The Project Gutenberg EBook of Notas d'arte, by Antnio de Lemos

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Title: Notas d'arte

Author: Antnio de Lemos

Release Date: January 11, 2010 [EBook #30926]

Language: Portuguese

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     existentes neste texto, foram tomadas vrias decises quanto 
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     o original. No final deste livro encontrar a lista de erros
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                                             Rita Farinha (Jan. 2010)




NOTAS d'ARTE




[Figura: NOTAS D'ARTE]




PORTO
TYPOGRAPHIA UNIVERSAL (a vapor)

Travessa de Cedofeita, 54

1906




Ao INSTITUTO de ESTUDOS e CONFERENCIAS

 SOCIEDADE de BELLAS ARTES

pelo que podem fazer em bem da Arte.




[Figura: (Esboo para um retrato)

VASCO FERREIRA]




NO LIMIAR


_O philosopho Taine, dizia, ha bons vinte annos, no seu Curso Esthetico
para a Escola de Bellas-Artes_:--A Arte  o reflexo dos costumes. _E, de
facto, assim . A Arte vae evolucionando sempre na ordem directa do
aperfeioamento e da illustrao dos povos_.

_Assim, quanto mais illustrado fr o publico, tanto mais perspicaz, mais
estudioso e mais observador deve ser o artista, para que tenha o
applauso geral e sincero a obra que executou e apresenta. E,  mesmo por
isso que entre ns, os artistas, pintores e esculptores, dia a dia
fazem, na incessante lucta pela vida, os esforos mais lidimos e mais
honrados para resolverem esse enorme e sublime_ desideratum:--_ser
grande!_

[Figura: (1904) Caricatura do dr. M. Monterroso]

_Infelizmente nem todos o podem conseguir. E, no o conseguem, porque
para isso no so precisas s a boa vontade e a persistencia no estudo.
Alguma coisa mais lhes  necessaria, e essa, primacial:--ter talento!_

_Felizes os que teem esse delicioso e bello predicado; porque esses, vo
gloriosamente para diante e so verdadeiramente grandes_.

       *       *       *       *       *

_Ha alguns annos, poucos ainda, a pintura entre ns era uma especie de_
Arte mystica, _que apenas raros tentavam, n'um arroubamento de eleitos_.

_Esses mesmos, faziam a pintura a seu modo, dentro de restrictas e
acanhadas normas, sem pensarem sequer que o_ fluido ether _que nos cerca
e enche triumphantemente toda a natureza, em pulverisaes
vibrantissimas de luz e de cr, precisa de ser estudado e qui
pintado_.

_Mas, se elles limitavam os ambitos do seu modo de executar, era que o
publico tambem no exigia mais, e a critica no se preoccupava
absolutamente nada com isso_.

_Tanto_ elle _como_ ella _eram feitos por individuos, que ao visitar os
museus e as exposies de pintura no tinham a intuio nitida e
verdadeira da Natureza em todo o seu explendor, como manifestao
psycologica da vista_.

_Habitualmente todos elles amavam a Natureza pelo simples consolo que
lhes dava, quando ao domingo, deixada a cidade, iam para o campo, no
para fruir o delicado encanto de admirar um bello panorama, mas... para
gosar o pantagruelico prazer de devorar um gordo carneiro assado, com o
seu alguidar de loiro e assafroado arroz de forno, ou a saborosa pescada
frita, com negras azeitonas e fresca e appetitosa salada de alface,
acepipes estes que copiosamente regavam com tinto de Basto ou espumoso
verde de Amarante_.

_E, se um ou outro tinha uma tal ou qual intuio artistica, porque, l
fra, nos grandes museus do estrangeiro, tinha visto qualquer cousa que
lhe fizera notar tal, esse, ficava-se n'uma banal indifferena, sem se
manifestar aggressivamente contra os systemas adoptados pelos pintores
do seu tempo, que apresentavam nos seus quadros composies de conveno
e feitas no ar morno dos atelieres, sem a inspeco constante e
immediata dos motivos a pintar.._.

       *       *       *       *       *

_Uma Era nova e refulgente, desponta por fim, e os artistas que
comeavam pondo de parte os velhos preceitos archaicamente usados,
saltam por sobre as barreiras das convenes e correm pelos Campos da
Arte, fra, em procura de elementos verdadeiramente verdadeiros, com que
possam satisfazer as exigencias do publico mais illustrado e da critica
mais independente que auctoritariamente se impe, cheia de razo, para
que nos seus trabalhos haja mais naturalidade e menos fico_.

