The Project Gutenberg EBook of Transviado, by Jaime de Magalhes Lima

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Title: Transviado

Author: Jaime de Magalhes Lima

Release Date: July 1, 2008 [EBook #25945]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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ROMANCES ILLUSTRADOS

JAYME DE MAGALHES LIMA

TRANSVIADO

ROMANCE ILLUSTRADO

COM MAGNIFICAS GRAVURAS

LISBOA

EMPREZA EDITORA T. da Queimada, 35




TRANSVIADO


JAYME DE MAGALHES LIMA

TRANSVIADO

Romance illustrado com magnificas gravuras

LISBOA

EMPREZA EDITORA

35--Travessa da Queimada--35

1899


EMPREZA EDITORA

A

LUIZ DE MAGALHES

Dedico-te este livro que  simultaneamente uma recordao e uma promessa
da nossa amizade. Nasceu da vida commum do nosso espirito, da
experiencia na aspera e triste jornada pela terra que temos feito juntos
e em que caminharemos unidos at que o destino lhe ponha termo.




I


Nos campos do Mondego, abaixo de Coimbra, a primavera  frequentemente
agreste e fria. Quando o vento do mar sopra rijo sobre os brancos
lenoes de malmequeres a surgir da terra humida e paludosa, ainda farta
das aguas do inverno, as tardes so inclementes para o corpo vido do
repouso e doura da natureza.

Este rapaz que alm se apeou d'uma carruagem, em frente da estao de S.
Braz, na estrada que vem dos lados de Albergaria, atravessou a linha
conchegando o gabo que o vento desconcerta, e, mal entrado na gare, em
que s destaca uma carreta abandonada com poucos fardos, procura onde se
abrigue. Estamos todavia n'uma tarde d'abril.

O rapaz seguiu vagarosamente, ao longo da gare; na porta em que leu
sala d'espera abriu e entrou. A um canto, sobre o duro banco de
madeira, dormitava um homem gordo, de lunetas, mos nos bolsos e chapu
derrubado para os olhos; ao lado uma mulher esbelta e franzina, um olhar
brilhante sob o vo que lhe cobria o rosto. O homem levantou-se
levemente turbado, com modos submissos, e pareceu hesitar.

--Eu agora... contra a luz..., no distinguia bem. Perdoe v. ex.!
disse dirigindo-se ao recem-chegado.

--Eu tambem, como vinha de fra e a sala estava um pouco escura, no o
conheci  primeira vista. Foi necessario reparar um pouco...

--Ento como tem passado v. ex. depois da sua jornada ao
estrangeiro?... Ser melhor sentar-nos, acrescentou apressadamente o
homem das lunetas sem esperar resposta... V. ex. tem aqui logar...
dizia affastando um cesto de morangos d'um sof que parecia mais
commodo.

--Muito obrigado, muito obrigado... No se incommode... Em qualquer
sitio...

E o rapaz ia a sentar-se quando o outro, abruptamente, o obriga a
aprumar-se apontando-lhe a mulher.

--Minha mulher... o sr Claudio de Souza Portugal, um cavalheiro muito
illustrado e do meu maior respeito!

Trocaram-se as palavras sacramentaes e todos se sentaram.

--Que extravagante modo de vr! comeou Claudio. Nas cidades, onde no
faltam recursos, a _Companhia_ d-nos uma sala de espera com certo
conforto, e aqui, n'este deserto, no meio d'um charco, reduz todas as
commodidades dos pobres passageiros a um banco mal pintado e frequentado
sabe Deus por quem. Na Suissa chega a haver, nas estaes que esto nas
circumstancias d'esta, uns pequenos quartos em que se pernoita com
agasalho e aceio. Aqui, que barbarie!... Havemos de ser sempre assim; um
paiz de toiros ha-de ser forosamente um paiz de campinos. Tambem tem a
sua belleza,  verdade; mas, quando se tem frio, uma manta do Ribatejo e
duas taboas de pinho, confessemos, so pouco.

E fitava a mulher, nervoso, contente com esta appario inesperada,
captivo da sua graa.

Ella respondia:--E v. ex. bem o deve estranhar. Segundo tenho ouvido,
fez ha pouco uma linda viagem pelo estrangeiro. Provavelmente, agora
mesmo, vae aproveitar a primavera em melhores terras.

--No, venho aqui apenas para vr um meu amigo que passa para Lisboa e
volto j a Albergaria. No  sacrificio, para mim, viver ali. Em Paris,
em Vienna d'Austria, por toda essa Italia que  a melhor galeria do
mundo, no meio de riquezas artisticas sem numero, nunca houve prazeres
sufficientes para me apagarem as saudades do meu paiz. Pelo contrario,
tinha horas d'uma tristeza prolongada. Creio at que mais d'uma vez ca
na fraqueza de chorar. Porque, no sei bem; no eram saudades com um
objecto determinado, era uma dr vaga mas penetrante.

Ella, sorrindo, replicou:--Bem diz o ditado que d Deus nozes a quem no
tem dentes. S eu aborreo cordealmente a vida de provincia e estou
condemnada a soffrel-a. J no queria Paris nem Vienna, com Lisboa me
contentava. Nem isso!... No posso comprehender o mundo sem muita gente.
A Avenida e S. Carlos e o Campo Grande e as praas e as ruas, tudo isso
 para mim encantador, e infinitamente melhor que o p e os tamancos da
villa de Albergaria. Eu sei que  de mu gosto no elogiar as bellezas
do campo, mas fui educada em Lisboa e hei-de ser lisboeta at ao fim da
vida. No... Parece-me sentir se o comboio. At j, que ns tambem no
saimos, concluiu ella, erguendo-se, com visivel interesse em continuar a
palestra.

O comboio entrava na gare e separaram-se, dirigindo se cada um s
carruagens em que descobriam as pessoas que procuravam. Depois,
rapidamente, bateu o signal da partida, a confuso de pregoeiros de
jornaes e de passageiros que corriam do restaurante dissipou-se, e,
novamente, na gare ficaram ss Claudio, os seus interlocutores, e poucos
empregados que arrastadamente recolhiam da sua tarefa a dormitar pelos
armazens, entre as bagagens.

Claudio approximou-se do par que momentos antes tinha deixado e
offereceu-lhe logar na sua carruagem para regressarem juntos a
Albergaria.

--No, muito obrigado, vamos incommodal-o. Temos ali um carrito em que
vimos.

Instou; que a tarde estava horrorosa, que iriam talvez um pouco mais
agasalhados, que lhe davam o maior prazer com a sua companhia.

--A Emilia dir, respondeu o homem de lunetas voltando-se para a mulher.

--Ah! por mim, acudiu ella muito alegremente, acceito e agradeo; no
sei desprezar to boa fortuna. Desculpe-me v. ex. a franqueza...
Conheo o apenas ha uma hora e vou dispondo j das suas cousas com uma
familiaridade que pde induzil-o em mau juizo...

--Oh! pelo amor de Deus, minha senhora, no diga mais, que
blasphemias!... Muito prazer, fico muito reconhecido a v. ex.as.

Encaminharam-se, atravez da linha, para a carruagem, que era um vasto
_landau_ tirado por dois possantes cavallos, e Claudio sentou-se em
frente de Emilia e do marido.

Apenas sairam da estao, a conversa reatou-se no tom de banal animao
em que a vimos comeada. Claudio ia inquieto, um pouco embriagado pela
belleza da mulher que tinha deante de si.

Examinava-a  claridade d'este poente coado pela leve neblina do norte;
ha pouco, na escurido da sala, mal a tinha visto, s agora podia julgar
inteiramente da estranha seduco que logo ao primeiro encontro o
impressionra. Emilia era uma mulher de feies quasi vulgares, magra,
testa alta, rosto oval com as faces ligeiramente angulosas, a bocca
grande, os labios delgados, o nariz secco e pronunciado; mas uma
mobilidade d'olhar, de gestos e de sorrisos, desprendidos entre um
collar de dentes sem mancha, que enfeitiava. Com excepo dos olhos que
eram soberbos de doura e languidez, nem uma s feio que merecesse a
arte atteniense; ainda assim, um poder d'attraco enebriante.

Com esta superior espiritualidade contrastava a grosseria do marido,
trigueiro, quasi calvo, o olhar embaciado, taciturno, todos os signaes
de vida interior apagados. Era escrivo de fazenda, chamava-se Ricardo
Dias d'Almeida, e na villa conheciam-n'o pelo _Canadas_, porque a sua
medida habitual, nas noites d'alegria, era uma canada de vinho.

A carruagem seguia vagarosamente, pesadamente, a estrada desabrigada que
ia ladeando os campos despovoados; o crepusculo approximava-se e a
conversao corria sempre viva, sem repouso. Eram Claudio e Emilia que
ss a alimentavam, ella no cessando de interrogal-o sobre as suas
jornadas, elle descrevendo e contando, ora relembrando as maravilhas de
luxo e de arte que tinha visto, ora referindo incidentes alegres da vida
nomada. Quando jornadeava mais assiduamente, as paixes no tinham fim,
uma cada dia, quasi invariavelmente. No lago de Como o amor fra grande
por uma sueca de cabellos dourados e bocca pequenina, que passara uma
tarde com elle na villa Carlota, onde ha plantas exoticas e esculpturas
de Canova; mas nenhum como o que tivera por uma ingleza com quem viajara
seis horas no Rheno, de Mayance a Colonia. Eram incendios romanticos,
labaredas ephemeras a que a sua imaginao por momentos se entregava
caprichosamente. O que no pensou quando viu essa rapariga ingleza?!
Sonhava-a filha d'um lord que por ali, algures, nas margens do rio,
devia ter um castello para descansar no estio. Via-a nas torres,
roupagens brancas, tranas ao vento e havia de raptal-a por uma noite de
luar montado n'um soberbo cavallo arabe, veloz e nobre. Ao amanhecer
andaria tudo em correrias doidas pelo castello, o pae espumando
vinganas, os creados atonitos, chorando; e j longe, em mysteriosos
campos desconhecidos, o cavallo jazendo extenuado e elle moribundo de
fadiga e amor a deixar-lhe nos labios o ultimo alento. Depois, ao cair
da noite, os pastores que o sepultavam na montanha e os soluos da sua
amada sobre o corpo hirto e frio, e tarde, em tempos distantes, a scena
ultima, o perdo do pae e a solido no convento.

Emilia ouvia attenta esta indiscreta revelao d'uma alma. Com breves
perguntas provocava ou novas confisses ou narrativas em que o espirito
femenil se deleita. E Paris? Devia ser deslumbrante de luxo e de
prazeres. E o _Bois_ e a Opera e os Campos-Elysios e as corridas em
Longchamps? Vinham ento as descripes de soberbas equipagens e de
magnificos espectaculos. E diziam que agora era uma sombra do passado!
Um fidalgo francez, com quem Claudio se relacionara, levou-o uma noite,
depois da opera, ao Tortoni, quasi deserto, s para lhe mostrar logares
que elle reputava celebres. Aqui se sentara o duque de X..., aqui o
marquez de Z... Na rua a fila das carruagens no tinha fim. Ento, sim,
ento havia luxo em Paris, dizia o fidalgo. Tambem passara quinze dias
em Londres, na _season_, admirara muito a solidez do luxo britannico e,
estava mesmo em dizer, o seu bom gosto, uma sobriedade de linhas e de
decorao que tocava o atticismo.

--Mas tudo isso, concluia Claudio, no vale aquelle cantinho, e apontou
para fra da carruagem, atravez dos vidros.

Era quasi noite e estavam em frente das azenhas dos Casaes. Entre os
troncos de choupos, as aguas espumantes sarjando a terra e as
madresilvas debruadas nos vallados, entre os vultos mal distinctos que
a obscuridade confundia e deformava, a porta do moinho lanava um claro
e ao fundo via-se, em volta da lareira, o moleiro, a mulher e os filhos,
abrigados do vento frio que corria no valle, sobre a ribeira.

--Que mau gosto! Perdoe-me a franqueza, respondeu Emilia.  impossivel
que o sinta, est a brincar. Ou ento, como j me percebeu a fraqueza,
quer-me ouvir.

--No, replicou Claudio,  a verdade. Se vivesse um pouco commigo, havia
de convencel-a. Estou certo de que mudaria de sentimentos.

Fez-se um breve silencio; e houve entre os dois como uma commum
necessidade de recolhimento intimo. Elle pensava com mgoa quanto a
concepo vulgar da belleza estava longe do seu ideal, ella ficra
indecisa perante uma affirmao to cathegorica, porventura
instinctivamente subjugada pelo poder de insinuao de Claudio.

--Nem v. ex. imagina o que isto , disse Ricardo julgando de boa
educao no deixar cair a conversa. Tudo uma miseria! O que eu no sei
 como esta gente vive. S no anno passado houve mais de cento e
cincoenta contribuies relaxadas. Isto na predial, porque na
industrial, com a lei nova, ninguem paga.

-- verdade, , so pobrissimos, respondeu pacientemente Claudio, mas a
pobreza tambem tem as suas alegrias e at a sua belleza.

Nova pausa, novo silencio, o silencio proprio do contacto de duas almas
que se sentem em desharmonia e que ao mesmo tempo se veem attrahidas por
mutua fascinao. O certo  que a conversa perdeu todo o movimento e,
entre desconnexas interrogaes, variando sempre de assumpto, assim
chegaram a casa do escrivo de fazenda.

--E ento at amanh, por certo no falta em casa do dr. Carvalho. Tem
grande festa, disse Emilia.

--Que remedio! So os annos d'elle e eu sou-lhe to obrigado...

E no dia seguinte, emquanto Claudio se sentava a uma mesa do whist,
ouvia entre duas solteironas o seguinte dialogo:

--J reparaste como a Emilia est hoje elegante?

-- verdade, j vi. Est bonita. E  singular! Ella que costuma cuidar
to pouco de si...

S Claudio podia suspeitar o segredo d'aquella transformao. Via a com
uma vaga, quasi inconsciente impresso de triumpho e de vaidade
satisfeita. Nem sequer sonhava quantas batalhas lhe reservava esta
primeira gloria, to tentadora como traioeira na facilidade com que se
deixava conquistar.




II


A estrada que partindo de Albergaria para o nascente se interna nas
serras, segue paralellamente  ribeira que vem de Alcofa, ao lado de
campos ferteis, copiosamente banhados pelas aguas da rega. O valle vae
apertando e, passado um estreito em que os montes lateraes quasi se
tocam, deixando apenas uma apertada passagem para o rio, a estrada
bifurca-se; um dos ramos segue para a esquerda entre montes desertos,
calcinados, de longe em longe marcados por oliveiras solitarias, com a
vegetao rachitica dos terrenos calcareos que se esboroam em p fino e
branco. A breve distancia, a encosta comea a ser aspera, de todos os
lados apparecem miserrimos campos fechados por muros de pedra solta;
acima, n'uma quebrada, avistam-se os telhados da aldeia entre bastas
ameixieiras e o olivedo j mais vioso do que o deixamos em baixo. No
latido dos ces e no cantar do gallo sentem-se uns prenuncios de vida,
signaes de habitao humana com os seus guardas, as suas provises e os
seus pomares.

Essa aldeia  Villalva, um monto de casebres cortados de caminhos
cheios de matto, de tojo, de urze e de carrasco, degrus informes dando
accesso a casitas negras de fumo, cortelhos de magros porcos fossando na
estrumeira.  entrada, uma casa caiada, com tres pequenas janellas, uma
escada ao lado, acompanhando a encosta, por detraz os curraes formando
pateo; e por baixo, pelas frestas vedadas com um varo de ferro,
espreitam palhas soltas e os cestos da vindima, advinha se o celleiro, a
adega e o palheiro. Fra ali, n'aquella aldeia e n'aquella casa, que
nascera Claudio.

Os paes eram lavradores, tinham bons campos na varza, um vasto pinhal
no Bunheiro, e bastas courellas dessiminadas nos montes onde colhiam o
centeio, o vinho e o azeite. Os filhos foram poucos; dois morreram
novos, n'uma epidemia de variola, uma filha, a mais velha, casara cedo
com um lavrador da Alumieira, a poucos kilometros d'ali, e Claudio
ficra s em casa, desde os sete annos.

Um tio que se ordenra e era abbade n'uma freguezia do Minho queria que
elle fosse padre; escrevia ao irmo lembrando-lhe que era tempo de
mandar o rapaz  escola, se queriam fazer d'elle alguma cousa, que pela
sua parte estava prompto a ajudal-o, como elle bem o sabia, e que emfim
no tinha outros parentes e o pouco que possuia havia de deixal-o aos
seus. Precisava mesmo de tratar das suas ultimas disposies; j no
inverno passado a gotta o tinha tido preso em casa mais de dois mezes e
sentia-se muito fraco.

O pae hesitava. Era um homem austero que tinha feito da vida uma tarefa
de trabalho. A p desde o romper do dia, ao lado do unico creado que
tinha, vigiando tudo, adeante do gado pelos ingremes atalhos da serra,
nas veigas, em noites de estio, com agua at ao artelho, guiando as
regas pelos milharaes, curvado, ceifando, sob o sol ardente, o seu corpo
no tinha repouso. Pouco fallava; a mulher e os filhos respeitavam-n'o
mas temiam-n'o, conheciam as suas duras reprimendas, se o creado tardou
a fazer a cama ao gado, se a enxada ficou no campo e o milho mal coberto
na eira.

Era para aquillo que ensinava o filho; muitos louvores dra a Deus
quando elle nasceu por ter quem o ajudasse e continuasse o amanho do seu
casal. Para que fazel-o padre? Tinha ali com que viver. Mas o Veiga, que
fra recebedor l na terra em que estava o irmo e que o tratava como
cliente abastado, tinha-lhe dito, quando elle foi pagar a decima, que o
irmo estava muito rico. Era um unhas de fome, no gastava um real,
sempre de tamancos, com meias de l no inverno, e de vero nem meias
trazia. Tudo para poupar!

E j outros lhe tinham dito a mesma cousa. Ao certo nada sabia, que o
padre nunca lhe dissra quanto tinha; receiava que lhe pedissem alguma
cousa. S quando foi pelo casamento da sobrinha lhe mandou uma pea em
ouro.

Seria tudo isso verdade? Tambem no queria privar o rapaz d'uma fortuna.
Toda a vida tinha trabalhado para os filhos; se agora podia deixal-os
ricos, era sua obrigao fazer deligencias para isso.

Entretanto Claudio frequentava a escola e, graas s hesitaes do pae
sobre o seu destino, no lhe davam na lavoura servio pesado; cuidava
dos bois, se o creado trabalhava longe de casa, levava o jantar aos
trabalhadores, se os havia de fra, andava  tarde na apanha da
azeitona. Era uma creana nutrida e forte, pacifica, as faces rosadas,
cabellos e olhos castanhos, uma certa mansido no olhar; parecia-se
muito com a me que fra sempre um modelo de paciencia. Aprendia mal,
continuamente distraido, e associava-se pouco aos companheiros da
escola; ao peo na barra, nas brigas e nas corridas ficava sempre
vencido. O seu maior prazer estava n'um cantinho do quintal onde
plantava flores que a me lhe pedia para pr n'um vaso, no oratorio, aos
ps d'um crucifixo. Vagueava pelo pateo, ora examinando os bois, ora
afagando o co, ora debruado no muro a vr as gallinhas que na rua
apascentavam as ninhadas. O pae tinha-o em pouca conta.

--Nunca ha-de ser nada com aquella preguia; comer, dormir e passeiar. O
que elle quer  andar de mos nos bolsos. Est mesmo bom para abbade.

--Ora deixa l, respondia a me, Deus sabe o que elle ser.

Essa sim, essa tivra sempre grande inclinao para o filho, e muito
mais agora que a rapariga se tinha casado e ficra s com elle.
Ensinava-o a rezar, toda a doutrina christ, e repetia-lhe muito os
mandamentos da lei de Deus e as bemaventuranas.

Bemaventurados os pobres d'espirito, e os que so mansos, e os que
choram, e os misericordiosos, e os pacificos;  para elles o reino dos
cos. Pintava-lhe as penas do inferno para os mus e a presena de Deus,
na companhia dos anjos, para os bons. A creana no se cansava de
interrogar. Como seria? Pelo seu espirito passavam sombras de terror
quando o julgavam e lhe diziam:

--Isso  peccado.

Temia o inferno. Penas eternas! em l caindo, era para sempre.

Os mendigos vinham  porta da cosinha, andrajosos, esfarrapados,
calcando o matto ffo e humido com o bordo a que tremulos se arrimavam.
A me, para animar o filho na caridade, mandava-lhes por elle um pedao
de bra.

--Seja pelo divino amor de Deus. Por alma de quem l tem: Padre nosso
que estaes nos cos...

O pequenito ouvia silencioso. Era bom; Deus ouvia tambem os mendigos e
perdoava os peccados aos que tinham morrido e estavam nas penas do
purgatorio.

Era preciso, dizia-lhe a me, rezar muito, e por muito que se rezasse
nunca era o bastante para alcanar o perdo de todos os peccados;
ficava-se sempre em divida. Scismava n'este mysterio.

A isto se reduzia a educao de Claudio, s singelas lies do exemplo e
aos piedosos conselhos da me quando  noite, findo o trabalho, emquanto
no chegava a hora da ceia, se sentava com elle no cho, sobre a
esteira, ao canto da sala, proximo do oratorio.

Decorreram dois annos n'este abandono. Ao fim, em agosto, veiu uma nova
carta do Minho, decisiva. O abbade voltava a insistir na educao do
sobrinho; as despezas eram por sua conta. No se prendessem com isso. O
seu amigo padre Netto ia passar as ferias ao Carregal, no tinham mais
do que entregar-lhe o rapaz no primeiro de outubro, viria com elle para
o collegio. Depois o abbade olharia pelos estudos.

O pae d'esta vez no hesitou. A carta era to terminante que no podia
deixar de fazer a vontade ao irmo sem o risco de perder toda a herana
para os filhos. Sem demora, com a sua habitual firmeza, tratou do
enxoval. Um dia, pela madrugada, metteu algum dinheiro no bolso e foi
com a mulher e com o filho a Albergaria. Ahi tomaram a deligencia e
seguiram para Coimbra. Por l andaram algumas horas, de loja em loja,
desconfiados dos preos, abrazados de calor, regateando e comprando os
pannos, o chapeu, os sapatos, a gravata e a caixa de folha que havia de
ser dentro de dois mezes a magra bagagem do bisonho estudante.  tarde
voltaram a Villalva.

Veio a costureira e o alfaiate. Queria-se tudo largo, muito largo,
seno, elle era um latago, d'aqui a pouco nada lhe servia, era um
desperdicio. N'esse canto da sala, sobre a esteira, entre a janella e o
oratorio, ali onde  tarde Claudio recebia as piedosas lies da me, o
cho semeou se de linhas e de farrapos, de pedaos de panno orlados de
grandes alinhavos, entre elles a pregadeira e a thesoura postas a um
lado. Ia n'aquella casa, to tranquilla, um bulicio desusado; a
costureira cantava, rasgavam-se asperamente as peas de bretanha, e a
mesa animava-se com o novo conviva, a rapariga que tagarellara todo o
jantar, contando o que ia na villa e o muito que brincara quando fra a
Balmaes,  Senhora da Saude. Tinham andado toda a noite a danar no
jardim do sr. Cunha, um fidalgo que lhes mandara dar po dce e licores.

Claudio estava contente, tudo aquillo era para elle; a singela vaidade
infantil alegrava-se com as parcas riquezas que aos seus olhos tamanhas
pareciam.

O movimento foi baixando, as camisas juntaram-se dobradas sobre uma
cadeira, a costureira no voltou, varreu-se a sala e o pequeno casal de
Villalva caiu no seu habitual silencio.

O pequenito sentiu ento o primeiro travo da saudade. Ia partir. Para
onde? Os mestres eram to maus... E os bois? e o seu co? e as suas
flres? Iam talvez seccar. S se fosse a me que as regasse para as pr
a Nosso Senhor. J lh'o pedira e ella tinha-lh'o promettido.

O padre Netto mandara dizer que o rapaz devia estar no primeiro
d'outubro, s tres horas da madrugada, na estao do caminho de ferro,
em Coimbra, para seguir com elle. Precisavam sair de Villalva  meia
noite.

Depois da ceia comeou a fazer-se a mala. J estava tudo na sala,
faltava arrumar a caixa. Claudio assistia e ajudava, allumiando com o
candieiro na mo e ouvindo as recommendaes da me. Iam duas andainas
de roupa, mas a preta era s para os domingos, para ir  egreja, a
alguma festa, ou para quando o sr. director mandasse; que visse bem, no
se perdesse alguma coisa, tudo aquillo tinha custado muito dinheiro. Iam
tambem uns sapatos pretos, s para trazer com a roupa melhor, no fosse
estragal-os na brincadeira. Juntou-lhes ainda um rosario de contas de
vidro branco e verde enfiadas n'um cordo vermelho, no se esquecesse de
o resar todas as noites a Nossa Senhora, por alma dos avs e para que
ella o ajudasse em todas as afflices da sua vida e o defendesse das
tentaes do mundo.

A creana ouvia, promettendo fazer o que a me lhe ia pedindo. Cerca das
onze horas, como j passasse muito da hora a que habitualmente se
deitava, encostou-se sobre duas cadeiras e adormeceu, com a cabea
repousada sobre o brao. A noite comeava a arrefecer. A me foi buscar
um chale, abriu-o, afastou-lhe o brao e d'um casaco velho fez um
travesseiro em que lhe pousou a cabea. O pae estava dormindo na
cosinha, no quizera deitar-se na cama; no valia a pena por to pouco.
E, n'este silencio que a fadiga trouxera, a me ficou s, velando,
ajoelhada em orao perante o Christo, a rogar-lhe fervorosamente
proteco para o filho.

Ao bater da meia noite foi accordar o marido, o filho e o creado que
dormia em baixo, no palheiro.

As despedidas foram breves que nem o marido gostava de expanses nem o
pequeno Claudio, tonto de somno, podia dar-lhes grande atteno.

A me acompanhou-os at  porta e logo os viu perderem-se na confuso da
neblina mal illuminada pelo luar, ladeira abaixo, o pequenito pela mo
do pae, atraz o creado, varapau ao hombro e sobre elle a caixa de folha,
vibrando estridula e compassada. Ao fundo estava o carro. Claudio, mal
elle partiu, adormeceu novamente. E assim foi, moido da jornada,
accordando s por breves minutos se o chamavam, at s alturas de
Espinho.

Quando ali chegou, era madrugada; cedendo ao habito despertou. Onde
estava? Que era feito dos doces ruidos de Villalva, da voz do pae
marcando trabalho ao creado, dos passos da me na cosinha, abrindo a
arca para levar o milho  creao? Tinha saudades, as lagrimas
marejavam-lhe nos olhos, mas a novidade da payzagem e a vertigem do
movimento distraiam-n'o e moderavam esta hora de angustia.

Estava ao p do mar. No o surprehendia, j o tinha visto na Figueira,
quando l fra em romaria com a irm, pelo S. Joo, no anno em que ella
se casou; atraia-o esta vastido inquieta que Deus crera e em que
admirava o seu poder. Apearam-se em Villa Nova de Gaya e causou-lhe
grande estranheza a ponte pensil; mas vira e no comprehendia como
tinham lanado aquellas cordas de ferro, d'um ao outro lado do rio. As
ruas e as praas do Porto pouco o impressionaram; eram semelhantes ao
que havia em Coimbra, na Calada, na Portagem e na feira de S.
Bartholomeu. O padre Netto mostrava-lhe as estatuas, D. Pedro IV, D.
Pedro V. Sabia quem eram? O mestre escola fallava d'elles, l em
Albergaria, mas era para os mais adiantados. D'uma s cousa os seus
olhos no podiam desprender-se, cheios de pasmo e curiosidade: os bois.
Estranhava-os muito, com os seus grandes cornos, em lyra, e as mos
tortas, quasi aleijadas, deformadas pelo trabalho violento na calada.
Eram feios; os d'elle eram mais bonitos, cornos curtos, pernaltos,
aprumados e ndios.

Ao collegio devia chegar  noite, depois de cinco horas de carruagem.
Iam continuar os aspectos novos que tanto captivavam a sua curiosidade
de creana: Rio Tinto e os seus teares sem conta,--em Albergaria havia
s um,--Vallongo e as pedreiras de lousa, e as vides a trepar pelas
arvores e os valles estreitos e humidos com os seus altos milharaes.
Oliveiras no havia. Com que se alumiavam? perguntava ao padre. O azeite
vem de fra, respondia. E aquillo o que ? dizia apontando uma
construco desconhecida, sobre quatro pilares de granito.  um
espigueiro; guardam ali as espigas do milho at ficarem bem seccas e s
depois  que o malham. Assim passou toda a tarde, interrogando, vendo,
observando tudo o que se prendia com os seus habitos e com a propenso
natural do seu espirito. O padre ia-lhe respondendo. Era um homem
paciente e bom, muito habituado a creanas, sabendo conquistal-as.

Os primeiros dias do collegio foram maus, pouco de molde a apagar as
saudades que Claudio tinha da casa. Os companheiros escarneciam-n'o ao
vl-o nos seus enormes sapatos, a roupa nova, angulosa e hirta, d'uma
vastido desproporcionada. Perguntaram-lhe quem era o pae.

--Meu pae, respondeu vaidoso,  o thesoureiro da junta de parochia.

Comearam a chamar-lhe o thesoureiro e Claudio, timido, vexado,
sentiu-se s entre aquella multido desconhecida. O isolamento em que
vivera em Villalva, os aturados conselhos da me, ensinando-o cedo a
distinguir entre o bem e o mal, o exemplo da austeridade do pae, mataram
 nascena na sua alma todo o germen de expanso e de lucta, quebraram
todas as foras animaes e deixaram o terreno varrido para n'elle se
alastrar a dolorosa consciencia da obrigao.

Mandavam-n'o ali estudar; era preciso voltar a Villalva, exames feitos,
coberto de louvores, sem uma falta. Temia a severidade do pae e temia
ainda mais as lagrimas da me. O espirito da creana concentrou-se na
sua tarefa; os mestres viram com admirao o estudo e a intelligencia do
novo discipulo que vinha com fama de aprender mal.

O abbade, o tio, immundo e gordo, arfando de cansao, vinha vl-o
algumas vezes e pagar as mezadas. Pouco fallava ao sobrinho.--Que era
preciso estudar, eram as suas palavras quasi invariaveis. Pelo director
sabia que ia bem e, como no tinha que reprehender, pouco fallava,
porque, na sua opinio e na aridez do seu corao de celibatario, era
preciso chamal-os ao respeito, no dar confiana a esses fedelhos.

Aos sabbados havia lio de doutrina christ. A primeira vez que Claudio
foi interrogado, foi para elle um triumpho. Sabia tudo: os mandamentos
da lei de Deus, os mandamentos da egreja, as bemaventuranas, as obras
de misericordia, os peccados mortaes, tudo, tudo, at os inimigos da
alma. Os camaradas ouviram-n'o com espanto e elle sentiu-se victorioso e
contente. Havia de o contar  me; era uma boa nova a levar-lhe quando
fosse a frias.

Um dia o padre Netto espraiou-se mais que de costume na lio; foi at
fallar do inferno, dizendo que os doutores da Egreja ignoravam se era um
logar em que se soffriam todos os tormentos e dores que o corpo pde
soffrer, se um estado em que a alma andava errante, em continua agonia.
Estranha revelao para Claudio, esta que para os seus camaradas passra
incomprehendida! Ficou scismando. Vagamente percebia um co e um inferno
differentes d'aquelles com que a me o embalra. O theologo mostrava-lhe
a dupla natureza do seu ser, sentia uma alma feliz ou torturada, mas
inteiramente apartada do corpo. No seu espirito accumulavam-se os
germens de meditao sobre a consciencia e o destino humano.

N'este mesmo anno levaram-n'o pela primeira vez  confisso. Foi um dia,
que ficou memoravel na sua lembrana, assim como a inquietao que o
precedeu. Quaes eram os seus peccados? Quantas pragas rogra? Tinha
deixado alguma vez de estudar as lies por preguia? Queria mal a
alguem, aos professores ou aos camaradas? As duvidas traziam-n'o em
sobresalto, porque era preciso dizer tudo para que a confisso fosse bem
feita. Era preciso dizer tudo, e com sincero arrependimento e proposito
de emenda.

Alm d'isso,--suprema duvida,--era preciso arrepender-se pelo amor de
Deus e no pelo temor das penas do inferno. Era realmente assim? Por
esforo da vontade procurava obedecer ao amor de Deus, mas a sua
consciencia infantil no podia alcanal-o. O temor do inferno
predominava.

Fosse como fosse, o essencial era fazer a confisso completa e elle ia
dizer todos os peccados de que se lembrasse.

O collegio ficava n'uma encosta; a egreja no valle, sobre a ribeira que
o cortava. Descia-se rapidamente e seguia-se depois pelo valle acima,
n'um caminho quasi plano, de grande lagedo de granito, orlado de
carvalhos enfeitados de videiras; ao fim, um pequeno adro, a egreja e
junto d'ella o cemiterio.

Ao romper do sol, o prefeito fez sair todos os que se iam confessar.
Manh de primavera, orvalhada, fresca, viosa nos renovos do arvoredo; e
Claudio opprimido, concentrado nas suas duvidas, sentia pela primeira
vez bem nitidamente o divorcio entre a alma inquieta e a impassibilidade
sorridente da natureza.

Com que delicia beberia o ar de manh! Mas um demonio interior o
suffocava. Comeava a aprender o que era a vida humana.

Entraram na egreja, indo ajoelhar no altar do Santissimo; depois,
levantaram-se e o prefeito mandou-os sentar n'um banco que ficava por
baixo do pulpito.

O confessor era um s, o parocho. Um a um foram chamados os confessandos
que,  maneira que voltavam, ajoelhavam rezando a penitencia. Claudio
foi o ultimo. Rezou a confisso embaraado e tremulo, mos postas,
cabea curvada, os olhos fitos nos ps do confessor.

Comearam as perguntas, a seguir pelos mandamentos da lei de Deus e
depois pelos mandamentos da egreja. A quantos tinha faltado? Mentia? Ah!
n'este ponto tinha um peccado que fra o seu primeiro grande remorso.

Um dia, um domingo, tinha chovido de manh, e de tarde o prefeito
mandou-os vestir para sairem; estava uma tarde calma, o ar carregado, os
caminhos cobertos de lama. Claudio vestiu o fato preto e calou os
sapatos novos para se mostrar aos companheiros em trajos ricos.

--Para que anda o menino a estragar esse fato? perguntou o prefeito.

--Tinha frio, respondeu Claudio.

Mentira; no era frio, era vaidade. O remorso ia ficar-lhe de lembrana.
Para o futuro seria mais corajoso.

O padre, um velhito, magro e bondoso, vendo o mundo j da beira do
tumulo, sorriu com sympathia  pureza da creana, no quiz ouvir mais,
mandou-lhe dizer o acto de contrico e absolveu-o.

A natureza sorria tambem nos gorgeios das aves que esvoaavam fra, no
cemiterio, e nos suaves raios do sol da manh que pela estreita fresta
da sachristia alumiavam docemente a pobreza dos gavetes carcomidos em
que o padre guardava o calice, a alva e as vestes.

Claudio veiu ouvir a missa e saiu da egreja contente. Sentia-se bem, a
consciencia e a virtude tinham vencido todas as duvidas; pela primeira
vez experimentava a grandeza d'um dramatico triumpho intimo.

Com excepo d'estes breves incidentes, que jmais se apagariam da sua
memoria, a vida do collegio foi para elle monotona e triste; timido no
recreio, vivendo pouco intimamente com os companheiros, todo se
entregava ao estudo. Os mestres estimavam-n'o. Um d'elles ficra pasmado
do modo porque Claudio lra um longo trecho de Garrett contando a
pobreza de Cames. No se conteve que no exclamasse:

--Muito bem! Torna a lr para estes meninos ouvirem. Impressionava-o a
emoo com que a creana lia e que provinha d'uma penetrante
comprehenso das dres que o poeta cantava.

No fim do anno eram os exames, em Braga, onde os pobres rapazes iam
arrebanhados, pallidos, enfermos de desconforto, afflices e receios.
D'ahi dispersavam em frias, cada um para a sua aldeia.

Claudio veiu em companhia do padre Netto que em Coimbra o entregou ao
pae a quem chamou de parte para lhe dar informaes do filho. Ia muito
bem; muito applicado e muito socegado; fizera s instruco primaria e
portuguez, mas no anno seguinte devia fazer exame de francez, de desenho
e at talvez de geometria. O abbade estava satisfeito; j lhe tinha dito
que se o rapaz assim continuasse, o melhor era mandal o para a
Universidade. Sempre era outra cousa, outra posio, para que servia ser
padre sabia-o elle, por mal dos seus peccados. Isto tudo aqui para ns,
concluia; no se lhe pde dizer nada. Se a gente vae a gabal-os,
fazem-se tolos e ninguem os atura.

O pae levou Claudio para Villalva. No caminho desceu um pouco da sua
habitual frieza, perguntando ao filho o que fazia no collegio, se
gostava d'isto, se no gostava d'aquillo, quantos eram os mestres e se
lhe tinham dado muitas palmatoadas. Comeava a respeital-o; o que o
padre dissera, incendiava-o em ambies. Formado e com a fortuna do tio,
a advogar, mandaria em Albergaria; via-o j presidente da camara, talvez
deputado. O filho do Antonio Simes, de Barreiros, no era mais do que
elle e estava em Lisboa nas crtes, um fidalgo. Pois algumas vezes lhe
tinha emprestado s tres e quatro moedas para mandar a mezada ao rapaz!
Agora era elle que mandava dinheiro ao pae; ainda ha poucos dias dra
mais de sessenta moedas pelo Cerrado de Baixo, na Cruz das Almas.

Os primeiros dias de frias passados em Villalva foram uma festa para
Claudio. Veiu a irm e ella juntamente com a me, ambas contentes e
orgulhosas, pedia-lhe a narrao do que se passava no collegio, como era
a jornada, os exames, o Porto, a cidade de Braga e o Bom Jesus do Monte.
Quem lhes dera poder ir l! Claudio, por seu lado, sentia uma nova
atmosphera; ainda ha um anno esquecido, quasi abandonado, via-se agora
cercado de attenes que eram novas para elle. Convertera-se n'uma
esperana de riqueza e de poderio, lisongeava a ambio do pae, a
vaidade da irm e a piedade da me que tudo attribuia s suas oraes,
s esmolas que dava e  recompensa divina. O filho ouvia-a; com ella
cria tambem que toda a sua sorte vinha da vontade de Deus, mas a edade e
a alegria de voltar ao seu casal no o deixavam prender-se muito a esses
pensamentos. Os seus cuidados eram a admirao das flres que deixra
plantadas, os gados, os campos e as colheitas. A sua vida
consubstanciara-se cedo com a d'esse mundo natural que era o companheiro
inseparavel da sua alma e do seu corpo.

Uma tarde, em setembro, a me comeou a sentir uma pequena dr no
ventre. Foi continuando no trabalho, arrumando a cosinha e preparando a
ceia, mas as dores repetiam-se cada vez mais frequentes e agudas;
seguiam-se uns ligeiros suores e, depois d'uns instantes de abatimento,
parecia-lhe que ia adormecer, concebia uma vaga esperana de cura. Eram
simples remitencias; o mal estava apenas incipiente. N'uma crise, a mais
violenta, chamou o filho:

--Claudio, estou muito mal. Tenho uma dr aqui, e punha a mo sobre o
ventre. Valha-me Nossa Senhora! Se eu dsse um passeio, talvez me
passasse.

Foram para o quintal e l se arrastou pelo carreiro junto ao muro.
Poucos passos deu. A dr voltava, ella encostada s arvores esperava que
abrandasse para dar alguns passos. Por fim, no poude mais; veiu para a
sua alcova. Era quasi noite e o marido recolhia.

--No te quiz mandar chamar, disse-lhe, para te no tirar do trabalho...
Ha duas horas que no pro... No sei o que isto ... E torcia-se
angustiada, os olhos cavados, as faces desfiguradas.

Mandaram chamar o medico.

--Era melhor chamar o padre, dizia ella; e a Maria, a filha. Mas no...
a esta hora... coitada... ficam l os pequenitos ss... ai! meu Deus...
eu morro... morro... Estorcia-se, desgrenhada, os olhos em alvo, os
braos ns, punhos cerrados.

Veiu o medico e receitou. Emquanto o creado corria  botica, preparavam
um banho. Tudo faltava, agua e banheira. A confuso era extrema; a dr
no abrandava. S cerca das dez horas chegaram os primeiros
medicamentos.

Bateram onze horas. O mal no declinava. O pae de Claudio estava
aterrado.

--Isto no melhora, dizia para o medico, fitando-o com olhos
interrogadores e anciosos.

--Espere, espere... por emquanto ainda no  tarde. Ento?! No me
esteja a desanimar. Parece que nunca viu ninguem com uma colica. Pois
olhe que eu no tenho visto poucas e at hoje, graas a Deus, ainda
nenhum doente me morreu d'isso.

Claudio fugira para longe; chorava mas no queria que o vissem chorar,
temia o pae que por certo no deixaria de o reprehender pelas suas
pieguices, como elle lhe chamava. Queria rezar. O oratorio era na sala e
estava l o medico. Abriu a porta de mansinho, atravessou o pateo e,
seguindo o carreiro onde  tarde estivera com a me, foi ajoelhar-se l
no extremo, debaixo d'uma oliveira. A noite estava serena: o luar cobria
os montes de que vinham as exhalaes quentes que succedem s calmas do
estio. Ajoelhado, de mos postas, fitando os astros, via a face da
Virgem, sentada no seu throno de gloria, entre nuvens douradas. Orava e
ella via-o:--Ave Maria, cheia de graa... Respondia-lhe um olhar de
doura e esperana. Quando voltou a casa, finda a orao, a me dormia
extenuada e pallida.

Accordou  uma hora da noite. Ainda ali estava o medico.

--Ento?! Est melhor? perguntou-lhe.

--Agora estou bem, graas a Deus. Muito cansada.

A f de Claudio tinha n'este momento confirmao plena; no seu corao
estavam lanadas sementes que o tempo podia transformar, mas nunca
anniquilar.

Estes dois mezes de frias em Villalva foram para Claudio um comeo de
revelao consciente da felicidade d'aquelles logares. Ao chegar a noite
da partida, no poude, como da primeira vez, vr distrahidamente os
cuidados da me e adormecer; foi uma noite de lagrimas e de saudade
confessada. Ainda tres dias depois, no collegio, a um canto da sala de
estudo, tinha uma nova crise de lagrimas. Um dos mestres passou n'esse
momento. Vendo-o a chorar e adivinhando o que se passava no espirito da
creana, disse-lhe compassivamente:

--Deixe os livros, deixe os livros, v brincar.

As saudades no turvavam porm a applicao do collegial. Pelo
contrario, o desejo de voltar a Villalva triumphante, como no primeiro
anno, a alegria dos paes e os carinhos que d'ahi vinham e de que a sua
alma era to avida, constituiam uma ambio sempre presente  sua
lembrana e que o mantinha invariavelmente no mesmo caminho. Durante
seis annos, que tantos foram os que consumiu n'estes estudos
preparatorios, a sua vida manteve-se n'uma linha ininterrupta de
respeito, de obediencia, de concentrao, d'estudo e de f. Se lhe fosse
possivel fazer parar ali o desenvolvimento do seu espirito, teria ficado
um alto exemplo de caracter e de firmeza. Mas outros destinos e outras
amarguras lhe estavam reservados.

Aos desesseis annos matriculou-se na Universidade. O pae queria vel-o
advogado; Claudio, como de costume, ia fazer-lhe a vontade.

A entrada na Universidade no desvanecia, antes accentuava, os
caracteres da sua alma anteriormente adquiridos. Semelhantemente ao que
lhe acontecera quando entrou no collegio, sentia-se por timidez e por
natural pendor alheio a esta turba multa que o rodeiava, alegre,
buliosa, fremente de actividade e de pujana; a primeira e a nova
situao eram rigorosamente parallelas, parte um estado de consciencia
agora mais determinado e em breve na sua plenitude. O mundo era para
Claudio uma obrigao pesada e instante: alegrias, expanses sadias do
naturalismo juvenil, tudo devia ser pautado e regrado pelo dever
immanente. Desgraado! Mal sabia elle a que abysmo corria.

No inverno immediato  sua entrada na Universidade, deu-se um
acontecimento que havia de ter na sua vida as mais profundas
consequencias. Morreu o abbade e instituiu-o universal herdeiro.

Deixava a quinta da Nogueira, propriedade afamada, inscripes e
numerosas dividas activas, ao todo uns bons quarenta contos de ris,
conforme o pae de Claudio lhe mandou dizer. Fra elle que cuidra do
inventario e liquidao da herana, visto que o filho era menor ainda,
mas contrariado porque, dizia, estava habituado a cuidar os seus bens,
no sabia cuidar de bens alheios, nunca fra procurador. No fundo, no
podia fugir a um vago ciume e inveja por se sentir, por aquelle lado, em
grande inferioridade relativamente ao filho. Demais, sempre esperra que
o irmo, embora muito inclinado ao sobrinho, o deixasse ao menos
usufructuario; no podia tolerar sem tentaes de revolta esta condio
d'um subordinado que sabia que em breve seria independente de qualquer
auctoridade. Por isso, quando Claudio veio passar o natal a Villalva, o
pae, que desde a morte do tio nunca mais o vira porque evitava a
occasio de o encontrar, addiando um momento que lhe era desagradavel,
disse-lhe seccamente:

--Teu tio deixou-te tudo. Ora tu tens dezesseis annos e a lei d-me o
direito de administrar o que  teu at  tua maioridade; mas a minha
teno  emancipar-te aos dezoito annos. Se queres, toma j conta do que
 teu; para mim  um descano. Sabes muito bem o que tens a fazer, j
no s nenhuma creana.

Vingava-se, desprezando o que a fortuna lhe negra.

No o comprehendeu assim Claudio, na sua simplicidade; tomando por
generosidade e desinteresse o despeito do pae, commovido, pediu-lhe para
que continuasse a cuidar dos bens da herana. Nada queria seno a mezada
que j tinha; vivia satisfeito.

O pae recusava, mas os rogos e as instancias acabaram por convencel-o.
Cedeu, talvez contente; julgava o filho humilhado e a humilhao
pagava-lhe em grande parte o despeito de no ter sido herdeiro.

No obstante as circumstancias muito particulares em que Claudio ficava
vivendo, em completa e espontanea dependencia do pae, a herana que
acabava de receber tinha, desde j, na sua vida a mais poderosa
influencia. Affastava de vez todas as preoccupaes de ordem material,
garantia-lhe de futuro uma riqueza que era de sobra para os seus
modestos habitos; a salutar necessidade de ganhar pelo seu brao e pelo
seu engenho o po de cada dia ser-lhe-ia desconhecida.

A sua carreira estava traada pelas condies particulares da existencia
que agora se reuniam s lies que aprendera no regao da me. A vida
era uma obrigao de fazer bem. Simplesmente restava determinar o que
era o bem.

Nas poucas relaes que em Coimbra crera, veio encontrar uma atmosphera
absolutamente differente da que deixra no collegio.

Deus no existia, era uma inveno do mdo, conservada pelos reis e
pelos padres que especulavam com a crendice popular. Onde estavam as
provas da sua existencia?

O positivismo, unica s philosophia, mandava que s na observao e na
experiencia nos fiassemos. S o que d'ahi vinha era certo, o resto
ficava ao sabor de cada um. No era pois verdade o que os padres e a me
lhe tinham ensinado.

Deixou-se levar n'esta nova corrente. Obedecendo a uma sde interior de
verdade, ouvia e meditava o que os camaradas estudiosos lhe diziam e lia
com avidez as obras que elles lhe indicavam.

De lies escolares pouco cuidava, que os lentes eram uns velhos
estupidos e ignorantes, do novo methodo nada sabiam. Buchner, Spenser,
Comte, Littr, Darwin, Taine e Haeckel, esses eram verdadeiros mestres.
Era ll-os, estudal-os, e ficava-se senhor de toda a verdade. A
Historia da creao, de Ernesto Haeckel, foi para Claudio uma
revelao. Estudou-a, linha a linha, em frigidas noites de inverno,
debruado sobre a banca de cerejeira, mettido em cobertores de papa, 
luz frouxa do candieiro d'azeite.

Comeava a comprehender o novo mundo: a creao foi uma fabula que a
ignorancia inventou, os seres transformavam-se, e a pedra, a rosa, a
salamandra e o homem eram formas d'uma mesma actividade, producto apenas
de leis constantes e universaes; no mundo tudo  rigorosamente derivado
d'um estado anterior, a flr  uma folha que se transforma. Por
conseguinte, o que  bem e o que  mal? Tudo  relativo, diziam os novos
evangelhos, no ha bem nem mal, o assassino e o santo so dois productos
naturaes do mesmo quilate.

Era n'esta crena que aos dezoito annos Claudio regressava a Villalva,
satisfeito com os progressos do seu espirito, occultando porm  me o
seu modo de pensar, resolvido a supportar a sua religio. No fundo, no
tinha mudado; s uma ingenuidade infantil lhe fazia crr que estava
regenerado e lhe deixava passar ignorada a contradio interior. No s
todo o seu trabalho provinha d'uma ambio de verdade que no aprendera
nos livros que estudava mas que tinha sido previamente lanada no seu
corao pelo amor e pela piedade maternal, mas ainda todos os actos da
sua vida lhe negavam as affirmaes do espirito.

No o via; o desenvolvimento da consciencia no era ainda sufficiente
para lh'o revelar. Sem embargo, a contradio era completa.

Que o digam os seus primeiros amores que foram d'esse tempo.

 tarde, Claudio descia de Villalva; vinha  botica da villa, em frente
da praa, ouvir os ociosos que por alli paravam e ensinar-lhes politica.
Que eram o Fontes e o Braamcamp? Idiotas! Sabiam porventura alguma
cousa?! Nem sequer conheciam os grandes livros modernos em que se
aprendia a sciencia social.

O administrador escandalisava-se com a petulancia do rapaz.

--Era para isto, dizia, que os mandavam a Coimbra e que o pae e o tio
tinham andado toda a vida a trabalhar. Se elles lhe tivessem mettido uma
enxada nas mos, seria bem melhor.

Claudio ouvia as reflexes do administrador que s confirmavam a sua
vaidade. Uns estupidos, uns brutos! Elle  que sabia.

Foi n'uma d'essas tardes, emquanto passeava d'um ao outro extremo da
sala, em frente do boticario a jogar as damas com o recebedor, que, n'um
momento em que assomou  porta, viu passar uma rapariga loira, alta,
reforada e agil, cantaro  cabea, a caminho da fonte.

--Quem ? perguntou ao boticario. Que linda cousa!

-- a Conceio, filha do Manuel da Aveleda. Olhe, cuide-me d'aquillo,
cuide-me d'aquillo que est no seu tempo, accrescentou o boticario. A
minha pena  no lhe poder ser bom.

E distraidamente fez avanar a sua dama.

Claudio ficra profundamente impressionado com a graa e a meiguice da
rapariga, um modelo de mocidade e de doura. Nos dias seguintes, vinha,
como de costume,  botica, e ao entardecer no tirava os olhos da
estrada, do lado de Villar, onde ella morava.

Ella passava sempre, ora s, sizuda e apressada, ora com as
companheiras, rindo e parando a cada passo.

J tinha percebido que o estudante a fitava; uma vez mesmo, ao voltar a
esquina, para assegurar o seu juizo, olhra para traz. No se enganava:
elle l estava,  porta, fitando-a sempre. Chegra at a dizel-o a uma
das companheiras.

--Vs aquelle rapaz, o filho do Jos Portugal, de Villalva? disse-lhe.
Quando eu passo, olha muito para mim.

-- bem rico, quem dera! respondeu a companheira.

Calaram-se. A Conceio no adiantou conversa, um pouco arrependida da
indiscrio. Gostava d'elle, e, se ia s, ao passar em frente da botica,
punha os olhos no cho e os passos embaraavam-se-lhe.

Por seu lado, Claudio soffria o mesmo embarao. Que fazer? Seguil-a? Mas
ella no olhava para elle; a imaginao representava-lhe a resposta
avessa com que seria repellido e o golpe que o seu corao soffreria.
Depois, seria uma troa do boticario, do administrador, do escrivo... e
elle gostava d'ella, no podia consentir gracejos sobre uma cousa em que
o seu corao era parte. Escrever-lhe? Responderia ella? Estavamos no
mesmo caso. Ia rir-se com as companheiras e d'ahi a dois dias andaria a
carta em todas as mos. Ainda era peior do que fallar-lhe.

Uma vez chegou a trazer a melhor rosa que encontrou no jardim para lh'a
offerecer. Em logar de ir  botica, passearia e encontral a-ia em baixo,
fra da villa; ahi ninguem o via, o caminho  deserto, e fosse o que
fosse poderia fallar-lhe sem maior perigo.

Foi. Na sua impaciencia, saiu cedo. Quando chegou  fonte, ainda no era
sol posto. Comeou a subir a encosta que liga a fonte com a villa; onde
o caminho  menos devassado, n'uma curva, sentou-se sobre um muro,
esperando a Conceio. O corao batia-lhe ancioso; pela imaginao
passavam-lhe mil devaneios. Com que palavras comearia? Estava quasi
arrependido. Para que se mettia elle n'aquellas cousas? Fugiria? Tambem
no, era fraqueza. N'isto, n'esta oscillao entre o amor e a timidez, a
Conceio appareceu com as companheiras habituaes No lhe podia fallar.
Para Claudio era um allivio, libertava o d'uma situao afflictiva.
Levantou-se e dirigiu-se  botica.

--Muito tarde, hoje, sr. Claudio, disse o boticario.

--Demorei-me um pouco, respondeu laconicamente.

Ainda bem, pensou, que a penumbra da baiuca encobria o rubor que lhe
viera  face quando o boticario lhe fallou.

No tardou porm que os seus desejos fossem satisfeitos. Uma tarde
demorou-se na botica e, ao voltar a casa, fez caminho por Villar.

Em boa hora!

A Conceio passava, atravessando a rua para casa d'uma visinha.

--Muito boa noite, meu amor.

--Muito boa noite, sr. Claudio.

--Por aqui, sem medo, a estas horas?

--Ninguem me rouba.

E a conversa continuou ligeira e alegre.

D'ali por deante j Claudio no receiava dirigir-se-lhe, estava certo do
amor da Conceio. Dentro em pouco havia hora aprazada para se
encontrarem.

Esses amores duraram dois annos e foram castos e puros. A Conceio era
para Claudio um culto; tocar-lhe era maculal-a, era destruir o que
n'ella havia de sagrado, a melhor fonte d'amor. As suas cartas respiram
a mais estremada candura. De Coimbra escrevia-lhe:


                                                      Querida Conceio

Escrevo-te hoje para te mostrar toda a tristeza em que tenho andado.
Desde que vim, nunca mais tive alegria, nem a terei emquanto no voltar
para ao p de ti.

Por muito que procure distrahir-me, trago sempre comigo a mgoa de no
te vr. S para o natal ahi voltarei. Terei paciencia que outro remedio
no tenho.

Queria ter ao menos a alegria de te fallar um instante mas isso no pde
acontecer. Tu nunca aqui vens e eu no posso sair d'aqui.

Lembro-me de que estou longe de ti e a tristeza no me deixa, porque te
adoro de todo o meu corao e serei at  morte

                                                                o teu

                                                                _Claudio_


No podia supportar esta singeleza o rapaz de vinte annos, que do
materialismo positivista tinha passado ao naturalismo na litteratura e
lia agora Zola, deliciando-se no exame das baixezas humanas, sem
attentar no que ellas encerram de grandioso e dramatico, ainda mesmo nos
seus aspectos infimos.

O falso conhecimento das sciencias naturaes, consideradas
superficialmente, junto ao vigor, nunca isento de brutalidade, de gente
moa, haviam necessariamente de dar em resultado o desprezo da castidade
e da pureza que d'ora em diante passariam a cognominar-se ridiculo
sentimentalismo.

Por outro lado, a forma impressa na infancia  sua alma permanecia e
permaneceria como o verdadeiro fundamento da sua natureza; a piedade
christ, embora sob aspectos differentes, seria sempre uma fonte
abundante e inexgotavel de idealismo.

Claudio no attingia a contradio intima entre a sua alma e as
doutrinas aprendidas nos livros e nas palestras com os camaradas da
universidade. No eram as mulheres simples objectos de amor sensual
atravez do qual a natureza assegurava a conservao e a propagao da
especie? Fra d'isso, tudo era doena, romantismo archaico ou timidez
pueril.

E todavia no supportava sem um fremito de repulso a lembrana de que a
sua amada, um anjo que a aureola dos anjos envolvia, havia de desfazer
em brutal sensualidade a frescura do seu rosto semi-divino e o meigo
riso, irisiado de cores mimosas, que desabrochava nos seus labios como a
rosa entre o orvalho da manh.

Ignorava a contradio, parecia-lhe apenas inconstancia, que no
desejava e queria todos os dias a mesma cousa; tomava estas fluctuaes
 conta de fraqueza do proprio animo.

Por fim, resolveu acabar com uma situao aos seus olhos ridiculamente
inconfessavel. O que?! Amar uma mulher s para lhe dizer palavras doces,
olhar para ella, contar-lhe o que se fazia em Villalva, ouvir a que
horas ella ia  fonte e a que horas lavava a roupa?! No era um homem!
No se atrevia a ir mais adeante, no queria tomar as responsabilidades
do descredito d'uma rapariga? Por si no se importava com essas
pieguices da aldeia, mas a me com certeza no gostava, iria magoar-se
com o seu proceder. Elle tambem... no gostava; repugnava-lhe, embora as
doutrinas que aprendera em Coimbra lh'o admittissem. Precisava fallar
com franqueza  Conceio.

Uma manh, em que ella tinha de vir a Alcofa, foi encontral-a na estrada
e conversaram de p,  sombra d'uma oliveira.

Eram oito horas; dos montes requeimados reflectia se um sol penetrante,
na atmosphera quieta das varzeas o arvoredo esperava sequioso que a
briza do norte viesse beijal o, um calmo torpr invadia toda a natureza.

Claudio sentia-se mal, sentia-se fraco; talvez d'aquelle calor, pensava,
mas na realidade a agonia vinha-lhe do corao, da vaga consciencia de
que ia quebrar uma urna de affectos limpidos e sos cujos pedaos jmais
poderia soldar e cujo licor sagrado para sempre se perderia no p em que
to impensadamente o derramava.

Aquelle momento havia de lembrar-lhe, muitos annos depois, com um
arrependimento lancinante quasi com remorso.

A Conceio veio alegre e risonha, como de costume, entregue sem reserva
 alegria de vr o seu Claudio; elle opprimido.

Com um miraculoso poder de sympathia que tudo adivinha, a Conceio
perguntou-lhe immediatamente:

--O que tem? Vem hoje to triste!

--Tenho a dizer-te uma cousa que te vae fazer chorar, mas  preciso que
t'a diga. Isto no pde continuar, disse Claudio brutalmente. Olha,
Conceio, meu pae nunca consentiria que nos casassemos e ento para que
hei-de enganar-te? Hei-de ser sempre teu amigo, mas por isso mesmo no
quero prejudicar a tua felicidade. No te faltam bons casamentos, pdes
ser ainda muito feliz. O mal  para mim que vou perder-te.

A Conceio chorava de dr e de surpreza; nada sabia dizer.

Se era por ella ter feito algum mal, que lh'o dissesse, que no podia
ser seno intriga; que s pelo amor que lhe tinha lhe custava
deixal-o...

Claudio porm insistiu no proposito de terminarem as suas relaes e
apartaram-se, ella banhada em lagrimas, elle cruelmente alliviado por se
libertar d'uma situao que comeava a pesar-lhe.

No fim d'um anno a Conceio casava com um carpinteiro. Passa s vezes
na villa, o cesto  cabea, quando leva o jantar ao marido, o farto
collo a entrevr-se pelo chambre desabotoado no pescoo para respirar na
pesada atmosphera do estio. Claudio via-a, contente por se convencer de
que os amores idyllicos no tinham sido estorvo  sua felicidade. Um dia
a veria com saudades da ventura que perdera!

N'estes errores do espirito se consumiram os cinco annos que Claudio
passou em Coimbra; ao fim d'elles era necessario voltar a Villalva.

