The Project Gutenberg EBook of Despedidas: 1895-1899, by Antnio Nobre

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Title: Despedidas: 1895-1899

Author: Antnio Nobre

Release Date: December 15, 2008 [EBook #27535]

Language: Portuguese

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ANTONIO NOBRE


Despedidas

1895-1899


Prefacio de Jos Pereira de Sampaio (_Bruno_)


_PORTO_

1902


DESPEDIDAS


DO MESMO AUCTOR:

S (2. edio, illustrada), Paris, 1898.

NO PRLO:

_PRIMEIROS VERSOS_

Prefacio de Justino de Montalvo



D'este livro, publicado por Augusto Nobre, tiraram-se dois mil exemplares


Direitos reservados




ANTONIO NOBRE


Despedidas

1895-1899


Prefacio de Jos Pereira de Sampaio (_Bruno_)


_PORTO_

1902




A fraterna piedade de Augusto Nobre e a saudade amiga de Justino de
Montalvo honraram-me com o pedido commovente de algumas linhas que
acompanhassem este volume posthumo. Tendo organisado a nota que precede
os fragmentos, ao deante publicados, do poema _O Desejado_, hesitei
grandemente em acquiescer  solicitao que refiro. Temi que malignas
malevolencias acaso increpassem como de impertinente intromettimento
essas linhas sinceras e innocentes. E ellas seriam, de facto, com
severidade condemnaveis, desde que as dictassem pedantescas pretenses
de recommendao s delicadas leituras. O nme do poeta no  smente
conhecido; est decisivamente consagrado. Um prosador incorrecto e secco
no conseguiria seno tornar-se ridiculo, quando tam improcedente
estimulo fsse a impulsional-o.

Assim meditava e quasi me resolvia por uma polida escusa, que me
magoaria aliaz; porm mais se radicou em meu animo o motivo antagonico
que me convidara a ceder  captivante seduco do pedido, feito pelo
irmo e pelo companheiro.

Lembrava-me e lembrei-me de que fra eu quem, sem sequer de vista o
conhecer, apontou ao publico culto o original, promettedor talento
d'aquelle moo ignorado ento.

Concorrendo n'um effeito de beneficencia, apparecera no Porto um
volumesinho de versos, collaborado principalmente por academicos, sob o
titulo generico e designativo de _Um bouquet de sonetos._ Eu lra as
composies contidas na sympathica colleco e prestei preferente
cuidado quellas que a novos, sem notoriedade ainda, pertenciam. Entre
essas, primacialmente sobresahia o soneto de Antonio Nobre, nme que eu
havia notado j, por subscrever, em revistas litterarias de collegiaes,
infantilidades onde perpassava uma restea do fulgor divino. Fundra, por
esse tempo, um diario de propaganda politica _A Discusso_; na seco
litteraria da folha estampei um artigo longo cerca do opusculo que me
attrahira o reparo; Gomes Leal replicou-me, com motivo d'algumas
affirmativas minhas, concernentemente  frma e  essencia do genero
artistico. E no modesto estudo com que momentaneamente quebrei,
confugindo, a monotonia acre das acerbas recriminaes partidarias,
indiquei o nme do joven poeta, como o de alguem que tinha personalidade
e viria a ser muito.

Veio, na verdade, a ser muito: tam fino, candidamente malicioso, dce,
ingenuo era seu temperamento; tam sincera sua tristeza; tam moderno seu
gosto; tam nacionalista seu sentir, na patria e na familia; tam
suggestiva sua imaginao, ardorosa e melancholica!

Ora, j quando, na jubilosa plenitude da consciencia esthetica, o
escriptor preparava em Paris o original definitivo do seu volume _S_,
como quer que ao mesmo Paris, sceptico e arisco na banalidade d'uma
affectuosidade de superficie, me atirasse uma onda centrifuga do atroz
redomoinho, elle mostrou-me que no esquecera as palavras do jornalista
portuense, as quaes s um merito possuiam, o de se haverem coadunado com
o lealismo d'uma emoo espontanea. Na escura rua de Trvise me
procurou, abandonando por horas a sua preferida margem-esquerda, de que
lhe era tam penoso afastar-se, Antonio Nobre, uma tarde em que eu
soffria cruelmente. Esta visita sensibilisou me; como me encantou a
conversao do poeta, pelo tom subtil da melindrosa reserva na
consolao, a um tempo caridosa e primorosa, d'um'alma em carne viva,
como a minha por ento andava.

S no Porto novamente me reencontrei, conversando, com Antonio Nobre; de
volta do exilio eu, de regresso da illuso de estancias salvadoras elle.
Ambos viajaramos; ambos conheceramos a glacial indifferena do homem; o
poeta e o politico encontravamo-nos na identidade d'uma amarga
desesperana tranquilla. Separamo-nos depois de uma hora, melhorados
para um instante.

No o tornei a vr; sabia qua ia cada vez mais a peor, n'este rude
Porto, fatal, physica e moralmente, s naturezas susceptivelmente
quintessenciadas como a d'elle. Subito entrou em minha casa Justino de
Montalvo, para que eu estivesse  noite na egreja, a ajudar a conduzir
o nosso amigo, no seu caixo, para a sua tarima. Eis o desfecho de tudo.

Nunca me affligiu a minha aridez verbal como agora, em que me daria um
orgulho ineffavel o poder fallar do talento d'este querido morto com
palavras encantadas, que embebessem a leitura n'uma idealidade sonhada.

Pouso a penna aspera; demasiado dilacerou o papel; o dever da gratido
est cumprido; mas quedaria ainda faina para a critica perspicaz e
expressiva. Como indispensavel, tocante elemento informativo, tenho aqui
a fazer uma referencia ao titulo do volume, _Despedidas_. Este titulo
foi escolhido pelo poeta. Criminosa impiedade seria que d'outrem
emanasse.

Em uma das crises de pungente desanimo que frequentemente o assaltavam
no ultimo periodo da implacavel enfermidade a que succumbiu, pediu elle
que, se viesse a morrer antes de poder publicar o seu livro, lhe dessem
o titulo de _Despedidas_, significando este a sua retirada da vida
litteraria; mas mais tarde deu a perceber claramente que assim o
escolhera, por serem as suas ultimas poesias, visto que tinha perdido a
esperana de cura da doena que o torturava. Ainda s quinze dias antes
da data fatal do seu trespasso, quiz elle ir para a aldeia, com tenes
de passar a limpo todas as suas poesias e de escrever definitivamente _O
Desejado_, que, como se frisa na nota que lhe precede hoje os
fragmentos, o poeta tinha todo _in mente_, mas muito incompleto nos seus
cadernos de apontamentos.

D'estas linhas que acima ficam se deprehende que jmais lograram os
versos que sahem agora a lume o ser corrigidos por seu auctor. Se
imperfeies aqui ou alli acaso os maculem, acate-se o legitimo
escrupulo que no se atreveu a sujeitar o texto a alheia reviso
minuciosa. Elle foi recebido como uma herana de corao; com inquieto
sobresalto, julgou-se sacrilego que ella no fosse assaz respeitada.

Todavia, esta advertencia era indispensavel, para obviar a quaesquer
reparos que o livro actual podesse offerecer a uma leitura ou hostil ou
sequer fria. No  a essa especie de critica, a qual no comprehende
porque no sente, que o editor confia a obra posthuma do poeta a quem
amou e cuja inolvidanda memoria o penetra d'uma inexhaurivel saudade. A
verdadeira critica, a critica san, fal-a-ha o leitor melhormente dotado,
com apurar que o livro actual, fragmentario consoante , confirma a
gloria de Antonio Nobre, cuja figura litteraria destacar como uma das
mais accentuadas d'entre as mais accentuadas da nova gerao portugueza.

                                     Jos Pereira de Sampaio (_Bruno_).




SONETOS




1

Logica


    Ai d'aquelles que, um dia, depozeram
    Firmes crenas n'um bem que lhes voou!
    Ai dos que n'este mundo ainda esperam!
    Tero a sorte de quem j esperou...

    Ai dos pobrinhos, dos que j tiveram
    Oiro e papeis que o vento lhes levou!
    Ai dos que tem, que ainda no perderam,
    Que amanh, sero pobres como eu sou.

    Ai dos que, hoje, amam e no so amados,
    Que, algum dia, o sero, mas sem poder!
    Ai dos que soffrem! ai dos desgraados

    Que, breve, no tero mais p'ra soffrer!
    Ai dos que morrem, que l vo levados!
    Ai de ns que ainda temos de viver!

Pampilhoza, 1895.




2

Ao Cahir das Folhas

A MINHA IRM MARIA DA GLORIA


    Podessem suas mos cobrir meu rosto,
    Fechar-me os olhos e compr-me o leito,
    Quando, sequinho, as mos em cruz no peito,
    Eu me fr viajar para o Sol-posto.

    De modo que me faa bom encosto,
    O travesseiro compor com geito.
    E eu to feliz! por no estar affeito,
    Hei-de sorrir, Senhor! quazi com gosto.

    At com gosto, sim! Que faz quem vive
    Orpham de mimos, viuvo de esperanas,
    Solteiro de venturas, que no tive?

    Assim, irei dormir com as crianas
    Quazi como ellas, quazi sem peccados...
    E acabaro emfim os meus cuidados.

Clavadel, outubro, 1895.




3

 SUPERIORA D'UM CONVENTO DE PARIS


    No me esqueo de si, minha Me, fra
    Onde fra. Ao contrario, lembro s vezes
    Essa viagem nossa (de ha alguns mezes)
    Sobre as agoas do mar! Se fosse agora...

    Oh o encanto da viagem seductora!
    Que bem me disse ento dos Portuguezes!
    Que faria hoje! foram-se os revezes!
    O que l vae pela Africa, Senhora!

    Depois, ao separarmo-nos no Tejo,
    Disse-me (com que voz e com que modos!)
    Deus o faa feliz, ao seu desejo!

    Mas no fez, minha Me! Talvez no co...
    Porque afinal os homens quazi todos
    Tm sido e so muito mais maus do que eu...

St. Johann Am-Platz, 1896.




4


    Nossos amores foram desgraados,
    Desgraada paixo! tristes amores!
    Se Deus me d assim tamanhas dores,
     porque grandes so os meus peccados.

    Quando viro os dias desejados?
    Quando vir Maio para eu vr flores?
    Nunca mais! ainda bem, santos horrores!
    Que os pobres dias meus esto contados.

    Passo os dias mettido no meu moinho,
    E me que me saudades e tristezas,
    Moleiro que no mundo est ssinho.

    Os lavradores destas redondezas
    Queixam-se at de que a farinha  data
    Tanta  que est de rastos de barata...

St. Johann Am-Platz, 1896.




5


    Placidamente, bate-me no peito
    Meu corao que tanto tem batido!
    E para mim, inda este mundo  estreito
    P'ra conter tudo, quanto eu hei soffrido.

    Meus dias vo passando como as agoas
    Que o vento leva em ondas, ao mar-alto,
    E se de noite eu oio aquellas mgoas
    J no descano mais, em sobresalto.

    Placidamente, bate-me no peito
    Meu corao em luctas to desfeito,
    Que com a Vida, a Dr hei confundido.

    E se se ganha a Paz com o soffrimento,
    Deixae-me entrar emfim n'esse Convento...
    Pois ha quem tenha, assim como eu, soffrido!

Berne, maio, 1896.




6

Appario

 VIRGEM SANTISSIMA


    Pelas espadas que tu tens no peito,
    Pelos teus olhos rxos de chorar,
    Pelo manto que trazes de astros feito,
    Por esse modo to lindo de andar;

    Por essa graa e esse suave geito,
    Pelo sorriso (que  de sol e luar)
    Por te ouvir assim sobre o meu leito,
    Por essa voz, baixinho: Ha-de sarar...

    Por tantas benos que eu sinto n'alma,
    Quando chegando vens, assim to calma,
    Pela cinta que trazes, cr dos ceus:

    Adivinhei teu nome, Appario!
    Pois consultando manso o corao
    Senti dizer em mim A Me de Deus!

Lausanna, junho, 1896.




7


    Todas as tardes, vou Lman acima
    (E leve o tempo passa nessas tardes)
    A pensar em Coimbra. Que saudades!
    Diogo Bernardes deste meigo Lima.

    Na solido, pensar em ti, anima,
    Oh Coimbra sem par, flr das Cidades!
    Os rapazes to bons nessas idades
    (Antes que a Vida ponha a mo em cima...)

    Alegres cantam nos teus arrabaldes.
    Por mais que tire vm cheios os baldes,
    Mar de recordaes, poo sem fundo!

    Freirinhas de Tentugal, passos lentos!
    E o ch com bolos, dentro dos conventos!
    Meu Deus! meu Deus! e eu sempre a errar no Mundo!

Lausanna, junho, 1896.




8

A MEU IRMO AUGUSTO


    Lman azul, que, mudo e morto, jazes.
    Quanto s feliz! assim podesse eu sel-o!
    Nem a sombra dos montes, nem seu glo,
    De turvar tuas agoas so capazes.

    Minhas cartas inuteis de doutor
    Eu rasgaria,  certo, com prazer,
    Se eu podesse um dia vir a ser
    Dessas ondas, um simples pescador.

    Lman azul, nas agoas socegadas,
    Quantas vidas tu levas confiadas!
    Pareces ver meu mal, e escarnecel-o!

    S do meu corao, ao alto-mar,
    Ninguem se quiz ainda sujeitar.
    Quanto s feliz! assim podesse eu sel-o!

Villeneuve, junho, 1896.




9

A JUSTINO DE MONTALVO


    Em St. Maurice (aqui perto) ha um convento
    De Franciscanos. Fui-me l ha dias.
    Quando eu entrei, tocava a Av-Marias.
    Iam ceiar. Fra mugia o vento.