_E,  sob este refulgir de um novo sol, que orientado l fra, com as
mais modernas noes d'Arte, estudando nas melhores e nas mais celebres
escolas de pintura do Mundo, que nos apparece, entre outros, como
Columbano, Malhoa, Salgado. Sousa Pinto, Marques de Oliveira, etc.,
etc., o grande, o sublime Silva Porto! Aquelle que para mim  o maior
dos paysagistas portuguezes dos ultimos tempos. E que, com o seu modo de
ser e de ver, marca d'uma maneira deslumbrante o inicio d'essa nova Era
para a pintura portugueza_.

_Assombra-nos esse artista com os seus primorosos quadros feitos n'uma
larguissima e franca sentimentalidade d'alma de homem de talento,
exuberantes de verdade, geniaes de execuo. Era um grande! Era um
sublime artista!.._.

_Mas, a Morte rapidamente o ceifa, avara de que elle tenha conseguido
to sincera, to verdadeira e to lealmente_ roubar _ Natureza
verdadeiros e flagrantes pedaos do seu grandioso_ Ser, _para to
maravilhosamente os transplantar  tela_.

_Ao morrer porm Silva Porto tinha hasteado, bem alto e bem firmemente,
a bandeira gloriosa sob que se devia agrupar a nova pleiade dos pintores
portuguezes_.

_E, de facto,  sob a egide d'essa bandeira que a Arte em Portugal
brilha hoje mais fulgurante, podendo pr-se sem vergonha ao lado da Arte
dos paizes onde Ella tem um culto mais largo e mais acerrimo_.

_Se no em quantidade, pelo menos em qualidade, os artistas portuguezes
de nome, chegam onde podem chegar os artistas notaveis estrangeiros, sem
temerem confrontos_.

_E isto porque Portugal d'hoje, embora os pessimistas no queiram, vae
avanando intellectualmente um pouco na civilisao moderna_.

_E em taes circunstancias, como dizia Taine, ha bons vinte annos_:--A
Arte  o reflexo dos costumes.


                                            Antonio de Lemos (Alvaro).


[Figura: Cabea de negra (Bronze)

DUQUEZA de PALMELLA]




NOTAS d'ARTE

1

Impresses d'uma Exposio


Ha muito tempo j, deveria ter vindo dizer da bella impresso que me
causou a 1.^a Exposio organisada pelo _Instituto de Estudos e
Conferencias_, mas os meus affazeres obrigaram-me, para gaudio dos meus
leitores (pois critica incompetente como a minha quanto mais tarde
melhor), a s hoje cumprir este dever.

Fui vr a exposio sete vezes, e de cada vez que l ia, novos encantos
encontrava nos trabalhos expostos, pois a tentativa do Instituto teve o
resultado mais brilhante que podia desejar-se.

Concorreram a este certamen desde os nossos melhores artistas at aos
mais modestos amadores, e na generalidade todos se apresentaram
dignamente, no obstante um _critico d'arte_ ter dito, em um semanario
d'esta cidade, que aquelles trabalhos eram meras _chromolythographias_.
Uma duvida me assalta o espirito relativamente aos conhecimentos
artisticos e criterio de tal critico. Saber elle o que so
chromolythographias? Mas, deixemos a cada um o seu modo particular de
vr... e de apreciar, e vamos ao que importa... Demais, a lua est to
alta?...

[Figura: Jos Malhoa]

Vi, como disse, varias vezes os cento e dezesete quadros expostos, os
dous bustos e o medalho em marmore.

Dos trabalhos de esculptura direi apenas que os dous primeiros so obra
de Fernandes de S, pensionista do Estado, que em Paris completa a
educao artistica do seu muito talento. A cabecita de creana, em
marmore,  um encanto, aquella boquita admiravel de bb pedia milhares
de beijos...

[Figura: Jos de Brito]

O medalho de Joaquim Gonalves  uma bella copia de um primoroso
trabalho do grande mestre Soares dos Reis.

Agora, emquanto a quadros, ponho em primeiro logar, da a quem doer, os
dous trabalhos de Malhoa, esse admiravel artista da Luz e da Cr. Eram
um assombro os seus quadros.

O _Gozando os rendimentos_, estudado com cuidado e traado largamente,
empolgou-me por completo e fez-me gosar, conjunctamente com o personagem
estudado, toda aquella commodidade natural de bom burguez que procura um
amplo jardim publico para fazer socegadamente o seu chylo. Esta
impresso forte que tive, confesso-o, foi devida talvez ao meu
burguesismo.

[Figura: Que grande calamidade--JOS MALHOA]

No _Que grande calamidade_, as figuras trabalhadas com um rigor de
verdadeiro mestre, so flagrantes na sua dor, ao verem o seu querido
porco, morto na pocilga. Talvez que, se entre as cabeas das figuras e o
rebordo do caixilho houvesse um pouco mais de tela, mais imponentes
ellas ficariam.

