The Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem no
pde dormir. N5 (de 12), by Camilo Castelo Branco

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Title: Noites de insomnia, offerecidas a quem no pde dormir. N5 (de 12)

Author: Camilo Castelo Branco

Release Date: October 29, 2008 [EBook #27084]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA


NOITES DE INSOMNIA

OFFERECIDAS

A QUEM NO PDE DORMIR

POR

Camillo Castello Branco


PUBLICAO MENSAL


N. 5--MAIO

LIVRARIA INTERNACIONAL
DE
ERNESTO CHARDRON
_96, Largo dos Clerigos, 98_

PORTO 	EUGENIO CHARDRON
_4, Largo de S. Francisco, 4_
BRAGA

1874


PORTO

TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOS DA SILVA TEIXEIRA

62--Rua da Cancella Velha--62

1874


BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA


NOITES DE INSOMNIA


SUMMARIO

Petronilla, Gamarra, Zamperini--Entrada para os sales--Os sales,
introduco, pelo exc.mo snr. visconde de Ouguella--Ecce iterum
Silva Chrispinus--Santos-Silva--Doudo Illustre--A
catastrophe--Renan--Correces--Mau exemplo de poetas casados--A casa de
Bragana ab ovo--Um inquisidor portuguez e o principe de
Gales--Trilogia da Actualidade




PETRONILLA, GAMARRA, ZAMPERINI


Assim se chamaram as tres actrizes que mais dinheiro vampirisaram aos
argentarios portuguezes no seculo XVIII.

Petronilla, cantora italiana, representou em Lisboa desde 1739 at 1745.
No era bella, nem artista superior; enguiava, porm, com philtros
diabolicos; fascinava, fulminava, cauterisava o cerebro das mais solidas
cabeas, sem respeitar as testas coroadas.

Um dos seus amantes foi D. Joo V, que orava ento pelos cincoenta.
Petronilla, ou Pellatroni (dava por ambos os nomes) no se parecia com
as princezas de comedia e deusas da Opera, consoante Arsne Houssaye
denomina as actrizes e danarinas francezas coevas da amante do nosso
Luiz XIV. Era absorvente como as suas parceiras; mas no esbanjava em
galanices, equipagens e banquetes o producto liquido das suas
transaces mercantis com o rei e os outros. To queridas se logravam as
actrizes dos fidalgos portuguezes quanto os actores eram desprezados. O
fidalgo, que no tivesse uma aventura de theatro, apenas poderia
hombrear em proezas de gal com algum frade bernardo de costumes
suspeitos. Os frades propriamente, n'aquelle tempo, frechavam do seu
camarote o collo despeitorado da Petronilla com settas de amor
platonico. Havia no theatro o _camarote dos frades_, collocado por baixo
do camarote das aafatas. Tinha rotulas de pau, por entre as quaes os
monges assopravam uns suspiros quentes como as lufadas da Arabia. Mas
no passavam d'estes resfolegos os frades.

A poro illicita d'aquelles espectaculos pertencia ao rei e aos
fidalgos. Estes gabavam-se de que as actrizes eram petisco, _morceau
friand_,--dizia o cavalheiro de Oliveira--que s aos grandes senhores
competia. Na actriz no amavam arte nem belleza: amavam a comediante.

D. Joo V, acirrado pelos ciumes dos seus camaristas, deixou-se
illaquear n'aquelles braos elasticos da Petronilla, e locupletou-a de
ouro e pedras.

Quando se passou a Castella, a garrida comica levou trinta cavalgaduras
carregadas de riquezas--diz Francisco Xavier de Oliveira--e acrescenta
que, no theatro de Madrid, a quantidade e valor da pedraria que ostentou
eram taes que as damas de primeira plana se morderam de inveja.
(_OEuvres mles..._ Londres, 1751, pag. 33). Em Hespanha continuou a
enthesourar as crystallisaes do seu espirito, amoedando a ternura. A
final, quando viu que era tempo do cuidar da alma, visto que a parte
menos espiritual da sua pessoa andava em geral descuido, retirou-se
capitalista, beneficiou mosteiros, fez capellas de santas, do mesmo
passo que o seu real amante D. Joo V fazia capellas de santos. Ambos
comediantes, e ambos, a final, fizeram figas ao embaado demonio.

      *      *      *      *      *

Isabel Gamarra, hespanhola estreme, floreceu em Lisboa dezesete annos
antes de Petronilia, escripturada pelo actor e emprezario castelhano
Annio Ruiz. Este homem era optimo poeta, philosopho, historiador e
cortezo--assevera Francisco Xavier de Oliveira.--D. Joo V dava-lhe uma
penso annual de 120 moedas de ouro. No foi estranho aos amores de fina
tempera velados pelos reposteiros heraldicos. Tinha espiritos levantados
como o seu contemporaneo Dufraisne. Em quanto engodava os fidalgos com
as suas actrizes, levava s fidalgas consternadas a boa philosophia, a
boa poetica, e os casos historicos analogos  situao. E assim viveu e
medrou longos annos em Lisboa.

Isabel Gamarra floreceu entre ns quando em Paris arrebatava coraes e
algibeiras outra hespanhola, chamada Marianna Camarro, a celebrada
danarina; mas a nossa, que parecia, com pouca corrupo, a outra,
quanto ao appellido, deixou em Portugal memorias dignas de romance de
grande flego.

Um dos seus amantes foi o marquez de Gouva, pai do duque de Aveiro,
justiado como regicida em 1758.

Era casada. O marido, a rogos do marquez, recebeu alguns mil cruzados;
e, deixando-lh'a, declarou que a sua alliana no tivera a seriedade
matrimonial. Isabel abundou no parecer do marido, e sahiu do theatro.

Amor, zelos, a gangrena que afistulava os costumes do tempo, e o
descredito das ordens religiosas femininas, compelliram o marquez a
instar com a Gamarra que professasse no mosteiro de Santa Monica, da
ordem de Santo Agostinho.

E professou.

O marquez no despegava das grades, seno para servir o rei como
mordomo-mr. Tinha esposa e filhos, j homens. Um foi o que fugiu com D.
Maria da Penha de Frana e no voltou; o outro, j tambem sabem que
tragico destino teve. No tinham tido pai, seno para lhes dar o exemplo
da libertinagem, com cabellos brancos.

E, por isso, a freira monica o ralava com impertinencias,
instillando-lhe no peito bravos ciumes, que eram a vingana da moral.

O marquez recebeu um dia simultaneamente duas ordens: o rei chamra-o ao
pao, e Soror Isabel ao convento. O mordomo-mr oscillou alguns minutos
quando j ia caminho da crte, e mandou retroceder o coche para Santa
Monica.

--Vs tu quanto te amo?--disse o marquez--dei-te a preferencia, entre ti
e o rei.

--Se fizesses outra cousa nunca mais me verias--replicou ella
abespinhando-se.

--Mas olha que me arrisco a muito, obedecendo-te!...

--O teu dever  esse... _Antes que todo es mi dama_, diz Calderon de la
Barca; e, se te no arriscares, e tudo sacrificares ao meu prazer, fraco
amor me tens.

_J'ai entendu moi-mme tout ce petit dialogue, o il n'y a pas un seul
mot de ma faon_, diz o cavalheiro de Oliveira, (_OEuvres mles_, t.
3. p. 34).

Isto  apenas irrisorio, mas desculpavel. Todos temos na vida a m
digesto de um pedao de Gamarra. O que excede toda a piedade, que uns
merecem os consocios de infortunio,  que ella o trahia com um Valentim
da Costa Noronha, rapaz galante, valente, o unico por quem ella sentira
alguma cousa que a indemnisava da repugnancia do habito. O cavalheiro de
Oliveira conta-nos assim as miudezas d'aquelles amores, que levaram o
velho marquez  cova:


Conheci Gamarra melhor que ninguem. A estreita amizade, que tive com o
Noronha, me occasionou durante dous annos ensejo de vl-a, conversal-a,
e conhecer-lhe os merecimentos e defeitos. Noronha, apaixonado por ella
quanto cabe em peito de homem, sacrificou  intriga d'esta actriz
monastica tudo que mais caro lhe era no mundo. A estima devida  esposa,
o respeito paternal, o affecto dos melhores amigos, o porvir dos filhos,
socego, interesses, em fim, a propria vida que expoz em muitos lances 
vingana do marquez, cujo respeito benemerito soffreu muitos desfalques
de encontro  coragem intrepida de Noronha... Era elle, porm, o
possessor unico da ternura de Gamarra. O marquez traou perdl-o. Duas
vezes projectou matal-o. Estava eu com Noronha, uma noite, quando o
aggrediram: felizmente repulsamos os assassinos. A final, o marquez,
authorisado pelo rei, logrou encarcerar Noronha no Limoeiro, onde esteve
nove mezes; e com muita difficuldade obteve soltura depois da morte do
marquez. Fr. Gaspar, tio d'aquelle senhor, e valido do rei, fz quanto
pde por demorar to injusta priso, vingando d'est'arte os manes do
marquez, seu sobrinho. (_Obra cit._, pag. 34 e 35).


O mordomo-mr estava na idade critica dos cincoenta em que as paixes
atabafam o corao como aos dezesete. Os velhos, quando amam, teem a
sensibilidade das meninas que principiam a amar. Se no se percatam e
escudam com o arnez da paciencia e da dignidade das cs, _maus bichos os
comem_, como disse o S de Miranda.

Maus bichos comearam a desfazer o corpo, que to regaladamente vivra,
d'aquelle D. Martinho de Mascarenhas, terceiro marquez de Gouva, sexto
conde de Santa Cruz, assassinado pela perfida actriz de Santa Monica no
dia 9 de maro de 1723.

O derradeiro golpe recebera-o com a noticia de que ella havia dado a
Valentim de Noronha o retrato que lhe elle dera engastado em moldura de
brilhantes... _Il me fit voir_ (diz o amigo de Noronha) _entre ses
propres mains ce mme portrait du marquis, le mme jour qu'il en avail
fait prsent  son infidele Gamarra._

Se era formosa? Responde o cavalheiro que diz tel-a conhecido a
preceito, _mieux que personne_:


Era com certeza a mais formosa actriz que vi no theatro de Lisboa: era
moa, azevieira, travessa, vivissima, espirituosissima, feiticeira em
todos os seus requebros. Tinha um s defeito: era ser treda. Atraioava
igualmente o marido e o amante. Por um tinha averso, por outro smente
estima. Se amou rasgadamente alguem, foi Noronha. (_Obra cit._, pag.
35).


Assim que o finado marquez a dispensou do capricho do habito, quiz sahir
do convento, e naturalmente visitar Valentim no Limoeiro. A prelada
oppoz-se. Mandou chamar o marido, que ainda no era frade.
Communicou-lhe o proposito de se declarar casada e passar-se ao dominio
de seu homem, como era de justia. O marido sondou a profundidade do seu
direito e a profundeza do peculio da mulher. Requereu, disputando-a ao
patriarcha Santo Agostinho. Sahiu-lhe a igreja com embargos  annullao
dos votos da freira. A religio permittia que ella os transgredisse com
o marquez e com o Valentim; mas que os annullasse para se tornar ao
marido, isso era feio. A final, Soror Isabel safou-se do mosteiro,
metteu-se em Castella, e voltou a representar com o marido no theatro de
Madrid. (_Obra cit._, pag. 33, nota _A_).

Quanto a Valentim, no lhe faltou medo que D. Joo V o mandasse enforcar
como fizera quelle gentil rapaz que ousra disfarado em carvoeiro
visitar-lhe, no convento da Rosa, a cigana Soror Margarida do Monte, a
quem o rei mandra vestir o habito. O desgraado ficou na tradio com o
nome de _carvoeiro da Rosa_. Ao proposito d'esta perigosa cigana,
escreve o tantas vezes citado cavalheiro de Oliveira:


Vi o proprio monarcha arrastar duros grilhes, e longo tempo captivo da
astucia ou do magismo de Margarida do Monte. Quantas desordens, quantos
desterros e mortes causados por intrigas d'aquella mulher! Morreu
enclausurada no mosteiro da Rosa, como freira da ordem de S. Domingos.
Este pai, que lhe foi imposto  fora, no lhe incutiu mais juizo.
Induziu ella um gal a visital-a na cella. Fez-lhe a vontade o
desgraado; foi preso l dentro, e pouco depois enforcado. (_Obra
cit._, pag. 66).

O encarregado da priso foi o desembargador Marques Bacalhau, homem de
cruas entranhas, chamado sempre a funccionar nos dramas que terminaram
pela catastrophe da forca.

Correram ento em Lisboa umas insipidas quadras de queixume de Margarida
do Monte contra o desembargador aguazil do _carvoeiro_. Diziam assim:

      Oh! descahido te vejam
      Estes olhos peccadores:
      Arrastado e perseguido
      J que perco os meus amores.

      Todas ns, as freiras juntas
      Te havemos de praguejar
      Pois por caber com el-rei
      Nos vaes desacreditar!

      Justia de Deus te cia,
      E com todo o seu poder;
      Na bocca de um bacamarte
      Te vejamos padecer.

      Homem, deixa-nos viver,
      No sejas to turbulento;
      Deixa divertir as tristes
      Que no sahem do convento.

      Etc.

Um amigo, que me ouviu lr estas noticias do theatro do seculo XVIII,
perguntou-me se eu as bebi nos livros do snr. Theophilo Braga.

--Que livros?

--A _Historia do theatro portuguez_, onde elle conta pouco mais ou menos
essa historia. A paginas 8 do 3. tomo diz elle o que voss diz do actor
hespanhol Antonio Ruiz.

Possuo com singular curiosidade os livros originaes d'aquelle sabio.
Abri a obra citada e li. Effectivamente copiei o doutor Theophilo, como
o leitor vai observar. Em expiao da minha fragilidade, confesso a
culpa, confrontando o original e o plagiato.

     ELLE

     (EM 1871)

     _Antonio Rodrigues hespanhol sustentou-se com felicidade muitos
     annos no theatro de Lisboa. Era bonissimo poeta, philosopho,
     historiador e palaciano._ Era homem de bem tanto s direitas como
     actor de merito. _Do seu_ porte _honrado_ redundou-lhe _uma penso
     annual de cento e vinte moedas de ouro que lhe dava o rei. Querido
     das mulheres, estimado da nobreza, e relacionado com muitos
     prelados do reino, at do povo se fez idolatrar._

     HIST. DO THEATRO PORT.