    Um pallido Christo, ao fundo da sala,
    Espalha em redor seu alvo claro;
    E, quando se reflecte a Cruz pelo cho,
    Os frades ingenuos no ousam pisal-a.

    Meu irmo... disseram, ao verem-me  porta.
    Vontade, Senhor, tive eu de chorar!
    To s me sentia, pela noite morta...

    E quando na volta,  luz das estrellas,
    Meu doido passado me vim a evocar,
    Pensei no perdo d'uma alma d'aquellas.

Bex, junho, 1896.




10


    Senhora! a todas as novenas ides,
    E porque vs l ides, vou tambem.
     um descano sem par s minhas lides,
    Aos meus males, e em summa faz-me bem.

    Essas graas que tendes (vs sorrides?)
    S nas flres as vejo, em mais ninguem.
    Se o vosso corpo  magro como as vides,
    Os cachos d'uvas que o cabello tem!

    Fazeis-me andar n'uma continua roda,
    Pelas igrejas da cidade toda,
    S. Luiz de Frana, Encarnao e mais.

    Senhora! assim commigo em beato dais,
    Fao-me frade e vou para um convento...
    E adeus! que l se vae o cazamento!

Lisboa, janeiro, 1897.




11


    Ha j duzentos soes, ha quatro luas,
    Que te pedi que a Igreja abandonasses.
    Tu s cruel, Senhora! continas,
    Como se agora apenas comeasses.

     sexta-feira e ao sabbado jejuas,
    E tanto te pedi que no jejuasses.
    E o que de mais, Senhora,  que insinuas
    Em voz que tanto de: Se me imitasses...

    Nenhuns peccados tens. s anjo e santa.
    Boa como o ceu, simples como a planta,
    Cozes p'ros pobres, fazes boas-obras!

    Quaes so os teus peccados? peccadores
    Senhora! so os vossos confessores.
    Homens e basta: so mos como as cobras!

Lisboa, 1897.




12

Monologo d'Outubro

A MEU IRMO AUGUSTO


    Outomno, meu Outomno, ah! no te vs embora!
    s minhas, eu comparo as tuas extranhezas.
    Ah! nos teus dias no ha Julhos nem aurora,
    E s crepusculos... Crepusculos so tristezas!

    E tu que j passaste o Outomno s commigo
    No pensas ao cahir de tantas agonias
    Nas minhas, que tu sabes,  meu melhor amigo?
    Cahi, folhas, cahi! tombae melancholias!

    Ides morrer, folhas! mas morrer que importa?
    L vae mais uma... mal nasceu e j vae morta.
    Levaes saudades? Coitadinha, sois to nova!

    Tendes razo? Nem sei a fallar a verdade.
    Tombar quizera eu, s p'ra esquecer. Saudade,
    Irmo, no a terei tambem, l pela cova?...

Foz, 1897.




13


    Pedi-te a f, Senhor! pedi-te a graa,
    Mas no te curvas nunca, p'ra me ouvir.
    Tudo acaba no mundo... tudo passa,
    Mas s meu mal se foi e torna a vir.

    No busco a morte com arma ou veneno,
    Mas emfim pde vir quando quizer.
    Eu estarei de p, firme e sereno,
    Sorrir-lhe-hei at, quando vier.

    Tristes vaidades d'este pobre mundo!
    J me parecem taes como ellas so:
    Tristes mizerias deste mar sem fundo.

    Se tive algumas eu, na mocidade,
    No foram ellas mais que uma illuzo.
    E um dia eu ri da minha ingenuidade!

Lisboa, janeiro, 1898.




14


    O mar que embala, s noites, o teu somno
     o mesmo, flor! que  noite embala o meu.
    Mas em vo canta a minha ama do Outomno,
    Pois pouco dorme quem muito soffreu.

    Mas tu feliz qual rainha sobre o throno,
    Dormes e sonhas... no que, bem sei eu!
    O teu cabello solto ao abandono,
    As mos erguidas de fallar ao co...

    Feliz! feliz de ti, doce Constana!
    Reza por mim, na tua voz chymerica,
    Uma Av-Maria de Esperana!

    Por minha saude e gloria (Deus m'a d)
    Por essa viagem que vou dar a America...
    Quando, um dia, voltar, dir-te-ei porqu!

Ilha da Madeira, maio, 1898.




15

Mam


    Toda a Paz, todo o Amor, toda a Bondade,
    Toda a Ternura que de ti me vm,
    Amparam-me esta triste mocidade
    Como nos tempos em que tinha Me.

    Quanto eu te devo! Odios, impiedade,
    Indignaes e raivas contra alguem,
    Loucuras de rapaz, tedios, vaidade,
    Tudo isso perdi--e ainda bem!

    Salvaste-me! Trouxeste-me a Esperana!
    Nunca m'a tires no, linda criana,
    (Linda e to boa no o fars, talvez!)

    Pois que perder-te, meu amor, agora,
    Ai que desgraa horrivel! isso fra
    Perder a minha Me, segunda vez.

Ilha da Madeira, 1898.




16


    Ha vinte annos j, que andas na Terra,
    Ha vinte dias s, que te conheo!
    Eu andava perdido pela serra,
    E o que eu era ento, j no pareo.

    Ha vinte dias s que te conheo,
     meu beijo de Luz! minha Chymera!
    s a Graa de Deus (com qu'estremeo)
    Talvez, o que no mundo, inda me espera.

    Sonho da minh'alma!  meu ceu d'estio!
    Pois no tens piedade d'este frio
    Que sinto em mim, na minha solido!

    Minha benam de Christo, promettida,
    No sers tu a Paz da minha vida?
    Oh! no me digas no, que s Illuzo!

Quinta Almeida. Funchal, abril, 1898.




17

Riquinha


    Soffrer callada as suas proprias dres
    E chorar como suas as dos mais,
    Tal a Rainha do seu nome, em flres
    Transforma pedras e em sorrisos ais.

    A toda a parte leva o sol e amores,
     a _Saude dos Enfermos_ nos Cazaes;
    E, no mar-alto, os velhos pescadores
    Invocam-n'a entre espuma e temporaes!

    Quem ser ella, to piedoza e dce!
    Com uns taes olhos que no tinha visto
    Ser a Virgem? Oxal que fosse!

    Oh! flr mais bella do jardim d'esta Ilha!
    Fra outrora, talvez, filha de Christo,
    Se Christo houvesse tido alguma filha!

Ilha da Madeira, 1898.




18

O Teu Retrato


    Deus fez a noite com o teu olhar,
    Deus fez as ondas com os teus cabellos;
    Com a tua coragem fez castellos
    Que poz, como defeza,  beira-mar.

    Com um sorriso teu, fez o luar
    (Que  sorriso de noite, ao viandante)
    E eu que andava pelo mundo, errante,
    J no ando perdido em alto-mar!

    Do ceu de Portugal fez a tua alma!
    E ao vr-te sempre assim, to pura e calma,
    Da minha Noite, eu fiz a Claridade!

     meu anjo de luz e de esperana,
    Ser em ti afinal que descana
    O triste fim da minha mocidade!

Ilha da Madeira, junho, 1898.




19

Sestana


    Ia em meio da minha Mocidade,
    Perdido d'affeies, ao vento agreste,
    Quando na Vida tu me appareceste,
    Sestana, minha Irm da Caridade!

    Ninguem de mim d teve, nem piedade,
    Ninguem n'a tinha, s tu a tiveste:
    Quantas velas  Virgem accendeste!
    Quantas rezas nos templos da cidade!

    Que te fiz eu, Espelho das Mulheres!
    Para assim merecer um tal cuidado
    E tudo quanto ainda me fizeres?

    Bemdito seja Deus que me escutou!
    Bemdito seja o Pae que te ha procriado!
    Bemdita seja a Me que te gerou!

Ilha da Madeira. Quinta da Saude, 29-7-1898.




20

Emilias

(A UMA SENHORA QUE NO QUER SER EMILIA)


    Emilia s, quer queiras, ou no queiras:
    Que lindo nome o teu, soante de brizas!
     um nome de pastoras e moleiras,
    Loira morgada do solar dos Nizas!

    Muitas Emilias ha, entre ceifeiras,
    Ha Emilias nos seres das descamizas...
    Se tu, Senhor! ds nome s Amendoeiras
    Com o nome de Emilia  que as baptizas!

    Que Santa Emilia te acompanhe, Rainha!
    E com a tua Me seja madrinha,
    Quando ella, um dia, te levar  Igreja!

    E,  pura Gloria, que em teus olhos brilha!
    Dces presagios meus, que a tua filha
    Seja loira tambem e Emilia seja!

Ilha da Madeira, novembro, 20, 1898.




21


    O corao dos homens com a idade,
    A pouco e pouco, vae arrefecendo...
    Quo diversos me vo apparecendo
    Do que eram ao abrir da mocidade!

    O sorrizo no tem j lealdade,
    Lagrimas so difficeis... no as tendo.
    Palavras no vos faltam, estou vendo
    Mostrar o que sentis s por vaidade.

    J no me illude, a Gloria que sonhei.
    Perdi a f em tudo quanto amei.
    Mas s agora, eu sei o que  viver!

    No fazes bem, assim, em rir de mim!
    Tenho tido na vida horrores sem fim,
    Mas s agora, eu sei o que  soffrer!

Ilha da Madeira, dezembro, 1898.




22


    O Senhor, cuja Lei  sempre justa,
    Deu-me uma infortunada mocidade,
    Talvez para eu saber (o que  verdade)
    Quanto  bom ser feliz, mas quanto custa!

    Feliz de quem no mundo sem piedade,
    Encontrou alma que lhe entenda a sua,
    Que o mesmo  que ter na mo a Lua
    To longe n'essa triste Eternidade!

    Os meus dias passavam tristemente
    Quando encontrei o teu olhar ridente:
    Foi a benam de luz da Me de Deus!

    Vaes deixar-me de novo, s na vida!
    Ao cabo de viagem to comprida
    Talvez sintas mais perto os olhos meus!

Ilha da Madeira, janeiro de 1899.




23

Adeus a Constana


    Vae o teu Pae andar ao sol de vero,
    E mais  chuva e ao vento; e s depois
    Poder ter a colheita d'esse po
    Que semeou cantando ao p dos bois.

    Feliz que eu fui em te encontrar na vida,
    Minha dce Constana desejada!
    Antes de vr-te a ti no via nada,
    Nem para mim a lua era nascida.

    Tu vaes partir em breve com teu Pae
    Por esse mar que to piedozo est.
    No sde amargas, ondas, mas chorae!

    Vaes vr campos em flr que te conhecem...
    E se a colheita se fizesse j,
    Talvez na volta as ondas te trouxessem!

Ilha da Madeira, 1899.




24

Antes de partir


    Varios Poetas vieram  Madeira
    (Pela fama que tem) a ares do Mar:
    Uns p'ra, breve, voltarem  lareira,
    Outros, ai d'elles! para aqui ficar.

    Esta ilha  Portugal, mesma  a bandeira,
    Morrer n'esta ilha no deve custar,
    Mas para mim sempre  terra extrangeira,
     minha patria quero, emfim, voltar.

    Ilhas amadas! Ceu cheio de luas!
    Ah como  triste andar por essas ruas,
    Pallido, de olhos grandes, a tossir!

    Eu vou-me embora, adeus! mas volto a vl-as,
    Vou com as ondas, voltarei com ellas,
    Mas como ellas p'ra tornar a ir!

Ilha da Madeira, fevereiro, 1899.




25


    Meu pobre amigo! Sempre silencioso!
    Assim eu fui. Scismava, lia, lia...
    Mudei no entanto de Philosophia.
    No creio em nada! e fui to religioso!

    Tomei parte no Exercito gloriozo
    Que foi bater-se por Israel, um dia!
    Cri no Amor, no Bem, na Virgem Maria,
    No creio em nada! tudo  mentirozo!

    No vale a pena amar e ser amado,
    Nem ter filhos d'um seio de mulher
    Que ainda nos vm fazer mais desgraado!

    No vale a pena um grande poeta ser,
    No vale a pena ser rei nem soldado
    E venha a Morte, quando Deus quizer!

St. Johann-am-Platz, outubro, 1899.




OUTRAS POESIAS




A FRANCISCO CEZIMBRA


    Eu chegara de Frana uns quatro dias antes
    E via-me to s n'um deserto sem fim,
    L deixara a alegria, amores, estudantes,
    Via a vida, aqui, negra adiante de mim.

    Que havia de fazer? Eu no tinha um desejo,
    Nada no mundo me podia estimular!
    Ai quantas vezes, ao passar junto do Tejo,
    Perdoa-me, Senhor! pensei em me afogar!

    Perdoa-me, Senhor! tu deves perdoar
    Pois para que me deste assim um corao!
    Tudo quanto via me dava que scismar
    De tudo tinha d, de tudo compaixo.

     meus amigos de Coimbra! que saudades
    Eu sentia ao pensar nos tempos d'illuzes!
    Porque chamaria eu agora, s vaidades
    Ao que outrora p'ra ns tinham sido vises?

    E conheci depois a phase lastimoza
    ( meus amigos certos, no m'a queiraes lembrar)
    Em que descri de tudo, at da meiga roza
    Que via entre velas, aos ps d'algum altar.

    De tudo ri ento, Senhor, como um perdido
    Mas era um rizo mau, Francisco, que feria...
    Tu cuja alma em flr ainda me sorria
    Como pudeste tu, meu rizo ter vencido?

1895.