O problema da sua existencia apresentava-se-lhe cada vez mais urgente,
cada vez mais confuso, a alma dilacerada entre os impulsos mysticos que
vinham da sua primeira infancia, as instigaes do espirito inquieto por
uma sciencia estreita e incompleta e vagos ardores de mocidade que o
aconselhavam a calcar sciencia e mysticismo e entregar-se sem reserva s
expanses do instincto. Que fazer?

Poucos mezes depois de regressar a casa, vieram o administrador do
concelho, o reitor do Ervedal, o prior de Villar, o regedor do Sabugal e
o Rodrigues, grande influente nas freguezias da serra, convidal-o para a
presidencia da camara.

Diziam-lhe que a eleio era segura, por esse lado nada tinha a receiar,
ninguem lh'a disputava, mas, quando a disputassem, estava alli fora
sufficiente para a vencer, pois que os homens que alli via representavam
mais de dois teros da votao de todo o concelho.

Tambem no faziam questo de lista, elle escolheria os collegas que
quizesse; o que desejavam era um homem srio e capaz, porque no
imaginava o que ia na camara. Uma ladroeira! Traziam toda a sorte de
vadios a receber por conta do cofre municipal e at se dizia que o
presidente estava alcanado.

--Dizia! Era certo, accrescentava o reitor do Ervedal. Ainda ha pouco,
quando foi obrigado a entrar com a receita da viao, teve de pedir
oitocentos mil reis ao Jos Maria, das Aranhas, e hypothecou-lhe a terra
da Preza.

Claudio defendia-se; que estava muito novo, queria estudar e no se
mettia em politica. Tudo intrigas, tudo dissabores!

--No era politica, replicavam-lhe, era um servio que prestava ao
concelho. Visse o que o pae tinha feito na junta de parochia. Nas obras
do cemiterio deixava tudo para estar ao romper do dia ao p dos
trabalhadores. Poupou muito dinheiro  freguezia com o seu zelo e a sua
economia, e prejudicando-se porque para isso tinha de deixar a sua vida.
Agora elle que era um rapaz formado e rico!... At o entretinha! Que
fazia alli, sempre agarrado aos livros?...

Depois... precisava pensar, em tres dias responderia
definitivamente,--foi a evasiva com que Claudio se libertou dos seus
interlocutores que comeavam a fatigal-o com rogos e instancias.

Ao fechar a porta, recolheu murmurando:

--Pois sim! Contem com isso, no me faltava mais nada do que metter-me
n'essa vinagreira.

O seu proposito de recusa era formal, mas temia o desgosto do pae que
adivinhava de opinio differente. S perante este queria desculpar-se,
porque para os outros a resposta estava feita.

Consultou-o. Com grande surpreza sua viu que no o animava. Que no se
illudisse, dizia-lhe, j sabia muito bem o que era tudo aquilo. Todos os
que alli vieram tinham as suas pretenses; no o queriam na camara seno
para as satisfazer. Bem se importavam elles com as cousas do concelho!
Cada um cuidava de si, da sua fonte e da sua estrada. Quando esteve na
junta, o Mattos, da Azenha, ficou de mal com elle porque no lhe mandou
compr o caminho do Freixial. Queria que lhe fizessem estradas para as
suas quintas e no se importavam de mais nada! Tambem lhe no
aconselhava que recusasse; um homem precisa servir para alguma cousa.
Mas se imaginava que nos cargos publicos havia s honra e gloria, estava
muito enganado; trabalhos e desgostos  que l encontraria.

No fundo desejava que o filho acceitasse, considerava como um triumpho
para a sua vida a situao de Claudio; mas j velho, conhecendo o mundo
e amando o filho, invadia-o o desprendimento das vaidades e o egoismo do
repouso, no se atrevia a aconselhar uma vida de inquietaes.

Claudio, percebendo a hesitao do pae, recusou, e este, quando mais
tarde foi prevenido pela mulher da resoluo do filho, respondeu:

--No est para os aturar. Faz muito bem. Tem que comer e quer viver
descansado.

No passavam porm sem deixar vestigios estes incidentes. Que fazer? que
fazer? No era a vida qualquer cousa que elle tinha obrigao de
aproveitar em beneficio dos outros?

Toda a hypothese de soluo, ainda que ephemera, fazia reviver o
problema. Bastava uma proposta dos politicos da villa para que comsigo
trouxesse longas meditaes sobre a escolha entre uma vida d'aco e uma
vida de estudo e meditao.

Os dias corriam longos entre o fastio dos livros, por uns vagos desejos
da aco, e o desgosto da aco, por uma interior necessidade de
recolhimento. Amores no os havia profundos, que este estado tudo
turvava e embaraava, s a duvida imperava dissolvendo e quebrando toda
a energia e todo o movimento salutar e espontaneo.

Necessariamente haveria remedio para esta situao.

Era preciso procural-o no estudo, deveria estar n'esses montes de
livros que se lhe accumulavam sobre a mesa.

O melhor era estudar, mas d'esta vez com methodo e conforme os bons
principios, que nem os padres nem os lentes da Universidade lhe tinham
dado instruco aproveitavel. Comeava-se pela mathematica e seguia-se
pela physica, pela chimica, pelas sciencias naturaes, a terminar na
historia, nas sciencias sociaes, nas bellas artes e na litteratura.

Quando tivesse levado a cabo esta empreza, ento poderia fazer alguma
cousa com plena consciencia.

E a pequena sala de Villalva encheu se de estantes de livros, de
retortas e de apparelhos estranhos que a rude gente da aldeia olhava com
curiosidade e desconfiana.

No podiam porm varrer-se n'um dia os velhos habitos, mrmente no
proprio local em que se tinham creado; no podia supportar o estudo
aturado aquelle que fra educado na liberdade dos campos e nos prazeres
da vida rustica.

Claudio sentia-se fraco, incapaz de levar a cabo a sua empreza com a
tenacidade que ella, no seu entender, reclamava; aborrecia-se do estudo,
a cada passo trocava a leitura dos livros de chimica por um romance ou
por um trecho poetico, vinha  botica saber dos namoros das raparigas e
dispendia longas horas em um novo jardim que fizera no cerrado, 
entrada da aldeia, onde o pae cavra uma cisterna e tinha a eira e os
abrunheiros. Era quasi um escandalo. Que rapaz aquelle! No fazia nada,
ninguem sabia o que elle queria, alli mettido com os livros.

O regedor passou uma tarde de maio em que Claudio com uma thesoura
limpava as roseiras dos pedunculos das flores desfolhadas.

--Tenha v. ex. muito boa tarde, disse-lhe.

--Ora viva o sr. regedor! Ento como vae?

--Obrigado, como velho.

--Por aqui est a passar um bocado de tempo?

-- verdade.

--Tambem no sei que gosto  este. Ainda se fossem cousas que dssem
fructo... mas a modo que no vejo por aqui seno estas ameixieiras.

--Eu gosto d'isto, respondeu Claudio j com certo fastio da conversa.

O regedor fez uma pausa e, bem ruminado o pensamento, exclamou:

--E a respeito de advogar, nada?!...

Foi a voz do povo, toda a aldeia assim pensava; no comprehendia aquelle
viver mysterioso, aquella inercia, aquella ausencia de vulgares ambies
mundanas.

O pae de Claudio tambem no estava contente, sonhra o filho dominador e
poderoso, e via-o recolhido, calado, indifferente.

--Elle l sabe! pensava comsigo.

Os camaradas de Claudio que tinha conhecido quando ia a Coimbra
levar-lhe a mezada, diziam que elle era muito intelligente. E depois era
rico, podia fazer o que quizesse...

No queria metter-se em politica? Talvez fizesse bem. Para que? Para lhe
gastarem dinheiro e no fim dizerem mal d'elle. Lembrava-se do que
passra na junta de parochia, das ingratides e desgostos que soffrra.

--Elle l sabe, elle l sabe...

Era assim que concluia sempre as suas reflexes, continuando no trabalho
como se no fosse rico, tal qual nos tempos em que todas as suas
ambies se limitavam a ter mais uma junta de gado.

Demais, sentia-se muito cansado para vr sem indifferena as cousas
d'este mundo. A cada instante, nas palestras em que ficava ao domingo
depois da missa, no adro da egreja, com os magnates da freguezia que o
ouviam como a homem de muito juizo, dizia:

--Estou com os ps para a cva.

--Ora deixe l, est novo ainda para gosar esta vida. Os filhos ricos,
agora  que  viver!

--Eu c me sinto, respondia.

E ficava a scismar n'um abatimento, n'uma fadiga que o opprimia e que
tinha como prenuncio de curta durao.

No se enganava. No mesmo anno em que Claudio viera de Coimbra, o pae
soffreu um ataque de _grippe_. Tinha ficado muito fraco; durante muitos
dias arrastou-se pela lareira e pela sala, quasi sempre sentado,
somnolento, caindo bastas vezes em prostrao. O medico vinha vel-o,
desconfiando d'aquella moleza, e um dia em que elle se queixou de que os
ps lhe inchavam, auscultou-o.

--Ha alguma novidade? perguntou-lhe Claudio que o acompanhou at  porta
do pateo.

--Parece haver ali qualquer embarao de circulao, respondeu o medico
com um gesto de descontentamento.

O velho ao fim d'um mez parecia restabelecido, smente um pouco mais
lento no trabalho. Esta fraqueza, esta fraqueza... Isto vae mal, dizia
s vezes. Mas a continuao dos seus lamentos sem symptoma de molestia
notavel acabou por convencer a familia de que no havia perigo
imminente. Assim se passaram cerca de dois annos depois do ataque de
_grippe_ em que o medico confessra as primeiras suspeitas.

Uma tarde, ao recolher a casa, disse  mulher:

--Andei a podar as pereiras e vi geitos de l ficar. Deu-me uma tontura
que, se no me encosto a uma arvore, caia. Isto vae mal!...

Mas a mulher no deu grande importancia ao succedido. Seria fraqueza.
Elle tambem no comia nada... disse-lhe. Sempre aquelle fastio... Era
preciso chamar o medico a ver se lhe receitava alguma coisa que lhe
dsse apetite.

Alguns dias depois, j quasi esquecido aquelle breve incidente, o pae de
Claudio deitou-se  hora habitual e adormeceu. O filho estava ainda para
a villa, a mulher ficra a costurar e o creado preparava as estacas para
a vinha. Estavam em fevereiro, as noites eram longas, ainda se fazia
sero. De repente, da alcova em que o velho dormia, veio esta voz
angustiada:

--Carmo, Carmo, acode-me, estou muito afflicto.

Ella correu ao quarto.

--Olha, disse elle, v se me ajudas, quero levantar-me, falta-me o ar.
Lanou-lhe o brao pelas costas, a mo apoiada no hombro, e, quando
procurava erguer-se, tombou sobre lla, com todo o seu peso, morto, a
cabea pendida sobre o peito.

Para Claudio a comoo foi extraordinaria. Agora, perante os restos
inanimados que tinham sido d'aquelle que mais respeitra, via em toda a
luz o que significava uma vida de honestidade e de trabalhos, a riqueza
e a ordem que em volta de si derramara durante to longos annos. Para
aquelle no tinha havido hesitaes e o triumpho fra completo;
augmentou os bens, serviu os seus e os estranhos, toda a existencia foi
um combate com a natureza, com os homens, com os acasos do destino. Os
braos cairam de fadiga, mas o animo no esmoreceu at ao derradeiro
alento. Quem lhe dra ser assim!...

Para isto, para estas reflexes, no precisava dos livros, nem leituras
nem sabios o inspiravam; o pensamento vinha-lhe do corao, espontaneo,
brotando da alma como a agua do rochedo. Quem sabe?! Talvez fosse vo
todo o caminho andado, tempo perdido o que gastra  procura da verdade,
folheando com avidez os tratados de philosophia d'esses homens que
diziam serem os mestres da humanidade!

O problema da sua existencia voltava-lhe ao espirito, cada vez mais
instante, aggravado pelas muito particulares circumstancias que a morte
do pae trouxera. Que fazer? que fazer?! Era essa a voz interior que a
toda a hora lhe eccoava no peito.

Emquanto o pae vivia, a sua vida accommodra-se a um modo de cousas
transitorio. Considerara a herana do tio como fortuna do pae e no
consentiu que ella saisse da posse d'este. Ia vivendo tranquillamente
com as flores e os livros, ora no seu jardim, ora na sala alumiada e
silenciosa do modesto casal de Villalva, ora nas palestras da villa, ora
em solitarios passeios pelos montes e pelas varzeas, herborisando e
estudando, quando no se quedava a fallar com a gente do campo,
interrogando-a sobre os seus rebanhos e as suas lavouras. Estudava
agora, depois decidiria o que havia de fazer. No o satisfaziam os
livros? Era certo. Por vezes sentia um fastio invencivel de tudo aquillo
e advinhava em si, sem as poder definir, outras ambies, outras
esperanas, outros desejos. Depois, depois resolveria; emquanto o pae
vivesse, no sairia d'ali nem queria saber dos seus bens.

Hoje as circumstancias so differentes. Passados os primeiros dias de
mais pungente saudade, comea a pensar, com um firme proposito de
resoluo, no caminho que lhe convm seguir. Estava rico, com vinte e
quatro annos, que iria fazer da mocidade e da fortuna? Ficar ali?

Era um convento, uma vida estreita, e os livros com que se tinha
aconselhado diziam-lhe que a existencia era uma lucta, o ascetismo uma
doena, e a expanso de todas as foras, de todos os apetites e de todas
as paixes uma lei natural, porventura a condio do vigor e da saude. O
luxo e todos os seus prazeres eram bons. Havia desgraados a quem isso
offendia? Illuso, no era offensa, era a lei do mundo; eram vencidos,
seres inferiores que o progresso da especie exigia que se consumissem na
miseria. No era isso o que a me lhe ensinra e intimamente sentia-se
inclinado  piedade,  modestia,  doura e  tranquillidade? Vicios
hereditarios, casos atavicos, que a regra era luctar, o signal de
superioridade vencer.

Ouviu a me. Disse-lhe que estavam ali muito mal, sem commodidades e sem
conforto, que queria frequentar mais assiduamente algumas relaes que
deixra em Coimbra, e por isso pensava em se estabelecer em Albergaria,
d'onde mais facilmente poderia sair.

Demais, pensava em fazer uma longa viagem que era necessaria para se
instruir; custava-lhe deixar a me em Villalva, entre uma gente
estupida, sem recursos, sem medico, sem ter quasi quem lhe accudisse
n'uma doena ou n'um desastre. Lembrava se do que acontecera com a morte
do pae; por pouco deixou de se vr ssinho nos seus ultimos instantes.

A me ouviu com grande pasmo e surpreza. Na sua simplicidade, tinha
imaginado que tudo estava muito bem, o celleiro farto e a arca cheia de
boas teias de linho. No era aquillo toda a riqueza do mundo, no o
considerava ella como supremo favr de Deus e premio do ardor com que
lhe orava? Isolamento no o sentia, que as horas eram poucas para o
trabalho e corriam ligeiras no labutar constante. Tambem no
comprehendia a falta de recursos; a doena e a morte vm quando Deus
quer, no temos mais que acceitar a sua santa vontade. Mas, se a Claudio
convinha sair d'ali, fizesse como melhor fosse para elle. Vivera sempre
para os outros e agora que j no tinha marido nada lhe custava obedecer
ao filho. A paciencia e a resignao no conheciam limites n'aquella
alma.

Claudio comeou pois a cuidar com impaciencia da sua nova installao.
Arrendou um palacio,  entrada da villa, do lado do poente, com pateo
nobre, escadaria de pedra, grandes salas cortadas de largas janellas
saccadas sobre basta cantaria, vasto jardim e pomares. Tinha sido,
segundo se dizia, dos duques d'Aveiro, e agora pertencia a um avarento
rico de Coimbra que o arrendava barato porque no o queria improductivo,
no queria, na sua expresso, cavallos d'estado.

Vieram moveis caros, louas da India, quadros, bronzes e damascos,
comprados nos bazares de Lisboa por onde Claudio andou em companhia d'um
antigo amigo e condiscipulo que era de gente fina e muito entendido em
_bric--brac_. Veiu tambem um _landau_ e dois grandes cavallos francezes
que tinham pertencido a um negociante que se arruinra em fundos
hespanhoes.

--Pechincha! dizia-lhe o amigo. Isto que aqui vs por um conto e
duzentos, custou mais do dobro. A carruagem  de Binder, os cavallos
esto novos e os arreios so magnificos! O pobre homem vendeu a medo,
envergonhado; se os tivesse annunciado e esperasse, era impossivel que
no encontrasse quem lhe desse mais.

Gastaram-se n'esta primeira installao uns oito contos de ris dos doze
que o Jos Portugal tinha deixado em Coimbra,  ordem do filho, em casa
d'um commerciante da Praa Velha, que lhe cobrava os juros das
inscripes e recebia as rendas que vinham do Minho. O velho, na sua
escrupulosa honradez, pensava sempre em no prejudicar o filho em
proveito proprio ou em proveito da filha casada. Por isso punha de parte
aquillo que em sua consciencia entendia sobrar dos rendimentos da
herana.

--L lh'o deixo, pensava, elle lhe dar a applicao que quizer. No lhe
ho-de faltar terras para comprar. Est ahi a casa do fidalgo que, por
morte d'elle, se vem a vender toda. J no podem com dividas.

Foi o amigo de Claudio, Jorge de Castro, quem veiu mobilar-lhe a casa.

No havia que fiar em estofadores. Um dinheiro e tudo sem gosto! Ainda
ha pouco vira na Avenida a casa do Antonio Ferreira, um negociante da
praa que enriqueceu com a alta da borracha. Pagou mais de trinta contos
ao Gaspar e no tinha um cantinho que se diga: benza-te Deus. Muita
seda, muitos dourados, uma caixa de amendoas! Emquanto o Jos de
Menezes, que se casou ha pouco, com um conto e quinhentos poz a casa
como um brinco. A sala de jantar pouco mais tinha que a meza, uma
credencia, velha baixela de estanho, meia duzia de cadeiras, suspensa do
tecto uma lampada de bronze e nas paredes quatro prateleiras com pratos
de Wedgwood, brancos, na sua brancura leitosa, de leite a desnatar n'um
fundo escuro e mate.

--Original! concluia Jorge.

Aquelles objectos pareciam que tinham acabado de servir e que a todos os
instantes estavam em movimento. Davam uma expresso de vida que os
armadores de profisso desconheciam. Que barbaridades iam por essas
casas de Lisboa! Havia-as armadas em capellas, com muitos pannos, papeis
dourados, jarras de porcelana, flores artificiaes e castiaes de prata;
havia as armadas em tumulo, todas em estuque brilhante e frio; e
havia-as tambem, de amadores improvisados, armadas em museu onde os
moveis, alis ricos e s vezes de grande valor, se accumulavam sem
relao, sem parentesco que os ligasse. Se lhes pozessem rotulos e
preos, a loja era completa. O Menezes no; tinha muitissimo gosto. E
sabia comprar: aquella sala de jantar no lhe custou talvez duzentos mil
ris.

Claudio comprehendia mal a lio do amigo e estranhava o calor com que
lhe era dada; no collegio nunca ouvira fallar de estofos e mobilias, em
Coimbra vivera retirado de elegancias e em Villalva trabalhava-se de sol
a sol; a mais brilhante pea da casa era a enxada polida entre os seixos
da serra. Soubera pelos livros que a arte era a cora da educao d'um
bello espirito e queria-a tambem como tudo o que aos olhos da propria
consciencia podesse engrandecel-o; mas outras eram as suas preoccupaes
interiores. Havia de aprender com tempo e paciencia, quando tivesse a
sua vida mais assente. No tardaria, pensava; tinha uma casa commoda e
de bom gosto, o estudo havia de aproveitar-lhe melhor sob impresses
deliciosas, os progressos seriam rapidos.

No o pensava egualmente a me, abatida com tamanho encargo, a casa, as
salas e os creados. Suspirava pela paz laboriosa de Villalva, baixinho,
em silencio, no fosse o filho ouvil-a e desgostar-se com as suas
saudades.

Estabeleceram-se novos costumes em conformidade com a nova vida, almoo
ao meio dia, jantar s seis horas, as manhs para o estudo, as tardes
para os negocios da casa, visita s propriedades e passeios de
carruagem, as noites... oh! as noites eram realmente um grave embarao.
A botica enfadava, era mesquinha com a sua baixa e insalubre
curiosidade; o jogo era para velhas, um estupido brinquedo; em casa, o
estomago pesado, frente a frente com a velhita, o tedio era extremo. De
resto, ella gostava de fazer sero ao p das creadas, na cosinha, com a
sua velha rocca  cinta, fiando o linho de Villalva. Chegando quella
hora, Claudio no sabia onde se refugiasse.

Valia-lhe s vezes Coimbra, alguma noite no theatro, onde por accaso
encontrava quem lhe fallasse de Flaubert, de Zola, de Comte ou de
Spenser, as grandes preoccupaes de seus estudos. Mas isso mesmo era
raro porque, nos cinco annos que l tinha estado, levra uma vida
bisonha, retrahida e poucas relaes deixra.

D'esse tempo ficaram-lhe apenas dois amigos; Jorge de Castro, que ha
pouco encontramos em Lisboa, aconselhando-o na installao do palacio de
Albergaria, e Jos d'Albuquerque que mais tarde nos vae apparecer
intimamente ligado  vida de Claudio.

Ambos esses amigos eram fidalgos de nascimento e de habitos. Fra
curiosa a maneira porque entre elles e Claudio se crera um profundo
affecto, apezar das tendencias e da origem plebeia d'este ultimo.

Claudio passeiava habitualmente s. Vinha porm todas as tardes a uma
livraria da baixa, na Calada, procurando com avidez as novidades
litterarias chegadas de Frana e prescrutando, entre os livros alinhados
nas prateleiras, o caminho a seguir na sua ancia de saber. Era ali que
invariavelmente encontrava Jorge de Castro e o Albuquerque, propensos
como Claudio a cousas litterarias. D'este modo, por este unico lao,
comeou a constituir-se essa amisade que a uniformidade de sentimentos e
de nobreza d'alma consolidou no futuro. Findo porm o tempo escolar,
Jorge fra viver para Lisboa e em Coimbra s ficra o Albuquerque, em
casa de quem Claudio raro apparecia emquanto estudante, porque todo o
apparato de luxo que encontrava brigava com os seus habitos e a sua
educao.

Agora que mudra de ideias e de aspiraes, aproveitava a hospitalidade
do amigo, para desenferrujar a lingua, dizia, que era uma necessidade
permutar ideias.

Nem assim, com todo este complicado artificio, podia conformar-se com a
vida de estudo que architectara. s vezes possuia-se d'um invencivel
fastio dos livros e corria ao jardim, plantando, regando, limpando as
arvores e as flres, voltando instinctivamente aos bons habitos da sua
educao.

O jardineiro, que contractra em Lisboa, corria logo, que no se
enxovalhasse s. ex., elle faria o que quizesse.

Claudio desculpava-se; era para se entreter, que lhe fazia bem  saude.

--Ora essa! dizia o saloio com espanto e admirando a pericia do senhor.

J tinha tido um patro que tambem fazia o mesmo, o seu gosto era andar
a tratar do jardim, mais era um grande fidalgo, empregado no pao da
Ajuda, muito amigo do sr. D. Luiz!

O estudo no o satisfazia. Foi a concluso a que Claudio chegou no fim
d'um anno de residencia em Albergaria.

Talvez questo de ambiente, falta de incitamento pela ausencia de
camaradagem adequada... O melhor era a experiencia, o conhecimento
directo das cousas e dos homens, sair d'alli, vr o mundo, os grandes
espectaculos da vida, do trabalho, da arte humana e da natureza. Ainda
sobrra alguma cousa do mealheiro que o pae lhe deixra, iria correr a
Europa.

Comearia pela Hespanha, pelas margens do Mediterraneo passaria a
Italia, regressando iria  Suissa, d'ahi pela Allemanha a Moscow,
voltaria pela Suecia, pela Dinamarca e pela Hollanda, iria a Pariz e a
Inglaterra. Nem valia a pena fazer planos! Dirigir-se-ia a Pariz e faria
alli quartel general, centro de todas as excurses.

Escreveu a Jorge, communicando-lhe o seu plano, dando-lhe conta da
morosidade com que o seu estudo proseguia e da maneira por que pensava
em adeantal-o rapidamente com uma longa viagem.

Veria agora a velha Europa, os paizes de mais antiga civilisao, e
ficariam para successivas jornadas o Oriente e a Grecia, a India, o
Japo e a America do Norte.

O amigo applaudia. Quem lhe dra poder fazer o mesmo! Mas tinha casado
cedo, no podia levar a mulher e os filhos, custava-lhe deixal-os, era
contentar com a sua sorte. Passava o vero com a me em Loures, o
inverno em Lisboa, e as suas viagens duravam habitualmente um dia, dois
ou tres em casos muito excepcionaes.

Em Santarem, onde fra com o Antonio de Mello e o Carlos d'Azevedo,
gastra um dia, a jornada a Evora durou tres dias mas j no parava com
saudades de casa, como quando veio a Albergaria, onde recebia cartas da
mulher que eram um sermo de lagrimas.

Tudo tinha compensaes, dizia afinal; se elle, Claudio, tinha a inteira
liberdade de dispender o seu tempo e o seu dinheiro, podia instruir-se e
alcanar uma vasta instruco, elle, Jorge, tinha os carinhos constantes
d'um lar amado e alegre. No era aquillo aconselhar-lhe o casamento. Que
se instruisse agora, que aproveitasse, e a seu tempo l chegaria.

Claudio partiu em abril e jornadeou at ao fim de outubro com uma
impaciencia desusada. No parava em parte alguma, com sde de
impresses, uma embriaguez de aspectos desconhecidos propria de quem
fra creado em horisontes estreitos.

Museus, monumentos, costumes, paysagens, tudo observava, registando na
lembrana conhecimentos novos.

s vezes deixava-se possuir d'um extremo cansano, tinha saudades da sua
terra, parecia-lhe que cousa alguma valia tanto como a paz de Villalva e
at a imagem da sua Conceio d'outros tempos lhe passava meigamente
pelos olhos. Fadiga! Eram momentos passageiros; com esforo e tenacidade
juntaria larga copia de conhecimentos, em casa, no socego do seu canto,
havia de digerir toda aquella massa informe, havia de dispol-a em
theorias e systemas, e ento o saber seria completo e o estudo deixaria
de o enfadar.

Uma tarde, na Flandres, teve uma viso que lhe ficou de lembrana. Saira
de Gand, de manh, a vr uma propriedade modelo que tinha tido o
primeiro premio no ultimo concurso e, j proximo do pr do sol, esperava
o comboio n'uma estao de aldeia. A gare estava deserta e silenciosa;
em volta os campos verdes e planos, emoldurados em altas sebes de
choupos que oscillavam ao vento brandamente; raros casaes dispersos; em
frente a casa d'um lavrador, uma velha  porta, fiando na roda, 
maneira do norte, e ao p uma creana recolhendo as gallinhas ao
poleiro. Que seria da familia? Andava nos campos, certamente.

Em casa ficaram os velhos e as creanas fazendo o pouco trabalho de que
eram capazes. Talvez alli estivesse a suprema sabedoria. Que andava elle
a fatigar-se com vos estudos? O mais sensato seria voltar a Villalva,
casar-se e trabalhar; fazer como aquelles que alli via. Uma pungente
saude acompanhando o sentimento da inamidade de toda a sua vida lhe
apertou o corao e os olhos humedeceram-se n'um movimento de desalento
profundo.

Pariz apagava essas impresses fugitivas; desfaziam-se rapidamente na
sua atmosphera de luxo, de prazer, de epicurismo.

As theorias materialistas aprendidas nos livros confirmavam as
instigaes dos sentidos. Claudio convencia-se de que a verdade era a
riqueza e o progresso dos gozos e das commodidades. A lucta pela vida
reduzia-se  expanso naturalista,  conquista dos regalos do corpo. Que
mais poderia significar? Que valor poderia ter o sacrificio pelos
outros? No lh'o encontrava, de facto. Talvez utilidade social... mas
isso era uma cousa vaga, indefinida. Guia seguro s a expanso do
individuo, a satisfao dos seus appetites; o resto, preoccupaes
moraes, eram vicios hereditarios, remanescente d'um estado metaphysico
que a sciencia condemnava.

E n'estas idas voltava em fins d'outubro a Albergaria, com um
scepticismo convencional, mal ajudado pela experiencia do luxo dos
hoteis caros das cidades, e sempre em contradio com constantes
inclinaes interiores para outras e mais altas paragens.

Os primeiros dias que seguiram o seu regresso foram para ouvir a me e
visitar as terras. A me contava-lhe ingenuamente o que se passara na
sua ausencia; as colheitas tinham sido boas, regular anno de vinho e
abundante de milho. No chegaram as vasilhas da adega, mas, como o filho
no estava, no quiz sem consentimento d'elle comprar novos toneis e,
para o que faltava, pediu-os emprestados. Encheu-se tudo o que havia em
casa e mais duas vasilhas de noventa almudes que se pediram. Se o preo
fosse bom, era uma riqueza. Iam agora comear com a azeitona. Tambem no
era mau anno mas o feitor dizia que no passaria de metade da colheita
anterior. Os creados  que muito lhe custavam a supportar, sempre com
intrigas, com invejas, trabalhando pouco e exigindo muito.

--Grande no, grande tormenta, dizia lembrando-se com saudade dos tempos
de Villalva e do socego em que l vivera durante quarenta annos.

Claudio ouvia com interesse as palavras da me. Involviam-lhe o corao
n'um alento d'amor que ha muitos mezes desconhecia; todo se entregava a
esta caricia que recebia como uma beno. Demais, nunca tinha esquecido
a casa e as lavouras; os habitos da infancia arreigaram-se-lhe no
espirito, o ruminar dos bois, o latido dos ces e o murmurio do
arvoredo, todos os doces ruidos que acompanham a vida dos campos
tornaram-se para os seus ouvidos o mais mavioso dos cros cuja harmonia
lhe fazia esquecer o mundo e os homens para o confundir pantheistamente
no movimento da natureza. No eterno canto que da terra se desprende, a
sua alma vibrava unisona.

Por isso, voltando a casa, tudo corria e via, interrogando secretamente
esses queridos seres que ainda na mudez lhe respondiam. As folhas dos
platanos voavam j pelas ruas do jardim levadas no humido sudoeste que
ia trazer as primeiras chuvas do inverno, os loureiros comeavam a
destacar negros entre os choupos amarellecidos, as aguas corriam livres,
 borda dos campos relvosos, frescos dos copiosos orvalhos do outomno;
abria-se a hora do recolhimento e da treva.

Tambem para elle, tambem para Claudio era chegada a hora de recolhimento
no estudo, pelas noites de inverno ou pelas suas geladas manhs, junto
ao fogo propicio. Descansado o corpo das jornadas, banhado o espirito
n'esta atmosphera amiga, havia ento de estudar e, alliando com as
leituras a recordao do muito que vira, as infinitas impresses que
armazenara na memoria durante seis mezes em que correra sempre, n'este
novo consorcio o estudo havia de ser captivante e util. Passaria ali o
inverno, todo o vero seguinte, ainda outro inverno, e depois iria em
nova viagem, pelo oriente. Assim proseguiria na sua educao.

Os dias porm iam correndo, estavamos j em meiado de novembro, e os
livros trazidos de Paris jaziam intactos, em monte, a um canto do
gabinete, entre recordaes de viagem, um punhal de circassiano comprado
em Tula, mosaicos de Florena e vidros de Veneza. Ia addiando a hora de
comear como um estudante relapso; todos os pretextos lhe serviam, a
necessidade de frequentar o lagar que precisava reparao, as visitas a
antigos conhecimentos de Coimbra, um novo curral que construia em
Villalva,  maneira do que vira na Hollanda. Dissipava o tempo n'esta
inquietao, com um inconfessado temor dos enfados do estudo. Lia
desconexamente grande copia de romances, Bourget, Tolstoi e os russos,
cuja fama no occidente despontava a este tempo, mas os volumosos
tratados de sciencia e de philosophia continuavam esperando.

s vezes sentia saudades de Londres, de Paris e dos seus prazeres.
Estudo, lavouras, deveres sociaes, destino da sua vida, tudo passava
ento ao rol das phantasias. Tinha vinte e cinco annos, uma fortuna
regular, que fazia ali, para que privar-se de gozos? No eram o seu
legitimo direito? Amar, beber, regalar os olhos e os ouvidos nas
maravilhas da arte, em artistica sensualidade, era o que lhe convinha,
era o que cabia  sua edade, era o que havia de lhe trazer em recompensa
o riso e a franca alegria de que tanto carecia e em que corpo e alma
haviam de expandir-se salutarmente. A natureza protestava contra a
clausura.

E os piedosos conselhos da me? Coitada! Illuses das almas simples; a
verdade era muito outra. No tinha sido vo o baptismo nas aguas de
cynismo epicurista em que se inicira pelos templos afamados da
devassido cosmopolita.

Era n'esta crise do seu espirito que lhe apparecia Emilia.




III


Em casa do dr. Carvalho, Claudio pouco fallou com Emilia, elle prezo a
uma meza do _whist_, para ser agradavel ao juiz que sem isso se
aborrecia, ella dansando sempre. Tinham vindo as Andrades, de S. Luiz,
as Silvas, de Barrosas, raparigas novas, muito praticas em galanteios e
n'esta especie de reunies, de fluente banalidade. Animavam muito,
dizia-se; com ellas e quatro estudantes que de Coimbra acompanharam o
sobrinho do doutor, as valsas e as quadrilhas seguiram-se quasi sem
interrupo.  meia noite parecia haver certo cansao, mas, como o
doutor mandasse servir sandwiches e vinho da Madeira, a alegria
renovou-se.

--Que bella noite! dizia um dos estudantes para as damas. O peior 
manh a _cabra_. Eu ainda no vi nem uma linha da lio. Provavelmente
j no me deito. E ainda por cima as saudades... No sei o que ha de ser
de mim!

Uma das Andrades, que se agradara do rapaz e via j ali correspondencia
amorosa para uns bons seis mezes, apressava-se a responder-lhe:

--Agora no esquea o caminho!... D'aqui a pouco temos o Sagrado Corao
de Jesus. No falte. Quero ver...

--Se eu poder... Queira Deus que no venha a cahir em frias de ponto!

Cerca das duas horas, o juiz deu a sua partida por finda e Claudio veio
ento a uma janella respirar por um momento o ar fresco da noite e
repousar a cabea aturdida pela immobilidade e pela atteno forada.

O dr. Carvalho, vendo-o s, abeirou-se d'elle para o distrair.

--Tem-se aborrecido muito, no  verdade?

--No!... Pelo contrario! Basta a travessura d'estas meninas para nos
communicar alegria. Esta D. Emilia, principalmente,  d'uma
vivacidade...

--Ah! muito galante!

--E fina...

--Parece incrivel que ella ainda conserve estas maneiras fidalgas, a
viver todos os dias com um homem d'aquelles!

-- grosseiro, o marido?

--No imagina!

--Pois eu suppunha-o um pobre diabo, s um pouco amigo de vinho.

--No, muito longe d'isso!  d'uma grosseria e d'uma brutalidade nunca
vistas. Eu conheo perfeitamente a historia d'essa rapariga, por um
condiscipulo meu que era muito l de casa d'ella e creio at que ainda
parente.

E contou:

--Esta rapariga foi educada em Lisboa com poucos meios mas andando
constantemente em muito boa roda, porque a familia era realmente muito
fidalga. Os paes estavam quasi sempre por Penacova. Tinham ali proximo,
no Chello, uns bemsitos, uma casa na villa, e para economisar,--coitados,
no havia melhor!--viviam l todo o anno, com excepo do tempo que
passavam na quinta do morgado do Vro que os convidava muito, para os
ajudar. Dos quatro filhos que tiveram, o mais velho, uma rapariga,
morreu de variola, dos rapazes um assentou praa, creio que j est
tenente, o outro que era um estroino, foi para o Brazil, e esta, a
Emilia, casou, mesmo em Penacova, com o Ricardo que ao tempo era
escripturario de fazenda e que s depois foi nomeado escrivo, por muita
instancia do morgado do Vro com o Marques Lino, deputado pela Louz.

Foi um casamento de paixo. A rapariga vinha l de Lisboa, habituada a
muita convivencia e a muito namorisco, encontrou se s, no tinha mais
ninguem que lhe fizesse a crte e apaixonou-se. Os paes ainda se
oppozeram, tinham-n'a educado com a esperana de lhe arranjarem um
casamento rico, mas comearam, com estas cantigas do costume, a
dizer-lhe que o Ricardo era muito bom rapaz, que no era o dinheiro que
fazia a felicidade, e, como eram babosos pela filha e ella andava
doidinha de todo, l se deixaram levar e o casamento foi por diante. Ora
o Ricardo no  to papalvo como parece; o que elle  sei-o eu, um
grande relaxado com muito pouca vergonha e muita impostura, que se
convenceu de que a proteco da familia da mulher ainda o podia levar a
escrivo de fazenda, como levou. Mas mal se apanhou servido, fez-se
ento um bebado descarado, sempre pelas tabernas, com amigas rles, e em
casa com uma linguagem desbragada, dizendo toda a casta de obscenidade
deante da mulher e dos filhos...  impossivel que esta mulher, para quem
manobrasse com arte... Deus sabe at o que ella ter feito por outras
terras!... porque no creio que ella com o genio desinvolto que tem e
vendo o que o marido  e como a trata...

--Mas no consta nada?! interrompeu Claudio.

--No... mas aquillo no falha. Estava bom para si que  novo e tem
tempo para essas cousas!

--Para mim?

--Sim, para o senhor. Ainda queria melhor?

--No so annos de fortuna! respondeu Claudio sorrindo e encaminhando-se
para o centro da sala, d'onde vinha o juiz a despedir-se do Carvalho.

--Que boa aventura! pensava Claudio instantes depois, passeando a passos
largos no seu gabinete, de regresso de casa do dr. Carvalho.

Era o que lhe convinha; mulher bonita, graciosa, educao aristocratica.
Que desenfado para os seus ocios de Albergaria!

Ella era captivante, estava alli aborrecida, contrariada, o marido
desleixado, sempre pelas tascas, repellente para quem se mostrava de
habitos to finos e sensibilidade to delicada. No devia falhar a
aventura.

Marcava-lhe prazos: um mez para conquistar a confiana de Emilia, mais
dois de correspondencia amorosa, ao terceiro a primeira entrevista e o
resto estava certo.

Era claro! Uma mulher casada sabia bem para que era que elle lhe fazia a
crte. No tinha a esperar casamento. Devia ser boa essa situao em que
nunca podia haver compromissos de futuro. E o marido? Com aquella
obesidade, calvo e de lunetas, no seria de temer.

Depois, tinha com certeza necessidade de dinheiro; no se mostrando
muito avaro, havia de o manter em boa disposio. Um achado, um achado!
O peior era a me; no havia de gostar, haviam de lhe produzir grande
impresso os amores com uma mulher casada. Coitadita! No sabia o que
era a lei soberana da lucta pela vida. Por que privilegio aquelle
immundo bebado guardava para si uma deliciosa mulher?

Elle, Claudio, era novo, rico, agradava-lhe mais do que qualquer outro;
estavam no seu direito, haviam de amar-se livremente.

A natureza no conhecia fidelidades nem infidelidades; os seres
attraiam-se por seleco natural, no havia fugir  lei.

Demais, isto era uma aventura; se a velhita se mostrasse muito
contrariada, punha-se termo ao episodio. Nem a elle convinha
prolongal-o. Um anno, quando muito; na primavera seguinte, malas feitas
e a caminho do Oriente! Nada de se prender com pieguices; isso era bom
para os tempos em que ia ao Outeiro fallar com a Conceio e tinha
escrupulos de lhe tocar. Fra bem tolo! Se fosse agora, o caso seria
outro. J era tempo de ser homem.

Meditava todo o plano de campanha. No dia seguinte iria visital-a. Era
correcto. Continuariam a conversao da estrada de S. Braz, que ia em
bom caminho de intimidade, e no sairia sem deixar ajustado sob qualquer
pretexto novo encontro. Era preciso bater a caa sem cessar.

Os devaneios da imaginao amorosa prolongaram-se at altas horas da
noite. E adormeceu contente, nas suas risonhas esperanas.

Pela manh dirigiu-se ao seu gabinete, para estudar como de costume!
Abriu um livro de botanica, mas no estava em boa disposio de leituras
scientificas.

Era melhor um livro de pura litteratura. O qu? Tourgueneff? No; eram
tristes estes russos com as suas lamurias sobre a vida, sobre a miseria
e a dr. Eram fracos; questo de clima, de lymphatismo e inaco forada
pelos rigores da natureza. Com um sol to lindo e o jardim como um
aafate perfumado de rosas e de lilazes seria barbaro embrenhar-se em
pensamentos sombrios.

Vejamos outro. Balzac? Tambem no; era uma obsesso de gente fallida,
credores e agiotas por todas as esquinas, outra especie de fraqueza, a
angustia da cubia.

Outro ainda, vamos correndo a estante. Merime! Ah! Merime... este sim,
este era um homem so. Sceptico, dizem. Que importa? No  o scepticismo
a verdadeira philosophia? Quem pde dizer-me o que  vicio e o que 
virtude? Phantasias! O que existe  a natureza humana com todas as suas
foras e a sua expanso. A harmonia ha-de sair da lucta, deixemos livre
o instincto.

Abriu as _Cartas a uma desconhecida_ e foi sentar-se proximo da janella,
comodamente estirado n'uma poltrona ingleza. De todo o jardim se evolava
uma sensualidade triumphante e cariciosa, murmurios de regatos,
scintillaes do orvalho na folhagem mimosa, balsamos das flores que
desabrocham, vozes sentidas das aves que se amam e preparam o ninho.

Sentiu-se levado n'essa onda que o attraia  sua doura, pousou o livro
sobre os joelhos e, apoz breves minutos de hesitao, lanou-o sobre a
mesa e desceu a vaguear pela sombra dos platanos,  beira dos lagos que
os ramos beijavam, curvados, em mystico amor. A imagem de Emilia no lhe
deixava os olhos e, ancioso por encontra-la, ia pensando no que lhe
diria, todo entregue vaidosamente aos sonhos de conquistador.

Ao meio dia foi almoar.

De noite fizera somnos curtos, inquieto, o corpo morbidamente irritado
da atmosphera de fumo e de poeira em que permanecera durante cinco
horas. Cada vez que accordava, a custo conciliava novamente o somno; era
um dormir febril em que o retrato de Emilia permanecia como viso
insistente. Por isso, depois do almoo, cedendo  fadiga e ao torpor da
digesto, adormeceu novamente n'um divan do seu gabinete. Quando
accordou, eram cerca de duas horas da tarde. Exultava. Dentro em pouco
estaria ao p da sua amada.

Foi vestir-se; tirou do guarda-roupa o traje mais elegante que trouxera
de Londres. A gravata era um problema; as mulheres attentam em todas
estas frivolidades e  necessario satisfazer-lhes o espirito. Luvas,
sapatos, meias, bengala, outros tantos pontos a resolver e que Claudio
considerou um a um, experimentando e observando, em frente do espelho.

Saiu de casa proximo das tres horas. A meio da praa, lembrou-se de que
tinha de passar em frente da botica e o pharmaceutico ia estranhar-lhe o
traje. Hesitou; voltaria atraz e sairia pelo jardim. Poderia ser que
elle o no visse... Foi para diante. De facto, o pharmaceutico dormia a
ssta. Por esta vez, estava salvo da interrogaes compromettedoras.

 porta da casa da rua da Cruz, em que morava Emilia, bateu de mansinho
duas pancadas com a bengala, que eccoaram seccamente na pequena escada
despida e na. Sentiu-se um abafado rumor de passos apressados e veiu
abrir a porta uma rapariga descala, os cabellos curtos, escondendo as
mos sob um avental de riscado.

A rapariga olhou Claudio com surpreza.

--O sr. Almeida est?

--O sr. Almeida est a descansar.

--E a sr. D. Emilia?

--A sr. D. Emilia acabou ha pouco de jantar.

--Leva-lhe este carto e diz lhe que eu desejava fallar-lhe, sim?

E tirou da carteira de couro da Russia, com monograma de ouro, um carto
em que se lia: _C. de Sousa Portugal_. Mandara-os fazer em Paris, eram
os que usava no estrangeiro e j por vezes o tinham feito passar por
conde.

A creada voltou:

--Que faa favr de subir...

Claudio subiu e encontrou-se n'uma sala pequena, rectangular, com uma s
janella saccada, e tendo por toda a mobilia um sof coberto de palhinha,
algumas cadeiras, um tapete, uma meza com um panno vermelho, sobre ella
um candieiro, dois castiaes, um par de jarras vasias e um album de
photographias, e na parede um retrato a carvo, mal desenhado. A pobreza
transparecia n'aquella nudez.

Emilia appareceu immediatamente, com um vestido de chita clara muito
singelo, apertado no pescoo por uma larga fita de velludo preto e um
alfinete de prata, um s annel, a alliana, na mo esquerda, o pequenino
p bem calado de preto. Apertou a mo a Claudio e, comeando a
conversa, disse-lhe que o marido estava a descansar mas que ia chamal-o.

--No o incommode v. ex. por minha causa, vinha s apresentar a v.
ex.s os meus respeitos.

--Mas elle  que ha-de sentir no o vr.

--Pelo amor de Deus lhe peo, no o incommode.

Sentaram-se. Fallaram da reunio da vespera e apreciaram a belleza das
raparigas que l foram. Claudio teria estado melhor se podesse conversar
um pouco mais, e accentuava significativamente estas palavras; mas o
juiz, coitado!  que j no prescindia do _whist_ e no quiz
contrarial-o. A ella por certo no tinha acontecido o mesmo. Dansra
toda a noite e n'isso estava a suprema felicidade, no era verdade?

A conversao da estrada de S. Braz recomeava. Pela janella aberta
via-se um largo campo em que uma rapariga graciosamente curvada ceifava,
balouando a fouce com agilidade, o azevem prestes a amadurecer que se
estendia n'um vasto lenol, ondeando ao vento, em fugidios reflexos
prateados; em baixo, tremiam os choupos verdes e luzentes, bordando os
caminhos e abrigando os regatos; ao longe, a orla negra do horisonte com
os montes cobertos de pinhaes; o ambiente, tepido e perfumado, dos fenos
que seccavam ao sol, as pavas alinhadas na terra e polvilhadas de
pontos amarellos, murchas flores de malmequeres.

Viver n'aquella casa e dizer mal da vida provinciana era uma injustia
com a feliz sorte que o destino lhe concedia, dizia Claudio. Que linda
payzagem! Nunca ali tinha vindo e era decerto um dos pontos mais bonitos
da villa.

--Todos me dizem isso mesmo, respondia Emilia; mas ou por estar
habituada ao local ou porque realmente no est no meu feitio apreciar
estas cousas, nunca penso em tal paysagem. Venho  janella para vr se
temos sol ou se temos chuva. S este silencio  de morrer! Parece-me que
estou n'uma sepultura, eu que fui educada no meio de tanta gente. No!
Por emquanto no me dou por convencida!

--Mas hei-de convencel-a, creia v. ex. No me ser difficil.

--Talvez...

--Com certeza. E mais tarde v. ex. ha-de agradecer m'o. Ser o meio de
se aborrecer menos em Albergaria.

N'isto, o escrivo assomou  porta d'uma alcova, em chinellos, sem
luneta e sem collarinho, a camisa desabotoada.

--Oh! disse confuso, queira v. ex. perdoar, sr. doutor. Estava a
descanar, senti fallar e levantei-me pensando que era o meu
escripturario que ficou de me trazer esta tarde o borro das novas
matrizes da Afurada. De frma que...

--Ora, sem cerimonia,  sua vontade. O que eu sinto  ter vindo
perturbar-lhe a ssta, mas no queria deixar passar mais tempo sem vir
apresentar os meus respeitos a vv. ex.as.

--Muito obrigado, muito agradecido, no era necessario incommodar-se.

--Estava admirando estas lindas vistas de sua casa...

--Ah! sim, no so ms, mas a casa no presta para nada. Ora eu lh'a
mostro que ella depressa se v.

Emilia crou. Envergonhava-se da sua pobreza.

--Quem anda sempre com a mala s costas, disse, sem paradeiro, no pde
ter a casa em ordem. V. ex. vae pasmar da nossa sumptuosidade.

--Que importa! apressou-se a responder Claudio, accudindo ao embarao de
Emilia. Bem pequena era a nossa casa de Villalva e viviamos l
contentes. Estou quasi arrependido de ter mudado.

O Ricardo mostrou a casa: a sala, dois pequenos quartos, uma sala de
jantar e para alm, indicava, a cosinha, a dispensa e um quarto para as
creadas. No tem mais nada; l em baixo uma loja para a lenha, este
pedao de quintal que se v d'aqui, e mostrava o da janella; serve para
os pequenos brincarem.

--Um cantinho delicioso; s esta vista vale um palacio, dizia Claudio.

--No estou descontente. Na Pampilhosa habitei uma casa que nem vidros
tinha! Esta ao menos  mais limpinha.

De p, em frente da janella, conversaram ainda algum tempo. Claudio
pedia informaes da casa, perguntava os limites da propriedade, quanto
teria custado e se se vendia. Tinha pertencido a uns fidalgos de
Penella, era agora d'um brazileiro, e provavelmente vender-se-ia porque
elle trazia a propriedade muito desprezada e arrendada.

-- tentadora. Se fosse minha, fazia-lhe a casa um pouco mais abaixo, de
frma que podesse descobrir toda a varzea.

--Compre, compre, dizia Emilia. Que bom visinho!

--No me quero prender, tenho ainda uma vida to incerta... E no
incommodo mais a v. ex.as, disse abruptamente, curvando-se e estendendo
a mo a Emilia. Com a palestra ia a esquecer-me de que tinha vindo
perturbar-lhes o seu socego. A culpa no  minha, a culpa  da
amabilidade de vv. ex.as.

--Ns  que ficamos muito obrigados  sua amabilidade, replicava ella.
Quando quizer apparecer... Estamos quasi sempre em casa;  noite mesmo,
s saimos aos sabbados, a casa do dr. Carvalho.

--No me despeo d'acceitar o favor, ia dizendo j a caminho da escada.

--Mesmo para vr se me converte  boa doutrina...

--Hei-de converter, por Deus!

Claudio sahiu contente. A sua intimidade com Emilia caminhava a passos
largos; ainda ha dois dias era uma desconhecida e j hoje lhe offerecia
relaes continuadas. O escrivo tambem devia estar contente; um
desgraado, sempre perseguido dos credores, havia de exultar com a
amisade de quem lhe podesse valer com largueza. Era no desanimar nem
perder tempo. Fallavam-lhe em ir l  noite? Aproveitaria. Excellente! E
depois Emilia cada vez lhe parecia mais tentadora. O que era a educao!
Ainda n'aquella pobreza, que aceio, que ordem, entre quatro paredes
caiadas e nas! Que differena entre aquelles habitos e o desleixo
provinciano. J mais de uma vez tinha notado como iam bem vestidos, na
sua modestia, os dois pequenitos de Emilia que via  tarde, na botica,
passando da escola. Devia soffrer muito a infeliz rapariga, to fina de
nascimento, ligada a um homem estupido e boal que necessariamente a
trataria como a qualquer escripturario de fazenda.

Uma breve impresso de piedade lhe passou no corao, mas immediatamente
procurou affastal-a. Era uma preza que buscava, uma amante delicada e
fina que lhe satisfizesse os sentidos e o espirito, j com pretenses a
gsos artisticos; nada de romantismos. Se se punha com pieguices,
tinhamos outra Conceio, e para vergonha uma bastava. Aquella
desculpava-se por creancice; agora devia ser homem. Ia gosar, no ia
chorar.

Cuidado, muito cuidado, para que no dsse algum passo em falso e
prejudicasse a sua grande ambio! N'isso  que devia pensar. O resto...
nada de escrupulos; se no fosse elle, havia de ser outro; era
impossivel que ella se no aborrecesse d'aquelle bebado que demais
tinha, segundo diziam, uma amante em Coimbra. Deus sabe mesmo o que j
teria acontecido pelas outras terras onde ella andou. Caa d'arribao!

E com estes pensamentos fortalecia o animo para a sua nova empreza.

Emilia dissera-lhe que apparecesse  noite; havia de o fazer, era at a
hora que mais lhe convinha.

Como tudo se encaminhava ao sabor dos seus desejos!

O dia livre para o estudo e para cuidar dos bens, a noite, essa noite
que at agora tanto o enfadava, para as caricias da amante.

Talvez que o grande erro da sua vida, o motivo pelo qual nunca podra
seguir no estudo cingindo-se aos programmas que architectava, fosse esta
ausencia de prazeres.

Tambem devia contar com elles, como homem que era, para a propria
perfeio, para alcanar a plenitude de desenvolvimento mental a que
aspirava.

Para isso a influencia da amante devia ser salutar, vinha preencher uma
lacuna da sua existencia.

Os impulsos de namorado transformavam-se na alma de Claudio em
esperanas de gozo, de paz e de saber, d'essa vida tranquilla e nobre;
e, o espirito enlevado n'esta illuso, esperou alegre a noite em que
havia de voltar a casa de Emilia.

No foi no dia immediato quelle em que l esteve pela primeira vez.
Mostraria uma pressa que ao marido se podia tornar suspeita, e
vaidosamente resolbra usar de todas as precaues que  sua conquista
conviessem, como homem astuto e habil. Nem sequer lhe devia passar 
porta.

Andou pelas suas terras, foi a Coimbra vr os amigos, palestrou
alegremente com o boticario, passeou bastas vezes no jardim, e assim
consumiu o tempo d'estes dois dias que precederam a nova visita a
Emilia.

Nada estudou e pouco pde lr; no se sentia em boa disposio, a
alegria distraia-o, inquietava-o. Em pouco tempo, pensava, viria a
tranquillidade, quando a sua vida estivesse definitivamente fixada.

Approximava-se a hora d'esse encontro em que punha tantas esperanas.
Seria melhor vestir-se antes de jantar e poderia mesmo referir-se a esse
facto na conversao que tivesse com ella; devia engrandecel-o aos seus
olhos o habito elegante de, ainda na provincia e s, mudar de trajo para
se sentar  meza. Mas entre o fim do jantar e a hora de sair medeiava um
espao de tempo em que no sabia que fazer... Era melhor vestir-se ento
e a Emilia diria do mesmo modo que se tinha preparado para o jantar.

Mentir! No era isso to mau, no lhe repugnava to profundamente? Sim,
mas por costume, por vicio de educao de que necessitava corrigir-se.
Se a mentira era um instrumento proprio a conseguir o seu fim, porque
no o havia de usar? A lucta pela vida, a lucta pela vida! Grande lei!
N'essa  que precisava inspirar-se.

O jantar, em companhia da velha me, que lhe chamava ceia e pouco comia
porque, dizia, tinha jantado ao meio dia, foi breve. Quando terminou,
ainda a noite no se tinha cerrado.

Claudio recolheu-se aos seus aposentos; ia vestir-se pausada e
esmeradamente. O relogio, parecia-lhe, caminhava lento; mau grado seu,
achou-se prompto ainda no eram oito horas. Tinha-se impacientado
talvez, apezar do proposito em contrario que fizera.

Era cedo, mas tambem custava-lhe esperar alli, quieto; ia dar um pequeno
passeio e depois das oito horas se dirigiria a casa de Emilia.

Desceu a estrada que vae a S. Braz. Ao fundo da descida, sentou-se n'um
banco de pedra que alli havia. No iria mais longe. A poeira enxovalhava
o e no queria voltar a casa para se limpar; poderiam estranhar tantos
cuidados.

A noite estava calma e morna; sobre a sua cabea uma abobada de arvores
colossaes, cortada a espaos breves e raros pelas manchas do cu que
empallidecia  luz do luar nascente.

Alm, para l do valle em que as aguas corriam murmurosas, ficava a
casaria da encosta, ainda na sombra; depois, a viva crista dos montes;
por detraz, erguia-se a lua jorrando silenciosamente a claridade. Nos
loureiros,  beira dos regatos, debruados sobre alfobres mimosos,
cantavam os rouxinoes.

Claudio sentiu-se penetrado de poesia e de amor. A figura de Emilia
passou-lhe nos olhos como uma appario de pureza; no era n'aquelle
momento a sensual amante que buscava, era uma belleza ideal que adorava.

Romantismo! oh! o maldito romantismo que o atacava! Quando se veria
livre d'aquella molestia? Porventura seria incuravel e nunca chegaria a
sua hora de forte e viril razo? Procurou dissipar estes sentimentos,
que tinha por fraqueza, e comeou a pensar no que iria dizer  Emilia.

Precisava lisongear-lhe os caprichos e instinctos feminis, fallar-lhe de
elegancia, mostrar-lhe com que luxo vivera em Paris, no _Continental_, e
como sabia aprecial-o. Por este meio havia de alcanar a sua admirao;
d'ahi a mostrar-se em confronto com a grosseria e a rudeza do marido, o
caminho era curto. No poderia escapar-lhe.

Tinham batido oito horas. Emfim!... Era tempo. Podia ir sem risco de
mostrar ignorancia dos costumes elegantes.

Encaminhou-se para a rua da Cruz. Estava ancioso e desesperado da sua
anciedade. Sempre aquella fraqueza nos momentos difficeis! Difficeis
no, porque aquelle no tinha a menor difficuldade. A consciencia da sua
desproporcionada agitao mais o irritava. Que podia temer? Que o no
recebessem? No voltaria. Que Emilia se contrariasse com os seus
galanteios? Teimaria; nem sempre se vencem campanhas em uma s batalha.
Era pedir muito. Vaidade da sua parte; concluia. O que elle receiava era
a infelicidade na sua empreza que tomaria por uma prova de incapacidade
para as luctas do mundo. Coragem, firmeza! No havia de succeder assim.

Em casa do escrivo, veiu abrir a porta a creadita descala, correndo
pressurosa, da cosinha, onde preparava o ch, mangas arregaadas e o
leno mal atado, quasi solto, a cair-lhe nos hombros.

--A sr. D. Emilia recebe? perguntou Claudio, suspeitando de que Emilia
o ouvisse e procurando uma linguagem elegante.

--Os senhores esto na sala, respondeu promptamente a creada. Faa favr
de subir.

Proximo da meza, illuminada por um pequeno candieiro, Emilia costurava,
um pequeno aafate pousado ao lado sobre uma cadeira, e Ricardo lia um
jornal approximando-o da luz, tomando quasi toda a meza sobre que
estendia os braos e o papel.

--Seja bemvindo! exclamou Emilia com uma irreprimida e franca alegria.

--Eu tinha promettido... comeou Claudio.

--Faz-nos muito favr, interrompeu Ricardo. Nos dias em que no tenho de
ir a Coimbra  sempre esta semsaboria. Olhe, os pequenos j esto
deitados; mal anoitece, comeam logo a cair com somno. A Emilia passa o
tempo com os farrapos. A mim, o que me vale  o _Seculo_.  muito bom
jornal. V. ex. no costuma ll-o?

--No, nunca o vejo.

--Pois  bom. s vezes traz tres folhetins!  o que me vale. E ainda
assim, quando Deus quer, s nove horas estou na cama. Quando quizer...
faz-nos muito favr.

--Eu receiava vir perturbar o socego d'este cantinho. Imagino que os
celibatarios ho-de ser muito importunos para a gente casada.

--Por mim nunca receie, disse Emilia. Ainda no pude habituar-me a
deitar-me cedo; antes da meia noite no durmo. Por aqui me entretenho
conforme posso. E ainda v. ex. quer que me conforme com a vida de
provincia!... S estas noites so um castigo!

--N'esse ponto concordo. Tambem me custam um pouco.

Ia recomear a antiga conversao. Estavam satisfeitos os desejos de
Claudio; teria ensejo de mostrar que, apezar das suas preferencias pela
vida do campo, sabia o que eram os prazeres da vida aristocratica,
experimentra-a, e em Paris tinha andado em todos os regalos do luxo.
Para Emilia devia ser uma fascinao.

