The Project Gutenberg EBook of O Carrasco de Victor Hugo Jos Alves, by 
Camilo Castelo Branco

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Title: O Carrasco de Victor Hugo Jos Alves

Author: Camilo Castelo Branco

Release Date: October 4, 2009 [EBook #30176]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-15

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CARRASCO DE VICTOR HUGO ***




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                               O CARRASCO

                                   DE

                          Victor Hugo Jos Alves


                               O CARRASCO

                                   DE

                          Victor Hugo Jos Alves

                                   POR

                         CAMILLO CASTELLO BRANCO


                                  Os cantar un estrao cuento
                                  que no le avreis oydo tal en
                                  toda vuestra vida.

                                      M. CERVANTES--_Novellas_.


                                  PORTO
                            LIVRARIA CHARDRON
                       DE Lello & Irmo, editores
                                  1902.


                        _Porto--Imprensa Moderna._




I

A LUVEIRA DA RUA NOVA DA PALMA


    Il y a ici quelque chose... une fleur... cherchez!

                    SAINT-BEUVE, Portraits des Femmes.


 volta de uma mesa do _caf Martinho_, em Lisboa, estavam, por 1857,
cinco ou seis sujeitos saturados de politica. Estava tambem eu em
principio de _saturao_--palavra pedida de emprestimo  chimica para
bem materialisar a ida do corpo abeberado d'aquelle civico enthusiasmo
que salva as naes... nos botequins.

N'aquella noite, os meus interlocutores eram todos mais ou menos
republicanos. Havia tal que dizia acreditar na metempsycose, porque
sentia dentro do seu ventre os figados de Robespierre; e outro, que
arredondava musicamente os periodos corrosivos, revelava-nos, com
modestia parelha do talento, que sentia coriscar-lhe no craneo o
crebro de Mirabeau;--coriscos, se o eram, todos para dentro; que do
fogo, que lhe faiscava da fronte, no havia que receiar combusto em
armazem de sulphureto de carbonio.

Os outros no me lembra quem tinham dentro de suas pessoas.

Pelo que me diz respeito, recenseando longa fileira de defuntos
historicos, suspeitei ser eu a paragem de dois pedaos transmigrados, um
de Falstaff, outro de Sancho, por me sentir rasamente lerdo  beira
d'aquellas pessoas trabalhadas por crudelissimas almas de torna-viagem.

Suppunha Gerard de Nerval, que Mry, pela admiravel intuio que tinha
das coisas da India, devia ser a metempsycose d'um mouni do Indosto na
pelle d'um marselhez; ora eu, se  licita a comparao ambiciosa, 
vista da sisuda pachorra com que assistia aos projectos regicidas
d'aquelles cavalleiros andjos, devo presumir que ha em mim o que quer
que seja do pagem do cavalleiro triste, antes de intontecido pelas
lisonjas dos ilheos que o degeneraram.

Havia ali um que esmurraava o marmore das mesas, protestando que os
thronos seriam aluidos, quando a lava, escandecente no seio da
Liberdade, irrompesse, resfolegando para si os monarchas, e revessando
para fra, com o novo baptismo de fogo, uns evangelhos novos.

O meu terror foi grande. Encarei n'aquelles homens exterminadores, e
agourei-lhes mentalmente que morreriam justiados para descano do
genero humano, e particularmente dos possuidores de inscripoens e
outros fundos.

Agora  de saber que todos aquelles regicidas, hoje em dia, vampirisam
as veias desangradas do paiz, pisam alcatifas do pao, e fumam, nos
aposentos dos camaristas, charutos da munificencia real, pelos quaes se
lhes vaporaram os figados de Robespierre, o encephalo de Mirabeau, e
toda a mais peonha que lhes petrolisava as entranhas, tirante a do
estomago, que ainda  corrosiva, como sempre.

Revertendo aos assumptos debatidos n'aquella roda de trogloditas, cujas
caras a lavareda do ponche azulejava terrificamente, dizia um que os
monarchas lusitanos, em seculos de bons costumes e f viva, procreavam
filhos illegitimos.

Esta noticia fez-me calafrios.

Em confirmao da these, individuou o sujeito, com prodigiosa retentiva,
os filhos bastardos de cada soberano, e no smente os abonados pelos
chronistas, seno outros muitos denunciados pela tradio, e sonegados
pelos historiadores em preito a insignes familias.

Occasionou-se-me ento o ensejo de observar que o senhor D. Miguel de
Bragana, bem que malsinado de frasqueiro e muito dado a damarias, no
deixra filhos illegitimos reconhecidos, ou sequer suspeitos: d'onde eu
inferia que a calumnia superfluamente lhe encarecra os vicios, no
querendo imputar-lhe smente  descultura do espirito e aos ruins
companheiros da mocidade os funestos casos do seu reinado.

Redarguiu de prompto o malsim das reaes progenituras que o snr. D.
Miguel podia ser menos fecundo que seus avs, sem ser mais casto que D.
Diniz; e acrescentou que affirmava a existencia de filhos do principe
proscripto, e me desculpava da ignorancia por eu ser da provincia, e
desconhecer as entranhas tuberculosas da crte.

Estimulado por este dizer oriental e therapeutico, pedi que me dissessem
quem eram os notorios filhos do snr. D. Miguel Maria do Patrocinio.

O sujeito interrogado nomeou cinco ou seis pessoas de ambos os sexos,
umas que eu conhecia de vista, e outras dos appellidos heraldicos dos
seus progenitores legaes.

Feita a resenha, um dos circumstantes ajuntou:

--Ainda te falta uma.

--Quem ?--acudiu o outro.

--A luveira da Rua Nova da Palma.

-- verdade... a luveira, a mais sympathica e adoravel e florida
vergontea d'um tronco rodo e verminoso. Hei de mostrar-lhe a voss a
luveira, a dce creatura que faz lembrar a borboleta iriada que sau de
uma crysalida paludosa. Quer?

--Com a mais ardente curiosidade--respondi.

--manh.

No dia seguinte, o pontual amigo levou-me  Rua Nova da Palma, e ahi
entramos em uma pequena loja de luvas e camisaria.

A dentro do balco estava sentada a costurar uma senhora, singelamente
vestida, e formosa quanto a mais descompassada phantasia podra cobiar.
Figurava, quando muito, vinte annos; mas eu j ia prevenido de que ella
no podia contar menos de vinte e sete; e, se o no fosse, desde logo,
em vista da sua edade apparente, refutaria a procedencia que lhe davam,
se queriam que houvesse nascido durante o reinado de D. Miguel.

Jos Parada cortejou-a gravemente, chamando-lhe D. Maria Jos. Ella
recebeu o cumprimento com agraciado rosto, e correspondeu  minha
cortezia, depois que lhe fui apresentado como homem de letras...
maiusculas, minusculas, cursivo, bastardinho, etc.--letras, que, longe
de serem ganancia, seriam o desdouro d'um cambista e a fallencia de dois
bancos.

Logo percebi que a dama luveira era mais ou menos entendida em romances,
pelo benevolente sorriso com que acceitou a minha apresentao; e tambem
observei, de passagem, que esta senhora, se estimava livros, no se
parecia extremamente com os avs--dessimilhana, porm, que no fazia
implicancia  magestade da sua origem.

No duvidei, por tanto, que D. Maria Jos em verdade houvesse a prosapia
realenga que lhe attribuiam; antes me quiz parecer que o seu porte
altivo sem soberba, e um certo natural nada commum, sem laivo de
artificio, estavam inculcando uma senhora de fidalga condio.

--Aqui tem uma filha do snr. D. Miguel de Bragana--disse o meu amigo
com urbana e grave seriedade, mais do que eu esperava de tamanho
republicano; e ajuntou logo, coherente com os seus principios:--N'esta
honrada posio  que eu unicamente respeito os descendentes dos reis.
No sublime abatimento do trabalho  que as pessoas, nascidas para a
ociosidade principesca e devoradora das naes se me figuram regeneradas
para a humanidade laboriosa, e repostas pela mo do Christo na plana da
egualdade a que elle chamou todos os filhos de Deus. Deante d'esta
operaria, sinto o reverente enthusiasmo que os abjectos sentiriam se a
vissem a roagar nos pavimentos vellosos da Ajuda o manto de princeza.

D. Maria abaixou ligeiramente a cabea, depois de haver relanado os
olhos com suave magestade ao rosto do seu admirador. E eu, que tinha
entrado com animo indisposto para to solemne colloquio, compenetrei-me
de involuntaria sisudeza e compostura como se ali estivesse uma princeza
de lista civil, uma genuina vergontea das senhoras Dona Carlota de
Bourbon e Dona Maria de Saboya.

Como sou de natureza bastante monarchica, e fui creado com o bom leite
do antigo amor portuguez aos seus reis, grande foi o enleio em que me
vi, rosto a rosto de to egregia dama!

Com quanto acatamento e cortezania pude, enviei-lhe umas tartamudas
palavras significativas de respeitosa vassallagem. E ella, sem
descompor-se do seu palaciano aprumo, proferiu estas vozes:

--Contento-me com ser respeitada como costumam sl-o as mulheres que
vivem decorosamente. Algumas vezes tenho sido alvo de motejos por
ser filha de um principe desafortunado; mas ainda no fui escarnecida
por quem pudesse reprehender os actos da minha vida. O ter nascido
grande no deve desmerecer-me pela resignao com que me sujeito 
humildade da minha posio.

E, levantando-se, foi vender um peito de camisa a uma mulher que lhe
chamava Dona Mariquinhas.

Pouco depois entrou na loja um rapaz, asseiado a primr, mui fragrante
de cosmeticos, e todo elle uma bonita caoula a recender perfumes de
mocidade. O meu amigo apertou-lhe a mo, chamando-lhe Raul Baldaque, e
acotovelou-me. No percebi o intento espirituoso do cotovelo de Jos
Parada.

O paralta encarou-me do alto da sua importancia, arregaando a face
direita para prender no olho correspondente um vidro. N'aquelle olhar
preponderante, o sujeito parecia querer-me annunciar que era o filho
unico do famoso capitalista conde de Baldaque, chegado da America, seis
annos antes.

Sahimos os dous sem haver dispendido no estabelecimento mais que o ouro
puro das nossas phrases. Eu ainda quiz comprar duas camisas e um par de
luvas verde-gaio; mas acanhei-me de mercadejar com tamanha senhora,
receiando desafinar da linguagem aulica e tom de crte em que no fui de
todo bajoujo.

Contou-me, depois, Jos Parada que D. Maria Jos de Portugal, a luveira,
havia sido requestada, para casamento, de homens no s abastados, mas
tambem fidalgos da raa cavalleirosa e da industrial, e at--o que mais
importa--de litteratos.

--No duvide voss--proseguiu elle, derivando do meu ar desconfiado a
incredulidade com que escuto, em geral, historias de desprendimento,
quando so de ouro os ganchos com que a alma d'um homem pretende
acolchetar-se na alma d'uma mulher.--No duvide--insistiu Parada.--Eu
no fao romances, nem invento prodigios. Nego a existencia da virtude
em quanto a no palpo e lhe no sacudo a poeira dos preconceitos; mas se
chego a convencer-me, o systema de duvidar no pde tanto comigo, que,
por amor de seita, hesite em crer que ha princezas no refesteladas em
almadraques de setim, princezas que no disputam s naes pobres a
enxerga dos desherdados, para quem o dormir  a consolao da fome.

D'este phraseado bem  de perceber que o meu interlocutor no erguia mo
de sobre a mais singela resposta sem lhe esponjar exordios para discurso
sedicioso.

No inquiri quem fossem os ricos e fidalgos pretendentes de D. Maria
Jos de Portugal; quanto, porm, aos concorrentes litteratos, desejei,
por affecto  classe, reconhecer os meus collegas, ambiciosos de se
aparentarem to affins com a casa reinante. Satisfez-me a curiosidade o
meu amigo, nomeando um poeta de piano, um prosador de calendario, um
redactor do _Jardim das Damas_, charadista historico dos almanaks de
Castilho. D. Maria Jos havia recusado as mos d'estes litteratos pobres
assim como j tinha recusado os ps d'alguns capitalistas.

E acrescentou Jos Parada:

--Um homem que morre por ella  aquelle Raul que l ficou na loja. Ali
tem voss um rapaz que ha-de herdar mil e duzentos contos. A figura 
correcta, no acha? D jantares, e empresta dinheiro aos convivas
insoluveis, que o lisongeiam e escarnecem alternadamente. As mulheres,
que o amam, so tantas como as abelhas  volta d'um favo que tem dentro
a essencia de todas as flores de mil e duzentos contos. Pois sabe que
mais? quer um milagre em pleno seculo XIX? A luveira repelle com fidalga
delicadeza, e ouve com supremo desdem a apotheose dos milhes do conde
de Baldaque. No  isto, em tempos de infame positivismo, um caso
assombroso?

E concluiu emphaticamente:

--Quando as filhas dos marquezes, com dezoito avs aforados, no se
desaforam, confundindo nas veias dos filhos o seu sangue ostro-godo com
a lama dos argentados escapados ao cruzeiro, no  de espantar que a
obscura filha de um principe, pobre e chasqueada, recuse abastardar a
sua regia stirpe, adjudicando-se ao ouro de um plebeu? Devo repetir-lhe
que desprzo o prejuiso das distinces, posto que procedo de avs
honrados no servio da patria; entretanto, se os instinctos fidalgos
alam o espirito ao de cima das idas villissimas d'esta quadra de
chatins, eu me curvo ento, repassado da religiosa reverencia, e
comprehendo que a nobreza das indoles no  phantasmagoria obsoleta;
ser antes divina loucura, se de uma parte reluz a pobreza radiosa com a
sua aureola do trabalho humilde, e da outra rutila a fascinao
explendida dos milhes.

--_Puff!_--disse eu entre mim--ou mais exactamente, disseram dentro de
mim o pedao do Falstaff ao pedao do Sancho.

Aquelle _puff_, interpretado pelos glossologicos da ultima camada, quer
dizer: Bem me fio eu em ti e n'ella!




II

PERFIL DE VICTOR HUGO JOS ALVES

    Personne de servile condition et de race servile.

                        AMYOT, ALCIB., Vers. de Plut.


Tudo quanto este homem arengou me pareceu acertado.

A luveira no se me delia da ida.

Ao outro dia fui l, resolvido a derrear bastante o estylo, de feio
que me no ficasse canhestro comprar, nem a D. Maria Jos de Portugal
vender, seis collarinhos. Por onde, a toda a luz se mostra com que
innocentes intenoens l fui.

N'este proposito mercantil, entrei; mas, feita a cortezia, no pude
aparrar a linguagem ao raso de um freguez de collarinhos.

No se pde. Um homem capaz de aconsoantar uma quintilha, no sabe
regatear com damas camisolas de flanella. O que logo lembra, em
presena da filha de um principe, se ella  bonita, e os amores lhe
esvoaam  volta da regia fronte,  a mandra dos provenaes, o
enamorado Macias, as trovas suspiradas no harpejar do bandolim, 
barbacan do castello, ou mais dentro, se  possivel.

Assim foi que nossos decimos avs, se eram menestreis e cytharistas,
procederam com as filhas e aafatas dos reis, no contando com as
portuguezas, tirante as inspiradoras de D. Joo da Silva[1] e
de Bernardim Ribeiro--que as restantes princezas saram todas muito
descaroadas de poetas, de theorbas e cytharas, bem que a musica foi
sempre bemquista dos nossos monarchas, desde D. Pedro I, que tangia
trombeta bastarda, at D. Joo IV, que tocava tudo, compunha motetes, e
escrevia livros cerca da musica. E, se D. Joo V no exercitava
pessoalmente a formosa prenda, folgava de ouvir retroar os cento e
quinze badalos do carrilho de Mafra, que comprou por mil e trezentos
contos de reis. Depois, encontramos o snr. D. Joo VI cantando psalmos
entre os seus frades; e, hoje em dia, o snr. D. Luiz I, basso
primoroso, revive os saraus melicos da sala da Ajuda, como elles foram
em Queluz, quando, na orchestra real, regida por David Peres, se viam as
loiras infantas de Bragana tocando rebeca.

Revertamo-nos, em boa hora, ao conto.

Estava a dama lendo a _Nao_. Depoz cortezmente a gazeta para me
attender. Pedi-lhe que por minha causa no interrompesse leitura to
lenimentosa para as dores do seu filial corao. D. Maria Jos,
penhorada por estas suaves expressoens, fitou-me brandamente e murmurou:

--Mal sabe......

--O qu, minha senhora?

--Quantas lagrimas eu tenho chorado sobre este jornal...... lagrimas
inuteis, que fariam at sorrir de piedoso motejo as pessoas felizes......

Todas as fibras sensiveis e sonoras da minha alma se desataram ento em
plangentes melodias de coisas, de que no tomei apontamento; porm, taes
e to insinuantes lh'as influ no animo, que vinguei merecer-lhe
confiana e desafgo de sentimentos circumspectamente abafados.

Esta confiana, com as visitas diarias, fez-me digno de lhe ouvir,
interpoladamente, revelaoens que vou compendiar, de mistura com
esclarecimentos obtidos, Deus sabe com que perspicacia e finura.

D. Maria Jos havia nascido em Lisboa, no anno de 1832. Seu pae era o
snr. D. Miguel de Bragana, rei n'aquelle anno. Sua me tinha sido D.
Marianna Joaquina Franchiosi Rolim de Portugal, senhora portugueza,
nascida em Lisboa, e descendente de fidalgos de rgia plana por
bastardia, como ao diante se dir. Vivra D. Maria em companhia de sua
me, rodeada de pompas, aias, mestras e caricias, at  edade dos quinze
annos. Lembrava-se de sua me ter carruagem brazonada, librs, e
relaoens de grande posio na aristocracia; e, em meio d'esta
disfarada felicidade, a vira frequentemente lavada em lagrimas, que de
dia para dia lhe iam desbotando a formosura deslumbrante.

Observou mais que as alfaias valiosas desappareceram umas deps outras;
que a sege foi vendida; que os convivas rarearam  mesa; que os hospedes
da noite foram tambem rareando, e que em fim ninguem entrava na casa
desbalisada de sua me, seno duas senhoras de baixa origem que a no
desampararam at  morte.

Lembrava-se tambem de que sua me, nos derradeiros annos da vida, abrira
um hotel; e, n'essa posio decahida, morrra.

A morte de sua me no sabia ella dizer se foi natural, se violenta.
Conjecturava, porm, que houvesse sido suicidio com veneno contido em um
frasco de crystal, que depois se encontrara vasio. Era esta hypothese
confirmada pelo caso de sua me, na vspera do dia em que se finou, lhe
haver dado um cofre de sandalo, dizendo que lhe no podia legar outro
patrimonio; mas que, n'aquella caixa, encontraria titulos que a
elevassem sobranceira s primeiras senhoras de Portugal.

Ora o cofre encerrava cartas do snr. D. Miguel--cartas que ella me no
mostrava por conterem coisas intimas e segredos de estado de maximo
melindre.

Fallecida D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolim de Portugal, a orph,
que ento vicejava uns quinze annos, como facil me foi imaginar-lh'os,
passou para a companhia das duas mulheres, unicas pessoas que assistiram
aos funeraes de sua me.

Por conselho d'estas, escreveu a alguns homens insignes e relaoens de
sua casa, participando-lhes que estava orph. Contava ella que cada
palavra escripta lhe custava uma lagrima por sentir-se abatida n'aquella
mal dissimulada supplica de esmola. Ninguem lhe respondeu, exceptuado um
agiota de raa judaica e humilde extraco que devia, no sabia ella
como, a sua prosperidade  me, de quem havia sido escudeiro, mordomo,
ou coisa assim.

Quiz este homem leval-a para sua casa; mas, como ella se esquivasse a
deixar as duas senhoras, o generoso agiota offereceu-lhe abundante
mesada, que ella acceitou para soccorrer as amigas que a no podiam
alimentar e vestir sem sacrificio.

Aos desoito annos, D. Maria Jos alcanara notaveis conhecimentos
litterarios, sem descuidar-se de outras prendas mais caseiras e
accommodadas ao seu sexo.

N'aquelle anno de 1850, falleceu o caridoso rebatedor, testando  filha
de D. Marianna de Portugal nove contos de reis em inscripoens e um
predio pequeno na rua Nova da Palma.

Longo tempo indecisa no destino que melhor lhe quadrava, foi habitar a
casinha herdada, porque, primeiro que tudo, almejava a soledade, a
tristeza, o recolhimento, a leitura, o chorar sem testimunhas nem
consolaoens importantes. Os ultimos lances da vida de sua me, e a
penuria do seu proscripto pae davam-lhe horas muitissimo amarguradas.
N'aquella doentia compleio havia que receiar quebra de juizo por
excesso de sensibilidade, ou morte prematura.

Divulgou-se a residencia da filha de D. Miguel. Muita gente duvidou-lhe
da filiao. Outra acreditou, poetisando o caso de sua natureza prosaico
e vulgar como todos os phenomenos d'esta especie. Uns e outros, ainda
assim, forcejaram debalde por vl-a.

D. Maria Jos, ao abrir da manh, em dias santificados, ia  missa
d'alva, e voltava a horas em que nenhum homem de siso saira da cama
para vr a propria Semiramis.  casa da Rua Nova da Palma entravam
apenas as duas amigas de sua me, conhecidas pelas Picas, e presumidas
descendentes bastardas dos condes de Povolide. Com certeza, porm, estas
duas irms, Rozenda e Euphemia, nasceram e criaram-se na casa chamada
das Picas, onde seu pae tinha sido estribeiro-ferrador, e sua me ama
scca dos fidalguinhos.

Redarguindo contra este argumento dos linhagistas de estrebaria, Rozenda
e Euphemia asseveraram--por lh'o haver affirmado a me com tal qual
competencia, ao que  de suppr--que o pae d'ellas no era o ferrador;
mas sim um monsenhor parente da casa. No me recordo bem se diziam
monsenhor da patriarchal, se dom abbade de bernardos, declaro. N'este
livro, se alguma vez a verdade gretar,  involuntariamente. Assim que
me pruem escrupulos, coo-os com a rectificao. Escrever para a
posteridade  assim.

Aquellas duas senhoras, ambas prolificas, iam com os seus meninos j
pennugentos de buo a casa de D. Maria Jos; e uma d'ellas, D. Rozenda
Pica, proprietaria d'um hotel na Travessa do Estevo Galhardo, levava
comsigo um filho j barbaudo que dizia ser litterato-politico, e se
chamava Victor.

Este sujeito  quem nos botequins andava pregoando a belleza e os dotes
espirituaes da filha do snr. D. Miguel; e to a miudo e encarecidamente
o fazia que sobrava raso a desconfiar que elle, amando honestamente D.
Maria, queria subir pelo estribo do av ao cavallo branco do timbre
ducal das armas bragantinas, ou guindar-se ao _banco de pinchar_, para
no ficar estatellado sobre o banco do ferrador. E D. Rozenda, me
d'este litterato-politico, algumas vezes deu a perceber  princeza que
as suas entranhas maternaes estremeciam de jubilo, quando sonhava com o
hymeneu de Victor e Maria.

 certo que a neta dos reis se nauseava, se a indiscreta albergueira
repetia similhante injuria; mas tanto era seu juizo que nunca levou a
desaffronta alm do silencio.

Convem saber que Victor, nos seus primordios litterarios, quando se viu
no Chiado, com a republica a fervilhar-lhe nos miolos, ajuntou ao
nome o sobrenome _Hugo_, crendo que o chamar-se _Victor_ era
predestinao que o fizera sahir j republicano da pia: e d'ahi o
assanhar-se contra os monarchas,  imitao d'aquella sublime vspa que
zunia estrophes demagogas em Gersey.

Obrigado pelo sobrenome, Victor fez versos vermelhos como sangue de
javali. As suas quadras cheiravam a gamella de fressureira. E tambem,
nas prosas d'elle, as testas coroadas no eram tratadas com mais
caridade que a syntaxe.

No emtanto, os criticos ordeiros, vituperando a ira republicana do
rapaz, diziam que no admirava raivasse tanto contra os nobres quem era
filho de um sapateiro, ao qual muitos fidalgos no haviam pagado os
remontes, e neto d'um ferrador a quem outros fidalgos no haviam pago as
ferraduras.

Esta matraca, impressa nas gazetas, desvairou o litterato que forou a
me a declarar pelos prlos que seu defunto marido no havia sido
sapateiro; mas sim negociante de couros. Ninguem contestou; j por ser
verdade, j porque ninguem podia desfazer na palavra da snr. Pica,
quanto  mercadoria do snr. Joo Jos Alves, seu marido. Pelo que
respeita ao ferrador, guardou ella judicioso silencio em atteno s
cinzas do dom abbade de bernardos.

Manteve-se o politico, no obstante, socialista e orador de assemblas
populares at 1854. N'este anno, porm, ahi por maio, quando as arvores
florejam, e as calhandras trilam, e nas quebradas dos montes hervecidos
ornejam as poesias lyricas da preceptora de Balaam, achou-se Victor Hugo
Jos Alves invadido d'amor.

Se no amaria! Era maio portuguez, saso de paraizo terreal, em que a
todos nos quer parecer que o matrimonio foi inventado pelos cardeaes na
primavera.

Notou-se ento no paiz, e particularmente desde o Chiado at ao Rocio,
que o Hugo da travessa do Estevo Galhardo gorgeava umas endeixas
passarinheiras que ninguem creria destiladas do mesmo craneo que
trovejara Nemesis clangorosas de odes republicanas! Elle, o Victor, que
dissera em dous versos:

    Eu hei-de avassallar os reis ao genio,
    E pol-os histries sobre um proscenio,
    E... etc.

Elle, que escrevra aquillo, vinha agora offertando a uma
_mulher-rainha_ a monarchia da sua alma,  similhana de Filinto
Elysio que offerecra a sua em dous versos de um soneto salobro como
infuso de chicorea:

    Nise gentil, que at  sepultura
    Ters d'esta minh'al_ma a mona_rchia...

(No podia deixar de ter a drastica _mamona_ o verso).

Por algum tempo, o filho de Rozenda conciliou a mansido de bardo
amoriscado com as fumaas de publicista revolucionario; mas, por 1855,
encontra-o a historia litteraria e politica da Europa a desviar-se
notavelmente da vereda do Hugo, que lhe havia de ser bussola entre o
Marrare-das-Sete Portas e o templo da memoria, se elle antes no pudesse
trocar o nicho perpetuo do Pantheon por um logar vitalicio de aspirante
de alfandega de raia scca.

Este genio, cujas guedelhas serpejavam, revoltas e besuntadas, como
idas a espumejarem-lhe do cerebro  feio do muco esverdinhado que
esvurma das fauces de um chacal, revirou-se com effeito, perguntando ao
governo se era decoroso que a um filho do snr. D. Joo VI--a um rei
vencido e exul, se roubasse perversamente o seu patrimonio.

 casa do infantado, ao po do proscripto, que lhes fizestes, ladres?
bradava Victor Hugo Jos Alves no seu periodico socialista.

E acrescentava:

Roubastes o throno, desterrando o principe espoliado, como em
encruzilhada da Calabria. No vos bastava a usurpao de um titulo?

Roubastes o altar, expulsando os seus ministros mendigos. No quizestes
que sobrevivesse no cenobio um s homem de bem que testimunhasse os
vossos latrocinios!

Salteadores!

 barra!

Aos tribunaes! aos tribunaes!

N'aquelle tempo, o pudor dos ministros era mais historico e provavel que
o da Lucrecia de Collatino.

O ministerio publico deu a suspirada querella. Inaugurou-se, pois, o
martyrio do Victor Hugo portuguez. Condemnaram-no em vinte dias de
gloriosos ferros, e nas custas.

 o que elle queria.

Queria a hecatomba, para elle sosinho a gloria, que nos sacrificios
antigos tinham os cem bois: _hecaton_, cem: _bos_, boi. (Lardo de
erudio que no fecha as portas da academia a ninguem). Queria a
hecatomba, a via dolorosa da Boa Hora at ao Limoeiro, para depois,
nobilitado pelo holocausto, se consubstanciar no corao de D. Maria. O
carcere sorria-lhe como um templo em que, velando as armas, saira
de espora d'oiro, nobre e digno paladim da dama a quem se devotra,
apostatando do Evangelho de Mazini, de Cabet, e do Herminigildo do po
barato.

Declarou-se. Ousou remetter directamente  neta dos Braganas o
manifesto nem sempre humilde das suas aspiraes. Estabeleceu confrontos
de casamentos em que a desigualdade do sangue era retemperada pelo amor.

Respigando exemplos na propria familia da noiva requestada, contou a
alliana do representante dos senhores de Biscaia com uma neta de um
duque de Bragana. Bem  de vr que o filho de Rozenda ousava
equiparar-se aos senhores d'Azambuja e Val de Reis, inculcando-se
producto de coito damnado entre o dom abbade de Cistr e a ama scca dos
condes de Povolide.

E mais despejada petulancia foi livelar-se elle hombro a hombro com o
fidalgo gentilissimo de quem as mais augustas e bellas damas de Portugal
solicitavam  competencia um sorriso, um relance dos olhos requebrados,
uma phrase languida de deliciosa pachorra. Elle, Victor Hugo Jos Alves,
a medir-se com as graas plasticas do garboso mo de quem um principe
prussiano escrevera isto:... O marquez de Loul, com os vestidos dos
grandes de Philippe II, pareceria decerto um Buckingham, ou o
bem-quisto de todas as rainhas galanteadoras dos tempos feudaes... Esse
portuguez admiravelmente bello e verdadeiramente perigoso... tinha
enlouquecido tantas cabeas femininas...[2]

Como quer que parvoejasse em displantes de tal atrevimento, Victor
cerrava a missiva fazendo votos por que o mais ditoso lance de sua vida
fosse o instante em que elle Alves, dobrando os joelhos s plantas do
rei legitimo, pudesse exclamar: Pae, e senhor!

    Para servir-vos, brao s armas feito;
    Para cantar-vos, mente s musas dada.

Donde havemos de inferir que para uso de muitos tolos creou Deus as
mulheres formosas, e creou Camoens os formosos versos.




III

D. ROZENDA

                  Dizem que disse assim.

        BERNARDIM RIBEIRO, Menina e Moa.


D. Maria Jos de Portugal, bem que muito grata ao dendo civico do
litterato, no entendeu que as filhas dos reis desenthronisados devessem
pagar com a moeda do matrimonio um artigo condemnado, que, por via de
regra, os emprezarios das gazetas costumam pagar  razo de 800 reis a
publicistas de maior plpa.

Extremamente delicada, respondeu a Victor Hugo em termos pautados pela
mais atilada prudencia, mantendo-se na alteza da sua dignidade, sem
aviltar os brios do pretendente. Escreveu ella muito bem que as
mulheres, nascidas nas grimpas culminantes, estavam, por isso, nas
borrascas da vida, mais ao alcance dos raios da adversidade;--que no
podiam essas invejadas infelizes ser arbitras do seu destino,
principalmente, se, como ella, tinham pae a quem a proscripo,
usurpadora do throno, no podra usurpar direitos sobre a alma de uma
filha que o respeitava e adorava. _Etc._

Com os acicates do orgulho cravados no epigastrico, onde a sciencia diz
que as paixes amorosas espoream mais, replicou o bardo absolutista.
Dispensando os naturaes raciocinios que desfazem chimras de castas,
combateu as razoens de D. Maria de Portugal, inculcando-lhe a
procedencia visigothica de seu av D. Guterres Pelayo, e o parentesco
ainda no safado pelo atrito de dous seculos entre os duques de Bragana
e os condes de Povolide.

Maria no replicou, retransida de espanto. Sua me havia-lhe dito que as
duas irms estalajadeiras eram filhas do estribeiro da casa de Povolide,
e que Rozenda era viuva de um negociante de bezerro, que malbaratava os
seus haveres no partido dos Cabraes. Era-lhe por tanto espantosa nova o
parentesco de Victor Hugo Jos Alves com a casa real.

Como Rozenda a visse meditativa depois que leu a carta do neto de D.
Guterres Pelayo, perguntou-lhe o que tinha, suppondo que o amor
motivasse aquella abstraco.

A menina respondeu com innocente reparo que o snr. Victor lhe escrevera
coisas de fazerem receiar que elle tivesse a razo alterada.

Pediu explicaoens a sobresaltada me.

Hesitou algum tempo D. Maria Jos; mas, obrigada pelas instancias,
mostrou a carta.

O caro da viuva, j enfiado de susto, ganhou cres quando viu, no
contheudo da epistola, o infundado medo da menina.

--Ai! no se assuste, snr. D. Maria Jos...--disse Rozenda velhaqueando
certo pudor no tregeito das maxillas--Meu filho est muito em seu
juizo... Elle diz a verdade...

--Como?--tornou D. Maria Jos espantada--Pois a snr. D. Rozenda 
parenta da casa real?!