Ladainha da Suissa

A MARTINHO DE BREDERODE


    Quando cheguei aqui, dizia baixo o povo
    Pelas ruas, vendo-me passar:
    --Vem to doentinho, olhae! e  ainda to novo...
    E assim ssinho, sem ninguem para o tratar!
            (Que boa a Suissa! que bom  este povo!)

    Raparigas de luar, pastoras d'estes Andes,
    Diziam entre si: Quem ser este senhor?
    Todo de preto, to pallido, olhos to grandes!
    E rezavam por mim, baixinho, com amor.
            ( pastoras to meigas d'estes Andes!)

    Por fim entrei receoso em uma caza immensa
    Com Jezus-Christo ao fundo e velas e alecrim.
    Treme-me ainda hoje a minha alma se n'ella pensa:
    Rezas... doentes... ais... corredores sem fim!...
            (Ah que tristeza a d'essa caza immensa!)

    No alto da escada umas Irms da Caridade
    Vieram, a sorrir, perguntar: Como vae?
    No olhar d'ellas (to doce!) havia tal bondade,
    Que me julguei feliz, at sorrir, olhae!
            (Minhas boas Irms da Caridade!)

    Uma dellas guiou-me ao quarto onde a paysagem
    Ante meus olhos se estendia e os deslumbrou...
    --E ento como passou? Gostou da sua viagem?
    E a Nossa-Suissa que tal acha, no gostou?
            ( Suissa da divina paysagem!)

    No me deixava com perguntas. Era Suissa
    E no deixara nunca esta alva nao.
    Ignorava o que era a Verdade, a Justia:
    Tudo n'ella era instincto, innocencia e perdo.
            (Que ingenua s ainda, Suissa!)

    --V, quero que me diga o seu nome, primeiro
    E depois d'onde vem, quem ... pelo fallar...
    --Venho da beira-mar, e sou um marinheiro.
    E ella tornou-me: O mar! eu nunca vi o mar!
            (Nos meus olhos o viste tu primeiro.)

    Com que doura, com que mimo e com que graa
    Me arranjou tudo! At meu leito quiz abrir.
    E como uma ama diz ao menino que a enlaa,
    Disse-me: Boas noites. Faa por dormir!...
            ( Suissa cheia de graa!)

    E eu assim fiz. Adormeci, feliz, sereno,
    E no outro dia eu j estava melhor.
    Passados trez, passei de pallido a moreno
    Passado um mez, no  nada disse o doutor.
            (Oh! quanto eu era ento feliz, sereno!)

    E a boa Irm toda contente e dedicada
    Que sempre estava  escuta em biquinhos de p
    --V, tantos sustos! e afinal no era nada!
    E se elle disse no  nada  que no !
            ( boa Irm, de voz to delicada!)

    Fallou verdade o bom doutor. Ergueu-se em breve
    A minha doida mocidade arrependida.
    Bemditos sejaes vs, Alpes cheios de neve!
    Bemditos sejaes vs que me salvaste a vida!
            (E o meu corao que dce paz vos deve!)

    Bemdita sejas tu,  Suissa meiga e boa!
    Gloriosa entre os mais povos, s bemdita!
    Bemdita sejas tu, de Christiania a Lisboa!
    Bemdita sejas tu entre as naes, bemdita!
            (Bemdita sejas, minha Suissa boa!)

Lausanna, 1896.




Confisso d'uma rapariga feia

(INCOMPLETA)


    Ha raparigas n'este mundo,
    Ha raparigas que so feias,
    Mas nenhuma tanto como eu.
    De mim tenho nojo profundo,
    Ciumes do Sol, das luas cheias,
    Que vo to lindas pelo co!

    Nos arraiaes, nas romarias,
    Adelaides, Joannas, Marias,
    Todas tem par, mas menos eu.
    Todas bailam, rindo e cantando,
    E eu fico-me a olhal-as scismando
    Na sorte que o Senhor me deu!

    Se eu fosse cega ou aleijada,
    Talvez ficasse resignada,
    Porque havia de queixar-me eu?
    Mas sendo s, sendo perfeita
    Tua vontade seja feita,
    Senhor!  sorte,  fado meu!

    ..................................




Affirmaes religiosas


     meus queridos!  meus S.tos limoeiros!
     bons e simples padroeiros!
    Santos da minha muita devoo!
    Padres choupos!  castanheiros!
    Basta de livros, basta de livreiros!
    Sinto-me farto de civilisao!

    Rezae por mim,  minhas boas freiras
    Rezae por mim escuras oliveiras
    De Coimbra, em S.to Antonio de Olivaes:
    Tornae-me simples como eu era d'antes,
    Sol de Junho queima as minhas estantes
    Poupa-me a _Biblia_, Anthero... e pouco mais!

    No mar da Vida cheia de perigos
    Mais monstros ha, diziam os antigos,
    Que l nas agoas d'esse outro mar.
    O que pensaes vs a respeito d'isto,
     navegantes d'esse mar de Christo!
    Heroes, que tanto tendes que contar?

    Chorae por mim,  prantos dos salgueiros,
    Pois entre os tristes eu sou dos primeiros!
    Lamentos ao luar, dos pinheiraes,
    E vs  sombra triste das figueiras!
    Chorae por mim  flr das amendoeiras
    Chorae tambem  verdes cannaviaes!

    E quando emfim, j farto de soffrer
    Eu um dia me fr adormecer
    Para onde ha paz, maior que n'um convento:
    Cobri-me de vestes,  folhas d'outomno,
    Ai no me deixeis no meu abandono!
    Chorae-me cyprestes, batidos do vento...

1897.




Ares da Andaluzia


     formoza Andaluzia!
    Terra de Nossa Senhora!
     formoza Andaluzia
    Onde o luar parece dia
    Onde  dia a toda a hora!

    Ai eu tenho sete muzas
    Quaes d'ellas prefiro eu?
    Ai eu tenho sete muzas,
    Trez d'ellas so andaluzas
    Porque as outras so do co.

    Malaga, terra de encantos,
    Terra das vinhas doiradas!
    Malaga, terra de encantos!
    Igrejas cheias de Santos,
    E Virgens cheias de espadas!

    Vossa bocca tem desejos
    Que a bocca das mais no tem...
    Vossa bocca tem desejos
    E j morria por beijos
    No ventre da vossa me!

     meninas de Sevilha
    Sou doente, vinde amparar-me,
     meninas de Sevilha
    Deixae-me a vossa mantilha
    Que eu no quero constipar-me!

     menina, ol, a mais alta
    Porque foge e me olha assim?
     menina ol a mais alta,
    Se a belleza no lhe falta,
    No julgue que  mais que a mim.

    Ai esta Vida  to curta!
    Ai o Amor dura um instante,
    Ai esta Vida  to curta!
    Dormir, um dia, entre murta
    Nos braos d'uma outra amante!...

    Olhos de Cadiz to pretos
    (E o mar ao p to azul!)
    Olhos de Cadiz to pretos
    De luto por Esqueletos
    Que o mar traz com vento sul.

    J sorvi na minha bocca
    Beijos de toda a Nao!
    J sorvi na minha bocca
    Tanto mel, cabea louca!
    Mas assim como estes, no!

    Menina das pandeiretas!
    Que contente que hoje estaes!
    Menina das pandeiretas!
    To sria, de capas pretas,
    Ao lado de vossos Paes.

    Vem beber a mocidade
    Com a tua trana solta.
    Vem beber a mocidade
    No torna a vir esta idade
    E o Amor como ella no volta.

     seios como pombinhos
     seios por quem bateis?
     seios como pombinhos
    To alegres nos seus ninhos
    No sei eu, mas vs sabeis...




Contas de rezar


          A Maria dos Prazeres
          Mizericordia dos mares!
          Que escrevi para tu leres,
          Que eu fiz para tu rezares!

Maria dos Prazeres.                       Antonio sem Elles.

    Maria ! Violeta da Humildade
    Onda do mar das Indias! sempre triste!
    Porque andar to triste nessa idade
    Se o Deus em que ella cr para ella existe?

    Maria ! Violeta da Humildade!
    Onda do mar das Indias! to modesta
    E to grande que ella ! Que dr funesta
    A faz andar to triste nessa idade?

    E eu digo ao vl-a entrar, meiga e modesta,
    Na Igreja, quando ajoelha e se persigna:
    Parece incrivel faa parte d'esta
    Humanidade mentiroza e indigna!

    Quanto ella  Santa! quanto ella  boa!
    At tem d e compaixo por mim...
    Mal diria eu que a tragica Lisboa
    Tinha em seus muros uma Santa assim!

    Ella nasceu para assistir s guerras
    Ella nasceu p'ra atravessar os mares
    Ella nasceu para ir a longas terras
    Ella nasceu para proteger os lares!

    Ella nasceu para ir com portuguezes,
    Ao que a vida arriscou, sarar-lhe as feridas,
    Com remedios, ao p, mezes e mezes,
    Ou dar-lhe a unco com suas mos compridas!

    Ella nasceu para levar comsigo
    Um exercito leal, mystico e forte.
    Ser a ultima a dobrar ante o inimigo
    E a primeira a morrer, sorrindo  morte!

    Ella nasceu p'ra commandar armadas
    Vestir a bluza azul dos marinheiros.
    Morrer que importa? Sobre agoas salgadas
    No immenso oceano no faltam coveiros!

    Ella  formosa e grande entre as mulheres,
    Sua doura  toda de velludo...
    Mas as respostas que do malmequeres!
    Tristes, Senhor! como na vida  tudo!

    Quando ella passa toda cr de cera,
    Devagarinho e de missal na mo,
    Vae to ligeira, lembra uma galra
    Que segue viagem de vento  feio!

    Os seus olhos so negros e to bellos
    Que grandes so! tm penas disfaradas...
    Que so elles? Ogivas de castellos
    Com duas meninas sempre debruadas.

    O seu cabello  negro e immenso e roa
    Pelo cho, como a noite e a escuridade,
    Aparta-o ao meio assim... Parece Nossa
    Senhora, quando tinha a sua idade!

    A sua voz baixinha vem da alma,
    Tudo o que ha nella  do que eu gosto mais.
     assim que falla a aragem pela calma
    Quando mareantes pedem temporaes.

    Vozes assim s se ouvem no convento
     orao em silencio habituado,
    Que Deus entende a voz do Pensamento:
    Pde fallar-se a Deus e estar callado!

    Os seios lembram duas pombas gemeas
    No seu ninho a dormir, muito quietinhas.
    Amor, protege o somno d'ellas, teme-as,
    No acordes as pombas coitadinhas!

    Que dizer do seu corpo esbelto de aza!
    To delgado, onde passa o seu annel?
     o mais lindo Torreo da sua Caza!
     uma nu da India, a _S. Gabriel_.

    Os seus braos so debeis! mas exaltam
    E sustentam em mim toda a Esperana!
    Os seus braos, Senhor! so os que faltam
    A certa Venus que se admira em Frana!

    O seu sorrizo  o sol, quando apparece,
    Vl-a sorrir  vr o sol cantar;
    Mas o seu habitual, ai no se esquece!
     o sol s tardes quando cahe no mar...

    A sua bocca  uma rom vermelha,
    Mostrando em rizos os seus gros de opala.
    Favo de beijos, que d mel  abelha,
    A sua bocca  uma flr com falla!

Lisboa, 1898.




A Ceifeira

(INCOMPLETA)


    ............................................
    Porque  que te odeiam os homens se os levas
                 A um mundo melhor?
     velha hospedeira da aldeia do nada,
    Tenho as malas promptas, vou breve partir.
    Prepara-me um quarto na tua pousada
    Que tenha a janella para o sul voltada
    E fontes  roda para eu dormir...




Sensaes de Baltimore

(INCOMPLETA)


    Cidade triste entre as tristes,
         Oh Baltimore!
    Mal eu diria que na terra existes
    Cidade dos Poetas e dos Tristes,
    Com teus sinos clamando Never-more.

    Os comboios relampagos voando,
    Pela cidade de Baltimore,
    Levam uns sinos que de quando em quando
    Ferem os ares, o corao magoando
    E os sinos clamam Never-more, never-more.
    ...........................................

Baltimore, 1897.




Ao Mar

(SONETO ANTIGO)


     meu amigo Mar, meu companheiro
    De infancia! dos meus tempos de collegio,
    Quando p'ra vir nadar como um poveiro
    Eu gazeava  lio do mestre-regio!

    Recordas-te de mim, do Anto trigueiro?
    (O contrario seria um sacrilegio)
    Lembras-te ainda d'esse marinheiro
    De boina e de cachimbo?  mar protege-o!

    Que tua mo oceanica me ajude,
    Leva-me sempre pelo bom caminho,
    No me faltes nas horas de afflico.

    D-me talento e paz, d-me saude,
    Que um dia eu possa emfim, poeta velhinho!
    Trazer meus netos a beijar-te a mo...




Dispersos


1

    --Soffro por ti nesta auzencia,
    Tanto que no sei dizer.
    --Meu Antonio! Tem paciencia!
    Soffrer por mim  soffrer?

2

    Ah quem me dera abraar-te
    Contra o peito, assim, assim...
    Levar-me a morte e levar-te
    Toda abraadinha a mim!

3

    Ai ella  to pequenina
    Que, quando ao meu collo vae,
    Diz o povo: uma menina
    Que vae ao collo do Pae!

4

    s to fraca, to fraquinha,
    Que, ao passar, uma andorinha
    Com um simples encontro
    Podia deitar-te ao cho.

    Mas tambem te levantava
    Sem grande custo: bastava
    Beijar-te (nem isso, at)
    Logo te punhas em p!

5

    Espreitei  tua porta,
    Quiz vr-te a dormir, sorrindo...
    Mas ai! s vendo-te morta,
    Saberei como s dormindo!