E depois d'isto, de ter dito o meu modo de pensar sobre to primorosos
trabalhos, vou, salteando o catalogo, dar a nota dos quadros que mais me
prenderam a atteno.

Marques de Oliveira, como sempre, distinctamente.  inegavelmente um
grande desenhista. As suas _Impresses de Espinho_, so bellas e tanto,
que uma foi adquirida pelo Instituto por indicao do jury competente.
_A Azenha_, um encanto, _Cabea de estudo_, um primor.

[Figura: Chrysantemos--ANTONIO COSTA

Greno, a fulgurantissima artista, bem, admiravelmente. Ento os
_Pensamentos_? Esse, era uma delicia.

Antonio Costa, para mim o unico pintor portuguez de flores, no
desmereceu a sua grande fama e, os _Chrysantemos_ e _Na vindima_,
deram-me a prova evidente da sua muita aptido para este genero de
pintura.

[Figura: Candido da Cunha]

Candido da Cunha, um novo de muito talento, com o seu _Ultimos raios de
sol_, que j conheciamos e que foi adquirido tambem pelo Instituto, com
os seus--_Mar calmo_, _Martyr_ e _Barcos de pesca_, merecem hoje, como
sempre, os nossos elogios.

Julio Ramos, outro novo, paisagista apaixonado e distincto, dando s
suas paisagens um tom de verdade admiravel. O _Macieiras em flor_, em
especial e as outras dezeseis telas, lindas a valer.

Jos de Brito, um mestre, talvez abusando um pouco das cores finas;
todos os seus quadros so bons, mas para mim superior a todos  o
_Mulher do novello_, estudo admiravelmente feito de uma velha repelenta,
flagrantissima de verdade na expresso do rosto. Na _Infancia de Diana_,
bello estudo do n, alguma coisa me desagradou  vista, especialmente um
co que se via nos ultimos planos...

Joo Augusto Ribeiro, bem nos seus pequeninos quadros _Retalhos_, _Lar_.

[Figura: Joo Augusto Ribeiro]

D. Lucilia Aranha, uma verdadeira artista, cheia de talento e de fora
de vontade, mais uma vez affirmou, com os treze quadros expostos, as
suas aptides artisticas.

Torquato Pinheiro veio marcar n'esta exposio o seu logar definido e
assente ao lado dos bons artistas. _Um caminho encharcado_, _Manh
d'Abril_, _Margens do Lea_, e todos os demais so feitos com alma de
verdadeiro artista. Mas, a destacar, como primor de execuo, o _Retrato
de minha Me_, que  um trabalho notavel.

[Figura: Retrato de minha me--TORQUATO PINHEIRO]

D'entre os amadores, extremarei D. Leopoldina Pinto, com as suas flores,
especialmente o _Pelargonios_, que senti no tivesse preo para ser
adquirido.

Mais artistas e amadores concorreram a este delicado certamen, mas, no
me demorarei na enumerao dos seus trabalhos, porque isso iria ainda
muito longe e os meus leitores, decerto, se at aqui chegaram, j
bastante se tem aborrecido da semsaboria d'esta minha despretenciosa
prosa, que do modo algum aspira ao nome de critica.




II

PINTORES PORTUENSES

JULIO COSTA


Convidado a delinear um artigo sobre o pintor portuense Julio Costa,
pensei primeiro esquivar-me a tal empreza porque me julgo
insignificantemente pequeno para fallar d'este artista. Mas, antepondo a
esse primeiro impulso a amizade que lhe dedico, resolvi acceitar o
encargo, e, tal como posso, desempenhar esta misso.

[Figura: Julio Costa]

Ser um artigo despretencioso, sem preoccupao do estylo ou requinte de
forma, um artigo modesto como eu e como o temperamento do pintor
illustre de quem me vou occupar.

No conheo escolas, no discuto artistas, no cito nomes estrangeiros,
nem rebusco particularidades de _metier_.

Quando me occupo da pintura e de pintores nacionaes digo simplesmente,
indiscretamente, a impresso que os quadros me deixam. Nada mais. E
hoje, ao traar estas linhas a respeito de Julio Costa, no venho,
acreditem, fazer a apreciao, pretenciosa ou sabia, da obra d'esse
pintor; venho simplesmente deixar-lhe, sob o seu nome j aureolado pela
critica consciente, o laurel amigo da minha admirao.

E posto este preambulo, ahi vae o que me parece dever dizer do Julio
Costa.