--Sou, sim, minha senhora--volveu a filha do ferrador, baixando os olhos
com pudicicia que parecia pedir misericordia para as fragilidades da
me. E proseguiu, tirando dois, suspiros do esphago, e rolando os olhos
na direco do co, d'onde provavelmente a estava ouvindo a alma do pae:

--Perdoae-me, minha santa me, se offendo a vossa memoria!

E, expectorando outro bafejo a modo de gemido puchado do diaphragma,
continuou:

--Minha me era galante, e foi educada no mosteiro de Odivellas, onde
tinha j estado tambem minha av, que era sobrinha de uma ama de leite
que creou um filho da freira d'el-rei D. Joo V, a qual freira se
chamava por signal a Gara, e o menino chamava-se Antoninho. No sabia
d'estes amores do rei com a Freira, snr. D. Maria?

--Ouvi contar...--respondeu a outra, um tanto pezarosa de recordar esta
fraqueza do seu quarto av.

--Talvez no saiba uma coisa que minha bisav contou a minha me... E
era que a freira recebia o rei na cella, e que o rei saa de l at 
portaria debaixo do pallio com a abbadea atraz e mais a communidade.

--No me conte similhante desatino, que isso  calumnia!--acudiu a neta
do fundador da egreja patriarchal de Lisboa.--Affligem-me...--tornou D.
Maria molestamente nervosa--Affligem-me essas funestas e deturpadas
paginas da historia de minha familia.

--Eram usos d'aquelle tempo, minha senhora--observou ethnographicamente
D. Rozenda Pica.--As freiras tinham enguios que enfeitiavam toda a
fidalguia e mais os frades, que era mesmo uma pouca vergonha--perde-me
a expresso, que no  muito civilisada. E ento o snr. D. Joo V? Isso
era um rato! Olhe que ajuntou na Palhavan tres filhos de
differentes mulheres! Mas bom pae era elle, honra lhe seja! Dizia minha
av que os poz todos ao servio da egreja, fazendo-os inquisidores, e
arcebispo um d'elles, chamado o _Flor da Murtha_. E os amores que elle
teve com aquella cigana, chamada Margarida do Monte...

--Acabe com isso, snr. D. Rozenda!--interrompeu D. Maria Jos offendida
pela teimosia de escavar escandalos nas cinzas do creador da capella de
S. Roque.

--Pois sim, menina, eu vou acabar o que tinha a dizer. Como eu vinha
contando, minha me foi educada em Odivellas com uma freira muito
pronstica, que eu ainda conheci na rua da Bombarda a viver com o
prgador da casa real, o padre Jos Agostinho de Macedo, muito amigo do
seu paezinho. Ora minha me casou com um sujeito que ella imaginava
cavalleiro, porque o viu a cavallo na companhia de alguns fidalgos que
namoravam as freiras; e, s depois que casou,  que soube que elle era
estribeiro dos condes de Povolide. Ora imagine, minha rica senhora, a
embaadella que levou a noiva quando soube com quem estava casada, tendo
rejeitado as offertas de muitos titulares que lhe tinham querido pr
casa e sege em Lisboa! Emfim, no havia remedio a dar-lhe. Resignou-se
com a sua sorte, e foi viver s Picas no palacio onde estava o
impostor do homem. Minha me era to querida das fidalgas que at a
levavam comsigo a visitas como aia e mestra dos meninos. Os senhores da
casa e de fra perseguiam-na de dr de ilharga, perde-me a expresso,
que no  muito civilisada; ao mesmo tempo que o libertino do marido
andava  gandaia por touradas e pagodes, sem se importar com ella. As
mulheres no so santas, no  verdade, menina? Minha me era uma
perola! Ai! que anjo do co aquelle! J no nas ha d'aquella raa!
Resistiu s tentaoens, passante de dois annos; mas, por fim, o corao
desconsolado da infeliz esposa enfraqueceu, e... rendeu-se!

Deteve-se D. Rozenda algum tempo recolhida na sua dr, e continuou:

--Depois d'aquella desgraa, nasci eu. Meu pae era um alto dignatario da
egreja, que morreu d'apoplexia, na vspera mesmo de um sabbado em que
tencionava reconhecer-me e fazer testamento a meu favor e da minha irm
Euphemia, legando-nos os appellidos e uma herana em harmonia com o
nosso nascimento.

Aqui, D. Rozenda, a malograda herdeira, limpou os olhos onde apenas
espumava a humidade serosa d'uma ophtalmia chronica. Depois, ajuntou com
suspirosas intercadencias:

--Minha pobre mezinha morreu de saudades de meu pae... sim, de meu
pae... quero dizer do outro, percebe a menina? O homem d'ella morreu
primeiro d'uma borracheira em Queluz, onde foi com os fidalgos de
bambochata. Achei-me ssinha com minha irman, tidas e havidas na baixa
conta de criadas de nossas primas. Esta posio no se dava com a
nobreza do meu sangue. Quiz vr se me admittiam como criada ordinaria do
pao. A mezinha de v. ex., que tinha ento muito valimento, e ns
conheciamos desde que a vimos, linda como as estrellas do co, a
passeiar leites na quinta das Galveas, pediu por ns; mas no havia
logar. Resolvi casar-me com o primeiro homem endinheirado que me fizesse
a crte, fsse elle o proprio diabo em pessoa. Appareceu-me neste
comenos o meu defunto Alves, que constava ter cincoenta mil cruzados em
sola e dinheiro. Casei-me. Ai! foi outra lograo como a que levou minha
me que Deus haja! Ora oia, menina. O meu esposo, desde que os
chamorros o fizeram pedreiro-livre e regedor, e lhe deram o habito de
Christo, no quiz saber mais de negocio. Entregou os armazens aos
caixeiros, que nos roubaram; e,  volta e meia, foi-se tudo, e aqui
fiquei eu viuva, na flr da edade, com o meu Victor no bero, e... quer
saber? Ainda tive de pagar as custas d'uma querella por causa d'umas
cacetadas que meu marido dizem que dera nas eleies!

D. Rozenda, neste agoniado lance da sua chronica, escumou os olhos com o
leno, e proseguiu, em quanto D. Maria a contemplava com enternecido
semblante:

--Poucas viuvas se portariam como eu me portei... ficando pobre e
bonita, sem amparo de alguem, seno da snr. D. Marianna de Portugal,
sua mezinha, que nos valeu em grandes aprtos...

--No esteja agora a lembrar-se d'isso, minha senhora...--atalhou D.
Maria Jos--Est bom, est bom, conversemos n'outra coisa...

--Tudo isto que eu disse--volveu a viuva do pedreiro-livre--veio a
proposito do meu filho escrever n'esta carta que os seus avs so
parentes da familia real. Se eu sou filha de quem sou, e elle  meu
filho como de facto , ninguem pde duvidar que nobreza no nos falta...
assim ns tivessemos dinheiro, no acha?--E ajuntou sorrindo e
festejando as faces de D. Maria com dengosas meiguices:--Socegue,
menina, socegue que meu filho no est doudo nem para l caminha. O que
elle aqui diz na carta  verdade pura, e bem certa estou que foi a
paixo que o obrigou a declarar isto; porque elle foi sempre republicano
e nunca se lhe importou com os avs; pelo contrario, quando eu lhe
contava quem era meu pae, o rapaz mettia-me a ridiculo, e at uma vez
lhe preguei uma bofetada por elle me dizer que acreditava que eu fsse
fidalga por ser muito burra.

D. Maria deu visiveis signaes de enfastiada da longa pratica, e assim
tratou de cortar o discurso por onde Rozenda pendia a lhe propr
francamente o enlace com o filho.

Voltando despeitada a casa, contou a albergueira o succedido, e concluiu
por estas acrimoniosas palavras aceradas com um perverso sorriso:

--Ella no quer casar com o nosso Victor... tu vers... Enfeita-se para
o primo duque de Cadaval provavelmente... Ora queira Deus que eu no
venha a pr-lhe a calva  mostra... O folheto ainda ali est na gaveta...

-- mulher!--accudiu Euphemia--no me falles no folheto, que j foi a
causa da morte de D. Marianna! Tu bem sabes que tudo que ali escreveram
 falso... No mettas a tua alma no inferno! Deixa-a l casar com quem
ella quizer.

Ora este folheto...

A seu tempo.




IV

O ESTOMAGO DE VICTOR HUGO

    Da vara de Epicuro idoneo porco.

            HORACIO, Epist., Liv. 1.


E o litterato, como a filha do infante lhe no contradissesse a linhagem
realenga, nem lhe nevasse desdens sobre o corao ardente, pediu
explicaoens  me, que lh'as deu, seno lisonjeiras, inoffensivas do
seu orgulho.

Era muito para lastimas vr aquelle rapaz to soberbo dos desaforados
brazoens que lhe procediam da deshonestidade da av! Tolejando chimeras
da sua mascavada jerarchia, cachoava-lhe o sangue como no empenho que,
mezes antes, desvelra em nivelar-se com a plebe, no intento de lhe
trepar aos hombros sordidos para de l ser visto. E ahi, no atascadeiro
da escumalha social, era elle mais nauseativo, porque toda a gente
limpa se arreda do cerdo que sahe d'um esgoto, sacudindo-se.

Operou-se, todavia, notavel mudana no genio e costumes de Victor Hugo,
restituido  liberdade. Os mais aristocratas fautores do grupo
absolutista acarearam-no ao seu gremio, s suas assemblas clandestinas,
s suas novenas secretas, e  sua maonaria, se tal nome quadra  ordem
de S. Miguel da Ala, na qual o adepto foi armado cavalleiro, chamando-se
_Fuas Roupinho_--nome de guerra.

Entretanto, a menina revelava-lhe candidamente sentimentos de affectiva
gratido, e folgava que elle se nobilitasse na convivencia de pessoas
distinctas e amigas de seu real progenitor, as quaes lhe confiavam
cartas do principe para que a filha as visse, e por ellas lhe repontasse
aurora de esperana na longa noite da sua saudade filial.

Mas, na correnteza d'estes successos, Victor, por muito que
melindrosamente escrutasse o corao de D. Maria Jos, no se via l.
Sem embargo, o cavalleiro de S. Miguel da Ala, cobrando alentos,
prudencia e heroismo do seu patrono Fuas, confira-se aos lances do
acaso, s transformaoens do tempo,  versatilidade femeal, e, em fim, a
um imprevisto rapto de amor, no raro em peitos sensiveis das senhoras.

Outra coisa agora.

No  vulgar contarem romancistas de que vivem os poetas das suas
novellas. Provavelmente, como os desenham mais em espirito que em
substancia adiposa, esgalgados, esbatidos, fumarentos, na vigesima
dynamisao de fibrina, mais ethereos que azotados, o publico incauto
cuida que elles no comem, e se nutrem das brisas lusitanas, pelo mesmo
systema physiologico das eguas portuguezas que concebiam das mesmas
brisas, segundo assevera algures frei Bernardo de Brito e eu tambem.

Muitos annos ha que escrevo biographias de poetas e outras pessoas
phantasticas, sem descurar o capitalissimo predicado da sua maneira de
se alimentarem.

Bem sei que vae n'isto prosaismo plebeu, e por isso me ho de malsinar
de immortalisador de bagatellas com egual razo da que apdam Camoens
por entremetter na vida epica de Vasco da Gama o tacanho caso de no se
ter podido vender de prompto a pimenta que o heroe ia negociando nas
feitorias asiaticas. Ora os criticas fingem no saber que a pimenta, o
cravo e a canella explicam melhor que todo o restante poema o
patriotismo de D. Vasco; e que, na mesma razo explicativa, est para
Victor Hugo Jos Alves o bife do Mata, a dobrada do Penim, o pato da
Praa da Alegria, e o linguado da Taverna ingleza.

No me dispenso, por tanto, de espreitar com um olho o corao, e com o
outro a cozinha d'este sujeito, e tambem o guarda-roupa, desde que elle
se nos estada vestido com apontado primor, e nutrido nos mais selectos
restaurantes da capital. No era elle assim quando esbombardeava contra
o altar e o throno. Parecia querer ento inculcar que se vestia na
feira da ladra e que ao abysmo profundo do seu desprezo das frioleiras
humanas atirra os figurinos do Keill e do Catarro, juntamente com a
carta constitucional, com o codigo do bom-tom, e com os tratadistas
hygienicos, quanto a lavagem de cara, orelhas e dentes. Haviam-lhe dito
ao sordido que Cabet e Proudhon andavam sujos; e devras lhe doia
desconfiar que o Victor Hugo francez se lavava todos os dias. Este
requinte de limpeza tinha para elle o fortum burguez improprio do genio.

A sua alimentao predominante era alface, espinafre, e a fava em grande
cpia no tempo. Rejeitava carnes vermelhas e brancas, porque o azote era
elemento infesto ao cerebro e por tanto obnoxio s funcoens do
intellecto. Em compensao, comia  tripa frra pescadinhas marmotas
em razo de abundar no peixe o phsphoro que  grande parte na
estructura do cerebllo.

Afra as indicaoens da sciencia, este regimen era-lhe aconselhado por
intuitos de ordem asss psycologica e social. Como o seu proposito fsse
caldear e refundir o genero humano, recuando-o  simplicidade dos
costumes patriarchaes, estudava em si mesmo o retrocesso do
_fillet-aux-trouffes_  bolota crua, affrontando com selvatica
heroicidade os appetites, as cubias, as fomes, as tantalisaoens que
separam Apicio de Epicuro.

Esta lucta do eu-abdomen com o eu-psyche trazia-o magro e esgrouvinhado.
Da cabea revolta, onde toda a vitalidade se lhe congestionra,
estourava-lhe a ida com umas fulguraoens indicativas de excesso de
phsphoro, extrahido do goraz e do carapau. O seu rancor s praxes
triviaes da arte commum de fallar da rhetorica mercieira--como elle
dizia--manifestava-o em discursos e escriptos com argumentos _ad odium_
contra quem comia bons bocados. Os preceitos da grammatica e os canones
da logica--coisas crassas e sandias--asseverava elle que tinham sido
ideadas por monges atoicinhados em alma e corpo pelo pingue refeitorio
da orelheira afeijoada.

Alm da injuria que Victor Hugo Jos Alves irrogava  grammatica, aos
frades e s vitualhas saborosas, acrescia que esfusiava tempestades de
phrases horridas contra as ucharias reaes, inventariando as vitelas e
bois que semanalmente eram espostejados nos paos, depois de haverem
atravessado as ruas de Lisboa amortalhados em xareis com as armas
brigantinas. O disparate da censura faria rir  desgarrada os ouvintes,
se a cara do orador no estivesse pregoando ao mesmo tempo quanto  para
sagrados horrores a eloquencia dyspeptica da fome, e as refulguraoens
acendidas pela superabundancia do phsphoro. Segundo elle, a sanguinea
lubricidade dos sujeitos gordos procede da demasia dos globulos rubros
do sangue enriquecido pelas carnes esmodas nos vinhos seculares.

Depois, na ladeira destas supremas semsaborias, esbarrava na lista
civil. Era ento o remontar-se a raptos propheticos em toada biblica, e
assomos de Ezequiel, e conclusoens tanto a frisar que eu, uma vez, assim
admirado quanto aterrado, lhe ouvi dizer que elle, sonhador da
felicidade do povo, tinha visto uma viso de sete vaccas magras
escornarem sete vaccas gordas, e derrubal-as. O meu terror no seria
escorreito, se elle depois no acrescentasse que as vaccas magras
eram a republica, e as vaccas gordas a monarchia!

Tal era o discolo nos seus dias de gloria, de fome civica, de quinzena
cossada, e do phsphoro dos safios e caoens.

Como se fez por fra a transfigurao que mal pode explicar-se pelo
reviramento do espirito?

A nediez da epiderme, os caracoes da cabelleira, os camapheus da
abotoadura, a phantasia das gravatas que pareciam aves do Amazonas, a
luneta de ouro, o bigode encalamistrado, o lemiste do fraque, a bota do
Sthelpflugg, a badine de unicornio, o galhardear das attitudes, e, sobre
tudo, a nutrio--quem lhe deu tudo aquillo ao filho de Rozenda?

O chamar-se _Fuas Roupinho_ politicamente, o afivelar a espora de
cavalleiro da Ala, no nos auctorisa a decidir que elle, em arrancadas
contra sarracenos, se apossasse christmente do thesouro de algum rei
mauritano. Conjecturar que os partidarios da realeza se fintassem para
arraoarem no presepio o futuro continuador da _Besta esfolada_, tambem
no  racional, attendendo  pleiada de talentos que l reluzem com
habilidade para mais.

Ento que era?




V

O CORAO DE D. ROZENDA

    _Agnosco veteris vestigia flamm._

    Ca sinto 'inda o calor da antiga brasa.

          VIRGILIO, Eneida, Liv. IV, V. 23.


Estava um dia D. Maria Jos de Portugal lendo a _Nao_, e de subito as
lagrimas lhe turvaram os olhos. Acabava de ler a piedosa senhora uma
invocao aos esmoleres amigos do principe desterrado, tanto mais
compungente quanto o tragico articulista historiava as penurias do filho
de D. Joo VI, desde o dia em que D. Miguel, conforme o testimunho do
visconde de Arlincourt, no tivera em Roma com que comprar o leite para
o almoo.

Da concentrao lagrimosa passou D. Maria, de repente, a uns transportes
de alegria desacostumada, exclamando de golpe:

--Como  bom ser rica!

E, feita breve pausa, acrescentou j menos expansiva:

--Rica!... eu no sou rica!... mas em comparao de meu pae, to pobre,
to infeliz, tenho muito!

Em seguida, escreveu a D. Rozenda Pica, annunciando-lhe _a primeira
radiao de jubilo em sua vida, e a ancia em que ficava de lhe revelar
os seus anhelos_.

A me de Victor, lendo a carta, disse alvoroada  irman:

--Tenho nora!

--Tens nora? exclamou Euphemia--Ento diz-t'o? ella quer?

--No se explica bem; mas eu j lhe entendo o palavriado. Ouve l, mana.

E releu a carta, accentuando cada palavra com intimativa perspicaz para
emfim interpretar complexamente que D. Maria Jos de Portugal se achra
de salto possuida do amor que ella, em sua linguagem perlicteta, chamava
_anhelos_.

--Essa palavra _anhelos_--observou D. Euphemia, arregaando o beio de
baixo, com o dedo indicador--parece-me que  isso mesmo que tu dizes,
mana Rozenda... No te lembras... ora pucha pela memoria... no te
lembras das cartas que te escrevia aquelle furriel de lanceiros
quando ficaste viuva? Chamava-te _meu anhelo_.

--No era o furriel--corrigiu Rozenda.--Quem me chamava seu _anhelo_ era
o Peixoto.

--O capito da carta? Tens razo; era esse... Pois dizes bem; o que ella
quer dizer  isso. Anhelo  amor. Ora espera, mana... Eu tambem agora me
estou a recordar de no sei quem que me dizia que eu era os seus
anhelos, ou anhelitos... No sei se era aquelle tenente de marinha que
nos deu de almoar na barcaa dos banhos, se era o Januario da rua dos
Fanqueiros...

E, reparando na melancolia da irman, disse adocicando o tom:

--Ests triste, mana! J sei o que ... Lembrei-te o Peixoto... Se eu
soubesse...

--Ai!--suspirou Rozenda pondo a mo no lado esquerdo do peito--Ainda
aqui me palpita por esse ingrato! Quando o encontro ainda no sou
senhora de mim! Se amei alguem n'este mundo, foi elle! Dizias-me tu,
quando o perfido se casou, que o melhor systema era o teu:--amar outro
at esquecer aquella pessoa. Bem quiz... mas vou-te agora confessar que
nem o deputado Elias me fez esquecer o Peixoto!...

--No  tanto assim, mana...--emendou Euphemia.--J depois andaste muito
apaixonada pelo conego Antunes, pois no andaste?

--Gostei d'elle--respondeu Rozenda langorosamente requebrada.--No
desgostei... mas amar de paixo foi s uma vez... Ai! o Peixoto! o
Peixoto! no sei que feitios me fez!...

Concentrou-se largo espao com os olhos vidrados de lagrimas, e exclamou
por fim com abrupta clera:

--Canalhas! O Elias, quando depois foi ministro, pedi-lhe que me
arranjasse uma penso j que o meu defunto Alves perdeu tudo na politica
dos Cabraes, e nada me fez o patife! O conego Antunes, quando foi
despachado bispo para o ultramar, pedi-lhe que fallasse aos ministros na
minha preteno, e safou-se sem me dar cavaco! Corja de tratantes! que
tornem para c!...

No parea caricatura a vaidosa precauo com que a snr. Pica se
resguarda ou finge acautelar-se das tentaoens, escarmentada por varios
casos funestos. As decepoens experimentadas podem ainda aproveitar-lhe,
se ella esconjurar os embellcos de um major reformado que protestou
induzil-a a trahir certo professor de bellas-artes, cuja ternura, como
se viu, no tapa os lacrymaes sempre gottejantes da saudosa Rozenda,
quando lhe punge na lembrana a imagem do capito da carta--aquelle
Peixoto que lhe desfibrinou o melhor sangue do corao.

D. Rozenda no pde ainda atravessar despercebida a corrupo do seculo.
Tem quarenta e sete annos remoados pelas madeixas postias que lhe
inquadram o rosto besuntado de posturas. Piza ainda com a firmeza e
garbo de meneios que hoje em dia deshonestam o decoro de quem os usa;
mas que, n'aquelle tempo, era o estylo das damas que haviam j florecido
em 1834, e no mostravam desesperado empenho em ser citadas como
exemplares de castidade. Favorecida pela magrza que, no lapso de trinta
annos, desilludira os enfeitiados de sua elegancia, desde o seu defunto
Alves at ao conego, desde o lyrico amador, que lhe chamava _anhelo_,
at ao major reformado que lhe chamava o osso do seu osso, D. Rozenda
estofava e boleava os musculos, mantendo a flexibilidade e donaire que
muitas damas ainda viosas perderam logo que os tecidos espessos
refegaram e descahiram placidamente.

Lisboa, como todas as capitaes das naoens que tem civilisao, gaz e
ostras, encerra bastas mulheres da tempera de Rozenda, pomos menos
prohibidos que sorvados, creaturas observantissimas, em demasia talvez,
d'aquelle preceito colonisador com que Moyss justifica Rozenda e as
outras philogynias dadas s contemplaoens geneticas.

Isto de acabar cedo para o erotismo, o esfriar do sangue, o atrophiar
dos nervos,  triste condo das mulheres provincianas.

As que viveram cinco annos da mocidade, curvadas sobre o bero dos
filhos, estillaram no seio d'elles todo o seu corao, bafejaram-lh'o
nos beijos; o namorado brilho dos olhos desluziram-lh'o as lagrimas de
uma noite desvelada  cabeceira de creancinha enferma; sorrisos de amor
ou desdem perderam a doura ou o agro,--j a ninguem enlouquecem de
jubilo ou desesperao:  um sorrir para filhos e para Deus que lh'os
ha-de manter e guiar. Isto  formoso e santo; mas as mes assim
envelhecem cedo; as cores do rosto esmaia-lh'as o gear interno; no lhes
esmalta a vida uma restea do sol da alma, no as desperta o alvoroo de
sonho apaixonado, nem a esperana lhes enxuga nas palpebras cerradas uma
lagrima de saudade. Ninguem as v, ninguem as ama; porque, na voluntaria
abdicao da mulher esquecida de si, e toda absorvida nas graas das
vidas que estremece, ha uma glacial repulso que no deixa aquecer em
peito de homem desejo impuro. Os filhos, que a rodeam, so uns como que
baluartes sagrados. Primeiro amor e ultimo, maternidade, insulao,
muitas maguas, raras alegrias, uma primavera com flores abertas, e logo
fenecidas; e depois, memorias sacratissimas, e a posteridade que
attribue a sua honra  beno da alma digna do co.

 Lisboa, que vantagem levaria a tua civilisao  das provincias, se l
houvesse duas d'estas mulheres, alm d'uma que  decerto a esposa do
leitor!




VI

O SANTO CORAO DE FILHA

            Tu lanas de ti tres raios:
            Belleza, innocencia, aurora.

        GUILH. BRAGA, Heras e Violetas.


Acudiu pressurosa Rozenda ao chamamento de D. Maria; e, para logo
mostrar  conspicua menina que lhe percebera as figuras do estylo,
entrou exclamando ridentissima:

--Com o amor no se brinca, minha querida menina. Quando o corao
empurra, a cabea vae para diante. A gente, por mais que faa, no
resiste ao que tem de ser. E mo  que nos amem; que ns, frageis por
natureza, mais hoje, mais amanhan, amamos quem nos ama, no acha?

D. Maria Jos, fitando os explendidos olhos na illuminada e tregeitosa
cara da snr. Pica, quedou-se pasmada sem perceber nem responder. A
mulher anhelada do capito da carta, attribuindo a pudor o silencio
espantadio da menina, continuou gesticulando como creatura de ral, que
no houvesse sido polida pelo deputado Elias e pelo conego Antunes:

--No se acanhe, que eu bem sei o que  um corao de donzella. J por
l passei; e, pudesse eu voltar aos dezoito, que escolheria onde
quizesse e me fizesse conta. Eu sempre gostei dos homens sabios; mas,
como no amei seno o meu Alves, fiquei sem saber o que  a satisfao
de estar uma senhora constantemente a ser adorada de um poeta. O meu
defunto no era tolo; mas tambem d'isto de sciencias e escrever nas
folhas no sabia nada. E, veja o que so as coisas, o meu Victor Hugo
sahiu esperto como a menina v e o sabe apreciar melhor que eu! Dizia-me
a este respeito o deputado Elias, que foi meu hospede--a menina bem se
lembra d'aquelle deputado baixo e gordo--pois dizia-me elle, muito
admirado do talento de Victor, que o menino havia de vir a ser em
Portugal uma coisa grande. E eu por amor disso, no me poupei a
despezas: mandei-lhe ensinar tudo quanto ha... Ainda bem que elle achou
uma senhora que lhe soube dar a devida estimao!... Ha muitas meninas
em Lisboa que namoram asnos--perdoe-me a expresso que no  muito
civilisada. O que ellas querem  chelpa, e marido seja l como fr. So
raras as que sabem apreciar a poesia e os dotes de um rapaz fino. Graas
a Deus que o meu Victor Hugo amou quem  digna delle! Cheguei ao que
tanto desejava... Vou ter uma filha que me ha de dar netos muito
lindos... Se no fosse ser ella quem , eu no queria ainda ser av...

D. Rozenda cascalhava umas casquinadas com o mais desgracioso e tolo
artificio, quando D. Maria perguntou serenamente:

--Ento o snr. Victor vae casar?

--Se vae casar!--acudiu Rozenda estupefacta--Pergunta-me isso a menina?

--Sim, minha senhora... Pois no acaba de me dizer que seu filho
encontrou uma menina que o sabe apreciar!?

--Ora essa!--tornou a me do poeta, avincando o sobrlho--ou a senhora
est a desfructar-me, ou estou doida varrida! Pois a menina no me
escreveu uma carta...

--Sim, escrevi, pedindo-lhe o favor de aqui chegar...

--Para me contar os seus anhelos...

-- verdade, para lhe contar que sou feliz com a certeza de que posso
ser util a meu pae, que recebe esmolas dos portuguezes... envergonhados
de estar um principe portuguez mendigando o po estrangeiro...

--Ah!--atalhou Rozenda, prolongando a exclamao  medida do seu azedume
mal disfarado--Ento, pelos modos, a menina quer dar o seu dinheiro ao
snr. D. Miguel?!

--Com a melhor vontade e o mais inteiro contentamento. Nunca me senti
feliz como hoje. Imagino que cada pessoa deve receber dos thesouros do
co egual poro de bens da alma, de alegrias puras. A uns sorri a
fortuna em gosos de cada dia; a outros, em meio de muitos annos lutuosos
que passaram e de outros escurissimos que ho de vir, abre-se-lhes o co
em subitas torrentes de felicidade, que trazem comsigo em uma hora todos
os jubilos de longa vida satisfeita.

D. Rozenda abria a bocca a vr se percebia, emquanto D. Maria de
Portugal continuava:

--Foi Deus comigo liberal e justiceiro, dando-me esta occasio de poder
mandar a um rei sem throno, e a um principe portuguez sem tecto que o
cubra nos paos dos reis seus avs, recursos que devem ser valiosos para
o indigente que os pede; e confio que elle os receba sem pejo porque
lh'os manda uma filha.

--Ento a menina--repisou D. Rozenda em tom reprehensivo--quer dar o que
tem e ficar pobre!?... Estou passada! Que tenciona fazer depois, no me
dir? Sim... pergunta a minha curiosidade, depois que der as suas
inscripoens e a sua casa, para onde vae?

--Eu ainda lhe no expliquei todo o meu pensamento...

--A snr. D. Maria Jos tem o corao de uma pomba;--proseguiu a snr.
Pica, desdenhando a interrupo explicativa--mas ha de dar-me licena
que eu lhe diga que no tem juizo para regular a sua vida... Corao
toda a gente o tem; mas cabea... isso  raro.

--Eu lhe respondo, snr. D. Rozenda--insistiu reportadamente a filha do
snr. D. Miguel, soffreando a redea aos instinctos soberbos que por
natureza e raa lhe deviam beliscar o pundonor.--A minha teno no 
mandar a meu pae tudo quanto possuo. Elle mesmo receberia com desprazer,
se o no recusasse, o beneficio de uma mulher que depois da sua
imprudente liberalidade, se expozesse aos aviltamentos que maram a
pobreza, e a no deixam mostrar-se  luz a que as senhoras opulentas
costumam alumiar as suas virtudes. Repito, minha senhora, no dou ao
snr. D Miguel tudo que possuo; mas decerto lhe darei tudo que me sobra.
Eu vivo com pouco. A minha amiga sabe que os meus alimentos e vestidos
no requerem grandes despezas; mas, ainda que eu estivesse habituada
s pomposas superfluidades da dispensa e da guarda-roupa, corrigiria as
loucas demasias, logo que soubesse que meu pae pedia aos homens de quem
foi rei os sobejos da minha mesa e do meu toucador.

--Mas...--interrompeu D. Rozenda com ar de quem entendra.

--Deixe-me dizer o resto, e depois ouvil-a-hei com prazer, minha
senhora. Tenho esta casa e nove contos de reis em inscripoens. A casa
no a dou por ora, mas dal-a-hei tambem, se meu pae carecer do valor
d'ella, e irei servir, se com o meu abatimento e baixesa puder obstar a
que o aviltem. O producto das inscripoens quero enviar-lh'o, excepto a
quantia precisa para eu abrir n'esta casa um estabelecimento de luvas.

--Luveira!--bradou D. Rozenda persignando-se e exprimindo pausadamente
as palavras da cartilha--Luveira! a filha do snr. D. Miguel!  cos, que
escuto! Que dir sua me no outro mundo se a vir a fazer luvas!

--Minha me, se me v do outro mundo, ha-de abenoar-me--respondeu
placidamente D. Maria Jos.--No ha trabalho deshonroso, nem ociosidade
honrada, snr. D. Rozenda!... Que dir minha me no outro mundo, disse a
senhora! Pois eu no sei a vida de minha infeliz me nos seus ultimos
annos! No a conheci apparentemente rica? No vi sahirem da cocheira
a carruagem e os cavallos penhorados? Esqueci eu j que minha me teve
um hotel, e que nem ahi, em to obscura e humilde paragem, a desfortuna
deixou de a perseguir? Que mais brasoens tem a hospedaria que a loja de
luvas?

--Faz differena...--explicou D. Rozenda em desaffronta do seu hotel na
travessa do Estevo Galhardo--faz muita differena, muitissima! A dona
d'um hotel est nas suas salas, no seu escriptorio, tem criados que
servem, e dispensam de tratar cara a cara com os hospedes, percebe? A
menina bem sabe que eu nunca admitti  minha mesa, seno o deputado
Elias, que depois foi ministro, e o conego Antunes, que depois foi
bispo. Eram dois cavalheiros que me tratavam com o maior respeito, e
nunca me disseram a menor desatteno n'um tempo em que eu no deixava
de ser galantinha. Ora, agora, uma luveira  outra coisa. Tem de estar
ao balco  espera de quem vem. Entra um, entra outro, chalaa d'aqui,
chalaa d'acol, faz l ida?! E, quando se tem a cara da menina,
imagina l os atrevimentos que lhe ho de dizer os rapazes, ainda que
saibam que a menina  filha de quem ? Hoje em dia, no se respeita
seno o dinheiro... Luveira! a snr. D. Maria Jos de Portugal
luveira! Sabe que mais? A menina leu tanto que tresleu! Essa sua ida
faz-me lembrar o theatro onde apparecem passagens que no acontecem
n'este mundo. Se leu em novellas algum caso d'esses, mande as novellas e
mais quem as fez ao diabo, que no fica rico com o presente. Os romances
so patranhas que perturbam as cabeas do sexo sem pratica do mundo,
como bem dizia o conego Antunes. Emfim, minha senhora, o dinheiro  seu,
pde atiral-o  rua, se quizer; mas eu, para desaggravar a minha
consciencia de escrupulos, declaro-lhe que faz grande asneira, e perde
a expresso, que no  muito civilisada.

