The Project Gutenberg EBook of A Filha do Arcediago, by Camilo Castelo Branco

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Title: A Filha do Arcediago
       Terceira Edio

Author: Camilo Castelo Branco

Release Date: November 29, 2008 [EBook #27364]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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A FILHA DO ARCEDIAGO

FILHA DO ARCEDIAGO

POR

CAMILLO CASTELLO BRANCO

TERCEIRA EDIO

PORTO
EM CASA DE CRUZ COUTINHO--EDITOR
18 E 20--CALDEIREIROS--18 E 20
1868

PORTO--TYPOGRAPHIA DO JORNAL DO PORTO rua Ferreira Borges, 31




Leitores! Se ha verdade sobre a terra,  o romance, que eu tenho a honra
de offerecer s vossas horas de desenfado.

Se sois como eu, em cousas de romances (que no resto, Deus vos livre, a
vs, ou Deus me livre a mim) gostareis de povoar a imaginao de scenas,
que se viram, que se realisaram, e deixaram de si vestigios, que fazem
chorar, e fazem rir. Esta dualidade, que caracterisa todas as cousas
d'este globo, onde somos inquilinos por merc de Deus,  de per si um
infallivel symptoma de que o meu romance  o unico verdadeiro.

Eu sou um homem, que sabe tudo e muitas outras cousas. No espreito a
vida do meu proximo, nem ando pelos sales atraz d'uma ideia, que possa
estender-se por um volume de trezentas paginas, que, depois, vil espio,
venho vender-vos por 480 reis. Isso, nunca.

Tudo isto que eu sei, e muito mais que espero saber, -me contado por
uma respeitavel senhora, que no vai ao theatro, nem aos cavallinhos, e
que tem necessidades organicas, mas todas honestas, e, entre muitas, 
predominada pela necessidade de fallar onze horas em cada dez. Desde que
tive a ventura de conhecel-a, no invejo a sorte de ninguem, porque vivo
debaixo das mesmas telhas com esta boa senhora, e posso satisfazer a
mais imperiosa necessidade da minha organisao, que  estar calado. 
que no podemos fallar ambos ao mesmo tempo.

E, depois, a sua conversao, escassa d'arrebiques, e despretenciosa,
abunda em riquezas naturaes, em thesouros impagaveis para o escriptor
publico, em estudos sociaes adquiridos no testemunho de factos da vida,
que no vieram s locaes do jornalismo, porque a imprensa, ha poucos
annos que denuncia os casamentos, os obitos, e os suicidios.

Ingrato seria eu, se no significasse aqui, com toda a cordialidade de
que sou susceptivel, o meu reconhecimento  dita pessoa, que promette
elevar-me  importancia de escriptor veridico, n'um genero em que todos
os meus collegas mentem sempre.

No momento infausto em que os sllos do tumulo me fecharem este livro do
passado, obliterar-se-ha a fecunda veia de romancista, d'onde tenho
havido uma barata immortalidade para mim, e para a minha collaboradora.

O publico, maravilhado da minha esterilidade, dir ento que os meus
romances eram d'ella; e um nome, hoje obscuro, ser exhumado do
esquecimento para quinhoar da gloria dos escriptores-fmeas d'esta nossa
terra to escassa--ainda bem--d'esse contra-senso.




A FILHA DO ARCEDIAGO




CAPITULO I


Em 1815, um dos mais abastados mercadores de pannos da rua das Flores na
cidade do Porto, era o senhor Antonio Jos da Silva. E a 23 d'agosto, do
mesmo anno, o negociante da rua das Flores que mais suava, e bufava
afflicto com a calma, era o mesmo senhor Antonio Jos da Silva. O senhor
Antonio, como os seus caixeiros o chamavam, tinha razo para suar. As
bochechas balofas e tremulas, dilatadas pelo calor do estio,
ressumavam-lhe um succo oleoso, que descia em rgos pelos tres rofgos
da barba, e vinha adherir a camisa s duas grandes esponjas, que
formavam os seios cabelludos do nosso amigo attribulado.

O senhor Silva inquieto, e resfollegando como um hippoptamo, passeava
no seu escriptorio. O seu traje era muito simples: andava de cuecas, e
alpercatas de estpa com sola de cortia. Este vestido, com quanto
singelissimo, e o primeiro talvez que se seguiu ao que trajou Ado no
Paraizo, dava-lhe ares d'um styro voluptuosamente gordo.

O negociante representava cincoenta e cinco annos, bem conservados. No
lho direito tinha muita vida; o esquerdo, porm, n'esta occasio tinha
um tersolho, e inflammado, de mais a mais, pelo calor.

Alm do dito, o senhor Silva estava soffrendo um segundo tersolho no
espirito. Era uma paixo, uma paixo d'alma, a mocidade na velhice, essa
ancia impotente d'um corao, que quer romper os tecidos atrophiados de
cincoenta e cinco annos para dar quatro pulos em pleno ar.

Quem era a victima d'esta paixo impetuosa? Uma menina de quinze annos,
que a leitora enjoada das indecentes cuecas do senhor Silva, pde vr,
no segundo andar d'esta mesma casa, sentada a costurar na varanda, com
uma gata malteza no regao, e um papagaio ao lado, que lhe depenica os
sapatos de cordovo.

 uma bonita menina, para quem gosta d'um rosto oval, olhos azues, leite
e rosas na face, labios acerejados e pequenos, dentes como perolas,
olhar alegre e penetrante. Conversa com o papagaio, e o metal da sua voz
tem aquelle timbre sonoro e puro, que nos faz jurar na belleza de quem
falla, sem lhe vermos as feies. O papagaio salta-lhe  mo, e esta mo
 pequena, dedos longos, rosados nas extremidades, transparentes como o
collo de sua dona, onde o proprio Lucifer de Gautier choraria uma
segunda lagrima, por se vr impossibilitado de armar s boas mulheres
(quando  de suppr que lhe no vo l ter as peores...)

Concordemos em que Rosa Guilhermina era uma bonita moa, e desculparemos
a paixo fatal do infeliz negociante, que, no andar de baixo, est
fumegando por todos os orificios, e distillando por todos os pros.

Como veio esta menina para a casa do negociante?

Da seguinte maneira:

Quatro annos antes, o arcediago de Barroso, padre Leonardo Taveira,
amigo velho do senhor Silva, em expansiva conversa com o seu amigo, n'um
domingo de tarde, nas hortas de Campanh (onde semanalmente saturavam as
respectivas massas adiposas com o excellente vinho verde de Cabeceiras
de Basto), quatro annos antes, vinha eu dizendo, fallava assim, com o
seu amigo, o rubicundo arcediago:

--Sabes tu, Silva, que me est dando bastante cuidado o futuro de Rosa!

--Deixa-te disso. No tens tu, em minha mo, um bom patrimonio que lhe
ds?! Acho que vinte mil cruzados, afra o juro de cinco por cento, ha
dez annos, capitalisado no proprio, a vencer at que ella faa os vinte
e cinco, acho eu que  um dote de lhe tirar o chapo.

--Bom dote ; mas isso no  o que me d cuidado. O que eu queria para
minha filha  um bom marido...

-- homem, j tratas disso!? Que idade tem a tua filha?

--Tem onze annos; d'aqui a trs  mulher, e pde talhar futuros por sua
conta e risco.  o que eu no quero. A pequena est em mestra-de-dentro;
mas isto de mestras ensinam a cozer e a bordar, mas no sabem adivinhar
o corao d'uma rapariga, que... emfim, Silva, vou ser franco comtigo...

--Diz, padre Leonardo...

--Que  filha de tal pae e de tal me... Eu tenho sido o que tu sabes...

--Isso l  verdade... tu tens sido levadinho da breca com o gado de
contrabando...

--E a me, se queres que te diga a verdade, tinha uma perfeita
embocadura...

--Diz-m'o a mim, Leonardo! Era uma namoradeira dos quatro costados...
Mas, emfim, est casada, e j no  a mesma.

--Caro me custou o casamento...

--Isso custou! O que tu dste ao francez p'ra montar a loja de livros,
ainda que no rendesse seno a sete por cento, podia hoje montar a
reis... deixa vr... quatro vezes sete vinte e oito, vo dous, com cinco
cifras, faz... faz...

--Aguas passadas... no fallemos n'isso. Agora o que me importa  a
rapariga, j que fiz a asneira de a procurar na roda... Tira-me o somno,
Silva! Lembra-me s vezes que esta pequena ha de ser a disciplina com
que hei de ser castigado por muitas asneiras que fiz...

--Isso l  verdade. Diz o dictado: Onde se fazem, ahi se pagam. J
vem dos velhos a experiencia... Sabes tu que mais? Casa a rapariga assim
que ella pozer as ventas no ar a contar os ventos. No lhe ds tempo a
namoricos. Janella fechada, e marido entre mos, era o systema de minha
me, que Deus haja, e minhas irms no deram desgosto  sua familia.

--Tens razo, Antonio; mas quando o diabo est atraz da porta, no vale
nada fechar a janella... Olha l... Queres tu casar com a minha Rosa?

--Homem, essa!... tu sers o espirito ruim que me appareces em corpo
d'homem? No vs que tenho cincoenta feitos, e que nunca me deu na
cabea a asneira de me casar?

--Alguma vez ha de ser a primeira...

--Isso l  verdade; mas cada qual mede-se com as suas foras, e eu j
no estou homem para tropelias. O que eu quero  comer bem,  beber-lhe
melhor. Isto de creanas, casadas com velhos, no provam bem...

--Ests enganado com o mau exemplo da tua visinha Anna...

--Que pz na cabea do marido um chin, porque elle era calvo... e eu
no estou menos calvo que o pobre Joo Pereira, que deu com o negocio em
pantana, por causa da mulher...

--No meas tudo pela mesma rasa, Antonio. A pequena  docil, tem um
genio de pomba, vai para onde a levam, e ser uma boa esposa. Ponto 
pilhal-a nos cueiros... Tu sabes melhor que eu o dote que ella tem...

--No fallemos em dote, Leonardo... Eu, se casar com a tua filha, tanto
se me d que ella tenha um como dous... A cousa no  essa... O peor  o
resto.

--Que resto?

--Eu te darei a resposta manh.

Continuaram fallando largamente sobre o assumpto, em que o senhor Silva,
tres vezes, citou o chin do seu visinho Joo Pereira.

No dia seguinte, o arcediago de Barroso encontrou o seu amigo
meditativo.

--Pensas ainda, Antonio?

--Estava pensando no nosso negocio. Isto de mulheres deve a gente
suppl-as sempre mercadoria avariada... Mas, diz-me c, a tua filha s
tem onze annos...

--S, e d'aqui a dous tem treze...

--Se a cousa se arranjasse, no podia ser seno d'aqui a dous annos.

--De certo.

--Pois, ento, fallaremos.

--No que  preciso decidir-se a cousa j.

--Porqu?

--Se disseres que sim, a pequena ha de vir para tua casa j; quero que
seja educada por tua irm, e que se afaa comtigo, para te ganhar
amizade, e o amor depois vir.

--Qual amor, nem qual carapua! Ella pde l ganhar-me amor!... Eu c de
mim, se casar, o que quero  uma herdeira, porque tenho para ahi uns
sobrinhos, que se penteam muito, e que no querem estar ao mostrador a
medir covados de panno. Ha de me custar se elles vierem metter a mo no
que me custou a ganhar com honra e trabalho. Um d'elles metteu-se-lhe na
cabea ir a Coimbra estudar para doutor!... Que tal est o catavento!
Meus paes foram lavradores, eu sou negociante, e quem houver de ficar
com a minha casa ha de vir para aqui. Quando penso n'isto, Leonardo,
parece-me que me fazia conta casar!... E, se eu tivesse um filho!...
isso ento, digo-te que era ouro sobre azul! Se no fosse o medo, que
tenho s bcas do mundo, no engeitava aquelle rapago da Thereza...

-- verdade, que fizestes  Thereza?

--Puz-lhe um estabelecimento de castanhas assadas na Ribeira. O diabo da
moa piscava o lho ao caixeiro, e pul-a fra de casa. Eu c poucas
vergonhas de portas a dentro no as quero.

--Tens razo; mas isso do filho  cousa muito natural...

--Ah!  verdade; isto do filho acho eu que  cousa muita natural; mas
dizias tu que  Rosinha...

--Viria para a tua companhia, e aos treze annos, ou mais cedo, com
licena do bispo, casas com ella...

--Homem... isto  uma carta tirada da baralha... Est dito, se a cousa
no dr de si, caso com a tua filha.

--Se a cousa no dr de si... dizes tu; que quer isso dizer?

--Sim, se no houver entrementes cousa que desarranje a minha sade ou a
d'ella...

--Est visto, no  preciso tirar isso como condio.

Rosa Guilhermina veio para casa do senhor Antonio Jos da Silva.

O noivo predestinado affeioou-se  pequena com toda a effuso paterna.
Prodigalisava-lhe carinhos, que a menina recebia com indifferente
innocencia, mas com certo aborrecimento intimo, e at nojo da sua grande
cara, cujas belfas eram vermelhas como duas folhas de parra de moscatel,
no outono.

Feitos os treze annos de Rosa, o negociante sentiu abrirem-se-lhe as
valvulas do corao para lhe verterem nas veias um sangue mais quente.
No era um fino amor o seu; mas era um amor que lhe afinava a voz
melodiosa de meiguices, que a pequena recebia sempre com tregeitos de
enfastiada.

A affeio no correspondida reagiu.

O corao, atufado pelos tecidos cellulares, do obeso amante, esperneou
nas cavidades do peito respectivo, e veio  superfcie dos
acontecimentos com o ideal d'um Antony, com os ciumes d'um Othello, e
com a paixo escandecida d'um Mamfredo de cuecas, como tivemos o
dissabor de vl-o no principio d'este capitulo.




CAPITULO II


Na to indecente como attribulada situao, em que deixamos o senhor
Antonio, veio encontral-o o padre Leonardo Taveira, que voltava de resar
vesperas no cro da Cathedral.

O clido negociante resfollegava como um tubaro, e improvisava uma
ventoinha de meia fralda da camisa. Cada vez mais indecente! Valha-nos
Deus, leitores, que muito amargo  o dizer a verdade inteira! Ha
momentos em que o escriptor publico se v forado a crar. Se me
visseis, n'este instante, julgar-me-ieis d'uma candura infantil.

O arcediago, porm, no se mostrou surprendido da attitude tragicamente
afflictiva do seu amigo. Clido tambem, despiu a loba, arremessou o
cabeo, descalou os sapatos de fivela, e refocillou os amplos ps
vermelhos nos propicios chinelos do escarlate mercador de pannos.

--Fostes a minha desgraa!-regougou o senhor Antonio, abanando o
ventilador com a mo esquerda, e enxugando com a toalha de mos os
humidos torcicollos do pescoo.

--Fui a tua desgraa! Pois que ?-replicou o beneficiado, tapando com o
indicador da mo direita uma das ventas, para chilrear na esquerda uma
solemne pitada.

--Que ? ainda m'o perguntas?  a tua filha que me faz de fel e vinagre!
 uma ingrata que se me ri nas barbas, quando eu lhe fao meiguices!

--Ora deixa estar, que o remedio no est em Roma. Eu j te disse que
sou pae, e tenho direitos sobre minha filha. Queres ou no queres casar
com ella, Antonio?

--Perguntas-m'o agora que j no sei por onde me anda a cabea!... Dava
trinta mil cruzados, e queria que a tua filha gostasse de mim! Isto
parece que foi inguio, que me fizeram!...

--Eu te quebrarei o inguio...

--No sei como. A pequena, seja l pelo que fr, no me pde vr, ha um
anno para c. Aqui anda dente de coelho... No sei, mas desconfio que
ella namora o filho do Joo Retrozeiro, que me est sempre a lr por
detraz dos vidros.

--Devras?

--Parece-me que sim. A minha Angelica j o desconfiou, e ralhou-lhe. A
senhora Rosinha levantou a cabea, e disse que no dava satisfaes a
ninguem.

--Ah! ella disse isso? Ora deixa-me com ella...

--Ouviste, Leonardo? no quero que lhe ralhes.  muito creana, e pde
ser que minha irm se enganasse. Sero escrupulos de Angelica, que me
defumou com herva sancta e trevo nove vezes para me quebrar o feitio em
que me tinha a criada Thereza.  uma pateta mulher. No lhe digas nada
por ora a tal respeito. Aconselha-a que case comigo, e que me tenha
amor, que eu prometto dar-lhe todo o ouro e vestidos que ella quizer.
Hei de at leval-a s comedias italianas, e no haver fidalga que lhe
bote a barra adiante em aceios.

J vem, pela energia da expresso, que dr to sublime no devia ser a
que assim se exprimia por jactos de calorosa eloquencia! O senhor
Antonio Jos da Silva, superior  sua classe, sentia-se arrojadamente
grande pela angustia d'uma repulsa. Trinta mil cruzados dra elle pelo
amor de Rosa Guilhermina! Promettia leval-a s comedias! Galardoava o
seu amor com vestidos que fizessem morder de inveja as fidalgas do
Porto! Eu quizera que Rosa lhe exigisse uma carruagem. Se o senhor
Antonio accedesse ao extravagante pedido, ento, leitores seria eu o
primeiro a pedir uma data gloriosa, um cantinho, na historia da
civilisao da rua das Flores, para o senhor Antonio Jos.

A nada, porm, se movera a esquiva donzella.

O arcediago, commovido pela exclamao do seu futuro genro, subiu ao
segundo andar, e procurou, meio-colerico, a filha rebelde, que ensinava
o papagaio a dizer: _ o rei que vai  caa_.

-- caa andava eu de ti...--disse affavelmente o pae, chegando uma
cadeira para junto de sua filha tambem risonha, que lhe beijava a mo.

--Ah! eu no sabia... Tenho estado aqui toda a tarde a trabalhar,
ssinha.

--A senhora Angelica no tem estado ao p de ti?

--No, meu pae. Creio que foi visitar o SS. Sacramento.

--Mas ella ainda  tua amiga como sempre foi...

--Eu sei c... parece-me que no.

--Algum motivo lhe dste, Rosa...

--Eu? nenhum.

--Que disseste hoje ao senhor Antonio?

--No me lembro... A que respeito?

--A respeito do teu casamento.

--No fallemos n'isso, meu pae... Sou muito nova, no quero casar.

--_No quero!_ isso  cousa que se diga a um pae?

--Vmc.e no ha de querer a minha desgraa... Eu no posso ser feliz
casando com o senhor Antonio... Antes quero ser criada de servir, ou
trabalhar para viver...

--Rosa, no sejas creana. Olha que tu, casada com este homem, s muito
rica, satisfazes todas as tuas vontades.

--Antes quero ser pobre... Tenho repugnancia em chamar meu marido a um
homem que eu poderia estimar como av... No posso,  impossivel, meu
pae. Mais facil me ser morrer, que casar com elle.

--Visto isso, resistes  vontade de teu pae!

--Bem me custa; mas o pae ha de ter pena de mim; no ha de querer que eu
seja desgraada toda a minha vida.

--No quero, no; e por isso mesmo  que te mando casar com o senhor
Antonio Jos da Silva.

--Mate-me, se quizer; mas obrigar-me a casar, isso no.

--Das duas uma: ou casar, ou entrar j no recolhimento das orphs em S.
Lazaro.

--Entrarei no recolhimento, vou para onde o pae quizer que eu v, at
serei carmelita, se fr da sua vontade.

Esta pertinaz resoluo espantou o arcediago, e convenceu-o de que sua
filha estava innocente das suspeitas de Angelica, beata crendeira em
encantamentos, inguios, e lobishomens. Se a pequena tivesse namoro com
o filho do Joo Retrozeiro, de certo no acceitaria com tanta presena
de espirito a condicional do recolhimento. Assim o pensava o licenciado,
que tinha muita experiencia do mundo, e essa muito cara, a julgar pelas
cifras que accumulou o negociante, orando as despezas do casamento da
me de Rosa.

Teimoso, e esperanado nas boas maneiras, entrou em negociaes
amigaveis com a menina. Pintou-lhe o melhor que pde a vantagem de ser
brevemente uma viuva rica, e a liberdade que teria ento de escolher um
marido mais galhardo. Repetiu a seduco dos vestidos, e dos diamantes;
encareceu as delicias do theatro; soprou-lhe a vaidade, imaginando-a
invejada pelas mulheres de todos os negociantes do Porto; emfim, por no
fechar o discurso sem uma immoralidade, com palavras equivocas,
dissertou pouco christmente cerca dos deveres da mulher casada.

Rosa insistiu na recusa. O padre irou-se outra vez; deixou cahir a
caixa, no excesso da indignao; verteu no peito da camisa quatro pingas
de rap; escumou pelos cantos da bca; pizou uma perna ao papagaio;
entalou o rabo da gata, que saltou, bufando, para o peitoril da varanda;
e acabou por dizer, em voz cavernosa, que Rosa, no dia seguinte, sem
mais delongas, seria fechada no recolhimento de S. Lazaro, para no vr
sol nem lua.

O senhor Silva ouvira os ultimos berros, e zangou-se contra o padre. O
seu amor no lhe consentia um ultraje a Rosa, apesar de ingrata. Em
cuecas, e com a camisa em ventilador subia a escada; mas, a meio
caminho, olhou para si, e viu, na sua consciencia, que no estava
decente. Tornou atraz a enfiar as pantalonas de linho, quando o
arcediago descia com a cara cr de lagosta, e os olhos turgidos e
encarniados como dois medronhos bravos.

--No fazes seno asneiras, Leonardo--disse o negociante, impando com a
difficuldade de enfiar a cxa rolia nas pantalonas, que queria vestir
s avessas, no auge da atrapalhao.

--Eu no fao asneiras. Sou pae, e quero ser obedecido.

--Que vaes tu fazer?

--manh ha de entrar no recolhimento por fora.

--Deixa-te d'isso; no afflijas a rapariga por minha causa. Eu no
consinto...

--No preciso do teu consentimento. O caso agora  comigo, no 
comtigo. Veremos quem vence.

--Ento no ha outro remedio, Leonardo?

--Nenhum. Est de pedra e cal. No quer casar por bem nem por mal. Diz
que tem repugnancia em ser tua mulher.

--Sim?!-atalhou o senhor Silva atrozmente ferido na sua vaidade--pois,
n'esse caso, faz o que quizeres, e tira-m'a quanto antes de casa.

--Olha c, Antonio... Eu parece-me que a pequena, em se vendo fechada no
recolhimento, onde no conhece ninguem, nem tem janella para a rua,
mudar de vontade, e querer casar...

--Comigo? Isso nunca! Deus me livre! _M mez_ para ella! Lembras-te do
chin do meu visinho?

--Ora deixa-te d'isso, meu amigo. Nem todos os maridos so calvos... nem
todas as mulheres fazem marrafas. D tempo ao tempo. Quem lida com
mulheres, lida com o diabo.  preciso atural-as. Sabes l o que eu tenho
soffrido com ellas?

--Eu  que no estou para brincadeiras... Estava muito socegado, ha tres
annos; para que vieste tu inquietar-me com o negocio, que me propozeste
em Campanh? Guarda a tua filha, que eu morrerei solteiro.

O senhor Antonio Jos da Silva, dizendo isto, melhor avisado, bebia uma
limonada, e o arcediago de Barroso calava os sapatos de fivela.

N'este momento entrava a senhora Angelica, de mantilha, e camandulas de
pau preto pendentes nas mos, que trazia sobre o seio em postura
beatifica.

--D'onde vens, Angelica?-perguntou o irmo.

A beata resmungou, e subiu para o segundo andar.

Espionemos d'onde vinha a senhora Angelica.




CAPITULO III


Que Rosa Guilhermina estava, mais ou menos, possessa de feitios, era um
evangelho para a senhora Angelica. Que a filha do peccado, como a beata
lhe chamava, seduzida pelo demonio, namorasse o filho do retrozeiro,
isso  que no era liquido.

Para os feitios deixra Deus na terra pessoas virtuosas, mulheres
sabias, que os desmanchavam; e para adivinhar o corao da pequena bem
sabia a irm do senhor Antonio que o remedio no estava longe.

A senhora Angelica ouvira a conversao do seu Antonio com Rosa
Guilhermina, na manh do dia em que se passaram as scenas ridiculamente
funebres do capitulo anterior. Cousas ouviu ella que a obrigaram a
benzer-se tres vezes, e queimar arruda no seu quarto, e no da pequena.
Parece que a timida sexagenaria receava que o espirito mau, que vexava
Rosa, viesse, por variar, entreter-se com o seu corpo immaculado.

Feitas as ablues, e comido o jantar, que benzeu tres vezes, e devorou
com as pernas em cruz, receosa d'um ataque subterraneo do demonio,
compoz a coca da mantilha, armou-se do rosario abenoado por Gregorio
XVI, prendeu duas figas e um chispo de veado na ala do collte, e
sahiu.

Da rua das Flores a Miragaya dava saltinhos como uma franga com as azas
cortadas. Ao p da antiga casa da Companhia, n'uma porta baixa de casa
terrea, bateu a senhora Angelica. A porta foi aberta por uma velha
inqualificavel, indefinivel, mistura de todos os animaes repulsivos
desde a santopeia at  cegonha. Era a senhora Escolastica, benzedeira,
adivinha, mulher sabia, que praticava com o invisivel por meio da
peneira e das cartas.

--Venha com Deus, devota de Nosso Senhor. J sei ao que vem.

--J? Louvado seja Deus!

--A Rosinha no quer casar.

--Nem  mo de Deus padre... Aqui anda feitio. Queria que vmc.e me
dissesse se o filho do retrozeiro, que se chama Jos, ser o manfarrico
que faz doudejar a cabea da rapariga.

--Vamos a isso--disse a senhora Escolastica, carregando duas vezes de
simonte a venta esquerda, que parecia um mexilho aberto, e folheando um
surrado baralho de cartas.

A senhora Escolastica benzeu-se, e pronunciou a seguinte orao, pondo
as cartas em quatro montes, benzidas tambem:

_S. Cypriano, bispo e arcebispo fostes, sete annos no mar andastes, na
vossa divina graa vos sustentastes, sete sortes pela vossa divina
esposa botastes, no fim vos declarastes. Declarai-me aqui se a Rosinha
anda de namoro com o Jos, filho do retrozeiro._

E, depois, voltando-se, com ar sibillyno e tragico, para Angelica:

--Rosa  a dama de ouros; o Jos  o rei de ouros. Aqui sahe Rosa com o
sete de espadas, que  uma paixo d'alma. Aqui est o Jos voltado para
ella de corpo e pensamento, que  o valete de ouros. Sahe-lhe aqui outro
homem, que  seu irmo; mas ella vira-lhe as costas, e d-lhe ms
palavras, que  o cinco de espadas. No meio disto sahe-lhe aqui
lagrimas, que  o cinco de copas, e a espadilha o affirma. Seu irmo
aqui est com o sete de copas, que quer dizer comidas e bebidas, e ella
vira-se para o sete de paus, que  um gosto grande, e o seis de paus
pela porta da rua. Aqui est a dama de espadas, que  uma mulher de m
lngua por causa d'uns dinheiros grandes, que  o dous d'ouros, v? ella
manh sahe por caminhos; aqui est o dous de espadas, e aqui est o az
d'ouros, que  a igreja, e o quatro de paus que  a tumba... valha-me
Deus!...

A senhora Angelica, cr de cidra, benzeu-se. Dito isto, a senhora
Escolastica repetiu a miraculosa operao, e descobriu uma _novidade_.
Novidade  uma carreira de cartas sem figuras. A novidade era a
confirmao do quatro de paus, e um certo az de copas, cuja significao
a benzedeira disse ao ouvido de Angelica, que fez uma carta, e
persignou-se. Carta aquella, discreta leitora, que eu tambem fiz quando
me contaram esta pavorosa historia.

Feito isto, as cartas foram substituidas pela peneira.

A senhora Escolastica, versada nos dous ramos de sortilegio, pz de
perfil a peneira, e metteu-lhe um Senhor crucificado, umas contas, e
tres vintens em prata. Depois cravou em um dos lados os bicos de uma
thesoura fechada, e outra thesoura do outro lado. Feito isto, com
grandes tregeitos, e grave atteno da senhora Angelica, que murmurava o
credo em cruz, disse a benzedeira:

_Peneira, tu que peneiras? Po para toda a christandade. Pelo poder de
Deus peo-te que me digas se a Rosinha ha de casar com o senhor Antonio;
se tiver de casar, vira-te para a direita, e seno vira-te para a
esquerda._--A peneira oscillou alguns segundos, e ficou voltada para a
esquerda.

A pobre Angelica deixou pender o beio inferior, que, ha quatro annos,
lhe tocava na ponta do nariz! Estava profundamente triste e aterrada! O
seu lho esquerdo fallou da abundancia do corao. Uma lagrima, cr de
agua-p, rolou-lhe perguiosa nas verrugas da face.

--Sabe o que mais, senhora Angelica?--disse Escolastica, commovida, e
atufando a pitada na fossa anfractuosa da venta direita--sabe que
mais?... vamos _prender_ a rapariga.

--Isso ser cousa de escrupulo, e eu tenho medo que Deus me castigue.

--Agora castiga... Ha de ensinar ao seu irmo esta orao: _S. Marcos
te marque, S. Manso te amanse, os quatro Evangelistas te batam  porta
do teu corao, Sanctissima Trindade te confirme na minha vontade, para
que nem na cama, nem na mesa, nem no lar, sem mim, no possas estar, rir
e fallar, e j, e j, e j com todo o pacto._--Esta orao ha de seu
irmo dizel-a, e quando disser _com todo o pacto_ ha de dar tres vezes
com o p direito no cho. Passados nove dias, em que eu hei de rezar a
novena das almas, e ouvir as vozes, apparea vmc.e por c, e veremos se
 preciso trazer roupa d'ella para a defumarmos nos quatro cantos com o
fogareiro de S. Cypriano.

A senhora Angelica deu por bem empregados os seus dous pataces, e
passou o resto da tarde a rezar os versos de S. Gregorio, e a novena de
Sancta Apolinaria, em _S. Joo_, onde estava, n'esse dia, que era sexta
feira, exposto o Sanctissimo.

Ora aqui est d'onde vinha a irm do senhor Antonio Jos da Silva.

Dobrada a mantilha, e a saia de durante, a senhora Angelica desceu a
procurar seu irmo, e, farejando os cantos da sala, viu que ninguem lhe
testemunhava a tremenda revelao, que ia fazer-lhe.

--Ento j sabes o que acontece?-perguntou elle, emborcando o segundo
pucaro de limonada.

--Que foi, meu Antoninho?

--A Rosa vai-se, manh, embora.

--Vai! Louvado seja Deus!... bem m'o disse a Escolastica!...

--Quem  a Escolastica?!

-- c uma mulher, muito temente a Deus, que v o que se passa na
alma...

--Deixa-te de crendices... no creias em maranhes...

--Credo! no digas tal, Antonio, que no v Deus castigar-te, e ella
sabel-o... Se tu soubesses o que ella me disse...

--No sei, nem quero saber... Has de sempre ter essa mania! Pergunta ao
padre Leonardo por isso, e vers a rizada que elle te d...

--Bem me importa a mim a risada do padre Leonardo!... No... aquelle no
 c dos meus!... Padres com filhas... no quero ir com elles nem para o
co... Sabes tu que o tal arcediago me parece jacobino!... Deus me
valha, se pecco... Cala-te, bca...

A devota mulher, incapaz de infamar, dava uma sonora palmada nos labios,
quando apostrophou a bca falladora, e lhe impz silencio, que mais
eloquente que a bca, segundo diz o poeta latino, fallou assim:

--Tenho c minhas aquellas com este padre!... Elle no diz missa, nem
prga a quaresma, nem vai s via-sacras, como o padre Aniceto, meu
confessor, e o padre Benedicto dos Carmelitas, que reza os exorcismos.
Deus me acuda--continuou ella em voz alta--mas no tenho f com padres
que tem filhas, e casam as mes com outros, de mais a mais com um
pelitro da Frana, que  hereje, e jacobino na alma e no corpo...

--Cala-te l, que ests ahi a dizer parvoces. O padre Leonardo  um
homem honrado, que no vai s via-sacras, mas tem temor de Deus. L, se
deu a sua escorregadella, em bom panno cahe uma nodoa. E, se elle no
fosse um bom pae, no obrigava a filha a entrar, manh, no recolhimento
de S. Lazaro.

--Que me dizes, Antonio da minha alma? Pois a Rosa vai para o
recolhimento?

--Vai, podra no!...

--Bem o disse a serva de Deus! Ai! que tudo nos vai sahindo como a
benzedeira o disse... O az d'ouros, l estava o az d'ouros, Antonio! No
tornes a fazer pouco dos adivinhamentos. Tudo m'o disse ella, e muitas
cousas mais... Abenoados dois pataces!

-- mulher, tu pareces-me tla! A impostora da velha podia l saber
isto! Botou-se a adivinhar!

-- Antonio, tu no me pareces catholico!... Sancto nome de Jesus! Pois,
sem aquella de Deus, sabe l ninguem futurar o que te ha de acontecer?
No sejas assim, meu bom irmo. Lembra-te dos inguios que te fez
Thereza (Deus lhe perde, se j morreu), aquella desavergonhada que
tinha levado as tuas cuecas da roupa suja para as benzer uma feiticeira
da rua Ch, e se no fosse a devotinha Escolastica ainda hoje terias o
demonio  perna, Deus me perde!...

--Vai-te d'ahi, que a Thereza no tinha demonio nenhum...

--No tinha no... Pois no lhe viste a abstruco de ventre, que ella
trouxe, e s com as rezas da Escolastica  que o berzebum a deixou a
ella, e a ti? Valha-te o Senhor!... Diz-me com quem andas, dir-te-hei as
manhas, que tens.

--Est bom... Vamos tratar de cear, que so nove horas.

--Est a Anna a segar o caldo... Antes d'isso quero dizer-te duas
palavras.

--Diz l.

--Mas no has de fazer modos de incredulo. Tu queres que a Rosinha case
comtigo?

--Eu no.

--No!... Minha me Maria Sanctissima!... Se eu te entendo...

--Quero que ella tenha por mim affeio de dentro... Contra vontade, no
quero ninguem.

--Pois se eu te ensinar o modo de fazeres com que ella te tenha affeio
de dentro?

--Vai bugiar! Tu cada vez ests mais tonta!

--Estou! pois olha que no  de velha.

--Isso no; mas j podias saber mais do mundo com sessenta e nove
annos... s mais velha que eu quatorze.

--Ento? achas que estou tonta como a velhinha tia Brizida, que j fez
noventa e dous?

--No sei... Sabes que mais? Mette um salpico no pucaro, e leve
berzebum as paixes, e quem com ellas engorda.

--Olha c, Antonio... No te quero assim... Pareces-me mesmo nos modos
com os chichisbeos que vo ao theatro, e  missa das dez a S. Bento, por
causa das freiras, que, Deus me perde, podem bem com a sanctidade que
teem!... Andam sempre alli pelas grades aquellas namoradeiras, que nem
me parecem religiosas, e esposas do Cordeiro immaculado, e fallam da
vida do proximo!... Valham-me as cinco chagas, e a benta cruz.

--Vai pr a mesa, mulher, e olha l o que essa rapariga est a fazer,
que eu vejo d'aqui o filho do retrozeiro  janella...

--Ah! vs? No que ella faz-lhe amor de c...

--Tu viste?

--Disse-m'o a Escolastica.

--Que leve a breca a tua Escolastica, que o meu gosto era dar-lhe com o
covado no costado...

--Sancto nome! Tu que dizes, homem? Aqui cahe raio. Pede perdo 
servinha de Deus, seno as palavras no te aproveitam...

--Que palavras?

--As palavras que ho de fazer com que a Rosa ande atraz de ti como a
linha atraz da agulha. O caso  ter f. Se as disseres, tu vers,
Antonio!...

--So palavras para lhe dizer a ella?

--No... Assim que a vires, has de dizer no teu corao...

--Cala-te ahi...

--No me calo... tenho at escrupulo de me calar... Hei-de dizer-t'as.
Ouve l: _S. Marcos te marque, S. Manso te amanse, os quatro
Evangelistas te batam  porta do teu corao, a Sanctissima Trindade te
confirme na minha vontade... e_... espera l... deixa vr se me
lembra... ah! j sei... _para que nem na cama, nem no lar, sem mim, no
possas estar, rir e fallar, e j, e j, e j com todo o pacto._ Quando
disseres isto, deves assim bater com o p no cho uma, duas e tres
vezes...

 terceira, a senhora Angelica pilhou debaixo do p o rabo desgraado da
gata, que soltou um doloroso grito, e vingou a affronta enterrando a
unha no joanete esquerdo de sua ama. Angelica soltou um brado fremente
de angustia. A gata rosnava, com o pello hirto, n'um canto da sala, e o
senhor Antonio bascolejava com as nedias mandibulas uma gargalhada
sincera.




CAPITULO IV


O salpico fumegava na mesa, rodeado de ervilhas ensopadas. Ao lado, as
tigelas do bem adubado caldo, opulento de gorda lha, ressumavam um
cheiro appetitoso, que ludibriava o paladar dos rapazes da loja, aos
quaes era s permittido o cheiro.

Angelica fra chamar Rosinha para a mesa, emquanto seu irmo espostejava
as talhadas pingues do paio de Lamego. A arrufada menina no quiz cear,
e, para esquivar-se s instancias da velha pertinaz, declarou-se
incommodada da cabea, cobrindo-a com o lenol.

O negociante engatilhava a cara em ar de despeito, e ensaiava as
palpebras rolias n'uma postura sombria, que desse da sua dr a alta
ideia, que os queixos desmentiam, cevando-se na carne de porco, e nas
ervilhas aromaticas.

Certo de que a ingrata filha do arcediago no vinha  mesa, o senhor
Silva inutilisou a cara funebre, deu largas  testa franzida
tyrannamente, e mascou, rugindo como os deuses d'Homero, a ceia
substanciosa.

Angelica, da sua parte, comeu bem, e revesou no caldo, que, segundo
ella, podiam comel-o os anjos. Deu graas a Deus, e a todos os sanctos
do seu conhecimento, que eram todos, e alguns duvidosos, emquanto seu
irmo, a cada _padre-nosso_, desafogava um arrto, que podra, sem
hyperbole, chamar-se um urro.

O ultimo, e mais estridulo, soltou-o no seu quarto, onde, emfim, aquella
alma atormentada, e o estomago revolto deviam dar-se _rendez-vous_ em
grato somno de sete horas.

A senhora Angelica, reservando para o dia seguinte um novo ataque 
incredulidade de seu irmo, entrou, no seu quarto, a rezar a novena das
almas, que lhe fra imposta pela devota Escolastica, e que no acabou
conscienciosamente porque adormeceu no meio da reza, enxotando, com
palavras de esconjuro, o demonio do somno, seu tentador implacavel. A
ultima apostrophe confundiu-se com o resonar profundo de seu irmo. O
resonar de ambos, dueto horrivel, acordava os eccos funebres da casa.
Dormiam todos, excepto Rosa.

Rosa no dormia, porque apurava o ouvido a cada quarto, que badalava o
relogio de S. Domingos.

Faltava o ultimo para as dez, quando a promettida esposa do negociante
enfiou o vestido, saltou fra da cama, abriu cautelosamente a janella,
em que batia o luar, traioeiro confidente dos amantes nocturnos, que
apenas podem sorrir de dia, e s nas trevas, deixam voar o
corao-morcego.

Na janella fronteira estava um vulto, e na rua solitaria no se viam os
malditos grupos; innovao inutil da _guarda municipal_, que nos d a
entender que os ladres augmentaram com a civilisao, posto que os
jornaes diariamente nos aturdam com o catalogo dos roubos.

Em 1815 podia-se namorar honestamente d'uma janella para a outra, na rua
das Flores, sem que uma patrulha insolente parasse debaixo para
testemunhar a vida intima dos que lhe pagam. Podia cochichar delicias a
donzella recatada da trapeira para a rua, sem que o amador extatico ao
som maviosissimo d'aquella voz, receasse o _retire-se!_ brutal do
janizaro. Podia, finalmente, segurar-se o gancho d'uma escada de corda
no terceiro andar, subir impavidamente, conversar duas horas sobre
varios assumptos honestos, e descer, sem o receio de encontrar cortada a
rectaguarda por um selvagem armado  nossa custa, que nos conduz ao
corpo da guarda a digerir a substancia da deliciosa entrevista.

Bemaventurados, pois, os que namoraram em 1815.

Mas no tenham a impiedade, leitoras honestas, de suppr que a
mencionada escada de corda engatou o gancho na reputao de Rosa. No,
senhoras. A filha do beneficiado ignorava esse invento da intelligencia
humana, essa corrente electrica, que aproxima dous coraes, a escada de
corda, emfim, que nunca ninguem imaginou tivesse electricidade, mas que
eu, amante da minha patria e das glorias d'esta terra, declaro 
academia real das sciencias, que a tem, e lhe offereo a descoberta como
digna das suas ponderosas lucubraes.

Mais ponderosos ainda eram os motivos porque a virtuosa Rosinha dra
signal ao Jos Bento, filho do retrozeiro, para fallar-lhe quella hora,
acto que, publicado, faria jejuar a senhora Angelica dous annos, a po e
agua, e faria crescer a agua, sem o po, na bca de muitos caixeiros das
lojas visinhas, que a essas horas resonavam como conegos em matinas.

Era a segunda vez que a predestinada mulher do senhor Silva se
abalanava ao crime infando de tagarellar da janella, a horas mortas,
para a janella fronteira.

Jos Bento era um moo de quinze annos, muito envergonhado, e to
inutil, na opinio publica, que sua familia resolveu fazel-o frade loio.
Tinha dezeseis annos, e estudava latim, com grande pasmo do mestre, que
durante quatro annos, no podra conseguir ensinar-lhe os rudimentos da
arte, sem que elle discipulo lhe dsse quatro asneiras em troca de cada
regra. No seu genero era um prodigio! No obstante, para loio o que lhe
faltava era a idade, que sciencia tinha elle de sobejo para repartir na
communidade.

O que elle tinha, alm da sciencia, era uma melancolia sympathica,
contemplativa, e romanesca. Jos Bento, se fosse dos nossos amigos de
botequim, passaria hoje por um espirito atormentado, um mancebo devorado
por illuses, um sceptico de corao crivado de angustias, e
conseguiria, no fallando, pertencer  seita dos Szafis da feira da
ladra.

No lhe faltava a testa espaosa da tarifa. Um todo-nada de navalha nas
raizes capilares da fronte seria bastante para nos dar uma testa
artistica, em que os sectarios de Spurzen, veriam o genio, e o
respeitavel publico a toleima.

Ora aqui est quem era o namoro da senhora Rosa Guilhermina, que vai
fallar com a voz commovida, vibrante, e melodiosa.

--Senhor Jos...

--Aqui estou, senhora Rosinha... No me v?

--Vejo... agora vejo...

--Como passou?

--Bem; e vmc.e passou bem?

--Tenho estado hoje muito doente.

--Sim? de qu, senhor Jos?

--Tem-me dodo muito a barriga.

--Ser do calor...

--Acho que sim; veio c o cirurgio, e mandou-me tomar banhos
_semicuplos_...

--Deus queira que lhe faam bem. Ento j sabe que me vou embora d'esta
casa?

--Vai? para onde vai, senhora Rosinha?

--Para o recolhimento de S. Lazaro.

--Pr'amor de qu?

--Porque meu pae teima em querer casar-me com o senhor Antonio, e eu...

--Valha-o a maleita! Pois elle quer casal-a  fora com um velho assim?

--Ora ahi est; e eu no quero...

--Faz vmc.e muito bem. Eu tambem, ainda que a filha d'um rei quizesse
casar comigo, emquanto vmc.e me lembrasse, mais facil seria atirar-me
d'esta janella para baixo  rua, que casar com ella.

--Forte teima de homem! Ainda hoje lhe disse que era capaz de metter o
fuso da senhora Angelica por um ouvido, se me quizessem obrigar a tal
casamento...

--Ento vmc.e decerto vai para o recolhimento?

--Antes quero isso, antes quero ser freira.

--Ento, sempre lhe digo, que vou para os Loios, se a menina se mette
freira...

--Eu no sei o que acontecer... Pde ser que meu pae, em vendo que eu
no mudo de vontade, me tire do recolhimento.

--Isso  verdade, e, se assim fr, n'esse caso no quero ser frade, nem
que meu pae me desherde.

--O peor  que nos no tornamos a vr...

--No? E  verdade que no. L nas orphs diz que no ha janellas.

--No ha, no; mas, se podssemos escrever-nos...

--Isso sim; se podssemos escrever-nos era bem bom; mas vmc.e , em se
pilhando l a brincar com as outras raparigas, esquece-se de mim.

--No esqueo, no. Estou affeita a vl-o ha mais d'um anno, e tarde me
esquecer...

--Se vmc.e soubesse o amor que lhe tenho!... Ha quatro noites a fio, que
sonho comsigo, e nem posso estudar a lio, nem tenho vontade de comer.
J minha me hoje disse: este rapaz teve alguma olhadella m. Mal diria
eu que vmc.e sahia d'essa casa!... Pois olhe... a senhora Rosinha a
sahir, e eu tambem.

--Para onde vai?

--Vou para o Passos estudar latim. Meu pae quer que eu esteja dentro do
collegio para aprender mais depressa, e eu at aqui dizia que no,
porque tinha saudades de si, mas agora no se me importa de deixar esta
casa.

--E onde mora o mestre?

--Na viella da Cancella Velha.

--Pois se eu arranjar por quem lhe escreva, l mando.

--Ento no se esquea.

--Adeusinho.

--Adeusinho, estimarei que tenha saude.

........................................................................

As janellas fecharam-se, e a lua no co velou o rosto de negro, como
contristada da agonia lacerante d'estes dous infelizes! Essas phrases
plangentes traziam o quilate d'uma lucta atormentada que l ia dentro
nos dous coraes! A leitora sensivel, com as lagrimas nos olhos, e a
palpitao accelerada, espera, anciosa, o desfecho d'este lance, que
ficar aqui insculpido para modelo eterno das paixes impetuosas.

Jos Bento prostrou-se no leito do soffrimento, gemendo... com dres de
barriga, e variam as opinies cerca de uma lagrima que lhe tremia n'um
lho, emquanto o outro conjugava o verbo _Laudo_, _as_, _are_, que lhe
custra, no dia anterior, um elastico puxo d'orelhas.

A minha opinio  que a lagrima era de pura saudade. Sriamente
fallando, no sejamos injustos, expondo  irriso a phrase singela do
pobre rapaz. O que elle sentia ento, se eu podsse sentil-o agora,
escreveria tres volumes em quarto, que o leitor me compraria, e a minha
reputao de piegas amoroso estava feita.

O filho do senhor Joo Retrozeiro, que Deus haja, era grosso de casca,
mas tinha dentro de si bellas cousas, exceptuando a dr de barriga, que
o incommodou a ponto de levantar-se, e pedir  me que lhe mandasse dar
o _semicuplo_, receitado pelo cirurgio.

A extremosa me saltou em fralda do leito conjugal, rezando o responso
de Sancto Antonio, applicado aos banhos, accendeu o lume, aqueceu a
agua, e agasalhou seu filho na bacia, que,  parte, a posio que no
era bonita, lamentou ahi de ccoras profundamente a sua sorte.

E Rosa?

Rosa, coitadinha, perguntava  sua consciencia se o amor era aquillo que
Jos Bento lhe dissera. Parecida com a me, segundo o pae dizia, o
instincto segredava-lhe cousas novas, que o visinho no sabia
decifrar-lhe. A seu pesar, porm, a pequena chorava com saudades do
rapaz.

Felizmente adormeceu, pedindo a Sancta Barbara, sua advogada, que a
livrasse do velho, assim como, pela sua muita virtude, se podra livrar
do impio Diocleciano (reminiscencias do ultimo sermo, que prgara fr.
Miguel dos Antoninhos, na Misericordia, dias antes).

Em virtude do que, dormiu pacificamente, viu em sonhos o Jos Bento,
queixando-se da barriga, e acordou de madrugada, quando a magra mo de
Angelica a chamava para o oratorio, em que se rezava tudo que havia
escripto sobre a materia.

Ao almoo, o senhor Antonio Jos da Silva aproveitava a edio de cara
que no pde dar  luz na ceia, por falta de concorrencia da parte
interessada no espectaculo hediondo. Estava, portanto, mais feio que
nunca o senhor Antonio. Durante o almoo de caf com leite, e biscoutos
de Avintes, nem uma palavra trovejou das belfas tumidas o desditoso
amante. Rosa comia sem vontade, e Angelica sopeteava deliciosamente as
suas spas, aboboradas em leite quente, porque os seus quatro dentes no
eram para graas.

Findo o almoo, appareceu o arcediago Leonardo Taveira, que comeu tres
biscoutos, indispensavel lastro para um copo de vinho, e pequena
refeio para quem vinha de rezar quatro psalmos, em lingua barbara, no
cro da S.

Reanimado de eloquencia propria do pae e do levita, o arcediago chamou
sua filha  parte, e recapitulou,  ultima hora, as admoestaes do dia
anterior. Recalcitrou a desobediente rapariga. Fumegaram as pandas
ventas do sacerdote. Volitaram-lhe das ditas caroos de rap, como as
frechas dos thracios contra Jupiter, e sacudiu da profana lingua um
feixe de raios de maldio: _Vibrata jaculatur fulmine lingua_, como
depois dizia o guardio dos gracianos, fr. Antonio do Menino Deus, a
quem elle contava o accesso.

O seu discurso, que no vale a pena de especial meno, terminou por
intimar a Rosa a immediata sahida d'aquella casa. Entretanto, o padre
Leonardo foi buscar a ordem de entrada no recolhimento. Quando veio,
Angelica pendurou-se-lhe ao pescoo, em risco de lhe enterrar o fio
cortante da barba no queixo d'elle. Supplicava-lhe a piedosa mulher que
lhe deixasse a filha mais nove dias, e, ao cabo d'elles, promettia
dar-lh'a alliviada.

--Alliviada!--exclamou o pae, arfando as azas do nariz--minha filha
alliviada!...

--Pois ento...? quer que lhe diga uma cousa ao ouvido?... venha c...

O padre media Rosa da cabea aos ps, mas o ponto fixo d'esse olhar no
era de certo nos ps nem na cabea... Angelica acenava-lhe, e elle no
podia attendel-a, porque parece que a cara da filha denunciava um crime
inaudito... Era precisa coragem. O arcediago deu o ouvido direito 
velha:

--O senhor reverendo arcediago no sabe o que aconteceu a sua filha?

--No!... diga, depressa, que arrebento...

--Tenha paciencia... Todo o mal que Deus permitte  para desconto de
nossos peccados...

--Diga, senhora Angelica, que me faz doudo...

--No se afflija, senhor arcediago... o mal  do demonio, e o bem de
Deus...

--Oh mulher, por quem  no me demore n'esta horrivel suspeita...

--Pois ainda no adivinhou?

--No, com mil pragas...

--Credo! vossa reverendissima est atrigado!...

--Sancto nome de Deus, que mulher!... Que tem minha filha?... responda,
seno vou arrebental-a...

--Arrebental-a! Deus nos acuda... Sua filha no tem culpa... a culpa 
d'aquelle seductor do inferno, Deus me perde...

--Seductor!... um seductor!... quem foi o infame?... que  o que me diz,
senhora Angelica?!

--Que  o que lhe digo?  que sua filha tem o _esprito_ ruim no corpo! O
seductor  o demonio.

Padre Leonardo Taveira, com quanto pacifico, sentiu vontade de partir
d'um murro o craneo, quasi n, da senhora Angelica. Depois, soltou um
frouxo de riso que borrifou a face da velha. A gargalhada foi to longa
e estridorosa, que Angelica julgou o arcediago possesso d'outro demonio.




CAPITULO V


O senhor Antonio, emquanto Rosa se vestia, sumiu-se para esconder a
commoo da despedida aos olhos insensiveis da ingrata. Angelica
procurou-o para convencel-o de pronunciar  ultima hora, o esconjuro de
Escolastica. No o viu, e teve de acompanhar lagrimosa a menina ao
recolhimento, onde seu pae fra adiante lr o programma, que devia
executar-se na recluso da pensionista D. Rosa Guilhermina Taveira. Onde
se tinha sumido o noivo despresado? Estava defronte, na loja de Joo
Retrozeiro, que tivera medo do aspecto, raivosamente opilado, do seu
visinho, quando entrra.

--Senhor Joo--disse elle, arquejando, e revirando nas orbitas os olhos,
que o ciume arrancara  sua estupida immobilidade--senhor Joo! eu gosto
de viver bem com os meus visinhos; moro, ha cincoenta annos, n'esta rua,
sou um honrado homem, que nunca deu desgosto aos seus visinhos...

--Diga-m'o a mim, senhor Antonio! pois que  que lhe aconteceu?--disse o
pavido retrozeiro, tirando as cangalhas, e depondo uma borla de toral
em que o imaginoso artista phantasiava uns berloques, que deviam
distinguil-o na especialidade das borlas--Acaso, senhor Antonio, se
desaveio com alguem?

--Eu nunca fiz tagats s filhas, nem s irms dos meus visinhos.
Ninguem dir que me viu espetar os olhos nas familias alheias. Sou um
homem honrado.

--Quem nega tudo isso, senhor Antonio?

--Tanto se me d que vmc.e tenha c uma mulher como duas...

--Isso no  verdade, e perdoar, visinho. Eu no tenha c em casa seno
a minha mulher... Quem lhe disse que eu tinha c duas mulheres?

--No sei se tem duas, nem quatro. O que sei  que vmc.e tem um filho
muito mariola.

--Vmc.e est enganado! O meu filho  um rapaz muito accommodado que
estuda para loio, e no tem nada que lhe digam.

--O seu filho  um mariola, j lh'o disse.

--Pois o meu Jos que lhe fez?

--O seu Jos anda-me c a fazer gatimanhos  filha do senhor arcediago,
que por amor d'elle vai ser posta fra da minha casa. No quero poucas
vergonhas de portas a dentro,  o meu systema.

--Que me diz, senhor Antonio? Pois o meu Jos...

-- o que lhe digo, senhor Joo. Eu sou um homem honrado, e dos annos
que tenho ninguem me viu desinquietar as minhas visinhas. Vmc.e no 
bom pae. Um logista que tem filhos, fal-os ir trabalhar na loja.

--O meu Jos estuda para frade, por isso  que no vem para aqui...

--Qual frade, nem meio frade!... Deixemo-nos de frades. Ponha-o a
sapateiro, ou alfaiate, que  o mais proprio. Eu tenho sobrinhos, e no
os mando aprender latim; e vcm.e, que tem aqui dous arrateis de retroz,
e quatro varas de mastro, j quer ordenar um filho...

--Que lhe importa a vmc.e a minha vida?

--E o seu filho que lhe importa as pessoas de minha casa? Se eu fosse
outro homem, mandava-lhe estender as orelhas por um caixeiro...

--Isso l mais devagar, senhor Antonio! Quem castiga o meu rapaz sou
eu... Se o seu caixeiro lhe puxasse as orelhas, no havia de ter frio
nas d'elle.  o que lhe digo! Eu sou pacifico, e cortez com quem 
cortez. Eu chamo o meu filho, e veremos como  essa pendencia, que vmc.e
traz.

O senhor Joo, j com a mostarda no nariz, chamou Jos, que vinha
descendo, e resmungando: _imperativo do verbo laudo, as, are,
laudabundum, ou laudatote_. _Presente do indicativo, Laudaturus._

Contentssimo das suas reminiscencias, e livre da dr de barriga, Jos
Bento ficou surprezo na presena do rival, e enfiou de susto. A edio
da cara paterna no era mais nitida que a do negociante.

--Vem c, Jos. O senhor Antonio queixa-se de que tu fazes tregeitos
para a menina do senhor arcediago, isto  verdade?

Jos, chofrado pelo improviso, gaguejou a resposta, que mais tarde sahiu
energica, e eloquente.

-- verdade, ou no?--replicou o pae.

--gora ...

--, sim, senhor. No me desminta, seu estudante de borra!--trovejou o
negociante, formando instinctivamente com as mos dous gordos murros.

--No  preciso berrar tanto, senhor Antonio!... A minha casa no 
pateo de convento. Se quer que fallemos, vamos l para dentro.

--Faz favor de entrar.

Antonio Jos acceitou o convite, e proseguiu na apostrophe:

--Eu que lh'o digo,  porque o sei. Voss esteve esta noite fallando com
Rosa! Esteve ou no esteve?

--Estiveste, rapaz?

--Eu, no, senhor.

--Como  isso?--continuou o pae--se o meu filho esteve toda a noite a
gritar com dres de barriga, e por signal que a minha Anna andou toda a
noite na cosinha a aquecer agua para banhos? Quer que eu chame a minha
Anna, senhor Antonio?

--No me importa o que diz a sua Anna.

--Isso... mais devagar! A minha Anna  to honrada e verdadeira como a
senhora Angelica, e pde pedir messas s mais honradas.

--Que tens tu, Joosinho?--grasniu de cima a senhora Anna, mettendo a
cabea pelo alapo.

--Olha l, mulher... O nosso rapaz que teve a noite passada?

--Dres de barriga.

--V, senhor Antonio!... Tudo que me veio dizer  mentira...

--No se diz isso a um homem honrado, como eu!... O seu filho esteve s
dez horas a conversar com Rosa; eu que lh'o digo,  porque o sei de bom
canal...

--Quem lh'o disse? onde est esse canal?

--Quer sabel-o? Foi certa pessoa que  mesma hora estava para conversar
com essa indigna mulher do Joo Pereira.

--De qual Joo Pereira? Aqui ha dous na visinhana.

--Do Joo Pereira, calvo, que traz chin.

--Que dizes tu a isto, Jos?

--Digo que estive com dres de barriga, e por signal que tomei ch
d'herva cidreira.

--V, senhor Antonio? Vmc.e  um homem honrado, mas enganaram-n'o.

--No me enganaram. Eu de portas a dentro no quero poucas vergonhas: 
o meu systema.

--Enganaram, sim, senhor--chiou de cima a senhora Anna.

--Quer apostar uma moeda contra dez?

--Aposto o que vmc.e quizer! O meu filho  um exemplo dos bons rapazes.
 filho d'um bom pae.

--E d'uma boa me--accrescntou a senhora Anna.

--No tem a quem sahir mau--confirmou o retrozeiro.

--Pois eu digo-lhe--exclamou o mercador de pannos com grande chuveiro de
perdigotos--digo-lhe eu que seu filho  um tratante, e que vmc.e 
outro, se o no castigar.

--Olhe l como falla, ouviu?--disse a me do futuro loio, j perfilada,
em baixo, ao lado de seu marido, que era a carne da sua carne, e o osso
do seu osso.

-- isto que lhe digo. Pela arvore se conhece o fructo. Se vmc.e fosse
um homem de conhecimentos, e no viesse aqui para esta rua de tamancos e
barrete vermelho daria outra educao aos seus filhos.

--E vmc.e d'onde veio?--interpellou a senhora Anna, fechando os punhos
na cintura, e dando-se, pelo vermelho da clera, a figura d'uma bilha
de barro--No me dir a sua linhagem, senhor Antonio da tia Catharina,
que eu conheci na Ponte-Nova fazendo camizas de estpa para os
embarcadios! Olhe o fidalgo, que nos vem fallar em tamancos! Que me
dizem a isto? Lembre-se que sua av vendeu tripas na viella da
Madeira...

--Cale-se ahi que voss  uma regateira; eu no fallo comsigo.

--A minha mulher, regateira?

--Eu, regateira?

--Ponha cbro na lingua.

--Se no, topa com a frma do seu p...

--Sahe a racha ao pau--interrompeu o rival de Jos Bento, que no dizia
palavra--vmc.e ha de sempre mostrar que vendeu hortalia no largo das
Freiras.  a filha da Canastreira, e basta.

--E sua irm, a beata que traz cilicios depois de velha, quem , no me
dir?

--No falle em minha irm, ouviu?

--E vmc.e para que falla em minha me?

--Porque, se voss tivesse vergonha no estava aqui a crear este
mandrio...

--Fao eu muito bem, que  meu filho, e filho do meu marido, com quem
sou casada  face de Deus e do altar, na igreja da Victoria... E sua
irm porque no cria os d'ella?

--Qual minha irm?

--Sua irm Angelica.

--Voss est bebeda logo de manh?

