em ultima anlise, no ano de _1530_.

Ora na _Carta de Crisfal_, fala o poeta na priso de amor que est
sofrendo _ha cinco anos_... Logo, ou no ha lgica, uma das composies
do suposto trovador foi elaborada pelo ano da graa de _1535_, quando
Bernardim havia j trs anos que fra ferido pela desgraa que o levou
ao hospital de Todos os Santos, onde veio a acabar seus desventurados
dias em _1552_.

Consignado o que fica exposto, aguardemos a resposta s perguntas atrs
formuladas, e, para fechar o captulo, faamos nossos os seguintes
versos de Bernardim:


    Baste o que tenho dito
    pera aver, por galardo,
    tres regras de vossa mo,
    pera resposta das quaes
    ......... fique o mais
    que aqui escrever devera,
    se o escrever podera.




VI

Uma patranha genealgica


Seguindo a lio de vrios genealogistas, dmos curso, no nosso estudo
sobre Bernardim Ribeiro,  atoarda que fazia Cristovam Falco de Sousa
descendente de certo John Falconet, cavalheiro ingls que viera para o
nosso pas na comitiva da desposada d'el-rei D. Joo I, Filipa de
Lencastre. Antes de ns, os snrs. Epiphnio Dias e dr. Thephilo Braga
haviam incorrido no mesmo erro.

Publicado o nosso trabalho, honrou-nos o erudito escritor sr. Anselmo
Braamcamp Freire com o seguinte esclarecimento, que registamos com
prazer:


     ...Julgo-me obrigado a advertil-o que publiquei um documento no
     _Archivo histrico_, suficiente para destruir a petarola inventada
     pelos genealogistas dos Falces descenderem do tal Falconet.
     Catorze anos antes deste chegar a Portugal j existiam Falces,
     proprietarios em Evora, e vassalos de D. Fernando (_Arch. hist._
     III, 407.)  uma minucia que no influe em nada no seu tma; mas,
     repito, entendo dever meu avisl-o.


No ser este, certamente, o nico erro em que teremos incorrido no
nosso trabalho, e de que nos penitencimos sem a menor relutncia.

Errar  prprio dos homens, como afirma o conhecido aforismo latino; o
que  condenavel  persistir no erro.

No temos a estulta vaidade de haver produzido um trabalho sem defeitos,
e de bom grado aceitaremos as correces que nos ministrarem, e com que
o nosso critrio se conforme. Somos incapazes de persistir n'um erro por
simples capricho de amor-prprio, indesculpavel em assuntos de natureza
_histrica_.

Bem presentes conservmos as palavras sensatssimas do professor
bracarense Pereira Caldas: Em _histria_, ha sempre que discutir,
sempre que examinar, sempre que emendar, sempre que aditar.




VII

O criptnimo Fileno


No numero do jornal _O Dia_, de 15 de dezembro de 1908, consagrou-nos o
conceituado fillogo, snr. A. R. Gonalves Viana, uma das suas
interessantes _Palestras filolgicas_.

 aquela que vamos registar, e que em seguida comentaremos:


     Delfim Guimares, no seu livro recentemente publicado, e que faz
     honra  erudio portuguesa, com o titulo *Bernardim Ribeiro*, e o
     sub titulo *O poeta Crisfal*, aventa a idea de que o criptnimo
     _Fileno_ seja o disfarce do adjectivo _felino_, latim _felinus_,
     procedente do substantivo _felis_, gato, por aluso ao apelido
     _Gato_, do marido de Joana Tavares, sua apaixonada.

     No se pode aceitar esta origem do dito nome, porque tal adjectivo
     no existia em portugus ao tempo do poeta.  le modernissimo na
     lingua, pois nem Bluteau o incluiu no seu *Vocabulario portuguez e
     latino*, nem mesmo no prprio *Diccionario portuguez* de Morais e
     Silva figura tal adjectivo at  3.^a edio, feita no anno de
     1823, correcta e acrescentada. V-se pois que a introduo do
     vocabulo _felino_  no s posterior, e muito, ao sculo XV, mas
     at aos comeos do XIX, e que o poeta o desconhecia portanto.

     Assim, pois, o nome Fileno, masculino, foi talvez fabricado
     conforme o femenino Filene, que os gregos usaram, e cujo radical
     ser o de _Filipe_, por exemplo.


Em primeiro lugar agradecemos ao snr. Gonalves Viana o cumprimento
amabilissimo com que nos penhorou, que muito bem sabemos representar uma
gentileza, que no um acto de justia. A benevolncia usada para
comnosco por s. ex.^a motivou um remoque do snr. dr. Thephilo Braga, do
que resulta tornar se ainda maior a nossa dvida de reconhecimento para
com o sbio poliglota, o que temos a peito deixar registado nas pginas
d'este trabalho.

Consignado isto, digamos o que se nos oferece sobre a _palestra_
motivada pelo nosso livro:

Coube ao snr. visconde de Sanches de Baena a interpretao do nome
_Fileno_ como criptnimo de _Felino_, em aluso a *Pero Gato*, que o
referido titular apresenta como marido de Joana (_Aonia_).

Ns no acreditamos na existncia do Pero Gato do snr. Sanches de Baena,
como com inteira franqueza deixamos exarado nas pginas do nosso
trabalho; mas no nos repugnou admitir que o criptnimo invocado
alvejasse a aluso a um animal felino. E assim escrevemos a pag. 87 do
nosso estudo sobre Bernardim:

O anagrama _Fileno_ oculta, provavelmente, um individuo que tinha por
nome, apelido ou alcunha o nome de um animal _felino_. Seria Pantaleo?
Seria Gato? Estamos em crer que o assunto ainda poder ser resolvido,
como outros muitos pontos por aclarar respeitantes  vida de Bernardim.

E na mesma pgina, a propsito do nome de _Lor_, ou _Lor-Vo_, referido
nalgumas edies da cloga de _Crisfal_, escrevemos ns:

Desde que se apure, *com segurana*, quem fosse o marido de Joana etc.

O no se ter ainda apurado quem fosse o feliz rival de Bernardim, no se
nos afigura motivo para pr de parte, por em quanto, a interpretao
enunciada pelo snr. visconde de Sanches de Baena quanto a Fileno, aceite
pelo snr. dr. Thephilo Braga, e a que ns tambem demos curso, embora
sob reservas.

O facto dos antigos dicionrios no fazerem meno do vocbulo _felino_
no constitue razo para que se abandone essa hiptese, que pde no ser
exacta, mas que  sem dvida racional. Como o snr. Gonalves Viana muito
bem sabe, desde que no latim existiam os vocabulos _felis_, _felinus_,
com o significado de _gato_, ou _respeitante a gato_, nada mais natural
do que um escritor ter introduzido, lgicamente, o termo portugus
_felino_. E ninguem poder contestar que Bernardim Ribeiro tivesse
envergadura sobeja para crear essa palavra. Bacharel formado em direito,
e poeta bucolista no ignorava certamente o vocbulo latino.

A ser exacta a maneira de ver do snr. Gonalves Viana sobre semelhante
assunto, como poderiam justificar-se tambem os numerosos neologismos com
que Luis de Cames enriqueceu a lingoa portugusa?

Hoje mesmo, aps recentes trabalhos de dicionaristas distintos, quantos
vocbulos portuguses no falta ainda registar?!

A hiptese, porm, que o ilustre fillogo apresenta merece ser ponderada
devidamente, sendo at possivel que s. ex.^a tenha resolvido o problema
quanto ao nome do marido de Joana Tavares, que poderia muito bem ter
sido _Filipe_.

N'um _pliego-suelto_ castelhano do sculo XVI, de que existe um exemplar
na seco dos _Reservados_ da Biblioteca Nacional de Lisboa, ha um
dialogo em verso entre as personagens: _Alethio_ e _Fileno_.--Aleixo e
Filipe? Talvez!

Em fim, parafraseando o que j escrevemos: Quando se apure _com
segurana_ quem foi o marido da mulher amada por Bernardim Ribeiro,
estar implicitamente resolvido este problema.




VIII

In terminis


No estamos ss no combate que tivemos a satisfao de iniciar em prol
da obra de Bernardim Ribeiro.

Ao nosso lado contamos a individualidade cheia de prestgio do snr. Jos
Pereira Sampaio, que em breve defender em livro tese idntica  nossa,
demonstrando que o Poeta Crisfal  o buclico Bernardim.

Se de estmulo carecessemos para prosseguir confiadamente na tarefa que
nos impusemos, seria incentivo bastante o contarmos j entre aqueles que
se confessam convencidos pelo nosso trabalho, alem de muitos outros
espritos esclarecidos, os nomes preeminentes dos srs. Anselmo Braamcamp
Freire, Jos Caldas e dr. Sylvio Romero.

No conseguiremos ns fazer vingar em nossos dias, por uma frma
absoluta, a obra de justia a que metemos hombros? No ser dada essa
satisfao ao ilustre escritor snr. Jos Sampaio?

--Que importa? As sementes esto lanadas, o solo no  ingrato... As
sementes ho de vingar; a verdade triunfar, alastrando, impondo-se...

Por fim, s nos resta enderear, muito comovidamente, um aperto de mo,
agradecido e sincero, a quantos--bons amigos, camaradas e simples
conhecidos--nos teem bafejado com palavras de elogio e incitamento por
motivo da publicao do livro que deu origem a este novo trabalho.


                                      _Amadora, 16 de maro de 1909_.




APRECIAES DA IMPRENSA
AO LIVRO
"Bernardim Ribeiro
(O POETA CRISFAL)"





Bernardim Ribeiro
(O Poeta Crisfal)


Delfim Guimares  um poeta e um contista que h muitos annos firmou
brilhantemente o seu nome. Alma delicada de poeta, , ao mesmo tempo, um
prosador elegante e correcto que conhece a sua lingua e sabe maneja-la.
Afastado de todas as egreginhas literarias, isento de todos os
snobismos, sem perder tempo nos cenaculos dos cafs, Delfim Guimares
tem-se destacado e destaca se entre os da sua gerao, sem dever nada ao
reclamo.

Admirador entusiastico, apaixonado, de Bernardim Ribeiro, Delfim
Guimares apurou um facto da mais alta importancia para a historia
literaria do seu paiz:--que Christovo Falco e Bernardim Ribeiro so
uma mesma entidade.

 essa demonstrao, consciente, documentada, que o nosso amigo vem de
fazer neste livro--_Bernardim Ribeiro (o Poeta Crisfal)_--que  digno de
ser lido por quantos querem conhecer a historia das letras patrias.

A Delfim Guimares, os nossos parabens pelo seu valioso trabalho.