E como D. Maria permanecesse largo tempo silenciosa, folheando
distrahidamente um livro, D. Rozenda colligiu que a mudez era
perplexidade, e talvez uma saudavel reconsiderao, devida ao acrto de
suas razoens. Vaidosa pois do triumpho, ganhou flego e proseguiu:

--Quer a menina fazer bem a seu pae? D tempo ao tempo. Arranje-se
primeiro. Case com quem saiba augmentar a sua fortuna, e depois reparta
do que lhe sobejar; mas de feitio que os seus filhos no fiquem a pedir,
por causa de serem netos d'uma pessoa real. Pois no  assim? Se a
senhora D. Maria der o que tem, e se puzer a vender luvas, cuida que
acha pessoa de teres que a queira para esposa, apesar de ser muito
linda? No ha de faltar quem a queira; mas a felicidade, que lhe ha de
vir d'esses pretendentes, Deus m'a desvie da porta pela sua divina
misericordia...

--Est bom!--cortou D. Maria Jos, com enfado e sobranceria.

--No se zangue, minha senhora... O que eu lhe digo  o que sua mezinha
lhe diria...

--No offenda a memoria de minha me, que foi uma desgraada digna de
respeito.

A viuva do mercador de couros sorriu ento com um to brutal esgar de
bocca e olhos que fez transluzir no semblante de D. Maria a raiva de
ver-se affrontada por aquelle tregeitar de beios que lhe pareceram
estar escarnecendo a memoria de sua me.

--De que se ri a senhora?--perguntou desabridamente.

--De que me rio? Pois a gente no ha de rir-se, quando ouve
dispauterios? Em que offendi a memoria de sua me? Essa  boa! Ento
dizer eu  filha do snr. D. Miguel e da snr. D. Marianna Rolim de
Portugal que no se faa luveira,  offender a memoria de sua me! Ora,
minha senhora, no nos entendemos! A menina  sabia, l livros e casos
romanticos; e eu c, a respeito de livros, basta-me a experiencia
que no  mo livro, e o mundo que no tem pouco que ler... Emfim, minha
menina, estou s ordens de V. Ex., e hei de amal-a sempre como filha,
tanto me faz que seja luveira como rainha. Prometti a sua me, quando a
fui encontrar nas agonias da morte, que, emquanto eu fosse viva, a
menina, no passaria precisoens. E, se as no passou porque teve quem
lhe dsse uma mezada, tambem as no passaria, se nada tivesse de seu.
Deus permitta que no; mas, se alguma, vez a snr. D. Maria Jos chegar
 pobreza, ha de achar-me to sincera amiga como fui e sou.

A menina, commovida e repza da altivez, com que interrogra a amiga de
sua me e sua gasalhosa hospedeira em annos perigosos, abraou-a,
pediu-lhe desculpa, e ao mesmo tempo protestou, soluando, que no
deixaria de soccorrer seu desvalido pae.

--Faz bem, faz bem, menina!--obtemperou Rozenda sensibilisada e, ao
mesmo tempo, previdente.--Se seu pae voltasse ao throno...

--Nunca mais!--murmurou D. Maria com os braos pendidos e os dedos
entrelaados--nunca mais!

--Por que no?!--replicou a me do vidente, que assoprava  pira do fogo
sacro no escriptorio da _Nao_.--Tenha esperanas, menina! Meu
filho diz que o snr. seu pae ha de vir, e ha de ser elle mesmo, o meu
Victor, quem o ha de pr no throno!

--O snr. Victor  poeta...--volveu D. Maria, sorrindo
melancolicamente.--Cuida que as phrases inspiradas pela justia fulminam
as iniquidades dos homens. Engana-o a miragem do genio, que se julga
omnipotente. Os raios do talento no so como os do co que vo direitos
aos durissimos brilhantes e os pulverisam. A sociedade sabe e a
experiencia mostra que os coriscos, arremessados contra os poderosos,
apagam-se quando o resplendor do ouro os deslumbra...

--Sempre  muito esperta!--interrompeu D. Rozenda ingenuamente
admirada--A gente esquece-se a ouvil-a, minha senhora! Quantas vezes o
deputado Elias me disse que a menina havia de ser uma grande capacidade!
O meu Victor Hugo diz tambem que a snr. D. Maria Jos, se quizer, pde
idear novellas. Porque no d a menina alguma coisa  luz? Escreva um
romance de amores...

--De amores!...--obstou, sorrindo, D. Maria--como hei de eu escrever do
que no entendo?

--No entende!?... Boa vae ella! O amor no tem nada que entender.
Quem ensinou os passarinhos a amar? no me dir? A natureza tanto ensina
os animaes como a gente. A menina, se no sabe,  porque no quer.

--No posso, nem penso em tal. O amor s entra em coraoens abertos ao
contentamento. Alma em trevas no attrahe raios de luz to intensos. O
amor  como o sol que decerto no brilhar neste recinto, se eu
conservar as janellas fechadas d'uma noite a outra noite.

--Ora deixe l...--redarguiu em excellente prosa a quinhoeira do lyrismo
do deputado Elias.--A snr. D. Maria Jos ha de pagar o tributo como as
outras: se no fr Sancho, ser Martinho. O que a menina faz  o que eu
tenho feito desde que enviuvei: no quer amar; isso l percebo eu. Bem
importunada tenho eu sido por pretendentes s segundas nupcias, tantos
como a praga dos gafanhotos do Egypto! Resisti e hei de resistir, porque
jurei eterna fidelidade at  morte ao meu defunto Alves, apesar de elle
me deixar pobre, sacrificando-me  politica cabralista. L se elle fosse
esperto como o filho, ainda valia a pena deixar o negocio pela politica;
mas, Deus o tenha  sua vista, aquelle perdeu-se por ser um toleiro! O
meu Victor Hugo sahiu ao av c pelo meu lado, que dizem que era
muito sabio meu pae de Povolide. Todos me dizem que o rapaz ainda pode
ser ministro. Eu no engulo caraptas; mas, quando me lembro que o meu
hospede Elias chegou a ministro, sendo elle bom homem, mas muito
tapadinho, diga-se a verdade, no me admira nada que meu filho, cedo ou
tarde, venha a subir ao governo. Se o snr. D. Miguel viesse, a menina
pedia-lhe que dsse uma pasta ao meu filho, no pedia?

--As mulheres, minha senhora, quer sejam princezas, quer sejam luveiras,
no devem intrometter-se nos negocios do estado. Se meu pae tornasse a
Portugal, dir-lhe-hia eu que o snr. Victor soffreu vinte dias de carcere
por amor d'elle.

--E o mais que elle soffrer ainda...--ampliou D. Rozenda.--Acho-o to
incanzinado no partido realista, que, qualquer hora, estoura trovoada
peior, que a outra. Os fidalgos trazem-no nas palminhas, e eu vejo-me
atrapalhada para o vestir com mais luxo, porque elle vae a todas as
casas principaes, e no me falla seno na senhora marqueza d'Abrantes,
na senhora condessa de Pombeiro, de Redondo, da Figueira, Barbacenas,
Pancas, etc. E bem v a menina que quem gira nesta roda fina no se
ha de ir vestir ao Nunes Algibebe por dez ou doze pintos. Deus sabe com
que linhas cada qual se coze...

--Peo-lhe, minha amiga, que disponha do que  meu--disse a menina
apertando-lhe a mo.

--Muito agradecida, minha senhora; por emquanto, c me irei remindo,
como puder. O que eu queria da minha menina para o meu apaixonado
Victor, sabe o que era?--isto.

E, apontando-lhe ao corao, trejeitava com os olhos mui derramados e um
pender de cabea languescida--coisas e modos que muitas vezes deviam ter
eschammejado vesuvios no deputado Elias e no conego Antunes.

--Tem de mim o snr. Victor--disse solemnemente D. Maria--o mais que
posso offerecer a um irmo.--E logo, norteando a palestra n'outro
rumo:--Ainda me falta pedir-lhe um favor, minha amiga. Queria eu que seu
filho soubesse a maneira de eu remetter a meu pae tres contos de reis,
que  o que posso liquidar das inscripoens, tirando para mim o
necessario para manter a minha lojinha de luvas.

--Ella c torna com a mania! Ento no muda de ida?

--No.

O tom imperioso e scco da resposta fechou o debate.

D. Rozenda sahiu, promettendo communicar-lhe o que seu filho lhe
informasse quanto ao modo de remetter o dinheiro.

No dia seguinte, D. Maria, recebidas as informaoens, entregou a D.
Rozenda os seus papeis legalisados para a venda.




VII

OS TRES CONTOS DE REIS

         Por entre o labio torpe e podres dentes,
         D'aquelle abysmo esqualido, que pde
                  Sahir que no tresande!?

                    GOETH., Fausto Segundo--cro.


E n'aquelle tempo reinava em Portugal D. Pedro V--cidado portuguez, que
morreu honrado e sinceramente carpido.

Aquelle rei era triste, porque o sol ardente do espirito, o ardor da
sciencia lhe crestaram o vio da juventude.

O conde da Carreira e outros pedagogos, que trajavam ainda calo e
rabicho na alma, intouriram o animo do principe com iguarias indigestas,
introvertendo-lhe para o viver intimo, em florescencias sem aroma, os
gomos da mocidade que nunca desabrocharam perfumes de contentamento.

E, porque era triste, era bom, compadecido, esquivo a vanglorias, como
quem sabia, que, nas naoens livres e pobres, nenhumas ostentaoens
sobredouram o manto real seno as da reportada parcimonia e absteno de
soberanias extemporaneas.

Um regimen de governao, que facultasse ao rei amplas prerogativas,
demonstraria que o primogenito da snr. D. Maria II era especulativo de
mais para deliberar n'esta rasa misso de governar homens. O polyglotto
snr. Viale inoculara-lhe emplas academicas, uns arrbos j
bastantemente serodios em glossas de mysterios dantescos, pelos quaes o
principe, absorto entre o enigma da meia-edade e o enigma peior dos
mestres, revelou predileco impertinente.

Que farte sabia o previsto alumno dos pingues sabios que lhe no
montaria ganancia alguma o estudo da sciencia de governar este manso
povo, que lhe havia apedrejado o av e rossado a injuria desbragada pela
sombra da me impolluta. Nas angustias da snr. D. Maria da Gloria se
lhe revelou a condio acerba de quem ha de ver homens e factos atravz
do prisma dos validos. Desde o padre Marcos at ao senhor do castello de
Gualdim Paes, encadearam-se successos que mostraram ao meditativo
principe o indeclinavel calix em que sua me lhe legara--para
saudades e exemplo--o travo de suas lagrimas.

Por isso aquelle moo no provra as alegrias e regalos de sua edade e
jerarchia.

Ao sar do sereno ambiente do gabinete de estudo para as borrascas da
vida pratica, retrahia-se aos braos da chimera luzentissima que
esvoaava s regioens sombrias da _Divina Comedia_--semsaboria
immortal!--ou se librava nas nevoas de Macpherson,--immortal semsaboria!

O ar do pao tresandava s pras que os escaravlhos rolavam pelas
alcatifas. Da camarilha das mulheres ainda vaporavam as caoletas
encontradas nas recamaras da Bemposta. Na camarilha dos homens mal podia
o principe sincero extremar entre respeito e adulao, e entre silencio
estupido e sisudeza discreta. Se os mestres, preleccionando-lhe o
reinado de seu tio-av, bosquejassem o caracter dos validos que o
derrancaram, o rei, nas suas salas, cuidaria achar redivivos, em cada
cortezo, o Vadre, o barbeiro viscondisado, e o Sedvem, mais seriamente
vestidos com as librs de 1857.

Uma vez, D. Pedro V, obedecendo a impulsos de bonissima indole, ordenou
que as lastimas dos queixosos de iniquidades pudessem chegar  quasi
soledade onde se amiserava um rei. Inaugurou-se a celebrada caixa
onde os requerimentos eram lanados. A chave d'esse cofre de lagrimas,
que j haviam sido acalcanhadas no peito dos repulsos, era el-rei que a
tinha. Confluiram a centenares os appllos da injustia dos ministros
para o simulacro do brao soberano; mas as reparaoens eram baldas,
porque D. Pedro V o mais que podia dar em beneficio dos queixosos era a
esmola aos que lh'a mendigavam, e commiserao aos que se deploravam,
pedindo justia ao rei e no esmola ao abastado. O alvitre do imperante
denotra alma egregia; mas o infortunio vingra apenas fazer-se
conhecido no gabinete real. E mais nada. As virtudes do rei no podiam
ser mais fecundantes que as do cidado, primeiro na jerarchia, mas no
decerto o primeiro em bens de fortuna. Era rei, consoante a pauta
constitucional; e os accusados no seu tribunal fantastico eram os
pennachos, as togas, os arminhos e os argentarios a quem os phoros
pediam de usurario emprestimo as mezadas da lista civil.

Os aulicos de quem o principe se rodeava, forado pela pragmatica, nunca
lhe referiram com certeza as penurias que esmaltavam as cans de D.
Miguel de Bragana. No era respeito  legitima soberania, nem temor do
real desagrado que os amordaava. Elles sabiam que na alma do rei
no negrejavam odios ao irmo do seu av, nem se quer  sequla
legitimista que explorava nas franquias do codigo liberal a liberdade de
injuriar o throno, vendendo a injuria impressa. Enfreava-os o receio de
espertar em a liberalidade do corao dadivoso, defraudando-se dest'arte
do quinho que repartiam, pondo o almoxarife  porta das mercearias
insoffridas a pedir-lhes que no denegassem ao refeitorio do rei de
Portugal as massas e os paios fiados com desconfiana.

No obstante, D. Pedro V soube que D. Miguel, levado pela providencia
applacada aos braos da espsa, que lhe tapetava de flores tardias o
breve caminho da sepultura, e o rodeava de alegres beros, povoados de
ridentissimas creanas--uma senhora, no mais vicejante dos annos, e no
esplendor da belleza, immaculada, neta de reis--espectaculo que
dulcifica lagrimas!--offerecia o seio para reclinatorio de um velho
expatriado e pobre!

No regao d'aquella dama alguns portugueses, ajoelhados, no  rainha,
mas ao anjo, depunham o producto das esmolas colhidas em Portugal.

O Senhor D. Pedro V aprecira a virtude dos que, sem esperana de
galardo, mantinham no exilio a mediania do infante. Quiz, pois,
egualar-se no sentimento da caridade aos que se devotavam ao homem
esbulhado de todas as grandezas, e at privado da gloria posthuma com
que a historia fartas vezes honra a lapide dos que resvalaram do throno
ao sepulcro pela rampa do exilio.

E, depois, o magnanimo monarcha, arrobado no resplendor de uma estrella
que lhe levra para Deus a luz ephemera dos seus jubilos, alou-se no
raio celestial, e gosou-se de l na contemplao das mais sinceras
lagrimas que ainda alguma nao chorou sobre a mortalha do seu principe.

E ento somente em um secreto livrinho de lances, que o rei deixra
escriptos de sua vida intima, se encontrou a verba mensal de trezentos
mil reis votada a D. Miguel de Bragana.

Ora haveis de saber que o irmo do snr. D. Pedro IV nunca recebeu a
mezada do rei de Portugal, nem os tres contos de reis de D. Maria Jos.

Posto isto, leitor attento e sobre tudo philosopho, diga-me V. Ex., se
dado o exemplo da fraude em to altas regioens,  muito de espantar que
Victor Hugo Jos Alves enriquecesse o seu sangue depauperado com a
substancia metallica dos tres contos de reis que a obscura D. Maria Jos
enviara ao pae!

 d'este modo que se esclarecem as melhorias to depressa feitas na
pessoa espiritual e corporea do filho de D. Rozenda Pica.

O procedimento d'este escriptor no seria, talvez, digno da commenda de
S. Thiago da Espada, nem tambem me consta que elle a pedisse; todavia,
no se me figura irreprehensivel equidade alcunhar de ladro qualquer
sujeito, porque no foi agraciado. Se no teem sido muitos os exemplos
d'este descuido em Portugal, as excepoens no devem menoscabar os
creditos de Victor Hugo. Os reis no podem, sobraando a cornucopia das
mercs, espreitar todos os latibulos onde se forjam malfeitorias. No 
da attribuio dos cabos de policia enviarem a sua magestade um mappa
mensal dos malandrins mais conspicuos da sua esquadra. Por via de regra,
o poder executivo no leva todas as quintas feiras  munificencia regia
pessoas de quem o leitor costuma acautelar o seu relogio, ou receia
encontrar em ruas no patrulhadas.

Quando um ministro do reino apresentava, ha poucos annos, ao senhor D.
Luiz I, que Deus guarde, o decreto que laureava com a cora de baro de
S. Diniz um proprietario de bordeis no Rio de Janeiro, seria indecoroso
para o alcouceiro agraciado ajoujarem-no a um biltre ordinario. O rei
sabia que tambem Cato ministrava em Roma collarejas de alquilaria
das quaes cobrava percentagem. Qual rei denegaria um baronato a Cato
censorino?

Victor Hugo Jos Alves que espere. Mais tarde ser regalardoado na
proporo da injustia ou da inveja que lhe atabafou os meritos. Deixe o
bem estreiado cidado germinar a semente que fiou do uberrimo torro da
sua patria. A arvore ha de bracejar vergonteas afestoadas de grinaldas
que algum dia lhe ho de juncar a escarpa do capitolio.

Entretanto, a converso de tres contos de reis em objectos attinentes 
reformao physica e moral do poeta, seria acto digno de moderados
elogios, se o sujeito no precedesse de calculos e consideraoens
politicamente transcendentes a consubstanciao do metal com a sua
pessoa. Dotado de vistas perfurantes nas nuvens pardas do futuro, Victor
Hugo, estribando-se nos correligionarios, e mais ainda na efficacia dos
seus proprios artigos e instinctos amotinadores, previu que o principe
proscripto seria cdo ou tarde redintegrado no throno. No era base
menos fundamental de seus propheticos raciocinios a depravao das
doutrinas liberaes, desde que a classe media corrompida gafra de sua
lepra a gentalha, de quem se divorciou, pensando que o irmanar-se com
fidalgos desbragados era desencanalhar-se da ral onde havia nascido.

O severo snr. Alexandre Herculano, no prologo _Da Origem e
estabelecimento da Inquisio_, tinha escripto umas phrases biliosas de
que Victor Alves inferiu a provavel restaurao do rei legitimo. O
vidente historiador, no conceito do cavalleiro da Ala, no podia
illudir-se, quando vaticinava a restituio do absolutismo pelos
proprios esforos da burguezia, sua triumphante inimiga, a qual, j
temerosa das sanhas da plebe desafrontada do cabrsto religioso, se
colligaria com reaccionarios para repor rei absoluto que lhe caucionasse
os haveres, cortando com a espada dos dragoens de Chaves as cubias dos
proletarios.

Prenhe d'estes grandes palpites sociologicos, Victor impoz-se o dever
civico de jurar bandeiras na vanguarda do tro mais aguerrido, metter a
cabea aventureira  brecha mais bombardeada, e lampejar claroens onde a
noite dos espiritos fosse mais caliginosa--claroens de eloquencia nos
clubs, nos botequins, e at nas salas das Aspazias vetustas, que, desde
1834, anafavam as barbas de todos os Pericles--como elles vingam n'este
paiz--mais ou menos similhantes em esthetica e plastica ao chorado Elias
de D. Rozenda.

 mais vivida luz do entendimento se mostra que Victor Hugo no
conseguiria relacionar-se na sociedade, onde lhe cumpria fecundar com o
verbo as convicoens legitimistas, se no se entrajasse com o asseio e
galanice que hoje em dia realam as clausulas do bom orador. Decerto lhe
seria atravancado o accesso aos saloens, se na sua guarda-roupa tivesse
smente a quinzena de panno pilto com que mediocremente se distinguia
nas cas do _Collete-Encarnado_; e com a qual se escondia na penumbra de
um caff da rua de S. Roque, aquecendo a grogs fiados a fantasia.
Tempos calamitosos eram esses em que o deputado Elias o brindava com um
palet no fio, e um collete de mozaico desbotado, relanando  me um
olhar que requeria gratido, fidelidade, e talvez a renuncia completa s
caricias do conego Antunes!

Victor Hugo tinha presenciado das galerias da camara baixa que os
homens, em cuja testa latejava a inspirao estuosa dos Izocrates e
Hortencios, primavam na casquilhice do trajo, no adamado da penteadura
lustrosa, no azeviche brunido dos bigodes. Viu que o involtorio
engrandecia mais que muito as posturas sculpturaes e antigas da
gesticulao, bem que a clamyde grega ondularia mais imponente nas
omoplatas do snr. Jos de Moraes, do que em verdade as abas do fraque um
tanto  canhestras para as attitudes largas e arrojadas. Reparou em
particular o embellesado Victor Hugo Jos Alves no aprumo estatuario do
snr. Carlos Bento; e, com quanto o fino gosto dos Phidias inditos
estivesse cubiando uma toga cahida com romana magestade sobre aquella
confirmao de myologia classica, o bem posto da pessoa entre as
costuras da vestimenta no prejudicava de todo os raptos de eloquencia
que lhe phosphoreciam no aspeito grvido de idas. Ia n'estes effeitos,
desconhecidos a Longino, o segredo da arte de vestir bem.

No lhe fez menor impresso o snr. Arrobas, que sorria de esconso para o
collete listrado do j hoje defuntissimo snr. Joo Elias; nem pde
esquivar-se a imaginar que o snr. Mrtens Ferro, sem o primor das suas
casacas, e o compassado pendulo do brao direito  competencia com o
pendulo compassado do brao esquerdo, apenas vingaria com os seus
discursos retirar das pharmacias o ludanum, e constituir a camara em
permanente jardim das Oliveiras, onde os discipulos de Jesus _dormiam de
tristesa_, como S. Joo refere. Dormir de tristeza!-- o mais curial e
justificado somno que pode narcotisar uma assembla de legisladores,
quando a providencia das naoens no encarrega alguns deputados bem
penteados e vestidos de manterem o auditorio em alegres insomnias,
salvante o snr. duque de Loul para quem o proprio snr. padre Antonio
Ayres do Porto seria uma amendoada.

Destas contemplaoens sahiu o filho de D. Rozenda Pica bastante
inquieto sobre a proveniencia dos recursos precisos a quem por fora,
privado d'elles, havia de abdicar dos destinos apontados fatidicamente
pelo genio.

Se elle enviasse ao snr. D. Miguel de Bragana os tres contos de reis, e
assim se exonerasse de ser o motor da restaurao,  mingua de fato
digno d'um restaurador, no seria isto damnificar o paiz, a trco de ser
honrado com um homem? Que montaria mais ao proscripto--o ouro da filha,
ou a restituio da cora? E, se alguns punhados de ouro, em mos
alheias, lhe estavam logrando juros de patria e cora, no era obra para
tres vezes bemdita aquella santa ladroagem que habilitava o
revolucionario a acercar-se, depois, do solio do rei restituido, com a
ufania de outros bandoleiros que elle via assentados  orla do solio
usurpado?

Tres contos de reis nas algibeiras de Victor Hugo, estavam germinando
casos e transformaoens de magnitude incalculavel, ao passo que,
enviados a Heubach, seriam ingloriamente consummidos em comestiveis
e outras ridiculezas de todo ponto inuteis  reivindicao da lei
fundamental de Lamego.

Ao proposito da legislao patria, derogada pelo direito da fora,
muniu-se Victor Hugo de copiosa livraria; mas tanta era a confiana que
pozera na espontaneidade original dos seus syllogismos, que lia quasi
nada, contentando-se com o substractum extrahido dos escriptos do padre
Jos Agostinho de Macedo e fr. Fortunato de S. Boaventura. Um livro que
elle preferia ao _Punhal dos Corcundas_ era _Les talismans de l
biaut_, obra at certo ponto estranha s estudiosas vigilias d'um
conspirador; mas conducente aos seus intuitos de coadjuvar a beldade dos
actos do espirito com a compostura esmerada do corpo.

A limpeza da sua pessoa, longos annos suja, no se fez rapida nem
superficialmente. O talento, que o infuriava hydrphobo contra os banhos
do doutor Nilo, impunha-lhe agora a necessidade de, todas as manhans, se
retoiar voluptuariamente n'um banho aromatisado com _Lait d'amande
douce_, friccionando-se com saboens de _Thridace_ e da _la reine des
abeilles_, ou _Crme froid mousseuse_. Depois, no amanho dos espessos e
oleentos cabellos, que em outro tempo fariam recuar um javali assanhado,
enfileirava os cosmeticos numerados desde o _Baume des violettes
d'Italie_ e _crmes duchesses_ at  _Eau redivive de Nangavaki_ e 
_Diamantine lustrale_. N'esta operao capillar, em frente d'um espelho
de Veneza ladeado de columnas com arandelas de bronze, formadas por Leda
com o cysne e Europa com o boi, ia Victor Hugo ensaiando as prgas da
fronte e os vincos do sobrlho, significativos de cerebro causticado
pela cantharida do genio: ensaio previo que elle imaginava contribuir
asss para os triumphos oratorios do snr. S Vargas.

Involto em robe de chambre azul-ferrete de brocatel, cingido  cinta por
cordoens de sda e borlas escarlates, Victor encaracolava as favoritas
do bigode, encerando-o e lustrando-o com _Pommade hongroisse_; depois
ungia a epiderme com _crme Pompadour_, e operava o quarto lavatorio da
untuosa cara com agua saturada de _rose des abeilles_. Finalmente,
seguia-se o polimento das unhas escovadas e alfanadas com _poudre
oriental_. Todo o requinte n'este ponto lhe parecia baldo,
figurando-se-lhe que as suas mos no accusavam na delgadeza e
transparencia a aristocracia dos Marialvas ou Vimiosos.

Feito isto, alli se quedava largo espao narcizando-se diante do vidro
com o languor mulheril de um Bathylo ou Juvencio. Requebrava o colo
em dengosas flexuras de cysne preto, e entre-abria sorrisos de donzel,
deixando apenas descerrar os labios. Risos francos e abertos no os
confiava sequer do espelho. Eram-lhe dr, desaire e violencia enormes
no poder rir.

E porque no ria este homem to alvoroado de alegrias intimas? Seria
para simular profundeza de juizo, e cuidados de conspirador que lhe
traziam os miolos amartellados? No, senhores.  que tinha os dentes
lurados de cavernas cariadas e chumbadas, e as gengives tbidas d'um
gluten verdoengo. Era uma podrido de caveira, um arcaboio de
mandibulas a vaporar febres perniciosas.

Tirante os dentes, o alinho complexo do poeta, visto a vulto, recendia a
olorosa elegancia que lhe perfumava o ambiente, mitigando-lhe o halito
paludoso, e temperando sadiamente o ar a favor dos circumvisinhos.

No assevero que Victor Hugo ensaiasse com alguma felicidade, nos
saloens da aristocracia herdada, a influencia anachreontica dos seus
dotes physicos; antes pendo a suspeitar que l se sentisse mais a
corrupo dos seus dentes que a da sua alma.

As finas bellezas das raas historicas olhavam-no de soslaio, e trocavam
entre si tregeitos indicativos de espanto e mofa. O inculcado
talento do poeta no obteria sequer, na sociedade frivola das damas
illustres, aquella atteno convencional e contrafeita que a sociedade
burgueza dispensa aos litteratos, sob condio de que o poeta escreva o
soneto em dia de annos, ou a necrologia nos obitos da familia.

Rosnava-se, porm, que uma marqueza, j bem esfolinhada de teias de
aranha de preconceitos em 1820, no o fizera esperar, como Ninon a um
certo abbade, o anniversario natalicio dos seus annos ultra-canonicos,
para o convencer de que a lira do bardo hodierno podia, sem profanar o
culto antigo, desferir endeixas accommodadas  magestade de uma
cathedral gothica. Outro sim constava que o filho do Alves dos couros,
morto em odor de caceteiro cabralista, cultivra aquelles amores como
quem escarda, no estylo do seculo XVI, archaismos para os lardear, com
presumpo de entendido, nas modernas formulas litterarias.

Queriam dizer, ou dizia elle que a marqueza, reliquia das antigas
usanas de palacio, collectora de anecdotas attinentes ao viver intimo
da fidalguia, e refinadamente polida de maneiras exclusivas da sua
casta, pagava generosa as fumigaes do nardo, dando ao seu poeta uma
demo de verniz de bom-tom, que elle decerto no dispensaria para
escodear as crustas da educao, na convivencia do capito da carta e
nas cas de figado frito na tasca da Rua das Pretas com os clowns do Price.

Como quer que fosse, n'estes amores transitorios e meramente acceites
como appendice de policiamento, Victor Hugo Jos Alves guardava
intemerata e sem nodoa a poesia do seu peito. D. Maria no se lhe
despintava da ida apaixonada.

A converso do dinheiro em beneficio da causa de D. Miguel era incentivo
a maior para que elle, mais ao diante, na liquidao de suas contas com
D. Maria Jos de Portugal, descontasse a verba empalmada,
incendrando-lhe em ternuras o mais fino ouro do seu amor.

Entretanto, o causidico da legitimidade ganhava entre os seus confrades
o nivel dos mais esperanosos talentos da restaurao. Ensejo de fallar
melodramaticamente no perdia um. Ageitava a occasio de exhibir troos
de discursos que compunha no seu escriptorio, declamando-os  tia
Euphemia, que se mostrava accessivel s descargas electricas da
metaphora, resultado da sua diuturna familiaridade com um auctor
dramatico, que a denominava a sua Lafort, e a beijava com delirio,
se ella lhe cantava, com as mos no peito bambo, as chacaras dos seus
dramas. Com os olhos suados de saudoso liquido, D. Euphemia, attenta s
oraoens do sobrinho, cuidava estar ouvindo o dramaturgo, que se fra
d'este mundo com os ouvidos ainda atroados das ovaoens do Salitre, e o
corao alanceado de invejas roazes aos _Dous Renegados_ do snr. Mendes
Leal.




VIII

RAUL

    No rosto do anjo que desdem to nobre!

                       DANTE, Inf., c. IX.


Relataram-se os casos anteriores ao realisado designio de fazer-se
luveira D. Maria Jos.

J, ao comeo d'esta historia, Jos Parada, o meu introductor  presena
da filha de D. Miguel, nos referiu, mais ou menos hyperbolicamente, a
concorrencia de preitos  volta da galante dama. No foi, certo,
encarecido louvaminheiro quando nos relatou as esquivanas da luveira s
propostas de casamento, j com velhos endinheirados, j com rapazes de
genio, e at com um rico e elegante mo que podia aspirar ao mais
selecto consorcio na melhor sociedade da crte. Tal era aquelle Raul,
filho unico do conde de Baldaque, millionario que entrra em Lisboa
com o seu socio e amigo Manoel Pinto da Fonseca, o homem de ouro que as
mulheres de carne cognominaram o _conde de Monte-Christo_.

D. Maria Jos no estremra o filho do conde entre os frequentadores da
sua loja, seno pela timidez tartamuda, e rara infelicidade no acovardar
as phrases, to avssas da galhardia dos meneios e tom de peralvilho que
lhe dava a luneta, e de uma certa dextridade a que devia nos saloens o
renome de bom conversador.

Nas suas praticas com a luveira da Rua Nova da Palma mediavam
intercadencias de silencio que tanto podia significar amor que absorve a
palavra na contemplao, como cansao de duas almas em spasmos de tedio
reciproco.

Raul, porm, amava n'aquelle extremo em que a mulher impe respeitosa
adorao, independente do prestigio do nascimento. Pde ser que elle,
desconhecendo a origem real da luveira, se houvesse em presena d'ella
com menos resguardos, sem todavia lhe querer menos; mas, em leal
verdade, o dizer-se que a gentil menina era filha de um rei, e o porte
soberano com que ella, sem arte e genialmente, justificava sua fidalga
condio, eram realos  j de si peregrina belleza, os quaes, a meu
vr, insinuaram ao animo enthusiasta do mo brazileiro a idolatria
genuflexa que se confunde com a superstio.

Raul de Baldaque, saltando do dog-cart  porta de D. Maria de Portugal,
e atirando as guias ao jockei, ia encontrar a luveira pregando botoens
em luvas. A gentil senhora correspondia-lhe graciosamente ao
cumprimento, passava-lhe uma cadeira, que elle recebia com ademanes de
extremada cortezia; e, cumprido o dever de urbanidade como se o
exercitasse nas salas opulentas de sua me, continuava o seu negocio,
tratando os freguezes com semblante prasenteiro e um sorrir de paciencia
que ninguem, entendido em dres recalcadas no fundo da alma, poderia vr
sem pena.

Raul, subtilisado pela paixo que adelgaa os temperamentos mais
espssos, adivinhou um dia que o sorriso da luveira em resposta aos
desabrimentos de certa mulher que lhe regeitava umas luvas esgaradas ao
vestir, era a expresso ironica do infortunio que se irritava, ou acaso
a serena alegria da voluntaria martyr.