--Bebedo ser elle, e mais quem o veste. Pois que cuida? Acha que a
gente se calava por no ter tanto? Se tem muito, coma duas vezes, ns
comeremos uma, porque no desfructamos os rendimentos da legitima das
filhas dos padres.

--Cale-se ahi, sua desbocada! Voss tem alguma cousa a dizer a minha
irm? Encontrou-a l por casa dos Amorins da Praa-Nova, onde voss
arranjou com boas bullas o dote do seu casamento?

--Vmc.e  um patife--atalhou o retrozeiro, sriamente envinagrado--e se
no sahe de minha casa...

--Deixa-me responder-lhe, Joo... com que ento eu ganhei o meu dote em
casa dos Amorins, heim! E sua irm? e a sua irm que reza a via-sacra, e
anda por casa das benzedeiras? Que fez ella tres mezes mettida na cella
do congregado?

--Que congregado diz voss, sua regateirona?

--E aquelle filho do conego Silvestre, que caminho levou?

--Desavergonhada que voss !...

--Sou? e a sua irm que ? uma _hypolita_... uma benzedeira, que d pelo
amor de Deus o que no pde dar ao diabo!  uma bebeda que nunca ha de
chegar aos meus calcanhares.

Palavras no eram ditas, a senhora Anna Canastreira levava um grande
murro no alto da cabea; murro no era dado, e o senhor Antonio sentia,
nas almofadas carnosas do cachao, o pezo d'uma tranqueta, que o fez ir
de chofre sobre a mulher do retrozeiro, que, atordoada do murro,
resvalou por debaixo do globoso negociante, que soltou um bramido de
rhinoceronte na queda desamparada.

A detractora da senhora Angelica sentiu-se escorchar debaixo do monstro,
e cravou-lhe as unhas nas foruras tremulas do pescoo. O retrozeiro,
para salvar a mulher asphixiada, puxava a perna homerica do negociante;
o negociante distribuia couces to a proposito que uma canella do senhor
Joo recuou mal ferida da empreza arriscada. Indignado pela dr fina do
canello, o marido da pobre mulher atufada, com a perna disponivel,
imprimiu tres valentes ponta-ps na orbita mais a geito e provocante do
senhor Antonio, que esperneava, grunhindo como um cevado. Jos Bento,
como bom filho, tentava alliviar o fardo, que ameaava o arcaboio
descarnado de sua me, puxando, em vo, o despresado amante de Rosa
pelas portinholas da jaqueta de linho cr.

A salvao, porm, da senhora Anna Canastreira deve-se s suas unhas. O
papo balfo do senhor Antonio soffrera graves arranhaduras. Em
compensao, o lho direito da infamadora de sua irm inutilisara-lh'o
elle com o cotovello perfurante.

Este conflicto durou quatro minutos, e ao quinto a senhora Anna no
tinha flego. A presso que soffrera na cavidade intestinal, e na
thoracica tambem, podia ter mui funestas consequencias, se o nosso
presado amigo, o senhor Antonio Jos da Silva se no levantasse,
lazarado do pescoo para cima, supposto que, no vermelho natural da sua
cara veneranda, o sangue das arranhaduras no se destacava.

A senhora Anna, continuando a infiada de epithetos, consagrados 
senhora Angelica, estava ainda sentada compondo as rpas da desalinhada
cabea, quando o offegante mercador de pannos, impellido pelo derradeiro
empurro do retrozeiro, se achou na rua, onde o povo principiava a
juntar-se, chamado pelos gritos confusos dos gladiadores.

O senhor Antonio entrou no seu quarto a lavar a cara com agua e vinagre.
Perguntou por sua irm, e o caixeiro respondeu-lhe que fra acompanhar
Rosinha. Pensados os ferimentos, o infeliz rival de Jos Bento mediu em
toda a profundidade a extenso da sua dr, e comeu dous pasteis de
Sancta Clara, que eram a vanguarda d'um copo de vinho.




CAPITULO VI


Rosa Guilhermina foi recebida com carinho pela regente, senhora de boa
educao, e incapaz de satisfazer as rigorosas recommendaes do
arcediago. A pensionista era to meiga, to sympathica, e to linda, que
prendeu o interesse das suas companheiras, e a amizade da regente.

Padre Leonardo recommendra que a deixassem ssinha, e a no recreassem
de modo que ella saboreasse a vida nova, que lhe era dada como castigo.
Ainda assim, as commodidades do quarto no lh'as negra elle. Rosa
encontrou aceio, suppondo que acharia um escuro cubiculo, e uma enxerga
por cama. Encontrou raparigas folgazs, onde esperava achar velhas
rabugentas. Achou comida bem feita e abundante, onde lhe tinha dito D.
Eugenia que se jejuava todos os dias, e o melhor manjar eram papas de
farinha milha. Se no via a rua, que tinha, n'esse tempo, pouco que vr,
a crca era espaosa para brincar, e, a certas horas, as garrulas
meninas saltavam como cabras, e rasgavam os sapatos e os vestidos  sua
vontade.

Basta dizer-vos, leitoras compadecidas da namorada de Jos Bento, basta
dizer-vos que a reclusa no tinha tempo para pensar sriamente no
aprendiz de loio, nem, ainda no senhor Antonio Jos, nem na senhora
Angelica.  verdade que uma saudade dolorosa lhe assomra aos olhos em
lagrimas, que as pensionistas tractaram de enxugar-lhe com brinquedos.
Era uma saudade, que lhe aguava os prazeres inesperados do recolhimento:
era, em fim, a saudade pungentissima da sua gata malteza.

Entre todas as meninas, havia uma sua predilecta, inseparavel, visinha
de quarto, e da sua idade. Esta no era pensionista. Orph de pae e me,
fra adoptada pela Misericordia. Galhofeira por indole, tinha momentos
de entristecer-se da sua condio parasita, e custava-lhe soffrer
encargos que as pensionistas no tinham. Lembrava-se de ter sido, at
aos oito annos, educada com mimo, revoltava-se contra a religio, que
mandava resar de madrugada, e muitas vezes disse s mestras que sua me
sahiria da sepultura, se soubesse que creava uma filha para viver
sujeita s migalhas da Sancta Casa da Misericordia, que no tinha muita.
Felizmente para o senhor Diogo Leite, provedor da Sancta Casa, a me de
Maria Elisa, por ignorancia talvez do mau humor de sua filha, no consta
que sahisse da sepultura. E a prova  que a orph resignou-se  sua
sorte, e parecia mais feliz desde que Rosa a preferiu como amiga s
ricas pensionistas, que desdenhavam da preferencia pouco nobre e
desairosa para ellas.

Maria Elisa entrra para o recolhimento aos oito annos. Aos quatorze
estava mulher, e no sei por que phenomeno do instincto sabia, pouco
mais ou menos, qual era a vida c de fra! Se no  phenomeno, devemos
acceitar a explicao natural do facto, como nol-a do hoje as sinceras
mes de familia, que alli foram educadas. D'antes (e agora  o mesmo) um
pae que receiava os resultados da indiscreta inclinao de sua filha j
adulta, e emancipada, pegava da filha desobediente, e fazia o que fez o
arcediago  sua. Acontecia, porm, que nem todas eram innocentes como a
filha do arcediago. As que entravam apaixonadas, o desafogo que tinham
era fallar da sua paixo em geral, e das particularidades a alguma amiga
intima, que se entretinha a scismar nos pesares da sua amiga, e achava
que os homens, se fossem cousa m, no eram chorados pelas pobres
meninas, victimas d'um deshumano pae, ou d'um barbaro tutor, como ellas
diziam em estylo da tragedia velha. N'aquella casa correu occulto o
desenvolvimento de dramas atrozes. Presenciaram-se alli despotismos,
cuja historia espanta o corao. Os que hoje encaram aquellas paredes de
branco, com persianas verdes, no imaginam que alli dentro, ha menos de
trinta annos, se bebeu um calix de fel, cujo segredo uma sepultura
lacrou. E quantos calices! quantos segredos! que revoltantes infamias 
sombra da misericordia dos homens, que se diz a expresso da
misericordia divina!...

E essas scenas presenciavam-nas meninas, que no recebiam o exemplo como
admoestao, mas arrefeciam de terror quando ouviam os gritos inuteis,
as supplicas escarnecidas, e os gemidos suffocados na garganta das que
alli morreram abafadas.

Olhai, leitores: quando assim se falla, quando no ha receio de formular
d'este modo as affirmativas, crde que o escriptor tem as provas debaixo
dos olhos. Hei de contar-vos um segredo, que vos ha de merecer
lagrimas... Ha de ser um dia, quando um homem vivo acabar de cerrar os
olhos, que j vem pouco n'este mundo. Escuso dizer-vos que eu poderei
cerrar primeiro os meus. N'esse caso, desde j me desobrigo da minha
promessa.

Vinha eu fallando da innocencia das meninas, e especialmente de Maria
Elisa, amiga intima de Rosa Guilhermina. Sinto dizer-vos que no era,
espiritualmente fallando, mais innocente que eu e tu, leitor desempoado,
que frequentas o theatro italiano, e bebes o teu _punch_, e fumas o teu
charuto, e consomes a tua resma de papel, mensalmente, fallando da tua
innocencia  visinha.

O que ella tinha mais que eu, e tu, leitor, era uma galante cara.

O cabello negro, em ondas, cerceado pelas pequeninas orelhas, era d'um
effeito satanico. Olhos rasgados, e negros, como as espessas pestanas;
trigueira; com todo aquelle fogo vertiginoso das mulheres trigueiras;
labios sedentos de beijos, sorrindo para o amor e para a zombaria com o
mesmo sorriso; e, mais que tudo isto, um buo, to igual, to
caprichosamente graduado at aos cantos dos labios, em que o maldito
seductor parecia colher um beijo para atormentar os Tantalos d'esta
iguaria...

Creio que no fazem ideia nenhuma da pequena pelo retrato que lhes dei.
Eu tambem no. Quando me pintaram a physionomia d'ella, no fiz ideia
nenhuma, e prometti desde logo communical-a ao publico to fielmente
como eu a concebera.

Se tendes senso-commum, basta dizer-vos que Maria Elisa era trigueira
para m'a receberdes como linda, porque as no ha lindas se no so
amoldadas por aquella outra trigueirinha que o sancto rei de Jerusalem
celebrisou nos seus cantares. Olhai l se elle, entre mil queridas que
lhe rodeavam a existencia de portas a dentro, cantou alguma outra! Pela
trigueira, mas formosa, _nigra sum sed formosa_, o sabio elanguescia
d'amor, _amore langueo_. Em nenhuma outra viu olhos de pomba, _oculi tui
columbarum_; s a ella concedeu nos seios mais limpidez que no vinho,
_pulchriora sunt ubera tua vino_, e o _pat-chouli_ da trigueirinha era
superior a todos os aromas, _et odor unguentorum tuorum super omnia
aromata_.

E como creio que nenhum de ns tenha a ridicula vaidade de ser mais
sabio que Salomo, concordemos em que o typo, que mereceu a especial
sympathia do sabio por excellencia, deve ser o eterno typo do bello.

Toda esta erudio vem confirmar que Maria Elisa era bella, porque era
trigueira. A julgal-as exteriormente, as duas meninas deviam ser dois
temperamentos oppostos. Rosa denunciava uma d'estas mulheres eternamente
cansadas, apparentemente somnambulas, arfando a cada palavra de tres
syllabas que dizem, olhando para si com ar de piedade e para os outros
com aborrecimento, rindo-se com a bca toda, e mastigando pausadamente
uma resposta dependente d'um _sim_ ou _no_. Elisa colleava-se,
requebrava-se, desconjunctava-se, trepava s arvores, fazia discursos
sobre a inconveniencia das mulheres velhas, sobre o despotismo da
regente, tudo em linguagem muito caracteristica, e acabava por
entristecer-se, dizendo que se sua me soubesse o que ella penava,
partiria a pedra do tumulo para galardoar a regente e a sub-regente cada
uma com dois sopapos.

Parece impossivel que estas duas organisaes sympathisassem! Pois eram
amicissimas, viviam juntas de dia, illudiam as vigilancias dos guardas
para pernoitarem juntas, e chegaram, por estranho milagre de infuso, a
neutralisarem os temperamentos de modo que se pareciam muito uma com a
outra.

Elisa arrancra  sua amiga a revelao do motivo por que a
encarceravam. Ouviu-lhe, com seriedade comica, a odienta impertinencia
do senhor Antonio Jos da Silva, monstruoso amante, e n'essa noite
improvisou, no seu quarto, com o travesseiro e chapo e jaqueta do
hortelo um Antonio Jos da Silva, e convidou Rosa para assistir a um
castigo exemplar. O castigo era uma carga de vassoura no mono, at se
despegar a aba esquerda do chapo do hortelo: tudo isto com estridolas
gargalhadas de ambas, que pozeram em alarma o dormitorio.

A respeito do senhor Jos Bento, cuja derradeira entrevista, Rosa
fielmente contra, no nutria Elisa sentimentos mais srios. Achava-o
tlo, estupido, achavascado, e promettia pr-lhe um rabo de papel, se
algum dia tivesse a fortuna de encontral-o.

E a filha do arcediago achava que a sua amiga tinha razo, porque as
historias de amores, que ella lhe contava, eram cousa mais sublime, mais
deslumbrantes, que os seus miseraveis dialogos com o filho do
retrozeiro, a quem Elisa denominava _patego_, _parrano_, _gebo_, e
outras amabilidades, como _lapardo_.

--Olha, Rosa, no contes a ninguem que foste namorada d'esse
_pazbobis_--dizia Elisa, passeando na crca com o brao botado por sobre
o hombro da sua amiga.--Eu tenho ouvido contar muita historia s
raparigas que vem obrigadas para aqui. Umas so fidalgas que quizeram
casar com homens ordinarios, e outras so raparigas como eu com quem os
fidalgos no querem casar. Todas ellas contam  gente as conversas que
tinham com os namoros, e dizem cousas muito bonitas, que fazem chorar,
como as novellas da Maria Peixoto, que eu li.

--Quem  a Maria Peixoto?

--Era uma rapariga que j sahiu. Queres saber o que ella fez? Eu te
digo. Um tio metteu-a c, porque ella queria casar-se com um plebeu,
sendo fidalga dos quatro costados, como diz a regente, que tem mais dois
costados que as outras. A Maria Peixoto quando entrou, faz agora um anno
chorou muito, e esteve  morte. Quando se levantou da doena, estava
alegre, e diziam as velhas que fra milagre de Nossa Senhora do Rosario.
Eu estava admirada de a vr to contente, quando me ella disse que
queria fugir do recolhimento, e precisava fingir-se para a no vigiarem.
Um dia entrou um carro de lenha por aquella porta, e ella andava por
aqui disfarada, e quando pilhou a porta aberta,  pernas, p'ra que vos
quero!... A tla, se havia de procurar o namoro, foi metter-se em casa
d'uma tia, que era to boa como o tio, e n'esse mesmo dia trouxeram-na
c outra vez.

--Coitadinha!... e depois? trataram-na muito mal?

--Isso sim!... Se a visses, fugias-lhe! Parecia o demonio! Com a faca da
cosinha na mo, correu atraz da regente, que se alapou no quarto, e
gritou por soccorro. Procurou todas as velhas, deu um pontap na
sacrist, atirou de cangalhas a Lima velha, foi  porteira, e disse que
lhe cravava a faca no peito se ella lhe no abrisse a porta. A porteira
gritava como uma pera, emquanto a Maria Peixoto lhe tirava a chave, e
abria a porta. No te digo nada, Rosinha! Nunca mais lhe pozeram lho...
Da segunda vez foi mais fina. Casou-se com o tal rapaz, e mandou c
buscar os bahus, e muitas recommendaes  regente, que ainda se benze
quando se falla em Maria Peixoto... Aquillo era levadinha! E esperta?
Traduzia novellas francezas s raparigas, e leu-me uma que fazia doer a
barriga com riso... era o _Cavalheiro de Faubls_, j lste?

--Eu no tenho lido nada... Em casa do tal amigo de meu pae no havia
livro nenhum. O que me l deram foram as _Horas Mariannas_ e a _Alma
Convertida_.

--Olha que brutos!... Deixa estar que te hei de contar a historia do
Cavalheiro Faubls, que  de morrer a gente com riso. A senhora regente
pz-se um dia  escuta, quando a Maria Peixoto lia uma passagem, e disse
uma rapariga que ella estava a rir-se; mas, depois, entrou com as
cangalhas espetadas no grande nariz, perguntando que livro era aquelle.
A Peixoto disse-lhe que era a vida da Gloriosa Sancta Maria Magdalena
Virgem, e a regente disse que Sancta Maria Magdalena no era virgem.
Ento  martyr--teimou a Peixoto--nem martyr, nem confessora
replicou a regente, e levou-nos o livro, que, pelos modos, lhe traduz
hoje o padre capello, valha a verdade.

--Recolham-se, meninas, que  noite--resmungou fanhosa a regente de uma
janella.

As meninas subiram, praguejando a superiora, especialmente Maria Elisa
que recitou uma ladainha de titulos em que os menos insolentes eram
_camafeu_, _trxa de ovos_ e _santopa_.

Quando passavam no dormitorio, espreitaram pela fechadura de uma porta,
e fungaram com riso.

--Deixa-me vr a mim--disse Elisa.

--Agora eu.

--Um bocadinho a mim.

--Que vs?

-- a Clemencia Lima que salta por cima d'uma fogueira de alecrim.

--E que diz ella?

--No ouo: v tu se ouves... Que diz ella?

--D um saltinho, e diz: _em louvor de Sancto Antoninho_. Agora  a
outra que salta, e diz: _em louvor de Sancto Athanazio_, e _da senhora
regente_.

--Diacho das velhas esto doudas!--segredou Maria Elisa--Vamos ns
assustal-as?

--Como?

--Assim...

O _assim_ era um empurro na sua companheira. A porta, mal fechada, no
susteve o impeto, e Rosa foi de encontro  velha Clemencia, que dava um
terceiro pulinho em louvor de Sancta Quiteria, e do provedor da Sancta
Casa. O choque foi desastrado! Aterradas as duas irms, que no podiam
sustentar-se sobre a esboroada peanha de oitenta annos cada uma,
cambalearam e cahiram, guinchando de modo que a turba das raparigas
alvoroadas veio, por assim dizer, peorar a sua situao.

Entre as que vieram estava Maria Elisa, perguntando s pobres velhas
quem as atormentava.

--Era o demonio!--disse Clemencia.

--Em corpo e alma!--accrescentou Rita.

--Tragam agua benta, e a regra do patriarcha S. Bento--disse a regente.

--Emquanto as ablues demonifigas se faziam na cella endemoninhada,
Maria Elisa contava a Rosa o primeiro capitulo do Cavalheiro de Faubls.




CAPITULO VII


Os planos, que o arcediago incubra no seu profundo saber do corao
humano, abortaram. Sahia-lhe tudo ao envez das suas esperanas. Previra
a humildade de Rosa, depois das mortificaes da recluso; e Rosa cada
vez mais contente, agradecia ao pae, que a procurava todas as semanas, a
lembrana de a castigar com o recolhimento.

No principio, a regente era instada para augmentar as privaes da
educanda; mas as privaes no podiam ser dadas como supplicio a uma
menina que vivia contente, e cumpria com regularidade e promptido as
poucas obrigaes de pensionista.

O zlo pharisaico do arcediago afrouxou, porm, com a frieza do senhor
Antonio Jos da Silva. A catastrophe ridicula, de que fra victima o
esmurrado negociante em casa do Joo retrozeiro, modificou-lhe
consideravelmente o corao, a respeito de Rosa Guilhermina, pomo de
discordia, e causa desastrada de similhante conflicto.

O senhor Antonio soffreu, pela primeira vez, uma decepo nas suas
crenas senis. O pugilato com a senhora Anna Canastreira chamou-o 
razo, e, se no  profanar a ideia, diremos que a poesia matrimonial do
senhor Antonio fra dilacerada pelas unhas felinas da visinha.

O pobre homem tinha vergonha do successo. Na rua das Flores no se
fallava em outra cousa. O seu visinho Joo Pereira, o do chin, ria-se 
sucapa com o visinho da loja immediata, emquanto sua mulher contava 
visinha, com grande hilaridade, os famosos murros, que o ciumoso Antonio
jogra com a me de Jos, por causa da Rosa. O que ella no dizia, por
no escandalisar, e todos o sabiam, era que um seu amante fra a forada
testemunha do apaixonado dialogo, que os leitores, sem serem os amantes
da mulher do senhor Joo Pereira (se  que alguns o no foram), tambem
ouviram.

O rico negociante tinha inimigos, mulos de negocio, os peiores de
todos, que espreitavam o primeiro ensejo de o apoquentarem. No podia
ser melhor o motivo. Algum mais odiento levou a sua vingana ao extremo
de fazer quadras ao desventurado negociante. Algumas d'essas quadras, em
verdade chistosas, chegaram  minha mo. Se no fosse o medo de aggravar
a indigesto de versos em que imagino encruado o estomago do publico,
podra dar-lhe quatrocentos e tantos versos consagrados ao senhor
Antonio Jos da Silva, debaixo do titulo: CUPIDO DESDENTADO. Sem
embargo, porm, da christ generosidade que tenho com o leitor, no o
poupo ao flagello de lr um fragmento d'esse poema, que devia ser a
causa principal do abandono a que o infeliz heroe votou a filha do
arcediago.

O dito poema  de author incognito, e o fragmento no vol-o dou como
primor de arte;  crivel, porem, que o author tivesse filhos, e os
filhos do author, apurados em raa, sero talvez os genios que hoje
prendem a nossa admirao, e engrandecem as letras patrias.

Elle ahi vai:

      Dom Cupido desdentado,
      Despresado em seus desvelos,
      Jurou, sobre os seus chinelos,
      Guerra eterna ao seu rival!

      Fumegando pelas ventas
      As tormentas do ciume,
      Todo elle  fogo,  lume,
      No solar do Retrozeiro.

      Dom Cupido desdentado,
      Desarmado, vai sem frecha
      Quer abrir, a murro, a brecha
      Do rival no corao.

      Torce os olhos, solta um urro,
      Prga um murro na ma
      Da fanhosa castell,
      Que se atira a elle  unha.

      Dom Cupido desdentado,
      No vingado, cahe de chofre,
      E tal pso a velha soffre,
      Que estourou!  vista horrivel!

      Pobre Aonio, pobre Aonio,
      Que demonio te tentou!?
      Antes dentes ter, Antonio,
      Que no ter, e ser Cupido!

      Dom Cupido desdentado,
      Quer o fado que eu te diga,
      Que no pdes ter barriga
      Mais mal feita para Rosa!

      Come bem, morre a comer,
      Que, a meu vr,  grande asneira
      Ter inveja do Joo Pereira,
      Teu visinho, ao tal chin!

      ..........................

Et cetera.

O chin de Joo Pereira fra sempre o pensamento negro da victima do
poeta! Este sarcasmo ferira atrozmente o infeliz! A reaco devia ser
dolorosa, mas, passada a crise, o senhor Antonio sentia-se bom, porque
ao pino do meio-dia, horas de jantar, a sua paixo dominante era o
melhor dos appetites. No tinha havido poesia, que to util fosse ao
genero humano, at ento, porque s depois vieram as poesias hygienicas,
s quaes a humanidade est muito agradecida, principalmente a humanidade
atacada de vigilias. Afra estas, foi aquella a poesia que melhor fructo
colheu. O senhor Antonio, desde esse dia, comeu como sempre, e dormiu
como nunca. Ao mesmo tempo que era aoutado em effigie no quarto de
Maria Elisa, o razoavel negociante apertava os vinculos, meio lassos,
que o prendiam  Thereza, com barraca de fructa na Ribeira, e entendia
de si para si que a mulher que lhe convinha era aquella.

E, to de maus humores o encontrava o arcediago, que nem ousava
fallar-lhe em Rosa, nem, o que mais era, o convidou para o vinho verde
de Campanh nos domingos de tarde.

Data d'ahi, portanto, a tolerancia do padre com os divertimentos da
filha. Visitava-a com melhores maneiras. Festejava Maria Elisa, que lhe
chamava padrinho, presenteava-a com vestidos similhantes aos de sua
filha, e redobrava de contentamento, sabendo que o filho do retrozeiro
era uma cousa sem importancia no voluvel corao da pequena.

Tudo corria maravilhosamente para todos, quando Rosa Guilhermina, dia de
entrudo, atirava cantaros de agua, e recebia-os agradavelmente pela
cabea. O resultado, porm, foi uma constipao despresada, uma tosse
continuada, febre, e, na primavera seguinte, foi julgada no principio
d'uma phtysica.

O arcediago resolveu levar sua filha a ares para uma sua quinta de
Ramalde, e alcanou licena a Maria Elisa para acompanhar a sua amiga.
Sahiram, e desde esse dia, a regente, a sacrist, e todas as velhas,
especialmente as Limas, agradeciam, todas as manhs,  Providencia o
favor de lhes afastar de casa similhante flagello.

Rosa melhorou apenas se viu em boa harmonia com seu pae, livre do
pavoroso negociante, senhora da sua vontade, rindo e brincando com a sua
amiga, amimada pelas duas criadas que o arcediago lhe dera, e decorando
cada vez melhor o romance predilecto de Maria Elisa.

No inverno proximo, as meninas vieram para a cidade, e encontraram uma
casa bem mobilada, apetrechada de tudo que mais lisongeava duas amigas
inseparaveis. Esta casa, situada  entrada da viella do Cirne, com
frente para a rua do Laranjal, ainda hoje conserva um ar campestre, que,
ha quarenta annos, era muito mais agradavel, porque a no assombravam
ento os edificios do largo da Trindade.

O quintal d'esta casa communicava com o do defunto Rodrigues Passos,
professor de latim, e o leitor, se tem prestado alguma atteno ao que
se lhe diz, deve lembrar-se que Jos Bento, no extremoso colloquio com a
sua visinha, annunciou a sua ida para o collegio de Passos.

Rosa nem de tal se lembrava j, quando encontrou os olhos piscos do
esquecido amante espetados nos seus. Elisa, que reparou na surpreza da
sua amiga, perguntou:

--Aquelle mono conhece-te?

--Conhece... Aquelle  o filho do retrozeiro... Agora me lembro que elle
disse que vinha para a Cancella-Velha!...

--Vamos ns namoral-o?

--Deus me livre!... Tomra eu que elle me no dissesse nada... Olha o
tlo!...

--O que ns queremos  rir-nos... Pergunta-lhe se est melhor das dres
de barriga.

--Eu no... Deixa o pobre rapaz... Vamos embora.

O estudante, cada vez mais pasmado do silencio de Rosa,  natural que
meditasse na razo d'aquelle inesperado encontro, quando Maria Elisa,
com a maior naturalidade, lhe perguntou:

--Como est da sua barriga, senhor Jos?

O rapaz fez-se muito vermelho, e no respondeu palavra.

--Cala-te, Maria!--murmurou Rosa, puxando-a pelo vestido.

--No quero calar-me. Pois eu no hei de saber como est a barriga do
teu namoro? Ento vmc.e no me responde? Olhe que eu sou sua amiga, e
fao esta pergunta, porque a Rosinha tem vergonha, e pediu-me que lhe
perguntasse se est melhor.

-- mentira!--atalhou Rosa, crando--eu no disse tal... No digas o que
no , Mariquinhas...

--Pois ento, no dirias; mas eu quero que aquelle senhor me responda.
Vmc.e  mudo?

--No sou mudo--disse o estudante embezerrado.

--Ento, falle  gente.

--E se eu no quizer?

--Se no quizer, no falle; mas  m creao tratar assim quem lhe
pergunta se est melhor da sua barriga.

--A minha barriga, graas a Deus, est boa, e vmc.e que lhe quer?

--No quero nada... eu j lh'a pedi?

--Pensei que lhe queria alguma cousa... Eu no sou boneco de palha para
caoadas.

--Vmc.e parece-me um mau rapaz! Quem  que o caa? Nem me parece um
estudante! Valha-o Deus! eu, se fosse Rosinha, no lhe tinha amor...

--Cala-te, Maria!.., Tu pareces-me tla! Deixa o rapaz!--disse baixinho
a Elisa, forando-a a retirar-se d'alli.

--Deixa-me caoar com elle... Eu no te disse que lhe havia de pr um
_rabo-leva_ de papel? J que no posso, deixa-me rir com este gbo, e tu
ri-te tambem.

Jos Bento, favorecido pelo dialogo, ia-se escapando surrateiramente,
quando Elisa o chamou:

--Psiu!... psiu!... Olhe c!...

--Que me quer?

--Vmc.e estuda para frade?

--Que lhe importa se estudo para frade?

-- que se vmc.e fosse frade, eu queria ser frada, e haviamos de ter uma
casinha ambos e um quintalinho, e as nossas gallinhinhas, que nos haviam
de pr os seus ovinhos, que ns haviamos de cosinhar ambinhos na nossa
cosinhinha, e depois a gente dizia a sua missinha... e depois a gente
vinha tomar o sol no seu quintalinho... e depois...

Rosa ria-se como uma perdida, quando o filho da senhora Anna
Canastreira, alongando a tromba, e franzindo o nariz, resmungou:

--Sabem que mais? vo bugiar! O meu regalo era...

--Qual era o seu regalo,  senhor Jos?

--Se no fosse estar em casa do mestre... eu lhe responderia...

--Ora diga l baixinho a sua resposta, que eu no digo nada ao mestre.

--V...

--Que v, aonde? No seja to mausinho, senhor Jossinho do meu corao.
Vmc.e ha de ser um fradinho de pau de sabugo muito bonito... J tem
cora?

--Tenho um dardo que a parta.

--Olha que mau!... Senhor Jos, no seja assim... Tome l uma beijoca.

O corrido estudante tinha desapparecido, no s porque se via embaraado
em responder s zombarias da importuna rapariga, mas porque o mestre,
ouvindo-o fallar, vinha de manso espreitar com quem era. O zeloso
professor appareceu no muro, e ainda viu as duas meninas, que se
retiravam em grandes gargalhadas. Enfurecido com a audacia do lrpa,
como elle generosamente o intitulava, foi ter com elle explicaes
acerca de tal conversa.

--Que dizias tu quellas meninas?

--Eu, nada... Eram ellas que...

--Que... o que? que te diziam ellas?

--Ellas diziam que...

--Acaba d'ahi selvagem!

--Eu estava alli a estudar a selecta primeira, e ellas disseram-me
que...

--Ests zombando comigo?

--Perguntaram-me se eu era...

--Um burro? e tu disseste-lhe que sim.

--No foi isso... perguntaram-me se...

--s um asno quadrado! Ouviste, lrpa? Se te vir outra vez a fallar com
as visinhas, escangalho-te as mos! No tens habilidade para traduzir
_mundus  domino constitutus est_, e sabes dar trla s raparigas!? Ora
deixa estar que te farei a cama!...

A crise passou, e Jos Bento n'esse dia apenas teve, como era de
costume, um bofeto e um puxo de orelhas, por causa do imperativo
_laudandum_.

No dia immediato, as meninas no o viram; mas, no outro, Rosinha viera
adiante esperar a sua amiga para colherem rosas do Japo, quando ouviu o
som roufenho da voz conhecida de Jos Bento:

--Senhora Rosinha, assim  que vmc.e se porta comigo?

--Ah!... estava ahi?!...

--Pois ento! cuida que eu me esqueci de si? Ficou de me escrever, e foi
como se nada!... Olhe l como vmc.e !

--No pude, senhor Jos... e tenho a dizer-lhe que  melhor no me
fallar, que meu pae ralha-me. Faa de conta que nunca nos vimos. Aquillo
que ns dissemos foi uma brincadeira de creanas. Trate do seu estudo, e
no se embarace comigo, porque eu tenho muito medo a meu pae...

--Sempre vmc.e ... d'aquella casta! E eu a pensar em si todos os dias,
e sempre a esperar noticias suas, ha quasi um anno!... Ento eu j no
sou o mesmo?

Jos Bento proseguia n'uma tirada eloquente contra a perfidia de Rosa,
quando o vulto austero do mestre de latim surgiu de improviso ao lado do
pallido estudante. Ao mesmo tempo, chegava Elisa, rindo muito da
surpreza, e Rosa punha os olhos no cho, e cortava machinalmente uma
rosa menos purpurina que ella.

--Chegue-se aqui!--disse o mestre ao rapaz aproximando-o do muro, que
dividia os dous quintaes-- meninas!

--Que quer?-perguntou Elisa.

--Os meus discipulos ensinam-se assim. D c a mo, seu lrpa!

Jos Bento, crado como um mlho de malaguetas, recuou diante da
palmatoria, cuja cabea o espreitava por debaixo do capote de saragoa.

--D c a mo! Voss no obedece? Olhe que o mando pendurar n'aquella
figueira.

--Como Judas Iscariote--atalhou Elisa, fungando, e esfregando as mos.

O infeliz dra a mo, e quatro sonoras palmatoadas lhe estouraram na
epiderme. A dr moral devia ser grande! Rosa estava pallida, e Elisa, de
repente, sria, disse ao professor:

--Se eu fosse elle...

--Que diz l a senhora?

--Digo que, se fosse elle...

--Que faria?

--Dava-lhe um murro no nariz.

--Em quem?

--Em vmc.e ...

--Se  senhora, no o parece...--disse o professor, encarando-a com
desprso--Eu tratarei de saber quem  seu pae, e, se seu pae lhe no
der com umas disciplinas...

--Que me ha de fazer? d-me palmatoadas?

--Hei de lhe mandar dar com um chinelo...

--Fra casmurro!... Venha para c, que lhe hei de dar um docinho...

O infiado mestre foi cevar as iras impotentes no pobre moo, que levou a
ponta-ps para o quarto.

Jos Bento recahiu n'uma profunda concentrao. Durante o dia no comeu,
nem bebeu, nem estudou.  meia noite ergueu-se d'um impeto similhante a
um ataque repentino de demencia. Abriu uma gaveta, e tirou um garfo. s
apalpadellas atravessou um corredor, e, na extremidade, abriu de
mansinho uma porta. Aproximou-se do leito onde resonava um homem, e
cravou-lhe tres vezes o garfo no pescoo. O agonisante soltou um rugido,
que s o assassino ouviu, e expirou.

Pela manh encontraram morto o velho Manoel Jos d'Almeida, professor de
latim, com um garfo tinto de sangue sobre a dobra do lenol.

--Jos Bento desapparecera. Foi procurado em casa do Joo Retrozeiro, e
no o encontraram.

Horrivel acontecimento!

A lingua latina perdeu um dos seus melhores interpretes. O senhor Manoel
Jos de Almeida poderia ser um temperamento colerico com os seus
discipulos, mas a sciencia devia-lhe muito. Escreveu largamente sobre a
genuina interpretao do _tam libet hirsutam tibi fulci recidere
barbam_, de Ovidio. Deixou ineditos tres volumes sobre a conjunco
copulativa, e preciosos manuscriptos sobre o adverbio _quotiesqumque_.
Era um bom catholico, e amigo dos pobres, que lhe chamavam pae. Era bom
esposo, bom pae e bom irmo; e, se no era bom cidado,  porque os
cidados inventaram-se depois.

_A terra lhe seja leve!_




CAPITULO VIII


O tragico successo inquietou um pouco o espirito de Rosa; mas a sua
amiga convenceu-a de que no devia dar-se por achada em similhante
cousa. O director do collegio ignorava a causa do inaudito crime,
presenciara a sva de pontaps com que Jos Bento se recolhera ao
quarto; mas suppoz que a justificada razo d'aquelle castigo fra
qualquer asneira do rapaz na impossivel conjugao do verbo _Laudo_,
especialmente no imperativo _laudandum_.

Por conseguinte, as pequenas no tiveram de responder como causas
involuntarias daquelle sinistro, e continuaram no gso da sua
felicidade.

O arcediago, supposto no vivesse com ellas, almoava, e jantava com sua
filha, ceava com uma senhora viuva que lhe administrava a casa; e,
depois de ceia...

Depois de ceia, ha muita cousa a dizer a este respeito.

 sabido que Rosa Guilhermina era filha de uma tal Anna do Carmo, velha
predileco do padre Leonardo, e por elle dotada para o honesto fim de
casar-se com um tal francez, com loja de livros na rua das Flores.

O padre no andou com toda a generosidade n'este negocio. Dado o
dinheiro, se quizesse ser honrado, devia renunciar inteiramente, a
beneficio do livreiro, a mulher de que se descartra. Maga-nos, porm,
ter de annunciar que o arcediago era um agiota no seu genero, e pensamos
que a senhora Anna do Carmo no era mau genero para agiotagem.

A verdade  que o pae de Rosa continuava a visitar de dia o
estabelecimento do livreiro, comprava algum livro que ajuntava, na
estante, aos seus virgens irmos, e predispunha favoravelmente com as
visitas diurnas a confiana do marido, que tinha lido Molire, e no
queria incorrer no defeito do _Cocu imaginaire_, que o leitor pde lr,
se a consciencia o no incommda.

A honesta esposa repellia as seduces do padre, esquivando-se a
encontros em que o usurario amante parecia convidal-a a pagar-lhe um
juro avaro do capital recebido. Dissertava-lhe amplamente sobre a
verdadeira virtude, pintava-lhe a ingratido o mais feio dos crimes,
dissuadia-a de temores piegas que no tinham nada com a verdadeira
religio, e queria convencel-a de peneira nos olhos a respeito do
matrimonio e de muitas outras cousas.

O francez no sabia que fra elle o amante de sua mulher.

Movido pelo interesse que as frequentes visitas do amador dos bons
livros lhe dava,--e, de mais a mais, convencido da honestidade de sua
mulher, se o padre, feio e velho, tentasse seduzil-a,--o senhor Hemerin
Pierrote (Deus lhe falle n'alma) acolheu agradavelmente o seu bom amigo,
e honrou-se muito, no s das suas visitas, mas do interesse que o
generoso padre tomava em ser o padrinho do primeiro filho de to feliz
matrimonio.

Madama Anna Pierrote recebia com repugnancia as pontuaes visitas do
arcediago, e esta repugnancia, que seu marido lhe censurava como
inconveniente aos interesses de ambos, era uma nova razo para que o
espirito do francez estivesse tranquillo, e as suas portas sempre
francas para o generoso compadre.

Este parentesco fra contrahido muito contra vontade da senhora Anna.
Seu marido, porm que recebera de antemo o enxoval do recem-nascido,
perguntou cheio de clera a sua mulher, se queria algum _garon de bone
mine_ (rapaz esbelto) para compadre. Accrescentou que, se ella fosse
fina, devia ameigar constantemente o arcediago, que era rico, e poderia
fazer o afilhado seu herdeiro. Resumiu, emfim, o seu discurso,
declarando, pelo _sacre nom de Dieu_, que o arcediago de Barroso seria
seu compadre, e mandaria n'aquella casa como na sua.

A senhora Anna, coma boa esposa, resignou-se; padre Leonardo, como bom
compadre, vinha duas vezes ao dia fazer caretas e botar a lingua de
fra, com o pequeno nos braos; e o risonho marido, como habil e
francezissimo logrador, deixava o padre em cima ensinando a creana a
dizer pap, e vinha para a loja fazer negocio e trautear a
_Marseillese_.

A creancinha, habituada com o arcediago, apenas o via, estrebuxava no
collo da me, batendo as palmas, e articulando--_pap_, _pap_. O
livreiro ria-se muito contente da esperteza do pequeno, e ensinava-o a
dizer _padrinho_; e a creana, que no sabia ainda ajuntar tres
syllabas, teimava em dizer _pap_.

Mr. Hemerin estava contentissimo do filho, e da mulher tambem, porque a
repugnancia em receber o arcediago desapparecera desde certo tempo, e
sua mulher, emfim, sabia viver perfeitamente com o compadre, e j se lhe
no dava de jogar com elle a _bisca de nove_, e o _trinta-e-um_.

Correram dois annos n'esta perfeita harmonia. Os visinhos riam-se do
francez, mas a razo do riso devia ser elle o ultimo que a soubesse.

Eram notorios, na rua das Flores, os precedentes de Anna do Carmo; os
maledicentes sabiam que ella fra amante do arcediago; o livreiro
visinho contava aos seus freguezes a immoralidade do jacobino (que
vendia melhores obras, e sortira a sua loja de tudo que se procurava) e
lamentava a queda da religio, se o senhor bispo no pozesse cbro
quelle grande escandalo.

O demonio da intriga viera perturbar a felicidade domestica d'aquella
familia.

O pequeno Leonardo, j de dous annos, continuava a chamar pap ao padre,
com grande aprazimento do pae matrimonial. A senhora Anna mostrava a seu
marido as prendas que o compadre lhe dava. O marido mostrava a sua
mulher o crte de velludo vermelho que o compadre lhe dra. Tudo isto ia
_le mieux qui se peut_, como dizia o jubiloso livreiro, quando, abrindo
de manh a porta, encontrou uma carta em que um seu _amigo intimo_, como
todos os amigos das cartas anonymas, lhe dizia o que se passava em sua
casa, as antigas relaes de sua mulher com o padre, e o descredito
geral em que a sua honra andava nas praas publicas. Como seu _amigo
intimo_, e zeloso do seu bom nome, aconselhava o generoso espio que
pozesse o padre fra de casa, e que mettesse a mulher no Ferro, para
assim dar uma plena satisfao ao publico escandalisado.

O discreto marido leu a carta, e vendeu com a maior presena de espirito
um _Flos-Sanctorum_ a um padre da aldeia, que se apera d'uma goa, no
momento em que a porta se abrira.

--Estas obras de sanctidade--disse o padre--creio eu que se vendem
pouco... A religio est por terra... J l vai o tempo em que os frades
escreviam obras de substancia... Os de hoje criam muito cachao, e os
seculares so uns libertinos, que o mais que fazem  apanhar as
prebendas, os canonicatos, e os beneficios para viverem  regalada. O
exemplo devemol-o dar ns, como diz o apostolo: _Ante eas vadit, et oves
eum secuntur_... J l vai esse tempo. Os bons padres, e que sabem do
seu officio, vivem obscuros na aldeia, e ninguem os chama para as
dignidades da igreja; os que arruinam com a sua m vida e mau exemplo o
edificio da religio, a casa de Deus, _des Domini_, esses so chamados
a lamber as chagas do corpo putrido da humanidade; _canes veniebant, et
lingebant ulcera_, como diz S. Lucas no capitulo XVI.

--Ento o senhor padre veio requerer algum beneficio, que lhe no deram?

--Vim, sim, senhor, vim pedir ao senhor bispo uma igreja apresentada
pela Mitra, e estou aqui ha um mez a gastar n'uma estalagem, e vou-me
embora sem ella. O bispo ... o que Deus sabe... Dizem que  um sancto,
mas barata virtude  a sua... Quando o rebanho anda tresviado, o pastor
no  l grande cousa, como diz o livro sancto: _Nam quod ab ovibus
erratur, negligentie pastoris adscribitur_.

--Quer o senhor padre uma cousa?

--Nada, no, senhor, no quero mais livro nenhum; precisava d'este para
tirar uma duvida sobre se o apostolo Sant'Thiago veio ou no a Portugal,
e se S. Martinho de Dume foi arcebispo primaz...

--Eu no lhe perguntei se queria mais livros; disse-lhe que me lembrava
um meio de v. s....

--Alto l! Nada de _vossa senhoria_... Eu no sou d'esses modernos, que
se esquecem da humildade do divino Mestre, e querem as honras que, ha
trezentos annos, se davam ao rei... Trate-me por vmc.e

--Pois bem; se vmc.e quizesse, eu poderia arranjar-lhe um bom empenho
para o bispo.

--Sim? ento quem  elle?

--Isso agora  um segredo... Veja l vmc.e quanto d...

--Quanto dou? isso  symonia, reprovada e condemnada com graves penas
pelo concilio tridentino. Se eu quizesse servir-me d'esse infernal
recurso, bem sei a que porta devia bater. Conheo como as minhas mos um
vendilho d'esses favores, que no tem vergonha nem temor de Deus, e ha
muitos annos que trafica descaradamente com os objectos sagrados da
sancta religio de Nosso Senhor Jesus Christo.  um symoniaco, um
libertino, indigno de se sentar no cabido...

--Quem  elle?

--Quem ha de ser?  o arcediago de Barroso, um homem sem religio, de
pessimos costumes, que tem vivido amancebado toda a sua vida, e que, de
mais a mais, tem o desaforo de casar uma das suas concubinas ahi no sei
com quem, e disseram-me que continua a viver adulterinamente com ella...
Fra o adultero! No lhe faltava seno esta!...

--E vmc.e conhece-o?

--Conheo muito bem, oxal que no. Fomos companheiros no seminario, e
j l prophetisei a rlha, que viria a ser o senhor Leonardo Taveira...
Depois, via-o pelo Porto, e fui jantar a casa d'elle, e sahi
escandalisado porque teve o desavergonhamento de sentar comnosco  mesa
uma rapariga que tinha em casa...

--Sabe como ella se chamava?

--Sei, sim, senhor. Chamava-se Anna do Carmo...

--Anna do Carmo!...

--Vmc.e espanta-se?  o que eu lhe digo...

--Que figura tinha ella?

--Era uma mocetona tirada das canellas, branca, cheia do peito, com os
olhos mesmo concupiscentes como os do proprio demonio, e fallava sem
vergonha diante de mim.

--E sabe se foi essa a que elle casou?

--Dizem-me que sim, at o homem  estrangeiro, por signal, e tem no
sei que officio. Se vmc.e quizer, eu volto c qualquer dia, e posso
saber-lhe tudo isso a preceito.

--Muito obrigado... eu no tenho interesse n'isso...

--Pois  como . A religio est entregue a estes ministros. O arcediago
de Barroso tem muito dinheiro em casa d'um negociante da rua das Flores,
mas esse dinheiro  o preo por que elle comprou o inferno... ganhou-o
nas symonias... L est em cima quem o ha de julgar... E, com isto,
adeusinho at outra vez. Fique na graa de Maria Sanctissima, e passe
por c muito bem at outra occasio, se Deus nos dr vida. Adeusinho,
sem mais.

O padre abria o alforge para metter o _Flos-Sanctorum_, quando o
arcediago lhe dava uma palmada no hombro.

--Tu por aqui, padre Joo Pires?

-- verdade... Ento que  feito, Leonardo?

--Vamos vivendo... J te no vejo ha muito!...

--No ha dinheiro para vir  cidade... Os padres de _requiem_ no comem
do cabido... L nas aldeias o mais que se pilha  a missinha de tosto,
que no d para hostias. Isto c  outra cousa. Os padres do Porto so
cardeaes, menos na sabedoria, que no mais tem tudo...

--No  tanto assim, padre Joo... Deus sabe como cada qual se arranja.
Ento vieste comprar o teu livrinho?

-- verdade; comprei o _Flos-Sanctorum_, e sabe Deus o que me tem
custado a arranjar os tres mil e duzentos.

--Se queres mais algum, e no tens dinheiro, eu fico por ti, e tu
pagars depois ao senhor Hemerin, que me faz o favor de ser meu amigo.

O arcediago piscou o lho para o livreiro, que estava encostado ao
mostrador, e o livreiro, sorriu-se d'um modo que era novo para o
arcediago.

--Nada, muito obrigado--disse o padre Joo Pires--eu no gosto de fazer
dividas, porque no tenho esperanas de ser conego para pagal-as
depois... Com que sim, meu caro Leonardo... Os bons tempos que ns
passamos no seminario... lembras-te?

--Se lembro!...

--Eras um bom tratante!... fugias de noite, e vinhas de madrugada
pedir-me que te ensinasse o Larraga... Boas as fizeste!... Que  feito
d'aquella rapariga do vendeiro de Campanh que tu tiraste de casa?

--No fallemos n'isso... Como tu te lembras d'essas rapaziadas... Esse
tempo passou...

--Pois era uma rapariga perfeita!

--E aquell'outra das Fontainhas, que tinha um pae levadinho da breca,
que te fez fugir em camisa para o seminario?

--Cala-te l com essas cousas, Joo!... Isso foram bambochatas de
estudante...

--Est feito, est feito... Tu tens pago um bom tributo  mocidade... J
tu eras padre ha muitos annos, e ainda fazias das tuas de estudante...

--Olha l, meu caro Joo, se quizeres alguma cousa de mim...

--Obrigado... Eu gosto de fallar nos tempos da mocidade...

--Pois sim; mas eu tenho de estar nos Congregados s oito horas...
Estimarei que passes muito bem.

--Olha c, padre Leonardo... ha ahi um sugeito que te quer fallar a
respeito d'uma dispensa para casamento entre primos em segundo grau. O
pretendente d boas luvas a quem lh'a arranjar depressa...

--Sim!... pois eu conheo um banqueiro, que vence todas as
difficuldades; mas... aqui entre ns...  preciso untar-lhe as unhas...

--Ah! magano!... o banqueiro s tu em carne e osso!...

--No sou, Joo. Acredita que no sou...

--_In verbo sacerdotis!_

--_In verbo sacerdotis_... N'essas materias melindrosas no escrupulisa
a minha consciencia. Terei algumas fraquezas, de que me accuse, do tempo
de rapaz, mas em cousas de religio o caso  muito srio.

--Com que tu tens muitos escrupulos das tuas rapaziadas, heim?

--Alguns; mas em certas idades tudo se desculpa, e Deus bem sabe que a
razo no tem a fora necessaria para conter os impetos d'aquelle
novissimo do homem...

--Que no  do mundo, nem do diabo! Ora pois, Deus te conserve no sancto
arrependimento...

--Ento quem  o pretendente da dispensa?...

--Isso fallaremos outra vez... Ora olha, meu querido Leonardo, no sei
se sabes que tenho c na S requerimento para uma igreja.

--Nada, no sei.

--Poders fazer com que o senhor bispo me despache?

--Homem, isso  um caso difficil... Se queres que te falle a verdade, no
pao tudo se move por dinheiro...

--E tu ds  manivella nas rodas da machina, no  assim, meu Leonardo?

--Ests a rir, Joo...

--Pois eu podra chorar!... Tudo isto leva-se a rir, seno endoudecia a
gente... Ora anda l que tu no deves s ter escrupulos das tuas
rapaziadas... A proposito de rapaziadas, que  feito da Anna do Carmo?

--Da...?

--Sim... da Anna do Carmo... aquella mocetona que morava comtigo na rua
Direita, aqui ha dez annos...

--No sei... no me recordo... no sei de quem me fallas... adeus... at
outro dia...

--Espera homem--disse o padre inexoravel ao confuso arcediago que suava
em janeiro como o seu amigo Silva no mez de agosto, por vr alli to
perto o francez, que no perdia uma palavra do dialogo.--Espera... no
te confundas, que eu no quero confundir-te. Isto  conversar como
amigos... Eu j sabia que foste honrado com a rapariga, e que a casaste
com um bom dote... Uma fraqueza no desacredita ninguem... David tambem
peccou, e S. Pedro negou o mestre.

--Dizes bem, Joo, adeus, at outra vez...

--Ento... at outra vez.

Padre Joo no comprehendeu a afflico do arcediago. A ultima despedida
disse-lh'a, quando elle de repente lhe voltou as costas, por no poder
conservar-se com a cara voltada para o francez que lhe no desviava os
olhos d'ella.

J escanchado commodamente sobre o albardo da goa somnambula, o antigo
conhecido de Anna do Carmo, voltando-se para o livreiro, disse,
sorrindo:

--V que tal  o amigo? Olhe como elle se atrapalhou quando eu lhe
fallei na moa...! reparou?

--Reparei... reparei...

--O que ella merecia  que o marido d'ella lhe quebrasse o espinhao com
uma tranca... Mas os maridos s vezes, so to bons como ellas...
Adeusinho...

--Passe muito bem.

Mr. Hemerin leu, segunda vez, a carta anonyma, e sahiu.

Esperem asneira. Quando mal nos percatamos, temos pela pra um marido
brioso!

Safa!...

_Rara avis in terris_...




CAPITULO IX


O arcediago, quando fugiu bruscamente s impertinencias vingativas do
padre Joo Pires, ia perdido, e no atinava com o refugio mais azado no
embarao em que se via.

Na rua das Hortas, quando voltava do campo de Sancto Ovidio, at onde
fra machinalmente, encontrou o marido de Anna do Carmo, que o
comprimentou com a graa costumada, e nem de leve lhe tocou nas
escandalosas revelaes do profundo investigador de Sant'Thiago, e S.
Martinho de Dume.

Padre Leonardo, admirado da singeleza do francez, entendeu que as cousas
estavam no p em que as deixra na vespera, e tranquillisou o tumulto de
vergonhas e receios que lhe traziam o corao em dolorosas piruetas.

Convencido do inesperado quo feliz resultado da extravagante scena,
veio  rua das Flores, e encontrou Anna do Carmo, ao mostrador,
espantada de que seu marido sahisse sem dar parte, nem chamal-a a ella
para a loja.

Isto fez impresso no arcediago, que teve a prudencia de calar  me dos
seus filhos o desgraado encontro com o amaldioado padre de
Ponte-Ferreira.

Todavia, a sahida rapida do francez alguma cousa queria dizer. O atilado
arcediago reflectiu no que poderia resultar d'alli; lembrou-se, um
momento, que a sua organisao physica poderia soffrer algum abalo menos
agradavel, e, finalmente, appellando para o futuro com a intrepidez de
philosopho, esperou as consequencias.

Acabava o velho amigo de padre Joo Pires de fazer os seus juizos,
quando o livreiro entrou com a mesma affabilidade, com o inalteravel
sorriso d'um esposo feliz.

--Sahiste sem dizer nada?!--disse a senhora Anna.

--Foi-me necessario sahir com tal precipitao, que nem me lembrou
chamar-te.

--Pois que foi, Hemerin?

--Que havia de ser? Um engano... Vieram-me aqui dizer que o regedor das
justias me queria mandar prender, porque eu vendia clandestinamente na
minha loja livros protestantes, e folhetos escriptos contra a religio.
Corri immediatamente a casa do regedor, e tive a fortuna de encontrar,
quando l cheguei, o desmentido da calumnia que forjaram contra mim os
meus inimigos.

--Inda bem!...--disse a mulher.

--E se no acontecesse assim--accrescentou o arcediago com o
contentamento da boa f--eu ainda tenho amigos para desmanchar as
traies dos seus inimigos.

--Muito obrigado, senhor compadre. Tudo est arranjado, d'esta vez. Se
elles continuarem, v. s. ser o nosso protector, como tem sido sempre.

O arcediago almoou com elles, e no podia deixar de felicitar-se por
ter casado a me de Rosa com to boa pessoa, alma to singela, e genio
to estimavel a todos os respeitos. Fez muitas festas  creancinha, que
dava biscoutos ao livreiro para que os dsse ao _pap_, o que o
livreiro, com paternal meiguice, cumpria, rindo-se muito da galanteria
do pequeno.

Correu o dia regularmente. O arcediago despediu-se  meia noite,
promettendo na noite seguinte pagar quatro partidas de bisca, que
perdera jogando com a senhora Anna, emquanto seu marido sahira a
encommendar de Paris a nova edio de Bossuet e Bourdaloue.

Na madrugada do seguinte dia, Hemerin levantou-se mais cedo que o
costume, e disse a sua mulher que lhe dsse a chave da commoda em que
estava a sua roupa branca.

Anna quiz erguer-se para dar uma camisa a seu marido, e elle mandou-a
ficar. A mulher instou, e o francez intimou-a imperiosamente que no
sahisse.

Momentos depois, a me de Rosa sentiu fechar-se por fra a porta da rua!
Ergueu-se, foi  commoda, e achou-a vasia da roupa de seu marido. Desceu
 loja, tudo estava fechado. Tornou ao seu quarto e viu um bilhete sobre
o lavatorio, com estas poucas palavras: _s uma boa mulher, mas no me
serves. Eu no sou mau homem, mas no te sirvo. Sejamos francos, e bons
amigos. Tu ficas, e eu vou. Regala-te com o padre, e faz-lhe visitas
minhas. Se me quizeres alguma cousa e elle tambem, escrevam-me para
Paris. Adeus._

A senhora Anna do Carmo ficou aturdida. Queria fazer alguma cousa
n'aquelle conflicto; mas que poderia ella fazer? A porta da rua, de mais
a mais, estava fechada! Se o arcediago viesse... mas o arcediago no
vinha antes das oito horas! Se arrombava as portas, o barulho dava que
fallar aos visinhos, e o escandalo era certo! Mas, se o escandalo era
certo, inevitavel, a pobre mulher lembrou-se de arrombar a porta, e
procurar seu marido; mas aonde?

N'esta irresoluo, a senhora Anna ouviu as oito horas. Correu 
janella, e viu  sua porta alguns homens, um dos quaes abria a porta.
Desceu abaixo, e perguntou quem eram:

--Sou um escrivo, com os meus meirinhos.

--Que querem?

--Fazer penhora nos objectos contedos n'esta casa.

--Devo alguma cousa a alguem?

--Deve.

--O qu?

--O contedo n'esta petio, a que est junto um titulo de divida
authentico, assignado por seu marido o senhor Hemerin Pierrote.

--Mas eu no assignei.

--Vmc.e sabe escrever?

--No, senhor.

--Por isso mesmo  que no assignou. Seu marido assignou por ambos.

--Isso  uma ladroeira! Eu grito aqui d'elrei, se me levam alguma cousa
de minha casa.

--Pois grite, que arranja com isso a ser levada tambem.

--Para onde?

--Para a cadeia, ou para o hospital de S. Jos.

--Que  dos louvados, senhor meirinho geral?

--Esto aqui os ensambladores.

--Pois que subam a avaliar os moveis, e chame ahi dois livreiros para
louvarem os livros.

-- um roubo que me fazem!--exclamou Anna, collocando-se adiante dos
livreiros, que vieram d'um pulo.

--Retire-se, mulher, se no mando autual-a!

--Mas quero saber a quem  que devo...

--Ao vice-consul da Frana.

--Eu no conheo esse homem.

--Tambem no  preciso, nem deve ter muita pena d'isso.  um homem como
os outros, pouco mais ou menos.

Entrava o arcediago com os olhos espantados, e o queixo pvidamente
descahido.

--Senhor compadre!--exclamou Anna--querem-me roubar!...

--Roubar!... Como se entende isto?!

--Deixe-a fallar--disse o escrivo.-- um mandado de penhora.

-- ordem de quem?

--Do juiz de fra.

--Mas quem  o credor?

--Senhor arcediago, no nos importune com as suas perguntas. V l
sabel-o, se quizer. Ns cumprimos a lei, e no temos obrigao de dar
explicaes a quantos passarem na rua.

--Onde est seu marido?--perguntou o padre.

--No sei... Olhe aqui.

A senhora Anna chamou-o de parte, e contou-lhe o succedido. O arcediago
ficou tranzido.

--Que hei de eu fazer, Leonardo? No me dirs?

--Pe a tua mantilha, pega no pequeno, e vai com a criada para minha
casa.

--E os meus arranjos?...

--Que arranjos?

--Os meus vestidos?

--Deixa os vestidos... Faz o que te digo. No te afflijas... Has de ter
sempre que comer. Nem mais uma palavra, que no quero escandalos.

Anna do Carmo sahiu com a criada e o pequeno, que grunhia por ter sido
tirado a dormir do bero. O escrivo achou-se ssinho com os aguazis e
louvados. A livraria foi logo comprada pelo livreiro da loja visinha. Os
moveis arrematados, e ficou o escrivo com elles. As roupas comprou-as
uma adeleira. E a chave da casa foi entregue ao senhorio. Foi um dia
cheio para os visinhos!

A vingana do francez fra uma vingana franceza; mas, de parte a parte,
concordemos em que a honra orava os mesmos quilates. Parece que eram
dignos um do outro, e o arcediago digno de ambos, como vai vr-se.

A me de Rosa vivia com o arcediago; mas to cauta e escondida que se
no deixava vr. Era um cuidado inutil; porque ninguem duvidava que os
braos do padre eram o refugio nato da esposa abandonada.

A immoralidade chegra aos ouvidos do bispo, que empregou os meios
brandos para chamar ao caminho da bem-aventurana aquelle Lovelace de
mura e meias vermelhas. O arcediago defendia-se como podia, e citava os
seus traioeiros denunciantes para que lhe provassem a calumnia infame.
Se fosse hoje, o senhor padre Leonardo Taveira teria escripto quatro
correspondencias para os periodicos, em que provocaria os maledicentes a
tirarem a mascara, ou serem convencidos de infamadores da honra alheia,
e vis calumniadores, como  do estylo.

N'aquelle tempo, porm, o infamado no tinha o respiradouro da gazeta, e
no podia andar de casa em casa apregoando a sua innocencia. Razo
porque a detraco se incorporava pouco e pouco, at ser recebida como
facto consummado.