6

    --D-me um beijinho, que eu peo?
    --Isso sim!--Furto-lh'o ento!
    --No que eu metto-o n'um processo
    Pelo crime de ladro!

7

    O teu somno--ai que ventura
    Tantos sonhos, que sei eu?
    O meu  uma noite escura
    Com uma _estrella_ no ceu!

8

    Corao, bates saudades
    Saudades to tristes so,
    Lembra-me o sino s Trindades,
    O sino faz: Dlo! dlo! dlo!

9

    Ai! na hora da partida,
    Parte-se o corao!
    Ai! como  triste a Vida!
    Uns ficam... outros vo...

10

    O corao apodrece,
    Apodrece como o mais
    Mas a dr, ai! reverdece,
    Essa no morre jamais.

11

    s morena, moreninha,
    Morena de andar ao sol!
    No dia em que fres minha
    Como has de ser moreninha
    Na brancura do lenol!

12

    So as meninas da Ilha da Madeira
    Ternas, graciozas, pallidas, ideaes;
    Fica-se doido, vendo-se a primeira,
    Doido se fica, se se veem as mais;
    Qual  a mais bella da Ilha da Madeira.
           Se so todas eguaes?

13

    Ha um lindo logar, em Traz-os-Montes,
    Com uma caza s, a caza della.
    O mais  o pr-do-sol, bouas e fontes
    Que compem a sua parentella.

    Encanto de possuir uns taes parentes!
    Fidalga excepcional que  a Purinha!
    Que ella nas veias tem sangue dos poentes,
    E os cravos brancos chamam-lhe: Priminha!

    Oh que ascendencia! que familia estranha!
    Onde ha fidalgos com uns taes avs?
    Sois os seus Paes, pinheiros da montanha,
    E assim ella  altinha como vs!

14

    Amo-te toda porque s linda, linda, linda!
    Teus olhos, tua voz, teu sorrizo, eu sei l!
    Mas o que eu amo mais, o que amo mais ainda,
     a alminha de Deus que dentro de ti est.

15

    Uma alma chega ao p do seio da Purinha!
    E bate devagar, docemente: truz! truz!
    --Quem ? (responde l de dentro uma vozinha)
    --(Antonio...) e logo veio  porta, com a luz.

16

    Mam te chamo porque me trazes ao peito,
    Filha te chamo pelo mimo que te dou,
    Irm te chamo porque te tenho respeito,
    Noivinha te chamo porque teu noivo sou!

17

    Na sexta-feira s dez horas olha p'ra lua,
    Que eu, to longe, ai to longe! hei-de olhal-a tambem:
    Assim minha alma encontrar-se- l com a tua!
    E quem se encontra, filha!,  porque se quer bem!

18

    Tu s altinha como eu, embora
    Eu seja um homem e tu uma criana!
    Tanto que ao irmos pela estrada, agora,
    Ouvi dizer: Que lindo par de Frana!

19

    Teus olhos so dois ceus. E nelles leio
    O que nos outros lem os pastores:
    Estrella da manh dos meus amores!
    Sete estrello que vaes do ceu em meio!

20

    Ai que saudade! O amor das Extrangeiras!
    Que chegam, sabe Deus d'onde e com que fito,
    E um dia, l se vo andorinhas ligeiras,
    E nunca poisam, andorinhas sem Egypto!

21

    No vosso leito,  cabeceira, ponde isto,
    Ponde este livro ao p do vosso corao:
    Adormecei rezando a Imitao de Christo
    E Nun Alvares, que  de Christo a imitao.




O DESEJADO


O poema, cujos fragmentos so agora publicados, no seria uma composio
de caracter peculiarmente epico mas sim melhormente lyrico. Auctorisaria
esta conjectura o tom subjectivo do talento do poeta e ella  confirmada
pelo que elle chegou a realisar da sua concepo. Assim, quanto de
narrativamente historico houvesse de ser objecto da sua obra viria coado
atravez da imaginao do auctor. Elle propunha-se evocar no uma figura
de chronica mas um typo de lenda, e o seu alvo era fazer sentir ao
leitor o encanto idealista e romanesco do sebastianismo, considerado
como elemento de estimulo para a f na nacionalidade e como incentivo e
consolao nas esperanas e nas decepes da patria.

Pelo que ficou deprehende-se que o auctor desenhara a largo trao o
programma da sua obra; mas em suas diversas seces no trabalhou com
assiduidade egual. Uma leitura attenta dos fragmentos pareceu permittir
coordenal-os n'uma ordem clara de successo, marcando-se com adequado
signal typographico as interrupes que ahi apparecem. N'esta melindrosa
faina foi de inestimavel valia a cooperao prestada pela benemerencia
de pessoa distinctissima, a ex.ma snr. D. Constana da Gama, que tivera
ensejo de ouvir do poeta os diversos episodios compostos, bem como a
explanao generica de sua phantasia e de seu intento.

O livro abriria, como abre, por uma dedicatoria geral _ Lisboa das
naus, cheia de gloria_, a qual seria seguida de uma invocao, em
offerecimento, _s Senhoras de Lisboa_, que  uma especie de introduco
 historia de Anrique. Esta, diz o auctor tel-a ouvido ao mar e vem
contal-a a ellas, pedindo uma lagrima para os soffrimentos do seu heroe.
A este apresenta-o o poeta como penando das mais amargas desilluses e
possuido da triste convico de que nada na vida o poderia abalar ainda
ou commover sequer, depois de ter devaneado tanto sonho e de haver visto
tantas chimeras suas cahidas por terra e murchas logo ao despertar.

Anrique enganara-se, porm; a sua alma generosa e confiante ainda
haveria de vibrar muito e mui doridamente; e, nos seus primeiros versos,
que no ficaram definitivamente concluidos, Antonio Nobre fazia a
confidencia s Senhoras de Lisboa do arrebatamento passional de Anrique,
escarnecido pelo prosaico positivismo que zomba do seu afan da gloria,
como se ella fosse dote que se offerecesse. A feio symbolista do poema
de Antonio Nobre demonstra-se, n'este lance concepcional, pela
representao da Lua, imagem do quanto  v e irrealisavel a aspirao a
um alvo intangivel, sonho ineffavel desfeito em fumo.

Em Anrique se personifica a abstraco; e, abandonando seu solar
portuguez, o sonhador abala-se na busca do ideal para terras de
Hespanha, finalmente de Frana, onde vamos encontral-o em Paris,
exhausto e desvairado pela insatisfao d'um desejo alto e incoercivel.
A Paris erroneamente se encaminhara j no fito de encontrar da sciencia
transcendental o remedio occulto a males irremediaveis; e so pungentes
as alluses e referencias que a todo o instante apparecem  historia
propria do poeta, em sua ideao e em seu cruel soffrimento.

Em Paris recebe Anrique a hospitalidade d'um convento, onde  acolhido
pelos carinhos paternos de um velho e santo monge, que, embora Anrique
no lhe tenha aberto a altiva alma, tenta prescrutar-lhe a ferida, para
lhe applicar salutifero balsamo.

Em uma d'essas melancholicas tardes que parece haverem exercido sobre o
poeta uma mysteriosa influencia e que elle toca com um encanto vago e
penetrante, o seu heroe Anrique, que divaga, na phase mystica e exaltada
em que se encontra, pelas ruas, sem proposito exacto e  merc de mil
fluctuantes pensamentos, entra, ao acaso, no templo de um convento de
freiras, justamente na occasio em que ellas iam comear a entoar a sua
novena da tarde. s primeiras notas d'aquelle cantico suave, Anrique
queda-se extatico, no arroubo que o trespassa e embebe, como um echo de
saudade irreflectida e apaixonada.  que em uma das frescas vozes que
alli alevantavam hymnos de amor divino, Anrique julgara encontrar a
reminiscencia de uma outra voz purissima, doce e harmoniosa, que deixara
l para longe, para alm das serras, em Portugal, quando no fra mais
que a muito natural similhana de duas vozes meigas de rapariga.

No fremito da illuso jubilosa e magoadra, uma excitada hallucinao o
faz delirar, em lamentos onde a incoherencia da palavra  o transumpto
de uma anniquiladora tristeza. Como natural reaco, logo em sua alma e
de seus labios rebenta uma exploso de fora e de enthusiasmo, saudando
o seu amor com palavras freneticas e desvairadas, em como que parece
lanar um repto e vibrar um desafio. Prestes acode o desalento final e,
aps consolaes inuteis do bom frade, nas palavras de Anrique pe o
poeta toda a resignada amargura da sua alma.

J ento de todo a chimera parisiense se dilura. J de todo Anrique se
voltara novamente e de vez para o seu Portugal. De regresso ao reino,
affoita-o o encontrar-se com a sua bem-amada; singrando vem Tejo acima a
barca que o reconduz. Um ardor immenso o impulsiona e move; Anrique
sauda com frvido enthusiasmo o passado heroico de Lisboa; mas a atroz
realidade do presente surge perante o impeto epico como uma satyra
tragica. Ao passado volve olhos cubiosos da esperana no futuro; e a
compensao prophetica que se lhe desenha -lhe figurada na vinda
phantasiosa do _Desejado_, do chimerico D. Sebastio, do lendario
Rey-Menino, que foi o symbolo de todo o anhelo e de toda a f, que foi
a incarnao ideal de todos os sonhos de imperio, de todas as aspiraes
messianicas do povo portuguez.

Porm, Anrique no demora muito n'este pensamento exterior; logo o
preoccupa a sua torsionante crise moral; por completo o toma a ideia de
que  chegado emfim  terra onde, ha tantos annos, o espera sua noiva.
Ento, sauda-a, tambem a ella, com palavras que patenteiam a anciedade
que sente de repousar afinal de suas infructuosas fadigas
contemplativas.

Mas do velho solar s restam ruinas; pelo filho prodigo que volta, s
aguarda a velha ama Thereza. Acorre, comtudo, o povo n'uma dura e
indiscreta curiosidade; e do corao de Anrique soltam-se
involuntariamente lamentos acres, pela traio d'aquella que elle amara.
Ahi, elle conta, a si-mesmo, alheiado, a historia da sua afflictiva
agonia interior, onde mais doem na recordao as ingenuidades e os
candidos embustes da quadra florente e illusionante.

Este  o episodio capital da crise subjectiva que perpassa na trama
lyrica do poema de Antonio Nobre. Depois d'esta desconsoladora estada em
Portugal, Anrique resolve-se a voltar a Frana, na saudade, agora
corrosiva, do socego tumular dos claustros. Alli o esperam os resignados
conselhos; alli elle se votar a uma confisso sincera e plena, embora
pretenda a apparencia d'uma dignidade soberba e orgulhosa, sob a mascara
d'uma indifferena gelida.

Infelizmente para as boas lettras, o poeta no pde levar a cabo o seu
amplo proposito; mas para o cabal entendimento da ordenada sequencia da
sua phantasia cremos que estas linhas daro alguma luz. Assim,
suspendemo-nos, anciosos de que, desprendendo-se de nossa companhia, o
leitor, de per si, aprecie e encarea, com legitimos gabos, as
composies que seguem, algumas das quaes, sem favor, se podem
qualificar de maravilhosamente bellas.




 LISBOA DAS NUS CHEIA DE GLORIA


I

    Lisboa  beira-mar, cheia de vistas,
     Lisboa das meigas Procisses!
     Lisboa de Irms e de fadistas!
     Lisboa dos lyricos preges...
    Lisboa com o Tejo das Conquistas,
    Mais os ossos provaveis de Cames!
     Lisboa de marmore, Lisboa!
    Quem nunca te viu, no viu coisa boa...

II

    s tu a mesma de que falla a Historia?
    Eu quero ver-te, aonde  que ests, aonde?
    No sei quem s, perdi-te de memoria,
    Dize-me, aonde  que o teu perfil se esconde?
     Lisboa das Naus, cheia de gloria,
     Lisboa das Chronicas, responde!
    E carregadas vinham almadias
    Com noz, pimenta e mais especiarias...

III

    Ai canta, canta ao luar, minha guitarra,
    A Lisboa dos Poetas Cavalleiros!
    Galeras doidas por soltar a amarra,
    Cidade de morenos marinheiros,
    Com navios entrando e saindo a barra
    De pra para paizes extrangeiros!
    Uns p'ra Frana, acenando Adeus! Adeus!
    Outros p'r'as Indias, outros... sabe-o Deus!

IV

     Lisboa das ruas mysteriozas!
    Da _Triste Feia_, de _Joo de Deus_,
    _Becco da India_, _Rua das Fermosas_,
    _Becco do Falla-S_ (os versos meus...)
    E outra rua que eu sei de duas _Rozas_,
    _Becco do Imaginario_, dos _Judeus_,
    _Travessa_ (julgo eu) _das Izabeis_,
    E outras mais que eu ignoro e vs sabeis.

V

    Meiga Lisboa, mystica cidade!
    (Ao longe o sonho desse mar sem fim.)
    Que pena faz morrer na mocidade!
    Teus sinos, breve, dobraro por mim.
    Mandae meu corpo em grande velocidade,
    Mandae meu corpo p'ra Lisboa, sim?
    Quando eu morrer (porque isto pouco dura)
    Meus Irmos, dae-me alli a sepultura!

VI

    Luar de Lisboa! aonde o ha egual no Mundo?
    Lembra leite a escorrer de tetas nuas!
    Luar assim to meigo, to profundo,
    Como a cair d'um co cheio de luas!
    No deixo de o beber nem um segundo,
    Mal o vejo apontar por essas ruas...
    Pregoeiro gentil l grita a espaos:
    Vae alta a lua! de Soares de Passos.