Desatou-se-lhe ento da alma ao concentrado mo um dizer que o
engrandeceu no conceito de D. Maria:

--Quantos sorrisos d'esses ter tido o snr. D. Miguel de Bragana!...

A senhora fitou-o com os olhos j nubelosos de lagrimas, e respondeu:

--No ha comparao, snr. Baldaque. O snr. D. Miguel no pde sorrir. O
que pde haver egual entre o principe e a luveira  o chorar... Mas que
differena no travr das lagrimas! Eu choro por elle, e elle... chora
por si mesmo. Eu vejo a tortura, e compadeo-me: elle  o torturado. E
essa mesma piedade que l chega em escassos beneficios deve ser-lhe fl
coado s feridas do pundonor... Ha infelizes que se estorcem em sdes
abrasadoras; os amigos querem apagar-lh'as, e do-lhes veneno... No sei
se para esses, que tudo perderam, a mais relevante caridade seria
deixal-os morrer...

No seria facil a Raul atar as idas descozidas e interceptadas por
silencios; mas o que elle percebeu animou-o a proferir uma expansiva
bondade que soou asperamente nos ouvidos da luveira:

--Se eu no fosse rico, as suas palavras, minha senhora, seriam tambem
para mim uma tortura...

--No me comprehendeu--murmurou ella, abaixando o rosto sobre o engenho
das luvas.

--Creio que entendi;--replicou Baldaque--mas, se a magoei, perde-me...

--Que entendeu?--disse ella, sem levantar os olhos.--Que eu lhe pedia
uma esmola para o snr. D. Miguel?

--No, minha senhora, eu entendi que... balbuciou o mo grandemente
embaraado.

--Ento que foi que entendeu?

--Que V. Ex. lamentava que seu pae no tivesse morrido, antes de
acceitar os donativos dos seus partidarios.

--Se assim , que importa que V. Ex. seja rico?

--Tenho medo de lhe responder--disse Raul, erguendo-se de golpe, e
sacudindo com a mo os longos cabellos que lhe afogueavam as faces.

--Mdo!... que poder dizer-me que o intimide?

--Tem razo, minha senhora. Eu preciso ser franco... preciso ser mais
feliz do que sou... quero abrir-lhe a minha alma... quero, emfim...

Susteve-se algum espao; e maior seria a detena se D. Maria Jos o no
desfitasse d'aquella penetrativa interrogao que parecia
recommendar-lhe summa prudencia nas palavras que ia proferir.

E proseguiu, tirando brios propriamente da necessidade que tinha de se
justificar:

--Se eu ainda lhe no disse que a adoro,  porque, na sua presena,
todas as minhas resolues fraqueam. Sou ainda novo; mas conheo o
mundo. As almas infelizes envelhecem cedo. Eu no amei nunca; mas sei as
palavras com que se pintam as grandes paixoens. Depois de aqui vir
repetidas vezes, disposto a dizer-lhe que a amo, e no o fiz, deliberei
escrever-lhe. A mesma timidez me acanhava em lhe entregar a carta.
Cheguei a ter pejo de mim proprio; porque vi o desassombro com que
certos homens, sem lhe faltarem ao respeito, ousavam dizer-lhe palavras
que me feriam o corao e o amor proprio, ao mesmo tempo. Restava-me, ao
menos, em meio de minhas amarguras uma consolao: e era que, dado que
V. Ex. me no visse a alma atravz do silencio, me no julgaria um
frivolo namorador, sempre a ponto em dizer palavras banaes. E ainda
outra consolao mais me lisongeava: era ver que V. Ex., se me
desprezava, ou me no via, no prestava maior atteno s pessoas que a
cortejavam, sabendo eu que o proposito de algumas era to honesto quanto
eu quizera que minhas irmans, se as eu tivesse, o merecessem.

--Eu nunca dei occasio a que me fizessem propostas de natureza
nenhuma--interrompeu a luveira.--Digo-lhe isto, snr. Baldaque, para o
despersuadir de que tenho a vaidade de haver rejeitado propostas que o
mundo chama partidos vantajosos.

--Sei isso...--acudiu Raul, algum tanto abatido da coragem com que ia
discorrendo, por inferir da interrupo assomado orgulho.--Sei isso...;
e, porque o sabia, contive-me, aconselhado pelo desengano dos outros.
Mas, apezar de tudo, talvez me illudisse a vaidade de me suppor mais
digno do que elles, porque eu sentia por V. Ex. a venerao, que no
impediu que os outros se declarassem.  isto a unica distinco que me
deve singularisar; pois, sendo natural que todos amem uma senhora bella
no semblante, no corao e no espirito, nem sempre succede que a paixo
se deixe abafar pelo acatamento. Agora, porm, minha senhora, j no
haver nada que me empea de lhe revelar em poucas palavras todas as
minhas meditaoens de seis mezes; mas, se V. Ex. me est ouvindo
constrangida... se me confunde com os homens que a importunaram com
phrases mais ou menos similhantes s minhas, ento diga-me que me escuta
por mera delicadeza...

--Por mera delicadeza o estou ouvindo--disse serenamente D. Maria Jos.

--Pois bem...--tartamudeou o moo empallidecendo--calar-me-hei...
Mas...--volveu elle, passados instantes em que o rubor succedeu 
pallidez.--Mas... V. Ex. perguntou-me ha pouco:--que importava que eu
fosse rico?--E eu disse-lhe que tinha medo de responder. A snr. D.
Maria Jos animou-me a explicar-me; e antes que eu chegasse 
justificao, emmudece-me, declarando que me est ouvindo, porque 
delicada! Se fosse to boa de corao quanto  melindrosa, no m'o dizia
to seccamente... antes havia de permittir que eu me desculpasse d'umas
palavras innocentes que lhe deram de mim conceito injusto e mo.

--Mo conceito, no, senhor--emendou D. Maria--pareceram-me apenas uma
impertinente phrase que s violentada podia entrar na nossa conversao.
Eu dizia-lhe que o snr. D. Miguel  infeliz; e V. Ex. respondeu-me que
era rico. Figurou-se-me que me considerou medianeira nas esmolas que se
pedem para elle...

--Errou, minha senhora--retorquiu Raul, fortalecido pela pureza
nobilissima das suas tenoens.

--Ento, seja generoso em me desculpar, e creia que por interesse, e no
por civilidade desejo ouvil-o.

Baldaque, aps uma longa pausa, em que denotou no rosto penosa
inquietao do animo, disse verdadeiramente conturbado:

--J no posso...

--No pde!?--sobreveio a luveira com ares de incrdula.--Ento no
pde? porqu? Isso faz-me desconfiar que...

--Desconfiar?...

--Sim, desconfiar que V. Ex., em sua hesitao, me d a perceber a
difficuldade de combinar o respeito, que me tem, com a explicao que me
ia dar da sua riqueza. Se assim , agradeo-lhe mais o silencio que a
explicao... Deixemos no escuro o seu segredo e esqueamos o que houve
de mais nas suas revelaoens. Entretanto, snr. Baldaque, no lhe direi
que vou ser com V. Ex. mais sincera do que fui com outras pessoas de
quem me no aggravo nem me orgulho. Com essas pessoas a minha evasiva
foi o silencio, sem desdem nem menos preo. Com V. Ex. no ser assim.
Serei verdadeira, porque vou responder ao que me disse e talvez at ao
que formou teno de me dizer. No dia em que abri esta loja de luvas,
estabeleci com a sociedade as unicas relaoens compativeis com este
modo de vida. No escolhi esta posio, calculando outra melhor. No
pensei puerilmente em prender admiraoens de espiritos extraordinarios
que folgam de matizar os actos vulgares da vida com o ouropel da poesia.
Esta loja, com uma pobre mulher que tira d'aqui o seu parco sustento,
no  romance,  occupao ajustada s minhas faculdades e aos meus
recursos. Eu poderia optar por encargo mais senhoril e lucrativo;
poderia ensinar nos collegios as linguas que estudei, e algumas prendas
que vou deixando esquecer como inuteis; poderia; mas o contacto com a
sociedade assustava-me; a convivencia de mestra com as discipulas
privar-me-hia dos confortos da alma que esperava achar e achei neste
viver obscuro:  a soledade, o estar ssinha o maior numero das minhas
horas, o desprendimento de cuidados que me forariam a sahir de mim
mesma, se eu quizesse dar boa conta do meu prestimo salariado  educao
de meninas. Sei que me desempenharia mal por no poder, com este
espirito que tenho egoista de sua tristeza, prestar atteno aos
sagrados deveres de quem educa...

--Mas V. Ex....--interrompeu Baldaque.--Perdo!... receio ser
indiscreto, fazendo-lhe uma pergunta...

--Queira dizer.

--Se ouso perguntar,  porque muita gente diz que V. Ex. herdou...

--Esta casa e nove contos de reis em inscripoens.

--Nove contos de reis em inscripoens...--volveu receioso o filho do
millionario--no bastam para quem tiver aspiraoens menos modestas que
V. Ex.; mas... o rendimento d'elles, creio eu, dispensariam a snr. D.
Maria Jos de dirigir este negocio to pouco lucrativo; e, se me concede
dizer mais, bem podra V. Ex., afastando-se inteiramente da sociedade,
gosar as suas horas todas de solido, poupando-se s lagrimas que ha
pouco vi explicarem o seu sorriso... Peo outra vez perdo, se me excedi
nestas observaoens  sua vida intima.

--As observaoens so justas--respondeu tranquillamente D. Maria--mas eu
no tenho hoje de meu seno esta casa e o valor dos objectos desta loja.
A indagao de V. Ex. deve satisfazer-se com saber isto, e nada mais.
Se mais alguem o sabe, no ha razo para que eu esconda a minha pobreza
d'uma pessoa j convencida de que eu desejo ser pobre.

-- minha senhora!... nem mais palavra hei de proferir a tal respeito...

--A minha pobreza  voluntaria, reflectida e aprazivel--continuou a
filha de D. Miguel. Quem tiver pena de mim, usurpa a sua
commiserao a quem a merece e necessita... Ha pouco me disse V. Ex.
que eu no dei valor s generosas propostas de cavalheiros abastados que
me pretendiam com honrosos intentos. No dei valor  opulencia que me
offereciam; mas ao sentimento que os moveu a favorecer-me sou muito
grata. Eu desejava que para cada mulher mal-afortunada sorrisse a
ventura dos casamentos ricos. Deve ser muito cubiada similhante
felicidade, porque tenho visto o espanto, e talvez o despeito, no rosto
das pessoas cuja riqueza eu me dispensei de apreciar. E a mim, ao mesmo
tempo, parecia-me indiscrio e mediania de polidez vir aqui alguem
obrigar-me a ser indelicada para evitar exposioens de affectos, que s
ento me faziam pensar na inconveniencia de ser luveira.

Dona Maria sorriu, passou a mo alvissima pela fronte, deteve n'ella a
cabea como quem revoca idas fugitivas, e proseguiu:

--Snr. Baldaque, cheguei ao fim do que deve saber de mim propria.
Escolhi esta posio. Se sahisse d'ella, attrahida por bens de fortuna,
a minha alma teria pejo de sua baixa indole. Ha sacrificios que tem
glorificaoens intimas e ineffaveis. So dres que os pacientes no
querem consoladas; so as rozetas dos cilicios que as creaturas
delirantes de amor divino apertam mais, quando  maior a angustia. Ha
penitencias moraes muito parecidas com as voluntarias maceraes das
santas. Nem a penitente acceitaria os supremos regalos deste mundo a
trco das suas disciplinas, nem eu trocaria a minha independencia, nesta
solitaria e obscura distancia de theatros e bailes, pelo brilho que meus
olhos canados de chorar no supportariam.

--Comprehendi, minha senhora... disse Raul, revelando a magua no tremor
da voz.--A palavra corao nem uma s vez appareceu entre as phrases
glaciaes com que me repelle. Ha poesia sublime e santa no mysterio que
lhe norta a existencia; mas, nas suas estrellas, no co das suas
visoens, estrella de amor no brilha nenhuma... Como havia de V. Ex.
comprehender-me, se eu, articulando em soluos as minhas confissoens,
seria como o infeliz que exhora uma divindade de marmore, e no a alma
apaixonada que pretende communicar o seu ardor a outra alma?... As
minhas confidencias no poderiam ser ouvidas no alto ponto d'um
sentimento incomprehensivel em que V. Ex. me esconde as suas
phantasias. Eu sabia que tinha posto os olhos da face e os da alma na
mulher virtuosa; mas tambem cuidava que as excellencias do espirito
no matam de esterilidade as flores, do corao. Na sua edade, snr. D.
Maria Jos, ha almas devastadas, que, desde o baixo positivismo do
descrer, vingaram, por effeito da f ou da graa divina, desferir nas
azas da piedade altos vos at pousarem no seio de Deus; essas, porm,
sei eu que l mesmo do co devem chorar sobre as illusoens perdidas da
terra. Sei que ha almas assim cahidas e resgatadas; mas sobre as cinzas
de minha me irei jurar que na pureza do rosto, na serenidade do olhar,
na virtuosa altivez de suas palavras, minha senhora, lhe transluz a vida
inteira, sem nodoa, sem laivo escuro que ahi deixasse o anjo maldito do
desengano. Nenhuma esperana lhe foi mentida, nenhum desejo lhe foi
malogrado. V. Ex. no desejou nem esperou as felicidades que espera e
deseja a mulher na flor dos annos. Se alguma hora sentiu estremecimentos
de amor, soffreou-os com a violencia da sua justa vaidade...

--Vaidade!--interrompeu D. Maria--Vaidade!

--A palavra no  esta;--insistiu Raul com firmeza--ha outra mais bem
cabida, mais senhoril; mas tambem menos desculpavel em nossos dias de
luz, de expanso e de guerra victoriosa aos preconceitos...

--Diga a palavra... No se constranja...

--Orgulho do seu nascimento--obedeceu elle receioso.

--Louvo-lhe o coragem, snr. Baldaque. Se disfarasse a ida, no
conseguiria enganar-me. Agradeo-lhe a franqueza. Tenho orgulho, 
verdade, tenho muito orgulho de ser filha do principe pobre, do principe
desterrado; e, cortejada  beira do throno de meu pae, talvez o no
tivesse. Tenho orgulho de me ver abatida, e tenho pezar de no haver
compartido das amarguras do grande infeliz. Quando elle soffreu extremas
necessidades nos primeiros annos do seu desterro, ainda eu via nas salas
e guarda-roupa de minha me valiosas reliquias de uma opulencia que no
havia sido d'elle, nem do estado, nem da casa do infantado, nem das
extorsoens feitas a uma nao arruinada. Se essa opulencia subsistisse
quella hora em que fiquei orfan, eu venderia at o leito de minha me
para o soccorrer, e ajoelharia  divina Providencia, exhorando-lhe que
me deixasse ganhar o po de cada dia, e permittisse que a miseria se
abraasse com a dignidade, e as lagrimas, se era precizo choral-as, me
no sahissem impuras do corao. O meu orgulho j v, snr. Raul, que
principiou assim: principiou como comea a humildade de muita gente
desafortunada. Filhas de reis haver muitas que se julgariam
aviltadas pelo trabalho; e eu soccorri-me do trabalho humilde para
sustentar o meu orgulho de filha d'um rei. A mulher que se d a fidalga
distinco de igualar-se  plebe, reservando para si a superioridade de
agradecer com um sorriso as offensas inevitaveis nas posioens humildes,
no se lembra que  neta de reis para ter orgulho. Mas esta palavra 
aspera,  negativa da virtude, sa rispidamente aos ouvidos da moral
christan. Tambem aos meus. Se a consciencia me no dissesse que ella
exprime innocentemente o conceito que de mim frmo, pediria a V. Ex.
que antes lhe chamasse energica hombridade, vigor de caracter, condio
excentrica e singular, se quizer, mas defeito de corao seria injustia
attribuir-m'o. Orgulho de pobreza, sim; mas sem as irritaoens do
orgulho plebeu; sem a cupidez infernada na alma. Tenho uma ambio,
mortificante mas inoffensiva, uma ancia, que, se  peccaminosa, as
lagrimas, que ella me faz chorar, de certo me tem lavado a alma das suas
impurezas. Esta ambio  um desvario de enfermo que se estorce no ardor
da febre; mas  peor ainda;... que as minhas agonias no devem
revelar-se, so profundas, abafo-as, escondo-as de todos; porque estou
ssinha n'este mundo; e to desgraada que no acharia allivio
algum em confidencial-as... Expliquei-lhe o meu orgulho--concluiu D.
Maria Jos, sorrindo e bebendo as lagrimas ao mesmo tempo.

E, volvidos alguns segundos, como Raul, embebecido na contemplao
d'aquella mulher, em que duas formosuras pareciam deslumbrar-se, no
proferisse um monosyllabo, disse ella, amaciando a aspereza da pergunta,
com a brandura do tom:

--Chamou-me orgulhosa do meu nascimento, snr. Baldaque. Eu confessei que
sou; e, olhe, tenho uma qualidade mais reprehensivel ainda... quer que
lh'a diga?

--Outra virtude?

--Outro defeito... Sou soberba.

--Soberba!...

--Sim, disto que v: d'aquellas luvas, d'aquellas camisas, d'estas
farraparias que me rendem as preciosas galas que eu preciso para
sustentar a minha soberba.

E terminou por um frouxo de riso indescriptivel, talvez um gemido
convulso, um regolfo de lagrimas que se retrahiu ao corao.

N'este lance, entrava uma criadinha com duas latas, de feio de
marmitas, nas quaes ia o jantar da luveira, comprado em uma taverna das
portas de Santo Anto.

Raul, com olhos turvos e voz tremente, apertou a mo de D. Maria
Jos de Portugal, murmurando estas palavras de modo que a criada as no
ouvisse:

--Eu no a mereo... mas hei de amal-a como um escravo, que eu tive, me
quer e ama ainda hoje. E assim como o amor do escravo me faz bem  alma,
pde ser que o meu amor seja na vida de V. Ex. um sentimento suave.

E sahiu.

Jos Parada, e os convivas de Raul de Baldaque e eu no duvidamos
assacar ao amador da luveira os estimaveis defeitos que do quilate
superior a quem faz praa d'elles com a invulneravel petulancia da
riqueza. Julguei-o mal  primeira vez que o vi galhardear-se com
tregeitos e garridices incompetentes de rapaz sisudo. Alm de que, na
altania do seu olhar, no sobrecenho arrogante com que mediu as minhas
modestas dimensoens, emfim n'aquelle hirto aprumo da sua catadura, eu,
illudido pela experiencia de dezenas de exemplares de tolos que me
trazem desconfiado, conjecturei que Raul ho tinha dotes que podessem
inliar o affecto da filha de D. Miguel, a no ser a sua pessoa
tafulamente vestida, o urco do seu phaeton, e o alardo de uns
presumptivos mil e tantos contos.

Este rapaz escolhra o peor expediente para se fazer acceitar na estima
dos seus conhecidos em Lisboa. Deu-lhes jantares cuja magnificencia
inculcava proposito de ostentao; e, no contente da vangloria de ser
rico, desvanecia-se em exceder nas graas de espirito os seus
contubernaes. A reputao de nescio crearam-lhe estes. Havia na calumnia
o ignobil intuito de se arranjarem com a consciencia que os arguia de
parasitas; e o accrdo, que elles faziam com a sua dignidade beliscada,
era imaginarem-se disfructadores do parvena.

Pde ser que o filho do conde de Baldaque, alguma vez ou todas as vezes
que presidiu s suas ceias irritantes e escandecentes no Matta, quer
inflammado pelo ardor natural da sua compleio, quer exagitado pela
perfidia dos licores, se demasiasse em basofias de galan, relatando com
indiscreta jactancia proezas fameaes, mais ou menos phantasmagoricas. Os
seus commensaes, mordidos no orgulho nacional, de mate foroso deviam
trocar-se aquelle geito de olhar de soslaio com que o despeito
convencionalmente se d a mascara de disfructe. No sei at que ponto o
sensato idolatra da luveira havia direito  fatuidade de afortunado em
jerarchias somenos da filha de um Bragana, mas tanto ou quanto
aparentadas com a sua real amada. Como quer que fosse, os seus amigos
apregoavam-no petisco infinitamente brazileiro; e as suas amigas,
com aquelle fino faro de que so prendadas as damas menos candidas, por
tal arte o haviam conceituado que todas as aventuras contadas, em estylo
de _rou_, vinham a ser o mais desgraadamente exactas que 
possivel;--desgraadamente, digo, porque eu desejo que no seio das
familias, que respeito, no sejam smente conhecidas as tres virtudes
theologaes.

Se as entranhas d'aquelle rapaz de vinte e seis annos estavam
canceradas; se as suas victimas lhe resvalavam do seio de glo 
sepultura levadas em lagrimas torrenciaes, no sei, nem o diria quando o
soubesse; que este livro no  obituario. Contra quem me levanto, 
contra mim proprio, porque,  primeira intuio, o aquilatei no vulgar
dos rapazes ricos, libertinos, e cansados.

No fundamento esta retratao e protesto unicamente na sensibilidade,
polidez, e atilado accento de suas palavras  luveira, por tanta maneira
louvaveis que, sendo apaixonadas, no desatremam da prudencia, e podem
ser dadas como exemplar de colloquios do pao dos nossos reis e senhores.

O meu protesto cimenta em bases que no podem dar de si.  o estylo.
Quem falla d'aquelle feitio a linguagem portugueza,--quem ama com
todas as partes da orao em concordancia irreprehensivel, poder, por
inveja ou injustia grave, no ser mencionado nos _Logares selectos_;
mas tolo  que no pode ser.

Ora agora, se amar luveiras regiamente phantasticas, com tamanho siso e
to desusada reverencia,  hoje em dia argumento contra a sanidade
intellectual de um homem que representa mais de dois milhoens, isso 
outra questo que ha de ventilar-se opportunamente.




IX

DAMIO RAVASCO

    A pelle  feia; mas o sangue que gira dentro  estimavel.

                               EURIPEDES, O Cyclope, acto IV.


A gravidade fria e desanimadora de D. Maria Jos de Portugal no vingou
despersuadir o filho do conde. As visitas continuaram com a mesma
quotidiana assiduidade, bem que menos demoradas. Raul Baldaque, ao
reverso do que era natural, em vez de ganhar alento e desembarao,
depois que to resolutamente se manifestra, tornou quella timidez de
collegial, vencida no impeto da paixo.

s vezes, o abatido moo sahia confuso e como corrido de sua tibieza,
pedindo aos proprios brios que o salvassem de to ridicula, seno
indecorosa pusillanimidade. Desconfiado, porm, da inefficacia do
seu pundonor em assumpto de per si rebelde a razoens de orgulho, formava
a s comsigo venerandos juramentos de sacrificar a chimera da luveira 
realidade do seu alegre viver de rapaz. N'estes protestos fazia elle
entrar a sacratissima memoria de sua me; imagem que raramente lhe
passava diante dos olhos do espirito sem lhe deixar no corao bons
sentimentos e um suavissimo ideal da felicidade humana estreme de
dissabores, tedios e remorsos.

Mas a querida imagem, invocada a solemnisar o juramento, no lhe
antepunha mulher que offuscasse a filha do infante. A deparar-lh'a,
dar-se-hia o unico milagre possivel n'estas conjuncturas, milagre alis
frequente, quando as mulheres queridas no tem comsigo a predestinao
da luveira, e o iman tresdobradamente portentoso da formosura, do
talento e do espirito, sem fazer meno do mais feiticeiro filtro que ha
ahi n'isto de magia amorosa, que vem a ser a esquivana da que 
adorada, um no-querer de exempta, uma delicada repellencia que a um
tempo vos alanceia corao e amor-proprio.

As conversaoens de Raul e D. Maria versavam, s vezes, sobre
occorrencias politicas d'onde derivou a guerra civil funesta ao rei
absoluto. D. Maria Jos, sem ousar arguir as imprudencias do pae,
lamentava que os seus conselheiros no fossem mais esclarecidos do que
elle, cuja educao apoucada o obcecara em meio das alvorejantes idas
do seu seculo. Discorrendo varonilmente cerca da historia das luctas
entre a democracia e o privilegio, concatenou os successos que
precederam a revoluo de 1820, e justificou as resultas de que seu pae
devia ser a victima, em castigo de prestar-se a representante passivo
dos ambiciosos estupidos que lhe aconselharam a transgresso do
juramento feito.

Baldaque saboreava-se no do tom preleccionador da dama, que no o
tinha; mas da feminil suavidade com que ella simplificava, em breves e
claros termos, passagens da historia patria, na maior parte ignoradas do
brazileiro.

O leitor, que esvoaa em regioens diaphanas onde se no condensam
vapores crassos de historia, dispensaria que a inspiradora das suas
lyricas lhe referisse chronologicamente os annaes de D. Joo VI no
estylo flatulento de mestra regia bem saturada da philosophia do
historiographo snr. Moreira de S, ou qualquer Niebuhr da sua estfa.
Quero at persuadir-me que o leitor anemico, e avsso a iguarias
condimentosas, rejeitaria mesmamente a senhora de espiritos asss
metricos que lhe leccionasse os fastos lusitanos em estancias do
snr. conselheiro Viale, poeta voluptuoso como gondola veneziana, vista
da Ponte dos Suspiros, a balouar-se cheia de... replhos.

Dou-lhe razo.

O amor seria divindade indigna das lagrimas que se lhe choram nas aras,
se algum peito succubo d'elle podesse acceitar lioens de historia como
flechas do seu carcaz.

A ignorancia, mais ou menos absoluta,  uma das clausulas que nos impe
 nossa servido o filho da deusa viciosa, cuja illustrao no poderia
medir-se com a da senhora Dona Canuto, Venus Urania, se  foroso
mitifical-a--ou outra capacidade menos provada.

No adro dos templos do frcheiro no demandemos philosophos eructando
azias hegelianas, nem jurisperitos polvilhando a ambula dos perfumes com
o vinagrinho que lhes espirita o cerebro resentido da cegueira da
justia. O que l se nos depara, em redor dos pagodes do deus cego, 
gentio a rir e a chorar, que ora se postra supplicante, ora se espoja em
desbragada alegria.

Amor spasmodico, amor macabro, amor epileptico. Ha d'estas tres castas
d'amor na zona luminosa da mulher peregrina. O spasmodico  o
comtemplativo; o macabro  o que salta e se estorce nas vascas
voluptuosas do deleite; o epileptico  o que escabuja debaixo da garra
da perfidia. Ha uma quarta especie d'amor, do qual ninguem faz livros
porque  a mais analphabeta:  o amor de mercearia, o amor sebaceo e
rubido como o burril antigo o immortalisou nas cascatas, e no corao de
nossas avs. Encontra-se esta reliquia dos tempos honestos no terceiro
andar das familias cujos chefes labutam nas suas tendas. Est sentado na
travesseirinha do leito nupcial, brincando com os folhos e borlas azues
da almofada. Resfolega, por bochechas de cravelina, frouxos de riso 
esposa, quando ella, depois da ceia, desaperta os nastros da ceroula
conjugal, emquanto elle encarapua o marido no barrete de dormir. No
temos que entender com algum d'esses amores n'esta chronica, exceptuado
o primeiro, o spasmodico. Nem Stendhal creou adjectivo tanto ao ponto.
Deixemo-nos de crystallisaoens. Spasmos, macabrismos e epilepsias-- o
que ha. Mais nada.

Raul de Baldaque estava, pois, escutando as narrativas da luveira em
arroubos que sobreexcedem os de um alumno de boa f absorto a escutar o
snr. Joo Felix Pereira, quando arenga cerca de Herodoto.

Em uma d'essas tardes de innocentissimo prazer, entrou na loja de D.
Maria Jos um mulato offegante, com os olhos vidrados de lagrimas, e
exclamou em soffocativas intermitentes, dirigindo-se a Raul:

--Menino, venha depressa a casa... venha depressa... que o snr. conde...

--Que , Damio?!--interrompeu Raul--que tem meu pae?...

--Cahiu por morto, quando ia a entrar na carroagem... levei-o nos braos
para casa... chamou-se o medico; mas j no respirava...

O moo, apertando a mo de D. Maria Jos, que balbuciava algumas
palavras compassivas, sahiu acceleradamente.

Quando entrou no quarto de seu pae, as pessoas que rodeavam o leito, no
responderam  interrogao de Raul. O medico apertou-lhe convulsamente a
mo e sahiu. Os restantes eram criados, cujos aspeitos exprimiam mais
espanto do que dr.

O filho ajoelhou  beira do leito e beijou a mo do cadaver; depois,
encostando a face ao hombro do pae, soluou palavras inintelligiveis. Do
outro lado do leito ajoelhou alguem com os punhos cerrados na fronte e
as lagrimas a borbulharem-lhe dos olhos espavoridos no rosto do morto:
era o mulato Damio.

Digamos d'este homem que se nos revela sympathicamente em frente
d'um filho que chora, e ao lado do velho que lhe expira nos braos.

Damio Ravasco era o seu nome. Gentil corporatura de mestio. Feioens
levemente denunciativas da origem indiana de sua me. Olhos fulgurantes.
Epiderme esmaiada, aquelle esfumado de marfim antigo, que nas raas
europas distingue as bellezas finas, o pallor romantico, a vantagem do
espirito sobre a riqueza do sangue.

Damio Ravasco orava pelos trinta e dous annos. J sua me havia
nascido em casa de Antonio Ferreira Baldaque, pae do defunto conde.
Ninguem lhe attribuia filiao d'este ou d'aquelle. As escravas eram
muitas e fecundas todas. Entretanto, nos traos physionomicos de Damio,
realavam parecenas com o pae de Raul; e, no particular affecto com que
o capitalista o estremara desde a primeira infancia, havia o quer que
fosse indicativo de virtude no vulgar nos progenitores dos filhos das
escravas.

Antonio Ferreira Baldaque deu aso a suspeitarem-no pae do mulato quando
o mandou  escla, trajando-o com decencia incompetente a um servo.
Aggravaram-se, porm, as desconfianas, quando, prompto em primeiras
lettras, o rapaz seguiu estudos superiores.

Poucos annos antes, havia casado o negociante com a me de Raul, a qual,
ciosa da considerao que o esposo liberalisava ao filho da escrava,
disparou em impertinencias que poderiam resultar a felicidade do mulato,
se elle pendesse a engrandecer-se por lettras.

Quiz o prudente esposo restabelecer a paz domestica, enviando Damio a
seguir em Portugal a carreira da jurisprudencia ou da medicina na
universidade de Coimbra. O rapaz ouviu as ordens do padrinho, e
respondeu humilde, mas com firmeza, que no queria ser doutor, nem tinha
queda para estudos.

Esta confisso no era vaidade mal rebuada em modestia. Em Damio
Ravasco, ao passo que a esforada musculatura se alargava com
proporoens agigantadas, parecia que as potencias da alma lhe eram
deprimidas pelo pezo da materia. Os condiscipulos no ousavam
motejar-lhe a rudza, desde que elle, em polemicas grammaticaes,
abusando dos preceitos mais vulgares da camaradagem litteraria,
respondia com sccos ou marradas aos argumentos dos adversarios:
indignidade que ainda no vimos praticada em outra parte, seno no
parlamento portuguez.

Os professores haviam j prevenido o protector do mulato, quanto 
incapacidade rebelde do estudante; apesar disso, Baldaque desejou
illustral-o, at ao momento em que Damio por claros termos se recusou.

Interrogado sobre o modo de vida que melhor quadrava ao seu genio, o
rapaz, que ento contava dezoito annos, respondeu que o seu gosto era
ser boleeiro; e acrescentou que tarde ou cedo o havia de ser, porque
ninguem fugia  sua estrella.

Ou porque respeitasse a estrella de cada sujeito, ou receiasse denunciar
o que era, ou dar mais fortes suspeitas do que no era, o negociante
offerecera alguns contos de reis a Damio Ravasco a fim de que se
estabelecesse, consoante sua vontade e vocao.

O mulato rejeitara o dinheiro dizendo entre soluos que no queria
deixar o padrinho; e, abraado ao pequeno Raul, rogava-lhe, debulhado em
lagrimas, pedisse ao pae e  me que o no mandassem embora.

A esposa do submisso negociante no condescendera. Os rasteiros
instinctos de Damio, preferindo a cocheira  universidade, e a sella s
cartas de bacharel, acerbaram o desamor da dama que afiava cortantes
chacotas contra a defunta escrava, assacando-lhe que ella arteiramente
capacitara da tal paternidade o seu senhor, usurpando direitos de
progenitura a algum obscuro lacaio. Antonio Baldaque, posto que no
se desse como pae do mulato claramente, devorava em silencio o insulto,
deixando-se invilecer e maneatar pelas centenas de contos que a esposa
augmentara aos seus haveres.

No era elle todavia insensivel ao espinho occulto que lhe pungia na
vaidade de pae, quando diligenciava demover o afilhado da vil profisso
de boleeiro, incitando-o a sair para Portugal, onde lhe segurava
recursos para negociar, se no quizesse outra carreira.