                        (Do jornal _O Mundo_, de 16 de Novembro de 1909)





Bernardim Ribeiro
por Delfim Guimares


 um livro de incontestavel valor, este que o sr. Delfim Guimares acaba
de publicar, editado pela Livraria Guimares & C.^a, da rua de S. Roque.
Fructo de um aturado e consciencioso estudo, n'elle se demonstra que
Bernardim Ribeiro e _Crisfal_ representam um unico poeta, e que
_Crisfal_  apenas um criptogramma formado pelas primeiras syllabas das
palavras _Crisma_ e _Falso_, no passando, portanto, de uma lenda a
existencia do poeta Christovo Falco. Como se v, o assumpto d'este
livro do laborioso e intelligente escriptor  de molde a interessar
vivamente todos quantos se dedicam ao estudo da nossa litteratura
patria.

                       (Do jornal _O Seculo_, de 16 de Novembro de 1909).




Bernardim Ribeiro
(O Poeta Crisfal)

     _Subsidios para a histria da literatura portuguesa_, por Delfim
     Guimares.--Lisboa, 1908. Livraria Editora Guimares & C.^a, 274
     pg. 800 ris.


 o livro sensacional da semana que hoje finda.  o desabar de uma lenda
secular. A ineptido de uns editores quinhentistas insinuara a crena de
que as trovas de _Crisfal_ eram de _Cristovam Falco_, cujo nome era
representado pelo anagrama, formado da primeira silaba do nome e a
primeira do apelido.

A lenda criou raizes; e, no obstante as hesitaes e dvidas de alguns
criticos, ningum, at hoje, contestara abertamente em publico a
personalidade potica de Cristovam Falco.

Mas Delfim Guimares, estudando Bernardim Ribeiro, editorando-lhe as
_Saudades_, e confrontando os trabalhos dos bucolistas do sculo XVI,
chegou  convico de que, tendo havido algumas personalidades com o
nome de Cristovam Falco, este nome no pertencia a nenhum pota, e as
trovas de Crisfal eram obra de Bernardim Ribeiro.

Documentando e justificando a sua convico, acaba le de dar  estampa
o substancioso volume que hoje noticiamos.

No prefcio da obra, expi o autor, com a devida lealdade, as
circunstncias e o processo que o levaram  absoluta rejeio da
referida lenda, e congratula-se justamente por ter agora a noticia de
que o ponderado publicista Pereira de Sampaio (Bruno), tinha j
adquirido convico anloga, que esperava justificar em livro.

Metodizando as provas e a documentao de que o poeta _Crisfal_ no 
outro, seno Bernardim Ribeiro, Delfim Guimares faz minuciosamente a
biografia crtica do poeta, estuda e analisa a primeira edio das obras
de Bernardim, d nos a histria e a genealogia do suposto poeta Falco;
e, depois, de nos dar a exegese de numerosos factos e documentos, cerra
o seu volume com a reproduco da _Carta_ e da _cloga_ de _Crisfal_, e
de _trs_ poesias mais de Bernardim Ribeiro, at agora ignoradas.

Claro  que, de um livro de tal significado e alcance, mal se podem
formular juizos e sentenas em meia dzia de linhas do nosso registo
bibliogrfico; e temos de nos restringir a dar da obra ideia sumria,
chamando para ela a ateno, e naturalmente o apreo, de quantos se
interessam pelos mais momentosos problemas da nossa histria literria.

Mas remorder-nos-ia a conscincia, se cerrssemos j a presente noticia,
sem significar a Delfim Guimares a satisfao que nos deu o seu
melindroso e arrojado trabalho, e o encanto com que repassamos os olhos
pelo ingnuo e delicioso bucolismo dos avoengos da poesa nacional.

Formoso livro e servio memorvel.


                                         Dr. Candido de Figueiredo


         (Do _Diario de Noticias_, de Lisboa, de 28 de novembro de 1908).




O poeta Chrisfal

     _Delfim Guimares_: Bernardim Ribeiro (o Poeta Crisfal)--Subsidios
     para a historia da literatura portugusa--1908--Livraria Editora
     Guimares & C.^a--68, R. de S. Roque, 70--Lisboa.


Ha uns espiritos fortes, solidos--e que tanto abundam n'esta nossa ba
terra de Portugal--que ho de sentir-se escandalisados com a arrogancia
d'alguem que, contra a opinio dogmatica e ensinamento incontestado dos
grandes Sacerdotes, se abalana a demonstrar que os bucolistas Bernardim
Ribeiro e Chrisfal (pretenso anagramma de Christovam Falco) so uma e
mesma pessoa; isto : que o glorioso auctor da 1.^a parte da novella
pastoral Menina e Moa  igualmente auctor da celebre pea poetica
conhecida pelo nome da Egloga de Chrisfal--n'uma palavra, que o poeta
Christovam Falco nunca existiu e que a maioria das composies poeticas
que andam com o seu nome pertencem de juro e herdade ao principe do
bucolismo entre ns, a esse surprehendente Bernardim Ribeiro, que , em
toda a nossa litteratura, o vaso d'eleio d'onde mais trasborda o
sentimento augusto da alma portugueza.

Mas outra raa d'espiritos no menos solidos sorrir piedosamente (e,
n'este caso, o sorriso  uma outra frma de nos sentirmos
escandalisados) perante a utilidade proxima ou longinqua que pde
adquirir-se d'uma descoberta d'esta ordem.

Que importa ao bem do individuo ou da collectividade de hoje, que uns
versos repassados d'uma verdade sentimental,  fora de sentida quasi
incomprehensivel,--versos, demais a mais vasados n'uma trama ingenua,
bucolica, pastoril, sejam obra d'um ou d'outro recuado quinhentista ou,
mesmo, tenham sido levados  conta d'um lendario personagem que, como
poeta, nunca tivesse existido, a no ser na phantasia d'uns novelleiros
de profisso que, com o rodar do tempo, conseguiram guindar a sua
improbidade litteraria aos pinaculos d'uma certeza irrefutavel?!

Pois essa arrojada impiedade e esse improductivo bysantinismo--esse
magno escandalo--acaba de perpetral-os o meu velho amigo Delfim
Guimares, poeta de verdade, infatigavel estudioso, paciente
investigador, acurado cultista em materia litteraria, com a publicao
do seu recente estudo _Bernardim Ribeiro_ (_o poeta Chrisfal_), cujo
apparecimento estas ligeiras notas intentam celebrar.

O mesmo  dizer que me no sinto com foras para, pormenorisadamente,
passo a passo, ir vincando as passagens exegeticas d'este trabalho
masculo e delicado que revela, no seu auctor, uma erudio e um methodo
que eu entendo precisos n'aquelles que se propuzerem critical-o.

No , pois, um artigo critico o que vou fazer; mas se uma affirmao
sincera e sentida, de valor nimiamente critico, me  permittido
accentuar desde j, eu direi: Delfim Guimares est na verdade.
Christovam Falco, poeta, nunca existiu. Chrisfal  um pseudonymo de
Bernardim Ribeiro.

E isto porqu?!

Porque todos os que se occupam de Falco o dizem pessoa de
qualidade--pertencia  primeira fidalguia portugueza, diz o sr. dr. Th.
Braga--e, quanto ao valor do seu estro, tanto era que mereceu ser
confundido com Bernardim Ribeiro seu amigo e confidente, quando no seu
predecessor. Como se explica, pois, que um to illustre personagem no
figure no Cancioneiro de Resende, onde alis se encontram, com to
assombrosa profuso, nomes que, nem pela clareza da estirpe nem pelo
fulgor do engenho, se impunham  considerao dos posteros?!

 crivel que o erudito, o dedicadissimo collector que se chamou Garcia
de Resende--o homem, do seu tempo, que mais larga e intensamente privou
na corte dos nossos reis--no tivesse noticia d'uma individualidade to
fortemente accentuada e to parecida com o ento e j apreciadissimo
Bernardim?! No me parece.

Seria qualquer despeito, qualquer d'estas pequeninas miserias que se
transmudavam em acerbos espinhos d'odio (e ao tempo e antes e depois e
sempre to vulgares!) que levariam mesquinhamente o celebre collector do
Cancioneiro a relegar, da convivencia dos seus 351 poetas, esse illustre
Chrisfal e ao mesmo tempo (segundo o ensinamento do sr. dr. Theophilo
Braga) a recolher, como de Bernardim Ribeiro, versos de Falco?!

No me parece. Gil Vicente, como  sabido, apodra cruelmente Resende, e
nem por isso deixou de figurar no Cancioneiro.

Estes simples e, quero crel-o, contestaveis argumentos levavam-me de ha
muito, a duvidar da existencia poetica de Christovam Falco, s muito
mais tarde posta em fco, entre outros, por Faria e Sousa, cujos
_escrupulos_ de caracter so por demais conhecidos.

Mas a simples argumentao sobre cancioneiros nem sempre  de colher,
como um facto recente me leva a constatar.

Ha dois annos (outomno de 1906) appareceu nas livrarias a seguinte
publicao: _Odyssa dos Tysicos--Album de Musicas para piano e canto,
original de Raul Pereira, sobre versos de poetas portugueses?_  obra
musical do sr. Raul Pereira que,  falta d'outra indicao, entendo
dever tambem consideral-o como collector das varias poesias que o album
encerra.

A primeira d'estas poesias, posta em musica apparece sob um retrato com
esta epigraphe: _Guilherme Braga (1845-1874)_, e tem este titulo _A
Jesus Crucificado_, e  como segue:


    A Vs, correndo vou, braos sagrados
    N'essa cruz sacrosanta descobertos
    Que para receber-me estaes abertos
    E, por no castigar-me, estaes cravados.

    A Vs, olhos divinos eclypsados
    De tanto sangue e lagrimas cobertos:
    Que para perdoar-me estaes despertos
    E por no devassar-me estaes fechados.

    A Vs, pregados ps, por no fugir-me;
    A Vs, cabea baixa, por chamar-me;
    A Vs, sangue vertido para ungir-me;

    A Vs, lado patente, quero unir-me,
    A Vs, cravos preciosos, quero atar-me,
    Para ficar unido, atado e firme.


Devo confessar que ao ler este soneto nasceram-me duvidas--muito vagas,
 certo--sobre a sua authenticidade quanto ao nome que o firmava. E como
no o encontrasse entre as poesias colligidas nas _Heras e Violetas_,
assentei,  falta de melhor soluo, que se tratava de uma poesia solta,
religiosamente recolhida por pessoa intima ou admiradora convicta do
insigne e mallogrado poeta portuense.

N'isto estava, quando o acaso d'uma busca litteraria me levou a folhear,
na Bibliotheca Publica, _O Ramalhete_, jornal de Instruco e Recreio
(2.^a srie, n.^o 165, 4.^o anno) e a encontrar, a paginas 112 do vol.
IV, o mesmissimo soneto, sem descrepancia d'uma unica palavra, sob esta
asss curiosa rubrica:


_No momento derradeiro da vida humana, qual o estado de moribundo, nada
excita amor e conforto como a doce inspirao de abraar um crucifixo,
unico remedio d'alma. Por este motivo fez o dr. Manuel da Nobrega o
seguinte soneto: A Jesus Crucificado_.