Os conegos, que no eram mais virtuosos que elle, mostravam-se
escandalisados das torpezas do seu collega, e queriam que o prelado os
desultrajasse do odioso que reflectia na corporao. O bispo via-se
entalado entre certos compromissos que o prendiam ao arcediago, e as
instancias reiteradas do chantre, e do deo, que eram mais discretos nas
suas torpezas, porque nunca tinham cahido na immoralidade de dotar as
mes dos seus filhos para casarem.

A indignao pblica urrou no pao episcopal; e o principe da igreja
receou que a mitra lhe cahisse com deshonra da cabea, e metteu o
arcediago em processo.

Estas deploraveis scenas passavam-se, mezes depois que Rosa Guilhermina
e a sua amiga vieram de Ramalde para o Porto. Rosa observava a
inquietao de seu pae nas poucas horas que se demorava em casa.
Interrogaram-no ambas muitas vezes, e no poderam saber nunca a
afflico que o atormentava.

O processo corria, quando o bispo deu uma audiencia secreta ao
arcediago. O fim d'essa prtica d'amigo, e no de juiz, era
aconselhal-o, que fugisse immediatamente de Portugal, e que esperasse l
fra que a borrasca serenasse, e depois viria.

O arcediago annuiu.

Com as lagrimas nos olhos, e sua filha nos braos, revelou-lhe que uma
grande desgraa o obrigava a sahir da patria. Mandou-a entrar outra vez
no recolhimento. Estabeleceu uma penso a Maria Elisa. Deixou outra a
Anna do Carmo, e partiu para Hespanha com todos os seus cabedaes,
excepto as quantias que o honrado negociante Antonio Jos da Silva
mensalmente devia repartir pelas tres, se eram s tres as pensionadas da
illustre victima de padre Joo Pires.

Anna do Carmo sabia que sua filha existia no convento; mas, por ordem
expressa do pae, no a procurava. Vivia com honra, e recebia
pontualmente a sua mesada.

Rosa ignorava a existencia de sua me, tinha de longe a longe saudades
do pae; mas isso no era forte razo para que deixasse de comprar a
melhor edio do Cavalheiro de Faubls, que traduzia perfeitamente com a
sua amiga, graas aos cuidados do pae em mandal-a aprender o francez
durante um anno que esteve na casa do Laranjal.

Mr. Hemerin vivia em Paris, e vivia perfeitamente da quantia que lhe
fora dada com a condio de cohonestar as relaes da mulher com o
padre: misso alis christ que o maldito no quiz desempenhar
christmente, e encarou com a melhor philosophia do mundo.

O arcediago vivia em Madrid, e gastava o seu tempo n'um convento de
Therezinhas, onde lhe no faltavam delicias para o espirito, e parece
que as melhores esperanas para tudo que os philosophos teimam em dizer
que no  espirito.

Padre Joo Pires, esse, contentissimo de ter resolvido o problema de
Sant'Thiago, veio um dia procurar o livreiro para comprar-lhe--_El sabio
instruido de la naturaleza_,--e soube, no livreiro visinho, a
catastrophe do arcediago.

Citou quatro textos em latim cerca da obscenidade, disse tudo o que
sabia a tal respeito, confirmou minuciosamente todos os escandalos da
vida de padre Leonardo, e foi dizer missa  Misericordia, e ouvir de
confisso a senhora Angelica, que, por um triz, ia ficando sem
absolvio, por ter murmurado da senhora Anna Canastreira, e da mulher
do Joo Pereira, do chin.

O senhor Antonio Jos da Silva, recobrado dos dissabores por que
passra, restaurava as banhas perdidas do seu lustroso cachao, e
continuava a suar copiosamente.

E o senhor Joo Retrozeiro, finalmente, lia com o maior prazer a sua
mulher as cartas de seu filho Jos Bento, que estava no Rio de Janeiro
ganhando duzentos mil reis como segundo caixeiro de um armazem de
molhados, onde o no foravam a conjugar o atrocissimo verbo _laudo_.




CAPITULO X


Corria tudo fastidiosamente regular e montono, menos para o espirito
das duas amigas, que progrediam d'um modo admiravel na sciencia das
cousas, e na theoria do mundo estudada nos livros. Todas as suas
economias de tempo e dinheiro, que lhe sobejavam  farta, empregavam-nas
em novellas francezas, que uma criada, das que serviam c fra, lhes
introduzia no recolhimento, com pequena commisso.

Maria Elisa se dissermos que era uma litterata, no nos fica o remorso
de ter mentido. A prova de que o era d-se com bem pouco: basta dizer
que duvidava da efficacia da reza, e dos preceitos mais fundamentaes da
sua religio da infancia. Fallava na religio natural, e sabia de cr a
_Voz da Razo_, e a _Pavorosa illuso da Eternidade_.

Rosa Guilhermina era litterata metade e mais um tero. No acreditava na
reza, nem nos sanctos da regente: mas tinha f na existencia de Deus!
No era consummada como a sua amiga, que punha todo o desvelo em
instruil-a e aperfeioal-a.

Era corrido um anno. As meninas entravam nos dezesete, e j no eram as
creanas zombeteiras que traquinavam na crca, e irritavam as velhas da
casa com travessuras.

Convencidas de que eram senhoras, revestiram-se da dignidade propria,
deram-se um ar de pensadoras, mediam as suas palavras sentenciosas,
olhavam com desdenhosa insolencia a ignorancia das companheiras,
desdenhavam o beaterio de muitas que lhes no mereciam o favor das suas
reflexes, e, com algumas, dignaram-se descer at lhes confiarem o
segredo da philosophia, o dogma sublime da razo. Se quereis em duas
palavras comprehender a illustrada extravagancia das duas meninas, sabei
que o seu quarto era intitulado por ellas: _hotel de Rembouillet_.[1]

D. Rosa recebia regularmente extremosas cartas de seu pae, que no tinha
expresses com que podsse encarecer o talento de sua filha, manifestado
nas apparatosas cartas, que lhe enviava.

A ultima, que elle lhe escrevera de Madrid, annunciava a sua proxima
vinda para Portugal. Bem informado, o arcediago sabia que as linguas
mordentes dos seus inimigos estavam cansadas, e que o processo, ao cabo
d'um anno, estava esquecido.

Depois da carta, que promettia a sua vinda, que devia abrir outra vez as
portas da clausura s litteratas, as anciosas meninas receberam outra em
que o padre lhes dizia que, em determinado dia, viria abraal-as, e que
fossem dispondo a sua immediata sahida para Lisboa, onde elle tencionava
estabelecer casa.

De igual theor recebeu a me de Rosa a fausta noticia, e cada qual no
tinha socego em preparar as suas cousas de modo que se no fizessem
esperar.

Era chegado o festivo dia. D. Rosa com a sua amiga, para no perderem
tempo, j tinham feito as suas despedidas; Anna do Carmo tinha fra dos
bahs o indispensavel para as poucas horas de existencia no Porto; umas
e outras no sahiam da portaria ou da janella para felicitarem o amante
e o pae e o carinhoso protector, quando o senhor Antonio Jos da Silva
rolou a sua rotunda personagem no pateo do recolhimento.

Rosa, ao vl-o pelo raro, recuou assustada da inesperada visita. O
negociante perguntou pela filha do arcediago de Barroso, e a porteira,
industriada pela menina, perguntou-lhe se o senhor arcediago tinha
vindo.

--O senhor arcediago--respondeu o negociante com a commoo de que era
susceptivel--o senhor arcediago... est na presena de Deus...

--Morreu?!--exclamaram as meninas.

-- verdade... Faz favor de me chamar a menina.

--Estou aqui, senhor Silva... Pois  verdade que morreu meu pae?

--Desgraadamente... Acabo de receber um portador de Madrid... As suas
ultimas palavras, foram estas: Eu morro... vo dizel-o  rua das
Flores, no Porto, a um negociante chamado Antonio Jos da Silva. Morreu
de uma apoplexia... Deus tenha a sua alma na bemaventurana...

--Isso  impossivel!...--atalhou Rosa, soluando e chorando.

--Pois  to certo como estarmos aqui, senhora D. Rosa... O peor  que o
grosso dinheiro que seu pae levou, sabe Deus porque mos andar a estas
horas!...

--E eu fiquei pobre, no  assim?--atalhou a litterata, que considerava
a riqueza como o primeiro dogma dos sublimes dogmas da razo.

--Pobre... no, senhora--respondeu o negociante, enxugando uma lagrima
importuna.--A menina est perfilhada. Eu tenho a perfilhao em meu
poder. Ainda mesmo que no apparea o dinheiro, que elle levou, o seu
patrimonio vale bem quarenta a cincoenta mil cruzados.  a quinta de
Ramalde, so dous predios na cidade, e as pratas de seu pae, que esto
em minha casa, s essas valem bem seis mil cruzados, a olhos fechados. O
que  necessario  fazer-se um conselho de familia, e bom ser que a
menina sia do recolhimento para tomar conta da casa de seu pae.

Pergunta d'aqui, resposta d'acol, convieram em que a menina sahisse,
passados tres dias, durante os quaes recebeu visitas no seu quarto, e
chorou alguns instantes sinceramente.

Maria Elisa, como philosopha e boa amiga, animou-a a resignar-se,
convencendo-a de que a morte era a condio da vida, e que as lagrimas
no resuscitavam ninguem. Rosa conveio n'isso em nome da illustrao do
seu elevado espirito, e assentou em mostrar-se intrepida na dr.

Portador da infausta nova, o negociante foi dar o tremendo golpe na
pobre esposa sem marido, e na amante sem amparo, que devia sentil-o mais
profundo. Ahi, sim: havia uma verdadeira dr, a consciencia de
desamparo, a invalidez na quasi velhice sem refugio. Restava-lhe uma
esperana: era sua filha; mas essa filha no lhe bebera o leite, no lhe
sentira os beijos, no lhe vira as lagrimas, nunca lhe chamra me.

Por encurtar razes, o franco negociante foi-lhe dizendo que em seu
poder no estava dinheiro algum, e que tractasse ella de procurar o
amparo de sua filha que era a herdeira do arcediago.

Ao quarto dia, D. Rosa Guilhermina com a sua amiga occupavam a casa do
Laranjal, tomavam as antigas criadas, e consultavam-se no que deviam
fazer, ou se acceitariam as condies que algum impertinente tutor lhes
impozesse.

--Eu no posso dizer nada em tal assumpto--respondeu Elisa.--Sou
absolutamente estranha n'este objecto; no obstante, como tua amiga
intima, entendo que no deves sujeitar o teu corao s barbaras leis
d'algum barbaro tutor.

J vem como era o estylo de Elisa; agora admirem o de Rosa:

--Dizes bem, minha terna amiga. Se a parca me roubou o pae, no serei
ludibrio da morte, porque vivo ainda. No quero mais recluso, nem o
convento para mim foi feito. Quero a liberdade, porque o meu corao 
livre. Eu e tu temos bastante philosophia para nos sabermos guiar na
estrada tortuosa do mundo. Conhecemos a sociedade pela leitura;
saberemos evitar os abysmos, renderemos os nossos coraes aos ardentes
votos d'algum amor digno de ns, e viveremos juntas pelo espirito, assim
como temos vivido pela intelligencia.

Fallou bem. Tudo, que dissesse depois disto, seria uma redundancia. No
ha nada a desejar aqui. Optima resoluo, exemplar programma, e
invejavel talento!

Nomeado conselho de familia, a orph foi consultada pelo tutor, homem
probo, escolhido pelo senhor Silva. A menina espivitada respondeu em
alto estylo, e o tutor retirou-se maravilhado da pupilla, e disse em
plena reunio dos membros do conselho de familia que ella era muito
_pronostica_, e que fallava com cabea. Os outros membros no duvidaram
acredital-o, e consentiram em que a menina fosse entregue dos seus
rendimentos, e vivesse fra do recolhimento.

Contentes da sua sorte, as duas litteratas, cada vez mais ricas de
sciencia, achavam j que o seu espirito no saboreava a simples nutrio
dos romances, e queriam mergulhar no oceano da sabedoria. Talhavam o seu
plano de instruco; lastimavam a soledade em que viviam duas almas
devorando-se no proprio fogo, e sentiam a falta de uma sociedade mais
ampla que as admirasse, ou de espiritos illustrados que as conduzissem 
luminosa regio das sciencias ignoradas ao seu desherdado sexo.

Tudo isto era muito bonito; a tal respeito diziam-se cousas admiraveis,
quando, no mais acalorado do projecto, D. Rosa Guilhermina Taveira
recebeu a seguinte carta:

     _Minha filha. Ignoras talvez que a morte de teu pae deixou n'este
     mundo uma mulher desvalida. Esta mulher  tua me, e ter
     brevemente necessidade d'um bocado de po. Quando esse momento
     vier, no o negues  infeliz Anna do Carmo, que ir mendigal-o 
     tua porta. Vivo na rua Direita n. 25._

Esta carta, lida em sobresalto, produziu em Rosa uma sensao
inqualificavel. Elisa, queria vr esta carta, e a sua amiga no lh'a
mostrava.

--Ser namoro?!--perguntou Elisa com azedume e admirao--Diz, Rosa! tu
no me respondes? Deixa-me vr essa mysteriosa carta!  epistola
amorosa?

--No, minha amiga...  uma carta, que no te mostro!... No devo
mostrar-t'a...

--Oh cos! que estranha carta  esta! No sou eu, por ventura, a tua
amiga, a confidente dos teus segredos?

--s... mas ha segredos que se no dizem...

--Pois bem: eu calarei a minha ancia, e no farei jmais de amiga para
todos os teus cuidados, Rosa.

O portador esperava a resposta.

A filha de Anna do Carmo sahiu de ao p da importuna confidente, tirou
da gaveta do seu tocador quatro cruzados novos, embrulhou-os em um
retalho de sda preta, entregou-os ao portador, sem lhe dizer palavra, e
rasgou a carta.

Quando voltou, chorava Elisa, em ar de arrufada amante. Rosa, mais
tranquilla, se era possivel uma consciencia boa, depois de to generosa
aco, serenou a susceptibilidade da sua melindrosa amiga com esta
revelao:

--Olha, querida amiga, faz comigo as pazes. Eu te digo o que se passa. A
carta, que recebi e devolvi pelo portador, era uma spplica de uma pobre
amante de meu pae, que me pedia uma esmola. Fez-me tanta pena, que me
vestiu de luto o corao! Como pensei que era aquelle um deshonroso
segredo para meu pae, nem dizer-t'o a ti, cara amiga, eu julguei que me
era nobre. Ora aqui tens...

--E mandaste-lhe o beneficio supplicado?

--Mandei...

--Fizeste bem... Pobre mulher, abandonada, no devia achar fechadas as
portas da alma que sahiu do peito amante. Perda a meu resentimento,
querida Rosinha...

E com estas e outras finezas passaram uma hora, ao fim da qual voltava o
portador, que levra o dinheiro, e entregava  senhora D. Rosa
Guilhermina outra carta, acompanhando os quatro cruzados novos. A carta
dizia assim:

     _Minha filha. A esmola  muito avultada para uma me. Quando eu
     tiver fome, irei pedir-te um bocadinho de po._

Rosa fez-se da cr do lacre, e fugiu de ao p da sua amiga.




CAPITULO XI


Anna do Carmo, quando pensava em escrever a sua filha, dizia-lhe o
corao que a no procurasse, porque seria recebida com m vontade.
Fallava-lhe assim o corao, porque n'aquelle peito no batia o corao
de me.

E no.

A amante do arcediago vira, sem lagrimas, levar aquella menina do seu
ventre para os braos mercenarios de uma ama de expostos. No estendeu
os seus, supplicando que lhe no roubassem a filha da sua alma, e da sua
deshonra. No pediu ao pae desnaturado que lh'a dsse em compensao da
renuncia, que ella fizera da sua dignidade. No saltou, esvada de
sangue, fra do leito, procurando resgatar a creancinha que deveria
dar-lhe em amor de filha o premio da sua ignominia de amante.

Viu-a ir impassivel! Nunca lhe deu que pensar o destino da creana.
Nunca sentiu o remorso do infanticidio. Nunca se lembrou que a
desgraada menina, que viu a chorar com frio e fome nas lages da rua,
poderia ser a sua filha.

Os annos correram. O arcediago lanou um olhar melanclico ao futuro.
Ambicionou uma herdeira, que fruisse o grosso cabedal que amontoava. E
lembrou-se de ter assignalado, cinco annos antes, aquella engeitada.

Procurou-a com zlo de pae; encontrou-a entre as meninas desamparadas,
pallida de fome, e vestida de farrapos, apresentou-a a sua me, e sua
me encarou-a serenamente, deu-lhe um beijo frio, e aconselhou o pae que
a mandasse para um collegio.

Quando o pae extremoso, cheio de saudades, mandava buscar sua filha de
seis annos, com os seus lindos cabellos louros, e os seus labios
radiosos de innocentes sorrisos de gratido, Anna do Carmo achava
enfadonhas as repetidas visitas, e zangava-se asperamente se a menina
batia com a faca no prato, ou pedia doces para dar s suas companheiras.

Espanta-vos esta dureza d'alma? Entrai na enfermaria das que vo ser
mes, debaixo das telhas da Misericordia. Reparai n'esta, que prepara
risonhamente o cueiro e a faxa que ha de levar seu filho ao monturo dos
filhos sem me. Olhai aquella que jura que o seu seio no tem nutrio
para que a no obriguem a crear o seu filho. Vde alm outra, que crava
as unhas no menino, que tem ao peito, para que os dolorosos vagidos da
creana accusem a fome, e a seccura d'aquelle seio, que tem dentro morto
o corao.

Diante d'este quadro hediondo, tenho duvidado do amor materno!
Compungido por esta verdade atroz, tenho collocado a hyena n'um grau de
sensibilidade superior  mulher! dizia-me um illustrado professor de
medicina[2], que me expunha estes lances com as lagrimas nos olhos.

No duvideis, pois, mes! Anna do Carmo chegaria sua filha ao seio; mas
aquelle sangue no se alvoroava nas arterias. Tocar-lhe-ia os labios
com os seus, mas aquelle beijo fra sempre a banal formalidade, que se
barateia por ahi em cada cara que vos sada.

Sobejavam-lhe razes para recear o desprso da filha. A dura experiencia
dissera-lhe que o castigo sobre a terra era infallivel.

Se aquella mulher tivesse sido a me d'aquella menina, sentiria um
estimulo superior impellindo-a para ella. Iria, coberta de farrapos,
lanar-se nos braos de sua filha, radiante de velludos e brilhantes.
Iria, sem pejo, na presena de todo o mundo abraar essa filha, com a
certeza de que Rosa exclamaria na presena de todo o mundo: Esta
desgraada mulher  minha me! Pediu que lhe escrevessem uma carta; mas
essas poucas palavras, que parecem o enigma d'uma grande dr, nem suas
eram. Foi uma cabea fria, e um corao estranho, que as dictou; porque,
na alma d'ella, estava a irresoluo gelada, o presagio do desprso, o
espinho da consciencia, precursor d'um grande castigo.

Quando recebeu, como resposta  sua carta, o silencio, e quatro cruzados
novos, Anna do Carmo sentiu-se assaltada pelo orgulho que no era
orgulho de me. Era um rancor, que reagia ao desprso, uma altivez que
caracterisa as almas pequenas, e no essa nobre independencia, que nos
manda atirar  cara do falso bemfeitor uma esmola, quando nos no 
delicadamente dada como quitao d'uma divida.

Foi ella quem repelliu a esmola; mas no foi ella quem redigiu o bilhete
que acompanhava a remessa. Por sua vontade, aquelle bilhete devia ser um
insulto e uma ameaa; mas a pessoa que o escrevera previu que a me de
Rosa seria brevemente uma mendiga, e precisaria de humilhar-se a
estranhos, por ter sido soberba com sua filha.

Rosa Guilhermina meditou aquelle bilhete, e sentiu em si uma
transformao repentina.

Ha pouco ainda, teve vergonha de declarar  sua amiga que sua me
existia, e vinha pedir-lhe uma esmola; e agora  ella que sente a dura
preciso de revelar a Elisa todo o seu segredo.

Elisa ouviu-a, e reprehendeu-a da inconfidencia, que a no lisongeava
nada. Depois, aconselhou-a que desse uma mesada a essa pobre mulher, se
a no queria receber em casa na qualidade de me.

Rosa optou pela mesada, e escreveu immediatamente uma carta a sua me
com a direco que lhe fra indicada. Esta carta chegou nos assomos
freneticos de Anna do Carmo. Sahiu com a carta para que lh'a lssem:
ouviu-a cada vez mais colerica, supposto que as phrases fossem brandas,
e carinhosas. A offerta da filha era mais uma boa mesada, que
permittisse a decencia de sua me. Anna tomou a carta com arremsso,
rasgou-a, e disse  portadora:

Diga a essa desavergonhada que no preciso de suas mesadas; e que, se
torna a mandar aqui alguem, que atiro pelas escadas abaixo quem c
vier... Pegue l... d-lhe a carta rasgada.

D. Rosa, quando ouviu similhante resposta, voltou-se para a sua amiga,
como quem pede um conselho:

--No tens mais passo algum a dar--disse Elisa.--Mulher que assim
responde no  tua me: isso  uma impostora! Faz de conta que este
incidente no veio perturbar a nossa felicidade... Ser tua me: mas s
te conhece agora, que s rica, e ella pobre. Tal mulher no  digna de
chamar-te filha!... Que lhe deves tu? O nascimento? Grande favor!... Se
teu pae no tivesse esta riqueza, que te deixou, o que serias tu? Uma
filha sem me, abandonada de todos, e despresivel aos olhos da propria
que te atirou ao mundo como quem atira ao cho as rosas murchas, que lhe
serviram de prazer e ornato!...

Quer fosse o estylo assoprado de Maria Elisa, quer fosse a negao
completa do corao de Rosa a essa estranha mulher, que lhe chamava
filha, o certo  que os escrupulos e temores desappareceram, e o
importuno successo no impressionou muitos dias o espirito da leviana
moa, que se demorava pouco nas mesquinharias d'este globo.

O rapido desvanecimento das ideias funebres do caso, deve-se  visita da
senhora Angelica que no veio mais cedo por ter estado s portas da
morte com um catarrho, que lhe cahira nos bofes, como ella se explicava
subindo as escadas.

--A snr. D. Angelica por aqui!--disse Rosa descendo a recebel-a.

--Deixemo-nos de _dom_. Cada qual  como cada um. Eu c sou filha de
negociante, e no quero essas trapalhadas da fidalguia. Ento, como
passa a minha menina?

--Muito boa, e a snr. Angelica doentinha, no  assim?

--Deus louvado, vou melhor dos bofes, mas, acho que tenho aqui no
costado, salvo tal logar, um lobinho, que hei de queimar com a massa.

Elisa tinha o leno na bca, para suffocar o riso.

--Ento, esta menina  que  a sua amiga?

--Tenho a gloria de merecer tal nome--respondeu Elisa.

--Por muitos annos e bons... Ento vmc.e de quem  filha, ainda que eu
seja confiada?

--Meus paes ceifou-os a dura fouce da parca.

--A Parca? no conheo essa senhora. Sua me chama-se a snr. Parca?

--No, senhora--atalhou Rosa, porque a sua amiga no podia responder,
suffocando com uma gargalhada.--A me d'esta menina, e tambem o pae,
morreram j.

--Ah! sim? pois Deus lhes falle n'alma, e elles a abenoem no co, que 
bem galantinha... Porque no vai ser freira, minha menina?

--As almas livres no querem ferros. Umas nascem para o culto dos
templos, outras vem o altar de Deus na natureza.

--Ella que diz?--perguntou a velha a Rosa.

--Diz que no nasceu para freira.

--No diga isso, menina, que  peccado. Todos nascemos para o servio de
Deus, e deve ir para carmelita, que  uma ordem muito apertada, e
ganha-se o co, com a pobreza, e a paciencia.

--O co ganha-se com os vos do espirito.

--Que ? os avs do esprito? No creia n'isso; nas carmelitas no ha
espritos ruins... Ri-se? ora queira Deus que no chore ainda... Quem lhe
disse que andavam espritos nas carmelitas? Olha as sanctinhas!
coitadas!...  cousa que no consta  esprito nas carmelitas...

--Isso creio eu; mas por isso mesmo  que a materia me no convida. O
grande espirito  Deus.

--Jesus! que heresia! A menina parece-me douda!...

--No , no, snr. Angelica...  porque ella falla sempre em alto
estylo...

--_Estylo!_... que  isso de estylo!...

--A sua linguagem  mais sublime que a costumada entre pessoas sem
luzes.

--Sem luzes!... Eu no vos entendo, raparigas! Vmc.es aprenderam o
latim?

--No, minha senhora--disse Elisa--a nossa lingua  portugueza, e as
nossas phrases tem o toque da superioridade, que nem todos os espiritos
alcanam!...

--E ella a dar-lhe com os espritos!... Parecem-me doudas! Quem vos
ensinou esse palavriado de latinorios e berliques-berloques que ninguem
entende?  isso o que vs aprendeis no recolhimento? Deixai-vos d'essas
tolices, e fallai como a outra gente da nossa laia.

--Da nossa?--disse Elisa--No lisongeia a miscellanea.

--Miscellanea!... quem  a miscellanea? Eu no a entendo!... Ella que
diz, Rosa?

--Diz que as pessoas instruidas...

--Pessoas estruidas, Deus nos livre d'ellas... Olha como ella se ri!...
Esta rapariga tem aduella de menos, no tem, Rosinha?

--Tem aduella de mais...  uma senhora muito esperta, sabe francez, e
faz poesias.

--Eu a arrenego! pois ella  como os homens, que vo alli berrar debaixo
das janellas das freiras, a botar versos para cima?

-- verdade... Eu fao versos; a musa favorece-me: o Pgaso va comigo 
apolinea fonte, e converso com os deuses na Castallia.

--Ella parece l d'esses reinos estrangeiros!--disse, torcendo o nariz,
a snr. Angelica.

--Sou lusitana, no nego a patria. Nasci nas margens do patrio Douro.

--Nasceu no Douro? Ento isso como foi? Sua me teve-a no rio? Vinha,
talvez no barco... pobre mulhersinha!... E ella a rir-se!... Ella no
est boa!...

--Desaperta-me, Rosa, que eu arrebento--exclamou, suffocada de riso,
Elisa.

--Eu no n'o disse? Eu logo vi que ella no estava boa!... Isto  cousa
m que se lhe metteu no corpo... Dizem que o demonio s vezes falla de
modo que s o entendem os padres. Quer a menina que eu v chamar-lhe um
fradinho de muita virtude, para lhe lr os inzorcismos?

--Minha alma detesta o frade.

-- frade de testa... e de cabea...  muito sabio... Eu vou buscal-o...

A snr. Angelica atirava com a cca da mantilha para a cabea, e
preparava-se para sahir em cata do frade, quando Rosa, perdida tambem
com riso, lhe acenou que no fosse.

A parvoice sinceramente estupenda estava pintada na indescriptivel
physionomia da velha.

--Sabeis que mais? no me entendo comvosco! No sei o que pareceis! Ou
vs estaes doudas, ou a graa de Deus vos desamparou!

--Venha c, snr. Angelica, fallemos srias... Eu sou sua amiga, e Maria
Elisa tambem o . Nenhuma de ns est vexada do espirito mau...  porque
vmc.e no nos entende, e pensa que a nossa linguagem no  do mundo dos
mortaes. Eu sou a mesma Rosa, muito sua amiga, e sinto immenso prazer em
vl-a n'esta sua casa, e quero que venha c muitas vezes.

--Agora j entendo o que me diz... A gente deve fallar como falla todo o
mundo. O latim  l cousa dos prgadores, e dos doutores. Uma mulher em
sabendo a ladainha e a _Magnifica_, sabe o latim preciso para a
salvao... Com que assim, minha Rosinha... Como se d por aqui?

--Muito bem.

--E a outra menina?

--Plenamente jubilosa.

--Ella l torna com o berzabum dos latinorios!... Valha-a Nossa Senhora!

-- Maria Elisa, falla em baixo estylo... humanisa-te.

--Repugna-me. No sei manchar a lingua de iguaria indigna.

--Que diz ella? que eu sou indigna?

--No, senhora; diz que no pde fallar como ns.

--Pois ento que esteja calada...  Rosinha, eu queria-lhe uma palavra
em particular.

--Pois sim; iremos para o meu quarto... eu venho j, Elisa.

--Vai... mas guarda-te do filtro da Gorgona fatal.

--Ella l fica com os gorgues, gorgues!... m mez para ella!--murmurou a
snr. Angelica.




CAPITULO XII


--Ora venha c, Rosinha...--disse a snr. Angelica, pendurando a
mantilha na porta, e acocorando-se n'um tapete, que ella suppoz ser
feito para isso--Sente-se ao p de mim.

--Eu no gosto d'essa posio, que  incommodativa. Sento-me n'esta
cadeirinha.

--Pois sim; mas chegue-se bem para mim, que no quero que nos oua a sua
amiga. Deus me perde, mas no engrao com os modos d'ella... Aquillo
no ha de ter bom fim... Tem muito palavriado... Ora diga-me, de que
presta aquella rapariga?

--De muito;  a minha amiga do corao; conheo-a ha dois annos;
quero-lhe como a ninguem, e basta.

--Est dito... Pelo que vejo, aqui no ha rei nem roque, e quem governa
 vmc.e, no  verdade?

--, sim, senhora. Quem governa em minha casa sou eu.

--Pois, minha menina, precisa de quem a governe. Os tempos no vo bons
para as donzellas. Deus me perde se pecco, mas o diabo anda s soltas
entre as raparigas desde que os francezes vieram l do fim do mundo ao
Porto. No meu tempo no se ouvia dizer que uma rapariga namorava este
nem aquelle. Hoje, bem dito seja Deus, quem tiver raparigas em casa,
traga-lhe o lho em cima, seno, quando mal se precata, os
peralvilhos... nem pensal-o  bom!... E ms linguas? isso ento  um
louvar a Deus! Pois aquella grande bebeda da mulher do retrozeiro, que
mora defronte de mim, no foi dizer ao meu Antonio que eu, quando era
moa... em nome do padre, e do filho, e do espirito sancto... Cal-te
bca... Olhe que sempre! Ninguem diga que est bem! Uma desavergonhada
assim! Estar eu mansa e quda em minha casa, amando e servindo a Deus
como posso, e nem ja como devo, e vai seno quando aquella lingua
damnada no teve o ousio de fallar da minha conducta, que no teve nunca
tanto como isto que se lhe pozesse (_mostrando-lhe a ponta do dedo_)!
Ahi est por que Deus no manda chuva, e mandou a praga dos francezes
para nosso castigo...  por causa da Anna Canastreira, e outras que
taes... Aquella grande regateira! Atrever-se a pr a bca na minha
honra! E ella? A porca, que andou... Cal-te bca... E tem aquella de
fallar em mim, que fui sempre como as estrellas, e que nunca houve na
rua quem dissesse, com verdade, que me viu piscar o lho ao congregado,
nem ao conego Anselmo! Inda a lingua se lhe tolha, e descanso no tenha
ella de dia nem de noite sem me pedir perdo...

--Ento  isso o que precisa dizer-me, snr. Angelica?

--Inda no chegamos l, Rosinha. Isto vinha a respeito de dizer que as
donzellas no esto seguras com esses melcatrefes que por ahi andam
d'oculos, e polainas, que me parecem mesmo o demonio tentador!...

--Elles tentam-na, snr. Angelica?

--A mim? para c  que elles vem bem!.. Eu os arrenego! Assim que os
vejo ao longe, rezo o credo em cruz...

--E perseguem-na os peralvilhos?

--Ho de ter bom olho...! Elles s perseguem as que lhe do trela. A
mim? isso sim... Inda no ha muito que um mariola me puxou pela
mantilha, ao sahir da Capella das Almas, e eu voltei-me para elle... no
lhe digo nada... apenas me viu, aquillo foi como se lhe dsse com um
sedeiro na cara, voltou logo o focinho. Est-se a rir, Rosinha?  como
lhe digo. Os homens, em vendo m cara nas mulheres, no tenha medo que
elles se atrevam... E mais eu agora j no sou o que era... estou muito
acabada... estes malditos lobinhos, que me vem todos os annos ao
costado, fazem-me de fel e vinagre. D'antes quando eu era a flor das
donzellas, isso  que se podiam vr os peraltas com o nariz no ar por
minha causa... Pois, olhe, viam-me com os olhos e comiam-me com a
testa... Uma rapariga quer-se honestinha; e quanto mais vamos inda peor
. Est dito... agora vamos comear o nosso arranjo.

--O nosso arranjo?! Que arranjo temos ns, snr. Angelica?

--Nada de pressa... ha muito tempo para morrer... Ora vamos, Rosinha...
inda est dos mesmos humores de ha dois annos?

--Que humores? no me lembra quaes eram...

--A respeito do seu matrimonio com o meu Antonio.

--Ah! nem me lembrava essa brincadeira... Sim, minha boa senhora, ainda
estou, e estarei, resolvida a no casar com o snr. Antonio.

Maria Elisa, p ante p, viera collocar-se atraz de Angelica fazendo-lhe
carantonhas, que obrigaram Rosa a sentar-se de ilharga por no poder
conter o riso.

--Com que ento est na mesma!... Ora, se Deus quizer, a sua cabecinha
ha de mudar. Pense bem no caso, Rosinha. Lembre-se que meu irmo no
sabe o que tem de seu. L, se  velho, olhe que faz dar a agua pela
barba aos novos. No v aquellas cres, que elle tem? Olhe que alli onde
o v, inda tem muita fora. Come-lhe bem, e est gordo como um tanho...

--Bem sei que est gordo; mas que me importa a mim a gordura de seu
irmo? Como no quero vendel-o a pso...

--Isso no  resposta de menina honesta, Rosinha. No se ponha a rir...
Acho que j tem as manhas da sua amiga. Foi ella que lhe disse que no
quizesse o meu Antonio? Tomra-o ella.

--Pois offerea-lh'o.

--Que se lave... Olha a labisgoia! Se meu irmo se via com aquella
tartamuda, que ninguem a entende, entisicava, meu querido irmo do meu
peito! E ella tem legitima?

--Quem, a minha amiga?  muito rica, por morte de duas tias, que so
pouco mais ou menos da sua idade, snr. Angelica.

--Da minha idade? Ento ainda podem viver muito, e tarde vir a
legitima...

--Quantos annos tem, snr. Angelica?

--Quem, eu? eu lhe digo... Eu sou mais velha que o meu Antonio, que  da
idade do Joaquim Antunes, casado com a Theresinha dos Loios, e que se
lembra de ouvir dizer a sua me que o meu Antonio era da idade do snr.
Joaquim, e eu sou da idade da snr. Brizida, que dizia minha tia Aniceta
que nascera ao mesmo tempo, e se baptisra no mesmo dia com o Thimoteo,
que ninguem ha de dizer a idade que tem.

-- o mesmo que acontece a seu respeito, depois da sua conta, snr.
Angelica.

--Pois  verdade; eu o que tenho  estar acabada; mas meu irmo est
gordo e fero como sempre o conheci. Quizesse elle casamentos que lhe no
faltavam.

--Pois, snr. Angelica, sinto muito dizer-lhe que no me sinto
deliberada a casar com seu irmo, e que provavelmente ficarei solteira,
porque no tenho vocao para o casamento. Acho-me em extremo inclinada
ao celibato.

--Quem  esse Celibato? Olhe l que no v ser algum pandilha que lhe
quer pilhar a legitima!... Eu no conheo esse snr. Celibato... 
negociante?

--Nada;  um cadete...--disse Rosa mordendo o riso nos beios.

--Ah! um cadete, chamado Celibato... Conheo muito bem; ouvi fallar
n'elle...  um grande tratante. No queira esse bigorrilhas.

--Ah! que malvado! Eu no sabia que o snr. Celibato Jos...

-- verdade, Celibato Jos... j me esquecia...

--Da Cunha...

--Sim, sim... da Cunha;  o mesmo, tal e qual! Ora v como eu lhe vali,
Rosinha?

--Agradecida, minha amiga. Detesto esse tyranno! Guardarei meu corao
para outro esponsalicio...

--Esponsalicio! parece-me que conheo esse snr. Esponsalicio...

-- um rico proprietario...

--Enganaram-na, Rosinha. Esse Esponsalicio...

--Da Costa...

-- o mesmo... louvado seja Deus, que me trouxe aqui!... Esse
Esponsalicio da Costa  um traficante, que enganou a filha d'uma minha
amiga, e que diz  bca cheia que no quer casar com nenhuma. No caia
em lhe receber palavra de casamento, Rosa... Deus a guarde d'essa
tentao!...

--Nenhum d'elles, pois,  digno do hymeneu?

--O Hymeneu! Apre! que so muitos. Eu tenho ouvido fallar n'essa
pessoa... Inda outro dia a mulher do Joo Pereira, que tem chin, estava
a fallar mal d'elle. No pde ser grande pessoa, porque anda mettido com
tal mulher...

--Pois bem: farei um juramento. No casarei com o snr. Celibato!

--Bonita...

--Nem com o snr. Esponsalicio!

--Ora, pois.

--Nem com o snr. Hymeneu!

--Isso  que se chama ter a cabea no seu logar.

--Nem com o snr. Antonio!

--Valha-a Deus, menina, valha-a Deus, que tem o passaro na mo, e
deixa-o fugir!... Case com o meu Antonio, e ver que pimpona elle a
traz!

--Fiz voto de morrer solteira. Os meus votos so infalliveis. Serei como
as Vestaes.

--As bestiaes! Deus a livre d'isso! A menina tem alma, e no pde ser
bestial...

--O mais que posso  convidar a minha amiga a receber a terna dextra do
ditoso Aonio.

--Que diz, Rosinha? Parecia-me agora a outra! Onde vos ensinaram esses
aranzeis?

--Pdes entrar Maria Elisa--disse Rosa, que no podia supportar as
caretas que a sua amiga fazia.

--Ento ella ahi vem com os latinorios... Vou-me embora, com a graa de
Deus.

--Espere, senhora D. Angelica--disse Maria Elisa com burlesca
formalidade.--Muito ha, ditosa irm do mais ditoso Adonis, que eu
suspirava por apascentar meus famintos olhos no manjar succulento das
rosadas faces do snr. Antonio Jos da Silva, vosso mano, e querido meu.
Vi-o uma vez. Vl-o e amal-o foi obra d'um momento. Nunca mais meus
olhos tristes provaram os carinhosos afagos de Morpheu. De noite era
elle o meu pensamento; de dia o meu pensamento era elle; elle era de dia
e de noite o sangue das minhas veias, o fogo ardente do meu corao, o
nome mais appetitoso da minha lingua, e a lingua mais eloquente da minha
alma.

--Est douda!... Resmungou a velha, voltando-se para Rosa.

--Douda!--disse Elisa--douda d'amor! Cupido, que me varaste o corao de
ervada setta, porque no feres o corao de Antonio Jos?

--Est apaixonada por elle...--murmurou Rosa ao ouvido de Angelica, que
principiava a acreditar a naturalidade daquella dr sublime.

--Ser verdade, Rosinha?

--No v como ella solua.

Maria Elisa retirava-se com o leno nos olhos para esconder o riso, na
janella.

--Ella viu meu irmo?

--Viu, no pateo do recolhimento; e desde esse instante falla
constantemente no objecto dos seus votos, que  seu irmo.

--Coitadinha!...  preciso dizer-lh'o a elle, que no v a rapariga dar
volta ao milo.

--Diga-lhe algumas palavras animadoras, snr. Angelica.

--Venha c, minha menina; a troco d'isso no se afflija, que tudo se ha
de fazer pelo melhor, com o favor de Deus...

--No me illuda, senhora! No ponha mel nas bordas da taa, que tem ao
fundo o amargo absyntho! A minha paixo  incuravel como a gta!

--Coitadinha!... por causa da paixo tem gta! que pena! to novinha j
com gta.

--Com gta, sim! eu com gta na primavera dos meus dias!

--Pois ella costuma atacar mais no inverno...

--Com gta na aurora da infancia, no crepusculo do amor... Com gta
eu!... por causa de um ingrato Narciso! Miseranda Ecco!

--Ento o tal Narciso que lhe fez? O Narciso  algum cirurgio que a no
soube tratar, pelos modos... Pois, minha filha, no chore. Eu vou j
d'aqui fallar com meu irmo, e veremos como se arranja isto do melhor
modo. Ponto  que no esteja c arrumado para a Rosinha...

--Cruel rival!--disse ( parte) Elisa, com a melhor das caretas
imaginaveis.

--Injusta! Eu cedi-t'o, e os deuses sabem que sacrificio fiz cedendo a
mo do snr. Antonio!

--Bem me parecia a mim, que andava aqui alguma mastigada!... Agora vejo
eu porque no queria casar com meu irmo, snr. Rosinha...  uma boa
amiga da sua amiga. Deixe estar, menina, que talvez ainda sejamos
cunhadas... E, com isto, vou-me embora que so horas... adeus...

--V, mensageira d'amor!--disse Elisa--Propicios cos meus votos
abenoem, e os seus desvelos galardoem.

Ausente Angelica, seguiu-se uma tremenda gargalhada, em que estalaram os
espartilhos s duas azougadas moas.




CAPITULO XIII


Dous ou tres dias depois (parece-me que foram tres: aquillo de que eu
no estou bem certo no affirmo), s onze horas da manh, mais minuto,
menos minuto, estava  porta da snr. D. Rosa Guilhermina Taveira, o
snr. Antonio Jos da Silva limpando o suor, e puxando para o abdomen o
coz do rebelde collte de velludo preto, que lhe marinhava em rofgos
pelo estomago.

Arranjadas assim as cousas do seu logar, o negociante puxou a campainha,
e perguntou se podia fallar  snr. D. Rosa. Responderam-lhe que a
menina estava na cama curando uma constipao. Disse que queria fallar 
snr. D. Maria Elisa, e mandaram-no subir, o que elle fez, puxando, com
ambas as mos, o indomavel collte, que subia a ponto de descobrir o coz
das ceroulas, as quaes rebentavam comprimidas pela arquejante barriga de
seu dono.

Esperou alguns minutos, que lhe no foram penosos, porque os aproveitou
mirando-se em um espelho de sala pendurado defronte da sua cadeira.
Conversando com a sua imagem, o snr. Antonio perguntou a si proprio se
era elle por ventura o venturoso amado que apaixonra a amiga de Rosa a
tal ponto que a virtuosa Angelica (apesar da lingua damnada da Anna
Canastreira) escrupulisava, no esgotando da sua parte todos os esforos
para que elle Antonio Jos annuisse, como homem e christo que era, ao
suspirado casamento.

Esta era a primeira parte do monologo do negociante. A segunda, porm,
era mais dramatica. O homem tinha pundonor como outro qualquer.
Despresado pela filha do arcediago (que Deus tenha em sua sancta gloria)
resignra-se, mas no se esquecia do ultraje immerecido. Pensra muito
na vingana; mas no sabia com que armas nobres devia vingar-se. Se elle
quizesse desforrar-se com deshonra para a sua consciencia, no lhe
faltariam occasies como a que tivera, pouco antes, na qualidade de
amigo intimo do curador dos orphos. Quizesse elle, e Rosa no sahiria
do recolhimento. Mas o snr. Antonio Jos da Silva era um homem honrado,
temente a Deus, supposto que peccador, e incapaz de vingar-se vilmente.
O desforo, que elle ambicionava, devia ser cavalheiroso, e digno de
especial meno no romance, que, trinta annos depois, devia occupar-se
da pessoa do snr. Antonio, digna, a todos os respeitos, de fazer gemer
os prlos, e dar consumo ao papel das nossas fabricas, interesse
duvidoso aos editores, e no sei que migalhas a mim, humilde apologista
de todos os Antonios, maiores que o seu seculo, e credores da
immortalidade.

Era chegada, pois, a occasio d'este appetecido desforo. O negociante
era amado, e amado pela intima amiga de Rosa, to nova e to gentil como
ella. Antonio Jos da Silva, dispensador de graas do seu munificente
corao, prodigalisaria extremos  sua amante ditosa, na presena da
despresada ingrata, que se morderia de raiva. Ostentaria caprichosamente
os seus ardores de amante e marido no sumptuoso luxo de sua mulher. Rosa
_ficaria levadinha da breca_ (esta phrase  d'elle genuina) quando no
podesse _hombrear com os calcanhares da outra_. Ora aqui est no que
pensava o snr. Antonio, durante os cinco minutos que esperou na sala,
no lhe esquecendo de conter nos seus justos limites o collte, que
parecia de borracha, porque apenas se via livre dos dedos impertinentes
de seu dono, saltava logo para o pescoo, deixando mal velado o
promontorio das regies adjacentes, por no dizer sempre barriga, que 
uma palavra que me desta, e fere os ouvidos pudicos do sexo por
excellencia.

No decurso de cinco minutos, que faziam as duas amigas? Estavam
perturbadas pela surpreza de similhante visita.

Nem se lembravam j da scena burlesca em que a snr. Angelica promettera
apiedar seu irmo a favor da delirante Elisa. A vinda inesperada
suscitou-lhes a desconfiana de que o snr. Antonio vinha colerico e
enfurecido, reprehendel-as da galhofa com que receberam sua irm, e
talvez ameaal-as de que, por ordem do tutor, Rosa outra vez seria
obrigada a recolher-se, e de mais a mais separar-se da sua amiga.

A filha de Anna do Carmo no estava doente. Aquelle pretexto era o susto
da desconfiana que assaltou a ambas. Ora Maria Elisa, menos timida, ou
mais desenvolta, contra a vontade de sua amiga, no duvidou receber a
visita do snr. Antonio, e preparava-se para chalacear as suas iras, se
elle no viesse s boas, como era de suppr, ou ao menos a vaidosa Elisa
tinha a sem-ceremonia de vaticinar.

Depois arrependeu-se de o mandar subir; e perguntava a Rosa a maneira
decente de o despedir, sem ir  sala. N'esta consulta demoraram-se os
cinco minutos, e resolveram, por fim, que seria mais discreto ouvil-o, e
amacial-o, para que o maldito as no indispozesse com o tutor de modo
que as forassem a uma cruel separao. Elisa, inferior  sua galhofeira
coragem, entrou acanhada na sala, justamente no momento em que o snr.
Antonio dava o ultimo puxo ao collte, e limpava a terceira camada de
suor que lhe envernizava as pandas bochechas.

O negociante ergueu-se, himpando, e levou ambas as mos ao chapo, que
apenas levantou da cabea meio calva.

--Ha de dar licena que me cubra--disse elle--porque venho suado, e sou
atreito a catarrhos... Aqui corre o ar de encontro quella porta, e no
 l das melhores cousas para quem traz os pros abertos.

--Esteja a seu bel-prazer, e queira sentar-se--disse Elisa, suspeitando
ainda que, depois do brutal cumprimento, viria a trovoada dos brutaes
insultos.

--Ento a Rosinha diz que est constipada?

--Bastante enferma. A minha amiga tem uma compleio melindrosissima.

--E pouco tino tambem. Quando ella esteve comigo era uma desacautelada;
levantava-se do calor da cama, e vinha com o saioto pela cabea
acocorar-se na varanda a brincar com a gata... Diacho da gata! era to
amiga d'ella que no viveu muito depois que a no viu em casa! Ha
bichos, que s lhe falta a razo, que no mais parecem mais amoraveis que
as proprias creaturas com alma! A boa da gata ia-se pr  porta do
quarto d'ella a miar _miau_, _miau_, _miau_, e, a final de contas, no
queria comer, nem beber, at que appareceu morta no telhado do
visinho...

--Misera gata! que infeliz morte!

--Pois  verdade. Isto veio a respeito de dizer que a Rosinha est
constipada. Aquillo a respeito de cabea no regula l grande cousa, a
fallarmos a verdade.

-- uma excellente menina, cheia de virtudes...

--Eu no digo menos d'isso; mas de c se vai a l. Deixe-a ter mais dous
annos, e ver onde vai dar comsigo...

--Eu creio que ella saber conter-se nos honestos limites que lhe so
demarcados pela honra, e pelo dever.

--Pois Deus a oua; mas duvido. Pelo que me disse minha irm, ella traz
na cabea umas tolices que no ho de ter boa sahida. Inda no ha tres
mezes que sahiu do recolhimento, e j conhece no sei quantos namoros.

--Isso  uma injustia, snr. Silva. A minha amiga Rosa Guilhermina no
tem namoro algum.

--Deixe-se d'isso, no a defenda, que eu c sei tudo. Minha irm
fallou-me n'um tal cadete chamado Liberato, ou Celibato, ou no sei que,
e um proprietario que tem o nome arrevezado assim a modo de Apparicio...
ou Sponselicio... uma cousa assim... finalmente, oxal que eu me engane,
mas no lhe agouro bem... Emfim, quem mal fizer a cama, mal ha de
dormir. A pena que eu tenho  ser ella filha do meu amigo arcediago, que
Deus tenha na sua presena, que j l sabe o bem e o mal que fez... Do
mais, deixal-a l, que o mal se o fizer, para si o faz...

--No se afflija. A minha amiga ser digna do bom pae que a morte lhe
roubou, e no deshonrar jamais as cinzas paternas.

--Pois assim seja. Ora, menina, eu no sou d'esses bigorrilhas que dizem
palavras de mel, e sabem d'esses _circumloquios_ de trapalhadas com que
enganam as moas, e, a final de contas, no dizem nada. Eu sou um homem
cho... pau  pau, e pedra  pedra. O que sente o corao a bca o diz,
e o que a bca no diz no sente o corao. Ora aqui est. Os homens
entendem-se pelas palavras, e eu gosto de quem no est a fazer uma
grande mastigada de palavras bonitas para dizer o que se diz em duas
palavras. Eu venho aqui de proposito fallar com a menina, porque minha
irm Angelica foi d'aqui, ha tres dias, e disse-me certas cousas que me
buliram no corao. Pelos modos a menina disse-lhe que se lhe no dava
de casar comigo...

--Eu?!

--No se envergonhe de ter confessado os seus affectos. Eu gosto da
franqueza, e a gente muitas vezes perde por fallar de mais e fallar de
menos.  menina bem sei que lhe ha de custar esta conversa; mas,
deixemo-nos d'essas _bijutarias_ do costume, eu estimei muito saber que
a menina gostra de mim...

--Eu... no disse que...

--Bem sei que no disse a cousa assim... Eu sei muito bem que a menina
tem uma maneira de dizer as cousas com outras palavras mais discretas;
mas o que  verdade diz-se com clareza, e eu sei entender as cousas.

Maria Elisa no previa similhante desfecho! A surpreza annullra-lhe por
momentos o sestro chocarreiro, e a confusa moa no sabia qual dos
partidos devia adoptar, se o da seriedade, se a brincadeira. De mais a
mais, a cabea de Rosa apparecera-lhe n'este momento, entre as duas
portadas mal cerradas, e o riso, sua feio caracteristica, luctou
cruelmente com a seriedade zombeteira, que ella queria sustentar.

--Eu, a fallar-lhe a verdade--continuou o snr. Antonio, persuadido que o
silencio de Elisa era o natural pudor dos dezesete annos--a fallar-lhe a
verdade, pela terceira vez que a vejo, no desgosto da sua pessoa.
Quando a vi na grade do recolhimento fiquei sympathisando muito com as
suas maneiras, e gostei de a ouvir fallar, porque eu no sou homem de
estudos, mas sei dar valor s cousas, e gosto de quem saiba dizer duas
palavras.

--Ditosa mulher aquella que viver sujeita ao seu dominio! Os vos do seu
espirito no acharo fechados os vastos horisontes do talento, nos
penosos dissabores domesticos.

--Que ? agora no percebi bem...

--Dizia eu que ser uma felicidade pertencer a v. s.

--Felicidade... isso vai da maneira de vr as cousas cada um. O que lhe
posso desde j prometter  que no hei de dar-lhe penas.

--A mim?... Creio que no dar...

--Pde estar certa d'isso. Eu sei como se tratam as pessoas. A gente
pde gosar a sua riqueza sem andar  compita com as grandezas dos
fidalgos. Isso  que  asneira. Os fidalgos arruinam-se, e vivem por ahi
sabe Deus como, atraz de mim e dos outros, que lhes damos a juro o nosso
dinheiro, para as mulheres gastarem em velludos, assembleias, e
theatros. Dizia o meu amigo arcediago, que quem sahe fra da sua classe
no tem classe nenhuma.  c uma ideia que eu aprendi de cabea, e acho
isto bem dito: _quem sahe fra da sua classe no tem classe nenhuma_.

-- um axioma.

--Que ?

-- um axioma, uma maxima, uma eterna verdade.

--Isso . Um negociante  um negociante, e um fidalgo  um fidalgo.
Andam ahi de carruagens uns tres c da minha classe, que querem hombrear
com os fidalgos, e mais hoje ou mais amanh vero onde vai parar o
negocio.

--Pois v. s. abomina a carruagem?

-- cousa em que nunca andei. Parece-me que aquillo no ha de dar grande
saude ao estomago! Tombo para aqui, tombo para acol, quem fr nutrido
como eu ha de por fora soffrer dos bofes.

--Engana-se... A agitao, causada pelo balano da carruagem, 
saudavel.

--Devras?! acho que no!

--Queira acreditar-me. Eu tenho lido varios authores de medicina, que
recommendam o uso da carruagem s pessoas nutridas, como meio de evitar
as apoplexias.

--Ah! a menina leu isso nos livros?

--Sim, senhor, e como pessoa que se interessa no seu bem-estar,
recommendo-lhe o uso da carruagem.

--E o carroo no far o mesmo effeito?

--Creio que no: o carroo  mais moroso, menos agitado, mais
impertinente nos solavancos.

--Pois eu estava resolvido a mandar fazer um carroo, porque tenho uma
junta de bois na minha quinta de Lordello, e, visto o que me diz...

--Parecia-me que v. s. deveria possuir carruagem, j que os bens da
fortuna lh'o permittem.

--L isso tenho eu para mais; mas que diriam os meus visinhos se me
vissem de carruagem? Eram capazes de me apupar os tratantes!

--Deixe-se d'isso, senhor Silva. As suas commodidades so mais
attendiveis que a critica estupida dos seus visinhos. Ora diga-me: se
casasse com uma senhora debil, que precisasse de passear de carruagem
para entreter o espirito nas delicias do campo, v. s. no lh'a
compraria?

--Isso comprava; ponto  que minha mulher me fosse leal, e precisasse
d'ella, porque l, por luxo, acho que era uma asneira sustentar uma
parelha de machos, e dois criados. E no ser melhor uma cadeirinha, ou
uma liteira?

--Isso  antiquissimo!... De que serve o dinheiro, se o no fazemos
servir aos nossos prazeres?

--Diz bem; mas sempre  bom a gente gastar menos do que lhe rende o
negocio.

--Concordo; mas acho justo que se engrandea a gente tanto quanto 
possivel.

--Pois a tal respeito fallaremos mais devagar. Agora  necessario que
tratemos da nossa unio. Eu estou disposto a casar com a menina, j que
sympathisamos um com outro, segundo me disse minha irm. A menina
faz-lhe conta casar comigo?

--Acha-me digna de si?

--Eu que lhe pergunto se quer casar  porque sympathiso com a menina.

--Sabe que eu no sou rica?

--Sei que no tem nada de seu. Conheci muito bem seu pae, que era
negociante, e quebrou com honra. Eu no lhe pergunto se  rica. Rico sou
eu, e tenho de sobra para que nos no falte nada. O que eu quero  quem
governe a minha casa, e herde os meus bens por minha vontade, porque o
que tenho no quero que v parar a sobrinhos. Se lhe serve, o que ha de
fazer-se ao tarde faa-se ao cedo. No tenho mais nada a dizer-lhe;
pense no negocio, e responda-me breve...

--Eu responderei...

--Est dito tudo. D c recados  doente, e saiba que fico sendo seu
amigo.

........................................................................

O rico mercador de pannos retirou-se. D. Rosa veio a rir-se, ao encontro
de Elisa, e, vendo-a sria, perguntou-lhe:

--Tu no te ris, Elisa?

A litterata respondeu com o silencio e a seriedade.

--Em que pensas to trombuda?--replicou Rosa.

--Em que penso?... eu sei c em que penso!... Acho que no penso!...

--Aposto que te serve o noivo?!

--Ests a caoar, Rosa!


ENTRE-PARENTHESIS

Oh benemerita philosophia! quo sublimes effeitos a humanidade
experimenta da tua sisuda influencia!

Oh candida filha do talento, irm gemea da independencia, neta de Cato,
e parenta proxima dos Cates da minha terra, oh patusca philosophia, que
sancto prestigio tu exerces nas almas, desde que Diogenes arremessou a
escudela que lhe no servia de nada!

Oh philosophia das mulheres, tu s sobre todas a melhor das
philosophias! A teu respeito poderia eu escrever este capitulo XIII, que
ficaria sendo um capitulo de abalo no espirito publico, mas, no tenho
agora vagar, nem me lembra nada que se tenha escripto a respeito da
philosophia das mulheres.

Apesar da minha ignorancia n'este ramo (unico em que no sou profundo)
tentarei, indulgentes leitores, iniciar-vos na philosophia de Maria
Elisa, que foi, honra lhe seja, a mais fervorosa sacerdotisa do culto.

Nada mais boal, mais rude, mais soez, mais detestavel que a figura, o
abdomen, o palavriado, o suor, e o collete, do senhor Antonio Jos da
Silva.

D'accordo.

Nada mais repulsivo que os seus tres papos, que as compressas dos
colleirinhos reduziam a seis rofgos, parecidos com o intestino
mesenterio do cevado, que  a mais saborosa das tripas do tal animal
(seja dito de passagem).

Nada mais displicente que os seus olhos azues, abertos a canivete, na
franja d'uma pequena testa quadrada.

Nada mais abominavel que os seus quatro dentes em anarchia, impellindo,
emparceirados com a lingua, perdigotos s legies, que orvalhavam, a
quatro palmos de distancia, a physionomia dos circumstantes.

Nada mais irrisorio que a supina ignorancia das suas sandices amorosas,
 mistura com anexins fastidiosamente vulgares, e momices mais ou menos
grutescas, mas sempre ridiculas ou nauseabundas. E os callos, e os
joanetes? tudo horrivel!

D'accordo.

Mas o dinheiro do senhor Antonio Jos da Silva! o dinheiro, atilados
leitores, vde bem que se trata de dinheiro, dinheiro em abundancia,
placas de ouro e prata, cousas torpes e vis, confessemos que sim, mas
cousas com que se compram as carruagens, os velludos, os setins, os
jantares, os bailes, a considerao, os ouvidos, os olhos, as linguas,
as pennas, as eloquencias, com que tudo se compra inclusivamente os
romances, illustradas leitoras, e intelligentes bachareis!

O DINHEIRO!

Vs no sabeis o que so essas oito letras, que s ellas valem as vinte
e cinco do alphabeto! Vs no sabeis que eu conheo quatro, dez, trinta
alarves d'uma estupidez fabulosa que escondem n'uma luva branca a mo,
que deveria aguar brochas, e palmilhar sapatos; que encostam aos coxins
das carruagens os lombos musculosos que a natureza affeiora para as
asperezas do costal; que mascaram a hediondez do vicio ignaro, o peor de
todos, com o riso alvarmente cynico de todos os homens endinheirados,
que  um riso particular.

Esses taes so tudo isso e mais alguma cousa; e eu sou o primeiro a
sorrir-lhes urbanamente, com meiguice, com mimo at, folgo que me
apertem a mo, que me chamem amigo, embora depois se riam de mim, folgo
e ennobreo-me d'essa esmola de considerao, porque, se, em minha
consciencia, reconheo que so elles os devassos, os torpes, os
ignorantes, os incorrigiveis, a minha illustrada cabea diz-me que eu
manh serei apedrejado, na praa publica, se esses taes passarem por
mim sem me cortejarem, e retirarem a sua mo da minha.

O DINHEIRO, amigos! Eu nunca me cansarei de vos lembrar esta palavra,
tres syllabas distinctas que fazem o unico deus verdadeiro d'este
paganismo ignominioso em que medram os vicios da sociedade. Tres
syllabas! trindade veneranda que representa o mytho de todas as
religies, em cada uma das quaes o profundissimo Dupuis achou uma
trindade, e no descobriu esta, que eu tenho a honra de evangelisar-vos.