Damio Ravasco, soffreando esforadamente a sua mania, cuidou que
poderia conformar-se, e j parecia vencido das indirectas instancias do
padrinho. Mas, um dia, como visse annunciada a venda de carroagem e
parelha do ministro francez, concorreu ao leilo, licitou por no poder
conter-se, e arrematou o trem, obedecendo  espora do instincto que o
no deixou reflectir na desobediencia.

Dado tal passo, Damio foi despedir-se do padrinho que o recebeu de mo
rosto, improperando-lhe a baixeza das inclinaoens. O moo, porm,
possuido dos fidalgos espiritos de muitos portuguezes coevos, netos de
Gamas, Albuquerques, Castros e outros, respondeu que a sua inclinao,
no o deshonrando a elle no podia deshonrar ninguem.

A pessoa de quem Damio Ravasco se despediu com muitas lagrimas era
o menino Raul. A creana pagava amorosamente os afagos do mulato,
defendendo-o como podia, quando a me o tratava com desaffecto, e
fugindo d'ella para os carinhos do filho da preta, quando a retrincada
senhora o appellidava affrontosamente o _negro_.

Comeou o mulato sua vida de alquilador prosperamente, comprando
carroagens, e boleando-as elle mesmo. A paixo da almofada e do pingalim
no lhe consentia aristocratisar-se na sua esphera de proprietario de
nove parelhas normandas e seis aceados trens. Era artista em extremo
grau. Entrajava com menos alinho que os seus criados. Todo o seu
deliciar-se em luzimento e galhardia de composturas eram os arreios dos
cavallos e o brilhante verniz das equipagens.

A propenso do mulato no era das que menos se prestam a irritar as
sanhas das indoles brigosas. A pararia com homens de Cavalharia, de
natural bulhentos, muitas vezes o poz no gume do perigo, e outras tantas
lhe deu admiraveis triumphos de pugilato, quando no era a navalha que
empurrava os adversarios para o hospital. A policia, inquietada e nem
sempre respeitada pelo valento, quiz prendl-o em cumprimento d'uma
pronuncia por crime de tentativa de morte nas pessoas de dous
negros que haviam maltratado na chacara Raul de Baldaque, em occasio
que este se comprazia frechando-os com alfinetes desempolgados do arco,
sob pretexto de ensaiar-se para Guilherme Tell.

Homisiou-se Damio em Vassouras, recommendado pelo padrinho, a quem
cumpria patrocinar o generoso defensor do filho legitimo.

Este caso amolleceu a dura condio da me do menino, cujo prazer de
assetear negros lhe seria descontado em torcegoens de orelhas, se o
filho da escrava no sangrasse a ferro as iras dos offendidos.
Quebrou-se, pois, a antipathia da dama, at  condescendencia de
permittir que o marido sahisse a publico em abono do afilhado,
legalisando as navalhadas como justa defesa.

Damio Ravasco regressou absolvido, mas no emendado, ao Rio de Janeiro.
A impunidade alargara-lhe o flego das proezas. Cuidar-se-hia que a sua
paixo dos quadrupedes ia desandando n'outra menos estranha 
super-intendencia do codigo criminal. Quando evitasse o ensejo de provar
a mo na cara dos que se lhe arrostavam, vr-se-hia  sua beira Raul a
quem elle obedecia docilmente; mas, como essas occasioens eram menos que
os lances em que o provocavam, ou elle se considerava provocado, raro
era o dia em que Ravasco no tivesse de explicar  policia a razo
por que certos queixosos haviam perdido alguns dentes, ou, com os olhos
tapados por contusoens, recorriam  justia pouco menos cega que elles.

N'este meio tempo, falleceu a esposa do capitalista.

O viuvo apressou a liquidao dos seus grandes bens de fortuna, com o
proposito de repatriar-se, e saborear em socego o restante da vida.

No queria elle trazer para Portugal o mulato, receiando desgostos e
sobresaltos, em tempo e terra onde lhe sorriam esperanas de remanosa
tranquillidade. Tanto poderam, no emtanto, com elle instancias do filho
que no houve recusar-lhe a companhia do amigo.

O conde de Baldaque, em Lisboa, ostentava opulencia ajustada ao titulo.
Damio mordomisava a cocheira, com voto deliberativo na escolha das
parelhas e carroagens. A paixo recrudecera-lhe a termos de no querer
outra posio em casa do padrinho. Pelo que toca ao sestro das
valentias, corrigira-se tanto quanto o conde podia ambicionar. Como no
tinha inimigos em Lisboa, o mulato, absorvido no deleite de palmear e
almofaar as ancas dos seus cavallos, apenas uma ou outra vez
esbofeteava os criados gallegos da cavallaria para exercitar a
pujana dos tendoens _in anima vili_.

Raul de Baldaque, nas estouvices de rapaz, se precisava de um amigo que
lhe antepozesse a sua vida aos lances arriscados, aventurava-se aos
maiores perigos com Damio ao lado. Confidencias amorosas,
particularidades que elle escondia dos seus commensaes, dialogos intimos
com damas de primeira plana, tudo revelava a Damio Ravasco. O mulato
ria das aventuras do amo, e aconselhava-o a ser rasgado e audacioso com
as fidalgas quando elle se prezava de o ser com as mas dos visinhos.

No lhe era portanto mysterioso o amor de Raul  luveira.

E o seu modo de pensar a respeito d'esses amores, que to mudado lhe
traziam o pensativo menino, o saberemos logo.

Dada em resumo a biographia do mulato, personagem de maxima importancia
n'esta historia, temos explicado aquellas lagrimas, que o filho da
escrava chorava, beijando a mo fria do homem a quem nunca ousra chamar
pae, posto que, no silencio da alma, uma voz mysteriosa lhe dissesse que
Raul era seu irmo.




X

FRUCTA DO BRAZIL

    _Murro_, s. m. pancada com a mo fechada. _Soco._

                      ROQUETE, Dicc. da Lingua Port.


Aqui desapparece o romantico nome de Raul.

Vamos ter a vulgaridade d'um conde. Queixem-se do ministro que dera o
titulo em duas vidas ao primeiro. Todavia, entre luveira e conde o
relevo dos amores deve dar margem e contrastes mais palpitantes de
actualidade, como j se no diz. Amores de luveira...

No  isto exactamente. A luveira no o amava. Era para elle em rigor o
que lhe disse que era.

Distinguia-o do acume d'onde o via em baixo, bem que no seu levantado
orgulho houvesse uns brios de magestoso abatimento. Era
irreconciliavel o divorcio de sua fidalga pobreza com opulencias
provenientes de homem que intentasse offuscal-a com esta cousa
sobremaneira desprezivel chamada dois milhoens, ou--mais execravel
ainda--tres milhoens!

O conde honrou a memoria de seu pae, encerrando-se por espao de quinze
dias.

Como a saudade filial lhe estivesse pedindo consolaoens que ninguem
sabia dar-lhe, o moo desafogava em cartas enviadas a D. Maria Jos, nas
quaes se carpia como se devesse achar allivio na condolencia da mulher
destinada a duplicar-lhe os perdidos affectos de pae em caricias de esposa.

D. Maria Jos de Portugal respondia compassivamente s cartas,
adoando-lhe a dr com a certeza de que lh'a conhecia, porque tambem
ella havia perdido sua me, e gemra na dupla orphandade de mulher e
mulher pobre. As suas respostas, se alguma vez pareciam dulcificadas por
sensibilidade de amiga, nunca tocavam o sentimentalismo amoroso. E,
tanto era o desartificio com que naturalmente se expressava, que ninguem
veria nas cartas d'ella o esforo da mulher que se disfara, ou procura
colorir com termos delicados a parcimonia de mais affectivos
sentimentos.

O conde no escondia o seu despeito de Damio Ravasco. Lia-lhe as cartas
que escrevia e as respostas recebidas por intermedio d'elle. E o mulato,
pouco dado a interpretaoens de phrases que se afiguravam reconditas 
vaidade do conde, sahia-se s vezes com umas reflexoens alheias do bom
senso que irritavam sobre modo a delicadeza do amo.

Por exemplo, uma vez, andando o conde a passeiar no seu quarto, e a
dizer em vozes interrompidas por suspiros que a luveira o havia de matar
ou endoudecer, Damio, tomando-lhe o passo, fallou do seguinte theor:

--Ora meu amigo, vamos a isto. Estou farto de palavriado. Obras, obras 
que se quer. Seja homem, e attenda l ao que lhe vou dizer. Se o menino
quer morrer ou perder o siso, no quero eu. A mulher ha de ser sua tanto
me importa a mim que seja filha do rei como do diabo! Luveira  ella,
isso vou eu jural-o, porque ainda hontem lhe comprei umas luvas de
camura. Mas, se fosse filha de rei e morasse no palacio real, antes de
V. Ex. morrer ou endoudecer, havia eu de fazer mais restolho que dez
milhoens de diabos para que ella fosse sua. Se eu pudesse, muito que
bem; se no pudesse, quem havia de morrer primeiro que o snr. conde era
eu.

--Que fazias tu, Damio?--perguntou entre grave e risonho o conde.

--Que fazia?

--Sim...

--Vamos aqui fallar serio. Sente-se o snr. conde, e, se eu disser alguma
parvoice, no se enfade, que perde o tempo. Um homem  um homem, parta
d'este principio, como dizia o frade que me queria ensinar logica. Um
homem no  uma mulher. As mulheres vencem com choradeiras, os homens
vencem com obras: percebe o que eu quero dizer na minha? Um homem sem
desembarao...  mulher. L que a gente morre, quando no se desengana a
puxar por si, no tem duvida nenhuma. Ha muito tempo que eu andaria s
malvas, se me deixasse estar quieto a conversar com a prudencia. A
prudencia  boa nas terras onde no ha marotos...

--Mas a que vem tudo isso, Damio? Bem se v que o frade no conseguiu
ensinar-te logica!... Ento que queres tu que eu faa?

Damio Ravasco soltou uns froixos de riso scco, esfregou as mos, deu
duas palmadas nas pernas, e respondeu:

--Se o menino me dissesse: Damio, eu quero aquella mulher, custe o que
custar--a mulher seria sua, ou eu me dava em corpo e alma ao maioral do
inferno! Diga-me c, snr. conde: como foi que se arranjou no Rio
aquelle negocio da franceza que estava com o chanceller? O menino
contou-me que ella no o queria, e o maltratra diante de outros...

--Cala-te, que me ests irritando!--atalhou o conde.--No admitto
comparaoens entre a franceza e D. Maria!

--Mas o menino dizia da franceza a mesma alicantina que diz
d'esta--observou o mulato, maliciando o sorriso com a velhacaria d'um
pratico do corao humano.--Eu fui dar com V. Ex., na chacara de
Petropolis, triste, pensativo, a fallar s, a dar uns ais que parecia
rebentar de paixo d'alma. Perguntei-lhe que tinha. Disse-me que amava a
franceza do chanceller, e que dava um tiro na cabea, se a no pudesse
tirar ao francez. Foi assim, ou no foi?

--No me atormentes!--insistiu o conde, corrido talvez de confrontao
que o mulato equiparava entre as duas situaoens analogas.

--Mas...--tornou Ravasco.

--J te disse que me no afflijas... Queres dizer-me que fazes  filha
d'um principe o que fizeste  franceza?...

--Sim... eu... acho que...

--Achas que D. Maria pde ser levada n'uma sege  traio, e calar-se
depois mediante alguns centos de libras como a outra?...

Damio sacudiu os hombros  feio de quem cynicamente presume que a
distancia divisoria entre duas mulheres no  tamanha como os poetas a
medem. O conde todavia assanhado pelo tregeito do mulato, ergueu-se de
impeto, coriscou-lhe um lance de olhos humilhante, e sahiu, murmurando:

--Instinctos de cocheiro... a final!

O insulto confrangeu a alma forte do filho da negra; mas nem leve assomo
de colera se denunciou na mudana d'aquelle aspecto. O amor de Damio ao
filho de seu padrinho era tolerante e impassivel at  covardia.
Beijal-o-ia, depois da injuria, como as mes beijam os filhinhos que as
esbofeteam.

No obstante, logo que o espanto e a dr cederam  reaco da dignidade,
o mulato procurou o conde, e disse-lhe dissimulando a commoo:

--O cocheiro vem despedir-se. Vou recolher-me  cavalharia de V. Ex.,
e sahirei de l para outra, quando souber que o snr. conde encontrou
feitor que me substitua.

O conde deteve-se momentos a contemplar a serenidade do mulato, que o
fitava com os olhos turvos de lagrimas a desmentirem a dureza do semblante.

Qualquer que fosse o agastamento do amador da luveira, a offensa feita 
filha dos Braganas podia menos no amor do moo que a inveterada
gratido aos extremos do mulato. Demais d'isso, a opinio publica do Rio
de Janeiro, quanto  filiao do filho da escrava, no era estranha ao
conde; e mais que tudo, seu defunto pae, louvando o sisudo proceder do
afilhado, em Lisboa, havia dito ao filho que a sua maior pena era no
ter podido elevar Damio  decente independencia que projectra.

Por tanto, ainda que de si mesmo quizesse esconder as proprias
suspeitas, o conde no podia esquivar-se  conjectura de que o mulato
era seu irmo; e tal desconfiana, penetrante como um sobresalto de
subita evidencia, lhe alvorotou o animo no instante em que as lagrimas
de Damio, rebeldes  vontade, pareciam a um tempo queixar-se do ingrato
e pedir perdo para o desvario d'um doudo enthusiasta que, em servio
das paixoens frequentes de seu amo, no distinguia entre a concubina
d'um chanceller e a filha de um rei.

Estas e outras louvaveis reflexoens ponderavam no espirito do conde,
quando, approximando-se de Ravasco, lhe abriu os braos, estreitou-o ao
peito, e disse:

--No finjas que me deixas, Damio, porque tu no deves nem podes
deixar-me...

E o mulato, rindo e chorando, tartamudeava palavras convulsas, em
quanto o conde proseguia:

--No se deixa um rapaz de quem se  amigo, desde o bero, e a quem se
deu proteco quando elle a precisava menos que hoje. Olha que estou s
no mundo, Damio. No tenho ninguem que me estime, seno tu. Dos
affectos que me rodearam na infancia e mocidade, vives tu s. Se me
faltares, accuso-te de mo e ingrato, e hei de convencer-me que no ha
para ti amisade duradoura seno... a dos trens--concluiu jovialmente o
conde, j quando o mulato o levantra nos braos como quem afaga no colo
uma creana para desamul-a com meiguices.

D'ahi a pouco estava outra vez o conde confidenciando a Ravasco o seu
fatal amor  mulher que lhe no dava mais estimao s qualidades
pessoaes do que  riqueza e ao titulo. O mulato transiu-se de assombrado
quando o millionario lhe affirmou que a luveira pobre o rejeitaria, se
lhe elle offerecesse a mo de esposa.

--O menino j lh'o disse?!--interrogou Damio.

--No. Disse-m'o ella para me poupar ao dissabor da pergunta.

--Snr. conde--volveu o sceptico--olhe que ha mulheres finorias!... Olho
vivo, menino!

--Damio!--accudiu desabrido o conde em desforo de D. Maria.--Sinto que
o teu espirito no saiba respeitar devidamente a mulher que eu
escolheria para minha esposa!

--Respeito, sim, senhor. Isto  um modo de fallar. Mas no creio que
haja senhora rica ou pobre que rejeite o snr. conde, que  moo,  bem
parecido, sabe o que diz, e tem mais do que pensa. A mulher, que o no
quizer, tem outro homem, ou  douda. Eu, no seu logar, tratava de
averiguar se essa creatura  o que parece, e regula bem da cabea.

--Damio!... s incorrigivel!--bradou o conde.

--Palavra de honra, que no sei fallar com o menino! Sabe V. Ex. que
mais, senhor conde? Ha por ahi duzias de amigos que o intendam e o
enganem; eu c por mim, sou d'esta laia. Digo as cousas toscamente como
sei. Se a senhora fidalga  boa, no perde nada com a minha opinio; se
no  boa, peor para ella. O que eu quero  que V. Ex. no soffra, nem
seja enganado. Das duas uma, como dizia o meu mestre de logica: se ella
o ama, case com ella; se o no ama, de que lhe serve padecer? Eu c no
queria mulher que me quizesse por compaixo.

Apezar da nimia tolerancia com que o escutava, o conde pretextou
qualquer motivo para cortar a conversao.

N'esse mesmo dia, Damio Ravasco foi  loja da luveira, com o disfarce
de quem passava, e perguntou a D. Maria Jos se queria alguma cousa para
o snr. conde.

--Elle est bom?--perguntou ella.

--No, minha senhora.

--No! que tem? est doente?

--Da alma.

--Saudades do pae?

--Tudo se ajunta. Saudades... e paixo....

--Paixo? sim... paixo pelo pae...

--Paixo por V. Ex.

D. Maria crou. No era bem o pejo de tal revelao feita por pessoa de
esphera infima. Era febre de mais fidalga enfermidade: era o decoro de
princeza, fibra estremecida por nevralgia de orgulho, mas fibra que no
 commum de todas as senhoras fibrinosas.  um filamento adelgaado pelo
esmeril do tempo atravz das raas; cousa que vem das castellans do
cyclo feudal; que estremeceu nas mulheres dos baroens da meia edade; que
no tem vibrao nenhuma nas baronezas d'esta edade recentissima. E vai
depois o mulato, como eu vinho contando, foi embargado no seu plano de
requerer a mo da luveira para o conde.

 que dous sujeitos, vestidos ao bizarro, e bem talhados de suas
pessoas, entraram  loja, e com ademanes farolas, pediram collarinhos
de bretanha.

Expoz no balco a luveira as boctas dos colleirinhos.

Os freguezes, a par e passo que os iam examinando mui devagar,
galanteavam a silenciosa senhora com uns dizeres desta casta:

--Mal empregados olhos em almofadas de costura! Quem os tem to
matadores melhor uso lhes daria, se se dignasse olhar para outros que a
amam...

    Eram negros cr da noite
    Uns olhos negros que eu vi...

O sujeito que assim fallava, dava ares de deputado do norte, papa-fina,
calaceiro de damas sertanejas, gallo de alda vezado a cacarejar
finezas; mas bem creado e de fama na sua comarca, e talvez mais adiante,
como pessoa perigosa para senhoras frageis ao dom da palavra.

O outro, que vislumbrava esperteza e garbo de lisboeta, sorrindo
desdenhoso  linguagem do amigo um tanto ranosa das galanices do
Clarimundo, fallou d'esta arte:

--Esta menina, aqui onde a vs, tem, segundo consta, sangue real
nas veias. Se eu fosse principe, fazia-lhe os meus cumprimentos, e
pedia-lhe um osculo.

--E eu dois--ajuntou o deputado dos Arcos ou de Melgao--(de Melgao 
que era, se bem me lembro); mas, prescindindo dos osculos--continuou
mais requebrado--limito as minhas ambioens a pedir-lhe que me tome
medida do pescoo afim de saber-se quaes colleirinhos hei de comprar.
Vou sentir o avelludado das suas alabastrinas mos, mos de princeza...

D. Maria Jos, durante as pungentes facecias dos mal-fadados, no
ergura do balco os olhos carregados de lagrimas. _Mal-fadados_ lhes
chamei; porque Damio Ravasco, em quanto elles fallavam, trincava e
cuspia a pedaos um charuto, ao mesmo tempo que, fervendo em ira, e
agitando machinalmente os braos, parecia dar-lhes alr para uma pega
mortal.

E os dois faceiras decerto no attentaram nos olhos assanhados do
mulato, nem dariam significao funesta quelles tregeitos, se os vissem.

O deputado, entretanto, como a luveira no respondesse ao pedido, alis
honesto, de lhe medir o pescoo, insistiu abemolando a rogativa com um
sorriso de ironica meiguice:

--Ento o meu anjo no se humanisa at  humanidade de me tomar a
medida do pescoo?

--Meo-lh'o eu--disse Ravasco, abarbando-se com o sujeito.

E, proferido o servial offerecimento, recurvou-lhe os dedos da mo
direita na garganta, sacudiu-o de encontro  hombreira da porta, e
d'ahi, tangido pelo impulso de uma valente pescoada com um sonoro
ponta-p, tombou-o  rua. Consummado o feito, voltou-se para o outro,
que se quedava immovel, fulminado, empedrenido talvez por sua justa
indignao, e disse-lhe:

--Voss tambem ha de ter o beijo que pediu.

E o mesmo foi convidal-o com trez tapa-olhos  mo tente, cascados de
tal guisa que, ao terceiro, o sujeito mordia o macadam dos fortes
colhidos de sobresalto, resvalando os dous degraus que o separavam do
seu infausto amigo.

Cobriu-se de profunda amargura o aspeito de Damio Ravasco, ao ver que
os dous freguezes de colleirinhos, depois de se escovarem reciprocamente
com os lenos, e de trocarem entre si palavras mysteriosas,
calcurriaram-se embora com apparencias de sos e escorreitos.

Na sua fome de musculo e sede de sangue, o mulato, dando redia  furia,
idealisra o deleite de esfaquear e mastigar aquelles homens,
porque pensava que elles, repostos na posio vertical, o atacariam
faanhosamente.

N'este emtanto, D. Maria no dava signaes de susto, nem d'aquelle
nervoso palpitar que vai to senhorilmente s compleioens feminis,
quando um homem esmurraa dois na sua presena. Longe d'isso. A
desaffronta dilatara-lhe o corao que o pejo retrahira. Reluzia-lhe o
prazer nos olhos. O odio aos insultadores da sua honesta pobreza
accendera-lhe no peito, por momentos, a ruim, mas natural paixo da
vingana. O sangue de princeza, orgulhosa de raa, refluira ao corao
da luveira, humilde por estudo. Sentia-se bem. No podia nem queria
fingir-se descontente do arrojo do mulato. Com a fronte alta e a
commoo do prazer dos deuses olympicos na voz, disse a Damio:

--Praticou um acto de generoso valor! Se houver de soffrer por minha
causa, no se arrependa de defender a mulher que s tem tido a sua
dignidade e paciencia a resguardal-a de peores insultos...

Avisinhou-se ento o estrupido de uma carruagem. Damio conhecia o
trotar cadenciado dos seus normandos.

-- o patro...--disse elle, correndo  rua.

E abriu a portinhola da carruagem.

--Estavas c?--perguntou o conde.--Que faz aqui este povo?

Referia-se ao ajuntamento do rapazio e mulherigo que escutavam das
primeiras testemunhas do conflicto o caso dos dois homens afocinhados na
rua.

--Que faz aqui esta gente?--instou o conde ao mulato que se occupava
distrahidamente em alargar umas fivlas dos arreios.

--Fui eu que sacudi o p a dous pirangas que...

--Tornas ao fadario antigo?... Que te fizeram?--volveu o conde mal
assombrado.

--A mim? nada...

--Ento a quem?

--Estavam a rinchar pachuchadas e chalaas  senhora alli da loja como
quem derria por uma mulherinha de pouco mais ou menos. Figurou-se-me
que o snr. conde, se c estivesse, faria o mesmo que eu fiz... Os
cavallos esto endiabrados com a mosca! Olha a rdea falsa, rapaz! Vai
ahi at ao Rocio, e desanda. Toca!... No me deixes escarvar o gado que
se escabreia... Olha o cavallo da mo... no no vs a arrifar?

--Espera!--disse o conde ao sota.--Eu volto a p... Damio, salta para a
almofada, mette os cavallos  cocheira, e espera-me em casa.

O mulato obedeceu constrangido. Vaticinava-lhe o corao que
ausentar-se era perder lano de desemperrar as articulaoens dos pulsos.

D. Maria de Portugal referiu o successo, colorindo-o nos promenores
improprios da sua narrativa; mas entremostrando, nas hesitaoens
delicadas, que os offensores haviam merecido o castigo recebido.

N'esta conjectura, abeirou-se da porta um dos curiosos, que mantinham na
rua o auditorio  espera da explicao da desordem, e disse para dentro
que os dois janotas socados pelo mulato vinham do lado da Praa da
Figueira com tres municipaes.

--Snr. conde!--disse D. Maria assustada--rogo-lhe que se retire...

--No me pea V. Ex. sacrificios em que a minha dignidade seja
violentada. Retirar-me de que perigos? O procurado pelos soldados de
certo, no sou eu! Prouvera a Deus que o fosse... N'este momento invejo
Damio; e prezo-o mais do que  costume prezar as pessoas que se invejam.

Dito isto, o conde assomou ao limiar da porta, a tempo que os soldados e
os dois respeitadores da interveno judicial defrontavam com a loja.

O conde conheceu o amigo do deputado. Era um dos seus commensaes nas
ceas amostardadas por danarinas, mulheres que dissolviam o corao
em champagne, e o espumavam nos labios em beijos acres de tanino. Os
quaes beijos, na alma deste contubernal do liberalissimo Raul, haviam
deixado contusoens menos duradoiras que os tres bofetoens do selvagem
americano nas maans pizadas da sua cara.

Acercou-se o paralta da porta da loja e perguntou:

-- conde, ahi dentro est um preto?

--No.

--O scelerado fugiu! disse o deputado.

--No fugiu--emendou o conde.--De quem havia de fugir elle? De VV.
Exc.as? Dos soldados de certo no; porque seria injuriar dois
cavalheiros dessa laia, suppor que VV. Ex.as, castigados ao mesmo
tempo por um s homem, iam invocar a proteco de trez municipaes!

--Que ar  esse teu?--perguntou o lisboeta, estranhando o tom
insolentemente ceremonioso do conde.--Que tens tu com o assassino que
nos assaltou ahi na loja d'essa notabilidade protegida por sicarios de
tal casta?

--Vejo que a proteco da fora armada--replicou rindo o conde--lhe
permitte  lingua a actividade que lhe falta nos braos!... O homem que
lhe bateu, no fugiu.

--Ento onde est?

--Quer esclarecimentos para instaurar querella contra elle? Eu lh'os
dou. Chama-se Damio Ravasco, e vive na casa de Raul Baldaque, s
Janellas Verdes... Procure-o l.

--Ah! ento o preto  da sua familia brazileira?--atalhou o lisboeta
casquinando.--Eu no sabia que a sua nobilissima raa era bicolor! E ns
a cuidarmos que o assassino era um bolieiro!--proseguiu o esmurraado,
tregeitando jogralmente para o legislador melancolico.

-- camaradas!--disse o conde aos municipaes--a nao portugueza
paga-lhes para guardarem as costas a covardes d'esta ral?

O que parecia mais auctorisado entre os soldados, voltando-se aos dois
queixosos, disse que elle e seus camaradas no tinham que fazer alli,
visto que o homem que os espancra j l no estava.

E, como, depois se retirassem, os queixosos seguiram o exercito.

E logo a gentalha, o jury permanente das ruas, usando aquella sarcastica
philosophia que lhe d a independencia dos farrapos, apupou os janotas,
socados por um mulato de jaleca.

--L vo a mastigar fructa do Brazil! dizia um caiador preto, floreando
o pincel com ademanes de vaidoso patriotismo.




XI

SOLEMNIA VERBA

    Allons, de l'goisme, de l'esprit, et de l'impudence,
    e tu seras bientt dans les grandeurs.

                                                  BALZAC.


Elle rugiu de indignao, e metteu na algibeira um rewolver de seis
tiros, quando soube que D. Maria Jos de Portugal tinha sido ultrajada.
Elle quem?

Victor Hugo Jos Alves--pois quem havia de ser?

D. Maria, n'aquella tarde da sova subministrada por Damio Ravasco,
nutava indecisa se deveria fechar o estabelecimento e obstar a novo
insulto, se affrontar animosamente as contingencias da sua posio.

N'esta penosa alternativa, em que de um lado preponderava a inflexivel
necessidade, e do outro lado o medo da zombaria, a encontrou Victor
Hugo.

O ingresso precipitado, que elle fez na loja esbofando, alvorotou a dama.

--Acabo de saber--disse elle, com intercadencias de asphyxia--que dois
biltres ousaram aggraval-a, minha senhora! Eu antevi sempre que V. Ex.,
baixando  plana onde se acha, seria alvo de taes vilipendios. O
sentimento de excelsa virtude, que lhe aconselhou tal passo, no podia
ser entendido n'este javardeiro de Lisboa. Ha dedicaoens santas que se
no permittem s mulheres formosas.  prohibido aos anjos avoejarem por
este inferno sem crestarem as azas. Eu avisei-a, snr. D. Maria Jos.
Contava com isto. Sei o que  esta sociedade. Esperava que a sua
innocente alma provasse o fel do intransitivo calix que est sempre
emborcado aos labios puros. Mas... no venho arguil-a... Venho saber os
nomes dos bigorrilhas que a offenderam!

--No conheo as pessoas que me offenderam, snr. Victor--respondeu D.
Maria Jos, abafando o despeito que lhe causara o tom pretencioso da
censura.

--Mas aqui--volveu o cavalleiro da Ala, arejando-se com o chapo e
chibatando a perna direita com a badine de caoutchouc--aqui estava
alguem que sabia os nomes dos dois birbantes!...

--Estava, sim. O conde de Baldaque sabe quem so: eu no sei.

--N'esse caso, vou procurar... sua excellencia... o snr. conde de Baldaque.

Victor Hugo pausou em cada syllaba uma accentuao ironica, deixando vr
nos dentes caninos o azedume e a podrido.

--Procural-o...--acudiu D. Maria, mais receiosa da tolice que da
braveza--Procural-o!...

--Sim..., minha senhora.

--Para qu?

--Para que me diga o nome dos dois sujeitos que enxovalharam V. Ex., se
 que o snr. conde no reserva para si a honra de a desaggravar.

--O favor do desaggravo j o recebi de um criado do conde; entretanto,
agradeo ao snr. Victor a resoluo com que veio aqui.

--Mas eu, minha senhora!--replicou o filho de Rozenda, enroscando a
badine, e fazendo resaltar a ponta de uma para outra mo--eu lamento
profundamente que V. Ex. fosse desaggravada por um criado de quem quer
que seja. As senhoras, nascidas em degraus inferiores da escala social,
recusariam to ordinario paladim; salvo se o conde de Baldaque pode
armar cavalleiros os seus criados.

D. Maria Jos encarou soberanamente no poeta, e disse:

--A final, que ares so esses que se est dando, snr. Victor? Depois das
zombarias dos homens que no conheo, vem V. S. com os seus motejos?
Estou em lhe dizer que os insultos dos estranhos no me ferem tanto como
as ironias das pessoas que me conhecem.

--Eu no a motejo, snr. D. Maria--acudiu Victor Hugo, compondo a cara
de visagens melodramaticas.--Queixo-me, deploro-me, appllo do seu
orgulho para o seu corao. Uns peitos recalcados do lagrimas; outros
do sangue; e os mais infelizes so os que no podem desafogar chorando,
nem succumbem ao gume da ingratido que os sangra e retalha... Os mais
dignos de lastima so os que a si mesmos se despedaam com os gryphos do
escarneo. Mas eu queixo-me, senhora, sem accusar. Accusar a filha d'um
principe no ousa o vrme, o plebeu, a fronte onde a mo de Deus pode
ser que esculpisse a palavra GENIO...

(Em parenthesis: Victor Hugo, quando pronunciou a palavra genio, no
fez algum signal indicativo que me auctorisasse a escrevl-a em
lettras maiusculas, a no ser o tom, a pancada com que elle a proferiu,
batendo na testa).

--GENIO,--repetiu elle--s genio; cora de conde, no: as coras no as
d Deus; compram-se c. Vinte negros, vendidos depois de azorragados,
do uma cora de conde, snr. D. Maria Jos de Portugal. O sangue de
vinte negros n'um prato da balana; e no outro prato a cora de conde.
Aqui tem como hoje na monarchia de seu pae se forjam os grandes do
reino, os senhores do novo feudo, os castellos dos armazens de
molhados, os ricos-homens que conquistaram pendo e caldeira nas
arrancadas de Africa, nas costas de Guin, pelos sertoens dentro, 
montaria das rezes negras, que se acurralam nos poroens dos aougues, e
se infeiram nos atrios dos palacios d'estes condes, d'estes Baldaques,
d'estes...

D. Maria, que o estivera escutando com os olhos baixos, relanou-lhe um
olhar de frecha, e disse:

--Est-me incommodando, senhor Victor! Lembro-lhe o dever de no
insultar uma pessoa ausente, que me tem tratado com a maior delicadeza,
e de quem V. S. no tem razo de se queixar.

--Estou-a incommodando!--replicou elle com espanto.--Onde foi V. Ex.
escavar palavra to aviltante, to despresadora!?... Diga-me antes que a
injurio. _Incommodar!_ Isso diz-se a um mendigo importuno, a um
miseravel que nos enoja, a uma lama que nos salpica o verniz das botas!
_Incommodar!_ V. Ex. perdeu a magnanimidade com que tratava os
humildes, antes de viver com os condes? A mim, senhora, devra
incommodar-me o carcere onde estive por amor de V. Ex., e no me
incommodou! Deviam incommodar-me as vaias, as zombarias dos
correligionarios que deixei por amor de V. Ex., e no me incommodaram!
Devia incommodar-me o aprumo realengo das suas vozes sentenciosas quando
me falla, e no me incommodam; porque as ingratidoens de V. Ex. no
incommodam, dilaceram; no so fastidiosas como a impertinencia; so
percucientes como a ponta hervada d'um punhal!...