     EU

     (EM 1866)

     _Antonio Rodrigues, hespanhol, sustentou-se com felicidade muitos
     annos no theatro de Lisboa. Era bonissimo poeta, philosopho,
     historiador e palaciano._ Era to homem de bem quanto actor de
     merecimento. _Do seu_ proceder _honrado_ resultou-lhe _uma penso
     annual de cento e vinte moedas de ouro que lhe dava o rei. Querido
     das mulheres, estimado da nobreza, e relacionado com muitos
     prelados do reino, at do povo se fez idolatrar._

     O JUDEU (romance).

Quem, primeiro que elle e eu, dissera isto em francez foi Francisco
Xavier de Oliveira, em um livro que provavelmente o snr. Theophilo nunca
viu; mas adivinhou-o, e eu copiei d'elle. Porm, no acto da copia,
deslisei da verso do professor de litteratura em tres pontos. 1. Elle
escreveu em 1871: _Era homem de bem tanto s direitas como auctor de
merito_; e eu escrevi em 1866: _Era to homem de bem quanto author de
merecimento._ E o cavalheiro de Oliveira tinha escripto: _Il toit aussi
homme de bien qu'il etoit Acteur de mrite._ O _tanto s direitas_ do
snr. Theophilo  uma perola de estylo de que eu no quiz defraudal-o nem
_s tortas_. 2. ponto: Elle disse: _do seu porte honrado_. E eu,
gafando a phrase de francezia, puz _proceder_ em lugar de _porte_. Foi
ignorancia que me pesa como _porte_ ou carreto; mas ainda me fica
_porte_ ou capacidade para mais toneladas de materia bruta com que me
quero dar _porte_ ou importancia. 3. ponto da minha divergencia, quando
em 1866 eu copiava o que o doutor escrevia em 1871: Elle pz
_redundou-lhe_, e eu _resultou-lhe_. Do feitio que elle escreveu a ida
fica mais aceada. Na nova edio do _Judeu_ hei de apanhar-lhe o
_redundou-lhe_ que  bom.

No entanto, posto que eu plagiasse este erudito, no sei por que artes
lhe armei a sancadilha de chamar Antonio _Rodrigues_ ao actor hespanhol
que nunca foi _Rodrigues_; mas sim _Ruiz_. Faz-se mister sestro de muito
mentir para enganar um homem, de quem se copa o engano cinco annos
depois! Parece enguio! O cavalheiro de Oliveira escreveu _Ruiz_. Cuidei
que era abreviatura de _Rodrigues_, e l vai a peta de recochte lograr
o doutor que m'a encampou cinco annos antes, a mim, seu copista! Quem me
desenganou foi o poeta jocoso Thomaz Pinto Brando; e contarei ao leitor
como e quando, se  que lhe no vou contar o que v. exc. j sabe do
doutor Theophilo.

Ahi por 1730 chegou a Lisboa a companhia hespanhola, que se hospedou em
casa de um clerigo seu patricio chamado D. Hieronimo Cancer. Ao assumpto
d'esta hospedagem de raparigas em casa do padre fez Brando as seguintes
decimas:

      Victor! j chegou a gente
      de Madrid, to esperada,
      e j foi agasalhada
      do seu superintendente.
      Este padre impertinente
      se intitula em Portugal
      Dom Hieronomio de tal,
      e _Cancer_ tambem seria,
      pois  sua enfermaria
      puxa as damas do hospital.
      Porm, viva o tal padrinho!
      s a taes afilhadas chega;
      que  Undarro, e  gallega
      abena o seu carinho.
      E baptisa de caminho
      com f pia e fervorosa
      a dama em flr magestosa,
      confirmada no primor;
      porm, se a Undarro  flr
      tombem a gallega  Rosa.

      ..............................
      ..............................

      Com que j por uma vez,
      temos boa companhia,
      graas ao nosso Atouguia
      que tal companhia fez,
      Em fim, j chegou Garcez,[1]
      galan de primeira classe,
      que eu no cuidei que chegasse;
      e j muita gente diz
      que morreu Antonio Ruiz;
      mas _requiescat in pace_.

      _Amen._

Digo o mesmo, respectivamente ao sabio que desbalisei do seu trabalho de
traductor de um livro que nunca viu. E agora vem de molde penitenciar-me
d'um insolente repto que escrevi ha dous annos por occasio de
recommendar certo livro escripto portuguezmente:

.........................................................................

Admiro como elle (o author) se manteve austeramente portuguez em meio
dos sycambros litteratios que, quelle tempo, coaxavam por esses paues!
Parece-me que j ento por alli era (em Coimbra) contagiosa a sarna
letrada do insigne rhapsodista, snr. Theophilo. Este sujeito traduzia as
suas cousas originaes em vascono azado para nos capacitarmos da sua
ignorancia dos idiomas neo-latinos. Vislumbrava-se d'aquillo muito lidar
com linguas teutonicas; uma construco que cheirava ao grego, mas
fallava mouro. O seu forragear no francez era um justo despique dos
latrocinios que elles c nos fizeram em 1808. Se os no citava, tambem
elles l no disseram cujas eram as patenas e os calices de ouro que nos
arrebanharam nas igrejas. Retaliao justa.

Ainda assim, as rhapsodias d'este philosopho, derrancadas pelo estylo,
no tinham cunho d'author escorreito. O polygrapho, chamado ha pouco a
ensinar a mocidade, sustenta creditos de original, affirmados e
cimentados na singularidade bordalenga com que transpe idas
peregrinamente formosas para as suas locues de chouto, coxas,
esparavonadas, pragaes infindos, florilegios de absurdos, listrados
d'algumas raras clareiras de siso commum, apanhadas de outiva, mas
desordenadas no vascolejar d'aquelle craneo legendario onde o enxofre
sobrepuja o phosphoro.

O homem, um dia, traduziu Balzac. Dizia elle que ia traduzir novellas
para que o publico soubesse onde os romancistas portuguezes ceifavam, a
furto, as suas messes. Era contra mim que o doutor desempolgava a
flecha. Ai do Balzac, se o avaliaram na injuriosa verso do meu malsim!

Eu tinha ento oitenta volumes com o meu nome, oitenta provocaes
atiradas  cara juvenil do prodigio. L lh'as deixo estampadas. E
prometto lembrar-lh'as.

No me ha de ser acoimada como desvanecimento a presumpo de que umas
negaas litterarias, que vou tregeitando a este vidente vsgo, ho de
viver tanto como os seus apocalypses, em que a besta  muito mais
intelligente e manhosa que a de S. Joo Evangelista. Eu, por mim, desejo
que, l ao diante, se saiba quo morri na desconfiana de que o snr.
Theophilo Braga era um malabar de feira saloia enfatuado com os
applausos do gentio lrpa.


Desdigo-me de tudo que ahi fica para minha eterna vilta. Logo que fui
apanhado a copiar do snr. Joaquim Theophilo Fernandes Braga, julgo-me
capaz de copiar de toda a gente.

      *      *      *      *      *

Agora, direi da Zamperini.

Cantou no theatro d rua dos Condes ha 104 annos.  a terceira das
forasteiras que mais ouro mineraram em Portugal e mais authenticos
documentos levaram da sensibilidade do peito lusitano.

Para o theatro lyrico da rua dos Condes fintaram-se os argentarios em
quatrocentos mil cruzados; e no anno seguinte, j no havia dinheiro
para pagar ao tenor Schiattini. Adoptaram ento os emprezarios um
systema que no  hoje bastantemente seguido: como o tenor instasse pela
mensalidade, metteram-o na casa dos doudos; mas, em noite de
espectaculo, concediam-lhe a lucidez necessaria para cantar de graa.
Iam ento dous quadrilheiros trazl-o da enfermaria dos orates em
direitura ao camarim. O tenor vestia-se, e era escoltado at ao palco.
Ahi, desatava o canto, compondo de sua lavra a letra, que era um
desafogo de injurias rimadas aos emprezarios. O povo trovejava
gargalhadas, e o improvisador, aquecido pelos applausos, sarjava a
epiderme d'aquelles originaes patifes que, no fim da opera, o devolviam
ao seu cubiculo no hospital de S. Jos.

Assim andou baldeado entre o palco e a enfermaria, at que D. Jos I,
condoido do artista, o admittiu  sua real capella. Aos biltres
illustres que capitularam de sandeu o tenor, no irrogou censura o rei
nem o grande ministro: porque entre elles estava o conde de Oeiras,
filho do marquez de Pombal, e um dos varios amadores da cantarina.

No foi, porm, o primogenito do marquez a mais generosa victima no
holocausto de Zamperini. O sagacissimo pai espira-o at dar-se a crise
da logreira dama se manter a expensas d'elle, sem o concurso dos
capitalistas. Chegado o momento, Zamperini foi expulsa do paiz, por
ordem do ministro.

Em 1772 espalharam-se em Lisboa alguns exemplares de uma reles gravura,
figurando a camara de Zamperini. Est a cantora sentada ao p de uma
banca; e, ao lado, estas duas linhas com feitio de versos:

      Prenez, belle et charmante coquette, prenes tout,
      puis que vous tes dans un pas de fous.

Defronte d'ella est Anselmo Jos Braancamp, dando-lhe 1:000 peas, que
ella recolhe com a mo direita, em quanto o monteiro-mr, ajoelhado, lhe
beija a mo esquerda. Da bocca d'este sujeito partem duas linhas em
inglez:

      The true property of an englishman
      T'is to pay and despise.........[2]

E mais abaixo:

      Mylord, dont kiss her hand,
      Because she has no face,
      But kiss her... her... her...
      Kiss her elsewhere[3]

 direita, est Ignacio Pedro Quintella com a bolsa aberta, mas, ao que
figura, ainda no resolvido a esvazial-a. Correspondem-lhe estes versos:

      A quoi pensez, Monsieur? elle encore ne vouz aime;
      allons, prenez l'exemple, et vous serez de mme.

 esquerda, Antonio Soares de Mendona mette a bolsa na algibeira, e d
visos de safar-se, com estes versos:

      Lasciate agli altri, amico, la campagna,
      questa sol con quatrini si guadagna.

A um canto, est o padre Manoel de Macedo repelindo  sua celebrada ode
 cantora, e Joo da Silva Tello recita-lhe esta quadra:

      Macedo, no te cances,
      Pois os gostos so diversos;
      Zamperini estima o ouro,
      E nada entende de versos.

E assim termina a relamboria semsaboria.

Os casos relativos a esta cantora so vulgares e muito sabidos da ampla
nota de Verdier _Hyssope_. Os netos dos sujeitos que a opulentaram, hoje
em dia, so pessoas de muito juizo, de medianas posses, e sorveteiras
glaciaes em ternuras de camarins.

     [1] O snr. Theophilo a pag. 151 e 152 do tom. 3. do seu _Theatro
     portuguez_ desmente o Pinto Brando, dizendo que o _Garcez no
     veio_. O doutor, 141 annos depois, estava mais em dia que o poeta,
     redactor diario dos factos que vai poetisando a seu modo. Theophilo
      unico!

     [2] O que bem caracterisa o ingls  pagar bizarramente e... andar.

     [3] Mylord, talvez vos dsse maior jubilo, em vez de beijar-lhe a
     mo, etc.




ENTRADA PARA OS SALES


Eu no contava com a gloria e o contentamento de estampar nas _Noites de
insomnia_ o livro completo de physiologia social, intitulado--OS SALES.

Cuidei que o pensador severo e estylista primoroso me daria como brinde
to smente alguns fragmentos, radiados da ida geral da obra.

Agora sei que todo o livro ser meu, ser d'estes opusculos que to
benigna e agraciadamente so recebidos e indulgenciados pela bemquerena
de 1:000 subscriptores.

E, pois que a publicao dos SALES principiou aqui desacompanhada da
introduco indispensavel ao complexo dos capitulos, foroso  que se
interponha o soberbo peristylo por onde o leitor mais de grado ir ao
entendimento dos trechos que j leu e dos outros que advierem.

Este livro dos SALES ser a poro mais para durar e sobreviver s
futilidades das _Noites de insomnia_. O visconde de Ouguella, ainda em
annos florentes e vigorosos, pde dizer com o velho e experimentado
Rousseau: _Je sens mon coeur et je connais les hommes_. O seu livro
esplende os lampejos sinistros do espirito por onde passaram as duvidas
e pungentes ironias de Proudhon--aquelle vidente que Deus mandou
apregoar a prophecia da destruio debaixo dos muros da segunda
Jerusalem derruida.

A Justia, a inspiradora do livro que se intitulou graciosamente os
SALES, apparece-nos ahi sem a venda gentilica, v pelos olhos da
historia--a Fatalidade inflexa--; e emerge  flr d'estes parceis, que
nos atormentam, as evolues da Providencia.

No estamos afeitos a taes livros com assignalado sinete portuguez. O
melhor romance entre ns  um espairecimento, e o melhor poema uma
balbuciao em linguagem nova.

A Poesia ha de vir a ser apostolo, e a trajar insignias circumspectas de
Justia, quando os bons espiritos como Guerra Junqueiro e Guilherme de
Azevedo a no descompozerem com a nudeza das tragedias, e as diatribes
em que o sarcasmo no suppre o ensinamento affectivo. A alma nova no
se compadece com uns coraes que nasceram velhos.

Livros para este tempo faz-se mister que venham saturados das lies do
passado, e se ajustem a entendimentos rudimentares. Aos espiritos cultos
pouco ha que ensinar, logo que esses nos admoestam superciliosamente que
moralisemos as _massas_. Mas sejamos todos _massas_ em quanto o povo--a
arraia das hortas e das galerias parlamentares--desconfiar que lhe desce
do alto o exemplo que a dissolve e acanalha.

O livro do snr. visconde de Ouguella ser a historia ideada um pouco 
feio do estylo e maneira de Lamennais quando a referia em _palavras de
crente_, e quando as turbas criam e estremeciam ao relampejar do Sinay.
Isso passou l fra, e estou em crr que nunca se acclimou aqui. Se
alguma hora o fervor politico levantou cacho na consciencia publica, a
infamia assignalava as esploses de civismo com o sangue de Agostinho
Jos Freire. Relampagos de Sinay entre ns so os que flammejam das
casernas e reverberam nos gladios dos Quichotes que constituem os reis
seus Pansas.