VII

    Formoza Cintra, onde, alto, as aguias pairam,
    Cintra das solides! beijo da Terra!
    Cintra dos noivos, que ao luar desvairam,
    Que vo fazer o seu ninho na serra;
    Cintra do Mar! Cintra de Lord Byron,
    Meu nobre camarada de Inglaterra!
    Cintra dos Moiros com os seus adarves,
    E, ao longe, em frente, o Reyno dos Algarves!

VIII

    Romantica Lisboa de Garrett!
     Garrett adorado das mulheres,
    Hei-de ir deixar-te, em breve, o meu bilhete
     tua linda caza dos _Prazeres_.
    Mas qual seria a melhor hora, s sete,
    Garrett, para tu me receberes?
    O teu porteiro disse-me, a sorrir,
    Que tu passas os dias a dormir...

IX

    Pois tenho pena, amigo, tenho pena;
    Levanta-te d'ahi, meu dorminhoco!
    Que falta fazes  Lisboa amena!
    Anda vr Portugal! parece louco...
    Que patria grande! como est pequena!
    E tu dormindo sempre ahi no choco.
    Ah! como tu, dorme tambem a Arte...
    Pois vou-me aos toiros, que o comboio parte!

X

     Lisboa vermelha das toiradas!
    Nadam no Ar amores e alegrias.
    Vde os Capinhas, os gentis Espadas,
    Cavalleiros, fazendo cortezias...
    Que graa ingenua! farpas enfeitadas!
    O Povo, ao Sol, cheirando s marezias!
    Vde a alegria que lhe vae nas almas!
    Vde a branca Rainha, dando palmas!

XI

     suaves mulheres do meu desejo,
    Com mos to brancas feitas p'ra caricias!
    Ondinas dos Galees! Nymphas do Tejo!
    Animaeszinhos cheios de delicias...
    Vosso passado quo longiquo o vejo!
    Vs sois Arabes, Celtas e Phenicias!
    Lisboa das Varinas e Marquezas...
    Que bonitas que so as Portuguezas!

XII

    Senhoras! ainda sou menino e moo,
    Mas amores no tenho nem carinhos!
    Vida to triste supportar no posso:
    Vs que ides  novena, aos _Inglezinhos_.
    Senhoras, rezai por mim um Padre Nosso,
    N'essa voz que tem beijos e  de arminhos.
    Rezae por mim, vereis,--vossos peccados,
    (Se acaso os tendes), vos sero perdoados...

XIII

    Rezae, rezae, Senhoras por aquelle
    Que no Mundo soffreu todas as dores!
    Odios, traies, torturas,--que sabe elle!
    Perigos de agoa, e ferro e fogo, horrores!
    E que, hoje, aqui est, s osso e pelle,
    A espera que o enterrem entre as flores...
    Ouvi: esto os sinos a tocar:
    Senhoras de Lisboa! ide rezar.




S SENHORAS DE LISBOA


    Ainda bem, Senhor! que deste a noite ao mundo.
    Gosto do sol, oh certamente! mas segundo
    O meu humor.  noite, ha esquecimento, ha paz,
    De dia, apenas tenho um ou outro rapaz
    Para a palestra. Ah sim! e o mar tambem s vezes.
    Mas agora (ha aqui uns tres ou quatro mezes)
    Fao da noite dia. As grandes descobertas
    Que eu descobri! Estou de janellas abertas
    Quando os outros esto de janellas fechadas...
     fontes a correr como linguas de espadas,
     fontes a furar quaes mineiros a fragoa,
     fontes a rezar, como freirinhas d'agoa,
    Com ladainhas na voz, de joelhos nas encostas,
    E s vos falta estar, como ellas de mos postas!
    Ouvi, l rezam: sob o cu todo estrellado,
    Padre-Nosso! que ests no cu, sanctificado...
    Noites e dias sem parar um s momento,
    S vs me ouvis, e eu s a vs e mais o vento.
    Que dr  a vossa! qual ser? no sei, no sei
    Chorae, fontes, chorae! Fontes correi, correi!
    Agoas, s de perdo, suspiros e piedades,
     fontes de Belem!  fontes de saudades!
    Contae para eu scismar, uma bonita historia
    Qualquer, a que vos vier mais depressa  memoria.
    Contae que eu sou ainda uma criana, gosto
    Tanto de historias! pelas luas brancas de agosto!
     rios a contar historias, como as criadas,
    Historias de ladroes, mais historias de fadas,
    A do Z do Telhado e da triste viuva
    Que s sahia  rua pelas noites de chuva!
    E essa (que faz chorar) de Pedro Malas Artes!
    Os tristes ventos a assoprar das quatro partes:
    So os ventos do sul: (cegos pedindo esmolas,
    Soffrem tanto com elle!) mais o vento das Rlas;
    Mais o que vem do oeste, que abre e fecha as portas
    E geme nos pinheiraes, pelas noites mortas
    Erguendo as folhas seccas, cahidas pela terra.
    Mais o vento do norte, o vento da Inglaterra
    Que azula o cu e o rio, e deu ao mar a gloria
    De levar as Naus do Gama  India da victoria.
    E o mar, Senhor! o mar, ai! como chora s Luas!
    Pelos seus golphos e canaes (as suas ruas)
    Sonetos de ais que s comprehende quem ama:
    E de noivos a quem deu o lenol e a cama.
    As descobertas dos meus Paes, dos Portuguezes:
    (Pois quando est p'ra isso tambem conta s vezes)
    O mar! como elle conta s noites tanta historia,
    Contos de cavalleiros sublimes de victoria;
    Contos de espadas nuas, em mos desses guerreiros,
    E contos de segredo que ouviu aos marinheiros
    L pelas noites calmas,  luz da lua branca,
    Quando choram seus males, que s a lua estanca.
    O mar! O mar, oh sim! O mar  meu amigo.
    Quantas vezes a rir, vem conversar commigo
    N'essas noites to longas d'infinda solido
    Em que vela no mundo, to s meu corao!
    Quantas vezes na hora em que dormem crianas
    E as flores dormem tambem, e dormem as esp'ranas
    Para embalar o peito de quem no mundo as tem;
     hora em que ha mais treva nas sombras desta terra,
    (Que tantas sombras, ai! de dia mesmo encerra.)
     hora em que ha mais luz no cu todo estrellado,
    Eu fico s e scismo, nas dres do meu passado.
    E quando emfim eu chro, pensando nessas magoas
    L oio a voz sublime d'aquellas grandes agoas
    Que querem vir chorar commigo e conversar.
    Historia  uma d'elle, esta que vou contar;
    Ouvi-a em alta noite escura de janeiro
    E p'ra m'a vir contar, o Mar chorou primeiro.

    ................................................
    Senhoras escutae-a! se tendes corao,
    Se daes esmola ao pobre, com vossa propria mo:
    Lembrae-vos que ouvir a voz d'uma desgraa
    Tambem  caridade, Senhoras cheias de graa!
    Dae-me um pranto vosso a este soffrimento,
    Senhoras! uma lagryma. Com ella me contento.
    ................................................




    Senhora minha, perdo
    Anjo do meu corao
    Pois a escrever eu me affoito?
    Estamos no julho, a oito
    Dia de Vasco da Gama
    (D'oravante assim se chama)
    Ai as saudades que eu tenho!
    Pois olha escrevo-te e venho
    Dar-te noticias do teu
    Apaixonado. Sou eu.
    Anrique, pastor de ovelhas.
    Tenho-as brancas e vermelhas,
    Pretas, de todo o tamanho.
    Tivesse-te eu no rebanho
    Porm como tu ainda
    No vi nenhuma mais linda.
    Eu pensei que tu amavas
    O teu pastor, mas brincavas.
    Mas amo-te eu, muito embora.
    No sou amado, Senhora?
    --No o s, nem nunca o has-de ser--
    Pois seja o que Deus quizer!
    Vou pelas serras mais altas
    Mas vejo que tu me faltas
    E logo fico a pensar
    Que bom e triste  amar!
    Um amor sem esperana
     um bem que no se alcana.
    Nasci debaixo d'um signo
    Que em nada me  benigno;
    J no pde ser desfeito
    O que est feito, est feito.
    Ai de mim! no sou amado!
    Ai de mim, triste e coitado!
    Fumo saindo dos cazaes
    Que aspiraes vs levaes!
    As minhas no vo to alto:
    ............................
    So bem simples e modestas:
    Bons dias e boas sestas!
    Com mui pouco me sustento:
    O amor  meu alimento.
    O meu po de cada dia,
    Lagrymas, minha agoa fria,
    Quem me dera andar comtigo
    No mar cheio de perigo!
    Ir  Africa n'uma Nau
    Na _San Rafael_ de pau,
    Como os nossos Portuguezes!
    E andar por l sete mezes,
    Sete annos, ou mesmo mais
    Sem medo dos temporaes!
    Outros ha pior de passar...
    J tantos tive no mar
    J tantos tive na terra
    Que j nenhum me faz guerra.
    Ns dois ss, e porque no?
    Sem maior tripulao.
    Eu seria o commandante
    D'aquella nau almirante!
    Oh que formoza serias
    Queimada das marezias!
    Vestida de marinheiro
    Ai sobe! sobe! gageiro
    Aquelle topo real,
    Diz adeus a Portugal,
    Que l nos vamos, Adeus!
    E partiriamos com Deus!
    Oh que viagem venturoza!
    Pela Azia religioza
    Mais pelas terras do sul
    Com mar e ceu sempre azul!
    Vr no ceu planetas novos
    Vr pela terra outros povos,
    Outras leis, novos costumes,
    Capellas cheias de lumes,
     California do Oiro
    E l achar um thesoiro.
    Vr (que isso nunca se perde)
    O celebre raio verde
    Do sol-pr no mar da America!
    Oh! a viagem chymerica!
    De gatas, como as gatinhas,
    ...........................
    Tu subirias aos mastros
    (To altos que vo aos astros)
    Sem receios das procellas!
    E dobrarias as velas
    A bujarrona, a latina.
    Com tuas mos de menina!
    Oh! vem d'ahi commigo! eu parto!
    Quando estivesses de quarto
    A mo no leme segura
    A nau iria  ventura
     suspiro das aragens!
     phantasticas miragens!
    No tenhas mdo. Morrer
    No custa nada,  viver.
    Custa menos que se pensa.
    O principal  ter crena.
    Morre o corpo, a alma abre aza
    E vae:  mudar de caza...
    Mas nem sempre ha mares grossos
    E que houvesse! Os padres nossos
    Fazem muito em tua bocca.
    Voz dce acalma voz rouca!
    Tu no temes temporal
    s filha de Portugal!
    Se morressemos, que importa!
    Que bella serias morta!
    Minha Senhora da Esp'rana
    J na Bemaventurana!
    Ir comtigo pr'o outro mundo,
    E juntos para o profundo
    Para esses mares salgados,
    N'um abrao amortalhados!
    Meu pensamento fluctua
    Perdoa (l vem a Lua)
    Esta carta to comprida!
    Mas eu amo nesta vida
    Duas coisas, tu primeiro
    Depois o mar, sou poveiro!
    Mas hoje, Senhora minha,
    Sou pastor sem pastorinha,
    Ainda hontem era estudante
    Porque no sou navegante!
    Foi sempre a minha paixo;
    Era a minha vocao.
    Mas a minha Me no quiz
    Talvez fosse mais feliz.
    Ah, Senhora! vou deixar-te!
    Minha Me por toda a parte
    Anrique! Anrique, onde ests?
    A pregao que ella faz
    Tudo por amor de ti
    (E j lhe oio a voz d'aqui)
    E as ovelhas? Ai, Senhor!
    No sirvo para pastor.
    Cada uma p'ra seu lado
    No dou conta do recado.
    Minha Me ralha que ralha
    Ai, Senhor! Jezus me valha.
    E adeus que me vou embora
    Pois, boas noites, Senhora!
    Ah! eu estou, aqui, to bem...
    E l torna a minha Me
    --Anrique, Anrique, onde ests?
    --Onde te somes, rapaz!
    Tem razo,  j to tarde!
    Na lareira o lume arde
    E fuma, aceza a candeia:
    Minha Me que faz a ceia!
    Ha que tempo ella passou
    Com a lenha que encontrou!
    Desprezada nos caminhos...
    Ns somos mui pobrezinhos!
    E eu, aqui,  lua,  farta.
    Prompto. Acabo, aqui, a carta.
    Adeus! so horas de eu me ir
    Cear, rezar... e dormir.
    Nossa-Senhora me ajude!
    A minha Me no se illude
    Com toda esta demora
    Ella bem sabe, Senhora!
    E l torna a Me: Anrique
    Queres que eu me mortifique?
    Anda cear, no tens fome?
    Jezus! Jezus! Santo Nome!
    Eu bem sei e bem no entendo.
    O que so Mes! Em me vendo
    Quando todo me concentro
    Que trago paixo c dentro.
    Isto j ha muitos mezes.
    Mas nada diz. S s vezes
    Quando no como e me deito
    Assim... a tossir do peito,
    Tambem no quer ella comer
    E aventura-se a dizer:
    Amores--filho, paixes
    S trazem consumies
    E assim , assim, Mesinha!
    Pois adeus, Senhora minha!
    ..........................




    Vae alta a Lua branca, serena, silenciosa
    Da luz dos Boulevards, fugindo desdenhoza.
     a hora em que Paris comea a louca vida
    Na tragica cidade ao sol adormecida.
    O Paris de Baudelaire! Paris da minha penna
    Que em tempos j molhei nas agoas do teu Sena
    Que mysterios eu leio, Paris, no teu folgar!
    Que mysterios eu vejo, passando os Boulevards!
     vde a pallidez da luz d'aquelle gaz,
    Vde a cr mortuaria, que aos rostos elle traz!
    Olhae p'ras criancinhas que passam sob a chuva;
    Olhae p'ro pranto facil dos olhos da viuva
    Que pede aqui cantando, e canta ali chorando,
    E assim de pranto e riso seu po vae amassando;
     Paris de Verlaine e poetas sonhadores!
    Mais de mendigos ricos, de fidalgos salteadores;
    Paris que me acolheste n'agreste mocidade
    Eu no te amo no, mas dou-te uma saudade.
    Senhoras, como o Sena vae triste, amarellento,
    Turvado pelas rugas sulcadas pelo vento.