Mas em breve a conversao caiu no extremo opposto. No era de Paris que
se fallava, era de Villalva, da sua paz e das suas alegrias. Emilia
ouvia-o com tanto interesse, to meigamente o instigava  intimidade que
Claudio, impensadamente, esquecendo todo o proposito anterior, caiu no
mais completo abandono e comeou n'uma confisso sincera, espontanea,
d'um corao que estava a trasbordar d'affecto, almejando por um corao
gemeo em que o vertesse.

Contava a morte do pae, a surpreza com que, recolhendo a casa, fra
encontral-o no leito, os olhos cerrados e a face livida, n'uma
serenidade em que lhe parecia sobreviver um reflexo da sua imaculada
consciencia.

Relembrava as silenciosas lagrimas da me junto do cadaver do esposo e
quanta grandeza vira n'aquella mudez de estatua, n'aquella dr to pura
que se concentrava recatada, como temendo polluir-se no contacto com a
indifferena mascarada de lucto que sempre apparece n'essas horas. Elle,
Claudio, no chorava. Sentia-se esmagado, mesquinho, perante esse quadro
em que se resumiam tantos annos de communho no amor e no trabalho.
Intimamente perguntava em que dissipra os trinta e tres annos da sua
existencia.

S mais tarde  que poude sentir uma infinita saudade; s mais tarde 
que percebeu bem o desapparecimento d'aquella sombra querida a labutar,
a labutar, pelas frescas alvoradas, pela ardencia do sol, pelo frio
penetrante, pelas noites do estio, ao frouxo reverbero das estrellas. No
primeiro instante, fra apenas uma grande lio. Que era a sua vida de
estudo ao lado d'aquella ignorada epopa? Aquelle sim, aquelle tinha
chegado ao posto, aquelle tinha sido digno.

A confisso corria torrencial, como as aguas do aude que se despenham.
Ricardo ouvia e vagamente presentia qualquer cousa captivante; Emilia,
na sua delicadeza femenil, deixava-se levar n'um surdo e inconsciente
arrebatamento de admirao. J no provocava a conversao,
interrogando; o mais espontaneo tornava-se para ella o mais agradavel.
E, quando Claudio vendo o relogio se ergueu, ella exclamou com visivel
pezar:

--J?!

--So dez horas e no quero contrariar os habitos de v. ex.as Estou
aqui ha duas horas! Para scca no foi pouco.

--Quer provocar amabilidades, disse Emilia. Pois no lhe fao a vontade!
No digo nada.

--Faz v. ex. muito mal. Quem cla consente e eu sou capaz de voltar.

--Queira Deus que seja breve!

Ricardo acompanhou Claudio at  porta e voltando  sala:

--Parece ter bom corao este rapaz, disse, dirigindo-se a Emilia.

-- muito sympathico e muito fino, respondeu ella. Ninguem ha-de dizer
que foi creado na aldeia.

--L ests tu com toleimas. Imaginas que s essa gente de Lisboa  que
sabe conversar. Um rapaz rico e que tem viajado!...

Emilia no replicou. Temia as brutalidades de linguagem do marido e no
queria provocal-as.

Ambos se alegravam com as novas relaes: ella, porque via em Claudio
uma boa companhia para attenuar o aborrecimento das noites provincianas
e o marido porque systematicamente cortejava todas as pessoas ricas que
poderiam ter influencia, esperando alcanar melhor collocao. A sua
aspirao, presentemente, era passar para recebedor; teria menos
trabalho e mais alguns proventos.

S Claudio  que saira descontente da rua da Cruz, descontente da sua
inhabilidade, interiormente humilhado do seu procedimento. No era
aquella a conversao que tinha marcado como inicio de conquista; tinha
feito teno de fallar a Emilia da vida elegante e fra contar-lhe
intimidades de Villalva. Que imbecilidade! Que interesse podia ella ter
na vida rustica da sua aldeia e da sua familia? Sempre infeliz!

O erro era querer ser aquillo que as aptides naturaes lhe recusavam. E,
depois, praticra uma ruim aco cujos aspectos negros a imaginao lhe
avolumava, dando-lhe as propores d'uma grande infamia; fallra a
Emilia da morte do pae, a Emilia que d'antemo tinha considerado sua
amante! Como, por que estranha aberrao de todas as regras moraes, que
to cedo se acostumra a respeitar, confundia as cousas intimas e
sagradas, aquillo que no seu corao havia de mais recatado e nobre, com
os mais baixos dos seus apetites? Fra inhabil e fra indigno, e esta
suspeita torturava-o.

A noite foi agitada; breve o somno feito sob esta oppresso. A fadiga e
a frescura da madrugada trouxeram-lhe porm duas horas de repouso. Pelas
sete horas da manh despertava e a alegria da natureza, o bulicio do
mercado, que era junto  sua casa, todo o fremito de vida proprio
d'aquella hora conseguiram infundir no espirito de Claudio a
tranquillidade perdida e porventura um vago contentamento.

No! Exaggerava. Melhor fra que no tivesse fallado da morte do pae,
mas que mal houvera n'isso? Emilia no era sua amante. Era talvez, sob a
apparencia de frivolidade, uma mulher digna; at o cuidado com que
olhava pelos filhos, devia leval-o a julgar bem da sua honestidade. Os
amores no tinham passado ainda da sua imaginao, e quem sabia se na
sua imaginao morreriam! Tudo tinha remedio. No havia de que se
arrepender. Tivera confisses intimas com uma mulher que conhecia ha
pouco, mas de cuja dignidade no tinha direito a desconfiar; a isto se
reduzia a sua falta, se falta tinha havido. No era motivo para
inquietaes.

Tranquillisado o espirito, Claudio comeou a frequentar os seres de
Emilia, duas ou tres vezes por semana.

Os fumos de conquistador pareciam apagados, lanara-os  conta das suas
bastas phantasias, e entregava-se sem reserva  doura d'um convivio em
que sentia mal definido prazer. Fallra  me em visitar Emilia.
Parecia-lhe muito boa rapariga, dizia, muito bem educada; havia de
gostar d'ella.

--Ora, respondia a me, vou l visitar fidalgas! Nunca me entendi com
essa gente. No saio do meu canto, estou velha para aprender costumes
novos. E quem sabe l o que ella ser? Conhecel a ainda no ha um mez e
j te parece uma santa. Caa d'arribao! dizia teu pae que Deus haja.

-- porque a minha me no a conhece. Em a conhecendo, ha-de gostar
d'ella, ver.

Mas a velhita, na sua bisonha desconfiana, no se dava por vencida,
meneando negativamente a cabea.

Aos sabbados era a reunio em casa do dr. Carvalho. Claudio nunca
faltava. Dispunha sempre as suas cousas de modo a que estivesse livre
n'essas noites.

Emilia pedia-lhe singelamente que no faltasse e elle queria mostrar-lhe
que nunca esquecia os seus desejos.

Demais, se o juiz no vinha, no havia _whist_ e todos se juntavam em
volta da meza do loto, palestrando e interrompendo o jogo a cada
instante.

Ento corriam horas deliciosas para Claudio, entregue desprendidamente 
admirao de Emilia cujo espirito d'uma infantil alegria contrastava to
singularmente com as suas pesadas e sombrias duvidas habituaes. Para
ella, a vida era apparentemente um trinado de aves.

Uma noite fallou-se dos passeios de Albergaria.

--Ha um muito bonito, mas  um pouco longe, disse Claudio, Lourosa.

Ninguem sabia onde ficava.

Claudio explicou:

--Lourosa fica entre Villar e a Ariosa. Sbe-se a estrada at Villar,
depois comea-se a descer e no fim d'uns tres ou quatro kilometros
encontra-se a povoao.  uma aldeia, sem cousa alguma de notavel; os
pinhaes que ficam entre Lourosa e Villar, esses so d'uma extraordinaria
belleza, cortados de ribeiros orlados de choupos e salgueiros, os montes
abundando em vegetao. Um retalho delicioso de natureza montanhosa!

Todos desejavam vl-a.

-- bem facil, dizia Claudio. Saimos d'aqui de manh, levamos o almoo,
passamos por l o dia e ao anoitecer estamos em casa. Depende s da
vontade de v ex.as.  marcarem o dia e eu me encarregarei de tudo.

--Vamos l! Estou prompto! Magnifico! No falto!--grande alarido de
vozes confusas em torno da meza.

Ficou ajustado o passeio; iriam o dr. Carvalho e a mulher, Emilia e
Ricardo, as Silvas, de Barrosas, o reitor, o dr. Maia, um rapaz da Beira
que tinha vindo advogar para Albergaria, e Claudio; ao todo umas dez
pessoas.

Assim  que os passeios so bons, diziam; onde vae muita gente,
d'ordinario no se passa sem qualquer cousa desagradavel.

Tres dias depois, s seis horas da manh, no pateo do palacio de
Claudio, um char--banc ordinario tirado por dois magnificos cavallos,
ndios e impacientes nos seus arreios burnidos, de ferragens reluzentes,
esperavam os convidados. Em cima do carro havia tres cestos de verga, da
ilha da Madeira, dois fechados e um terceiro coberto com uma toalha por
baixo da qual se adivinhavam as garrafas de vinho.

Os convidados vinham lentamente. Claudio recebia-os  porta. O primeiro
foi o reitor que, contava, j tinha dito missa e tomado a sua chavena de
caf; era fraco e ninguem o apanhava em jornada de estomago vasio. A
isso, graas a Deus, devia a sua saude; no havia de fazer como o seu
collega do Eiral que no tinha cuidado nenhum comsigo e agora l ia para
as Pedras Salgadas a vr se conseguia algumas melhoras. Incommodo,
despeza, e no fim viria bem ou mal, como Deus quizesse:

Depois do reitor veio o dr. Carvalho; tinha-se demorado um pouco e pedia
desculpa, mas no quiz sair sem vr a mulher do Jos Manco que estava
com uma pneumonia, muito doente.

--Tenho feito clinica em muita terra, dizia, mas pneumonias como as
d'estes sitios nunca encontrei. Terriveis! Quasi sempre fataes. No sei
se  do clima, se da constituio da gente... Ahi vem j o Ricardo e a
sr. D. Emilia com o dr. Maia. Bom! S faltam as Silvas. No pensei,
ainda assim, que fossem todos to pontuaes.

Emilia vinha apressada e risonha, ao lado do marido que conversava com o
advogado, queixando-se ambos da madrugada. Trazia um vestido de chita
azul guarnecido de rendas brancas, luvas cr de camura e grande chapu
de palha clara com papoulas vermelhas. Trabalhra at  meia noite, a
burnir o vestido, a pregar-lhe as rendas que eram d'um outro, e a
enfeitar o chapu composto com uma velha carcassa que tinha comprado ha
dois annos e as flores que trouxera no chapu de inverno.

O marido regateava-lhe uma a uma todas as despezas e envergonhada, s
occultas, andava constantemente remexendo os farrapos para improvisar
enfeites que satisfazessem os seus appetites de elegancia.

Agora que tinha de acompanhar Claudio, cujo bom gosto comeava a
admirar, esmerara-se e vinha contente, julgando que elle havia de
reconhecer no traje a distinco da pessoa.

No se enganava. Claudio admirou a sua gentileza; intimamente fazia
confrontos entre as senhoras da villa. Emilia era decididamente a unica
com educao. Fina, muito fina! concluia no seu juizo.

Pelo seu lado, procurava tambem no decair no conceito da sua amada e
pedia-lhe agora desculpa da pobreza da carruagm. Uma grande falta de
recursos para fazer alguma cousa em termos! Tinha procurado um _breack_
decente, mas nem em Coimbra o poude arranjar. Uma miseria! Vira-se
obrigado a remediar-se com aquelle que ali estava e os seus cavallos. Se
continuasse por ali, porque pensava em se estabelecer definitivamente em
Albergaria, havia de comprar uma carruagem propria para aquelles
passeios.

Eram quasi sete horas quando appareceram as Silvas, acompanhadas d'uma
creada ofegante, com uma pequena cesta  cabea.

--Ah! disse a mais velha, julguei morrer! Que estafa! Mas a culpa no
foi minha. A mana no quiz vir sem trazer um bolo de sete cantinhos,--
muito bom,  ainda feito por uma receita que nos deu a D. Adelaide
Saldanha,--e aquelle forno  um castigo. Primeiro que aquea...

--Ora v. ex. a incommodar-se... interrompeu Claudio.

--Deixe l, deixe l, disse o dr. Carvalho, que mostrava com ellas
grande confiana, quem corre de gosto no cansa. E visto que foi para
nosso regalo, havemos logo de lhe fazer uma saude. Olhe, j ali vo,--e
apontava para o cesto das garrafas.

Recolheram-se todos  carruagem que partiu, oscillando ao sair o portal.
O reitor e Ricardo tomaram logar ao p do cocheiro.

--Vamos aqui melhor, dizia o Ricardo para o reitor, escusamos de aturar
senhoras.  bom para o Maia que est novo e o Carvalho tambem...
chega-se muito para as Silvas.  menino! Eu c j no fao versos.
Tomra eu mas  o almoo. Parece-me que j ia.

--O sr. tambem est sempre com essas cousas! Ora no seja m lingua...
dizia o reitor.

Ao passarem na botica, estava o boticario  porta a conversar com o
regedor do Sobral.

--A vida est para aquelles, disse despeitado por no ter recebido
convite. O pae e o tio a pouparem para estes agora gozarem!

A companhia ia alegre.

As Silvas palravam com o advogado; interiormente sonhavam ali um
casamento, sua ambio capital. Fallavam das suas flores, das suas
gallinhas, dos cuidados que tinham pela adga e pelo lagar d'azeite,
procurando com deligencia pr em relevo as suas virtudes domesticas.
Mutuamente se elogiavam; uma sabia de cosinha como ninguem, no havia m
cosinheira s ordens d'ella; a outra, diziam, tinha nascido para homem,
constantemente nos campos,  frente dos bandos na apanha da azeitona,
entre as vinhas, no outomno, com grande chapeu de palha, dando ordens e
berrando aos trabalhadores:

--Olha como levas esse poceiro! No fazem nada em ordem! Que estupidos!
No pde a gente ter um momento de descanso...

O advogado ouvia e procurava palavras de admirao.

--Isso hoje  muito raro, dizia V. ex.as foram educadas  antiga. Bons
tempos! As meninas d'agora vo para os collegios e vm de l anemicas,
sem prestimo nenhum. Levantam-se ao meio dia e s servem para tocar
piano.

Tambem elle pensava em casamento: queria cousa de conveniencia. A sua
ambio era um dote de dez a doze contos de ris. No o tinha ainda
encontrado, mas no desanimava nas suas deligencias.

O dr. Carvalho procurava associar-se  conversao, ora com gracejos,
ora lisongeando as Silvas.

--Muito tolinhas, pensava. Com algum geito ainda vm a cair.

Claudio conversava tambem, dirigindo-se  mulher do dr. Carvalho e a
Emilia, empenhado em prender esta ultima aos seus sentimentos. Apontava
tudo o que na estrada ia vendo de pittoresco ou de bello, os carvalhos
nodosos do Casal Novo, projectando-se nos montes nus e asperos, a varzea
de Villar humida e mimosa, emoldurada nas montanhas que se encastellam
em torno.

--N'este tempo, o campo  muito bonito, exclamava a mulher do doutor em
admirao convencional.

Emilia, intimamente insensivel, smente por ser agradavel a Claudio,
repetia:

-- bonito,  realmente muito bonito.

Sentia-se bem, no pelas impresses da paysagem, mas pelo doce prazer de
ouvir Claudio.

Tinham passado a primeira cadeia de montanhas comeavam agora a descer
rapidamente para Lourosa.

 esquerda, no extremo horisonte, ficavam as coras de neve da serra da
Estrella, em frente, em toda a sua desdenhosa magestade, erguiam-se as
serras da Louz, as faldas bordadas de aldeias, de pinhaes e de
campanarios, os pncaros despidos e negros, respirando, no ceu sereno e
mudo, solido e grandeza.

--Oh! amigo Claudio, disse o dr. Carvalho, parece-me que voc se
enganou; isto aqui ainda  mais feio que do outro lado.

--Oh! no. Eu acho este panorama magestoso. Magestoso, meu amigo!

--Ser, no digo que no. Eu  que no vejo seno muita pedra. O que
vale  que voc hade tratar-nos bem. Que horas sero?

--Oito.

--Uma hora de caminho! Aquella subida de Villar  enorme e ns viemos
devagar. Os seus pobres cavallos vo dizer mal do passeio. Com uma carga
d'estas!

--No, no  muito. Agora vamos depressa. D'aqui a meia hora estamos em
Lourosa.

A carruagem ia descendo e o aspecto dos montes modificava-se; a
vegetao tornava-se mais basta e os raros casebres dispersos eram
construidos de delgadas laminas de pedra schistosa. Dentro em pouco
atravessavam Lourosa.

--Ento? dizia de cima o Ricardo. C o nosso reitor diz que estamos em
Lourosa. Para onde nos leva voc,  doutor?

--No seja impaciente; v andando, v andando que no se hade
arrepender, respondia Claudio.

--Eu sei l! Desconfio...

Apenas se passa a aldeia, a estrada perde-se serpeando nos pinhaes
bastos e sem interrupo que cobrem aquella regio de monticulos e
desfiladeiros. Nem a mais pequena planicie; os accidentes do terreno so
continuados e dos valles apertados, entre o matto espesso e tenro,
solta-se um alento de vio e de frescura. As urzes floriam em
quebradios calices de rosa desmaiada, os fetos espandiam as rigidas
frondes reluzentes e nas palidas giestas desabrochavam as suas fulvas e
aladas flores.

--Ah! isto sim, isto aqui  outra coisa, disse o dr. Carvalho. Dou a mo
 palmatoria. Sim, senhor. Valle a pena vir c.

--J v que no o enganei, respondeu Claudio.

Tinham parado em frente da casa d'um cantoneiro, um pobre abrigo com uma
s porta, sem janellas, feito de lageas toscas, quasi sem argamassa, a
luz espreitando entre as telhas desunidas. Era ali que esperavam os
creados de Claudio que tinham vindo adiante, alta madrugada, para
fazerem os primeiros preparativos. Com a mobilia do cantoneiro
conseguiram montar a mesa, em baixo, ao p d'uma fonte, longe da
estrada, para fugir aos curiosos, de modo que no fossem vistos de quem
passasse. Eram essas as instruces de Claudio. Estava tudo prompto,
dizia um dos creados, para quando s. ex.as quizessem.

Claudio propz  companhia um passeio. Era muito cedo, passeiariam agora
pela fresca viriam depois a almoar quando o sol apertasse, que o dia
promettia ser quente.

Todos acceitaram. S o reitor e Ricardo  que se apressaram a pedir que
os deixassem ficar. J sabiam o que era gente nova e o que eram as
serras; no se fiavam nas pernas. Ninguem insistiu.

--Liberdade! disse o dr. Carvalho, cada um gosa a seu modo; e as Silvas,
aproveitando o ensejo para fallar da sua actividade, diziam ao dr. Maia
que no sabiam que gente era aquella, to commodista. Para ellas no
havia como andar a p. Tinham ido uma vez  Senhora da Penha, umas boas
tres lguas por maus caminhos. Pois ainda no era noite quando voltaram
a Barrosas e do dia seguinte, s cinco horas da manh, estavam a p como
se nada tivesse acontecido.

Elle, o dr. Maia, respondia que tambem tinha sido grande andarilho,
quando era mais rapaz, em Coimbra; fra a Lorvo com os companheiros de
casa. Mas agora no tinha tempo, por causa do escriptorio; uma vida
sedentaria, que o matava. O que lhe valia eram os banhos do mar.
Costumava ir para Espinho.

--Ns vamos sempre para a Figueira, disse uma das Silvas.

--Este anno provavelmente tambem para l irei. Fica-me aqui mais perto e
posso vir ao tribunal quando fr preciso.

Entretanto Claudio fallava com o cantoneiro que lhe indicava o passeio.
Desciam abaixo,  azenha, subiam pelo carreiro que se via do outro lado,
atravez do monte, depois chegando acima encontravam um caminho; no
tinham mais do que seguil-o e l iriam ter.

Era um sitio muito lindo! Ainda o anno passado ali tinha estado o
director das obras publicas com uma familia de Coimbra.

Dentro em pouco, Ricardo adormecia na cabana do cantoneiro, sobre uma
esteira estendida n'uma velha arca, o reitor sentava-se n'uma pedra, 
porta da casa, a lr os jornaes que cautelosamente tinha trazido, e em
frente, na montanha, iam subindo os restantes companheiros.

As Silvas caminhavam adeante, fazendo gala da sua robustez e rindo-se do
Carvalho e do Maia que queriam acompanhal-as e se confessavam j
cansados; atraz, a larga distancia, seguiam Claudio com Emilia e a
mulher do Carvalho.

--Sangue quente! dizia Claudio apontando os que iam  frente. O sr. dr.
Carvalho  que parece um rapaz, alegre e ligeiro...

--Foi sempre assim, respondeu a mulher do doutor. Muito rijo!

Claudio mostrava insistentemente a Emilia a belleza infinda das cousas
por que passavam: a suavidade de colorido das _primulas_ que bordavam a
ribeira, os aljofares d'orvalho que cobriam o matto, os choupos tremulos
na aragem da manh, os pinheiros que se desenhavam nitidos na limpidez
do cu, as vozes mysteriosas que se desprendiam do arvoredo. Queria que
ella commungasse nas suas impresses e ella j no resistia.

-- bonito, muito lindo, respondia a cada instante.

O cantoneiro no os enganra. Passado o cume do monte, o caminho era
ladeado de muros baixos, para defender os mattos dos rebanhos que
passassem; continuava assim em longa distancia at que o pinhal comeava
a rarear e abria-se uma clareira. Tinham em frente, na margem opposta do
ribeiro, uma ravina apertada por onde a agua corria, em pequenas
cascatas, entre as azenhas e os pinheiros. Era a este logar que o
cantoneiro se referira.

--Muito lindo! muito lindo! exclamavam todos.

S uma das Silvas fez reservas.

--Sim,  bonito, disse; mas a nossa Albergaria no  peior. S aquella
abundancia d'agua!...

Desceram abaixo, atravessaram o ribeiro e subiram pelo carreiro que dava
accesso s azenhas. Pouco caminharam; estavam cansados, o calor j
apertava, e, aos primeiros muros que encontraram entre a sombra do
pinhal e  beira da agua, sentaram-se.

Claudio, sempre ao lado de Emilia, ia colhendo flores agrestes e
fazia-lhe vr as formas delicadas e os mimos de colorido que se perdiam
ignorados por aquellas serras. Para que os jardins? A belleza
espalhava-se por toda a parte, nas cousas mais triviaes, tudo estava em
a perceber com olhos carinhosos.

Por isso o campo nunca lhe enfadava. A natureza era inexgotavel, as suas
riquezas no tinham limite e a vida inteira era sempre breve, no diria
j para as admirar que seria querer muito, mas para comprehender a sua
existencia.

Quando se chega a isto, quando se adivinha o thesouro que a todos foi
prodigamente aberto e que raros aproveitam, uma absorvente avidez de
sensaes nos invade e somos arrebatados por este espectaculo prodigioso
e infindo que nos vem d'aquillo que antes chamavamos mudez e solido.
Animam-se os rochedos, no maior ermo acompanham-nos vozes desconhecidas;
o corao captiva-se d'um amor puro e largo, immaculado e sereno. E como
as cidades nos parecem ento abominaveis, com as suas miserias e a sua
vida de artificio e mentira! Nem satisfazem o espirito nem os sentidos.

Queria que Emilia se penetrasse do mesmo sentimento. Ella j no
luctava; ouvia e nas palavras de Claudio sentia com deleite uma
embalsamada frescura.

O dr. Carvalho e o Maia no deixavam as Silvas. Fallavam agora dos
galanteios da Figueira no ultimo outomno e discutiam o procedimento
d'uma menina de Coimbra que passava a noite a fallar, a uma janella
baixa, com um janota de Lisboa, um tal Couceiro d'Abreu, que se dizia de
boa familia, mas que pelos modos no o parecia.

Era a mais velha das Silvas que sustentava a conversa com o dr.
Carvalho.

--Ella tinha desculpa, dizia. Uma rapariga nova, sem experiencia do
mundo, no podia calcular o que se pensaria no meio d'aquella gente que
morre por dizer mal e, quando no tem que dizer, inventa. Mas elle!...
Um infame!  preciso ser muito canalha para jogar assim a reputao
d'uma rapariga. Que eu no acredito... Os homens so todos assim,
terminava suspirando, com os olhos baixos e fitos na ponta do guarda sol
que cravava entre os seixos.

--Mas que mau humor, que maldade! Parece que j algum homem lhe fez mal.

--A mim?! Esto bem livres d'isso, eu lhe asseguro. Tenho os olhos bem
abertos.

--Ora tem os olhos abertos... Eu queria vr!... Se gostasse a valer d'um
rapaz...

--Ai, nada, nada! No sou de pieguices. Que tambem lhe digo: Se gostasse
d'alguem, no havia de ter medo do que dissessem. Havia de lhe fallar
onde melhor me parecesse. Com tanto que estivesse de bem com a minha
consciencia...

--Bravo, bravo! exclamava o doutor, sonhando aventuras. Gosto de gente
assim.

Claudio tinha-se levantado e, apoz elle, toda a companhia. Eram horas do
almoo. Voltaram  casa do cantoneiro, seguindo o mesmo caminho por que
tinham vindo.

A mesa estava posta n'um sitio ensombrado, o reitor j tinha lido os
seus jornaes e contava pormenores d'um crime praticado no Poo do Bispo
ao Ricardo que passeiava impaciente em frente da mesa, olhando sempre o
carreiro por onde os companheiros tinham desapparecido.

Um pouco acima, encostada a uma canastra, uma creada adormecera.

--Ol, seus mandries, gritou o dr. Carvalho dirigindo-se ao reitor l
do outro lado do monte.

--Vivam, vivam, respondeu o Ricardo. J c tardavam.

A mulher accordou.

--Muito moida, tia Venancia? perguntou o reitor.

--Sai de Albergaria ainda era noite. J vinha ao p do Hospital quando
bateram tres horas, respondeu a pobre mulher.

O almoo comeou quasi em silencio. Todos tinham estranhado a madrugada
e o passeio; o calor e a fome acabaram de os alquebrar. Sentia-se a
moleza e o cansao. S o dr. Carvalho resistia, sempre alegre e
palrador. Estava habituado a no ter horas para dormir nem para comer;
os doentes  que mandavam. Estranhava a Claudio o luxo com que tratava
os seus convivas, que no era preciso; at as taas para o champagne
tinha mandado vir. Um copo para cada um era quanto bastava.

--Principalmente para o Ricardo!... Um s e grande, segredava
maliciosamente.

Pouco a pouco a animao ia surgindo, na excitao dos vinhos e das
viandas; a conversao tornava-se continua, entre o bulicio da baixella
e o riso dos convidados, cada qual elogiando o prato que melhor lhe
convinha ao paladar e todos louvando Claudio.

-- um cavalheiro, um cavalheiro, dizia Ricardo, o prato coberto com uma
enorme fatia de fiambre e lanando a mo a uma farta garrafa de
Collares. Eu c vou andando com este, no sei que graa acham a essas
limonadas!

E apontava os vinhos do Rheno.

Estavam chegados ao champagne. As rolhas voavam entre os gritos das
Silvas que com grandes gestos defendiam os olhos. O dr. Maia, que ha
muito se calara ruminando o discurso, levantou-se para beber  saude de
Claudio.

No eram palavras banaes as que queria dizer; pretendia fazer um
discurso que impressionasse os ouvintes e particularmente a mais nova
das Silvas para quem comeava a olhar como uma noiva possivel.

--Minhas senhoras e meus senhores...

-- muito amavel, no se esquece das senhoras, disse sorrindo com ironia
o dr. Carvalho para a Silva que estava ao lado d'elle; e atrevidamente
chamava a sua atteno, batendo-lhe com a mo no joelho, por baixo da
mesa.

No era  minha humilde e obscura personalidade, no era a mim que sou
um forasteiro n'estas terras e to pobre de dotes de eloquencia, que
competiria talvez saudar o nosso generoso amphytrio; mas a profunda
estima e considerao que tenho pelo illustre doutor Claudio obrigam-me
a levantar a minha fraca voz n'este concerto de bellezas da natureza, de
illustraes e de formosuras que tocam o nosso corao...

--Toma, diz em segredo o Carvalho para a Silva, aquillo  com a mana. A
menina  que no apanha nada. S se fosse um beijo que eu lhe dsse!

--No seja atrevido!

--No seja m. E bateu-lhe novamente com a mo no joelho, procurando
ajuizar da perna.

O dr. Claudio, meus senhores, a cuja amabilidade devemos as boas horas
que temos passado aqui e que jmais esquecerei, no  um homem vulgar.
Tem seguido a evoluo da sciencia e est ao par das modernas
descobertas da sociologia. Eu que deixei ha pouco os bancos da
universidade, no posso acompanhal-o nos arrojados vos do seu estudo
mas comprehendo a sua bella orientao positivista...

E continuou assim fazendo o elogio de Claudio, at se lhe esgotar a
proviso de banalidades que tinha adquirido em Coimbra. Ao fim,
sentou-se vaidoso, procurando adivinhar a impresso que tinha deixado
nos ouvintes.

--Muito bem, muito bem, sr. dr. Maia, disseram de differentes lados da
mesa.

A Silva disse-lhe tambem em voz branda:

--Gostei muito de o ouvir, falla realmente muito bem.

--No, minha senhora, isso  muita bondade de v. ex. No tenho tido
uso. Aqui, na comarca de Albergaria, o movimento  pequeno e com estes
jurados analphabetos no vale a pena estudar.

--Oh! no esteja com modestia... eu reparei que todos o estavam ouvindo
com muito agrado. Na provincia  to raro encontrar alguem que saiba
fallar...

O reitor contava ao Ricardo dos prgadores que tinha ouvido. O melhor
era o Alves Mendes. O que eu admiro, dizia,  a memoria que elle tem
para metter aquillo tudo na cabea!

Claudio estava embaraado. No contava com o discurso e percebia que os
convivas esperavam a resposta.

Interiormente sentiu um momento de enfado que attribuia  impertinencia
do dr. Maia, mas que de facto vinha do risco, que corria, de desmerecer
no conceito de Emilia, a seus olhos supremo juiz do bom gosto.

Durante alguns minutos pensou no que iria dizer; depois, como impellido
por uma subita resoluo, levantou-se e disse:

--Agradeo as immerecidas palavras do sr. dr. Maia, que por certo foram
dictadas pela considerao que me dispensa e no pelo que realmente
valho. Entre aquelles que me honraram acompanhando-me n'este passeio,
no quero fazer seno uma unica distinco, aquella que de justia 
devida. Sado de todo o meu corao as senhoras que com a sua formosura,
o seu espirito e a sua gentileza generosamente nos dram estas to
breves horas de alegria!

--Vivam, vivam!  saude de vv. ex.as! D. Emilia... D. Maria.

E todos beberam.

Claudio bebeu tambem, olhando Emilia. Era a ella que se dirigia e era a
admirao pela sua graa que o inspirra.

--Foi pena ser to pouco, disse o reitor para Claudio, sollicitando um
discurso.

--No perderam nada. No sou orador. Isso  aqui para o nosso dr. Maia.

Os brindes no tinham fim. Cada qual bebia pelas pessoas das suas
relaes e o dr. Carvalho, que o calor do banquete tinha excitado,
voltando-se para a Silva, disse-lhe quasi em segredo:

--A ultima, a virar e a serio, por uma inteno particular, por uma
menina que sinceramente admiro e estimo!

--Agradeo em nome d'ella e posso assegurar-lhe que  pago com muita
amizade.

--No acredito, respondeu o Carvalho, fitando-a com olhos languidos.

E, voltando se para Claudio, accrescentou:

--E se nos levantassemos, oh doutor? Olhe que estamos  meza ha duas
horas e no queremos morrer aqui de indigesto!

--Est dito. V. ex.as mandam.

Novamente os convivas se espalharam nos montes, reconstituindo-se os
primeiros grupos; o Carvalho e o Maia com as Silvas, Claudio com Emilia
e a mulher do Carvalho, o reitor ao p de Ricardo.

Pouco se affastaram do logar do almoo; o calor, a madrugada, o cansao
do passeio e o pezo da digesto tornaram-os abatidos, molles e
somnolentos. S Claudio e o dr. Carvalho resistiam, movidos ambos por
identicos motivos.

s quatro horas partiram de regresso a Albergaria. Houve um momento de
animao aos primeiros movimentos da carruagem, mas em breve voltou o
silencio proprio da fadiga.

O Ricardo cambaleava dormindo, os olhos cerrados por baixo da luneta, o
collete desabotoado mostrando a camisa enxovalhada de suor. A mulher do
dr. Carvalho, que tinha percebido os galanteios do marido com a Silva,
desesperada com ciumes queixava-se de dores de cabea. Claudio vinha
scismando.

Porque no havia de casar-se? Que vida daria ao seu lar a graa e a
elegancia d'uma mulher? Mas no era facil encontrar quem com instinctos
d'artista se sugeitasse  vida monotona de provincia.

Emilia crescia agora aos seus olhos e na sua admirao. Que rara fortuna
possuil-a! E como devia ser infeliz, ligada a um homem grosseiro e
bestial! Uma irrepremivel compaixo o aproximava d'ella e mais um lao
ligava aquellas duas almas que, n'uma turva inconsciencia, se iam
prendendo e confundindo.

Cerca das seis horas, chegaram a Albergaria. Claudio conduziu cada um 
sua casa e todos se apartaram com palavras de reconhecimento e
cordealidade.

--Queira Deus, dizia Claudio  mulher do dr. Carvalho, que v. ex. no
fique a dizer muito mal do passeio. Talvez que uns granulos de
antipyrina...

--No, respondeu o doutor.  muito sujeita a dores de cabea. Em
dormindo, fica bem. Isto no vale nada. Quem dra que todos os dias
assim fossem!...

Claudio tornou-se inseparavel da familia de Ricardo. A cada passo se
encontravam juntos: nos passeios,  tarde, pela estrada do Sobral; na
egreja,  missa e em dias de festa;  noite, em casa do dr. Carvalho e
pelos seres da visinhana. Na botica estranhava-se a mudana de
Claudio; commentava-se j com risos maliciosos e palavras mordazes. S
elle ignorava o que se dizia; feliz de tanta e to bella amizade, a ella
se entregava inteiramente e ingenuamente transformava em sentimentos
puros, d'esta vez sem plano nem preoccupaes scientificas, os projectos
de conquistador com que dois mezes antes entrara em casa de Ricardo.

Entre Claudio e Emilia fazia-se rapidamente a permuta de habitos e
costumes que  de regra entre amantes; ella cedia dos seus prejuizos
lisboetas para admirar a natureza e conformar-se com a paz provinciana,
elle esquecia a simplicidade de Villalva, o estudo e os propositos de
vida laboriosa, para se confundir nas futilidades em que imaginava bom
gosto e arte.

De facto, nenhum mudra; ambos passavam apenas por uma crise d'amor que
lhes transfigurava o aspecto das cousas.

Para Emilia a natureza era um adorno, como as flores na meza do gluto
que, s cubiando as viandas, se compraz todavia cercando-as de frescura
e perfumes; nada podia dizer ao seu mesquinho espirito a vida gigantesca
da terra, o drama eterno e mudo em que os elementos se combatem e amam,
captivantes de mysterio, insondaveis na profundeza dos seus destinos.
Nem as arvores nem as aguas nem as montanhas podiam ter significao aos
seus olhos apartadas da voz do amante e dos seus doces olhos, as brizas
do poente que  tarde varriam a atmosphera ardente do estio, a sombra do
loureiro que  hora da calma a protegia, o murmurar dos regatos e o
canto apaixonado dos rouxinoes ao luar eram unicamente a faustuosa
decorao do theatro em que se lhe revelava a imagem de Claudio, mas
valiam aos seus olhos tanto como a rutilancia dos cristaes, das sedas e
dos sales dourados em que o seu temperamento se formra.

Por sua vez, Claudio caia n'uma illuso parallela: pensava que Emilia
lhe revelava um mundo novo de elegancia e arte, lanava  conta de
rudeza a simplicidade que em tempos, que agora lhe pareciam distantes,
adorava na casa de seus paes, e tomava por alargamento e complemento da
educao do seu espirito a frivolidade a que s o arrastava a anciedade
de se impregnar das graas da sua amada.

Pelo S. Joo acompanhou Emilia e Ricardo a Coimbra, a uma festa em casa
d'um fidalgo, d'appelido Albuquerque.

Os Albuquerques viviam n'um palacio, proximo da estrada da Beira; a
pouco mais d'um kilometro da cidade, encontrava-se um largo porto de
ferro rematado por um brazo e continuado para um e outro lado pela
gradaria alta que circumdava a propriedade.

De dentro trasbordava o arvoredo, os choupos, os platanos, as olaias, as
palmeiras e as eras que vestiam as paredes d'uma crina frondosa; em
frente do porto, uma alameda, bordada de buxo, que em leve declive
conduzia, em linha recta, a uma curta e larga escada de pedra, de dois
lanos, formando semicirculo, com uma grande taa de pedra ao centro
d'onde a agua se derramava sobre um tanque em fios longos e
scintillantes. A casa era d'um andar, sobre celleiros e adgas muito
baixos, quasi inteiramente enterrados, tendo acima do slo s as
estreitas frestas que lhes davam luz. Entrava-se n'um largo vestibulo
bem mobilado de escabellos em que destacava o vermelho e ouro do brazo
que os encimava;  direita a larga porta d'uma capella,  esquerda uma
extensa linha de vastissimos sales, em frente a entrada para o interior
do palacio.

O velho Albuquerque, fresco e esmerado na sua velhice, o rosto vivo e
malicioso lembrando os retratos de Henrique IV, com ademanes fidalgos
recebia as senhoras no vestibulo e conduzia-as pelo brao ao corao da
festa. Ao lado estava o filho que o ajudava n'essa tarefa. Fra
condiscipulo de Claudio e era ainda seu intimo amigo. Quando o viu, veiu
para elle promptamente, e, n'um movimento de jubilo, abraou-o.

--Mas que feliz surpreza!...

--Tantas vezes me pediste que viesse s tuas festas e tantas vezes
recusei que algum dia havia de quebrar o encanto.  verdade que faltei
ao dictado... Vim sem ser convidado, mas j sabia que me desculpavas.

--Agradeo-t'o muito. Dste-me agora uma grande alegria.

--Tinha vontade de te vr, creio que ha tres mezes que no nos
avistavamos. Ultimamente tenho vindo pouco a Coimbra. Depois as
instancias da familia do Almeida...

--Escolheste bem; a companhia  excellente. Gosto muito da Emilia! D'uma
vivacidade... Que pena ter casado com aquelle homem... Mas anda c,
continuou o filho do Albuquerque pondo as mos na cintura de Claudio e
olhando o attentamente, reparo agora!... Ests um janota! Que  da
modestia e do estudo e d'essa austeridade d'outros tempos?

--Um pouco mais civilisado, um pouco mais civilisado... Querias-me
eternamente rustico?

--No, quero-te assim, ests muito bem. At me pareces mais bonito. Essa
maluqueira de te metteres em casa com os livros, como n'um convento, era
intoleravel! Ainda bem, ainda bem que ests a caminho da salvao! Que
eu, verdade, verdade, tambem gosto de socego...

E entraram ambos na sala onde os pares se levantavam para a primeira
quadrilha, em meio da confuso das sdas e das joias, de cristaes, de
moveis artisticos e de louas orientaes illuminadas abundantemente pelos
candelabros de bronze que pendiam do tecto e pelas pratas cinzeladas que
pousavam nos velhos contadores indianos. A casa dos Albuquerques tinha
fama pelas suas festas, pelo luxo e pela alegria que tradicionalmente as
caracterisavam, e muitos corriam ali s para admirar essa ostentao de
opulencia.

Claudio teve um momento de pasmo, A vida simples de Villalva e a vida
estreita que levava em Albergaria no o tinham educado a passar
indifferente pela riqueza e pelo luxo; captivavam-no pela novidade, pela
sensualidade, pelo preconceito bebido nos livros materialistas de que a
expanso de todos os appetites era salutar e humanamente digna, e, mais
do que isso, pela sympathia com o espirito frivolo de Emilia.

Todo o espectaculo que tinha diante de si lhe parecia admiravel; passava
uma epoca, que seria breve na sua existencia, de cubia mundana.

Dentro em pouco danava com Emilia. Ella estava radiante, julgava-se
transportada aos sales de Lisboa. Uma noite de baile era a
reviviscencia das melhores lembranas da mocidade, d'aquellas a que o
seu espirito mais insistentemente queria. A Claudio apontava aquella
pea da India que s tinha egual na colleco d'El-rei D. Fernando, os
brilhantes da condessa de Murtede que o Leito avalira em sete contos
de ris, o vestido de setim da Costa Real, de Miranda do Corvo, feito em
Paris quando l esteve, na primavera, a graa, a distinco do velho
Albuquerque, e toda a tremulina de fogos fatuos que lhe passava diante
dos olhos. Elle ouvia e applaudia com palavras de admirao, que o amor
lhe segredava, o enthusiasmo futil de Emilia.

Cerca da meia noite, o borburinho do baile afrouxou. No meio das salas
ficaram grupos de casacas esguias e negras, em volta das damas
formaram-se pequenos circulos de cadeiras; os creados entravam com
grandes taboleiros pesados de finas iguarias, o Albuquerque e as filhas
corriam as salas offerecendo os calices do precioso vinho das suas
terras do Douro.

Comia-se alegremente e trocavam-se saudes intimas, com palavras banaes
de convencional cortezia.

Claudio aproximou-se de Emilia; ia beber por ella, pelos seus filhos e
pelo seu marido, pela sua felicidade e alegria. Os copos tocaram os
labios e dois minutos de silencio disseram o que os labios calaram,--o
affecto que n'aquelles dois coraes surdamente crescia.

 uma hora, j o Ricardo queria partir. Andra a arrastar-se pelas
cadeiras, pelas portas das salas de dana e pelos cantos das mezas de
jogo, mos nos bolsos e luneta pendida sobre o nariz, at que chegasse a
hora de se fartar: agora, replecto, a festa terminara para elle, queria
dormir. Estava massado, dizia  mulher, e tinha no dia seguinte a
repartio. Elle  que sabia o que isso era, com o mez de julho  porta
e o semestre da contribuio predial para receber!

Claudio accudia em favor de Emilia:

--Seja rasoavel, dizia ao Ricardo; so to poucas as occasies que ella
tem de se divertir...

Intimamente tambem elle tinha vontade de partir; ao deslumbramento das
primeiras horas seguia-se uma sensao de fadiga e enfado, uma vaga
necessidade de recolhimento e silencio. Porque? Mysterioso cansao!

Abandonado, a um canto da sala, n'uma soberba cadeira de espaldar, ia
seguindo com os olhos Emilia que valsava ligeira nos braos d'um rapaz
estroina, todo fresco e risonho de cynismo e de saude. Comparava-a com
as outras raparigas e cada vez mais se penetrava da sua gentileza. At
no trajar lhe parecia vencel-as, ella que para vir ali fra buscar ao
seu pobre guarda-roupa as unicas sedas que l havia, um vestido preto
que os paes lhe dram quando casou e uns farrapos cr de rosa com que o
enfeitra.

Sahiram pelas tres horas da madrugada. A frescura da manh,
aoutando-lhe as faces, animava-os. Claudio e Emilia vieram conversando
at Albergaria. Ricardo ia a dormir, oscillando com as trepidaes da
carruagem.

--Sim, dizia Claudio a Emilia, tudo isto  magnifico mas o socego dos
nossos seres no  peior. Em regra, fico indifferente s festas a que o
corao  alheio; e n'uma multido d'estas no pde haver intimidade.

--Tudo tem o seu logar. A mim, nada me refresca como um baile; fico bem
oito dias, pelo menos. D-me saude.

Claudio voltava triste. Emilia julgava-o cansado e elle mesmo queria
attribuir a sua inquietao aos effeitos d'uma atmosphera viciada e da
excitao do fumo e do movimento. S tarde pde conciliar o somno, o
corpo abrazado e dorido. No se lhe varriam dos olhos e dos ouvidos os
rumores das vozes e da musica, o brilho rutilante das salas e a imagem
de Emilia valsando distraida e fogosa nos braos dos rapazes
galanteadores e ousados. Inconscientemente, soffria as primeiras dores
do ciume.

Estavamos chegados ao fim de junho. O dr. Carvalho aconselhava Claudio a
que no deixasse de ir s caldas. S as inhalaes das aguas sulphurosas
podiam livral-o d'aquella bronchite, dizia. Era o que a sua experiencia
lhe tinha mostrado.

Claudio defendia-se brandamente. Estava to bem... Mas o Carvalho
instava. Resolveu partir para as Caldas da Rainha.

No primeiro de julho, por um sol ardentissimo, foi a casa de Emilia
despedir-se. Ella nunca tinha estado nas Caldas da Rainha, mas ouvira
sempre  gente com que convivia em Lisboa que no havia terra de mais
gozo. Todas as noites se dansava; os dias passavam se em continuados
jogos e merendas  sombra do arvoredo.

--Embora!... respondia Claudio. Estava aqui muito bem.

E olhava a varzea e os campos d'onde se desprendiam sussurros d'aguas
que iam descendo e um alento de frescura, sobre os milhos tenros,
mimosos, regados n'aquella noite.

A voz de Emilia e a doura da intimidade casavam-se com a suavidade da
natureza. Teve um instante de desalento; sentiu derramar-se-lhe no
corpo, como uma unco venenosa, um torpor em que a vontade se
aniquilava, mas, sacudindo energicamente a tentao, levantou-se,
apertou a mo de Emilia com palavras d'um adeus vulgar, e saiu.

Em casa foi abraar a me. Ingenua, resignada, sorridente na paz da sua
alma, recommendava-lhe que tivesse cautela, tinha muito medo de
remedios. No gostava de o vr partir, ficava em cuidados, antes fosse
para Pariz.

--Tenho sempre muito medo! dizia.

Partiu. O movimento, a curiosidade da paysagem, as ininterrompidas
cambiantes d'aspectos moderavam os movimentos de saudade e quasi lhe
davam a illuso do esquecimento.

Depois, ao chegar s Caldas, a installao, a consulta do medico, os
banhos, novas terras, nova gente, cousas novas, trouxeram-n'o durante
dois dias n'uma agitao que tomava por contentamento. Apressou-se a
escrever  me, ao dr. Carvalho e ao Ricardo, referindo o que se passava
e promettendo que voltaria ao fim de vinte dias, quando o tratamento
tivesse terminado. Teria muito que contar aos seres.

Estava na firme disposio de se associar  vida mundana, assistindo aos
concertos, passeiando todas as tardes na Matta, jogando o arquinho com
as damas e o _whist_ com a gente grave que Lisboa emprestava por um mez,
danando e galanteiando. Queria tomar os conselhos de Emilia e imital-a,
para mais merecer no seu conceito.

A illuso foi breve. Ao fim de dois dias, com desespero e odio, fugia de
toda a convivencia, procurava os cantos affastados e ermos para se
concentrar nas suas lembranas, e opprimido, ancioso, como um tigre na
jaula, revolvia-se na estreita cella que habitava n'uma hospedaria.

A ausencia revelra-lhe o amor. Percebia agora at onde levianamente
tinha caminhado. Dissipada toda a duvida, sabia,--com que amargura!--que
o seu corao estava preso a Emilia, cuja imagem o acompanhava sempre,
sempre, fundindo n'uma s ambio todos os desejos, todas as
preoccupaes e todas as necessidades.

Que era feito das suas convices materialistas, dos seus propositos de
conquistador, da alegre esperana com que d'animo leve procurava a casa
de Ricardo? Por que estranha inercia deixra transformar essa viril
resoluo no affecto candente que o consumia? Mysterioso impulso!

Era por certo uma fraqueza. Havia de occultal-a firmemente, sem um
minuto de desfallecimento, aos olhos do mundo, e ainda mesmo aos seus
mais intimos amigos. s vezes tinha uma esperana e dizia comsigo:

--Pieguice! Tambem assim foi com a Conceio e hoje vejo-a passar,
casada, com os filhos ao collo, sem o menor desejo. Hei-de curar-me;
tudo se gasta, tudo esmorece.

Em pouco tempo adoecia. As saudades e a agitao constante em que ellas
o traziam determinaram um aggravamento da doena que o tinha levado
alli. Ao cair da tarde comeava a febre, a noite passava-se em suores, e
pela madrugada dormia ento prostrado um somno povoado de pesadellos.
No queria medico; sabia bem qual era o seu mal.

Uma manh, com surpreza do creado, que sempre o estranhra e nunca
podera comprehendel-o, pediu uma carruagem e correu ao caminho de ferro.

S a viagem bastava para lhe restaurar as foras. Quando  noite chegou
a Albergaria, parecia-lhe que todos os soffrimentos tinham sido apenas
um sonho mau.

No o sentiu porm assim a pobre e velha me que, recebendo-o
surprehendida e alvoroada, ao attentar na sua physionomia escalavrada
por dez dias d'ausencia de Emilia, mal poude conter as lagrimas.

Claudio mentiu-lhe. Fra uma constipao com alguma febre, uma noite que
se demorara na Matta. O medico dissera-lhe que s passados vinte dias
podia continuar no tratamento e por isso voltra para casa.

N'isto, beijou-a, intimamente pedindo n'este beijo, supplica muda,
perdo da mentira. Ella estranhou-o mas, tomando o apenas como sde dos
seus carinhos, passou-lhe a mo no rosto, affagando-o.

--No ha de ser nada, se Deus quizer... Parecia-me que o corao me
adivinhava qualquer cousa, quando te vi sair.

O sero prolongou-se at muito tarde, Claudio perguntando pelo que se
passava em Albergaria e a me ouvindo o que era a vida nas Caldas.

--Ai, Senhor! Que dinheiro se gasta n'essas cousas! exclamava. E tanta
pobreza por esse mundo...

--E Emilia!?

--No a tinha visto, mas dissera-lhe o filho, na egreja,  missa, onde o
tinha encontrado, que a me no saia porque andava um pouco doente.

Claudio estremeceu. O qu?! Ella tambem!... E calou-se um instante,
absorvido n'esse pensamento, entre o temor e a alegria.

Bateu uma hora da noite. Era tempo de se deitar, dizia a me; precisava
descansar, no lhe voltasse a febre.

O filho beijou-lhe a mo e recolheu-se ao seu gabinete, a caminho do
quarto em que dormia, que era contiguo.

Abriu a janella para lanar os olhos sobre o jardim. Quantas vezes nas
Caldas se lembrara com penetrante saudade d'elle e da sua
tranquillidade, a que associava o vulto de Emilia! Vinha do norte uma
densa nvoa que envolvia as arvores n'uma gaze humida e fresca, das
magnolias rolavam gottas d'agua caindo descompassadas sobre as folhas
seccas que juncavam a terra, e as aguas rumorejavam sumindo-se nos
sorvedouros que atravez da encosta as levavam aos ribeiros. Toda a voz
humana se calava, s a natureza cantava o seu infindo e eterno canto.

N'aquella frescura Claudio procurava um balsamo, mas a inquietao
abrazava-o, embalde o peito arquejante se dilatava nas auras matutinas.
Esperava um somno tranquillo. Entre as nuvens de poeira que o tinham
acompanhado ante-gozra o repouso no seu leito, no silencio do seu lar e
na alegria de voltar em poucas horas a vr Emilia; e o silencio no lhe
trazia repouso e a frescura no lhe abrandava esse fogo estranho que lhe
corria nas veias!

Mentira  sua me. Esse pensamento torturava-o. Nunca o tinha feito.
Queria affastal-o, procurava motivos que lhe satisfizessem a
consciencia. Mentira,  verdade, mas que mal resultava d'ahi? No fra
s para occultar o seu amor por Emilia? E a quem interessava esse amor
seno a elle, a elle s? Debalde! A razo no lograva dominar a dr que
estava ali, como um espinho, cravada no corao, penetrando cada vez
mais fundo. Depois, Emilia... que lhe diria, que pensava ella?...

Lembrava todo o passado, os continuados passeios, as palestras intimas,
a mutua confisso de todos os cuidados, de todos os bens e de todos os
males da existencia de cada um. Muita vez se tinham referido  sua
amizade mas nunca entre elles se fallra de amor.

Para Claudio essa illuso terminra. Sabia que a paixo o consumia.
Havia de occultar-lh'a porque era uma offensa  sua honra e porque, se
ella a adivinhasse, havia de repellil-o com a sua intemerata virtude.

 verdade que a me lhe dissera que Emilia tambem adoecera na sua
ausencia... Mas no! Era impossivel! No cabia na sua candura a sombra
d'um pensamento criminoso. Criminoso?! Pois era crime o affecto entre
duas almas irms e o desprezo do homem vil a que Emilia se achra ligada
n'um momento infeliz? Conveno estupida contra que a natureza protesta,
frageis leis humanas que a vida deroga a cada instante, desmentindo-as e
escarnecendo-as!

E todavia no podia libertar-se da duvida! A convico no lhe empolgava
o espirito. Mentira a sua me, havia de mentir-lhe todos os dias
occultando-lhe o intimo do seu corao, fugiria de todos guardando o
segredo de que crava, perseguido pelos phantasmas implacaveis da sua
consciencia. A consciencia! Tambem o amor era crime? Que tinha elle com
o que o mundo pensava?

No fra intencionalmente que procurara aquella mulher, no era seu
direito,--lera-o nos livros, aprendera-o nos evangelhos da
sciencia!--conquistar todos os bens que a sua fora podesse alcanar? A
vida era uma lucta. Gloria aos vencedores, vergonha aos vencidos! Queria
a sua hora de luctador, queria a sua hora de triumpho, queria as palmas
da victoria, elle que to mal dispendera os primeiros annos da mocidade
n'um timido recolhimento. Mas voltava uma onda de amargura... No, no
podia ser! E a honra de Emilia? e o seu nome? e os seus filhos? Que
duvida! que angustia!...

Altas horas, adormeceu, prostrado d'este doloroso meditar. O somno foi
breve; pela madrugada ergueu-se e desceu ao jardim.

O sol bebia os orvalhos da noite, uma branda aragem do norte varrera a
nvoa, no ceu azul corriam ligeiras, a perder-se no horisonte, pequenas
nuvens alvas e leves. A natureza despertava para a vida, e no
renascimento da luz Claudio colhia a sua parte de vigor.

A inquietao da noite fra um desfilar de phantasmas que iam longe,
como as nuvens para que levantava os olhos. Talvez a febre, o cansao da
jornada... Em poucas horas veria Emilia. Havia de occultar-lhe a
tempestade por que passara, transformal-a em pura e candida amizade.

Fra um erro, uma falta, ter mentido a sua me. Pezava-lhe ainda,
magoava-o. Para o futuro, porm, no teria necessidade de a repetir
porque na sua existencia nada haveria que precisasse occultar. Todas as
attribulaes dos ultimos dias passavam como um sonho mau, e ia seguindo
pelas ruas do jardim na embriaguez do leve perfume que as ultimas rosas
espalhavam no ar, juncando a terra, desfolhadas e emmurchecidas pelo
estio.

 beira do lago pendia d'um rochedo um jasmineiro; sobre as aguas
boiavam as suas flores singelas e brancas. Debruou-se, ajoelhado na
terra e colheu um ramo. Era para Emilia.

Voltou a casa contente e almoou com a me. Tinha dormido pouco,
dizia-lhe, talvez excitado da jornada, mas sentia se bem, com bom
apetite. O dr. Carvalho  que o aconselhara mal;--coitado!--de boa f. O
que elle precisava no eram banhos das Caldas, era estar em casa
socegado com os seus livros e as suas flores. Ali sim, ali  que tinha
saude.

A me applaudia: graas a Deus nunca precisara sair da aldeia seno para
ir a Coimbra ou  Figueira, no S. Joo. Sempre assim vira fazer aos da
sua condio. Agora  que tudo eram doenas e banhos de mar e remedios
da botica. Muito dinheiro e pouco que fazer! No sabia como essa gente
governava o que era seu, a sair a cada instante, a casa sempre em mos
dos creados. Deus a livrasse de tal vida! At tinha escrupulo...

Onze horas. Claudio levantou-se. Ia vr o dr. Carvalho, explicava,
passaria por casa de Emilia, e depois viria descansar. Tinha medo do
calor, estava muito fraco.

Saiu e dirigiu-se a casa do dr. Carvalho.

O dr. Carvalho estava no escriptorio, de esporas, chicote na mo e
chapeu na cabea, ouvindo um cliente. Correu risonho de braos abertos
para Claudio.

--Estava agora mesmo para ir a sua casa. Fui ao Amial que tenho l uma
mulhersinha com uma perniciosa,--e bem mal,--e ia vl-o. Ento como vae,
diga-me c? Que foi isso? Aqui ficamos todos muito surprehendidos ao
dizerem-nos que tinha voltado. Foi o Martins, quando veiu ao ch, que
trouxe a noticia. Ainda quiz ir saber como tinha chegado mas estavam c
as Silvas e depois, quando ellas sairam, era tarde, j passava da meia
noite.

--Isto no foi nada. Demorei-me um dia a conversar na Matta com o
conselheiro Andrade, estava fresco,--ali nas Caldas ha para tarde um
norte mesmo frio, e a bronchite aggravou-se. Tive uma febricula. O
medico do hospital disse-me que devia suspender os banhos e, em vista
d'isso, achei que o que tinha a fazer era vir-me embora. E fiz bem! J
esta noite dormi descansado.

--Em todo o caso, tenha cuidado. Eu acho o ainda palido e um bocadinho
abatido. Deixe c vr esse pulso... Est bem, mas tenha cuidado, tenha
cuidado. Nem mesmo devia sair com este calor.

--No vou para longe; quero s visitar os amigos. D'aqui a pouco estou
em casa.

A visita foi breve, Claudio contando rapidamente como se passava o tempo
nas Caldas e o dr. Carvalho referindo o que se passra em Albergaria.
Tudo muito desanimado com a falta de Claudio; at aos seres pouca gente
tinha apparecido. A Emilia no saia, andava um pouco incommodada do
estomago, o dr. Maia estava para a Beira, elle, Claudio, nas Caldas, o
Ricardo sempre a caminho de Coimbra; s as Silvas e o reitor  que se
conservaram firmes. Quasi nem havia parceiros para o quino.

Saindo de casa do dr. Carvalho, Claudio dirigiu-se  repartio de
fazenda,  esquina da rua da Cruz.

O seu desejo era ir immediatamente a casa de Emilia, mas j desconfiado,
procurando evitar toda a suspeita, com a astucia vulgar dos namorados
que a ninguem illude seno quelles mesmos que a usam, foi primeiro
procurar o Ricardo para fazer crer que o interesse e a amizade se
estendiam a toda a familia.

O Ricardo, mal o viu, levantou-se logo.

--Como est v. ex. tem passado bem? perguntou muito respeitoso,
afastando a cadeira com ruido e atirando apressado o cigarro para o
escarrador.

--Um pouco incommodado; foi por isso que voltei mais depressa.

E reeditou a velha historia da Matta, da bronchite e do medico que s ao
fim de vinte dias o deixava continuar a tomar banhos.

--Ora muito sinto, muito sinto, repetia Ricardo, procurando dar  voz
uma intonao magoada.

--E em sua casa, a sr. D. Emilia e os pequenos como vo?

--Muito obrigado, os pequenos optimos, cada vez mais travessos; a Emilia
 que no tem passado bem, com uma grande falta de appetite e muito
fraca. O dr. Carvalho j lhe receitou uns granulos de quassina e de
arseniato de strychnina, mas ella teimou em no tomar nada. Que est
bem, que est bem, que no precisa remedios... Deus queira que no me d
ainda alguns trabalhos!

--Eu hei de ir vl-a, disse Claudio mostrando desprendimento mas
intimamente ancioso.

--Olhe, deixei-a agora mesmo a costurar na sala. Fui a casa beber uma
cerveja, que este calor mata-me! Nem posso trabalhar, tem-se me atrazado
o servio!...

Claudio aproveitou o ensejo.

--No quero interrompel-o por mais tempo,  noite conversaremos com
vagar... Ento, se me d licena, vou ali vr a sr. D. Emilia... At
logo...

--No se incommode... dizia ainda para Ricardo que se dispunha a descer
a escada e a acompanhal-o at  porta.