E, como eu me sinta impellido a grandes forragens historicas em terras
da Mancha e Barataria, recolho-me ao vestibulo dos SALES, e peo ao
visconde de Ouguella que nos relate como foi que um providencial acerto
lhe deparou o manuscripto do desembargador.




OS SALES


INTRODUCO

     ... Elle eut pour lui cette reconnaissance que la perle doit avoir
     pour le plongeur, qui l'a decouverte dans son caille grossire
     sous le tnbreux manteau de l'ocan.

                                                     THEOPHILE GAUTIER.

Era um dia esplendido de inverno n'este ignoto canto do occidente. Abri
o Almanach da agencia primitiva de annuncios, e a paginas dez encontrei
o seguinte:


20 Tera. S. Sebastio, martyr. Festa na sua freguezia, e na igreja do
hospital de S. Jos.


Perdoem-me os devotos. Nenhuma d'estas festividades me impressionou o
espirito.

Resolvi ir  feira da Ladra.

s teras feiras, assemelha-se o campo de Sant'Anna a um bazar africano,
na selvagem e cynica disposio dos objectos que constituem o mercado.

Estas tristes e lugubres origens berberes demonstram-se sempre, e a cada
passo. As magnificencias orientaes, em todo o esplendor e opulencia das
inacreditaveis e sublimes raridades da Asia, nos seus soberbos e
sumptuosos caravanseraes, no existem aqui. Lem-se nos livros,
aprendem-se nas _Mil e uma noites_, adivinham-se nas chronicas dos
nossos navegadores, estudam-se nos espolios atrozmente mutilados das
casas antiquissimas e esplendorosas dos vice-reis da India. Hoje so um
mytho. Para ns--pobre povo--empurrado para as vagas espumosas do
oceano, pelas civilisaes que se apossaram da Europa, e que nos varrem
sem piedade nem dr para a Africa carthagineza, como se ns foramos os
numidas das lendas romanas ou os ferozes kabylas das raizes do Atlas.

E o que somos ns? Deus o sabe.

Somos um povo essencialmente temente a Deus, essencialmente catholico,
devotado  virgem de Lourdes e  Senhora de la Salette, essencialmente
constitucional, e essencialmente ignorante n'estas lutas, que despedaam
thronos e proclamam republicas.

Tudo quanto Deus faz  por melhor, assevera esta familia lusitana,
n'um proloquio de origem celtica, que tem todo o fatalismo e sabor das
raas e linguas orientaes.

As lutas do catholicismo e do crescente mourisco crearam uma epopa
grandiosa, que se traduz n'este eclectismo philosophico e religioso, que
afoga, em vastas dissertaes aristotlicas, e em tristissimas lutas das
esclas de Alexandria, estas simples e ingenuas verdades christs. A
_graa_, evangelisada pelos doutores da igreja, , talvez, efficaz para
apagar estes torneios nas consciencias, e remir peccados de
reminiscencias to pags.

E assim vamos vivendo. A phrase  chata e vill. Mas est officialmente
reconhecida e estampada nos muito veridicos e piedosos discursos da
cora, tal qual resa e commemora o agiologio parlamentar.

Houve um dia, antes das ordenanas de Carlos X, em que um jornal
francez, to lido que aterrava o throno, terminava o seu principal
artigo--esculpido hoje nos bronzes da historia--com esta phrase singela
e prophetica: _Pobre Frana, pobre rei!_...

Se eu dissera aqui: _pobre_ Portugal!--No digo.

Entrei na feira da Ladra.

Na entrada do campo, a um dos angulos, em face do convento de Sant'Anna,
levanta-se a praa dos Touros. Edificaes mais ou menos elegantes, mais
ou menos sumptuosas, enfileiram-se, em linha recta, por uma das faces.

Ao fundo est gizado um microscopico jardim que, na louca ambio da sua
tristissima Flora, cingindo-se no cinto fanado de um empoeiradissimo
buxo, caberia  vontade na mais limitada sala de qualquer nababo das
possesses indo-britannicas.

Pelo meio do campo, em deploravel estendal, havia pannos, pranchas de
pinho e taboleiros ignobeis, onde jaziam, na mais intima convivencia, os
residuos, o lixo e os detritos da gerao presente e das que passaram.

Acudiu-me aqui a musa do poeta florentino:

      Lasciate ogni speranza, voi che entrate.

Achava-me em presena do inventario de uma capital.

Examinei:

Um pires secular de Svres, voluptuosamente contornado nas frmas
elegantes do reinado de Luiz XV, escondia-se na penumbra d'uma terrina
de faiana, que fra a ultima aspirao da fabrica de Sacavem. Havia um
sacrificio a Diana, em biscuit de Saxe, tombado sobre a espora de
prateleira, que fra triste legado do ultimo marquez de Marialva. Mais
longe, espreguiava-se com a boal ironia de _parvenu_, um saleiro da
modesta porcelana da Vista-Alegre, sobre os fragmentos de um vaso
etrusco, humilhado e melancolico nas mutilaes e concertos com que o
expunham  irriso publica. Um espelho de crystal de Veneza, onde os
amores brincavam com frechas e carcazes, coloridos sobre o vidro, por
mos de fadas, entre um rosal de perfeito esmalte, n'um bero de verdura
e de papoulas, encaixilhado em ebano, aberto a buril, nos cantos, em
prata dourada, repousava sobre uma farda de archeiro, coeva dos
devaneios da crte de D. Joo V, e reliquia marcial, talvez, dos
delirios asceticos do mosteiro de Odivellas. A tampa de um assucareiro
do mais antigo Saxe, levantando, em relevo, uma deliciosa grinalda de
boninas e amores perfeitos, recordava, na suavidade das frmas e no
primor das folhagens, as creaes elegantissimas de Vanloo e Bucher. Um
prato esmaltado da mais diaphana e transparente porcelana do Japo
equilibrava-se sobre um fructeiro de loua das Caldas, onde se traduzia
a ridicula vaidade do oleiro, que quizera rastejar no colorido e nos
embautidos cambiantes das cres, e pela opulencia dos debuxos e ornatos,
com os preciosos trabalhos ceramicos de Bernardo de Palissy.

Mais adiante, por entre uma selva de martellos partidos, fechaduras
quebradas, correntes de ferro em completa oxydao, e chaves e cadeados
de varias dimenses, dei com o retrato de el-rei D. Jos, pintado a
leo, em vestuario de crte, com o globo de ouro e sceptro cinzelados,
no estylo classico das monarchias absolutas. Pendia o quadro sobre um
candieiro de lato, pharol de tres lumes, contemporaneo, talvez, da
lampada a cuja luz Paschoal Jos de Mello escrevera o seu livro de
direito criminal. Aps estes primores archeologicos desenrolava-se uma
fileira incommensuravel de botinas, sapatos, babuches, chinelas,
tamancos, galochas e alpercatas, que se perdiam n'uma extensa linha,
talvez a ultima illuso dos seus possuidores. _Sic transit gloria
mundi_, clamavam os escravos, queimando estopa, detraz dos carros
dourados dos triumphadores romanos.

Desde o vestuario tragico, que acompanhava em scena os heroes do
atheniense Sophocles at ao sco plebeu da comedia vulgar, onde se
expandia o riso de Aristophanes, havia tudo n'este bazar immenso das
geraes extinctas. Gigantes e lilliputianos, heroes, semi-deuses e
proletarios poderiam calar-se, afoutos, n'aquelle chos de todas as
civilisaes.

Havia a bota de canho, sria, grave e irreprehensivelmente
lustrosa--despojo venerando de algum desembargador da casa da
supplicao, de par com a chinela phantastica e imaginosa da cortez
mais desenvolta e elegante. Por entre colchas da India, recamadas de
lentejoulas, esmaltadas em mosaicos de fios de ouro, entretecidos em
variados matizes, lenoes de Bretanha, finissimos, arrendados em
arabescos nas orlas das cabeceiras, columnas de carvalho do norte,
abertas a buril, em que pousavam passaros esculpidos sobre pampanos e
hastes de videira, no meio de fragmentos de apparatosos biombos de
charo escarlate da phantastica China, onde aves e drages dourados
surgiam de vasos idealisados pela imaginosa creao do artista, atravs
de crystaes de Bohemia, partidos e mutilados, enunciando todas as cres
do prisma, e de envolta com vassouras de piassaba, modestas e
envergonhadas em toda a humildade da sua burguezia, avistei um contador
de Boule, moldado em tartaruga, envolto em festes de grinaldas de cobre
dourado, no mais correcto estylo Pompadour, e arremedando, na ousadia do
desenho e na elegancia e recortes das folhas de metal, as sublimes
inspiraes de Benvenuto Cellini.

Por detraz d'este contador, que era a joia, o talisman, a maravilha, no
seio d'aquelle crapuloso e hediondo bazar, equilibrava-se de cocoras,
formando como novello, uma velha octogenaria, que se poderia descrever
por uma ruga inteira, que em zig-zag ou em grega lhe cortava as faces, e
ia perder-se, em espiral, n'uma garganta, que parecia a pelle abandonada
por uma serpente do deserto. Encarei-a a medo, e com um pavor
inexcedivel. Pareceu-me dar de rosto com uma das feiticeiras de Macbeth.
Envolvia-se n'um cafran ou burnus--uma especie de farrapo de panno, que
lhe cingia o tronco, deixando solta a cabea, que apparecia envolta n'um
leno asqueroso, injuriado pelo tempo, e que emmoldurava dous olhos
negros scintillantes e vivos, n'uma physionomia baa e livida, como um
pedao de cera amollecido entre os dedos.

Dirigi-lhe a palavra em phrases breves. Cheguei a ter receio do
despertar d'aquella sphinge. Ouvi, depois, um ruido surdo, como de um
movel, que se arrasta, uns sons roucos e gutturaes, na melopa arabe,
uma voz cavernosa, e sahida dos abysmos, como se fra uma das
pythonissas da velha Escocia. Afigurou-se-me que lhe ouvira a saudao
feita ao heroe de Shakspeare: Salv thane de Glamis, e de Candor!

A fascinao, que me produzira o cofre, explica, de certo, estas
allucinaes e devaneios acusticos.

Enchi-me de animo, e perguntei-lhe de novo: quanto custa este contador?

A velha, a sibylla, a bruxa, o que quer que era, remexeu-se, por entre
os farrapos que a cobriam, rumorejou por duas ou tres vezes algumas
phrases, que no chegaram aos meus ouvidos. Alguma invocao infernal,
algum preito a Satanaz,--e depois accentuou em voz clara e cadenciada as
seguintes palavras:

--D-me dez libras, e leva-o de graa.

--E a chave?

--A chave no a tenho. Perdeu-se. Ha papeis dentro. Bem sei que os ha.
So comedias, entremezes ou seja l o que fr. Doudices do dono. O
desembargador Joo Aleixo de Castro Pimentel e Figueiredo escrevia muito
nos ultimos annos da sua vida.

--Conheceu-o?

A velha sorriu-se.

A ironia d'este sorriso tinha no sei que reflexo dos lampejos do fogo
infernal.

--Se o conheci! Fui sua criada. Tinha sido sua escrava. Comprou-me em
Tetuo. Morreu-me nos braos, no ultimo de dezembro  meia noite. Eu
vendo os moveis para comer.

Entreguei-lhe as dez libras sem regatear cinco reis. Esperava com esta
amabilidade que a antiga escrava do desembargador continuasse a sua
curta narrao.

Mas a velha guardou o dinheiro n'um sacco que lhe pendia do cinto, velou
as faces com o farrapo ou capote que a cobria, e ficou muda e silenciosa
como um mysterio.

No me dei ao trabalho de procurar uma chave. Quebrei a fechadura, achei
nas gavetas um manuscripto, e encontrei na primeira pagina o seguinte:


AO LEITOR

Vivi bastante para alcanar mais de metade do seculo dezenove.
Considerei, examinei, e estudei os acontecimentos, e os homens do meu
tempo. Vou debuxal-os e desenhal-os taes quaes os concebi, e taes quaes
elles se teem mostrado n'estas rotaes constitucionaes de uma poca,
que no  a minha. Onde bastar o esboo abandonarei a palheta, e usarei
do lapis de carvo. Onde o vulto carecer de mais luz, e de mais vasto
horisonte deixarei o pincel, e pegarei do cinzel e do escopro. No tenho
pretenes a Phidias, nem a Miguel Angelo, nem a Rubens, nem a Hogarth,
nem a Van-Dick, nem a Aretino, nem a Delacroix. Faltam-me os traos de
Zubarran, as linhas de Corregio, as tintas de Ticiano, os perfis de
Murillo e o riso sardonico de Gavarni. Com tudo, as sombras d'estes
nossos Mirabeaus, Talleyrands, Barnaves, Berriers, Collards, Cavaignacs,
Favres e Marats hei de pl-as de p, hei de vestil-as, hei de
enroupal-as, nas vestiduras do nosso seculo, e hei de com ellas e s com
ellas povoar

OS SALES

Segue-se o livro.

Vou publical-o.

      VISCONDE DE OUGUELLA.




ECCE ITERUM SILVA CRSPINUS


Escreve elle no n. 69 da _Actualidade_:


Publicou-se o n. 17 da _Tribuna_. Insere artigos e versos dos snrs.
Ferrer Farol, Guimares Fonseca, e outros escriptores, e no desmerece
dos numeros _ulteriores_.


_Ulterior_ quer dizer _que vem depois_, ou _que tem data posterior_.

 vista do qu, o n. 17 j publicado  posterior ou _ulterior_ ao n.
18. Segundo este systema chronologico de Pinto, o _depois_ est primeiro
que _antes_, 6  a continuao de 7, e os filhos nascem primeiro que os
seus paes. Se elle quizesse dizer que os n.^os 18, 19, etc., da
_Tribuna_ promettiam ser iguaes aos seus precedentes, escreveria: Tudo
nos assegura que os numeros, que ho de sahir anteriormente, sero
dignos dos numeros que j sahiram posteriormente.

Sem impedimento d'estes e d'outros anteriores e ulteriores furunculos de
aposthema intellectual, proponho  academia real das sciencias este snr.
Silva... para varredor.




SANTOS-SILVA


Bravo! almas generosas do meu brioso Portugal que amparastes a viuva e
os sete orphos do egregio orador!

Bravo! coraes que avaliastes o talento do pai e o infortunio dos
filhos!

Formoso rastilho de luz foi esse que vos guiou desde a sepultura de
Santos-Silva at ao recinto em que uma viuva, entre a saudade e a
pobreza, ampliava o regao para aconchegar do seio aquelles sete rostos
banhados das ultimas lagrimas de seu pai.