    No vejo aqui, Senhoras, a luz do vosso Tejo
    Nem vejo o cu azul, Senhoras!... mas eu vejo
    Uns olhos fitos n'agoa... uns olhos luzitanos,
    Que pela luz que tem no contam muitos annos.

    E a lua que anda fugida, l pelo cu profundo
    Deixou cahir no rio, o seu retrato, ao fundo.
    .............................................


    Senhoras, Anrique ouvira a voz d'uma das freiras
    E quando no adro branco, as notas derradeiras
    Perderam-se voando, julgou n'um som dorido
    Reconhecer a voz do seu amor perdido!

    So sonhos de poeta; mas sonhos como lyrios
    To brancos como elles... vermelhos nos martyrios!

    .............................................
    Vinde d'ahi, Senhoras, commigo quereis ouvir?
    Ingenuo  o seu cantar... talvez vos faa rir!

    Vi-te ha pouco rezando nas novenas
    Ai to linda, to pallida, meu Deus!
    Quaes so as tuas dores, as tuas penas,
    Por quem levantas tuas mos aos cus!

    Cantae,  freiras Benedictinas,
          Cantae, cantae,
    Cantae novenas, cantae matinas,
          Cantae, cantae.

    No Boul'Mich, os castanheiros da India
    Comeam a despir as folhagens, ao luar,
    Que bellas armaes, para galeras da India
    Se ainda houvesse Indias, neste mundo, a conquistar!

    Tudo to triste! todos to tristes!
    Olhae, so poucas todas cautelas
    Doentes do peito, cuidado, ouvistes?
    Tirae do armario vossas flanellas!

    Cantae o canto Gregoriano
          Para eu chorar!...
    Cantae  freiras! durante um anno
          Para eu... chorar!...

    Andam meus olhos luzitanos
          A procurar-te,
    Minha chymera! tenho vinte annos!
          Eu quero amar-te!

     sinos de toda a Frana
    Cantae, cantae o meu mal,
    To alto, essa voz no cana,
    Que ella os oia em Portugal!

    Cantae o canto Gregoriano
          Para eu chorar!...
    Cantae  freiras durante um anno
          Para eu... chorar!...
    ...................................




    Morrera j o Sol; os altos castanheiros
    Choravam  voz do vento, quaes lugubres troveiros,
    Os choupos retorciam os troncos j despidos,
    Parecendo erguer ao cu seus braos resequidos,
    Ao darem as Trindades no claustro, de mansinho,
    Fugiu um bando d'aves pousadas no caminho.
    A cruz meio inclinada parecia desmaiar
    Perdida na cr pallida da luz crepuscular;
    Eram mysterios da hora nervoza da tardinha
    Em que s'adeanta a morte, e treme a alma minha!
    A hora em que perdido do Lar, dos meus Irmos,
    Scismando no meu Lar, eu junto as frias mos;
    A hora em que o traidor por mais que faa esforos
    No pde em si calar o susto dos remorsos;
    A hora em que se acende o lume nas lareiras
    E ladram ces ao longe, em vla pelas eiras;
    A hora em que entristece na rua o caminhante,
    E pra vendo o Sol cahir agonisante;
    E as raparigas trmulas se vo fechar as portas,
    Ouvindo ao longe as rs, gritar em agoas-mortas!




     Senhora d'altas Espheras!
    Castell das minhas chymeras!
           meu amor!
    Amor mystico, amor celeste
    Que tu pelo Natal me deste,
          Senhor! Senhor!

    Sou forte agora, e temerozo,
    Sou um rei Todo Poderozo
          Seno olhae!
    S diante de ti me humilho
    Senhor! Senhor! Sou teu filho
          E tu meu Pae!

    Venham armadas de Inglaterra
    Venham as naus de toda a terra,
          De todo o mar!
    Que eu s por entre ellas e o Oceano,
    Na minha nau a todo o panno,
          Hei-de passar!

    Venha o exercito da Allemanha,
    Mais seus alliados, mais a Hespanha,
          Hei-de vencer!
    Tu s grande, s forte, Guilherme!
    Tu s um mundo, eu sou um verme...
          Vamos a vr!

    Venha uma immensa tempestade,
    Caiam raios sobre a cidade,
          Venham troves!
    Que eu irei s para as janellas,
    Sem Santa-Barbara, sem velas,
          Sem oraes!

    Soldados de Alsacia e Lorena!
    (A bella Frana assim m'o ordena)
          Vamos! Ento?
    Atirae balas aos meus peitos,
    Que eu apanho-as, como confeitos,
          Na minha mo!

    Venham Philosophos, Douctores,
    Venha Spinoza, outros maiores,
          Gregos, Judeus;
    Venham Estoicos, Pessimistas,
    Cynicos, os Positivistas...
          Eu creio em Deus!

     morte, minha amiga de outr'ora
    Que fazes ahi, ha mais d'uma hora!
          Queres-me? Ah sim?
    Cortei as relaes comtigo
     vae-te! j no sou teu amigo,
          Nem tu de mim!

     Luiz de Cames e da Esperana!
    Ao p de ti sou uma criana,
          Mas ouve c.
    Vamos cantar ao desafio,
     sua janella, sobre o rio,
          Ver qual mais d...

     troveiros de toda a parte
    D. Pedro!, D. Diniz!, D. Duarte!
          O que sois vs?
    Minha lyra  do seu cabello,
    E os meus versos, quereis sabel-o?
          So a sua voz!

     vento cantante do Norte!
    Minha lyra agreste  mais forte
          Do que a tua!
    Vinde todos, troveiros do ar,
    Em desafio commigo a cantar
          Por essa rua!

    ....................................




    Vem entrando a barra a galera Maria
    Que vem de to longe e to linda que vem!
    Toca em terra o sino p'ra missa do dia
    Em frente, em Santa Maria de Belem!

    Mareantes trigueiros no alto dos mastros,
    A dobram as velas no so mais precizas!
    Ai que lindas eram, s luas e aos astros!
    Que doidas, aos ventos! que meigas, s brizas!

    Desdobra as amarras! apresta a fateixa!
    Pois todos em breve a nau vo deixar;
     terra! Que saudade a de quem te deixa
     terra! pela aventura do alto mar!

    Entra o piloto e abraam-se estes e aquelles.
    Abraam-se e riem tanto  vontade...
    Abraos que levam almas dentro d'elles,
    Sorrizos de boccas que fallam verdade!

    S as intende (capites, no as sents)
    Quem, algum dia, passou as agoas salgadas
    Quem, um dia, as passou n'uma hora infeliz
    Quem, um dia, as passou, com as frontes curvadas.

    E Maria vae indo pelo Tejo acima,
    E scisma Anrique: Que lindo Portugal!
    Vem as nymphas, vae uma d-lhe uma rima,
    Vae outra (gostam d'elle) e vae faz-lhe um signal.

    E Anrique scisma: Quem no te viu ainda!
     minha Lisboa de marmore! Lisboa
    De ruinas e de glorias! Tu s linda
    Entre as cidades mais lindas,  Lisboa!

     minha Lisboa! com oiros to constantes
    Pelas serras e cus e pelo rio! Com seus
    Jeronymos dos Poetas e Mareantes!
    Lisboa branca de Joo de Deus!

    I

     Lisboa! n'um seculo bem perto
    Quando a Africa e as Azias se mostrarem
    Civilizadas, sem um s deserto,
    E as esquadras do mundo inteiro entrarem
    N'aquelle Tejo sobre o mundo aberto,
    Para dos grandes ventos descansarem,
     Lisboa (no so glorias chymericas)
    Voltada sobre as Azias e as Americas!

II

    Porque  que Deus aqui te poz  entrada
    Seno para destinos imperiaes?
    Do mar da India a virao salgada
    Respiral-a tu, antes dos mais.
    A vr s tu, primeira, a alvorada
    E a ultima o sol nos fins occidentaes.
    Lisboa! quando eras pequenina
    Houve uma fada que te leu a sina?

III

    O que j foste tu, n'outras idades
    Grande e famoza acima das Naes,
    Tu de novo o sers, porque as cidades
    Tm varias mortes e resurreies,
    Outras infancias, novas mocidades,
    Novas conquistas, outros galees...
     coragens,  coleras, tormentos,
    Troves, Indias, relampagos e ventos!

IV

    Velha Lisboa, minha mae-madrinha!
    Tu voltars a ser o que j foste,
    E no, no cuides que  illuso minha,
    Pois nenhuma j tenho a que me encoste!
    No sei qu dentro em mim m'o adivinha
    No sei que voz m'o diz de que eu mais goste.
    E bem no sabes de bem longe: os Poetas
    No se enganam--so bruxos, so Prophetas!

V

    L onde escoa o Tejo, os Esculptores
    De entre a agoa erguero altos heroes
    Poetas, Santos e Navegadores:
    Nun'Alvares sorrindo aos seus does-does,
    Feridas de Astros! admiraveis flres!
    (Com auroras e poentes como os soes...)
    Luiz de Souza, scismatico, e Frei Gil,
    Pedr'Alvares, a mo para o Brazil!...

VI

    Vasco da Gama a apontar l para onde
    Nasce o sol, terra da sua India amada,
    Outro a olhar l, onde o sol se esconde,
    Cames olhando triste a onda salgada;
    Mas a onda passa, passa e no responde...
    Que a leva o fado, vae muito apressada...
    Todos to vivos, os heroes colossos,
    Que dir-se-ia que tm sangue e ossos.

VII

    E do seu forte, S. Julio, em summa,
    Sobre toda esta gloria e esta magoa,
    Luas conta a desfiar uma por uma,
    (Ondas do mar) Salve Rainhas d'agoa
    E Ave Marias, de doirada espuma...
    E os outros, no deserto d'essa fragoa
    Pela noite o acompanham; e assim
    Rezam todos por seculos sem fim.

VIII

    Eu confio em ti reza d'Heroes,
    E confiar em ti, no  vaidade.
    Vossos nomes de bronze so pharoes
    Que luz daro,  nossa tempestade.
    O nosso Rey... (cabello em caracoes!)
    J no dorme no Pao... Piedade!
    Deixareis a Patria engrandecida
    Por vossas mos p'ra sempre ser vencida?

IX

    Cr do ceu a bandeira e cr de neve
    No a vejo na torre a fluctuar!
    Senhor! Vs bem sabeis que o Rey no deve
    Outras armas que a vossa apresentar.
    Se assim deixaes que outro povo a leve,
    Porque a dste ao nosso p'ra guardar?
    No  elle o mesmo que em Ourique
    A acclamou nas mos do teu Henrique?

X

    Anda tudo to triste em Portugal!
    Que  dos sonhos de gloria e d'ambio?
    Quantas flores do nosso laranjal
    Eu irei vr cahidas pelo cho!
    Meus irmos Portuguezes, fazeis mal
    De ter ainda no peito um corao.
    Talvez s eu! (Amr ai tu m'entendes!)
    Possa ainda ter a paz que j no tendes.

XI

    Talvez s eu irmos! mas  que a mim
    Deve o Senhor as flores com que s'enfeita
    A mocidade!... que  d'elle o meu jardim!
    Dizei-me vs irmos, na vida estreita
    Toda a desgraa no ter um fim?
    Se a ventura no pde ser perfeita
    Tenho agora a Patria em sepultura!
    Que mais quereis na taa d'amargura?

XII

    Vir, um dia, carregado de oiros,
    Marfins e pratas que do cu herdou,
    O rei menino que se foi aos moiros
    Que foi aos moiros e ainda no voltou.
    Tem olhos verdes e cabellos loiros,
    Ah no se enganem, (ainda no chegou)
    Vir El-Rey-Menino do Estrangeiro,
    N'uma certa manh de nevoeiro...

XIII

    Tem loiros os cabellos, e  criana,
    Tem olhos verdes de luar nocturno:
    Olhos verdes, so olhos de esperana!
    Olhos verdes, so Luas de Saturno!
    Veio da Africa mais a sua lana
    Vae pr'o mundo, rezando taciturno.
    To pobrezinho, olhae! estende a mo:
    Quem d esmola a D. Sebastio?

XIV

    Esperae, esperae,  Portuguezes!
    Que elle ha-de vir, um dia! Esperae.
    Para os mortos os seculos so mezes,
    Ou menos que isso, nem um dia, um ai.
    Tende paciencia! finaro revezes;
    E at l, Portuguezes! trabalhae.
    Que El-Rey-Menino no tarda a surgir,
    Que elle ha-de vir, ha-de vir, ha-de vir!




    L vem, l vem minha Amada,
    Rainha de Portugal.
    Vem com a capa estrellada,
    Debaixo d'um palio real
    Todo de seda vermelha,
    Com saias de oiro e coral.
    V o povo que ajoelha
    E faz o pelo signal!

    Que linda ! que formoza!
    Que graa ella tem a andar!
    Pagens vestidos de roza
    Vo  frente a encaminhar,
    Tirando as pedras da rua
    No v ella tropear,
    To leve, parece a Lua,
    To leve que vae no ar!

    Vinde vr, vinde s janellas,
    Meninas de Portugal!
    Deixae o bordado, as telas,
    Deixae a agulha e dedal.
    No temaes a feia inveja
    Vinde vl-a cada qual.
    E que em honra d'ella seja
    Esta noite o arraial.