O DINHEIRO, emfim, foi o dinheiro, representado em Antonio Jos da Silva
que perturbou a tranquillidade descuidosa de Maria Elisa, desde o
momento fatal que a serpente, na feia figura do negociante, veio tentar
a Eva da viella do Laranjal.




CAPITULO XIV


A pobre orph do Recolhimento, antes de conhecer Rosa Guilhermina,
enraivecia-se de no ser pensionista para compartir das regalias das
ricas, que tinham o direito de responder com altivez s reflexes das
mestras, e s rabugices da velha regente.

Reprimida pela necessidade de obedecer, phantasiava extravagantes
futuros d'onde a felicidade poderia vir resgatal-a  humilhante condio
de orph, dependente da caridade publica. Moa ainda de treze annos,
lembrava-se de muitos casamentos ricos com meninas pobres d'aquella
casa, e botava sortes e adivinhas, que todas lhe annunciavam o suspirado
casamento. Uma velha, que sabia lanar as cartas, e com a qual havia
muita f ao recolhimento, tres vezes lhe vaticinou um vantajoso
casamento.

Relacionada com Rosa Guilhermina, a ambiciosa orph esqueceu-se um pouco
das suas queridas esperanas, porque, desde o momento em que ganhou a
intimidade da sua amiga, dispensou a rao da casa, e viveu,
independente da misericordia, como irm com a pensionista.

Se algumas vezes contou  companheira os seus passados sonhos de
casamento, Rosa ouviu-lh'os rindo, e pediu-lhe que nunca se lembrasse de
tal emquanto ella fosse viva, e tivesse um bocado de po que repartir
com ella.

Ainda assim, Maria Elisa tinha assaltos de vaidade, e soffria,
lembrando-se que no podia indemnisar alguma vez as liberalidades que
recebia de Rosa.

Quando se installaram, senhoras suas, na casa do Laranjal, Elisa pensou
no seu futuro, e lembrou-se que viria tempo em que Rosa trocaria por
outros affectos os carinhos d'ella, e acharia pesado o encargo de
sustentar com tantas regalias uma estranha.

Este reservado pensamento, que ella, eminentemente philosopha, sabia
calar, dominou-a muito tempo, com bem pouco elogio para a sua idade e
para o seu caracter.

Quando veio  sala zombar de Angelica no havia n'essa caricatura de
rapariga apaixonada inteno sria, nem podia havel-a.

Quando o senhor Antonio principiou a franca exposio dos seus
sentimentos, que elle significava na melodiosa palavra sympathia,
Maria Elisa zombava ainda, e respondia com caretas s caretas de Rosa.

Quando, porm, o capitalista fallou em luxo, em carruagens, em fidalgas,
e, sobre tudo, na necessidade de deixar uma herana, que no queria
deixar aos sobrinhos, a moa pobre lembrou-se das suas esperanas
desvanecidas, e dos prognosticos da velha do recolhimento, que lanava
as cartas.

E, portanto, Maria Elisa, a seu pesar, recahiu de repente na gravidade
do assumpto, e ouviu as ultimas palavras do ingenuo negociante, com a
discrio, que o caso pedia.

Aqui o que temos a admirar, se alguma cousa vale a pena da admirao, 
a philosophia to saturada aos dezeseis annos!

A ideia philosophica, em uma mulher, comea aos vinte e cinco annos, e
acaba aos quarenta e cinco. At aos vinte e cinco, domina a poesia, dos
quarenta e cinco para diante, se no domina a theologia, ha de
forosamente dominar a toleima, que os vocabularios definem tolice
grande. Isto no  maxima, que valha as de _Larochefoucauld_; mas , no
seu tanto ou quanto, uma maxima que deve aproveitar a muita gente.

Maria Elisa, porm, fra demasiado tempor na razo da philosophia.
Anticipou-se,  verdade; mas veremos que no abortou por vir cedo de
mais. Os grandes pensamentos tem cincoenta annos de incubao nas
entranhas da sociedade. Tero: no duvido nada; mas o maior pensamento,
que se conhece,  o de Elisa em casar com o senhor Antonio, e vingou em
cincoenta minutos.

As perguntas de Rosa mortificavam-na.

A ciumosa amiga custava-lhe a crr similhante extravagancia; mas a
importancia grave que Maria Elisa estava dando s perguntas zombeteiras,
que lhe eram feitas, aggravou a desconfiana de sua amiga.

Por esquivar-se s impertinentes instancias da arrufada Rosa, a noiva,
em perspectiva, refugiou-se nas chufas ao promettido esposo, e conseguiu
dissuadir a amiga, que foi to facil em descrr como tinha sido em
irritar-se por um ciume extravagante.

Quando emprgo a palavra ciume no se persuadam que a filha do
defuncto arcediago era rival d'Elisa. Justia lhe seja feita: D. Rosa
era rival do senhor Antonio. Como estas cousas so, no me importa a mim
sabel-o. Ha no corao de duas mulheres muito amigas puerilidades assim,
segundo me consta.

Maria Elisa pensou na aventura toda a noite.

Para neutralisar a cubia do luxo, e da independencia, a ambiciosa
pequena afigurava-se ligada ao senhor Antonio, carnal e positivamente
como Deus o atirra a este mundo. Punha de parte o dinheiro, afastava o
crepe dourado, para vr o cadaver em todo o horror das ulceras; mas o
demonio tentador no lhe pintava uma cousa sem lhe pintar a outra. Pelo
habito de imaginal-o familiarisou-se com elle, e j lhe no parecia to
repulsivo. E, se declinava os lindos olhos do homem para a opulencia
embrionaria no ouro d'elle, a philosophica menina via cousas
lindissimas, e deslumbrava o corao esquivo com as liberalidades que a
cabea lhe promettia.

E, no mais caloroso do seu delirio, via um marido velho, e uma riqueza
psthuma a gosar, e um corao, cheio de vida, a offerecer.

Foi esta a final concluso dos seus raciocinios, que ella no deixou
escriptos em compendio para uso dos collegios de meninas; mas que,
depois d'ella, temos visto que foram adoptados, e que fazem hoje as
delicias das educandas. Os bons prncipios teem isso comsigo.

O dia seguinte correu sem novidade.

O outro foi um dia triste para ambas as meninas.

Elisa parece que se esquivava  sua amiga. Rosa ensaiou uma pergunta
definitiva; mas no ousou proferil-a.

Ao terceiro dia, uma carta do senhor Antonio Jos da Silva foi causa de
grandes dissabores. O contedo era assim:


                                             _Senhora D. Maria Elisa._

                                          _Porto, 24 de abril de 1818._


_Minha senhora do meu corao e da minha particular estima. Faz hoje
tres dias que fallamos em certo negocio a respeito da nossa unio. Muito
desejava eu saber, para meu governo, se v. s. est resolvida a dar-me a
sua mo de esposa. Estes negocios no devem demorar-se. Eu j lhe disse
o que lhe tinha a dizer. Por motivos, que  vista lhe direi, estou
deliberado a casar-me o mais breve. Soube que v. s. sympathisava
comigo, e eu da minha parte no desgosto da sua pessoa. Por isso, se
houver de se fazer este casamento, ha de ser j, quando no com bem
desgosto do meu corao procurarei outra que tenha as boas qualidades da
menina. Peo-lhe que responda com brevidade. Mande no seu servio este
que  e ser at  morte_

                                                           _De v. s._

                                  _Attento venerador e criado obrigado,_

                                               _Antonio Jos da Silva._


Est conforme o original, excepto a grammatica, a pontuao, e a
orthographia.

Maria Elisa, no podendo illudir as instancias de Rosa, sem lr a carta,
ralatou a seu modo o contedo. Vejam que a vaidade no a deixava j
expor ao escarneo da sua amiga a redaco do capitalista! Por mais que a
curiosa teimasse, no conseguiu julgar do corao do seu antigo amante
pela eloquencia da carta!

Perseguida, cansada de fingir, exhausta de pretextos, Elisa disse  sua
companheira de dous annos:

--Eu amo-te muito, minha querida amiga. s a primeira e a unica pessoa a
quem consagrei a minha alma, e todos os instantes da minha existencia,
que no ser longa, longe de ti; mas no posso contar com o teu apoio
toda a vida. Preciso de ser independente, como tu s, para bem avaliar
as tuas generosidades. A verdadeira e duradoira amizade firma-se na
independencia...

--Olha que me ultrajas, Elisa! Eu fiz-te nunca sentir a tua dependencia?

--Fizeste.

--Fiz! isso  uma mentira, que me escandalisa!

--Fizeste com os teus carinhos. Quanto mais procuravas esconder aos meus
proprios olhos os beneficios, que me fazias, mais os olhos do meu
corao se abriam, para vl-os, e mais devedora me considerava aos teus
extremos. Quer Deus que eu seja o que no poderei ser de outra maneira.
Serei rica. No digo que seja feliz; porque a ventura no a d o ouro,
nem as lagrimas da saudade se enxugam com o dinheiro. Mas eu sou sempre
a tua amiga. Sers sempre a minha confidente. Sero reciprocas as nossas
casas, e as nossas riquezas. Viveremos to juntas como at aqui. Ters,
mais ditosa que eu, um marido da eleio da alma. Sers venturosa, com
elle, e eu um dia... talvez... bem cedo... viuva, e rica... serei outra
vez a tua irm, debaixo das mesmas telhas...

--Isso nunca!

--Nunca!... porqu?...

--Nunca!... Quem me no amou at hoje, vir depois offerecer-me riquezas
que desprso, e no preciso.

--Eu no virei offerecer-te riquezas, porque rica s tu. Virei outra vez
atar o fio que se vai quebrar entre os nossos coraes, se  que a
separao de instantes  um lao de dous coraes que se desata! Rosa,
no chores, que me comprimes o seio... D-me a tua mo... no sentes que
estas palpitaes s tuas podem ser? Apraz-te martyrisar a tua amiga?

--Impostora!

--Impostora, eu, Rosa, e tens alma de me dizer tal? No sentes o
remorso de tamanha offensa?

--No! s uma ingrata, que me trocas pelo dinheiro d'um homem que eu
desprso.

--Porque s rica.

--D'um homem a quem chamavas os mais despresiveis nomes.

--Que hoje outra vez lhe dou.

--Ento como podes tu sacrificar a tua vida a um ente abominavel?

--Porque no tenciono sacrificar-me... O escravo ha de ser elle.

--No te entendo! O escravo ha de ser elle!... de que modo?

--Obrigal-o-hei a servir os meus caprichos.

--Quaes caprichos?

--Todos.

--Vaes ser uma esposa infiel?

--No.

--Vaes ter carruagem, e vestidos ricos?

--Vou.

--E se te no dr carruagem, nem vestidos?

--Ha de dal-os.

--E se no dr?

--Divorcio-me... metade da sua riqueza  minha.

--E queres dar escandalo?

--Escandalo  ser pobre. Vejo-te hoje muito moralista.

--E tu pareces-me philosopha de mais.

--Antes isso.

--Que maneira de responder!

-- como a tua de perguntar... No nos zanguemos, Rosinha. Sejamos boas
amigas. Aconselha-me que me case, que  a maior prova que pdes dar-me
da tua estima.

--Faz o que quizeres... s livre... Enganei-me comtigo... creei uma
vibora no meu seio.

--Isso  d'uma novella que ns lmos ha dias. Nada de arrufos... Vamos
cear?




CAPITULO XV


RESPOSTA  CARTA DO SENHOR ANTONIO JOS DA SILVA

                                                         _Ill.mo snr._

_Hontem recebi a sua preciosa carta. O meu corao delirou de
contentamento, e a minha penna no pde fielmente interpretar os jubilos
do espirito._

_No se resiste aos seus carinhos. -se arrastada involuntariamente para
a fascinao dos seus affectos. Deslumbra-se o entendimento, e
humilda-se o amor proprio na presena de v. s._

_Sim. Eu serei sua esposa, e satisfarei assim a mais incendiaria ambio
da minha alma. O matrimonio, porm,  de todos os passos o mais srio
passo da vida. Se resvala o p, o casamento  o desfiladeiro, que conduz
ao tumulo. Eu mando calar a minha paixo. Fao que o cego amor emmudea
para que a razo falle. Raciocinemos, pois, que assim  preciso._

_V. s. j conhece bem o meu caracter? Creio que no. Eu no sou uma
mulher trivial. Tenho um grande corao para amar; mas o amor no 
suficiente alimento para elle. Sou ambiciosa de brilho, de ostentao,
de gloria, e no poderia fazer feliz um homem pobre, porque preciso
resplandecer aos olhos de meu marido e aos dos estranhos._

_Este brilho, que ambiciono, no  um instrumento com que eu queira
ferir a minha honra, ou a honra de meu marido. Pelo contrario, humilde
para elle a quem devo tudo serei soberba da minha grandeza para todos os
outros. Se me quer para esposa, se me quer para dominar o seu
corao, e ser dominada no meu,  preciso que v. s. se comprometta, por
sua palavra de honra, a no embaraar-me no livre gso da riqueza que me
transmitte, desde o instante em que um eterno vinculo nos prender._

_Eu sei que v. s. vive acostumado a uma mediania que no enquadra no
meu grande espirito. No v esse fatal habito, no futuro, transtornar a
nossa tranquillidade. Reflexione, senhor Silva, emquanto  tempo; e
responda-me quando o corao concordar com as meditadas reflexes que
tem a honra de fazer-lhe esta que _

                                                          _De v. s._

                         _Muito affectuosa amante, e attenta veneradora,_

                                      _Maria Elisa Sarmento de Athaide._


O senhor Antonio leu tres vezes a carta e entendeu o essencial. Uma das
maiores difficuldades que zombaram da sua intelligencia foi a mais
simples das cousas: a assignatura.

--Como  (dizia elle) que ella se chama _Sarmento de Athaide_, se seu
pae era Joaquim Nunes, e sua me Michaela Felisberta? Isto, pelos modos,
cada qual assigna-se como quer! Pois eu hei de morrer, como nasci...

Estas sensatas reflexes foram interrompidas pela senhora Angelica.

--J recebeste resposta, Antonio?

--Agora mesmo.

--Ora l l isso.

O noivo leu a carta, que sua irm ouviu com a bca aberta, franzindo a
testa a cada palavro, que seu mano no entendia melhor que ella.

--Est uma carta d'uma vez!--disse a senhora Angelica, abrindo os olhos
para o lado da testa, e apanhando com os seus tres dentes, resto de
maior quantia, o beio inferior, em signal de admirao--Isso  que 
fallar! O diacho da rapariga parece que tem cousa m! Aquillo  que 
uma cabecinha! Diz que bota sonetos, e l pelos livros grandes dos
doutores! Ora vejam l como a boa da pequena, sabe estas palavras, e diz
tudo que faz mesmo pasmar!...  um regalo ouvir essa carta... Ora l l
outra vez, meu querido Antoninho, que tens uma noiva de toda a
sabedoria!

O senhor Antonio leu quinta vez a sublime carta.

--Com effeito!--tornou a senhora Angelica--eu aposto se um doutor a
fazia melhor! A pequena parece que veio ensinada da barriga da me...
Cousa assim no consta!... Nunca vi nada mais bonito! Ento isso que
quer dizer?

--Pois tu no entendeste?

--Assim me Deus salve que no.

--Isto quer dizer, sim... quer dizer que...  verdade, isto quer dizer,
que me tem uma grande affeio da sua alma, e que est prompta a ser
minha esposa...

--Coitadinha!... Isso j eu sabia... eu no t'o disse? Ora v l como as
cartas fallam verdade! Bem dizia a Escolastica de Miragaya que a igreja
te sahia brevemente... E no diz mais nada a minha cunhadinha?

--Diz que quer muito vestido, e muita... sim, diz que quer muita
grandeza para metter figas nos olhos...

-- Rosa? bem haja ella! Eu c tambem fazia o mesmo!... Pois olha,
Antonio, por ser cousa tua hei de dar-lhe o meu vestido de vareja branca
com lentejoulas para o casamento, e as plumas que minha madrinha me deu,
que lhe ho de ficar s mil maravilhas. O vestido no tem mais que
pr-lhe meias mangas, e subir a cintura para cima, que no mais est na
moda, custou-me a quatro mil reis a vara... daquella fazenda ha mais de
trinta annos que c no vem to boa... E que mais diz a carta? no me
manda visitas?

--No... esqueceu-se...

--Pois, se lhe escreveres, diz-lhe da minha parte que muito estimo que
seja minha cunhada, e que havemos de ir ambas visitar o Senhor, e resar
a novena do menino Jesus dos attribulados, e muitas devoes. Diz-lhe
mais que faa por ter saude, e que pea a nossa Senhora que lhe d muita
juizo e graa para servir a Deus... Ouviste?

--Ouvi, sim, vai pr o jantar na mesa.

Entretanto, o senhor Antonio ficou ssinho passeando, e traduzindo para
vulgar a carta de Maria Elisa. O seu espirito, posto que d'uma
parcimonia admiravel no entendimento das cousas, custava-lhe a combinar
a cega paixo de Elisa com as calculadas condies que lhe eram
estipuladas em contracto de casamento. Todavia o negociante combinava a
carta com o que ella pessoalmente lhe fizera sentir acerca de carruagens
e assembleias, e deduzia de tudo que a rapariga queria figurar.

O senhor Antonio era rico, muito rico, mas avarento no. Nunca lhe
occorrera a ideia de gastar dinheiro em competencia com alguns seus
collegas que figuravam na roda dos fidalgos. Se desejasse deslumbral-os,
no olharia a despezas. Mas o corao no lhe pedia essas cousas, e
muito menos a carruagem, cujo balano (dizia elle) no podia dar grande
saude aos bofes d'um homem gordo. O orgo que o senhor Antonio
respeitava mais na sua economia eram os bofes, de que se queixava pondo
a mo no estomago. Naturalmente suppunha que tinha o figado no peito.
Era um erro de anatomia desculpavel. Eu proprio, que j tive a honra de
vos dizer que sei tudo e mais alguma cousa, no tenho absoluta certeza
da collocao do figado, supposto que fui em anatomia estudante
profundo, a ponto de querer provar que o duodeno (tripa de doze
pollegadas) tinha, pelo menos, trinta e duas braas. E ainda hoje estou
n'isto, diga l o que disser Bichat, e Soares Franco. Em consequencia do
que, tinha muita razo o senhor Antonio em recear que o balano da
carruagem lhe prejudicasse os bofes situados no estomago. Mas a senhora
D. Maria Elisa de Sarmento Athaide lra nos livros que a carruagem era
hygienica, e o senhor Antonio renuncira, como vimos, o pensamento do
carroo.

O jantar do senhor Antonio, n'este dia, foi rapido e pequeno, porque ao
corao refluira-lhe quasi toda a sensibilidade do estomago. O senhor
Antonio limitou-se a comer obra de arratel e meio de cozido da perna,
uma travessa de arroz com rodellas de linguia, uma concava pelangana de
carneiro ensopado com batatas, uma tigela de chorudo caldo com spas que
se levantavam entumecidas quatro pollegadas acima do nivel da tigela, um
quarto de ceira de figos de comadre, alguns copos de vinho  proporo,
e mais nada. A senhora Angelica, assustada do fastio de seu irmo, pouco
mais comeu. O amor espiritualisra a organisao do nosso amigo o senhor
Antonio Jos. Mais tres dias d'esta quasi abstinencia de anachoreta, e o
sensivel negociante, um pouco pallido, e outro pouco meditabundo,
poderia sem favor, ser tido e havido como a preexistencia d'estes
rapazes, que ns conhecemos, e lamentamos na sua desesperao de amantes
no comprehendidos na face da terra!

--Ai! quem me dera poder-vos dizer que o senhor Antonio,  hora
melanclica do crepusculo, fixava o lho lagrimoso na amplido dos cos,
espreitando o fulgor da estrellinha que o enamorava de l!

Eu daria de graa este meu romance, se podsse, em estylo scintillante
umas vezes, e outras morbido, afianar-vos que o senhor Antonio Jos da
Silva fra poisar a sua redonda pessoa na fraga de--beira-mar, e ahi
com os olhos no horisonte, e os bofes arquejantes, perguntra  gaivota
gemebunda o segredo dos seus gemidos!

No  possivel, leitores. O senhor Antonio o mais que pde fazer, no
auge da paixo, foi comer assim. No exijam mais d'aquelle homem, porque
d'ahi ao suicidio vai s um passo.

Antonio Jos da Silva, meu sympathico heroe, tu passaste sobre a terra,
e a tua gerao no te comprehendeu!

Tu nasceste para estes nossos dias de angustiosa provao, de sentimento
fino, de doloroso trespasse d'uma civilisao material para o reinado do
espirito.

Se vivesses hoje, serias ordeiro, e visconde; terias ido s camaras
fallar na cultura da cebola-albarr, e na estrada concelheira de
Guinfes e Terras de Bouro; comerias biscoutos na assembleia portuense,
e pedirias a palavra na associao commercial, para dizeres que eras um
honrado negociante. E no ficaria aqui a tua misso grandiosa. Se
morresse algum homem, rei do talento, e creador d'uma litteratura,
serias tu o encarregado de dar a tua ideia para um monumento que
perpetuasse a gloria d'essa illustrao![3]

Antonio Jos, vieste cedo de mais! Eu lembro-me de ti com saudades (e
mais no tive a honra de conhecer-te) todas as vezes que vejo a tua alma
cavalgando o nariz dos meus contemporaneos!

Lembro-me de ti, especialmente, quando me vejo a braos com uma paixo
sria, e no sinto c dentro ferir-me o toque inspirador com que tu,
depois de jantar, respondias assim  carta de Maria Elisa Sarmento de
Athaide:

                                                       _Ill.ma snr._

                                         _Porto, 27 de abril de 1818._

_Sem tempo para mais, recebi a sua estimada cartinha, que veio muito a
proposito, porque eu j no estava bom. Vejo o que me diz, e a respeito
de tudo no tenho nada a dizer contra. Eu no sou d'esses sovinas que
so capazes de engulir,  hora da morte, o dinheiro, como certos
avarentos que eu conheo. A menina no ha de ter falta de cousa nenhuma;
ponto  que tenha juizo, e que saiba conduzir-se. O que eu tenho seu ,
e de mais ninguem. Gostei muito de a ouvir discorrer na sua carta, e
fallou bem a respeito do matrimonio. Eu gosto de quem me entenda, e, a
respeito do mais, deixe o negocio por minha conta. Logo que esteja
resolvida, botam-se os banhos, e faz-se isto depressa, que  o melhor.
Sem mais, sou_

                                                             _De v. s._

                                                _Vosso amante do corao_,

                                                _Antonio Jos da Silva._


Maria Elisa leu ssinha, com frouxos de riso, esta carta. O estimulo do
riso cedeu ao da meditao. Momentaneamente, a melancolia ennuviou o
semblante da pensativa menina. Parece que estava sentindo vergonha ou
piedade de si. O pensamento de quebrar com uma gargalhada aquellas
relaes, assaltou-a duas vezes; mas o pensamento de ter carruagem e um
bello futuro por detraz da campa de seu marido, assaltou-a tres vezes, e
venceu por um assalto, posta a sua alma a votos.

Rosa Guilhermina, desde o dia anterior, no lhe fallava. Esta demazia de
aspereza concorreu muito para a definitiva resoluo do casamento,
porque o seu orgulho dizia-lhe que os amuos de Rosa eram o effeito da
dependencia. De mais a mais a colerica filha da Anna do Carmo tinha-lhe
dito que tal casamento no seria feito em sua casa. Que sahisse ella
para onde quizesse, porque, no momento em que annuisse a tal infamia,
terminavam de todo em todo as suas antigas relaes. Isto foi de mais:
mas a filha da Anna do Carmo tinha uma costella de sua me, e essa
costella vencera, na questo, as vinte e tres de seu pae.

O portador da carta esperava a resposta.

Maria Elisa, passada uma hora de lucta, dolorosa talvez, respondeu
assim:


_No tenho nada que esperar. Pde dar como resolvido o nosso casamento.
Cumprirei a minha palavra, quando v. s. quizer. Eu recolho-me hoje
mesmo s orphs._


Depois, entrou no quarto de Elisa, com os olhos rasos de lagrimas,
talvez as menos inteligiveis de todas as lagrimas de que tenho fallado:

--Rosa, acabo de decidir definitivamente o meu casamento. Cumprindo as
tuas ordens, venho despedir-me de ti.

--Estimarei que sejas feliz.

--Devo considerar acabadas as nossas relaes de amizade?

--Deves.

--Menos as da gratido, porque te sou muito devedora.

--Dou-te paga e quitao d'essa divida. No quero mesmo ser tua credora,
porque me envergonho.

--E eu tambem... e cada vez mais. Hei de avaliar a dinheiro os teus
favores, e darei  Sancta Casa da Misericordia esse dinheiro, por tua
teno.

--Basta! Eu no admitto escarneos! Basta de affrontas!

--Cada vez agradeo mais  Providencia a inspirao de me casar...
adeus...

Rosa Guilhermina pensou alguns minutos, arrependeu-se, e correu a
procurar a sua amiga para pedir-lhe perdo d'um accesso de clera, filho
do amor. J a no viu. Tinha sahido com a sua criada, e deixra um
bilhete com estas linhas:


_No levo os vestidos de meu uso, porque no so meus. Comprou-os com o
seu dinheiro a senhora D. Rosa Guilhermina. Deixo-os para serem
avaliados, e descontados depois no saldo das nossas contas._


A filha de Anna do Carmo, outra vez atacada de raiva, foi aos vestidos,
e rasgou-os com mos e dentes, praguejando.

Que taes eram as bichas!




CAPITULO XVI


No conheo palavra que vos d uma cabal ideia da sensao suavissima
que atravessou at ao corao os tecidos adiposos do senhor Antonio,
quando os seus olhos peccadores leram o bilhete de Maria Elisa. A ultima
linha, porm, essa que declara a entrada da noiva no recolhimento,
fendeu no peito do alvoroado negociante um vesuvio d'amor, misturado de
orgulho, por se vr amado d'uma donzella, que to nobre amostra dava da
sua virtude.

Cinco minutos depois que Elisa entrra, com grande pasmo e m vontade da
regente, era procurada na portaria pelo rico negociante, muito conhecido
n'aquella casa, em virtude dos cargos importantes que tivera na Sancta
Casa da Misericordia. A pedido do senhor Antonio, a regente acompanhou a
menina  grade em que era esperada pelo mais ditoso dos mortaes.

Trocados de parte a parte os cumprimentos, o festival Antonio Jos da
Silva abriu assim a questo do momento:

--Senhora regente, no sei se essa menina j lhe disse que ser
brevemente minha esposa.

--Nada, ainda no... E estava calada com isso? Receba os meus parabens,
minha ruimzinha, que me fez cabellos brancos com as suas travessuras...

Elisa sorriu-se, e o noivo atalhou:

--Creancices... tudo tem o seu logar. Agora ahi onde a v  uma mulher
de tino, que sabe o que lhe convm, e no d ouvidos a tlas... Eu c me
entendo... Pois, senhora, como lhe vinha dizendo, trata-se o nosso
casamento, que ha de fazer-se, querendo Deus, o mais tardar quinze
dias... Esta menina veio outra vez para aqui l por cousas que ella
sabe, e fez ella muito bem... Com doudos nem para o co... Eu c me
entendo... Acho que por poucos dias no ser necessario arranjar casa c
dentro, e eu venho pedir  senhora regente o favor e obsequio de m'a ter
na sua companhia, que eu hei de saber-lhe agradecer de modo que...

--Pois no, senhor Silva!? No s isso, mas tudo o mais que estiver ao
meu alcance... O que eu sinto  no ter um palacio para lhe offerecer;
mas a boa vontade supprir as faltas.

--Muito agradecida, senhora regente--disse Elisa, entristecendo-se a
ponto de lhe tremerem as lagrimas nos olhos.

--Que tem, minha menina, chora, quando vai ser to feliz?

--Nada... eu no choro...

--So saudades da sua amiga Rosa?

--No, minha senhora... eu no tenho saudades de amiga nenhuma.

--Diz muito bem...--acudiu o jucundo negociante--Saudades so
seccuras... ora adeus! Saudades de qu? A menina, no precisa de
ninguem... Eu vou ser seu marido, e seu pae, e seu amigo. No lhe ha de
faltar nada, e no ha de faltar quem se morda de inveja... eu c me
entendo... Ento fiquemos certos no pedido que lhe fiz?

--J disse, e repito, senhor Silva; na minha companhia s no prometto a
esta menina o impossivel de fazer-se n'estas casas para estar bem...
Ella j sabe como  o recolhimento, e no estranhar as faltas...

--De certo no estranho, minha senhora; isto hoje parece-me mais bello
que nunca. Hei de gosar, na sua preciosa companhia, deliciosos
momentos...

--Mais deliciosos ha de ir gosal-os depois na companhia do senhor Silva,
que  um homem honrado, e que sabe dar valor ao merecimento da menina.

--Isso pde ella estar certa, que se a no tratar melhor  porque no
sei... Ora pois, senhora regente, eu queria fallar em particular com a
minha futura esposa.

--Eu retiro-me, senhor Silva. Fique na certeza de que serei como tia
d'esta menina.

--Ora, minha cara menina--disse o negociante logo que a regente sahiu--
necessario preparar os seus arranjos para o casamento. Eu no sei l
d'esses enfeites de noiva, seno eu seria o proprio comprador. A menina
mande chamar costureiras, e ourives, e l essa gente que vende as
trapalhadas. Aqui deixo cem peas; sendo necessario mais, no tem seno
escrever-me um bilhete... Tambem lhe quero offerecer uma prenda, que me
no pareceu fra de proposito:  um pente de diamantes, que lhe ha de
dizer bem com o cabello, acho eu.

--Agradecida.

--Aqui no ha que agradecer. Eu bem sei que a menina l lhe parece que
eu sou algum unhas... Est enganada de meio a meio. Eu sou sovina com
quem me parece; mas com a que ha de ser minha mulher dou muitas graas a
Deus por ter muito que gastar com ella, assim Deus nos d saude para o
gosar. Ento que me diz?

--Digo que o pente  riquissimo, e que estou muito penhorada dos seus
generosos sentimentos para comigo.

--No ha de qu. O que eu quero  que a menina se porte bem, e no d
que murmurar s linguas damnadas... Eu c me entendo...

--Farei tudo que em mim caiba por merecer um bom conceito de toda a
gente.

-- o que se quer. Ora diga-me, qual gosta mais, de viver na aldeia ou
na cidade?

--Na cidade. Eu no gosto da aldeia; e v. s. gosta?

--Deixemo-nos de _senhorias_; o melhor  _tu_ c, _tu_ l, no lhe
parece, menina?

--Eu pedia-lhe licena para por emquanto no tomar a liberdade de lhe
dar tal tratamento. V. s. pde tratar-me como lhe aprouver.

--Pois ento l como quizer. Eu c acho mais no sei que no corao se
lhe dr um _tu_.

--Pois satisfaa o seu corao, que eu tenho muita gloria em merecer-lhe
esse novo signal de estima.

--Pois ento ahi vai... Com que ento tu no gostas da aldeia? Ests-te
a rir? Pois olha que eu gostava da aldeia, e, desde que me disseste que
no gostavas, a fallar-te a verdadinha pura, tanto se me d, como se me
deu. Como te vi assim a modo de poeta, pensei que gostavas de ouvir
cantar os passaros, que  a mania dos poetas, que todos fallam em
rouxinoes, e no sei em que outros passarlos que se chamam graas, ou
garas, e zephyros, e no sei que mais ninhadas e aves, que ninguem
conhece, penso eu. Vs l sabeis essas cousas... Olha como ella se
ri!... Eu bem sei porque tu te ris, minha cachorrinha!... Eu j sei que
tu botas sonetos...

--Eu?... que graa!... eu no sou poeta.

--No? antes assim. Isto de ser poeta no  l grande cousa. Pelos
modos, o milo dos taes patavinas no regula bem... Eu sempre tive c
minha birra com homens que fazem d'isso. Ha de haver nove annos que fui
a Lisboa, e vi l um poeta, chamado... assim a modo de... era um nome
estrangeirado...

--Bocage?

--Tal e qual; era o tal Bocage; estava no Rocio,  porta d'um
botequineiro, e eu passava, e disse-me um meu amigo: queres vr o...
o... como era?

--Bocage.

--O Bocage... agora no me ha de esquecer... e vai elle olha para mim,
muito srio, e bota-me um soneto que no sei que diabo dizia, que toda a
gente se riu... Acho que o tal Borrage...

--Bocage.

--Valha a breca o tal nome, que tem que se lhe diga! Acho que elle era
tlo, e os outros no tem mais juizo que elle... Pois muito folgo saber
que a minha esposa no  poeta... Ora diz-me: tu sabes alguma cousa c
d'estas cousas do ar?

O senhor Antonio fez, sobre a cabea, um gesto com as mos, que poderia
significar uma pergunta de honestidade equivoca.

--Que so cousas do ar?

--Sim... perguntava eu se sabias alguma cousa dos planetas...

--Astronomia? Tenho lido alguma cousa.

--Ento has de saber quando est para vir chuva?

--Ainda no estudei essa parte. Eu penso que a chuva vem quando os
vapores condensados na atmosphera...

-- isso mesmo... Ora diz-me uma cousa que me tem dado que pensar. L em
cima na lua diz que anda gente como por c?

--Penso que no ha certeza d'esse phenomeno.

--D'esse?...

--Phenomeno...

--Se te no custa diz-me o que  isso?  algum planeta?

--Nada, no ... Phenomeno  uma maneira de existir na ordem natural das
cousas, manifestada de modo que as leis dos systemas conhecidos no
attingem a lei que rege esses actos...

--Ah! agora entendi... Olha que tu sabes mais do que um frade loio que
ahi ha muito sabio, e que teve o descco de dizer que a terra anda 
roda!... Que te parece a cavalgadura?

--Eu acho que elle disse scientificamcnte a verdade.

--Essa  boa! Pois se a terra andasse  roda, tambem ns andavamos
sempre com os focinhos pelo cho... Deixa-te d'isso...

-- illuso sua. Ha uma razo que nos sustenta na posio direita em que
estamos.

--Bem sei que so as costas das nossas cadeiras; mas, se a terra andasse
ao redor, cahiam as cadeiras comnosco.

--No  essa a razo...  que todos os corpos pendem para o centro da
terra...  o que se chama lei da attraco.

--Ah! agora entendi... _todos os corpos sahem do centro da terra_...

--_Sahem_, no: _pendem_.

--Sim, _pendem para a lei da attrico_... No te rias, que toda a gente
aprende quando no teve l esses principios o latim, e da grammatica...
Cada qual tem o seu trfego. Eu c na minha officina do commercio sei
como os que sabem. L de rhetoricas no sei nada, a verdade deve
dizer-se; mas, se Deus quizer, tu has de dizer-me como  isto c de
cima. Eu s vezes ponho-me a olhar para esta machina, e fico estarrecido
horas e horas a vr o que ns somos, e como o Creador fez tudo isto para
ns.

--Para ns? Eu no sei de que nos servem as estrellas...

--No sabes? A fallar a verdade, eu tambem no; mas ouvi dizer que as
estrellas de alguma cousa servem.

--Tambem creio que sirvam; mas para ns no lhe vejo a utilidade.

--Ento os livros no resam d'isso?

--No achei ainda uma explicao precisa.

--Pois, minha Mariquitas, esto-se fazendo horas de ir ao jantar.
Deixamos isto para outro dia, que no ha de faltar occasio de fallarmos
a respeito da sabedoria. V l se queres alguma cousa...

--No preciso de nada.

--manh  a primeira corrida de banhos... De manh a quinze dias
effectua-se o negocio; e ficmos arrumados d'aqui. Adeus, menina, at
manh.

O senhor Antonio sahiu, com o espirito remoado, e a cabea aturdida de
ideias novas sobre astronomia. Contente, como nunca, o milagre de vinte
annos de menos no daria s suas pernas trpegas a agilidade com que o
viram passar nas Fontainhas.

Mal elle tinha sahido, quando Rosa Guilhermina entrou no pateo, e pediu
 porteira que lhe chamasse Maria Elisa.

A resposta foi que a senhora D. Maria Elisa no recebia a visita da
senhora D. Rosa, porque no queria envergonhal-a com as suas relaes.

A filha do arcediago instou, supplicou, fez empenhar a regente para que
a orph lhe fallasse. A regente, porm, que no queria importunar a
noiva de Antonio Jos da Silva, antigo mesario da casa, negou-se s
instancias da lagrimosa menina.

Dera-se um forte motivo para a recusa teimosa de Elisa. Quando ao
despedir-se do negociante, subia para a casa da regente, entregaram-lhe
no caminho um bah e uma chave. Elisa entendeu que eram os seus
vestidos, que a attribulada amiga lhe mandava. Abriu o bah para tirar
um chaile, e viu tudo espedaado. A indignao coincidiu com a vinda de
Rosa, e Rosa, arrependida, correra ao Recolhimento para estorvar a
entrega do bah.

Era impossivel a reconciliao.  ultima impertinencia de Rosa
Guilhermina, a orgulhosa respondeu que podia j dar-lhe algum dinheiro
por conta do que lhe devia, e remetteu-lhe a sacca com as cem peas que
lhe deixra o negociante.

A filha de Anna arrojou-as ao cho, e sahiu furiosa, promettendo
vingar-se da nova villania.

Maria Elisa ficou satisfeitissima d'aquelle rasgo, e sentiu, pela
primeira vez na sua vida, que, sem dinheiro, ninguem pde ter rasgos,
nem mesmo pde contar com que romancistas futuros se entretenham da sua
pessoa.

Oh meu caro Antonio Jos! tu de astronomia no sabias muito; mas tinhas
d'aquella cousa que faz descer os astronomos c para baixo!




CAPITULO XVII


--Quem  aquelle peralvilho que bate  porta da D. Rosa?

Temos namoro, se dermos ouvidos  tia Bernarda Estanqueira, que mora na
viella do Bomjardim, e que tem um lho na balana do simonte, e o outro,
que por signal  vsgo, na porta da filha do arcediago.

--Que berzabum de escanellado ser aquelle, que parece que traz
espartilhos! Valha-o a breca que to tezo est! Aquillo no me parece
homem c do Porto! Parece mesmo um comediante d'aquelles que berram umas
cantigas na casa das operas da Batalha...  tia Joaquina! (_a tia
Joaquina era uma visinha, que estava dobando ao sol_) vmc.e no v acol
aquelle ingarilho que j puxou duas vezes a sineta?

--J vi.

--Conhece aquella avantesma que me parece mesmo o peccado?

--Conheo... ora se conheo!... Aquelle  o sobrinho do senhor Antonio
da rua das Flores, que me tem dado muito posinho. Quando eu ia d'antes
levar-lhe os novellos do algodo, aquelle menino era caixeirinho na
casa; mas pelos modos elle agora estuda para doutor.

--Sim? pois olhe que d'aquelle magricellas no pde sahir grande doutor!
Acho que um homem assim no tem boas as memorias, nem sustancias para
saber l aquellas cousas da justia... Elle l entrou... Quer vmc.e vr
que a delambida da rapariga anda de namoro com elle!...

--Agora!... Se fosse isso, elle no entrava assim ao pino do meio dia...
acho eu!

--Boa vai ella!... Pois vmc.e pensa que as raparigas d'agora so como as
do nosso tempo? Diz o fr. Manoel do Sancto Lenho, dos carmelitas, que j
no ha vergonha nem temor das penas do inferno!... E quer que lhe diga,
tia Joaquina? Quanto mais fidalgas, mais desavergonhadas!... Inda hontem
a minha Euzebia, que est em casa d'uma certa fidalga que vmc.e sabe to
bem como eu, me contou que a sua ama estava com um inglez  janella a
dar-lhe beijos, e que elle lhe dava belisces nas pernas. A minha
Euzebia deu f d'esta pouca vergonha, sem querer; e a fidalga tambem viu
que a rapariga deu f; e disse-lhe depois: Euzebia, ns c as fidalgas
podemos fazer isto que viste; e vs outras plebeas, no, porque no
tendes nada seno a vossa honrasinha. Ora que lhe parece isto? d mesmo
vontade de lhe responder: V-se d'ahi, sua porca; se vossa excellencia
tivesse o miolo no seu logar no consentia que lhe estivesse um herege
l do fim do mundo a beliscar as pernas, e a pr-lhe os beios no
cachao! Fora com as libertinas!

--Tem razo, tia Bernarda... a religio  c s para as pobres. As ricas
o que querem  ir  igreja mostrar os aceios... Disse outro dia um
prgador na Victoria, que a casa de Deus estava sendo uma feira, e que
nosso Senhor pozera as _pelicanas_ fra do templo... As _pelicanas_ so
as fidalgas... Olhe l... aquella sumelga, que alli mora, ser fidalga?

--Acho que sim. O pae era o senhor arcediago de Barroso, e a me ouvi
rosnar que era uma das taes _pelicanas_...

--Consta que tem muito de seu.

--Muitos bragaes, muita prata, no sei quantas moradas de casas, e uma
quinta em Paranhos... Que comer no lhe falta; mas acho que a respeito
disto (_pondo o ddo na testa_) no regula l grande cousa... Veio aqui
ha dias  minha loja uma mulher de mantilha, ainda frescalhona, e
perguntou-me muitas cousas a respeito da tal rapariga. Quem entrava,
quem sahia, se ella andava pela rua, se tinha muitos aceios, em fim, eu
fiquei com a pedra no sapato, e c de mim para mim entendi que aquillo
era uma refinada alcayota. Tambem hei de saber quem tu s--disse c com
os meus botes--e mandei, assim que ella sahiu, o meu galleguito atraz
d'ella. Veio dizer-me que morava n'um baixo da rua Direita, e que se
chamava Anna do Carmo...

--Eu sou da sua ideia... isso era de alcofeira, que vinha saber se lhe
poderia entregar alguma cartinha d'aquelle fidalgo que mora  Victoria,
e que tem o nariz apurado para as moas como gato para boches. Ha de ser
isso...

--E olhe que no era outra cousa!...

--E eu at me parece que j o vi aqui passar uma noite.

--E eu tambem... Que signaes tem elle?

-- um pacabote baixo, com a carinha cr de cereja...

-- o mesmo, que eu vi, tem carinha cr de cereja, e os olhos a modo
de...

--So azues...

-- verdade, os olhos so azues... Era o mesmo em carne e osso... E
vmc.e viu-o entrar para l?

--No o juro; mas acho que entrou...

--Eu tambem no juro, mas parece-me que o vi entrar...

--Ento  que entrou... Que horas eram?

--Meia noite, mais quarto, menos quarto.

--Era elle... foi ha de haver quinze dias... tia Bernarda...

--Ha quinze dias...  isso mesmo... por signal...

--Que estava vmc.e no hospital, tia Joaquina, e no podia vr o que se
passava na rua--interrompeu uma terceira, que estava fiando a um
postigo.

--Quem a chama c?--disse a velha desmentida.

--No posso ouvir murmurar com mentira... nem me parece catholica!

--Ora metta l a sua religio no pucaro e coma d'ella, ouviu, sua
intromettida?

--Quem no quer ouvir no mente descaradamente.

--E que lhe importa a visinhana?

--E vmc.e que lhe importa aquella senhora que est mansa e quda em sua
casa?

--Se come por ella, ganhe a sua vida l como podr, e deixe conversar
quem conversa! Que lhe parece, tia Bernarda! sempre ha cada estafermo
n'este mundo!...

--Isso ha!...--disse a tia Bernarda, retirando-se para o estanco a pesar
dez reis de simonte.

--Estafermo ser ella!--replicou a honesta fiadeira.

--Cale-se ahi, sua trapalhona!

--E voss... sua lingua de trapos!

--Desavergonhada!

--Estupor!

--Bebeda!

--Pangaia!

--Feiticeira!

--Ladra!

--Ladra  voss!

--E voss come pela filha!

--E voss quando casou j comia pelas suas, e tem quatro que no
conhecem os paes!

--Ladra, ladra, ladra!

--Bebeda! bebeda! bebeda!

A tia Joaquina rematou a apstrophe, erguendo-se, e corcovando-se um
pouco com as costas para a visinha, e assentando tres palmadas que
provocaram esta resposta do postigo:

--Fra porca! regateira! vai vender sardinhas, grandississima beberrona!

Abriu-se uma janella de Rosa, e appareceu a cabea do sobrinho do senhor
Antonio da rua das Flores, como nol-o denunciou a desbocada Joaquina. J
no veio a tempo. O dialogo edificante emmudecera, e o observador correu
a vidraa, dizendo:

--No vi ninguem, minha senhora...

-- uma terrivel visinhana esta!--disse Rosa--estou anciosa pelo S.
Miguel para occupar o meu predio da rua do Almada...

--Tem razo, minha senhora; o bco  detestavel... Tornando  nossa
conversao, disse-me v. s. que no conhecia meio nenhum de obstar ao
casamento d'aquelle reloucado!

--Eu, pelo menos, ignoro os sortilegios que desmancham as loucuras d'um
velho...

--No ha meio de dissuadir a sua amiga?

--J lhe disse que no, senhor Augusto, essa pessoa nem  minha amiga,
nem  docil para ceder a instancias de ninguem. O que ella quer  ser
rica, e a occasio que se lhe offerece agora,  a mais propicia ao
complemento das suas ambies.

-- admiravel que ella, habituada com v. s., no aprendesse a nobreza
de caracter, e independencia com que a senhora D. Rosa repelliu a
fortuna de meu louco tio!

--Bem v v. s. que eu, se no sou rica, herdei a independencia, e Maria
Elisa julgou pessimamente a minha alma. Suppoz-me capaz de lhe retirar a
mo generosa que a tirra da servil condio de orph... Quer tambem ser
rica...

--V. s. desde creana mostrou um corao nobre. Lembra-se, ha quatro
annos, quando pedia a meu tio que me deixasse ir para Coimbra estudar?

--Lembro, perfeitamente... e elle enganava-me, dizendo-me que sim, e por
fim...

--Tinha-me traioeiramente preparado a minha ida para o Brazil, para se
vr livre das exigencias de minha pobre me, e irm d'elle, que lhe
pedia um subsidio para a minha formatura.

--E como pde depois v. s. obter os meios para ir estudar, independente
do subsidio de seu tio?

--Com o trabalho. Como sei francez, traduzo novellas, que vendo a um
livreiro de Lisboa, e do escasso producto d'este trabalho fiz a minha
independencia. Algumas dividas contrahi, na esperana de ser um dos
herdeiros da riqueza de meu tio. Quando cheguei ao Porto, e me disseram
que esse homem casava com uma orph, pensei que era v. s. a feliz ou a
infeliz destinada a essa gloria ou a esse sacrificio. Resolvi logo, em
nome de minha me, e em nome da nossa amizade de infancia, vir
supplicar-lhe que no tolhesse o nosso futuro, visto que v. s. era
rica. E vinha cheio de esperana, na certeza de movel-a em nosso favor.
Desgraadamente enganei-me; mas, de todo o meu corao lhe digo que
estimo vl-a livre d'um perigo tal. Com a sua formosura, com a sua
intelligencia, seria barbara a escravido a tal velho, que o ouro, e s
o ouro fez digno de vincular uma mulher nova quelle quasi cadaver.
Faz-me lembrar os supplicios de Mezencio!...

D'este arrazoado bem se v que o senhor Augusto Leite, estudante do 2.
anno juridico, traduzia novellas, e conservava alguma cousa de memoria.

Rosa, tocada no sentimentalismo, respondeu:

--Commoveu-me a sua narrao, senhor Augusto! Espero acredite que me
amarguram os seus padecimentos, e dra quanto possuo para minorar-lh'os.
Eu no me esqueo de que foi v. s. a unica pessoa de sua familia, que
me no enjoava com os tregeitos, momices e impertinencias d'uma baixa
educao. Sua me, que raras vezes vi, parecia-me uma celeste creatura.
Muitas vezes me disse que tremia de me vr n'aquella casa, porque eu era
o instrumento com que seu irmo ameaava destruir os planos de seus
sobrinhos. Ella enganou-se, e elle tambem. Eu s posso ser escrava,
quando a escravido me fizer rainha. Olhei sempre com enjo para esse
velho, e por fim detestei-o... Hoje, porm, chego a lamental-o, porque
vai ser um ludibrio de sua mulher. Quem ha de vingal-o, senhor Augusto,
 Maria Elisa. A indole d'ella conheo-a eu perfeitamente. Seu tio vai
ser a fabula do povo, e a sua nova tia ha de deixar nome; mas no
deixar bens de fortuna que tirem da miseria os seus herdeiros...

--Quanto  suave ouvil-a fallar, senhora D. Rosa! Quem diria que o tenro
boto abriria do seu seio uma linda flr, com taes perfumes!...

--Muito agradecida, senhor Augusto... Eu tenho deixado fallar o corao,
e creio que acreditar na extremosa vontade que tenho de ser
prestavel...

--V. s.  uma divindade. Minha me vir abraal-a como abraaria... uma
filha. Eu retiro-me com o corao embalsamado das suas palavras, e
entrei com elle atravessado de agudos punhaes. As suas expresses so
como a lyra do Orfeu, que adormecem as dres, ou como a harpa de David
que acalentava as tribulaes de Saul! (_extracto da_ LUIZA OU A CABANA
DO DESERTO_, pag. 26._) Ninguem diga que  verdadeiramente infeliz. Ha
anjos, encarregados de cobrirem de flres os espinhos que nascem sobre a
carreira de alguns mortaes! (_este  de pag. 31, de_ SOPHIA OU A
DONZELLA HOUZARD_, e no presta para nada hoje; mas n'aquelle tempo
tinha novidade._) V. s.  um d'esses anjos, e eu sou o mortal que
mereceu  Providencia Divina a benefica assistencia dos seus desvelos!
(OS SYBARITAS OU OS SUBTERRANEOS DE PIOMBINO_, pag. 41._) Se os meus
labios no tem ardentes phrases, o meu corao arde em penas de serem
frios os labios! (O HEROISMO DO AMOR_, pag. 202._) Finalmente, no a
importuno mais. D-me v. s. as suas ordens. (_Isto agora  d'elle._)

--Espero que me faa muito recommendada a sua me,  qual offereo a
minha casa; e v. s., dignando-se honrar-me com a estima que outr'ora
lhe mereci, muito me obsequeia vindo aqui passar alguns instantes de
conversao.

--Eu tenho a honra de offerecer a v. s. as novellas que tenho
publicado. Se fossem minhas, no me atreveria a tanto; mas, como so de
bons authores, e apenas tem de meu a incorrecta verso...

--Penhora-me muito com a sua offerta, que acceito, grata  sua mimosa
lembrana. Eu amo a leitura das novellas, e quando, nas que me offerece,
esto vestigios da sua applicao, muito mais grata me ser essa
leitura.

--Serei eu o portador, se me der licena.

--Mais valiosa prenda devo reputal-a...

--s ordens de v. s.

--Muito boas tardes... Joaquim, acompanha este cavalheiro.

--Sem incmmodo, minha senhora.

--Permitta...

--Por quanto ha...

--Eu no consinto que v s... no sabe as sahidas...

--Oh! minha senhora,  muito desvelo...

-- um dever... oh!...

--Ah! minha senhora...  muito...

--No consinto...

--Por quem ...

--Muitos recados a sua me...

--Ha de presal-os infinitamente...

--Senhor Augusto...

--Senhora D. Rosa Guilhermina...

Emfim, despediram-se! Estavam bonitos! O tio e o sobrinho tocavam-se
pelos extremos.

Rosa Guilhermina olhando-se a um espelho para ajuizar do merito da sua
pessoa, momentos antes, dizia comsigo:

--Eis alli um perfeito mancebo! Ninguem dir que  sobrinho d'aquelle
bruto! Como  sublime! Aquella linguagem toca!...

Vamos vendo que a filha do arcediago danava facilmente quando a
linguagem tocava...

Faz ella muito bem. Est na flr da sua idade, e Deus no lhe deu os
talentos para escondel-os na terra. O seu corao anceia um confidente;
o seu espirito ambiciona applausos, a sua alma no veio to cheia de luz
para se esconder debaixo do meio alqueire. N'esta especialidade, raras
so as mulheres que no obedecem ao preceito do Evangelho. Se faltam a
muitos outros,  porque o homem divino, que conhecia a fragilidade da
creatura, dissera: A carne do homem  fraca. Ora, eu, pelos vastos
conhecimentos que tenho de anatomia, affirmo que a carne da mulher no 
mais forte.

E, por consequencia, se a senhora D. Rosa Guilhermina me dissesse:

--Vmc.e faz favor de me dizer se devo embalsamar com meus perfumes
aquelle gentil moo, que me parece um genio?

--Embalsame-o, minha senhora; perfume-o  sua vontade (lhe responderia
eu), e quando no tiver incenso, nem myrrha, sirva-se d'aquella offerta
dos tres reis, que a historia do tempo pz em primeiro logar...




CAPITULO XVIII


Se eu bem lh'o dissesse, ella melhor o faria.

A indignao contra Elisa, n'essa tarde, cedeu o logar a novas
sensaes. A litterata punha a mo sobre o peito, e dizia: Eu tenho
aqui alguma cousa nova!

E parece que tinha!

Lembrava-se de cinco situaes, em varios romances, similhantes  sua.
Encontrava-se a cada passo com a imagem de Augusto Leite. Achava
extraordinaria a coincidencia de dous espiritos sublimes. Divinisava
aquelle encontro, lanando s largas costas da Providencia a
predestinao de se verem creanas, e encontrarem-se na idade em que os
coraes no resistem ao superior destino da sua unio. No ha nada como
a mulher espirituosa!

O futuro bacharel da sua parte no era to metaphysico. Quando procurou
Rosa j trazia na carteira um calculo aproximado do patrimonio da sua
companheira de infancia. E depois que a ouviu, indagou as cousas de modo
que o calculo no lhe falhava em 3$200. Era um poeta da fora de quatro
dromedarios em prosa vill. Tirem-lhe o francez, e ponham-lhe dezoito
arrobas de carne, tero o seu digno tio Antonio Jos da Silva.

Na manh immediata a senhora D. Custodia Hermenegilda da Silva,
acompanhada de seu filho, e tres novellas vieram visitar a filha do
arcediago. O academico depz respeitoso a offerta nas mos (que no
chamo lindas, porque no minto) da agradecida menina.

As mil cousas da conversao, particularmente cerca de Elisa,
resumil-as-hemos na ultima pergunta, que D. Custodia, passeando no
jardim a ss com D. Rosa, lhe fez emquanto seu filho, de proposito,
folheava os romances da poetisa.

--Porque se no casa, menina? Precisa quem administre a sua riqueza,
quem lhe sirva de companhia, e lhe merea o seu bom corao. Casar pobre
 uma desgraa; mas na sua situao, o casamento deve ser a felicidade
de toda a vida. A tal no a aconselho eu com um homem estragado. Eu sou
um triste exemplo d'essa leviandade. Meu marido era um letrado, muito
sabio, o melhor advogado do Porto, mas o mais extravagante homem que
imaginar-se pde. Casei contra vontade de minha familia, e por isso,
quando meu marido dissipou a minha legitima e a d'elle, deixando-me por
herana este filho que tanto me tem custado a educar, meu avarento irmo
negou-me um subsidio para ajudar a formatura de seu sobrinho. Nasci em
casa rica, e tenho sempre vivido pobre. Minha irm Angelica  uma beata
estupida, que nem irm me quer chamar. Estas e mil outras infelicidades
me tem obrigado a amaldioar a hora em que casei: mas... se me lembro de
meu marido, que era um doudo infeliz, no lhe amaldio a memoria.

--E se eu deparasse um homem como seu marido?

--No d esse passo cegamente, menina. Estude bem o caracter dos homens,
e, quando encontrar um como meu filho, case-se, que  venturosa, e d a
ventura a um mancebo digno d'ella... Vejo-a pensativa!... Eu no lhe fiz
pergunta nenhuma, senhora D. Rosa, a que a menina deva responder com a
cr na face... Estou certa que v. s., conhecendo a fundo as virtudes de
meu filho, seria a primeira a chamar-me me... e, se as circumstancias a
privaram de conhecer a sua, acharia em mim... Que sobresalto  esse?!
Sente-se opprimida? Foi por lhe fallar em sua me?... desculpe-me, que
eu no cuidei que a magoava...

--No me maga... Isto so reminiscencias da infancia...

--Conheceu a mesinha?

--Mal me lembro... vi-a, sendo eu creana de seis ou sete annos...

--Ella j morreu?

--Penso... que sim...

--Que prazer no teria ella em conhecel-a to linda, to esperta...

--Talvez me odiasse, como me odiou...

--Pois ella...

--No v que me abandonou?

--Talvez violentada por circumstancias...

--Muito por sua livre vontade...

--Sim?! ento era uma indigna me... e desculpe-me...

--De certo era... uma indigna me... meu pae nunca me fallou d'ella...

--Tal era a differena que elle conhecera entre me e filha... Ora,
pois; no soffra por tal motivo, minha menina... Quer-me para sua
me?...

--De certo... queria.

--Eu estou-me a rir... Esta pergunta no devia fazer-lh'a, sem que a
menina tivesse do caracter do meu Augusto um seguro conhecimento... Isso
ha de vir com o tempo; e, se o corao lhe no repugnar, acceite-o como
marido... No  rico; mas o seu patrimonio  o amor que elle tem ao
trabalho, e o seu talento que lhe promette creditos similhantes aos de
seu pae, que tratava pouco dos seus interesses. De pae a filho vai
grande differena. Um pensava no dia presente; o outro pensa no dia
futuro... Tem sido bem grande a minha impertinencia, no  verdade?

--Pelo contrario, deleita-me a sua conversao, e captivo-me dos
carinhosos desvelos que emprega na minha ventura... Oxal que eu nunca
desmerea no conceito da minha amiga...

--Espero que assim seja... Diz-me o corao que teremos de ser muito,
muito amigas, que viveremos unidas muitos annos, e que fallaremos com
prazer do bello dia que temos passado... Ahi vem o Augusto!... sempre
com os livros de volta...

--So as _Cartas a Sophia_ por Mirabeau... No pensei que a senhora D.
Rosa conheceria esta obra...

--Porqu?

--No  muito propria para leitura de meninas.

--Que tem? Se eu entendo as ideias d'esses livros,  que elles no me
dizem nada novo; e se as no entendo, nada perco da minha innocencia.

--Acaba v. s. de apresentar uma ideia que opra uma completa revoluo
na minha maneira de encarar as novellas! Tem razo!... Vejo que  no s
sublime, mas at rasoavel no seu systema!

--Creia que disse a verdade; e, seno, despersuada-me que eu serei
docil...

--No a contradigo, minha senhora. Pelo contrario, sou da sua opinio.
Minha me, esta menina  um anjo, e tem um talento extraordinario...

--No o creia, minha senhora.

--No preciso que m'o diga. Meu marido soube dar-me o gosto para
apreciar o merito das pessoas. Se fiquei pobre de bens, posso
afoutamente dizer que o no fiquei de intelligencia. A senhora D. Rosa
Guilhermina  um portento. Ninguem dir o que aqui est, sem se lhe
importar com o mundo, onde as tlas, com algum palavriado, recebem
acclamaes de espertas.

--Ai! eu no ambiciono lisonjas do mundo!... Gosto de saber, porque o
meu espirito precisa d'este alimento.

--E o seu corao?--perguntou Augusto.

Rosa baixou os olhos, e a sua linda face, cr de cereja, fez-se mais
linda.

--So horas de nos retirarmos--atalhou a irm do negociante, que resumia
em si a finura que a natureza caprichosa no quiz regularmente
distribuir na sua numerosa e estupida familia.--Menina, d-me um abrao.

Augusto apertou a mo de Rosa, que hesitava, no obstante as _Cartas a
Sophia_... Despediram-se com requebros e olhaduras de varios modos, e
feitios, de parte a parte.

Seguiram-se as visitas regularmente. D. Custodia Hermenegilda acompanhava
sempre seu filho. (Seja dito para socego da opinio publica.) A
estanqueira reformou a sua opinio a favor de Rosa, e vingou-se em pedir
trinta reis de divida de simonte, que a fiadeira intromettida lhe devia.
A outra, que dobava, e cujo nome no me lembra, vingou-se da visinha,
batendo-lhe  porta alta noite. Tantas vezes repetiu a graa, que se
constipou, e constipao foi esta que a pobre mulher morreu no hospital,
declarando,  hora da morte, que nunca vira entrar de noite homem nenhum
em casa de Rosa, e que fra a estanqueira que a mettera n'aquella
alhada: declarao que fazia para que Deus no condemnasse a sua alma,
traste, realmente, de que Deus, de bom grado, se dispensaria, e ns
tambem.