Portanto, teremos ns: os vindouros, que no leram o _Ramalhete_, a
attribuir a Guilherme Braga (que, segundo o sr. Raul Pereira, nasceu em
1845, embora Innocencio nos diga 1843) uns versos do dr. Manuel da
Nobrega, que vieram  estampa em 1841.

Veiu isto a proposito da confiana absoluta a depositar nos
cancioneiros. Verdade seja que entre Garcia de Resende e o sr. Raul
Pereira (que eu no tenho a honra de conhecer), o unico elo que os
prende deve ser, se no laboro em erro, o lao musical...

Outras razes, porm, antes do trabalho de Delfim Guimares, me levavam
a pender para o arrocho da no existencia poetica de Christovam Falco.
 certo que a Renascena produzira uma ecloso genial em todos os ramos
da vida sentimental, artistica e scientifica do occidente europeu, e que
ns tivemos largo quinho nas benemerencias d'esse glorioso Sol--e to
grande que ainda hoje d'elle vivemos. Mas  igualmente certo que, por
grande que fosse, e foi, a prodigalidade do estro que nos coube, no era
natural que dois vultos geniaes, a um tempo, surgissem to parecidos,
to irmos na concepo sentimental, na realisao artistica e
at--suprema coincidencia--nos azares da vida amorosa! Delfim Guimares
embrenha-se em trabalhos de genealogia e de exegese litteraria,
pacientemente cuidados, para nos infiltrar o convencimento que eu, sem
razes de peso e sem auctoridade para as formular, de ha muito _sentia_
da existencia d'um s poeta na obra de Bernardim e na obra de Chrisfal.

, pois, para mim um livro de consolao. Por um lado, simplifica, no
meu espirito, um caso que se achava enredado nas malhas autoritarias,
embora convencionaes, de nomes respeitados; por outro, entorna, no meu
corao, o intimo, o ineffavel jubilo de ver alguem da minha estima e do
meu tempo elevar-se tanto, pelo trabalho intelligente e probo, n'uma
manifestao eloquente de fora moral e espirito combativo de que tanto
carecemos.

E esta probidade litteraria no  coisa de pouca monta ou que alguem
possa dispensar-se de a encarar com o mais profundo respeito, porque me
hei de lembrar d'aquelle supremo prefacio do _Disciple_ de Paul Bourget,
quando elle se dirige  mocidade da sua terra: _Dentro de vinte annos
tereis em vossas mos a fortuna d'esta velha patria, nossa me commum.
Vs sereis a propria patria. Que tereis recolhido nas nossas obras?
Pensando n'isto, no ha homem de lettras, por mais modesto que seja, que
no deva tremer de responsabilidade_...


                                                Hemeterio Arantes.

                     (Do _Diario Illustrado_, de 2 de dezembro de 1908).




Bernardim Ribeiro
(O Poeta Crisfal)

     _Subsidios para a historia da litteratura portugueza_, por Delfim
     Guimares. 1 vol. de 278 pag. Livraria editora Guimares & C.^a
     1908 Lisboa, typ. Libanio da Silva.


A velha sentena portugueza--_o seu a seu dono_ viria muito a propsito,
noticiando o apparecimento d'este livro, com que se pretende, e consegue
a nosso ver, reivindicar para o nome do grande poeta quinhentista a
autoria e a glria de differentes produces que inconscientemente
andavam attribuidas a outros. E se no fosse a bella coragem do sr.
Delfim Guimares, nosso antigo e presado amigo, que sendo poeta muito
primoroso  tambem investigador ordenado e pacientissimo, o deploravel
engano continuar-se-ia por muito tempo, ou, peor ainda, no se
desvaneceria jmais talvez.

Entre outras, a lenda de que existira um Christovam Falco, pretenso
poeta de to alto valor como Bernardim Ribeiro, e, assim, auctor tambem
de maviosos versos, principiara a correr mundo em 1554, dois annos
depois de fallecido este, e teria origem, parece, em certa nota posta
n'uma edio pouco criteriosa feita n'aquelle anno, de differentes
poesias, esparsas umas, outras logo colligidas aps a morte de
Bernardim, edio onde veem de mistura com a _Historia de Menina e
Moa_, diversos motes, cantigas e glogas e entre estas, (diz a tal
nota) _h[~u]a muy nomeada e agradavel... chamada Crisfal, que dizem ser
de Christovo Falcam, ho que parece alludir o nome da mesma egloga_...

D'isto, e de outras investigaes pacientemente realizadas pelo sr.
Guimares resulta a presumpo de provir a dita lenda principalmente
d'aquellas vagas referencias e a alluso que o editor julgou encontrar
em o nome de Crisfal do facto de serem as duas syllabas de que elle se
compe eguaes s primeiras dos dois nomes *Cris*tvam e *Fal*co. Mas
isto, que no constitue prova e no passa de mera hypothese, teria de
cahir redondamente, quando se verificasse que esse Falco era homem de
poucas lettras e, portanto, incapaz de produzir trabalho de tanta valia
como  a _gloga de Crisfal_.

E assim succederia talvez se o sr. dr. Theophilo Braga no houvesse, em
m hora, pretendido transformar a hypothese em lei, apresentando como
definitivamente adquirida para Falco a paternidade d'aquella e de
outras poesias de altissimo valor litterario.

No seguiremos o sr. Delfim Guimares na critica acerba, se bem que
correctissima, com que se refere a este erro do sr. dr. Theophilo Braga
e ainda a muitos outros. Este operoso escriptor dir de certo da sua
justia, no deixando, d'esta vez, mal parada a sua fama de erudito. E,
sendo como , sempre consciencioso nos seus trabalhos de historiador
litterario, vir certamente  estacada, para explicar a razo do seu
engano.

Muitos outros descobrimentos so indicados n'esta valorosa
reivindicao, no se mostrando possiveis mais duvidas a respeito da no
existencia de Christovam Falco, poeta, e parecendo ao contrario
definitivamente provado que o nome de Crisfal fra um dos muitos
pseudnymos e anagrammas adoptados por Bernardim Ribeiro nas suas obras.
Tambem graas ao indefesso trabalho do sr. Delfim Guimares ficar
pertencendo irrevogavelmente ao poeta de _Menina e moa_ no smente a
celebre gloga, mas ainda outras poesias attribuidas a diversos e que
veem apontadas ou reproduzidas n'este volume.

Em compensao, porm, algumas at agora emprestadas ao buclico poeta,
lidima gloria das lettras portuguezas, tero de passar para outros, com
o que, seja dito de passagem, a exceptuarmos o solau[11]--_Pensando-vos
estou filha_, que o sr. dr. Theophilo Braga deu, tambem levianamente,
como de Bernardim, sendo alis de Cames, nada vir a perder o nome de
Bernardim Ribeiro--antes pelo contrario!

N'este trabalho notavel do sr. Guimares, obra de paciente investigao
e bem disciplinado criterio, faz-se referencia a muitos outros factos
interessantes, que nos abstmos de contar, porque do livro apenas
pretendemos dar rapida noticia; mas todos os elogios sero poucos a quem
com coragem estrme veio inteirar a gloria de Bernardim Ribeiro que,
desventuroso poeta, de uma parte d'ella havia sido espoliado.

Muito agradecemos a captivante offerta de um exemplar de _Bernardim
Ribeiro_, com que fomos brindados pelo auctor.

 (Da _Mala da Europa_, de Lisboa, n.^o 669, de 6 de dezembro de 1908).




Ainda Chrisfal


Longe estava de ver to depressa e amplamente confirmada a minha
assero de que o trabalho de Delfim Guimares _Bernardim Ribeiro (o
Poeta Crisfal)_ era, para mim, um livro de consolao, quando o
_Diario de Noticias_ de 3 do corrente, sob a epigraphe _Academia de
Sciencias de Portugal_ me trouxe esse verdadeiro manjar (para lhe no
chamar capitoso petisco...) espiritual  minha insaciavel fome de
aprender.

 como segue a passagem, que me interessa da local jornalistica em
questo:


_Em seguida_ (o sr. dr. Theophilo Braga) _realisa uma communicao
sobre Bernardim Ribeiro e Christovam Falco mostrando como a vida
amorosa d'este oscilla entre 1525 e 1565, seno n'aquella data moo
fidalgo, e tendo pelo menos 12 annos, ao passo que aquelle era j idoso;
evidencia como na gloga transparecem diversas situaes da vida de
Christovam Falco, e termina por invocar as opinies de Diogo Couto,
Gaspar Fructuoso e outros que comprovam a existencia das duas
individualidades que apesar de similhantes n'algumas situaes da vida,
no podem jmais confundir-se_.


Eu imagino estar vendo estas palavras cahir do labio venerando, sobre a
douta assembleia, como outras tantas perolas que, depois de serem ali
devidamente apreciadas, resvalaram c p'ra fra, para o monturo anonymo,
offerecidas em repasto magnifico aos cerdos iconoclastas.

Bacorejemos, pois, as preciosas gemmas...

Diz o Mestre que a _vida amorosa_ de Christovam Falco oscilla entre
1525 e 1565, sem ficarmos sabendo se a sua _vida poetica_ tambem oscilla
dentro do mesmo periodo, isto : se a actividade _amorosa_ e a
actividade _poetica_ de Chrisfal se confundem, caminham a par-e-passo ou
se, pelo contrario,  o amoroso que precede o vate, se este antecede o
namorado.

Eu, por mim, se alguma coisa entendo n'esta complicada psycologia, estou
em dizer que, em geral, as duas actividades se confundem, so
isochronas, e, segundo este criterio, Falco s poetou com exito desde
1525.

No pde elle, pois, ter figurado no Cancioneiro de Resende, que tem a
data de 1516, como o sr. dr. Theophilo Braga pretendia at ha uma duzia
d'annos atraz--opinio que depois modificou no seu trabalho, sobre
Bernardim Ribeiro, que veio  estampa em 1897.

Mas o Mestre, em 1897, deixou de lhe dar entrada no Cancioneiro pela
subtil razo de que Chrisfal no poetra nos Seres da crte por
pertencer ao _ramo pobre_ dos Falces. Lembrana exegetica que nos leva
a concluir que todos os poetas do Cancioneiro poetaram nos ditos seres
e demais a mais com a escarcella bem provida d'aureos recursos--embora
muitas e muitas poesias d'aquella grandiosa colleco resvalem da
casuistica amorosa, que  a caracteristica da poetica palaciana, para a
lucta dos interesses em que se revela a necessidade do vil metal.