       *       *       *       *       *

Portuguez de nascimento e condio, alma que se espande na mais suave de
todas as alegrias--a familia--Julio Costa vem, de ha tempos para c,
vivendo quasi exclusivamente para os seus parentes, para os seus
discipulos e para os seus trabalhos.

 um d'estes homens com quem, mesmo sem fallar, se sympathisa logo 
primeira vista.

 lhano de trato, affavel, de maneiras delicadas, cavaqueador emerito,
tendo sempre um dito alegre para retorquir a um remoque que se lhe
atire. Nunca deixa de chalacear, a no ser quando tem algum dos seus
doente. Ento, sim, ento abate-se todo na dr d'aquelle que soffre e
deixa-se levar n'essa corrente de magua que o subjuga brutalmente.

 uma luminosa alma dada ao bem e a tudo quanto  bom, e d'ahi a unco
deliciosa e meiga com que elle concebe os seus quadros de genero.

[Figura: Conselheiro Joo Franco--JULIO COSTA]

Hoje, posto em foco, pelo brilhantismo dos seus ultimos trabalhos, deve
orgulhar-se de ser um dos pintores preferidos nas commemoraes aos
homens notaveis do nosso paiz.

O retrato  inegavelmente o genero que Julio Costa mais accentuadamente
trata e que mais em evidencia o tem collocado.

O retrato de El-Rei pintado para o salo do Tribunal da Relao, os
retratos de Oliveira Martins, Dr. Ricardo Jorge, Joo Ramos, Dr. Eduardo
Pimenta, Conselheiro Campos Henques, Conselheiro Joo Franco, e muitos
outros, so affirmaes publicas do que digo.

O primeiro,  largo de ideia, magestatico de pose, tocado de iriadas
cres, pois assim o pedia o grande do personagem. Collocado no amplo
salo do Tribunal toma um aspecto soberbo, que nos infunde respeito.

O segundo, em que a figura de Oliveira Martins, essa imagem de santo e
de philosopho, se nos apresenta sentada em larga cadeira de espaldar, em
posio natural de quem entretem uma conversa, ao contemplal-o, como que
se escuta a sua voz de mestre, que discreteia sabiamente sobre os
intrincados problemas economicos do nosso paiz, ou sobre os notaveis
factos da nossa historia.

[Figura: Oliveira Martins--JULIO COSTA]

E todos os outros, todos, so verdadeiras obras primas.

No esquecerei fallar do seu ultimo trabalho, do retrato do Conselheiro
Joo Franco, o homem forte e duro que emprehendeu, n'um arranco de
verdadeiro portuguez, remodelar, n'um molde novo e n'uma nova
orientao, a marcha dos negocios publicos.

D'esse retrato j eu disse, quando tive occasio de o ver pela primeira
vez, o seguinte:

 grande, na magestade da sua tela ricamente emmoldurada, o retrato do
snr. Conselheiro Joo Franco.

Absorve por completo a nossa atteno. Est executado n'um
correctissimo desenho, tocado d'uma distincta tonalidade de cres, n'um
flagrante de pose e de semelhana. Ao retrato do Conselheiro Joo Franco
s lhe falta fallar para ser o proprio.

Quanto mais o contemplamos, mais correcto e mais perfeito achamos este
trabalho. A figura parece que se destaca da tela, tal  a perspectiva
que Julio Costa lhe deu; s vezes como que a vemos mexer-se. Depois, ha
um no sei que de vida, que nos faz imaginar que os olhos se movem, que
os labios se vo descerrar para fallar.

E as roupas, que delicada feitura, que _nuances_ de verdade! Na facha
que ella ostenta, vermelha, ha reflexos de _moir_.

O retrato em questo no  simplesmente um retrato;  mais do que
isso:-- um quadro.

       *       *       *       *       *


Todos estes seus trabalhos nos encantam e deslumbram, porque Julio Costa
sabe apanhar tudo quanto v em volta de si. Sabe ver, que  o essencial.
D'ahi o colher a expresso da Impresso. Mas a Impresso escolhida, no
da natureza selvagem, mas sim da natureza civilizada e culta.

Julio Costa  um civilizado!  um delicado!  um _raffin_ (desculpem o
francez).

E  esse effeito de _raffinerie_ e essa predileco pela impresso
escolhida que elle transporta aos seus retratos.

Elle conhece bem o indefinivel e delicado interesse que se desprende das
linhas d'um rosto.

Elle sabe que nada  to impressionante, para ns que contemplamos os
quadros, como essas figuras immoveis e mortas... mas que esto vivas!...

E os seus retratados vivem nos seus retratos.

Em uma palavra, Julio Costa no pinta _um retrato_ do seu modelo...
pinta _o retrato_.