Entrou, a um tempo, n'aquelle lugar de angustias, a mortalha e o manto
da misericordia. Sahia um cadaver, e entrava o anjo da caridade.

Joo Antonio de Santos-Silva levava espelhadas na retina morta as oito
imagens queridas; e a Providencia rodeava de amigos aquelle sagrado
grupo de crianas que punham as mos--expresso unica das agonias
inexprimiveis.

A fatalidade da morte justificava, no menoscabava os designios do
Altissimo.

      *      *      *      *      *

Eu conheci-o pouco: fallei com elle duas vezes; lia-lhe os seus
discursos como quem estudava a grande phrase lusitana no mais correcto e
energico orador parlamentar.

Tem lanos admiraveis de fora e de atticismo as suas oraes. No sei
nem entendo o quilate politico dos seus discursos. Estudava-o
meditativamente, sem lhe graduar a justia da aggresso ou da defeza. Os
seus adversarios, a julgal-os pelo tamanho do gladio que os feria,
pareciam-me grandes, como os de Isocrates e Demosthenes. Se o no eram,
o orador magnanimo deu-lhes a honra de o inspirarem.

Tambem eu lhe mereci a considerao de algumas cartas em que me vejo
honorificado com o titulo de amigo. Mal pensava eu, quando ha dous annos
lhe fallava da irreparavel perda da minha saude, que to cedo o seu nome
iria ajuntar-se aos de tantos amigos mortos, a quem eu dissera o ultimo
adeus.

E, quando eu lhe fallava de meus filhos com o corao cheio das
presentidas lagrimas de dous orphos, dizia-me elle que lhes seria
protector n'esta vida, se Deus lh'a no tirasse s suas seis
criancinhas.

Como esta carta est revendo as lagrimas e a santidade de pai!...

Porque no hei de eu dar um quinho d'esta melancolia aos que tem
filhos? E uns assomos de jubilo aos que abriram mo redemptora  familia
de Santos-Silva?

Esta carta foi datada em 24 de outubro de 1871.


.....: Vou dar-lhe um conselho. Estudei e exerci a medicina por uma boa
duzia de annos. Estudei-a nos outros, com os escrupulos de uma s
consciencia, e como quem tinha a sua misso por um sacerdocio. Tenho-a
tambem estudado em mim, porque a isso me obrigam os meus padecimentos.
Dos desenganos que colhi na sciencia e na pratica, resulta para mim uma
regra que, se no  uma verdade infallivel,  com certeza muito geral.
Nada ha mais falso ou pelo menos incerto do que o juizo que o paciente
faz do seu estado, pelo que diz respeito ao diagnostico e prognostico da
sua molestia. Os proprios medicos so os que, n'este ponto, mais se
enganam, por que so os que mais exageram.

No creia, pois, nas suas anemias, nem nas suas ethicas; mas no
descure restaurar as suas foras, e seguir tenazmente um tratamento
hygienico, analeptico e moral, que lhe reconstrua o sangue, lhe
regularise qualquer desarranjo de funco, lhe tranquillise o espirito,
ou o levante de qualquer ligeira prostrao. Creia tambem na sua idade,
e na fora medicatriz da natureza, que, quando  bem dirigida e
auxiliada por um medico prudente e habil, faz milagres.

Falla-me o meu amigo de dous filhos seus, e appellou para o corao de
um pai que tem seis. Feriu a minha corda sensivel; estremeceu-a com as
mais vivas vibraes. No sei se todos os paes so como eu sou: devem
sel-o. De todas as desgraas humanas a que mais confrange a minha alma,
e mais me angustia o corao,  a que se desata em lagrimas e em
infortunios sobre a orphandade desprotegida e desamparada, a quem Deus
esqueceu na hora em que encerrou o livro da vida ao pai que s vivia do
santo amor de seus filhos.

Se Deus me alongar a vida, e seus filhos precisarem de mo valedora que
os guie e ajude n'esta escabrosa peregrinao, irmanal-os-hei aos meus.
Repartirei com elles o meu prestimo, se ento o tiver. Estas palavras
no so s de consolao: so compromissos solemnes, que espero no
desmentir.

.........................................................................

A posteridade nem sempre se esquece de pagar as dividas sagradas de
seus antecessores.

.........................................................................

Meu caro amigo, no pense em morrer. Pense no que necessita, e de que
Deus, que  justo, o no pde por ora privar. Pense na sua vida, que  a
vida de seus filhos.


Elle morreu; e, na hora derradeira, reconhecia ainda a justia divina,
posto que estivesse lendo nas lagrimas de sua familia e nas agonias
proprias que era chegada a morte. Abenoou-a como enviada de Deus,
quando sentiu na garganta a constrico da asphyxia.

O halito consolador da Providencia passra, como vaticinio, por aquella
alma, quando me escrevia as esperanas realisadas em seus filhos: _A
posteridade nem sempre se esquece de pagar as dividas sagradas de seus
antecessores_.

Pagou. O monumento do grande orador  o po da sua viuva e dos seus sete
filhos.




DOUDO ILLUSTRE


O arcebispo de Mitylene, D. Domingos Jos de Sousa Magalhes, doutor em
canones, jurisconsulto eminente, orador esclarecido tanto no magisterio
universitario como no parlamento, ensandeceu em 1858, quando contava
quarenta e nove annos, e acabou de morrer em 1872, em Villa Pouca de
Aguiar, na casa onde havia nascido.

Motivou a demencia d'este douto prelado a suspenso das funces de
provisor e vigario geral do patriarchado de Lisboa, dada pelo cardeal D.
Guilherme I. A causa da suspenso, pleiteada acerbamente por parte do
arcebispo e dos seus contendores, foi um opusculo d'aquelle prelado, que
denunciava irregularidades e delictos ecclesiasticos. Teve parte n'esta
pugna um dos nossos contemporaneos mais abalisados em jurisprudencia e
em variada litteratura, o snr. visconde de Paiva Manso, a favor do
arcebispo, e contestando o doutor Cicouro. Pleitearam com energia, por
parte do patriarcha, o conego Joo de Deus Antunes Pinto e o reverendo
academico Francisco Recreio, digno dos vigorosos impugnadores.

Como quer que fosse, o arcebispo de Mitylene perdeu na brava luta a
razo; e, ao parecer de illustrados juizes da sua justia, foi a
iniquidade que matou o robusto athleta.

Transferido de Lisboa para o amparo de sua familia em Traz-os-montes, a
esperana de restaurar-lhe o juizo desvaneceu-a a progressiva
condensao da escuridade  volta d'aquella alma triste, lethargica,
absorta na contemplao estupida das lagrimas dos parentes e amigos.

Do torpor silencioso e abstrahido passou s manifestaes irrequietas do
delirio, do sonho, das miragens que lhe tumultuaram, durante quatorze
annos, nas suas escurides interiores.

Escrevia muito; dormia poucas horas; palmilhava em vertiginoso regirar o
taboado do recinto, onde se refugiava dos olhares amargurados de sua
familia.

Possuo pequena parte dos seus manuscriptos autographos, com as datas de
anno, mez e dia.

Deprehende-se de alguns que o illustre alienado se considerava rei de
Portugal, umas vezes; pontifice outras; e no  raro enxertar-se em
jerarchias mais elevadas no reinado dos puros espiritos. De envolta com
os dislates d'aquelle sonhar incessante, ha, nos escriptos do homem que
fra um dos mais alumiados da sua poca, admiraveis lanos de linguagem,
de conceito e at de razo. Que espantoso contra-senso!  que tambem nos
delirios ha raptos de luminosas vises.

Os seus escriptos so tratados, theses, dissertaes cada qual com seu
titulo, compostos desde o segundo at ao penultimo anno da demencia.
Conhece-se, apalpa-se o espessar progressivo das trevas, a vertigem da
desordem, o vasquejar das derradeiras scintillas.

Eis-aqui os titulos: _O gigante--Os privilegios da cora dynastica--As
cinco questes de direito natural, ou o estudo da philosophia de direito
na universidade--A misso divina--A chronica real--Da santidade do
direito--Cemiterio protestante--A tyrannia impossivel--O mesmo Senhor
fez os seus martyres, epistola de S. Paulo aos fieis de Galacia--O
impassivel--O erro commum--Os tres fundadores--O cordeiro--A surpreza--O
burrinho e o menino dos protestantes--O templo--O penhor e a hypotheca,
ou o juro e a herdade--O titulo da realeza--O parocho--O demonio
tentador--A espada de S. Bruno--O enigma--Mascara de ferro--O sonho--D.
Maria Caraa Bonaparte ou a burrinha protestante--O viatico da
eternidade--A estrella do norte ou a misericordia dos mares--A
vacca--Apologo--A catastrophe_.

Estes manuscriptos comprehendem sessenta cadernos em folha. Em poder da
familia do finado arcebispo ainda ha rimas de papel escripto no trajecto
de doze annos. Tirando ao acaso um de entre os cadernos cosidos com
algodo verde e escarlate--para dar ao leitor a manifestao escripta de
uma alma que esvoaa  volta dos residuos ainda bruxuleantes da sua
razo---aqui vai a




CATASTROPHE


Affonso, por sobrenome o Sexto, filho do primeiro rei, que usurpou o
titulo de duque de Bragana chamado D. Joo IV, foi deposto de sua
primogenitura por seu irmo D. Pedro, e conservado em priso e exilio de
toda a vida. D. Pedro no podia ser mais perverso. As circumstancias
atrocissimas d'este inaudito escandalo no esto bem explicadas nem eram
bem conhecidas dos contemporaneos. Os mais prudentes do reino, ou porque
no souberam, ou porque no poderam averiguar o intrincado drama, deram
ao successo o nome de catastrophe. Os hespanhoes limitaram-se a negar
o que era patente e publico; e das verdadeiras causas e do seu fio e
enredo occulto, nada explicaram na sua anti-catastrophe, documento
mediano e mal traado para o fim, e para o grande empenho da causa e da
questo; to inferior e pueril que a desvirtua e degrada apoucando o
assumpto para diminuir a impresso, ou para distrahir e desviar a
atteno do horror da catastrophe.

Os subsequentes historiadores pouco ou nada tem apurado d'esta
vergonhosa historia da usurpao; as suas monographias so como memorias
de encommenda que chegam ao seu fim por meios tortuosos para espalhar
algum erro ou para afugentar algum receio politico; e do verdadeiro fim
da historia no curam nem tratam: porque a preveno da historia  o
erro, e com este rumo ninguem pde navegar nem progredir. Attribuem
geralmente os protestantes aquelle sinistro ao partido cardinalicio de
Roma, segundo o seu costume e petulante ousadia de calumniadores, que
commetteu o delicto para o assoalhar e publicar por um lado
attribuindo-o aos seus maiores inimigos, em quanto vo por outro lado
desfigurando sempre em vo alguma memoria de maior horror, ou alguma
imputao mais pronunciada, mais manifesta e visivel, e n'este falso
empenho confundem a historia e geram o erro dos seculos; mas a verdade 
como a luz mais forte, que penetra atravs dos maiores obstaculos em
toda a parte onde estiver encerrado o homem pela maior tyrannia para
alumiar o captivo, e at para esclarecer o cadaver, que geme debaixo da
lousa e do epitaphio, que lhe escreveu o maior crime, em quanto no
revela o enigma da sua escura sepultura.

A analogia dos factos  o melhor meio de descobrir os mysterios da
historia. Para escrever a dos crimes ainda at o presente no achou a
boa critica outro fio de mais severa logica, nem documento mais fiel e
verdadeiro, nem testemunha mais digna de credito e de authoridade. A
Divina Providencia d causa  catastrophe para punir a atrocidade da
injuria; o demonio escreve a anti-catastrophe; mas o effeito subsiste, o
facto permanece, o som repercute e sa em outro ponto e orgo, s vezes
s no echo at  altura, que o Senhor fixa ao bramido para se reproduzir
no decurso dos seculos, se um unisono accorda igualmente terrivel e
medonho ou funesto e assustador at para o demonio que o gera e produz.
Sa do orgo a tuba, e no  a mo do homem que fere a tecla, nem a
musica e pensamento do seu compositor que produz a melodia. Devia o
homem vr no arcano a sciencia divina, que deu ao ar modulado pelo
instrumento a euphonica sympathia dos sons e o gentil devaneio do mais
accorde accento.

O orgo da historia no  um instrumento de imbecis, e mentecaptos que
julgam illudir as turbas attribuindo a causas falsas o effeito
verdadeiro da sua maravilhosa impresso: deixai o orgo ao templo
catholico; porque s n'elle avulta e brilha; aos viciosos e prostibulos
de maior vergonha apenas cabe a profana chula de tabernal comedia, e a
ironia da musica. A arpa  instrumento real, a lira s a tange a poesia
e a verdadeira inspirao que o Senhor concede ou nega ao cantor pelo
moto da trova e pelo pensamento da sua religio e virtude. A historia
verdadeira ou falsa, illustrada ou cega e pedinte--eis o dilemma unico
da sciencia, e o programma que o escriptor competente sempre encontra
diante e dentro do seu pensamento segundo o fim a que se prope e
persuade: a maior parte dos eunuchos s presam o devaneio do canto pelo
sustento que recebem e pelo dinheiro que contam para satisfazer as suas
abominaveis e depravadas paixes. So homens, que se deixam mutilar sem
possuir a falsa virtude de Origenes, nem a verdadeira e santa da nossa
catholica virgindade; e como pactuam a sua deshonra no exaltam o tiple
do seu desenfado sem sonhar com opiparo e somnolento banquete; e por
isso todas as suas las acabam em comer.

O estigma d'este falso ministerio da historia recahe sobre todos os
homens do mesmo engenho e calibre, que adoptam os seus estados e
profisses s pelo benigno e precioso metal que auferem e adoram--e
d'estes  sempre o maior numero; o actual enche de eunuchos todos os
theatros e d'histries a comedia d'alda, e a sua nobreza de tamanco.
Que mais diremos d'este reprobo e amphibio meteoro, seno que jmais
deixa de se converter contra o inventor e mais obstinado sectario? o
ennucho converte o sexo, e faz-se besta de carga, ou machina de pura
digesto, e morre a pedir, ou vai por conta d'estranho herdeiro dispor o
cemiterio da familia, que j se sabe  a familia dos eunuchos sempre a
mais torpe e immunda, que nem merece a honra do homem proletario.