Mas agora que o insigne Professor colloca a vida amorosa de Falco entre
1525 e 1565, pergunto eu: permanece este argumento para a sua excluso
do Cancioneiro ou teremos de assentar que Chrisfal n'elle no figurou
pela simples razo de, em 1516, andar ainda com coeiros?

Naturalmente teremos de optar por esta ultima verso e, portanto, pr de
banda a sua amisade e apregoadas confidencias com o auctor das
_Saudades_.

Fica de vez assente, pois, que Christovam Falco no foi poeta do Seculo
XV.

Proponho-me agora provar, _currente calamo_ (como no pode deixar de ser
tratando-se d'alguem que se no familiarisou com _os processos
inductivos da critica moderna_... ) que Christovam Falco tambem no foi
poeta do Seculo XVI, como agora pretende o sr. dr. Theophilo Braga.

E isto porqu?!

Porque eu posso duvidar (ainda que me apodem de irreverente pedantismo)
das, por vezes, arrojadas concluses chronologicas do insigne Professor.
Mais anno menos anno, mais seculo menos seculo so, para os grandes
Generalisadores, coisas d'uma importancia mediocre. Outro tanto me no
succede, quando a generalisao visa um assumpto basilar na essencia, no
modo de ser do facto scientifico.

E  este o caso. Cristovam Falco foi poeta entre 1525 e 1565?!

Ouamos o sr. dr. Theophilo Braga:


    Se Cristovam Falco escrevesse depois de 1527, quando S de Miranda
    propagou as formas da poetica italiana, teria ento adoptado o verso
    endecasyllabo, e a frma da _outava_, do _terceto_, e trocaria pelo
    _soneto_ o conceite provenalesco dos que ainda seguiam o typo do
    Inferno de Amor (_Bern. Rib. e os Bucolistas_, pag. 141).


Na edio refundida do seu Bernardim Ribeiro, publicada em 1897, esta
affirmao cathegorica permanece igual ou identica, como, alis, no
podia deixar de ser.

Demos de barato que se possa ter opinio diversa da do insigne lente do
Curso Superior de Lettras, o que ninguem pde  contrariar a _realidade
historica_, porque, como  sabido, contra factos no ha argumentos.

E esta _realidade_ diz-nos que, depois de S de Miranda, no houve um
unco poeta que no tivesse experimentado as formas petrarchinas e o
verso heroico.

Houve um dr. Antonio Ferreira que nunca em sua vida fez um verso de
_medida velha_; houve muitos, e entre elles o proprio iniciador da
poetica italiana, que no desdenharam a redondilha e os velhos
agrupamentos metricos. De quem poetasse _exclusivamente_ pelos antigos
processos... no consta.

Logo, a no ser que rasguemos a _logica_ do Mestre e a _verdade_ da
Historia, Christovam Falco no encontra cadeira onde se sente, nem na
vasta saleta da poesia palaciana, nem no refulgente salo do Seculo de
Quinhentos!

       *       *       *       *       *

Uma passagem do meu ultimo artigo teve o condo d'excitar duas
communicaes que amavelmente me foram endereadas.

A primeira, d'um amigo, que me escreve: Sobre o soneto attribuido a
Guilherme Braga, devo dizer-lhe que o auctor do mesmo no  o dr. Manuel
da Nobrega, mas sim outro poeta.

Claramente, corri logo a casa d'este amigo que me aconselhou uma
intervista com o insigne bibliophilo e bibliographo sr. Annibal
Fernandes Thomaz, o que, para mim, foi d'um prazer espiritual, como, de
ha muito, me no era dado gosar.

Annibal Fernandes Thomaz  pessoa familiar a todos que n'este paiz se
occupam de livros e--coisa rara!--a todos sorri, a todos mette no
corao e em todos tem um admirador dos seus vastissimos conhecimentos
e, o que  mais, um amigo devotado das suas grandes qualidades.

Disse-lhe ao que ia; mas, como da nossa conferencia resulta uma resposta
 segunda communicao que recebi,  bem que n'este momento aqui fique
exarada essa communicao.

Trata-se d'um bilhete-postal anonymo, e, se quebro a minha velha praxe e
o bom-conselho de todos de lanar para os papeis inuteis esta ordem de
documentos,  porque se trata d'um assumpto litterario e o meu
correspondente, por qualquer razo se no querer fazer conhecido, o que
muito me contraria. Diz assim:

O soneto que v. reproduziu no _Diario Illustrado_ tem mais de dois
seculos. Bastava o estylo para o denunciar seiscentista; mas a prova
positiva est em a Nova Floresta, terceiro tomo, tit. V, apopht. LIV.
Permitta-se a um obscuro padre dizer mais. Com essa ancianidade de taes
versos toma nova fora o contra argumento de v. sobre o silencio dos
cancioneiros a respeito de Crisfal. Na margem do soneto pag. 207, da
edio da _Nova Floresta_ de 1759 (4.^a impresso que tenho  vista) l
se o nome do autor assim: _Do Doutor Manuel da Nobrega_. Quem fez um tal
soneto, to seriamente engenhoso, apesar do gongorismo, e to bem
metrificado, havia de ter mais poesias: e sendo _doutor_, no era um
desconhecido. Que temos d'elle na _Fenix Renascida_? Quem o conhece?
Alguns annos ha, o soneto reproduzido annimo em muitos livros devotos,
foi publicado em o _Novo Mensageiro do Corao de Jesus_ (revista
piedosa mas de muita litteratura) com a indicao, que a minha memoria
aproveitou agora, da _Nova Floresta_, e com uma nota que dizia ser o
nome do Dr. M. Nobrega desconhecido dos bibliographos.

Vamos agora, rapidamente, ao resultado das pesquizas com Fernandes
Thomaz.

O soneto _A vs, correndo vou, braos sagrados_ encontra-se a fechar uma
dedicatoria a Jesus Christo Senhor Nosso Crucificado d'um curiosissimo
livro de 1734 intitulado _Anacephaleosis medico theologica, moral e
politica_, etc., etc., obra d'um tal Bernardo Pereyra, medico do
partido da villa do Sardoal.

O meu primeiro correspondente, que conhecia o livro, attribuiu
facilmente a Pereira a autoria do soneto, por no reparar nas palavras
que precedem a sua reproduco, e que dizem:

...e finalmente como se consegue a gloria que  a melhor concluso que
se tira depois de sahir da Universidade do mundo para as Escollas do
Co; mas ser bem, meu amoroso Jesus, _que antes de tudo diga com hum
devoto_ que hoje para renacer do estado da culpa ao da graa, que de vs
espero, para seguir o caminho por onde no v precipitado, mas antes com
a vossa direco fortalecido!

_A vs correndo vou, braos sagrados_, etc., etc.

Mas (e vae isto em resposta ao anonymo correspondente) tanto Barbosa, na
sua _Bibliotheca_, como Innocencio, no _Diccionario_, citam Manuel da
Nobrega, como auctor do _Epicedio inconsolavel  morte do Ser. Principe
de Portugal D. Theodosio que falleceu em 15 de maio de 1653_ e como
collaborador nas _Memorias funebres de D. Maria de Athayde_ fallecida em
22 de agosto de 1649.

 livro muito interessante estas _Memorias funebres sentidas pelos
engenhos portugueses na morte da Senhora D. Maria de Athayde_. N'ellas
se encontram poesias em portuguez, francez, hespanhol, italiano, latim,
assignadas pelos nomes dos poetas mais illustres do tempo e, para no
citar outros, bastar lembrar os de Soror Violante do Co e D. Francisco
Manuel de Mello.

Ao que parece tratava-se d'uma extremada formosura _double_ (como hoje
se diz) d'uma alma de eleio. _O Doutor Manuel de Nobrega_ concorre a
este florilegio poetico com um soneto e uma egloga. O soneto:

_Aquelle bello Sol, que amanhecia_, no desmerece, antes tem grandes
ares de familia com o que tem sido causa d'esta palestra... algo pesada.

No quero, porm, terminal-a sem exarar o meu parecer de que o Soneto,
embora _culterano_, tem to pouco de _gongorico_ que Guilherme Braga, ou
qualquer outro grande poeta de hoje, no desdenharia assignal-o, se essa
fosse _a sua corda_.


                                               Hemeterio Arantes.

          (Do _Diario Illustrado_, de Lisboa, de 9 de dezembro de 1908).





Bernardim Ribeiro
(O Poeta Crisfal)

     Subsidios para a Historia da literatura portuguesa, por Delfim
     Guimares. 1908--Liv. ed. Guimares & C.^a Lisboa--8.^o, 274 pag.

     Delfim Guimares, Bibliographia: Prosa: _Alma Dorida_, com prefacio
     de Teixeira Bastos, _O Rosquedo_ (scenas do Minho), _Ares do Minho_
     (contos).--Critica litteraria: _A viagem por terra do sr. Joo
     Penha_.--Verso: _Lisboa negra_, _Confidencias_, _Evangelho_, _No!
     mil vezes no!_, _Sim! mil vezes sim!_, _Sonho Garretteano_, _A
     Virgem do Castello_ e _Outonaes_.--Theatro:--_Aldeia na Crte_, de
     collaborao com D. Joo da Camara. (3 actos--Th. D. Amelia),
     _Juramento sagrado_ (1 acto, verso.--Th. D. Maria). Traduziu a
     _Dama das Camelias_, de Dumas, filho; reviu e publicou as
     _Saudades_ de Bernardim Ribeiro e as _Trovas de Crisfal_, do mesmo
     auctor. Fundou e dirige a Bibliotheca Classica Popular. Collaborou
     longo tempo na _Mala da Europa_, _Provincia_, _O Lima_, _Chronica_,
     _etc._ Varias obras de Delfim Guimares teem j 2.^a edio,
     estando algumas outras exgotadas.


Desde longos tempos at este anno 1908 da era de Xp, como escreviam os
nossos velhotes, tudo era suppor que, ahi por alturas de mil quinhentos
e tal da mesma era do Senhor, viveu, floresceu, e ninguem mais soube
d'elle, certo _Crisfal_, poeta e namorado, que toda a gente indicava
como sendo Christovo Falco, um Christovo Falco que se sabe agora
escrever como um carreiro e ter mais erros de orthographia do que
cabellos tinha na cabea... se a Historia no provar que elle era
careca. Indicava se Christovo Falco tacteando. Para manter a suspeio
havia s o corresponder o pseudonymo _Cris fal_ s primeiras sylabas do
nome do supposto poeta. Longo tempo a mentira prevaleceu e longo tempo
os doutos acceitaram de boamente a patranha, uns supplementando-a com
fabulaes _ priori_, outros asseverando que tal era porque era e por
ser verdade passavam a presente que assignavam.

Caminhava tudo em doce paz quando Delfim Guimares, publicando o livro
de que nos occupamos, desfez a lenda, tombou os castellos e pz a cousa
nos devidos termos. Mas vamos ao que importa.