Os poucos passos que medeavam entre a repartio de fazenda e a casa de
Emilia foram para Claudio lentos e compassados. Dominando os movimentos,
por um esforo da vontade, julgava dominar a anciedade e porventura
libertar-se assim da inquietao.  porta bateu cautelosamente, o peito
opprimido, suffocado de impaciencia. Lembrava-se da primeira vez que ali
fra. Tambem ento estava ancioso, em alegres esperanas de conquista, e
agora,--quanto caminho andado em to breves dias!--ali estava novamente
mas escravisado pela paixo, torturado de duvidas, turvado pela dr.

A creada desceu, como de costume, abriu, e d'esta vez, sem hesitaes,
exclamou:

--Ah! o sr. dr. Claudio!... Faa favor de entrar. A sr. D. Emilia est
na sala!

Claudio subiu. Entrou na sala, quando Emilia, j de p, tendo ouvido a
sua voz e apressando-se a deixar a costura, vinha ao seu encontro.

As mos apertaram-se n'um movimento de franca e irreprimida alegria;
n'um momento pareciam magicamente dissolvidas todas as duvidas e todas
as dores.

Sentaram-se e a conversao comeou precipitada, rapida. Sentiam-se
ambos bem;  frescura da sala com as janellas semi-cerradas juntava se a
frescura do espirito faiscante no contacto dos dois coraes amorosos.

Para Claudio as Caldas eram uma estao deliciosa; as horas passavam se
ligeiras em concertos, em bailes, em passeios, n'uma festa continuada de
graa, de luxo e de elegancia. Lembrara se l muitas vezes de Emilia.
Como ella havia de apreciar aquelles dias que correspondiam to bem 
delicadeza da sua educao! O peior fra a constipao que no o tinha
deixado concluir o tratamento. Seria outro anno! Paciencia. Tambem tinha
a compensao de se vr na tranquillidade da sua casa.

Emilia estava um pouco surprehendida com a doena de Claudio. S pelo
jardineiro que trouxera o ramo de jasmins soubera do seu regresso, que o
Ricardo, conforme velhos habitos, em casa s parava para dormir e comer,
pouco fallava. Mas suppozera que se tinha aborrecido da vida e da gente
que elle chamava ironicamente a gente fina, e por isso voltra ao ninho.

Ella, tambem, tinha passado mal, do calor, provavelmente; uma
inapetencia e uma fraqueza que a no deixavam um instante. No tinha
saido de casa, nem uma s vez, depois que elle partira.

N'este ponto, a conversa esmoreceu e fez-se um momento de silencio.
Claudio fitou Emilia, viu-a pallida, os olhos cavados, todo o vio
minado pela paixo.

Perpassando-lhe pela mente, n'uma vertigem, a lembrana da torturante
saudade que soffrera, arquejante de desejo, caiu de joelhos, e
beijando-lhe as mos que apertava nas suas convulsivamente:

--Emilia! Emilia! balbuciou com a face occulta no regao.

Ella, muda de surpreza e entorpecida d'amor, mal tentou desembaraar-se
dos laos que a prendiam.

De repente, Claudio levantou-se, como n'um subito e apavorado despertar:

--Perdoe-me, perdoe-me pelo amor de Deus, disse para Emilia.

E tremulo, desvairado, correu a esconder-se em casa.




IV


Olhe, ahi vem o dr Carvalho que lhe pde contar alguma cousa, dizia o
boticario para o recebedor, atirando os dados sobre a taboa do gamo.

--De qu? do calor? perguntava o Carvalho entrando. Tem sido de morrer.
Esta manh tive de ir a Sarnadas...

--Mas responda l,  verdade ou no ?

--Respondo... mas hei-de saber primeiro o que me pergunta.

-- verdade que o Claudio vae todas as noites,  uma hora, para casa da
D. Emilia emquanto o bebado do Ricardo est no melhor do seu somno?

--Ora...

--Ora!... Elles at j teem saido a passeiar! Ainda a semana passada
umas mulheres, que iam s tres horas da noite para a feira de Monteiros,
os encontraram sentados l em baixo, ao p da fonte. Tambem agora s de
noite... que de dia no se pra com calor.

--Eu acredito l n'isso! Quando mesmo fosse verdade o que vocs querem
dizer, ella ia deixar o marido, os filhos e a creada, e sair para fra
de casa! Bastava que um d'elles accordasse para a comprometter.

--V o doutor o Claudio por aqui?!... Metteu-se na toca como um rato
dentro do queijo.  que arranjou coisa melhor que a nossa companhia. E
faz bem. Olhe que eu antes me queria com ella aos couces que com o nosso
recebedor aos beijos. No  peste nenhuma.

--No sei... essas cousas so faceis de dizer. Vejo-os em minha casa
todas as semanas, ainda no descobri n'elles signaes de namoro.
Conversam, jogam e at s vezes passam quasi toda a noite sem se
aproximarem um do outro.

--No que elles iam mesmo namorar-se para sua casa! Se no fallam um com
o outro  porque andam entendidos. Para mim  mais uma razo. Que o
doutor deve defendel-os... Tambem nos saiu bem bom...

--Adeus, adeus, que esto hoje com muito m lingua, apressou-se o
Carvalho a dizer, fugindo com receio de que lhe fallassem na Silva que
continuava a seguir, com boas esperanas de conquista.

Estavamos a este tempo em fins d'agosto, mez e meio depois que vimos
Claudio saindo como um louco de casa de Emilia. De facto, retraira-se;
com o pretexto nos seus estudos e na sua debil saude, fechara-se em casa
e quasi ninguem o via. Entregara-se por completo ao drama da sua
existencia.

Aquelle dia em que de volta das Caldas tinha ido vr Emilia, ficra-lhe
na lembrana. Fra a hora mais cruel de toda a sua vida. Recordava-o a
todo o instante, como se trouxesse cravado no peito um punhal que lhe
rasgava as carnes a cada movimento.

A me estranhra-lhe a pallidez vendo-o entrar. No era nada, resultado
da fraqueza e do calor; ia dormir um pouco... Fechou-se no quarto,
atirando-se para um sof, succumbido de pavor. O que fra? Que loucura o
fizera ajoelhar aos ps de Emilia? O que pensaria ella? Perdel-a-ia,
julgando-o um vulgar conquistador, ou comeava uma vida d'amor? Que
fizera dos seus propositos de amisade e da energia com que havia de
dominar toda a paixo? Por outro lado, pensava, ella resistira
frouxamente quando elle lhe apertou as mos. Era pois verdade que o
amava?

Um refrigerio se lhe derramava nas veias. E a me? Ai! mentira-lhe; to
cedo olvidra as torturas da noite! No, no seria assim, no seria
levado por uma hora de desvairamento. Havia de voltar a casa de Emilia,
poderia agora abrir-lhe completamente a sua alma, fazer-lhe inteira
confisso do seu amor, das suas duvidas e ella, se o amava,--era certo,
era certo!--havia de querer, como elle, uma vida pura, uma vida sem
macula, em que nenhum tivesse de crar nem perante o mundo, nem perante
a propria consciencia.

A consciencia! Voltava esse estranho phantasma. Onde, em que livros, em
que systemas aprendera a guiar-se por esse feitio interior, onde vira
provada a sua existencia? Imaginao doente! No havia consciencia, no
havia deveres deante de dois entes aproximados pelos impulsos do amor
que os abrazava e confundia. Ah! pensasse baixinho... estava ali sua
me, sentia-lhe os passos, vinha talvez escutar, saber se dormia. No
fosse adivinhar o que lhe passava pelo espirito e morrer na cruz de
tamanha dr! Que lhe dissera ella na estreita sala de Villalva, pelas
noites de luar, ao p do Christo? Lembrava-se agora! A consciencia, a
consciencia!

Fra alli que se lhe revelra essa appario que o vigiava
implacavelmente.

Havia de obedecer-lhe. Sentia um fremito de coragem que o erguia do
abatimento e da duvida. Mas no!... Delirava.

No eram escrupulos que o atormentavam, era o receio de perder o amor de
Emilia, de se ter apartado para sempre do seu corao, ferindo-a na sua
virtude. A que baixeza descera!

No eram melhores os remorsos, a consciencia atribulada, que esta misera
priso  fragilidade d'uma mulher? Quem lhe dra libertar-se! Porque no
havia de o fazer? Para que voltaria a casa de Emilia? Cobardia! Havia de
a insultar e fugir? Pediria primeiro o seu perdo,--ai! quanto lhe seria
doce! depois... talvez, talvez...

E o seu espirito perdia-se n'um labyrintho e o corao vogava em ondas
de dr.

N'este martyrio passou todo o dia. Ao jantar queixou-se  me. Ainda no
se sentia bom. Se fosse estar dois dias em Villalva, poderia fazer-lhe
bem a mudana d'ares. No dia seguinte resolveria, conforme fosse a
noite.

Interiormente, esta palavra fazia-o tremer. A noite! O que iria
passar-se entre elle e Emilia? Contava uma a uma as horas que o
aproximavam d'esse momento decisivo e, por mais doloroso que o
imaginasse, apetecia-o.

s oito horas batia  porta da pequena casa da rua da Cruz. A custo
subiu a escada; o corpo mortificado arrastava-se pesado e lento, banhado
n'um frio suor d'agonia.

Mal entrou na sala, deixou-se cair sobre uma cadeira. Emilia
estendeu-lhe a mo, silenciosa, mais pallida ainda do que elle a vira de
manh, com lagrimas de emoo a toldarem-lhe os olhos. Claudio olhou em
volta. Estavam ss. Podia fallar.

--Por certo me ter julgado severamente, mas se quizer fazer-me a esmola
de me ouvir,-- uma esmola,--ha-de perdoar-me.

--No tenho que lhe perdoar, interrompeu ella tremendo, escusa de me
dizer cousa alguma, sei muito bem o que se passa no seu espirito... Eu 
que sou infeliz!

E as lagrimas desprenderam-se-lhe pelas faces.

Fez-se uma longa pausa e a conversao continuou.

N'esta mutua confisso em que o amor desabrochava, sentiam-se ambos bem;
partiram-se as cadeias que os prendiam n'um mutismo oppressivo e as
palavras voaram como um bando de rolas soltas  luz por uma alegre
madrugada.

Claudio podia contar todos os soffrimentos por que passra e Emilia
responder-lhe, descobrindo a seu turno o intimo do seu peito.

Tambem ella tinha soffrido muito ao vr crescer esta affeio.
Chamava-lhe assim, repugnava-lhe a palavra amor em que sentia mais de
perto a quebra da fidelidade conjugal.

O adulterio repugnava-lhe, invocava para o repellir o dever e a
religio, sem todavia sentir a profundeza d'aquellas obrigaes.

Repugnava-lhe porque era feio, era de mau gosto, contradizia os
preceitos da sua educao e no cabia no convencionalismo estreito que
era toda a sua regra moral, vasia de sentimento.

Envergonhar-se-ia de ser infiel ao marido pelas mesmas razes que a
levavam a passar noites crueis procurando tirar dos seus farrapos trajos
elegantes, para competir com a gente fina cujas relaes frequentava.

Claudio ouvia e applaudia, penetrado de admirao perante to sublime
virtude, ingenuamente julgando ter encontrado par s suas duvidas e
atribulaes, onde de facto s havia um fragil simulacro de grandeza
moral.

Esta noite, que se annuncira tormentosa, derramava em ambos os amantes
uma tranquillidade profunda.

Tudo agora ficava determinado d'uma vez para sempre.

Perdoada a falta de Claudio, que se punha  conta do arrebatamento
produzido pela presena de Emilia ao fim de tantos dias de saudade,
quebrada toda a represso dos sentimentos intimos, podia assim
reconhecer sem remorsos o seu mutuo affecto todo impregnado de respeito.

Seriam como irmos; elle com a sua amizade trazer-lhe-ia lenitivo 
tristeza da infelicidade conjugal, aconselhando-a, guiando-a e
amparando-a pela presena d'um corao fiel, ella havia de banir a
aridez das horas de estudo de Claudio pelas graas do seu espirito. A
vida tornava-se perfeita.

O encontro d'aquellas duas almas fra um bem providencial para ambos,
perdida uma em busca de carinhos, perdida outra na desventura d'um
destino amargo.

Duvidas, saudades, hesitaes, tudo se dissipava nas brizas propicias do
amor triumphante. O espirito vergou-se ao sentimento e acceitou, sem
perplexidade nem confuso, esse flamejar de desejos, tomando-o por uma
aurora luminosa e serena.

Claudio entrou no seu palacio, fatigado mas alegre, a refazer-se n'um
somno povoado de venturas. No dia seguinte podia dizer  sua
me:--Graas a Deus, estou melhor;--e ella veria contente, como a beno
das suas oraes, a vida e o rubor voltar ao rosto do filho.

Pela calma do estio as flores beberiam o vio nos regatos e a natureza
havia de povoar-se de vozes harmoniosas e clementes, cantando em cro
com os amantes felizes.

Era boa occasio de voltar ao estudo, satisfeitas as vagas aspiraes
sentimentaes que nunca deixavam de o seguir. Tinha o affecto da me e de
Emilia. Que mais precisava? Devia mesmo romper com perniciosos habitos
de ociosidade provinciana, gastando-se a inquirir das intrigas do
soalheiro e expondo-se a ouvir, com a brutal liberdade da gente rude,
alluses s suas relaes com Emilia que outros poderiam interpretar
injustamente. Por isso deixra de frequentar a botica, armado para uma
vida de pureza e de saber. Na seccura das suas preoccupaes
racionalistas infiltrava-se um desconhecido fermento de poesia cujos
primeiros e rapidos movimentos lhe davam a illuso da felicidade.

D'essa illuso partilhava Emilia, e para ella era completa. Rapidamente
esquecera o dia em que Claudio voltra das Caldas; na sua leviandade
mulheril, entregava-se sem reservas ao prazer da hora presente.

Ella, to pobre de carinhos, abandonada do marido que cada vez mais se
entregava aos seus vicios, sentia como uma infinita suavidade a nova
atmosphera de affecto que a envolvia. J no havia dores que fossem
unicamente suas, j no havia cuidados que no tivessem confidente,
afflico que no tivesse soccorro. A imagem de Claudio
entranhava-se-lhe no corao como o supremo bem e sabedoria. Era bello
tudo o que elle amava, era bom quanto elle julgava bom. Deixra de a
tentar o ruido das festas, a v agitao por que algum tempo suspirava,
para esquecer as mgoas; a natureza e o seu silencio ou os seus
mysteriosos murmurios diziam-lhe agora mais que todos os artificios que
com delicia lhe deslumbravam os olhos.

Para elle, ainda no chegra a hora de inteira tranquillidade. Estava
bem, no havia remorso que lhe pesasse, poderia confessar toda a sua
vida. Mas no a confessava. Porque? No era to puro, to casto o seu
amor por Emilia? No crava elle lembrando-se que algum dia pensra em
fazer d'ella sua amante? No estava resgatada essa affronta, que nunca
communicra a ninguem, pelo respeito com que agora a idealisava,
santificando-a e adorando-a como martyr? Embora!

No ousava fallar de Emilia, temia que alguem manchasse com ruins
desconfianas este amor immaculado. Nem  sua me o confessava; na
ingenuidade do seu pensamento condemnaria talvez o affecto por uma
mulher casada e no poderia comprehender a iseno do filho.

Por isso se calava, por isso fugia d'antigos companheiros com que
francamente ria de amorosas aventuras picarescas, arrastando dentro de
si, como um pendulo que oscilla e mortifica, esta constante reserva e o
temor do que elle julgaria injustia. A sua vida era feliz, mas
apertava-se dolorosamente, cercada de phantasmas.

N'este idyllio se consummiram quatro mezes. Claudio frequentava pouco a
casa de Emilia, sempre perseguido d'uma vaga suspeita do naufragio da
honra da sua amada.

Encontrava-a em casa do dr. Carvalho uma vez cada semana, via-a na
egreja, acompanhava-a nos seus breves passeios. S de longe em longe a
procurava na rua da Cruz, contando os dias, para que a frequencia se no
tornasse notada da visinhana. Inutil cuidado; o cynismo vulgar, melhor
inspirado do que o idealismo poetico, no se illudia sobre a realidade,
satanicamente commentava a familiaridade e sorria.

Uma tarde, nos primeiros dias de dezembro,  hora em que o sol ia
baixando e um frio sereno e humido annunciava os gelos da noite, Claudio
entrava na villa, regressando d'um passeio a Palhares, com Emilia, com
as Silvas, a mulher do dr. Carvalho e o Maia.

Este, tendo partido um casamento rico que tentra na Beira, voltava-se
agora com mais insistencia para a Silva, tanto mais que lhe haviam dito
que ellas tinham em Monteiros um tio rico de quem seriam herdeiras.

Averigura pelo juiz que l estava, um seu parente, e viera a saber que
o homem era realmente rico; pagava uns noventa mil ris de contribuio
predial, tinha bastante dinheiro a juro, fra um bom mealheiro que
guardava em casa, como grande avaro que era. No constava que tivesse
testamento, nem o faria porque isso lhe repugnava. Os unicos herdeiros
eram as sobrinhas.

A herana devia estar para breve. Elle contava setenta e quatro annos,
j o anno passado tinha tido um antrax que o pozera s portas da morte,
e os medicos diziam que no podia ir longe; havia desordens no
funccionamento dos rins, perigosas e incuraveis.

A duvida era uma unica: este homem tinha um filho natural d'uma creada,
mas nunca o reconhecera, correndo-o com uma bengala uma vez que o
pequenito, por conselho da me, lhe pedira a beno no meio da rua.

Pretendia que elle fosse filho d'um creado, com quem a rapariga tivera
amores, mas, para maior segurana, quando o rapaz tinha quatorze annos,
mandou-o para o Brazil. Sabia-se que elle vivia e que de l soccorria a
me, a quem o velho abandonra na miseria.

O Maia, porm, no se assustava com isto; j conhecia alguns casos mal
parados de investigao de paternidade illegitima que o affoitavam,
quasi se sentia tentado com a demanda para dar largas  sua actividade
profissional, e conhecia o processo por que ordinariamente estes
terminam casos.

O rapaz no tinha dinheiro para custear o pleito e viria a uma
conciliao, contentando-se com uns magros contos de reis.

Na verdade, esse grupo que vinha estrada acima cantando louvores 
natureza,--a tarde estava lindissima! no se cansavam de
repetir,--cuidava apenas de amores.

O Maia procurava mulher e fortuna; Claudio contemplava a sua Emilia; a
Silva, a mais velha, que dizia agora que no se queria casar porque no
estava para aturar homens,--queria a sua independencia!--a cada instante
olhava para traz, a vr se descobria o dr. Carvalho que tinha ido 
Varzea visitar os doentes, e a mulher do Carvalho, que andava muito
inflamada em ciumes, vinha guardando a amante do marido.

Pararam na praa. Havia alli um grande ajuntamento, em volta d'um
trapezio erguido no meio da calada e tapetado em baixo com immundos
farrapos.

No trapezio estava sentado um homem magro, as faces cavadas, vestido
d'uma desbotada malha cr de rosa, calado de cothurnos brancos; em
baixo, de p, uma mulher, tambem vestida cr de rosa, saia curta,
coberta de lantejoulas que se estendiam em arabescos pelos hombros,
levantava do cho uma creancita magra, longos cabellos louros e olhos
azues, e arremessava-a ao homem do trapezio. A creancita, voltando-se no
ar, soltava um grito agudo e o homem recebia-a nos braos.

Claudio voltou-se constrangido, para no presencear este quadro de
miseria, e, ao lado d'elle, uma rapariga do povo, que era linda, voltou
as costas tambem.

--Credo, Virgem Nossa Senhora, nem quero vr! disse ella.

--Eu tambem no gsto, respondeu Claudio.

--Quem ha-de gostar de vr o innocentinho alli aos trambolhes?! At
parece que o desmancham.

--So modos de vida. A fome tudo pde.

--Antes pedir esmola.

E trocaram ainda mais umas breves palavras, com uma subita sympathia
tirada da mesma compaixo.

O dr. Carvalho no tardou a chegar, risonho e animado.

--Vamos para casa, disse para a Silva, antes que se faa noite, que lhe
quero dar um ramo de violetas como ha muito no v. Tenho-as l
magnificas. Deu-m'as o jardineiro da condessa de Albergaria. Uma
maravilha!

A mulher do Carvalho crou, e l seguiram todos a caminho do jardim.

Claudio acompanhou-os at  porta e voltou a casa, para no mais sair
n'aquelle dia. Emilia ia taciturna.

--To calada? perguntou Claudio.

--Estou com frio.

--Deus queira que no lhe v fazer mal.

E separaram-se.

No dia seguinte,  tarde, Claudio foi  rua da Cruz saber de Emilia.

Com grande surpreza, appareceu-lhe Ricardo, dizendo que a mulher estava
muito incommodada desde a vespera.

Logo ao chegar a casa, fra atacada de vomitos; desde ento nunca mais a
tinha deixado uma violenta dr de cabea.

--At chorava, dizia o Ricardo.

Tinha querido chamar o medico, mas ella toda se exaltra com a
lembrana, dizendo que isso ainda lhe fazia peior, que nunca se chamou
um medico por uma dr de cabea e que o maior beneficio que lhe podiam
fazer era deixal-a s, em paz e socego.

Claudio ficou no maior desalento. Evidentemente, tratava-se d'uma doena
grave, para que Emilia no fizesse o esforo de se levantar do leito e
vir vel-o quando no podia ignorar que elle ali estava. O seu primeiro
impulso foi instar pela assistencia d'um medico, mas depois,
reflectindo, receiava contrarial-a e aggravar o mal. Resolvia esperar
mais vinte e quatro horas que antecipadamente sabia serem de agitao.

A noite foi afflictiva. A possibilidade da morte de Emilia perseguia-o
como um espectro, povoando-lhe a escurido de vises tenebrosas. O
despontar do dia, porm, alliviou-o; dissipava os sonhos, parecia
dar-lhe consciencia mais nitida da realidade. No seria cousa grave! A
sua imaginao  que tinha certa tendencia a representar-lhe o peior.
At poderia ser que quella hora tudo estivesse passado! O que o
preoccupava agora era determinar a hora de ir vr Emilia.

Preferiria a tarde para no mostrar excessivo cuidado. Oh! Senhor, que
vida! No ter a liberdade de confessar os seus sentimentos, sempre em
continuados temores, fugindo como um criminoso... E no o era!

Mas no podia esperar tanto. Sete horas da manh!... Teria ainda dez
horas. Impossivel. Iria depois de almoo. Que lhe importava o que
podessem dizer. Ia s occultas, porventura?...

Era meio dia quando chegou  rua da Cruz.  creada perguntou por Emilia.
Estava melhor, j se levantra, at de manh descera um bocadinho ao
jardim.

Subiu ligeiro e contente, alliviado d'um grande peso; entrou na sala que
estava deserta, Emilia tardava e por certo j lhe tinha ouvido a voz...
Era singular! Ella que sempre corria para elle to pressurosa...

Decorreram longos minutos, Emilia aproximava-se a passos lentos,
compassados, parando a meio do corredor, para dar  creada umas ultimas
ordens. Claudio esperava-a de p, frenetico, movendo-se nos dois passos
que medeavam entre a meza e o sof.

De repente, perpassara-lhe pelo corpo um frio de terror. Emilia vinha
para elle com aquella mesma pallidez caracteristica que j um dia lhe
conhecera e em que s os seus grandes olhos ficavam boiando como
pharoes, em braza, n'uma toalha alva e mate, orlada ricamente pelos mais
finos cabellos.

--O que tem? perguntou Claudio afflicto, prendendo-lhe a mo.
Estranho-a.

--No sei, respondeu ella pausada e desprendidamente. Foi apenas uma dr
de cabea, um pouco mais violenta do que as que costumo ter. Antes fosse
uma doena grave! Que fao eu n'este mundo?!...

--No seja injusta nem cruel com os que a estimam. Se soubesse o que eu
tenho soffrido ha algumas horas...

--No vale a pena. Que falta lhe podia fazer? Haveria muita rapariga
fresca e nova que o cubiasse. Conheo-me. Olhe: ainda ante-hontem vimos
uma bem bonita na praa, aquella que esteve ao p de ns. No lhe
pareceu?

Claudio s ento comprehendeu que Emilia ardia em ciume. Correu-lhe o
sangue ao corao, seccaram-se-lhe os labios e, como uma fra
precipitando-se sobre a preza, lanou os braos em torno da cintura de
Emilia, beijando-lhe as faces em convulses de desejo.

--Claudio, Claudio, exclamou ella, tentando libertar-se, endoideceu?

--No, no endoideci, respondeu elle tremulo e o rosto congestionado. A
culpa  sua, unicamente sua. Fica assim convencida do meu amor?

J no era o timido que ns viramos soluante, implorando perdo, por
uma calma noite de julho. A cubia e uma instinctiva mas plena certeza
de dominio tornavam-n'o arrogante e despotico. E Emilia obedecia,
defendendo-se frouxamente com o temor do escandalo e da sua vergonha,
inconscientemente dominada por um ardor de paixo que a fazia acceitar
como boas as razes que o amante ardilosamente inventava para a levar a
quanto lhe apetecia.

No valia a religio nem o dever; a culpa era do destino que, tendo-lhe
dado um marido repellente e sordido, lhe deparava agora uma alma irm da
sua.

Claudio voltava a casa agitado de contentamento. Todos os escrupulos,
todas as preoccupaes se baniram ao alento d'aquelle corpo que tivera
nos braos, ao contacto d'aquella face cuja impresso sentia ainda nos
labios.

A animalidade vencia, a satisfao da carne punha em debandada os
terrores da alma transformando-os em deliciosas e captivantes
esperanas. Voltaria  rua da Cruz no dia seguinte,  mesma hora, quando
Ricardo estivesse na repartio e os filhos na escola. Sequioso dos
beijos de Emilia, todo se entregava a essa cubia absorvente.

Eil-o novamente vagueando entre as flores, n'esse jardim que fra e
seria ainda o theatro das suas inquietaes, esperando o bater do meio
dia como cavallo fogoso escarvando a terra e mascando o freio, a orelha
fita ao toque do clarim que marcar a partida.

Quem lh'a dra ali, por essa tarde de dezembro em que o sol to
brandamente penetrava a terra passando entre os troncos nus das arvores
desfolhadas pelo inverno! Iria colher violetas  sombra dos cedros e a
meiguice dos seus beijos havia de confundir-se com o perfume subtil e
inebriante, o amor a adejar na luz pallida e cariciosa.

Onde estavam as dolorosas duvidas de ha pouco, onde o respeito pela sua
amada que havia de pr no sacrario a que no chegariam as palpitaes da
concupiscencia impura? Sonhos vos, vos propositos! Nem d'isso j se
lembrava! Varrera-lh'o da lembrana a chama em que todo o seu ser ardia
n'uma transformao gloriosa.

Com que alegria subiu  sala de Emilia!... Mas Emilia vinha triste, os
olhos macerados, mysteriosa, perseguida d'um pavr que nem o anceio de
vr o amante podia dissipar. No se assustasse Claudio... Ricardo
desconfira, estranhra as visitas quella hora, ameara-a. Tudo porm
se poderia arranjar, ella lhe mandaria dizer quando e onde se poderiam
encontrar. Depois lhe contaria pausadamente como isso se passra; no se
demorasse, saisse quanto antes. Que no se affligisse, ella era a mesma.
E abraaram-se.

Claudio voltou a casa; todo o seu peito entoava hymnos de triumpho. Era
sua! A certeza do amor de Emilia vencia todas as atribulaes e
resgatava todas as dores passadas. O ardor da paixo e a coragem
confundiam-se n'um s fogo, impetuoso, subindo para os cos, 
serenidade olympica do amor victorioso.

Na mesma tarde d'este dia em que tivra o primeiro annuncio da
desconfiana de Ricardo, Claudio recebeu uma carta de Emilia.

O marido partira para Coimbra e ella pedia-lhe que viesse, s dez horas
da noite, a uma pequena capella abandonada que ficava junto  casa, na
rua da Cruz, e que com ella tinha communicao interior.

Entregaram a carta a Claudio na presena da me, no fim do jantar. Teve
de mentir. Disse que era do prior de Villa Nova, a pedir-lhe que fosse
l  noite. Estava com um ataque de gotta e no podia sair.

--Foi-se metter na eleio da junta de parochia e agora ha-de querer que
eu lhe d os votos de Villalva!...

Para se conformar com o que dissra  me, saiu s oito horas. No era
verosimil ir procurar um velho, n'uma aldeia, s dez horas da noite. E
ainda, para retardar a partida, foi preciso inventar uma carta longa a
escrever, inaddiavel, que justificasse a permanencia em casa.

Seguiria pela estrada acima, caminho de Villa Nova, e voltaria torneando
a villa, a entrar na rua que o levaria em direitura a casa de Emilia;
mas, quando chegou ao extremo da villa, eram apenas oito horas e um
quarto. Que fazer? Impossivel dirigir-se j  capella; poderiam vl-o e
comprometteria Emilia.

Seguiu para deante. Foi sentar-se n'um logar deserto,  beira do
caminho, sobre o parapeito d'um aqueducto, esperando.

Accordava agora do desvario sensual em que todo o dia andara arrastado;
a treva, a fadiga, o silencio, o isolamento e a immobilidade forada
despertavam-lhe a consciencia. Era um crime o que ia fazer? No era; a
paixo convencia-o da propria innocencia. A ninguem prejudicava, nem
mesmo a Ricardo que fra o primeiro a abandonar a mulher. No a roubava
aos filhos, para que havia de privar-se do seu amor? Este mundo  uma
conquista; queria a sua parte. Mas porque ento este sentimento
d'amargura  hora em que ia satisfazer-se a sua maior ambio? Mentia e
a mentira repugnava-lhe.

No vira elle o que lhe acontecera com a me ao receber a carta?
Mentira! Era a voz que sentia echoar pelos despidos cerros dos montes e
pelas sombras do olivedo nos valles. Mentira! Mentira!... Olhava em
torno. Viria alguem?... Que importava? Quem o sabia? Oh! no, tinha-o
escripto na fronte, illuminada por uma luz de remorso. Fra loucura...
Porque no fugiu, porque no se affastou para longe a primeira vez que
encontrara Emilia? Emilia!... Quanto soffreria ella tambem?!...
Devia-lhe amparo, fra elle que a tentara na paz da sua virtude, fra
elle que lhe derramara no sangue, como um veneno, aquella pallidez com
que a vira nas horas de soffrimento e que se lhe gravaria nos olhos para
sempre.

Queria vl-a, queria abraal-a,--fortuna suprema! E o amor e a compaixo
casavam-se na mesma anciedade.

Finalmente, s dez horas, abriu-se a porta da capella da rua da Cruz.
Claudio no a conhecia.

Foi preciso que Emilia o guiasse na escurido, apenas cortada pela
escassa luz que vinha da porta lateral que abria sobre os campos e dava
passagem para um alpendre da casa de Ricardo.

A capella estava abandonada; servia apenas de palheiro e arrecadao de
alfaias de lavoura. Iam sentar-se no degrau do altar-mr, unica elevao
que havia no pavimento lageado e raso.

--Tambem alli est um confissionario velho, disse Emilia, mas s tem um
assento, o do padre.

--Leva-me l, respondeu Claudio, quero ajoelhar aos teus ps e pedir-te
perdo das minhas faltas.

--As suas faltas!...

--Suas?... No me chames assim. Parece que me affastas.

Ella sentou-se e Claudio ajoelhou. Estava tremulo e frio, gelado pelas
longas horas de espera na estrada deserta e mortificado pelas
angustiosas cogitaes em que o lanavam as luctas interiores da paixo,
as contradies do dever e do desejo, da realidade cynica e das
aspiraes ideaes. Cara como prostrado, mudo de emoo, esmagado de
duvidas em que a amargura e o contentamento se confundiam n'uma mesma
vibrao.

Ella estava serena, na simplicidade do amor apartado das complicaes
d'uma consciencia intelligente e timida. Estava nos braos do amante,
que lhe envolviam a cintura, ninguem o sabia, e esta ultima
circumstancia bastava a tranquillisal-a. No havia duvidas intimas; tudo
se reduzia a convenes mundanas que, illudidas ou compridas, ficavam
sempre igualmente satisfeitas.

Pouco e pouco, Claudio reanimou-se no alento da amante. A sensibilidade
vencia. E tarde, pela noite calada, recolhia a casa n'uma plenitude de
vida e de contentamento que ha muito lhe era desconhecida.

A sua existencia tornra-se completa, julgava elle com a f mais firme;
ia entrar n'um periodo de fecunda e longa tranquillidade. Considerava-se
unido para sempre a Emilia no mais puro hymeneu, ella era a legitima
esposa do seu corpo e da sua alma, a que devia fidelidade que do corao
lhe votava. Quizera o destino, por um capricho cruel, que essa mulher
vivesse separada d'elle, n'uma vida de privaes e de penas, mas esse
facto no enfraquecia nem prejudicava a unio. Pelo contrario,
sublimava-a, introduzindo-lhe elementos moraes de paciencia e resignao
que inflamavam os amantes pela lucta perpetua.

Restava a Claudio dispr as cousas externas conforme as novas condies
da sua existencia.

Para illudir a me, faria um pequeno gabinete, em baixo, ao p do
jardim, em que passaria as noites, sem ninguem o sentir. Iria  rua da
Cruz nos dias em que Ricardo fosse a Coimbra, repetiria quanto possivel
os passeios e jornadas que o affastasem de Albergaria,--convinha ao bom
nome de Emilia, cuja honra se lhe afigurava immaculada,--e evitaria
mesmo frequentar a casa do dr. Carvalho com a assiduidade que at ento
usra. Voltaria a completar os seus estudos que d'esta vez tinham todas
as condies de proseguir at ao fim, satisfeito o corpo e envolvido o
espirito n'uma atmosphera de poesia. Assim seria a sua vida at  hora
derradeira em que queria morrer os olhos fitos n'essa imagem que era o
sangue do seu sangue, a sua razo de ser.

N'este novo caminho, em que affoitamente entrou, deu aos seus estudos
uma nova direco. Era necessario resolver o problema moral, que ha
tantos mezes o inquietava, era necessario pr de harmonia a razo e o
sentimento, descobrir os motivos que haviam de justificar plenamente a
sua existencia e banir todas as duvidas que o turvavam.

Na verdade, a sciencia nada lhe dissera. As leis da lucta pela vida e do
transformismo nunca lhe podram explicar nem porque era doloroso mentir
a sua me nem por que motivo havia de occultar os seus amores com
Emilia. Conveniencias sociaes? Mas ento os instinctos naturaes no so
o melhor juiz dessas conveniencias e no conduzem  perfeio final? E,
se assim no , se ha parallelamente outras leis, quaes so, em que se
fundam, que princpio as sancciona, como e em que modificam as
primeiras?

Evidentemente, a sciencia era incompleta; nada lhe dizia sobre aquillo
que mais o interessava e mostrava-se incapaz de lhe offerecer
tranquillidade. Porque era verdade que vivia inquieto.

Voltava-se para os livros de religio e de moral. Devia haver uma outra
sciencia. Lia Epicteto, Marco Aurelio, os padres da Egreja e, entre os
modernos, Renan, Amiel e Tolstoi. A vida seria, nas palavras d'estes, o
desprezo do mundo e da carne, a conformidade com o destino, a exaltao
no amor e na humildade. Os primeiros sero os ultimos e os ultimos sero
os primeiros. N'este mundo, todos somos irmos. Irmos, amae-vos uns
aos outros! As palavras do evangelista tornavam-se uma obsesso.

Se assim era, que crimes eram os seus, na occiosidade, na traio e na
mentira! Dominava-o um impulso de arrependimento. N'uma tragedia intima,
repetia: Pequei! Esquecia a sciencia. O corpo e os seus apetites no
eram uma realidade tambem? Sim, de certo, mas melhores seriam as
privaes do que a tortura d'aquella vida sem repouso...

N'este drama, passou cerca de dois annos. Aos olhos dos estranhos, a
quem os amores escandalosos, por muito continuados, se tornaram
indifferentes, a tranquillidade parecia perfeita. De facto, nenhum
obstaculo de natureza material existia.

A me de Claudio no se julgava no direito de pr estorvos  sua
vontade, desde a morte do marido; nos seus inveterados habitos de servir
e obedecer, considerava o filho o seu senhor. O Ricardo, ou fosse
ignorancia, alis nada provavel, dos amores da mulher, ou fosse um
cynico interesse na amisade de Claudio de quem sempre esperava proteco
e com cuja bolsa contava para os momentos difficeis, amiudando e
prolongando as suas noites de Coimbra em casa da amante, acabra por
deixar Emilia n'um desafogo que lhe permittia longas horas do mais
repousado amor.

Os tormentos vinham da consciencia. Claudio no encontrava soluo moral
que importasse justificao plena do seu viver. A duvida e a inquietao
eram constantes, permanentes; cavavam-lhe na alma abysmos de mysterio,
perante os quaes a todo o instante tremia e se apavorava. O mais pequeno
incidente revolvia toda essa vasa que o suffocava, um dia de ciumes de
Emilia, a suspeita de que o tinham visto entrar na capella, um gesto,
uma palavra de sua me, condemnando os desvarios do adulterio.

Por outro lado, Emilia descia aos seus olhos. Saciados os apetites que
as graas do seu corpo despertaram, via em plena nudez a inanidade do
seu pensamento moral.

Instinctivamente boa e simples, amando Claudio ingenuamente com o
afferro caracteristico das mulheres apaixonadas, era todavia incapaz de
se elevar  comprehenso das duvidas que o agitavam; e ella, que se
sentia contente com a sua sorte, no percebia que o amante podesse, sem
reservas, deixar de partilhar o seu contentamento.

Presentiram o juizo que o publico formava das suas relaes?
Adivinhavam-n'o, e at se esforavam por lhe tirar toda a apparencia de
razo; mas viera to cedo e em tal calor de paixo que no constituira
mais que um passageiro desgosto com que ambos em breve e facilmente se
conformram. Que tinham os outros com a sua vida? Olhassem para si que
teriam bem de que fallar. Que fazia o Carvalho sempre de brao dado com
a Silva? E a outra no ia casar com o Maia? Uma miseria! S por causa da
fortuna.

Era sabido que ella na Figueira tinha namorado um rapaz de Lisboa que
lhe vinha fallar ao terrao,  uma hora da noite.

Um dia, na primavera, exactamente tres annos depois que conhecera
Emilia, Claudio recebeu uma carta de seu amigo Jorge de Castro,
annunciando-lhe uma proxima visita.

Visto que elle, Claudio, se mettera a ermita, resolvia o Jorge ir
abraal-o; que preparasse os cavallos, queria visitar todas as aldeias
suas conhecidas, que a visita no era s para elle, era tambem para
aquelles montes de que se lembrava com saudades.

A carta respirava uma grande alegria, denunciando uma natureza s,
vigorosa. Claudio leu-a com tristeza. Porque no havia elle de viver
assim contente?... Scismava. Talvez o Jorge lhe revelasse o segredo
d'aquella fortuna.

Respondeu lhe immediatamente. Exultava. Os cavallos estavam promptos,
tinha-os n'aquelle momento ligeiros como gamos, do campo de Coimbra.
Traava j varios passeios, em Albergaria e em Villalva onde lhe queria
mostrar os jardins que crara no meio de rochedos. Promettia-lhe mais
varios regalos da mesa provinciana, que o amigo apreciava, bons patos
com arroz, uma preciosa vitella vinda da serra e vinhos da varzea de
Villar que no os havia melhores. Que viesse quanto antes. At precisava
muito conversar com elle, accrescentava laconicamente.

--At precisava muito conversar com elle... repetiu Jorge, lendo a carta
na presena da mulher.  capaz de querer casar. Que pateta! Aos vinte
oito annos, quando tem uma fortuna boa e todos os prazeres ao seu
alcance... Eu, se agora me visse solteiro, no me casava antes dos
quarenta annos.  muito bom, mas uma priso...

Claudio veio esperar o amigo a S. Braz, por uma tarde serena, o ceu
limpo e azul, os campos rebrilhando de reflexos multicores.

--Oh! que magnifico sol! disse Jorge ao apear-se, depois de abraar
Claudio. Com um tempo assim, at os inimigos se podem visitar.

E encaminharam-se para a carruagem.

Todo o caminho se dispendeu no exame dos cavallos e na apreciao da
paysagem. Jorge ia maravilhado. Que vigor, que frescura! Aquillo devia
fazer mal... Era lethifero. Dava vontade de fechar os olhos e adormecer
por alli,  beira dos comoros toucados de madre-silva e de giesta. Uma
natureza assim desmoralisava. Por isso Claudio se quedra n'aquella
apathia. Estava encantado. E ria, sem de longe imaginar a dolorosa
ferida que tocava.

s cinco horas da manh do dia seguinte, Jorge passeiava no jardim
esperando que Claudio despertasse. Este no tardou.

--Ainda bem! exclamou Jorge. At  peccado dormir por uma manh d'estas.

Em volta, a vida era d'uma intensidade extrema, n'um turbilho alegre e
scintillante, de murmurios de regatos, tremulas manchas d'um sol
benigno, gorgeios d'aves, perfumes de lilazes, de rosas e cylindras.

--Vives aqui muito bem, disse Jorge, sentando-se n'um banco de pedra, 
sombra dos loureiros, em frente d'um platano magestoso, opulentamente
curvado sobre o tanque em cujas aguas os seus ramos vogavam.

--No to bem como te parece!

Contou ento todo o drama da sua vida; o primeiro encontro com Emilia, a
leviandade com que se lanra na sua conquista, o amor sincero e a
paixo que d'ahi resultra, a angustia em que vivia n'uma vida de
constante mentira, as tentaes que tinha de pr termo a essas torturas,
o receio e a compaixo pela infelicidade da amante, sempre que se
lembrava d'uma separao. No fundo, sentia-se torturado de
arrependimento e remorsos; a sua felicidade, to cubiada dos estranhos
que o julgavam satisfeito e impenitente, reduzia-se a uma crudelissima
agonia.

Jorge desconhecia essas situaes. Casra cedo, por casualidade, cedendo
a uma inclinao natural, sem maior esforo da vontade. No dizia que o
casamento fosse bom nem mau; elle tinha-se dado bem e louvava a Deus por
o ter feito, pois sabia d'outros casos semelhantes ao de Claudio e todos
tinham mau fim.

Lembrava: o Cabral, um companheiro da Universidade, apaixonou-se pela
mulher d'um amigo e suicidou-se. O Nogueira, um bom rapaz mas um
sceptico, comeou a namorar a mulher d'um visinho,--brincadeira!--e a
mulher toma o caso a srio, abandona o marido e vem metter-se-lhe em
casa. E ahi estava o pobre desgraado preso provavelmente para toda a
vida. Estes eram casos recentes, mas outros aconteciam a cada passo.
Elle fugia d'isso. Era quasi ridicula tanta felicidade conjugal, bem o
sabia, mas ao menos que descano!...

De resto, Jorge no se atrevia a aconselhar qualquer resoluo. O tempo
a indicaria. Era sempre uma loucura querer substituir inteiramente o
destino e a sorte pelas inspiraes da vontade. Parecia-lhe at uma
falta de humildade, desmedido orgulho. Demais, o peccado no era grande.
Tinha amores com uma mulher casada cujo marido a deixava a cada momento
por uma amante?... De quem era a culpa? As cousas do mundo no se podiam
tomar todas em casos de consciencia. No bom senso vulgar havia muito de
razo e justia.

Pensava Claudio que, se amanh fosse  pharmacia e contasse aos
companheiros d'outro tempo o que lhe succedia, alguem tomaria a serio as
suas duvidas? Todos se ririam. Ridiculo, n'aquella comedia, s o
Ricardo. Era a boa tradio e, quem sabe? talvez a boa regra. Afinal, o
amante era vencedor. Por conseguinte, dormisse descansado e levasse as
cousas alegremente. O tempo, o tempo lhe diria o que tinha a fazer. No
havia de tardar... que aquelle viver aborrecia.

Jorge voltou a Lisboa sem deixar no espirito de Claudio outra impresso,
alm da tristeza em que caia comparando-se com elle.

Aquelle sim, aquelle soubera viver! Voltava a casa aos braos da mulher
e dos filhos, a um ninho de caricias e de affectos de que abertamente e
tranquillamente podia fartar-se, isento de toda a duvida, livre de todo
o remorso.

Porque no fizera elle o mesmo? Porque se lanra n'uns amores que a
consciencia lhe condemnava, fossem quaes fossem as razes que o espirito
buscasse para os legitimar? E porque no havia de emendar-se? Porque no
havia de converter Emilia ao dever, como elle mesmo se tinha convertido?
Ella seria ento a primeira a desejar o seu casamento, a desejar vl-o
emendado d'uma vida de mentira, olvidando o passado, que pelas suas
amarguras lhes serviria a ambos de lio, para os affastar de nova
queda. Assim resgatariam, em longos annos de honestidade, a breve
loucura d'algum tempo. Corajosamente, sem lagrimas, com a risonha
serenidade da virtude, apartar-se-iam. Quanto a vida lhes seria ento
suave e boa!

Isto pensava, isto pensou durante alguns mezes sem se atrever a
communical-o a Emilia. Temia a impresso que havia de lhe produzir a
lembrana do abandono do amante, seu unico amparo, a sua unica alegria,
d'ella que ninguem tinha no mundo, entregue ao marido que a desprezava,
perdida no mais arido ermo de carinhos.

O receio e a compaixo traziam-n'o em mentira; ia addiando, addiando
sempre a hora d'uma confisso que imaginava o seu dever e salvao e de
que todavia tremia, no por elle que a tudo estava d'antemo resignado
mas por Emilia que j ento sabia ser moralmente fragil, inconsistente.

Pelo S. Joo foram, como de costume, a Coimbra, a casa dos Albuquerques.
Claudio ia contrariado, absorvido, como andava, em preoccupaes moraes
que o traziam n'um permanente desejo de recolhimento; mas Emilia, em
rapidas fulguraes, mostrava ainda todo o seu antigo ardor pela
futilidade elegante.

-- mais uma occasio que tenho de te vr de casaca e gravata branca, e
assim  que ficas bem. Mas v como te portas... Ha por l muita menina
bonita!

Era a recommendao habitual, quando partiam para essas festas.

D'esta vez, Emilia veiu de Coimbra preoccupada e distrahida, fallando a
custo e evitando os olhos de Claudio. Este j no se illudia com taes
modos e gestos; por muito frequentes os conhecia. Eram ciumes. Quantas
horas afflictivas passra na capella da rua da Cruz para affastar essas
tempestades que eram uma das dores com que a leviandade de Emilia
sobrecarregava a sua atroz situao!

Antecipadamente sabia o que seria a sua primeira entrevista depois do
baile, toda consagrada a explicaes e a mentiras. Mentiras? Sim,
mentiras. Emilia tinha razo. Claudio em toda a noite no tirara os
olhos de Laura, uma filha do velho Albuquerque, cheia de graa e de
candura, valsando com uma travessura infantil.

Seria mais um remorso, havia de mentir-lhe, havia de a convencer de que
era sempre a victima dos seus zelos infundados, mas era certo que Laura
lhe deixra uma impresso profunda, e vagamente, com uma tenacidade
perigosa para os amores de Emilia, pensava em que talvez estivesse ali a
sua salvao. Seria um capricho dos sentidos, o encontro casual d'um
temperamento ardente e d'uma natureza nervosa, uma surda concupiscencia?
Talvez no. Laura era uma rapariga educada em ociosidade absoluta, sem a
minima instruco, sabendo com segurana apenas valsar, brincar e montar
a cavallo e a Claudio, burguez por habito e por educao, d'uma
delicadeza moral doentia pela aturada insistencia dos problemas da sua
vida, repugnava uma existencia to vasia e inutil.

Qualquer cousa ignorada o atraia, porm. Tambem aqui o espirito e a
reflexo no lograram vencer o sentimento.

Ouem podia saber a verdade? Quem podia dizer-lhe o que se abrigava
n'aquelle corpo de creana? Talvez um corao apaixonado, uma d'estas
mulheres que se consomem n'um s amor.

A imaginao representava-lhe prazeres infinitos, n'um lar todo
illuminado por essa luz de sacrificio. Havia de a dominar pelo amor,
havia de banir dos seus desejos os habitos de ociosidade. Ella seria
bondosa, ingenuamente amoravel; no era uma rapariga prevenida e, quando
tivesse amamentado um filho, quando tivesse vivido n'uma atmosphera de
labor e de virtude, a esposa da sua alma revelar-se-ia.

Depois, se errasse nas suas esperanas, tambem saberia mandar a quem no
soubesse amar. A herana paterna, o homem sevro e frio, accordaria.

Mas Emilia, Emilia?... A sua falta pesava-lhe ento n'uma fadiga e n'um
desespero invenciveis; entre o desejo de sair d'uma vida, a seus olhos
criminosa, e a ambio duma vida normal, cavava-se um abysmo innundado
de lagrimas que era precioso transpr. Recuava. Nunca! Pobre Emilia...

s vezes, sobre o conflicto d'aspiraes passava uma onda de
scepticismo. Laura, Emilia, o casamento, o adulterio... phantasias!
Fugisse d'ali, fosse viver em Lisboa, no poupasse ao seu corpo todas as
delicias que a fortuna lhe consentia. Mas o dever dominava-o, no havia
modo de se libertar, n'uma vida facil, d'essa pesada escravido a que
desde a infancia fra votado.

Outras vezes, esquecia Emilia. Laura apparecia-lhe como uma viso de
candura, o anjo que lhe annunciava a paz, e caia na tristeza da infinita
saudade das cousas cubiadas e impossiveis.

Queria aquecer-se ao sol da sua ingenuidade e da sua f, beber na sua
simplicidade um alento purificador. Loucura! A felicidade fugira-lhe
para sempre, de tudo poderia curar-se menos do remorso, a vsa de todas
as almas delicadas, a toldar-lhes o mais pequeno movimento. S o dever
seria a sua ambio; deixasse como um forte, por justo castigo da sua
culpa, os sonhos de felicidade. Loucura ainda! Dever, felicidade, que
estranhas vozes eram essas?

Luctar era bom para quem tinha os favores do destino. Elle no; vinha
batido dos erros e contrariedades e s na escurido da terra encontraria
repouso.

Comprehendia agora. E pensava na doce paz do cemiterio e nas flores que
haviam de lhe cobrir a sepultura.

Nova loucura! O suicidio era um crime. No lh'o ensinra sua me?!...

Iam decorridos oito dias sem que Claudio tivesse voltado a casa dos
Albuquerques, como costumava depois dos bailes, por obrigao de
cortezia. O seu desejo de tornar a vr Laura ficava aqui prejudicado
pelo receio d'um novo accesso de ciumes de Emilia.

Por fim, uma tarde, ou por mais animado ou por indifferente e fatigado
de tanto meditar, metteu-se na carruagem e partiu.

A visita foi curta; pouco pde fallar com Laura.

--Sei que tem um jardim muito bonito, disse ella. Se algum dia l
passar, quero pedir a meu pae que m'o deixe vr.

--Muita honra... e com o maior prazer. Mas nada tenho notavel; s uma
colleco de rosas que no  m. N'este tempo, porm, pde dizer-se que
no h rosas.

Ficava confundido com a lembrana de Laura. Que mysteriosos instinctos a
attraiam  sua casa e s suas flores, s cousas que elle tanto amava.
Ah! Se Emilia o soubesse... Tremia.

D'aquella visita voltava quasi doente, sobresaltado, um vaguear
permanente, os olhos cavados, o corpo quebrado, com todos os symptomas
physicos da paixo.

A fadiga era extrema; com ella veio um somno profundo de que despertou
n'uma tranquillidade que ha muito desconhecia.

O que fra? Que se passra? Porque tantas inquietaes?

A indifferena vencia. Voltaria aos braos de Emilia mais firme do que
nunca nos seus propositos de eterno amor.

Para que abandonal-a? No era o dever que o instigava, no; era o
egoismo, o desejo d'uma vida repousada, uma sde de carinhos e de
affectos.

Ingratido! To cedo esquecia o que Emilia era para elle...

Voltasse aos seus livros, ao estudo e s suas occupaes habituaes,
resignado com o destino. A felicidade dependia unicamente d'elle; era
conformar-se com a natural expiao do seu erro, sacrificando
humildemente ao bem alheio os seus sonhos de ventura.

Virtude e saber, tudo era orgulho; a humildade a sabedoria suprema. Fra
o que sua me lhe ensinra e era o que o corao n'aquelle momento lhe
repetia.

Da incerteza em que ento comeou a viver ficou testemunho no diario a
que Claudio confiava as suas penas, n'um isolamento e n'uma clausura que
as aggravavam. D'ahi tiramos os seguintes fragmentos:


_7 d'agosto._ Tranquillidade, abandono. Entregue ao tempo e ao acaso,
vejo correr os dias n'uma resignada desesperana. N'esta calma perpassa
a imagem Laura e ouve-se por vezes uma dorida voz de anciedade. A vida 
mais alguma cousa do que esta apathia na dr, a vida  a pratica do bem.
At a minha serenidade  crime!... No! enganei-me. As benos da
resignao no desceram ao meu peito, vivo na tristeza das cousas
desejadas e inaccessiveis. Sinto uma prostrao das luctas vs, no
chegou ainda a hora da conformidade.

_16 d'agosto._ Scismo. A intensidade da aspirao instiga-me a romper
com o passado. As fzes d'um amor illegitimo toldam-me a alma at ao
azedume. Que direitos tem Emilia sobre mim?  cumplice d'um mesmo crime?
Seja pois victima do mesmo resgate.

_17 d'agosto._ Esta tarde fui surprehendido pela visita dos
Albuquerques. Vinham de passeiar, disseram, e desceram para vr o meu
jardim. Laura veio tambem. Perceberia o velho o que me passava pelo
espirito? Desconfio. Apressa-se a no perder o ensejo de remendar a sua
fortuna escalavrada. Nos primeiros instantes, esta lembrana de que era
instrumento de especulao revoltou-me; depois, a presena de Laura tudo
desvaneceu. A graa, a candura, a ingenuidade! S esse alento me
restituiria a vida. Acompanhei-a colhendo flores para ella, recebeu-as
com avidez,  partida no as quiz pousar na carruagem, guardou-as nas
suas mos carinhosamente. Ella tambem querer prender a sua descuidada
ventura  miseria da minha alma ensanguentada? Talvez... talvez a guie
um mysterioso impulso de caridade! Sinto renascer a esperana.

O Albuquerque pediu-me que fosse jantar com elle. Prometi-lhe que iria
muito em breve.

_18 d'agosto._ Noite terrivel. Fui encontrar Emilia n'uma exaltao de
loucura com a noticia da visita de Laura. Quando lhe annunciei que tinha
promettido ir brevemente a casa do Albuquerque, respondeu-me com uma
seccura brutal:

--V, est livre, pde ligar-se a quem quizer. Nada me deve. Na minha
desgraa no perdi a dignidade, fique sabendo! Os nossos amores
terminaram hoje. Aborreceu-se. Era tempo... Sei muito bem o que me
cumpre fazer;  voltar quillo de que nunca deveria ter saido.

Emudeci de surpreza perante aquella linguagem e aquella firmeza; a
alegria de vr terminadas as minhas hesitaes e as minhas duvidas lana
para longe todas as demais preoccupaes. Livre emfim!... E sem lagrimas
nem manchas de sangue, sem os espectros que me guardavam o somno. A vida
 uma festa. Corramos ao prazer. Affasta quanto pde perturbar-te e
aprende na miseria moral quanto vale a s alegria do corpo repousado na
satisfao dos seus apetites. Para traz, para traz todas as atribulaes
da consciencia; retempera-te no vigor d'um naturalismo ingenuo.

_19 d'agosto._ Voltei a casa de Emilia. Disse-lhe que queria saber quaes
seriam em publico as nossas relaes.

--Mas, evidentemente, da maior amizade, respondeu-me. Nem outra cousa se
justifica. No valia a pena ter o incommodo de vir aqui s para isso.

Mentia; o que eu procurava era a confirmao das palavras do dia
antecedente. Tudo acabou. Conversamos duas horas, com a animao que o
contentamento intimo me dava, sem uma referencia d'amor, sem a mais leve
tentativa de reconciliao. Quando parti, pareceu-me que os olhos se lhe
humedeciam. Porque? Comprehendeu que a separao est consumada? Para
sempre!

Extincto todo o capricho sensual, s ligaes moraes nos poderiam
prender, e essas desvaneceram-se ao vr por terra todas as illuses de
emenda, de doura, de resignao, que d'ella esperava para resgatar a
nossa falta commum. Restaria a compaixo pela sua desventura e o receio
de uma allucinao que, pondo-lhe termo  vida, aggravaria as minhas
dores com o mais pesado remorso. Tudo isso passou! Eis-me livre e
tranquillo.

_20 d'agosto._ Fui talvez cruel, abandonando Emilia  sua miseria. Se
no fosse Laura, tel-o-ia feito? Cedi  virtude ou ao egoismo, a um novo
apetite, ao cansao do corpo saciado, ou ao arrependimento e ao
proposito de emenda? Voltam as duvidas a rasgar-me o corao.
Melancolia. Fraqueza. Toda a alegria se esvae.

Oh! a volupia das lagrimas, o prazer de sentir o soffrimento dos que
choram por ns! Talvez uma vga saudade...

_27 d'agosto._ Uma hora cruel, extrema angustia. Hoje recebi uma carta
de Emilia, pedindo-me que fosse vl-a  noite, na capella. Todo o dia
fiquei na maior inquietao. Passeei de tarde procurando accalmar-me com
a fadiga do corpo. A excitao crescia e foi na maior anciedade que s
dez horas cheguei  rua da Cruz.

Emilia fez-me sentar no velho confessionario e rojando-se na terra, a
meus ps, suffocada pelas lagrimas, disse-me que me chamra porque j
no podia soffrer mais; que sabia que eu ia partir para uma viagem
longa, no podia crr que tivesse acreditado o que n'um momento de ciume
me tinha dito, tres annos de amr em que tudo sacrificra por mim no
podiam terminar com duas palavras de separao. N'isto, ergueu-se.
Succumbido de terror, vi ressuscitar, deante de mim, banhada de luar,
aquella pallidez e os olhos flamejantes em que um dia me abrazei ebrio
d'amr; e da humida escurido da capella vieram aos meus ouvidos, como
uma anathema, como a eterna excommunho da paz e da virtude, lentamente,
pausadamente, estas palavras:

--Diga-me... diga-me... oia bem!... se no posso contar mais com o seu
amr. Quero suicidar-me!

Um sentimento de miseravel cobardia se apoderou de mim e menti, menti
com firmeza, vilmente. Tudo era falso; nunca amra Laura, nunca pensra
em casar-me, ia a Lisboa por breves dias para cuidar de cousas urgentes,
o meu amor por ella no afrouxara um s momento, queria s castigal-a
dos seus imerecidos ciumes. Convenceu-se e serenou. Beijei-a. Entre os
meus labios e a sua face interpunha-se uma sombra que em vo procurei
dissipar, a sombra da mentira. No fundo, bem o sei, no cessaram um
instante as ambies de regenerao. S o temor do suicidio me contm.

_30 d'agosto--Lisboa._ Vim at aqui calcando as supplicas mais
compungentes que podem sair d'um corao humano. Se ouvisse smente a
compaixo e a piedade, voltaria atraz... No posso mais! Morro esmagado
entre a fraqueza e o desejo. Revolta-se o orgulho e ergue-me um impulso
de rectido. Rectido ou crueldade? Commetti um crime e para resgatal-o
tenho de arriscar uma vida. Deverei permanecer na vergonha ou
ensaguentar a virtude? Vae, no receies, diz-me uma voz occulta.

As lagrimas de Emilia so uma fraqueza, o apgo aos beneficios do seu
crime. No seria a tua compaixo uma fraqueza tambem?

Cuidado! Pensa bem. No  talvez a virtude que te guia,  a crueldade;
no  o amor do bem,  a paixo por Laura.

_31 de agosto._ Esta manh encontrei F... que me fallou dos
Albuquerques. Conhece Laura, viveu muito com ella.  encantadora de
singeleza e de bondade, disse-me. Passei o dia no maior contentamento.
Todas as esperanas renascem, vibrantes de vigor. Esqueci que ao longe
uma mulher afflicta, semi-doida, bebe o calice da minha culpa. Nem as
lagrimas, nem a deshonra alheia, nem a consciencia do proprio
aviltamento podem perturbar-me a alegria.

Sero assim os outros homens?... Ser a virtude um acaso e a miseria
moral a lei comum?