Queremos dizer, que todos estes ho-de sahir a campo com os vozeires
para aturdir e desmemoriar a maioria dos nossos leitores; este opusculo
ha de rir do tremedal e produzir o seu effeito: acanhar os truculentos,
e fazer duvidoso o seu ocio e evitar o seu pestifero alento sem ter
necessidade de fugir da sua sanha, e sem accelerar o passo do seu
domestico e providente animal. No estranhemos o som do orgo mais vil e
desentoado, que vai s costas de erradio transfuga deslumbrar o calix da
sua melodia a todas as tabernas e lupanares; olhai para o rosto e
decifrai os signaes, que vos revelam a historia com mais fidelidade do
que as memorias que deviam retratar os seus pensamentos de historiador,
e apenas contm a sombra da sua ignominia e proterva hediondez e
peonha.

Possuir ou no possuir a casa de senhorio de Bragana sempre foi
synonymo de ser ou de no ser rei; mas possuir a casa sem possuir o
direito  dar pasto  ambio oligarchica e  falsa plata de comedia; 
o mesmo que entregar o supremo poder aos mais vis e ignobeis, ao mais
desleal e traioeiro corrilho e atroz sequella. Este  o unico partido
que pde formar-se e existir em Portugal, em quanto dura e vigora a
usurpao; os seus meios os maiores crimes, a sua politica a giria mais
desleal e machiavelica, e o perpetuo enredo do engano; o estribilho
protestante, o punhal do forasteiro mais atrevido e audaz, e a entrega
da patria perdida ao mais ambicioso estrangeiro, e ao maior renegado do
demonio. A sua authoridade sempre falsa no impera, pactua em toda a
parte com os maiores scelerados, e consegue fins mediocres e resultados
de dinheiro sempre ephemeros e fallazes: porque os juizes d'esta tontina
roubam-se uns aos outros.

Subiu o primeiro usurpador ao throno, e foi este D. Joo I: a sua mais
negra, e mais atroz usurpao foi a da casa de Bragana, mas
primeiramente o rei no pde usurpar, nas provincias nem em
Traz-os-Montes, em segundo lugar a usurpao veio toda a pertencer aos
caudilhos, que o governaram e dominaram e  sua lei mental e miseravel
recurso; que s pde communicar a seu filho com o mais tetrico e
deploravel exito, justo e bem merecido castigo do Senhor pela abominavel
traio de Coimbra. Por esta frma D. Joo no reinava, e o cardeal
romano cujo nome o infame usurpador dava ao summo pontifice, tinha o
escravo sempre encerrado na sua possilga, que era o peor palacio da casa
de Bragana, sempre a sorver quartilhos de vinho tabernal, cuja despeza
faziam entre si os falsos possuidores dos bens para no soffrer a furia
real, que era indomavel e grotesca. Se estivesse bem abeberado
deixava-se vencer, e cahia ao cho, como Gro Lamma, depois de opiado
pelo melhor tabaco e caf de Moca, e pelos prazeres reunidos do seu
abominavel harem.

A lei mental foi uma medida deficientissima para o seu fim, mas prova
at que ponto  verdadeiro o principio e evidente em nossa doutrina. O
padre santo durante o interdicto de vinte e sete dizia: entregai os bens
 casa de Bragana;--disse ento a abominavel faco: entregar os bens 
o mesmo que entregar a cora;--e logo faziam um processo com grande
numero de testemunhas para provar que no havia successor  cora, e que
D. Joo I por esta falta de successor fra justamente acclamado.
Escreviam ao mesmo tempo uma Memoria protestante, que aitribuiam a Joo
das Regras, e davam ao falso documento o cunho das crtes de Coimbra,
aonde no foi nem podia ser apresentada sem grande irriso e escarneo de
todo o povo. Alli ficava o corpo santo do duque de Bragana para
desmentir todas as memorias, mas tal  a audacia de todos os herejes e
fementidos, que nega a verdade conhecida, uma vez que possa fundar-se na
apparencia do erro. Este Joo das Regras no existiu; o nome  de um
anonymo; o effeito da Memoria foi contraproducente, o povo ria, zombou,
irritou-se e condemnou ao desprezo a falsa e torpe oligarchia que
usurpava os bens em nome do simulacro da realeza; e sustentava esta
figura s para desfrutar o rendimento da casa de Bragana. Todos os
histries do torpe magnetismo das faanhas da estrada oram pelo mesmo
vulto e dimenses; os seus meios so analogos, a sua cobardia
proverbial, a sua vangloria o mais vil commento e a mais ambiciosa
tyrannia. Em 1811 outros da mesma chita allegavam no Brazil os grandes
servios que fizeram contra os francezes e obtinham os premios de lograr
obeliscos devidos ao valente Ajax: alguns d'estes, se viram os
francezes, foi para entregar e vender a patria e os penates, os templos
e a sua santidade, as mulheres e todo o verniz do rosto vil e infame do
idolo das suas abjectas heresias e traies: se algum militar brioso e
valente do exercito appareceu no Brazil foi vendido tres vezes,
ludibriado, atraioado e escarnecido, porque no assignava os mais
falsos documentos e os mais caluminosos e torpes enganos que preparavam
e reuniam para a historia de todas as faanhas e proezas do nosso
exercito peninsular.

Porque razo no se escreveu ainda este vergonhoso commento da
usurpao? porque de todo o modo ha de ser a historia mais catholica dos
seculos modernos, e o infame hereje e protestante no pde attribuir ao
Senhor a menor virtude nem ho de conceder ao povo a correspondente
sombra de galardo. Na poca de D. Joo I o povo venceu as batalhas, o
rei gemeu na sua escravido de toda a vida, os usurpadores conspiraram,
escreveram seus anachronismos, e falsa historia, e o principio Divino
triumphou, porque a luz da verdade  a luz da Providencia, e no ha
obstaculo na fora humana, que possa occultar a verdade santa que calou
na consciencia do povo como queijo do melhor fermento do cordeiro e do
novilho.

A casa de Bragana venceu o que D. Duarte apenas sonhava como possivel,
e deixava entregue ao tristissimo evento das successes para se realisar
no decurso de muitos seculos: era um engano absoluto; o partido
usurpador  como a familia dos flamengos e dos ciganos--prova e reprova
todas geraes e partos suppostos como pe e dispe os seus monarchas
pela ultima arma do veneno e do punhal. D. Joo I por fim da sua vida
estava como o condestavel atormentado pelos remorsos; este deixou os
bens usurpados aos outros aventureiros, e pediu esmola  porta do
convento com bastante industria e sagacidade; aquelle seria morto na
mesma possilga em que vivia, se tentasse restituir a cora; porque a
verdadeira estava na cabea dos ambiciosos ministros da sua historica
realeza.

A lei do remorso  a mais imperiosa que se conhece; ao p da forca, no
banco dos ros, no ultimo transe de vida, ou no meio da mais funesta
desventura, chega a subjugar e a dominar, e rompe como o furaco atravs
dos maiores obstaculos, e derriba as torres, e arranca as arvores com a
sua tormenta e fracasso. D. Joo I fez uma confisso, e morreu;--quem
estrangulou o monarcha? o processo comeado das provas evidentes de
testemunhas oculares contra os partidarios de Bragana. Quem so estes
em vista do opusculo do anonymo Joo das Regras? J ia o algoz para
descarregar o ferro do cutelo sobre alguns infelizes, que choravam os
males da patria, quando chegou novo interdicto de Roma expedido em
virtude de uma queixa e de uma preveno que o rei j se via obrigado a
dirigir ao cardinalicio de Roma; onde dizia, que a sua consciencia
vergava debaixo do peso de invenciveis remorsos, mas que no podia
entregar  casa de Bragana uma cora sem entregar a vida aos seus
tyrannos e crueis usurpadores, e algozes, e d'estes tirava o seu seguro
e pedia desaggravo e redempo.

D. Duarte viu-se brevemente no mesmo apuro; a lei mental era uma fico
e um engano; este documento prova que os usurpadores da casa de Bragana
no contam com successor, e que so muito sujeitos  maldio da
esterilidade. O que D. Duarte pedia para os falsos donatarios, e
verdadeiros usurpadores veio para a familia real em pena de aleive e da
calomnia do falso e fementido Joo das Regras: quasi todas as successes
so actualmente da casa de Bragana por bom e legitimo direito de
familia; mas a tyrannia e o roubo  o mesmo--o seu castigo providencial
vai sendo identico da mesma catastrophe e represalia.

Esta  a analogia dos factos: os que escrevem a historia no pintam a
sua verdade porque no so dignos de praticar as suas gentilezas nem tem
a virtude necessaria para desmerecer a hipocrisia do embuste, nem o
horror das suas traies, nem o abominio e esconjuro da sua aleivosa
mordacidade e peonha. Cames commandou um reducto no cerco memoravel de
Diu, Barros e Couto foram dos mais valentes soldados da Asia; e o nobre
Cesar das suas faanhas o animo real do senhor D. Affonso d'Albuquerque
temia mais a calumnia da historia do que o feroz basilisco do turco, que
tomava pela frente como crocodilo do Egypto, sem tombar ao impeto e sem
estremecer do vulco.

Chegado a este ponto, j entregava a descripo ou a lenda d'esta
memoravel catastrophe ao mais innocente mancebo e ao mais simples
academico, uma vez que fosse dotado de boa f e acreditasse na Divina
Providencia, e dsse a esta philosophia o peso que os herejes attribuem
ao dinheiro de todos os seus commettimentos e unicos recursos. Em regra,
moeda vale tudo pelo peso, e pouco ou nada pelo cunho, e pelo signal da
sua boa f; o hereje s admitte da f e do cunho o maior desprezo para
fazer seu o proveito, e para continuar o lucro da sua torpe veniaga.

D. Joo IV tambem usurpou a casa de Bragana e o nobre titulo de duque;
todos sabem com que falsidade e com que atroz engano e mais que feroz e
brutal ardil: teve da heresia o mesmo fim e o mesmo tragico feretro: os
dous primeiros usurpadores do mesmo nome escalaram os seus thronos pelos
mesmos meios e falsos degraus, no fim a mesma ruina, na vida a
excommunho e o interdicto, na morte a corda e a traio, o mesmo
desenlace, e a mesma reprovao e condemnao divina. O conde da
Ericeira escreveu n'esta era a sua vergonhosa historia; o conde era
verdadeiro sandeu; o author de Portugal Restaurado recebeu a falsa
herana de uma casa; e trabalhoso no appetite fazendo do conde o fundo
da sua ambio pelo veneno que propinava, e pela astucia mais que
diabolica de que se servia no empenho. Apenas concluiu o seu trabalho,
disse: Dai-me o premio;--e apenas se viu senhor do falso titulo e casa,
disse: Dai-me o preo da obra;--e fez d'esta outra historia um thesouro
para se enriquecer e empavesar de fidalgo: este era o verdadeiro Joo
das Regras; porque a sua original possilga nunca se descobriu nem
annunciou, e dizia-se que tinha nascido aquelle oraculo da historia ao
p da feira da Ladra de uma mulher, que vendia a chanfana do aougue
pelas portas de Lisboa, e que apregoava pelas ruas maior engano.

Dizia alguem que o grande erro de D. Joo IV fra o acclamar-se duque de
Bragana: mas que faria o usurpador depois de matar como matou  traio
em Lisboa o legitimo successor de Bragana e do throno? quem havia de
sustentar a sua tyrannia, quem ousaria contemplar em frente sem desmaiar
e sem horror o monstro de tantas vidas, que bebia o sangue humano, e se
recreava com o vil officio de algoz e de executor da nobreza? D. Joo I
principiou a considerar como proprios da cora todos os bens da casa
real de Bragana; D. Joo dispunha como duque e como senhor de todos os
bens para imitar ou produzir a realeza e invicta memoria do senhor D.
Manoel I. Esta questo tinha sido tratada e muito debatida na primeira
poca; todos se acostumaram a considerar a usurpao da casa e dos seus
bens como prova heretica de infrene e perversa oligarchia, e D. Joo
professou o erro em Inglaterra, e tinha no seu palacio um ministro de
Calvino semelhante ao que foi expulso das Necessidades em nossos dias
pelo clamor do povo e pela justa queixa da parte sensata e catholica do
reino. Todos os herejes so monarchomacos, o seu rei  de taberna, o seu
preito o juramento da loja que o falso rei presta ao veneravel, e se o
rei tem o falso cargo jura como rei ao immediato sujeio e obediencia
s decises maonicas, e como so muitas as lojas, a cada passo se v
partida ou fraccionada a realeza, ou despedaada a sua monarchia pelas
seitas mais fortes ou mais ousadas, que empolgam o vislumbre do poder.

Entre ns s tem havido um partido legitimo que  o catholico e
brigantino de todas as eras; s um partido usurpador e constante, que 
o dos bens da casa que desfruta pela via directa e occupa pelo mais
feroz engano. As seitas e os corrilhos, que se formam das fezes de todos
os partidos estrangeiros e execraveis contam como elemento uma vez que o
lisonjeie e afoute para maior roubo e faanha da contribuio e da
injuria que se haja da fazer  casa da Bragana, e com estas promessas
todas sobem, e todos descem, se as frustram ou illudem. Este facto  o
que nos resta a provar para complemento da catastrophe e para sua prova
real e exuberante.

Quando D. Affonso VI se sentia desprezado por todos os portuguezes
recorreu aos estrangeiros, e sabe-se, que trazia comsigo alguns
valentes, que o defendiam e faziam respeitar em Lisboa, e no podia ser
esta fora angariada contra o povo, mas antes devemos acreditar, que o
rei se fazia forte contra o partido dos usurpadores da casa da Bragana
a cuja frente estava a rainha viuva; e por isso teve a regente tanta
difficuldade em conceder as redeas do governo ao presumido successor.
Este conflicto nasceu e cresceu da mesma antiga causa de todas as
discordias da usurpao, e pelo motivo da injuria que tinham feito 
casa de Bragana e ao seu popular e heroico senhorio. D'esta vez o
governo pontificio ainda no estava resolvido a ceder; no faria a menor
concesso de reconhecimento sem a absoluta e total entrega dos bens de
Bragana ou dos bens da cora, e D. Affonso estava resolvido a todos os
sacrificios, uma vez que achasse uma collocao em Roma e um modo de
viver ou uma absolvio vantajosa para o seu arrumo e fim. Esta deve ser
a ambio do usurpador que nasce; o seu throno no offerece encantos,
nem pde servir de balisa para a gloria verdadeira e santa que se embebe
na felicidade do povo e no heroismo e faanha.