    Sua belleza  tamanha
    Que pertence a Portugal.
    Como obra de arte, extranha,
     um poema,  uma cathedral.
    Aos Luziadas semelhante,
    Aos Jeronymos egual,
    Onde os poetas e o mareante
    Dormem o somno final!

    Nem Mafra com seu convento
    Tem maior a altivez
    ..............................
    No se esquece, visto uma vez!
    Seu corpo  uma obra de graa
    E de que suave pallidez!
    A minha amada  a Alcobaa
    Onde jaz a linda Ignez!

     fidalga de nascena,
    Mais do que os Reis, do que vs.
    J poetas na Renascena
    Cantaram seus bisavs.
    Mas mais fidalga  ella ainda
    Por sua alma (sem Avs).
    Ah! l vem ella to linda
    E vem rezando por ns!

    A minha Amada  fidalga
    Que tem no mar seus brazes.
    Tem na bocca aromas de alga
    Brizas da India e outras regies,
    O que prova d'onde vejo
    J no tempo de Cames
    Era sobrinha do Tejo
    E prima dos Galees!

     toda de cazos bellos
    A tua nobreza fina,
    Toda torres e castellos
    Com legendas de menina.
    Excedes Reis e Prophetas
    ........................
    Menos os Santos e Poetas
    Que tm costella divina!




    --Quatorze luas j foram passadas,
    Desde que eu a perdi e ao seu amor;
    Meu corao tem ainda as janellas fechadas,
    Ainda vestem de lucto os meus criados, Senhor.

                         O POVO
                   Chymeras tombadas! Chymeras tombadas!

    --A sorte deu-me j cabellos pretos
    Ai no precizo de os enluctar.
    --Mas olhe as brancas... meu senhor
    O branco  lucto, podes, Ama, descanar!

                         O COVEIRO
                   O branco  lucto: so brancos os esqueletos!

    -- illuzes que em ti puz to amigas!
    Oh! a esperana que em minha alma  morta!
    Antes eu te visse cobertinha de bexigas
    Ou em farrapos, a pedir, de porta em porta...

                         TODOS
                   Antes a visses morta!
                   Antes a visses morta!

    --Dei-te o meu corao a ti, bella entre todas,
    Corao, que a ninguem ainda se dobrara,
    Chego do mar, venho assistir s tuas bodas,
    Ah! no mar salgado, porque no ficra.

                         UM PASTOR
                   Toca a noivado em Santa Clara
                   Dobra a defuntos tres legoas em roda!

    --Fugiu-me a minha amada e com ella a fortuna,
    Meu Lar por terra! sem ninguem na multido.
    Fiquei na vida s, como o Conde de Luna,
    Mais sua espada. Ai do meu pobre corao!

    (Meu corao calla-te ou falla baixo: massa
    Os mais a nossa dr. Sim calla-te  melhor)
    A procisso das Dres em mim sinto que passa
    E passa... e passa... e cada vez ser pior.

                         THEREZA
                   No que o fim d'uma desgraa
                    o comeo d'outra maior!

    --Parti um dia, n'uma romagem,
    Levando a Esponja, o Fel, a Cruz!
    Regresso altivo d'essa viagem
    Feliz, anciozo. (E nunca o suppuz)

                         THEREZA.
                   Senhor Douctor, tenha coragem
                   Olhe que mais soffreu Jesus.

    --E que vejo eu, Senhor! O meu prato sem sopa,
    Meu Lar em p, o amor d'ella j no  o meu.
    Minhas camizas, hoje, so de estopa,
    Foram de seda... Que vejo eu!

                         OS VIZINHOS
                   Foste  pandega por essa Europa,
                   Ahi tens o pago que o Senhor te deu!

    O mundo deu-me cabellos pretos
    Ai no precizo de os enluctar!
    ...................................
    E mais em breve porque vou cegar...

                         UM CEGO
                   A Anrique ceguinho diro
                   Olhe no v tropear...

    --Amar a ella e d'ella ser amado,
    Ir em breve pedir a sua mo!
    E de repente tudo escangalhado!
    Ai que desgraa! como os outros so!

                         THEREZA
                   E que menino to estimado!
                   E tudo n'elle  perfeio!

    --Anrique meu amor, filho de Porto-Calle!
    Me dizia ella... Ai do meu corao!
    Amor j me no tem, no ha j Portugal...
    E que vejo, Senhor! de ruinas pelo cho!

                         OS MENDIGOS
                   Tantos vadios sem nada na mo
                   Sempre  espera de D. Sebastio.

    -- D. Sebastio a ti comparo,
    El-Rey de Portugal, a minha sorte,
    Se te encontrasse na vida, serias meu amparo,
    Ser-m'o has talvez depois da morte.

    D. Sebastio, rey dos desgraados,
    D. Sebastio, rey dos vencidos,
    El-Rey dos que amam sem ser amados
    El-Rey dos genios incomprehendidos.




    Sahi, um dia, a barra  procura da gloria,
    Entre soluos e oraes, cuja memoria
    Me faz tremer. (Ah foi n'uma tarde d'outomno,
    Que linda! O mar espreguiava-se com somno...)
    Por essa barra sahem, cheios de peccados,
    Bandidos com seus crimes e mais os degredados,
    Traidores  Patria e ao Rey, infelizes e ladres.
    Por l sahiu, tambem, n'uma noite, Cames.
    No barco em que segui viagem nessa agoa,
    Levava aos hombros um bahu cheio de Magoa
    E mais um sacco de Dr que por l me ficou.
    De volta trago tres, que aquelle no chegou.
    Os Homens conheci n'essa jornada pelo mundo.
    No lhes quero mal, seu erro  to profundo!
    ............................................
    ............................................

    Todos partiram, todos fugiram.
    Os ladres assaltaram-me  estrada
    Quizeram-me matar. No conseguiram.

    Ninguem me resta, no me resta nada!
    Fui enganado nos meus leaes amores.
    J tive de salvar a minha vida  espada.

    No meu jardim semiei lilazes,
    Passado tempo vi nascer ortigas;
    Cada dia que nova dr me trazes?

    Lavrei canduras e colhi intrigas,
    Nasceram odios onde puz perdes.
    No digas mais meu corao! no digas

    Procreei gigantes vi nascer anes,
    Plantei nesta alma vinhas da piedade
    E vindimei, Senhor! Ingratides!

    Nunca se deve ter tanta bondade,
    Quando  excessiva e tanto d inspira
    E uma falta at de dignidade.

    Ora eu assim cercado de mentira,
    Longe de tudo e todos, e enganado
    (Quando se foi to criana o que admira!)

    Vi-me sem Deus, s, triste e em tal estado
    Que se o contasse chorarieis... No!
    No falta em que empregar pranto salgado.

    Que infortunio, meu Deus! que decepo!
    Minha crena catholica perdi-a,
    J no sei persignar-me com a mo.

    Durante mezes, sempre, dia a dia,
    Ainda fui, por habito,  Igreja:
    No sabia rezar a Ave-Maria!

    Chegava ainda at bemdita sejas...
    E ao ver a Virgem d'olhos sobre mim
    Crava de pudor como as cerejas.

    Nunca na Terra se viu nada assim!
    Minha vida mudou-se de repente.
    A tosse veio... vs sabeis o fim.

    Foi a queda do Imperio do Occidente!
    Foi o desastre de Alcacer-Kibir!
    A Hespanha veio com Philippe  frente!

    Que mais viria e estava para vir?
    E fui a Frana consultar um Bruxo
    Que eu j de ha muito desejava ouvir.

     porta havia uma cruz de hera e buxo
    E ao centro, no jardim, d'entre uma fragoa,
    Erguia-se em girandola um repuxo.

    Bolas de sabugueiro  merc da agoa
    Iam e vinham, graas de meninos,
    Ascenes de prazer quedas de mgoa!

    Era a sorte a brincar com os destinos...
    No deixava de ter engenho o dianho
    Do Bruxo! Mas que symbolos to finos!

    Entrei. E vi um Velho alto, tamanho,
    De barbas brancas a tocar-lhe os joelhos.
    --Sois vs o Bruxo?--Sim! esse  o meu ganho!

    Tinha um sorrizo que s tm os velhos.
    E os labios brancos (de quem j no ama)
    Que contrastavam com os meus, vermelhos.

    --Venho de longe, aqui, por vossa fama.
    Vosso nome chegou ao meu paiz.
    --O teu paiz, Senhor! como se chama?

    No: d-me a mo, ella melhor m'o diz:
    Oh vens de Portugal? Oh se o conheo!
    Manda-me para c muito infeliz...

    Ouvindo taes palavras, estremeo.
    N'elle fixo os meus olhos de admirado
    E que me diga os fados eu lhe peo.

    Sombrio, o Bruxo assenta-se, callado,
    N'uma cadeira antiga, ao p do lume.
    Eu assentei-me timido, ao seu lado.

     momento que um seculo resume!
    O So Paulo do Amr! Martyr christo,
    Que ao vr a espada j lhe sente o gume!

    Na sua mo tomou a minha mo.
    Seus olhos frios crava-mos na palma,
    Mas de repente muda de expresso.

    Que passado, Senhor! tem d d'esta alma!
    Catastrophes! Naufragios! tantos perigos!...
    Mas eu logo acudi, com grande calma:

    --Basta. Deixae-me em paz o tempo antigo.
    Eu conhecia-o j antes de vs.
    P'ra que lembrar-m'o? Sde meu amigo!

    N'uma sala contigua, etherea voz
    Rezava a ladainha, eram mulheres.
    --_Estrella da manh!--ora por ns!_

    --Nada te digo, pois que assim o queres!
    Ouves? L dentro, rezam minhas filhas.
    E rezaro o tempo que quizeres.

    E continuou a lr: Que maravilhas!
    Que mo extranha! mo de tempestade!
    Mares, golfos, canaes, cabos e ilhas!

    Vaes em meio da tua mocidade.
    Tens vindo em tua nau, desde criana,
    Por um sombrio mar da antiguidade.

    Agora, aqui, o temporal descana
    E v: segundo a altura do quadrante
    Dobras o Cabo da Boa-Esperana!

    Coragem! meu sombrio navegante!
    Paciencia! mais um pouco e aportars
     India! mais tua esquadra de almirante!

    Alli, te aguardam Bens te espera a Paz
    A boa Gloria e mais do que isso, at,
    Um grande amor,--e alli te coroars!

    O Velho disse. E, logo, puz-me em p.
    Mui feliz, no querendo ouvir o resto,
    Que eu sei o vasio que este mundo .

    Adeus! disse eu quelle sabio honesto,
    Formozo e de olhos grandes como cus!
    Adeus! e parti logo, altivo e presto.

    Caa o sol no oceano. Orei a Deus.
    Uma nau me esperava... Erguemos ferro
    E abalamo-nos de Frana. Adeus! Adeus!

    Que peccado Senhor! ou grande erro
    No mundo commetti que me ds tantos
    Trabalhos, como na Africa em desterro?

    No posso ser bem sabes como os Santos.
    Mas quantos homens neste mundo avisto
    To felizes (e maus!) quantos e quantos!

    E se no fui eu que pequei,  Christo!
    Peccariam os meus antepassados?
    Quem foram elles? Vem contar-me isto!

    Religiozos, maritimos, soldados?
    E justas so as leis com que me aterras
    Sendo elles os unicos culpados?

    Na Arabia, na Phenicia ou outras terras
    Cauzaram, vae em seculos, paixes
    Fomes e sedes, ou atearam guerras?

    Comeu a terra os ossos d'esses lees,
    As suas cinzas foram-se nos ventos
    E eu soffro, apoz quinhentas geraes?

    Que injusta couza! que desleaes tormentos!
    Que faz rezar,  noite, de mos postas,
    De que serve cumprir teus mandamentos?!

    Quem sabe se no foram meus avs,
    Senhor! Que tanto e tanto te offenderam,
    Mas meus archi-primeiros bisavs?

    Quando os vulces da terra arrefeceram,
    E lentamente, aos poucos, e as primeiras
    Effloraoes da vida appareceram;

    Talvez, que um tigre eu fosse, que nas carreiras
    E uivando,  lua, e destruisse as mattas
    Que levaste a criar noites inteiras!

    Talvez, no dia em que baixaste
     terra, para ver a tua obra
    Vestido d'alvas vestes como pratas,

    Fosse eu, cobarde! a pequenina cobra
    Occulta entre jasmins que te mordeu...
    Quando ias a colher algum... de sobra!

    Outrora o sol ardia no alto cu,
    Pediste sombra  arvore n'um monte
    Que ergueu a rama e essa arvore... era eu!

    Quando o sol caa,  tarde, no horisonte,
    Todo vermelho como agora, vde!
    Sequiozo, ias beber a agoa da fonte,

    E eu (que era agoa) no quiz matar-te a sede!
    Quem sabe se uma vez, pela noitinha,
    Foste ensaiar o mar, deitando a rede,

    E cobiou o peixe que l vinha
    E t'a furtou, (brinquedos de criana!)
    Alguma onda do mar, minha avsinha?

    Mas mesmo assim, Senhor! Senhor d'esp'rana!
    Como devo soffrer perseguies?
    (Eu concordo)  legitima vingana?

    Ah no! eu no descendo de lees
    Nem da vil cobra que se vae de rastros,
    Que s concebe e d  luz traies!

    Nem dos pinheiros altos como mastros
    Nem das agoas que vo regando os milhos:
    Ns os poetas descendemos de astros,

    Ns os poetas, Senhor! somos teus filhos!
    ... Assim scismava eu pelo mar alto
    Sob o luar partindo-se em vidrilhos...