_2 de setembro. Lisboa._ Tristeza, desalento. Impossivel conservar-me
aqui, tenho de voltar a Albergaria. O que me espera? Vou luctar? Cederei
abdicando para sempre da paz da consciencia e da felicidade na virtude
em proveito dos caprichos e da fraqueza de Emilia? Hora maldita a da
tentao! Tudo na minha vida  incerto, s o soffrimento me resta por
companheiro. Abraa a tua cruz,  a cruz do teu erro!

_4 de setembro._ Voltei a casa de Emilia. Encontrei-a fatigada, abatida,
mas ao ver-me, o rosto illuminou-se-lhe d'uma candida alegria.
Julgava-me restituido ao seu amor. Quando, tentando novamente
desprender-me, lhe declarei que s para a tranquillisar lhe tinha dito
que nunca julguei terminado o nosso amor mas que, na verdade, o tinha
acreditado e estivera em risco de tomar compromissos com Laura, no teve
uma palavra de resposta. Silenciosa, muda de espanto, na paralysia da
dor, s lagrimas se moveram na face immovel e queda. O que se passou
dentro em mim, no o sei; uma compaixo profunda, angustiada, e, mais
alto do que ella, o bramar da consciencia e a tortura do dever. Que me
resta? Confessar a verdade inteira, pedir o seu perdo e separar-nos.
Deixal-a-hei pois na miseria e no abandono?... Nunca! Dorme, enxuga as
lagrimas, dou-te a paz da minha consciencia e serei s a soffrer,
soffrerei resignado, sem um lamento!


Desde esta hora, durante longos dias, todo o diario de Claudio revela
uma incerteza e uma confuso infindas.

O sentimento d'um dever a cumprir, a compaixo pela miseria de Emilia, a
lembrana de Laura, cujo affecto sentia crescer, o cansao d'uma vida
inquieta e a ambio de tranquillidade, tudo o fazia oscillar
constantemente entre os mais desencontrados propositos.

Debalde o pensamento procurava guial-o; a energia e a vontade haviam
naufragado nas ondas do seu corao.

A vida arrastava-se penosamente, sem norte, sem rumo, desvairada, em
meio de esperanas, desilluses e desalentos.


_27 de novembro._ Um dia chuvoso, pesado, humido, escuro. Tres horas de
leitura junto ao fogo, no doce goso de aprender e de pensar. Mas esta
cella  vasia.

Torturam-me ambies d'amor e de conforto moral. Nunca o tive. A
affeio illegitima que contradiz o dever, rasga e esphacela o corao
sem o aquecer;  uma consumpo doentia.

Quero o amor de Laura, o seu amor e no a sua piedade pelas minhas
dores, quero um alento que me restitua  vida corajoso e so, no quero
os balsamos com que se occulta a miseria de Lazaro.

_28 de novembro._ No pde ser boa a caridade que alimenta o peccado. A
minha compaixo pela sorte de Emilia  um novo erro. Coragem! S justo!

Aproxima-se a noite, fria, escura, revolvida na sua treva por um vento
inclemente. Succumbo; invade-me um suave desejo de morrer. A morte seria
a paz, a libertao de todas as duvidas, de todas as hesitaes, das
interrogaes da consciencia. No!... Seria cobardia e vaidade: a
cobardia de arrastar a minha cruz, a vaidade de ungir o meu cadaver com
as lagrimas dos que me amaram. Devo viver. Quero resgatar pela virtude
as offensas a Deus.

_28 de novembro._ A dissoluo do passado torna-se um encargo em que s
entra a razo implacavel e fria. Injustia?... No. A severidade 
tambem um meio de ser caritativo; a minha complacencia com Emilia  uma
falta d'amor.

_30 de novembro._ Um dia alegre, sorridente; a atmosphera quieta, a
paysagem rutilante. Na minha alma, um esvoaar de esperanas boas.
Laura, Laura!... Toda a natureza me repete o seu nome.

_1 de dezembro_. F... veio vr-me.  um antigo companheiro que se quedou
no materialismo natulista. Durante duas horas, fallou-me de
transformismo e de evoluo, muito crente na sciencia. Emquanto o ouvia,
erguiam-se na minha lembrana as illuses do passado e a tristeza caa
mais pesada sobre o meu corao que sobre a terra as sombras da noite.
Anciedade d'amor e de perdo. Podesse a tua alma, Laura, sentir o
palpitar d'esta vida dilacerada pela amargura e havia de protegel-a,
abrigando-a na sua pureza!

_2 de dezembro._ Destino cruel! Quero terminar uma vida de mentira,
mentindo quella mesma que foi a minha amada. Degradao extrema.
Quizera dizer aos que passam:--Fugi d'este ser impuro, cuspi-me na face
e desprezai-me!

_14 de dezembro._ Emilia morreu no meu coraro; apenas o dever e a
piedade me prendem. Sinto-o bem, vendo a meu lado permanentemente a
imagem de Laura. S por ella apeteo a vida. Egoismo, ambio de
repartir com uma alma pura as agruras das minhas culpas? Talvez... Ai!
Quanto a duvida me opprime!

_16 de dezembro._ Enganas-te. No  remorso,  orgulho o que tu sentes;
no  o amor da virtude,  o pejo de confessar a tua mesquinhez e
fraqueza. Aprende a humilhar-te.

Tempestade. O sybillar do vento desperta em mim sonhos de paz e de
conforto domestico, as ambies do corpo dissipam as atribulaes da
alma.

_18 de dezembro._ Um immenso desgosto da vida, cansado de luctar em vo.
A morte seria para mim a melhor esmola de Deus. E todavia aterra-me.
Porque? Saudades de Laura, ambio do seu affecto.

Chove. Gotejam mansamente as arvores e os beiraes, a noite vem descendo
suave, humida e negra. S o repouso da minha alma no vem; em vo o
imploro da natureza propicia!

_20 de dezembro._ Indifferena, fadiga, reaco da intelligencia. Que te
importa a miseria estranha, as lagrimas que espalhaste? Que te importa o
passado? Orgulho imbecil! Vive a tua vida, conforme o teu destino,
fabrica o teu mel ou o teu veneno, como a vibora nos brejos ou a abelha
sobre a rosa. A natureza no erra. No tentes dominal-a. Vaidade das
vaidades!

_31 de dezembro. Meia noite._ Atmosphera limpida e calma, o cu
estrellado, nem a mais ligeira nuvem nem o estremecer d'uma folha.
Interrogo os astros. Bom agouro?  a tranquillidade que o novo amor me
traz?

_1 de janeiro._ Sa ssinho. Impresso de abandono, ao pensar nas
alegrias do novo anno em volta do lar. S minha pobre me me resta por
companhia. Advinha talvez as minhas dores e roga a Deus que as affaste.
Na praa encontrei um mendigo mal abrigado nos seus farrapos de burel.
Serenamente, estendeu-me a mo, recebeu a esmola e seguiu o seu caminho.
Ao longe, vejo a casa de minha irm; no campo, descendo para o rio, os
gados que meus sobrinhos guardam. O amor divino, o burel, o
trabalho--suprema sabedoria! Por que estranha loucura os abandonaste,
por que aberrao voltaste a face  felicidade que tinhas deante dos
teus olhos e te lanaste nas vagas da ambio e da vaidade?

_3 de janeiro._ Passei a manh no jardim, cultivando as minhas flores.
Alegria plena. Cantava, arrebatado no palpitar de energia que se
desprendia  luz tpida e branda. Ao longe, distante, quasi perdido, um
lugubre rebate de remorso, phantasmas da consciencia voando levados
pelos balsamos a exalarem-se da terra que o sol beija e fecunda,
castamente.


A crise terminava para Claudio n'uma inaco de impotencia; o ardor do
sentimento e a intensidade da razo quebravam todas as energias da
vontade.

Os dias succediam-se eguaes na sua infinita inconstancia; a melancolia,
o remorso, a indignao, a alegria, o desprendimento, confundiam-se
obscuramente, ora no desejo de possuir o amor de Laura, ora no temor do
abandono de Emilia, ora n'uma viril resoluo de emenda, ora finalmente
n'um cansado scepticismo.

Mas, anniquilado para toda a aco, entregra-se n'uma conformidade de
desesperana ao seu triste destino.

Virtude, felicidade, estudo, tudo se perdera! Nem sequer para ahi podia
volver o pensamento que logo na memoria no surgissem lembranas crueis
dos espinhos por onde deixra em pedaos todo o vio da sua mocidade.

Uma unica imagem, uma unica, vogava nos destroos do naufragio,
incolume, resplandecente, irradiando uma luz divina que penetrava a alma
de beatitude,--sua me.

Perante ella, todas as sombras se dissipavam; o tumulto da paixo
convertia-se n'um culto singelo, purificador e ardente.

Instinctivamente, habituava-se  irregularidade da sua vida. A
consciencia parecia adormecer,--no se repele um drama interior,--e essa
indifferena, quasi satisfeita, comeava a conquistal-o. Habituara-se ao
egoismo absorvente de Emilia e ao seu incorregivel ciume e habituara-se
tambem  presena de Laura que sabia ser o fructo prohibido.
Exteriormente, a sua vida era d'uma tranquillidade e d'uma satisfao
completas; cuidava das suas terras, passeiava, vinha bastas vezes a
Coimbra conversar com os amigos ou assistir aos espectaculos publicos, e
at mesmo frequentava a capella da rua da Cruz, corajosamente, sem
aquelle receio de que as suas visitas fossem sabidas, que em outro tempo
tanto lhe pesava e que hoje punha  conta de preoccupao pueril.

Pois podia alguem illudir-se sobre a natureza das suas relaes com
Emilia?! Era claro que todos as percebiam e advinhavam. Pasmava de que
s agora tivesse feito este raciocinio to simples e to seguro.

Assim se consumiram cinco mezes, durante os quaes Claudio muitos dias
visitou Emilia sem que em longas horas de palestra banal houvesse uma
unica referencia s luctas passadas. De longe em longe, o problema
voltava  discusso, mas agora quasi friamente,  parte a ligeira
irritao de Claudio, que provinha do sentimento da sua escravido, e os
fogosos impetos de Emilia que temia vr fugir-lhe a preza.

Claudio insistia sempre pela necessidade de prem termo a uma vida que
os envergonhava; Emilia respondia-lhe com a obrigao em que elle estava
de nunca a abandonar, obrigao que lhe custara, a ella, a perda da sua
honra.

Um dia, em fins de maio, Claudio recebeu o convite do filho do
Albuquerque para jantar. Era no dia dos seus annos; festa intima para
que s convidava Claudio, que dos velhos amigos da casa no fallava,
eram sempre convidados.

Claudio foi com conhecimento prvio de Emilia, que pouco se amedrontava
j com estas visitas, convencida de que os amores por Laura no
adeantavam. De resto, promettera-lhe que voltaria immediatamente, no fim
do jantar, e s onze horas estaria na capella.

Debalde o esperou at  meia noite, hora a que, receiando a entrada de
Ricardo, se deitara para soffrer uma noite de insonia, torturada de
despeito e de ciume.

Claudio ficra at tarde em Coimbra, bem certo do que na primeira
entrevista o esperava, mas intimamente indifferente, n'esta indifferena
que a frequencia dos arrebatamentos de Emilia e o seu indomavel egoismo
tanto ajudra a crear.

A noite estava tpida e serena. Depois do jantar, todos os convivas
sairam para o jardim e Claudio foi sentar-se no banco que dominava a
varzea, ao lado de Laura, que para ali se tinha affastado pelo brao de
uma prima sua hospede, vinda da Beira a Coimbra para dar lies de piano
com uma mestra afamada.

Conversaram da paizagem, das flores, dos apetites e prazeres de cada um,
trocando entre si impresses e ideias que se lhes afiguravam da mais
perfeita conformidade.

Laura adorava a musica, dizia; estudra-a cinco annos em Lisboa, no
collegio das irms de Santa Ignez, com uma senhora irlandeza, e
continuara depois, tres annos, com um professor que vinha do Porto uma
vez por semana, para a ensinar. Claudio admirava os primores de educao
de Laura e tristemente se deixava levar em devaneios de ventura e em
vagas esperanas d'um futuro feliz.

Foi n'este scismar que voltou a Albergaria, to magoado de saudade como
enfadado de Emilia, que n'aquelle momento no representava nem um
affecto nem um remorso; era apenas um estorvo.

Estranhou que no dia seguinte Emilia no lhe mandasse o convencionado
aviso para ir  capella.

--Ou o marido saiu ou est desesperada com ciumes, pensava; seja como
fr, em boa hora!... No sentia o menor desejo de a vr, antecipadamente
aborrecido das explicaes que tinha de lhe dar.

No tardou porm a carta da amante. Dois dias depois da sua visita a
Coimbra, exactamente quella hora em que o silencio e a suavidade da
noite mais lhe aggravavam a saudade dos doces momentos em ouvira a voz
de Laura confundindo-a n'uma s delicia com as caricias d'uma atmosphera
impregnada d'uma subtil sensualidade, encaminhava-se vagarosamente para
a rua da Cruz.

Emilia estendeu-lhe seccamente a mo e foi sentar-se affastada, no
degrau do altar-mr.

--Ento como ests, perguntou elle, ao fim d'uma ligeira pausa, tentando
tomar-lhe a mo que ella distraidamente retirou.

--Bem, tenho passado muito bem.

--Antehontem no pude vir porque o jantar acabou tarde, o Albuquerque
instou comigo para me demorar e pareceu-me que no seria muito
delicado...

--Fez muito bem, como  proprio da sua educao. Nem eu mesmo o
esperava.

--Ests a dizer isso maliciosamente, e no tens razo. Pdes crr que
fiquei muito contrariado. Deus sabe o que me custou!

--Imagino! disse ella ento levantando-se e dando largas  sua colera.
Que impostor!...

--No sejas injusta comigo. Magas-me tanto... Se adivinhasses o mal que
me fazes...

--Muito grande! Deve soffrer muito, calculo bem!

--Talvez mais do que julgas...

--Oh! sim, acredito. Tem pressa de se casar e quer vr-se livre d'este
trapo velho. Pois case-se!... Quanto mais cedo, melhor!... O meu desejo
 que fosse j amanh, para me vingar... para lhe vr coberta essa
cabea de cornos como a me d'ella fez ao pae!

Claudio ergueu-se raivoso; os punhos cerrados, o olhar dardejante, os
labios e as narinas palpitantes de frenesi, cresceu para Emilia.

--Veja o que faz! disse ella recuando e acobardando-se.

Um lampejo da propria indignidade, como um relampago, lhe illuminou o
espirito; n'um salto, transpz a capella, lanou a mo  porta e saiu.

--Canalha!... ouviu ainda.

E comeou a fugir atravez dos campos sobre que poisava, quietamente,
bafejando-os, o vu de humida gaze que se desprendia dos regatos.

O amor, offendido no insulto a Laura, vencera onde a razo e a
consciencia tinham sossobrado, debatendo-se passivamente no remorso e na
duvida.




V


D. Pedro Menezes de Tavora Abreu e Albuquerque era todo o nome com que
nos actos solemnes se assignava o fidalgo que vivia em Coimbra, na
estrada da Beira, e cujas relaes Claudio frequentava.

Senhor de grandes propriedades e muitos bens no valle de Lafes, onde
era conhecido pelo morgado de Cercosa, reunira nas suas mos, por
successivas heranas dos seus antepassados, uma das maiores fortunas
territoriaes que por aquellas regies se conheciam.

Em Coimbra tinha menos; mas fazia ahi maior assistencia porque o palacio
era bello e rico, e a vasta quinta que o rodeava, com grandes insuas a
morrer no rio, um ninho de frescura entre o arvoredo magestoso.

Demais, tinha a convivencia de muitos lentes da Universidade que,
tirados de condio humilde, se curvavam reverentes perante a nobreza,
felizes de se acercarem d'ella.

Tratavam-n'o por sr. D. Pedro d'Albuquerque, e elle queria mais a este
tratamento, que aos seus olhos indicava funda e genuina fidalguia, do
que ao de sr. fidalgo ou sr. morgado que em Lafes usualmente lhe davam.

Fidalgos e morgados havia muitos; que usassem o titulo de Dom eram
raros. De portas a dentro, em Coimbra, esse tratamento era de obrigao
e indicado aos creados, logo que entravam em casa.

Uma vez que Claudio singelamente perguntra pelo sr. Jos d'Albuquerque,
o filho do fidalgo, o creado apressou-se a corrigir:

--O sr. D. Jos est a almoar.

D. Pedro nascera em 1825. Muito cedo, aos cinco annos, ficra sem o pae
que tinha morrido d'uma catarrhal, apanhada andando  caa em Cercosa,
segundo lhe diziam. Ficra entregue aos cuidados da me e d'um tio,
filho segundo, irmo do pae, que em vida d'este tomra a seu cargo os
cavallos e os ces de caa, e de nada mais se occupava. Na verdade, pde
dizer-se que ficra unicamente entregue aos cuidados da me, senhora
fidalga de origem, de maneiras e de costumes, caridosa e boa, mas com
excessivo affrro ao estreito formalismo da gente da sua egualha.

Um dos motivos por que ella,  morte do marido, se apressra a tomar nas
suas mos toda a administrao da casa, fra o temor de que o seu
governo caisse sob as ordens do cunhado.

Temia-o e evitava-o, no por ciumes de dominio mas porque receiava a
influencia d'elle, grosseiro e rude, sempre em gracejos com as raparigas
do campo; queria affastar o filho d'essa m escola, queria, no seu
pensar, fazer d'elle um legitimo fidalgo, de modos nobres e nobres
sentimentos, como convinha  gente fina. Por isso fazia valer os seus
direitos de me e tutora, para que ninguem podesse com auctoridade
interpr-se entre ella e o filho.

D. Pedro passou a mocidade, ora em Cercosa, ora em Coimbra, sempre
acompanhado por um padre que a custo lhe ensinou a lr e a escrever,
porque o discipulo era, alm de pouco intelligente, remisso na
applicao e no estudo.

--Esperto, esperto! dizia o padre  morgada. Mas muito distraido... O
que elle quer  brincar, est sempre com o sentido no que l vae fra.

Por seu lado, a me toda se esmerava em educar os modos do filho. At
aos dezaseis annos, em Coimbra, nunca o deixou sair que no fosse
seguido por um creado, para no se perder em ms companhias; tinha-o
sempre a seu lado na egreja e em todas as suas devoes, corrigindo o
mais pequeno gesto descompassado, se o filho se benzia com excessiva
rapidez, se ajoelhava ou se levantava estouvadamente, se deixava de se
curvar com reverente moderao e suavidade ao erguer a Deus.

Na sala, os seus cuidados eram extremos e as lies completas; mandava-o
entrar e sair, sentar-se, cumprimentar, despedir-se, indicando d'uma
maneira precisa as palavras, as attitudes, os logares e as distancias
que convinham a cada momento. No dia em que pela primeira vez viu o
filho descendo a escada com uma dama pelo brao, a acompanhal-a 
carruagem, lento, pausado, com toda a nobreza de movimentos que lhe
vinha do seu corpo moo e robusto, teve um fremito de alegria e de
triumpho. A sua obra estava consumada. Que fidalguia! Que gentileza!

Com intimo pezar e grande receio, era necessario entregar o morgado ao
tio para as lies de equitao. To m companhia... Mas d'essa penosa
impresso cobrva allivio quando, ao entrar no palacio, o tio que em
casa era sempre tratado pelo sr. D. Joosinho, vinha dizer-lhe
enthusiasmado:

--O rapaz d um cavalleiro!  atrevido e firme. Hoje na Calada era tudo
a olhar para elle. Trazia o _Corisco_ numa dobadoira.

D. Pedro aproveitra as lies; exteriormente estava tal qual ella o
desejra. Interiormente, porm, o caracter era o do tio e as
preoccupaes dominantes, absorventes, os cavallos e as mulheres. Muito
novo ainda, no saia de ao p das creadas que continuamente inquietava,
perseguindo-as e apalpando-as.

--Menino! Isso no se faz! Olhe que eu digo  senhora!... Que tal est o
fedelho?... Eram as vozes que a cada instante corriam na cosinha e na
casa de trabalho, por toda a parte em que elle se encontrava com as
creadas.

Aos creados, com quem s vezes vinha conversar s occultas da me, dizia
sempre que havia de ter um cavallo grande, hespanhol, como o que vira na
serra, aos Malafaias, de Serrazes, e uma boa mulher, com boa perna.

--Isto ha-de ser bom!... commentavam os creados. Temos outro como o sr.
D. Joosinho! Co de caa quer-se de raa!

A me julgava-o uma vestal, e j elle ia longe nas suas aventuras, tendo
comeado pela mulher do jardineiro e proseguindo com uma costureira
habitual da casa, quando ella, por conselho do padre, comeou a dar ao
filho liberdade de dispr de si, do que elle usou com a largueza que os
seus instinctos exigiam.

A elegancia do novo morgado, que a me procurava, quasi unicamente, na
sua educao, combinada com o fogo d'um temperamento sanguineo, deu em
resultado o amor do luxo alliado a uma vida de continuadas festas,
caadas, conquistas amorosas e jogo.

s muitas despezas que provinham da lauta vida provinciana, juntaram-se
em breve alguns mezes de inverno passados em Lisboa onde D. Pedro
Albuquerque acabra por estabelecer residencia que lhe permittisse
frequentar a capital com as commodidades de que era to cubioso. A
abertura das linhas ferreas deu o ultimo impulso a esta ruina. A cada
passo estava a caminho de Lisboa, para assistir ao baile do conde de
X..., para ouvir uma cantora em S. Carlos, ou mesmo, mais simplesmente,
para se vestir no Keil, que a esse tempo era o alfaiate dos janotas; e,
inversamente, a cada passo estava acarretando de Lisboa para Coimbra
moveis de mau gosto que vinha misturar s solidas mobilias de pau santo,
herdadas de seus avs, rolios estofos armados em casquinha que um
estofador francez, chamado Gard, lhe vendia por bom preo, farrapos
d'algodo arrendados que vinham substituir os sumptuosos cortinados de
damasco de seda vermelha.

Tambem trouxe um cosinheiro que,  fora de _consomms_, _foie gras_,
_galantines_, _mayonnaises_ e outras preparaes que muito confundiam e
intrigavam os velhos fidalgos beires que se sentavam  meza do morgado
de Cercosa, veiu banir para a frugalidade dos banquetes da burguezia
prospera o succulento pato com arroz, o cosido bem adubado com carnes de
porco e a famosa vitella de Lafes.

Foi  meza do Albuquerque que primeiro, em Coimbra, se viram gordos
espargos, comprados em Lisboa, n'uma salchicharia franceza; houve lentes
da Universidade que, sentindo com vexame faltar-lhes o seu profundo
saber para usar to exoticos petiscos, deixavam de os comer por
hesitarem na forma de se servirem.

O Albuquerque, que lhes percebia o embarao mas que por cortezia no
queria dizer-lhes francamente como se comiam espargos, fallava alto,
rolando-os no molho com a mo e chamando para si a atteno, a dar o
exemplo.

Mas apezar d'isso passaram-se mezes sem que os bisonhos convivas
acceitassem os novos manjares. Os mais ousados, os que primeiro entraram
na communho dos usos estrangeiros, vinham depois para a Via latina
gabar aos collegas menos elegantes a cosinha franceza, os espargos e as
_galantines_, pondo um particular deleite em ostentar o conhecimento
d'essas cousas finas perante a gente rustica que as ignorava.

Entretanto, a administrao dos bens andava por mos de feitores e
procuradores que todos enriqueciam e serviam a contento, se tinham a
habilidade de arranjar dinheiro sempre que de Lisboa ou de Coimbra o
Albuquerque o pedisse, o que bastas vezes fazia.

A velha morgada, a me de D. Pedro, julgava ter cumprido a sua misso no
mundo fazendo do filho um homem religioso, que ia  missa aos domingos e
dias santificados e se confessava todos os annos, de casaca e gravata
preta, e um fidalgo pela distinco com que se havia n'uma sala e na
presena das damas.

A sua grande preoccupao era a manilha e os parceiros de todas as
noutes, no salo do palacio da estrada da Beira onde ella
invariavelmente se encontrava no mesmo logar, distribuido mesuras e
palavras doces aos que entravam, perguntando-lhes com o seu finissimo
tacto pelas cousas que os interessavam, a este pela saude dos filhos,
quelle pelo andamento dos trabalhos na Universidade, e quel'outro
pelas colheitas das propriedades que possuia nos campos do Mondego e a
que amiudadamente se referia, para dar mostras de riqueza.

Quando essa senhora falleceu, cerca de 1865, a casa do Albuquerque
estava na realidade escalavrada. Em Lisboa tecera uma rede de lettras
passadas a amigos e a agiotas que lhe tinham valido em apuros de
dinheiro, os bens de Cercosa j estavam hypothecados  misericordia de
Vizeu, e um negociante da Praa Velha, em Coimbra, com quem se adeantra
em contas, sabendo que as dividas cresciam, instava por uma hypotheca
das melhores insuas. Nem ao certo se sabia a quanto montavam as dividas
porque nunca se tinha pago um real de juros a ninguem, havia contractos
feitos em condies leoninas e, quando se chegasse  liquidao, era de
esperar que a somma se elevasse a uma quantia fabulosa.

O tio do Albuquerque, que os annos e a gotta tinham privado do regabofe
que fra toda a sua vida, com o grosseiro bom senso que acompanhou a sua
existencia descuidada via o estado da casa. Chamou o sobrinho,
procurando convencel-o da conveniencia de se salvar pelo meio simples
que lhe ia propr.

Era preciso casar-se, dizia-lhe; a me tinha fallecido, faltava quella
casa uma senhora que lhe dsse o tradicional resplendor; elle, D. Pedro,
estava com quarenta annos e era necessario que tivesse um herdeiro.
Demais, accrescentava, em continuao do exordio que invocava os brios
fidalgos, as dividas tinham crescido e se encontrasse uma noiva com um
dote bom...

A estas palavras, o sobrinho que se tinha conservado silencioso e
indifferente, de perna cruzada, limpando pachorrentamente as unhas com
um canivete, ergueu a cabea ante-gozando boa mar de dinheiro e
recrudescencia de prazeres.

--Pois depende s de ti! apressou-se o tio a concluir aproveitando a
impresso favoravel. Tua prima Maria Francisca...

--Oh! diabo! Mas ella em tempo no tinha tido umas historias com um
Mendona, capito de engenharia?

--No, quem sabe l d'essas cousas?! Fallaram um pouco, mas isso passou.
Raparigas tem sempre os seus namoriscos...

--Em todo o caso...

--Deixa-te de piguices; vamos ao que importa... Tua prima est agora
com os seus trinta annos,--e  uma mulher toda perfeitaa!--o pae no
pde ir longe porque j deve ter passado os oitenta, e tu bem sabes o
que ali est... um poo sem fundo! O Ornellas, do Pragal, disse-me, a
ultima vez que estive com elle, que s em ouro o velho devia ter para
cima de cem contos de ris.

O sobrinho no pz mais objeces, fizesse o tio como quizesse. Foi para
Lisboa, a gastar por conta das suas novas esperanas e das heranas
futuras, e o tio partiu para Vizeu. Em quinze dias, estava tratado o
casamento de D. Pedro.

Esta menina, Maria Francisca de Menezes Noronha e Mello, tinha em Vizeu
uma historia muito sabida e commentada.

Era uma mulher alta, morena, d'olhos negros, dentes perfeitos e longos
cabellos d'azeviche, filha d'um fidalgo, avarento e srdido, e d'uma
creada que elle tivera.

A creada fallecera quando a pequenita tinha cinco annos; e o velho, que
tudo consentia menos que lhe pedissem dinheiro, deixou crescer a filha
ao Deus dar, entre creados grosseiros que nem na sua presena se
guardavam de toda a casta de brinquedos e gracejos maliciosos.

Demais, sendo filha natural, s muito tarde os parentes consentiram em a
receber. Ficou por isso sem a minima educao nem de intelligencia e
sentimentos nem de delicadas exterioridades.

Apesar d'isso, como era bonita e rica, no lhe faltavam casamentos que
todos se goravam, uns pela opposio do pae, que ella desde creana se
habitura a temer pelo seu genio irrascivel, outros por capricho da
rapariga que no olhava a fortunas nem fidalguias e pretendia marido que
lhe satisfizesse os sentidos.

Entre os pretendentes, contava-se um capito de engenheiros, homem
alentado e grande, de grandes bigodes atrevidamente levantados, jogador
e conquistador famoso.

Diziam que D. Maria Francisca tivera por elle profunda paixo e nada
poupra para lh'a demonstrar, compromettendo o seu bom nome em longas
entrevistas nocturnas que se tornaram sabidas na cidade.

Mas nem por isso o casamento se realisra, porque o pae d'ella se
oppunha e o capito, desde que no presentia probabilidades de dote,
preferia no crear obrigaes e lanar mais esta  conta das aventuras
de que tinha j larguissimo rl. A rapariga chorou, desgostou-se, e em
breve, por despeito e desespero, tinha novo namoro.

A proposta do tio, offerecendo-lhe o casamento com D. Pedro, vinha
encontral-a na mais favoravel disposio de espirito. Perdida a
esperana de casar a seu contento, mrmente depois dos infelizes amores
com o capito, estava com trinta annos. Que lhe restava?

Ao menos, casando, seria senhora da sua casa e gosaria uma liberdade e
independencia que muito apetecia. Acceitava.

O pae acceitava tambem. Suppunha que o sobrinho estava ainda rico, no
lhe pediria dote, morava longe e no o incommodaria. Era at uma
economia! A lembrana de que ia ter menos um encargo, menos uma pessoa a
sustentar e a vestir, trazia-o contente.

Verdade seja que era necessario dar-lhe alguma coisa... Parecia mal! Mas
tinha as joias que herdra da irm, algumas pratas, peas de panno de
linho, colchas de damasco... Emfim, veria. Dinheiro  que no!

O Albuquerque recebeu em Lisboa a noticia de que o casamento estava
ajustado, o que s pela certeza d'uma nova fortuna a desbaratar o
commovia. Comprou ricos presentes para a noiva, depois de conseguir do
agiota da Praa Velha um novo emprestimo para o qual hypothecou as
insuas, fazendo-se ento largas contas de todos os atrazados que d'esta
vez ficaram garantidos. Veio immediatamente a Vizeu prestar homenagem,
que era de bom estylo,  futura esposa, a qual de resto conhecia muito
de perto dos bailes e festas beiras onde costumava encontral-a e onde
uns leves pruridos de conquista tinham creado j entre os dois uma certa
intimidade.

Depois recolheu a Coimbra para presidir a uma ligeira reparao do seu
sumptuoso palacio, que foi rapida, e sem mais delongas se realisou o
casamento.

Passados os primeiros e curtissimos tempos em que o Albuquerque julgou
de bom gosto acompanhar a mulher em visitas e apresental-a aos seus
velhos amigos n'um riquissimo baile, como tradicionalmente eram os da
sua casa, voltou ao seu antigo viver, jogo, mulheres e bastas visitas a
Lisboa. Entregava a administrao da casa  esposa para melhor
conquistar a sua generosidade e simultaneamente se desonerar de
enfadonhos encargos.

Ella, em quem dominavam os instinctos plebeus e uma insaciavel sede de
mandar, exultava com to subida investidura.

No se casra com outro fim; a liberdade compensava-a de todas as magoas
presentes e passadas, incluindo a indifferena do marido que tratava
respeitosamente mas que no intimo considerava como um simples e pouco
incommodo tributo imposto  sua independencia.

Quando o velho pae de D. Maria Francisca morreu, o Albuquerque veio com
ella a Vizeu; mas ao fim de poucos dias, j tristemente convencido de
que a fortuna a herdar ficava muito quem do que lhe tinham annunciado,
deixou-se ganhar pelas saudades dos seus prazeres habituaes e
apressou-se a voltar a Coimbra onde agora tinha uma amante, rapariga do
povo, travessa e maliciosa, muito cubiada dos estudantes, e que possuia
o condo de despertar em D. Pedro os mais insoffridos ciumes.

A D. Maria Francisca ficava o cuidado de liquidar a herana, o que
realisou com uma ganancia e uma crueldade que recordavam bem a
ascendencia paterna.

Foi ento que ella contractou um procurador e administrador, que havia
de a acompanhar a Coimbra e ficar sob as suas ordens, para a coadjuvar
n'aquella misso de morgada e senhora rica que aos seus olhos
significava uma cora real.

O procurador era um padre, novo, de vinte e cinco annos, lindo, d'olhos
azues e cabellos louros, occultando sob uma apparencia de doura e
placidez um corao apaixonado e ardente.

Em breve D. Maria Francisca o presentiu e, n'uma inflammada avidez de
luxuria, entregou-se sem reservas a um amor que realisava a melhor
fortuna da sua vida.

A humildade do padre, casada com um vigor juvenil, dava-lhe uma
impresso de plenitude em que o contentamento do espirito coroava os
regalos do corpo satisfeito.

Pelo seu lado, o padre correspondia impetuosamente a esse amor,
concentrando todos os seus esforos em affastar de Coimbra D. Pedro para
mais tranquillamente possuir a amante.

--V v. ex. para Lisboa, dizia ao morgado; no se prenda com os
negocios da casa. Esto a meu cuidado; no vim aqui para outra cousa. 
a minha obrigao.

O Albuquerque partia e, depois de estar em Lisboa, o padre fazia de modo
que o dinheiro nunca lhe faltasse para que no se tentasse a voltar a
casa. O fidalgo escrevia ao procurador, reconhecido por tanto trabalho e
affecto; aos seus amigos no cessava de o elogiar, como um modelo de
dedicao, associando-lhe sempre o nome da mulher cujo zelo pelos bens e
pelas commodidades do marido, dizia este, a obrigava a viver quasi
sempre no meio d'aquellas inhospitas serras de Cercosa, mal servida por
uma velha creada que trouxera de casa de seu pae.

Porque era Cercosa a habitao preferida dos amantes. As visitas, os
seres com os lentes e mais frequentadores do palacio da estrada da
Beira, a creadagem basta, tudo isso perturbava em Coimbra as horas
d'amor, e tudo isso desapparecia no silencio do solar de Cercosa
protegido pela discrio da creada que j em Vizeu fra confidente de D.
Maria Francisca.

Do casamento de D. Pedro nasceram, com largos intervallos, tres filhos;
Leonor, Jos e Laura. At aos nove annos foram educados com os velhos
creados da casa, no abandono proprio das circumstancias em que se
encontravam; a me a todo o momento estava em jornada com o capello
para Cercosa, o pae fugia para Lisboa sempre que se via com algum
dinheiro e, quando estava em Coimbra ou na Beira, passava o tempo em
caadas, visitas e recepes, folgando continuamente, como um rapaz, ora
em sua casa ou nas festas visinhas, que retribuia com largueza. D'este
modo, os filhos tornavam-se um estorvo, quer aos amores da fidalga, quer
aos prazeres do morgado.

Era preciso remover esse embarao. Sobre isso conversaram amigavelmente
os paes, que de resto sempre viviam em paz e harmonia, n'uma
indifferena intima e exteriormente na mais estremada cortezia.

Queriam para os filhos uma educao primorosa, diziam, como aquella que
elles mesmos tinham tido, queriam-n'os, principalmente, educados na
religio christ.

Por isso resolveram mandar as filhas para o recolhimento das irms de
Santa Ignez, estabelecidas em Lisboa, umas freiras irlandezas que a
marqueza de Fermel, piedosa senhora que l ia todos os dias ouvir
missa, lhes tinha elogiado como um modelo de bons costumes e fina
educao.

Durante muitos annos, no 1. d'outubro, D. Pedro era certo  porta do
recolhimento, que ficava para os lados do Campo d'Ourique, a principio
s com Leonor, mais tarde, quando Laura chegou aos nove annos, com as
duas filhas.

Ele, pelo seu natural descuido e por certo pendor para a bondade, que
facilmente o levariam a ceder aos rogos das filhas, consentiria em
alongar as ferias; mas a me que vivia contrariadissima com a sua
presena, por causa do capello, punha todos os seus esforos em que os
regulamentos collegiaes fossem cumpridos a rigor. Era um bom costume,
dizia ao marido sempre que o sentia propenso a qualquer concesso.

No collegio elogiavam a pontualidade das meninas Albuquerques;
apontavam-na como exemplo aos mais remissos. Aquelles sim, aquelles
educavam conforme as boas regras d'outros tempos! Os filhos lh'o
saberiam agradecer mais tarde. No eram como a gente de Lisboa que
estragava as creanas com mimo.

Com o rapaz no se podia fazer outro tanto; o pae no consentia.
Queria-o educado em liberdade, para que fosse um homem; o collegio
tornal-o-ia maricas.

O melhor seria um professor que viesse a casa dar-lhe lies at ao
exame de instruco primaria, depois havia de frequentar o lyceu para se
habituar a tratar com os outros rapazes e por fim formar-se-ia em
direito na Universidade.

D. Maria Francisca acceitou e applaudiu o programma. Tinha pensado em
que a soluo era boa; durante o tempo lectivo o filho estava preso em
Coimbra, deixando-lhe por conseguinte a liberdade de gozar a sua querida
tranquillidade de Cercosa, as ferias do natal e da paschoa eram breves,
e dos mezes de agosto e setembro no tinha a preoccupar-se que esses
estavam d'antemo prejudicados pela presena das filhas.

D'esta arte tudo se harmonisou, a contento dos regalos dos paes, at que
chegaram os desoito annos de Leonor, a filha mais velha. Era necessario
trazel-a para casa, apresental-a, para que se mostrasse em toda a sua
belleza, que era grande, e tomasse os habitos mundanos que consideravam
parte integrante, e a mais essencial, da sua educao. E assim se fez.

No collegio, Leonor aprendera o cathecismo; s por isso sabia mais
doutrina christ que toda a aldeia de Cercosa e arredores. Aprendera
tambem a bordar a ouro, em branco e a toral, copiava desenhos a lapis e
a carvo, sabia francez e inglez muito bem, escrevia regularmente o
portuguez, e ao piano tivera o primeiro premio, um livrinho de estampas,
encadernado em papel cr de rosa com lettras douradas.

Ouvira e repetia que a caridade era a primeira das virtudes, o que a
obrigava a no bater nas companheiras e no as accusar das suas faltas,
sem embargo do intimo prazer que sentia ao reconhecer a sua
superioridade e ao vr-se louvada pelas suas mestras como a primeira.
Sabia que era uma obra de misericordia dar agasalho aos nus, de beber a
quem tem sede e de comer a quem tem fome, mas sem exercer essas virtudes
ou mesmo sentil-as interiormente; porque no collegio no havia miserias
nem mendigos, todos comiam  mesma meza, que era abundante, e dormiam em
leitos macios, quentes e aceiados.

Verdadeiras obrigaes n'esta vida eram o modo de dobrar a roupa ao
deitar, a maneira de pegar no garfo e na faca, o modo de fechar o piano,
sem precipitao, e as lies que deviam ser bem decoradas. Feito isto,
o elogio das mestras era certo; os premios publicamente distribuidos no
fim do anno a confirmao plena de todas as satisfaes da vaidade.

Saindo do collegio, a transformao era facil; tinha apenas a substituir
vaidade por vaidade, os cuidados escolares pelas preoccupaes do
vestuario, os louvores dos superiores pelo elogio da sua belleza feito
nos requebros e galanteios.

As instigaes do instincto, auxiliadas pelos conselhos da me, no
tardaram a operar rapidamente a mutao; dois annos depois de sair do
collegio, com pratica d'alguns sales da capital, de S. Carlos e da
Figueira da Foz, Leonor tinha feita a sua reputao de bondade, de
formosura e boa educao.

A me, astuta, nunca perdendo da lembrana o padre, anceiando pelos
tempos de tranquillidade que com elle passava em Cercosa, espreitava o
ensejo de casar a filha. O destino breve lhe deparou boa fortuna. A
victima foi o filho d'um brazileiro do Minho, novo e riquissimo, que do
Porto veiu  Figueira ostentar as suas carruagens e os seus anneis e
procurava afidalgar-se pelo casamento.

Exultou quando o viu seguir a filha. Era a felicidade para ella e talvez
para toda a familia, porque o rapaz decerto ia pagar as dividas da casa
do Albuquerque que dia a dia se afundava vertiginosamente. Teve uma
certa difficuldade em convencer Leonor, que soffria d'ambies de
fidalguia, mas o amor do luxo tentou-a e o casamento realisou-se.

D. Maria Francisca podia voltar mais livremente a Cercosa, at que Laura
deixasse o collegio. Leonor tinha do marido tudo quanto queria e elle se
julgava obrigado a conceder  nobreza e ao lustre que ella trazia ao
plebeu.

S os calculos de resgate das dividas se desfariam em desilluses,
porque o brazileiro, rehavendo para isso toda a energia d'um bom
burguez, defendia-se tenazmente.

No queria saber dos negocios dos outros, tinha os seus capitaes muito
bem collocados e no podia tocar-lhes.

 sr. D. Leonor, como respeitosamente a tratava, nada faltaria, nem
mesmo o titulo de condessa da Maia que um deputado lhe promettera e as
vastissimas propriedades, que n'aquelles logares possuia, justificavam.

Jos d'Albuquerque completamente convertra em desenganos as esperanas
dos paes. Por um capricho de hereditariedade, carecia absolutamente das
qualidades que caracterisavam o temperamento dos paes, a vivacidade, o
amor do luxo e dos prazeres.

Era um philosopho, diziam. Levra arrastadamente os seu estudos, no por
falta de intelligencia, que realmente possuia grande reflexo e bom
senso, mas por incuria e averso ao que os mestres lhe ensinavam.

A cada momento deixava os livros da aula, para se entregar  leitura das
velhas chronicas que ha muito jaziam abandonadas no seu palacio e tinham
pertencido a um seu remoto ascendente que fra conego da s de Coimbra.

Finda a formatura na Universidade, comeou a passar dias inteiros entre
a livraria e o jardim, com a paixo d'um alfarrabista. Os seus unicos
jogos eram os livros e as flores.

Recusava todos os casamentos _vantajosos_ que tentavam fazer-lhe com
fidalgas e parentes da Beira; na sua indolencia, to avsso ao jogo, aos
cavallos e a mulheres, que constituiam os regalos tradicionaes da sua
casa, como indifferente  administrao dos bens, tornra-se, com grande
desgosto de D. Pedro, a negao do morgado que elle phantasira
continuando o regabofe da familia.

D'aqui, nem D. Pedro nem a mulher esperavam cousa alguma, tanto mais que
o filho, alm das qualidades de espirito que to accentuadamente
manifestra, era d'uma teimosia invencivel, mansa, calada, mas
infinitamente resistente. Na parcimonia, no desprendimento do luxo, e
at mesmo no poder de intelligencia, fazia lembrar o av materno, tendo
pelos livros a soffrega cubia que o outro tinha pelo dinheiro.

Talvez por isso, por lhe recordar o pae, seno mesmo pela propria
contradico de caracteres, a me adorava-o; s por elle consentia em
fazer qualquer sacrificio dos amores do padre. A mansido captivava o
seu genio ardente; onde quer que a encontrasse, acariciava-a.

Como ultima esperana de salvar a casa, restava Laura. O casamento de
Leonor s para ella trouxera riqueza, e de Jos todo o pensamento de
especulao se tinha affastado, graas  sua doce e energica
resistencia.

Laura tinha uma educao perfeitamente egual  da irm. Ao tempo em que
a conhecemos, contava vinte e quatro annos de edade e havia seis que
deixra o collegio, continuando em casa com lies de piano e de pintura
cujos resultados se exibiam frequentemente nos seus magnificos sales,
como tentao aos noivos ricos que infelizmente no vinham.

A fama de ruina da casa de D. Pedro era larga e fundada, vivia n'uma
teia infinda de embaraos; todos fugiam de ligar o seu nome e a sua
existencia aos vexames e vergonhas de que os Albuquerques estavam
permanentemente ameaados.

Entretanto, no faltavam a Laura carinhos de educao nem vestidos
elegantes. Devia-se aos mestres e  modestia, de quem periodicamente se
recebiam cartas agridoces instando pelo pagamento, mas uma derradeira
esperana concentrava na pobre rapariga todos os desvelos e para a fazer
brilhar no havia hesitaes.

Tal era muito em breve a historia e a situao da familia a que Claudio
pensava em unir-se, buscando paz  sua alma n'uma vida de dignidade, de
trabalho, de elevao e de grandeza moral.

Tambem, pelo seu lado, D. Pedro e a mulher o cubiavam. Instigados pela
mesma ambio, tacitamente reunidos num mesmo pensamento de interesse,
viam ha muito em Claudio um genro que lhes convinha. Suppunham muito
elevada a sua fortuna; sempre que de Albergaria vinha alguem aos seus
jantares, no perdiam occasio de se informarem.

-- muito bom rapaz, todos lhe diziam, e deve estar muito bem. Alm do
que elle comprou ao fidalgo, tem muito dinheiro; calculam-lhe para mais
de cem contos que herdou do tio. Elle diz que no, que apenas recebeu de
l uns quarenta contos, mas  claro que essas cousas nunca se confessam.

Ao jantar e na palestra que precedia as partidas de _whist_, emquanto o
creado punha sobre a meza as marcas e os baralhos de cartas, collocando
aos cantos os castiaes de prata e os cinzeiros, o velho fidalgo, no
sof encarnado, perna cruzada, a pr em evidencia o seu p pequenino que
toda a Beira galante conhecia, no cessava de elogiar o amigo do seu
Jos.

--Uma joia de rapaz! exclamava. E de boa familia...

O seu enthusiasmo ia ao ponto de imaginar fidalguias para o seu futuro
genro. No sabia ao certo... mas pelo nome era indubitavelmente
descendente d'uns Souzas, muito nobres, ainda parentes do duque
d'Aveiro, que viviam em Albergaria quando foi da invaso franceza.

Os francezes queimaram-lhes o palacio; elles, desgostosos com isso,
nunca mais l voltaram, foram morar para umas herdades que possuiam no
Alemtejo e mais tarde venderam tudo o que tinham no norte.

Depois, mesmo o nome de Portugal indicava alguma cousa. Em Semide
conhecia uma familia com aquelle appellido, parente dos condes de
Montemr que, como se sabe, eram da mais antiga nobreza do reino.

No fundo, o velho Albuquerque sentia uma ligeira contrariedade ao pensar
no casamento da filha com Claudio. Tentando convencer os outros,
procurava ao mesmo tempo desvanecer as sombras que lhe empannavam o
espirito. Claudio no era, infelizmente, fidalgo; s por triste
necessidade de ruina o acceitaria para marido de Laura.

No tardaria que isso succedesse, porque, emquanto os Albuquerques se
davam a este novo sonho de riqueza, Claudio resolvia definitivamente a
sua situao.

Na madrugada que se seguiu quella noite tormentosa em que como doido
deixra para sempre a capella da rua da Cruz, ainda no ardor da febre em
que a anciedade o consumia, Claudio encontrava casualmente sobre a mesa
um livro de Paulo Bourget, _L'Irreparable_. Leu e sentiu um subito
despertar. Accordava, tinha encontrado a chave do enigma da sua
existencia, a resoluo de todas as duvidas. Recuperava o animo, n'esta
esperana que d'antemo se lhe afigurava uma realidade.

Sim, comprehendia agora o que tinha a fazer, o que ha muito podra ter
feito, se a fraqueza o no tivesse vencido.

Era necessario, urgente, que por um acto de energia creasse entre elle e
Emilia uma situao irreparavel em que lhe fosse impossivel voltar
atraz; e essa situao no podia ser outra seno o ajuste immediato do
seu casamento com Laura.

Com Laura?!... Se ella o acceitasse!... Tremia, recordava as palavras de
sympathia que tinha ouvido da sua bocca e, recordando-as, moderava as
apprehenses que lhe provinham do confronto da sua humildade plebeia com
a nobreza dos Albuquerques.

Fosse como fosse, a hora era de aco; estava resolvido a lanar para
longe esta cruz d'uma eterna hesitao.

Ia escrever a Jorge pedindo-lhe que viesse a Coimbra fazer aos
Albuquerques o pedido da filha. Elle mesmo, n'aquelle dia, iria ver
Laura e, confessando-lhe o seu amor, propr-lhe-ia o casamento. Se ella
recusasse, telegrapharia a Jorge para que elle suspendesse a jornada e
partiria para o estrangeiro a refazer-se de todas as dres no repouso e
nos prazeres.

De Emilia no cuidava. Fizesse o que quizesse, no se julgava
responsavel da loucura que a accomettera e em que ella pretendia, com um
egoismo cruel, reduzil-o a propriedade sua, calcando todas as
attribulaes da sua consciencia e cuspindo palavras de escarneo e
desprezo sobre aquillo que elle amava. Era de mais! A taa trasbordava.

Sentou-se e escreveu:


                                                    _Meu querido Jorge:_

Esta carta ser para ti uma surpreza e espero que, conjunctamente, um
motivo de alegria. Vae surprehender-te o pedido que venho fazer-te, a ti
que me suppunhas talvez cahido na impenitencia final, e ha-de por certo
alegrar-te saberes que, embora tarde e o corao rasgado pela dr e pelo
remorso, vou tentar uma nova vida de honestidade e de trabalho,
procurando resgatar nos annos que porventura tenha deante de mim, os
erros que foram o amargo fructo de toda a minha mocidade.

Depois que estiveste aqui na primavera passada, nunca mais te fallei dos
tormentos com que tenho vivido em continuada mortificao; julguei por
um lado excessiva fraqueza da minha parte e, por outro, profanao da
paz risonha do teu lar ir inquietar-te com lamentos que nunca deveria
soltar porque eram unicamente a minha culpa, minha grande culpa. Mas a
triste verdade  que ha um anno vivo n'uma constante lucta, procurando
fazer penetrar no corao de Emilia a luz de Deus que nos devia guiar, a
ella e a mim, no caminho da emenda e salvao.

Todos os meus esforos foram vos; todos se partiram e desfizeram
d'encontro a um egoismo sem limites em que, invocando o meu amr,
procurou prender-me por todos os modos, com rogos e ameaas, j
invocando os meus loucos protestos de fidelidade perpetua, j
soccorrendo-se das obrigaes que me attribuia por ter manchado a sua
honra e destruido a sua reputao.

No pdes calcular, meu querido Jorge, a sinceridade e instancia com que
luctei, chamando-a ao dever, em nome dos filhos, da religio, da
consciencia e do proprio amor que me jurava e de que implorava um acto
de resignao e desprendimento, restituindo-me a tranquillidade d'alma
sem a qual me julgo indigno da vida.

Tudo foi em vo! A cegueira do peccado vendava-lhe todos os sentidos e
no tive meio de a levantar d'esse abysmo de tenebroso erro em que, por
infelicidade sua e minha, ambos nos precipitamos n'um momento de
desvairada tentao.

Chegou porm a hora de pr termo  miseria e vergonha em que me tenho
arrastado.

Hontem, louca de ciumes, insultou-me e insultou pessoas a que muito
quero em termos que nunca julguei ouvir da sua bocca e que at mesmo
ignorava que ella conhecesse, fazendo-me passar talvez a hora mais
indigna da minha vida. Fugi, para no a esmagar n'um impeto de raiva, e
agora estou no firme proposito de estabelecer entre mim e ella qualquer
cousa irreperavel que d'uma vez para sempre nos livre de consentir em
prolongar, por mais um s dia que seja, os nossos amores.

Ah! meu Jorge, tu nunca sabers que fortuna significa uma consciencia
imaculada nem poders imaginar o que so as penas do remorso! Como um
Lazaro, coberto de ulceras e das mais fundamente gangrenadas, s peo a
Deus que me proteja e conduza no seu infinito amor. Todas as dores do
corpo, todas as enfermidades sero para mim melhores que o castigo das
minhas culpas nas accusaes da consciencia.

Vou tentar libertar-me d'esses phantasmas sem piedade que me perseguem e
aterram, reunindo n'um s esforo todas as energias da razo e da
vontade que ainda possa encontrar nos miserandos restos d'um corpo
exausto e d'uma alma repassada de soffrimento. Quero casar-me.

Conheceste como eu as irms do nosso bom amigo Jos d'Albuquerque; 
mesmo provavel que mais do que eu as tenhas encontrado na sociedade que
frequentas em Lisboa. A mais velha, a Leonor, casou no Porto com um
rapaz muito rico; a Laura est ainda solteira e  no seu nome e na sua
imagem angelica que esto hoje todas as minhas esperanas.

No me julgues apaixonado; vo longe esses tempos e devaneios, posto que
a sua formosura e os seus dotes bem os justificassem. Procuro realisar
um casamento longamente reflectido e meditado,  fria luz da razo.

Hoje, o meu pensar transformou-se. Ha poucos annos a vida era para mim
uma festa pag em que a livre expanso de todas as foras animaes
significava a felicidade suprema; mas a experiencia e a dr ensinaram-me
que concorrentemente ha leis moraes, derivadas de inspirao interior, a
que no se pde impunemente faltar. Por as ter desconhecido e
prostergado, passei pelas mortificaes que s agora espero affastar.

No que a vida mystica me tente ou desconhea o que devo ao corpo. Pelo
contrario, vejo e comprehendo as suas imperiosas necessidades. Mas quero
que a existencia humana, para ser bella e nobre, se traduza n'um
equilibrio das inspiraes divinas e das aspiraes terrenas, na
harmonia da luz da consciencia dominando e regulando o tumultuar das
paixes mortaes.

No contesto as leis da vida organica e tudo o que a sciencia me
ensinou; pretendo apenas que, conjunctamente e superiormente, existem
leis divinas, um impulso interior que nos domina e ordena a pratica do
bem.

N'estas condies, dada a concluso definitiva a que cheguei sobre o que
a vida deva ser, pdes comprehender a que motivos obedeci inclinando-me
a casar n'uma familia nobre. Laura trar ao meu casal a candura, a
ingenuidade, a educao profundamente religiosa que recebeu e os
encantos da vida aristocratica, no melhor sentido da palavra, os
delicados instinctos artisticos que so a coroa da vida mundana e a
cercam d'um puro deleite; eu levarei com o meu sangue plebeu os habitos
de trabalho que so o brazo da gente humilde e o fundamento da
dignidade.

E assim viveremos na modestia que convm  exiguidade das minhas
riquezas, na caridade que ser para ns o premio divino, o melhor dos
bens, e no estudo e na arte que elevam o espirito e nos arrebatam n'uma
aurora infinda onde o sol se eleva sempre, espargindo serenidade e luz e
jmais se afunda derramando a treva.

Quizera dizer-te todo o programma de vida que em longos mezes de
inquietao pude determinar na anciedade de paz e de virtude; quizera
dizer-te como espero resgatar estes tristes annos de loucura e de erro.

Mas, alem de que te escrevo extenuado pela fadiga d'uma noite
tempestuosa que me deixou o espirito em desordem, a esperana de te vr
dentro em pouco convida-me a ser breve. Porque o que desejo pedir-te, e
 o fim principal d'esta carta,  que sem perda de tempo venhas vr-me
para me ajudares com o teu conselho e a tua amisade e para regulares a
minha situao com Laura e os Albuquerques, conforme as boas regras de
cortezia em que s perito e de cujos preceitos me no reputo sabedor.

Seja qual fr o teu juizo e opinio sobre as duvidas que me trazem
perturbado, a tua presena ser para mim, estou bem certo, um grande
bem. Nem tu pdes calcular que allivio foi esta curta confisso!
Sinto-me agora bem, parecem-me distantes as sombras afflictivas da
noite; enche-me o corao a esperana e a paz. Meu Deus! Protegei-me no
caminho da virtude e fazei que jmais d'elle torne a desviar-me!

                                                               Do teu

                                                               _Claudio_.


N'essa mesma manh, Claudio, levado ainda na impaciencia que o fizera
escrever a Jorge, pediu  me, no fim do almoo, que viesse fallar-lhe
ao seu gabinete e ambos se encaminharam para l.

A velhinha entrou, sentou-se, e erguendo os olhos negros, a brilhar na
face rugosa toucada de cabellos brancos, esperou um instante que o filho
comeasse. Claudio, tremulo e pallido, no sabia o que dizer; sentia
sobre si o peso e o terror d'um grande crime a confessar perante o
tribunal supremo. Foi  janella, voltou, dirigiu-se  mesa de trabalho,
pegou n'uma faca de cortar papel, pousou-a immediatamente, e n'estes
movimentos inconscientes e desconnexos dava pasto  sua agitao sem
poder articular uma palavra.

Queria confessar  me toda a sua vida e pedir-lhe perdo das suas
culpas. Seria o primeiro passo para a regenerao e para a virtude.

--Ento que me queres? resolveu-se por fim a velhinha a perguntar, vendo
o silencio do filho e comeando a sentir certo mysterio n'esta longa
pausa.

--Eu queria, minha me... queria dizer-lhe... que, se fosse da sua
vontade... se fosse da sua vontade... j lhe tenho dado tantos
desgostos...

--Que tens tu? disse ella levantando-se ao vr a angustia do filho.
Senta-te, senta-te aqui, tu no ests bem.

Claudio sentou se e proseguiu, olhando vagamente, sem se atrever a fitar
a me:

--Queria dizer-lhe que, se fosse da sua vontade, talvez me casasse...

--Oh! Claudio! respondeu ella abraando-o. Deus Nosso Senhor ouviu as
minhas oraes...

E, nos braos um do outro, afogaram em lagrimas e soluos a agonia,
dissipando-a. A confisso que havia de ser longa, encerrara-se n'estas
rapidas palavras; o corao sentira o que os labios no souberam dizer.

No tardou a resposta de Jorge.

O casamento e a mortalha no ceu se talha, comeava elle. Esse  que
era o preceito antigo e authentico sobre casamentos. Que se deixasse
Claudio de theorias que j uma vez lhe tinham provado mal e que agora
mesmo no podiam prometter-lhe cousa alguma.

Que tinha feito muito bem em acabar com os amores de Emilia, se o
inquietavam, e que tambem lhe no dizia que deixasse de casar com Laura,
se gostava d'ella; mas que ficasse bem certo que nem o primeiro caso era
motivo para os exaggerados remorsos de que se deixra possuir nem devia
pr no casamento to extraordinarias esperanas que o futuro no as
podesse satisfazer. Conhecia muito bem o Albuquerque pae, que a cada
passo encontrava em Lisboa; era um dissipador, mas um cavalheiro,
excellente homem.

No conhecia egualmente a mulher que quasi nunca vinha a Lisboa, mas
ouvira que era uma senhora de muito tino e que toda se dedicra 
administrao da casa.

Quanto  rapariga, nada lhe diria seno que era muito bonita, porque
ninguem sabe o que est dentro do corao d'uma menina que ainda no
conheceu nem pde conhecer o que seja a vida do casamento com todos os
seus trabalhos e obrigaes. O tempo lhe diria a sua sorte.

Ia partir immediatamente para Albergaria; guardava para a sombra dos
platanos, que tanto apreciava, a discusso de todos esses pontos que a
Claudio pareciam to obscuros e que para elle eram to limpidos como
agua da fonte.

Em poucos dias tinha ajustado o casamento de Claudio com Laura. Restavam
s os cuidados de ordem material, o enxoval da noiva e a installao da
casa, para o que se calculou que quatro mezes seriam bastantes.

Claudio deixava o palacio de Albergaria, ia viver em Coimbra. A me
voltava a Villalva, separando-se do filho com a mgoa e a resignao que
era propria da doura do seu caracter mas ao mesmo tempo contente por ir
acabar onde vivera a sua melhor vida, dando largas aos habitos de
simplicidade, ao genio laborioso e  caridade constante. O filho
promettia ir vel-a todas as semanas.

A casa escolhida pelos noivos era na estrada da Beira, a pequena
distancia do palacio dos Albuquerques. Sobre uma elevao, recolhida no
meio d'uma pequena quinta que descia em largos taboleiros vicejantes de
jardins, de hortas e de pomares, dominava todo o valle, triste nas
tintas sombrias do olivedo que o cobria. Em frente, atravez uma pequena
garganta, entre duas collinas, as aguas do rio e os salgueiros mimosos,
balouando-se, lanavam um brando alento de movimento e frescura sobre a
morna placidez do valle. Aqui e alm, erguiam-se os choupos,
corajosamente, brandindo ao vento as tenues folhas.

 festa da natureza quiz Claudio associar os primores da arte; aos
moveis do palacio de Albergaria juntou o _bric--brac_ que Jorge lhe
enviou de Lisboa.