As mulheres dos meus romances quasi todas so honestas pessoas, que se
casam. S quando de todo em todo no posso falsificar a tradio em
honra das minhas heroinas  que as sacrifico ao nariz-torto das mes de
familia, que, quasi sempre, exprimem com o nariz a sua justa indignao
contra os romances em que os amantes no casam por fim.

Benignas senhoras, exultai, que a moral triumpha em todas as minhas
obras. D. Rosa Guilhermina resolve casar-se na frma do sagrado concilio
tridentino e constituio d'este bispado com o senhor Augusto Leite. O
juiz dos orphos concedeu a licena, e o senhor Antonio Jos da Silva,
embriagado da ventura propria, estimou que seu sobrinho arranjasse
mulher com dinheiro, unica esperana, que elle negociante tinha de
evitar as mendicantes perseguies de sua irm.

Se imaginam que os noivos deviam dizer muito bonitas phrases,
enganam-se. Namoraram-se pelas novellas, e liam ambos a pergunta e a
resposta dos dialogos mais apaixonados. A senhora D. Custodia assistia a
estas leituras, e lagrimejava de ternura.

A constante presena d'esta senhora ao lado d'elles, authorisa-me a
dizer-vos que nunca as duas creaturinhas do Senhor tiveram occasio de
adiantar-se um beijo por conta do matrimonio. Eu no sei que se tenha
feito um namoro mais honesto que aquelle!  um gosto a gente
encarregar-se de archivar estes casamentos que fazem honra ao genero
humano! A intelligencia gosa, o corao consola-se, a virtude dana a
polka, e o vicio envolve a cara hedionda no seu _cache-nez_!

Oh! Bemaventurados, em duplicado, aquelles que me lerem! O futuro far
justia  candura das minhas intenes!




CAPITULO XIX


O NOIVADO


DRAMA EM UM ACTO


PERSONAGENS

      _D. Maria Elisa de Sarmento e Athaide._

      _Antonio Jos da Silva._

      _D. Angelica Athanasia da Silva._

      _Joo Alves Rodrigues_ }

      _Manoel Jos Fernandes_} Convidados.

      _Joaquim Joo Baptista_}

      _O snr. Joo Pereira_, o do chin.

      _Um encapotado._

A scena passa-se na rua das Flores, em casa do senhor Silva. Vista de
sala decorada, segundo a poca.

D. Maria Elisa, e seu marido esto sentados no canap.  esquerda do
senhor Antonio est sua irm. Os convidados esto em frente do canap,
com as costas voltadas para ns.

O relogio de S. Domingos d meio dia. Ouvem-se as regateiras que
apregoam robalinhos na rua.


SCENA I

O SENHOR ANTONIO

(_batendo na respectiva perna_)

Meus amigos, mal diriam vmc.es que eu viesse por fim de contas a casar!
Ninguem diga d'esta agua no beberei! Um homem, emquanto anda n'este
mundo, no sabe para que veio...

O SENHOR FERNANDES

(_ parte_)

Ella t'o dir...

O SENHOR ANTONIO

Eu no tinha, at ha pouco, na cabea... (_sensao nos espectadores
emquanto o orador se assa_) no tinha na cabea a ideia de me casar,
porque, emfim, os tempos no vo muito bons para alguns maridos que eu
conheo... O nosso visinho Joo Pereira, do chin, que o diga...

D. MARIA ELISA

Que historia  essa do Joo Pereira, em que o senhor Silva j me fallou
de passagem duas vezes?

D. ANGELICA

Ora o que ha de ser? Os nossos peccados, cunhada...  uma mulher que o
demonio tentou, Deus me perde, se pecco... No gosto de murmurar... 
mesmo uma vergonha... Est vestida e calada no inferno...

D. MARIA ELISA

Quem? No comprehendo...

D. ANGELICA

Quem ha de ser? Ella, a birbantona, que deu a mo de esposa a um, e anda
por ahi sempre... como se diz, Antonio?

O SENHOR ANTONIO

Como se diz o qu?

D. ANGELICA

Como  que dizem os prgadores d'esse peccado?

O SENHOR ANTONIO

No so os prgadores,  o nono mandamento.

D. ANGELICA

Pois sim; mas os prgadores chamam a essas mulheres... _indultas_...
_adultas_, ou no sei que...

O SENHOR FERNANDES

Adulteras?

D. ANGELICA

Isso mesmo... Eu uma cousa assim nunca vi na minha vida!... Em nome do
Padre, e do Filho, e do Espirito Sancto... Assim que v um homem na rua
a olhar para ella, s duas por tres, faz-lhe gaifonas com a gata...

D. MARIA ELISA

Com a gata?

D. ANGELICA

(_remedando com a manga do capote de castorina amellada_)

Pe-se assim com a gata no collo a bulir-lhe na cabea...

D. MARIA ELISA

E isso que quer dizer?

D. ANGELICA

Eu sei c?  o peccado... Acho que a gata l tem cousa de feitiaria,
porque os homens ficam de bca aberta para ella!

O SENHOR FERNANDES

Acho que no  para a gata...

O SENHOR BAPTISTA

Eu tambem sou da mesma opinio... A gata no  m...

O SENHOR RODRIGUES

O peor  o gato, que a gata boa , que caa ratos...

D. MARIA ELISA

(_ parte_)

Que cacafonias! _que a gata! que caa!_... Apre, que so muito
alarves!

O SENHOR ANTONIO

Deixemos l isso... ella l sabe o que faz, e cada qual guarde bem a sua
cabea do mau pensamento de casar-se com doudas... Eu bem lh'o disse a
elle... Olha que essa mulher no te serve... tem m pinta, e no sei,
mas ha de te dar que fazer...


SCENA II


OS MESMOS E O SENHOR JOO PEREIRA

O SENHOR PEREIRA

(_entrando, sem pedir licena_)

Deus aqui, e o diabo em casa dos frades...

D. ANGELICA

(_ parte_)

Olha o inimigo!... quem o chamou c?!

O SENHOR ANTONIO

Ora viva o meu amigo e visinho! Esteja bom, passasse muito bem,  o que
eu mais estimo. Puxe cadeira e sente-se, sem ceremonia.

O SENHOR PEREIRA

A bda e a baptisado, diz l o outro, no vs sem ser convidado. Eu no
estive pelas contas. Somos visinhos ha cincoenta e dous annos, e rapazes
da mesma creao. C entre ns no ha ceremonias. Vim dar os parabens ao
meu amigo e senhor Antonio, e vr-lhe a sua noiva, que emquanto a mim 
esta menina...

D. MARIA ELISA

Uma sua criada.

O SENHOR PEREIRA

Criada dos anjos. Pois, minha visinha, a minha casa  logo adiante
d'esta; mettem-se duas portas de permeio; se precisar d'alguma cousa, de
mim ou da minha companheira, no tem mais que mandar.

D. MARIA ELISA

Muito agradecida ao seu favor... Queira sentar-se.

O SENHOR PEREIRA

Estou bem assim: farto de estar sentado estou eu atraz do mostrador. Com
que sim, senhor Antonio, est vmc.e c no rol dos homens de bem...

O SENHOR ANTONIO

(_com inteno_)

 verdade... c estou no rol dos homens de bem...

O SENHOR PEREIRA

Fez vmc.e o que devia. No ha vida melhor que a de casado. Eu c de mim
no tenho razo de queixa. Estou casado ha dez annos, tres mezes, e
vinte e quatro dias, e, graas a Deus, no tive ainda um desgosto!

O SENHOR FERNANDES

(_ parte_)

Este  dos taes que o sabem no fim.

O SENHOR PEREIRA

A minha sancta companheira  propriamente uma mulher de casa, e minha
amiga, que  mesmo uma cousa! L por eu ter mais vinte annos que ella,
isso no tira, nem pe. No  como algumas c da nossa rua... ns bem
sabemos quem ellas so...

O SENHOR FERNANDES

(_ parte_)

Eu s conheo a d'elle...

O SENHOR PEREIRA

L porque os maridos no andam espartilhados a dar, com licena... nas
canellas com as abas da casaca, gostam mais de peralvilhos!...

Arreda com ellas! Eu, se tivesse assim uma, eu no seja Joo, se lhe no
arrebentasse a propria barriga!... A minha Marcellina  uma rapariga,
que, se me vir afflicto, vem prantar-se ao p de mim, e no sahe d'alli
sem que eu lhe diga que estou bom. Quando me cahiu o cabello foi ella
que me pz este chin na cabea, e por ahi os tratantes metteram-me
sonetos ao chin por debaixo da porta! Valha-os o diabo!...

D. ANGELICA

Credo! Anjo bento! vmc.e falla tantas vezes no inimigo! No diga essa
palavra que faz arripios no costado!

O SENHOR PEREIRA

Ahi est a nossa beata com as suas _escrupulisaes_. A gente no sabe
como ha de fallar diante de vmc.e A minha Marcellina, s duas por tres,
 diabo para aqui, diabo para acol; e, se eu lhe digo que no  bom
chamar quem est manso e quedo, ella diz que o diabo se chama diabo!...

D. ANGELICA

(_persignando-se_)

Sancto breve da marca! Cale-se l com essas blasphemias! Sua mulher, se
tivesse juizo, no dizia isso!... Se vmc.e lhe dsse com o covado pela
rabada, ella se calaria...

D. MARIA ELISA

(_ parte_)

So indecentes!... Se algum futuro author de novellas quizesse descrever
fielmente esta scena, teria de ser indecente como elles! Tomra-me eu
ssinha!

O SENHOR ANTONIO

Em que pensas tu, Mariquinhas?

D. MARIA ELISA

Ah!... eu?... no pensava em nada...

O SENHOR ANTONIO

A modo que ests triste! Aposto que ests a pensar l n'essas cousas dos
astros?

D. MARIA ELISA

Dos astros? no... pensava... na minha sorte... (_com ironia_) que 
realmente invejavel. Estou satisfeitissima da deleitosa conversao
d'estes senhores, que so sobremaneira recreativos.

OS SENHORES BAPTISTA E RODRIGUES

Pela parte que me toca... muito obrigado...

O SENHOR FERNANDES

(_ parte_)

Pobre mulher!... e pobre homem!...

O SENHOR ANTONIO

Ento, Fernandes, ests ahi to calado!...

O SENHOR FERNANDES

Que quer que eu lhe diga?

O SENHOR ANTONIO

Quando te casas?

O SENHOR FERNANDES

Quando tiver mulher. Ainda no  tarde.

O SENHOR ANTONIO

Isso no; mas o casamento faz arranjo... Ella tem cincoenta e quatro,
mas olha que  um anno para cada conto; e tu tens os teus trinta e seis,
mas c, segundo os meus calculos, por morte de teu pae no tens nem
trinta e seis moedas, porque elle  um gastador, e deixa-te viver l
mettido no quarto a lr o Carlos Magno, sem te importares do negocio...
Teu pae parece-me que no vir... vai-se demorando.

O SENHOR FERNANDES

J lhe disse que o meu pae pede desculpa de no vir, porque se sente
incommodado da gta... Eu vim da sua parte dar ao senhor Antonio os
parabens, e comprimentar a sua esposa a quem desejamos, tanto eu como
elle, largos annos de felicidade.

D. MARIA ELISA

Muito agradecida! (_ parte_) Este falla melhor que os outros...

O SENHOR ANTONIO

Tu sabes fazer a preceito esses discursos! Sempre  bom a gente lr o
Carlos Magno... Eu era pequeno quando o li, e ainda me lembra esta
passagem da formosa Floripes a Roldo: Senhor par de Frana! Os vossos
olhos so dous ses que derramam raios que matam como os lampejos da
vossa durindana. Senhor cavalheiro, eu vos digo que o vosso affecto 
mais doce que o mel, e mais abrazador que as ardentes _fragas_.

O SENHOR FERNANDES

(_sorrindo_)

Essas fragas deviam de ser boas para assar bacalhau.

D. MARIA ELISA

(_sorrindo_)

De certo...

O SENHOR ANTONIO

E outras muitas cousas que me no lembram agora.

O SENHOR FERNANDES

(_com ar sarcastico_)

 pena que vmc.e se esquea dos bocadinhos de ouro do Carlos Magno!

O SENHOR ANTONIO

Ora diz l tu algumas passagens...

O SENHOR FERNANDES

 impossivel, porque nunca li o Carlos Magno; mas,  falta d'essa
preciosidade litteraria, posso dizer outra qualquer passagem bonita.

O SENHOR ANTONIO

A apostar que tu no sabes orthographia?

O SENHOR FERNANDES

(_sorrindo_)

Nada, no sei.

O SENHOR ANTONIO

Pois ento diz alli a minha mulher que t'a ensine...

O SENHOR FERNANDES

Far-me-ia muito particular favor.

D. MARIA ELISA

Eu?!

O SENHOR ANTONIO

Sim, tu, Mariquinhas. Ensina-lhe aquellas cousas que fazem com que a
gente no caia quando a terra anda de redor.

O SENHOR FERNANDES

E  isso que se chama orthographia?

O SENHOR ANTONIO

(_meio irritado_)

, sim, senhor. Olha l se queres saber mais d'essas cousas que minha
mulher!

O SENHOR FERNANDES

Deus me livre d'isso... (_sorrindo a Maria Elisa que abaixa,
envergonhada, o rosto_) Eu nem sequer sei escrever com astronomia, como
hei de saber essas leis com que se regem os astros!...

O SENHOR ANTONIO

Chama-se _lei d'attrio_... No te rias...  o que te digo, e, seno,
ouve:  Maricas, como se chama isto que nos faz estar de p, assim
direitos? (_erguendo-se._)

D. MARIA ELISA

Salvo erro, creio que so as pernas.

O SENHOR ANTONIO

(_sriamente_)

Isso  verdade; mas, se a terra andasse  roda, a gente cahia para o
lado...

O SENHOR FERNANDES

No  foroso que caia para o lado; pde cahir para traz, ou para
diante. (_Maria Elisa ri-se._)

O SENHOR ANTONIO

Tambem no vou contra isso; mas minha mulher sabe d'uma cousa que faz
com que a gente no caia, porque todos os corpos sahem do centro da
terra... Olha ella a rir-se! Ento enganavas-me, cachorra?... Ah
ruimzinha!... (_puxando-lhe uma orelha._)

O SENHOR FERNANDES

Sua senhora tem razo... Os corpos, no digo que saiam do centro da
terra, mas tendem para l; e esta tendencia faz que no possam, embora a
terra se mova, cahir no espao.

O SENHOR ANTONIO

Tu no sabes d'essas cousas...

O SENHOR PEREIRA, _do chin_

Os diabos me levem se eu sei o que vosss esto a dizer!

D. ANGELICA

S. Bento! Elle ahi torna com o berzabum do inimigo s voltas! No se
pde estar ao p de vmc.e !... Credo!

O SENHOR PEREIRA

 mulher! deixe fallar a gente!... Eu queria saber como  l isso de
andar o mundo ao redor como se fosse uma bola! Esta gente moderna sempre
diz cousas! Eu nunca tal ouvi aos velhos! J a minha Marcellina se mette
tambem a fallar d'essas cousas l dos livros com o doutor Miranda, e,
pelos modos, a rapariga no  tla de todo. Agora anda ella a congeminar
nos planetas, e levanta-se algumas vezes de noite, e vem  janella...

O SENHOR FERNANDES

Observar os astros?

O SNR. PEREIRA

Acho que sim! A mulher l tem aquella pancada na mola, e eu deixo-a
estudar a natureza, como ella diz...

O SENHOR FERNANDES

Isso  justo. No me sabe dizer que planeta estuda sua mulher?

O SENHOR PEREIRA

Acho que  o sete-estrello.

O SENHOR FERNANDES

Ah! sim? E que diz ella a respeito d'esse planeta?

O SENHOR PEREIRA

Eu sei c o que ella diz? Est alli  janella duas horas a olhar l para
cima, e quando se deita est fria de neve. Eu j lhe disse:  mulher!
deixa l essas cousas celestes aos homens que sabem da pda! Tanto faz
como nada; ella diz-me no sei que da abobada, e das _mariadas_ de
estrellas... Apostar que o senhor Fernandes no sabe que ha uma estrella
chamada _vespa_, e outra _saturnea_?

O SENHOR FERNANDES

Nada, no sabia, mas ainda venho a tempo de saber. Sua senhora  que lhe
ensina essas cousas?

O SENHOR PEREIRA

E muitas outras, que me esquecem, porque no tenho as memorias affeitas
a esses nomes inglezes e gregos. Se vmc.e quizer vr o que  uma
cabecinha ha de fallar com minha mulher...

O SENHOR FERNANDES

Estou convencido... no  preciso mais nada... Vejo que sua senhora
estuda perfeitamente a natureza, e compensa bem a pena deitar-se fria de
neve, quando a intelligencia vai quente do fogo da sciencia. No
concorda, senhora D. Elisa?

D. MARIA ELISA

Eu?!... no sei se...

O SENHOR FERNANDES

Pois no  da minha opinio?

D. ANGELICA

(_rabugenta_)

No , no, senhor! Qual natureza, nem meia natureza! Uma mulher no se
deve metter l n'essas trampolinices! Do que ella deve tratar  de
governar a sua casa, de tratar do seu marido, e dos seus filhos, e de
encommendar a sua alminha a Deus. Nossa Senhora era a propria me de
Deus, e no sabia l das sciencias, nem dos planetas! Uma mulher honrada
no vai de noite vr  janella o sete-estrello, nem a vespa, ou o
bisouro... mau bisouro  o demonio... Deus me perdoe...

O SENHOR PEREIRA

(_pundonoroso_)

Com que vmc.e , l porque no tem cabea para estas cousas, quer que as
outras sejam tapadas como vmc.e ? No  m esta! Cada qual trata de si,
e Deus de todos. Minha mulher gosta de estudar a natureza, e vmc.e gosta
de resar novenas. Quem vai contra isso?

D. ANGELICA

E ella porque no resa novenas? Acha que lhe no so precisas? Pois olhe
que... eu j vi quem precisasse de resar menos... Melhor lhe fra
governar a sua casa, e remendar a sua roupa, e no deixar ir tudo como
vai de portas a dentro...

O SENHOR PEREIRA

Sabe que mais? trate c do que lhe pertence, e deixe as outras! Vmc.e 
muito murmuradeira...

D. ANGELICA

Eu! murmuradeira!...  meu Menino Jesus! inda mais ouvirei!  Antonio,
j viste uma cousa assim?

O SENHOR ANTONIO

Est bom... calem-se l com essas questes. Cada qual vive como o seu
genio lhe pede; mas olha c, visinho, eu sempre fui teu amigo, e no
tenho papas na lingua, quando  necessario. C a minha opinio  que no
deves deixar vir tua mulher para a janella de noite...

O SENHOR FERNANDES

(_com ironia_)

Porque se pde constipar...

O SENHOR ANTONIO

No  isso...  que das ms linguas ninguem se livra... Se quer estudar
a natureza, ou l o sete-estrello, ou o que  como se chama, que o faa
de dia.

O SENHOR PEREIRA

Tu s tlo, Antonio! Pois os planetas apparecem l de dia?! J vejo que
no te chama Deus para este caminho!...

O SENHOR FERNANDES

O senhor Joo Pereira tem razo. De dia no se descobrem planetas. O
padre Theodoro d'Almeida, que escreveu muito sobre os astros, diz-me meu
pae que o vira muitas noites na trapeira dos Congregados a contemplar a
natureza.

O SENHOR PEREIRA

Vmc.e  que sabe responder, senhor Fernandes... E, de mais d'isso, eu
estou muito contente com minha mulher. Antes quero que ella se
entretenha com os planetas l de cima, do que com certos planetas que
andam por ahi a olhar para as janellas, e que no so das melhores
cousas para viver em paz cada qual com a sua mulher. Eu no tenho at
hoje razo de queixa; oxal que tua mulher te d a boa vida que a minha
me tem dado...

O SENHOR ANTONIO

(_enfurecido_)

Isso agora!... salvo tal logar!...

D. ANGELICA

Longe v o agouro, e mais no diga a bca que tal diz...

O SENHOR ANTONIO

(_para os circumstantes_)

Que lhes parece esta?! (_para elle_) Meu amigo, sabes que mais?... Vai
muito de c a l...

D. ANGELICA

 menina, Deus a livre de tal... Minha querida nossa Senhora dos
Remedios, no permittaes que tal acontea...

O SENHOR PEREIRA

(_formalisado_)

Que diabo dizem ahi? Se eu os percebo, sbo! Parece que j
jantaram!--Pois minha mulher... sim, pergunto eu... minha mulher... se
faz favor de me dizer... com que ento a minha Marcellina... digam para
ahi o que sabem, linguas damnadas!... Eu queria saber o que vem a ser
estas benzedellas da nossa sanctinha, e l esses arrufos teus,
Antonio!...

O SENHOR FERNANDES

No se irrite, senhor Pereira, que no tem razo. Vmc.e entendeu mal os
reparos da senhora D. Angelica e seu irmo.  porque o senhor Antonio
no quer que sua senhora se constipe no estudo da natureza...

O SENHOR PEREIRA

Isso agora  outra cousa... Cada qual tem o seu genio; mas vir c
dizer-me que vai muito de c a l, isso tem que se lhe diga. Tanto  a
minha Marcellina como a tua companheira. Somos todos do negocio, e
deixemo-nos de fidalguias, porque todos nos conhecemos. E quem fr mais
rico, coma duas vezes, mas no desdenhe dos outros. O que eu queria
dizer-te a respeito da conducta das mulheres  que sou teu amigo, e que
oxal a tua mulher seja como tem sido a minha.

O SENHOR ANTONIO

(_desesperado; com as belfas tremulas_)

Isso  que eu no quero!... j te disse que no quero e que no ha de
ser!...

D. ANGELICA

E elle a dar-lhe! _m mez_ para elle!... Valha-o uma figa! No faa
caso, cunhada...

D. MARIA ELISA

Eu sinceramente lhes digo que no sei o motivo d'esta disputa! Se me no
engano, a esposa do senhor Pereira tem vocao para a astronomia. 
louvavel esse gosto da sciencia. So raras as senhoras que se dedicam ao
trabalhoso estudo da natureza...

O SENHOR PEREIRA

(_interrompendo_)

 como diz, e viva quem sabe fallar!

D. MARIA ELISA

O senhor Antonio Jos da Silva diz que...

O SENHOR ANTONIO

 Mariquinhas,  melhor dizeres _meu marido_.

D. MARIA ELISA

Meu marido diz que no quer que eu imite a senhora D. Marcellina.

O SENHOR ANTONIO

No quero,  tal e qual o que eu disse. Minha mulher entendeu-me logo.

D. MARIA ELISA

Pois bem, eu no a imitarei; no me levantarei de noite a observar a
atmosphera, porque realmente no quero ser martyr da sciencia. D'este
modo, est acabada a questo. O senhor Pereira consentir, porque assim
lhe apraz, que sua senhora se levante para os seus estudos; e meu marido
usar do direito, que eu lhe concedo, de me privar que eu estude os
astros de noite.

O SENHOR PEREIRA

Fallou bem como quem ; parece mesmo a minha Marcellina que sabe dizer
cousas que  mesmo da gente ficar encantado; mas eu tenho a dizer que c
quanto ao que eu quiz dizer, a minha birra  que se a senhora D.
Mariquinhas fr honrada como a minha Marcellina, no precisa ser mais.

O SENHOR ANTONIO

s teimoso como um jumento! J te disse que a minha mulher tem outros
brios, e que sabe as obrigaes de mulher casada!

D. ANGELICA

E no ha de dar que fallar como algumas... emfim... cada qual metta a
mo na sua consciencia...

O SENHOR PEREIRA

(_solemne_)

Que quer dizer isso? Ento vmc.e acha que minha mulher... Ora tenha
juizo, que j  bem tempo de perder o sestro da m lingua... D'estas
beatas... Deus me livre d'ellas...

D. ANGELICA

(_aguando o queixo inferior_)

Vmc.e est mesmo a inquietar a gente... Olhe que eu!... no me puxe pela
lingua, que eu no sou boa...

O SENHOR PEREIRA

Isso sei eu... que vmc.e  levadinha de todos os diabos... diga-m'o a
mim...

D. ANGELICA

(_enfurecida_)

Sabe que mais? ninguem o c chamou... Deixe-nos em paz...

O SENHOR PEREIRA

Vmc.e  muito mal creada... O que merecia... sei eu...

O SENHOR ANTONIO

Est bom, Angelica! cala-te, Joo Pereira!... Se no ests bem, vai-te
embora; eu no te chamei c...

O SENHOR PEREIRA

O asno sou eu em vir c fazer de homem que sabe a cortezia quando 
preciso. Olha, meu amigo, emquanto tiveres c em casa esta senhora
Angelica, no has de ter amigo nenhum...

D. ANGELICA

V importar-se l com a que tem em casa, que no tem pouco que guardar.

O SENHOR PEREIRA

A que eu l tenho em casa tem mais honra nos calcanhares, que vmc.e na
cara. O que vmc.e queria era que eu casasse comsigo, quando casei com
ella. Como eu no estive para isso, vinga-se a fallar mal de minha
mulher.

D. ANGELICA

Olha o bezunto!... Eu quiz l nunca casar com elle!...

O SENHOR ANTONIO

Accommodem-se!

D. ANGELICA

Sevandija! Ms maleitas te colham!

O SENHOR ANTONIO

Angelica, tapa a bca.

D. ANGELICA

No quero!... Pois este desavergonhado no diz que eu quiz casar com
elle! Mariola! Sempre  bem _coitadinho_!...

O SENHOR PEREIRA

D'uma pandorca assim no ha nada a estranhar. Eu tenho vergonha, sua
truquilheira, quando no havia dizer aqui quem vmc.e ...

O SENHOR ANTONIO

Quem manda aqui sou eu! J d'aqui para fra, Joo Pereira!



(_Joo Pereira, irritado como Ajax, leva as mos indignadas  cabea e
maquinalmente desloca o chin. Ouvem-se fungadellas de sorrisos, que
exacerbam a clera do calvo que se retira. Angelica tem o queixo n'uma
attitude perfurante. O senhor Antonio transpira na abundancia do
costume.  lucta succede um profundo silencio, quebrado apenas pelos
gemidos convulsos da beata offendida na sua isempo de setenta annos._)


SCENA ULTIMA


OS MESMOS E UM ENCAPOTADO

ENCAPOTADO

(_no limiar da porta que communica para o interior_)

Senhora Angelica!

D. ANGELICA

Que queres tu, rapaz?

O SENHOR ANTONIO

Pois tu levantaste-te da cama a tremer maleitas, Joaquim? (_para Maria
Elisa_) Aquelle  o rapaz da loja que tem maleitas.

D. ANGELICA

Que queres tu?

O ENCAPOTADO

Eu estava a tremer as maleitas, e ouvi um grande restolho debaixo da
cama.

D. ANGELICA

Credo! que seria?

O ENCAPOTADO

Resei o credo em cruz, e fui vr o que era...

D. ANGELICA

E que viste?!

O ENCAPOTADO

Era a gata que comia uma gallinha assada, que trago aqui, menos o
pescoo que lh'o tinha ella j comido.

(_O encapotado afasta as bandas do capote, e mostra a gallinha
effectivamente degolada!... A senhora Angelica recebe a victima da gata,
e pede a seu irmo poderes discricionarios para vingar a affronta._)

UMA VOZ

Est o jantar na mesa.




CAPITULO XX


Est, portanto, casada a senhora D. Maria Elisa de Sarmento e Athaide.
Temol-a na rua das Flores, e deixal-a l estar. Que se embriague dos
carinhos do nosso bom amigo Antonio Jos. Se a riqueza satisfaz
plenamente as suas ambies,  muito rica, pde cortar por largo, tem 
sua disposio um homem capaz de tudo, menos de resignar-se com a
felicidade do seu visinho Joo Pereira, que Deus tenha na bemaventurana
dos pobres de espirito, que so quasi sempre os ricos de materia.

Vamos encontrar Rosa Guilhermina tambem casada com Augusto Leite. Sou o
primeiro a confessar que o meu romance est cahindo muito! Um casamento
ainda pde aturar-se no fim do romance. A gente gosta de vr
recompensados os tormentos de dous amantes com o prosaico destino de
todos os tlos e espertos. Ha casos, porm em que o casamento, em vez de
ser o ultimo, deve ser o primeiro martyrio das personagens de uma
novella. Quantas vezes eu leio uma, em que se me arrancam lagrimas de
compaixo por dous entes que se adoram, a despeito de mil estorvos que
lhes diluem em lagrimas os bellos olhos! Consterno-me; anceio a ultima
pagina em que vo ser coroadas por um gso duradouro as suas agonias...
E essa ultima pagina diz-me que se casaram! Faltava-lhes esta! digo eu
ento, arremessando com piedosa indignao o livro!

Ainda um casamento... passe! Mas dous casamentos!...  abusar dos dons
da igreja, ou romantisar o facto mais prosaico d'esta vida! Isto em mim
creio que  falta de imaginao, ou demasiado servilismo  verdade!

Se Deus me chamasse para este caminho, como dizia, a respeito do estudo
da natureza, o senhor Joo Pereira ao seu visinho, de certo no casava
estas mulheres, to depressa. Acho que o melhor era trazel-as por ahi um
pouco de tempo a dar escandalos. Rosa deveria apaixonar-se por um major
de cavallaria que lhe faria o favor de a inscrever no productivo
catlogo das mes de familia. Depois o major era promovido a tenente
coronel, e ia commandar drages de Chaves, do que resultava (que
palpitante no seria isto!) a boa da rapariga tomar duas onas de
verdete n'um copo d'agua, e morrer amaldioando o perfido! Que cousa to
bonita! Hei de aproveital-a no primeiro romance que escrever, e que
desde j se assigna nas lojas do costume.

Ora, Maria Elisa, essa... que havia de ser essa?... Eu entendo que Maria
Elisa devia namorar-se d'um marquez. E vai depois este marquez tinha
casado clandestinamente com Joanna Fagundes, criada da casa. E vai
depois, constando  dita Fagundes que seu marido namorava Maria Elisa, a
espadauda mooila n'uma bella tarde, procura-a em casa, e mette-lhe os
tampos dentro com uma cadeira. Elisa expira nos braos d'um sargento de
policia, e Joanna Fagundes deixa cahir a mantilha, exclamando:

Eu sou a marqueza de tal!

O leitor ficava maravilhado do successo, e contava  familia a passagem
com as lagrimas nos olhos.

Espero tambem no perder esta ideia, e o leitor ter occasio de avaliar
duas obras primas. Por emquanto, peo ao respeitavel publico que
suspenda o juizo a respeito da minha capacidade inventiva.

J agora, porm, atemos o fio d'esta fastidiosa historia, e vejamos
quantas moralidades podem produzir dous casamentos honestos.

O secundanista de direito casou oito dias depois de seu tio, e tomou
conta da administrao da casa, que recebeu do tutor de sua mulher.

Nos primeiros dias parece que leram muitos romances, e aligeiraram as
horas em deliciosas palestras sobre a _Experiencia amorosa_, e _Sophia
ou o Consorcio violentado_, romances muito lidos n'aquelle tempo.

Ao cabo de quinze dias, Augusto Leite no era certo  hora da leitura, e
vinha, meia hora depois, pretextando negocios da casa.

Ao cabo de um mez, o extremoso marido deixava sua mulher a lr as
_Viagens de Gulliver_ a sua sogra, e elle sahia a negocios domesticos,
que lhe empatavam o tempo at s 11 horas da noite.

Ao cabo de dous mezes, o digno apreciador da litterata, se sua mulher
lhe perguntava a razo da demora, encarregava sua me de responder
suavemente, porque a paciencia j lhe no dava azo para tantas
satisfaes.

Findo o prazo de dous mezes, Augusto foi para Coimbra continuar a sua
formatura, e convenceu sua mulher de que no era costume as mulheres
acompanharem seus maridos ao fco da immoralidade. Rosa ficou, portanto,
na companhia de sua sogra, que lhe enxugava as lagrimas saudosas,
pedindo-lhe que lsse a _Joaninha, ou a Engeitada generosa_. Seu marido
escrevia-lhe todas as semanas poucas linhas, mas essas eram calidamente
amorosas. Rosa indemnisava-lh'as com longas cartas, bonitas de
linguagem, com muita meiguice em phrase pomposa, e muitas outras
galanterias a que o academico, diga-se a verdade, no dava a maior
importancia.

E vejamos porqu:

Augusto Leite tinha uma paixo unica: era o jogo; mas o jogo fra o seu
inferno, obrigra-o a fazer uma triste figura, como hoje se diz, porque
perdia sempre. A sorte que o perseguira em solteiro no lhe era mais
propicia em casado. O estudante continuava a jogar, e a perder; mas as
perdas agora avultavam mais, e ateavam-lhe a paixo com mais ardor.

Depois do jogo, o pensamento subalterno do marido de Rosa Guilhermina
era uma tricana, rapariga do campo, fresca e rosada, que vivia com elle,
desde o primeiro anno, e que viera ao Porto durante as ferias grandes,
em que se realisra o casamento do nosso traductor de novellas. Augusto
transigiu amigavelmente com a rapariga, promettendo-lhe um cordo de
ouro de vinte mil reis, uns brincos de sete mil e duzentos, dous pares
de chinelas, umas cr de gemma d'ovo, e outras verde-gaio, afra um
capote de castorina cr de mel. De mais a mais, obrigra-se elle a tel-a
em sua companhia, com tanto que ella no fizesse barulho.

As condies estipuladas, de parte a parte, foram cumpridas. Benedicta
vivia, sem fazer barulho, na rua do Coruche com o seu academico, e
conseguira, alm dos dous pares de chinelas, um terceiro par de sapatos
de cordovo com fitas, e uma mantilha de durante com aquelle bico
escandaloso que usam as mulheres de Coimbra, que so as mulheres mais
feias que Deus nosso Senhor depositou na face da terra.

Nas ferias do Natal, Augusto Leite veio consoar com sua familia. Houve
muito beijo, muita saudade, foram  missa do gallo  S, comeram muitos
confeitos de chocolate, e no tiveram tempo de lr romances. Os outros
dias correram rapidos para a carinhosa esposa. No ultimo fez certa
revelao a seu marido, com a qual elle se mostrou contentissimo, e
sentiu a innocente vaidade de ser pae.

O academico partiu, e d'aqui at aos Carvalhos foi imaginando o systema
de banca-portugueza que lhe desse a desforra de seiscentos mil reis,
perdidos at ao Natal. E tal era a certeza da desforra, que no duvidou
contrahir o emprestimo d'um conto de reis, por isso que o patrimonio de
sua mulher eram s propriedades.

O imaginado systema falhou, ou pelo menos no tinha vingado ainda,
quando o imaginoso jogador perdeu o ultimo real do conto de reis.

Revoltado contra o traioeiro systema, seguiu o contrario, e perdeu
tambem. As meditaes incessantes no methodo de ganhar, absorveram-lhe o
espirito de modo que o estudante foi reprovado, e retirou de Coimbra,
onde dissipra seis mil cruzados, e ficra devendo dous.

No Porto eram geralmente sabidas as dissipaes de Augusto Leite. Sua
mulher fra avisada por cartas anonymas, mas o seu espirito era altivo
de mais para rastejar nas mesquinharias do dinheiro. O juiz dos orphos
 que no era to sublime; e, instigado por o senhor Antonio Jos da
Silva, resolveu intervir na ruina do patrimonio de Rosa, sujeitando-a a
uma tutela, visto que seu marido era incapaz de administrar. Augusto
Leite quiz provar que tinha muito juizo, mas parece que provou de mais,
e peccou pelo excesso. As testemunhas disseram que nunca o tinham visto
atirar pedras. Isto que devia convencer o juiz dos orphos, o mais que
fez foi tranquillisar-lhe o espirito dos receios de ser apedrejados pelo
dissipador. Tenho  vista os autos d'este processo, e sou obrigado a
confessar que o juiz julgou em boa harmonia com Pegas, e Carvalho, e
Pereira de Mello.

Era um magistrado probo. Permittam este _entre-parenthesis_, porque o
meu fraco  chamar probos a todos os magistrados, que recebem peitas,
porque os ordenados no chegam a nada. N'este paiz, um magistrado probo
j deu esta razo em pleno parlamento, e desde esse dia todos os
magistrados so probos, e a probidade e a beca e os sapatos de fivela e
as meias de seda, a rectido e os bofes da camisa ficam sendo insignias
de todos os magistrados.

Que  o que eu vinha dizendo? No ha nada que me incommode tanto como
ter de lr o que escrevo... Acho que fallava no nascimento d'uma filha
de Rosa Guilhermina... Ha de ser isso... Pois  verdade: nasceu a tal
menina, e foi baptisada com o nome de _Assucena_, da qual se ha de fazer
larga e pungentissima chronica.[4] Era uma linda creancinha, que a me
offerecia ao pae, mas o fraco de Augusto no eram as creanas. Apenas a
tomava dos braos de Rosa, douda de contentamento, passava-a aos braos
da av, que, por fora, queria que a pequena se parecesse com ella.

Augusto vivia triste. Os carinhos de sua mulher no bastavam a
desenrugar-lhe a testa, sempre carregada para os afagos da pobre
senhora. Passeava ssinho no quintal, e, quando a timida mulher se
aproximasse, retirava-se elle a meditar no seu quarto.

--Eu desconheo-te!...--dizia Rosa, tomando-lhe meigamente a mo
insensivel--Que tens tu, Augusto?... j me no adoras com aquelles
extremos de ha um anno? Que te fiz? No tenho eu sido to igual para ti?

--Tens, Rosa... No repares na minha tristeza... Isto  organisao...

--Pois assim variam as organisaes!... Grande mudana transfigurou o
teu genio!...

--Que queres!... Eu no me fiz...

--Pois sim; mas porque soffres?!

--Porque no sou um homem vil, a quem se tire infamemente a administrao
d'uma casa...

--Mas tenho eu culpa de tal infamia!... No fui eu propria fallar com o
juiz?! No empreguei os rogos, e as lagrimas com esse barbaro que quer
governar o que  nosso?! Serei eu culpada n'essa fatalidade!...

--No s... eu no te accuso... mas deixa-me, se no pdes remediar esta
punhalada que se deu na minha honra! Foi um ultraje cobarde, forjado nas
trevas,  sombra da lei!... Despotas!... Eu hei de vingar-me de vs, ou
a minha dignidade nunca mais erguer a fronte diante dos homens!
(_Reminiscencias d'um romance intitulado: EMILIA DE TOURVILLE, OU OS
MEUS SETE ANNOS DE PERSEGUIO._) Feriram-me na corda mais sensivel da
minha honra! Exauthoram-me dos direitos communs, a mim, que conheo,
profundamente, as raias, que separam a demencia irresponsavel das
operaes do intellecto so! (_Ideias pilhadas a dente na SCIENCIA DOS
COSTUMES._) Fallarem-me no jogo!... Privarem-me do uso da minha
fortuna, por que jogo!... Quem pde privar-me de abrir com uma alavanca
de ouro a minha propria sepultura! (_Pensamento soffrivel, roubado ao
JOGADOR, comedia de Regnard._)

--E gostas assim de jogar, meu querido Augusto? Achas prazer no jogo?

--Acho... preciso d'esta distraco; fra do jogo no vivo...

--Pois joga...

--E o dinheiro?... que  do dinheiro? No vs que nos do para a nossa
subsistencia quarenta mil reis cada mez?

--Mas temos outros recursos...

--Quaes?!

--A nossa prata, que est avaliada em cinco mil cruzados... vende-a.

--No te zangas por isso?

--No, filho!... Eu dera a vida pela tua tranquillidade... No  ella
tua? Se o desejavas fazer, porque o no tens feito?...

........................................................................

Dias depois, Augusto Leite vendia a prata, que tinha sido o thesouro
mais querido do arcediago de Barroso, e partira para Coimbra, combinando
as frmas d'um novo systema de jogo.

No dia seguinte ao da sua partida, Rosa Guilhermina recebia a sua prata,
e este bilhete:

_No desdenhes uma lembrana da tua velha amiga. Comprei essa prata, e
quiz presentear tua filha com ella._

                                                           _Maria Elisa._

A prata fra comprada pelo senhor Antonio Jos da Silva.




CAPITULO XXI


J no viviam na rua das Flores os disparatados conjuges.

O senhor Antonio Jos, quinze dias depois de casado, fechou a sua loja
de pannos e algodes, traspassando-a. Fra esta a primeira exigencia de
sua mulher. Tanto elle como Angelica resistiram um pouco s razes
frivolas de Maria Elisa; mas o amor vencera, e o covado e as balanas
foram offerecidas em holocausto a hymeneu, como dizia a mulher de Joo
Pereira, rindo-se muito da aristocracia balfa da sua visinha, que lhe
no dava trla.

Fechada a loja, e liquidados os lucros, o senhor Antonio, por escolha de
sua mulher, foi viver na ultima casa que o leitor encontra na rua da
Rainha, que n'esse tempo no tinha nome. Era uma casa de quinta, com
ares apalaados, onde a senhora Angelica se dava pessimamente com os
ratos enormes que tiveram o barbaro appetite de lhe comer a manga
esquerda do seu capote, na primeira noite, e tentaram a temeridade de
lhe roer a unha d'um dedo do p! Inscrevemos aqui as amarguras da
senhora Angelica, porque nos impozemos a obrigao de commemorar todas
as lagrimas d'este desventurado enredo.

O senhor Antonio Jos da Silva comprou carruagem. Esta immoralidade
custou muitos _padre-nossos_ a sua irm, que esperava todos os dias um
raio fulminante sobre os cavallos, que conduziam sua cunhada a passeio
pelas estradas de Braga e Guimares, que eram n'esse tempo um pouco
melhores que hoje, porque eram de pedra, e a civilisao no tinha ainda
inventado o cascalho.

O senhor Antonio cahira na imprudencia de entrar, uma vez, na carruagem,
e viu desgraadamente realisadas as suas previses! Foram taes os
solavancos que soffreu aquelle globo de carne, taes entaladelas
flagellaram os seus rofgos esponjosos, que, tres dias de cama, o nosso
bom amigo difficilmente digeria a mesquinha refeio do costume.

Maria Elisa nunca mais o convidou para o martyrio da carruagem. Era uma
excellente esposa! Conhecera profundamente que as dimenses abdominosas
de seu marido no comportavam a agitao febril do seu espirito. Ia,
portanto ssinha, emquanto seu marido cultivava uns repolhos e umas
melancias que plantra e semera para ter em que exercitar as suas
foras musculares.

A Providencia nem sempre  justa para os bons cultores da hortalia!
Emquanto o senhor Antonio estudava a maneira de salvar do bicho a folha
exterior do repolho; emquanto o bom cidado classificava methodicamente
a natureza do estrume, com que deviam adubar-se os terrenos de melancia;
emquanto, finalmente, o negociante retirado legava  humanidade um
prestante servio em horticultura, sua mulher andava por l fazendo
cousas, que aqui vamos escrever para cauo de todos os maridos, que
espreitam a toupeira no cebolinho, emquanto suas amaveis mulheres vo
comprar tarlatanas, e rendas.

O leitor, se tem attendido  melhor historia que se tem escripto n'estes
ultimos annos, ha de lembrar-se de um senhor Fernandes, que assistiu s
bodas do senhor Antonio, e que tinha uma linguagem distincta, e umas
ironias salgadas a sabor de D. Maria Elisa de Sarmento e Athaide.

O senhor Fernandes, de trinta e tantos annos, aspecto agradavel, com
algum espirito, com muita pouca materia, amigo de livros, e mais ainda
das boas mulheres, era o maior peccador que produziu a rua das Flores.
Contra todas as leis da honra, contra o mais respeitavel dos preceitos
do declogo, o senhor Fernandes tinha uma diabolica vocao para a
mulher do seu proximo! Cahe-me da mo a penna indignada por se vr na
dura preciso de archivar este escandalo! Lucto, ha oito dias, com a
veracidade do ignominioso facto, que vou enunciar com as lagrimas nos
olhos, e o pudor na face. Quizera cobrir com o vo da caridade esta
ulcera; porque antevejo o doloroso vexame que involuntariamente vou
inflingir ao leitor pudibundo! No  possivel. Sou muito amigo do
publico; esforo-me por manter a moral na temperatura em que a
encontrei; mas, como o amigo de Plato, sou mais amigo da verdade. 
necessario dizer-se ao menos metade do que sei. Benzamo-nos, pois,
primeiramente, para que Deus nos livre de maus pensamentos, e das
tentaes hediondas d'este grande peccador, que a estas horas j sabe o
bem ou mal que fez!...

Fernandes (_proh pudor!_) entendeu que devia namorar Maria Elisa, a
esposa do seu visinho, a mulher do seu proximo, que  sempre um sugeito
respeitavel, ainda que seja um grande tlo; ou um grande maroto!

Ouseiro e veseiro de similhantes impudicicias, este monstro fra o
primeiro immoral que tentra a honestidade da senhora D. Marcellina,
esposa muito querida do senhor Joo Pereira, e, pelos modos, assidua
cultora dos estudos da natureza. Esses estudos quem lh'os fez appetecer
foi elle! No queremos fazer pso aos seus enormes peccados, mas
releve-nos a sua alma o encargo que lhe fazemos de ter sido elle o
mestre de astronomia de Marcellina. Sem os prelogomenos, que elle lhe
ensinou, nunca ella viria, alta noite, estudar o planeta
sete-estrello!  sombra da sciencia, deu-se ahi uma grande immoralidade
na face da terra! O crime infando, que hoje felizmente no tem
sectarios, graas  civilisao que vai ensinando os limites dos
deveres, no s internacionaes, mas tambem inter-visinhos, o crime
infando (repetimos com os calafrios do terror na espinha dorsal); o
crime infando, finalmente, consubstanciou-se de tal arte no sangue
d'aquelle homem, que (_vox faucibus hsit!_) no havia mulher casada,
com um palmo de cara soffrivel, que o rprobo de Deus e dos maridos no
tentasse abysmar nas profundezas do bratro perpetuo!

Mas pela litteratura tinha vindo um grande mal  senhora Marcellina, que
no  digna do _dom_, attendendo  vill fraqueza com que se deixou
embair das astucias d'aquelle grande velhaco, que j me fez suar tres
vezes, desde que estou fallando nas suas impudencias!

De mais a mais, Fernandes era inconstante nas suas affeies, e cynico
na maneira de se desquitar das fastidiosas mulheres, que o fatigavam
depressa. Esta segunda immoralidade  uma questo  parte. A nossa
misso, alis repugnante (nunca cessaremos de lembrar ao leitor que nos
parece impossivel este crime, como o parricido aos legisladores de
Athenas!) a nossa misso  contar que o dito Fernandes tentou seduzir
Maria Elisa!

O peor no  isto! A maior das vergonhas  ter eu de dizer que Maria
Elisa, legitima representante de nossa av, que comeu mas no paraizo,
cedeu  tentao, e s torceu o pudibundo nariz duas vezes (ou tres, no
me recordo bem) s calidas manifestaes d'aquelle grande desaforado,
perverso, dissoluto, scelerado, e no sei mesmo se concussionario!

Quem soubesse isto, entrava no segredo dos constantes passeios de Maria
Elisa. A sua habitual direco era  Ponte-da-Pedra, a uma legua do
Porto, na estrada de Braga.

Ahi apeava-se da carruagem, a pretexto de descansar. Subia para a sala
da estalagem, que j n'esse tempo era as delicias dos honrados amadores
de peixe frito, e azeitona. E n'essa sala... (_digitis callemus et
aure!_... Soccorre-me, meu velho Horacio!) encontrava sempre esse homem
para o qual o meu vocabulario de indignao no tem um nome adequado! E
isto aconteceu muitas vezes, emquanto o senhor Antonio sachava os
repolhos, e mondava a hervagem das melancias, sabe Deus com que
dificuldades na curvatura da columna vertebral!

Tres mezes, seis, nove, um anno esta pouca vergonha! E o co no tinha
raios para o impio, e o senhor Antonio no tinha n'aquelle corao um
presagio, que lhe dissesse que entre o repolho e a melancia ha alguma
cousa que deve occupar a cabea d'um homem sensato!

A Providencia, algumas vezes, parece-se com Homero; dormita, e consente
que os Antonios Joss levem no somno a palma ao cantor de Ulysses, que
tambem dormitou emquanto Penlope fazia muitas cousas, em que se parecia
com Maria Elisa. Ora j no  pequena gloria para o senhor Antonio Jos
collocar-se a par de Ulysses!

Era em uma bella tarde de agosto.

Maria Elisa sahira para a Ponte-da-Pedra. O senhor Antonio ficra n'um
banho de tina, chafurdando como o proprio tubaro de barbatanas. Quando
sahiu do banho, achou-se fresco, como  natural, e resolveu dar um
passeio, e, o que mais , surprender sua mulher, que devia ficar
contentssima de tal surpreza.

Ao pensamento seguiu-se a execuo. O senhor Antonio repartiu as suas
duas pernas-pleonasmos sobre o dorso de uma pacifica jumenta, e com a
ponta da bengala estimulou-lhe a anca de modo que era um raio por
aquella estrada fra! E era um grupo bonito! A pequena jumenta, debaixo
do vulto magestoso do senhor Antonio, parecia consubstanciada na
organisao do seu dono! Iam contentssimos!

--L est a carruagem!--disse elle, exultando,  sua jumenta, com a qual
tivera um longo colloquio, em que a submissa interlocutora no fra
menos eloquente com o seu silencio, nem lhe quizera conceder honras de
Balaam.

Pararam  porta da estalagem. O senhor Antonio no queria fazer ruido, e
perguntou baixinho:

--Onde est a dona da carruagem?

--Est l em cima com o primo.

--Com o primo!--exclamou elle com um som de ventriculo.

--Sim, senhor, o primo...

--Quero vl-a...

E subia as ingremes escadas, agarrado ao corrimo.

Maria Elisa conhecera a voz. Fernandes fugira para o quintalejo
immediato, e escapra-se pelos pinhaes visinhos, sem ser visto.

O senhor Antonio estava diante de sua mulher, solemne e magestoso como
todos os maridos em similhantes apertos. Queria fallar, e parece que a
eloquencia lhe ficava estagnada nos papos do pescoo que oscillavam como
duas bexigas de porco, sopradas pelo vento. Queria profundar o abysmo da
sua situao, e a unica imagem que lhe apparecia aos olhos pvidos era
Joo Pereira, o do chin!

Angustias d'estas... no tem nome na terra! Cahiu, como forado por um
enorme murro, sobre uma cadeira. O urro, que a cadeira gemeu debaixo
d'esta avalanche de carne, acordou os eccos da estalagem.

Maria Elisa, essa, pallida e confusa na surpreza do crime surprendido,
aproximou-se de seu marido, e murmurou com meiguice:

--Que tem?...

--Que tenho?... perguntas-me o que tenho?

--Sim!... pois que fiz eu?!

--O que me fizeste?!

--Sim!... o que lhe fiz?!

--_O que lhe fiz?!_ diz ella.

--Digo... pois que lhe fiz eu para tamanha commoo?

--Tu escarneces de mim!... Que primo  esse que estava comtigo?

--Um primo!?...

--Sim, um primo... quem  esse primo, que nunca me fallaste n'elle?...
Deixa que eu chamo a estalajadeira, e ella te dir quem  que me disse
que tu estavas aqui com um primo... Espera ahi...

O senhor Antonio dera um pulo, como um tigre, da cadeira para o meio da
sala, e tomava flego para chamar a estalajadeira, quando Elisa,
atordoada da surpreza, mas no de todo, correu a elle, embaraando-o do
vergonhoso proposito.

--No chame... que  uma vergonha...

--Ento sempre  verdade, que me s infiel!... Deshonraste, Maria Elisa,
um homem a quem deves tudo!...  assim que se  mulher honrada!... Foi
para isto que me amaste, e quizeste casar comigo!... Eu endoudeo... Eu
morro!... Que dir o mundo!...

O senhor Antonio comeava-lhe a dar cuidado o que diria o mundo. N'estas
enfermidades, o temor do que o mundo dir  sempre um symptoma
favoravel; porque o mundo cala-se depressa, e as funces vitaes do
espirito entram no seu curso regular.

Maria Elisa no era to esperta como eu suppunha. Ficou estupidamente
surprendida. No teve nenhuma lembrana feliz, que obrigasse seu marido
a pedir-lhe inclusivamente perdo da calumnia injuriosa! Cahiu com
miseravel imbecilidade n'um torpor moral, indigno da sua experimentada
philosophia. Deu-lhe para amuar, e morder o labio inferior, mas no com
tanta fora que espirrasse sangue. Ella sabia fazer as cousas com
prudencia; e, com quanto soffresse bastante na alma, parece que poupava
o corpo como cousa sua, e no lhe quero eu mal por isso. Uma mulher,
como eu seria se o fosse, deve fazer muito por que o corpo se no sinta
das enfermidades da alma. A alma tem muitas primaveras, e por mais
envelhecida que esteja no se v. O corpo tem s uma, e essa est
sujeita  maldita perfeio das lentes que lhe no deixam uma ruga
precursora de decadencia sem demorada analyse.

Eu, se fosse mulher, tinha enviado para Rilhafolles muitos poetas! Havia
de reduzil-os  quinta essencia do amor, que  a demencia. Com
preferencia a todos os outros, andaria de modo que me tornasse um
curioso estudo dos scepticos. Estas feras  que eu amansaria. Se eu
conseguisse tornar-me objecto dos seus estudos physiologicos,
prometto-vos que a seita ridiculamente comica dos _cansados_, dos
_scepticos_, e dos _no comprehendidos_ acabava como as preciosas
ridiculas de Luiz XIV.

Querem saber o que eu fazia? Ahi vai...  um servio gratuito que eu
offereo s mulheres, embora provoque inimizades de homens, que so
realmente os entes que menos me incommodam. N'este mundo ha s duas
cousas que me affligem: so os maus charutos, e madrugadas antes de uma
hora da tarde. No mais entendo que este globo  o melhor de todos para
quem no tiver callos e rheumatismo.

Se eu fosse mulher com uma cara soffrivel, estabelecia para meu uso as
seguintes theorias:


_Solteira_

Tendo de quinze a vinte e cinco annos, dava-me ares de candida
innocencia, e singeleza patriarchal. Olharia este ou aquelle importuno,
mas s com tres partes d'um lho, imaginando que elle tinha quatro.
Far-me-ia passar por myope, para que ninguem reparasse no olhar
penetrante com que os myopes costumam encarar os objectos a certa
distancia. No usaria luneta para mostrar assim que a minha vista era de
sobejo para admirar as poucas maravilhas do mundo. No theatro teria a
barba sempre apoiada na convexidade da mo, e nunca pegaria do binculo
sem reparar que a luva retezada no tivesse rugas.

Com as lentes attestadas para a segunda ordem deixaria passear a vista,
como dizem os francezes, pelo rebanho de Epycuro, que somos ns os
miseraveis estafermos de calas.

Surprendida, retirava os olhos com indignada commoo, e perguntaria 
mam se o vestido de D. Efigenia, ou de D. Simplicia no era de pessimo
gosto.

No final de cada acto, sahia a visitar uma amiga, e dava dous saltinhos
quando me erguesse do banco, para que a minha cintura no ficasse sempre
occulta pelo parapeito do camarote.

Acontecendo, porm, que a minha cintura lucrasse com o mysterio, no
sahia nunca sem lanar com languida graa uma pellia pelos hombros. Nos
bailes no sei o que faria; mas o que devia fazer era no tocar nunca
n'um taboleiro, e acceitar com mostras de grande sacrificio a instada
offerta d'um ffo, ou d'um rebuado de chocolate. Liquidos, excepto agua
limpida, nenhum. Nos jantares tomaria duas colheres de spa, o pescoo
de uma rla, ou a aza d'um frango. E isto mesmo seria vagorosamente
triturado pelos dentes preguiosos, com ar de victima sacrificada s
conveniencias d'uma sociedade, que tem o prosaismo de comer nas horas
vagas. Fructas, comeria uma laranja, uma amendoa torrada, e o resto do
tempo entretel-o-ia com o palito.

Como  natural que me retirasse com fome, em minha casa, nas horas
silenciosas da noite, quando a natureza j no respira, como se diz nos
primeiros capitulos de quasi todos os romances, comeria de modo que, no
outro dia, me levantasse pallida pelo effeito d'uma indigesto.

Estaria duas horas diante d'um espelho a desalinhar-me, porque o
desalinho  o mais melindroso toucador de uma mulher, que conhece
profundamente as irrisorias pieguices do homem.

Cheguei  especialidade em que eu muito queria ser mulher, pelo menos na
estao do theatro lyrico.

Se vivesse no Porto, colheria as melhores flres da minha cora na
estufa do real theatro de S. Joo, e escolheria de preferencia certos
catos reaes que eu l conheo. Eu denomino cato real o leitor, qualquer
que elle seja, com tanto que tenha escripto algumas sandices e dito
outras tantas a respeito do scepticismo.  cato, de trapeira pelo menos
(esta classificao no  minha: pertence a um espirituoso folhetinista
que d'antes classificava catos, e actualmente elle proprio se fez cato
politico, e vive nas estufas doentias do jornalismo srio),  cato de
trapeira, dizia eu, todo aquelle que chora o eterno desalento da sua
alma despoetisada, e no desencrava a luneta indecentemente enorme da
primeira mulher, que teve o descuidoso passatempo de reparar cinco
minutos na sua pallida physionomia.

Com estes  que eu me queria encontrar, sendo mulher, e mulher
litterata, porque, do contrario, agradeo  Providencia o favor que me
fez de me atirar qual sou  torrente dos acontecimentos masculinos.

Mulher, e litterata, sacrificaria temporariamente a minha isempo a um
d'esses scepticos desgrenhados, que se balouam na plateia como se,
insaciaveis de espirito, precisassem dar  materia todos os repelles,
que as turbas comtemplam como terremotos do talento.

Logo que eu conseguisse prender-lhe a atteno, aventuraria um d'esses
sorrisos, que me no custariam nada, sem que por isso me parecesse com
certas mulheres, que se escangalham em risadas alvares e frivolas,
mostrando a profundidade dos engastes mandibulares como quaesquer
cosinheiras nos seus colloquios amorosos com os cosinheiros respectivos.

Eu no me riria nunca; sorriria algumas vezes, e quereria que o meu
sorriso fosse recebido como formalidade da etiqueta para com os ditos
semsabores das pessoas que me rodeassem, que seriam quasi todas d'uma
fabulosa semsaboria.

A fera, domesticada no seu sanguinario scepticismo, procuraria
revelar-me dez paginas intimas da sua agonia dilacerante. Fallar-me-ia
quatro vezes do seu desalento: faria o necrologio da sua alma: citaria
Lazaro, levantando-se do tumulo  voz do Christo: e acabaria por
pedir-me que sentenciasse o seu futuro para optar entre a vida e a
morte.

O que eu faria, ento, attenciosas leitoras, no sei se alguma de vs j
teve a condescendencia de o fazer. Mandava-o  meia noite apparecer
debaixo da minha janella; e, sendo no entrudo, atirava-lhe um ovo de
cheiro; sendo na semana sancta, quatro confeitos; e, no Natal, uma
tigelinha de ovos moles.

A humanidade estava vingada.

Ora aqui est o que eu faria, sendo solteira.


_Casada_

Sendo casada, eu era, com grande despeito da mulher d'um certo ministro
da fazenda do Egypto, chamado Putiphar, e da mulher do senhor Antonio
Jos da Silva, uma honesta mulher, de quem os mestres encartados de
necrologios diriam depois: _Era uma esposa carinhosa, o modelo das mes,
e uma senhora virtuosa a todos os respeitos_.  verdade que no 
necessario ser tanta cousa para,  sahida d'este mundo, deixar os
jornaes encarregados de dizerem ainda mais. Morram quando poderem, que
eu lhes prometto uma boa duzia de epithetos.

Eu seria no s o que me fizessem ser os constructores de necrologios e
epitaphios; mas, por minha parte, exerceria todas as virtudes
conhecidas, e muitas outras que ninguem conhece. Seria, por abreviar
moralidades, que me do grande trabalho, e aborrecimento aos leitores,
seria tudo menos o que foi D. Maria Elisa.

O que o senhor Antonio seria, isso  que eu no sei; mas o que elle
estava sendo, em verdade vos digo, que no deve ser inveja de ninguem!

A eloquencia dolorosa, que o auxiliou no choque da surpreza, falhou-lhe.
Quiz fulminar a perjura com uma apostrophe corrosiva, e no lhe occorreu
nada a proposito. Um pensamento ignominioso esvoara-lhe na cabea
febril... Teve tentaes de esmagal-a contra a parede do quarto em que
esta scena attribulada corria desapercebida!