N'este estado, privado do seu natural apoio, D. Affonso VI ainda que
fosse to corajoso e to absoluto como foi o quinto do nome, devia fugir
ou sahir do reino para no soffrer a perda da liberdade; tentou o
impossivel, e quebrou pela reconhecida prevaricao e m f da nova e
falsa casa de Bragana, que seu pai organisou em Lisboa como partido
protestante para sustentar a negra e atroz usurpao: estes factos so
innegaveis. O _Joannes  regulis_ da primeira usurpao era um hereje
estrangeiro semelhante a um Ditzi, e talvez ministro da seita: D. Joo
IV tinha na sua crte um ministro protestante da conveno de Cromwell,
e todos os usurpadores dos bens da casa de Bragana deviam ser da mesma
seita e falso cunho: D. Affonso VI abraava a doutrina catholica, e,
consoante os bons principios de direito, devia perder o titulo de rei;
e, se em vez de casar em Frana, fosse ao reino ceder da cora,
lisonjearia o reino catholico, e podia obter a liberdade, que outro
Affonso achou no mesmo reino. D. Affonso conservou a cora e por esta
razo o povo portuguez no podia ingerir-se na questo para defender o
preso; D. Pedro, seu irmo, era nimiamente cruel, mas no temia o
partido de seu irmo, porque no o tinha: D. Pedro tambem no tinha o
partido da nao, e por isso affectava grande humanidade para com seu
irmo, e grande respeito pelas crtes, que sempre o repelliram e
despeitaram amargamente.

D. Pedro, depois do celebre processo que fez ao irmo para o privar de
todos os seus estados at o dar por demente e por impotente, aceitou a
mesma mulher, a celebre Saboya, e como esta tinha o tratamento de
rainha, D. Pedro julgou que o mesmo throno o fazia successor do titulo
de rei; e parecia logico que a deposio perpetua de Affonso o
investisse na authoridade real, e o coroasse rei em vez de regente; o
titulo de principe no lhe podia competir, nem o de infante, que pouco
tempo depois comearam a usar por inaudita usurpao e roubo, e pelo
mais atroz anachronismo os filhos segundos d'esta familia de D. Joo IV.

Dizem geralmente as suas historias que sendo duque de Bragana D. Joo
IV e senhor da casa, instituira a do infantado a favor de seu filho
segundo para prevenir a falta de successor pelo receio da morte do
principe, e uma supposio e um embuste indigno, ou um meio de que se
servia a atroz calumnia da usurpao dos bens para tirar a D. Affonso VI
o que lhe tinha ficado da casa de Bragana e para os dar ao seu
predilecto: e por esta razo veio a D. Affonso o desejo de restituir, e
occorreu  faco o pensamento de depr o insensato. Assim manejou a
perfida intriga os seus aleives e falsidades e da mesma maneira em todas
as eras procura colher e alcanar o seu unico fim que  o roubo pela
pertinaz heresia e pelo mais atroz engano e enredo.

D. Pedro usou immediatamente do titulo de rei, mas o povo sempre lhe
negou o tratamento; as naes no cessavam de o responsabilisar pela
vida do infeliz e proscripto; e j se julgava que fazia guardar como rei
um homem estranho, quando o deixou sahir de proposito em Cintra e o fez
prender e reconhecer pelo povo como verdadeiro D. Affonso VI no meio do
tumulto dos seus agentes e confidentes, que fizeram grande alarido
d'aquella supposta revoluo para declarar novamente como doudo o triste
que se deixou cahir no lao. D. Pedro a cada passo reunia as crtes do
reino sempre na esperana de que o reconhecessem rei, mas jmais o
conseguiu pela grande desaffeio e justo odio que tinha merecido e
grangeado.

A casa do infantado foi uma falsidade d'este partido; mais tarde se
assenhorearam da falsidade para tomar posse nas provincias de todos os
bens de Bragana e de S. Bruno, e para os desfrutar e gozar por
almoxarifes que nomeavam do infante. A casa do infantado mandava para as
terras juizes, e assalariava por todo o genero de engano os cobradores
da falsa e aleivosa renda, e por esta frma constituiu as suas
instituies e morgados: o povo reagia contra a usurpao, mas o rei e o
governo, o infante e os seus almoxarifes conspiravam, e apesar do odio
do povo que no podia ser mais justo nem mais bem merecido colhiam e
recolhiam do roubo grandes interesses e mortificavam o povo com exaces
de cruel engano e tyrannia, que desvirtuavam do seu fim primordial e
applicavam para outro de maior escandalo e torpeza.

O nuncio de Roma teve ordem de visitar a D. Affonso VI, que cumpriu, mas
jmais foi admittido a vr o verdadeiro, e por esta razo ficou a
figurar por alguns annos como prisioneiro o que j era cadaver; a sua
mudana para a ilha  uma chimera, as suas cartas para Hespanha ficam
abaixo de toda a critica: D. Affonso VI no era admittido a escrever; o
mesmo governo de D. Pedro fingiu ou suppz as cartas para dar ao preso a
laia de hespanhol e no o quiz dar por brigantino; porque d'este partido
se temiam muito; e porque o seu fim era desacreditar e dar como vivo e
como existente o homem que dormia debaixo da lousa o somno do sepulchro.
Com effeito, pouco depois d'esta falsidade, D. Affonso foi dado por
morto na ilha para que ninguem o visse nem examinasse, e appareceu D.
Pedro em crtes a pedir o seu tratamento real. As crtes disseram que
tomasse o titulo e o tratamento de seu pai, isto , que fosse usurpador
hereje, e injusto possuidor dos bens de Bragana e de S. Bruno, e com
isto se houve por acclamado e por installado na sua falsa e apocrypha
realeza.

Veio ento a questo romana do reconhecimento. A curia cedia em quanto
aos bispos, depois de no haver nenhum no reino pelo grande alarido do
povo, uma vez que os nomeados tivessem a apresentao real de Bragana.
O governo passou pelas forcas caudinas, e deu ento o ultimo testemunho
e prova de sua torpe e nefanda ambio. O rei ficou de mero facto, e
pde dizer-se que o escravo d'alheias vontades vegetava na mais sordida
taberna, ou no ergastulo do seu captiveiro, ou na fetida jaula da mais
indomita fera; por que estes reis sempre andaram presos, e a que chamam
casa de Bragana de Lisboa governa o seu estado, como o domador ensina e
conduz o seu ganha-po pelo mundo dos seus espectaculos. Havemos de
julgar que a familia no  livre, e que desde o seu nascimento cada
individuo  obrigado a beber o veneno da maior heresia a torpeza para
ficar doudo e bem sujeito  vontade imperiosa ou caprichosa dos seus
verdadeiros senhores e tyrannos.

No admira que estes sejam sempre estrangeiros e revesados de origem ou
de m procedencia e de abstrusa memoria; por ahi pretendem alguns que a
lingua do pao seja a franceza, outros que seja a ingleza; em tempo
pretenderam fallar a italiana, jmais admittiram a portugueza vernacula,
nem suscitaram as questes da crte d'alda; nem deram ao povo fiel o
ingresso e a influencia, que lhe cabe nas questes do estado para no
ouvir verdades amargas, e a sincera queixa de tanta tyrannia e de to
inauditas usurpaes e falsidades, e de to grande subserviencia aos
estrangeiros e a todos os inimigos da nossa f e da nossa gloria e
renome.

Joo das Regras, nome verdadeiro ou supposto, no era mais do que um
fementido estrangeiro, as suas doutrinas no se ensinavam, nem corriam
entre ns; os seus dogmas proprios da mais abjecta demagogia podiam
apenas applicar-se ao imperio dos Tiberios e dos Caligulas, dos Neros e
dos Heliogabalos; as nossas crtes de Lamego ficavam semelhantes  lei
regia d'Augusto e o santo corpo de D. Affonso Henriques seria como os
Tusculanos de Cicero e de sua REPUBLICA, s para a posteridade; e
estaria em algum recondito n'aquelle tempo de D. Joo I para se revelar
e apparecer smente nos seculos seguintes, e no grandioso, monumental e
eterno d'el-rei o snr. D. Manoel.  justo confessar que estas falsidades
causam tedio e nojo. D. Joo IV usava do titulo de Rei e do tratamento
de magestade, sem lhe competir e por heresia de infame e vil
protestante. Agora dizem os apologistas da mesma seita que Portugal
sempre foi protestante; mas no dizem como se retractou a viuva, nem diz
como precisou a ignobil memoria de D. Joo IV de ser absolvida como
contrita  hora da morte para ter sepultura de corpo.

Como hereje deu em receber o titulo de magestade  imitao de Cromwel
cuja seita seguia: entre os catholicos sempre se entendeu e teve por boa
e por firme doutrina, que s o summo pontifice  senhor de conceder o
titulo ao mais puro e santo monarcha legitimo. Antigamente se reservava
esta rosa d'ouro s para um rei ou imperador que acontecia ser o que
confirmava a eleio real, se ainda no tinham o titulo; e jmais o
pretenderam nem aceitaram os reis de Hespanha e de Portugal por terem o
mais nobre de catholicos e o mais santo e humilde de alteza e como
vigarios do Senhor. Na Hespanha no havia herejes nem raas impuras que
no estivessem separadas e bem extremadas para no eivar as familias,
nem cansar o escandalo de philisteus, e de immundos entre bons
catholicos e fieis. Durante a usurpao sempre procuraram os herejes
tomar lugar e assento, e  medida que fugia a f da sua pureza invadiam
as raas, e vinha o armenio e o judeu, o cigano e o protestante invadir
as rendas e fazer monopolio das reaes para cultivar as massas e para dar
pasto  luxuria dos maiores desvarios e ameaas. E seria s pela
necessidade de fazer proselytos, e instrumentos de tyrannia?  certo que
o imperio de necessidade compelle at os tyrannos, mas o principio de
desmoralisao  um systema, que os actuaes herdaram dos seus
antecessores, e que estes tinham recebido de outros, e de muitas
successes estrangeiras, que o demonio communica a todos da mesma fonte
e pensamento do desprezo da santa lei e f.

Outra sanha d'este abominavel systema foi o impio tratado de Methuen
cujos artigos secretos so da infame propaganda protestante que invadiu
o reino por consentimento do falso e perfido governo, e se obrigava este
com todos os usurpadores dos bens da santa casa de Bragana a seguir o
falso preito, e a prestar homenagem secreta ao demonio e ao mais infame
ministro de Calvino, que, segundo dizem, era monarchico, assim como
Luthero era republico, e sophistico orador de comicios; e j os
protestantes se dividiam n'este ponto essencial do governo: mas os seus
superiores e chefes sempre estavam accordes no ponto principal da
injuria que haviam de fazer ao Senhor verdadeiro e ao seu santo vigario,
e no odio  santa casa da Java por causa dos bens e da f. D. Joo I fez
com Inglaterra o primeiro convenio secreto, mas era s de pirataria e de
heresia, cujos vicios j minavamos thronos de Hollanda e da Frana, da
Bretanha e de Londres, como  sabido e se estendia por meio de
ramificaes secretas por toda a Europa, e bebia as falsas idas da
santa acclamao de D. Joo I. Esta seita ou partido foi inaugurado pelo
mesmo demonio no tempo em que Juliano se fez truo e ridiculo para depr
o papa de sua soberana cadeira e para o entregar, como ento se dizia ao
mais desvanecido principe que havia de surgir para governar o mando e
para resuscitar os immortaes.

Estes abominaveis e impios reformadores do mundo comeavam as suas
iniciaes por um symbolo do demonio, e davam  sua falsa f o caracter
verdadeiro de diabolica, e alcunhavam de divina, de tyrannica, e
protestavam fazer triumphar o inferno, e pelos seus meios da maior
astucia progrediam e illudiam sempre at o grau de maior engano, a este
como simples mao, quelle como aprendiz, a outro como mestre, e aos
mais adiantados como convivas do mesmo demonio; e no sabia o menor os
maiores segredos dos outros graus, em quanto no obtinha os verdadeiros
da maior abominao de seu secreto esconjuro.

Em nossos dias os mesmos fados ostensivos, e a mesma historia secreta
revela todos os arcanos, e explica, o que parece inexplicavel, de atroz
calumnia, e de sarcastico pensamento. A morte do ambicioso metero, que
nasce sem o prestigio da durao, e que vem ao mundo para a conquistar
dos que s podem communicar a falsa e perfida, morre asphyxiado fra do
seu elemento; porque as claridades da sua existencia no o habilitavam
para conviver no espao dos ares com os astros opacos da sua natureza, e
por isso o precipitam mais depressa para que conhea o que  e o que
pde valer como energumeno. Alguem julga que o metero pde fazer-se
cometa, e que o cometa pde vir a ser planeta ou estrella sem que o
Senhor o faa; o atroz engano de falsa ascenso precipita mais cedo este
rustico presagio. Agora j do ao timido o nome vil do seu catholico
reinado e se lhe pe o nome de _mechas_, ou de _pe mais_..., mais
adiante o fazem _Jos do nabo_, e o compellem a tomar novo Ditzy, ou a
subir os degraus da forca sem levantar o espectaculo do cadafalso: os
inimigos so sempre os mesmos e da mesma sorte unidos pela tyrannia do
crime e pelo estupor das suas faanhas. Se agora diverge o maior
attentado sempre triumpha e atrella ao carro de seu triumpho todos os
seus sectarios, e escravos; mal dos que no comprehendem a necessidade
de obedecer cegamente ao mais audaz partido e ao homem mais facinoroso.
O sophisma  a apparencia da virtude; os que queimam no inferno o
incenso podre ao demonio, so despojados da propria pelle, e victimas da
nova crueldade dos monstros.

Alguem julgaria que Simo comprava de boa f a S. Pedro o poder dos
milagres:  um engano. O infame s aspirava a enganar o padre santo, se
a sua tentao inclinasse a S. Pedro para a torpe venda, o demonio que
fallava pela bocca do maldito teria conseguido o seu fim, ria do
desventurado e cantava a sua victoria. Por esta razo S. Pedro condemnou
o tentador com o triplice poder do seu divino amor e pareceu severo, mas
foi smente justo, porque Simo, o demonio apparente e ostensivo, j era
escravo de outro mais negro e atroz, que persegue toda a humanidade para
a sua ruina e perdio.