Cada uma das nossas sensaes, das nossas emoes, dos nossos
sentimentos, cada um dos nossos desejos, das nossas esperanas, dos
nossos pensamentos secretos altera constantemente a nossa physionomia.

A cada minuto, a cada segundo, qualquer de ns se transforma, e deixamos
de ser ento semelhantes a ns mesmos. Mas, Julio Costa sabe discernir
n'essas fugitivas transformaes aquelle _momento_, que  sempre da
nossa figura, sabe fixar na mobilidade imperceptivel das linhas d'uma
physionomia o seu aspecto caracteristico. Sabe reunir n'um gesto a
multiplicidade das nossas attitudes.

E  por isso que Julio Costa, ao pintar o retrato, tem uma grande
preponderancia sobre outros artistas.

Demais a mais elle possue o que falta a muitos outros, uma bella
correco no desenho.

Que o desenho no  s como muita gente pensa o esqueleto da pintura.

No, o desenho  uma parte integral d'ella, o desenho  a propria
pintura.

J um celebre pintor francez, cujo nome no recordo agora, dizia dos
seus desenhos--_A cr dos meus desenhos_... como se o desenho no fora
unicamente uma apresentao do claro escuro.

Mas  que a pintura sem um bom desenho, onde se definam os tons e meios
tons, onde se delineem as distancias e as perspectivas, seria uma coisa
chata, sem vida, sem relevo.

O Soler architecto, esse bello rapaz cheio de talento que a Morte
avidamente nos levou ha um bom par d'annos, dizia-me uma tarde em que me
fazia uma preleco sobre as vantagens do desenho:--Olhe, se voc
quizer um bom quadro desenhe-o primeiro em todas as suas minudencias,
com todos os seus effeitos de perspectiva, com todos os seus
claro-escuros e, depois, a esmo, cubra isso com as tintas d'uma paleta e
ter um bom quadro. Olhe que n'isto de pintura o desenho  tudo.

E de facto assim : para se poder pintar bem o que  preciso primeiro 
saber desenhar. E Julio Costa sabe desenhar. D'ahi o elle dar aos seus
trabalhos uma coreco distincta.

Mas, Julio Costa no  s notavel no retrato. Julio Costa -o tambem em
outros generos de pintura. No assumpto religioso deu este artista provas
indiscutiveis das suas aptides.

O _Calvario_, que elle pintou para a egreja do Bomfim,  o melhor
attestado do seu _savoir faire_. D'essa obra prima, que veiu abrir uma
polemica entre um critico da _Palavra_ e o conego Alves Mendes, dizia
este ultimo no seu opusculo--_A crucificao de Jesus:--Outros quadros
de egual natureza adoecem de monotonia e languidez. Este no.  tal a
firmeza do desenho, tal a riqueza das tintas, tal e tanta a genial
inspirao artistica, que a gente admira irresistivelmente e applaude
enthusiasticamente esta magistral pintura de Julio Costa_.

[Figura: O Calvario--JULIO COSTA]

Que melhor e mais auctorisada opinio que a d'este _pintor_ da orao,
este artista genial da palavra, que desenha com o seu verbo inexgotavel
os mais fulgurantes e mais flagrantes quadros? Como consagrao a um
artista no as tenho visto melhores nem mais perfeitas.

Quando Julio Costa se entretem a fazer o quadro de genero, tambem,
n'esses momentos, no deixa o seu nome em m posio. Ahi, como nos
outros trabalhos, elle sabe dar aos seus typos e aos seus assumptos o
quer que seja de suggestivo, de impressionante.

No  cousa simples enumerar a sua obra, porque ella no  uma
insignificancia.

No entretanto, como  do meu desejo levar o mais longe possivel a
resenha dos seus trabalhos, ahi vae o titulo d'alguns d'elles, que mais
se notabilisaram nas exposies onde teem apparecido.

[Figura: A Ti Anna--JULIO COSTA]

Em primeiro logar colloco eu o _No Vago_, uma pastoral de cr, como lhe
chamou Oliveira Alvarenga. Era uma larga tela que resumia um delicado
poema d'amor. Em plena primavera, sob a luz do lindo sol, uma mooila
trigueira e forte, de seios proeminentes, encostada a um pedao de
terreno alto e florido, sonha n'um vago presentimento triste. Ia para os
trabalhos do campo, levava a sua foice, o seu cesto vindimeiro, o seu
chapeu de palha; marcra ao namorado uma entrevista, na esperana d'um
doce idyllio, mas o tempo passa, o namorado no vem, e ella, na
sobrexcitao do seu amor e do seu ciume, vae desfolhando malmequeres
que ora lhe dizem _sim_, ora lhe dizem _no_, e, por ultimo, como que
adormece n'uma febre d'amor, olhos semi-cerrados, com o pensamento
esvoaando no _vago_... Eis o quadro, que figura l fora, em Berlim,
para onde foi vendido.