O negociante, digno de melhor sorte, pagava com usura as affrontas
orgulhosas com que tentra ferir a honra do seu visinho Joo Pereira.

No auge da desesperao, a sua alma tornou-se esteril, a sua lingua
pegou-se aos gorgomilos, os seus labios resequiram como queimados pelos
suspiros rugidores, que lhe subiam das soturnas catacumbas do peito. Um
tremulo de sezo vibrava-lhe os musculos da face, especialmente os
bussinadores, que a maior parte dos leitores no sabe o que , mas por
isso mesmo  que tudo o que eu disser tem um cunho de originalidade, que
o senhor Antonio no sabia dar ao seu ciume, nem sua mulher  sua
perfidia.

Esta falsa posio no podia durar muito. Se se prolonga mais cinco
minutos, eu, por mim, declaro que largava a penna, e acabava o conto
aqui. No ha nada mais semsabor que a situao da mulher desleal
surprendida por um marido, que nem sequer arranca de dentro quatro
gritos, e reteza os braos na arripiadora postura de Orestes, insultando
os deuses! Porque no disse o senhor Antonio alguma cousa fra do
commum?

Porque no fez estylo de marido, que  o mais mascavado de todos os
estylos? Porque no exclamou: _Perfida mulher! hei de beber-te o
sangue, e cevar no corao as minhas iras! hei de esfolar-te para
memoria eterna! hei de mandar ao vento as tuas cinzas, e a tua alma a
Satanaz! Oh! Ah! Ah! Oh!_

Com estas palavras j eu compunha um capitulo, porque as outras tolices
encarregava-me eu de as pr de minha casa, e juro que um dos maridos
mais venerados e ferozes do seculo, que passa, seria o nosso amigo
Antonio, com grande desfalque de Joo Pereira, que, no seu genero, no
era mau.

Assim nem eu sei como hei de acabar o capitulo de modo que elle e ella
no paream dous volumosos parvos! Se me lembrasse d'algum romance, que
tenho lido, cousa que se parecesse com isto!... Ah!... Achei um bom
desfecho, e que tem o merito de ser o mais natural de todos.

O senhor Antonio desceu solemnemente para a rua a procurar a jumenta,
que to grata portadora tinha sido do seu anhelante corao. A jumenta
pilhando-se solta, fugira para casa, e no sei que monologo mental ella
faria  sua liberdade.

O senhor Antonio pedira aos eccos a sua jumenta. Os sobreiros da encosta
contemplavam silenciosos a sua dr. A lympha dos regatos era como um
arremedo cruel aos seus gemidos! Desgraa!

N'este angustioso conflicto appareceu Maria Elisa. A carruagem
aproximou-se.

--O senhor veio a p?--perguntou ella, vendo seu marido encostado a um
pilar da ramada.

--Que lhe importa?--redarguiu o marido convulso, mettendo as mos nos
bolsos, e puxando as calas machinalmente para cima, dando-se a grutesca
figura d'uma talha chineza.

--Porque no entra na carruagem?--replicou a carinhosa esposa,
aproximando-se meigamente do marido, que fumegava pelas ventas, como uma
fabrica de fundio.--Venha... eu lhe explicarei tudo... ver que estou
innocente, ha de arrepender-se de me tractar assim...--proseguiu ella,
com o tremor de voz, que precede as lagrimas.

--Como innocente!--murmurou o senhor Antonio, um pouco modificado nas
caretas da sua furia legitima.

--Sim... innocente... Em casa lhe contarei tudo...

--Pois pde l ser que estejas innocente?... Tu ests a mangar
comigo!...

--Ver que no sou digna da sua clera, e que os seus ciumes so
injustos... A affronta que fez ao meu caracter de mulher casada, tarde
ou cedo lhe far remorsos, senhor Antonio Jos da Silva!...

O tragico entono d'estas palavras acobardra os espiritos briosos do
marido. O senhor Antonio julgou-se algoz d'aquella victima; e, se ella
teima, haviamos de vl-o ajoelhar aos ps do innocente holocausto do seu
ciume, e pedir-lhe perdo.

Maria Elisa, restituo-te os teus creditos! Andaste perfeitamente, por
fim! Eu, se fosse mulher casada, com os teus costumes, faria o que tu
fizeste.

Em 1819 ninguem faria mais do que tu!

Hoje... serias d'uma simplicidade boal.




CAPITULO XXII


A seu tempo saberemos at que ponto o senhor Antonio podia ser
civilisado por sua mulher.

Agora vamos procurar Rosa Guilhermina.

Antes de entrarmos, reparemos n'esta mulher que bateu  porta primeiro
que ns.

--Quem ?--perguntou da janella uma criada.

--Faz favor de dizer  senhora D. Rosa que est aqui uma mulher, que lhe
quer fallar.

--Que lhe quer?

--A vmc.e no lhe quero nada,  a sua ama.

--Quer pedir-lhe alguma esmola?

--Sim, senhora, queria pedir-lhe uma esmola.

--Pois para isso escusa de fallar  senhora: pegue l... Ento no
levanta do cho os dez reis?!

--No levanto, porque lhe no pedi nada a vmc.e J lhe disse que quero
fallar com a senhora D. Rosa.

--A senhora D. Rosa no falla a mulheres de mantilha rta... Se quer,
queira, se no quer, ande sempre...

A janella fechou-se e a mulher da mantilha rta sentou-se no degrau da
porta.

Pouco depois, abre-se outra vez a janella, e apparece D. Rosa!

Vde-a, j no  a rosa purpurina d'outro tempo!... A pallidez
d'aquellas faces no  natural!... Alli, ha muita saudade do que foi, ou
muito receio do que ser! Aquelle desalinho no era d'antes assim...
Rosa tinha tanto brio nos seus longos cabellos negros!... Enfeitava-os
tanto de fitas e flres!... E agora?... Aquelle leno branco, que lhe
apanha as tranas desgrenhadas,  to desairoso!... Aquelle chaile, que
lhe esconde as frmas do pescoo mais lindo ao p dos hombros mais
artisticamente torneados, d-lhe um aspecto to triste de enfermeira do
hospital... Que mudana!... faz pena!... Cahiu to depressa da haste
aquella flr, que tinha tanta vaidade das suas petalas avelludadas, e da
fragancia dos seus aromas!... Minha pobre Rosa, que  da tua
philosophia!... De que te valeram os teus romances, se te devias amoldar
aos typos dolorosos que l encontraste!... Ai!... porque cheguei eu a
interessar-me na tua sorte, se nunca te conheci!... Porque ha de esta
phantasia pintar-me realidades, que me fazem dres no corao, quando as
vejo sahirem infelizes dos bicos da minha penna!... Tenho cousas de
muito creana, leitores!... Desculpai-me estas imbecilidades...

Para que vieste tu  janella, Rosa, se quasi me obrigaste com a tua
pallidez a discorrer com ternura sobre cousas que me fazem lembrar mil
outras, e to tristes so ellas, que nem eu sei se era mais feliz no
vindo ao mundo para recordal-as, ou, ao menos, vl-as, e esquecel-as
para sempre... Forte puerilidade!... Se me no chamam para jantar,
n'este momento, eu reduzia-me  situao piegas de verter uma lagrima...
por quem?

Uma lagrima!...

Sabeis o que  uma lagrima d'um homem!...  a perdida essencia do sangue
que nos alimentaria a existencia longos annos!....................

........................................................................

A mendiga, ouvindo abrir-se a janella, ergueu-se, voltou a face
macilenta para cima, e cortejou D. Rosa.

--Quer alguma cousa, mulher?

--Queria-lhe dar duas palavras, minha senhora.

--Ento diga d'ahi.

--Eu bem queria dizer-lh'as de perto.

Rosa voltou-se para dentro, e mandou abrir a porta. A mulher subiu, e
encontrou a senhora no topo da escada, perguntando-lhe o que queria.

--Venho pedir-lhe uma esmola.

--E para isso era necessario subir? Dissesse-o da rua, que eu
mandava-lh'a l dar.

--Uma teima assim!...--atalhou a colerica criada--Eu j lhe tinha
deitado  rua dez reis, e ella no levantou do cho a esmola... O que
voss merecia sei eu...

--No se zangue tanto, menina... Bem me basta a minha pobreza. Lembre-se
que no est livre de chegar ao estado em que me v... Outras mais
ricas, e com bem melhores principios que os seus, teem tido este fim...

--De mais a mais quer dar leis!--interrompeu a cosinheira, animada pelo
silencio approvador de sua ama--Sabe que mais, minha senhora? mande-a
pr no lho da rua, que, emquanto a mim, essa mulher no vem para fazer
boa obra... Eu c vou queimar arruda...

--Tome l...--disse Rosa Guilhermina, offerecendo-lhe um pataco.

--Seja pelo divino amor de Deus...--disse a mendiga, beijando a esmola.

--Ento no se vai embora?

--Ainda no, senhora D. Rosa Guilhermina... Tenho duas palavras a
dizer-lhe muito em particular...

--Que negocios poderei eu ter comsigo?!

--Negocios nenhuns; mas Deus no deu lingua  gente para fallar s em
negocios.

--Diga o que quer mesmo ahi.

--Aqui no, porque a sua criada est ouvindo o que ns dizemos.

--E que tem isso? Eu no tenho segredos de que me esconda  minha
criada.

--Mas vai tel-os agora, e bom  que ella no saiba o que vou
communicar-lhe.

--Fra com a alcoviteira!--exclamou a criada l do interior--_M mez_
para ella!... Olha o estafermo que me apparece em jejum!...

--Esta sua criada, minha senhora,  bem pouco caritativa com os
desgraados, e v. s. no  melhor que ella, pelo que vejo...

--Est bom!--atalhou irada D. Rosa--Eu no admitto reflexes! Saia, que
quero mandar fechar a porta.

--Pois devras no me quer ouvir?

--No, j lh'o disse.

--Pois ha de ouvir-me, digo-lh'o eu.

--Se c tivesse o criado, mandava-a pr no meio da rua.

--E a senhora para isso precisa d'um criado? Eu sou uma pobre velha sem
foras... qualquer spro me faz cahir, e a menina mesma pde empurrar-me
por esta escada abaixo...

--E esta? j se viu um descaramento assim? Voss parece-me uma mulher
sem vergonha!...

--Pois tenho muita, e principalmente agora. Sabe Deus com quanta
vergonha eu vim pedir-lhe uma esmola.

--Mas, se eu lhe dei a esmola, porque se no retira?

--No me retiro, porque os desgraados no se satisfazem s com po...
precisam d'outras consolaes, que a menina pde dar-me.

--Pois que quer?

--Queria que me deixasse sentar um bocadinho nas suas cadeiras... Estou
muito fatigada, falta-me j a fora n'estas velhas pernas, que tanto
andam, e to pouco caminham... Tudo me falta... at a vista; nem j a
menina me parece o que era aqui ha um anno!... Deve ter feito uma grande
mudana a sua vida!... Vejo-a to coadinha... A menina soffre do corpo,
ou da alma?

--Que lhe importa do que eu soffro? No soffro d'uma nem d'outra
cousa...

--Pois louvado seja Nosso Senhor!... Felizes aquelles que assim o podem
dizer... Pois veja que differena... Eu soffro de tudo...

--E que culpa tenho eu disso?

--Nenhuma, nem eu a culpo, senhora D. Rosa Guilhermina...

--Faz favor de sahir, que quero recolher-me?

--Est o almoo na mesa--disse a criada.

--Se a menina consentisse que eu tomasse uma chavena de ch comsigo...

--Comigo?... essa  boa!

--Envergonha-se d'isso? Pois olhe que no descia de quem , porque os
pobres foram sempre os amigos, com quem Jesus Christo repartiu o seu
po, e os seus peixes.

--Parece-me esperta de mais para pobre...

--Pois  de obrigao que todos os pobres sejam brutos! Ento d uma
chavena de ch... a sua me?...

--A...

--A sua me!

--A minha me!... Quem  minha me?

--Falle baixo que a no oua a sua criada!... No lhe tinha eu dito que
era bem melhor ouvir-me em particular!... Espanta-se de mais, menina?
Pois no sabia que tinha me? No soube ha um anno, que ella precisava
de recorrer  sua generosidade? No calculou, que, mais hoje ou mais
manh, a sua desamparada me devia cobrir esta mantilha esfarrapada
para vir receber dez reis da mo de sua criada?

--Eu no a reconheo como minha me... Eu j colhi informaes de que
minha me no existia... Meu pae nunca me disse que eu tivesse me viva!

--Deus perde  alma de seu pae... No lhe quero por isso amaldioar a
memoria... Pois, quer me acredite, quer no, esta desgraada mulher, que
no conhece, esta velha, que ainda no tem quarenta e quatro annos, 
sua me.

--No acredito, j lh'o disse... Prove-me que  minha me, e eu lhe
farei aquillo que j lhe quiz fazer, se vmc.e  uma tal Anna do Carmo,
que morou na rua Direita.

--Sou uma tal Anna do Carmo, que morou na rua Direita, e agora mora no
pateo dos conventos, esperando a tigella de caldo da caridade. Bem v
que soffri muito antes que viesse importunal-a. No disse a ninguem que
a menina era minha filha para a no envergonhar. Lembrei-me de que sendo
eu moa e rica do muito que seu pae me dava, no gostei de que minha
pobre me viesse um dia procurar-me para me pedir doze vintens para
comprar uma gallinha para minha pobre irm, que morreu de miseria depois
d'um parto... Lembrou-me o quanto eu me vexei ento, e quiz poupar minha
filha a similhantes vergonhas, que s sabe o que ellas so quem passa
por ellas. Agora, se aqui vim,  porque de todo em todo j no podia
levantar-me das palhas para ir de manh procurar a bemdita esmola no
pateo de S. Bento e de Sancta Clara. Sinto-me quasi sem vida, tenho um
aneurisma no corao, e queria vr se morria descansada para me
reconciliar com a misericordia divina... Se no fosse isto, minha filha,
eu no vinha de certo aqui, de mais a mais, to rota, to magra, indigna
de me chamar sua me...

Rosa Guilhermina tinha soffrido um abalo, e parece que as lagrimas iam
saltar-lhe involuntariamente dos olhos. Mas a criada, que viera
collocar-se, sem ser vista, na alcova proxima da sala, adivinhando a
commoo de sua ama, resolveu salval-a das arteirices da velha, e tomou
a palavra, saltando para o meio da sala, com a mo na cintura:

--Pois v. s. acredita o que lhe est dizendo essa onzeneira?

--No... eu no acredito, mas tenho pena d'ella... Coitadinha...  a
necessidade que lhe ensina estas mentiras... Quer vmc.e uma chicara de
ch?

--No, menina, eu j no quero a sua chicara de ch. Deus Nosso Senhor
d-me foras para que eu possa viver sem a sua esmola. O que eu queria
era morrer, abraando-a ao meu corao, e chamando-lhe _filha_...

--Ser ella douda!--atalhou a criada.

--No sou douda, no... No receie que eu lhe quebre as suas jarras...
Estou no meu perfeito juizo... Estejam descansadas que no farei doudice
nenhuma. Se fosse ha um anno, poderia fazel-as... Hoje, j no... A
desgraa enfraquece a gente, e apura o entendimento... Conheo muito bem
minha filha...

--E ella a dar-lhe com o _minha filha_!...--interrompeu a criada.

--Oua-me emquanto ella se ri, menina, que o que eu vou dizer-lhe ha de
fazel-a chorar. Conheo muito bem que no tenho direito nenhum a
pedir-lhe o amor, que se deve a uma me... Eu quasi que a no reconheci
minha filha. Dei-a ao mundo, e o mundo assim como a fez feliz podia
fazel-a muito mais desgraada que eu sou... N'este mesmo momento, em que
venho aqui expiar as minhas culpas, confessando-lhe que fui to
desnaturada me, olhe que lhe no tenho amor, nem me offendo com o seu
desprso. Por fora assim devia ser... Se no fosse assim, eu no
acreditava na justia de Deus!... Se a minha filha me tivesse atirado
com um pontap  rua, eu havia de levantar-me, se podsse, para lhe
dizer: eu te perdo, filha de Leonardo Taveira! Veja que bom corao
eu poderia ter-lhe dado, se tivesse, quando a expulsei de meus braos,
um presentimento de que viria uma hora em que eu precisava das suas
consolaes...

D. Rosa chorava, e a propria criada sentia-se amollecer no corao.

--Entre para esta sala--disse a filha do arcediago commovida.

--No entro, minha filha, eu vou retirar-me; disse-lhe tudo, levo o
corao mais desabafado, e creio que a no offendi... Se a magoei,
diga-m'o, que lhe quero pedir perdo.

--Entre...--balbuciou Rosa, offerecendo-lhe a mo..

--No... j lh'o disse... aqui tem os seus dous vintens, molhados de
lagrimas, que so a usura d'este emprestimo... Dentro d'essa sala no
posso entrar como mendiga: se eu podsse visital-a, como senhora, viria
muitas vezes aqui, e talvez lhe podsse fazer servios que a poupassem a
muitas desgraas no futuro... Assim... adeus!...

--No consinto que se retire; quero informar-me de quem a senhora . Se
fr minha me, hei de tratal-a como quem ...

--Por ser sua me, no sou ninguem, minha filha... A menina no me
honra, nem me deshonra. No tenho seno remorsos de a ter dado ao mundo,
como posso eu ter vaidade de ser sua me!... Fique com Maria
Sanctissima, e diga  sua criada que no  do agrado de Deus insultar
assim as pessoas infelizes... Chame-a aqui, menina, que me quero
despedir d'ella...

A criada veio, instada por D. Rosa.

--No se afflija, moa!--disse Anna do Carmo--No tenha pesar de me ter
offendido, que eu perdo-lhe de todo o meu corao... Tire d'aqui uma
experiencia para todas as pessoas necessitadas... O seu zlo por sua ama
 demasiado... Receava que eu lhe pedisse algum vestidinho velho dos que
vmc.e espera que sejam seus? No vim a isso... E para que se lembre do
que esta velha da mantilha rta lhe disse, quero deixar-lhe uma
lembrana de mim... Pegue l...

--O qu?--perguntou a criada, recuando a mo.

-- uma pea de quatro mil reis, com que vmc.e pde comprar umas
arrecadas... Acceite que lh'a d a pobre me de sua ama!... No quer?...
Ora pois, Deus lhe d muito que dar...

A ama e a criada ficaram perplexas, encarando-se estupidamente, emquanto
Anna do Carmo sahia. Quando vieram  janella para vl-a, ia j na
extremidade do bcco, mas  porta de D. Rosa estavam dous homens, que
conversavam apontando para a mulher da mantilha rta.

--No a conheceste?--dizia um.

--Eu no, nem tenho pena--respondeu o outro com desprso.

--Pois no conheces aquella mulher?

--No... j t'o disse...

--Pois no conheceste a fidalga, que ha tres mezes comprou a quinta dos
Engenhos, na ponte de Ramalde!

-- aquella?

--... dou-te a minha palavra d'honra que fui eu o tabellio que lavrei
a escriptura, e contei os doze mil cruzados.

--Mas ento que historia  esta!... Ella vai assim rta!

--Eu sei c o que !  o que tu vs...! Eu, logo que a avistei aqui
n'este sitio, conheci-a, e ella puxou para o nariz a cca da mantilha...

--Que celebreira!... eu ainda hontem a encontrei a passear n'um jumento,
com lacaio ao lado; e at me disseram que o fidalgo das Laranjeiras
queria casar com ella.

--Tu no sabes a historia d'esta mulher?

--Eu no... ouvi dizer que fra casada com um livreiro, aqui no Porto, e
que depois ficra rica...

-- verdade... foi casada com um livreiro; mas o livreiro no deixou
fazer o ninho atraz da orelha, e foi-se embora para a Frana, onde
morreu. A tal senhora parece que lhe no foi fiel, e, na ausencia do
marido, menos o foi ainda. Viveu na companhia do celebre arcediago de
Barroso, que foi mandado sahir pelo bispo, e morreu na Hespanha. O padre
era muito rico, e por muito tempo ninguem soube que fim levou o grosso
cabedal que elle l trazia comsigo. A final, ha de haver seis mezes,
morre l uma freira, que,  hora da morte, declarou que o tal arcediago
lhe deixra em seu poder quarenta mil cruzados em ouro, para ella fazer
entregar a Anna do Carmo, moradora no sei aonde. A freirinha, s  hora
da morte se lembrou de cumprir o legado, e o caso  que no se lembrou
mal, porque a pobre amante do arcediago estava vivendo miseravelmente
ahi na rua Direita, e quando a procuraram para lhe dizer que se
habilitasse para receber a herana, a pobre mulher j se no levantava
da cama com fome. Ora aqui tens a historia da tal riqueza...

--Mas por ahi dizem que ella  fidalga...

--Isso  uma historia  parte. Apenas a mulher appareceu rica, soube que
era fidalga, porque a fizeram fidalga  fora, uns taes que moram ahi
atraz da S, dizendo que ella era filha bastarda da casa. Comearam a
visital-a, a hospedal-a, a chamar-lhe prima, e tem querido leval-a para
a sua companhia... Ora, ahi tens a historia da mulher da mantilha...
Quem me dra saber o que ella andaria a fazer por aqui... Eu parece-me
que ella sahiu d'esta casa...

O tabellio olhou machinalmente para a janella, e viu esconderem-se duas
cabeas: eram D. Rosa e a sua criada, que se retiravam espantadas do que
tinham ouvido. E tinham razo. Eu, por mim, tenho-me espantado com
cousas muito mais pequenas. Mas o que devras me espantou, foi
dizerem-me que Anna do Carmo, quinze dias depois, estava casada com o
ex.mo snr. ***, fidalgo, morador atraz da S, e fra, _ipso facto_,
reconhecida prima de todas as familias illustres do norte desde os
Leites at aos Albuquerques, desde os Cogominhos at aos Malafaias!




CAPITULO XXIII


O senhor Antonio Jos da Silva deve ter movido a compaixo interessante
das damas, e talvez o desprso dos briosos maridos, que, no logar
d'elle, tinham pelo menos degolado suas mulheres, e lavado a sua nodoa
em sangue.

Eu lhes digo: faziam uma solemne asneira, e arrependiam-se, depois, como
o senhor Antonio (que no era menos brioso que v. exc.as e s.as ) se
arrependeu de ter superficialmente condemnado sua mulher.

D. Maria Elisa convenceu o candido marido de que effectivamente tinha um
primo, filho d'uma irm de sua me, que morrera pobre, e o deixra
abandonado. Que esse infeliz primo se tinha dirigido  sua compaixo,
pedindo-lhe alguns sobejos da sua fortuna para alimentar a penosa
existencia. Que ella, como esposa e dona de casa, responsavel pelos
cabedaes de seu marido, se negra, muito tempo, a dar-lhe os supplicados
recursos; mas, por fim, taes foram as instancias, que a seu pesar, no
pde deixar de ceder aos impulsos do corao, que lhe mandavam soccorrer
o infeliz com as migalhas da sua mesa.

O senhor Antonio chorava de piedosa ternura, quando sua mulher, cada vez
mais eloquente e philantropa, continuou:

--Com o receio de que a vinda de meu primo a esta casa suscitasse
suspeitas malevolas, disse-lhe que me esperasse algumas vezes na
Ponte-da-Pedra, e eu, indo ssinha a passeio, lhe daria o que podsse
esconder aos olhos de meu marido, sem que elle desse pela falta, que de
certo era um crime...

--Pois no fizeste bem, Mariquinhas!  o que eu te digo, e perda... Se
me contas o caso, era eu o primeiro a dizer-te que podias dispr  tua
vontade do que ha n'esta casa, porque o que  teu  meu, e o que  meu 
teu.

--Pois sim; mas eu no tenho ainda um cabal conhecimento do seu
caracter. Receei que me levasse a mal esta caridade com um meu infeliz
parente, e no ousei manifestar-lhe um desejo, a que o meu bom marido
annuiria mais por delicadeza, que por vontade do corao. Agora, que
tudo se declarou, no quero que o senhor Silva se mortifique por me ter
offendido com as suas imprudentes calumnias. Faa de conta que no houve
entre ns a mais ligeira desintelligencia. Estamos quites: o senhor
fez-me uma injustia, reputando-me desleal; e eu fiz-lhe outra,
julgando-o sffrego da sua fortuna, e incapaz de estender a mo
bemfeitora a meu desgraado primo!...

--Ora, pois, no nos lembremos mais disso... Eu agora o que quero 
saber onde mora esse teu primo, porque sou eu o mesmo que propriamente
lhe quero ir levar os recursos necessarios para a sua subsistencia...
Onde mora elle?

--Onde mora elle?... (Maria Elisa no esperava esta! O improviso no era
o seu forte, e viu-se na mais embaraosa atrapalhao). Eu, se quer que
lhe diga a verdade, no sei bem onde elle mora... mas deixe passar
alguns dias, e talvez que elle aqui mande algum recado...

--Pois ento logo que elle apparea, fars favor de lhe dizer que eu
quero fallar com elle... Mas tu no conheces ninguem (tornou o
suspeitoso marido depois de reflectir um momento) que saiba onde elle
mora?

--No, senhor.

--No?... Eu no sei o que me parece isto, a fallar-te a verdade!...
Aqui anda dente de coelho!... Pois ninguem, ninguem?

--Talvez me lembre d'uma mulher que aqui veio trazer-me uma carta
d'elle, e me disse onde elle morava... Deixe-me recordar, e depois lhe
direi...

--Pois olha l se te lembras... Eu sempre quero vr os focinhos ao teu
primo... Acho que a cousa assim no vai bem...

--Que  o que no vai bem?!

--Eu c me entendo...

--Isso que quer dizer? Explique-se, senhor Silva... Nada de mais
palavras... No est ainda satisfeito com a explicao?...

--Podia estar mais, se queres que te diga c o que tenho no meu
interior...

--Pois no sei que lhe faa. Creia, se quizer, e, se no quizer no
creia. Vai-me fazendo subir a mostarda ao nariz!... Eu no lhe dou
direito a duvidar da minha palavra. Se cuida que lida com sua irm,
engana-se. Tenho uma face para o amor, e outra para o odio. Sei amar, e
sei aborrecer... Entende-me, senhor?

--Mas a que vem todo esse farelorio? Que te disse eu para tanta
arrenegao?

--Parece que duvida da explicao que lhe dei do meu comportamento?!
Esse direito s o dou  minha consciencia!

--Tem a menina muita razo; mas, eu, sim, acho que... parecia-me que no
sou mau homem, nem mau marido, se tenho c minhas comiches de conhecer
seu primo!...

--Se tem comiches, coce-se...  o que eu tenho a dizer-lhe... E de
resto, se quer esperar que meu primo apparea, espere; e se no,
procure-o at encontral-o.

D. Maria Elisa retirou-se enfronhada, e foi feliz n'esta lembrana,
porque o senhor Antonio precisava de similhante reaco para entrar nos
justos limites d'um marido exemplar, como todos os maridos que no tem
pblica-frma.

Que  pblica-frma d'um marido? Eu sei c... Lembrou-me isto; se me
lembra, em logar de pblica-frma, dizer uma sandice mais compacta,
creiam que no era homem de a deixar no tinteiro, porque, se ha
inviolabilidade n'este mundo,  para todas as sandices que se escrevem.
D'este peccado tenho eu a dar srias contas a Deus; mas quem de certo
no deu nenhumas, quando d'este mundo se partiu, foi aquella alma gentil
do senhor Antonio, que nunca publicou asneira nenhuma, honra lhe seja
feita! Se vivesse hoje tinha pelo menos escripto para os jornaes uma
carta, renunciando a sua candidatura, ou qualquer outra trapalhice da
barbara linguagem do systema representativo.

N'aquelles felizes tempos, as asneiras desciam  sepultura com o
individuo; e d'essa grande sementeira creio eu que nasceram as muitas
que hoje amadurecem no jornalismo, e entre as quaes peo ao publico
imparcial que classifique a minha da pblica-frma do marido pelo que
me declaro j summamente penhorado, como todos aquelles que se retiram
d'um baile s cinco horas da manh.

Por no esgotar as frioleiras de que disponho, sabero, estimaveis
leitoras (se me do a honra de me dirigir a v. ex.as, como quem quer
divertil-as da seriedade austera das suas cogitaes) que D. Maria Elisa
entrou no seu quarto, e escreveu uma longa carta ao senhor Fernandes,
contando-lhe miudamente os infaustos successos.

Na manh do seguinte dia, a anciosa esposa recebeu a seguinte resposta:

     _No te afflijas. Hoje de tarde ahi vai teu primo. Falla pouco, e
     deixa-o fallar a elle._




CAPITULO XXIV


O senhor Antonio estava sriamente amuado. Atormentava-o a dvida, e as
suspeitas terriveis principiavam a obra maldita do arrependimento.
Comparando a sua pacifica vida de solteiro com as consequencias da vida
matrimonial, arrependia-se o brioso mercador de pannos, e considerava-se
o bode expiatorio do seu orgulho insultante com o proximo do chin, em
circumstancias analogas.

Era isto que affligia o corao do marido de Maria Elisa, emquanto ella,
amuada tambem, se fechra no seu quarto, imaginando a comica soluo que
o senhor Fernandes daria ao problematico parentesco da Ponte-da-Pedra.
Assim se entretinham aquellas duas creaturas, quando foi dito ao senhor
Antonio que estava alli um sugeito, que queria fallar-lhe, sendo
possivel.

--Que diga quem .

O criado voltou, dizendo que era um primo da senhora D. Maria Elisa.

--Devras?!--disse o senhor Antonio, com sobresalto, expandindo as
bochechas em ar de contentamento.

--Sim, senhor, diz que  primo da senhora.

--E quer fallar comigo?

-- o que elle disse.

--E no fallou ainda com a senhora?

--Nada; nem por ella perguntou.

--Pois que suba para a sala.

Em seguida, foi introduzido na presena do senhor Antonio um sugeito de
trinta annos, pouco mais ou menos, com uma cara trivial, um trajo usado,
e maneiras delicadas.

--Tenho a honra de cumprimental-o, senhor Silva.

--E eu a mesma. Com que ento o senhor  primo de minha mulher?

--Sim, senhor: filho d'uma irm de sua me.

--Estimo muito conhecel-o.

--Eu devo, sem mais delongas, dizer a v. s. o fim que me traz a sua
casa.

--Ora diga l sem ceremonia, os homens so uns para os outros, e eu
estou prompto a mostrar-lhe que no sou daquelles que... emfim... diga
l o que quer...

--Quero ser eu o proprio accusador da mo bemfeitora, que tem derramado
sobre mim alguns beneficios.  preciso que v. s. saiba que eu sou
pobre, e no tenho podido at hoje agenciar pelo trabalho a minha
independencia. No commercio no me acceitam, porque me acham adiantado
em idade. Emprego no me do nenhum, porque no tenho proteces. Para
militar no sirvo, porque sou muito doente do peito, e alm d'isso muito
curto de vista. Para frade tambem no sirvo, porque no tenho
patrimonio, e de mais a mais no sei latim para poder entrar nas ordens
mendicantes. Sou, pois, vadio por necessidade; no tenho de quem me
valha, a no ser d'esta minha prima, que, pelo facto de casar-se com v.
s.,  a unica pessoa do meu parentesco, a quem se pde pedir uma
esmola! Nas minhas tristissimas circumstancias, dirigi-me a ella, e
achei-a fria, dura de corao, e insensivel s minhas spplicas. Instei,
segunda e terceira vez, obrigado pela indigencia, e consegui que ella me
mandasse esperal-a, algumas vezes, na Ponte-da-Pedra, onde me daria o
pouco que podsse economisar do que seu marido lhe dava para alfinetes.
Disse-lhe eu que no duvidava fallar pessoalmente a v. s., e ella
tirou-me d'isso, dizendo que no queria ser pesada a seu marido com os
seus parentes pobres. Hontem foi um dos dias em que ella me deu uma
pequena esmola, e me prometteu algum dia empenhar-se com v. s. para que
se me dsse um logar na alfandega, ou em qualquer repartio da justia,
em que eu podsse ganhar com honra um bocado de po. Quando fallavamos
n'isto, ouvimos uma voz, minha prima empallideceu, dizendo-me que
fugisse, porque ouvira fallar seu marido. Eu atrapalhei-me com os sustos
de minha prima, e nem tempo tive de reflectir nas consequencias da minha
fuga. Fugi pelo quintal, e vim de volta para a estrebaria escutar o que
se passava. Quando v. s. sahiu com ella, reparei que vinham amuados, e
entendi que eu fra a causa d'essa desgraada desintelligencia entre
dous esposos que tanto se amam, segundo ella me tem dito...

--Ella disse-lhe isso?

--Sim, senhor. Quando os vi enfronhados estive por um triz a sahir da
estrebaria, e dizer quem era, porque v. s. no seria to barbaro, que
maltractasse sua mulher, porque tem um primo que necessita das suas
migalhas. O receio fez-me recuar no meu plano, e vim para casa meditar
na minha triste sorte. Resolvi ter animo, e venho eu proprio accusar-me
de ter sido o perseguidor de minha prima. O que ella me tem dado  to
pouco, senhor Silva, que eu talvez, vendendo este velho casaco e estas
calas, possa embolsal-o. Quero ficar em mangas de camisa, mas no quero
que minha prima soffra por minha causa.

--Com que ento o senhor metteu-se-lhe l na cabea que eu c sou homem
capaz de tractar mal minha mulher, porque lhe deu alguma cousa? Ora
adeus!... mudemos de conversa! O senhor como se chama?

--Pedro Jos Sarmento de Athaide.

--J que fallou em Sarmento d'Athaide, faz favor de me dizer d'onde 
que herdaram esses appellidos?

--Eu lhe digo... Meu quarto visav Joo de Lencastre e Sarmento casou
com minha quarta visav D. Urraca de Athaide, da casa de Valladares no
Alto-Minho. Tiveram quatro filhos. O morgado casou em Pena-Ventosa com a
herdeira da muito antiga familia dos Pesicatos...

--Dos...?

--Pesicatos e Bemes.

--Nunca ouvi fallar d'essa linhagem.

--No admira, porque ficou toda essa familia sepultada em Lisboa, nas
ruinas do terremoto de 1755. Foi uma grande desgraa para a posteridade
do outro ramo d'este tronco illustre. O filho segundo de meu quarto
visav fez um mau casamento com uma mulher da plebe, e os dous seus
irmos foram frades; um morreu dom abbade em Tibes, e outro foi bispo
de Constantinopla, e chamava-se fr. Zagallo Sarmento e Athaide.

--Nunca ouvi fallar d'esse senhor bispo de... Castanhplas!...

--Pois, senhor, eu posso mostrar-lhe que elle era irmo legitimo do meu
terceiro visav, com documentos que param na Torre do Tombo.

--No  preciso; eu vejo que v. s. falla verdade... Mas como  que o pae
de minha mulher era negociante, e no era dos de primeira ordem?

--Isso explica-se pelos casamentos desiguaes. O vinculo passou para os
parentes que temos em Macau, e j meu av foi negociante, e teve de
riscar de seu nome os appellidos de nossos avs, porque no podia
sustental-os. Ora aqui est a triste historia dos meus ascendentes, que
mal diriam elles que seu neto Pedro Jos de Sarmento e Athaide
precisaria de estender a mo  caridade de estranhos!...

--Pois, senhor Pedro, no ha mal que sempre dure. O senhor fez muito mal
em no vir ter comigo logo que soube que era seu parente por infinidade.
Havia de topar um homem como se quer para o seu amigo. No fez bem...
mas emfim tudo se remedeia... eu vou chamar sua prima, e ella dir o que
se ha de fazer...

--Perdo... eu acho que no ser bom que ella saiba que eu vim aqui,
porque me no levar a bem a liberdade que eu tomei de me dirigir a v.
s., abrindo-lhe francamente o meu corao...

--Qual?... Ora o senhor ento no sabe como ella !... Ver que ha de
estimar que se declarassem d'este modo c certas suspeitas...

--Suspeitas!... quaes?...

--Eu c me entendo...

--Mas eu  que no entendo... A minha honra est compromettida n'essas
suspeitas... Sou pobre, mas tenho pundonor; exijo que v. s., em nome da
honra, me declare quaes foram as suspeitas...

--Eu lhe digo, senhor Pedro... Eu no sabia que minha mulher tinha
primos, e, quando me disseram na estalagem que ella estava com um primo,
metteu-se-me c uma asneira na cabea...

--Qual asneira?

--Pensei que o tal primo era algum rufio...

--Rufio!... Eu no entendo essa linguagem!

--Quero dizer que pensei que andava por ahi algum farropilhas a
arrastar-lhe a aza!

--Ento o senhor no sabe que minha prima pertence  veneranda linhagem
dos Sarmentos e Athaides, e no consta que, na genealogia dos Pesicatos
e Bemes, se dsse uma infidelidade porca e vill!... V. s. offendeu as
cinzas de meus avs! Em nome de meu quarto visav, Joo de Lencastre e
Sarmento, e de fr. Zagallo, bispo de Constantinopla, exijo que me d uma
satisfao!...

--No se arrenegue assim, senhor Pedro... Um marido pde enganar-se
muitas vezes com sua mulher!

--Mas eu, neto de heroes,  que no admitto enganos taes! As suspeitas
so affrontas! V. s. affrontou-me na pessoa de minha prima! Insto pela
satisfao! Na Frana entre cavalheiros  costume disputar-se a honra 
ponta de espada. V. s. ha de bater-se comigo!

--Eu!... essa  que  daquella casta!... Pois eu, sem mais nem menos, hei
de agora jogar a tapona com o senhor, porque se me afigurou que minha
mulher no era to boa como se dizia! Ora, senhor primo, deixe-se
d'isso... Eu no sei c d'esses costumes dos francezes... Que os leve o
diabo e mais quando elles c vieram...

--No me importam os francezes! Importa-me a honra de meus avs,
insultada em minha prima D. Maria Elisa de Sarmento e Athaide. Senhor
Antonio! Dentro em vinte e quatro horas um de ns estar na eternidade!

--O senhor, por mais que me digam, est a mangar comigo, ou no regula
bem da cabea!

--Com a honra no se manga, senhor negociante de pannos! Se a sua arma 
o covado, a minha  a espada, que herdei de meu vigesimo-quarto av D.
Alarico Themudo Pesicato!  foroso que se bata, ou ento que declare 
face do co e da terra que  um covarde. Dentro de vinte e quatro horas
virei procurar a resposta. Se no quizer bater-se, hei de sacrifical-o
aos manes de meus illustres avoengos, que do Olympo excitam a minha
coragem! No tenho mais a dizer-lhe, senhor!

--Venha c... isto no  modo de tractar o homem de sua prima!... Se
quer dinheiro, diga-o, e no esteja ahi a arrotar postas de pescada.

--Com que ento chama o senhor a isto arrotar postas de pescada!...
Muito bem! Hei de provar-lhe que as postas do seu corpo tambem se
arrotam!... Passadas vinte e quatro horas, repito, um de ns ser
cadaver!

O neto dos Pesicatos sahiu. O senhor Antonio, atordoado com a seriedade
do negocio, entrou no quarto de sua mulher.

--Que diabo de homem  este teu primo,  Mariquinhas?

--Meu primo!... pois elle esteve c?!

--Sahiu agora mesmo... O homem parece-me doudo!...

--Pois que fez elle?

--O que fez?... Quer que eu jogue a bordoada com elle!

--Porqu?

--Isso agora  que eu no sei!... Levou-se dos diabos por eu lhe dizer
que tive c minhas desconfianas a teu respeito... e, s duas por tres,
pe-se a berregar como um barqueiro, e a dizer que antes de vinte e
quatro horas um de ns havia de morrer!... Que te parece isto?

--Parece-me um sonho!... Porque me no chamou?

--Porque elle no me deu tempo... Comeou a desembuchar umas trapalhadas
d'avs, e do bispo, e dos Pesi... Pesi... como se chamavam esses homens
da tua linhagem?

--Quaes homens?

--Uns fidalgos que morreram no terremoto de Lisboa?

--Eu sei c que homens eram esses!...

--Eram os... os... Pesigatos... De que te ris? O caso no  para isso...
O tal teu primo, se  doudo, o melhor  amarrarem-n'o, e mandem-n'o para
o hospital de S. Jos...

--Que figura tinha elle?

--Pois tu no sabes que figura tem teu primo?

--Sei... mas... lembro-me se no seria elle...

--Elle no se chama Pedro?

--Sim... elle... chama-se... Pedro.

--Pois ento ahi est...  elle mesmo... deu-me todos os signaes certos
da Ponte-da-Pedra.

--E que lhe disse?

--O homem fallou bem, a respeito de no ter meios, e fez-me c no
corao uma certa aquella; mas, depois, parecia-me um maluco chapado, l
com as suas valentias.  preciso saber como isto ha de ser; eu no quero
historias com elle. Manda-lhe dizer que se deixe de asneiras, se quer
ter que comer e vestir em minha casa, ouviste, Maricas?

--Pois sim; mas eu ignoro a sua residencia. Quando elle c tornar,
chame-me, e eu verei como se remedeiam as loucuras do meu primo.

O senhor Antonio, um pouco mais socegado, relatou, pouco mais ou menos,
a sua mulher o dialogo que tivera com o descendente do bispo de
Constantinopla. Maria Elisa ouvira-o, afflicta com vontade de rir-se, e,
ao mesmo tempo, vexada de ter um marido, que se prestava assim ao
ridiculo. Era bem natural esta mortificao do amor proprio.

A conversao foi interrompida pela chegada de dous senhores, que
precisavam immediatamente fallar com o senhor Silva.

--Temos alguma!...--murmurou o negociante, e entrou na sala onde o
esperavam dous officiaes de cavallaria, de grandes bigodes, e caras de
arremetter.

--Quem so v. s.as?--perguntou o assustado dono da casa, apenas os
encarou.

--Somos embaixadores de Pedro Jos de Sarmento e Athaide!--respondeu um
d'elles, arqueando os braos, e levantando a caneca com orgulhoso
entono.

--Embaixadores!... e que me querem os senhores embaixadores?

--Advertil-o de que  desafiado pelo nosso amigo...

--Ora, deixem-se d'isso!...--interrompeu o senhor Antonio, fingindo que
recebia a intimao com gracejo--V. s.as esto a brincar... Queiram
mandar-se sentar.

--A nossa misso cumpre-se de p... e v. s. ha de responder-nos tambem
de p! Queira tirar o seu barrete, por que ns tambem estamos
descobertos. As formaes solemnidades d'este acto no permittem
distinces de cavalheiro para cavalheiro. Repito, senhor! Queira
descobrir-se!

--Eu estou em minha casa, posso estar como quizer.

--N'este momento a sua posio  outra. O homem desafiado no se
considera em sua casa, emquanto a sua honra no est illibada, porque o
homem deshonrado no tem casa, nem propriedade, nem direito!
Descubra-se!

O senhor Antonio tirou o barrete, e emmudeceu na presena de similhante
insolencia.

--Muito bem... Responda agora: quer bater-se em leal duello com o senhor
Pedro Jos de Sarmento e Athaide Pesicato?

--No quero l saber d'essas cousas, j lh'o disse a elle, e no me
faam azedar o estomago, seno eu mando chamar o meirinho geral, e os
senhores so catrafiados e mais elle na Relao.

--O senhor insulta-nos! Se no tivessemos piedade da sua barriga... essa
lingua seria cortada pelo gume d'esta espada!...

--Os senhores vem insultar-me a minha casa! J no meio da rua, quando
no chamo os visinhos.

--Cale-se, monstro! quando no...

Os esturdios desembainhavam as espadas quando Maria Elisa entrou na
sala, e parou diante de seu marido, que recuava espavorido.

--Isto que quer dizer?--perguntou ella--No respondem?... Que infamia 
esta de entrarem n'uma casa estranha insultando o dono d'ella?

Os embaixadores do imaginario primo arrefeceram nas suas comicas furias,
e no ousaram responder.

--Retirem-se d'esta casa!--disse Maria Elisa apontando-lhes a porta da
sahida.

--Minha senhora...--balbuciou um d'elles--ns somos enviados por...

--Seja por quem fr. Vo dizer a quem os enviou, que Maria Elisa lhe
manda dizer que o seu procedimento  muito infame, e que eu muito sinto
no ser homem para poder dar a v. s.as uma resposta cabal!
Retirem-se!...

Os officiaes sahiram vexados, e o senhor Antonio estava espantado da
coragem de sua mulher.




CAPITULO XXV


O senhor Fernandes quando respondeu, em duas linhas,  carta que Maria
Elisa lhe enviara, contando-lhe os successos occorridos desde a fatal
surpreza da Ponte-da-Pedra, procurou um seu amigo, cadete de cavallaria,
e convidou-o a representar de primo para poder salvar a sua amante do
risco.

O cadete, mancebo de maus costumes, e votado engenhosamente a toda a
casta de maroteira, acceitou o papel e estudou-o com muita habilidade.
Era necessario que D. Maria Elisa o no visse para obviar aos embaraos
muito naturaes em tal surpreza. Fernandes inventra o desafio, e o
cadete inventra de improviso a historia genealogica dos Pesicatos e
Bemes, que encaminhou s mil maravilhas a historia do duello.

O comico, retirando contentissimo do bom exito da sua travessura, antes
de procurar Fernandes, fez obra por sua conta, divulgou a brincadeira
aos seus camaradas, que eram o tenente e alferes da companhia, e achou
n'elles dous optimos bargantes para continuarem a caricatura.

Quando a ultima scena se passava no Serio, o senhor Fernandes, na rua
das Flores, estava desesperado, porque previra que Maria Elisa levaria a
mal este excesso de escarneo a seu marido. Elle bem sabia que nenhuma
mulher consente que a desgraada condio do marido ultrajado seja um
brinquedo para o ludibrio do homem, que fatalmente a levou a uma
fraqueza de corao.

Era tarde para remediar a imprudencia. Esperou, inventando pretextos que
o reconciliassem com Maria Elisa, no caso possivel de ter ella sido
testemunha da zombaria feita a seu marido.

No se enganra. O cadete fora o portador da resposta enviada pelos
officiaes. Fernandes, reprovando o procedimento do seu amigo, que dava
grandes gargalhadas, e promettia contar o caso a toda a gente, escreveu
a Maria Elisa historiando o acontecimento. Era impossivel salvar-se!
Embora no tivesse elle sido o inventor do escandalo, quem expozera
Antonio Jos da Silva fra de certo elle, e Maria Elisa leu a carta,
rasgou-a, e devolveu-lh'a.

Seguiram-se novas remessas de cartas, que ella nunca abriu. Deixou de
sahir de casa, para no ser encontrada. Soffreu quanto pde soffrer o
amor proprio. No sentiu, por isso, mais interesse por seu marido;
todavia crava, muitas vezes, diante d'elle, lembrando-se que o fizera
descer tanto. Comprehendam-na, se podem! A sua consciencia estivera
tranquilla at ao momento em que foi surprendida na Ponte da Pedra! O
que lhe pesava no era a infidelidade; era o ultraje, que lhe fizeram a
ella, escarnecendo um traste de sua casa, uma cousa que a sociedade
chamava o seu marido!

Eu, se fosse mulher, seria isto, pouco mais ou menos, e levaria o meu
nobre resentimento ao extremo de abominar o vaidoso amante que
estabelecesse termos de comparao com meu marido.

A situao de Maria Elisa era muito especial. O senhor Antonio estava
assustado, e dava como certa a sua morte, logo que os officiaes de
cavallaria o encontrassem a geito. Ao anoitecer mandou trancar as
portas, e armar os criados, emquanto, confiado na coragem de sua mulher,
consultava os meios, que devia empregar, para judicialmente defender da
sua arriscada corpulencia os golpes de espada d'aquelle par de Damocles
que o neto de D. Alarico Themudo Pesicato lhe enviava a casa.

Maria Elisa queria serenar os sustos de seu marido; mas de que modo? Se
lhe dizia que tudo aquillo fra uma phantasmagoria, ficava a sua honra
muito duvidosa para seu marido. Se deixava medrar o terror do infeliz, o
pobre homem succumbiria de medo, se visse em sonhos o lampejo da espada
nas proximidades da barriga provocante.

Os palliativos no valiam nada para a cura. O senhor Antonio, no auge do
medo, chegou a censurar sua mulher por ter usado palavras fortes de
mais, quando deu ordem de despejo aos militares.

Maria Elisa quando viu, ao cabo de tres dias, que seu marido tinha febre
e tremia ao menor ruido que se fazia nas escadas, sentiu escrupulos, e
accusou-se de ter concorrido para os soffrimentos do pobre homem.

Fernandes teimava em escrever-lhe, e no conseguia que as suas cartas
fossem, ao menos, abertas. O seu tormento inspirou-lhe um recurso
extremo. Pediu ao cadete que se apresentasse humildemente em casa do
negociante, pedindo-lhe perdo das asperezas do seu caracter, e
affianando-lhe que nada viria perturbar-lhe a sua tranquillidade.

Maria Elisa estimaria este acontecimento; mas no queria lembral-o ao
seu indigno amante, porque jurra acabar taes relaes.

O cadete foi representar, de boa vontade, a segunda parte da fara. O
senhor Antonio no quiz ouvil-o, sem que sua mulher estivesse escondida
no quarto proximo, para intervir, sendo necessario.

--Eu venho--disse o cadete--desarmar a sua justa indignao, senhor
Silva. Foi de mais o meu brio. Minha prima  sua mulher, e v. s. no
tem obrigao de responder-me pelo mau conceito que fez d'ella.
Desafiei-o: fui imprudente; mas espero merecer-lhe um generoso perdo,
visto que as minhas demasias so filhas do nobre sangue que me gira nas
veias. Retiro-me na certeza de que v. s., de hora em diante, no se
lembrar mais do passado, e ter por mim a estima que se deve a qualquer
individuo, que zela a honra de nossas mulheres, tanto como ns.

O senhor Antonio ouviu-o primeiro com sobresalto, e depois com
satisfao. Tinham-lhe alliviado do corao o pso de quatro quintaes. O
sangue girava-lhe de novo em toda a extenso do systema circulatorio; e
os frouxos, que lhe accommetteram as pernas, desappareciam,  maneira
que o primo de sua mulher lhe garantia a inviolabilidade do seu abdomen.

O senhor Antonio tinha um excellente fundo. No era valente, mas odiento
tambem no. Deu um abrao no estroina, que recuou dous passos para o
receber com todas as formalidades d'um habil comico, e pareceu-lhe at
que o primo de sua mulher (valha a verdade) lhe dra um beijo na
bochecha direita. No affiano isto; mas o que posso, debaixo da palavra
de honra dos meus amigos, affianar,  que um beijo na face do senhor
Antonio, se se deu, revela um gosto estragado, um paladar torpe, e
alguma cousa de indecencia atroz na pessoa do cadete.

A verdade  que o tranquillo marido recobrou a felicidade inquietada, e
restituiu a sua mulher a plena confiana retirada por uma fatal
intermittente de ciume. Desfazia-se em satisfaes, acarinhava-a a seu
modo o melhor que podia e sabia, comprou-lhe duas pulseiras de grande
custo, e uma fivela de cintura, cravejada de diamantes. Maria Elisa
acceitava os carinhos, a fivela, e as pulseiras com a mesma
indifferena.

No era, porm, filho do estudo este desdem. A chistosa amiga de Rosa
Guilhermina vivia triste, porque vivia s. Desde que se entregra
apparentemente ao extremoso negociante, as suas horas unicas de
passageira felicidade eram as da Ponte-da-Pedra. Fernandes era um homem
de no sei que perverso talento que seduz, capacita; e chega a victimar
as proprias mulheres que teem a consciencia de que so victimas. Talento
e corrupo eram j n'aquelle tempo uma espada de dous gumes com que se
cortam os ns gordios do corao de certas mulheres. E Maria Elisa era
uma d'essas certas.

O que ella teve de mais, entre as da sua escla, foi uma caprichosa
dignidade, que a fez esquecer num momento o amor d'um anno. Recordava-se
de Fernandes com pesar, e odio; saudade, nunca. Quando se deixara cahir
nas astuciosas ciladas, que elle lhe preparara, com o animo frio da
experiencia das Marcellinas (que pelos modos eram muitas n'esse tempo,
apesar dos frades, e da suspirada virtude de outras eras) tirra ella,
como condio, um eterno silencio a respeito de seu marido. Parece que o
galhofeiro amante epigrammou, uma vez, o abdomen do senhor Antonio, e
teve, em vez de sorriso approvador, um gesto de desprso, que elle
reconciliou l como pde. O caso  que nunca mais cahiu na leviandade de
ferir a susceptibilidade de Elisa, lembrando-lhe a monstruosidade moral
e physica de seu marido.

Foi pessima lembrana aquella de enviar o cadete a representar de primo!
Maria Elisa quereria antes ser julgada, qual era, por seu marido, porque
a deshonra seria um segredo domestico, e a hilaridade publica no viria
aggravar a vergonha de ambos. Mas o remedio comico e inesperado, que o
inconsiderado Fernandes deu ao mal, era exacerbar a ferida, expondo-se
ao ar da publicidade, e ao fel do ridiculo, prompto sempre a flagellar
os maridos da escla do senhor Antonio, que no so muitos, mas
satisfazem as necessidades de alguns celibatarios que vieram ao mundo
para chronistas dos infortunios alheios. Eu, que sou um dos que se
honram d'essa misso, no posso deixar de confessar publicamente a minha
admirao por esta senhora, digna (a todos os respeitos no direi, mas a
alguns, de certo) d'outro marido, ou d'outro amante. Qualquer que tenha
sido o seu peccado, a gente de bom corao tem pena d'ella, vendo-a,
depois dos tristes acontecimentos que historiei com sincero d, ssinha,
entregue  escurido da sua vida sem amor, sem luz, sem ar, alli sempre
na presena do senhor Antonio, carinhoso at  desesperao, terno at
ao aborrecimento, desvelado em extremos de meiguice tla at dar vontade
de o mandar comer e dormir.

Isso foi que elle nunca deixou de fazer. O estomago era uma cousa 
parte na sua organisao. Eram dous Antonios n'um. O Antonio do ciume
morreria de paixo: mas o Antnio do estomago s uma indigesto poderia
matal-o.

Sempre ao lado de sua mulher, inerte, sedentario, bufando, arquejando,
impando, o nosso amigo sentia-se cada vez mais pesado. A medicina
mandava-o passear a p, e elle sem Maria Elisa, no dava um passo. J
no eram suspeitas. Era a tenacidade do amor, a reloucura da velhice que
o prendia quella mulher, como se prende a creana timida ao seio de sua
me.

Correram assim tres mezes. Maria Elisa, cada vez mais triste, cahiu
n'uma especie de doloroso somnambulismo. As janellas do seu quarto no
se abriam nunca. Passava as longas horas do dia e da noite, lendo sem
reflexo, e escrevendo cousas que o seu marido no entendia, mas gostava
d'ouvil-as. Eram melancolias surdas como ella intitulara os trinta
cadernos de papel em que as escrevera. Disseram-me que essas paginas
perdidas continham cousas bonitas, pensamentos que no pareciam de
mulher, energia de phrase, conhecimento do corao, e toque real d'uma
verdadeira dr. O que no viram n'ellas as pessoas, que me informaram,
foi o nome de Fernandes. Parece que a imagem d'este homem fra para
sempre banida das saudades de Maria Elisa.

Constrangida pela soledade, a antiga orph de S. Lazaro lembrou-se com
amor da sua amiga de infancia. Queria revocal-a ao seu corao, d'onde
nunca sahira, mas seu marido odiava Rosa, fazia-se cr de carmim quando
lhe fallavam n'ella, e repetira muitas vezes que, emquanto elle fosse
vivo, a filha do arcediago no entraria em sua casa.

Maria Elisa no replicava a este odio inveterado. Tinha compaixo do
pobre homem que, desde certo tempo, vaticinava a morte. J no comia com
o mesmo appetite. J no accumulava com prazer as sopas na tigella do
caldo de gallinha. Sentia preciso de sentar-se, apenas se erguia, e
acordava muitas vezes de noite com os ps frios e a cabea em braza.

A senhora Angelica, sempre a mesma devota, depois das desordens, por
causa do neto dos Pesicatos, metteu-se no seu quarto, em orao
permanente, e apenas sahia tres vezes em cada doze horas para comer,
visto que era necessario dividir a sua extatica existencia entre o
oratorio e a cosinha. Quiz, algumas vezes, intrometter-se na vida de seu
irmo, censurando a frieza de sua cunhada; mas no obstante a seriedade
do assumpto, a senhora Angelica, se fallava s dizia asneiras, o que no
succede smente  senhora Angelica.

Consta que ella fra uma vez ainda consultar a senhora Escolastica, a
Massarellos; mas esta mulher tinha morrido de fome, no obstante
predizer o futuro, que, parece,  primeira vista, um bom modo de vida,
depois de jornalista, que so as Escolasticas de calas e palet do
nosso tempo.

Eu vou dizer-vos cousas pungentissimas.  com pena, realmente vos digo,
que me vejo obrigado a deixar morrer uma das creaturas mais notaveis
d'este romance. Accuso a medicina d'aquelles tempos por no ter salvado
d'um ataque apopletico o senhor Antonio Jos da Silva. Se fosse hoje,
este homem no teria morrido, sem que ao menos o esfolassem com quatro
duzias de ventosas, e cento e tantos causticos. Tel-o-iam salvado com
alguma d'essas medicinas, que disputam entre si a vida dos cidados, ao
passo que as camaras municipaes mandam alargar os cemiterios. Felizes os
que morrem hoje, que, se morrem,  porque no podiam viver mais.

O senhor Antonio deitou-se uma tarde, queixando-se de dres de cabea.
Metteu os ps n'um banho de mostarda; mandou pedir a sua mulher que
viesse fazer-lhe companhia, e recebeu-a morto, quando ella entrou. O
facultativo chamado sangrou-o. A veia verteu algumas gotas de sangue
negro, e fechou-se, porque as valvulas do corao estavam fechadas para
sempre.

Maria Elisa tomou a mo do cadaver, e beijou-a sem lagrimas. A senhora
Angelica veio ao quarto de seu irmo, e chorou muito, grunhiu
desentoadamente, e atordoou a visinhana com gritos. Feita esta berraria
de duas horas, comeu alguma cousa sem appetite; mas podia dizer que
tinha fome que ninguem duvidaria da sua palavra. Ao mesmo tempo, Maria
Elisa, que no gritra, nem chorra, fugindo do quarto de seu marido,
fechra-se no seu, escondera a face nas mos, e murmurou: Perdi um pae!
Sou orph outra vez!




CAPITULO XXVI


A viuva do honrado negociante, que passou da terra sem um necrologio,
escreveu a Rosa Guilhermina uma carta que era um grito supplicante  sua
amiga d'outro tempo. Pedia-lhe que viesse, porque a chamava de ao p
d'um cadaver. S, sem amigos, e rodeada de riquezas inuteis, appellava
para a unica pessoa capaz de avaliar a sua orphandade.

Rosa Guilhermina entrou com o portador da carta. Abraaram-se, chorando.
Fecharam-se, para se furtarem s formalidades estupidas das visitas
funebres, que nos vem dizer: sinto muito e nos obrigam a responder:
muito obrigado. Dous dias e duas noites quasi no tiveram um
intervallo de silencio. Soffriam ambas, soffriam muito, e j no sabiam
adubar as conversaes d'aquella fina especiaria de risos, que tanto
promettiam, e em tantas lagrimas deviam converter-se depois.

--J no somos as mesmas, Maria Elisa!--disse Rosa, abraando a sua
amiga, que lhe inclinava o rosto pallido no hombro.

--J no... A nossa mocidade foi um dia... Parece-me que vivo ha
muito... Tem-me lembrado a morte, como o maior beneficio que posso
esperar do co...

--E eu tenho-a pedido tantas vezes!...

--Tambem soffres, Rosa?! No tens um esposo amado?

--No.

--Como no? pois no casaste por paixo?

--Casei... e depois, vi que me tinha perdido...

--Pois que? elle no te estima?

--No... arrasta-me na sua desgraa... Meu marido  um homem perdido...
um ente sem honra, nem futuro, nem presente.

--Pois teu marido no est a formar-se em Coimbra?

--J no trata d'isso... Meu marido  um jogador.

--Jogador!