De como e porqu Delfim Guimares achou que _Crisfal_ no passou de um
pseudonymo de Bernardim Ribeiro e de cousas varias que ao deante se
vero,  um capitulo que, n'esta critica, deve interessar o leitor,
agora que j sabe que tal _Crisfal_ nunca existiu.

Delfim Guimares  um estudioso e um devotado. Manuseia os classicos com
a mesma curiosidade com que aguarda o ultimo livro de Anatole France ou
o novo romance de Octave Mirbeau.

Ha tempo, dirigindo uma colleco, publicou as _Saudades_ do nosso
Bernardim, auctor que, por sua natural tristura e dulorosidade, desde
menino e moo mais o prendia e captivava. Tudo estaria bem at aqui se,
mente cogitativa e emprehendedora, no scismasse em publicar uma
Bibliotheca de Classicos animado pelo exito das _Saudades_. Uma
Bibliotheca de vulgarisao, destinada a mostrar  alma do vulgo o
escrinio das melhores joias dos nossos antepassados.

Anteriormente uma natural curiosidade o levara a estudar os poetas que
se apontavam como maiores amigos de Bernardim: S de Miranda e
_Crisfal_, o celebrado Christovam Falco que hoje deve s musas a
celebreira que por seculos desfructou,--elephante que conseguiu passar
por canario, o animal.

A extraordinaria semelhana de _Crisfal_ a Bernardim, os mesmos
lamentos, a mesma situao amorosa, os mesmos queixumes; a ausencia
absoluta de noticias e referencias na obra de S de Miranda e Bernardim
ao poeta coevo e imitador, tudo isto deu a Delfim Guimares a certeza de
que _Crisfal_ e Bernardim era o mesmo, s, e altissimo poeta. Alm
d'isto nenhum documento da epocha autorisava a pr a carapua _Crisfal_
em cabea de Christovam Falco. O mesmo editor de Bernardim, edio de
1554, onde se acha incorporada a Egloga chamada Crisfal escreve,
referindo-se-lhe: _que dizem ser_ de Christovam Falcam, ho que parece
alludir ho nome da mesma Egloga.

Estudado o contemporaneo Christovo Falco, v-se que elle era pouco
menos de bronco e no poderia ser nunca o auctor da _Egloga_. Adquirida
a certeza, que era _Crisfal_? E logo, deductivo, Delfim Guimares achou
a chave.  _crisma falso_, pois que na Egloga se move a mesma
passionalidade de Bernardim com supositicios nomes--falsos crismas.

O livro do escriptor  ilustrado com um fac-simile de uma carta do
pretenso Christovam Falco e acompanhado de uma arvore genealogica dos
Falces. De uma logica cerrada e inteligente, preciosamente documentado,
 um trabalho collosal que dar echoantissimo nome ao seu auctor. E
enquanto se no perder na memoria das geraes o nome do bardo amoroso,
o triste Bernardim, o nome de Delfim Guimares no se desacorrentar da
gloria de ter focado com intensa luz um to curioso e deturpado caso da
litteratura portugueza.

L fra esta obra faria no s a gloria mas o nome de um trabalhador. As
Academias levar-lhe-hiam o seu _fauteuil_ estofado, e os editores
disputariam a honra de lhe pagar.

C d desgostos, nada mais.

O illustre publicista Jos Sampaio (Bruno) chegra s mesmas concluses.
Anselmo Braamcamp Freire vae publicar um trabalho curiosissimo sobre
Maria Brando; Jos Caldas  da opinio de que se achou a verdade. Quem
resta? Carolina Michaelis, cuja opinio importa saber, e Theophilo
Braga, que discorda.

As impugnaes que Delfim Guimares fez aos livros de Theophilo esto em
aberto. E Delfim veio com este seu trabalho no s elliminar um
Christovam da litteratura e uma Maria das muitas Marias enamoradas, mas
fazer luz sobre uma poesia de Cames falsamente attribuida a Bernardim
Ribeiro, e documentar que _smente_ S de Miranda foi o introductor da
Escola Italiana em Portugal. Bernardim Ribeiro foi o introductor mas das
novas eglogas vergilianas.

Raro talento, muito estudo, aturada analyse, observao profunda e um
grande servio prestado  litteratura, eis como julgamos o livro
_Bernardim Ribeiro_. Com ares impugnativos veio o sr. Jordo A. de
Freitas no _Diario de Noticias_ carretar materiaes para o rude e
esforado prelio a travar-se. No crmos que o haja. Theophilo Braga,
porm, que tem estado silencioso, dir de sua justia. O trabalho de
Delfim Guimares  probo e consciencioso. Merece o applauso
incondicional de todos, e que rejubile a litteratura que ainda tem
artistas que, fructo de seu labor, lhe do to bellas obras.


                                          Albino Forjaz de Sampayo.

           (Do jornal _A Lucta_, de Lisboa, de 16 de dezembro de 1908).





Bernardim Ribeiro
por Delfim Guimares


A obra que Delfim Guimares acaba de publicar  o producto d'um lucido
criterio aliado a uma habil quanto meticulosa investigao. Sem ser um
erudito nem rebuscador d'archivos, Delfim Guimares, antes de encetar
quaesquer pesquizas, teve a maravilhosa intuio--ou elle no fosse um
poeta--de que os admiraveis versos do _Crisfal_, desirmanados no
decorrer do tempo da obra litteraria de Bernardim, constituiam com o
poetico romance de _Menina e Moa_, reflexos d'um mesmo espirito,
vibraes d'um unico corao.

 que o illustre critico interpretra com verdadeiro sentimento o genio
do infortunado poeta, levando a tal ponto a sua predileco por elle,
que com as _Saudades_ abrira essa galeria de publicaes classicas
portuguezas em edies populares vulgarisadas, cujo inicio no nosso meio
litterario a Delfim Guimares se deve.

Toda aquella paixo do enternecido bucolista das _Saudades_, a fluidez
incomparavel d'essa linguagem que  na sua simplicidade uma mimica
d'alma e tem a harmonia d'um fio d'agua gorgolejante, tudo isso,--o
sentimento, que  a vida na obra d'arte, Delfim Guimares foi encontrar
nas composies erradamente attribuidas a Cristovam Falco.

Obtida a prova subjectiva de que o poeta das _Saudades_ era o trovador
do _Crisfal_--na realidade um criptogramma formado pelas primeiras
syllabas das palavras _crisma_ e _falso_--o distincto escriptor encetou
a investigao historica do que para elle fra um presentimento e pelo
estudo feito sobre os documentos da epoca, seu confronto e
interpretao, conseguiu destruir n'uma argumentao irrefutavel e cheia
de brilho, a lenda feita tradio e cimentada pelo mais auctorisado
critico da nossa litteratura, que o trovador do _Crisfal_ nunca poderia
ter sido Cristovam Falco.

A carta d'este moo fidalgo a D. Joo III, que Delfim Guimares
transcreve na integra e que na edio de Theophilo Braga apparecera
deturpada,  inquestionavelmente a prova mais evidente--e outras no
houvesse com relao a datas--de que nunca o espirito trivial que
alinhavou aquelles periodos--se  que ali os ha--idealisaria a
enternecida ecloga do _Crisfal_, que  ainda, a alguns seculos de
distancia, n'esta epocha em que a arte possue riquissimos processos de
technica e a linguagem tanto ganhou em expresso emocional,--uma soberba
joia litteraria.

Nesta obra, to cheia de revelaes, comea o auctor por fixar em bases
positivas as _tapes_ da infortunada vida de Bernardim, desde o seu
nascimento no Alemtejo em 1482 at  sua morte no Hospital de Todos os
Santos, de Lisboa, em 1552, submerso nas trevas horriveis da loucura.
Depois com o esboo dos seus amores da adolescencia e paixo tragica que
votou a Joanna Tavares, que foi a mais intensa affeio de Bernardim e a
inspiradora do seu triste trovar, entra-se nos capitulos da exegese,
sendo todo o livro uma refutao completa das idas correntes sobre a
problematica personagem do trovador do _Crisfal_. Nle se visionam
muitos pontos de vista at ento desconhecidos e se estabelecem novas
pistas para norteamento dos estudiosos, as quaes, certamente, muito
contribuiro para que todo o interessante enigma literario se desvele em
absoluto.

Nas suas curiosas investigaes, fez Delfim Guimares preciosos achados
que denotam uma grande subtileza nas suas faculdades de critico, como a
da poesia de Cames, erradamente atribuida a Bernardim, que se acha no
cancioneiro de Luis Franco, existente na Biblioteca Nacional de Lisboa,
to interessantemente descoberta, e o das tres poesias constantes d'um
_pliego-suelto_ de 1656, da mesma Biblioteca, que o distincto escriptor
filia com boas razes no estro de Bernardim.

Merc da linguagem castia, to saborosamente portugueza, de que o
auctor se serve, assim identificada com o thema historico versado, a
obra  por si s, e independente da maneira de vr do auctor, o trabalho
honesto de um escritr que  ao mesmo tempo um artista, n'essa evocao,
d'um to forte relevo, das saudosas edades em que os poetas amavam mais
sinceramente e eram menos complicados, a arte no sendo como hoje um
_mtier_ lucrativo, mas a manifestao espontanea d'um espirito no vo
errante da inspirao.

Fecha o livro um curioso estudo sobre a vida de Cristovam Falco e sua
genealogia, certamente o mais completo at agora.

Felicitamos Delfim Guimares pelo seu valioso trabalho que vem deslocar
cmodos preconceitos arreigados e abrir novos horizontes aos que se
interessam--que so todos os portuguezes--pelo estudo da litteratura
portugueza no periodo aureo d'esta nacionalidade.

               (Do jornal _O Dia_, de Lisboa, de 9 de janeiro de 1909.)




Bernardim Ribeiro
(O Poeta Crisfal)


 esta obra que perpetuar o nome do seu auctor, se bem que Delfim
Guimares em precedentes trabalhos litterarios tenha j adduzido sobejas
provas para que lhe possmos reconhecer um elevado grau de
intelligencia.

Com a publicao do volume cujo titulo encima esta noticia, o servio
prestado por Delfim Guimares  historia da litteratura patria est
sendo louvado to extraordinariamente a ponto do sr. Albino Forjaz de
Sampaio, primoroso chronista da _Lucta_, no ter duvida em afirmar que
no Estrangeiro tal publicao franquearia ao seu auctor as portas d'uma
Academia.