No esquecerei a _Romeira_, uma fresca rapariga que, em descantes
alegres, parte para a romaria.

E uma _Cabea de estudo_, que appareceu na exposio de Arte de 1894,
uma linda cabea de rapariga de olhos vivos, labios de coral e com o seu
leno de xadrez multicor, que  um encanto!

O _retrato do Quinsinho Souto Mayor_,  um estudo de creana finamente
trabalhado com o seu vestidinho de velludo, onde assenta uma romeira de
renda, to bellamente pintada, que dava a perfeita illuso de que eram
rendas que alli estavam collocadas sobre a tela.

O _Vencido_, que  um bom trabalho tambem, consiste em um rapazito que,
aps uma refrega com outros, sae com um brao deslocado; que suavidade
de cr, que tristeza nos olhos humidos!

O _retrato da Ti Anna_, essa velhita encarquilhada que, no fundo do seu
casebre, junto da lareira, vai fiando a loira estriga a pensar no tempo
lindo que passou, quando era rapariga e cantava ao desafio nas
esfolhadas e nas espadeladas,  soberbo. Hoje, a pobre velha canta as
tristes canes com que embala os netos, e fia o linho com que veste os
filhos, que outras, que so novas, vo espadelando a rir e a cantar. E
tudo isto se traduz n'aquelle quadro, e todo este romance se v alli
representado n'uma sentida impresso e n'uma ideal concepo.

O _Costume dos arredores do Porto_,  tambem um lindo quadro--uma
cabecita de rapariga do campo cheia de vida e de frescura.

E a _Mimalha_ e a _Varanda dos Mangericos_ e mil outros trabalhos
d'elle?...

Ah! mas vae muito longo este artigo e o leitor no tem obrigao nenhuma
de estar infinitamente a ler-me; por isso, ponto.

Julio Costa  para mim um pintor que sabe muito da sua arte, digam l o
que disserem, e se, dentro da sua modestia, no gostar do que eu agora
digo d'elle que me perdoe porque eu s sei dizer o que penso, e isso
muito rudemente ainda.




III

PINTORES PORTUENSES

ANTONIO CARNEIRO JUNIOR


Conhecendo Carneiro Junior ha muito, por ter tido j occasio de
apreciar os seus trabalhos em outras exposies, corri, apressadamente,
incumbido por a redaco da _Vida Moderna_, a vr a nova exposio dos
seus ultimos trabalhos, com o grande interesse de conhecer o progresso e
o desenvolvimento artistico d'este bello cultor da arte da pintura.

[Figura: Antonio Carneiro Junior]

E, francamente o confesso, as minhas espectativas confirmaram-se.
Carneiro Junior, que era um dos novos que mais promettia, obteve, com o
seu estudo no estrangeiro, a verdadeira comprehenso da arte de pintar,
affirmando-o desde j com os magnificos trabalhos expostos no atrio da
Misericordia.

Pintando em todos os generos, como elle mais se avigora, e mais
demonstra o seu talento , a meu vr, como pintor de figuras.

A paisagem e a marinha no so o genero que mais o tentam, o que no
quer dizer que no tenha paisagens adoraveis e marinhas deliciosas.

 preciso porm notar-se que, quem escreve estas linhas,  um mero
amador que vem simples e unicamente dar a resenha dos quadros expostos e
a sua impresso pessoal, dizendo simplesmente gosto ou no gosto, sem me
prender nunca em consideraes sabias sobre o modo de pintar de cada um.
No citarei escolas hollandezas, flamengas, etc., etc. com ares sabios
de critico emerito.

E no o farei, porque entendo que para se escreverem artigos
substanciosos e chorudos sobre tal assumpto  necessario, antes de mais
nada, ter visto alguma coisa d'essas escolas e d'essa pintura,
acompanhado isso da leitura de livros da especialidade.

E, vulgarmente, no succede assim. Muitos dos nossos criticos conhecem
esses quadros e essas escolas porque algum amigo, vindo l de fra, lhes
trouxe, como recordao, catalogos dos muzeus que viu por l, e  por
ahi que elles fazem, a maior parte das vezes, critica. Ora eu, como
nunca vi muzeus, nem tenho lido livros sobre pintura, no fao critica,
fao a minha reportagem, deixem-me assim dizer. E posto isto, l vae a
impresso pessoal que me ficou d'alguns dos trabalhos de Carneiro
Junior. E elle que me perde se no gostar.