--Sim, jogador de profisso... Gastou quanto podia gastar do meu
patrimonio... O pouco que possuo para a minha subsistencia e de minha
filha, tira-m'o com violencia. Foi riscado da universidade, veio ao
Porto vender aquella prata, que tu dste a minha filha, depois de a
comprares a meu marido, e foi para Lisboa, sempre acompanhado d'uma
mulher ordinaria, que viveu na minha companhia quinze dias, e ousou dar
ordens das minhas portas a dentro. Ha cinco mezes que no tenho,
noticias d'elle. Nem ao menos me pergunta por sua filha. Sei que vive,
porque, no fim de cada mez, se apresenta em minha casa uma ordem
assignada por elle para eu pagar quasi tudo que o juiz dos orphos
arbitrou para o sustento da minha familia... Aqui tens a minha vida...
Estou pobre... Maria Elisa!...

--Tu no ests pobre, Rosa! No me falles assim, que me fazes chorar! Tu
no ests pobre... Eu preciso que te esqueas de todo o nosso passado,
para entrares de novo no corao de Elisa... Queres ser minha? Eu estou
viuva, e viuva tambem tu ests... O teu corao no  j d'esse homem...
 da tua filha, e meu; a tua filha  minha e tua, sim?... No chores...
Troquemos entre tres as nossas affeies todas... Vivamos n'uma s
vontade... Foge para os meus braos, que no tem no mundo ninguem que os
queira, a no seres tu... Faz-me outra vez sorrir para a vida, que
n'estes ultimos dous annos me tem sido to negra... to negra... Rosa!
Faz que a minha riqueza me seja uma cousa agradavel... D-lhe algum
prestimo... S tu podes, se vieres ser outra vez minha irm, explicar-me
a razo por que eu queria ser rica... Era para isto, era, minha querida
amiga, era para nos fazermos felizes tres creaturas... eu, tu, e a nossa
menina... Vai buscal-a... Vai... No me digas que no... que me matas...
Essa mesada que tens d-a a teu marido... Que jogue, que se deshonre,
mas foge-lhe tu, que no tens ainda uma ndoa na tua vida... Vem
ensinar-me a ser boa, e honrada, porque eu tenho sido...

--O qu?... que tens tu sido?...

--Uma desgraada...

--Tambem eu... que culpa temos ns?!

--Eu?... muita!... Calemo-nos, Rosa... Olha aquelles sinos pezam-me
sobre o corao... Tenho mdo d'aquelles sons... Se meu marido tivesse
sido n'esta vida um homem, como eu deveria ter encontrado um, eu
pensaria que aquelle dobre era a voz d'elle que me accusava da
eternidade... Ai!... tu ignoras a minha vida? Parece impossivel!...
Nunca ouviste fallar de mim como se falla d'uma infame mulher?

--Nunca...

--Pois pergunta ao mundo o que eu fui... No, no perguntes nada...
Ignora tudo. O meu corao para ti est puro... Restituo-t'o como t'o
roubei, ou tu o lanaste de ti para fra... No te importem os meus
defeitos... Foi um sonho horrivel! Acordei nos teus braos... quero aqui
viver... Deixas-me esquecer aqui do muito que tenho soffrido?...........

........................................................................

Rosa Guilhermina recebia com lagrimas as meias confidencias de D. Maria
Elisa, quando lhe disseram que seu marido a procurava, por saber que
ella estava alli.

A surpreza brutificou-a.

Maria Elisa mandou subir Augusto Leite, e reanimou a sua amiga do
lethargo em que a deixou esta appario to pouco desejada. Fra preciso
muito para que a pobre senhora aborrecesse seu marido.

No bastariam para isso as dissipaes que elle fizera do seu
patrimonio. A mulher perda sempre os desperdicios de seu marido, com
tanto que elles no envolvam uma affronta ao seu amor proprio, servindo
de preo aos amores alheios que se vendem.

No fra, pois, o jogo que arruinara a felicidade de Rosa. Foi o descaro
insultuoso com que Augusto, na sua penultima vinda ao Porto, lhe
introduzira em casa a tricana das chinelas amarellas, mulher insolente
que, authorisada pelo amante, ousara esbulhar os bragaes da casa,
deixando a sua dona s os indispensaveis.

Estes vexames nunca se perdam. A esposa, assim ultrajada, pde
soffrel-os calada como martyr, mas no poder nunca reservar um resto de
affeio ao homem, que a humilhou assim.

Rosa entrou na sala em que era esperada. Quando deu de face com seu
marido, que no vira nos ultimos seis mezes, desconheceu-o e recuou.
Trazia a barba toda, que lhe augmentava a magreza cadaverica do rosto.
Vestia uma velha sobre-casaca, de panno desbotado, encodeada na golla, e
farpda na botoadura. Os seus olhos pisados, mas ainda penetrantes do
brilho da desesperao, fixavam Rosa com ar ameaador.

Cruzando os braos com a importancia tragica d'um marido de tragedia,
que vem, de longes terras, pedir contas a sua mulher, Augusto Leite
disse, aproximando-se:

--Parece que me no conheces, Rosa?

--Vens to mudado do que eras!... no admira que te no conhecesse,
Augusto!

--Pois sou eu mesmo... Vejo que no sentes grande prazer com a minha
visita...

--No te esperava... Como ha seis mezes me no escreves...

--Entendeste que no havia nada commum entre ns... Pois, minha amiga,
sou teu marido, apesar de ambos ns...

--Sinto muito que o sejas a teu pesar... Eramos ambos bem mais felizes,
se o no fosses.

--Parece-te? a mim tambem; mas j agora o remedio  seres minha mulher,
e eu teu marido...

--Fallas-me d'um modo que me fazes gelar o corao!... Que te fiz eu
para me tratares assim?

--Eu sei c o que me fizeste!... no me fizeste nada... Penso que me
tornaste mais desgraado do que eu era...

--Vejo que sim; mas no era essa a minha inteno.. Eu quiz fazer-te
feliz; se o no consegui,  porque no pude, nem tu me disseste o que eu
devia fazer para a tua felicidade...

--O que me perdeu foi o teu dinheiro...

--No tive culpa, Augusto...

--Eu, se fosse sempre pobre, no me illudia com as esperanas do teu
patrimonio, e trabalharia, estudaria para chegar a ser homem...

--Que hei de eu fazer-te, Augusto!... Eu nunca te aconselhei que
arruinasses o que te dei; se soubesse que o meu dinheiro te fazia
infeliz, lanal-o-ia ao mar para me casar pobre comtigo... Mas, se eu
fosse pobre, de certo me no quererias...

--No sei, no me importa saber, todas as conjecturas agora so
estupidas...

--Perda as minhas conjecturas... Eu d'antes era espirituosa, segundo tu
dizias, que eu nunca o acreditei... Agora sou estupida,  porque a
desgraa embrutece...

--Nada de ironias... Sabes que estou pobrissimo?

--No sabia; mas acredito que o ests.

--Pdes avaliar a minha situao?

--Posso; porque eu tambem estou pobrissima.

--Menos que eu...

--Mais que tu... Tenho uma filha que sustento, e cheguei  extrema dr
de querer comprar-lhe um vestido, e tive de vender um meu, para que a
minha filha te no envergonhasse... Avalias tu agora a minha situao?

--Diz ao teu tutor que te entregue o que tens, e tu administrars...

--J lh'o suppliquei muitas vezes. No me concede cinco reis alm da
mesada que me arbitraram... No posso conseguir nada... Emprega tu os
meios, que eu concedo-te tudo; e, se no podres alcanar mais do que
eu, desde j te cedo toda a minha mesada, e eu e minha filha
recorreremos  caridade da minha amiga Maria Elisa.

--No quero caridades de ninguem: quero aquillo que  meu, quando no
enterro uma faca no corao do tutor...

--Cala-te, Augusto, que me pareces demente!

-- porque eu realmente estou louco... Preciso sahir d'esta desgraada
vida em que me vejo... Quero dinheiro, Rosa, quando no vou com um
bacamarte para as estradas...

--Augusto!--exclamou ella, tirando-lhe a mo do cabo do punhal, que
empunhra instinctivamente no bolso interior do casaco.

--Tu no sabes onde a desgraa  capaz de me levar... A sociedade fez-me
assim... Se perdi muito dinheiro, perdi o que era meu; no roubei nada a
ninguem; e a sociedade infame despresou-me, chamou-me homem perdido, e
cuspiu-me na cara, porque eu empobreci... Vi-me abandonado, e tornei-me
criminoso... Estou cumplice n'um roubo, e, se dentro de tres dias, no
dr um conto de reis, sou prso, e degradado, ou pendurado n'uma forca.

--Oh meu Deus, que vergonha!...--disse Rosa, cahindo n'uma cadeira, e
escondendo o rosto entre as mos.

--Nada de exclamaes... Esse remedio no me presta de nada... Visto que
tens uma amiga rica do que era de meu tio, pede-lhe este dinheiro, se me
queres salvar... No me respondes?

--Augusto!... eu no posso responder-te j... Deixa-me possuir bastante
do meu infortunio, para perder a vergonha...

--Isto no soffre delongas... Quero a resposta j...

--A resposta dou-lh'a eu--disse Maria Elisa, que apparecera de
improviso.

Augusto cortejou-a ligeiramente, e Rosa ergueu-se tremula, e sentou-se
logo, porque lhe faltavam foras para acolher-se ao seio da sua amiga.

Maria Elisa veio ter com ella, abraou-a, deu-lhe um beijo, e levou-a
comsigo para dentro. Voltando-se para Augusto, disse:

--Queira demorar-se, que eu volto j.

Augusto Leite sentiu um abalo que faria parecel-o louco a alguem que o
visse. No era loucura. Era o contentamento de se vr possuidor d'um
conto de reis, com o qual contava j. Era a esperana de transportar-se
com elle a Hespanha a tentar a fortuna, visto que no poderia tornar a
Lisboa, onde o perseguiam por crime de roubo de uns brilhantes, cujo
valor perdera em menos de tres horas. Esta ideia salvadora produziu-lhe
uma febre de loucura passageira. Encarou-se n'um espelho, e viu-se como
um idiota, penteando as barbas com os dedos. Retesou os braos,
espreguiando-se, e murmurou por entre os dentes quasi cerrados: ha um
demonio, que me protege! Respeito-o mais que os sanctos, e hei de
mostrar-lhe que sou agradecido...

Maria Elisa voltou. Sentou-se no canap, e fez signal a Augusto,
offerecendo-lhe uma cadeira:

--Senhor Augusto, v. s. vai receber da minha mo uma quantia de
dinheiro, que me no pertence, nem a sua mulher.  uma generosidade de
sua filha, de que eu sou interprete...

--De minha filha?!

--Sim, senhor. Eu dei a quantia que vou confiar-lhe a sua filha, e
fiquei sendo sua administradora. Quando ella estiver em estado de
recebel-a, v. s. lh'a entregar. So tres contos de reis em notas.  um
deposito sagrado que lhe confio. Espero que v. s. procure reconquistar
a sua honra, e no lhe faltaro recursos para um dia entregar a sua
filha esta quantia augmentada...

Augusto, balbuciante de prazer, no avistando d'um relance toda a
extenso do seu futuro, murmurou:

--Eu farei por ser um digno depositario do dinheiro de minha familia.

--Agora, senhor, tenho a pedir-lhe um favor em nome d'ella.

--Qual?... a viuva de meu tio manda, no pede...

--A viuva de seu tio nem manda, nem pede nada. Repito-lhe que sou
absolutamente estranha a esta troca de favores que faz o pae com sua
filha. O que em nome d'essa menina lhe peo,  que consinta que ella e
sua me vivam na minha companhia.

-- muita honra para mim, minha senhora. Eu vou fazer uma pequena viagem
por causa de certos interesses, e durante a minha ausencia no posso
confiar a mais valiosa proteco minha mulher e minha filha.

--Vai viajar?... Sua senhora j o sabe?

--Ainda lh'o no disse.

--Pois ento... no lh'o diga... Salvo se tem motivos fortes para
dizer-lh'o...

--No tenho alguns... Era simplesmente despedir-me...

--N'esse caso, eu encarrego-me de fazel-a sciente do seu adeus, e v. s.
de qualquer paiz lhe escrever...

--Minha senhora... dispe do meu quasi inutil prestimo?

--Empregue-o, que tem muito, em ser um digno marido da minha amiga, e um
digno pae da menina que adopto como minha sobrinha. Alm dos vinculos de
parentesco que o prendiam a meu marido, ha outros mais consistentes que
so os da amizade, que consagro a sua me.

........................................................................

Augusto Leite retirou-se. Maria Elisa, com o corao alvoroado de
prazer, foi abraar Rosa, e exclamou, com quanto amor podia empregar na
soffreguido d'um beijo: s minha para toda a vida!




CAPITULO XXVII


Sigamos Augusto Leite, emquanto sua mulher e filha do a Maria Elisa a
felicidade, que ella lhes remunera com afagos.

O jogador, febril de contentamento, entrou em sua casa, no Laranjal,
disse algumas palavras a sua me, e mandou preparar a inseparavel
mooila, que o acompanhava, na boa e m fortuna, havia quatro annos.

Sahiu, e comprou uma jaqueta de pelles, uma faxa de sda escarlate,
chapo de guizos, um par de pistolas, um cobrejo, e dous cavallos de
baixo preo.

Duas horas depois, a rapariga, encadernada n'umas andilhas, passava na
Ramada-Alta, estrada de Vianna, e Augusto Leite, com pau de chpa
debaixo da perna, esporeando o cavallo,  laia de cigano, caminhava a
par com ella.

N'esse dia foram dormir a Casal de Pedro, e viram l umas pulgas, cujas
netas eu encontrei trinta annos depois, pulgas enormes e ferozes, que
arrastam as meias dos passageiros, depois que lhes exhaurem as arterias
d'um sangue azedado pelo maldito vinho, que a estalajadeira vos
ministra, perguntando-vos se sabeis alguma mzinha para matar as
_bichas_ dos pequenos.

Pernoitei ahi uma vez na minha vida. Comprehendi, no quarto que me
deram, os supplicios do christo primitivo atirado ao circo. Christo
s pulgas! deveria ser, no imperio romano, um grito de prazer para o
paganismo sanguinario, como o fatal Christo s feras!

Era alta noite, e eu no podia transigir, dormindo, amigavelmente com a
ferocidade dos insectos, se  que no podemos chamar cetaceos quellas
pulgas, de horrivel recordao. No sobrado immediato ao da possilga em
que eu me contorcia nas vascas d'uma agonia de novo genero, rosnavam uma
boa duzia de gallegas, que vinham da terra a visitarem os respectivos
gallegos residentes no Porto.

Descompunham-se em raivosas apostrophes por causa das mantas, que
algumas d'ellas monopolisavam com grave escandalo e frialdade das
outras. Dos improperios passaram a vias de facto. Socaram-se,
esgadanharam-se, revolveram-se, creio eu, como uma matilha de cadellas,
e vieram de encontro  porta do meu quarto, que no resistiu ao choque,
e deixou entrar aquelle embrulho indecifravel de gorgonas em fralda de
camisa, que me pareciam,  luz mortia da vla, executarem uma dana
macabra, uma mazurka de demonios!

Eu levantei-me em p sobre o catre de pau castanho, pintado de amarello,
e presenciei com os cabellos erriados o desfecho d'aquella tremenda
lucta. O dono da estalagem, e o meu criado vieram protocolisar a
desordem, distribuindo alguns murros indistinctamente, de que resultou a
fuga desordenada das gallegas, para o seu arraial, ficando considerado o
meu quarto campo neutro.

N'esse mesmo quarto, s duas horas da noite, tambem o senhor Augusto
Leite recebeu uma inesperada visita; mas no de gallegas em guerra crua.
Eram oito soldados de cavallaria, commandados por aquelle esturdio
cadete, que o leitor conhece, e reforados por alguns meirinhos do
corregedor, e um especial enviado do regedor das justias.

J soubemos que Augusto Leite roubra em Lisboa uns brilhantes. A razo
por que os roubara deu-a Prudon depois: os brilhantes eram propriedade
da condessa de ***, e a propriedade era um roubo.

Como se introduziu Augusto Leite em casa da condessa de ***? No  bem
liquido, e eu no quero inventar, porque no tenho necessidade de
deslustrar a veracidade do meu conto por amor d'um incidente de pouca
monta. Disseram uns que Augusto Leite era amante da condessa; outros
affirmam que o academico, expulso da universidade, se valera d'um seu
condiscipulo, primo d'essa senhora, para ser protegido por ella na sua
admisso  academia. Eu, de mim, para no duvidar de nenhuma das
explicaes, acredito-as ambas, e no offendo os diversos opinantes.

O que devem todos acreditar  que Augusto Leite dispensou  condessa o
trabalho de pr o seu collar e pulseiras de brilhantes em um dia d'annos
d'uma sua prima. As suspeitas recahiram em todos os domesticos, menos em
Augusto Leite. No dia seguinte corria em Lisboa, que um academico,
visita frequente da condessa de ***, tinha perdido, em menos de tres
horas, trinta mil cruzados em casa do baro de Quintella. Os curiosos
averiguaram o manancial possivel d'este dinheiro, e souberam que um
judeu na rua dos Fanqueiros comprra na vespera por trinta mil cruzados
uns brilhantes. A condessa, com authoridade judicial, fez que o judeu
apresentasse os brilhantes comprados. Reconhecidos, apossou-se d'elles
sem mais formalidade. O judeu gritou contra a extorso, perguntando se
reviviam os tempos nefastos de D. Joo III; offereceu-se voluntariamente
para a fogueira; e a tudo isto, que realmente era pathetico, o
procurador da condessa respondeu: _res ubicumque est sui domini est_.

O judeu no ficou sabendo latim, mas conheceu varios artigos da nossa
legislao, e aproveitou-se d'aquelle que o authorisava a perseguir o
ladro.

Augusto Leite entrou em casa da condessa, quando ella voltava de
reconhecer os seus diamantes. Um criado presenciou que ella algumas
palavras lhe dissera, e o seu protegido respondeu a ellas, voltando as
costas para nunca mais tornar. Os maledicentes quizeram inferir da
generosidade da condessa, que o avisou, consequencias desfavoraveis para
a honra d'ella. Como quer que fosse, Augusto fugiu de Lisboa, a p, sem
dinheiro, sem bagagem, com uma mulher ao lado, e assim vagou quatro
mezes, no sabemos por onde, at que o vimos entrar em casa da viuva de
Antonio Jos da Silva.

Tornemos agora a Casal de Pedro.

O enviado do regedor das justias bateu  porta da estalagem, e
perguntou que passageiros pernoitavam alli.

--Dous almocreves, o recoveiro de Vianna, um passageiro do Porto, com
sua mulher, e um criado.

--Abra l a porta--disse com a costumada intimativa o executor da lei.

Abertas as portas, os meirinhos encaminharam-se para o quarto do
passageiro. Augusto Leite ouvira as perguntas. Saltra fra da cama para
fugir, mas no conhecia um palmo da casa fra do seu quarto. Antonia
Brites, companheira dos seus trabalhos, lembrou-se d'alguns sanctos, que
conhecera na infancia, e incommodou-os com as suas oraes. O antigo
traductor de novellas no lra cousa que lhe servisse de modelo para
similhante conflicto. Quiz precipitar-se da janella, mas viu na rua os
cavallos em linha. Recuou diante d'um sacrificio inutil, e appellou para
os extremos.

Os meirinhos entraram, e viram uma mulher de joelhos com as mos
erguidas, e um homem de semblante feroz com duas pistolas aperradas.

O estalajadeiro, que caminhava na frente com a candeia, fez dous passos
 rectaguarda, e declarou-se neutral. Os meirinhos, que tinham  vida o
amor suficiente para viverem oitenta annos mais, no foram mais adiante
que o prudente estalajadeiro. Augusto conservou-se na postura
ameaadora, fuzilando dos olhos um claro mais vivido que a candeia
tremula do petrificado taverneiro.

Um dos meirinhos, emquanto os outros voltavam as costas, veio  rua, e
disse que o homem no era para graas. O cadete apeou, e subiu com dous
soldados. Foi  porta do quarto, e encontrou o athleta na sua
immobilidade sinistra. Deu-lhe voz de prso, e viu que o ladro era
surdo, ou rebelde  lei.

--O melhor  botar-lhe as unhas--murmurou um soldado.

--Agarra-o, _trinta e quatro_!--disse o cadete.

O _trinta e quatro_ entrou no quarto, e, quando lanava mo aos copos da
espada, sentiu um corpo duro bater-lhe na testa. Descarregou ainda um
golpe, e foi de bruos atraz da espada que bateu no sobrado. Estava
morto.

O camarada do _trinta e quatro_ correu em defeza do seu companheiro.
Descarregou duas cutiladas na cabea de Augusto; mas,  terceira, sentiu
fraquear-lhe o brao, e veio recuando, cahir, com uma bala no corao,
aos ps do cadete.

Os outros soldados tinham subido, e atropellavam-se  entrada do quarto.
Augusto Leite, coberto de sangue, defendia-se debilmente com a chpa,
que vencia o alcance das espadas. Os soldados, arrefecidos pelo aspecto
dos dous camaradas mortos, no ousavam affrontar o ao da chpa, que
algumas vezes sentiram resvalar-lhe na farda, deixando-lhe na pelle um
ligeiro ardor, que depois se exacerbava com a humidade do sangue.

O cadete, envergonhado da cobardia dos seus, diante d'um s homem,
entendeu que salvava a sua honra, desfechando uma clavina no peito de
Augusto Leite. Ao desfechal-a viu interpr-se-lhe um vulto. Era Antonia
Brites, que vinha pedir-lhe de joelhos que no matasse Augusto. No
chegou a pronunciar a primeira palavra. Recebeu a bala, que havia de
matar o marido de Rosa, e cahiu pedindo confisso. Deus lhe levaria em
desconto das suas culpas o bom desejo de reconciliar-se com o co,
porque fechou os olhos antes de vr o padre.

Augusto, impellido pelo instincto da vida, saltou da janella ao
quinteiro com tal destreza, que as espadas no poderam tocar-lhe. O
quinteiro estava deserto de homens, e os cavallos soltos entretinham a
fome no tojo. A comitiva correu atropelladamente a impedir a fuga.
Quando chegaram ao quinteiro, meirinhos e soldados, qual d'elles mais
corajoso, o que viram foi um cavallo de menos, e na calada fronteira as
faiscas das ferraduras do que fugia. Alguns soldados quizeram montar;
mas os cavallos assustados pelo salto de Augusto ao meio d'elles, no
deixavam estribar, e jogavam de garupa com mau resultado para o meirinho
geral, que perdeu ahi os tres unicos dentes que possuia.

--J se no pilha!...--disse o cadete.

--Agora  vl-o ir--accrescentou um soldado.

--Vamos ao quarto tomar-lhe conta das malas--disse o enviado do regedor
das justias.

Entraram no quarto. Abriram uma pequena mala de couro, e umas bolsas de
hollandilha onde encontraram alguma roupa branca. Dinheiro, nem cinco
reis. A volumosa carteira com tres contos menos duzentos mil reis, que o
sobrinho do senhor Antonio Jos da Silva gastara em cavallos e pistolas,
e fato, levava-a elle no bolso da jaqueta de pelles.

De madrugada os executores da lei voltavam para o Porto, com os dous
cavallos de Augusto Leite.

Os tres cadaveres foram enterrados no adro da igreja parochial, porque o
vigario duvidou sepultal-os em sagrado, visto que no traziam signal de
christos, como cruz, nominas, bentinhos, veronicas ou outro qualquer
distinctivo da f catholica.


_Relao das pessoas que j morreram n'este romance_


O mestre de latim                                          1

A senhora Escolastica                                      1

O arcediago                                                1

Uma velha da viella do Cirne, cujo nome me no lembra      1

O senhor Antonio Jos da Silva                             1

Antonia Brites, amante de Augusto Leite                    1

Dous soldados de cavallaria                                2

            Somma total                                    8

Continuaro a morrer convenientemente.




CAPITULO XXVIII


Augusto Leite quando chegou  Barca do Lago ia a p. O cavallo cahira
rebentado, e o cavalleiro desviou-se da estrada para curar os ferimentos
que recebera na cabea. No lhe era difficil viver seguro em casa d'um
lavrador, que foi largamente indemnisado do hospitaleiro acolhimento que
deu ao passageiro, que, segundo elle, tinha cara de pessoa de bem.
Vendeu-lhe a sua egua, encaminhou-o por atalhos seguros da vigilancia
dos aguazis, e levou-o  fronteira de Hespanha, curado das feridas, e
salvo de encontros importunos. Ahi, foi facil ao foragido comprar um
passaporte, que o levou a Madrid com o pseudonimo de D. Fernando Godinho
Pereira Forjaz.

Chegado a Madrid, cortou as barbas, vestiu-se de trajes srios,
apresentou-se como viajante, relacionou-se com a facilidade habitual em
Hespanha, e entrou como portuguez distincto nas primeiras casas da
capital. Encontrou ahi fidalgos portuguezes, que o no conheciam; mas
respeitavam-no pelos appellidos, e no se recusavam a chamar-lhe primo,
visto que os Pereiras Forjazes eram ramificao do heraldico tronco dos
condes da Feira.

Augusto Leite jogou, e augmentou consideravelmente os seus haveres. Em
alguns mezes alcanra uma publicidade que lhe no convinha. O seu nome
era repetido de mais nos sales. As suas conquistas amorosas excitavam
invejas e reservas vingativas que poderiam perdel-o. Augusto resolveu
abandonar Hespanha, e procurar na sociedade mais ampla de Paris viver
bem, sem excitar curiosidades funestas.

Em Paris deu-se como hespanhol, e era conhecido por D. Affonso Vilhegas.
Fallava correntemente o hespanhol, associra-se a uma partida de
jogadores da sua patria adoptiva, e engrandecera o seu peculio, que j
subia a vinte contos de reis. O dinheiro de Maria Elisa fra abenoado!

No tivera, at ento, alguma noticia de sua mulher. No lhe convinha
solicital-a, porque podia ser descoberta a sua residencia. O corao
tambem lh'a no pedia.

Passeava uma tarde nos _boulevards_, e viu um homem, que lhe no era de
todo estranho, e reparava muito n'elle. Perguntou-lhe, em francez, se
era hespanhol.

--Sou portuguez--respondeu o cavalheiro.

--Estimo muito... Eu gosto dos portuguezes. Viajei alguns mezes na sua
terra, e sympathisei com as mulheres, que so quasi todas gordas e
vermelhas. Eu gosto muito das mulheres vermelhas e gordas.

--Tem razo... mas, pela pronuncia, parece-me hespanhol, e as mulheres
da Hespanha no so inferiores s de Portugal. No tem razo de invejar
a minha patria... Que cidades conhece em Portugal?

--Conheo as que l ha que meream esse nome... Lisboa e Porto.

--Esteve no Porto?  uma bonita cidade, no ?

-- muito interessante. A gente de dia faz horas para se deitar ao
escurecer. No ha nada melhor. Come-se e dorme-se com a mais perfeita
tranquillidade de espirito. E na semana sancta vem-se as mulheres,
quando passam as procisses.

--Conheceu alguma no Porto?

--Apenas uma. Como fui recommendado a um negociante chamado Antonio Jos
da Silva, tive occasio de vr de passagem uma bonita rapariga, que
fallava em estylo de Corneille.

--Pois conheceu essa senhora?!

--Perfeitamente. Que  feito d'ella?  feliz?

--Penso que no. A sua fortuna est perdida.  por causa d'ella que eu
vim a Frana.

--Sim?  notavel a coincidencia!... Pois senhor, veja se eu posso
servir-lhe de alguma cousa com o meu pouco valimento... Que desastre foi
esse! O tal negociante passava por ser um homem rico...

--E era. O negociante morreu ha dez mezes. A viuva liquidou a sua
fortuna, que valia bem duzentos mil cruzados. Entrou com ella em uma
casa commercial franceza, que tinha representantes em Lisboa. Esta casa
acaba de fallir, e o dinheiro de Maria Elisa est perdido, segundo
creio.

--Coitada...! fica pobre por consequencia...

--Pobrissima...

--E tem filhos?

--No, senhor.

--Nem familia?

--Tem em sua companhia uma amiga e a filha d'essa desgraada senhora,
que tambem foi rica, e est reduzida a nada...

--Tambem tinha os seus bens de fortuna na casa commercial que falliu?

--No, senhor... foi o marido que a reduziu a esse estado deploravel...

--Pobres senhoras!... Estou-me interessando em que no sejam to
infelizes como o senhor as pinta...

--Pois no digo metade das desgraas que as esperam.

--E o marido d'essa amiga da viuva... naturalmente  um perdido que lhes
no pde valer de nada?...

--Esse homem morreu... ou ha todas as probabilidades para o julgar
morto... Parece que o mataram, quando o prendiam por ladro...

--Era ladro? Oh diabo! ento foi bem feito matarem-no!

--Roubra em Lisboa uns brilhantes que vendera a um judeu. O judeu
perseguiu-o, e quando soube que sua mulher possuia algumas propriedades,
de que fruia os rendimentos, provou o roubo, e penhorou-lh'as todas... A
viuva do negociante, que o senhor conheceu, no lhe dava tempo a scismar
nos seus infortunios; mas agora a situao d'ambas  desgraadamente
igual.

--E o seu procedimento?

--O mais exemplar. Maria Elisa vai retirar-se a um convento, e  natural
que a outra viuva a acompanhe.

--Ento o senhor que veio fazer a Paris?

--Vim tentar o ultimo esforo; mas inutilisei despezas e trabalho. Pedi
que se indemnisasse a viuva da massa fallida; mas o tribunal do
commercio no deferiu ao meu requerimento.

--Quando parte o senhor para o Porto?

--manh deixo Paris, e vou embarcar a Toulon.

--Pde ser portador d'uma encommenda para a viuva de Antonio Jos da
Silva?

--Com muito boa vontade.

--Tenha a bondade de acompanhar-me.

Augusto Leite subiu ao hotel, onde residia, emquanto o procurador de D.
Maria Elisa o esperava. Demorou-se alguns minutos, e entraram juntos em
uma casa commercial ingleza. Sacou uma ordem de mil e quinhentas libras
sobre o Porto, entregues  ordem de D. Maria Elisa, e entregou-a com uma
carta ao procurador, accrescentando:

--Diga a essa senhora, que no desa da sua dignidade, nem abandone as
pessoas que levantou da miseria. Eu terei cuidado de velar pela sua
sorte.

O procurador, aturdido como  natural, desejou n'aquelle momento vencer
como n'um vo de espirito a distancia, que o separava de Maria Elisa.
Aventurou algumas perguntas ao generoso hespanhol; mas no conseguiu
elucidar-se mais do que tinha sido.

Augusto Leite entrou no seu quarto, e disse  sua imagem representada no
espelho: Meu amigo, quando te vi, ha oito mezes, rir de contentamento
no espelho de Maria Elisa, tinhas um riso bem differente d'esse que te
vejo agora. Acredito que o prazer de uma boa aco  o unico prazer sem
mistura de dr.  a primeira aco boa que praticas, meu caro Augusto!
Se te habituasses a ser honrado assim muitas vezes, naturalmente cahias
desamparado na rua. Esconde agora a face da honra, e faz uso da outra,
porque uma s cara no presta para nada. Visto que tomas a teu cargo
aquellas mulheres, precisas de ser pessoa de bem uma vez cada anno. A
virtude, nos homens da tua fortuna, deve ser como os intervallos lucidos
da loucura. Se vaes dizer  sociedade que te d os meios para
sustentares tua pobre mulher e tua filha, a sociedade manda-te
trabalhar. Pois ento, D. Affonso Vilhegas, trabalha antes que ella te
mande. Dos trabalhos procura o mais rendoso. Como no tens grande fora
muscular, faz que o teu officio esteja mais dependente do espirito.

Este dialogo, com o seu _unico amigo_, foi interrompido por uma
personagem, que apera d'uma sege e mandra adiante o seu nome: era o
visconde de Bellarmin.

--Meu caro visconde, vieste encontrar-me a conversar comigo.

-- necessario que te retires de Paris immediatamente.

--Porqu?

--O governo suspeita que tu s um enviado do partido monachal de
Hespanha, que combinas com o de Frana uma reaco. Ha ordem de priso
para ti.

--No julguei que era uma pessoa to importante. Tenho gloria de ser
prso como homem temivel a duas naes. Ainda agora me lembro que posso
ser um grande homem. Quem sabe se me est reservada a cora de Fernando
VII!

--No zombes, Vilhegas... Foge, quanto antes, de Paris. Aqui tens
passaporte para Portugal.

--No vou para Portugal. Alcana-me um passaporte para Hespanha, e
perdo-te as mil libras que hontem perdeste. Olha l... Dou-te outras
mil se dizes no passaporte, que eu sou um missionario hespanhol, que
volto do Japo. Acceitas?

--Acceito... Vou buscar-t'o. Mas tu no tens cara de missionario.

--Eu respondo pela cara, e, se no, sabes quem venda uma? Os vossos
ministros devem ter algumas disponiveis!... Vs como eu j vou pendendo
para a linguagem dos estadistas?... Nunca me lembrou, que podia ser o
grande homem, que vou ser!... Onde quer est um Napoleo incubado!...
Avia-te...

Duas horas depois, Augusto Leite, com uma pequena trouxa, um habito
franciscano, a face amarellecida por no sabemos que tinturas
finissimas, caminhava a p para um porto de mar, onde devia embarcar
para Cadiz.

Vai-se tornando interessante o romance. J era tempo!

O frade franciscano Benito das Cinco Chagas, dias depois, desembarcava
em Cadiz, onde as crtes se refugiaram com Fernando VII, que estava
prso, a pretexto de demencia, por no ter sanccionado a constituio.

Augusto Leite apresentou-se nos congressos monachaes, e offereceu, como
fanatico pelas prerogativas reaes, e inimigo encarniado da Frana, o
seu apoio, e o seu brao, sendo necessario.

Tal fra a sua enthusiasta eloquencia, que os chefes da reaco, sem
discutirem a pessoa, abraaram-no, victoriaram-no, e confiaram-lhe o
segredo dos seus planos, acclamando-o unanimemente seu secretario.

Era necessario fallar ao rei, que os liberaes retinham com sentinella 
vista. Empreza difficilima! Foi pedido o parecer do frade missionario,
em quem os fanaticos reconheciam o providencial redemptor de Hespanha.
Antes que elle abrisse a bca, j todos sabiam que a sua palavra seria a
salvao, e as suas ordens immediatamente executadas.

Augusto entrou no congresso, envolto no seu habito. No respiravam os
circumstantes. Fixavam-se todos os olhos nos labios do moo frade,
quando elle, antes de pronunciar uma palavra, deixou cahir o habito, e
deixou vr um fardamento completo de general francez.

As escarlates physionomias dos conspiradores empallideceram, murmurando
um prolongado _ah_!

--No me julguem algum magico--disse Augusto Leite, sorrindo
bondosamente.--Sou um frade, que renega por momentos o seu habito, para
vestil-o um dia, com a consciencia de ter servido a Hespanha,
fortalecendo-lhe a sua independencia, e defendendo-a das impias
aggresses da Frana.  necessario fallar a Fernando VII. Eu irei
apresentar-me s crtes, e direi que sou um enviado do duque de
Angouleme, que, a estas horas, bate s portas de Madrid. Direi que o meu
fim  capacitar o rei a acceitar a constituio, e serei conduzido pelos
interessados ao p do monarcha.

--E depois?--exclamaram algumas vozes.

--Depois da minha conferencia a ss com o rei, retirar-me-hei dizendo s
crtes que Fernando VII est doudo, e no concebeu as minhas razes. As
crtes, que por fora precisam que o seu rei seja doudo, reputar-me-ho
d'uma intelligencia muito fina, ou d'uma astucia to cavillosa como a
sua. Fernando VII, uma hora depois que eu me retire, dir ao seu medico
que sente uma forte dr de cabea; duas horas depois sentir uma
convulso, e cahir...

--Morto?!

--Apparentemente morto. O medico vir dizer s crtes que o rei morreu
d'uma apoplexia fulminante. Far-se-ho os funeraes. O cadaver ser
transportado para o palacio municipal. Tres horas depois que o julgarem
morto, o rei resuscitar, e,  frente do exercito fiel, dir: A
Providencia restituiu ao povo hespanhol o seu monarcha!

Os venerandos frades sacudiram a cabea em ar de pasmo. A alguns
afigurou-se-lhes que o seu irmo era o proprio diabo, que vestira o
habito do serafico S. Francisco, sobre a farda de jacobino, que elle
era, desde que o Senhor o expulsou do co. Os mais circumspectos,
encarando-o com o respeito da superstio, por isso que o reputavam
embaixador d'um poder sobrenatural, no ousaram interrompel-o no extenso
discurso, que no publicamos na sua integra, porque na sala do
conciliabulo no estiveram tachigraphos, que nos transmittissem o
discurso completo.

O que sabemos  que Augusto Leite n'esse dia apresentou-se s crtes,
pedindo consentimento para fallar ao rei como enviado do duque de
Angouleme, commandante do exercito francez.

Perguntado pelos meios que empregra para chegar desconhecido at Cadiz,
respondeu que embarcra n'um porto da Frana, com passaporte que
apresentou, passado a frei Benito das Cinco Chagas. As crtes
acreditaram o enviado, e permittiram-lhe a entrada no carcere de
Fernando VII.

O rei, quando lhe foi annunciado um emissario francez, declarou que o
no recebia, sem ter ao seu lado uma pea de calibre 40, com morro
accso. Esta dificuldade  que o marido de Rosa Guilhermina no previra.
Redobraram as instancias inutilmente durante tres dias, ao cabo dos
quaes o duque de Angouleme, defronte de Cadiz, bombardeava a cidade.

Augusto Leite, empregando a corrupo por meio do ouro, fez saber ao rei
que o enviado francez era um partidario do congresso sacerdotal, que
vinha offerecer  Sua Magestade valiosos servios para a sua fuga do
poder das crtes.

O rei recebeu-o perplexo; mas brevemente se confiou aos planos do futuro
arcebispo de Toledo, graa que desde logo lhe confirmou com a sua real
palavra.

Augusto Leite agradeceu com reverente effuso a graa, e offerecia ao
rei a beberagem que devia paralysar-lhe a vida apparentemente, quando se
ouviram exteriormente gritos que annunciavam a fuga do exercito
hespanhol, e o desembarque do duque de Angouleme.

O populacho dava _morras_ aos membros das crtes; e os partidarios da
constituio, que no sabiam as intenes pacificas da Frana, luctavam
desesperadamente contra o povo, e contra o exercito victorioso.

Augusto Leite, persuadido de que era j desnecessaria a realisao dos
seus planos para a soltura do rei, no lhe ministrou o liquido, e dava
graas  estupida fortuna que o collocra ao lado de Fernando VII, no
momento da sua liberdade.

Um membro das crtes, que odiava o rei, e julgava perdida a causa, e
cortada infallivelmente a sua cabea um momento depois, resolveu um
d'esses attentados sanguinarios, que so o caracter do povo hespanhol
nas crises revolucionarias, resolveu o regicidio.

Entrou no carcere, armado d'um punhal. Foi direito  camara do rei. O
primeiro que se lhe antepz foi o supposto official francez. Recuou
diante de duas pistolas; mas um instante. Refez-se da coragem da
desesperao, e aggrediu o timido rei, que se refugiara atraz de
Augusto. O bem provado athleta de Casal de Pedro desfechou-lhe uma
pistola no peito: mas no pde esquivar-se a uma punhalada no corao.
Travaram por alguns minutos uma lucta feroz, e cahiram ambos estendidos.

O que recebera uma bala no peito podia viver ainda hoje, se, no dia
immediato, no fosse arrancado  enfermaria militar para padecer morte
de garrotilho, com alguns dos seus collegas. Mas, ao mesmo tempo,
Augusto Leite, que sentira mais dentro a ponta do punhal, era enterrado
com grandes honras por ter defendido,  custa da propria, a vida do seu
rei.

O que ninguem sabia dizer ao certo era a naturalidade do corajoso
defensor de Fernando VII. Os frades queriam-no para o catalogo dos
martyres franciscanos; mas um francez do estado maior do duque de
Angouleme dizia que aquelle homem vivera algum tempo em Paris, onde se
intitulava D. Affonso Vilhegas. O que tal disse, tinha razo sobeja para
sabel-o, porque era o visconde de Bellarmin, que vendera o passaporte de
frade ao seu amigo por mil libras.

Ora pois, d'este sugeito estamos ns livres. Podemos dizer que morreu
bem. Espero que este meu romance, s de per si, conduza  eternidade
individuos sufficientes para chamarem a atteno devota dos pios
leitores em dia de fieis, defuntos.




CAPITULO XXIX


Maria Elisa, com Rosa Guilhermina, e a filha viviam na casa do Srio,
unica propriedade que poderam salvar da fatal quebra do negociante
francez e do sequestro do judeu. O dinheiro, que lhes fra enviado de
Paris, melhorra a condio precaria das afflictas senhoras, que se viam
na dura preciso de entrarem n'um convento como criadas de freiras.

Calcularam d'onde poderia vir-lhe aquelle dinheiro, e abenoaram Augusto
Leite, que parecia entrar, ao cabo de tantos desatinos, na estrada da
honra. Calaram o segredo, receando que perseguissem o assassino dos dous
soldados em Casal de Pedro, e esperaram que o tempo o rehabilitasse para
tornar a Portugal.

Passou um anno, sem novas de Augusto. Resolveram mandar a Paris o
procurador que fallra com o generoso hespanhol. Foi. Procurou-o na
mesma casa, e soube que esse homem se retirra de Frana um anno antes.

Disseram-lhe que existia em Paris um general, que conhecera muito D.
Affonso Vilhegas. O procurador encontrou esse general que era o visconde
de Bellarmin, e soube que o supposto hespanhol morrera em Cadiz.

Esta nova matou todas as esperanas das pobres senhoras. Pobres outra
vez! Choraram muito, como  natural, e resolveram abraar a baixa
profisso de criadas de convento.

Mas eram bellas ainda. A desgraa, ao passar por ellas, nem lhes
desbotra o vio da formosura, nem lhes arrefecera de todo o corao.
Viuvas ambas, embora pobres, quantos anciariam por esposal-as, se ellas
viessem ao mundo com o seu sorriso de seduco?

Rosa tinha visto, em cinco mezes successivos, todos os dias,  mesma
hora, um cavalleiro que passava, com os olhos pregados na janella do seu
quarto, onde ella, na hora das saudades,  luz crepuscular, costumava
sentar-se com sua filha nos braos.

Em uma d'essas tardes, vira que o cavalleiro parava, e dissera para cima
palavras que ella no entendeu, nem quiz entender. Restirra-se a contar
 sua amiga a aventura estranha, e promettera nunca mais, a tal hora,
dar azo aos atrevimentos do senhor Alvaro de Sousa, que assim se chamava
o fidalgo enamorado.

No dia seguinte,  certo que no veio  janella; mas, por entre as
cortinas mal cerradas, teve a fraqueza de espreital-o. O fidalgo, que
no deu por isso, parou um momento, e disse ella  sua amiga que o vira
suspirar. Se isto  verdade, o senhor Alvaro de Sousa, emquanto a mim,
era poeta. Os poetas fazem monopolio dos suspiros, mas, honra lhes seja
feita, no encarecem o genero; barateiam-no de modo que no ha
consumidora que tenha razo de queixa.

E eu creio sinceramente que Rosa Guilhermina, se lhe no dava em troca
um suspiro, nem por isso se affligia da violencia com que o illustre
representante dos Sousas lhe remettia os seus anhelitos amorosos.

Ho de acreditar-me que o mancebo era um bello mancebo. Ainda hoje me
fallam d'elle como a joia das formosuras masculinas do Porto. Era uma
dama, segundo me dizem as senhoras de cincoenta annos. Tinha
intelligencia, qualidade que o exceptuava da regra geral que regulava o
entendimento opaco de seus nobres primos. Era filho segundo; mas rico, e
generoso, e dado a prazeres que lhe no arruinavam a bolsa nem a saude.
Vinha a ser, emfim, um perfeito homem o que se apaixonra sriamente
pela esquiva viuva de Augusto Leite.

Alvaro de Sousa, contrariado pela apparente frieza de Rosa, sentiu-se
vexado no seu amor proprio, e impoz-se orgulhosamente um fidalgo
desprso por tal mulher, indigna de honrar-se com o seu amor. Isto foi
ao meio dia; mas, s quatro horas, o soberbo moo anafava cuidadosamente
os cabellos, para no ser suprendido, em desalinho, no Srio.

N'essa tarde encontrou Rosa Guilhermina passeando, na alameda da Lapa,
com a amiga, e a filhinha que brincava com um co de regao. O cosinho,
que no estava para brinquedos, encolheu a cauda, e fugiu  ama, na
direco da casa. As senhoras chamavam-lhe _Joli_, que era, por esse
tempo, o nome favorito de todos os ces; mas o rebelde quadrupede no
olhava para traz.

Alvaro esporeou o cavallo, cortou a vanguarda do co, apeou-se
gentilmente, apanhou o bichinho, que se agachava com medo, tomou-o no
collo, e foi conduzil-o s damas, que receberam a attenciosa delicadeza
com o rubor na face.

O leitor deve ter observado que estas damas perderam o antigo estylo. J
no fallam a guindada linguagem das novellas, nem curam de aprimorar as
ideias, enfeitando-as d'aquelles arrebiques e galanterias que eu espero
ainda encontrar na mulher, que Deus me destina, e que ha de fazer de mim
um respeitavel marido.

N'outro tempo, Alvaro de Sousa seria recebido com quatro metphoras, e
vr-se-ia na preciso de incommodar a mythologia para responder-lhes.
Agora, j no. A idade, o soffrimento, a experiencia, e o temor do
futuro abatera no raso da linguagem humana aquellas almas perdidas nas
maravilhas aereas. Fallavam como ns, importavam-se pouco dos livros,
sentiam-se muito decahidas no espirito, e concordavam conscienciosamente
que tinham sido embrutecidas pela desgraa.

E se no vejam:

--Agradecemos muito a sua delicadeza--disse Maria Elisa, recebendo o
cosinho (no tenho a certeza se era cadelinha) das mos de Alvaro.

--S este irracional--disse Alvaro, mastigando a fineza--deixaria de
obedecer s ordens de suas amas. Assim mesmo peo que no seja
castigado... Se elle tivesse entendimento, o remorso de ter sido
desobediente seria bastante castigo.

--Muito agradecidas s lisonjas de v. exc.--atalhou Maria Elisa,
emquanto Rosa se fingia distrahida sacudindo a terra das saias da
menina.

--No  lisonja, minhas senhoras. O que eu digo  o menos que se pde
dizer, e espero acreditem que no sei dizer tudo que sinto. Aquella
senhora parece aborrecer-se da minha presena...

--No, senhor--disse Rosa.--A presena de v. exc. no aborrece... 
porque estava sacudindo a terra dos vestidos de minha filha...

--Que  linda como sua me... Que annos tem?

--Quasi cinco.

--Em to tenra idade  admiravel a esperteza d'esta creana!... Venha
c, minha menina... como se chama?

--Assucena--disse a creana.

--Que lindo nome!... Uma _rosa_ devia produzir uma _assucena_...  minha
amiga?

--Sou.

--? J tenho uma pessoa que seja minha amiga!... Sou mais feliz do que
pensava... Quer ir a minha casa?

--Quero.

--Pois hei de mandal-a buscar um dia. Minha me gosta muito de
creanas... V. exc. d-me licena que ella v?

--Pois no!  muita honra...

--N'esse caso, amanh, se me permitte...

--Quando aprouver a v. exc.

Ora aqui est como comeou o namoro. No dia seguinte, Alvaro de Sousa
veio de carruagem buscar a menina, subiu  sala, como era natural, e no
viu Rosa que se fechra no seu quarto banhada em lagrimas. Quiz saber a
causa de tal soffrimento, e disse Maria Elisa que a sua amiga tivera
noticia de estar viuva.

--Viuva a reputava eu, ha muito!--atalhou Alvaro.

--No o era... Convinha que esse boato corresse...

O fidalgo deu a entender que sabia a razo d'esse boato, e retirou-se
sem _Assucena_, que no podia, durante o lucto, sahir de ao p de sua
me.  tarde, Alvaro veio fazer a D. Rosa a visita de pezames, e
offerecer o seu prestimo.

Na tarde do dia seguinte repetiu a visita, e passou a noite.

Nos dias immediatos entrava com familiaridade. O ferreiro que morava
defronte disse ao sapateiro visinho que o tal fidalgo no se lhe dava de
recolher as duas frangas perdidas do rebanho. Este ferreiro tinha algum
espirito. Se vivesse hoje, de certo no era ferreiro; escreveria
folhetins, ao passo que o seu visinho sapateiro, homem lido no Bandarra
e Carlos-Magno, amanharia substanciosos artigos de fundo. O fidalgo,
esse, se vivesse hoje, faria o mesmo que fez ento, e que ha de fazer-se
no seculo XX. Eu, por mim, se fosse contemporaneo do mestre ferreiro,
no escrevia romances. A estas horas (so sete e meia da tarde) estava
eu rezando vesperas em algum cro de frades carmelitas, para que tenho
uma vocao imperiosa.

Agora, leitores, o meu trabalho termina aqui. As cartas, que ides lr,
confiou-m'as a pessoa, que me contou esta historia. So textuaes. Podem
vr-se em minha casa, desde o meio dia at s quatro horas da tarde.
Quem as escreve  um pintor, que teve nome no Porto, e pouco tempo
furtou  desgraa para cultivar a arte. Quem as recebe  uma senhora,
que ainda vive.


CARTA I

                                               _22 de setembro de 1824_

Minha estimavel amiga:

No posso ser indiferente ao interesse, que v. exc. tem na minha
felicidade. Na soledade em que me vejo, as suas cartas so a unica
indemnisao que tenho das compridas horas de uma vida ssinha, escura,
e despovoada de todas as bellezas, se  que algumas a existencia pde
ter para mim.

Votei-me ao amor da arte, porque eu tinha preciso de viver para alguma
cousa; mas a arte no me galarda a minha dedicao. Do seio da tela
tenho arrancado imagens, que so a reminiscencia d'aquella mulher que me
fugiu dos braos para os braos do tumulo.

Aqui tem, minha amiga, como a arte recompensa os meus desvelos! Pede-me
lagrimas, e no m'as paga com a esperana de crear por ella um nome,
como o de muitos desgraados que se immortalisaram nos quadros, em que
verteram muitas.

Eu no sou egoista dos meus padecimentos. Tenho querido encontrar a
felicidade que a minha extremosa amiga me vaticina. Tenho procurado essa
segunda mulher com o reflexo luminoso da primeira, que me deixou rodeado
de trevas, e saudades. Alguma vez, abandono o meu quarto, e corro,
anhelante de no sei que esperana embriagadora, atraz d'essa viso
impossivel. Sabe o que eu encontro sempre? A fachada do templo de S.
Francisco. L dentro dorme o somno eterno a nossa amiga, sempre chorada!
Se posso entrar, ajoelho, chamo-a a testemunhar as minhas ancias, e
retiro-me d'alli gelado pela dvida, gelado como a pedra que a separa
dos vivos, gelado como o cadaver, que se move impellido por no sei que
mo fatal que me no deixa resvalar no meu abysmo!

Sou bem desgraado, no  assim? Muito! Este meu viver  alguma cousa
mais dilacerante que a dr. No tenho a esperana consoladora, que a
Providencia manda sentar-se no limiar de todos os infelizes. Vejo d'aqui
todos os pontos em que devo passar na minha longa viagem para o nada. O
presente conta-me o futuro. O que vem no receio que seja peor que o que
. Ha uma cruel monotonia n'esta angustia de todas as horas!

V. exc. comprehende-me? Creio que sim! O infortunio illumina o
entendimento. Para o que soffreu no ha mysterios de dr no corao do
estranho. A minha amiga tem soffrido muito. Perdeu, ha pouco, um esposo
querido. J depois beijou os labios frios d'uma unica filha que ficra
fallando com a innocencia da saudade a linguagem singela e carinhosa de
seu pae. Ainda assim, invejo-lhe o poder que tem de prestar consolaes
 amargura dos outros. Eu, hoje, no saberia consolar ninguem.

Minha amiga, d-me a sua estima, que eu no tenho mais nada. Em
remunerao, dou-lhe a verdade da minha alma, que  um thesouro, raras
vezes, concedido.

                                                           De v. exc.

                                                      Verdadeiro amigo,

                                                               _Paulo_.


II

                                                       _30 de setembro_

Palpita-me com sobresalto o corao. Preciso escrever-lhe emquanto me
dura esta febre, que est sendo a minha felicidade! _Felicidade_! com
que ousadia pueril escrevi semelhante palavra! J  desejar muito
possuil-a! Bem se v que sou um homem sem presentimento nenhum alegre,
sem nenhum direito  felicidade. Um pequeno lance na minha vida
transtorna-me a cabea; e, comtudo, estes lances, creio eu que so
frequentes, e desapercebidos, na vida de qualquer outro, mediocremente
feliz.

Hontem fui procurado por Alvaro de Sousa, que uma vez encontrei em casa
de v. exc. Impressionou-me um ente estranho, no meu quarto, fechado
para todo o mundo. Chamou-me amigo e esta palavra banal fez-me sorrir,
pronunciada por um homem, que eu apenas conhecia, e que to distante
est da minha obscura classe!...

Disse-me que possuia um quadro meu, era que uma virgem, mais formosa que
as de Raphael, era pintada no extasis de responder a sua me que a
chamava do co. Eu j sabia que v. exc. lhe tinha dado este quadro.
Entendi, quando o soube, que no devia magoar-me; mas quizera, antes,
que os profanos na religio do martyrio ignorassem o author daquella
pintura. No me receba isto como queixume.  a innocente sensibilidade
de quem, pelo muito soffrimento, chegou talvez aos escrupulos
injustos...

Perguntou-me se eu continuava a pintar. Respondi-lhe a verdade, que
nunca veio desfigurada do meu corao. Disse-lhe que sim. Pediu-me, como
especial favor, que retratasse uma mulher. Hesitei um momento; mas tive
pejo de me negar. Annui, e na tarde de hontem, acompanhei-o ao Srio, a
casa da viuva d'um negociante que, penso eu, se chamou Antonio Jos da
Silva, e creio mesmo que v. exc. me fallou, ha tempos, n'esse homem,
contando-me as aventuras d'uma tal Anna do Carmo, casada com seu primo
de traz da S.

Em casa d'essa viuva est uma senhora, viuva tambem. Ha tres annos que a
vi casada com um tal Augusto Leite, que deixou uma triste celebridade. A
nossa chorada amiga fra companheira d'ella nas orphs em S. Lazaro, e
contou-me cousas que lhe no eram muito favoraveis  sua indole de
menina.

Quando a vi casada com um homem perdido, imaginei que a semelhana dos
genios aproximra dous entes, que deviam encontrar-se. Comtudo, a
Rosinha, como lhe chamava Helena, pareceu-me triste. Soube depois que
era realmente infeliz, e nunca mais tornei a vl-a.

Vi-a hontem, sentada diante de mim, com o sereno aspecto do prazer no
rosto, um pouco macerado, mas radiante ainda d'aquelle brilho de certas
bellezas que no se apaga nunca. Quiz adivinhar-lhe o corao nos olhos,
e estes olhos, languidos de ternura, vi que se fechavam n'um espasmo
delicioso a cada olhar de Alvaro de Sousa. Entristeci-me daquillo,
porque me lembraram as mulheres do grande mundo, os typos de magestosa
immoralidade, que dificultosamente se aclimatam em Portugal, onde no
chegou ainda a cultura e o despejo da Frana

Eu disse-lhe que no podia prescindir dos seus olhos por algumas horas.
Sentia-me com disposio para zombar da belleza, que tinha a vaidade de
reproduzir-se para, dez annos depois, encontrar, no logar das rosas, as
rugas da velhice, no vvido scintillar dos olhos o amortecimento do
cansao.

Principiei o retrato. Alvaro de Sousa entretinha nos braos uma pequena
creana a quem chamavam Assucena.  filha de Rosa. Conheci-a pela
semelhana com sua me; mas no sei o que ha na physionomia da pequena,
que prophetisa fatalidades! Serei eu supersticioso?

Emquanto esboava os contornos, perguntei-lhe se conhecera Helena
Christina, nas orphs. Disse-me que sim, e que chorra, quando teve a
noticia da sua morte, por causa d'uma paixo que cegamente tributra a
um homem, que no era da sua condio.

Que homem era esse?--perguntei-lhe eu--Era o filho d'um
advogado.--Pensei que a condio do advogado era nobre, repliquei eu.--
nobre; mas a d'um general  muito mais nobre, e Helena era filha d'um
general.

No pude continuar o retrato. A palheta tremia-me no brao, e o pincel
traava linhas confusas. Pedi licena para retirar-me, e deixei Alvaro
enleado da minha improvisada sahida.

Passei uma noite cruelissima. Levantei-me para escrever a v. exc.
Cuidei que esta carta me seria um desabafo; mas a suffocao augmenta.
Para que me disse aquella mulher que eu fui a causa da morte de Helena?
Penso que o fui. Accuso-me d'esse crime; porque no posso accusar meu
pae, que devera ser general, e no advogado.

Como  a sociedade, senhora!  impossivel que a Providencia no
abandonasse o homem, depois de o ter creado! Se o espirito de Deus
presidisse  organisao do genero humano, ninguem viria dizer-me: A
tua condio social collocou um tumulo entre ti e a filha de um
general!

E  a isto que eu chamei _a minha felicidade_!  um novo crime! Aquella
mulher confirmou a certeza que eu tinha de ter sido amado por Helena at
lhe merecer o sacrificio da vida. Ser isto um egoismo barbaro?

Adeus, minha boa amiga.

                                                           De v. exc.

                                                      Amigo do corao,

                                                               _Paulo_.


III

                                                         _12 d'outubro_

Tive hontem o desgosto de no encontrar em casa v. exc. Procurei-a
porque tinha muitas ideias a revelar-lhe, mas to desordenadas, que
receei no poder escrevel-as. A bondade, com que a minha paciente amiga
costuma attender os desvarios d'este forte corao e d'esta debil
cabea, seria mais uma vez tolerante comigo.

No a encontrando, resolvo escrever-lhe, e v. exc. ver n'esta carta o
tumulto de sensaes que se me atropellam na alma, ha dez dias.

Instado por Alvaro de Sousa, fui recomear o retrato da viuva. Era-me
preciso, para no passar por doudo, remediar de qualquer maneira a
precipitao com que sahi d'aquella casa. No me occorreu algum
pretexto. Adoptei o silencio como explicao, e no dei uma palavra que
suscitasse recordaes do dia anterior.

Reparei com animo frio na physionomia de Rosa.  uma d'estas mulheres
que o mundo chama bellas, e eu creio que o so. Sem uns traos de
soffrimento, que lhe assombram os olhos, no seria to bella. Tem um
olhar humilde, como quem pede compaixo. No sei que transparente brilho
de lagrimas lhe empana os olhos. As palpebras, como cansadas de se
abrirem diante do infortunio, pendem amortecidas. Se no ha estudo
n'esta attitude caracteristica, o olhar de Rosa pde exprimir muito
amor, ou muito fastio.

Muito amor, talvez...  mais natural. Alvaro de Sousa, constantemente
embebido na contemplao d'esta mulher, no a deixa um instante ssinha.
Muitas vezes a viuva do negociante vem  sala trocar algumas palavras
com Alvaro, e no consegue divertir-lhe os olhos da sua amiga. No pude
comprehendel-os. Achei demasiada precauo no amante, e alguma frieza,
se no era pudor, em Rosa. As perguntas carinhosas, que elle lhe faz,
so correspondidas com meiguice nos labios; mas a phrase vem scca do
corao. Reparei n'isto, e parece que o pincel, que traava as feies
de Rosa, copiava tambem a physionomia moral de ambos.

 primeira seco vieram ao panno os traos formosos da viuva. Alvaro
abraou-me com frenesi; e ella parece que encarou tristemente aquelle
jubilo, que me pareceu pueril.  que aos vinte annos  assim o amor. A
felicidade embriaga os que no provam o fel nas primeiras libaes da
infancia.

No dia seguinte fui continuar o retrato.