O livro apresentado  o producto d'uma ardua tarefa em que pacientes
faculdades de investigao, alliadas a uma singular vivacidade, removem
com cauteloso tino os escabrosos obstaculos que to ingrato estudo
frequentemente depra. Por isso  que, sem receio de contradicta, nos
afoutamos a asseverar que em Portugal ninguem melhor do que Delfim
Guimares conhece o periodo da historia litteraria a que o mesmo
assumpto directamente respeita. E nem isso pode causar surpreza ao
leitor illustrado, uma vez que a arrojada affirmativa do illustre
publicista, que  por signal a _negao_ da existencia de Christovam
Falco, como trovador quinhentista, demandava um minucioso exame
analytico a todos os documentos litterarios de ento; e nisso s a mais
escrupulosa cautella conjugada com uma aguda perspicacia, como j
deixamos dito, poderia lograr o exito desejado.

Os materiaes que Delfim Guimares colligiu para invalidar a
personalidade litteraria de Christovam Falco, deixa-os elle dispersos
nos varios capitulos do seu livro, os quaes sobrepostos uns aos outros,
 medida que se vai avanando na leitura, introduzem em qualquer
espirito a certeza da these que o auctor se propoz comprovar.

De envolta com os persuasivos esclarecimentos allegados em prol do seu
proposito, o auctor rectifica raciocinios errados e affirmaes
insustentaveis de Theophilo Braga, se bem que o sabor acre d'essas
frequentes correces seja attenuado ou neutralisado quasi pelas
assucaradas referencias ao passado de to incanavel trabalhador.

Pelo volume a que estamos alludindo v-se que a obra de Bernardim
Ribeiro chegou para fazer a reputao de dous homens, vindo o nome de
Christovam Falco usurpar em seu proveito algumas das produes
d'aquelle mavioso lyrico, e sendo, portanto, a sua memoria um nefasto
saprophyta que do merito alheio foi vivendo durante um longo periodo de
tempo. A duplicidade desapparece agora com as aturadas canceiras de
Delfim Guimares que assim reivindica para o grande corypheu do
bucolismo em Portugal todos os fructos do seu prodigioso talento,
corrigindo um erro em que os bibliophilos laboraram durante seculos.
D'aqui resalta--e  esse um dos evidentes intuitos do auctor do livro em
questo--o desenho da verdadeira figura de Bernardim Ribeiro, com as
propores proprias da sua gigantesca estatura litteraria, em cima do
seu elevado pedestal de gloria, pedestal a que algumas pedras foram
subtrahidas para sobre ellas figurar o ficticio vulto trovadoresco de
Christovam Falco.

Em Portugal abundam os devotados enthusiastas de Cames e Camillo,
apparecendo agora um ardente propugnador d'outro nome tambem illustre, a
legitima-lo como uma das maiores glorias litterarias de que se pode
ufanar um povo. Esse nome  Bernardim Ribeiro e entrelaado n'elle
apparecer d'oravante o de Delfim Guimares, que acaba de restituir a
obra do immortal bucolista  sua primitiva integridade.


                                                 Antonio Ferreira

  (Do _Commercio do Lima_, de Ponte do Lima, de 9 de Janeiro de 1909).




Bernardim Ribeiro


Com este titulo e o sub-titulo de _O Poeta Crisfal_, tambem o distincto
escriptor a cujo nome, j to merecidamente aureolado, fica feita
referencia na rubrica anterior, publicou recentemente um interessante
volume, apodado por esse proprio auctor de _subsidios para a historia da
litteratura portugueza_, e que no  nem mais nem menos do que a
demonstrao a nosso vr evidentissima, digam os _mestres_ pilhados em
deturpao o que quizerem, de que Bernardim Ribeiro e _Crisfal_ so uma
e a mesma pessoa, no sendo _Crisfal_ pseudonimo de Christovo Falco,
mas sim um composto das primeiras sylabas das palavras _Crisma falso_,
de que Bernardim Ribeiro fez uso. Percorrendo se, com olhos de ver, e
com vontade de acertar com a demonstrao explanada por Delfim
Guimares, todas as 200 e tantas paginas do volume em questo,
adquire-se o convencimento de que ficaram por terra, uma a uma, as
pedras basilares com que o nome consagrado do sr. dr. Thephilo Braga
ergueu o monumento, aparentemente solido, que offertou s lettras
patrias, fazendo quase real, palpavel, uma miragem secular--que dava
_Crisfal_ como sendo Christovo Falco, quando este no pertence seno
ao dominio da lenda, sendo uma perfeita mystificao a sua pretendida
existencia de litterato.

O trabalho de verdadeiro erudito, que representa o livro de Delfim
Guimares, assignala de um modo inconfundivel o seu alto valor de
estudioso, de investigador benemerito e de operoso trabalhador das
nossas lettras. Felicitando-o cordealmente por esta nova prova das suas
excepcionaes qualidades, cumprimos apenas um dever.


                                                            A. B.

            (Do _Jornal das Colonias_, de Lisboa, de 13 janeiro de 1909).




Bernardim Ribeiro


Temos retardado a noticia do apparecimento d'este livro notavel do
illustre poeta e prosador, sr. Delfim Guimares, porque quizemos
consagrar  sua leitura algumas horas socegadas, afim de poder estudar
convenientemente o problema litterario que em suas paginas se debate.

Esta obra  o resultado de longas e aturadas investigaes e de um
estudo conscienciosissimo, no s da obra de Bernardim Ribeiro, mas
ainda da obra de todos os poetas, apontados como seus amigos e
companheiros.

Cotejando os versos do iniciador do lirismo portuguez com os que se
attribuem a Cristovo Falco, o sr. Delfim Guimares facilmente
reconheceu que, embora pudsse admittir-se que a educao litteraria dos
dois poetas tivesse sido a mesma, no era possivel que as suas
tendencias esteticas fossem por tal maneira similhantes, que os seus
versos chegassem a confundir-se. Um d'elles teria sido seguramente o
imitador do outro.

Continuando nas suas indagaes, e apreciando demoradamente a obra
supposta contemporanea de Cristovo Falco, notou ainda o sr. Delfim
Guimares que era frequente S de Miranda referir-se a Bernardim Ribeiro
nas suas obras poeticas, havendo tambem alluses repetidas, nos versos
d'este poeta, ao seu amigo e confidente. Ao auctor do _Crisfal_ no
notou a mais leve referencia.

N'aquelle bello poema havia alluses que alvejavam claramente S de
Miranda, e foi do estudo attento d'essas alluses, que perfeitamente
condiziam com as referencias das clogas de Bernardim Ribeiro ao seu
amigo, que resultou chegar aquelle illustre escriptor a concluses
inteiramente satisfatorias.

A analise de varios documentos de caracter historico e juridico produziu
no espirito do sr. Delfim Guimares a convico de que a personalidade
litteraria de Cristovo Falco no existiu, sendo a obra que se lhe
attribue toda do autor das _Saudades_.

Houve,  certo, um Cristovo Falco de Sousa, que foi moo fidalgo em
1527 e capito da fortaleza de Arguim em 1545, mas este personagem, na
opinio de Delfim Guimares, era incapaz de escrever a mais
insignificante das quadras de Bernardim Ribeiro.

Como se v,  realmente muito notavel este livro, que os eruditos e
todos os que se interessam pelo movimento litterario portuguez,
certamente devero apreciar pela intensa luz que projecta sobre um dos
principaes capitulos da historia da poesia nacional.

(Do jornal _O Primeiro de Janeiro_, do Porto, de 20 de janeiro de 1909).





Bernardim Ribeiro
por Delfim Guimares


No pode um povo viver sem ideal e esse ideal ha de ser como a flr que
firma as raizes no terreno proprio das suas tradies. O futuro ha de
ser explicado pelo passado em que potencialmente est contido.

Assim, comprehende-se quanta importancia tem para a vida intellectual e
artistica d'um povo o conhecimento de tudo quanto se refere  evoluo
litteraria dos generos e s condies mesologicas em que os seus grandes
prosadores e poetas produziram monumentos de dura.

 por isso que l fra se no considera trabalho inutil todo aquelle que
consiste em escavar no passado, com paciencia e com intelligencia, para
d'elle desenterrar uma ideia, uma verdade, a correco d'uma data, a
explicao de um texto obscuro.

 sobre este trabalho  primeira vista inglorio que philosophos e
historiadores edificam as largas syntheses, cuja necessidade 
redundancia encarecer para a comprehenso da psychologia d'um povo.

Entre ns, modernamente, nada ou quasi nada se tem feito n'esse sentido.
Os nossos manuaes de litteratura repetem cegamente o que estava dito e
feito, antes da descoberta dos modernos processos de critica e
interpretao do passado.

Apenas o sr. Theophilo Braga com louvavel tenacidade se tem consagrado 
especialidade, nem sempre sendo feliz, no s pela sua tendencia a tudo
systhematisar, forando os factos para os encaixar nas suas concepes
aprioristicas, mas tambem pela vastido do assumpto que  impossivel ser
abrangido pelo trabalho de um homem s, principalmente quando no teve
quem lhe preparasse o terreno.

Estas consideraes accodem-nos a proposito do livro de Delfim
Guimares--BERNARDIM RIBEIRO--que representa incontestavelmente o
acontecimento mais importante em historia litteraria do nosso tempo.

O facto, que  j do dominio publico,  este: Christovo Falco, que
passava por auctor da ecloga Crisfal, uma das joias da nossa
litteratura, foi na realidade um mediocre fidalgo, incapaz de produzir
aquella obra prima. O auctor d'esta foi, effectivamente, Bernardim
Ribeiro, o meigo poeta das Saudades que serviu de modelo e estimulo a
Luiz de Cames.

O livro de Delfim Guimares, que  um modelo de investigao paciente e
de critica leal no deixa duvidas a tal respeito. Seria descabido aqui
repetir os argumentos que por ora ninguem desfez em que o auctor
fundamenta a sua sensacional descoberta.

Limitamo-nos simplesmente a consignar que se Delfim Guimares revelou
uma extraordinaria sagacidade estabelecendo a priori a identidade de
Bernardim Ribeiro e do auctor de Crisfal, a frma cheia de probidade
por que procurou a posteriori justificar a sua opinio honra no
smente as suas faculdades de investigador, mas tambem o seu caracter.

Quer nos parecer que, depois d'este precioso livro, a ninguem  licito
alimentar duvidas a tal respeito. E se se perde para o quadro dos nossos
poetas um nome, fica enriquecido e aureolado com gloria nova, mas que
lhe pertencia o doce e encantador namorado da Menina e Moa.

A Delfim Guimares os nossos parabens e, com elles, os nossos
agradecimentos.

        (Do _Jornal de Noticias_, do Porto, de 8 de fevereiro de 1909).





Divagaes

I


S agora,--ainda que me no creiam--, s agora acaba de morrer, neste
anno da graa de 1909, um dos grandes bucolicos da poca de ouro dos
escriptores quinhentistas!

Esse macrobio das letras, Mathusalem portuguez, de nome e de nao, era,
sem mais nem menos, Chistovam Falco de Sousa, que, embora quatro vezes
secular, me parece, indefinidamente vivo continuaria se no o tivessem
acaso assassinado...