    Quando n'uma manh de azul cobalto,
    Ao acordar, me vi no claro Tejo
    Orei a Deus. E logo sahi d'um salto.

    Mezes passaram, longos! que nem vejo
    Que differena em seculos, ou mezes:
    O tempo marca-o a ancia do Desejo!

    Que fazia eu? Nada. Scismava, s vezes,
    Errante, ao Deus-dar da vida:
    Sempre assim fomos ns, os Portuguezes!

    Ora em dia de Santa Apparecida
    (Mais uns minutos, esperae, Senhores,
    Que eu acabo esta historia to comprida),

    Errava n'um montado entre pastores
    Quando, subito, vi uma Donzella
    To linda! n'um Solar, colhendo flres.

    Oh doura de carne ou de estrella!
    Que esvelteza e que graa de alfenim!
    Meu corao disse-me baixo:  ella!

    Qual de vs, Homens! J no teve assim
    Uma vizo, vendo erguer-se entre
    Nuvens, a vossa torre de marfim?

    Deixae que a minha alma se concentre.
    Deixae! que esse dia  maior que quando
    Minha Maesinha me pariu do ventre.

    Quedei-me, ao vl-a, em extasis olhando.
    Dobraram-se-me os joelhos e ajoelhei;
    Meus labios moviam-se... rezando!

    Quem ser ella? a filha d'algum Rey?
    Atraz seguiam-na duas aias velhas:
    Quem ser ella, quem ser? No sei.

    Era em Agosto. O sol ardia. Abelhas
    Voavam, ao sol, emquanto ella lia
    Um livro de horas com folhas vermelhas.

    Que paz! nem uma arvore bulia!
    E callavam-se as fontes! Que doura!
    Mas de repente uma voz chamou: Maria!

    Maria se chamava! Oh que ventura!
    Partiu. Eu quiz seguil-a, mas no pude!
    Que torpor esse que ainda hoje dura!

    A virgem me proteja e Deus me ajude!
    Vae alta a noite, eu caio de fadiga,
    Bambas as cordas do meu velho alade!

     Genio, no te partas sem que eu diga
    O encanto, mais a graa encantadora
    D'aquella virgem Castell antiga.

    Minha fronte vergou-se, scismadora:
    --Quem ser ella, mystica vizo!
    Parece com seu Ar Nossa Senhora!

    Mas eu j tive tanta decepo
    (Lde, lde, o principio d'esta historia)
    Que contive essa subita paixo.

    Tudo na Vida engana, at a Gloria.
    Para deixar de o crr fra preciso
    Lavar no Lethes minha fiel memoria.

    Assim pensava eu, meio indecizo,
    Quando na estrada junto a mim passava
    Um velhinho a rezar ao Paraizo.

    N'um cajado de lodo se apoiava.
    E detinha-se, s vezes, um momento,
    Erguia ao cu o olhar, e suspirava.

    As barbas brancas, fluctuando ao vento;
    Devia ter um seculo de idade
    E talvez vinte ou mais de soffrimento!

    Parou ao vr-me e olhou-me com bondade:
    Depois na sua voz meiga de briza:
    --Uma esmola, Senhor, por caridade!

    Uma lembrana dentro em mim se enraiza.
    --Dou-te, bom velho! tudo que quizeres,
    Se em troca me ds vestes e camiza.

    O velhinho sorriu como as mulheres.
    A quinzena me deu, e eu dei-lhe a minha,
    Que na botoeira tinha malmequeres...

    Ninguem a essa hora pela estrada vinha.
    Tudo despiu, me deu: fiquei perfeito.
    E eu dei-lhe em troca tudo quanto tinha.

    Mas no estava ainda satisfeito,
    As suas barbas brancas eu queria,
    Comprar-lh'as era falta de respeito!

    Comprar-lh'as nunca eu me atreveria!
    Mas o bom velho o pensamento ouviu,
    Que aquelle olhar excepcional ouvia.

     grandes barbas! que ainda ninguem viu!
     grandes barbas! como eram bellas!
    Tal como outrora as de D. Joo, em Diu!

    --No lh'as vendo, Senhor! mas dou-lh'as, quel-as?
     povo portuguez! quanto s sympathico!
     povo portuguez das caravellas!

    Cortou-as. Deu-m'as. Eu fiquei extactico.
    Beijei-lhe as mos curvado... E o bom velhinho
    L se foi, a scismar... tossindo... asthmatico...

    O sol cahia ao longe no caminho!
    No tarda a noite, j lhe sinto os passos,
    Mas ha tempo: ella anda devagarinho.

    Enfarpellei sem grandes embaraos;
    A toillete tem poucos elementos,
    Muitos remendos sim, rotos os braos...

    Perdia-se o velho, ao longe, em passos lentos;
    Que nome tens, amigo? lhe gritei.
    Manoel. E digo eu, dos Soffrimentos.

    Cahia a noite: com pressa caminhava.
    Segui os passos deixados por Maria
    Que flres na mo, andando, desfolhava.

    No era aviso que assim daria?
    O meu olhar teria percebido?
    Que luz d'esperana a minha alma via!

    Entrei no pateo, Senhores! Mas que atrevido
    Iro achar o pobre esfarrapado!
    Um mendigo velho... e to mal vestido!

    Pedi esmola e parei sobresaltado.
    Emquanto alguns me enchiam a saccola
    Um olhar lindo em mim era fixado.

    E que olhar p'ra mim! tanta doura evola!
    Senhores, eu no me tinha enganado...
    (Assim julguei ento... a Vida foi-me escola!...)

    Ella passou, de manso, para o meu lado
    E murmurou o meu nome, assim, baixinho...
    Disse-me depois que o houvera sonhado!
    ..........................................
    ..........................................

            THEREZA

    --E depois, menino, sabemos j o resto...
    Para que mortifica assim o corao?

    --Ai minha Thereza! tu tens talvez razo:
    Esse amor primeiro foi-me to funesto!

    O os meus dias idos em contemplao!
    O os meus loucos sonhos que d'ahi eu trouxe!
    Fallava eu s flres, como se ella fosse:
    Maria eu lhes chamava, cego de paixo.

    Hei-de gravar-te em bronze e tornar-te immortal!
    Eu hei-de lanar o teu nome aos quatro ventos!
    Eu, o humilde Snr. Manoel dos Soffrimentos,
    Eu, por graa de Deus, poeta de Portugal.




    --Quem , Thereza, que bate  porta
    Quem vem a esta hora quebrar meu somno?
    --Ninguem , meu Senhor, a noite  morta,
    So folhas a cahir, que  j outomno...

                   Quando eu era moa e menina,
                             A-i--i!
                   Um velho, um dia, leu-me a sina.
                   Ha que tempos que isso l vae!
                             A-i--i!

                       (O vento continua uivando).

    --Quem , Thereza, que oio clamores,
    Vae vr  porta, vae n'um instante!
    --Socegue, durma, so os lavradores,
    Que passam para a feira d'Amarante...

                   E v de roda! e v de roda!
                             Ol!
                   E vira e vira e j virou!
                   E na tarde da minha boda
                   Houve baile, houve baile, ol!
                   Tomou parte a aldeia toda,
                   E v de roda! e v de roda!
                   Ol!

                       (O vento uiva sempre).

    --Quem , Thereza? quem , Thereza?
    Quem , Thereza, que bate  porta?
    --Olhe a Fortuna no  com certeza,
    Por isso... durma, durma, que lhe importa?

                       (O vento uiva, uiva).

    --No ouves, Thereza, tres pancadinhas?
    Vae vr:  a D. Felicidade.
    --Mas as senhoras no sahem ssinhas
    N'uma aldeia, nem mesmo na cidade...

                   Durma menino, a dormir
                   No soffre tanta paixo,
                   Os sonhos que lhe ho de vir
                   Afasto-os eu, com a mo.

                   Durma menino, a dormir
                   No ouve o seu corao,
                   E p'ra o ajudar a dormir
                   Eu canto-lhe uma cano:

    Era uma vez, n'um pao sobre o Tejo,
    Um moo Rey... de lindos olhos verdes;
    (Senhor! se a luz dos vossos, perderdes,
    Tereis os d'elle que sempre abertos vejo.)

    Andava o moo Rey com seu gibo
    De prata branca, reluzente d'oiros.
    Tinha em anneis os seus cabellos loiros,
    No cu era anjo e c... Sebastio.

                       (O vento geme, geme sempre).

    --Quem , Thereza? quem , Thereza?
    No ouves passos, que vo pela serra
    No ouves gritos, quem , Thereza?
    -- D. Sebastio que vae para a guerra.
    .......................................
    .......................................




    Por uma tarde de chuvinha miuda e vento,
    D'estas tardes, meu Deus! que fojem os paquetes,
    E a chuva tomba sem parar um s momento,
    A chuva que parece de pontas de alfinetes,

    Por uma tarde triste assim,  que Anrique
    Partiu. De novo abandonou o seu solar.
    Da sua aldeia os pobres pedem-lhe que fique,
    E Thereza bem faz tambem pelo guardar.

    Por uma tarde de chuvinha miuda e vento,
    Anrique foi bater  porta d'um convento.
    Bateu  porta, um Frade veio-lhe fallar.
    Que desejaes, Irmo? e respondeu: Entrar.

    Frades! meus Frades! ai abri-me a porta!
    Abri-me a porta, que eu pretendo entrar.
    Eu trago a alma toda ferida, morta,
    S vs, Fradinhos, m'a podeis curar!

    Ha quantos annos vs estaes fechados
    N'estas muralhas de granito e cal!
    Ah se soubesseis, Frades corcovados!
    O que vae l por fra, em Portugal!
    ...................................




    Anrique, at que emfim cedes s magoas!
    At que emfim eu vejo-te chorar!
    Chorae, chorae,  longos fios de agoas!
     olhos grandes como os globos do Ar!

    Ah chora Anrique, chora nos meus braos
    O moo Poeta que te est a cantar!
    Choremos entre beijos, entre abraos,
    Tambem eu choro por te vr chorar!

    Ah chora Anrique, chora, no te escondas!
    Tens pudor que te venham encontrar?
    Choram os cannaviaes, choram as ondas,
    S os cynicos no podem chorar!...

    Ah chora, Anrique, chora no meu peito,
    Assim baixinho, lento, devagar!
    Custa-te muito? no ests affeito!
    Chora, meu filho, que  to bom chorar!

    Anrique ouve-me bem, minha criana!
    Nem tudo se perdeu com o teu Lar.
    Ainda tens na vida uma esperana...
    Meu pobre Anrique, s to lindo a chorar!

    Teu corao est morto, bem morto.
    Nada no mundo o poder salvar.
    Ah! moo que tu s, que desconforto!
    Tens razo, oh se tens! para chorar!

    Tens razo, Anrique; mas no emtanto,
    Quem soffreu como tu sem descanar,
    Anrique, ou d n'um cynico, ou n'um santo:
    No s cynico, no, sabes chorar.

    Ouve-me, Anrique: n'esses cus existe
    Um homem, Pae da Terra e mais do Mar,
    Que fez o Mundo (por signal to triste)
    E os olhos, no p'ra o vr, mas p'ra chorar.

    V! offerece-lhe a tua mocidade.
    V! vae soffrer por elle e trabalhar.
    Ah bem sei que custa tanto, n'essa idade...
    Mas que has-de tu fazer? Chorar? Chorar?

    No tens na vida uma alma amiga
    (Tu bem no sabes) para te amparar.
    S eu, embora curvo de fadiga,
    Tenho paciencia p'ra te ouvir chorar!

    Todos os mais, malvados e egoistas,
    (Que tudo a Deus, um dia, ho de pagar)
    No te poriam nem sequer a vista,
    Fugiriam, ao verem-te chorar!

    A adversidade  uma maravilha
    Que certas almas sabem respeitar,
    Mas aos olhos dos mais a dr humilha...
    Ah quanto  grande vr um rei chorar!

    Ah pensa, pensa bem na tua sorte,
    Cautela, Anrique, nada de brincar.
    Ha outros males piores do que a morte,
    Cautela, Anrique, vamos trabalhar.

    Vae trabalhar por Deus.--Mas como e aonde?
    No vos disse que morto  Portugal?
    P'r'o trabalho quem antes era conde!--
    --Ai meu Anrique, no te fica mal!

    No me dizes que l por Portugal
    Andam as almas todas quebrantadas?
    Vae, meu filho, vae para Portugal
    Vae levantar as flores, j to quebradas.

    Anda, meu filho: vae dizer baixinho
    A esse povo do Mar, que  teu irmo,
    Que no fraqueje nunca no caminho,
    Que espere em p o seu D. Sebastio.

    Anrique, vae gritar por essa rua
    --Vir um dia o Sempre-Desejado!
    Deu a vida por vs, Tu, d-lhe a tua,
    Esquece n'elle todo o teu passado.

    Procura bem Anrique, em Portugal;
    Procura-o na flr das primaveras,
    Procura-o na sombra do olival;
    Procura  luz de todas as chymeras...
    .....................................
    .....................................




INDICE
Pag.
    Prefacio                                   5
    I.--Sonetos:
          1 a 25                          3 a 27
    II.--Outras Poesias:
          Eu chegra de Frana                31
          Ladainha da Suissa                  33
          Confisso d'uma rapariga feia       37
          Affirmaes religiosas              39
          Ares da Andaluzia                   41
          Contas de rezar                     45
          A Ceifeira                          50
          Sensaes de Baltimore              51
          Ao Mar                              52
          Dispersos                           53
    III.--O Desejado                          61


_Acabou de se imprimir este livro aos dezoito de maro de 1902 segundo
anniversario da morte do Poeta_





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received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.net

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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