Alvaro de Sousa no tinha chegado ainda. Rosa pareceu-me mais alegre, e
recebeu-me com um sorriso de graa e confiana. Antes de sentar-se
perguntou-me que razo tivera eu para retirar-me, na primeira vez que
alli fra, d'um modo que a deixra cuidadosa. Pedi-lhe que me no
interrogasse. Rosa, sem offensa ao meu pedido, fallou de Helena,
recordando a conversa que precedera a minha sahida. Era uma delicada
maneira de interrogar-me. Eu creio que me desfigurei. Reparou ella que
eu estava pallido e tremulo. Assucena, que por no sei que infantil
capricho me subira para o collo, disse que eu tinha uma lagrima nos
olhos. Rosa aproximou-se, e, apertando-me a mo, com um ar de bondade, e
um desembarao de que eu no seria capaz, disse que me conhecia, e
pediu-me perdo de ter ferido o filho do advogado, que adorra a filha
do general.

No respondi a este lance affectuoso. Pedi-lhe que se sentasse para
continuar o retrato. Rosa parecia mais commovida que eu. Sentou-se.
N'este momento entrou Alvaro. Cortejaram-se com algumas perguntas e
respostas triviaes, e eu, com os olhos do corao no tumulo de Helena, e
os da face na physionomia da sua companheira de recolhimento, continuei,
sem vontade nem atteno, o retrato.

No dia immediato fui concluir a obra. Rosa recebeu-me com estranha
affabilidade. Perguntou-me quantas seces faltavam. Respondi que era
aquella a ultima.

--E, depois--proseguiu ella, titubeando--no torna a esta casa?

--Tornarei todas as vezes que v. exc. se dignar occupar-me no seu
servio.

--Eu desejava possuir o retrato de minha filha.

--Enviarei a v. exc. um habil pintor.

--Pois no quer encarregar-se d'este trabalho que eu tanto queria que
fosse seu?

--Agradeo a lisongeira fineza... Se eu tivesse o amor artistico, no
teria mais incensos a desejar para o seu culto; mas eu no posso, sem
grande sacrificio, fazer retratos. Fui surprendido, quando me prestei a
este servio; agora, se v. exc. me concede recusar um sacrificio que
no  necessario ao seu bem, eu declino de mim esse trabalho, e, repito,
enviarei a v. exc. um retratista, que de certo no posso substituir.

--N'esse caso, prescindo do seu favor... agradecendo-lh'o muito... No
ser retratada minha filha.

--Eu receio ter sido grosseiro, minha senhora... Se v. exc. determina
que seja eu o retratista d'esta linda menina, recebo a sua vontade como
ordem...

--Deus me livre de sacrifical-o... Pensei que lhe no seria penoso
conversar com uma companheira de Helena, alguns instantes no dia.

-- muito penoso...

--Muito?...  admiravel!... E porqu?... Mereo-lhe a confiana de me
dizer que motivos lhe dou para no ser digna testemunha de suas
lagrimas?

--Nenhuns motivos, senhora D. Rosa...  que eu no tenho a
tranquillidade de espirito precisa para receber como um prazer as
recordaes d'essa mulher que amei como no posso tornar a amar... J v
que deve ser-me bastante amarga a convivencia com uma pessoa, que
promette fallar-me de Helena...

--No lhe fallarei n'ella...

--Ento seria eu quem fallaria, senhora D. Rosa... Tenho-a sempre
adiante dos olhos... No posso mandal-a afastar da minha alma, para
entreter-me em cousas futeis...

--Nem tudo  futil, senhor Paulo...

--Para mim... . No tenho vida que no seja uma insoffrivel saudade;
mas acho esta dr mais nobre que tudo que me rodeia... Por ella, troco
de boamente todas as felicidades que o mundo possa traioeiramente
offertar-me...

--Traioeiramente...

--Sim... Creio que o mundo no pde offerecel-as d'outro modo... Tomra
eu ser esquecido para todos, assim como o meu nome o foi para v.
exc.... Preciso que me deixem, porque eu no procuro alguem. Ser
forarem-me a soffrimentos com que no posso, e contra os quaes
empregarei toda a minha coragem, chamarem-me para um mundo, onde serei
como o homem sem patria, nem affeies, nem amigos.

--No cr na amizade?

--No, minha senhora... Eu tinha uma grande alma, cheia de todos os
sentimentos bons; essa alma foi como um raio de luz amortecida no
prestito funebre da filha do general... Apagou-se ao p da sepultura...
No tinha seno essa alma...

--Nem espera resuscitar d'esse lethargo?

--Nunca mais.

--Nem emprega diligencias para isso?

--Nenhumas. Eu sei que o mundo no tem nada para mim...

--Nem o senhor Paulo tem nada que d ao mundo?

--A compaixo para os desgraados como eu, um sorriso de escarneo para
as felicidades d'um dia, e um adeus invejoso quelles que morrem... Bem
v que ainda sinto impulsos nobres no corao...

--Deseja a morte?...

--Procuro-a; mas entendo que  debil o poder das paixes nas
organisaes fortes... Eu lucto, ha dous annos, face a face, com uma
dr, que me no deixa cinco minutos de descanso, e vivo... vivo assim
com o aspecto da serenidade, e talvez com o rosado juvenil d'uma saude
perfeita... No se morre de paixo...

--E que importaria morrer?

--Importava no sentir...

--Pois o senhor no cr n'outra vida?

--No creio n'outra vida. Procurei acredital-a. Li tudo, estudei tudo,
porque me disseram que a incredulidade era a estupidez. A cada oraculo
da immortalidade, que consultava, a minha alma, alm de incredula,
sentia a cruel preciso de escarnecer a f dos que nos mandaram crr.
Disseram-me que eu no cria, porque a f era uma graa especial do
Senhor. Isto fez-me rir amargamente; mas, supersticioso pela desgraa,
pedi, invoquei, suppliquei com fervor a f. Esperei-a. Deixe-me rir,
senhora, que este riso  um insulto bem merecido s minhas crenas... O
homem  um verme. Deus no tem nada com este gro de areia, que lanou
no oceano, a turbilhes, com a ponta d'um p...

--Deve ser muito desgraado...

--No sou mais do que seria: creio, pelo contrario, que sou menos. A
immortalidade de que me servia?

--De encontrar essa mulher, que tanto amou n'este mundo...

--Isso  falso... Essa mulher, que muito amei n'este mundo, antes de
entrar no esquife, principiou a desorganisar-se. As pessoas, que estavam
em redor, diziam que era insupportavel o cheiro do cadaver... A
putrefaco, a estas horas, deve tel-a consummido... De que me servia a
immortalidade a mim, se os vermes me no restituissem a mulher que teve
um dobre a finados, uma orao mercenaria, uma lagrima do costume, e a
eternidade do _nada_, que  a verdadeira eternidade?...

--Com uma razo to forte  impossivel que no possa vencer os seus
soffrimentos.

--Chama v. exc. a isto _razo forte_?  uma debilidade, minha
senhora... Forte  a razo do homem que se d voluntariamente a
esperanas chimericas, e crenas sem critica... O forte  esse, que
vence a propria razo... Fraco sou eu, que no posso subjugar o
espirito...

--Nem com as consolaes d'uma verdadeira amiga?

--O que  uma verdadeira amiga?

Fomos surprendidos por Alvaro de Sousa. Reparou no embarao de Rosa, com
ares desconfiados. Eu recebi-lhe os cumprimentos com a frieza no
calculada dos meus habitos ordinarios. Continuei o retrato, com no sei
que placidez incomprehensivel! Senti-me melhor do corao...

Agora  que eu me sinto incapaz de continuar esta longa carta... Creio
que  longa e fastidiosa... Soffra, e tolere-m'a, minha querida senhora.

At manh.

                                                           De v. exc.

                                                        Dedicado amigo,

                                                               _Paulo_.


VI

                                                        _14 de outubro_

O retrato de Rosa estava concluido. Na tarde d'esse dia, Alvaro de Sousa
procurou-me, agradeceu-me o emprego que eu fizera de todos os recursos
da minha arte divina, e delicadamente deixou sobre a minha mesa um
cartuxo de dinheiro. No sei o que continha; porque, apenas o encontrei,
depois que Alvaro se despedira, mandei entregal-o em sua casa.

Alvaro voltou no dia immediato, e instou pela razo de semelhante
precedimento. Respondi-lhe, depois de importunado, que me dispensasse s.
exc. de dar uma categorica explicao das minhas aces. Vi-lhe um
sorriso de desconfiana, que me fez piedade. Estive quasi a pedir-lhe a
definio do sorriso; mas no quiz culpar-me no erro, que lhe censurava
a elle. Todo o homem pde chorar ou rir quando quizer.

Decorreram tres dias, sem o menor incidente, com referencia ao retrato
da viuva. Hontem, porm, recebi a carta, que remetto a v. exc., j que
me impz a obrigao de lhe no esconder os mais secretos incidentes
d'esta minha attribulada existencia, que v. exc. segue, desde o bero,
minuto por minuto. Communicando-lhe essa carta, entendo que no me
deshonro. A mulher, que a escreveu, ou est deshonrada de mais para no
soffrer nos seus creditos com semelhante revelao, ou est bastante
pura para no soffrer no seu pudor, confiando-se  minha discrio, e 
de v. exc.

J no sou de mim propria quando commetto a estranha temeridade de
escrever-lhe. Separo-me das leis do meu sexo, e declaro-me muito forte
na minha fraqueza para me abandonar loucamente  vontade caprichosa d'um
sentimento, que pde deshonrar-me, mas que me absolve na consciencia.

Escrevo-lhe, Paulo, porque no tenho esperanas de encontral-o n'esta
casa. Quero deixar cahir este vo, com que me viu, porque tenho vergonha
de parecer-lhe o que a minha razo me diz que no sou.

Que julga de mim? Como tem avaliado o meu procedimento? Reputa-me
amante de Alvaro de Sousa? No quero essa considerao; renuncio a tal
gloria, porque eu no sou amante de Alvaro de Sousa. Este homem entra na
minha casa, e denomina-me prima. Intitula-me prima, porque dizem que
minha me  casada com no sei quem que pertence  alta nobreza. Vi esta
mulher; no pude amal-a; no pude reconhecel-a; e fui com ella rude como
seria com uma pessoa estranha.

Soube que a fortuna de meu pae a fizera elevar-se at ao ponto de
nobilitar-se. No me fez uma ligeira impresso esta mudana. No a
procurei nunca, e morrerei de indigencia antes de pedir-lhe uma dobra de
seus velhos tapetes para resguardar do frio minha filha.

Alvaro de Sousa tem-se-me offerecido para estabelecer entre mim e D.
Anna do Carmo uma alliana filial. Revela um interesse extraordinario
pelo meu futuro. Dedica-me extremos de irmo e encobre com muito fina
astucia as suas intenes, se ellas so ms.

No me importa saber quaes ellas sejam. Nada ha commum entre mim e este
cavalheiro, seno uma amizade sem consequencias, e um commercio de
frivolidades como  a troca de retratos, a que eu no ligo importancia
alguma.

Aqui tem o que eu sou para aquelle homem. Precisava abrir-lhe assim a
minha alma, Paulo. O resto do mundo deixo-o julgar a seu bel-prazer; no
me canso at em sondar a indifferente opinio da sociedade a meu
respeito.

A sua preciso d'ella; porque preciso da sua estima, como d'um amparo
que me anime a esperar sobre a terra a felicidade, que, em poucos dias,
vi fugir diante de meus olhos, como um sonho ditoso.

A sympathia entre dous desgraados deve ser abenoada por Deus. No
fuja d'uma mulher que pde, se no dar-lhe consolaes, recebel-as ao
menos. Seja meu amigo, no como foi de Helena, mas como pde sl-o d'uma
pessoa, que desejra n'este instante ter uma sepultura ao lado d'ella.

No ouso pedir-lhe nada, no tenho sequer coragem de implorar-lhe duas
linhas em resposta a esta carta, que me sahiu to ingenua do corao,
que nem quero tornar a vl-a, para que o artificio da fria cabea no v
manchar a pureza natural com que a escrevi.

Adeus, Paulo. No desdenhe a inutil estima, que lhe offerece

                                                   _Rosa Guilhermina._

Esta carta no me impressionou. Quasi que me no occupei seno do estylo
em que era escripta! Encontrou-me n'um momento de glida atonia.
Tenho-os assim, e ento a minha alma  dura, o meu corao paralysa, os
meus labios sorriem-se machinalmente, e eu escondo a face nas mos para
contemplar este mysterioso mixto de sensibilidade e cynismo que
caracterisa as feies da minha indole.

O portador d'esta carta esperava uma resposta, duas horas depois. Eu no
pensei que devia responder; por isso no tive o cuidado de saber se
alguem esperava resposta. Quando me annunciaram o portador, mandei-o
subir. Perguntei-lhe se era foroso responder; disse-me que tinha ordem
de esperar at que eu lhe dsse resposta, ou dissesse que a no tinha.

Escrevi...

No me lembra bem o qu. Penso que eram estas as ideias:

Que eu no mostrra o menor interesse em conhecer indiscretamente a
natureza das ligaes que prendiam D. Rosa Guilhermina a Alvaro de
Sousa;

Que me eram to indifferentes depois como antes, mas que muito
ingenuamente estimava que ellas fossem taes, que nunca a excellente
senhora tivesse de soffrer por ellas;

Que acceitava a offerta da sua estima, porque j no podia aspirar a
outros triumphos no corao das mulheres, que sabiam separar a amizade
do outro sentimento que a hypocrisia vestiu com os arminhos emprestados
d'uma affeio nobre;

Que, na minha posio, no podia dar-lhe mais consolaes do que as
muito poucas que um homem qualquer pde offerecer no servio de qualquer
senhora, que precisa d'um criado.

Penso que foi isto, pouco mais ou menos, o que eu escrevi. So passadas
vinte e quatro horas. No tenho nada a accrescentar a este episodio, e
creio que terminar aqui.

No concebo bem o que esta senhora quer de mim! No creio n'estas
fascinaes momentaneas, porque as no entendo, ou o meu corao est
muito abaixo d'esses vos.

O que em verdade lhe digo, minha boa amiga,  que no preciso recordar
os juramentos que fiz a Helena, dous dias antes da sua morte, para
vencer a impresso que Rosa Guilhermina me poder ter feito.  nenhuma.
Posso esperar com firmeza e animo frio a perseguio. Nem, ao menos, a
lastimo, porque a febre da imaginao ha de mitigar-se, e, quinze dias
depois, esta mulher ter por mim um sentimento de resentido orgulho que
ha de salval-a. Entende-o assim?

                                                           De v. exc.

                                                           Grato amigo,

                                                               _Paulo_.


V

                                                        _19 de outubro_

Retirou-se, n'este momento, de minha humilde casa o senhor Alvaro de
Sousa.

S. exc.  um lastimavel mancebo! Como seu primo, minha boa amiga, sinto
que elle seja o incentivo irrisorio d'esta carta.

Entrou de chapo na cabea na minha officina.

Vou tentar recordar o dialogo, que tivemos.

--Venho exigir do senhor uma prompta resposta--disse elle, dobrando o
punho d'uma bengalinha com a ponta.

--Tenha a bondade de fazer a pergunta--respondi-lhe eu, convidando-o a
assentar-se no canap, inutilmente.

--O senhor tem algumas intelligencias com D. Rosa Guilhermina?

--No respondo.

--Quer dizer que tem?

--No quero dizer nada. Digo que no respondo.

--Mas eu preciso que responda sim, ou no.

--Pois por satisfazer s suas exigencias imperiosas, senhor Alvaro de
Sousa, respondo ambas as palavras: _sim_ e _no_.

--No comprehendo...

--Tanto peor para v. exc. que no pde esperar de mim outras
explicaes.

--O senhor parece ignorar a qualidade de pessoa com quem falla...

--Poder-me-hei ter enganado, mas creio que fallo com um dos mais
distinctos cavalheiros do Porto... O senhor Alvaro de Sousa  muito
conhecido, para que eu no conhea a qualidade da sua pessoa, at pela
libr dos seus lacaios.

-- preciso que nos entendamos.

--Desejo-o de todo o meu corao...

--O senhor tem algumas relaes com D. Rosa?

--Continuemos na mesma desintelligencia, senhor Alvaro... Essa pergunta
j foi respondida.

--Mas a resposta no me satisfaz.

--No tenho outra, e falta-me at a paciencia para lhe offerecer, outra
vez, a que v. exc. no acceita.

--Eu sinto que o senhor no seja um cavalheiro da minha classe para
responder-me  ponta da espada.

--Dou, portanto, louvores  Providencia por me ter feito d'uma classe
diversa da dos heroes, que teem ponta de espada para os que no tem
ponta de lingua...

--O senhor zomba de mim?!

--Zombo.

--E no receia as consequencias d'essa affronta  minha honra?

--No, senhor.

--Estou em sua casa...

--Que quer dizer com isso?

--No quero dizer nada... Encontrar-nos-hemos...

--Senhor Alvaro de Sousa, eu tenho pocas em que difficilmente sou
encontrado, e esta parece-me que  uma. Se v. exc. tem urgencia de
encontrar-se comigo, sahirei hoje.

No me respondeu, e sahiu.

So tres horas da tarde. Vou dar um passeio.

V. exc. ha de permittir-me que, invocando o sagrado testemunho da nossa
amizade, eu lhe imponha o preceito de no fazer transpirar uma palavra
d'esta minha carta, a no desejar um completo rompimento nas nossas
relaes.

                                                           De v. exc.

                                                        Humilde criado,

                                                               _Paulo_.


VI

                                                        _20 de outubro_

A carta de v. exc., cheia de benevolos conselhos, e prudentes reflexes
a respeito do meu conflicto com o senhor Alvaro de Sousa,  uma nova
fora que v. exc. quer dar s minhas convices na sua amizade.

Felizmente, o primo de v. exc., sentindo por ventura que lhe no era
glorioso um desforo com o pintor, j teve a summa discrio e bondade
de encontrar-se comigo tres vezes, e deixar-me seguir pacificamente o
meu caminho.

Sinceramente lhe digo, minha nobre amiga, que o menos interessado,
n'esta ridicula lucta com um moo digno d'outro competidor, era de certo
eu.

No me levava para este acto de suprema vaidade o corao. O meu mal
pensado cavalheirismo era todo da cabea, que tenho cheia de
loucuras, e refractaria a tudo que  submisso a classes, cuja
superioridade--desculpe-me v. exc.--no reconheo debaixo do co.

D'este orgulho, que eu supponho no existir d'hoje a cem annos, porque
ento os homens sero todos iguaes perante a lei, e irmos perante Deus,
d'este orgulho resultou a facilidade com que fui hontem procurar D.
Rosa, que me pedia anciosamente uma entrevista.

Encontrei-a assustada, confiando de mais na superioridade de Alvaro, e
avaliando em menos que o seu valor real a minha frieza de animo para
arrostar as furias do seu fidalgo amante.

Sorri piedosamente para aquelles receios, alis naturaes no corao
d'uma mulher.

Aquietei-lhe quanto pude o seu sobresalto, e acabei por pedir-lhe que
fosse grata aos extremos do gentil moo, que, por ella, se arriscava a
um encontro, cujas consequencias eram imprevistas para ambos ns. N'este
sentido, aconselhei-a com uma generosidade digna d'outros tempos.
Encareci o merecimento do senhor Alvaro, advoguei a causa d'elle com o
fervor d'amigo, estabeleci comparaes entre ns que redundavam em
grandes vantagens para elle, e terminei este difficil papel, salvando a
minha posio falsa, com lhe offerecer a sincera estima de irmo.

Rosa Guilhermina no me quer para irmo. Achei-a de marmore para este
sentimento que seria em mim o mais vital de todos, o que eu hoje mais
lhe agradeceria, e o primeiro e derradeiro que eu posso offerecer a uma
mulher. Ella, no. Fallou-me do seu amor com estranho desembarao.
Explicou-me os effeitos d'uma impresso violenta. Disse-me que s um
prompto desprso poderia salval-a, porque tinha o amor proprio
necessario para no succumbir sem gloria, humilhando-se a um homem que a
no comprehendia. Empregou, na exposio eloquente da sua sympathia, as
melhores palavras da novella, e concluiu o seu no interrompido discurso
com lagrimas, que me pareceram mais eloquentes que a fecundidade
palavrosa.

Eu no sei o que ha de sublime, e mavioso nas lagrimas d'uma mulher.
Como se Deus lhe dsse a humildade por instrumento de triumpho, eu
senti-me enfraquecer, ao mesmo tempo que recobrava toda a minha coragem,
pedindo-a  saudade de Helena, como se pede uma alegria s recordaes
do passado, que se nos foi com todas ellas.

Eu creio j ter dito a v. exc. que D. Rosa  uma linda mulher. Quando a
retratei, havia alli n'aquella physionomia um colorido de felicidade, um
sangue agitado que lhe vinha em estos ardentes do corao, uma viveza
robusta, que denunciava um feliz descuido de pezares.

Hontem no era assim. Rosa estava livida. Orlavam-lhe os olhos umas
manchas azuladas, que marcavam talvez a passagem de muitas lagrimas
escondidas, em longas noites de desesperao. Posto que vaidoso, eu no
me felicitei, minha cara amiga, por ter sido a causa d'esses
padecimentos. Se  por mim que elles existem, no se me d da gloria
inutil que elles possam dar-me. No tenho nenhuma: no me prestam de
balsamo para o corao; no me aquecem esta cabea de glo; no me
deixam roubar ao passado um instante para com elle idear futuros de
impossivel felicidade.

Poderei amar esta mulher repetindo as minhas visitas? No. A aproximao
 o divorcio das grandes paixes, que a distancia esposra. Aos ps do
homem cahe partido o prisma, quando o hlito da mulher  to de perto
que lhe empana as cres.

E eu, de mais a mais, no desejei aproximar-me, quando a vi de longe.
No senti este toque inesperado, esta surpreza electrica, uma s vez
recebida na existencia de cada homem.

Poder o tempo fazer o que no fez um instante?

No.

Dizem que existe um amor lentamente creado pelo habito, emanao da
amizade contrahida pela semelhana de vontades, resultado d'uma demorada
elaborao de dous espiritos que se consagram no mutuo sacrificio de
propenses e desejos. No sei o que seja isto. A razo rejeita essas
candidas theorias.

Eu s creio no amor no esperado, no grangeado por sacrificios, no
calculado de dia para dia.

Se me dizem que essas paixes improvisadas n'um olhar, e n'um sorriso, e
n'um crar, so instantaneas, e ephemeras como o fto arrancado ao
embrio, com violencia, antes de tempo, eu direi que sim... que morrem
essas paixes na vida, porque ha a pedra do tumulo que desce quando Deus
a manda, mas ha a eterna saudade que nem a Providencia pde desvanecel-a
no corao, que se envolve n'um pedao da mortalha, roubada a outro
corao, que o deixou viuvo de todas as esperanas, e glido para todos
os confortos.

Minha paciente amiga, eu sou fastidioso com as minhas choradeiras.
Acolha-m'as com amor, que eu no tenho, sequer, em galardo de tantos
soffrimentos, o poder de as lanar ao papel de modo que consternem a
compaixo da unica pessoa que pde sentir comigo.

Estou pintando.  o meu sonho de ha dias.  Helena, quando me deu uma
rosa murcha, e me disse: Ahi tens o meu amor: a rosa cahir desfeita em
p; mas a saudade ficar perpetuamente entre os vivos, como o germen
d'essa flr. Estas palavras repetiu-m'as no sonho. Vi-a tal qual era,
n'esse primeiro dia em que os medicos lhe disseram que dsse um passeio
recreativo  ilha da Madeira. N'esse dia comeou ella o seu curto
passeio em redor da sepultura!...

Adeus, minha estimavel senhora.

                                                           De v. exc.

                                                        Amigo dedicado,

                                                               _Paulo_.


VII

                                                        _29 de Outubro_

Tem decorrido sete dias, depois que lhe escrevi, minha boa amiga. V.
exc. no calculava a razo do meu silencio, quando na sua queixosa
carta de hontem arguia a minha reserva, ou indolencia.

Eu indolente, senhora! Eu que no tenho cinco minutos de repouso desde o
dia  noite! Eu, que conto os longos instantes do escurecer ao dia!

No lhe escrevi... por vergonha!... Ha de crr-me, senhora! no tenho
tido animo de ser eu o proprio accusador das minhas fraquezas
incomprehensiveis! Tenho esperado o intervallo lucido d'esta demencia de
seis dias, e as trevas cerram-se cada vez mais.

Que  o que se passa em minha alma? Que transfigurao se operou na
minha vida? Que brinquedo cruel  este que vem ludibriar-me no canto
esquecido em que me refugiei com as minhas desgraas?

A minha organisao est debaixo da terrivel influencia d'uma zombaria
providencial! Eu era, ha oito dias, o homem morto para o futuro; as
minhas alegrias resuscitava-as do tumulo mudo do passado; a minha vida
era uma saudade que devia cegar-me os olhos da razo com o seu brilho
sinistro, enlouquecendo-me, ou matando-me. Detestava o presente, porque
debaixo dos meus ps estava o ardor do deserto, e nos horisontes da
minha esperana... nem uma gta d'agua que me apagasse este lume que me
queima, sem o poder de aniquilar-me. Eu era isto! A solido era-me cara.
O tumulo de Helena povoava-se-me de anjos. A imagem d'ella, esboada em
cada tla que me rodeia, tinha uns olhos que choravam, mas os seus
labios articulavam no sei que palavras animadoras, que me mandavam
subir com o sorriso da resignao as escadas do meu patibulo.

E esta vida acabou para mim. A imagem de Helena fugiu lagrimosa e
espavorida da solido do meu quarto. A sepultura d'ella...  uma pedra
rma de phantasmas para mim. Comecei por descrr das minhas passadas
vises. Raciocinei friamente sobre a vida e a morte; sobre a belleza que
foi, e o cadaver que ; sobre o corao arquejante de amor, e o corao
minado de vermes.

Que  isto, pois? quem rasgou este vo diante de meus olhos? Que homem
sou eu hoje, ou que homem fui durante dous annos de amargura incuravel?

Entre mim e Helena... est Rosa Guilhermina! Tenho o rubor do pejo na
face, quando estas palavras me fogem do corao! Parece que a vejo
contrahir uma visagem de indignado pasmo por tal mudana! O meu caracter
apresenta-se-lhe uma inconcebivel monstruosidade! Vota-me um legitimo
desprso, desde este momento?

Primeiro me despresei eu a mim. Primeiro olhei eu, com asco, para a
minha miseria. Antes de v. exc. recuar nauseada da baixa condio da
minha alma, entrei eu na minha consciencia, e vi-me torpe, ingrato,
insensivel, perjuro, e vil!

Tenho muito orgulho da minha honra; quero absolver-me d'esta deslealdade
 memoria de Helena, e no posso. Vejo que  necessario ser cynico para
me desculpar, escarnecendo as culpas que a sociedade me imputa. No
posso, no sei sl-o, no est na minha mo rasgar o contracto que fiz
com Helena, nos seus ultimos instantes.

Mas eu amo Rosa. Que sentimento  este? Como hei de convencer-me de que
amo esta mulher? Se isto  uma illuso, como  que se dissipam estas
chimeras?

No sei! Lembra-me que senti uma commoo inexplicavel quando a vi
chorar! Lembra-me que a vi n'um sonho, de que acordei balbuciando o seu
nome com ternura. Lembra-me que desdenhei, acordado, a ternura do
sonho... Mas a minha alma estava inquieta. O meu quarto parecia-me
pequeno: este silencio entristecia-me... Faltava-me no sei que voz, que
som dos anjos que me tinha ferido uma corda no corao!... Ri da minha
fragilidade. Peguei d'um pincel... Disse  minha alma que lhe inspirasse
os traos de Helena... e os olhos amortecidos de Rosa resaltaram-me do
panno com duas lagrimas... Era a imagem d'ella, que se levantava de um
tumulo a dizer-me: Aqui tens lagrimas minhas; aqui tens um corao, que
renasceu das minhas cinzas; aqui te dou a unica mulher, que pde supprir
a que no ter para ti um sorriso sobre a terra... V que os vermes
corroeram a minha face. No te illuda uma esperana em outros mundos,
porque os limites da vida so a campa... Eterna  s a materia; mas a
materia que te feriu os sentidos, dissolveu-a o spro da desgraa...

Contive-me durante dous dias de tribulao incessante. O corao
dizia-me que Rosa me escreveria. Li a carta que recebera com
indifferena, e passei por a minha alma todas aquellas palavras.
Achei-as sinceras... Acarinhei-as com soffreguido... Recordei o que
ella me dissera, depois. Accusei-me de ingrato. Tive orgulho do meu
rival. Receei ter parecido um ente indigno de tamanho amor! Senti
ciumes... Queria vl-a... Precisava de lhe esconder metade de minha
alma, revelando-lhe uma pequena parte dos meus sentimentos...

E procurei-a... No sei o que lhe disse... Recordo-me que lhe apertei a
mo com ardor; que lhe pedi lagrimas de piedade, e coragem para no
transgredir um juramento... Penso que me no entendeu, porque me
respondeu com um sorriso, e fugiu de ao p de mim com a face abrazada...

E, desde esse dia, escrevo-lhe a todas as horas. No lhe mostro as
minhas cartas, porque no posso convencer-me de que o meu corao est
n'ellas...  impossivel!... Aqui ha uma fascinao!... Eu no posso ter
esquecido Helena!...

Preciso hoje da sua companhia, minha querida amiga!... Escrevi o que no
ousaria pronunciar...

                                                           De v. exc.

                                                           Grato amigo,

                                                               _Paulo_.


VIII

                                                        _25 de outubro_

A ingratido  punida. Principio a expiar o perjurio. Helena vai ser
vingada por esta mulher, que, traioeiramente, me assaltou o corao,
quando eu me julgava de ferro para as paixes.

Rosa Guilhermina vai recuando diante de meus passos. Aproximar-me foi
gelal-a. Da tristeza profunda com que me olhava, antes da vergonhosa
quda que dei do alto do meu orgulho, transformou-se n'um rosto
folgaso, n'um conversar futil e acreanado, n'um nem eu sei que de
motejo e zombaria que me escandalisa e envergonha.

Esta mulher quiz experimentar-se, experimentando a minha soberba.
Humilhou-se como a vibora, que se enrosca entre as urzes, para se
levantar d'um salto de que eu devia fugir atrozmente ferido no meu amor
proprio. Isto tudo  inexplicavel; mas o facto existe com horrorosa
evidencia! Essa mulher, que me provocou, ha de amanh despresar-me...
despresa-me j hoje, e ousa dizer-me que me recebe, em atteno 
delicadeza com que a tenho tratado!

Esta fria linguagem  a mascara impostora dos caracteres, que se no
sustentam. Quando a mulher assim falla,  porque o amor, nos labios
d'ella, foi uma expresso mentirosa, que passou por l, como a palavra
Deus que  seguida, na bca do impio, pela palavra demonio!

 isso crivel, minha querida amiga?

Rosa ser aquella mulher, que me escreveu? No a veria eu chorar? As
lagrimas podem assim prestar-se a uma infamia? Ha mulheres que tiram
d'um corao gasto um tal proveito?

Hontem procurei-a com a resoluo estupida de convidal-a a ser minha
mulher! Eu no podia j luctar com ella, nem comigo. Um dia antes,
perguntei-lhe a razo da sua frieza; respondeu-me que ella mesmo no
sabia explical-a. Disse-me que Alvaro de Sousa no frequentava a sua
casa, e accrescentou que desejava saber de mim a razo d'este
procedimento.

--De mim?!--perguntei eu.

--Sim... do senhor... Por minha parte no lhe dei a elle motivo algum de
abandonar uma casa, em que entrava como parente... O que fiz foi
interpr as minhas supplicas com o senhor Paulo e com elle para que no
tivessem desintelligencias em que soffresse a minha reputao.

--A sua reputao  invulneravel...

--No  tanto assim... A vinda frequente do senhor Paulo, e a ausencia
completa de Alvaro de Sousa,  motivo de murmurao na visinhana.

--Quer com isso dizer que no a sacrifique  murmurao dos visinhos?

--Escuso lembrar  sua honra esse dever. O senhor deve ser o primeiro a
lembrar-se da susceptibilidade em que estou na presena d'um mundo que
no distingue as mais honestas das mais torpes intenes...

--Est raciocinando com admiravel prudencia, senhora D. Rosa!... Quer em
summa dizer que no devo vir a sua casa...

--No digo tanto; mas devo pedir-lhe que seja menos frequente nas suas
visitas...

Comprehendi-a...

E ergui-me d'um impeto para retirar-me. Parece que o corao se me tinha
despegado no peito. Ouvi um zunido estranho, que me fazia latejar a
cabea em dolorosas pontadas. Era tudo escuro diante de meus olhos, e
no havia em mim sensao que me no fizesse recear uma demencia.

Sahi, e, s muitos passos longe d'aquella casa fatal, me lembrou a
retirada boal que fizera. Como foi possivel que eu no respondesse
quella mulher?! Que indignao, ou que nobreza d'alma foi a minha, que
me no inspirou uma palavra que a fizesse crar?! Ser isto uma
devassido moral, que supporta impassivel todas as offensas? A longa
desgraa petrificou-me? Um amor, todo sancto, todo saudade, o amor de
Helena, dous annos puro no sacrario do meu corao, fez-me cynico?

Tenho-me hoje feito estas perguntas.  um tormento no poder responder.
No posso. No sei o que sou, nem o que  aquella mulher!

Seria uma desgraa, um cancro incuravel na minha alma a certeza de que
ella  to infame como se me ostenta!

Vejamos se posso absolvel-a... Oh! eu queria absolvel-a, sem deshonra
para mim, nem para ella!... De que modo?...

Ha, por ventura, uma intriga? Qual? Por quem? E com que fim?

No sei, no posso comprehendel-a.

Disse-me ella que nunca me confessou amor! Ser isto verdade? Fui eu que
me illudi? Ento, aquella carta, aquella livre explicao d'um affecto
repentino... foi tudo um sonho?! Terei eu mentido a v. exc.? A cpia da
carta que lhe enviei, foi uma ignobil impostura?...

Como  especialmente horrivel a minha situao! Como eu, d'um lance
d'olhos, vejo todos os casos em que um homem pde suicidar-se na sua
honra cuspindo na face d'uma mulher!...

Esta situao no pde assim durar... Eu preciso ouvil-a... Ella ha de
saber colorir a sua depravao d'outro modo... Eu quero at que ella se
defenda, porque vai ahi n'essa defesa a salvao do meu amor proprio...
Que dir?... Que terei eu que responder-lhe?

Minha boa amiga, ha uma conspirao sobrenatural contra mim... Eu
receio, hoje mais que nunca, uma demencia. Lamente o seu infeliz amigo

                                                               _Paulo_.


IX

                                                        _2 de novembro_

Tudo est perdido.

Rosa Guilhermina vai sahir do Porto. D. Anna do Carmo faz parar, ha
quatro dias, a carruagem  porta de sua filha. Alvaro de Sousa
reconciliou-as. Leia v. exc. essa carta, que recebo n'este momento:

Confidente de minha amiga Rosa Guilhermina, devo dizer a v... que as
suas visitas a esta casa, emquanto ella fr minha hospeda, so bastante
prejudiciaes  futura felicidade d'esta senhora. Sua me, informada das
relaes que o chamam a minha casa, obriga Rosa a sahir do Porto.
Suspeito que a sua direco no pare aqui em Portugal.

Da parte de v..., tanto eu como ella esperamos a cavalheira prudencia,
que o seu bom caracter nos afiana. Se a ama, como devo acreditar das
cartas que lhe escreve, desvele-se em no prejudical-a. At aqui a sua
unio com a filha sem me, seria possivel. Hoje que D. Anna do Carmo
reconhece sua filha para eleval-a at onde o dinheiro a collocou,
declaro-lhe, com pesar meu, que sero, alm de inuteis, nocivos todos os
seus esforos.

Com sincera estima

                                                              De V...

                                                Veneradora affectuosa,

                                                        _Maria Elisa_.


Ora aqui tem, minha boa amiga, o artista em lucta com a sociedade. Ella
ahi vem pr-me um p, segunda vez, no pescoo! C sinto j a dr
vilipendiosa, e nem sequer sei j sorrir-me, quando a soberba me estende
na face uma bofetada!  preciso ser homem, antes de tudo. Quero tirar
nobreza da minha vilania! Esta dr moral  mais forte que a outra. Sinto
desvanecer-se o amor, e s tenho alma para compulsar as agonias d'uma
paixo incomparavelmente maior. Cerra-se uma ferida; mas creio que me
abriram outra incuravel, rasgando-me a antiga cicatriz.

Hoje preciso da vida, porque  impossivel que eu no tenha a minha hora
de vingana...

Vou sahir de Portugal... no porque me reconhea to pusillanime que
receie aqui uma consumpo moral... No  isto...  que debaixo d'este
co no ha para mim um anjo bom que me auxilie n'esta peleja desigual
com o meu inseparavel demonio.

Tenho dinheiro, que me  inutil aqui. Preciso desperdial-o... Quero
tocar a extrema da miseria, para que a necessidade me faa artista, e o
trabalho me salve d'estes ocios despedaadores. No sei onde irei... nem
mesmo quero sabel-o... De qualquer parte, minha querida amiga, vir uma
minha carta pedir-lhe uma lagrima. Quando a no receber... quando o
silencio lhe afigurar que a sua amizade fez um ingrato, poder v. exc.
dizer: Aquelle desgraado, de quem fui to amiga, e que tanto deveu s
minhas consolaes, morreu!

E v. exc. poder ento louvar a Deus, que encravou a roda do meu
infortunio. Poder agradecer-lhe, como unica pessoa que deixarei no
mundo com o meu nome no corao, a graa da morte concedida ao talvez
primeiro homem, que no teve cinco minutos de felicidade na demorada
existencia de vinte e seis annos.

N'este momento ha em mim alguma cousa sobrenatural. No amo Rosa
Guilhermina; mas tambem a no detesto! O que eu muito queria era o
segredo d'aquella indole, porque eu no seria acreditado se contasse a
transio do amor ao desprso, a infame mentira que me arrancou aos
braos d'um cadaver para me lanar nos da desesperao.

Deixal-a! Quero at pedir a Deus... _a Deus!_ a desgraa, que  a me da
piedade! Sinto-me religioso, porque, acima d'estas torpezas, ha de
necessariamente existir um Creador, que deixou aqui a dilacerarem-se o
mal e o bem. Este Creador deve ser juiz, e eu comeo a teml-o desde
este momento... Quero, pois, pedir a Deus que proteja o futuro de Rosa
Guilhermina. Os anjos vo com ella. Esta expresso do povo  a mais
expansiva e tocante que a minha alma pode dar-lhe. A derradeira
consolao do infeliz  perdoar. Eu perdo... Offereo o meu corao
para todos os punhaes; curvo a minha cabea a todas as desgraas; dobro
o meu joelho a todas as violencias, e prometto de nunca mais chamar
infames os instrumentos, que obedecem  vontade superior do grande motor
da vida, e da morte, da honra, e da deshonra.

No tenho coragem de abraal-a, minha cara irm. Adeus.

                                                           De v. exc.

                                                  Amigo de toda a vida,

                                                               _Paulo_.


X[5]

                                              _Roma, 4 d'abril de 1825_

                                                    Minha prezada amiga

Eu tinha esperanas na minha convalescena moral. O corao, aturdido
por padecimentos tumultuosos, cansado e endurecido por cicatrizes de
golpes sobre golpes, adormecera extenuado... Eu principiava agora uma
nova estao na minha vida. A insensibilidade promettia-me uma
tranquilla vegetao. Adormeceria sem lagrimas; acordaria sem
sobresaltos; veria tudo descrado em redor de mim; abriria para tudo,
que me cerca, estes olhos de estatua, sem culto para o bello, nem asco
para o repugnante.

Este ultimo baluarte sinto-o esboroar-se debaixo dos ps. 
convalescena da alma segue-se a desorganisao da materia.

Estou doente d'uma enfermidade que eu sentia, ha annos, fermentar-se-me
no corao. Muitas vezes sentia umas palpitaes extraordinarias, e
depois dores agudissimas, um suor copioso, um mal-estar physico e moral,
um mixto de aborrecimento e desesperao, que eu attribuia sempre 
inconsolavel viuvez da minha alma.

Este padecimento, nos primeiros mezes da minha viagem, diminuiu at se
extinguir. N'outro tempo, no se me dava sentir aggravar-se o mal; mas,
agora, queria vr-me livre, queria viver muito n'este marasmo de todos
os sentidos.

No o quiz a Providencia. Ha quinze dias que soffro muito. Dizem-me que
tenho uma aneurisma. No sei o que ...  a morte, que me fugiu quando
eu a chamava, e me chama quando eu lhe fujo. No posso dizer-lhe que bem
vinda seja!

Mandam-me a ares patrios... Eu no sahirei, j agora, d'aqui... Este
conselho da medicina  um futil subterfugio.

A minha doena estudo-a nos livros onde aprendem a cural-a os medicos. 
inevitavel a morte... Pde-se assim viver longos annos; mas eu, assim,
no desejo viver...

 lamuria de mais por uma cousa to transitoria como a vida!... Eu devo
ser superior a esta pouca materia que se dissolve no dia seguinte
quelle em que o esprito planisa mil prosperidades. No me deve ser
penoso morrer, porque eu no tinha previsto felicidade nenhuma. O meu
futuro seria uma atonia glacial, uma sensibilidade de morte no corao,
e vida na apparencia... Viver assim, entre os homens, ou entre
cadaveres, que importa?... Morrerei resignado.

Agora posso fallar-lhe de tudo, porque tudo me  indifferente. Levanto,
hoje, a suspenso que impuz  sua bondade, minha amiga. Pde fallar-me
de Rosa. Que  feito d'essa mulher?

Incommoda-me muito o escrever. Prohibem-m'o; mas a prohibio no seria
obedecida, se a cabea me deixasse... Sinto um desprazer semelhante 
nausea.  um esvahimento de cabea, e uma lassido em todo o corpo, que
s posso attenuar com o uso do opio, que me entorpece completamente.
Adeus.

                                                           De v. exc.

                                                      Amigo do corao,

                                                               _Paulo_.


RESPOSTA

                                             _Porto, 6 de maio de 1825_

Meu bom amigo


Eu peo a Deus que lhe sosegue a imaginao. V... suppe-se mais doente
do que realmente est. O seu ardente espirito engana-o. No se entregue
ao terror da morte: viva, porque esse medo  signal de que a vida ainda
lhe  cara.

Espero ainda vl-o em Portugal, esquecido dos seus passados dissabores,
e vivendo para a felicidade de pessoas suas amigas.

Quando v... perder um falso preconceito em que tem a sociedade, ver que
o seu elevado merecimento lhe grangeia estimas, e o seu bom corao
encontrar, por ventura, outro digno d'elle.

No quero que se lembre da morte!

Dava-me tantas esperanas de o vr feliz, na sua penultima carta, e
agora parece que capricha em fazer-se desditoso, communicando  sua
extremosa amiga as suas tristes previses!

Bem sabe com que amizade lhe fallo. Affiz-me a tratal-o como irmo, e
no saberia amar com mais ternura um filho. Quando perdi um esposo, na
flr dos annos, e uma filha que elle me deixou nos braos, tambem eu,
senhor Paulo, me julguei morta para tudo. Sentei-me no leito d'onde vira
sahir o cadaver de meu marido, e esperei ahi a morte. Abracei-me ao
bero vasio de minha filha, e pedi ao Senhor a esmola de uma mesma
sepultura para tres entes que deviam ajuntar-se.

Encontrei-o ao meu lado, chorando comigo a perda de Helena, senhor
Paulo, e os seus nobres padecimentos vieram minorar os meus. V...
fallou-me do co, da eternidade, da perpetua unio das almas no seio de
Deus, e eu acreditei-o. Como as suas palavras me vinham sanctificar a
minha dr no corao, gravei-as ahi, e a sua imagem entrou l com ellas
para sempre.

No sei se o amei; mas, se o amor no era aquella extremosa amizade, que
lhe consagrei, e consagro, ento no sei o que  o amor.

No era isso o que accende o ciume, porque esse no o senti eu nunca. O
seu triste episodio com Rosa contristou-me, porque desde o principio
prophetisei desventuras. Realisaram-se muito alm do meu agouro.

Nunca lhe fallei assim, porque... deixe-me tambem ceder a no sei que
triste e mysteriosa inspirao... parece-me que o no verei mais... isto
 uma loucura, uma allucinao, mas o corao sente-a to forte, que eu
no posso suspender as lagrimas... Nunca lhe fallei assim, porque v...
tem hoje vinte e sete annos, e eu trinta e sete... As desgraas no me
poderam ainda envelhecer de todo, e eu recearia enganal-o, fazendo-o
nutrir, a respeito da minha amizade, alguma falsa supposio, que me
poderia fazer muito desgraada, ou muito feliz.

Esses receios passaram. Agora conheo que no ha commum entre ns seno
uma amizade illimitada at  honesta confiana. Nunca podia-lhe ser
outra cousa...

Fallei j muito de mim. Quer que lhe falle de Rosa?

Depois da sua partida, a filha de Anna do Carmo foi viver na companhia
de sua me, levando comsigo a viuva do negociante da rua das Flres.
Encontrei-as em casa do D. Antonio de ***, e achei-as ambas bellas.

Maria Elisa trazia douda a cabea de S*** C***, Rosa Guilhermina, um
pouco triste, recebia com indifferena o cortejo teimoso de Alvaro de
Sousa. Por causa de Maria Elisa houve pequenas miserias de salo, ciumes
senis, com que os nossos velhos se inculcam rapazes. Felizmente, no
lhes falta zlo para no deixarem transpirar as fidalgas impudencias,
que sabem occultar nos seus solares.

Agora receba uma novidade, que no deve j ferir a sua vaidade, nem
mesmo alvoroar o seu corao.

Rosa Guilhermina vai casar-se.

Quer saber com que neto de trinta avs?

 um neto sem av conhecido.

No sei se ha seis ou mais annos que Rosa Guilhermina viveu algum tempo
em casa do negociante Silva, da rua das Flres, com quem seu pae, o
arcediago de Barroso, a quiz casar.

Rosa namorou-se ahi d'um tal Jos Bento, filho d'um retrozeiro. Este
lrpa (diz Maria Elisa que o era de grande marca, e eu creio que
contina a sl-o) estudava latim em casa do Passos, cujo quintal partia
com o do arcediago, na travessa do Laranjal ou Bomjardim. Por causa
d'ella, e  sua vista, o rapaz foi castigado com uma palmatoria. No dia
seguinte, o mestre que o castigou, appareceu morto, e Jos Bento
desappareceu.

Foi para o Brazil, onde se demorou alguns annos, vendendo carnes sccas.
Por fim, morre o patro, e deixa-o senhor d'uma riqueza que parece
extraordinaria, pelo fausto com que se apresentou no Porto.

Ninguem se lembrava j do filho do retrozeiro, que tinha morrido. Jos
Bento de Magalhes e Castro, como elle se assigna, occultou algum tempo
o seu nascimento; mas, um dia, apresenta-se em casa de Anna do Carmo,
pedindo licena para vr Rosa Guilhermina.

A viuva apparece; mas no se recordava j das feies do seu primeiro
namoro. Jos Bento declara-se, e offerece-se como marido de Rosa.

No sei o que se seguiu a isto. O boato do proximo casamento correu
logo. O senhor Magalhes e Castro  recebido nas primeiras casas.
Alcanou fro de fidalgo, e trata de edificar no Reimo um palacete com
as armas dos Castros e Magalhes. Dizem-me, que, dentro de oito dias,
Rosa ser senhora de grandes bens de fortuna, e as suas carruagens sero
as melhores.

Eu quizera que v... se risse com a fina ironia de talento, e da
experiencia, como eu realmente me rio d'estas grutescas evolues do
mundo.

Vai extensa a carta, e parte para Cadiz o hiate que deve leval-a.

Adeus, meu querido amigo. Escreva-me, dizendo que se desvaneceram os
seus terrores. Viva para a sua dedicada irm.

                                                                   ***


XI

                                             _Roma, 28 d'abril de 1825_

Graas, minha querida amiga! A sua carta  um modelo de que deviam
servir-se os raros anjos, que receberam de Deus a divina misso de
consolar infelizes.

O meu corao sentira uma estranha alegria, duas horas antes de eu abrir
a carta de v. exc. Era o presentimento.

Tive uma hora de luz. Respirei o aroma de todas as flres da vida.
Dilatava-se-me o corao. As palpitaes eram impetuosas como as do
sangue, surprendido pela imagem de uma mulher, que se julga morta, e
para sempre perdida.

Era esta justamente a hora em que v. exc. devia assim fallar-me. Mezes
antes, esta linguagem faria a sua desgraa, que a minha est fadada
desde o seio de minha me.

Foi minha amiga, quanto podia sl-o. Fui eu quem lhe esposou o seu
corao viuvo d'um esposo e d'uma filha. Eis aqui uma vaidade sancta,
que no deshonra um quasi moribundo. As suas revelaes, senhora,
acolhe-as meu corao como um deposito sagrado que brevemente confiarei
ao tumulo.

A minha morte proxima no  uma chimera de imaginao ardente. J lhe
disse que quero viver e no posso... Desfalleo, porque todos os meus
esforos so impotentes. Cravo as unhas na aresta do abysmo; mas o corpo
resvala, e a queda  infallivel.

Morro aos vinte e sete annos. Vou, envelhecido por toda a sorte de
tribulaes. Resta-me saber o que  a indigencia: vai muito adiantada a
noite da vida para que a conhea. O meu dia eterno vai nascer, e a luz
matutina d'esse dia irradiou-se em volta de mim, quando as suas palavras
vieram povoar de bellas vises a solido do meu quarto.

Foi o amor que me matou! Posso dizel-o com toda a ufania d'uma nobre
amargura: foi o amor que me matou! Esta grande alma no era para esta
sociedade. Offereci-lh'a, despresou-m'a... Lancei-lh'a aos ps...
calcaram-m'a... Fez-se-me uma villania, porque eu era muito nobre...
conheo que o era, porque tenho perdoado a todos aquelles que me
cortaram as carnes at me chegarem ao corao... No me conheceram, e eu
no os conheci a tempo. Foi muito tarde que o mundo se me ostentou, qual
. Eu tinha direitos a ser feliz, embora recebesse a felicidade pela
porta da deshonra. No quiz. A minha pureza custou-me a vida, porque
fugi do mundo para a solido a digerir o fel que me deram, e protestei
morrer antes de cuspil-o na face da sociedade.

Aconselho a infamia a todos os desgraados, seno quizerem o martyrio.
Se forem insultados, indemnisem-se. Renunciem educao, honra, pundonor,
e dignidade, todas as vezes que a vingana depender da villania, da
deshonra, da impudencia, e do descaramento.

Desculpe-me v. exc.... Esqueci-me que estava escrevendo a uma senhora,
que no resolveu ainda os asquerosos problemas da infamia. A minha
cabea  um vulco. No  ainda a demencia que me desvaira, mas pde
sl-o a febre.

Ha tres dias que me no levanto. Estou quasi s. Tenho um medico alguns
minutos no dia, um frade portuguez que por aqui anda atraz da salvao
eterna, e um criado, que me serve um caldo, e no entende o que lhe
digo.

Eis-aqui a minha familia na vespera d'uma viagem infinita... Falta-me
aqui uma mulher, que me fosse esposa, me, ou irm. Em Portugal, quando
estes ataques me annunciavam a morte, lembrei-me, muitas vezes, que o
meu derradeiro olhar encontraria os olhos de v. exc.

Aqui, ser a sua imagem, o seu retrato, que me sorri, aquelle retrato
que v. exc. me concedeu a pedido da nossa pobre Helena...

No posso...

Ah!... esquecia-me dizer-lhe que a historia de Rosa Guilhermina  uma
bonita fara... Fez-me sorrir; mas, no corao, lamento-a!...  uma
mulher bem trivial!...

Adeus, minha querida irm... Ser o ultimo?...

                                                               _Paulo._


--Eis-aqui a ultima carta, que eu recebi de Paulo--disse a senhora,
que me confiou a leitura, e as cpias de todas.

--Que sentia v. exc. depois que a leu?

--O que eu senti?... Nem j me recordo... Isto passou-se ha trinta
annos; e a memoria do corao, aos sessenta e seis, est embotada; mas,
se quer um facto que lhe exprima melhor que todas as palavras o que eu
senti, bastar dizer-lhe que, dous dias depois, parti para Roma...

--Para Roma!...

--Admira-se!?

--Ento v. exc. amava Paulo...

--Se o amava!... No se fazem essas perguntas a uma velha. O senhor ri
de mim, se eu deixar fallar o corao, como elle, ainda ha trinta annos,
lhe responderia.

--Eu no posso rir do que a vida tem mais grave e triste...

--O amor!... diz bem...  bem triste recordal-o; mas o ridiculo manda
suffocar as expanses d'um corao, que no envelheceu ainda. Dizem que
os cabellos brancos so veneraveis. Se o so, e s nos patriarchas, nos
prophetas, e nos apostolos... Quer que lhe diga que amei Paulo? Pois
sim... Amei-o muito... Conheci-o, j casada; mas eu fui uma esposa com
todas as virtudes, e com a resignao para todos os sacrificios.

A filha do general *** amava Paulo.

A minha casa era o unico local onde se reuniam. Impuz-me esta violencia,
e prestei-me ao doloroso servio de os approximar, porque precisava
matar um veneno com outro veneno.

Helena morreu, e Paulo refugiou-se a chorar comigo. Eu e o tumulo d'ella
eramos o unico passatempo da sua atormentada existencia.

Enviuvei. Encontrei-o sempre a meu lado. Sondei com muita delicadeza a
sua alma, e achei-a fria. Reconheci que era meu amigo, porque eu lhe
fallava muito de Helena. Um homem assim no podia amar-me...

--Porque no lhe revelou a sua alma?

--Uma mulher, se no est gasta pela libertinagem, ou no 
prodigiosamente estupida, nunca faz semelhantes revelaes. Se elle me
perguntasse se eu o amava, responder-lhe-ia que no, e craria pela
vergonha da mentira, ou pelo remorso da offensa... Dizem-me que as
mulheres de hoje so faceis n'essas delaes da sua alma. Se no  a
moda que as absolve, o pudor de certo no ... Emfim, eu nunca lhe disse
que o amava, nem elle me proporcionou occasies de dizer-lh'o.

Um anno antes de conhecer essa mulher fatal...

--Quem? Rosa Guilhermina?

--Sim... Um anno antes de conhecel-a, raras vezes vinha a minha casa.
Vivia muito s: dizia-me nas suas frequentes cartas, que vivia namorado
da arte, que tinha muitos retratos de Helena, e que roubava  pintura o
tempo apenas necessario para visitar-lhe, em S. Francisco, a sepultura.

Relacionado com Rosa, Paulo, sem o pensar, ultrajou-me quanto era
possivel!... O ciume devorou-me alguns dias, e eu tive momentos de
detestar o infame caracter do infeliz moo... Habituada, porm, a
dominar-me, afivelei outra vez a mascara, e recebi-o com a mesma graa
em minha casa para ouvir-lhe as expansivas apologias de Rosa
Guilhermina.

Tenho remorsos de ter sentido uma cruel alegria, quando essa mulher o
despresou...

--Naturalmente... alguma intriga...

--Urdida por mim?...

--O amor, muitas vezes, obriga...

--A praticar villezas? O amor nobre, no... Eu no urdi intrigas...
Rosa despresou-o; porque o seu caracter era o caracter de sua me...
Anna do Carmo nascera nas palhas, fra amante d'um padre, fra adultera
mulher d'um livreiro, fra repellida de casa de sua filha, e recebera-a
por fim, nos seus sales, sem vergonha do seu passado, nem resentimento
da sua dignidade. Filha de tal me, no podia apreciar o amor de Paulo,
que amra uma mulher, que morrera por elle.

Ia-me esquecendo o conto... Fui a Roma; cheguei l vinte dias depois que
recebi a carta.

--Encontrou-o?

--Sepultado... Morrera seis dias antes... Ao lado da sua cabeceira
estava o meu retrato...  aquelle que alli se v.

Reparei... Ninguem diria que esta senhora podia ter sido to bella!

Cahiam-lhe duas a duas as lagrimas... Eu quiz divertil-a d'esta dolorosa
situao, perguntando-lhe:

--Demorou-se em Roma?

--Tres dias... Voltei a Portugal, depois... Deixe-me chorar, porque ha
muitos annos que no fallei a ninguem n'este homem... Quer saber o resto
d'esta historia, que faz o seu romance?... Essa senhora de que faz
meno no seu prologo, pde contar-lh'a.

--Com menos graa que v. exc....

--Pois eu lhe digo: Rosa Guilhermina morreu, ha seis annos em Lisboa,
com o titulo de viscondessa de ***. Seu marido ainda vive...  um dos
mais ricos proprietarios do paiz...

--E Maria Elisa?

--Essa mulher perdeu-se... Foi amante de S*** C***, que deu escandalo
no Porto, e perturbou a tranquillidade da sua casa, e da casa das suas
amantes, que eram quasi todas casadas. Depois, como elle morresse, Maria
Elisa, que vivera na companhia de Rosa, reagiu contra os conselhos de
Jos Bento, e abandonou a amiga para entregar-se a uma vida dissipada
sem ao menos a colorir com as variadas tinturas da hypocrisia. Tocou o
extremo grau de miseria; mas d'esta miseria prosaica e vill, e que no
pde ser historiada n'um romance. No era fome nem nudez. Era a negao
para todos os sentimentos d'honra. Quando desceu to abaixo recebeu uma
boa mesada de Rosa; mas dissipou-a com amantes. Por fim envelheceu. Rosa
tinha morrido, e o visconde de ***, que a soccorrera estimulado por sua
mulher, abandonou-a inteiramente.

--E ainda vive?

--Morreu j depois que o senhor principiou o seu romance. Foi
justamente no dia em que sahiu o quinto folhetim na _Concordia_.

--Morreu miseravelmente?

--No, senhor. Quem lhe prestou os ultimos soccorros fui eu. No lhe
faltou uma cama, um medico, uma enfermeira, e um padre at ao seu ultimo
momento.

--Devia ser terrivel, nos ultimos dias, o olhar d'essa mulher para o
passado!...

--Creio que no... A desgraa desmemoria... Por no sei que favor da
Providencia, a mulher que se degrada no tem j o senso intimo da sua
dignidade perdida. Cahiu, do leito  sepultura, impassivel como a pedra
que tomba insensivelmente do alto da serra ao fundo do abysmo...

--Esqueceu-me perguntar-lhe como viveu Rosa com Jos Bento...

--Honradamente, e parece que feliz.

--Deixou filhos?

--Do segundo marido nenhum.

--E aquella Assucena, que to linda me pintaram? Deve hoje ter trinta
annos...

--Morreu ha dous... Quer saber a vida d'essa mulher?

--Desejava...

--Mas tem de fazer outro volume.

--Pois a vida de Assucena d para tanto?

-- um triste romance... Ha de escrevel-o, e intitulal-o: A NETA DO
ARCEDIAGO.


FIM


    [1] Foi assim chamada a assembleia de illustraes scientificas na
    Frana, em que avultavam a marqueza de Lafayette, Lacralpenede, M.me
    de Sevign, Jullie de Angennes, e outras que se davam o titulo de
    _preciosas_, baptisando-se com nomenclaturas gregas, e praticando em
    linguagem privativa d'ellas. Molire, o grande espirito, que
    espancou da Frana o _ridiculo_ com o _ridiculo_, pz esta gente em
    scena, nas comedias--_As Preciosas Ridiculas_, e _As Mulheres
    Sabias_. O hotel de Rembouillet no resistiu a Molire.

    [2] O j morto Joseph Gregorio Lopes da Camara Sinval.

                                    (_Nota da 2. edio._)

    [3] No Porto, onde nasceu Garrett, invocaram-se todos os Antonios
    Joss coevos para idearem um monumento a Garrett!... No se fez o
    monumento; mas ficou um de vergonha na memoria dos vivos, e bom 
    que passe alm. (_Nota da 2. edio._)

    [4] _A Neta do Arcediago_, j publicada.

                      (_Nota da 2. edio._)

    [5] No interessam no romance algumas cartas, que se no publicam.
    Escriptas de Lisboa, Cadiz, Barcellona, Paris, Genova, e Milo,
    quasi todas so descripes locaes. V-se que Paulo, em todas ellas,
    s muito de relance, falla em, cousas passadas. Se  acinte, se
    naturalidade, no o sabemos ns. A sua amiga do Porto, diz-nos que
    tambem muito de proposito, se lhe escrevia, nem ligeiramente lhe
    fallava de Rosa. A carta, que publicamos,  a vigesima da colleco,
    escripta, segundo se v da data, cinco mezes depois da sahida de
    Paulo.





End of Project Gutenberg's A Filha do Arcediago, by Camilo Castelo Branco

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