Companheiro, amigo e confidente de Bernardim Ribeiro, houvera entre os
dois, segundo Theophilo Braga, a infeliz conformidade de uma sorte
infeliz; pois, ao passo que aquelle se desperdiava por amores, tambem
este por amores se perdia...

As celebradas Trovas de Chrisfal collocavam a figura de Maria Brando,
com a casta graciosidade de uma virgem de Cimabue, dentro de paisagens
que pareciam ter os traos do pincel de Giotto; e toda a tradio
popular, j assignalada pelo chronista Diogo do Couto, era unanime em
considerar esse nome de Chrisfal como formado das duas primeiras
syllabas do prenome e appellido de Christovam Falco. De outra parte, o
poema das Saudades, ou a Menina e moa, de Bernardim Ribeiro,
lembrava a desventurada paixo do poeta pelo typo feminil de Joanna
Tavares, que elle disfarava com o pseudonymo pastoril de Aonia.

To notavel se afigurava a individualidade literaria de Chrisfal que,
para a illustre romanista D. Carolina Michalis, elle teria sido o
creador do genero bucolico em Portugal, e Bernardim apenas o seu
immediato imitador; mas, tambem, a semelhana entre elles era tal que,
conforme a judiciosa observao do professor Simes Dias, as obras de
um podiam passar como feitas pelo outro.

E assim se devia entender e ensinar nas escolas, at que um novo
escriptor lusitano, o sr. Delfim Guimares, nos apparecesse com um
trabalho recente e valioso, onde a toda luz demonstra, com grande
escandalo dos mestres, que Christovam Falco , sem menos nem mais, o
mesmo Bernardim Ribeiro, que adoptara nas Trovas o chris (ma) fal (so)
de Chrisfal. E a Maria de taes versos tambem constituia, a seu turno,
mais um cryptonymo de amor...

Por certo que existiu Christovam Falco, e existiu naquelles mesmos
annos, mas o sr. Delfim Guimares prova que semelhante personagem era um
ignorantao de marca.

--Arranque-se-lhe, por conseguinte, e para sempre, o rutilante diadema
de poeta com que lhe cingiram a cabea romantica... Puramente emprestada
era a luz que o sobredourava na historia,--luz que lhe no provinha do
merito, seno antes da phantasia dos criticos.

Em todo o caso, e emquanto houver a memoria dos homens, viver o seu
renome, attribuido apenas  felicidade do nome...

Se elle, como escriptor, morreu, ha de ser, comtudo, evocado nas obras
de erudio, ao menos, qui, como testemunho de quanto podem os enganos
e a tardia justia dos homens.

O trabalho consciencioso do sr. Delfim Guimares honra a sua fina
argucia, e nos leva a confiar no indefectivel juizo da historia cuja
precaria relatividade  razo sobeja para nos empenharmos contra os
tortos iniquos de que nos faa ros a precipitao ou a desidia. A
averiguao do que pertence a cada um no transcende as raias da
judicatura terrestre; e, para os que esperam na vida futura, parece que,
perante o seu tribunal supremo, com jurisdico apenas sobre o bem e o
mal, no se levaro os problemas de preeminencia literaria, nem
scientifica...

 posteridade  que compete extremar as glorias de cada autor; sendo
que, muitas vezes, a injustia ou a ignorancia dos coevos, no impedem
que as gralhas sejam finalmente despojadas do atavio das pennas do
pavo.

Recordando o padre Manuel Bernardes o costume romano de ser punido, com
o venablo e a nota de infamia, o legionario fanfarro que enchia a boca
de mentirosas faanhas, accrescenta que, se houvera de andar semelhante
correio pelos ostentadores de engenho, muitos funccionarios exigiria a
devida e cabal applicao da pena, que, na velha organisao militar,
era privativa dos tribunos. Verifica-se, porm, que, com o correr dos
tempos, nunca faltam tribunos da milicia literaria, para o castigo dos
soldados, que blasonam falsas valentias, ou para que se desmascarem os
miseraveis impostores da sciencia. Se at os reis, desde Homero, e, como
dizia Cames,


    Do os premios, de Ajace merecdos,
     lingua v de Ulysses fraudulenta


vm mais tarde os divinos aedos, que, no tribunal dos psteros,
pleiteiam e ganham a causa dos que foram injustamente aggravados.

No permitte, afinal, o criterio dos competentes, que um simples
erudito, como Ptolomeu, usurpe, inappellavelmente, a fama devida ao
saber mathematico de Hipparcho.

Este no  precisamente o caso de Christovam Falco de Sousa, que no
pde responder pelo erro dos que lhe enfiaram na modesta fronte uma
cora gloriosa de poeta. Elle, se vivo fra, repugnaria acceitar o que a
outrem pertencia de direito; pois, se os elogios que no merecemos, nos
deprimem, em vez de exaltar-nos, o protesto da nossa consciencia no
deve tardar quando aquillo que nos do representa o resultado de uma
espoliao alheia.

Reproduzindo a carta que ainda se encontra na Torre do Tombo, o sr.
Delfim Guimares apurou, e deixou de manifesto, que o suposto trovador
tinha apenas a instruco rudimentar dos moos fidalgos do seu tempo.

Se idiotas, na accepo archaica de--sem letras, eram, como sabemos,
os bares da edade media, que at disso mesmo se ufanavam, a ponto
de--o condestavel Duguesclin nunca ter querido sujeitar-se 
doutrinao de um mestre, nem ainda na aurora da Renascena pareceu
melhor a cultura de certos homens, apesar de illustres.

Francisco Pizarro, logar-tenente de Sua Alteza, cavalleiro da ordem de
Santiago e conquistador do Per, ouviu ler, deante do Grande Concelho
dos nobres de Hespanha, a minuta do decreto que o fazia senhor de todas
terras descobertas e por descobrir;--e, como, na expresso de Heredia,
no pudesse assignar o protocollo,


    Fit sa croix, dclarant ne savoir pas crire,
    Mais d'un ton si autain que nul ne put en rire.


 vista de tal exemplo, no ha extranhar, no gentil-homem Christavam
Falco, nem as faltas de grammatica, nem as de orthographia, patentes em
sua carta a el-rei, conforme o documento que ainda se conserva na Torre
do Tombo... Mas essas faltas e a rudeza geral do estilo so bastantes
para que no mais o tenhamos na conta de um emulo do suave e
melancholico Bernardim Ribeiro, autor incontestavel das Trovas de
Chrisfal, depois de tantos argumentos sagazmente colhidos de uma
profunda analyse psychologica e linguistica.

Um dos mais fortes indicios (alis no aproveitado pelo sr. Delfim
Guimares) consiste na estrophe 77, das Trovas, com o comeo, em
prosa, do poema das Saudades:


    Por ti me vi desterrada
    em estas estranhas terras
    de donde eu fui criada,
    e, por ti, antre estas serras,
    em vida, so sepullada:
    onde, a se me perderem
    a frol dos annos se vo;
    ora julga se  rezo
    das minhas lagrimas serem
    menos daquestas que so!


Ha aqui uma clara alluso ao mesmo facto referido no trecho:


Menina e moa me levaram de casa de meu pae para longes terras; qual
fosse ento a causa daquella minha levada, era pequena, no na soube.


O sr. Delfim Guimares deixa agora envolta em trevas a personalidade de
Christovam Falco; mas o raio de luz que deste se afasta, s serve de
augmentar a gloria de Bernardim Bibeiro, cujo peregrino talento at hoje
scintillava repartido pela aurola de dois nomes de poeta...


                                              Silvio de Almeida.

(Do jornal _O Estado de S. Paulo_, de S. Paulo, Brasil, de 29 de maro
de 1909).




Divagaes

II


Que extranha e mal debuxada figura no era a desse Christovam Falco, a
quem, de principio, a gente ignara, depois editores sem critica, e, por
fim, os mesmos autorisados mestres, attribuiram a paternidade das
Trovas de Crisfal, sem outro algum motivo que s este, alis, deveras
pueril: conjugarem-se na palavra Crisfal as duas primeiras syllabas de
Christovam e de Falco!

Unicamente, pois, a sorte de seu nome lhe grangera o dilatado
renome de quatro seculos, cheios de uma admirao que tanto (segundo o
costume) tinha de enthusiastica, quanto mais era infundada e gratuita.

Aos phantasistas nada, certo, importava que jamais fosse o ideal
trovador, nem uma vez, referido no volumoso in-folio do Cancioneiro de
Rezende, em cujo indice se catalgam at as mediocridades pulhas
daquelle tempo. Nem cuidaram tampouco que a sua unica pretendida obra
lyrica (no sem causa deparada entre os papis, que foram, de Bernardim
Ribeiro)--versava o mesmo assumpto predilecto deste ultimo, reflectia o
mesmo gosto da paisagem, era fundida nos moldes do mesmo estilo, vinha
molhada pelas lagrimas da mesma dorida commoo!

A todos que tenham olhos de ver, demonstra agora o sr. Delfim Guimares,
com miudezas de analyse, que certos passos das Trovas, ou reproduzem
heptasyllabos das pastoraes ribeirescas, ou correspondem a phrases
similares do romancete das Saudades.

Deixando, porm, de lado dezenas de significativas coincidencias
esparsas, como entre o verso da egloga 4.^a:


    Coitado, no sei que diga,


e o da estrophe 21 de Crisfal:


    Mas, triste, no sei que digo;


eu apenas aqui darei o que no expoz o novl escriptor portuguez, ou
aquillo que elle s levemente adduziu.

J na carta prefacial das Trovas, cujo tom dagua chorosa nos suggere o
memento do Cancioneiro, os versos:


    Cuidai quanto nos quisemos,
    e no vos possa mudar
    dizer que vos podem dar
    outrem que tenha mais que eu,


perfeitamente combinam com a 1.^a egloga:


    Veio ahi outro pastor ter:
    com o que prometteu ou deu
    se deixou delle vencer,


e com a Menina e moa:

--...succedeu, no castello, um filho de um cavalleiro muito valdo e
rico nesta terra, que por meio de vizinhos desejou Aonia por mulher;

--...bem lhe pareceu que se no descontentaria Aonia do esposo, porque
era bem aposto cavalleiro e dos bens do mundo abastado.

Note-se, mais, que a locuo--dos bens do mundo abastado, tambem
inserta na 2.^a bucolica, reapparece na 5.^a estrophe de Crisfal, cujo
introito (conforme com as eglogas 1.^a, 2.^a e 5.^a) faz das selvas
junto do mar o delicioso theatro dos amores dos dois zagaes.