--Tanta palavra, meu Deus!--exclamou D. Maria Jos, rebuando a ironia
no tregeito da admirao.--Todo esse excesso de sentimentalismo seria
bom de perceber, se algum acto da minha vida me obrigasse a dar conta
dos outros ao snr. Victor Hugo... Mas eu creio que no... A amisade no
explica o zelo de V. S. nem me fora a respeitar a censura que me
faz. Se me avala injustamente, sinto; mas no sei que lhe faa...

--Quer dizer--sobreveio o poeta--que ama o conde de Baldaque?

--No, senhor; quero dizer que amo a minha liberdade.

--E nega que ama o filho do negreiro?

--Quem  o negreiro?

--O negreiro era o pae do _rou_, cujo escravo despicou V. Ex.. Vai bem
 filha do snr. D. Miguel de Bragana deixar-se requestar de um homem a
quem seu augusto pae daria como escudo um tagante sobre as costas negras
d'um ethiope a ressumbrarem sangue? Senhora D. Maria Jos de Portugal,
no responda: medite, e, depois dir-me-ha se eu devo noticiar aos
fidalgos portuguezes, com quem me dou, que V. Ex. fez d'este balco uma
especie de altar baixo, ao rz da rua, bem baixo, para que algum ignobil
transeunte pudesse levantar at aqui o brao humilde e depr o vto. S
assim, minha senhora, o arlequim, trajado de conde, ousaria defrontar-se
com V. Ex.. Emfim, comeo a ler no seu rosto o fastio que avilta. Eu
retiro-me... Saiba, porm, que a amo, snr. D. Maria Jos... Note bem...
que a amo! E os homens da minha tempera, quando so indignamente
menoscabados, morrem, ou fazem guerra mortal a quem os despreza!
Note bem isto! palavras solemnes!...

E sahiu.

Victor Hugo Jos Alves era assim! Amava e bramia d'aquelle feitio; mas
era homem--como j poucos havia, e no ha hoje nenhuns--capaz de
desfechar valentes rhetoricas  face de uma senhora. No lhe afeminavam
os olhos as lagrimas da pieguice. Em vez de suspiros ciciosos como auras
entre moitas de rosmaninho e trevo, trovejava urros, quando o dre da
paixo lhe rebentava dentro. Fizeram-no assim a natureza e o theatro, o
sangue do dom abbade de Cistr misturado ao sangue do Alves da sla,
caceteiro defunto; e, alm d'estes sangues, a arte, os dramas do snr.
Mendes Leal, cheios de judeus ciosos, e outros facinoras metaphoricos.

Na noite d'esse dia funesto, o amador aviltado pediu a D. Rozenda que
lhe mostrasse um folheto publicado em 1840 contra a me de D. Maria Jos
de Portugal.

D. Rozenda, receiosa de alguma imprudencia intempestiva, quiz saber que
destino o filho tencionava dar ao folheto.

--Nenhum,--disse elle, coando um riso feroz por entre as luras
croozothicas de tres dentes incisivos.

--V l, Victor!... No faas mal  rapariga...--instou a me.--Se ella
doidejar, deixal-a... Olha que este folheto mente que tem diabo... L
que ella  filha de D. Miguel, isso  to certo como tu seres meu
filho... O que tu tens sei eu...  ferro... soubeste que ella namora um
conde... Isso j eu desconfiava... E ento que se lhe ha de fazer?...

--Que pergunta!--replicou sacudindo a juba o equivoco neto do ferrador
de Povolide.--Que se lhe ha de fazer!... Ignobil pergunta!  me, me,
que  dos instinctos nobres da sua origem? Como pode consentir que seu
filho seja acalcanhado por um villo, que se diz conde? _Conde!_ Ns, os
legitimistas, no reconhecemos titulos outhorgados pelo governo
usurpador. Baldaque  o negreiro,  o chatim,  o plebeu refce. Maria
Jos de Portugal, a luveira,  filha de um rei. Ns, os que defendemos o
prestigio dos nomes historicos, no consentimos que um bandalho, vestido
de conde na guarda-roupa d'esta tramoia que se chama o systema liberal,
se atreva a mercadejar com o producto das negras uma senhora que teve o
pae no throno...

--Pois se sabes que ella teve o pae no throno--replicou a me
sensata--que queres fazer ao folheto?

--O que quero? Vr se posso convencer-me de que esta mulher no 
filha do snr. D. Miguel, casando ella com o plebeu, arraiado dos xaireis
de conde, percebe?

--Mas,  rapaz, se esse conde tem dois ou tres milhoens...

--Ahi vem a senhora com as baixezas do costume!...  o que eu lhe tenho
dito muitas vezes... Est contaminada...

--O qu?--interrompeu D. Rozenda funestando a cara com uma ruim
visagem.--Estou contaminada?!

--Sim, senhora! est contaminada da peste do dinheiro; est gafa da
podrido dos costumes. Creio sinceramente que nasceu nobre; mas a
convivencia com um homem de negocio abastardou-lhe o sangue...

--Olha que esse homem era teu pae, Victor! V l como fallas do auctor
dos teus dias; que eu no admitto atrevimentos, ouviste? J uma vez te
puz as mos na cara, por me dizeres que bem se via que eu era fidalga
por ser burra; agora, dizes que estou contaminada dos costumes, porque
acho que a luveira no andaria mal, se se fizesse condessa... Ora queira
Deus que as tuas faltas de respeito me no obriguem a quebrar-te a cara,
percebes?

Victor Hugo, voltando o dorso s ameaas maternas, ia retirar-se, quando
ella, retendo-o pelas abas do fraque, exclamou:

--J p'r'aqui, malcriado! Voc volta as costas a sua me! Olhe que o
espatifo, ouviu?

N'isto, acudiu aos brados da mulher de rija tempera a irm Euphemia,
cuja brandura de alma se operara debaixo das emollientes meiguices e
trechos litterarios do finado dramaturgo e d'outros homens sensiveis
dados s lettras. As duas irmans altercaram largo tempo crca da
materia sujeita. Rozenda opinava que o filho era um brjeiro. Euphemia
desculpava-o, porque todos os poetas eram assim esquentados da
ida:--these que ella poderia provar com o snr. conselheiro Viale, se o
conhecesse to de perto e  lareira como devem ser apalpados os poetas
grandes.

Assistiu Victor Hugo, impando de tedio,  discusso das manas. Aquelle
espirito, dilatado ao calorico das salas da crte, no cabia na rea
burgueza onde outr'ora Elias e Antunes couberam com as suas almas
fadadas para a pasta e para a mitra. O rival do conde pejava-se de ter
estado no seio de Rozenda por espao de nove luas. Dizia-lhe a
philosophia que o talento  emancipao quando a tutela  bruta, e que
as mes de natural bronco, bem que sejam respeitaveis como machinas
productoras, devera ser desviadas do caminho do genio, se lh'o
atravessam com babozeiras e outras coisas chatas. Encabrestado por estas
idas, Victor, ainda ento bastante adinheirado d'aquelles tres contos
das inscripoens da luveira, sahiu da casa da me, e foi morar no Hotel
de Bragana.




XII

EXPLOSO DE AMOR

                         Deus, ecce Deus!

          VIRGILIO, Eneida, L. VI, V. 46.


Um dia, corridos poucos mezes depois dos successos relatados, entrou na
loja da luveira um ancio com tres senhoras pobremente vestidas de luto
e quatro meninos pallidos, magros, com os olhos grandes e socavados da
fome.

Descobriram-se o velho e as crianas. D. Maria Jos levantou-se e
respondeu  cortezia profunda das tres mulheres, que a cortejaram como a
desgraa corteja o valimento.

O homem, que parecia engulir as lagrimas para poder fallar, disse com o
chapo em uma das mos e a outra no peito:

--Est na presena de V. Ex. um brigadeiro que em Evora-monte
entregou a espada aos vencedores. Em vez de entregal-a, se eu no
tivesse mulher e quatro filhas, ter-me-hia inclinado para a ponta da
espada, e cahiria vingado da sorte, j que as balas do inimigo me
pouparam para to longa e desmerecida infelicidade. Estas tres mulheres
so minhas filhas, A me morreu esgotada de foras, porque teve fome
quando creava a ultima menina, que no est aqui, porque tambem morreu
ha seis mezes. Era j viuva: foi descanar na sepultura, e deixou-me
quatro netos que so estas crianas. Somos oito pessoas de familia. As
minhas filhas trabalham quanto podem e em tudo que sabem. Mas pouco
sabem, porque a si devem tudo. As duas mais velhas ainda estiveram dois
annos em collegio; porm, aprendiam linguas, como cumpria que
aprendessem as filhas d'um official-general, com appellidos tradicionaes
e servios  patria mais valiosos que os appellidos. Tirei-as do
collegio, logo que principiei a vender as joias de minha mulher. As duas
meninas, voltando a casa, fallaram em francez  me, que tinha sido
educada no estrangeiro; e eu disse ento s innocentes mal entendidas na
desgraa de seu pae: Filhas, aprendei a pedir esmola em portuguez.
Ellas estremeceram e choraram, como se adivinhassem a fme e a nudez.

D. Maria Jos, com as palpebras trementes e as lagrimas a borbulharem,
atalhou o brigadeiro:

--Deve ser muito penoso a V. S. contar-me a sua desgraa, e a mim
ouvil-a. Se me julga nas circumstancias de soccorrer as suas mais
urgentes precisoens, e se quer servir-se do meu pouco, espere V. S. que
eu vou buscar algum dinheiro...

--No, minha senhora--tornou o velho.-- certo que venho pedir a V. Ex.
uma esmola, mas esmola muito avultada: nada menos que o po, a educao
e o futuro destes meus netinhos...

--Oh! se eu pudesse...--atalhou D. Maria--V. S. provavelmente est
enganado com os meus recursos...

--Eu no me valho dos recursos da fortuna; mas sim dos da alma de V.
Ex,. Receio estar roubando-lhe tempo, minha senhora, e portanto serei
succinto quanto possa, at para me no parecer com todos os desgraados
que so geralmente diffusos. Ha um mancebo poderoso em Lisboa, do qual
muitas familias realistas, de seis mezes a esta parte, recebem mezadas
abundantes. Este caritativo senhor no  legitimista; no sei o que
 politicamente: sei que  bom;  dos que professam a divina
legitimidade de Jesus Christo. Chama-se elle o snr. conde de Baldaque...

D. Maria Jos corou: eram o nome, a surpreza, e o jubilo, tudo
simultaneamente.

O ancio proseguiu:

--Eu tambem sou dos favorecidos pela bem-fazeja mo do snr. conde, que
me no conhece, nem recebe  sua presena as pessoas que o buscam para
lhe agradecerem a esmola: recebe apenas as que vo pedir-lh'a. Eu j o
procurei. Annunciei-me como portador das lagrimas reconhecidas de meus
filhos e netos. O benigno mancebo mandou-me dizer que voltasse eu a
pedir  minha familia que lhe mandasse sorrisos em vez de lagrimas.
Delicado corao! Como  possivel haver no peito de um rapaz afortunado,
que nunca soffreu, esta sciencia da desgraa, este respeito ao pjo com
que um velho, outr'ora feliz e affagado de ricas esperanas, se dobra a
beijar a mo que lhe reparte o po de cada dia pela sua familia! Diga-me
V. Ex. minha senhora, como to cedo se formou na alma do snr. conde de
Baldaque a virtude que  costume retemperar-se na fragua das dores!...
Teria elle, em annos to verdes, experimentado desenganos, perdas de
nobres affectos, dissabores grandes que antecipam a velhice moral e
influem a precoce piedade dos ancios como eu, e das familias
angustiadas como esta minha?

--No posso responder-lhe...--disse a luveira--conheo o snr. conde ha
pouco mais de um anno... No sei de alguma dr grande na sua vida, seno
da morte do pae...

--Um cavalheiro que o conhecia no me disse mais do que V.
Ex.--continuou o velho.--A este cavalheiro, que priva muito com os meus
correligionarios e se chama Victor Hugo Jos Alves, perguntei se as
relaoens, que tem com o snr. conde, o auctorisariam a pedir-lhe um
favor para o desvalido brigadeiro Tavares. Respondeu-me o snr. Victor
Hugo que no; mas ajuntou que me diria pessoa idonea, e logo me nomeou a
snr. D. Maria Jos de Portugal. Hesitei se devia acceitar a informao
seriamente, porque havia no tom das palavras e no gesto d'elle certo
azedume ou ironia que me fez desconfiar. Contei isto a minhas filhas, e
ellas, principalmente as duas mais velhas, quando eu proferi o nome de
V. Ex., disseram logo que tinham conhecido uma filha do snr. D. Miguel,
no collegio onde algumas vezes foram visitar as suas antigas mestras; e
uma d'ellas, se bem se lembra, ainda deu lioens de francez a V.
Ex....

-- aquella!--exclamou com alvoroo D. Maria Jos, saindo fra do balco
para abraal-a.-- a snr. D. Ernestina Tavares... Eu entrevia no seu
rosto uma pessoa conhecida...

-- esta velha que aqui v de cabellos todos brancos aos trinta e cinco
annos... disse Ernestina.

E D. Maria, com mais familiar sorriso:

--Eu tenho uma saleta, onde posso receber senhoras minhas amigas e de
mais a mais pobres...--E, subiu a escada, correu um reposteiro de chita,
e esperou que as oito pessoas entrassem.

Depois, mandou para a loja a criada, e pediu ao brigadeiro Tavares que
lhe desse a satisfao de ser util  sua familia.

--Eu no sei que futuro hei de dar a estes quatro meninos...

N'este acto, parou um cabriolet defronte da casa. A luveira chegou 
vidraa, e disse serenamente ao brigadeiro:

-- o snr. conde de Baldaque... Eu digo-lhe que suba, e V. S. tem
excellente occasio de dispensar o meu patrocinio, pedindo directamente
o que pretende.

Levantaram-se todos com alvoroto e certa inquietao como de medo. Mil e
duzentos contos representados por um homem  coisa capaz de assustar um
ministerio, quanto mais uma familia pobre!

O conde ficou maravilhado quando D. Maria Jos, descendo at ao ultimo
degrau da escada, lhe pediu que subisse  salinha.

Era o primeiro convite que recebia.

Entrou, e deu logo de rosto com o velho inclinado, quasi ajoelhado que
lhe tomra a mo, e a levra aos labios.

--Eu no conheo...--tartamudeou o conde no maior enleio.

--Sou um brigadeiro do exercito do snr. D. Miguel, sou Christovo de
Pina Tavares, a quem V. Ex. ha seis mezes d o po d'esta numerosa
familia que aqui est.

--Mas...--balbuciou o conde, voltando-se para D. Maria Jos.--V. Ex.
no me disse que conhecia esta familia...

--No conhecia--respondeu a luveira--; mas reconheci agora esta senhora
que algum tempo me leccionou em francez, no mesmo collegio onde ella foi
educada. Alguem disse ao snr. Tavares que V. Ex. me honrava com a sua
amisade; e este senhor, carecendo d'um empenho para o snr. conde,
procurou-me, e agora mesmo comeava a expor a sua preteno. Estava
dizendo o snr. brigadeiro que no sabia que destino havia de dar
quelles quatro meninos, seus netos... Queira continuar, snr. Tavares...

O ancio, tomado de sobresalto, acanhou-se na presena do millionario. O
pejo e a dignidade empciam-lhe a eloquencia da palavra, realando-lhe a
do silencio. O conde olhou na face das creanas uma por uma, chamou-as
para si, e disse brandamente:-- necessario fazermos homens estes
pequerruchos... Ento que querem ser? Provavelmente generaes. Quasi
todas as creanas querem ser generaes...

--Seduzidos talvez pela fortuna militar do av...--interrompeu Tavares;
e continuou animado pela communicativa lhaneza do millionario.--O que eu
muito desejo obter do valimento de V. Ex., mediante a proteco d'esta
senhora que bondosamente nos recebeu,  que os meus quatro netos sejam
recebidos em algum azilo de infancia desvalida. Eu j requeri ao actual
governo, documentando o requerimento com os meus servios de soldado,
desde 1801 at ao anno em que eu devia ter desertado da bandeira jurada,
para estar hoje na alta posio onde subiram os meus camaradas
desertores. Escravo da obediencia e da disciplina, segui os meus
generaes e acabei a minha carreira onde a honra me fez parar. Ora,
se a extrema da honra foi ao mesmo tempo para mim o comeo da penuria,
isso  questo que no vem ao ponto, nem que viesse eu importunaria V.
Ex. com queixumes e lastimas. Requeri, pois, pedindo a admisso de meus
netos no collegio militar. A absurdeza do pedido era pelos modos tamanha
que o meu requerimento nem sequer mereceu a considerao de ser
indeferido. Fechadas as portas da justia, bati s da caridade.  V.
Ex., snr. conde, o bom anjo que sahiu a escutar os meus rogos, e...

--Muito bem...--obstou o conde, amargurado pelas lagrimas do
velho.--Tenho entendido que V. S. deseja que os seus netos sejam
recebidos em algum estabelecimento de educao... manhan,  hora da
tarde que lhe convier, queira enviar-m'os a minha casa...

O conde affagou as faces dos meninos, que lhe beijaram as mos, sorrindo
para elle com a graa do infantil amor que vem do corao das
creancinhas aos labios que ainda no sabem agradecer. Depois, ergueu-se;
apertou francamente a mo do venerando veterano; cumprimentou-lhe as
filhas, que o contemplavam com os olhos anuviados de lagrimas; e
despediu-se de D. Maria Jos, que o fitava com estranho e amoravel olhar.

Ao entardecer do dia seguinte, Christovo Tavares entrou na loja da
luveira impando de canasso e exultao. Contou que o snr. conde o
mandra entrar com os meninos para a sala, onde elle estava com um
sujeito, a quem dissera:--Aqui esto os seus alumnos.

--Era o director d'um collegio de primeira ordem--ajuntou o velho.--O
snr. conde enviou os meus netos a um collegio, minha senhora, com ordem
de os proverem de roupas abundantes, de todo o enxoval prescripto aos
meninos ricos. Depois, os pequenos e mais eu e o mestre entramos na
caleche do snr. conde, e fomos a minha casa despedil-os das tias que
choravam de contentamento. O generoso moo disse-me  sahida que fosse
todos os mezes ao escriptorio d'um cambista  rua dos Retrozeiros, e que
hoje mesmo lhe apresentasse um bilhete que me deu. Eu estava por tal
maneira aturdido e embriagado de felicidade, que nem sei se lhe
agradeci... Os desgraados, minha senhora, quando de repente se acham a
respirar uma atmosphera que no  a sua, suffocam, ouram, e no se acham
em si mesmos, no seu habitual viver de escura cerrao!... Fui  rua dos
Retrozeiros, apresentei o bilhete, e recebi cem mil reis! Eil-os
aqui, snr. D. Maria! Cem mil reis para cada mez! E quatro netos no
collegio a expensas d'aquelle anjo que a Providencia divina mandou
travar a roda da minha desfortuna! Veja isto, minha querida senhora! Se
eu me no affizer a esta luz que me alumia o fim da existencia, receio
enlouquecer de alegria! Mas tanta felicidade  a V. Ex. que a devo...

--A mim, snr. Tavares?! pois que fiz eu?

--Que fez, meu Deus?! Recebeu-me na sua casa; olhou compassivamente para
minhas filhas, disse palavras amorosas aos meus netos, e quiz que o snr.
conde nos visse atravez do seu corao... Oh! eu creio que este milagre
o fez a piedade abraada ao amor... Quem nos deu o po abundantissimo, o
vestir, a casa com ar e sol, o acordar alegre sem o fantasma da fome
diante, o futuro das creanas... quem foi seno a... futura condessa de
Baldaque?

Ao proferir as ultimas palavras, o velho pegra convulsante da mo de D.
Maria Jos e collra n'ella os labios tremulos.

A filha de D. Miguel sentira n'esse lance mui deliciosa commoo, um
alvorecer de luz em cheio na alma, a revelao subita d'um amor, o
primeiro, com as santas alegrias da pureza, e a confiana profunda nas
virtudes do homem amado. A revelao, em tom prophetico, feita por
aquelle velho de barbas brancas orvalhadas de lagrimas, soou-lhe na alma
com religiosa suavidade.

O instante foi solemne. A poesia pode engrinaldar o quadro com as suas
flores e a moral regosijar-se, como  justo, de um caso de amor nascido
em condioens to honestas.

Eu, de mim, menos attreito que o leitor  idealisao de coisas
naturalmente explicaveis, penso que ella j o amava to devras e de
dentro da consciencia, que, se o conde descoroado por desdens, se
vingasse esquecendo-a, teria levado pela mo da saudade a filha do
principe  sepultura; mas s fragilidades das amorosas mais celebradas,
no.

Isto  o que me parece; mas no afirmo que assim houvesse de acontecer.
Sei historias de amores to bem comeadas como esta e acabadas nas
enfermarias das loucas. Os personagens masculinos d'algumas andam ahi ao
flaino ainda com a sua velhice tingida e sadia. Creio que o castigo
d'elles  andarem pintados; mas o diabo conhece-os, apezar do fluido.
Elles l iro cair-te nas prezas,  horrendo Minos!




XIII

DESASTRE DO GATUNO

                                 Vem agora aqui o casar.

          D. FRAC. M. DE MELLO, Carta de Guia de Casados


Aquelle rapaz abrazado de cara, a refulgurar uns olhos vertiginosos 
feio dos ebrios, cercado de gente, que o escuta,  mesa redonda do
Hotel Bragana,  Victor Hugo Jos Alves.

O energumeno vocifera contra certa mulher que o trahiu. Conta que lhe
immolou as convicoens politicas, a juventude e a liberdade. Diz que por
amor d'ella apostatra do socialismo, renegra das crenas republicanas,
furtra ao edificio do futuro as achgas do seu talento, e puzera o seu
nome illustre debaixo das maldioens da posteridade.

Alguns convivas riem de esgulha, em quanto outros lhe vo solicitamente
reparando o destroo que elle faz no kumel, acinte pedido para
afogar a hydra que lhe roe as fveras da alma.

Disse elle mais que essa perfida havia casado no dia anterior com o
filho de um negreiro que morrera conde, transmittindo ao herdeiro, com a
herana ignominiosa de tres milhoens, o titulo, o pergaminho onde o
ministro fizera assignar ao rei a abdicao da sua moralidade.
Acrescentou que o segundo conde de Baldaque se deixra embair do ardil
de uma luveira, que se dava ares de princeza bastarda, tendo sido sua
me uma famosa aventureira que no poderia com exactido apontar o pae
aos filhos que tivera. Disse mais... No disse mais nada, porque n'este
comenos estalava-lhe em cada face uma bofetada das que entupem os jorros
da mais caudal eloquencia.

O que dera aquellas provas muito equivocas da sua admirao 
objurgatoria do poeta era um velho barbaudo, de espessos bigodes
brancos, alto, gravemente vestido, magestoso aspeito de soldado da
guerra peninsular. Era o ex-brigadeiro Christovo de Pina Tavares.

Victor Hugo, estupefacto da injuria e talvez atordoado do choque,
encarou fremente, mas silencioso, o veterano que elle perfeitamente
conhecia.

--Villo!--rugia o velho com os olhos brilhantes da chamma dos vinte
annos--Torpissimo gaiato que insultas a senhora que roubaste! Bandido,
que comes no Hotel Bragana os tres contos de reis de...

Tavares susteve-se, reprimido pela mo da caridade. O homem, que havia
bebido o fel da injustia, receiou ultrapassar o direito do castigo.
Conteve-se, vendo o quebranto do miseravel, e o fundo abysmo a que podia
tombal-o com o p.

Outro militar, general das fileiras da liberdade, antigo camarada de
Chistovo Tavares, e seu convidante n'aquelle jantar, tirou-lhe com
fora pelo brao, e levou-o.

Os galhofeiros ouvintes de Victor sahiram de espao, sem sequer
averiguarem da injustia do insulto. Elle, porm, restaurado da pancada
moral, recolheu-se ao seu quarto, atirou-se contra o estofo d'uma
voltaire, fincou os dedos na testa, e resmuneou cabeceando entre as
sacudidelas da colera e dos gazes da indigesto:

-- minha vingana!...  minha vingana!...

Terribilissimo, formidando e medonho pela cara que fez ento!

Quando, passados minutos, o criado lhe entrou ao quarto com os
castiaes, Victor Hugo remetteu contra elle, bramindo:

--Que queres?

E cambaleava como se as luzes lhe inflammassem o alcool.

--Que queres?--tornou elle de murros apontados  cara innocente do gallego.

--Trago as luzes, snr. Victor Hugo...--tartamudeou o moo assombrado.

--Vai-te!... Deixa-me!... Negro, negro, quero tudo negro, como a vingana!

O criado sahiu, e disse  criada, que espreitava o poeta:

--Safa-te, que elle est borracho!...

Safemo-nos tambem ns: deixemol-o gizar a traa da vingana; no
assistamos quella alchimia diabolica; que o kumel e o cognac se lhe
destillem em peonha escorrida da fornalha do cerebro ao corao.

Mas quem disse a Christovo Tavares que o seu correligionario consumia
em golodices francezas, no famigerado hotel, as inscripoens da condessa
de Baldaque?

No foi ella.

Acontecera, como era natural, contar a luveira ao conde o destino que
dera aos seus apoucados haveres. Esta confidencia--bem se lembra o
leitor--denegada n'outra occasio, fl-a espontaneamente depois
que, sem rodeios nem contrafeito pudor, disse ao conde que o amava.
Similhante revelao realou-lhe a virtude no conceito do noivo. Nada
mais formoso, mais para se adorar que a pobreza to de vontade, o
despojar-se a magnanima senhora em beneficio d'um pae que lhe no
envira sequer palavra de agradecimento! Esta magua tocara-lhe o
corao; mas sem queixar-se.

Entretanto, o conde, quando soube quem tinha sido o medianeiro da
remessa do dinheiro, suspeitou da fraude, sem todavia insinuar ao animo
de D. Maria as suas desconfianas.

Neste tempo, o brigadeiro Tavares era muito da casa do conde, e estimado
como amigo com todas as excellencias de leal caracter, ao passo que D.
Maria Jos solicitra a familiaridade das filhas a quem communicava as
delicias do seu amor.

Contou o conde a Tavares o lance admiravel da remessa do dinheiro; mas,
duvidando que o principe proscripto o recebesse, encarregou o velho de
averiguar dos maioraes do partido legitimista, se alguem, auctorisado
por D. Maria Jos de Portugal, remettera tal quantia ao snr. D. Miguel
de Bragana. O indagador levava instrucoens para no citar o nome
do medianeiro, talvez com o proposito de lhe no ferir o pundonor, se
elle houvesse honradamente cumprido o encargo.

A commisso de soccorros respondeu que nenhuma quantia lhe fra entregue
de ordem de tal dama; posto que muitas vezes, nas reunioens onde
concorria Victor Hugo Jos Alves, se houvesse mencionado tal senhora
como filha d'el-rei o snr. D. Miguel--filiao alis duvidosa para elles
membros da commisso de soccorros.

No dia immediato, Christovo Tavares entregava tres contos de reis aos
encarregados de remetter para Heubach os donativos, e pedia que se
fizesse chegar ao conhecimento de D. Maria Jos de Portugal qualquer
palavra que o snr. D. Miguel escrevesse a tal respeito.

Antes de volvidas tres semanas, a commisso de soccorros enviava, por
via do ex-brigadeiro,  luveira da Rua Nova da Palma, uma carta do
principe proscripto ao vice-rei, perguntando-lhe se a senhora que to
generosa o visitava no seu desterro era filha de Marianna Franchiosi
Rolim de Portugal.

O conde, disfarando a parte que tinha no jubilo da sua amiga, assistiu
ao mavioso espectaculo da ternura com que ella beijava a carta do pae.

Dizia ento D. Maria, para aliviar escrupulos de ter sido injusta:

--Olhe, Raul, eu nunca lhe disse isto; mas digo-lh'o agora como quem se
alivia de um peccado, confessando-o. Cheguei a desconfiar que Victor
Hugo no mandasse o dinheiro. Nunca ousei perguntar-lhe por nada,
receiando que elle me adivinhasse a suspeita... Pobre rapaz!...

E o conde sorria, sem lhe entre-mostrar uns longes da verdade.

Tavares, por sua parte, obedecia s ordens do conde, guardando, com
superior esforo e dolorosa violencia, o segredo do roubo. Quando, ainda
assim, encontrava o ladro entre os homens de bem do partido
absolutista, o velho descorava, torcia-se, gaguejava monologos,
resfolegava fumaradas de colera, e fugia com o segredo, que lhe pezava,
como se levasse sobre a alma um enorme remorso--remorso de no avisar os
seus correligionarios.

Uma vez pediu com as mos erguidas ao conde que o deixasse expulsar
d'entre os realistas aquelle hediondo larapio. E o conde respondeu:

--Isso  de justia; mas deixe-me casar e sar de Portugal; depois,
quando minha mulher estiver longe, far o que entender. No lhe
roubemos  feliz menina o prazer de ter sido d'ella o dinheiro que D.
Miguel recebeu. Se o snr. Tavares denuncia o furto, o escandalo andar
to fallado por essa Lisboa que D. Maria ser das primeiras pessoas que
o saibam.

N'este bom proposito, esperava o velho, quando concorreu quelle jantar,
a convite do antigo camarada, que solemnisava n'esse dia, com duas
garrafas do Porto, a sua reforma em marechal de campo. A garrafa
correspondente ao ex-brigadeiro, a gratido e a honra cooperaram
n'aquelle impeto das duas bofetadas. Mas, graas ao sentimento de
commiserao que o reteve, os circumstantes no perceberam seno que
Victor Hugo insultava uma senhora a quem havia roubado tres contos de reis.

No dia seguinte, contava-se o caso no Chiado. Uns diziam que Victor
havia sido amante da luveira casada agora com o conde, e lhe gatunra a
herana que ella tivera d'um agiota. Esta era a opinio dos sugeitos
contusos por Damio Ravasco. Outros, rejeitando a tradio mais
corrente, asseveravam que a roubada tinha sido uma marqueza velha, e que
o official realista, que bofeteara o litterato, era amante da marqueza
desde 1801--ou 1789, acrescentava o meu amigo Jos Parada para quem
todos os infortunios eram cornucopias de chalaa.

O conde, recolhido  dce intimidade do noivado por muitos dias, ignorou
o successo; e, quando sau, no houve indiscreto que lh'o referisse.

No emtanto, Victor Hugo dava que scismar aos seus partidarios, no
comparecendo nas reunioens onde innocentemente conspiravam os letrados
da causa; nem sequer nos saros somnolentos, onde a ida velha passava
as noites cabeceando acalentada nos braos do snr. padre Beiro e d'outros.

Naturalmente se explica o desvio do cavalleiro da Ala pelo justo receio
de ser interrogado crca dos tres contos de reis, sabido j o roubo
pelo ex-brigadeiro, que tinha accesso s casas principaes, e reputao
de homem honesto.

E mais depressa ainda se esclarece a converso d'este desgarrado bode ao
seu rebanho antigo,-- seita dos carbonarios, reorganisada em 1848, com
elementos combustiveis de tanta fora, que todos se vaporaram, deixando
as fezes ahi por essas secretarias do Terreiro do Pao, encrustadas nas
pastas dos ministros que foram, que so, e ho de ser. Diziam os
seus confederados na loja: que Victor Hugo, restituido  bandeira que
desertra por amor d'uma ingrata Dalila, nunca fra to Samso na fora
do verbo, to Hugo na energia das figuras, to republicano na medula dos
seus ossos. O seu auditorio destampava em gargalhadas quando o Fuas
Roupinho da esquadra naufragada, zombando do seu proprio appellido de
guerra, chacoteava da ordem de S. Miguel, que elle denominava a
cavallaria desferrada do archanjo.

 justo que no se esquea, na correnteza d'estes casos, a familia
d'esta pessoa.

D. Rozenda Pica, assim que viu annunciado o casamento de D. Maria Jos
de Portugal, deliberou visital-a e manter boas relaoens com a sua
hospeda, visto que a fortuna caprichosa a collocara na posse pouco
vulgar de uma cora de condessa com tres milhoens.

Annunciou-se ao guarda-porto do palacio. Tangeu-se uma campainha.
Desceu um escudeiro que recebeu o nome da visita. E com demora de alguns
minutos, voltou o escudeiro dizendo que a snr. condessa no recebia.

--Ento porque?!--perguntou D. Rozenda abespinhada.

--Porque no quer...  boa a pergunta!--respondeu o escudeiro com altivez.