A catastrophe de Affonso termina com a injuria que Simo fez a Pedro.
Quantos deslisaram da escola santa sem a comprehenso dos meios divinos
e sem o alcance dos fins do sublime culto, e se embrenharam na mais
damnada chora da usurpao que se fez ao Senhor! Esses ho de ter
n'este mundo e no outro a mesma sorte--a catastrophe--e o mesmo exito e
cruel engano.




RENAN


O snr. Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos tratou com exemplar
juizo e prudencia a questo da academia real das sciencias e Ernesto
Renan. Estas linhas do _Jornal da Noite_ compendiam todos os argumentos
do esclarecido publicista: _Merecem respeito as convices. Mas a
consciencia dos outros  to d'elles como a nossa, igualmente livre, de
todo o ponto respeitavel._

 aquillo que dizia eloquentemente Vieira de Castro, no opusculo da
Republica: _ns, que de tolerantes nos desvanecemos, somos
intolerantissimos como frades_.

O menospreo d'este canon de liberdade sem rebuo nem condies explica
as diatribes desfechadas contra os seis academicos adversos  admisso
do author da _Vida de Jesus_. Os adas da liberdade forjam golilhas de
phrases para o alvedrio dos que votaram segundo sua consciencia.
Offendem e injuriam.

O author do romance intitulado _Vida de Jesus_  malquisto dos seis
academicos que se dispensaram da sua camaradagem litteraria. Fruiram o
indisputavel fro da sua consciencia, rejeitando-o, como romancista
indiscreto que enreda as suas novellas com o sacratissimo nome de Jesus
Christo. Se Renan escreveu sobre linguas orientaes um livro mui dilecto
do snr. Soromenho, tambem orientalista, isso no  motivo bastante a que
as almas profundamente christs se devotem  apotheose do depreciador de
Jesus, descontando-lhe as falsificaes historicas do romance nos
descobrimentos linguisticos que fez cerca do syriaco e do chaldeu.

Por outro lado, os academicos vencidos na votao e revelados no
ulterior protesto, merecem igual inviolabilidade na sua consciencia,
mrmente quando,  imitao do snr. Antonio Augusto Teixeira de
Vasconcellos, declaram que estremam entre o author da _Vida de Jesus_, e
o author da _Historia geral das linguas semitas_.

Temos em conta de veneravel e honroso o proceder dos academicos que
afastaram do seu convivio o escriptor que atirou um livro corrosivo ao
corao ulcerado da Europa como quem arroja petroleo s linguas de um
incendio. A Frana l sabe o que deve aos discipulos de Salvador e de
Strauss, e nomeadamente a Renan, o compilador de Reville, de Reuss, de
Schrer e Colani. Se alguns homens illustrados pela experiencia e
receosos das fatalidades congeneres de certos livros, reprovaram que
Renan recebesse publicamente em Portugal a considerao que o snr.
Soromenho lhe faculta por sympathicas affinidades phoneticas, o que
temos a recear d'ahi  o espectaculo das vaias e satyras com que alguns
escriptores esto provando que entre ns  mais urgente um compendio de
civilidade que a convivencia academica do sabedor de linguas do Oriente.




CORRECES


Convm fazer algumas ao artigo _O Decepado_ (n. 4, pag. 71).
Ministrou-m'as o snr. J. F. Torres; e eu, trasladando-as, ajunto 
gratido o contentamento de encontrar quem ainda se entretem com cousas
to remotas e alheias das _novissimas_ charadas, das _capitaes_, do
_don-juanismo_ e dos bancos.

Transcrevo a carta do cavalheiro, que no tenho o prazer de conhecer; e,
se no illido as palavras que encarecem os meus estudos,  porque o
appellido que a subscreve ainda no exercita alada litteraria que
levante turbilhes de gloriosa poeira  volta do meu carro triumphal.
Eis a carta do snr. J. F. Torres:

.........................................................................

Deliciei-me com a leitura das veridicas noticias historicas do meu
conterraneo Duarte d'Almeida, _o Decepado_. Ora, v. incansavel em
revolver e pesquizar tudo quanto possa esclarecel-o em to gloriosa e
ardua tarefa, no levar a mal, e relevar a um ignorante o arrojo de
lembrar a v. umas insignificantes correces, que em nada alteram a
verdade do facto, nem desdizem do eminente grau litterario de seu
author.

No existe (se  que existia) casa nenhuma acastellada no lugar de
Villarigas (hoje por corrupo Vilharigues) no concelho de Vouzella[4];
mas sim um castello ou cubello quadrado e muito alto, em parte mandado
demolir pelo fallecido procurador da casa Penalva, Martinho do Banho,
para com a pedra mandar fazer escadas e outras toscas obras que conduzem
 capellinha de Santo Amaro, pertenas da mesma casa Penalva. Existe
outro igual monumento no lugar de Bandavizes, freguezia de Fataunos.

A casa da cavallaria sita na villa de Vouzella, e que em tempo devia
ter sido uma vivenda ostentosa, como se v do que ainda hoje existe,
pertence actualmente por emprazamento a Joo Corra d'Oliveira.

A capella da casa  hoje adega, palheiro ou cousa semelhante; e nada
alli existe que faa lembrado o nosso celeberrimo S. fr. Gil[5]. Ha
porm na villa uma elegante capella do santo, onde se celebra missa
todas as segundas feiras; e onde se conserva a pia em que se baptisou o
santo; e bem assim o queixo inferior do mesmo, reliquia muito venerada
pelos habitantes da villa. O corpo, como v. sabe, jaz enterrado em S.
Francisco de Santarem.


Outra correco a respeito do prestidigitador Herrmann, mencionado como
fallecido, ha dous annos, no artigo intitulado: _A exc.^ma madrasta
d'el-rei D. Luiz I calumniada_.

O snr. Comparse Herrmann est vivo em Vienna d'Austria, e  banqueiro
opulento. Quando se retirou rico do theatro, declarou elle aos seus
admiradores que morrera na rampa e ia resuscitar na barra, a mais
eloquente de quantas conversaram com o genero humanal depois da outra
biblica.

Joo de Deus, o excellente poeta, cantava d'est'arte, ha 15 annos, em
Coimbra o dadivoso prestigiador:

      Herrmann! Herrmann! espantas-me! No scismo
      Nos prodigios da milagrosa vara
              Que o Senhor Deus te deu:
      Teu corao, Moyss do christianismo,
      Tua alma  que eu admiro, e te invejra,
              Se o que  teu fosse teu.

Tanto era d'elle o que era d'elle que est banqueiro; e Joo de Deus,
que tem o condo prodigioso de abrir fontes de lagrimas, e no invejava
a varinha que tirava de uma manga da casaca trezentas jardas de fita,
ainda no  banqueiro, segundo me consta.

Pois tambem Herrmann era poeta, e, se  licito acredital-o, tinha
talento. Elle o disse aos academicos n'estas quadras que, entre outras,
sobrevivem ao prestigiador, na pag. 295 do tom. VIII do _Instituto_:

      Le coeur est ulcr, quand pour prix d'un bienfait
      On s'apperoit alors des ingrats qu'on a fait.
      Et pourtant chaque jour j'adresse  l'Eternel
      Une promesse sainte, dans un voex solennel!

      Si, par lui, mon talent me donne la richesse,
      J'ai ma mission aussi, soulager la dtresse,
      Grce  vous, tout s'eclaire, un instant a suffi,
      Pour ramener enfin le calme en mon esprit.

N'este poema queixava-se o gentil allemo das suas illuses perdidas, da
sua infinda tristeza, e das angustias de corao com que entrra
n'aquelle recinto da _charmante jeunesse_. Queixava-se outro sim, de
ingratides que lhe ulceravam o peito. Era um romance de amores comeado
no Porto, romance que bifurcou em dous fios de ouro: um foi prender-se 
orla de um throno no sei aonde, outro  carteira de uma casa bancaria
em Vienna d'Austria. Brilhantes desenlaces!

E foram os rapazes de Coimbra--aquelles viventissimos rapazes de 1859,
Corvo, Vieira de Castro, Joo de Deus, Northon, Victorino da Motta, e
dezenas de galhardos espiritos que lhe degelaram as Maldades do corao
retranzido. _Gloire  vous!_ exclamava Herrmann.

     [4] Existia no seculo XVII, segundo m'o affirma um escripto
     nobiliario de testemunha coeva e ocular.

     [5] Em 1780 ainda se via n'esta casa a capella, no local onde
     nascera S. fr. Gil.




MAU EXEMPLO DE POETAS CASADOS


     ... Une femme prudente y doit regarder  deux fois avant d'pouser
     un poete!

                                                  J. JANIN, _Le livre_.

Se o fino amor no  condo dos poetas,  escusado esgaravatar essa rara
perola em outra concha. O amor duradouro  incompativel com a creatura
sujeita  decomposio e  morte. As recomposies interiores so
incessantes, at ao momento em que o espirito vital se evla, e a
podrido comea.

As reformaes da alma operam-se mais de afogadilho que as do corpo.
Envelhecem almas em corpos novos. Muita gente sente o gravme e a
melancolia da idade de ferro nos annos dourados. Ha tambem o reverso
d'isto. Almas floridas em corpos devastados. Os primeiros tem aurola de
poesia lugubre. Os segundos so lastimaveis quando, em honra de suas
cs, arrancam um a um os renovos da alma, ou os vo delindo com secretas
lagrimas; e so irrisorios, quando aviltam a magestade da velhice, dando
resplendor  calva com um nimbo de namorados.

Foi d'esta especie D. Thomaz de Noronha, cognominado, no seculo XVII,
_Marcial portuguez_. Amou numerosas primas, e casou com uma, de quem
ficou viuvo. Deus sabe como o corao de sua esposa Helena de Salazar
foi anavalhado de ciumes para a cova! O perfido, em quanto se andava
pela crte diluindo em trovas a f conjugal, deixava em Alemquer a
consorte, cuidando dos trigaes e dos parrcos.

Casou em segundas nupcias com D. Catharina da Veiga, tanto ou mais
desafortunada que a primeira. Pensava ella, porm, que o marido, ahi
pelos cincoenta, ganharia juizo, e se faria serio, acolhendo-se ao
santuario da familia com a lyra e com o rheumatismo.

Enganra-se D. Catharina, a infausta esposa, que, por lhe agradar, se
bezuntava de posturas, e arrebicava de inuteis artificios. Santa
senhora!

O dissoluto no s a trahia, seno que a zombeteava em verso, depois de
a ter mofado na prosa caseira--a prosa de marido enfastiado, que  o
vasconso mais barbaro da glottica humana.

Aqui est um dos cantares com que o sobredito _Marcial_
desprimorosamente chasqueava as caricias, os vernizes, as tranas
retintas, os algodes que lhe acolchoavam o seio, e arqueavam as ancas
da esposa, em fim, tudo aquillo que a paixo engenhosa inventra, 
custa de inexprimiveis magoas e dolorosos retrocessos nos vestigios da
belleza perdida. E observem que o cruel a denomina _Sara_, equiparando-a
 velha da Biblia. Lde, senhoras, que hospedaes poetas no corao:

      Escuta,  Sara! Pois te falta espelho
                         para vr tuas faltas,
      no quero que te falte meu conselho
                         em presumpes to altas.

      Lembre-te agora s que s terra e ldo
      e terra te has-de vr do mesmo modo;
      mas no te digo nem te lembro nada
      porque ha muito que em terra ests tornada.

      Que importa que, alguma hora, a prata pura
                         de tuas mos nascesse,
      e que de teus cabellos a espessura
                         as minas de ouro dsse!

      Se o tempo vil, que tudo troca e muda,
      smente do ouro poz, por mais ajuda,
      em tuas mos de prata o amarello,
      e a prata, de tuas mos em teu cabello!
      se um tempo, foram de marfim brunido
                         no seculo dourado,
      no vs que o tempo as tem j consumido,
                         no vs que as tem gastado?

      Deixa, Sara, deixa esses vos enredos;
      que eu, quando toco teus nodosos dedos,
      me parece que apalpo, e no me engano,
      cinco cordes de frade franciscano.
      Viciando a natureza com taes tintas,
                         com pinceis delicados,
      jasmins e rosas em teu rosto pintas.
                         Deixa esses vos cuidados;
      pois quando tua cara me alvorota,
      mascara me parece de chacota;
      e, se  das tintas, digo n'este passo
      que a mascara est inda em calhamao.

      Como pretendes, pois, com mil enganos,
                         vestir mil primaveras
      sem ter a primavera de teus annos!
                         Como no desesperas!
      que o tempo chegou j ao seu estio,
      aonde toda a fruta perde o brio;
      parecendo tua cara desmedrada
      fruta que se seccou, noz arrugada.

      Se feitura de Deus Eva no fra,
                         dissera, sem porfias,
      que de Eva foste mi, velha senhora,
                         pois te sobejam dias
      para esta presumpo que agora tenho;
      e, concluindo em fim, a alcanar venho,
      pois alcanar no posso tua idade,
      que deves ser a mi da Eternidade.

      Teus olhos, por descargo da consciencia,
                         a idade os tem mettidos
      em duas lapas, fazendo penitencia;
                         e esto to escondidos,
      que, quando os vou buscar porque me choram,
      no acerto co' bco aonde moram;
      porque o tempo os mudou, seu passo a passo,
      da flor do rosto l para o cachao[6].

      ............................................
      ............................................

      Em fim, senhora, se te vejo em osso,
      com essa cara posta em tal pescoo,
      me parece, tirada a cabelleira,
      em cima de um bordo uma caveira.

      .............................................

      Sabe que sei, e d'isto me no gabo,
      que te alugou sem duvida o diabo,
      invejando teu corpo, cara e dedos
      para a Santo Anto fazer maiores medos[7]
      E deixa, em fim, tanto vo cuidado;
                         e ao sagrado te acolhe
      primeiro que te ponham em sagrado.
                         Este conselho colhe;
      admitte o que te digo sem desgosto;
      que eu, quando vejo teu funesto rosto,
      d'elle tambem o seu conselho tomo,
      pois cuido que me diz: _Memento, homo!_

Esta poesia ou outra peor tesourou os ligamentos da vida de D.
Catharina, abrindo-lhe as portas do paraiso. Elle, o viuvo consolavel e
impenitente, por aqui ficou at aos oitenta ou mais, deshonrando a idade
provecta com poemas sordidos, e taes que os prelos no os despejaram 
circulao dos enxurros. Sem embargo, Jacintho Cordeiro, no _Elogio de
poetas lusitanos_, conceitua n'esta altura o descaroado marido:

      D. Thomaz de Noronha em tanto augmento
      Confirma de sus versos la escellencia
      Que admirando sutil su entendimiento
      Puede hazerle a Quevedo conpetencia:
      Alma de tan ayroso movimiento,
      Luz parece de sol de su presencia
      Y sol a cuya luz crecen desmayos,
      Aguila no soy yo de tantos rayos...