Em primeiro logar, se bem que no sejam estes os principaes trabalhos,
ponho eu os desenhos a sanguinea---que figuram no catalogo com os
n.^{os} 27 e 28, _Figuras para a fonte do Bem_; 10, _Estudo para o
quadro do Amor_; 6, _Estudo para a figura Esperana_; 25, _Estudo de
creana para a fonte do Bem_.

[Figura: Retrato--ANTONIO CARNEIRO]

Os retratos do _Marcos Guedes_, n.^o 43; do _dr. Alfredo de Magalhes_,
34; do _Antonio Patricio_ (filho), 32; de _J. Teixeira Lopes_, 36; do
_Claudio_, 40; e os dous retratos de _R. C_., 37 e 38, so magnificos.

Em todos elles ha um tom de vida e muito de alma, especialmente nos dois
ultimos, em que o artista pe todo o seu sentimento de amor.

O quadro _Tarde no mar_, n.^o 56,  delicioso; como que se sente, ao
olhal-o, aquella cadencia ou melopeia que o grande mar sabe cantar
quando suavemente beija a areia fina da praia.

_Campo de trigo_, n.^o 77; em _Auvay_, impresso de frente, 89;
impresso, (_Bretanha_), 71; em _Lea_, impresso, 68; o _Tamega_,
(Amarante), 67; o _Sena em Auteil_, 62; _Pinheiros ao cahir da tarde_,
57; ...so, para mim, sentidissimas paisagens onde a nossa vista se
perde e o nosso espirito se embrenha como em paginas brilhantes da
_Viagem da minha terra_, de Garrett.

Ha alli tambem um quadro, _Leitura_, de que muito gostei. N'um interior
de casa escura,  luz de um candieiro, tres mulheres, uma das quaes l.
 admiravel no s de execuo, como de composio.

O esboo do quadro _Fonte do Bem_  apreciavel e bem desejariamos vr o
quadro definitivo.

E, antes de terminar, deixe-me Carneiro Junior dizer-lhe que o seu
triptyco, , para o meu fraco entender, um d'estes geniaes poemas que s
os grandes artistas sabem conceber. Emquanto  sua execuo acho-a
primorosa. _A Esperana_, deliciosa virgem estudada e delineada com toda
a pujana d'um bello espirito;--_O Amor_--assombroso de execuo; ha
n'aquelle cavalleiro todo em ao vestido, a virilidade d'um cavalleiro
andante; _A Chimera_, fundamente abstracta, na sua cr doentia e na sua
expresso de verdadeira Fatalidade olha o quer que seja de horrivel,
guiando o fogosissimo cavallo em que monta o cavalleiro;--_Saudade_--na
base d'uma sphinge sonha uma mulher, toda de negro vestida. Quanta
doura n'aquella expresso de tristeza! Como o pintor soube dar quella
delicada mulher a nota melancolica do que  na realidade a saudade! Este
quadro seria bastante, para definir o grande talento do artista e o seu
temperamento subtil de poeta.

Que o artista me perdoe se no disse tanto quanto merecia a sua obra e
acceite o parabem sincero de quem s diz o que sente.


  Maro 1901.





IV

Thadeu Maria d'Almeida Furtado

                PALAVRAS DITAS  BEIRA DA CAMPA DO FALLECIDO PROFESSOR


No , o que vou dizer, uma biographia, nem um necrologio; representam
simplesmente estas despretenciosas palavras como que um punhado de
saudades espersas sobre a campa, ainda mal fechada, do illustre morto.

Conhecendo-o desde ha muito, tive sempre por elle uma d'essas veneraes
respeitosas de considerao e amisade, que se tem por aquelles que vivem
sempre de cabea levantada e aos quaes no podem attingir nunca as
settas envenenadas da m vontade e da calumnia. E  por isso que hoje
no posso deixar de vir dizer aqui algumas palavras a respeito de quem,
sempre se fez querido de todos quantos, uma vez s que fosse, d'elle se
aproximaram.

[Figura: Thadeu Maria d'Almeida Furtado]

Thadeu Furtado foi um dos mais antigos professores de desenho do Porto e
dos de mais nomeada; cumpridor dos seus deveres, como poucos, recto nas
suas apreciaes, como ninguem, quantas vezes fez elle rebentar essas
bolhas de balofa vaidade, com que muitos mediocres se julgavam
notabilidades, e a quem o publico inculto tecia os mais rasgados
elogios; mas, sincero como era, nunca se pejava de dizer as verdades por
mais duras que ellas fossem.

Trabalhador incanavel, at ao ultimo dia, em que um desastroso
acontecimento o impossibilitou, foi regularmente occupar o seu logar na
Academia, onde hoje era secretario e onde em outros tempos fra
professor sapiente.