--No quer?!--redarguiu a me de Victor.

--Ento a snr. luveira j no conhece as amigas velhas?... No?... Ella
me conhecer!...

E sau enfurecida em busca do filho, deliberada a conciliar-se com elle
para collaborarem na vingana.

Em abono do benigno corao da condessa cumpre saber-se que ella
receberia com alegre sombra a visita de D. Rozenda, se o conde, ao ouvir
proferir o nome da me de Victor Hugo, no pedisse brandamente  esposa
que se abstivesse de receber tal senhora.

Perguntou ella que razo havia para no a receber. O conde respondeu:

--Deve ser muito forte a causa que me faz contrariar-te pela primeira
vez, minha filha. Tu a sabers. Por em quanto, basta que eu te diga que
esta mulher  me de um homem que os meus lacaios recusariam acceitar
nas suas assemblas de taverna. Sabes de mais que eu no defendo minha
casa aos pobres; as tuas amigas e os meus amigos so todos pobres. Se
essa senhora est necessitada, soccorre-a; mas no a recebas, porque 
me de um homem que est hoje escarnecendo os amigos de teu pae.

A condessa ficou sabendo que Victor Hugo renegara da sua quarta ou
quinta religio politica, e mais nada. Observava ella porm:

--O que a mim me admira, Raul,  ter elle entregado os tres contos de
reis!  uma honra que no se entende bem a d'este homem!...




XIV

A VINGANA

    _Sunt qudam quoe honest non possum dicere._
    Ha ahi coisas que eu no posso honestamente referir.

                                 CICERO, Seg. Philipica.


Tenho  vista o folheto que Rozenda Pica entregou ao filho, feito o
pacto de vingana.

Em 1840, desoito annos antes dos successos at aqui referidos,
publicou-se em Lisboa, na _Typographia portuense_, estabelecida na rua
da Palmeira n. 36, um opusculo de 23 paginas em 8., intitulado: _A
villan fidalga. Ou aventuras e transformaoens da filha d'um moleiro
conhecida em Lisboa pela alcunha de D. Marianna Joaquina Franchiosi
Rolem Portugal, moradora actualmente na Travessa nova de S. Domingos n.
4, segundo andar_, etc.

O signatario do opusculo, Luiz Caetano da Rocha, principia por uma
_Breve exposio_ na qual relata que Marianna Joaquina o arguira de
falsificador de um titulo de divida, em que a assignatura da querelante
era imitada. O ministerio publico tambem querelara. Luiz Caetano, depois
de oitenta dias de cadeia, foi ao tribunal para assistir  ratificao
da pronuncia.

O advogado da accusao era Abel Maria Jordo, que morreu visconde de
Paiva Mano; o da defeza era Antonio Jos Dique da Fonseca. Arcaram os
dois athletas forenses com toda a pujana da sua notoria habilidade.
Diziam os espectadores que o melhor causidico de D. Marianna era a sua
formosura, bem que ella orasse ento pelos trinta e nove annos. O certo
 que a parcialidade do juiz e delegado eram por tanta maneira
insidiosas que o patrono do ro foi chamado  ordem, quando contava aos
jurados a vida escandalosa da auctora. Quer, porm, o jury se deixasse
vencer do soborno ou convencer da justia,  certo que no ratificou a
pronuncia e affirmou que era dolosa a querela.

Vem depois o ro absolto  imprensa com os documentos que o seu advogado
no logrou ler no tribunal.

Examinemol-os succintamente, bem longe de os acceitarmos com a
importancia que o foliculario lhes dava quando escrevia: _talvez que
ainda uma penna habil se sirva d'estes documentos para compor uma
novella... a qual mostrar que no mundo muitas vezes o plebeu se atavia
com as galas da nobreza, o vicio se encobre com a capa da virtude, e nem
tudo  o que parece_.[3]

O primeiro documento  um attestado onde se diz que Marianna Joaquina,
filha de Eusebio Joaquim e d'outra Marianna Joaquina fugira de Azeito
em 1814 com Joo Lopes Giraldes.

Do segundo documento convem trasladar o seguinte, que  j copiado da
nota do tabellio de Lisboa Thomaz Isidoro da Silva Freire (Livro 214,
folhas 103):


_Saibam quantos este instrumento de declarao virem que no anno do
nascimento de nosso Senhor Jesus Christo, de mil oito centos e trinta e
um, aos vinte e nove dias do mez de novembro, n'esta cidade de Lisboa,
na rua da Magdalena n. 70 e casas de morada de D. Marianna Joaquina
Franchiosi Rolem, aonde eu tabellio vim, estando ahi presente Eusebio
Joaquim da Silva, morador em Villa Fresca de Azeito, e por elle
foi dito na minha presena e das testimunhas ao diante nomeadas: que, no
anno de mil oito centos e quatro, lhe foi entregue e a sua mulher
Marianna Joaquina da Conceio, uma menina para crear, a qual viveu em
sua companhia, e da dita sua mulher na Villa d'Azeito, reputada como
sua filha at  edade de treze annos para quatorze em que se casou, e
que agora pela prezente escriptura declara que a referida menina  a
dita D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolem, e que no  sua filha, nem
com ella tem parentesco algum, e que esta declarao promette, e se
obriga haver em todo o tempo por firme e valiosa. Estando tambem
presente a dita D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolem por ella foi dito
acceita esta declarao na forma d'ella._


O terceiro documento  um auto lavrado em 1838, na villa de Azeito,
onde appareceu um Jos Antonio Atalaya, com procurao de pessoa que o
documento omitte, citando Eusebio Joaquim da Silva para jurar em sua
alma se D. Marianna Joaquina de Portugal residente em Lisboa,  sua
filha, e se ali possue uma quinta. Eusebio declara ser verdade o
allegado na petio.

Segue um documento denominado _Querela_.

 o traslado da querela que deu em 1821 contra Marianna Elisia, mulher
solteira, um Manoel Rodrigues, padeiro na Travessa do Secretario da
Guerra, queixando-se de ter sido roubado em objectos de ouro e diamantes
no valor de 848$000 reis.

Vem depois um attestado do solicitador de causas Antonio Gamarra,
passado em 1838, certificando que Marianna Joaquina da Conceio Elisia,
concubinaria do padeiro em 1821, era a mesma que, desasete annos depois,
se chamava D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolem Portugal, e vivia na
rua da Emenda, onde tinha carruagem propria.

Accresce outra attestao do prior de S. Nicolau Francisco do Rozario e
Mello, datada em 1839. Jura elle _in verbo sacerdotis_ que, no anno de
1827, apparecra no cartrio da egreja de S. Nicolau uma mulher de
capote dizendo que pretendia se lhe baptizasse um menino filho de paes
incognitos, e que trazia procurao do desembargador Ferraz para ser
padrinho; mas, no acto de lanar o competente assento no livro, ella
observra que, sendo verdadeiramente padrinho quem tocava no menino,
melhor seria no designar elle prior como padrinho o dito desembargador,
mas sim o portador da procurao. Attesta mais o padre que, volvido
algum tempo, appareceu no mesmo cartorio uma senhora ostentando
grande personagem pela tafularia dos vestidos e carruagem de que apeara,
e disse chamar-se D. Marianna Joaquina Portugal; mas declara o prior que
logo reconheceu ser a mesma que solicitara o baptismo j referido. E
declarou a dama que tinha havido um filho do desembargador Ferraz, o
qual menino ali fra baptisado como filho de paes incognitos.
Acontecendo, porm, ter proximamente fallecido o desembargador, ella
pretendia que no assento baptismal de seu filho se declarasse o nome do
pae. O padre recusou-se, sem que a competente auctoridade o
auctorisasse. Dias depois, voltou a mesma senhora com uma ordem do
vigario geral, o desembargador Jos Gonalves Pereira, mandando proceder
o prior s diligencias necessarias para averiguar se o menino Francisco
era filho do desembargador Ferraz. Em observancia de tal mandado foi o
prior a casa de D. Marianna de Portugal, e ouviu o depoimento de tres
mulheres; todavia, no dizer do padre, as testimunhas eram to discordes
nas circumstancias, que nenhum credito lhe mereceram. E acrescenta que
tendo elle despedido um preto seu criado, o preto entrou no servio de
D. Marianna de Portugal; e, voltando para casa d'elle prior, declarara
que na casa, d'onde sahira, havia um menino comprado para herdar
d'um homem rico e fallecido.

Temos agora outra attestao, que vae integralmente copiada:


_Jos Joaquim do Cabo Pinto, commendador da ordem de S. Bento de Aviz,
tenente coronel de cavallaria, governador do Forte da Cruz Quebrada.
Attesto que D. Marianna Joaquina Franchiosi Portugal, hoje intitulada
Rolem, talvez por se ter naturalisado franceza, tem sido heroina sem
egual, como  notorio n'esta cidade, querendo-se intitular fidalga,
sendo filha de um moleiro de Azeito, por nome Euzebio, a quem fugiu com
um official de Marinha, vindo assistir para o p da Fundio; dizem que
depois cazou com um sombreireiro, que a deixou e fugiu; tomou uma caza
na rua dos Douradores, a que deu o nome de hospedaria, aonde iam os
figuroens com as suas amasias, e por isso adquiriu grandes
conhecimentos, dos quaes soube tirar partido, sendo seus apaixonados
Luiz da Motta Fo, o Barro, coronel de milicias, Antonio Sicard,
tenente de cavallaria que morreu na Torre de S. Julio, e um Rego, e a
final o desembargador Ferraz que lhe poz carruagem, e ella largou ento
a hospedaria, e veio morar para o Carmo; mas, indo todos os dias 
Travessa de Pombal a caza do tal Ferraz, que morreu quasi de repente,
apoderou-se de um bahu em que elle tinha os seus papeis; e, por
temer que lh'os procurassem em caza, foi morar ao p do Pao de Bem
Formoso, e metteu-se depois a protectora de pretendentes, alcanando
muitas coizas pois era protegida do ministro da fazenda D. Diogo Lousan;
passou a ser espia de D. Miguel, a quem ia fallar um dia sim outro no,
quasi sempre, e por isso contrahiu grande amisade com o Vadre. E, como
receasse a chegada do snr. D. Pedro a Lisboa, se naturalisou franceza,
pois sei a quem ella mostrou a carta de naturalisao; isto era para
jogar com um pau de dous bicos. Finalmente  heroina do seculo, como 
notorio. E, como me consta haver uma cauza que a dita propoz ao snr.
F... na qual diz que uma menina que tem em caza  filha do tal F...
declaro pela presente que ainda que ella fosse sua me propria, era
impossivel saber se...[4] Mas  constante por ella o dizer
s suas amigas que a menina era sua afilhada, e a tinha tomado por a me
ser pobre; mas agora no seu proceder se conheceu o fim para que a
tomou... etc. Lisboa 5 de julho de 1838._


Agora so duas senhoras que vem quebrar a dureza do quadro com as
mimosas feminilidades dos seus dizeres. A snr. D. Maria Leonor da Cunha
Saldanha, solteira, diz em 1838 que conhecera D. Marianna de Portugal em
1831 e 1832, a cuja casa ia; e vendo ento uma menina de peito lhe
perguntra de quem era. Primeiro, D. Marianna respondera que era filha
d'uma mulher que a declarante via por l; e, passados mezes, dissera que
aquella menina era sua filha e do snr. D. Miguel, intitulado rei
n'aquelle tempo.

A snr. D. Joanna Candida da Silva Monteiro, viuva, diz que conhecera
entre 1817 e 1818 D. Marianna Elisia, criada de M.me Chapsal. Sabe que
ella depois teve amisade com um padeiro, e depois com Luiz da Motta Fo,
e depois com o desembargador Ferraz; e que uma menina que tem em casa, e
conta hoje de seis para sete annos, por nome Maria Jos, lhe disse ella
que era sua afilhada. Declara mais D. Joanna que conhecia a pessoa
contra quem depe por ter sido ella depoente sua costureira, depois que,
na ausencia de M.me Chapsal, a sua antiga criada, j n'outra posio,
ficra senhora da casa.

                                ---------

Eis muito compendiada a substancia do opusculo que D. Rozenda entregou
ao filho.

Victor Hugo empeonhou a segunda edio do libello com prefacio e notas,
para fazer bem sensivel que a filha de Marianna era a logrativa luveira
da Rua Nova da Palma, feita por obra e graa dos seus olhos feiticeiros
condessa de Baldaque.

O folheto, impresso clandestinamente, espalhou-se pela posta interna. O
conde e a esposa receberam exemplares em duplicado. Foi ella quem os
recebeu e descintou,  hora em que seu marido no estava em casa. Leu as
primeiras paginas, e j pouco percebeu do affrontoso attestado do
tenente coronel de cavallaria. O sangue, regorgitando-lhe do corao
anciado, estuou-lhe no cerebro. Escurentou-se-lhe a vista, no por
lagrimas, mas pela treva da congesto que lhe deu receios da morte. A
attribulada senhora ainda chamou a brados a sua amiga Ernestina Tavares,
lanou-se-lhe nos braos j esvahida, e balbuciou ainda:

--Que Raul no veja...

Alludia ao folheto que ali estava cahido no pavimento; mas Ernestina,
sem attentar no folheto nem ponderar as inintelligiveis palavras, rompeu
em altos clamores, mandando todos os criados procurar o conde.

J elle subia accelerado as escadas, perguntando a Damio Ravasco se o
correio da posta interna havia trasido alguns papeis.

--Trouxe dois folhetos;--disse o mulato--um para V. Ex. e outro para a
senhora condessa.

--Que desgraa!--murmurou o conde.

 que elle, entrando em casa do seu banqueiro, vira sobre a escrivaninha
um folheto ainda cintado, e lera nas margens onde no chegava o papel
sobrescriptado as palavras _Marianna_ e _Portugal_. Pediu licena para
abrir o folheto, leu salteando algumas linhas de cada pagina, e sahiu
precipitadamente no intento de impedir que a condessa visse os insultos
a sua me.

Entrou ao quarto onde Ernestina escutava a agitada respirao da condessa.

--Ella leu o folheto?--perguntou o conde.

--No sei que folheto V. Ex. diz... Eu ouvi-a gritar, corri logo, e
achei-a n'este estado. Ainda me disse no sei que palavras que mal
percebi...

A este tempo, Damio Ravasco, esquecido do respeito usado com a
ante-camara de seu amo, tinha tambem entrado, e erguido do cho o
impresso. O conde, que transportra nos braos a esposa para o quarto
inferior, no reparou no mulato que ficara lendo o folheto. Quando,
passados dez minutos, voltou para mandar procurar um medico, achou
Damio a lr.

--Quem te chamou aqui?--perguntou com azedume.

--Vim eu, snr. conde--respondeu serenamente o mulato.--Estava aqui a vr
quem  que fez isto... Ha de dar-me licena de levar este folheto...
Quem o escreveu, dou-lhe a minha palavra de honra, juro-lhe pela alma de
seu pae, que no torna a escrever outro. Diga-me, pela memoria de sua
me, e pela vida da snr. condessa lhe peo que me diga quem escreveu isto?

--No sei, Damio...--respondeu o conde reconhecido ao zelo e vehemencia
dos rogos do mulato--Ns o saberemos... Vae chamar medico... No te
demores.

O medico no tardou; mas Damio Ravasco s entrou noite alta. Dizia-se
que um mulato, com o fogo do inferno nos olhos, andra perguntando de
typographia em typographia se um folheto que mostrava tinha l sido
impresso. Parava  beira dos grupos e imaginava que poderia descobrir
rasto por onde fariscasse o auctor do folheto. Estacra no Chiado em
frente do deputado da sova memoranda, a vr se poderia, com mais ou
menos justia, escorchal-o contra um frade de pedra. Offerecra
dinheiro grande a uns agentes da policia que lhe descobrissem a victima.
E nestas diligencias que lhe queimaram o sangue e centuplicaram os
demonios do mo genio, andou Ravasco todo o dia e grande parte da noite.

Quando chegou a casa foi muito s surdas at  porta dos aposentos do
conde. Escutou e ouviu passear na ante-camara. Bateu de mansinho. O
conde sahiu  saleta.

--Como est a senhora?--perguntou Damio.

--Est com febre.

--No descobri nada--voltou o mulato.

--No descobriste o qu? que procuravas tu?

--O auctor do papel.

--Prohibo-te que faas taes indagaoens. Eu o saberei; mas, se o souber,
prohibo-te que me vingues. Se o infame no puder ser castigado por um
homem de bem sl-o-ha por um lacaio; mas no por ti que s... meu irmo...

Damio dobrou os joelhos, e cobriu de lagrimas as mos do conde.




XV

A PROLE DE D. AFFONSO VI

    Para vs verdes como coisa nenhuma  encoberta.

            BERN. RIB., Menina e Moa, cap. XII


Aquelle folheto, impresso em 1840, explica tres annos de angustias
dilacerantes que levaram Marianna Rolem de Portugal ao extremo desafgo
do suicidio, ao ver-se desvalida das pessoas que se pejavam de conviver
com a mulher infamada, e de mais a mais empobrecida.

Mas quem era Marianna Joaquina Franchiosi Rolem de Portugal?

Que havemos de inferir dos attestados reimpressos por conta de Victor Hugo?

 a filha aventureira do moleiro de Azeito? Fugiu d'alli com um
official da armada?

 a criada da franceza Chapsal?

 a infiel contubernal do padeiro Manoel Rodrigues?

 a supposta parturiente do menino Francisco, e a indigitada amante de
D. Miguel?

Donde lhe veem aquelles appellidos? Quem a levou a Joaquim Euzebio para
que a creasse?

Vamos derivar a resposta de to justa curiosidade desde 1661.

Onde isto vae!

A historia patria, que o leitor conhece impressa, no lhe refere que D.
Affonso VI,  volta dos dezoito annos, viu em Lisboa, nas
circumvisinhanas de Queluz, uma rapariga muito formosa, pelo brao de
um mancebo de boa figura. Encarregou o valido Henrique Henriques de
indagar quem fosse a galante menina. Descobriu-se que era Catharina
Arrais, natural de Coimbra, donde fugira com seu primo, Manoel Arrais,
estudante, a fim de se casarem em Lisboa, logo que obtivessem dispensa
de parentesco e remoo de outros impedimentos canonicos attinentes s
fragilidades da sua cga paixo.

Sabido isto, e a residencia dos profugos amantes, estava sabido tudo.
Manoel Arrais foi preso e conduzido a Coimbra. Catharina, na noite
d'esse dia, foi assaltada no seu esconderijo por um tal Agostinho Nunes
e por Henrique Henriques de Miranda que a levaram ao rei.

Dois annos depois, Catharina Arrais era freira em Santa Anna, e Manoel
Arrais era fallecido de dr.

Antes, porm, de ser dada como esposa a Jesus Christo, houvera Catharina
uma filha de Affonso VI, a qual se chamou D. Luiza de Portugal.

Esta D. Luiza, quando prefez seis annos, foi transferida a casa do
famoso estadista conde de Castello Melhor, onde recebia tratamento de
alteza.

Aqui se deteve com honras de infanta at ao anno de 1667, em que o pae
j estava preso  ordem do principe seu irmo. Mas um dia o corregedor
da crte entrou  fora no palacio do marquez, apoderou-se de D. Luiza
de Portugal, e levou-a para o mosteiro de Santa Anna.

Soror Catharina recebeu sua filha, pensionada pelo infante, com a
declarao de que sua alteza no a reconhecia como sobrinha; mas a
protegia como desgraada victima da libertinagem de seu augusto irmo.

Vejamos agora o que se fez para destruir as conjecturas de ser filha de
D. Affonso VI aquella menina. A historia impressa no o diz. Ha
manuscriptos que nos elucidam; e um, que possuo com a maior
estimao e de nenhum modo suspeito, vae referir-nos a villissima traa
que teceram os partidarios da rainha e do infante para desfazerem a
embaraosa hypothese da fecundidade do filho de D. Joo IV.

O manuscripto intitula-se: _Vida de el-rei D. Affonso VI, escripta no
anno de 1684_.[5]

Dava que pensar e receiar a crena publica de existir a filha do rei. O
processo do divorcio, fundamentado em rasoens de torpissima
deshonestidade, tropeava n'aquella menina. O procurador da rainha,
duque do Cadaval, refere o expediente que lhe desatravancou o passo.
Sobeja malvadez onde a imaginao coxa no enredo. O homem escreveu isto
para a posteridade, e talvez vaidoso de engenhar o capitulo d'uma novela
ao sabor do tempo. Conta elle: Offerecia-se ao duque uma grande duvida
do bom successo da causa (_o divorcio_); porque dizia que era
impossivel, tendo el-rei uma filha em casa do conde de Castello Melhor,
chamada D. Luiza e com tratamento de alteza. Achando-se este negocio com
esta grande duvida, Deus, que  a mesma verdade, foi servido de buscar
os meios de se descobrir e averiguar com toda a certeza.

Recolheu-se um dia ao jantar para casa; achou na mo de um criado seu,
um escripto que ali tinha deixado um moo. Dizia elle: _Se V. Ex. quer
saber um negocio muito importante para a cauza da rainha com que V. Ex.
corre, ache-se  noite no seu coche, s, s escadas do Loreto, de sorte
que espere n'aquelle logar o sino da meia noute._ E no se assignava o
escriptor. Logo foi o duque  Esperana,[6] e, mostrando o
escripto  rainha, lhe disse ella que de maneira nenhuma queria que
fosse, por que aquillo podia ser de grande perigo. Respondeu-lhe o duque
que havia de ir, e que deixasse sua magestade  conta d'elle a segurana.

Reedificava-se a egreja do Loreto do incendio que havia padecido. Tinha
no adro um grande telheiro a cujo abrigo trabalhavam os officiaes da
obra. Mandou o duque metter n'elle o capito de cavallos Manoel
Travassos e o de couraas Manoel Caldeira, ambos de grande valor.
Acompanhavam aos capites quatro creados do duque, todos valorosos e bem
armados com ordem de que, se vissem mais de que uma pessoa, sahissem do
logar onde estavam. Foi o duque quelle logar assignalado esperar a meia
noite. Eis que chega ao estribo do coche uma mulher embuada; e,
perguntando ao duque se a conhecia, o duque lhe respondeu que no; e
ella lhe tornou que era D. Anna Saraiva, que havia muitos annos o duque
a vira e lhe fallara muitas vezes; e disse-lhe o duque que entrasse no
coche, e que fossem at  Cotovia, que era parte mais solitaria.

Disse-lhe D. Anna Saraiva que lhe queria mostrar como uma menina, que
estava em caza do conde de Castello Melhor no era filha d'el-rei, posto
que tractada por tal. Perguntando-lhe o duque como o sabia, lhe
contou toda a historia, e disse que, morando Agostinho Nunes nas cazas
do armeiro-mor, a convidou para ir ver botar uma no ao mar; e que alli
vira uma moa bem parecida, descorada e com o cabello cortado; e que,
perguntando-lhe algumas cousas a fim de saber quem era, e que vida era a
sua, lhe respondeu que as ms cores do seu rosto eram effeito da sua
dor, e os cabellos lhe haviam sido cortados pela mo d'el-rei. Foi D.
Anna, que era destra, inquirindo a ma, at que esta lhe manifestou sua
desgraa, e disse que se chamava Chatharina Arrais; e, galanteando-a
Manoel Arrais seu primo em Coimbra, viera para Lisboa com animo de casar
com elle; e que, morando em umas cazas com o dito seu primo, a foram
furtar uma noite Agostinho Nunes e Henrique Henriques, e a levaram ao
pao, e pernoitou na camara de el-rei: que seu primo morrera de magua em
Coimbra, e ella fra para casa de Agostinho Nunes, onde se achava, e
fra obrigada a dizer, quando desse  luz, que a creana era filha
d'el-rei; e sobre isso lhe fizeram grandes tyrannias at chegar el-rei a
cortar-lhe os cabellos. Disse mais D. Anna Saraiva que D. Catharina
Arrais estava freira em Santa Anna, e que ella lhe fallara, e estava
resolvida a vingar-se, declarando a verdade. Chamou o duque a
Agostinho Nunes e em presena de Duarte Ribeiro foi inquirido e disse a
verdade. Resolveu-se o duque a ordenar a Aurelio de Miranda, tabellio
de notas, fosse ao campo de Santa Anna, perto da egreja, e alli
esperasse recado d'elle duque; o qual deixando Augusto Nunes no seu
coche, mandou dizer  prelada que quizesse fallar-lhe; e, vindo a
prelada, lhe disse que tinha que fallar com Catharina Arrais, e sua
merc lh'a mandasse  grade. Assim fez. Appareceu; e, dizendo-lhe o
duque que no vinha tirar-lhe a sua tena, antes conservar-lh'a; que
elle sabia a verdade do que tinha passado; que convinha muito que o
depuzesse em juizo, e que elle pediria licena  rainha para tal
deposio. Veio Aurelio de Miranda. Disse D. Catharina o que havia
succedido, e assignou. Averiguada esta materia, foi D. Luiza tirada pelo
corregedor da crte de casa do conde de Castello Melhor, e o infante lhe
deu uma tena. Tirado este impedimento, se processou a causa de divorcio
at final concluso, etc.

At aqui a fantasia do historiador, atando alguns lanos verosimeis com
outros de todo o ponto irracionaes. Que preciso tinha D. Anna Tavares
de revelar o mysterio, a deshoras, nas escadas do Loreto? De quem
se temia ella, se tinha por si a rainha, o infante, o duque, Agostinho
Nunes e todos quantos haviam sido alcayotes do rei preso? Quem teve a
sandia credulidade de acceitar que D. Catharina,  primeira vez que via
D. Anna, lhe contasse as miudezas vilipendiosas de sua vida? E o caso de
el-rei lhe cortar de mo propria as tranas, por que ella se recusava de
o acceitar como pae da creana que havia de nascer? Claro  que os
personagens d'aquelle tenebroso drama de cruezas e devassidoens eram
melhores algozes que romancistas.

Todavia  certo que soror Catharina recebeu sua filha, e, segundo a
vontade de quem lh'a pensionra, quiz que ella fosse religiosa. Estava,
porm, um amor infantil comeado em casa do grande ministro de Affonso
VI com D. Pedro de Mello e Alencastre, fidalgo de primeira plana,
aparentado com os Castello-melhor. O moo, com quanto nobilissimo,
olhava timidamente para a filha do rei; mas, depois que a prepotencia
rebaixara a jerarchia de D. Luiza, complanou-se o terreno em que elle
mais affoitamente podia requestal-a.

Estreitaram-se as relaoens amorosas--tanto quanto os degenerados
mosteiros do tempo as facilitavam--mantidas, ainda assim, no mais
alto ponto da honestidade. D. Pedro de Mello e Alencastre casou com D.
Luiza de Portugal, e viveram em uma quinta do Riba-Tejo, em um quasi
desterro imposto pelo contrariado infante.

Houveram varios filhos todos varoens, e um d'estes, D. Prior de
Guimaraens, de amores com uma dama da crte e de stirpe muito selecta,
reconheceu sua filha D. Maria de Portugal, que casou com Marco
Franchiosi, filho de um conde milanez, que militara em Portugal, no fim
do reinado de D. Pedro II. Seguiu-se, neta de D. Luiza, D. Maria Izabel
Franchiosi de Mello e Portugal e Alencastre, dama da crte da rainha D.
Marianna de Austria, acolhida pela soberana por d da extrema pobreza em
que a deixra o pae, homem de vida estragada.

N'este tempo, appareceu em Lisboa um provinciano riquissimo, de Pinhel,
chamado Salvador da Costa Fagundes, a quem D. Joo V fez capito de
cavallos, deu habito de Christo, foro de fidalgo, e nomeou sargento mr
da sua terra.[7]

Este Salvador Fagundes, movido pela formosura e prosapia da aafata da
rainha, casou com D. Maria Izabel, segunda neta de D. Luiza de
Portugal.

Tiveram quatro filhos: um que succedeu na casa, dois que professaram em
Santa Cruz de Coimbra, e uma senhora que se chamou D. Maria Escolastica
Pulcheria Fagundes de Alencastre Portugal.

Esta menina, que vivia na crte em casa de parentes, amou um official
francez chamado Hilario Lescoeure Rolem, (_Rolin?_) com o qual fugiu
para Azeito e mais uma filhinha nascida em Lisboa. Por Azeito viveram
anno e meio clandestinamente em uma quinta que o francez ali comprara.
Descoberto e perseguido pela justia, o official foi assassinado em acto
de resistencia, e D. Maria reconduzida aos seus parentes, depois de ter
deixado entregue a Joaquim Eusebio, moleiro em Azeito, a filha, que se
chamou Marianna Joaquina.

D. Maria, em 1808, forada pelo irmo, casou para o alto Minho com o
representante de uma casa antiquissima, cujos appellidos omitto em
respeito a seus netos.

E, como em 1816 ficasse viuva, foi a Lisboa, e encarregou um seu
afilhado, official de marinha, de procurar Marianna em Azeito, e
convencl-a a seguil-o para Lisboa, se tivesse a fortuna de a encontrar.

O official encontrou a filha de sua madrinha moirejando no cazebre
do moleiro. Facil lhe foi movl-a a acompanhal-o.

Orava ento pelos treze annos D. Marianna Elisa. Era linda quanto Deus
podia fazel-a. A me nobilitou-lhe o nascimento com as suas lagrimas, e
entregou-a aos disvellos de uma franceza illustrada que se chamava
madame Chapsal.

A me demorou-se com a filha alguns mezes, fez-lhe doao da quinta de
Azeito revindicada de illegitimos possuidores, estabeleceu-lhe
abundantes recursos, e voltou para a provincia, onde tinha filhos na
primeira infancia.

No sei se esta senhora voltou a Lisboa desde aquelle anno at ao de
1819 em que faleceu, depois de haver rogado a um provedor Ferraz, ento
seu hospede em Ponte do Lima, que entregasse a Marianna o seu cofre de
joias, no podendo legalisar-lhe outra herana.

Este Ferraz, quando entregou as joias, rendeu-se por tal feitio 
belleza da orfan, que no houve mais desenliar-se d'aquella fascinao.
Por desventura, o provedor era rivalisado por um gentil cadete de
cavallaria, de nome Antonio Sicard.

Travou-se entre os dois emulos batalha de odios abafados, que mais tarde
levaram Sicard, j alferes de cavallaria, por denuncia aleivosa de
Ferraz,  Torre de S. Julio, onde morreu.

Presume-se, todavia, que D. Marianna decidira o pleito a favor do
cadte, por maneira to decisiva e inappellavel que se estadiava em
publico, de brao dado com o esbelto mo.

Tambem conjuraram bastantes tradioens a confirmar que o desembargador
Ferraz, homem teimoso e rico, logrra tal qual dominio no corao de D.
Marianna,  custa de liberalidades, entre as quaes realavam o palacete
e a carruagem.

Que D. Marianna de Portugal quiz mais tarde legitimar um filho para
succeder na herana do magistrado  de todo o ponto inquestionavel,
segundo jura o prior de S. Nicolau; mas essa creana no desdoira os
creditos da quinta neta de Affonso VI. Era um filho artificial.

A opinio publica desdoira as mes dos filhos naturaes; dos artificiaes,
no. Ultraja-se a natureza e respeita-se a arte.

Vivia D. Marianna de Portugal fra de portas, quando D. Miguel a viu.
Sua sexta av D. Catharina Arrais soprara a mesma lavareda no peito de
Affonso VI. Mas o real amante, graas  brandura de costumes d'este
seculo, no a tosquiou, antes lhe beijou as tranas, e se deixou
encadear por ellas. Tambem no consta que Marianna se dosse do pejo da
maternidade,  imitao da freira de Santa Anna, consoante o duque
de Cadaval a calumniou. Muito pelo invz: ella adorava o principe, e
sentia-o na alma e no sangue quando a creana lhe palpitava no seio.

Attesta o coronel Jos Joaquim do Cabo Pinto, no opusculo reeditado por
Victor Hugo Jos Alves, que D. Marianna visitava D. Miguel de dois em
dois dias. Isto no me parece exacto. Pendo a crr que ella o visitasse
todos os dias. Quanto  espionagem, que lhe assaca o desbragado
commendador d'Aviz em estylo de tarimba, isso  calumnia a descambar em
parvoice. As espias absolutistas no tratavam com o rei directamente:
comeavam no Miguel alcaide, e tocavam o pice do valimento se levavam a
denuncia at ao intendente geral da policia.

D. Marianna de Portugal empobreceu durante a sua intimidade com o rei.
Para sustentar carruagem, libr e uma apparente abastana, vendeu as
joias da me, depois que exhauriu o peculio que amealhara nos cofres do
desembargador. Animo isempto e estreme de vil ganancia ostentou-o
nobremente quando o corao predominou e abafou os baixos sentimentos
que a pertinacia do desembargador lhe implantara na alma plebeamente
educada. Um amor grande com os luzimentos verberados da cora real,
devia ser segundo baptismo para o corao da neta de reis.