Que te fulminem, Jacintho!--diria um leitor circumspecto. Achou-lhe
airoso movimento na alma, assim como ns, os filhos d'este seculo cortez
e cavalheiroso, lhe achariamos na arca do peito as vertigens ebrias d'um
trovista de tasca.

A poesia, que um sorriso meigo de mulher agradeceu, logrou a sua nobre
misso: divinisou-se. Essa outra cousa, que se chama poesia, porque
metrifica a injuria ou o chasco vil  mulher,  a hydrophobia do
talento,  enfermidade repugnante.

     [6] Segue uma estrophe cuja nudeza, posto que no envergonhe o
     realismo hodierno, nos pareceu propriedade dos livros escriptos
     para _homens_, cuja deshonestidade os authores lisonjeam com as
     dedicatorias dos seus romances.

     [7] _Metter medo aos medos de Santo Anto_, era adagio do tempo,
     que teve a seguinte origem: No terceiro domingo de agosto de 1577
     sahiu uma procisso da antiga parochia de S. Julio. Entre varias
     figuras e carros triumphaes ia um homem representando Santo Anto
     no deserto, e  volta d'elle varios demonios com feitio de monos o
     aterravam com caretas e tregeitos medonhos.




A CASA DE BRAGANA AB OVO


D. Gonalo Pereira, trigesimo-quarto arcebispo de Braga, quando estudava
as santas theologias em Salamanca, achou compativel a sciencia de Deus
com as curiosidades philoginias, gregamente faltando.

D'esta compatibilidade, em que foi parte integrante e constituinte,
chimicamente fallando, D. Thereza Peres Villarinho, resultou nascer um
menino robusto, como os recem-nascidos do _high-life_, o qual se chamou
Antoninho.

Este D. Antonio Gonalves Pereira ordenou-se, foi prior do Crato, e pai
de 32 filhos, compativeis com o priorado. Uma das mes d'este rapazio
todo chamou-se Eyria de Carvalhal, e das predestinadas entranhas d'esta
menina apojou D. Nuno Alvares Pereira, pai da primeira duqueza de
Bragana, casada com o bastardo de D. Joo I.

D'esta estirpe, bastantemente gafa de couto-damnado e bastardias, nos
veio a redempo em 1640.

Bemditos e louvados sejam aquelles padres arcebispos e priores! Se elles
fossem castos ou infecundos, no teriamos Braganas, e gemeriamos ainda
hoje captivos de Hespanha.

O arcebispo descana ha 526 annos, em uma capella contigua  porta
travessa da s de Braga. La lhe vi, um d'estes dias, a figura esculpida
no mausolo. Portuguez de lei era aquelle padre, posto que se
apaixonasse por hespanholas. O corao no tem _ubi_. O escolar de
Salamanca lra talvez o philosopho grego que dissera serem todas as
mulheres uma. Se a natureza as no discriminra, como estremal-as por
fronteiras?

Mas to portuguez era que articulou em seu testamento que, se um dia a
mitra primacial cingisse a fronte de prelado castelhano, fosse arrazada
sobre suas cinzas a capella em que ia esperar o clangor da trombeta!

Ainda no vi impressa a noticia do desastre extraordinario que motivou a
morte do D. Gonalo. Nem D. Rodrigo da Cunha nem o padre Jos Corra,
biographos dos arcebispos bracharenses, a souberam ou quizeram divulgar.
Parece-me, todavia, que o primeiro, tanto por haver sido prelado como
por genio investigador de antiguidade, no ignoraria o que era constante
de um processo existente no archivo da mitra.

Eis o caso:

Em 1347 foi D. Gonalo visitar a provincia transmontana. Chegando a
Villa-Flr com grande sequito, travaram-se alli os seus criados com os
moradores da terra, e de ambas as partes belligerantes morreram quatro
homens e sahiram doze mal-feridos. Tangeram os sinos a rebate.
Levantou-se a povoao armada. Cercaram a residencia do arcebispo,
mataram-lhe seis homens, e matariam o proprio prelado, se no fugisse,
pendurando-se de uma corda, que lhe no evitou cahir de costas no
terreiro e contundir-se gravemente. No contentes os de Villa-Flr com a
fuga do seu arcebispo, tomaram-lhe as mulas, de envolta com parte dos
capelles e seis criados. Protegido por atalhos, o contuso prelado
chegou a Carrazeda de Ancies, povoao importante n'aquelle tempo,
fortificou-se no castello, fez lavrar instrumento publico, e enviou-o a
D. Affonso IV.

O rei, poucos dias depois, mandou a Villa-Flr uma alada com dois
algozes bem escoltados, e fez enforcar os sacrilegos que pde colher na
devassa. Esta vingana nem por isso alliviou os incommodos do arcebispo
descadeirado na queda. Transferido a Braga, deitou-se para nunca mais se
erguer. Quatro mezes depois adormeceu no Senhor.

E assim morreu, por effeito de to miserrimo lance, aquelle valente do
Salado, que deu o exemplo da bravura e legou a espada ao seu quarto
successor D. Loureno, o raio de Aljubarrota. Fra elle o defensor da
cidade do Porto, quando o enfurecido amante de Ignez levava na sua
vanguarda o incendio e a devastao. Fra elle ainda quem acaudilhra a
hoste de portuguezes, quando uma invaso de hespanhoes, em desapoderada
fuga, deixou o sangue de trezentas vidas nas lanas dos alabardeiros do
arcebispo.

Santo Deus! um heroe d'esta polpa chega a Villa-Flr, amotina-se a
arraia-miuda, foge de escorrego por uma corda, cahe de cangalhas,
amolga o osso sacro, e morre! Mas em fim, maior seria a desgraa de
Portugal se elle, antes de lesar as vertebras lombares e regies
visinhas, nos no tivesse deixado os embryes da casa de Bragana na
pessoa de seu filho prior!




UM INQUISIDOR PORTUGUEZ E O PRINCIPE DE GALES


O filho de Jayme I de Inglaterra veio a Madrid, em 1610, para vr de
perto a princeza Anna, filha de Philippe III, uma das mais formosas
mulheres d'aquella poca. D. Ferno Martins Mascarenhas, inquisidor
geral de Portugal, e residente em Lisboa, assim que soube da chegada do
heretico neto de Maria Stuart, escreveu-lhe com a santa presumpo de o
reduzir  f catholica. O principe, todo embebecido nas magias da filha
de Philippe III, guardou a carta para mais tarde resolver esse negocio
que se lhe figurou de importancia subalterna. A opinio de alguns
historiadores, porm,  que a Inglaterra voltaria ao redil da igreja
romana, no tanto pela influencia theologica da carta, como pelos
filtros amorosos da princeza Anna. O principe de Gales pediu-a para
esposa; e, quando em Londres se preparavam os festejos do noivado,
morreu o noivo em 1612.

A carta do inquisidor bispo do Algarve  inedita. A este prelado devemos
a impagavel fineza de expurgar das livrarias de nossos avs todos os
livros gafados de heresias. Se no fosse elle,  muito de recear que em
Portugal se lssem ento os livros que no seculo XVII propulsaram as
sciencias na Frana e Allemanha: o que seria uma calamidade. Eis a carta
do santo varo:


A vinda de V. A. a esta crte foi de tanta alegria para todos os que
nascemos em Hespanha, que ainda aquelles que estamos mais distantes da
sua presena, temos obrigao de fazer demonstrao publica, assim em
dar graas a Deus por esta merc, como em significar a V. A. o animo, e
a vontade com que festejamos a honra que todos alcanamos por esta
causa.

O que todos agora desejamos, e pedimos a Deus com continuas oraes,
para melhor servirmos a V. A. n'aquillo que mais lhe importa,  que
queira V. A. ouvir e entender a razo do que por c acha, e 
professarmos a f, e a religio que professa, e ensina a igreja
catholica romana, verdadeiramente apostolica; porque o animo com que
desejamos paz perpetua entre as coras de Hespanha e Inglaterra, nos
obriga a procurar a conformidade na religio entre os principes dellas,
pois, como diz Santo Agostinho, no pde haver verdadeira concordia
aonde os entendimentos esto desunidos na terra.

Muitas razes se podiam allegar para V. A. se dispr a fazer este
servio a Deus, e merc a toda a Hespanha, porque os livros esto cheios
d'estas materias, mas tres so s as que lembro a V. A. para satisfazer
a obrigao que tenho n'este reino de Portugal.

A primeira  considerar V. A. que isto que ns professamos em Hespanha,
acerca da obediencia  s apostolica-romana, professaram, sem nenhuma
interrupo, os serenissimos reis de Inglaterra por mil annos, desde o
tempo de S. Gregorio Magno pontifice, e Mauricio imperador, at o de
Henrique VIII de Inglaterra, que por seus respeitos fez mudana na
religio; porque como nunca se havia preferir o parecer dos que querem
innovar cousas ao juizo d'aquelles que dellas perseveraram por tantos
annos, bem se v, a prudencia natural est pedindo que se repare muito
n'esta variedade que se introduziu em Inglaterra nos derradeiros annos.
E  muito para vr a frma em que escreveu Eduardo, rei de Inglaterra,
ao papa Alexandre III, porque ambos esto condemnando o que agora se
segue no mesmo reino com palavras to claras que no soffrem
interpretao alguma.

A segunda razo  porque todos os reis de Inglaterra que antes de
Henrique VIII tiveram o sceptro d'aquelle illustre reino depois de
Alberto, fundaram a sua jurisdico na obediencia  igreja romana, em
que presidem os verdadeiros successores de S. Pedro, principe dos
apostolos, e vigario universal de Christo na terra, at Ina e Ataulfo
fazerem o proprio reino tributario da s apostolica, e este tributo
durou por novecentos annos. E ainda que alguns reis de Inglaterra houve
que em cousas e casos particulares guardaram menos respeito do que
deviam aos pontifices romanos, nunca lhes negaram o serem cabeas da
igreja catholica, e sempre depois vieram a fazer penitencia de seus
erros, como consta dos proprios annaes e chronicas de Inglaterra que
Polidoro Virgilio II seguiu, e tratou em sua historia.

A terceira razo  porque o mesmo Henrique VIII que fez esta mudana,
quando morreu declarou que errra, e por esta causa expirou com summa
pena, e inquietao, como consta da relao que fizeram homens de muita
virtude, letras, e authoridade que assistiram  sua morte, e os aponta
Sandero, com outros muitos historiadores inglezes que trataram de suas
cousas; e se no remediou seus erros foi por occulto juizo de Deus que
permittiu lhe faltasse n'aquella hora quem o encaminhasse, e lhe
lembrasse o que o proprio escreveu to doutamente contra Luthero, e
dirigiu ao papa Leo X.

Por onde tornando V. A. a receber aquillo que os reis seus antecessores
tiveram e professaram por largos annos, sendo to virtuosos, prudentes e
valorosos, como o mundo todo reconhece, no far mais que restituir  f
a casa d'onde contra razo e justia anda desterrada; e com esta
restituio alm da gloria immortal, que alcanar em todos os seculos
vindouros, obrigar a Deus Nosso Senhor abrir as mos da sua
liberalidade para lhe acrescentar muitos reinos com novas prosperidades
temporaes.




A TRILOGIA DA ACTUALIDADE


Quando o snr. Moutinho de Sousa, ha pouco tempo, negociava, em Lisboa,
actores que preenchessem e aperfeioassem a companhia dramatica do
theatro Baquet, o snr. Silva, roto saboyardo do escangalhado realejo
litterario da _Actualidade_, escreveu, com o desplante da sua ignorancia
impenitente, que a escripturao dos tres indicados actores formava uma
agradavel TRILOGIA.

Tres actores, tres pessoas--uma _trilogia_!

O leitor (se no  elle) sabe que os gregos denominavam _trilogia_ o
conjuncto de tres peas theatraes, quando o poeta pleiteava o premio da
tragedia. Uma compoz Eschylo, a mais commevedora que nos legou a antiga
scena. Shakspeare fez uma _trilogia_ com as tres tragedias que completam
Henrique VI. O _Walstein_ de Schiller  tambem uma _trilogia_. Querem os
francezes por igual ter a sua na concatenao do _Barbeiro de Sevilha_,
_Casamento de Figaro_ e _Mi delinquente_ de Beaumarchais. Tambem ns,
em os nossos humildes fastos litterarios, temos uma _Trilogia
romantica_, em que se annunciavam collaboradores Antonio Pereira da
Cunha, D. Joo de Azevedo, e Joo Machado Pinheiro (visconde de
Pindella).

Por analogia, tres composies em um livro, tres tratados, tres
discursos, poderemos denominal-os _trilogia_; mas chamar _tratado_
(_logos_) ao snr. Pola, e _composio_  snr. Virginia, e _discurso_ 
snr. Emilia das Neves, hellenisando-as pessimamente, seria uma fineza
grega, se no fosse uma asneira portugueza.

Este snr. Silva (aviso aos naturalistas) dizem-me que tem as orelhas de
tamanho regular. Elle e os 2 Joaquins so tres partes de uma s
cousa--_trilogia_. Aqui vo bem; clham: so tres peas que arredondam
um tolo superlativo. Ainda, no dominio grego, podramos chamar aos
tres--_triga_. (Veja um _Lexicon_ o snr. Pinto). E, quando apparecer um
quarto, por no sahirmos de Athenas e das analogias remotas, os quatro
sero _quadriga_. Ora ahi tem gregarias em barda. Divirta-se.

_P. S._ Eu dissera-lhe _adeusinho_, quando fui _banido_; mas elle,
mentindo e espremendo novamente o figado, espirrou um golfo de bilis
negra. Faz-se mister no levantar mo das ventosas. Ou elle estuda, ou
eu o esfolo.


FIM DO 5. NUMERO





End of the Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem
no pde dormir. N5 (de 12), by Camilo Castelo Branco

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Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
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