A descripo desse local (de Sintra e de seu Val de Lobos), apenas
esboada no comeo das Trovas, melhor se delineia da estrophe 55 em
deante:


    Vo alli grandes montanhas
    de alguns valles abertas,
    todas de soutos cubertas,
    aos naturaes extranhas,
    mas  saudade certas.
    .......................
    Cuberta era a fonte
    de tam fresco arvoredo,
    que no sei como o conte,
    muito quieto e mui quedo,
    por ser antre monte e monte.
    .............................
    Ao p de um castanheiro
    me pus, triste, assentado,
    ouvindo o tom de um ribeiro.
    Meus olhos e eu passmos
    alli a noite em amores.
    .............................
    Naqueste tempo corrompe
    a ave que chamam leal
    o silencio do seu mal,
    que  quando a alva rompe
    e ao dia faz signal.


Depois disso, abram o livro da Menina e moa, e faam-me o favor de
ler:

Neste monte mais alto de todos (que eu vim buscar pela suavidade de
outros que nelle achei) passava eu a minha vida como podia; ora em me ir
pelos fundos valles que os cingem dearredor, ora em me pr do mais
alto delles olhar a terra como ia acabar ao mar; e depois o mar como se
estendia logo aps ella, pera acabar onde ninguem o visse.

--E ainda bem no foi alto dia, quando eu (parece que acinte)
determinei ir-me pera o p deste monte, que d'arvoredos grandes e
verdes ervas e deleitosas sombras  cheio, por onde corre um pequeno
ribeiro de agua de todo o anno, que nas noites caladas, o rogido delle
faz no mais alto deste monte um saudoso tom, que muitas vezes me tolhe
o sono.

--No tardou muito que, estando eu assim cuidando, sobre um verde ramo
que por cima da agua se estendia, veio pousar um rouxinol.

Para completar a symetria e a belleza idyllica da pintura, nem faltou a
esse quadro o vultinho animado da mesma ave leal de que nos. falavam
as Trovas.

Quanto ao par apaixonado, a referencia da 2.^a estrophe de Crisfal:


    Sendo de pouca edade,
    no se ver tanto sentiam
    que o dia que se no viam,
    se via na saudade
    o que se ambos queriam.


ligada  da 77:


    a frol dos annos se vo,


e  da 84:


      Quando vos dei a vontade,
    inda vs ereis menina,
    e eu de pouca edade,


em nada discrepa da do capitulo 18 das Saudades de Bernardim:


--...a senhora Aonia, que ainda ento era donzella d'antre treze ou
quatorze annos...;

--...a barba um pouco espessa e um pouco crescida, que a elle traz,
parece que  aquella a primeira ainda...


Em relao ao poeta, a 2.^a egloga positivamente declara que contava os
seus vinte e um de edade quando se fez servidor de Aonia.

Mas dos parentes desta a interesseira m vontade, que Crisfal
vehemente assignala, assentou de lhe curar o corao doente de mulher
pelo processo sedativo de um apartamento para longes terras (expresso
egual da estrophe 7.^a e do 1.^o capitulo da Menina e Moa).

Ainda na 2.^a egloga, Bernardim, que com os italianos aprendera o
reavidado uso das allegorias de Vergilio, se manifesta como um pastor
nascido antre Tejo e Odiana; e muito  para notar que nas Trovas
tambem exista o mesmo verso (6.^o da 30.^a estrophe).

Attingido o pegureiro (na 2.^a bucolica) do encantamento de amor,


    logo ento comeou
    seu gado a emagrecer:
    nunca mais delle curou.


E Crisfal, outrosim (como rza a 5.^a estrophe),


    ...por curar da paixo,
    no curava do seu gado.


O mesmo pensamento se exprimiu, pois, aqui, smente com tal ou qual
superioridade artistica, que no  a injusta superioridade de Christovam
Falco sobre Bernardim Ribeiro, seno antes a deste sobre si proprio, no
progressivo burilamento da frma impeccavel.--Mas o artista, como que
apostado em exceder-se cada vez mais, s achou a sua melhor expresso
esthetica quando depois insistiu, na estrophe 22:


    descuido matou meu gado,
    cuidado matou a mim.


A antithese (que tira de duas idas oppostas a scintillao do choque de
duas pedras) constitue quasi sempre o ultimo resultado de uma longa
elaborao mental.

Ha, na melancholia das Saudades, um topico onde o seu autor diz que,
j de affeito s dores, parecia viver nellas. E tal conceito assume, na
10.^a estrophe das Trovas, uma formulao mais abstracta e geral:


    O longo uso dos danos
    se converte em natureza.


A hypothese de Crisfal ser Christovam Falco exigiria, portanto, que
delle fosse, tambem, um simples reflector o nosso, alis original,
Bernardim Ribeiro; ou isso, ou, ento, plagiario o outro...

Gemeos intellectuaes, e ainda irmos no infortunio de seus affectos,
nunca se houvera visto, sequer em dois relogios, uma to completa
concordancia!

Mas, dentre o suffocante accumulo de provas contrarias, uma, sobretudo,
victoriosamente resalta da egloga Alejo de S de Miranda, o
philosopho amigo e confidente do ternissimo Bernardim Ribeiro.

Alli diz o Miranda, disfarado sob o cryptonymo de Antonio:


    Vine por Ribero ver,
    como otras vezes solia.


Pois bem: Esse mesmo Antonio apparece na estrophe 32 de Crisfal, que
delle assevera:


    Aqueste  o pastor
    que aqui vo buscar-me.


De semelhante parallelismo no ha concluir seno que Ribero e
Crisfal representam um s e mesmo pastor, o que vale dizer poeta,
na linguagem allegorica do bucolismo.

Demais:

Os versos que se acham em Alejo:


    Io sonava que me via
    entre unas cerradas breas;
    de una parte i de otra peas,
    do nunca el sol descobria,


traduzem no castelhano os da estrophe 7.^a das Trovas:


esconderam-me antre serras,
onde o sol nunca era visto,


Ora, se (a paginas 188 de sua obra refundida sobre S de Miranda)
reconhece Theophilo Braga, como todos, em Alejo, uma segunda figura de
Bernardim, dever reconhecer ainda que Crisfal, sendo Alejo, 
Bernardim tambem.


A gloria do sr. Delfim Guimares foi de haver apanhado a verdade, que
to fra andava da corrente unanime do parecer dos mestres.

Mas, j das muitas adheses que elle conquistou, licito me seja destacar
o voto preponderante da senhora dona Carolina Michalis de
Vasconcellos,[12] como primeira autoridade--que ella o --da moderna
philologia portugueza.

Tambem, no Brasil, Sylvio Romero entende que esto reivindicados, de uma
vez, os direitos de Bernardim Ribeiro a essa bella parte da sua obra
que a lenda lhe andava a tirar estupidamente...


                                                Silvio de Almeida.

(Do jornal _O Estado de S. Paulo_, de S. Paulo, Brasil de 5 de Abril de
1909).




Indice


Thephilo Braga e a lenda do Crisfal



I. Razo de ser d'este livro      5

II. O snr. dr. Thephilo Braga descobrindo a verdade, e procurando
enterr-la     29

III. Anotaes  carta que nos dirigiu o snr. dr. Thephilo Braga     37

IV. A comunicao do presidente da Academia das Sciencias de Portugal 59

V. O artigo Movimento litterrio      63

VI. Uma patranha genealgica      97

VII. O criptnimo Fileno      99

VIII. In terminis      103


       *       *       *       *       *

Apreciaes da imprensa ao livro:


Bernardim Ribeiro (O Poeta Crisfal)


Do jornal _O Mundo_, de Lisboa      107

        _O Seculo_,            109

        _Diario de Noticias_, de Lisboa,--artigo do snr. dr. Candido de
Figueiredo     111

        _Diario Illustrado_, de Lisboa,--artigos
do snr. Hemetrio Arantes      113 e 125

        _A Mala da Europa_, de Lisboa      121

        _A Lucta_, de Lisboa,--artigo do snr. Albino Forjaz de Sampayo 133

        _O Dia_, de Lisboa      139

        _O Commercio de Lima_, de Ponte do Lima--artigo do snr. dr.
Antonio Ferreira      143

     _Jornal das Colonias_, de Lisboa,--artigo de A. B. 147

     jornal _O Primeiro de Janeiro_, do Porto      149

     _Jornal de Noticias_, do Porto      151

     jornal _O Estado de S. Paulo_, de S. Paulo, Brasil,--artigos do snr.
Slvio de Almeida 155





*Notas:*

[1] O _normando_  nosso.

[2] Este _ponto de admirao_ pertence exclusivamente ao snr. dr.
Thephilo Braga.

[3] T. Braga.--_Obras de Christovam Falco_, Porto, 1871--pag. 4.

[4] _Bernardim Ribeiro (O Poeta Crisfal)_, pag. 180.

[5] Torre do Tombo--Gaveta 20--mao 5--n.^o 10.

[6] Bernardim Ribeiro e o Bucolismo, pag. 63-64.

[7] _Bernardim Ribeiro e o Bucolismo_, pag. 19.

[8] _Bernardim Ribeiro e o Bucolismo_, pag. 19.

[9] Carta do snr. Jordo de Freitas no jornal O Dia em 2 de janeiro de
1909.

[10] Conferencia de 8 de Junho de 1725 pelo Conde da Ericeira, na
Colleam dos documentos e memorias da Academia Real da Historia
Portugueza.

[11] Alis, as glosas ao solau.

                                                   _Nota de D. G._

[12] Reproduzindo integralmente o artigo do nosso ilustre confrade
brasileiro, cabe-nos o dever de declarar que a insigne romanista,
senhora D. Carolina Michalis, que ns saibamos, ainda no manifestou a
sua opinio.

                                                   _Nota de D. G._




Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+---------------------+----------------------+
  |          |      Original       |      Correco       |
  +----------+---------------------+----------------------+
  |#pg.   12| auxilados           | auxiliados           |
  |#pg.   28| impondo-a           | impondo-o*           |
  |#pg.   29| Pedron              | Padron*              |
  |#pg.   32| paternalmente       | paternalmente,*      |
  |#pg.   38| primeiro            | segundo*             |
  |#pg.   85| com o               | como                 |
  |#pg.   90| empenhada           | empenhado            |
  |#pg.   94| com todas           | como todas*          |
  |#pg.   95| Falo              | Falco*              |
  |#pg.  102| portuguess         | portuguses          |
  |#pg.  107| Chistovo           | Christovo           |
  +----------+---------------------+----------------------+


* correces feitas com base na errata do prprio livro.

As figuras da pgina 34 e da pgina 49 esto ilegveis, motivo pelo qual
no foram adicionadas. Fica no entanto a sua indicao.





End of the Project Gutenberg EBook of Theophilo braga e a lenda do crisfal, by 
Delfim Guimares

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To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
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Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
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501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
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Literary Archive Foundation

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any statements concerning tax treatment of donations received from
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ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


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works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
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