Elle mesmo veio ajudal-o a dispr quadros e louas, tapearias e
bronzes, cogitando artificios para dar relevo  belleza dos objectos.

O ninho era tentador para a mais delicada sensualidade; o proprio
Albuquerque, que na frequencia da gente fina adquirira auctoridade em
materia d'armador, exclamava contente nos seres do seu palacio, entre
os lentes que vinham tomar-lhe o ch:

--A casa fica linda; o rapaz tem muito gosto!...

Quando chegou a hora de se separar da me, Claudio sentiu pela primeira
vez a apprehenso da inanidade de todo o esforo em que com tanto
enthusiasmo e to boas aspiraes se empenhra.

Onde ia? Para que tanto movimento? Que buscava? Que valia  sua vida a
riqueza e o ninho que architectra n'esse valle que agora lhe parecia
estranho? Sonhra uma companheira para a sua vida... Onde estava? Laura?
Afigurava-se-lhe uma mulher alheia. Desconhecia-a.

Varrido e abandonado j o palacio de Albergaria, n'essa pequena sala de
Villalva, s com sua me, via em torno os montes escalvados, em baixo o
estreito campo a que dra todos os seus cuidados, ao longe um retalho da
varzea cortada pelo rio. Tarde de primavera, suavidade e silencio, s
cortado pela voz guthural do lavrador que animava o jugo! Era a hora de
jantar, a ultima refeio que teria em commum com sua me antes de
partir para essa jornada mysteriosa, que to ardentemente desejra e que
agora quasi aborrecia.

Ia dormir a Coimbra, na sua nova casa.

No dia seguinte,  uma hora da tarde, era o casamento. Dos seus amigos e
dos seus parentes s Jorge o acompanharia; a me e a irm no
consentiram, por timidez e acanhamento, em deixar os seus campos. De
resto, os Albuquerques, incluindo Laura, mal se referiram a essa falta,
muito promptos em acceitar todas as escusas. Intimamente temiam que lhes
viessem manchar a festa com a sua rudeza.

Ao fim d'essa derradeira refeio, aproximou-se da me para a abraar
pela ultima vez antes de se casar. A lembrana de todo o passado que lhe
enchia o peito trasbordou em largos soluos e lagrimas abundantes.
Choraram unidos estreitamente, trocando um prolongado beijo, sem
articular uma s palavra, n'uma supplica fervorosa e muda de felicidade
em que se confundiam mgoas, esperanas e um infinito affecto. Depois,
Claudio, abrindo os braos, com um gesto de resoluo, deixou a me:

--Adeus!

--Adeus!

Foram as unicas palavras que em voz sumida se ouviram; e saiu descendo o
caminho, sem olhar para traz, dirigindo-se  carruagem que o esperava em
baixo.

A meia encosta, veio juntar-se-lhe, correndo e querendo acompanhal-o, o
co de guarda da lavoura.

--Chama-o, chama-o, disse Claudio para um creado que estava perto.

--Leo, Leo, aqui! gritou o creado.

O co parou hesitante e contrafeito. Por fim obedeceu.

Claudio seguiu, juntando, no corao opprimido, esta caricia s fundas
dores que o trespassavam.

A este tempo, em casa dos Albuquerques, o movimento e a confuso eram
completos. Rolos de tapetes, vasos de flores, escadas, louas, creados
em mangas de camisa, mulheres do campo transportando cestos com ramos de
hera e de loureiro, um ininterrompido cruzar de vozes dando ordens e
pedindo objectos, tudo redemoinhava em volta de D. Pedro que corria de
salo para salo querendo dirigir toda a esmerada ornamentao do
palacio.

--Olha esse lustre!... Cuidado com as cortinas!... Esses vasos vem ou
no vem?!... Ento o tapete?... Assim... pela direita... est bem! mais
acima!

O tiroteio no cessava, tentando cada um desembaraar-se da sua tarefa
n'uma desordem activa e alegre.

Ao cair da noite estava tudo completo; a casa guarnecida de verdura e de
flores, coberto o cho de tapetes a amortecer todos os ruidos, as vellas
postas profusamente nos candelabros e nas serpentinas para se accenderem
no dia seguinte.

Nos aposentos de Laura e D. Maria Francisca, pelas cadeiras, pelas camas
e pelos sofs estendiam-se rendas, plumas, flores e vestidos ffos e
ondeantes. A um canto da janella uma costureira apertava a cintura d'uma
saia de seda que se espraiava pelo cho sobre um lenol de linho e que a
modista mandra larga, errando a medida.

Para o casamento estavam convidados alguns parentes da Beira e uns
fidalgos de Lisboa, companheiros de D. Pedro em S. Carlos, nas touradas
e nos clubs.

Comeavam agora a chegar em char--bancs, que os transportavam da
estao do caminho de ferro, os da Beira com bahs de folha envernisada,
mal fechados e ligados com cordas delgadas, os de Lisboa com grandes
malas de couros macios, afivelladas com ferragens brancas e polidas como
prata.

O Albuquerque recebia os hospedes, conduzindo-os aos seus quartos e
mostrando-lhes em seguida as salas mal illuminadas, para no desmanchar
os preparativos da festa, ouvindo com desvanecimento os elogios.

--Um palacio, uma palacio! Ests aqui como um principe!

D. Maria Francisca tomava as damas a seu cargo e recebia-as nos seus
aposentos.

Pelas dez horas da noite caira tudo em relativa tranquillidade, os
hospedes de Lisboa acantonados nas mezas de _whist_ e as senhoras no
quarto de D. Maria Francisca, mexendo e remexendo com a sua natural
curiosidade o enxoval e as prendas de Laura, discutindo, apreciando e
fazendo comparaes com outros casamentos nobres a que tinham assistido.

--Vaes ser muito feliz! diziam com denguice para Laura.

--Parece-me muito bom rapaz, respondia D. Maria Francisca. Creio que
ha-de saber estimal-a... E agora ho-de dar-me licena, que so horas de
preparar a meza. Quero deixar tudo prompto hoje; se l no vou abaixo,
os creados no fazem nada. Uns estupidos!...

--Oh! tia, eu vou ajudal-a, respondeu uma das meninas recemchegadas.

E seguia D. Maria Francisca para a sala de jantar.

Claudio veio tambem, mas demorou-se pouco. Tinha umas ultimas cousas a
regular na sua nova casa. Laura no procurou prendel-o, absorvida como
estava pelos cuidados dos seus vestidos novos e de se mostrar bella e
fidalga no dia que lhe diziam ser o maior da sua vida.

O casamento foi  uma hora da tarde, na capella do palacio.

Desde o meio dia havia um incessante rodar de carruagens, que entravam o
largo porto de ferro coroado pelo brazo dos Albuquerques e iam parar
em frente dos degrus do palacio alcatifados e ladeados de vasos com
hortensias.

Os cocheiros, na almofada, voltavam-se para traz, recebiam ordem de
regressar  noite, esperavam que o creado da casa, fardado de verde e
branco, batesse a portinhola, e saiam dentro das suas librs de
emprestimo, mal ajustadas, conduzindo os cavallos magros, cobertos de
arreios baos, em que s brilhavam as ferragens amarellas,
excepcionalmente polidas, para aquelle dia, tentando honrar os creditos
da cocheira.

Nas salas, as casacas negras e brunidas entre vestidos de seda, muitas
rendas, algumas joias, e um rumor de vozes abafadas na timidez de
indiscrio e no respeito da solemnidade. S os convidados de Lisboa
destacavam por fallarem alto, trazerem casacas usadas e macias,
amoldando-se bem ao corpo, e sapatos com visiveis signaes de terem
servido muitas vezes; passeavam e conversavam livremente com damas e
cavalheiros, e os da terra olhavam-n'os estudando elegancia,
confrontando-se com elles e procurando aprender aquella maneira to
facil de dar o n na gravata que muito cubiavam.

O Albuquerque entrou sorridente, com Laura pelo brao; Claudio deu por
sua vez o brao a D. Maria Francisca. Juntos os convidados aos pares,
cada cavalheiro dando o brao  sua dama, poz-se o cortejo a caminho da
capella, saindo a porta principal e atravessando pelo jardim. Na rua, o
povo apinhava-se nas grades que vedavam a quinta, espreitando por entre
as arvores.

--To linda! Parece um anjo... exclamavam, confundindo em vgas
remeniscencias a noiva e as creanas que viam nas procisses com grandes
azas de pennas brancas e vestidos estrellados de lantejoulas.

A cerimonia na capella foi breve; dentro d'uma hora o cortejo regressava
ao palacio. Houvera lagrimas ao verem os paes abraar a filha, mas a
missa em seguida ao casamento e os gracejos com que os mais alegres
commentavam a situao tinham desvanecido essas sombras passageiras;
quando sairam da capella, todos vinham risonhos.

O _lunch_ era s tres horas; no breve intervallo que medeava entre o
casamento e a refeio, os convidados dispersaram-se em grupos pelas
salas e pelos jardins, n'aquella molleza que  caracteristica da gula
esperando a hora de saciar-se.

Geralmente discutia-se a grandeza e o viver dos Albuquerques. Os
commentarios divergiam.

Entre dois parentes de Vizeu sentados  sombra d'uma olaia, podia
surprehender-se o seguinte dialogo:

-- uma grande casa! V tu que riqueza ahi est e que gente aqui vem!

--J foi melhor. Deve muito.

--Deixa l! Tem uma grande casa... S em Cercosa recebe ainda para cima
de cem moios de milho, fra o trigo, o centeio, o vinho e o azeite.

--Pois sim... mas que importa isso?  Misericordia deve perto de trinta
contos e disse-me outro dia o Nunes, que  l o cartorario, que tem mais
de quatro annos de juro em atrazo e  uma cruz para lhe apanhar um
vintem. S quando esto ameaados de qualquer penhora  que se mexem.
Olha que ha mais de quarenta annos que este homem no faz seno gastar
dinheiro!...

--Mas a casa  muito grande, tem muitos recursos. Quanto no vale isto
aqui? e os bens de Pombal?

--Est tudo hypothecado ao Credito Predial e quem l vae  alma que caiu
no inferno. No se sae de l mais. Lembra-te do que aconteceu ao marquez
de Cannaes. Foi tudo! Ficaram sem nada!

--Mas agora tem os genros para o ajudarem...

--S se fr isso!... Este rapaz dizem que tem boa casa.

Mais adeante, dois lentes de direito, passeiando de brao dado  beira
do lago, commentavam differentemente, em tom malicioso.

--Hein!? Que sorte! D cabo da fortuna dos paes, refresca com o
casamento, arruina-se outra vez, e agora casa as filhas ricas.

--Elle merece-o, que nos tem dado muito boas festas. No ha ninguem para
receber como este homem. Nasceu para isto!... Acabou-se.

--Mas no podem ir longe... J por ahi ha procuraes para penhora,
vindas de Lisboa, sem conta.

--O que eu admiro  como este rapaz aqui veiu cair. Foi meu condiscipulo
e era o avsso de todas estas cousas. Retrado, muito modesto...

--Ento?! Est rico, quiz afidalgar-se...

--No, no  este homem d'isso. Gostou da rapariga, os paes haviam de
lh'a metter  cara, e caiu.

--Pois olhe que, se elle  como voc diz, no me parece que v l muito
bem. Esta gente gosta de gastar e de luxar.

--No, no! A Laura  muito boa menina!

--Boa!... Historias! As meninas so todas boas, mas, quando se habituam
a viver  larga, no ha quem as ature. Isto de fidalgos  muito boa
gente para gozarmos com elles; de portas a dentro o caso  outro.

Claudio estava aturdido com todo aquelle rumor, que tanto contrariava os
seus habitos, e enfadado. As suas preoccupaes andavam muito longe da
alegria em que a excitao das viandas e o calor dos vinhos lanavam os
convidados.

s nove horas da noite danava-se e ria-se desprendida e folgadamente;
toda a frieza solemne se tinha partido ao contacto do sangue
escandecido. S Claudio se conservava affastado, ao lado de Laura,
supportando como um estranho o prazer alheio, intimamente dominado d'uma
religiosa tristeza, meditando na vida virtuosa a que ia consagrar-se, o
corao tumido de angustias passadas e de esperanas futuras.

Ao bater da meia noite, julgou ter cumprido o seu dever de assistencia e
saiu com Laura para a sua nova casa. Os convidados acompanharam-n'os at
ao porto do jardim, a musica deixou de se ouvir por um momento, as
salas ficaram desertas, repetiram-se os abraos e as lagrimas que de
manh se tinham visto na capella, ouviram-se alguns beijos e a festa
proseguiu redobrando de animao.

Os primeiros dias passados na pequena casa da estrada da Beira foram
para Claudio d'uma infinita doura. Do governo da casa no havia a
cuidar; D. Maria Francisca mandra com a filha uma velha creada da sua
confiana, para tudo dirigir e regular sem que a paz e felicidade dos
noivos fosse perturbada.

Longas horas no jardim entre flores, pequenos passeios a p pelos
caminhos menos frequentados, colhendo plantas e admirando a natureza,
passeios de carruagem pelas margens do rio, e o seres em casa dos
Albuquerques, ora jogando, ora conversando: n'isto se consumiam os dias.

Claudio sentia-se bem. Acceitava todos estes gozos da sensualidade e da
indolencia como um premio de virtude, pensando quanto o amor era bello
na consciencia tranquilla pela satisfao das convenes do mundo, e
comparando o presente com esse passado que a ventura d'agora mais
carregava de crimes e remorsos.

Emprehendia a educao do espirito de Laura, admirando com pasmo e
venerao a sua ingenuidade e louvando a Deus por lhe ter concedido to
precioso bem. Aquella sim, aquella seria boa, porque era simples.

Confundindo a estupidez, a inexperiencia e a futilidade com a candura,
tomando por singeleza d'alma, prompta a desabrochar em sentimento
christo, o que era apenas estreiteza de intelligencia e de corao,
Claudio communicava-lhe todos os seus planos de vida.

Ella ouvia-o, de ordinario silenciosa, fundamentalmente alheia a toda a
profundeza de pensamento; elle ficava contente, tomando esse silencio
por um tacito assentimento e interpretando a mudez como uma forte e
serena energia. Exultava; a esposa tranformar-se-ia n'uma mulher
superior.

Foram a Villalva. Laura pouco disse  me de Claudio. A unica coisa que
lhe permitiu uns momentos de conversao foram as imagens do oratorio e
particularmente uma imagem da Senhora do Carmo. Havia uma outra egual no
collegio, em Lisboa, e tinha com ella muita devoo. A velhita louvou
intimamente os sentimentos religiosos da sua nova filha e repetia:

--Assim  bom, assim  bom...  o que n'esta vida me tem valido e
ajudado nas minhas afflices.

Voltou-se para o filho, sem uma palavra sobre a sua situao.
Instinctivamente affastava uma ociosa confisso de desejos e aspiraes
to carinhosamente sentidas que nenhumas palavras saberiam traduzil-as.

Perguntava pelas cousas da casa e referia o que na ausencia de Claudio
se tinha passado. Que visse elle o que precisaria em Coimbra, que j
comeava a haver alguma hortalia no Serrado de Baixo e o azeite que
tinha levado talvez no fosse do melhor.

Tinha vindo um rendeiro do Amial pagar a renda, era preciso experimentar
o vinho que havia de precisar de trasfega, e o Jos, o creado, no tinha
geito nenhum para isso. O melhor seria Claudio ir l passar um dia para
vr todas essas coisas, mesmo porque o dr. Azevedo, de Albergaria, lhe
tinha dito que precisava fallar com elle por causa dos fros de
Sernadas. Claudio prometteu voltar dentro de pouco dias. Partiu, com
grande allivio de Laura a quem as attenes do marido pela me comeavam
a enfadar e que se sentia estranha quella atmosphera. No lhe queria
bem nem mal; ignorava-a. Por vicio de educao, por temperamento e
inclinao hereditaria estava realmente destinada a ignoral-a
perpetuamente.

Em vo Claudio, saindo de Villalva, lhe mostraria o campo em que tantas
horas tinha trabalhado, as arvores e as flres que plantra por suas
mos. Tudo lhe parecia uma simples mania; e cautelosamente a occultava
nos sales do pae, para no dar ensejo ao riso das antigas amigas, que
lhe mordia a vaidade, amesquinhando o marido.

Ao fim d'um mez de vida idyllica, o contentamento do mavioso casal da
estrada da Beira foi subitamente perturbado por um incidente doloroso.

Uma noite, pelas tres da madrugada, Claudio despertou aos gemidos de
Laura.

--Que tens, minha filha, que tens?... perguntou ancioso.

Ella continuava gemendo, sem responder, e elle insistia em tom
afflictivo:

--Dize, dize-me, minha filha, por quem s... Que tens tu?

Por fim, cedendo aos rogos do marido, respondeu arrastadamente.

--Ai! meu Deus!... Ha uma hora que no durmo. No posso parar com dores
n'um dente, d'este lado... E indicava com a mo.

--Se tu fosses ao dentista pedir o elixir...

--A esta hora?! perguntou Claudio surprehendido.

--Sim... sim... no posso esperar.

N'um instante, Claudio estava na estrada, correndo ladeira abaixo, a
caminho da cidade. Ao p de Laura ficra a creada que se offerecia,
suavisando a voz, para aquecer uma pinguinha d'agua, segundo ella dizia.
Talvez um chsinho...

Laura nem lhe respondia, conforme os seus habitos de menina mimosa.

Entretanto Claudio batia  porta do dentista que veio  janella, s
escuras, a resmungar com somno. A estas horas!...  preciso ter muito
pouco respeito pelo socego d'uma pessoa! Bem tolo  quem os atura.

--Quem  que est ahi? gritou de cima.

--O dr. Claudio...

--Ah!  v. ex.. Eu vou abrir, respondeu apressadamente o dentista,
moderando a impaciencia e esforando-se por sorrir perante o freguez
rico.

--Ento?!... perguntou mal abriu a porta. Faa v. ex. o favor de
subir.

--Minha mulher est com uma dr de dentes e eu vinha pedir-lhe aquelle
elixir...

--Pois no! Eu dou-lh'o j...

E dirigiu-se a uma estante.

--Queira desculpar.

--Ora essa!  a nossa obrigao, no me falle v. ex. n'isso... Se a
dr no abrandar  primeira applicao, renova o algodo no fim de meia
hora...

--Eu sei, eu sei, respondia Claudio, apressando-se a descer a escada.
Infelizmente j o tenho usado... Muito obrigado, sim? E desculpe...

--No ha de qu. Sempre s ordens de v. ex..

Claudio entrou em casa offegante. Correu ao quarto da mulher que, logo
que o sentiu, se sentou no leito.

--Aqui est! exclamou elle risonho de contentamento por vr satisfeita a
vontade de Laura.

Com difficuldade applicou-se o remedio, porque mal se percebia uma
sombra de carie no dente, e Laura adormeceu rapidamente n'um somno
tranquillo.

Excitado pela inquietao e pelo movimento, o marido ficou passeiando na
sala. S tarde, pelas sete horas, a fadiga o dominou e adormeceu sobre
um sof, para no entrar no quarto e perturbar com os seus passos o
somno da mulher.

s nove horas despertou, sentindo vozes e passos estranhos. O que seria?
Ergueu-se sobresaltado. Laura estaria peor?

A creada velha, logo pela madrugada, mandra dizer  creada de quarto de
D. Maria Francisca que prevenisse a sua senhora de que a menina tinha
passado muito mal a noite. D. Maria Francisca soubera a noticia quando
s oito horas pediu o primeiro almoo e apressou-se a vir a casa da
filha.

Mal penteada e mal vestida, com uns sapatos lassos e a gla do casaco
desapertada deixando vr o collo que as rugas comeavam a sulcar, D.
Maria Francisca, espavorida, perguntou subitamente ao genro:

--Ento que foi, que foi?!...

--Uma dr de dentes... Felizmente pude applicar-lhe o elixir...

--E agora como est?

--Deixei-a a dormir...

--Ssinha!... Que imprudencia!...

-- que estava to socegada que eu no quiz aproximar-me d'ella com
receio de a accordar.

Entraram no quarto.

Laura tinha dormido excellentemente depois do tratamento; nem sequer
apresentava no rosto vestigios de ter soffrido o quer que fosse.
Acercaram-se do leito p ante p e a me, em voz dorida, perguntou 
filha, que no levantava a cabea do travesseiro:

--Ests melhor, minha filhinha?

--Parece que agora estou melhor, mas passei muito mal a noite. Ai, que
dres, Santo Deus!

--O Alexander bem te disse, replicou a me em tom de mgoa e
reprehenso, que esse dente precisava tratamento. Tu no quizeste e ahi
tens as consequencias! Agora o remedio  voltar l.

--A Lisboa?! perguntou Claudio com certa vivacidade e espanto.

--Sim, e quanto antes. Devem ir hoje mesmo antes que a dr volte.  um
soffrimento horroroso, horroroso!...

--Mas talvez aqui mesmo...

--Ai, pelo amor de Deus, no! Uns brutinhos!...

-- que o dentista foi to amavel comigo que pde escandalisar-se...

--No tenha medo. Ha-de fazer-lhe boa conta.

E voltando-se para a filha, a cortar a discusso que lhe parecia ociosa:

--Apsto que ainda no tomaste nada? perguntou.

--No m'o trouxeram... respondeu Laura.

--Com estas cousas  que  necessario ter muito cuidado, disse D. Maria
Francisca, voltando-se enfadada para Claudio e poisando o dedo sobre o
boto da campainha.

Appareceu a creada.

--Ento so quasi dez horas e esta menina sem ter tomado o leite!?...
exclamou irritada.

--Oh, minha senhora, comeou a creada a explicar, ainda agora deram nove
horas no relogio l de dentro e eu at vinha saber...

--Vamos, desembarace-se, deixe-se de historias. Traga o leite, traga o
leite. E no fique l quatro horas, conforme o seu costume, ouviu?...
Isto quem as atura...

--Oh, minha filhinha, continuou para Laura, talvez umas bolachas de
araruta... Deves estar to fraca!...

--No, mam, no; no me falle em comer. Sabe Deus o que me custa o
tomar leite!

O leite veiu, Claudio e D. Maria Francisca sairam para no incommodar a
doente que durante todo este tempo no tivera uma palavra de gratido
pelos seus cuidados, e, satisfeito o estomago, Laura caiu n'um somno
profundo, a refazer-se da interrupo da noite.

Ficou resolvida a partida immediata para Lisboa, apezar da ligeira
opposio de Claudio que viu assim desmanchados todos os seus planos de
tranquillidade e estudo. Uma necessidade! repetia a sogra. No quizesse
elle tomar a responsabilidade d'uma cousa d'essas.

Dentro de poucas horas, estava revolvida a casa, os corredores atulhados
de malas e os guarda-roupas desfeitos. Os vestidos de Laura occupavam
duas grandes caixas, tendo-se contado com todas as hypotheses, os
theatros, os bailes, as visitas, os passeios, a chuva, o sol, o frio, a
humidade e o calor. As bagagens de Claudio tambem no eram pequenas.
Laura temia um pouco a apresentao do marido aos parentes elegantes da
capital e vigiava e com particular cuidado que nada lhe faltasse;
gravatas, calado, abotoaduras, alfinetes, bengalas, luvas, chapus,
tudo ia combinado ponto por ponto para que no discrepasse das leis
vigentes do janotismo.

Em Lisboa passaram quinze dias que para Laura foram d'uma completa
felicidade.  parte as breves horas que dedicaram ao dentista, todo o
tempo se dispendeu em visitas, jantares, theatros e apresentao de
Claudio  numerosa parentela fidalga. O marido agradava; no trajar e nos
modos no destoava dos usos e costumes correntes e essa conformidade com
a banalidade consagrada deixava Laura radiante de jubilo e vaidade.

No succedia outro tanto a Claudio que, regressando a Coimbra e pensando
no caminho percorrido, via com mgoa quanto os factos divergiam das
aspiraes, quanto a realidade se distanciava dos sonhos.

No fundo, inconscientemente, a esposa que elle desenhra no seu espirito
e nas suas ambies era a imagem de sua me, a honestidade, o trabalho,
a resignao e a caridade distillados dia a dia, gota a gota, marcando
todos os passos e todos os movimentos da vida; o que o casamento lhe
offerecia eram vaidades e impaciencias, occultando um egoismo sem
limites, tanto mais cruel quanto era instinctivo e inconsciente.

Lembrava-se da noite em que Laura o fizera ir a correr procurar-lhe
remedio para uma passageira dr de dentes e comparava a com a serenidade
que sua me mostrava nas dores physicas e moraes; lembrava-se da
simplicidade de Villalva e comparava-a com a vida de infinitas
necessidades a que entre gente fina se deixava arrastar.

D'esse confronto saia com umas vagas aprehenses de ter errado na
maneira de realisar as suas aspiraes moraes, mas breve esses temores
se dissipavam. A candura de Laura venceria as fraquezas da educao. Era
s o tempo necessario para a revelar e vr desabrochar na sua
consciencia as flores de suave perfume que l dormiam em boto. A
esperana reanimava-o.

Tardava, porm, essa almejada quietao na virtude. As futilidades
absorventes succediam-se; a existencia consumia-se inutilmente. Laura
no dispensava a companhia de Claudio a todas as refeies, em todos os
passeios e nos seres passados em casa dos paes, prolongados seres em
que a moleza dos estomagos replectos se espreguiava pelas flexuosas
cadeiras Luiz XV. Por amor, dizia ella, no queria desamparal-o um
instante.

O certo era que a vida de Claudio se subordinra inteiramente  da
mulher; todo o trabalho se reduzia a servil-a nos seus prazeres e nas
suas necessidades, empregado a todo o instante nos mais frivolos
misteres, em procurar um leno que esquecera algures ou em transmittir
ordens aos creados. J em casa dos Albuquerques se dizia que a filha
encontrra um excellente marido.

Aos primeiros incommodos da gravidez esta situao aggravou-se. Laura
passava mal, constantemente enfadada, com um fastio permanente, ora no
leito, ora recostada n'uma ottomana dos seus aposentos.

A presena de Claudio era ento reclamada como um dever; no podia
abandonar a esposa, cumpria-lhe servil-a em todos os seus caprichos como
bom enfermeiro. Nos peiores dias, nem sequer lhe era permittido sair ao
jardim; ficava em casa, inventando jogos para a distrair, a ella que com
tudo se contrariava e aborrecia.

Uma vez, porm, teve a tentao de se affastar para seu prazer. Os
jornaes annunciavam a chegada a Coimbra d'uma pianista notavel, Sophia
Menther, que vinha dar um concerto, um unico. Claudio leu a noticia 
mulher e perguntou:

--Queres l ir?

--Deus me livre! respondeu ella irritadamente e accentuando a
inconveniencia da pergunta. Estou l em estado de cousa nenhuma! Como
queres tu que eu me vista?

--Gostava muito de l ir. Ha tanto tempo que no apparece por c quem se
possa ouvir...

--Mas vae tu...

--Talvez. Logo veremos. Conforme tu estiveres...

Chegou a noite e Laura estava com o seu habitual fastio, mas sem
molestia alguma. Claudio no se conteve; foi ao concerto. Receiando os
seus amuos, explicou que era s por uma ou duas horas quando muito, que
o desculpasse. Tinha muita vontade de ouvir a pianista; precisava mesmo
de se instruir.

Laura nada respondeu, contendo o seu despeito. Claudio saiu na persuaso
de que a tinha deixado convencida e de que ella generosamente
acquiescera aos seus desejos.

A pianista era notabilissima. Claudio no teve coragem de deixar o
theatro at ao fim do concerto. Sentia-se enlevado nas vises tragicas
de Beethoven, nos idyllios de Chopin, na attica serenidade de Mozart.

Era uma embriaguez para os seus nervos doentes, ainda magoados das
mortificaes moraes, uma agitao sdia e capitosa.

Recolheu a casa contente, sentindo em si uma vibrao que o erguia da
prostrao morbida em que os azares do seu destino continuamente o
traziam. Esperava encontrar Laura adormecida e abeirou-se do seu leito
cautelosamente.

Immovel, os olhos abertos, junto das almofadas um leno a indicar as
muitas lagrimas que tinha chorado, Laura sentiu aproximar-se o marido e
nem se moveu nem disse uma palavra.

--Que tens, perguntou Claudio ancioso, que tens?

No respondia; todas as instancias e todos os carinhos eram vos,
baldada toda a mgua afflicta com que era interrogada. Uma convulso de
choro foi a sua unica resposta, ao cabo d'alguns minutos.

Claudio nem sequer se atrevia a pedir explicaes dos modos de
indifferena e aborrecimento com que a mulher o tratou durante todo o
dia que se seguiu  noite do concerto. Por demais tinha aprendido com
Emilia a colera que esse mutismo significa. Pensava apenas no seu triste
destino, d'esta vez sem poder fugir a uma ponta de azedume que se lhe
cravava no corao.

No era senhor de si, no podia dispr de duas horas para seu prazer e
sua instruco, para repousar, avigorando-os, os membros fatigados? Toda
a obrigao se reduzia a servir Laura, os seus habitos e os seus
caprichos, ainda mesmo aquelles que condemnava como uma perniciosa
ociosidade? Esquecia as aspiraes de virtude que o tinham levado ao
casamento; o egoismo, calcado pelo dominio absorvente da mulher,
revoltava-se em nome de direitos soberanos e infiltrava-lhe no peito um
mau fermento. Lembrava-se de Albergaria e porventura passou-lhe pelo
pensamento, rapidamente, uma onda de saudade.

Ao menos, l, tinha o socego do seu palacio, a liberdade, a
independencia, os carinhos protectores da me para lhe suavisar a cruz a
que o prendera o amor de Emilia.

Aqui, nem isso; s, a todo o momento em face de uma mulher que
constantemente o magoava com uma crueldade que a seccura do seu corao
ignorava, todos os caminhos estavam vedados, o carcere era perfeito, o
soffrimento sem esperana de remisso que no visse d'aquella mesma que
era a causa da sua dr. Vinham, por instantes, alentos de energia e f,
clares que varriam estas sombras.

Sob a meiguice de Laura, nos momentos em que o seu dominio se traduzia
acariciando aquelle que era amado por ser objecto da sua posse, Claudio
recuperva animo. No! errava; as exigencias da esposa eram as
exigencias do dever. Precisava banir da alma os derradeiros impulsos do
egoismo, abdicar de toda a liberdade, viver s e unicamente para a sua
familia. Que lhe importava o resto?

Prazeres da intelligencia e do espirito, alegrias do corpo expandindo-se
ao contacto da natureza, tudo eram vaidade de que lhe cumpria
despojar-se perante a imagem hirta e sombria que a consciencia lhe
apontava, repetindo-lhe com impassivel inflexibilidade a palavra dever.
Era necessario viver para a sua familia: essa era a obrigao por
excellencia para cumprir a qual se casra e a que espontaneamente havia
de consagrar-se, tendo posto termo a um passado criminoso que no
voltaria. Acceitasse pois sem trepidar o sacrificio de todos os desejos
egoistas.

Claudio promettra a sua me ir vl-a todas as semanas. Essas visitas, 
proporo que o caracter de Laura se revelava, comeavam a tornar-se um
problema inquietador.

Para Claudio eram a maior das alegrias; a presena da me e das serras
de Villalva eram para o seu corao um magico lenitivo que apagava todas
as dores sem o minimo esforo da razo e do pensamento.

Perante ellas sorria, como se bebesse, por um filtro mysterioso, a
mocidade e a frescura. No o comprehendia Laura e por isso sentia, com
um vago ciume, como se lhe roubassem uma parte de qualquer cousa que lhe
pertencia, os constantes cuidados do marido pelo que se passava em
Villalva, a alegria e a impaciencia com que esperava o dia de l ir, as
pequeninas necessidades que inventava para servirem de pretexto a mais
frequentes visitas. Convertia em tortura esse prazer singelo e bom.

Antecipadamente discutia-se o dia da visita; j no era sem receio que
Claudio se aventurava a lembral-a, tendo percebido quanto a mulher se
contrariava.

--Vamos amanh?

--Amanh, no. Temos que acompanhar  estao as Mendonas que vo para
o Porto e vieram despedir-se.

--Ah!  verdade!... Depois de amanh...

--Depois de amanh tambem no. Disse-me hontem a mulher do dr. Ramos que
queria vr o nosso jardim e talvez c viesse.

--No outro dia... mas faz-se to tarde... E no sei o que por l vae...

--O melhor  no te prenderes comigo. Vaes ssinho.

Estes dialogos eram frequentes; quasi se repetiam invariavelmente todas
as semanas. Mal passava o domingo, era necessario comear a preparar o
terreno para fazer a jornada a Villalva sem provocar a irritao de
Laura.

O problema no tinha soluo; estava destinado a manter-se
indefinidamente nos termos em que o punham a contradico do affecto de
Claudio e da indifferena de Laura. Ou Laura acompanhasse o marido ou
ficasse em Coimbra, essa visita era sempre toldada por inquietaes.

A presena de Laura importava um retraimento de expanses que por
completo prejudicavam toda a alegria; a sua ausencia obrigava Claudio a
apressar-se no regresso e prejudicava do mesmo modo toda a alegria com a
suspeita do descontentamento da esposa. Temia o mutismo em que se
traduziam os seus frequentes despeitos; apavorava-se com esse espectro
que lhe embargava toda a felicidade.

S a me de Claudio ignorava quanto essas visitas custavam, porque o
filho, para lhe poupar a tranquillidade dos seus ultimos annos,
apparecia-lhe sempre sorridente de ventura, d'uma ventura que s pelo
amor da mae se lhe mostrava na face mas que no intimo suspeitava que
jmais seria o seu quinho n'este mundo.

Os seus olhos resplandeciam de felicidade ao transpr a estreita porta
do casal de Villalva, para que as trevas do corao jmais se
derramassem na luminosa paz d'essa velhinha que nas suas oraes no
cessava de pedir a Deus que ungisse o filho com as suas benos. Mas,
voltadas as costas a esse sanctuario, logo a tristeza involvia Claudio
como n'uma lugubre mortalha.

 casa da estrada da Beira corriam os mendigos, attraidos pela fama de
gente rica recentemente casada, esperando generosidades proprias de quem
tem f na recompensa divina.

Raro batiam  porta principal. Contornavam a casa e, segundo o seu velho
costume, procuravam a porta de servio, onde tinham probabilidades de
encontrar alguem que os attendesse. Para isso passavam em frente das
largas janellas da sala de jantar, vestidas de flores e trepadeiras a
emoldurar o fulgor das pratas e as cores mimosas das louas da India,
que se viam dentro, cobrindo as paredes em extensas prateleiras. Quando
sentiam vozes na sala, comeavam n'aquelle ponto as suas lacrimosas
melopas.

Laura contrariava-se com essas visitas. Aborrecia os mendigos cuja
miseria e immundicie repugnava  sua esmerada elegancia; apressava-se a
despedil-os recusando ou dando a esmola, a maior parte das vezes
concedendo-a, por ser esse o meio mais rapido de os vr sair.

Claudio tentava moderar essas impaciencias com palavras de sympathia
pelos pobres, esperando despertar iguaes sentimentos no corao da
mulher e associal-a aos seus impulsos de caridade, mas encontrava uma
indifferena inabalavel.

Essa indifferena havia de transformar-se um dia n'uma exploso de
maldade em que deviam naufragar todas as esperanas de converso.

Regaladamente, banhada a sala pela luz brilhante que as sombras do
arvoredo moderavam com uma vibrao de frescura e os lilazes e as
roseiras embalsamavam espargindo perfumes, Claudio almoava com Laura,
quando um mendigo entrou a cavallo n'um burro, um par de muletas
cruzadas sobre o albardo esfarrapado, o corpo do animal ulcerado pelo
attrito constante dos apparelhos que jmais deixava, ou pastasse pela
beira dos caminhos ou conduzisse o seu miserando cavalleiro. O burro
entrou, parou em baixo das janellas e, emquanto o mendigo comeava
rezando, elle, com esforo, estendendo os labios, procurava alcanar os
ramos d'uma acacia que tinha em frente.

--Ah!  de mais!... exclamou nervosamente Laura dirigindo-se ao marido e
apontando o mendigo.  preciso que ponhas termo a isto, d'outro modo no
se pde parar n'esta casa!

--Deixa-os l! Coitados! Precisam e no percebem mais...

--Qual precisam! Precisam menos do que ns. Que trabalhem! O que elles
so  uns vadios, a viver a custa dos outros. Afinal morrem e esto ahi
a cada passo a encontrar-lhes muito bom dinheiro.

--Isso so casos rarissimos. L apparece um que pde fazer um mealheiro,
mas a quasi totalidade d'esta gente passa fome. E ainda os que vem pedir
sero os menos infelizes. Deus sabe o que soffrero os que ficam por
esses casaes!... Ns  que deviamos procural-os.

--No faltava mais nada!... Ainda em cima de nos incommodarem a toda a
hora e a todo o instante...

--Incommodar, no. No gosto de te ouvir dizer isso. Temos obrigao de
os ajudar. At so bonitos!... Nos seus andrajos, nas suas rugas
cavadas, n'estas barbas descuidadas, quanta vida, que dramas intimos de
miseria physica e de miseria moral, quantas dores, quantos desejos
calcados, quanta esperana enganada!

--E os que andam ahi pelas tabernas e pedem para ir beber, tambem te
parecem muito bonitos?

--Tudo  miseria. Que importa que venha das enfermidades do corpo ou das
enfermidades da alma? No podemos distinguir. Bem diz o Evangelho: D a
quem te pede.

--As phantasias que tu quizeres... disse Laura crando de colera e
querendo terminar; eu  que no estou para aturar isto. Tenho c os meus
pobres que sei que so necessitados e no quero saber dos outros. D'aqui
a pouco no ha gente decente que possa vir a esta casa. Sempre tudo
entulhado com pobres. Deus sabe as doenas e a porcaria que elles
trazem. Ainda queres agora que ponham os burros a pastar no jardim!...
Eu  que no estou para aturar isto!... Para me consumir basta o que
aturo aos brutinhos dos creados.

Claudio calou-se, no se atrevendo a insistir perante a irritao de
Laura, e ficou scismando, com infinita mgoa, no caracter rebelde da
esposa. Enganra-se? Essa educao religiosa das irms de Santa Ignez,
em que tanto se fira, seria unicamente uma srie de formulas occultando
a inanidade de sentimento? As devoes bastas, as oraes, as missas, as
confisses, os escrupulos em faltar aos preceitos ecclesiasticos nos
dias de abstinencia seriam um habito, ainda uma singular especie de
vaidade, a vaidade religiosa, coincidindo com um egoismo tenaz e uma
implacavel sede de commodidades? A ingenuidade, a candura de Laura seria
apenas a inexperiencia d'uma rapariga educada ao abrigo de todo o
esforo e de toda a contrariedade, s para ostentar a gentileza da sua
figura?

Os factos tentavam convencel-o, mas elle affastava todas as suspeitas
ruins com a vara magica do amor e da esperana. No; Laura era um anjo.
S a impaciencia de tranquillidade e de virtude lhe povoava a imaginao
de pavores. Toda esta irritabilidade que simulava estreiteza ou
perverso moral, todo o egoismo absorvente que reduzia o marido a uma
simples commodidade da mulher, d'uma passividade completa, tudo isso
eram apenas o resultado necessario d'um mau estado physiologico,
d'enfadonhos incommodos de gravidez. Mas, terminados elles, quando Laura
fosse me, a generosidade, os carinhos e a caridade haviam de
desabrochar na sua alma e a vida seria ento para Claudio o eden que nas
attribulaes do erro sonhra e se propozera conquistar. Esperasse; a
sua hora chegaria.

E assim tudo perdoava a Laura, abdicando sempre, perante o dominio da
esposa, dos seus mais pequenos desejos e das suas ambies mais nobres,
tomando por motivos de bom quilate as razes que para desvanecer
suspeitas amargas lhe eram suggeridas por um amor ainda flamejante, e
porventura por um ardor de sensualidade que no attingira ainda a sua
inevitavel e satanica consumpo.

Para alliviar o enfado de Laura, comearam a reunir-se  noite em casa
de Claudio os antigos frequentadores do palacio dos Albuquerques. Vieram
as classicas mezas de jogo com os seus castiaes de prata, os cinzeiros
e o panno verde, accenderam-se as vlas do piano para ouvir as walsas e
as marchas em que as meninas fidalgas mostravam o esmero da sua
educao, entre a assistencia circularam os taboleiros com bolos e
chicaras de ch levados nos braos hirtos dos creados, em bom aprumo,
envergando a casaca bem assente.

Laura sentia ento um suave contentamento que lhe dava uma expresso de
felicidade; via ali uma reproduco fiel do viver de seus paes, toda a
sua vaidade vibrava quando algum mais intimo lhe vinha dizer que os seus
seres j tinham fama de elegantes na cidade.

Na meza, porm,  que punha os seus maiores cuidados. O arranjo das
flores, a combinao do jantar, o servio, o modo de pr e tirar os
pratos, a maneira de servir os vinhos, tudo isso era objecto de longas
reflexes e consequentes recommendaes severas aos creados. Se havia
algum convidado, o que bastas vezes succedia, os cuidados redobravam e
no deixava de perguntar ao marido pela sua impresso.

--Que te pareceu?

--Muito bem, respondia invariavelmente Claudio.

--Dizes-me sempre isso!... No me ajudas em cousa alguma!...

A frivolidade invadira-lhe a casa com todo o seu cortejo de fainas
ociosas e estereis trabalhos em que a vida se dissipa sem o minimo valor
moral. Todos os sonhos de caridade, de trabalho, de honestidade, de
modestia e de affastamento das cousas mundanas esvaiam-se deante das
mesquinhas exigencias de Laura a quem parecia ter cedido completamente.

No cedera, apenas esperava. Todas as ambies geradas na cruz do
remorso permaneciam vivazes, bem arreigadas no fundo da sua alma,
esperando a hora de saciar-se. Cedia levado pela convico de que era
seu dever dar tranquillidade  esposa proxima a ser me, sacrificando-se
n'esta abdicao ao culto da maternidade, mas intimamente contando os
dias que o separavam da hora da redempo. Nem poderia esquecer os
propositos com que se casra: l estavam a lembrar-lh'os as visitas a
Villalva, que Laura supportava com mal dissimulado aborrecimento.

D'ahi voltava sempre com uma tristeza inquieta que o tornava silencioso
e distrahido. Porventura a sua vida teria naufragado sem remedio? O
dever que impozera  sua vontade como norma de existencia e satisfao
da consciencia havia de curvar-se  fragilidade d'uma mulher?

A duvida voltava a apossar-se do seu espirito, mas o desalento era
breve, terminando sempre em uma cega confiana na transformao de
Laura. Toda a sua fundamental frivolidade lhe parecia ento uma
transitoria meninice, e, resignado, esperava ancioso as dres que,
fazendo a me, accenderiam na sua alma as fachos do amor divino.

Quando viu approximar-se esse momento, exultou. Era a libertao de toda
a agitao vazia em que consumira quasi um anno. Laura aprenderia nos
labios cr de rosa do filho a piedade e o sacrificio. No mais coraria
de desespero quando os mendigos lhe calcassem o jardim; havia de
preferir  banalidade fastidiosa dos seus seres entre os convivas o
silencio da alcova singela compassadamente cortado pelo embalar da
bero. S estranhava o borburinho que lhe ia em casa e as andadas de D.
Maria Francisca, j interrogando o medico, j segredando com a parteira.

--Olhe, doutor, parece que agora sentiu umas picadas mais para o lado
esquerdo... Que me diz?

--Isso no significa nada, minha senhora.

E ia ao p da filha, a dizer-lhe que no era nada, tinha respondido o
medico.

Voltava instantes depois.

--Oh, doutor, no acha que isto vae a demorar-se. Se a examinasse... O
dr. Xavier, um indio que estudou l fra, disse-me que em Paris...

--Ora, Paris!... Em Paris, respondeu o doutor que era um rude e singelo
descrente de medicinas, em Paris as mulheres teem filhos como em
Portugal. At devem ter menos que a populao diminue.

--Tem uns modos este doutor... ia dizer D. Maria Francisca  parteira.
J estou arrependida de no ter mandado vir de Lisboa o dr. Xavier.
Sempre  outra cousa!...

--Oh, sr. D. Amelia (era o nome da parteira) talvez seja melhor passar
outra vez as mos pelo sublimado. Esteve agora ahi a mexer nesses
vestidos e o dr. Xavier disse-me que era preciso muito cuidado. O
sublimado sempre! Para a mais pequenina cousa!...

--Deixe l, minha senhora! Tenho assistido a muita mulher. Isto com a
ajuda de Deus Nosso Senhor...

--Oh, doutor, voltava D. Maria Francisca a perguntar ao medico, as dores
parece que so to distantes...

--No se afflija v. ex., ellas apertaro.

--Que homem, que modos estes! E dizem que  bom medico! Ai, Senhor,
tomra j isto passado!

Claudio olhava este espectaculo surprehendido, vagueando pelas salas e
pelos corredores. O que?! Pois o nascimento era este vil receio da morte
e esta ridicula f nas cousas que ho-de salvar o corpo? No havia uma
religio que libertasse de tantos e to mesquinhos cuidados elevando a
alma em extasis divinos? No era toda a maternidade, desde o parto e o
bero at  formao completa do homem, o modo providencial de pagarmos
a divida d'amor e de carinhos que a existencia de cada individuo
significa? E, sendo assim, porque tamanha pressa em cuidar do corpo e de
passageiras dres que a resignao, tirada da consciencia d'uma misso
sublime, curaria melhor que todas as medicinas? Ainda aqui as aspiraes
da sua alma vinham bater contra a mais extrema pobreza moral; o desgosto
perturbava a piedade que a afflico da esposa lhe despertava.

No quarto de Laura ouviu-se um grito afflictivo. Fez se um silencio
d'anciedade. Os gritos repetiram-se, lancinantes, e, aps uns curtos
momentos, os vagidos d'uma creana pozeram a casa em alvoroo.

--Felicissima! veio o medico dizer a Claudio. Muitos parabens!  um
rapaz!... Adeus que no tenho aqui que fazer. Muito socego  que a
doente precisa.

--Muito obrigado, muito obrigado, respondia Claudio acompanhando o
medico at  porta.

O medico saiu e Claudio correu apressado ao quarto de Laura. Queria vr
a sua physionomia illuminada de contentamento, queria vr os primeiros
clares d'essa aurora. Era que a sua alma havia de expandir-se nas auras
d'uma vida nova.

Entrou cautelosamente, p ante p.

--Entre, entre, disse com affouteza D. Maria Francisca, que estava
sentada  cabeceira da cama de Laura. Venha vr o seu morgado. Muito
gordinho e lindo como um anjo!

Claudio aproximou-se da creana, tumefacta e vermelha, apertada em
faixas brancas, mas logo a deixou para se dirigir a Laura.

Beijou a mulher timidamente, humildemente, com uma unco religiosa. No
era o corpo enfermo que os seus labios tocavam, era a imagem em que a
graa de Deus incarnra.

--Como te sentes? murmurou.

Ella entreabriu os olhos e, n'uma contraco de repugnancia e odio,
respondeu:

--Ai, meu Deus! Que horror!

E os olhos cerraram-se novamente. No houve uma palavra para o filho,
nem um gesto de ternura, nem o mais leve movimento que no significasse
um fastio mortal.

Claudio ficou de p, immovel, esperando ainda d'aquella massa inerte
envolvida em finissimo linho uma vibrao que viesse confirmar as suas
esperanas de tantos mezes.

S uma glida mudez lhe respondia. Saiu do quarto de Laura esmagado de
desalento.

Embora! No seu espirito procurava razo para justificar o estado moral
de Laura e continuar a esperana que at alli tinha mantido.

Era uma reaco natural do corpo fatigado pela dr physica, mas, quando
a saude voltasse, com ella viriam os affectos de me e o ardor de
sentimento em que todos os sacrificios so recebidos, na alma vida de
amor, como favores do destino.

Todavia, pensava, que singular perverso a do genero humano! No
acontecia o mesmo com os animaes. N'elles, o instincto materno dominava
todas as dores e tanto era o zelo que, nos primeiros tempos
immediatamente ao parto, a aproximao das mes era perigosa; havia uma
resurreio de instinctos bravios a proteger os recemnascidos.

Porque no seria assim para as mulheres? Que degenerao de sentimento
as podia levar a abandonar os filhos logo ao nascer, friamente, sem um
grito do corao offendido? No, no podia ser assim.

Laura soffria apenas uma crise passageira; em breves dias havia de
operar-se a transformao milagrosa do ser frivolo e egoista na esposa e
me profundamente generosa, consagrada com uma intima felicidade, 
existencia alheia.

Essa transformao porm no vinha. Deccorriam os dias, as foras
voltavam, e Laura continuamente se lamentava. No podia dormir uma hora
descanada! dizia. Era impossivel restabelecer-se com a creada a
entrar-lhe no quarto a cada instante, para que dsse de mamar  creana!

D. Maria Francisca tinha creado os filhos. A sadia animalidade da sua
robustez comprazia-se nas suavissimas caricias da amamentao; o calor
das creanas junto aos seios em que pousavam as pequeninas mos,
comprimindo-os ligeiramente, fra sempre para ella um instinctivo
prazer, desprendido de quaesquer razes moraes. Para a filha, porm, era
differente. A filha fra e continuava a ser um objecto de luxo que
queria conservar em todo o seu brilho e belleza. Por isso, ouvindo os
queixumes de Laura, invariavelmente lhe dizia:

--Toma uma ama! Tu no queres crer que s muito fraca...

--Mas o Claudio tem dito sempre que no quer...

--L vens tu com o Claudio! O Claudio ha de fazer o que o medico lhe
disser. Pensas que os maridos gostam muito de vr as mulheres magras e
velhas antes de tempo?

Interrogaram o medico, na presena de Claudio. O medico respondeu:

--Olhem, minhas senhoras, isto de crear os filhos  conforme a vontade
de cada um. Quando se tem n'isso grande empenho, fazem-se das fraquezas
foras, e elles criam-se. Agora quem quer ter descanso...

--O que eu no comprehendo, interrompeu Claudio que a conversao
contrariava extremamente,  como uma mulher tem foras para crear um
filho no ventre durante nove mezes e trazel-o a este mundo sadio e
forte, e no no tem foras para em seguida o amamentar durante um anno.
Muita gente devia morrer entre os pobres que no tivessem para pagar a
quem lhe creasse os filhos!

--Sim, observou D. Maria Francisca, eu posso fallar porque creei os
meus... Quem no tem outro remedio, ou seja forte ou fraca, cria os
filhos; mas quem  fraca, tem meios e teima em os criar faz muito mal.
Nem mesmo s creanas  util. Pois se ellas podem ter um leite bom para
que ho de estar a mamar um leite fraco? No  verdade, doutor?

--At certo ponto... respondeu o medico. Mas l isso, diga-se com
franqueza, no sei o que  o cuidado das mes! As creanas parece que
medram s com o calr da cama. Por melhores que sejam as amas, sempre
so madrastas.

Claudio applaudia, mas D. Maria Francisca instava pela vinda d'uma ama.
Era uma necessidade. S se Claudio tinha muito gosto em vr a mulher
tisica!...

Ao fim de pouco tempo, estava contractada a ama. No houve razes, nem
instancias, nem um confessado desgosto e pezar que pozessem barreiras ao
egoismo de Laura e a levassem a ceder aos desejos do marido. E Claudio
via com espanto, que em breve se transformaria em averso, o filho
entregue a braos estranhos.

Seguiu-se o baptisado. Como de costume, D. Maria Francisca veiu
discutil-o com a filha e por deferencia que ella julgava um requinte de
delicadeza, quiz ouvir tambem Claudio. J tinha combinado com Laura o
caracter da festa e o numero dos convidados, baptisado s cinco horas da
tarde, jantar em seguida e depois uma pequena reunio dos intimos.
Preferiria um grande baile, mas a casa no o comportava e a disposio
dos moveis no era adequada  dana. Fica assim uma reunio mais
escolhida, concluia ella, como teu pae gosta. Com o pretexto da casa,
escusamos de convidar os gebos que no sabem vestir uma casaca e no vm
ahi seno para comer.

Claudio no concordava; no queria festa alguma. O baptisado, dizia, 
um sacramento e deve ser dado com a placidez e o recolhimento de quem
tem consciencia do que faz. No foi instituido para patuscadas.

--Ora que idas!... respondia a sogra. Haviam de julgar que cairam em
miseria ou que tem muito pouco gosto em ter um filho. Nada, nada,
deixemo-nos de excentricidades, vamos andando assim, que foi sempre o
costume c de casa. Que diria o Claudio se visse o baptisado do
Jos?!... Durante oito dias tivemos em casa vinte e sete hospedes! O
conde de Palhares, que veiu c de propsito, disse-me que os bailes do
Farrobo no tinham mais grandeza.

--Coitado, murmurava, dirigindo-se  Laura,  muito bom rapaz mas ha de
ressentir-se sempre d'aquella vida na aldeia.

--Se a mam soubesse o desgosto que tenho com isso...

A vontade de Laura e de D. Maria Francisca prevaleceu.

Tomando por singela obediencia as complacencias com que at ento
Claudio se tinha sujeitado aos habitos e vicios da mulher, D. Maria
Francisca, que as ausencias do marido e a docilidade do capello tinham
convencido de que todo o dominio lhe pertencia, comeava agora a mandar
em casa da filha como em sua propria. Por isso, passando de leve sobre
as observaes do genro, dispoz tudo para o baptisado conforme o
desejava.

Claudio comeava a viver sob uma impresso de pavor que crescia 
maneira que via perderem-se todas as suas esperanas. A cada instante se
refugiava no seu gabinete, procurando o silencio e o isolamento em que
poderia encontrar-se s e bem de frente com a tristeza da sua vida.

Quando chegou o dia do baptisado, sentia-se mais do que nunca opprimido.
Quasi no fallava; respondia por monosyllabos, se o interrogavam.

--O sr. dr. Claudio, dizia um velho lente de theologia para D. Maria
Francisca, v-se mesmo que est doido de felicidade! No diz uma
palavra, vae todo entregue ao pensamento no filho.

Na egreja, porm, a imagem do Christo e a magestade do templo,
juntando-se  febre do seu espirito, produziram-lhe um momento de orao
ardente. Com uma supplica instante, fervorosa, acompanhava as palavras
do padre, dirigindo se a um deus desconhecido que no via com os olhos
do rosto mas que sentia na alma dominando o mundo. Intimamente repetia
com o sacerdote: _Omnem coecitatem cordis ab eo expelle_, varre-lhe do
corao toda a cegueira, _disrumpe omnes laqeos Satanae_, quebra-lhe
todos os laos com Satanaz, _aperi ei Domin januam pietatis tuae_,
abre-lhe, Senhor, a porta da tua piedade, _accipe lampadam ardentem et
irreprehensibilem_, recebe a lampada ardente e irreprehensivel, _custodi
baptismum tuum_, guarda o teu baptismo, _serva dei mandata_, obedece aos
mandamentos de Deus, _ud habeas vitam aeternam_, para que tenhas a vida
eterna. _Vade in pace et Dominus sit tecum_, vae em paz e o Senhor seja
comtigo.

A estas ultimas palavras os olhos toldaram-se-lhe de lagrimas. Vae em
paz e o Senhor seja comtigo! repetia interiormente.

A dr das amarguras do passado e a ambio da felicidade do filho
confundiam-se n'um mesmo anceio. A consagrao a Deus era plena,
irrompia-lhe do corao. Vae em paz e o Senhor seja comtigo!

--E fique-se por aqui, dizia-lhe D. Maria Francisca ao entrar em casa,
emquanto atravessavam o jardim. A Laura  muito fraquinha. Depois no
sei o que ... Por mais cuidados que se tenha, os partos envelhecem
muito. Lembra-se de vr minha prima Luiza? Casou ha cinco annos, como
sabe, e tem tres filhos. Via-a outro dia em Cercosa. Est uma velha! No
faz ideia. Fique-se por aqui, fique-se por aqui, que est muito bem.
Demais, um rapaz!...

Claudio ouvia sem responder, pasmado do despejo da sogra. Sabia que
havia muito quem assim pensasse, nunca imaginra que alguem se atrevesse
a aconselhar-lh'o.

A sua regra era a do Evangelho: Crescei e multiplicai-vos. Crescei e
multiplicai-vos para o trabalho e para a virtude, para que a verdade se
derrame no mundo, para que a caridade e o amor cresam alargando-se as
relaes na humanidade.

O seu desejo era ter muitos filhos, julgava que essa seria uma das
condies do resgate das suas faltas passadas; formando para o bem
numerosas almas christs, havia de compensar os seus erros. A
interveno da sogra surprehendera-o e por isso se calra; mas, passado
esse primeiro momento de surpreza, revoltava-se.

D. Maria Francisca, porm,  que no desanimava, posto que pelo silencio
do genro ficasse suspeitando de que elle no acceitava o conselho. 
noite, conversando n'um pequeno grupo em que se encontravam Laura e
Claudio, julgou conveniente repetir a instancia mas d'esta vez levando-a
por outra via.

--Hoje, dizia para a sua velha amiga D. Maria do Amaral, j no ha nem
pde haver casas nobres. Vem as partilhas e no ha fortuna que lhes
resista. A abolio dos morgados acabou com toda a fidalguia que fazia
tanto bem. Desgraado de quem tem mais do que um filho!

--Pois o meu desejo  ter vinte, apressou-se Claudio a responder
bruscamente, no tentando dissimular a sua irritao Que trabalhem! Foi
assim que fizeram meus paes. Deus me livre de gente vadia!

Laura crou e D. Maria Francisca respondeu:

--Crdo! Que ideias! Nem parecem d'um rapaz fino como Claudio!...

A conversao ia visivelmente azedar-se e D. Maria do Amaral, com o fino
tacto que adquirira na sua vida de mundanismo fidalgo, accudiu a
interrompel a:

--Olha que o sr. Soares no tira os olhos de ns, disse para D. Maria
Francisca. Est  nossa espera para a manilha; l entende que por ser
dia de festa no ha-de ficar sem partida.

E todos se levantaram.

--O meu Claudio, veiu dizer Laura ao marido quando mais tarde se
recolhiam aos seus aposentos, foi hoje muito mau. No gosto de o vr
assim. Fico muito zangada.

--Porqu?

--Ora, porqu?!...

--Talvez tu tambem no queiras ter mais filhos?...

--Ai, decerto que no! Um v. Mais do que um, Deus me livre! S o que eu
soffri!...

-- a boa educao religiosa que vos do n'esses collegios de beatas.

--Tomara-me eu l! So umas santas...

--Ninguem te prende.

--Bom. Deixemo-nos de discusses que no estou para me inquietar.

-- melhor, . Mesmo a unica cousa de que deves cuidar  de no te
inquietares. Fazes bem. Has-de tirar-lhe bom proveito! exclamou j ao
cerrar a porta e dirigindo-se ao seu gabinete.

Essa noite foi tormentosa para Claudio. As quatro paredes da sua cella
asphyxiavam-n'o. Desceu ao jardim e passeiou at  madrugada, meditando
no drama da sua desventura. A realidade apparecia-lhe sem attenuantes,
as phantasiosas esperanas que por alguns mezes alimentra com uma
tristeza resignada voavam como arremessadas ao longe pelo rebentar da
metralha. No queria ter mais filhos! Este pensamento obececava-o. Era a
extrema perverso, o repudio completo de todas as leis naturaes, a
cobardia e o egoismo, calcando e reprimindo toda a expanso da vida
ingenua, um misero e constante terror, substituindo a alegria intensa do
peito que canta com a natureza, dos ninhos das aves que adejam nas
manhs d'abril. E todavia era a sua sorte!... A maternidade no
transformra Laura; pelo contrario, revelava-lhe o caracter. O amor de
sacrificio no viera, mas, em logar d'elle, o egoismo redobrava,
tornando-se indomavel.

Durante dois dias, Claudio s trocou com a mulher as palavras
indispensaveis; taciturno, nada fazia j para lhe occultar o seu
desgosto que era profundo. Intimamente, mantinha talvez ainda uma
derradeira esperana, que ella fizesse por amor d'elle, pela sua paz e
alegria o que por instincto e instigao da consciencia no tinha podido
alcanar. Laura porm conservava-se inteiramente estranha ao que se
passava no espirito do marido; julgava-se offendida com o seu silencio.
Pois no era uma santa, um anjo, como tantas vezes ouvira aos que a
cercavam?!