Acabada a guerra e desterrado o infante, D. Marianna estava pobre e
tinha uma filha.

O desembargador Ferraz volveu a procural-a como amigo, como protector, e
como velho inveterado de paixo, agora exacerbada pelos realces que o
amor de D. Miguel haviam resurtido da belleza de D. Marianna.

Se  preciso confessar que a desvalida senhora acceitou a proteco do
magistrado por amor  filha e desamor  penuria, diga-se o delicto bem
alto, e haja de lhe perdoar em silencio a notoria sensibilidade do leitor.

Voltou a neta de D. Catharina Arrais a equipar sege e lacaios; mas, em
1838, o desembargador, aquelle Merlin cupidineo, levou comsigo para o
inferno dos desembargadores a lanterna milagrosa que fazia prodigios de
ouro  volta de Marianna.

Recorreu a me de Maria Jos ao expediente da hospedaria. N'esse trato,
ia provendo  educao da filha, e costeando certas pompas um tanto
desbotadas, mas incongruentes ainda assim com o seu estado. Contrahiu
dividas, precipitou a queda na rampa da uzura; e  bem de presumir que o
agiota, de quem a filha herdou, a desbalisasse a termos de lhe  no
poder a consciencia com o roubo. Exemplo unico.

O insulto publicado em 1840 impeonhou a vida da infausta vergontea de
Bragana. Os tres annos que ainda arrastou  volta da filha, como quem
se estorce e despedaa entre o amor de me e a necessidade de morrer,
foram expiao acerba, purificao que nos torna respeitavel a memoria
d'esta senhora de to illustre sangue.

Em 1842 devia ter D. Marianna de Portugal quarenta annos proximamente, e
vivia ahi por perto da Praa dos Romulares, com o seu hotel bastante
luxuoso ainda, para dignamente hospedar o principe Lichnowsky.

Este principe viu-a, admirou-lhe as graas, comquanto j desluzidas, e
ento soube que uma linda menina, que ali se via, era filha do principe
proscripto. Nas suas _Recordaoens, do anno de 1842_, escreveu elle:
_Fui recebido na rua de... em uma hospedaria...[8] A dona
da casa, uma_ ci-devant _bella mulher com ainda classicos vestigios
de depostos encantos, esteve antigamente na posse de ternas relaoens
com D. Miguel. Ha mesmo alguem asss atrevido para chegar a
assegurar que existem provas vivas d'aquella perdileco real._[9]

Poucos mezes mais disputou a vida atormentada, a desgraa, que, de dia
para dia, lhe esvasiava os guarda-fato e os bahs. No  mister
rendilhar phrases lugubres, que deixem transparecer as dilaceraoens que
a levaram ao suicidio.

Duas palavras bastam: vergonha e pobreza. Vergonha dos opprobrios
d'aquelle folheto, e ninguem que a defendesse. Pobreza, que explicava o
desamparo dos protectores, e a impunidade da injuria.

Morreu, descansou.




XVI

RESSURREIO DE UMA ALMA

            _Nec sine premio virtutes._

            No ha virtude despremiada.

            BOETIUS, da Consolao da Philosophia, Liv. IV.


A medicina, informada da origem da enfermidade moral da condessa,
aconselhou viagens como distraco. O caracter intermittente dos
accessos de lagrimas, e a incongruencia das palavras, delirantes sem
febre, eram symptomaticas de perturbao de juiso. Todo seu empenho
apontava em provar ao marido que as affrontas atiradas  sepultura de
sua me eram calumniosas. O conde esforava-se por convencl-a de estar
d'isso bem persuadido; ella, porm, sobrevinha na mesma prova, se
despertava apoz um breve espao de repouso.

Assim que a desfigurada condessa ganhou foras e se docilisou s
carinhosas supplicas do marido, aprestou-se tudo rapidamente para a viagem.

Da casa e direco dos negocios do conde ficou encarregado Damio
Ravasco. O mulato exultou quando o dispensaram de os acompanhar, sem
todavia manifestar o intento que o prendia a Lisboa. Toda a sua
esperana era descobrir o publicador do folheto, bem que de si para
comsigo devia ser um dos dois que elle esmurrara, sem embargo de lhe
dizer Christovo Tavares que suspeitava muito d'um tal Victor Hugo.
Queria muito o mulato que lh'o mostrassem a fim de o no procurar longo
tempo, se um dia o diabo o atraioasse. E, com effeito, chegou a vl-o 
porta do Marrare do Chiado. Contemplou-o com disfarce, e disse entre si:
deve ser este! Entretanto, as cartas vindas de differentes paragens da
Europa, no davam esperanas do restabelecimento da condessa. A
monomania da justificao da me resistia s diversoens, aos rogos, s
caricias, e  therapeutica dos banhos, frios da Allemanha.

No outono de 1860, chegaram a Baden, esperanados nas aguas mineraes. Ao
mesmo tempo, chegava D. Miguel de Bragana com sua esposa e alguns filhos.

O conde levou alvoroado a noticia  enferma, que teimava em no
sahir do seu quarto. A condessa agitou-se, riu-se, chorou, bateu as
palmas, abraou o marido, beijou a sua amiga Ernestina, e exclamou com
febril vertigem:

--Vou vr meu pae!... vaes vl-o, Raul!... vers o que elle te diz de
minha me... vers que  tudo calumnia!...

Mas o conde receiava que o infante desconfiasse da sanidade intellectual
de uma senhora que lhe saisse ao encontro a chamar-lhe pae, sem de
antemo se haver prevenido para tal apresentao.

Contida no seu enthusiasmo a condessa por consideraes de etiqueta
indispensaveis com os principes, o conde fallou a um sacerdote da
pequena comitiva do infante, e industriou-o sobre a maneira de precaver
D. Miguel para ser cumprimentado por uma dama portugueza, a condessa de
Baldaque.

O principe alegremente mostrou vivo desejo de conhecer a esposa de um
cavalheiro a quem elle e os legitimistas portuguezes deviam relevantes
finezas.

Incutia receios o arquejar do peito da condessa, quando apeou da
carruagem  porta do infante.

Sahiu D. Miguel de Bragana ao patamar da escada a recebel-os. Quando,
com a mais lhana cortezia, o principe offerecia a mo  dama, ella
ajoelhou; e, suffocada por soluos, cobriu de lagrimas e beijos a mo
que no pde esquivar-se quelle estranho transporte.

-- minha senhora!--exclamava o infante--por quem ! peo-lhe que se
levante...

E olhava para o conde, como a pedir-lhe a explicao da anciedade da dama.

E o conde, com os olhos turvos de lagrimas, disse:

--Vossa magestade comprehender a perturbao de minha mulher, sabendo
que ella  Maria Jos de Portugal, filha da snr. D. Marianna...

--Ah!--exclamou o infante--j sei... j comprehendo...

E, com maior esforo, inclinando-se at poder levantal-a dos seus ps,
abraou-a, beijou-a na testa, correu-lhe as mos pelas fontes, e murmurou:

--Vi-a creancinha... de seis mezes...

E, tomando-lhe o brao, conduziu-a  sala, sentou-a na othomana, ao seu
lado, lanou-lhe o brao pela cintura, e disse-lhe quasi em segredo:

--Sua me...  morta?

--Ha muitos annos...--balbuciou a condessa.

--Porque me no escrevia, quando me enviava...--tornou elle, feita
uma longa pausa.

--Oh!--atalhou D. Maria--peo-lhe que no se lembre... vossa magestade...

--Que me no lembre?... Eu no me esqueo seno dos ingratos... minha
filha!...--E voltando-se para o conde:--snte-se, senhor... Como se
chama seu marido?--perguntou  condessa.

--Raul--respondeu ella.

--Snte-se, snr. Raul... Sei que  brazileiro... Agradeo-lhe esta boa
hora da minha vida--proseguiu tomando entre as suas a mo de Maria.--Mal
diria eu!... Ella aqui est... aquella creana que eu via como um anjo
l ao longe da vida... um ponto branco e luminoso do passado... um
sonho!...

D. Miguel alongou os olhos tristes para o horisonte azul que as
montanhas recortavam. Que viso! que saudade! que escuridade ia dentro
d'aquella alma, purificada na onda das lagrimas, na fragua da
indigencia, no cadinho ardente do desesperar!

O conde, embevecido no aspecto respeitavel e triste d'aquellas cans
geadas dos invernos de vinte e oito annos, escutava-o to admirado,
quanto em Portugal a opinio da plebe das letras malsinava de ignorancia
o principe. D. Miguel interrogava, ora o conde, ora a filha sobre
coisas e pessoas da patria, alheando-se da politica, e instando a sua
dolorosa curiosidade em miudezas de certos sitios, dourados pelo sol da
infancia, e esmaltados de indeleveis cres pelo archanjo da saudade, que
l de longe nos segue at nos entregar ao archanjo da morte.

Quando um criado entrou  sala annunciando que a rainha se recolhera do
banho, o infante disse ao conde:

--Minha mulher ha de querer cumprimental-os em occasio mais opportuna.

A condessa levantou-se, dobrou o joelho ao lado do esposo, beijaram as
mos do principe, que deu o brao  dama, at ajudal-a a subir ao
estribo da carruagem.

Desde esta hora, raiou luz nova no espirito da condessa. As lagrimas do
enthusiasmo filial diluiram a mancha negra que lhe ennoitecia, a
intervallos, a razo. Se a causa d'aquelles crepusculos da escuridade da
alma tinha sido julgar-se abatida pela calumnia aos olhos do marido, a
cura operou-se pelo exalamento que lhe dera a considerao do pae em
presena do conde. S assim: nenhuma outra ancora salvaria do golpho das
trevas aquelle espirito. A ferida escalavrara o orgulho da neta de
Affonso VI, por sua me e por seu pae.

Demorou n'aquella paragem o conde at que D. Miguel recolheu a
Heubach. Depois, deteve-se em Allemanha. Por espao de anno, raros dias
se no viram as duas familias. A felicidade de Maria Jos era o co,
como raras vezes a virtude n'este mundo o encontra, na consciencia, e
nas alegrias inalteraveis da vida exterior.

O conde, adivinhando os discretos silencios da esposa, disse que nunca
mais voltaria a Portugal. Projectou, pois, deter-se na Europa mais dois
annos, e voltar para o Brazil, onde o chamavam as memorias da infancia,
como quem queria continuar as douras da vida adulta e l esperar a
quietao da velhice.

N'este proposito ordenou ao seu procurador e mormente a Damio Ravasco a
venda de todos os seus haveres em Lisboa, com ordem ao leal amigo de o
ir encontrar a Marselha, levando comsigo Christovo Tavares e toda a
familia do afortunado velho.

Quando Damio, grandemente desconsolado por ter de sahir de Portugal sem
vingar o conde, obedecia s ordens recebidas, foi colhido de sobresalto
por uma noticia que, segundo elle affirmou, por pouco o no matava de
prazer.

Christovo Tavares mostrou-lhe uma gazeta liberal em que o articulista,
em polemica virolenta com o redactor d'outra gazeta, escrevia estas
lisonjas: ... Quem  este sevandija que nos falla em moralidade, em
caracter, em firmeza de principios, em dignidade jornalistica? Quem  o
gaiato, o fundibulario das esnogas d'Alfama, que nos despede a pedra,
sem receio que o recochte lhe v bater no stigma infamante da testa,
onde a lei j no deixa escrever LADRO com ferro em braza? Quem , e
donde veio este Victor Jos Alves, que incravou no nome plebeu o Hugo
to honrado no mundo? Quem lhe disse a elle que onde estava o _Alves_,
para memoria de um certo _Diogo_, devia intervir o sobrenome do primeiro
poeta do universo?

Victor Hugo! elle, o filho da estalajadeira, que ainda tem, como brazo
de familia, atraz da porta o cacete do marido, que quiz mercadejar com
as costas dos septembristas, como com os coiros de vacca onde se
levantou subindo pela tripea do pae!

Victor Hugo! elle que imbaiu uma certa luveira a dar a D. Miguel uns
tres contos de reis, que o _escroc_ desbaratou em pasteis de camaro e
orgias nos bordeis!

Victor Hugo! elle que depois prefaciava um apontoado de injurias
aleivosas que haviam matado a infeliz me da luveira roubada, e levaram
depois ao cairel do sepulcro moral a razo de certa condessa, que
hoje erra foragida da patria em companhia de seu honrado marido!

Elle, Victor Hugo, que apoz tantas protervias, umas culminantes de
infamia, outras de irriso, exerce hoje um logar de confiana politica,
o secretariato d'um governo, e pendura na lapella da casaca, que devia
ser blusa de forado, duas commendas, uma que lhe d o foro de fidalgo,
e outra que o representa benemerito das consideraoens litterarias!...
Elle que...

Damio Ravasco arrojou o jornal, e atirou-se aos braos de Tavares
exclamando:

-- meu o homem! Se alguem lhe pe a mo, arranco-lhe os figados pela
bocca!

E parecia jorrar ascuas de forja afogueada por ambos os olhos.




CONCLUSO

     immolado um porco  terra.

            HORACIO, Epist. I, Livro II.


Corria o mez de agosto de 1862.

Na estao de seges de praa, que descorrem pela cidade baixa, notaram
os boleeiros a concorrencia de um mulato, que elles tinham visto,
adestrando as soberbas parelhas do conde de Baldaque, ou aderenando
ptros rebelloens e alfarios com a galhardia de consummado picador.
Reputavam-no mordomo do millionario; porm, quando o viram na praa,
boleando uma sege numerada, inquiriram d'elle mesmo se deixra o servio
do conde. E elle respondeu:

--O conde foi-se embora para Frana, e eu, que me dou bem por c,
empreguei as minhas soldadas n'este trem, e vou vivendo.

O servio de Damio agradava sobre modo aos rapazes do Chiado. O mulato
era j conhecido da mocidade de pechisbeque, verso genialmente
portugueza da _jeunesse dore_ l d'lem. Em dia de toirada era ditoso
quem o emprazava de vespera.

Victor Hugo rara vez sahia de sua caza na Travessa do Estevo
Galhardo--aonde voltra reconciliado com a me e um tanto fallido ao
dinheiro--que no visse o mulato convidando-o a acceitar-lhe o seu servio.

Uma vez, entrou na sege, e disse:

--s camaras!

A sege voou. Victor, apeando, disse:

--Isso  que  andar, rapaz! Como te chamas?

--O mulato.

--Mas como  o teu nome?

--Mulato.

--Mulato no  nome,  cr. Tu deves ser Simo ou Andr ou Belchior...

--Sou mulato.

--Pois ento, mulato--voltou sorrindo o commendador da Conceio--queres
ir amanh levar-me a Cascaes?

-- longe, meu amo. Faz muito calor. Estafo os cavallos  torreira do
sol; e eu no sei andar a passo.  para l! bem v V. Ex.... Eu no
poupo o gado...

--Pois vamos de noite, queres?

--De noite? A que horas?

--s tres.

--Isso  de dia.

--s duas, serve-te?

--Convem. Chegamos l s sete.

--Sabes onde moro?

--Parece-me que sei... ...

--No Hotel da Travessa...

--Do Estevam? j sei... L estou s duas em ponto.

--Sem falta? palavra?

--De mulato. Quer que espere?

--No. Pega l...

E deu-lhe, com fidalga bizarria, dez tostoens. Damio recebeu-os na luva
de algodo. Subiu  almofada, largou para a rua de S. Bento, e deixou
car as duas coras no regao de uma mendiga cega.

 uma hora da manh Victor Hugo recolheu do Gremio, e sevou o seu
rewolver de seis tiros. Depois trajou-se  campezina, fato inteiro azul
anil, luva amarella, chapo de palha, uma gravata de muitas pontas com
muitas flores e muitas borboletas. O espelho lisongeava-o, occultos os
dentes, o vestibulo infecto d'aquella caverna do peito, as navalhas
podres do javali que esfoava l dentro.

Victor Hugo ia a Cascaes  cata d'uma grega que, por aquelles dias,
alvorotra os galans enfrascados em damarias d'aquella casta. Farto de
amores peninsulares, o poeta Alves almejava um amor grego, perfumado das
auras do Bosphoro, coisa que lhe dsse uma vez ao menos as morbidezas do
oriente na Travessa do Estevam Galhardo.

A grega perseguida dos caens vadios de Lisboa, que se lhe penduravam de
cauda de murzlo, fugira para Cascaes, no intuito outro sim de traduzir
o Alkoro para uso dos seus cathecumenos.

Victor Hugo ia procurar a grega, fugida do serralho de Bysancium, e
disposto a enrodilhar o turbante na cabea, mahometanizar-se, restaurar
a Grecia por amor d'ella, dar a casca em Missolonghi, e almoar com
ella, se pudesse.

s duas horas rodou a sege na calada e parou. D. Rozenda, quando o
filho passava no corredor, disse l de dentro da alcva:

--Onde vaes to cedo, Victor?

--Vou a Cascaes.

--Que vaes fazer a Cascaes, homem?!

--Respirar as brizas do mar.

--Forte asno!--murmurou a me, e adormeceu. A sege abalou velocissima.

Ahi por Pao d'Arcos, Victor perguntou ao boleeiro, quando a sege ia
muito a passo:

--A quem compraste esta boa parelha?

--No leilo do conde de Baldaque. V. Ex. conhece-os?

--Conheo o conde, os cavallos no.

--No me saber dizer porque  que o conde se foi embora?

--Sei: casou com uma aventureira...

--Que vendia luvas...

--Isso...

--E depois?--tornou o mulato.

--A opinio publica fez-lhe troa e elles safaram-se.

--Ah!... ento a troa como foi?... Acho que havia de ser um folheto que
ouvi ler, a dizer o diabo da me da tal condessa...

-- isso...

--E aqui, ha de haver um mez, leram-me um jornal onde se dizia que o
folheto fra publicado por um snr. Victor Hugo, que tinha roubado grande
chelpa  tal luveira. Sempre ha cada malandro! O senhor conhece-o?

--Quanto dste pela parelha?--perguntou Victor, como se a pergunta fosse
feita a um pavo, que berrava no arvordo dos Palhas.

--Cincoenta libras--respondeu o mulato, muito mais delicado que o seu
interlocutor.

--No foi cara.

--Todo o trem do conde se vendeu ao desbarato. Contou-me um criado
d'elle, meu patricio, quero dizer, tambem mulato, que a condessa
fra de Lisboa doida, por causa do tal folheto, publicado pelo larapio
que a roubou. Veja V. Ex. que patife aquelle! O mulato  levadinho de
dez milhoens de diabos, e disse-me que no se vae embora de Portugal sem
cortar a cabea ao tal Victor Hugo!

--Quem, o preto?--perguntou sorrindo o commendador.

--Sim, o preto...

--Ha de ser um que dava scos nos namoros da luveira...

--Hade ser esse, provavelmente...

--Pois, se o vires, dize-lhe que o tal Victor Hugo s deixa cortar o
pescoo depois que mette seis balas na cabea de quem lh'o quer cortar.

--Ento o homem pelos modos  tzo?

--: fia-te em mim.

--No duvido, patro; mas a valentia no tira que elle seja um ladro; e
um malvado que roubou a alegria e o juizo a uma senhora que lhe no fez
mal nenhum, que eu saiba.

--Elle l teve as suas rasoens... Olha l, no deixes adormecer os
cavallos... Ainda agora vamos em Oeiras...

--Temos muito tempo, patro... V. Ex. no conhece um caminho por onde
se atalha uma legua boa?

--No.

--Quando chegarmos ao fim do muro da quinta do marquez, eu lh'o mostrarei.

Damio chicotou os cavallos com frenezi. Era a onda de sangue que j lhe
girava como meandro de vitriolo por entre os seios do cerebro. As
chicotadas eram uma maneira de se desafogar d'aquella congesto.

Chegados  extrema do muro, o mulato metteu por uma vereda estreita,
desterroada e pedregosa.

--No  por ahi!--disse Victor--por onde diabo vaes?

--Por aqui  o atalho--respondeu Ravasco.

--Deixemo-nos de atalhos agora de noite!

--No tenha medo, patro. O snr. no traz rewolver?--dizia e affoitava a
parelha.

--Trago rewolver; mas...

--Ento que medo tem?

--No  medo de ladroens;  medo que esbarrondes a sege! Olha que o
caminho vae j bater ahi n'uma charneca fechada, no vs? Volta para
traz, bruto!

Damio Ravasco no respondeu. Levou impetuosamente os cavallos aos
sacoens at entestal-os com um comoro eriado de piteiras e socavado nas
margens resvaladias, e saltou de golpe da almofada, quando as bestas se
escabravam trepando  valla.

Este abrupto salto, depois da pertinacia do cocheiro em fustigar os
cavallos contra o vallado, incutiu em Victor Hugo a suspeita de estar em
perigo de ser roubado pelo mulato. Instinctivamente arrancara do
rewolver, quando o boleeiro saltou. E, no conflicto em que Damio
arremettendo  sege, puchava de repello pelas cortinas embreadas,
Victor desfechou-lhe um tiro na face, e o segundo no respaldo da sege,
porque o pulso lhe estalou e revirou-se na mo do mulato como se os
ossos se deslocassem dos ligamentos estorcidos por uma tenaz.

E do mesmo impeto fincou-lhe na garganta a garra esquerda, e empuchou-o
para fra da sege.

Victor, escabujando de encontro aos raios da roda, rugia gritos de
soccorro, luctando em balde para arrancar a mo ainda armada  torquez
que lhe desarticulava o pulso.

O mulato remessou-lhe um joelho ao ventre, e disse-lhe n'um rouquejar de
voz, mudada em bramido pela ferocidade da ira:

--Hasde saber quem sou, perverso ladro! Sou o preto do conde de
Baldaque. D-me seis tiros na cabea antes que eu te corte a tua. Um j
c o tenho no rosto; se morrer delle, perdoo-te.

 ultima palavra vociferou elle um rispido regougo, coisa parecida
ao soturno urrar da fra; e, no mesmo acto, arrancou da navalha
espanhola j aberta entre a manga da jaleca e o brao, e cravou-lh'a
atravs da garganta.

Era cadaver o insultador da condessa de Baldaque; mas o leo no
desenterrra os gryphos aduncos das carnes do tigre morto.

A clera recrudescia ao compasso da dr atroz que lhe sangrava na cara.
Levou a mo ao olho direito, e retirou-a empapada em sangue e humores.
Receiou morrer, e este mdo dava-lhe vertigens, e um raivar de demonio,
cada vez que o sangue barbotando lhe tolhia a vista.

Talvez que a vingana ficasse quem das raias da barbaridade, se Victor
o no houvesse ferido mortalmente, como elle suppunha. Travou dos
cabellos ao cadaver, e correu-lhe  volta do pescoo repetidos golpes
at o degolar. Atirou para dentro da sege a cabea, e deixou o restante
no cho ensopado da sangueira.

Antes de repontar o sol, sege e cavallos estavam na cocheira do conde.

A cabea de Victor Hugo foi submersa em lcool n'uma vasilha negra. E
Damio Ravasco, entregue aos cuidados de Chistovo Tavares e d'um
cirurgio, soffria a dolorosa anatomia da extraco do olho direito
e esquirolas da orbita correspondente.

Ai! elle no poderia mais vr a cabea de Victor Hugo Jos Alves seno
com um olho!

Do apparecimento do cadaver descabeado na Azinhaga das Cobras deve
lembrar-se perfeitamente o leitor de Lisboa. Primeiro, disse-se que era
uma victima das vinganas clandestinas dos carbonarios. Alguem pensou
que fosse o administrador do concelho de Oeiras, que n'esse dia estava
sadio e incolume em Cascaes namorando a grega. Outros, os mais sensatos,
pediam a cabea do sujeito para fazerem o seu juiso crca da identidade
da pessoa. A final soube-se quem era, por causa d'umas cartas de namoro
que lhe encontraram na algibeira, dirigidas a _Victor Hugo_; mas tambem
isto foi motivo a conjecturar-se que o auctor do _Napoleon--Le petit_,
viera incognito a Lisboa, e o imperador dos francezes o mandra
assassinar, decapitar, _etc._, _etc._ O que  certo  que muita gente,
quando se disse que o descabeado era o Victor, filho do Alves dos
coiros, respondeu brutalmente: _Foi bem feito_.

Sarado da ferida, mas cego do olho, e esburacado no bordo inferior da
orbita, Damio Ravasco, liquidado o trem da homicida faanha, fez-se ao
mar e mais o official realista e as filhas e os netos. Marselha era
o itinerario prescripto pelo conde. Dirigiram-se  rua Camebiere, _hotel
des Empereurs_.

Entraram juntos  sala privativa do conde. Damio ia na frente,
sobraando uma caixa de estanho, com argolas lateraes. Quando se
defrontou com o conde e a condessa, ambos exclamaram espantados da to
differente cara de Ravasco:

--Que  isso!?--bradou o conde--Vens cego de um olho, Damio?

--E que profunda cicatriz elle tem na face!--disse a condessa.

--Que foi isso?--tornou o irmo.

--Este olho que me falta--respondeu Ravasco pousando o caixote sobre uma
banca; e repetiu:--Este olho, que me falta, tirou-m'o um sujeito chamado
Victor Hugo Jos Alves.

--Porque, meu Deus?--disse a condessa.

-- possivel!?--exclamou o conde--E tu...

--Eu sempre ouvi dizer ao meu mestre de latim: olho por olho, dente por
dente--respondeu Ravasco;--mas, a fallar a verdade, no me accommodo
com esta lei. Quem me tira um olho a mim ha de ficar sem dois, pelo menos.

E, dizendo, destapava a caixa de estanho. A condessa tremia
convulsamente. O conde encarava-o estupefacto. O ex-brigadeiro e as
filhas e netos agrupavam-se  volta da condessa. E Damio continuou:

--Ora eu que no tinha vagar, nem a occasio era a melhor, para tirar os
dois olhos ao sujeito que me tirou um, achei que o mais summario e
seguro era cortar-lhe a cabea. Eil-a aqui! Vejam se a conhecem!--disse
o mulato, mostrando a cabea tragica, mergulhada em espirito de vinho,
no amplo frasco extrado da caixa.

A condessa parecia desmaiar nos braos do marido, exclamando em extrema
afflico:

--Jesus! que horror! que barbaridade!...

--Horror, sim, minha filha!--disse o conde--mas barbaridade... No
culpes Damio sem o escutar.

E Ravasco, aproximando-se da condessa, fallou serenamente:

--Eu tenho pouco que dizer em minha defesa, snr. condessa. Em Lisboa
sahiu um folheto no qual se dizia que sua me roubava padeiros de quem
era amazia...

--Silencio!--bradou o conde.

--Deixe defender-se o barbaro, snr. conde!--volveu Damio--N'esse
folheto havia uma nota em que se dizia que o conde de Baldaque casra
com uma aventureira. Se o snr. conde casasse com uma mulher perdida, eu
no o vingaria, por entender que era justo o castigo; mas como eu
sei que V. Ex. era uma senhora honesta, entendi que devia cortar a
cabea d'onde sahiram os insultos a V. Ex. e a um homem que me chamou
irmo. No tenho mais que dizer. C levo a cabea para lhe dar honrosa
sepultura nos esgotos de Marselha.

E sahiu com o caixote debaixo do brao. Na sala era tetrico e profundo o
silencio. Nem que aquillo fosse a cabea de Holofernes, ou de Pompeu! E
as lagrimas derivavam copiosas no rosto de Maria Jos.

 egregia alma, como essas lagrimas deviam ser abenoadas do soberano e
inexprimivel Espirito que to perfeita scintilla de sua divindade te
bafejou no bero!




EPILOGO


Os condes de Baldaque, n'este anno de 1872, viajam no Oriente, com o
filho mais velho.

Damio Ravasco, reconhecido irmo do conde, e quasi millionario, vive no
Cear com sua mulher D. Luiza Tavares, a mais nova das filhas do
ex-brigadeiro j fallecido.

As outras filhas, exceptuada Ernestina que acompanha a condessa, casaram
e so ricas.

Os netos do brigadeiro, doutorados na universidade de S. Paulo, esto
estabelecidos no imperio brazileiro.

D. Rozenda Pica  mestra regia na Porcalhota.

D. Eufemia, dada ao mysticismo, e repza de escrupulos purificantes,
est no seminario de Brancanes, encarregada da limpeza dos jesuitas.

Obrigado pelas leis da transmigrao, Victor Hugo Jos Alves resuscitou
nos corpos e almas de tres sujeitos que ho-de prosperar n'este paiz, se
no encontrarem mulatos...

FIM




    [1] Veja os amores deste fidalgo com a filha d'el-rei D. Duarte.

    [2] PORTUGAL, Recordaes do anno de 1842, pelo principe Lichnowsky.
    Lisboa, 1844.

    [3] Pag. 5.

    [4] Elidem-se phrases que ressumbram de mais  cazerna onde o
    commendador d'Aviz escrevia o seu despejado depoimento.

    [5] A pagina 111, penultima do _ms._, l-se o seguinte: Este
    Epytome da vida d'Affonso VI, foi copiado exactamente do original,
    que se achava na livraria do duque de Cadaval, composto sobre as
    Memorias de Luiz Teixeira de Carvalho, que foi official maior da
    secretaria de estado, por cuja mo correram as ditas Memorias;
    porm, ha n'ellas circumstancias to particulares que persuadem
    serem ditadas pelo duque D. Nuno Alvares Pereira, que teve tanta
    parte na deposio deste monarcha. Suas queixas o fizeram esquecer
    das grandes aces do governo d'este infeliz rei e das gloriosas
    victorias do seu reinado. Veja-se sua vida por o auctor mais
    critico.

    Segue outra declarao:

    A copia a que se allude, e da qual esta foi tirada, pertence a D.
    Miguel Antonio de Mello; e hoje possue-a o conselheiro Antonio
    Joaquim Gomes de Oliveira, official maior da secretaria de estado
    dos negocios estrangeiros. Lisboa, 29 de Maio de 1845. _Jacintho da
    Silva Mengo._

    [6] Mosteiro onde se recolhera D. Maria de Saboya.

    [7]  margem do livro-genealogico donde vou trasladando esta
    linhagem, est escripta uma nota curiosa: Salvador Fagundes era um
    homem ordinario de Pinhel, que andava a vender meias, e neste tracto
    o viu o padre Francisco Xavier da Mesquita Pimentel, frade loio, que
    m'o disse, em Fevereiro de 1775. E diz que haver setenta annos que
    lhe vira vender as ditas meias. Outros me dizem que fra pintor;
    emfim, sempre foi pessoa humilde. Porm, enriquecendo, foi pagador
    d'um regimento, e ajuntou tanto cabedal, que era j muito estimado.
    A um general que de Castella veio andar nas guerras de Portugal fez
    grandes offertas; e, quando se recolheu a Hespanha, lhe mandou por
    todas as partes offerecer todo o dinheiro que quizesse e na forma
    que lhe parecesse; e por ultimo, julgando o general que aquillo
    seria bazofia, disse em uma parte que queria 50$000 cruzados; e,
    como logo lh'os dessem, os no acceitou, e ficou muito agradecido
    por ver que era verdade, e escreveu a el-rei de Portugal, dando-lhe
    parte de tudo, e pedindo-lhe que premiasse aquelle homem que tantos
    obsequios lhe fizera, Joo Pinto Ribeiro de Castro Vella me disse
    que o dito Fagundes ajuntra muito cabedal, quando fra assentista e
    pagador nos tempos da guerra; e que, suspeitando que o governador o
    queria culpar pelo muito que furtra, lhe foi fallar; e como o
    governador o no quizesse receber, o Fagundes fingira um flato ou
    accidente, deixando uma bengala que trazia, na qual, pegando um
    criado do governador, e achando-a muito pezada, a levara ao amo que,
    admirado do pezo, a entrou a examinar e a achou cheia de moedas de
    6$400 reis, com as quaes se accommodou, etc.

    Viessem c hoje Fagundes com taes bengalas, que levavam com ellas...
    depois de vasias.

    [8] No percebo o pudor de quem traduziu, omittindo o nome da
    proprietaria do hotel.

    [9] _Portugal. Recordaoens do anno de 1842_--pag. 18.


INDICE

         I A LUVEIRA DA RUA NOVA DA PALMA
        II PERFIL DE VICTOR HUGO JOS ALVES
       III D. ROZENDA
        IV O ESTOMAGO DE VICTOR HUGO
         V O CORAO DE D. ROZENDA
        VI O SANTO CORAO DE FILHA
       VII OS TRES CONTOS DE REIS
      VIII RAUL
        IX DAMIO RAVASCO
         X FRUCTA DO BRAZIL
        XI SOLEMNIA VERBA
       XII EXPLOSO DE AMOR
      XIII DESASTRE DO GATUNO
       XIV A VINGANA
        XV A PROLE DE D. AFFONSO VI
       XVI RESSURREIO DE UMA ALMA
           CONCLUSO
           EPILOGO





End of the Project Gutenberg EBook of O Carrasco de Victor Hugo Jos Alves, by 
Camilo Castelo Branco

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CARRASCO DE VICTOR HUGO ***

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