A sua vaidade no lhe deixava um instante de hesitao. Claudio no
podia ter d'ella o menor aggravo. Tudo o que elle fazia caia sob uma
condemnao formal, completa. Demais, dera-lhe um filho, fizera por elle
esse sacrificio. O filho no era para ella uma dadiva de Deus para
melhor cumprir o seu destino no mundo; tinha sido uma tortura supportada
por uma victima da sensualidade e do capricho d'um homem. A obliterao
do senso moral consumara-se n'essa creatura a que a educao formalista,
dando-lhe a apparencia externa, os modos, as palavras e os gestos da
bondade, no intimo crera uma plena seccura de corao. Sem as luctas da
vida em que se frma e avigora a alma, repellia como uma offensa todo o
esforo e toda a situao que no lhe lisongeasse sem reservas os seus
desejos.

Entre Claudio e Laura comeou uma verdadeira lucta, surda, sem exploses
retumbantes, mas continuada e persistente, manifestando a cada momento
uma divergencia de caracteres que, no logrando fundir-se, mutuamente
tentavam dominar-se. Os creados, as visitas, o filho, os passeios, de
tudo se tirava motivo para discusso que invariavelmente terminava por
accentuar uma incompatibilidade de pensamento profunda.

Claudio queria os creados tratados como familiares, bondosamente, sempre
propenso a excusar-lhes os erros e as faltas. Laura aborrecia-os e
odiava-os cruelmente; batia-lhes por um prato que se partira, por uma
fita que uma creada trazia mal posta, porque se demoravam em accudir ao
seu chamado. No havia mez em que algum no fosse substituido.

--Antes um pedao de bra, diziam, e o seu socego do que os regalos dos
fidalgos. E iam-se embora, maldizendo da casa.

--So do nosso sangue, dizia Claudio  mulher admoestando a; tem as
mesmas tentaes de descanso e de folgar, os mesmos vicios, o mesmo
afrro aos seus habitos.  preciso tratal-os com caridade. So elles que
nos servem,  sobre elles que lanamos todos os trabalhos pesados que
no podemos ou nos repugna fazer.

--Pois governa-os tu! Eu  que no estou para isso. Se te incommoda
ouvir os meus ralhos, tambem a mim me incommoda atural-os. O que elles
so todos, concluia, enfurecendo-se,  uns demonios que no servem seno
para me inquietar.

A primeira vez que Laura, depois de casada, tivera uma furia raivosa
contra os creados, ficara de lembrana a Claudio.

Era sexta-feira da Paixo. Laura jejura n'esse dia com todo o rigor que
a egreja aconselha, tendo-se previamente informado com o confessor sobre
as horas, quantidade e especie de refeio a que devia sujeitar-se, para
alcanar todos os beneficios que d'ahi podessem provir-lhe.

s dez horas saiu para a s, de carruagem, elegantemente vestida de
negro, levando nas mos um livro rico, presente do casamento que uma sua
parente beata expressamente encommendra em Paris e onde vinha traduzido
para francez o evangelho. Na egreja foi sentar-se proximo do pulpito,
n'um banco que um conego, antigo frequentador do palacio do Albuquerque,
se apressou a mandar-lhe offerecer pelo sachristo, mal a viu. Depois
seguiu com grande recolhimento toda a cerimonia, lendo, a cabea
inclinada sobre o livro, erguendo-se apenas de longe em longe para olhar
a cruz e o altar.

 uma hora da tarde entrou em casa para tomar o magro alimento que lhe
era permittido, mas s quatro voltou a sair, sempre de carruagem, para
ir vr a procisso do enterro. Nova visita a casa ao anoitecer, logo
seguida de immediato regresso  s, para assistir ao officio de trevas e
ao sermo da paixo. Tinha pressa, para no perder o logar que o conego
promettera reservar-lhe.

Ouviu o officio, ouviu os cros e o orgo, pousando graciosamente o
livro sobre os joelhos para se entregar a essa delicia, e ouviu por fim
o sermo. Quando o pregador, um rapaz que tinha entrado havia pouco para
a faculdade de theologia, terminando o discurso e procurando motivos de
emoo, clamava no templo sombrio, pedindo um lenol para amortalhar o
Christo morto na pobreza e no abandono, Laura, sentindo um fremito mais
de temor que de piedade, bateu com a mo no rosto e enxugou duas
lagrimas. Depois, deu o brao ao marido, saiu vagarosamente acompanhando
a onda de povo que se dirigia  porta da egreja e entrou na carruagem.

--Est frio, disse para Claudio. E este cocheiro  to descuidado...
Nunca se lembra de trazer os escalfadores.

Quando passavam na estrada da Beira, batia a meia noite. Ao entrarem em
casa, encontraram um silencio profundo e Laura dizia ao marido, j
levemente irritada:

--Adormeceu tudo, pelo que vejo! Parece que ninguem sabia que eu tinha
saido e jejuei todo o dia. Que desmaselo!

Ia entrando, desabotoava a capa ao transpor a porta do quarto, quando
n'um movimento de surpreza, estacou.

A creada, fatigada de esperar, sentara-se n'uma cadeira e adormecera.

Laura approximou-se d'ella p ante p, para mais amargo lhe tornar o
despertar, e n'um accesso de colera indiscriptivel comeou a bater-lhe e
a injurial-a.

--Canalha! Que porcaria! Quem ha de dormir agora aqui?! gritava. O meu
regalo era pl-a immediatamente no meio da rua.

Claudio no se atrevia a pronunciar uma unica palavra.

--E tu ento calas-te?!... dizia-lhe a mulher. Que homem este!

Eram estes os fructos da lio que na egreja Laura acabava de receber?
pensava Claudio. Era este o modo por que commemorava os soffrimentos de
Christo? A surpreza turvava-o inteiramente e, como de costume, a
imaginao espraiava-se buscando illuses, para retardar ainda por mais
algum tempo a convico de que a sua vida estava unida  mais cruel
aridez do corao em que os seus sonhos de piedade christ tinham de se
dissipar.

O filho era um acrescento s vaidades de Laura. Entravam na sala as
visitantes e logo a ama o preparava com rendas e fitas de seda para vir
apresental-o. Choviam ento as exclamaes. Ai! Mas que belleza! Um
mimo! Um apetite! E que gordinho!...

-- todo Albuquerque, diziam a meia voz as mais lisongeiras.  o retrato
do av.

Laura passava ento momentos felizes. No era o filho seu producto e
propriedade, no vinham os elogios cair directamente sobre ella,
juntando-se aos que em solteira ouvia sobre as suas graas e belleza?

A satisfao da vaidade continuava-se agora sob uma nova frma e,
despedidas as visitas, voltava risonha a contar a Claudio o que haviam
dito a condessa dos Casaes e a prima Sarmento. Todos o acham um encanto,
uma belleza!...

O marido ouvia; o contentamento da mulher despertava-lhe o desprezo que
por ella comeava a ter, lembrando-se da indifferena com que abandonra
o filho a uma ama, da colera com que mandava affastal-o para que os seus
chros no a importunassem e principalmente do seu receio louco de ter
novos filhos.

Comparava a me que idealisra, os olhos cavados e os braos doridos das
longas vigilias a amamentar os filhos, com a imbecilidade risonha e
paramentada que tinha deante de si; a convico do naufragio das suas
aspiraes arreigava-se-lhe no espirito. Nem j o filho lhe podia
reanimar esperanas O que seria d'elle creado n'aquelle ambiente?!..

Laura continuava sempre estranha ao que se passava no pensamento de
Claudio.

A cada passo o contrariava, com a sde de dominio e posse a que a tinham
habituado os mimos dos paes, emquanto solteira, e que vira confirmados
pela submissa obediencia com que o marido se curvra a todos os seus
appetites durante os tempos de gravidez. Queria saber todos os seus
passos, queria que nunca se separasse d'ella. No tinha a liberdade de
sair sem previamente lhe dizer onde ia e para que. Era um passeio em que
procurava concentrar-se algumas horas na reflexo sobre a sua malograda
existencia para o trabalho e para a virtude? Esperasse, que ella iria
tambem. Eram negocios que tinha a tratar? Escusava de sair e de a deixar
s, tudo se regularia por meio de cartas; e punham-se os creados em
movimento. O amor em Laura no era o ardor de sacrificar-se  vida
d'alguem, de viver para outrem, era a paixo de possuir e conservar s
para si a vida d'um estranho que lhe trazia gozos e commodidades. Por
isso dizia que tinha muito amor ao marido e ao filho, e tomou por
ingratido o descontentamento de Claudio, que percebia sem poder
explical-o.

--Ah! a inconstancia dos homens! exclamava. O que eu lhe ouvi e o que
agora vejo!...

Succederam-se longos mezes sem que a situao se modificasse
apparentemente, porque no fundo ia-se cavando a extinco de todo o
affecto conjugal. Era uma lucta surda, sem expanso ruidosa, mas
constante, inevitavel, entre dois caracteres oppostos e entre duas
maneiras de conceber a vida, o egoismo que se occulta em convenes de
religio e de bondade, e a virtude que rudemente, por um trabalho
assiduo, procura servir o proximo.

Ao fim de dois annos de casamento, Claudio no tinha uma hora sua, para
os seus prazeres, para os seus estudos ou para o seu trabalho; a sua
existencia estava completamente absorvida pelas exigencias de Laura,
pelas suas recepes, pelas suas visitas, pelos cuidados e deligencias
que lhe impunha, continuadamente a caminho da pharmacia ou do
consultorio, se a mulher sentia o mais ligeiro cansao ou se o filho se
mostrava impertinente.

O gabinete em que reunira os seus livros, sonhando uma vida de
benedictino, affagada pelos carinhos vigilantes da esposa, essa cella em
que, lendo e pensando, havia de alcanar o conhecimento da verdade, que
toda a vida fra a sua ambio, para lhe conformar a existencia, estava
hoje convertido n'uma simples sala onde cada dia, em trajes bem talhados
por alfaiates de fama, ou aguardava a chegada dos convidados que vinham
festejar os annos das pessoas de familia--os pretextos de festas
multiplicavam-se,--ou pacientemente esperava Laura que, sem se dar
pressa, rematava a _toilette_ para passeiar de carruagem, ou se consumia
em qualquer outro frivolo mistr.

Perdia-se o tempo e a fortuna soffria. Os tres a quatro contos de ris
de renda que Claudio possua e que em Albergaria lhe permittiam uma vida
lauta, sob o governo burguez de sua me, nas mos de Laura eram
insufficientes para os seus habitos e costumes fidalgos. Era preciso um
cocheiro e um trintanario, um jardineiro, um escudeiro, um hortelo, uma
creada para o servio de Laura, uma outra para a cosinha, uma outra para
ajudante da cosinheira, mais outra para o servio das roupas, mais outra
para o filho, fra o pessoal incerto de lavadeiras, de recoveiros, de
engommadeiras e as innumeras gentes que frequentavam a cosinha da
pequena casa da estrada da Beira.

Claudio calculava. Em dois annos tinha consumido quatro contos de ris
alm dos seus rendimentos. Era a ruina. Queixava-se a Laura.

--Tu bem sabes que no se pde viver com menos! respondia ella com
vivacidade. S se queres que eu lave a roupa e faa a cosinha...

--No, mas tudo tem limites.

--Tem muita graa essas economias! Quem no quer gastar, no se casa. Ou
ento casasses em Villalva, com alguma rapariga de p descalo. No
viesses procurar uma pessoa fina.

--Talvez no tivesse sido infeliz...

--Pois eu ainda mais feliz seria! Estava em casa de meus paes muito bem,
no me faltava l nada. Escusava de me vir metter n'este inferno.

Claudio calava-se perante os modos irritados da mulher. Por triste
experiencia sabia que no lograria convencel-a, e fugia de violencias
inuteis. Interiormente, porm, o desengano consumava-se e o desprezo
crescia, illuminado de rapidos clares de revolta.

Comeava agora a manifestar-se d'uma maneira bem patente a sde de
libertar-se do jugo. Entrava n'um periodo de desespero. Os momentos de
tranquillidade em que o espirito se lhe desanuviava e a alegria parecia
voltar, e que d'ordinario eram os que passava conversando com antigos
companheiros, j no significavam esperana; eram apenas o natural
repouso das cogitaes em que a sua infelicidade se revolvia, reaco do
pensamento fatigado de tristeza e buscando espontaneamente uma
atmosphera s.

Intimamente, a desilluso era perfeita. Sabia que no podia esperar de
Laura outra cousa que no fosse a futil existencia que at alli tinha
levado; a educao, a estreiteza de espirito e uma vaidade sem limites
venciam todas as tentativas de converso que o marido tinha tentado,
emquanto o habito de mandar e satisfazer todos os caprichos a tornava
insolente e colerica perante a mais pequena contrariedade.

--Onde vaes? perguntava ao marido, vendo-o pegar na bengala e pr o
chapu na cabea.

--Passeiar e tratar umas cousas na baixa.

--Mas eu preciso sair tambem...

--Sae com o pequeno. Fica-te ahi a carruagem.

--Bons costumes! E muito delicados...

Claudio no respondia; continuava o seu caminho. No tinha negocios
alguns a tratar; o que queria era libertar-se d'aquelle ambiente que o
suffocava, distrair-se em extensos passeios  beira do rio, na
contemplao das aguas espelhadas e dos vergeis mimosos ou encontrando
quem lhe fallasse de coisas ociosas que eram para o corao dorido um
rapido refrigerio.

Bem sabia que por cada vez que desobedecia a Laura teria alguns dias de
despeitado mutismo, mas a frequencia e a injustia dos repetidos amuos
haviam-n'o tornado indifferente a essa arma que a mulher usra com
proveito nos tempos em que elle esperava vencel-a e conquistal-a pela
doura e pela paciencia. Agora penetrava-o o desengano e abandonava
Laura ao proprio desespero, que era apenas o castigo da ruindade dos
seus sentimentos.

Foi n'esta situao que uma manh o vieram encontrar as peiores noticias
de Villalva. A me mandava-o chamar; tivra um novo ataque de paralysia
e queria vl-o. Claudio no se surprehendeu; ha muito esperava essa m
nova. Via o declinar da sua velhinha, como lhe chamava, que j por duas
vezes fra acommettida de ligeiros insultos apopleticos; o proprio
medico no lhe tinha occultado que era provavel que se repetissem e que
constituiam, uma ameaa grave.

Claudio partiu na convico de que ia vr a me pela derradeira vez.
Laura quiz acompanhal-o, no porque sentisse o menor respeito pela
sogra, de cuja rudeza se envergonhava, ignorando o que n'ella havia de
santo e de grande, mas porque julgava ser proprio de gente fina
acompanhar o marido em occasio to difficil. Elle, porm, instou e foi
s; talvez exaggerassem o estado da me, de l lhe mandaria noticias e
depois se resolveria como fosse melhor. A verdade era que queria vr-se
ssinho com a me e affastar de si, nos seus ultimos momentos, tudo
aquillo que podesse perturbar-lhe a concentrao na saudade d'aquella
que fra a maior affeio da sua vida.

Em Villalva, esperava-o o dr. Carvalho. No saira d'alli toda a noite,
dizia, nem sairia emquanto Claudio no viesse. Escusava dizer-lhe,
acrescentava, que o estado da doente era muito grave.

--Os annos so muitos, meu amigo, e isto no pde ir longe.  a sorte
que a todos nos espera, e o dr. Claudio, como homem intelligente que ,
deve ter coragem para se conformar com o destino.

Claudio apressou-se a cortar o enfadonho discurso do doutor.

--Posso fallar-lhe, no posso?

--Pde... Ella por emquanto est ainda bem. Mas no convm conversar
muito. Sempre excita...

Claudio entrou no quarto da me. Estava deitada, os olhos semi-cerrados,
unicamente acompanhada pela filha, que se sentava  cabeceira da cama.

A filha, quando viu o irmo, levou rapidamente o leno ao rosto a
occultar as lagrimas que lhe rebentaram n'uma contraco afflictiva.
Depois, dominando-se, chamou baixinho:

--Minha me, minha me?

--O que ? respondeu a velhinha abrindo os olhos.

--Est aqui o Claudio.

--Ai, meu filho, respondeu ella procurando-o com a mo esquerda, que o
brao direito estava completamente paralytico. Estou muito mal... 
tempo de dar contas a Deus Nosso Senhor... E foi bom que c viesses
hoje...

Calou-se e fechou novamente os olhos. As palavras tardavam e a voz
embaraava-se.

--Est assim, disse a irm de Claudio. Falla quando a chamam, diz meia
duzia de palavras e depois fica outra vez n'esta somnolencia. J no se
lembra de que foi ella que te mandou chamar.

Por pouco tempo se prolongou esta agonia. Proximo da meia noite, a
velhinha moveu-se no leito. Claudio perguntou:

--O que tem? Quer alguma cousa?

--Quero... quero... um caldo, respondeu confusamente.

A filha saiu para ir buscar o caldo e Claudio aproximou-se da me, a
observal-a. Pareceu-lhe alterada a face; para vr melhor, desvendou a
luz que estava sobre a commoda, occulta por detraz d'um pequeno bah de
coiro, antiga herana da casa em que o pae guardava os titulos das suas
propriedades.

--Luiza, Luiza! gritou chamando a irm.

O rosto da velhinha moribunda congestionava-se e Claudio, ancioso, sem
articular uma palavra, apenas poude apontar para elle.

Os dois filhos cahiram de joelhos chorando; em breves momentos, jazia
inerte aquelle corpo que os animra com o seu alento e que lhes legava a
eterna luz d'uma vida immaculada na caridade e no trabalho.

Houve certo rumor em toda a casa, dos creados que saiam a levar ordens
para o enterro, a prevenir o parocho e os armadores. Depois, pelas duas
horas, tudo caiu em silencio. S Claudio e Luiza velavam o corpo da me,
pallida e serena, vestida de negro, coroada de cabellos brancos, sobre o
leito, mal illuminada pela luz dos castiaes que ladeavam o crucifixo,
em cima da commoda, convertida em altar.

s oito horas, comearam a chegar os visinhos que vinham com palavras de
sentimento, e muitos com lagrimas, offerecer os seus servios.
Dirigiam-se a Claudio que os recebia na sala e a maior parte, ao sair,
entrava no quarto e ajoelhava, rezando, junto do cadaver.

Laura chegou com o filho, proximo ao meio dia. Claudio abraou-os,
soluando n'uma crise de lagrimas.

--Vae vel-a, disse para a mulher.

Na confuso do seu espirito perpassou a esperana d'um milagre. A me
havia de converter a esposa; dos tristes despojos d'aquella que fra uma
santa emanaria, a transformar a alma ingrata, a humildade e o amor.

Todo o dia se passou recebendo as visitas da gente de Albergaria que
correu a Villalva. O enterro foi  tarde. Quando chegou a noite, voltou
a paz. Tudo parecia dormir.

No dia seguinte Claudio regressou a Coimbra. Tinha pressa de restituir a
mulher  sua casa e s suas commodidades. Sabia que ella no podia estar
contente ali, servida por creados rusticos, e a sua presena
perturbava-o.

Porqu? No o sabia ao certo. A confuso do seu espirito era completa,
tudo o que conscientemente sentia era uma fadiga extrema. Voltava a
Coimbra, l pensaria o que tinha a fazer. Entregou a casa  irm e
partiu.

Em Coimbra, sentiu-se ainda peior. Desde que l tinha chegado,
succediam-se sem interrupo as visitas de gente fina que vinha
trazer-lhe consolaes banaes, em palavras que no correr do dia ouvia
innumeras vezes.

Breve voltou a Villalva. A Laura disse que precisava tratar de partilhas
e regular os seus negocios, mas a verdade  que queria estar s com as
suas saudades, as suas mguas e os seus degostos. Queria concentrar-se
na meditao, tentar descobrir e vr claro o estado da sua alma.
Contrariedades, esperanas, desilluses e uma infinita saudade
batiam-n'o sem cessar como o lebreiro persegue a caa. Fugiria?
Resistiria? No seu pensamento ia pelejar-se mais uma temerosa batalha.




VI


Villalva! O silencio e a paz no contacto da natureza, a absorpo no seu
caudaloso palpitar, o arrebatamento nas suas emanaes purificantes!
Perante a cintura de montanhas que lhe cerravam o horisonte, lanando os
olhos pelo valle em que os casaes dormiam escondidos no arvoredo ou
debruados  beira dos campos vicejantes, Claudio sentia uma vaga
aspirao, um desejo obscuro cortado de saudades traduzindo-se n'um
pullular de interrogaes que opprimiam. Onde estava? Por que agrestes
caminhos tinha andado? Onde ia? O que queria?

S, n'aquella sala que ouvira os seus primeiros risos e as suas
primeiras lagrimas, perante o vulto sagrado da me, agora sempre
presente aos seus olhos, resurgindo reanimado, para no mais morrer, na
exaltao d'uma immarcessivel lembrana, reconstituia a sua existencia,
recordando factos, buscando ainda, com uma tenacidade de naufrago,
esperanas de salvao.

O desengano esmagava-o; j no podia ter duvidas sobre a situao a que
chegra, a historia da sua vida era um livro aberto em que no ficava o
mais breve enigma nem a mais passageira obscuridade. Recordava os annos
da infancia e mocidade, o respeito pelo trabalho e pela humildade de que
seus paes lhe haviam dado lio profunda no exemplo ininterrompido, via
como depois surgira a tentao accendida pelas fascinaes da sciencia
materialista e pelas perverses da riqueza, e sentia ainda com angustia
a tortura em que o lanra o tormentoso desvairamento do adulterio.

Casra-se para se salvar. No desenganado ainda sobre a significao
moral da vida elegante, confundindo o luxo e a arte, a delicadeza do
espirito e os cuidados corporaes, procurava mulher n'uma familia fidalga
sonhando a alliana d'uma simplicidade christ com os requintes
artisticos e os gozos e as commodidades da gente fina.

Os curtos annos de casado tinham-n'o desiludido dolorosamente e
profundamente. Encontrara um egoismo sem limites, occultando-se em
palavras doces e sorrisos convencionaes, onde esperava uma alma aberta 
sympathia, ao amor e ao sacrificio; encontrra uma inconsciente
crueldade onde phantasira uma perenne bondade e denguices sentimentaes
no logar d'uma forte e sadia franqueza. Agora tudo estava perdido, sem
remedio.

Quando fra dos amores de Emilia, era livre, senhor de recomear a sua
vida; ligado pelo casamento seria arrastado na sua desgraa sem
remisso. Passava-lhe pela mente todo o seu viver com Laura, os
continuados motivos de desgosto que ella lhe dava e que por constantes
definiam a sua vida normal; os ralhos e a odienta brutalidade com os
creados, a averso aos pobres e aos mendigos, o horror da procreao e
essa avidez feroz com que reclamava o marido s para os seus prazeres,
para os seus vicios e para as suas futilidades fidalgas, no lhe
permittindo um momento de liberdade, no lhe concedendo, n'uma hora de
bondoso desprendimento, que vivesse para si, para os seus trabalhos,
para o seu repouso, ou, mais singelamente ainda, para as suas
meditaes.

Na verdade, no tivera com Laura um s acto de violencia, no podia
dizer quando comera esse sentimento indefinido que o fazia temer a sua
presena e o levava a affastar-se de Coimbra. Nem por isso a dissoluo
era menos completa; infiltrra-se-lhe na alma, subtilmente,
impregnando-a dia a dia mas envenenando-a de amargura, enchendo-a do fl
que trasbordava jorrando um sombrio desespero.

Como supportra at ento essa cruz, porque no fugira ha mais tempo do
logar em que um tormento incessante o perseguia? No tinham sido as
esperanas de emenda da parte de Laura que o tinham contido. Essas
perdera-as por completo quando o filho nascera; a mesquinhez da sua alma
revelra-se ento sem rebuo, deixando-lhe no espirito uma arreigada
convico que, de resto, os factos quotidianos confirmavam tenazmente.

Rememorando as mortificaes que soffria, persuadia-se, n'um exame da
propria consciencia, que s por amor de sua velha me occultra a sua
desgraa tentando deixar-lhe sempre a impresso de que vivia feliz. Sim,
s por ella bebera corajosamente esse calix sem trepidar, sem uma
apparente contraco, para que a tristeza no perturbasse a sua velhice
e podesse morrer, como morreu, na tranquillidade de quem louva a Deus
por ter abenoado de felicidade a sua prle.

Tudo estava acabado, partira-se esse ultimo lao que o ligava  terra!
Aquelles cyprestes que alm oscilavam ao vento junto  egreja, tinham
agora para Claudio uma fascinao estranha. Os seus olhos no se
desprendiam d'esse pedao de terra, interrogadores, fitando os tumulos,
buscando a revelao do enigma da sua vida. Viver! Para que?! Para sua
me, o seu grande affecto? Dormia j para sempre. Para Laura, sua
esposa? Era alheia ao seu corao e, manh, quando o tivessem lanado
ali ao p de sua me, havia de cobrir-se de crpes finos, e correria, em
carruagem, a fazer mesuras lacrimosas por casa dos parentes fidalgos, e
bateria nos creados quando errassem e em accessos de ira expulsaria os
mendigos do jardim.

Passava-lhe nos labios um sorriso de desdem perante a imagem d'essa dr
mentirosa, vida da vida, d'uma crueldade impenitente; e o desprezo do
mundo crescia no seu corao. Viveria para o filho? Nada podia esperar
d'elle. Havia de crescer ao sabor dos caprichos da me. J uma
atmosphera de louvores e constante lisonja comeava a tornal-o enfadonho
e falso; quando com a edade se lhe juntasse a sede de regalos, a
perverso mostrar se-ia completa. Melhor seria livrar a tempo os seus
olhos d'essa imagem em que veria incessantemente a miseria do seu
destino. Viver para os estranhos, para os desconhecidos, para uma vida
de caridade, enxugando lagrimas, agasalhando os indigentes, levando
consolo aos desventurados? Era tarde! Toda a energia estava extincta,
consumida na propria desventura. Viver para os prazeres do corpo,
lanando para longe todas as preoccupaes moraes, despindo-se
affoitamente d'esse cilicio e libertando a carne? Muitas vezes, deixando
a casa da estrada da Beira sob a impertinente insolencia da mulher,
sentira os impetos d'uma reaco naturalista que o vigor dos annos
atiava mas de todas as tentaes logo accordava pela lembrana dos
tormentos passados em Albergaria da Serra nos tristes annos dos amores
de Emilia e pela perseguio de invenciveis espectros da consciencia em
que as aspiraes de virtude se confundiam com a imagem da sua me, no
intimo sempre presente.

Que podia pois essa alma dilacerada pelo desengano, privada de todas as
alegrias que ambicionra, continuamente retalhada de dres? Tivesse a
coragem de anniquillar os restos inuteis do seu corpo. Para que servia
n'este mundo? O po que o alimentava queimava-lhe os labios como um
roubo ao trabalho dos que eram sos, vivendo no amor, e o suicidio no
seria um crime nem uma desero, era uma obra de caridade livrando a
humanidade d'um ser enfermo e esteril, era um acto de justia,
reconhecendo e castigando o desvairamento da sua existencia perdida em
sonhos vos e agora sacrificada  frivolidade d'uma mulher. Uma pesada
sombra lhe escurecia ento o pensamento e olhava esse abysmo eternamente
mysterioso como o mar calmo em que precisava lanar-se para seu repouso,
para sua gloria, para sua redempo.

N'esta febre havia porm remisses. Pela manh, desde que fallecera a
me de Claudio, a casa de Villalva era invariavelmente visitada pelos
devedores, pelos rendeiros, pelos muitos que a serviam ou d'ella
dependiam.

Vinham regular as suas contas, pedir perdo das dividas em atrazo ou que
lhes esperassem pelo pagamento das rendas caidas, saber se poderiam
contar com as terras, o que seria de futuro, a quem pertenceriam.

Era gente rude, vestida de burel, mostrando no peito uma camisa
grosseira, de grandes e toscas botifarras, muitas vezes descala, tendo
deixado  entrada os tamancos ferrados e o cajado. As mulheres vinham
tambem; por homenagem ao novo senhor traziam-lhe aves que iam levar a
cosinha, em pequenas cestas.

--Ai, Senhor! Est no ceu, era uma santa; diziam gemendo para que
Claudio ouvisse e se compadecesse da sua pobreza.

Depois entravam, mansamente, e com longos rodeios, comeavam a falar dos
seus males, este dos gados que lhe morreram, aquelle das doenas que
houvera em casa, est'outro das ms colheitas e dos maus preos.
Terminavam pedindo alguma cousa. Por alma da senhora sua me...
rematavam.

Claudio, a essa invocao, que bem sabia ser banal, no tinha coragem de
resistir. Era no seu espirito uma instantanea resurreio de qualquer
cousa sagrada perante a qual ajoelhava submisso e humilde.

De resto, as horas que passava com os arrendatarios, com os devedores e
com os creados que vinham receber ordens e dar contas das suas
obrigaes, eram para a sua alma um refrigerio. Ao escutal-os
comprehendia quanto a vida e a virtude eram simples. As riquezas do
mundo encerravam-se em algumas medidas de po guardadas na arca, em meia
duzia de varas de panno, fiado pelas encostas, emquanto o rebanho vae
traando o pasto, e tecido nos seres de inverno  minguada luz d'uma
candeia.

Moral, problemas da alma no existem. Tu comers o po com o suor do
teu rosto,  tudo, um evangelho inteiro. Trabalha, tira da terra o
sustento que ella nunca recusa ao teu suor, no contes os teus passos,
nem as tuas fadigas, trabalha, trabalha sempre, para ti, para os filhos,
para os visinhos, para os viandantes que passam no caminho; no penses
para que nem para quem, os necessitados te viro buscar o po, como nas
horas de miseria tu irs tambem viver do trabalho alheio.

A suprema lio era-lhe dada por aquelles que esmolavam e nada
pretendiam ensinar. De tanto estudo e ambio, de todas as suas
cogitaes e de todos os seus loucos anceios de perfeio, recebia alli
correctivo.

Mas era tarde, era tarde! Considerava o que perdera n'essa noite em que,
creana ainda, pela primeira vez deixra Villalva para ir buscar riqueza
e saber que to cedo se converteriam em infortunio, e a ideia da morte
voltava como a unica redempo.

Laura escrevia-lhe longas cartas. Que no sabia que crimes eram os seus
para que assim fosse abandonada, que todos a estimavam e adoravam, menos
elle; que s  inconstancia dos homens podia attribuil-o pois ella, se
por alguma cousa peccava, era pelo muito amor que lhe tinha. O que
diriam, perguntava, todas aquellas pessoas com quem convivia ao saber
que Claudio desertara a sua casa quasi completamente? Por certo haviam
de o condemnar.

No fundo, essas cartas eram apenas a confirmao do que Claudio por
demais conhecia, a vaidade da mulher, a crena nos seus merecimentos
alimentada pela lisonja banal dos que a cercavam, e uma vontade
insaciavel, absorvente, de ser senhora de todas as aces do marido.

No mentia. Tinha-lhe muito amor, como a um objecto que era seu, para
seu uso e regalo e no para viver para elle, sacrificando-se.
Confirmando a sua infelicidade, lanavam-n'o em novos impetos de
desespero, varrendo qualquer duvida que no tumultuar das suas cogitaes
podesse surgir.

Uma tarde, como estivesse s, desceu abaixo, ao campo em que empregra
tantos cuidados quando habitava em Albergaria. Custava-lhe vl-o; tinha
caido em abandono e recordava-lhe os primeiros mezes dos amores de
Emilia em que julgra ter alcanado a felicidade. Com que risonha
esperana alli se sentra em mornos crepusculos do estio e em que
desvairada agonia alli chorra as lagrimas da sua culpa!

Apezar d'isso, aquelle pedao de terra atraia-o. No seu proprio abandono
havia uma belleza consoladora; os jacinthos que brotavam entre a herva,
as roseiras que se perdiam nos ramos das larangeiras, todo esse
desalinho da natureza a que era estranha a mo do homem, cantava a vida
ingenua e simples em emanaes de vio e de frescura.

Estavamos em fins de fevereiro. Pela manh chovra e o campo brilhava
todo aljofrado de gottas de agua.

Claudio abriu a cancella embaraada nas trepadeiras que a enleiavam e
olhou procurando um carreiro enxuto. No havia; as hervas ruins cobriam
todos os caminhos.

Quasi a seus ps, descobriu uma violeta. Abaixou-se para a colher.
Reparou ento que eram muitas estendendo-se pela beira do caminho,
rompendo por meio das ortigas e das malvas, estioladas na sombra das
acelgas.

Instinctivamente, comeou a limpar o cho das plantas parasitas,
primeiro devagarinho, com medo de se sujar e de se picar nas ortigas,
depois affoitamente, sentindo um prazer estranho em afundar os dedos na
terra. As violetas iam surgindo e, assim libertas, pareciam grandes e
bastas.

Durante uma hora, esteve occupado n'isto. No fim no podia mais, todo o
corpo mortificado pela posio em que estivra, abaixado. Levantou-se,
contemplou com alegria os poucos palmos de terra que tinha limpo, e,
para repousar, seguiu pelos caminhos orvalhados, enlameando-se, sem
receio, procurando as plantas que tinham resistido ao abandono.

No dia seguinte voltaria a proseguir no trabalho,  tarde, depois de ter
recebido os clientes. Antes de sair, voltou a vr as violetas.
Abaixou-se novamente, teve tentaes de continuar, mas no podia mais,
os membros entorpecidos.

--Amanh! amanh! pensava subindo a encosta.

Aquelles momentos tinham sido porm uma revelao. Apetecia-os com
frenesi.

Pela madrugada, ergueu-se. Desceu novamente ao campo. Trazia a
ferramenta, o sacho, a thesoura e a navalha, para poder repousar d'um em
outro trabalho. Voltou s violetas. No podia abaixar-se, o corpo dorido
ainda do exercido da vespera. Comeou a sachar um alegrete, mas o
servio ia mal feito, deixava escapar algumas hervas e a terra ficava
aos montes, mal arrasada. Despiu o casaco; o sol comeava a apertar
pelos abrigos. Ia-se agora a limpar as roseiras, mas a mo tremia-lhe, o
crte era incerto, mal rematado.

Sentou-se sobre o tronco d'uma arvore derrubada pelos vendavaes do
inverno. Que infelicidade a sua! Quanto desejava, tudo lhe era vedado.
No poder trabalhar alli desde o romper do dia at  noite!... Seria a
salvao. Affluiam as lembranas da mocidade, o prazer de cuidar das
suas flores que a me vinha colher para pr aos ps do crucifixo. Porque
no tornaria esse tempo? Era persistir, estava novo ainda, as foras
voltariam com o uso.

Cada dia comeou ento a ter para Claudio os seus momentos de prazer. As
violetas expandiam-se agradecendo os carinhos de quem lhes dra espao e
sol, as roseiras mostravam purpureos e tumidos botes e j da cylindra
se erguiam suavissimos perfumes. Era uma festa interminavel que
recrudescia a cada instante em novas vibraes de vida, coroando e
abenoando o esforo humano.

Claudio sentia-se alegre junto da nova companheira da sua vida, a
natureza, e tenazmente procurava vencer e sujeitar o corpo debil ao seu
grande amor.

No dia em que pela primeira vez lanou mo da enxada, passou-se na sua
alma um grande drama, uma lucta gigante entre o destino e a esperana.
Ergueu a enxada ao ar, deixou-a cair, guiando-a, e cravou-a no slo.
Depois, firmando-se, recuou o corpo e voltou a leiva cortada cerce,
rompendo a terra de cuja escurido se desprendia um alento de
fertilidade, como uma promessa. Ergueu novamente a enxada, cravou-a,
recuou e voltou uma outra leiva. Triumphava! De repente, porm, cairam
os braos e um suor de fadiga se lhe derramou em todo o corpo. No
podia! O esforo era superior s suas foras; uma reaco violenta quasi
o prostrava. Encostou se  enxada e duas gottas de suor, rolando-lhe
pela fronte, foram beijar a terra. Mysterioso hymeneu!

N'aquelle beijo consumava-se um eterno amor. A esperana, succedendo ao
desalento, reanimaria o corpo enfermo e d'aquella unio, fecunda e
casta, sem peccado, brotariam fructos abundantes para matar a fome aos
miseros famintos e para restituirem  vida a alma angustiada.

Dentro em breve, poderia trabalhar quatro a cinco horas no seu campo,
vencendo pelo exercicio e pela perseverana a debilidade physica,
affrontando as instancias dos servos, que se julgavam humilhados vendo
regeitados os seus servios, e desprezando risos equivocos dos visinhos
que entre si discutiam se Claudio era um avaro, se um louco.

-- aquelle mesmo genio do pae, diziam uns. Muito agarrado!

--Qual genio! diziam outros. Foi uma mania que lhe deu. Elle no faz
aquillo para poupar. Parece at que se importa pouco com o que  seu.
Tem perdoado as dividas todas e traz as rendas de rastos.

Para preencher o muito tempo que lhe sobrava do trabalho n'aquella
estreita lavoura, Claudio tomra  sua conta alguns servios de casa
mais ligeiros. Era elle que olhava pelo penso das aves e dos gados que
breve aprenderam a conhecel-o e a festejal-o na sua caracteristica e
descompassada alegria, abeirando-se do seu senhor com as caricias de
gratido que elle recebia com avidez, elle que era to pobre d'essas
dadivas.

Mas no podera banir ainda todas as horas de angustia; a fadiga e os
novos prazeres d'esta existencia nas graas da natureza no tinham
vencido inteiramente as tristezas da meditao. s vezes voltavam os
zumbidos demoniacos do desespero e com elles a prostrao do espirito.
No, no havia modo de se libertar e desprender do passado! A sua vida
estava finda, precisava ter a coragem de comprehender e esperar com
resignao o esphacelamento d'esse involucro que se lhe afigurava
desprezivel e que era o seu corpo.

De longe em longe, vinha a Coimbra. No tinha animo para um rompimento
formal; a dissoluo dos antigos vinculos ia lenta, com bastas
interrupes, prendia-se em conveniencias que no conseguira combater
victoriosamente, e com os estranhos mostrava cuidar da administrao da
casa e estar preso em Villalva por interesses temporaes.

Laura recebia-o com um azedume que no procurava encobrir, mitigado de
contentamento por ter ensejo de mostrar quanto se sentia aggravada pelas
ausencias e pelo viver do marido. Na sua impenitente vaidade, julgava se
perfeita; attribuia o affastamento de Claudio a sentimentos brutaes e
ruins.

J a me deixava entrevr nas suas conversaes entre os intimos a
infelicidade da filha e no perdia occasio de repetir:

--Coitadinha! Quasi sempre s... Meu genro tem aquelles gostos
extravagantes. S est bem entre brutinhos.

Claudio comprehendia o que se passava em volta de si; pouco fallava,
cortando sempre abruptamente qualquer tentativa de explicao sobre o
seu viver.

Antecipadamente sabia, por experiencia, que nem a mulher lograria
fazel-o mudar de rumo nem elle conseguiria emendar o insubmisso caracter
da mulher, formado para o egoismo e para a vaidade n'uma atmosphera de
inconsciente perverso. Por isso se tornra taciturno. Quando por acaso
se encontrava nos seres do palacio da estrada da Beira, apressava-se a
tomar logar a uma meza de jogo onde o dispensassem de conversar e no o
perseguissem com indiscretas e enfadonhas interrogaes sobre os seus
passos e os seus actos.

Logo que podia, ao minimo pretexto, corria a Villalva, lanando fra com
desprezo o casaco que o embaraava de trabalhar e a gravata que tinha
por um farrapo inutil e significativo; mal vestido e mal calado,
comeava a visitar os gados e as plantas, retemperando-se no silencio
d'aquellas montanhas; e este regresso ao ninho, como lhe chamava,
deixava-lhe invariavelmente nas primeiras horas a impresso d'uma
felicidade reconquistada e segura. Accordava-o uma vibrao salutar,
emanada d'esses milhes de vidas, mudas para o corao arido, eloquentes
para os que palpitam na mesma onda.

Em frente da casa de Claudio morava um velho que fra creado de seus
paes. Juntara um escasso mealheiro  custa d'uma economia inflexivel,
casra com a visinha que possuia aquelle albergue em que habitavam, e
com isso e com as terras que o seu antigo senhor lhe dra de renda tinha
prosperado em certa independencia.

Do seu casamento houvera muitos filhos, mas uns tinham ido para o
Brazil, outros trabalhavam em Lisboa, outros tinham-se casado, outros
morrido, e em casa, a este tempo, tinha s um rapaz de quatorze annos
que o ajudava na lavoura e uma filha de vinte annos, e de nome Maria,
que no labutar domestico auxiliava a me alquebrada pelos partos, pela
creao dos filhos, por quarenta annos de ininterrompidas fadigas.

Claudio olhava aquelle casal como um templo em que se guardava pura a
felicidade e a virtude. Era aquillo que elle hoje desejaria para si, se
podesse recomear a sua vida;--ter tirado da terra com o suor do seu
rosto o po de cada dia e ter dado ao mundo uma numerosa prle de gente
honesta e s.

Muitas vezes, ao recolher, quedava-se longas horas a conversar com o
visinho, interrogando-o com uma curiosidade insaciavel, como comera,
d'onde viera para alli, como conseguira crear os filhos. O velho contava
singelamente; parecia sentir prazer em rememorar o passado. Para comprar
os primeiros gados ainda pedira dinheiro ao pae de Claudio, que o do
mealheiro no chegava.

--Que o sr. seu pae, dizia interrompendo a narrao, tinha aquelle
genio... Para os desmazelados era todo imperioso, mas para quem lhe
andasse direitinho era bom, gostava de os ajudar. A mim, era elle mesmo
que s vezes me dizia: Porque no compras mais uma junta de bezerros?
Tens ahi tanto pasto... Eu empresto-te o dinheiro. E ia buscal-o alli,
quella arca da sala onde a sr. sua me, Deus lhe perdoe, guardava as
arrecadas e o cordo. Devo-lhe muito. E c a minha serva de Deus tambem
me ajudou... Deu-me nove filhos e todos se crearam. O Julio morreu mais
cedo, era um rapago! tinha j sete annos. Veio-lhe esta doena, aqui 
garganta, no sei como lhe chamam, e ficou suffocado. Mettia d. Mas
emfim... Deus Nosso Senhor assim o quiz.

Entretanto a rapariga passava levando para a ceia a hortalia lavada na
ribeira; accendia a candeia, e comeava a cortal-a num alguidar, sobre a
meza. A me conchegava o lume  panella de barro, negra, em que a agua
j fervia.

Claudio contemplava aquelle quadro, n'uma adorao em que se envolvia a
tristeza da sua vida desbaratada.

Um dia, trabalhava no campo e, como o sol fosse j alto e a fadiga o
prostrasse, procurando a sombra, sentou-se junto a uma oliveira, ao p
da cancella, enxugando o suor.

Momentos depois, passava Maria, de volta do mercado, descala, o p
comprido e magro, erguendo os braos a amparar o aafate que trazia 
cabea, cruzado no peito o leno branco de ramagens vermelhas.

--D Deus nozes a quem no tem dentes! disse ella avistando Claudio.
Isso at  peccado andar assim a canar-se sem preciso...

Claudio levantou os olhos. Emquanto respondia  rapariga, embaraado,
como desculpando-se, attentou na sua belleza.

Era alta, nervosa, olhos garos, cabellos louros, e assim de p,
sorrindo, os braos erguidos, lembrava uma estatua antiga, d'estas em
que cristalisa o ideal feminino d'um povo inteiro.

--Que linda me pareces! exclamou depois de ter procurado justificar-se
das suas fadigas que Maria tanto estranhava.

--Eu! Linda!...

E riu-se.

--Mal diria que havias de ser bonita quando estava em Albergaria e vinha
aqui s tardes. Ainda me lembro bem!... A maior parte das vezes
encontrava-te a guardares as ovelhas com o cesto da meia no brao e o
fio d'algodo preso no hombro. Agora ests uma mooila que os rapazes
ho-de cubiar.

--No, no se quer d'isso, respondeu ella lisongeada e ao mesmo tempo
envergonhada com o elogio, contorcendo-se timidamente.

E seguiu ladeira acima.

D'ahi em deante, Claudio comeou a prender-se  rapariga. Prolongava a
conversa,  noite, com o pae d'ella para a vr risonha e deligente a
cuidar da casa, e nos dias de mercado era certo a esperal-a  cancella
do seu campo. No trocavam palavras de amor; elle interrogando-a sobre o
seu viver, sobre as suas ambies e os seus prazeres, procurando
penetrar a sua alma, ella respondendo laconica, com um inalteravel
sorriso em que revelava meigamente a sua sympathia.

Claudio, reflectindo na attraco que sentia por Maria, tentava
convencer-se, a poder de logica, de que no tinha tomado novos amores.
Era um symbolo da vida simples, d'aquella que elle julgava a suprema
sabedoria e a suprema virtude. Adorava-a com um fervor intimo,
agradecendo-lhe a revelao d'esse mundo de paz e de felicidade. No
passaria d'alli. Repellia todo o pensamento de concupiscencia; queria
coroar pela castidade esse novo culto.

Maria tinha um campo proximo quelle em que Claudio trabalhava e onde
elle, na impaciencia de a vr, vinha algumas vezes procural-a. Uma tarde
a conversa alongou-se e, j proximo da noite, passou na estrada um rapaz
ligeiro e agil, com um vigor de mocidade que ao primeiro olhar se
mostrava. Ella, vendo-o, disse para Claudio:

--So horas. Vou-me at casa.

E abaixou-se para levantar a cesta que tinha ao lado.

Claudio abaixou-se tambem para a ajudar.

--Oh, Maria! Isso  que so creados!... Muito boa noite, sr. doutor,
gritou de longe o rapaz alegremente.

--Quem  este rapaz? disse Claudio com certa anciedade, parecendo-lhe na
frouxa luz do crepusculo que um ligeiro rubor se derramava nas faces da
rapariga.

--Ento no sabe?... Elle conhece-o. Deu-lhe as boas noites.

--Mas no sei quem . No me lembra de o ter visto.

--J l tem ido a casa.  o filho do tio Antonio da Azinhaga. Mra l
mesmo.

Claudio estremeceu. Passava-lhe uma suspeita no espirito. quella
hora... fazendo caminho por ali.. o modo como se dirigiu a Maria...
Adivinhava! Era o seu namorado!

--Elle gosta de ti?! perguntou apressadamente.

--Creio que sim, respondeu Maria serenamente. Pelo menos assim o diz.

--E tu gostas d'elle?

--No sei... Quando ouo essas coisas, parece-me que no so comigo.
Nunca acredito no que me dizem.

A conversa no continuou. Claudio, confundido, despediu-se de Maria.

--Vou ainda dar um passeio, disse. O luar est to lindo!...

Desceu a tomar a estrada que seguia  beira da varzea ladeada de
oliveiras. A lua subia n'uma serenidade divina, espargindo docemente a
sua luz, e do arvoredo quieto e dos prados onde a neblina pousava,
erguia-se uma tranquillidade augusta em que se sentia a terra latejante
de vida. Claudio parou, voltado para o nascente, ouvindo na contemplao
as vozes mysteriosas que tantas vezes interrogava. Era certo, era certo!
As aves que arrulhavam na rama dos pinheiros, o musgo que rastejava
pelos troncos carcomidos, a pedra alva e fria que o regato polia, as
aguas que desciam pressurosas, todos n'um cro unisono cantavam louvores
ao seu destino. S elle estava proscripto da alegria, pela propria
loucura!

Sentou-se  beira do caminho, a cabea pendida, amparada entre as mos,
n'uma agonia de tristeza.

D'onde lhe vinha essa dr que tanto contradizia a natureza feliz? Bem o
sabia; o seu corao j no se illudia. Uma oppresso de inveja e de
ciume,--eis o segredo de tanta mgoa. Maria tinha o seu namorado. Corra
quando o avistou e quiz logo voltar a casa. Amava-o, era indubitavel. Em
poucos mezes estariam casados; os sinos da egreja haviam de celebrar na
madrugada a sua unio e elle havia de ouvil-os annunciando-lhe a sua
desgraa. Que importava?! No fizera voto de castidade? No era Maria
uma simples imagem perante a qual ajoelhava na adorao da simplicidade?
Tivesse animo, desprendesse-se por uma vez das ambies terrenas,
elevasse a sua alma s regies de eterna beatitude.

Embora! Repetia as palavras do Evangelho: O espirito  prompto mas a
carne  fraca, e no conseguia libertar-se da propria fraqueza,
reconhecendo-a e condemnando-a na sua consciencia. Todos os raciocinios
eram impotentes para dominar a dr. A lembrana de que estavam
terminadas as horas em que a voz de Maria, como um canto de feiticeira,
lhe fazia esquecer toda a desgraa da sua vida, esmagava-o. Iam
roubar-lhe todo o conforto da sua existencia.

A noite foi de agitao. Aos primeiros alvores da manh, por que
anciava, ergueu-se e de casa comeou a espreitar a saida de Maria. No
tardou que ella apparecesse  porta, com um cesto de roupa  cabea. Ia
 ribeira lavar. A rapariga levantou os olhos para a casa de Claudio.

--Meu Deus! disse elle comsigo. Suspeitar o meu tormento?

E saiu ligeiro, pela porta do quintal, tomando por atalhos, a cortar-lhe
o caminho. Chegou abaixo, proximo do rio, e comeou a subir a encosta.
Em breve a encontrava.

--Bom dia, minha rola!

--Que madrugada!... Quando sa, olhei l para casa e vi tudo socegado.
Pensei que ainda estivesse a dormir.

--No, no dormi bem. Dize-me uma coisa, perguntou abruptamente: Quando
 o teu casamento?

--Para a semana dos nove dias.

--Mas aquelle rapaz que hontem passou por ns, quer casar comtigo...

--Quer... mas eu por emquanto  que no quero casar-me. J lh'o disse.

Para Claudio estas palavras foram um completo allivio.

Restituiam-lhe Maria, restituiam-lh'a pelo menos para a sua admirao,
para na sua singeleza reanimar a alma enferma de cogitaes e
contrariedades. Agradeceu-lh'o com um olhar, sem se atrever a uma
confisso em que temia manchar a candidez dos seus sentimentos, e voltou
a casa alegre e repousado, cantando, a cuidar dos gados.

Continuava o idyllio, as palestras com Maria e o trabalho na lavoura.
Sentia-se vigoroso e forte; nenhumas fadigas o alquebravam. Pela
madrugada estava a p, distribuindo o penso aos gados. Almoava um
pedao de bra com um ligeiro condimento e vinha para o campo. No havia
j servio de que no fosse capaz; tudo estava em o saber distribuir e
alternar. Prendia-se  terra com um amor febril, talvez n'uma vaga
ambio de igualar Maria e por isso melhor a merecer. A rapariga
estranhava todos os devaneios de Claudio, perguntava-lhe se no era
melhor viver na riqueza, mas sorria perante as razes que elle lhe dava
e que despertavam no seu corao um impulso de meiga sympathia.

Um dia, Claudio veiu para o trabalho sem ainda ter visto Maria. Algumas
vezes isso lhe acontecia mas sempre o deixava aprehensivo e triste;
ento, o trabalho caminhava lento, os braos a custo podiam com a
enxada. Era mal sem remedio; a me de Maria  que distribuia o servio e
nem sempre podia saber antecipadamente em que se consumiria a manh.

Como era dia de mercado, suppoz que tivesse saido mais cedo e
resignou-se com a lembrana de a vr no regresso. Embalde porm a
esperou. Maria no veiu, em todo o dia no poude encontral-a. Ficava
inquieto. O que seria? Doena? Teria partido para fra da aldeia? O
espirito perdia-se-lhe em conjecturas. Pensava em parar  tarde a
conversar com o pae, como fazia muitas vezes, mas o velho veiu a casa de
Claudio para vr umas vitellas que este mandra vir de Miranda e por ali
se quedou, no pateo, at  hora da ceia.

Desfeita esta ultima esperana, a inquietao redobrou. Para a acalmar,
saiu n'um longo passeio, subindo pelos atalhos da serra. Queria muito
quella aspera nudez dos montes, que infundia na sua alma sentimentos de
fora e tenacidade na vida ingrata, sujeita ao aoite de todas as
intemperies, despida de todo o vio e de toda a doura.

A noite ia adeantada, j ha muito tinham batido as dez horas. Desceu 
aldeia.

Quando avistou a casa de Maria, pareceu-lhe descobrir um vulto debruado
no muro da eira que era junto  rua. Aproximando-se, a sua suspeita
confirmava-se. Era ella. Que felicidade! Todas as inquietaes iam
cessar.

--Boa noite, Maria. Que fazes aqui?

--Ouvi meu pae dizer que o tinha visto sair, deixei-o adormecer e agora
estava  sua espera. Quero muito fallar-lhe.

Na sua voz percebia-se a perturbao interior. Claudio sentiu um fremito
de terror.

--O que foi?! perguntou confundido.

Maria contou-lhe ento que tinham dito  me que elle a namorava, que
todas as manhs a esperava  porta do campo. A me reprehendera-a e
prohibira-lhe que lhe tornasse a fallar, a no ser em casa ou quando
outras pessoas estivessem presentes. Ameaara-a de o dizer ao pae, que
nada sabia ainda, e de a mandar servir para longe, se continuasse.

--Esquea-se de mim, esquea-se de mim, foi o singelo pedido com que
respondeu a todos os rogos e protestos apaixonados de Claudio que a
deixou assegurando-lhe que ia voltar a Coimbra e que havia de procurar
esquecel-a. Bem sabia que no poderia fazel-o, que isso no dependia da
sua vontade, mas queria deixal-a tranquilla, sentindo-se feliz pelo
sacrificio.

Interiormente, quasi estava contente. Estes amores que terminavam sem
macula engrandeciam-se aos seus olhos por este facto: a abdicao de
todos os seus desejos em proveito da felicidade de Maria coroava d'uma
maneira gloriosa o culto que lhe consagrra.

Enlevava-se em cristallinos sonhos de pureza, n'um amor sublimado. Iria
a Coimbra, soffreria a tortura de viver ali durante um ou dois mezes e,
quando voltasse a Villalva, saberia dominar-se, affastando-se de Maria.
De longe, silenciosamente, faria sua a alegria da sua amada onde a
encontrasse, ou cantando na romaria ao lado do namorado ou batendo a
roupa sobre as lageas do rio,  sombra dos salgueiros.

Partiu pela manh, recommendando repetidas vezes aos creados os gados,
as aves e as plantas. Iam sentir a sua ausencia. Com um carinho em que a
saudade e a tristeza transpareciam, indicava aquellas flores que
careciam de regas mais frequentes, a hora a que convinha levar o gado ao
pasto.

Deixava-os! pensava. Eram os melhores companheiros da sua vida. Aquelles
sim, aquelles nunca lhe mentiam e sabiam agradecer as suas fadigas,
prosperando e prodigalisando os fructos, derramando em torno a
abundancia e a belleza.

Foi a p, seguindo os caminhos menos frequentados. Procurava bastas
vezes vencer pelo movimento e pelo cansao a agitao do espirito; por
experiencia sabia quanto o silencio e a contemplao da natureza lhe
eram salutares. Captivavam-n'o, pareciam communicar-lhe uma parcella da
sua serenidade.

Em Coimbra, o seu regresso inesperado foi visto com grande estranheza.
No que elle tivesse deixado completamente de l ir mas, sempre que o
fazia, a sua vinda era previamente conhecida pelo facto de mandar ir a
carruagem a Villalva... D'ordinario, demorava-se um ou dois dias dando
soluo aos negocios da casa e entregando pontualmente  mulher todos os
rendimentos. Ficra assente pelo simples uso, sem qualquer declarao
formal, que os rendimentos de toda a casa pertenceriam a Laura, que
d'elles dispunha como queria, e para elle s reservaria os bens de
Villalva.

De resto, Claudio supportava este encargo de visitar e administrar a
casa sem maior contrariedade apparente. Transpondo o porto da estrada
da Beira era outro; envergava os trajos da gente da cidade e com elles
rehavia antigos habitos de polidez e de delicadeza mundana. s vezes,
parecia mesmo contente; a certeza de que dentro em pouco voltaria ao seu
casal, perdido entre as montanhas permittia-lhe tolerar resignadamente,
porventura bondosamente, os costumes que no intimo condemnava e
aborrecia. Intencionalmente evitava fallar de Villalva; quando alguem
tinha a indiscrio de lhe perguntar pelas suas lavouras, respondia com
um laconismo que cortava todo o seguimento da conversa.

Na sua ausencia, porm, o seu viver era muito discutido. Em geral,
julgavam-n'o um maniaco. Laura e D. Maria Francisca tinham-n'o por um
homem brutal, destituido de todo o sentimento de bondade; o abandono da
mulher e do filho, que alis viviam na abundancia e no luxo,
pareciam-lhes um crime. S D. Pedro o desculpava; sempre respeitra
muito a liberdade de pensar de cada um, dizia, para que lhe respeitassem
a sua.

--Gosta de andar de tamancos e tratar dos bois. Est no seu direito! E
tu, dizia para a mulher, no gostas de trazer plumas no chapu e de
jogar o _whist_?  a mesma cousa! Eu tenho-o encontrado sempre muito bom
rapaz... Traz ahi a Laura com todas as commodidades e ainda fallam
d'elle!

A vida desregrada e a estreiteza de espirito no tinham pervertido o
corao do fidalgo. Incapaz de uma bondade activa, conservava um
constante pendor  indulgencia e tinha, como homem enfastiado do
mundanismo, certa attraco para os caracteres que se desviavam dos
typos consagrados. Por isso estimava o genro e o defendia.

Levava o seu affecto at ao ponto de o visitar em Villalva, quando nas
caadas se encaminhava para esses lados.

Entrava-lhe em casa com os seus lebreiros que se estiravam na sala,
offegantes, a lingua pendente e humida, ostentando a dentadura recurva e
eburnea.

Claudio recebia-o com sincero contentamento e affagava a matilha cujas
proezas D. Pedro logo comeava a narrar.

D. Maria Francisca escandalisava-se com essas visitas que destoavam da
sua attitude reservada com Claudio. Se por acaso acontecia que o marido
dormisse em Villalva, para alongar a caada, s vezes mesmo em companhia
dos seus hospedes beires, no deixava de o reprehender, escarnecendo.

--Bom gosto, dizia, levares os teus hospedes a esses palacios! Ha-de-se
l dormir muito bem e com muita limpeza!

--Ol se dorme! respondia o fiadalgo rindo dos assomos da mulher. O
Manoel de Vasconcellos ainda agora me escreveu de Lisboa a chorar pela
ceia que Claudio nos tinha dado. E tem razo! Aquelle lombo de porco,
assado no espeto, alli  lareira, nunca mais esquece.

No mesmo dia em que Claudio chegou a Coimbra foi  noite a casa dos
sogros.

A sua presena despertou grande curiosidade entre os convivas, que eram
muitos. Todos o rodeavam, e muitos, estranhando a sua magreza,
perguntavam se tinha passado mal ou soffrido qualquer doena.

--No, tenho passado excellentemente, magnifico, mesmo muito vigoroso,
respondia Claudio.

Na verdade, estava magro, os olhos encovados, as faces enrugadas.
Illudia-se tomando por vigor a excitao em que o trabalho physico e a
intensidade das impresses moraes o traziam. O organismo empobrecia-se.

--Deve ter cuidado, deve ter cuidado, repetiam insistindo os que o
cercavam.

--Talvez uns ares e uns banhos do mar... aventou alguem. Que diz o
doutor?

Este doutor era um medico que ha pouco tinha tomado capello em medicina
e se preparava para lente da Universidade.

Muito vaidoso, tendo lido e decorado grossos volumes sobre doenas
nervosas, escriptos em francez, julgava-se senhor de toda a sciencia e
deixava perceber, sem abertamente o declarar, para no crear antipathias
que lhe prejudicassem a entrada na Universidade, que os lentes nada
sabiam. Elle  que estava ao par dos trabalhos modernos. Gostava que o
consultassem, tomando a consulta como reconhecimento dos seus talentos,
e fallava pausadamente, cathedraticamente.

--Eu lhe digo, respondeu emphatico ao seu interlocutor, hoje a sciencia
tem feito grandes progressos que, digamos de passagem, so quasi
completamente ignorados em Portugal. Infelizmente, entre ns, estuda-se
muito pouco; com excepo de meia duzia de homens de verdadeiro talento
e de saber, no geral cura-se por uns processos rotineiros de que a
medicina estrangeira se ri. Principalmente de doenas nervosas
conhece-se muito pouco... mesmo muito pouco! Quando ultimamente defendi
theses, tive occasio de ouvir as criticas mais extravagantes.
Convenci-me de que a materia era perfeita novidade para os meus
collegas. N'um caso, por exemplo, como este do dr. Claudio, o que a
sciencia aconselha  no s o exame de todo o organismo mas
particularmente a observao das manifestaes nervosas.  cousa que
demanda um grande tacto... um grandis...simo tacto! Qualquer medico que
o visse, naturalmente aconselhava-lhe os tonicos e os reconstituintes.
Tem uma apparencia de fraqueza e guiava-se por ella. Seria um erro! O
dr. Claudio diz-nos que se sente vigoroso e est ao mesmo tempo com
apparencias de fraqueza? Evidentemente, ha um desequilibrio entre a
fora organica e a actividade nervosa, que  necessario combater. Uma
vida tranquilla e particularmente o aspecto das montanhas, o espectaculo
da quietao  o que hoje se recommenda n'estes casos. O mar em caso
algum; a sua agitao  communicativa. Eu creio que o dr. Claudio
ganharia muito em passar dois ou tres mezes na Suissa.

--No digo que no, meu caro doutor, respondeu Claudio disfarando mal
um sorriso, mas nem sempre se pdem tomar remedios... to energicos.
So, ainda que mal lhe parea, depauperantes em alto grau. Da algibeira,
 claro.

--Sim... mas nas circunstancias de v. ex. isso no  motivo.

--Eu no digo que rejeite por completo o tratamento, mas tomo-o em dse
mais moderada. Uma digresso pelo Minho ser o bastante.

--Mas creia v. ex. que isso no lhe d resultado. O que tem
desacreditado muitas vezes a therapeutica moderna  deixarem de a seguir
com todo o rigor que a sciencia aconselha.

Claudio ria-se da presumpo do medico e ia aproveitando o conselho,
porque lhe convinha. J antes tinha pensado que a permanencia em Coimbra
no podia fazer-lhe bem; as incorrigiveis exigencias de Laura, de que
nem o abandono do marido a curara, os seres em casa dos Albuquerques,
toda a rede de impostura, de mentira e de futilidade que  o caracter da
vida elegante, contrariavam-n'o e irritavam-n'o. Precisava fugir d'alli.

Seguiria pelo Minho quasi at  fronteira e d'ahi, por Montalegre e
Chaves, desceria ao Douro para o atravessar e passar  provincia da
Beira Alta d'onde voltaria a Coimbra. Terras novas e novas paizagens
haviam de o ajudar a vencer a inquietao em que o amor o trazia.

Ao fim d'um mez, talvez podesse regressar a Villalva inteiramente de
posse da sua vontade que empregaria com firmeza em evitar quanto podesse
levantar a mais ligeira duvida sobre a honra de Maria. Ia pr-se a
caminho.

Saiu de Coimbra por uma madrugada humida e fria. Vinha rompendo o dia.
No rio a nevoa e as aguas confundiam-se envolvendo as sombras incertas
dos salgueiraes e dos choupos que se banhavam e retemperavam como deuses
pagos, em ondas claras.

Claudio affastava d'ali os olhos. Era a paz no turbilho da vida
ingenua, era o fructo prohibido dos seus anceios, uma recordao amarga.

Do outro lado, subindo os montes, pelas cumiadas e pelos valles
estendia-se a casaria da cidade. Illuminadas pela alvorada que se
espraiava empallidecendo o ceu, surgiam as torres, os corucheus e as
cupulas dominando e protegendo os tectos negros que, afundando-se pelas
quebradas, rastejavam em torno d'aquelles vultos de linhas nobres, ora
magestosos, ora audazes, ora suavemente graciosos. Quantas lagrimas,
quanta tortura e miseria despertavam com a manh d'aquella massa
obscura! Um sentimento de piedade lhe apertou o corao, e logo o
remorso comeou a perseguil-o implacavelmente. Tambem elle era
criminoso, tambem elle semeiara lagrimas, tambem elle ateiara com os
seus desvarios o fogo das paixes que alimentam a miseria!

Porque saira de Villalva, porque no ficra ali como seus paes modesto e
ignorado? Talvez... talvez... Uma suspeita lhe passava pelo espirito...
Talvez ento vivesse contente com Maria, no seu casal abenoado e
fecundo. Ai, quanta saudade d'essa felicidade ignorada que s em sonhos
sentira!

Sob esse sentimento deixava Coimbra e com elle ahi regressaria. Levava
comsigo a saudade da vida que jmais o abandonaria e que agora se
personificara poeticamente na lembrana de Maria.

Parou em Aveiro. Estivera ali, quando estudante. Ficra-lhe d'aquellas
terras uma boa recordao. A belleza das mulheres, altas, d'um raro
concerto de majestade e de graa nos seus trajos esguios, a payzagem
viosa e ampla, em que a luz se attenua e pulverisa sobre as aguas
extensas e na atmosphera humida, os costumes, a liberdade sem altivez do
povo trabalhador e independente, tudo isso o incitava a voltar a Aveiro.

Apenas chegou, percorreu vagarosamente a cidade. Dava-lhe agora uma
impresso de silencio, de calma, de desolao que provocava a tristeza.
O movimento nas ruas era pequeno; as officinas e as fabricas, com os
seus ruidos caracteristos, muito poucas. Enganra-se; no era aquillo
que tinha na memoria.

Pela manh percorreu os caes. Saiam os barcos levando os pescadores para
a ria e os marnotos para as salinas; a jarra da agua, o cesto com o
almoo e o gabo era toda a sua bagagem. Deixavam a casita onde se
abrigava o lar e o bero, e deixavam a guardal-a a companheira da sua
vida; voltariam  tarde, a trazer-lhe generosos o po que haviam ganho
durante o dia, sujeitos aos azares da fortuna, aos perigos do mar e aos
ardores d'um abrazado estio. Tambem assim era em Villalva, tambem
quella hora Maria desceria a encosta a mourejar pelos campos e pela
serra aspera.

A saudade dominava-o. No era a cidade que estava deserta, era o animo
que faltava ao seu corao. Os olhos recusavam-se a vr o que se passava
em torno, constantemente voltados para uma imagem interior.

Estes dois dias desenganavam-n'o do resultado da viagem. Seria inutil.
Ia proseguir, mas adivinhra j o que o esperava. Toda a terra lhe
parecia arida e silenciosa; em toda ella s poderia prender-se ao que
lhe recordasse a existencia de Maria.

Uma tarde, em Vizella, do crepusculo j adeantado, aos primeiros
reverberos das estrellas, passeiava  beira do rio e, como se sentisse
fatigado, encostou-se sobre um rochedo e adormeceu. Um vento agreste
batia as cumiadas dos montes, aoitando as arvores que se curvavam
desgrenhadas, mas no valle os amieiros apenas se balouavam mollemente
nas brizas humidas que corriam sobre as aguas. Claudio aproveitava o
favr da natureza e no torpor que precedia o somno fixava os olhos com
gratido n'este espectaculo de feliz remanso.

Sonhava, e no sonho a imagem de Maria associava-se s palpitaes da
natureza. O rio transfomra-se em alvas nuvens que pousavam sobre o seu
leito apertadas na cinta de salgueiros; entre ellas, como uma appario,
em meio d'um nimbo de claridade vermelha e candente, uma cosinha pobre e
uma rapariga curvada sobre a lareira ateando o lume que se erguia em
labaredas fugidias. Ao longe sentiam-se as lufadas do vento mordendo as
cearas que ondulavam. N'essa lucta, o corpo humilde e fragil cubiava o
calor vivificante que irradiava do facho luminoso.

Por um estranho acaso repetia-se o que vira nos Casaes quando ha muitos
annos vinha com Emilia de S. Braz. Estava ali a imagem da sua vida, das
suas ambies, da sua felicidade, da tempestade que o cercava. Corre-se
a aquecer-se ao fogo redemptor da simplicidade que a imaginao
sobrexcitada lhe mostrava n'um quadro tentador.

O seu regresso a Villalva ficava resolvido. Para que ir mais longe? Em
vo! em vo!... Mais uma vez repetia estas palavras com que to
dolorosamente terminara tanta illuso da sua vida.

Voltava a Villalva, depois de curtas semanas de ausencia, vencido pela
saudade. Vinha na persuaso de que o trabalho na lavoura e a simples
presena de Maria o curariam de todo o mal. No precisava de fallar-lhe,
no precisava d'essas arrastadas conversas  beira da estrada que os
estranhos viram com suspeio. No estava ella divinisada no culto que o
seu corao lhe consagrava? Uma adorao muda e casta bastaria a
satisfazel-o.

A jornada para Coimbra foi rapida. s pessoas de familia disse que se
apressara a voltar porque se sentia bem de saude e n'aquelle tempo havia
muito que fazer. Para evitar explicaes que o contrariavam, seguiu
immediatamente para Villalva onde chegou noite cerrada.

Os creados receberam-n'o surprehendidos e alegres, dando-lhe conta do
estado dos gados, das sementeiras, de tudo o que succedera n'aquella
pacifica solido. Claudio ouviu-os sem impaciencia e visitou os
estabulos acariciando os animaes que o reconheciam.

Dominando a impaciencia de tornar a vr Maria, julgava-se victorioso e
comeava a sentir, penetrado de delicias, a realisao dos seus sonhos
de castidade.

J tarde, abeirou-se da janella e contemplou a aldeia recolhida no valle
apertado. Tudo dormia. Olhava a casita que abrigava Maria e tremia em
inquietaes d'amor. Tambem ella dormiria? Porventura tel-o-ia
esquecido?... Fixava os astros, escutava as auras da noite procurando o
segredo da sua vida, mas a aldeia jazia silenciosa num somno de fadiga.

--Amanh, amanh!...

N'esta risonha esperana adormecia tambem.

Pela madrugada desceu ao campo. No tardou que Maria apparecesse
tangendo o burro que conduzia a moenda. Ao vl-a sentiu como uma
vertigem em que o sangue lhe corria ao corao. Ella sorria de alegria.
Em poucas palavras ajustaram encontrar-se  noite, muito tarde, junto ao
muro da eira, quando ninguem os visse.

Em todo o dia Claudio trabalhou com um contentamento e um vigor
desusados. Estranhava as suas foras. Como acontecia que, depois de
tanto tempo de repouso, no sentisse a menor fadiga? Na excitao em que
o deixava a certeza do amor de Maria, illudia-se; tomava como um
triumpho do seu corpo o que era apenas uma passageira febre.

Depois da ceia, saiu. Ninguem o estranhava em casa; fazia-o frequentes
vezes para acalmar a inquietao do espirito.

Ao bater das onze horas esperava Maria junto ao muro. Sentiu-se um
ligeiro bulicio de folhas seccas. Era ella que se aproximava pisando
descala a caruma que cobria a eira.

Claudio comeou ento a contar o que soffrera na jornada, como os dias
lhe pareciam longos, como em toda a parte via a imagem de Maria.

--No sei viver sem ti. Sou to infeliz que preciso da tua voz para me
dar animo.

Como ella ouvisse silenciosa, a noite estivesse escura e no podesse
avaliar na physionomia a impresso das suas palavras, perguntou-lhe:

--E tu? tambem tinhas saudades minhas?

--Cada um sabe de si, respondeu Maria timidamente.

O incendio estava lanado. Vieram as confisses d'affecto em seres
prolongados pela noite calma, as caricias, as tentaes e os impetos
d'amor. Essa castidade no contacto da natureza e na adorao das cousas
simples que Claudio sonhra, doente do affastamento e da saudade de
Maria, voava desfeita como todas as bastas illuses da sua vida.

A simplicidade  vigorosa e sadia, e o vigor  naturalista. A luz do sol
e toda a terra cantam o amor fecundo.

Esse mesmo frenesi com que Claudio revolvia o solo lanando-lhe a
semente, era uma forma de fecundao, a anciedade de crear e multiplicar
as formas e a vida, um agitar de seiva que se confundia com o desejo da
sua amada.

Uma noite adormeceu no regao da sua amada; ella, cariciosamente,
consentiu-o. Dormiu um somno breve, povoado de enlevos amorosos e
acordou n'um arrebatamento de paixo em que toda a pureza angelica cedeu
ao sangue encandecido.

No se passou muito tempo sem que Maria apparecesse com o rosto
desbotado, os olhos cavados, toda alquebrada d'uma desconhecida molleza.
Adoecia das primeiras perturbaes de gravidez.

Chorando, confessou  me a sua desgraa.

--Que fizeste, que fizeste?! exclamava a me chorando tambem. Que
vergonha a nossa!

Claudio sentia-se contente, realisada toda a sua ambio. Estava
finalmente livre de todas as convenes com que tinha rompido,
inconscientemente, levado pelo amor de Maria, e d'esse amor ia ter
filhos que elle saberia guardar das tentaes mundanas, guiando-os a uma
existencia de simplicidade. D'esta vez a felicidade era segura e certa.

Uma cousa, porm, preoccupava os amantes. A gravidez de Maria
adeantava-se, j na aldeia todos a suspeitavam com ditos e remoques que
a rapariga presentia e soffria resignadamente porque era a vontade
d'elle, de Claudio. Tarde ou cedo, o pae teria de o saber tambem, mais
cedo do que tarde, que o tempo urgia.

Combinou-se que a me lh'o annunciaria e assim se fez.

Elle ouviu em silencio, suffocado pela colera, e, nas primeiras palavras
que poude articular, disse apenas:

--Tira-me j de casa esse esterco! Se a torno a vr, esmago-a!

E saiu tremulo, afogueado em ira.

--Claudio, Claudio!... pensava no doido caminhar em que a dr o levava.
Se fosse outro... matava-o! Matava-o, sim! Mas elle, o filho do meu
protector...

Vinham-lhe  lembrana todas as esmolas que tinha recebido da casa de
Claudio; no ousava revoltar-se.

Sentou-se sobre um muro baixo, ao lado da estrada. Sentia no sei qu a
cravar-se-lhe na cabea, do lado esquerdo.

Os labios humedeciam-se de espuma. Pouco e pouco o corpo inclinou-se
para a frente, e caiu, perdidos os sentidos, ferindo o rosto nas pedras
agudas do cho.

Trouxeram-n'o para casa em braos, semi-morto, e foram  villa chamar o
dr. Carvalho. O velho tinha sido acommettido d'uma congesto cerebral.

--Muito mal, muito mal, por milagre escaparia, dissera o medico meneando
a cabea.

Por acaso, Claudio estava no jardim, olhando o pr do sol, quando os
visinhos trouxeram o corpo do pae de Maria. Sabia que n'aquelle dia elle
havia de ter conhecimento da gravidez da filha e, adivinhando
immediatamente o que se passava, correu a esconder-se em casa antes que
se aproximassem e o vissem.

Os braos pendidos, o olhar desvairado, deixou-se cair sobre o escabello
da sala, immovel de assombro. D'esta vez era certo o crime! Fra elle,
fra elle que o assassinra levando-lhe a deshonra ao lar! E no morria
tambem!... Pasmava da propria frieza e indifferena. Olhava o seu corpo,
os seus braos, as suas mos, o seu peito como duvidando da sua
existencia. Respirava, vivia, era o mesmo, elle, agora assassino, que
n'aquelle logar, n'aquella sala ajoelhra erguendo a Deus as suas
primeiras oraes e se prostrra perante o cadaver da me pedindo  sua
alma inspirao e conselho! No, no podia ser! Era outro, era outro!...

O assombro crescia e a repugnancia por esse novo homem redobrava.

Levantou-se, p ante p, e foi  porta espreitar se havia alguem no
pateo. Ninguem! Provavelmente tinham corrido todos a casa do velho.
Aproveitou o ensejo e fugiu a perder-se nos montes, pelos caminhos
desertos, escondido, ao abrigo dos muros que vedavam os campos.

Esperou a noite que caiu serena, sem luar, estrellada e profunda. Ia
descer  aldeia. Para qu? No era melhor seguir errante, em penitencia,
expirando o seu crime, a esmolar por terras ignoradas e a servir
desconhecidos, descalo, miseravel, rojando-se humildemente?

Maria, Maria!...

O amor vencia todas as dres e ainda n'aquella angustia os braos
estendiam-se a procural-a.

Desceu, e comeou a vaguear em volta da eira de Maria. Tudo dormia n'um
grande silencio e apenas por uma fresta se percebia um reflexo de luz.

Tinha fome. Voltou a casa a pedir a ceia.

--Ai que desgraa aquella do pobre tio Manoel! exclamou a velha creada
ao vl-o.

--J sei, j sei, apressou-se Claudio a interromper com firmeza. Venho
agora de l. Muitos annos, muitos annos... Coitado!

--Deus Nosso Senhor o salve que ainda faz falta quella pobre gente...

--Hoje sim, hoje j me deixa mais contente, dizia a creada alguns
momentos depois levantando da meza os pratos vasios e estranhando a
voracidade com que Claudio tinha comido.

--O passeio foi larguito, replicou elle como que explicando.

Levantou-se e tornou a sair. Queria vr Maria. O que seria d'ella?

Dirigiu-se ao logar em que costumava fallar-lhe e no ponto em que o muro
era mais baixo saltou para dentro da eira. Esperou. No vinha ninguem.
No se lembrava ella de que Claudio estava alli ou no queria tornar a
vl-o? Um suor de afflico lhe cobria o corpo e o receio da condemnao
de Maria vencia o remorso do crime.

Impaciente, atravessou a eira e foi collar o ouvido a uma pequena fresta
que dava luz  cosinha. Silencio! Ninguem se movia.

Recuou. Reflectia agora na sua imprudencia. Podia ter apparecido alguem
e aquelles passos occultos seriam a confisso do seu crime. Coragem!
Porque no iria antes francamente saber do seu visinho? Era natural.
Demais, j dissera  creada que tinha l ido e precisava que no o
encontrassem em mentira.

Saltou novamente o muro. Sem hesitar, como possuido d'uma resoluo
serena e inabalavel, subiu os degraus da casa de Maria, lanou a mo 
aldraba da porta e, cauteloso, abriu-a suavemente.

Foi Maria que veio vr quem entrava, assomando  porta que communicava a
sala com o interior. Parou um instante surprehendida. Na escurido s
cortada pela languida claridade que vinha da pequena lampada ardendo aos
ps d'um crucifixo, a sua physionomia mostrava a mais profunda
mortificao. Ia queixar-se, ia perguntar a Claudio porque s agora
vinha e a abandonra. Mas elle, adeantando-se, apertou-lhe
freneticamente as mos e o peito agitado pelos soluos, sem proferir uma
s palavra, fitou-a, deixando correr as lagrimas.

Com um instincto seguro, Maria comprehendeu o que se passava na alma de
Claudio e transformando em piedade os queixumes que trasbordavam do seu
corao:

--No chore, no chore, disse consolando-o. Foi a minha sorte, foi a
minha sorte! Foi Deus que assim o quiz.

As lagrimas de Claudio redobravam, mas agora de gratido pelo amor de
Maria. Era ella, a victima, que vinha consolar o criminoso! Dominava-o
uma impresso de espanto.

Encontrava ali, n'aquelle pobre tugurio, o que fora a maior ambio da
sua vida, o amor. N'um lampejo, em meio da vertigem de sentimentos que
lhe dilacerava o peito, lembrou-se de Laura e comprehendeu toda a
grandeza de Maria. Para Laura, amar era possuir, era guardar zelosamente
uma fonte de gosos; para Maria, amar era servir, era sacrificar-se e
consumir se protegendo uma vida estranha e abdicando de toda a dr e de
todo o prazer da propria existencia. No podia furtar-se a um secreto
contentamento descobrindo em plena consciencia o thesouro de que estava
senhor. Negra aberrao! pensava, sentindo-se aviltado. Tambem  hora do
crime tinha alegrias! Oh, ainda uma vez, mysterio amargo!...

O medico voltou de manh e achou que o doente estava melhor. J ouvia e
j se lhe divisavam ligeiros movimentos.

--Temos homem! disse voltando-se para a familia, quando o examinava,
curvado sobre o leito. Com setenta e sete annos!  preciso ser rijo.

Claudio, ancioso por se informar do estado do pae de Maria, espreitra
desde o alvorecer a vinda do dr. Carvalho. Vira-o entrar em casa d'ella
e veiu para o jardim, a limpar as hervas d'uns vasos de flores que
estavam pousados sobre o muro sobranceiro  rua.

O dr. Carvalho, ao sair, immediatamente deu com os olhos n'elle.

--Ora isso  que  madrugar, disse chamando a atteno de Claudio.

--Suba, suba, respondeu Claudio, mostrando-se risonho e despreoceupado.
Ento j no quer nada com esta casa?

O dr. subiu.

--Como encontrou o doente? perguntou Claudio.

O dr. Carvalho explicou ento em termos da sua arte, para mostrar saber,
que o velho tinha grandes melhoras. Recuperra os sentidos, percebiam-se
j alguns movimentos, e quando em to poucas horas se apresentavam
symptomas d'aquella importancia, d'ordinario a salvao era certa. No
dizia que tornasse a ser homem para o trabalho, mas esperava pl-o a p.
Ainda ha pouco tivera, em Aradas, o Gusmo n'aquelle mesmo estado. A
mesma cousa, exactamente a mesma cousa! Viera o dr. Madail, que  l
muito de casa de seus sogros e que se tem por um chavo, dizia, e foi de
parecer que no merecia a pena tratal-o.

--Pois, meu amigo, tomei conta do homem e j corre a casa toda,
encostado a uma bengala!

--Deus queira que o mesmo lhe acontea aqui, respondeu Claudio.

Interiormente sentindo grande allivio com as palavras do medico, para
no revelar uma insistencia que poderia tornar-se suspeita, mudando
rapidamente de conversa, perguntou:

--E por Albergaria que ha de novo?

--A mesma paz podre. O dr. no quer nada comnosco. Tem razo e... bom
gosto. Est por aqui muito entretido, respondeu o Carvalho atrevida e
maliciosamente, batendo com a mo no hombro de Claudio e sorrindo-se.

Claudio percebeu a alluso. Tremendo da conversa, apressou-se a
cortal-a.

--Venha c, quero mostrar-lhe em que me entretenho. Venha vr os meus
mirandezes. Estou contentissimo. Comem admiravelmente, so rijos no
trabalho e conservam a carne d'uma frma espantosa.

Proseguiu alguns instantes a fallar dos bois, n'uma apertada
continuidade, para que o medico no podesse rehaver a palavra e reatar a
conversa que tinha tentado encetar. Sabia at que ponto ia n'essa
materia a ousadia do dr. Carvalho, temia que elle viesse perguntar-lhe
pelos amores de Maria, que eram j sabidos na villa, e no queria
profanal-os com os commentarios de concupiscencia que por certo no
faltariam. Por isso foi d'uma rara loquacidade emquanto no viu sair o
seu terrivel hospede.

As previses do medico realisavam-se. O velho continuou a melhorar; ao
fim d'um mez, embora d'uma extraordinaria irritabilidade e com perrices
infantis que revelavam a debilidade cerebral de que jmais se curaria,
parecia ter rehavido a razo. No podia porm mover-se; a perna e o
brao esquerdos estavam inteiramente paralyticos, e por tal motivo se
conservava no leito.

Do passado devia ter boa memoria. Havia um manifesto proposito em nunca
proferir o nome da filha. Maria deixou de lhe apparecer mal elle
recuperou a vista, por se conhecer que a sua presena o impacientava, e
elle rehavendo a sua antiga firmeza de caracter, nem uma s vez
perguntou mais por ella.

N'estas circumstancias, passados os dias de desvairamento em que o
desastre o lanou, Claudio, reflectindo, resolveu trazer Maria para
casa. J que a tinha privado, por sua culpa, da proteco paterna,
devia-lhe o amparo que a sua desgraa exigia.

Demais, o seu amor no affrouxra, antes se radicra, n'essas horas
tragicas. A sorridente resignao de Maria, o piedoso carinho com que
reprimira as proprias lagrimas para enxugar as de Claudio, elevaram-n'a
na sua adorao e circumdavam a sua figura d'uma aurola de bondade
simples que perpetuamente havia de a illuminar. A inteira posse d'essa
creatura angelica compensava-o de muita amargura. Apesar de to recentes
motivos de profunda dr, no podia furtar-se a uma intima alegria.

Em breve, tinha mais um filho. Quando elle nasceu, pareceu-lhe que a sua
vida e a sua felicidade d'esta vez se completavam na realisao de todas
as suas ambies. Olhava o bero encanastrado, coberto com um grosseiro
retalho da manta que Maria fira emquanto no monte guardava as ovelhas.
Comparava-o com o outro que deixra na estrada da Beira, a espumar de
rendas finas, compradas caras e vindas de longe, urdidas por mos
desconhecidas.

Sentia ali duas almas differentes: via n'uma a sensualidade estreme, uma
caricia dos olhos e de todo o corpo, via na outra uma historia de
singeleza e de trabalho, os placidos dias guiando o gado pelas serras,
as mos tisnadas ao sol, lanando o fuso e distendendo a l.

Atravez de mil angustias, que fortuna lhe concedia o destino, que horas
de paz e de poesia lhe promettia aquelle bero emballado pelos mesmos
cantares que ouvira na sua infancia! Era feliz. Um sentimento de
gratido lhe penetrava docemente o peito.

Assim terminava o primeiro acto d'este idyllio dramatico.

Em Coimbra, todos estes factos foram sabidos e commentados com rancor
por D. Maria Francisca e pela filha, com simples curiosidade pelos
frequentadores habituaes do palacio da estrada da Beira que, emquanto
esperavam o ch, debatiam o caso em voz discreta agrupando-se nos cantos
mais afastados da sala.

Interiormente indifferentes, no seu egoismo satisfeito com os ordenados
pagos em dia e as digestes abundantes e tranquillas que os encaminhavam
 obesidade, procuravam gestos de mgoa para successivamente exclamarem:

--Que pena! que pena! Um rapaz to intelligente e que podia viver to
bem... casado com uma menina de to boa educao...

Os de melhor consciencia, alguns lentes que porventura se lembravam das
suas concupiscentes ousadias com as creadas, accrescentavam
indulgentemente:

--Fraquezas! Todos as tm... Afinal tudo isso lhe ha-de passar e elle
hade voltar  mulher e aos filhos.

Laura ficou apopletica de colera quando soube pela me as circumstancias
em que o marido se encontrava. A sua inflexivel vaidade soffria um
profundissimo golpe com a demonstrao quasi publica de ficar preterida
por uma mulher do povo.

--No quero ser d'esse homem nem mais um instante! Vou mandar chamar o
dr. Moraes para me tratar da separao.  demais!... Com uma mulher de
p descalo! At me mette nojo! Que me ponha para c o que  meu...

Ao ouvir estas palavras, D. Maria Francisca pensou que Laura tinha
casado com separao de bens, e, reflectindo em que o divorcio poderia
trazer-lhe grande prejuizo, apressou-se a aconselhar com insistencia:

--Oh, filhinha, isso no, isso no! Que escandalo! Deus nos livre. O que
diria esta gente? Eram capazes de inventar que tu tinhas feito algum
mal. No te impacientes, no te impacientes! At te faz mal. J ests
com umas rosetas na cara que so de fraqueza. Vae tomar alguma cousa.
Anda, anda minha filhinha!

--Ai, Senhor!... exclamva j no corredor dando o brao a Laura e
encaminhando-se  sala de jantar.

Depois de muito discutir, venceu a opinio e a astucia de D. Maria
Francisca; poz-se inteiramente de parte a ideia de uma separao
judicial. Esperavam que por bons conselhos levariam Claudio a abandonar
Villalva e a voltar  companhia de Laura. Para isso iam dizer a Jos
d'Albuquerque que escrevesse ao cunhado pedindo-lhe que no dsse mais
desgostos  mulher, que to virtuosa tinha sido, e mostrando-lhe como a
sua vida era censurada at pelos proprios amigos, segundo diziam.

Procuraram-n'o e, como de costume, foram encontral-o entre os seus
alfarrabios.

Ficou muito contrariado com a presena da me e da irm que iam
interromper-lhe a leitura d'uns documentos do tempo de el-rei D. Diniz,
em que um erudito julgra ter feito descobertas preciosas, das quaes a
mais importante consistia em se provar que o motivo principal que
determinou a sementeira do pinhal de Leiria foram os amores do rei com
uma mulher do Porto de Mz, de baixa estirpe, mas com quem o rei vivia
em intimidade e, dizia o cartapacio, eram os jogos e fallas entre elles
to a miude, misturados com beijos e abraos e outros desenfadamentos de
similhante preo, que fazia a alguem ter deshonesta suspeita da sua
virgindade ser por elle minguada.

Sobre este ponto trazia Jos d'Albuquerque grande correspondencia,
estando prestes a demonstrar triumphantemente que os documentos eram de
nenhum valor e que o texto citado no passava d'uma calumniosa e
malevola interposio d'um compilador sem escrupulo do seculo XVI, cujo
nome e naturalidade j tinha descoberto. Faltava-lhe saber ao certo a
data do nascimento, mas tambem para isso levava adiantado o trabalho.

Apesar de ser perturbado nas suas cogitaes, unica cousa que no mundo
amava com afferro, ouviu pacientemente a catilinaria da me contra o
cunhado. Queria ella que o filho lhe escrevesse ameaando-o de cortar
com elle todas as relaes, se no voltasse immediatamente  casa de
Coimbra.

--Tens obrigao de olhar pela honra de tua irm, j que teu pae no
trata seno de se divertir, dizia ella dogmaticamente. No deves
consentir que o marido a deixe para ahi como um trapo sujo e ande por l
mettido com um reles estafermo que o que quer  viver  custa d'elle. Eu
j conheo bem o que  essa gente!... Tudo uma canalha! Uma canalha!...

--Escusam de estar para ahi com todo esse aranzel que eu no me metto
n'isso, respondeu pachorrentamente Jos d'Albuquerque. O Claudio  de
maior edade ha muitos annos, no me deve favores nenhuns, e eu no tenho
o minimo direito a reprehendel-o. Demais, eu sei l como essas cousas
so?!... Muito mexerico, muita intriga... Quem as armou que as desarme!

No obstante esta primeira attitude de resistencia, D. Maria Francisca
que conhecia a fraqueza do filho, lamentou-se com voz lacrimoniosa de
que tinha creado tres filhos e ninguem a ajudava, insistiu, e conseguiu
por fim que elle lhe promettesse escrever a Jorge de Castro para que
este por sua vez escrevesse a Claudio e procurasse trazel-o  companhia
da esposa legitima.

De facto, escreveu, mas em termos inteiramente despreoccupados O
Claudio, dizia a Jorge, com aquelle genio romantico que ns sempre lhe
conhecemos, metteu-se em Villalva a cuidar dos rouxinoes e das flores e
parece, segundo dizem, que arranjou l uma amante de que j tem um
pequenito. Minha me e Laura andam em braza com a noticia e querem muito
que tu lhe escrevas, aconselhando-o a deixar aquella vida. Duvido muito
que o leves a mudar, que elle com apparencia de indifferente  muito
teimoso, mas, se lhes quizeres fazer a vontade, e tambem para me
livrares d'esta continua cegarrega, dize-lhe d'ahi alguma cousa.
Depois, passava a fallar longamente das suas investigaes. Tem-me dado
bom trabalho, continuava, o tal sr. Castanheira d'Almeida que, com uma
petulancia sem precedentes, se lembrou de fazer sobre a vida d'el-rei D.
Diniz as mais estupidas affirmaes.  claro que no era cousa que se
sustentasse cinco minutos, mas  preciso no deixar correr estes erros,
convm destruil-os pela raiz, e por isso... etc. N'este tom escreveu
duas folhas de papel.

Jorge, porm, que, por inclinao natural e pelas circumstancias
particulares d'uma vida feliz, se habitura a considerar a familia uma
cousa sagrada, ficou muito impressionado com a noticia, parecendo-lhe
que Claudio praticra a maior das loucuras e renuncira para sempre a
toda a felicidade, lanando-se n'um mar de inquietaes infinitas.

Sem mais tardar e com grande anciedade pela situao do amigo, que se
lhe afigurava cruel, escreveu-lhe palavras de conselho paternal todas
impregnadas de carinho, de mgoa e de esperana. Procurava convencel-o,
mostrando-lhe que a familia era o verdadeiro fundamento de toda a ordem
moral na sociedade e relembrando-lhe as ideias com que a organisara;
invocava os seus sentimentos de rectido e de lealdade para exigir a
fidelidade conjugal, ponderando a gravidade da offensa feita  esposa
que a fraqueza propria do seu sexo e a impossibilidade de se desaggravar
dignamente collocava em condies de obrigar todo o caracter nobre a
respeital-a; e finalmente, n'uma curta confrontao da paz d'uma unio
legitima com os continuados vexames e a mentira d'uma ligao irregular,
em que nem sequer os filhos lhe podiam dar o nome de pae sem recordarem
a falta e a vergonha da me, pedia a Claudio que no proprio interesse da
sua tranquillidade pozesse termo quella vida to contraria a uma
salutar moralidade.

Claudio leu esta carta n'uma oppresso de magoa e compungimento. A
condemnao do seu viver pelo maior dos seus amigos parecia-lhe quebrar
um dos laos mais fortes que o prendiam ao mundo; alargava a devastao
que ha muito se vinha alastrando em volta do seu corao. Mas, passada
essa primeira dr, sempre presente aos seus olhos a humildade simples de
Maria, recobrou animo n'essa imagem e escreveu:


                                                        Meu querido Jorge:

Um mau fado presidiu ao meu destino e affastou de mim toda a alegria. A
tua carta  o ultimo grito d'essa correria de dres que ha muitos annos
me persegue e que quasi me tem vencido.

Esperava-a, antecipadamente sabia que havias de condemnar o meu viver
presente; por isso mesmo tenho addiado at hoje uma confisso que s
novas magoas me podia trazer. Mas faa-se a tua vontade. Aqui me tens a
ouvir-te submisso, d'essa submisso que ser o derradeiro estado da
minha alma, que no sei bem se  desengano de toda a ventura,
indifferena pelas causas da terra ou consciencia e reconhecimento da
propria fraqueza, abandono de toda a energia aos impulsos d'uma
fatalidade cega.

Ouve-me, porm, ainda algumas palavras antes de me excluires da tua
estima. No  defeza,  confisso; no  a voz do orgulho que repelle a
condemnao,  o queixume do culpado que a acceita sem revolta.

Sim!  verdade. Deixei uma mulher que tinha tomado por esposa legitima,
segundo todas as convenes sociaes, deixei-a, deixei o filho que ella
me tinha dado e a casa que com ella habitava, e vim esconder-me nas
serras em que vi a luz, entre gente inculta, ligado pelo amor a uma
rapariga do campo, tentando partilhar a sua humildade e a rudeza que
tomei pela maior virtude e pela felicidade suprema. Abandonei a familia
que tinha estabelecido, abandonando-lhe quasi todos os meus bens e
riquezas, deixando-a n'uma vida de ociosidade, de abundancia e de
prazeres, abandonei o luxo e uma existencia que me era odiosa, e fugi a
acoitar-me nas caricias silenciosas da natureza e na proteco carinhosa
d'uma mulher que me ama servindo-me.

Este  o meu crime, que por certo aos teus olhos parecer uma vileza sem
nome, imperdoavel.

Talvez no to grande como a tua imaginao a representa! Talvez aos
errores da minha desventura correspondam as alucinaes da tua
felicidade!...

Queres que o respeito da familia seja o alicerce de toda a ordem moral
na sociedade e tambem eu outra cousa no pretendo. Se a familia  a
unio de dois seres ligados por sentimentos congeneres de trabalho, de
consagrao das suas foras  educao d'uma nova gerao, de auxilio
mutuo e mutua submisso, de renuncia aos prazeres da carne, de caridade
e amparo para todos os desvalidos, no ha por certo melhor fora para
manter a ordem e a belleza moral na humanidade. Se a familia  a unio
de dois seres ligados pelas mesmas aspiraes de riqueza, de
tranquillidade e de socego egoistas, de comodidade e de luxo, de meza
lauta e de ninho tepido e macio, com os filhos entregues a mos
mercenarias desde o bero at que a escola os entrega  sociedade,
poder ser uma inutilidade para os estranhos, mas, quando se tem a
fortuna de possuir todas essas cousas apetecidas, , para os seus
favorecidos, um manso e ininterrompido regabofe. Se a familia  porm o
encarceramento, sob o mesmo tecto e em volta do mesmo lar, de dois seres
guiados por aspiraes oppostas e nenhum d'elles disposto a ceder das
suas ambies, em permanente conflicto, consumindo n'esses
dissentimentos toda a energia que deveriam consagrar ao cumprimento da
sua misso social, ento no sei o que a familia signifique, alm d'uma
enorme e torpe mentira quando esta discordia se abriga sob formulas e
exterioridades d'um falso respeito.

O que eu ainda no pude saber ao certo  o que venha a ser, como
principio de moralidade, essa to famosa fidelidade conjugal.  o
concubinato legal em que a mulher gravida e a mulher que amamenta se
prostituem e aviltam, s mos do que tem o nome de esposo, confundindo
no mesmo leito a me e a amante? Mas isso  sem duvida a maior aberrao
das leis naturaes, uma especie de immoralidade desconhecida dos animaes
inferiores que todos, sem evangelhos doutrinados, respeitam a fema
prenhe e so repellidos raivosamente pela que guarda e aquece os filhos.
 essa outra especie de concubinato em que cautelosamente se evita a
procreao para que os prazeres e a belleza do corpo no soffram quebra
ou interrupo e para fugir aos encargos sociaes que do matrimonio
resultam? N'este caso, significa a degradao pela cobardia moral e
pelos desregramentos da concupiscencia que se arvora em virtude e que a
sociedade acceita como joia de bom quilate.

S como inicio de perfeita castidade poderei julgar a fidelidade
conjugal um valor moral; s como principio de abstinencia e de completa
annulao das tentaes da carne poder aos meus olhos tornar-se digna
de ser considerada por aquelles que um anceio de vida superior domina.
D'outro modo, confunde-se nas labaredas da luxuria que todas fascinam e
matam igualmente. Que a prostituio se d dentro ou fra dos limites do
codigo civil, pouco importa; ser sempre a sujeio deprimente da alma
aos incitamentos impuros da sensualidade.

Pensa um momento; porventura convencer-te-s de que os meus erros no
so to grandes como pretende mostrar-t'os a tua felicidade que no ,
como toda a felicidade, o resultado do teu esforo mas a concorrencia de
elementos fortuitos.

O meu crime foi procurar soffregamente a virtude e tentar a sujeio da
minha vida  realisao d'um destino consciente, em logar de acceitar
humildemente os azares da propria fortuna. Nas minhas aspiraes de
santidade houve talvez um orgulho sem medida de que a providencia me
castigou transformando-as em cora de espinhos.

Que sonho mau, que instigao satanica me levou um dia a descer estas
escarpas para ir procurar na riqueza e na sciencia a felicidade que
deixava na vida simples? Porque no fiquei aqui, como meus paes, na paz
laboriosa d'uma existencia ignorada e singela?

Quiz rehaver essa ventura perdida, magoado das infinitas asperezas do
longo caminho por que me trouxeram a sensualidade e a curiosidade de
saber, mas, ai de mim! era tarde, e chego ao porto to ensanguentado que
jmais as minhas feridas podero cicatrizar, jmais podero estancar as
chagas em que o animo se me esvae.

No pde a razo e a vontade resgatar o que uma vez ao corao foi
roubado. Debalde o pensamento, em rodeios sem fim, tentra restituir-me
a tranquilidade.

No penses pois em ressuscitar o Lazaro; deixa que elle espere no
abandono a hora abenoada de voltar  terra, a esse p em que todos os
crimes e todas as virtudes se dissolvem e apagam para brotarem
resgatados n'uma fecundidade infinita.

                                                                Teu

                                                                _Claudio._


Apezar da serenidade apparente que Claudio revelava, era certo que a
carta de Jorge lhe deixra uma profunda impresso de mgoa. Todo o
passado se dissolvia. Mulher, filho, amigos, tudo se transformava em
sombras de que se affastra a vida que s no corao residia; desligados
do seu affecto, morriam para os seus olhos perante os quaes passavam
como espectros d'uma apagada existencia. No fra elle que errra? No
significava esse isolamento que elle tinha deixado o bom caminho,
aquelle em que as almas cantam uma alegria sem peccado? Voltavam
suspeitas, duvidas cruciantes.

Todavia, exteriormente, a vida de Claudio parecia ter caido na mais
absoluta calma. Na aldeia j ia esquecido o escandalo e o povo acceitava
sem murmurio os amores de Maria; a caridade, a modestia e a singeleza
que continuavam a ser os espiritos bons do casal de Claudio varreram
rapidamente a repugnancia que ao maior numero inspirava a sua desregrada
paixo, substituindo essa passageira averso pelo mais carinhoso
respeito.

O pae de Maria ficra entrevado, mal se arrastava da cama para o
quintal, a aquecer-se ao sol ou a visitar os gados, tentando ainda
relembrar a antiga vigilancia e uma febre de trabalho que a doena no
pudera anniquilar inteiramente; mas a familia, com a peculiar resignao
que a gente rude pe na acceitao das cousas sem remedio, perdora a
Maria a sua falta e frequentava-lhe a casa e as relaes como a do
visinho a que mais queria.

A vida ainda tinha alegrias para Claudio. Brotavam, como flores
silvestres disseminadas pelas montanhas aridas, das aguas que se
escoavam espumantes na azenha ou se perdiam mudas beijando as tumidas
raizes do arvoredo, dos cantares das lavadeiras que erguiam os braos
robustos batendo turgidos linhos sobre as pedras da ribeira, dos
zumbidos das abelhas fartando-se na madresilva dos comoros, do sol
espargindo-se nos orvalhos com que a noite mansamente cobrira os campos;
brotavam do palpitar da natureza em que todo o movimento  sem peccado,
e brotavam ainda do corao de Maria em que a simplicidade e o amor
fulguravam, protegendo em um nimbo de pureza sadia o espirito decrepito
e enfermo de Claudio.

Muitas vezes, quando o trabalho apertava ou quando o calor era muito,
Claudio descia de manh ao campo e s voltava a casa ao pr de sol.
Maria trazia-lhe o jantar ao meio dia, o caldo, a broa e o conducto.

Procuravam uma sombra a que se acolhessem; a refeio fazia-se n'um
recolhido silencio que era como uma prece perante a magestade olympica
da natureza.

Depois vinham as sestas, cerrando os olhos na contemplao das flores
que se abriam ao sol exalando aromas n'uma mysteriosa fecundidade.

Uma tarde, por um dia de julho, Maria veio, como de costume, trazer o
jantar a Claudio, o cesto  cabea coberto d'uma toalha alva e
grosseira; nos braos o pequenito, repousada a fronte sobre o hombro da
me, no abandono em que o somno o vencia.

Chegando ao campo, foi poisar a creana sobre o chale, debaixo d'uma
oliveira, proximo d'um muro, abrigando-a do vento e do sol que abrazava,
caindo das serras.

Claudio sentou-se ao lado, sobre uma pedra, e Maria sentou-se tambem, em
frente d'elle, no cho, desapertando o leno e mostrando o clo, agora
exuberante no primeiro despertar da maternidade.

Estavam calados, n'um d'aquelles silencios que eram frequentes e em que
perpassava uma palpitao d'amor e de ventura.

A creana tinha uma belleza angelica, os olhos cerrados, os finos
cabellos loiros desalinhados, o sangue agitado pelo calor da atmosphera
e os labios humidos, levemente entreabertos, como segredando palavras
ignoradas d'uma doura divina.

O pae attentou na me e no filho. Sentindo desprender-se d'aquelles
peitos impenetraveis  corrupo um refrigerio que instantaneamente
corria as feridas do seu corao, libertando-o de dres perguntou a
Maria:

--Gostavas de ter muitos filhos?

--Filhos!... respondeu ella rindo surprehendia da estranheza da
pergunta. Cada um tem os que Deus d!...

Claudio calou-se novamente, dominado de respeito. Era a voz da virtude
ingenua que chegra aos seus ouvidos, da coragem na acceitao da
condio humana, da religio no amor sem limites, na conformidade do
destino.

N'aquella rapariga humilde, pobre e rude, encontrava o que nem o saber
nem a razo tinham podido conceder-lhe.

Ai! Era bem certo!... A felicidade havia de nascer do corao em jorros
cristalinos como a agua que rebenta entre os rochedos.

Tentar subjugal-a sob os impulsos da intelligencia era profanal-a. A
candura maculada jmais recupera a alvura.

N'este labor continuado, em que o amor da terra o absorvia, havia ainda
para Claudio horas de repouso e de ocio, j por simples fadiga, j
porque o trabalho tinha tambem as suas pausas naturaes.

Vinham ento a leitura, a meditao e as longas caminhadas pelas veredas
desertas, pelas cristas despidas dos montes ou pelos valles apertados,
entre o arvoredo cerrado.

Procurava, avidamente, em interrogaes infinitas, conquistar para si um
retalho d'essa paz augusta em que toda a natureza se envolvia. Escutava,
na doce luz do crepusculo, o brandir compassado da Ave Maria em que
sentia murmurios de oraes, supplicas e louvores de gratido
erguendo-se da aldeia e confundindo se n'uma s prece, em mystica unio,
com o repouso que a noite vinha derramando.

Queria lanar a sua alma n'essa fornalha ardente d'amor e de f,
purifical-a no contacto das almas simples, mas sempre sentia o tumultuar
d'um passado que o despertava dos sonhos bons para o torturar nas
angustias da consciencia.

Temia as noites tenebrosas do inverno e os dias pesados e humidos que o
obrigavam a enclausurar-se na estreita sala de Villalva. Renasciam
phantasmas que julgra dissipados, vises sombrias que a luz do sol e os
carinhos humildes de Maria pareciam ter varrido para sempre.

Comeava a desfiar esse rosario das suas amarguras; um infinito
desalento se apossava do seu espirito, prostando-o de desesperana,
convencendo-o da infelicidade sem remedio.

Porque no casra com a Conceio e passra de animo leve sobre as suas
lagrimas? Porque abandonra Emilia  miseria que elle mesmo por suas
mos tinha aggravado? Porque deixra Laura que elle espontaneamente fra
buscar tal qual era, com todos os seus prejuizos? E Maria,--pobre
Maria!--para que a juntra  sua desgraa, roubando-a ao amor sadio do
seu namorado? Egoismo, ciumes, aspiraes impuras que tinham perdido a
sua alma, lanando-a nas chammas do remorso.

Revoltava-se contra a miseria do corpo que com seus doidos anceios o
tinham transviado do caminho de caridade e de sacrificio em que,
imolando as suas ambies, teria encontrado a paz da consciencia.

Tentava desprender-se d'esse pesado involucro carnal com frequentes
jejuns e esforando-se por ser casto. Por momentos, quando as minguadas
foras physicas pareciam dar ao espirito uma liberdade que o enlevava em
delicias, tinha a illuso de que chegra a hora de renascer n'uma vida
de pureza e resgatar o passado, santificando-se pelo offerecimento a
Deus de toda a sua existencia, calcando como reptis venenosos os ardores
dos sentidos.

Essa illuso pouco durava. Rebrilhava o sol, punha a enxada ao hombro e,
revolvendo a terra, communicava-se-lhe essa gigantesca vibrao de
fecundidade que  a propria vida de todo o universo. Crear, reproduzir a
sua fora e o seu sangue nos seus filhos, nas flres e nos fructos que
regra com o suor do seu rosto, era nas horas de culto naturalista o
novo deus a que sacrificava. E, abandonando-se a esse movimento, outras
benos, as benos do amor terreno triumphante, se lhe espargiam sobre
a fronte e lhe infiltravam um vigor desconhecido.

N'esta lucta, porm, consumia-se; as suas foras decaiam rapidamente. s
vezes dominava-o um abatimento, uma prostrao em que sentia proximo o
seu fim. Ento convencia-se que aquillo que tomra por um
rejuvenescimento no era mais do que uma desesperada excitao em que
inteiramente e para sempre ia anniquilar-se.

Em um d'esses dias, pouco tempo depois de Maria lhe ter dado o segundo
filho, recolheu tarde. Maria j por mais d'uma vez viera  porta,
olhando o caminho a vr se o descobria, quando elle entrou.

Vinha contente, risonho, como que alliviado das suas preoccupaes
sombrias.

--Vim tarde. Estavas com cuidado?... Tem paciencia. Foi-me preciso...

--No, logo me lembrei que andasse a passeiar ou tivesse tido alguma
coisa que fazer, mas nunca se fica em descano. s vezes, onde menos se
espera esto trabalhos.

--Tive de ir a Albergaria. Toma, guarda isto bem guardado.  o teu po e
dos nossos filhos, se eu faltar, disse elle, entregando-lhe um papel
azulado com grandes manchas de lacre.

Era o seu testamento em que lhe entregava, por sua morte, os bens de
Villalva.

--Para que  isso? respondeu ella recuando com uma anciedade triste.
Deus Nosso Senhor hade levar-me primeiro.

--No, no... guarda, replicou Claudio com firmeza.

A rapariga ento, obedecendo, recebeu o papel e, os olhos rasos de
lagrimas, beijou as mos de Claudio.

Quizra insistir na recusa, sentia uma commoo que a turvava, mas era a
sua vontade, a vontade d'elle, e amal-o era obedecer-lhe, era servil-o.

Sentaram-se  mesa. No se ouviu nem mais uma palavra sobre o
testamento, e a ceia comeou. Claudio estava alegre, perguntando pelos
filhos, pelos gados, pelo que em casa se fizera n'aquella tarde,
fallando dos trigaes que vira na varzea e que promettiam uma boa
colheita.

No dia seguinte, voltou ao trabalho, continuando na sua pacifica faina.
O trabalho era a sua alegria, no ficavam horas nem para recriminaes
nem para idyllios.

Em todo o tempo que Claudio viveu com Maria, s houve um momento que
lembrasse as horas de paixo que antigamente o crucificavam.

Uma manh, Claudio veio a casa almoar. Como o orvalho no campo fosse
muito e trouxesse os tamancos enlameados, deixou-os  porta e entrou
descalo. Maria estava em p, no meio da sala. Parecia procurar vr,
atravez a janella, qualquer coisa que se passava fra, mas occultando-se
ao mesmo tempo para no ser vista. Era o pae d'ella que em frente,
encostado s muletas, se arrastava no estreito carreiro do seu quintal,
vendo as ervilhas que se prendiam na sbe grosseira.

Claudio poude aproximar-se sem ella o sentir. Comprehendeu rapidamente
toda a amargura que lanra n'aquelle corao, dilacerado de remorsos.

--Perdoa-me, perdoa-me, disse-lhe apertando-a nos braos e beijando-a na
fronte.

E fugiu, sem voltar o rosto, deixando-a a soluar, banhada em pranto.

Durante quatro annos, viveu assim; apparentemente tranquillo na paz da
vida do campo, interiormente minado de duvidas que por vezes a
consciencia lhe apresentava como espectros. Maria era sempre a mesma que
fra na hora em que a conhecera, humilde, laboriosa, singelamente
amoravel. Mas Claudio, possuindo-a, via n'ella, repassado de contrico,
a imagem da felicidade perdida. Era tarde para a merecer; as lembranas
do passado perseguiam-n'o implacaveis, j no havia alegria que no
fosse cortada d'um travor de arrependimento.

As foras decaiam sempre. No tinha doena alguma; sentia uma depresso
de vigor que todos os dias se accentuava, uma velhice precoce que
caminhava incessantemente.

Em maio, um dia tardou a erguer-se. Foram procural-o. Parecia dormir,
mas, como o somno se prolongasse excessivamente, accordaram-n'o.

--O que tem? perguntou-lhe Maria. No quer hoje levantar-se?

--No  nada, respondeu elle, fitando-a mansamente e procurando saccudir
a somnolencia que o dominava. Estou muito constipado, tenho o peito
muito opprimido. Creio que foi do vento que hontem apanhei l em baixo.
Isto com agasalho cura-se.

--Mas  melhor chamar o medico. Quer?

--Para mim no era preciso. Mas se tu ficas assim mais descansada,
manda-lhe dizer que venha c.

Maria saiu e Claudio immediatamente caiu n'um somno pesado, a respirao
frequente e anciada.

O dr. Carvalho veiu cerca do meio dia. O doente at ento no cessra de
dormir. Apenas accordava quando o chamavam, e logo cerrava os olhos,
continuando em torpor.

--Est muito doente! disse o dr. para Maria. Eu vou  villa e volto j
para lhe pr um caustico. Tenho medo que no lhe faam isso em termos.

E saiu a entrar na carruagem que o levou  pharmacia.

--Oh! disse o boticario, vendo-o apear-se ligeiro, vem hoje muito
atarefado!

--Quero um caustico para o dr. Claudio que est muito mal.

--Sim!?... Ento com qu? perguntou o boticario abrindo um armario
envidraado e tirando um grande frasco com um rotulo em lettras d'oiro.

--Tem uma pneumonia. E o pulso... Que desconcerto!...

--Se aquelle organismo no estivesse to depauperado, continuou o dr.,
sangrava-o, mas assim... no me atrevo.

--No sei o que ser... no sei o que ser, repetia inquieto. Olhe,
deixe-me vr uma folha de papel que sempre quero avisar a familia. Que
elles no se importam mas, se no vierem, no ha de ser por minha culpa.

E sentou-se a escrever, pedindo ao boticario que mandasse a carta para
Coimbra, no correio da tarde.

A applicao dos medicamentos no deu resultado. A pneumonia seguiu os
seus tramites.

Claudio conhecia mal o seu estado. s vezes chamava as pessoas de casa,
levado por uma vaga saudade, procurando combater o somno que o ia
dominando e luctando por despertar a consciencia! Tinha ento palavras
carinhosas, principalmente para Maria.

--Estou a dar-te tanto trabalho... Tem paciencia, tem paciencia, sim?

Esses momentos eram, porm, cada vez mais raros.

Ao terceiro dia, j noite adeantada, perguntou por um velho creado que
fra de sua me e se chamava Luiz.

O creado veiu sem demora, mas entretanto Claudio adormecia novamente.

--Est aqui o Luiz, est aqui o Luiz, disse Maria tentando despertal-o.

O creado tinha ajoelhado junto da cabeceira da cama e inclinava sobre o
doente o craneo calvo, orlado de raros e longos cabellos brancos.
Claudio entreabriu os olhos, quiz afagal-o, levantou ligeiramente o
brao, e a mo rolou pela cabea do velho, caindo novamente, quasi
inerte, sobre o leito.

Foi o seu ultimo movimento consciente. Depois no se sentiu mais que um
estertoroso arfar.

Pela manh, abriram a janella, cuidando que a frescura do ar alliviaria
a agonia. A luz do sol foi bater no leito e cercou o moribundo d'um
esplendor de gloria entre o perfume da madresilva e o canto das aves que
alegremente cantavam a eterna alleluia dos seus amores. Distante, ouvia
o balido do rebanho que o pastor levava a beber no regato. Era uma festa
de canticos angelicos.

De repente, a respirao pareceu baixar docemente. Houve no quarto um
murmurio de lagrimas e de soluos; instinctivamente todos ajoelharam, e
alguem disse:

--Acabou.

Maria levantou-se, inclinou-se sobre o cadaver, cerrou-lhe os olhos e,
soluando, abraou-o.

Algumas horas depois chegava Jorge.

No alvoroo que em casa de Laura produzira a carta do dr. Carvalho,
tinha resolvido D. Maria Francisca, porque o marido estava para a Beira,
pedir a Jorge que viesse vr o amigo.

Ainda se lembrou de aconselhar  filha que fosse a Villalva. Parecia-lhe
elegante, de bom effeito no publico, esta reconciliao  hora da morte.
Mas a filha revoltou-se.

--Isso nunca!... No  pelas offensas que elle me fez,  porque a minha
dignidade no me permitte entrar ali n'aquella casa e pr-me a par com
uma mulher rles...

--Bem, bem, no te exaltes, filhinha. Eu cuidarei de tudo, rematou D.
Maria Francisca.

Foi ento que telegraphou a Jorge.

Este veiu immediatamente, por Coimbra, para saber os desejos dos
Albuquerques.

Laura desmaiou mal o viu, e a me levou-a em braos para o quarto,
voltando  sala alguns minutos depois.

--Coitadinha! Muito tem soffrido! Eu nem sei como ella pde...

Mas logo, sem poder conter-se, continuou:

--Eu o que receio  que haja algum testamento e elle tenha passado tudo
para as mos d'essa mulher que l tem!... O meu querido Jorge ver. Se
no houver nada, peo-lhe que tome conta de tudo e, se houver, faa
ento como entender. Elle est muito mal, segundo o que o dr. Carvalho
me diz, at talvez a estas horas tenha morrido... O que lhe peo tambem
 que me mande um proprio, a cavallo, para se tratar do enterro logo que
elle fallea.

Com estas instruces partiu para Villalva onde foi encontrar o amigo,
morto, sobre o leito, j lavado e vestido pelas mos de Maria e do
creado Luiz.

No se atreveu a entrar sem pedir que o annunciassem a Maria. Ella veiu
recebel-o  sala.

Jorge no teve coragem de articular uma palavra, to grande era a
commoo em que todo este drama o lanava.

Foi Maria que singelamente resolveu a situao, dizendo-lhe magoadamente
e reprimindo as lagrimas:

--Ento o senhor era o amigo d'elle?!... Ai! Que pena no ter vindo mais
cedo!... Fallava tanto no Jorge quando delirava... Parecia que lhe
queria dizer alguma cousa...

Immediatamente, como prescrutando n'um breve esforo o que significava
ali a presena de Jorge, entre as lagrimas que j no podia mais conter,
perguntou:

--Vem buscal-o, no  verdade?... E elle que tanto queria ficar ali ao
p da me!...

Pela manh veiu um carro funerario, com penachos negros, a balouarem-se
no macadam, sobre o qual pozeram o caixo que continha o cadaver de
Claudio. Maria viu-o affastar-se, de joelhos, orando ao p da janella e
pedindo, no a Deus que o tivesse junto de si porque no seu espirito no
podia haver duvida sobre a salvao de Claudio, mas a Claudio que junto
de Deus a protegesse e amparasse com o seu auxilio. O carro desappareceu
entre as ramagens dos choupos que orlavam a estrada; ella voltou os
olhos para os cyprestes do cemiterio, como querendo instinctivamente
prender-lhes qualquer cousa que lhes roubavam, e ergueu-se a dar o peito
ao filho que se movia no bero.

Levaram o corpo de Claudio para a egreja de Santa Cruz e pozeram-n'o
sobre um catafalco rodeado de tochas accesas e muitas velas em
serpentinas de prata. Cobriram-n'o de coras feitas de pannos tingidos,
em frma de flores, e aos ps do caixo, do meio d'esse monto informe
de enfeites, pendia uma fita preta com grandes lettras douradas,
dizendo:

              _Eterna saudade da sua Laura._

Em seguida aos responsos, pz-se tudo a caminho do cemiterio. Um lente
da Universidade dizia na carruagem para o juiz que o acompanhava:

--Vo mais de quarenta trens! Este Albuquerque tem ainda uma grande
influencia!...

--Pois no tem! respondia o juiz. O genro, se no fosse tolo, podia ter
feito uma linda figura. Ainda nas ultimas eleies se lembraram de o
eleger deputado por Vizeu. Quem sabe?... Talvez ainda agora vivesse!...

Passados tres dias, n'aquelle campo em que Claudio costumava trabalhar,
uma creana brincava  sombra das oliveiras. Ao lado, uma mulher,
vestida de negro, ceifava o azevem. Era Maria.

 mesma hora, em Coimbra, rodavam as carruagens a caminho do palacio dos
Albuquerques. Ali, trocavam-se palavras doces em meio das paredes
despidas dos seus adornos. Laura e a me discutiram longamente,
maduramente, quantos vestidos havia a fazer, e resolveram mandar vir da
capital uma modista em voga.

--Porque, dizia D. Maria Francisca, sempre  lucto de mais d'um anno!...
Aqui fazem-te l alguma cousa em termos?! No has-de andar todo esse
tempo com vestidos desageitados. Depois, vem a Figueira e precisas ter
com que te apresentes. Tu bem sabes como aquella gente de Lisboa
repara...


FIM





End of the Project Gutenberg EBook of Transviado, by Jaime de Magalhes Lima

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK TRANSVIADO ***

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array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.net

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