E inegavelmente  a este trabalhador indefeso, a este morto illustre,
que se devem os melhoramentos ultimamente feitos n'aquella casa de
ensino artistico.

Quantas e quantas vezes, reclamados esses melhoramentos ao governo,
foram elles lanados no rol dos esquecimentos, rol lendario, onde so
archivadas todas as cousas uteis do nosso querido Portugal. Mas, Thadeu
Furtado, com a sua vontade de ferro, ao saber no Porto o conselheiro
Elvino de Brito, ento Ministro das Obras Publicas e antigo discipulo da
Academia das Bellas Artes do Porto, a elle foi e depois de lhe mostrar,
provando de _visu_ a necessidade urgente d'aquelles melhoramentos,
conseguiu o que at ali ninguem tinha conseguido. E  portanto a este
querido morto que se deve o ser hoje a Academia de Bellas Artes, seno
um modelo de escolas para o seu genero, pelo menos um estabelecimento
que no nos envergonhar quando mostrado a estrangeiros profissionaes.

E, doa a quem doer esta minha affirmao, mas Thadeu Furtado vae fazer
muita falta  nossa Academia.

Como professor foi sempre correctissimo, muito sabido no seu _mtier_, e
a prova d'isso est, em que, todos os nossos grandes pintores de ha
sessenta annos para c, foram todos seus discipulos e todos teem
manifestado esta mesma opinio.

No fui seu discipulo, mas fui seu amigo e  unicamente como tal que
venho aqui depr tambem a minha eterna saudade, que  to grande, como
foi a minha considerao e a minha amisade.

E, para terminar esta minha sincera e triste despedida, consenti, meus
senhores, que vos manifeste tambem aqui um grande desejo:--Como todos
bem o deveis comprehender, uma divida tem a Academia a pagar ao seu
respeitavel professor e ao seu incanavel secretario; e essa divida s
poder ser paga perpetuando-lhe a memoria com um monumento digno d'elle.
Grato me seria, portanto, saber que os alumnos da Academia de Bellas
Artes, reunidos aos professores, lanaram mo da ideia de que seja
collocado o busto de Thadeu Furtado nos claustros da mesma Academia.

E, para realisar tal ideia, no tero mais do que fazer fundir em bronze
um busto, que a familia do fallecido possue, feito, salvo erro, pelo
brilhante estatuario Teixeira Lopes. E assim, como preito de homenagem
ao professor morto, ficar ligado ao seu nome o nome d'um professor vivo
que  inegavelmente a primeira gloria da esculptura portugueza.--Disse.


  12 Maro 1901.


[Figura: Leno em rendas--D. MARIA AUGUSTA BORDALLO PINHEIRO]




V

PINTORES PORTUENSES

ARTHUR LOUREIRO


Arthur Loureiro, esse grande artista que durante tantos annos viveu
longe de ns, n'esse bello paiz, a Australia, e que uma vez c, filho do
Porto, amando o seu ninho com um amor especial de artista, apoz a sua
primeira exposio onde nos mostrou que era um delicado pintor de
figura, com os seus retratos, e os seus typos admiravelmente executados,
vae para bem perto do Porto, para Villa do Conde e cheio de vontade e
repleto de _savoir faire_, lana  tela lindos quadros que so como
filigranas da arte pintural.

[Figura: Arthur Loureiro no seu atelier]

Antes porm de atacar o assumpto que nos obriga a tomar da penna e
rabiscar estas linhas permittam-se-nos algumas phrases ligeiras de
introito.

Ao entrarmos no atelier de Arthur Loureiro, decorado com uma distincta
simplicidade, tem-se a suave impresso que o artista que ali trabalha 
um bom e um delicado. Confortavel e amigo, aquelle atelier sem preteno
a luxo, todo elle resuma elegancia e bom gosto. Sem estofos custosos,
meros cobrejes de farrapos, em tons escuros, biombos simples de couro
lizo, moveis de linhas correctas desenhados por o proprio artista e
executados sob a sua direco,  d'um effeito soberbo! O indifferente,
que ao acaso ali v, tem com certeza a impresso de que entrou na casa
d'um amigo.

[Figura: Barra, Foz-Douro--ARTHUR LOUREIRO]

D'entre os moveis, que guarnecem o atelier, destaca-se um largo
divan-estante com as costas pintadas a sepia, que nos d a impresso de
uma pirogravura.

Mas no vamos occupar-nos do atelier, vamos unica e exclusivamente fazer
uma resenha despretenciosa e sincera dos quadros expostos e do effeito
que nos deu a visita  exposio aberta agora ao publico.

Arthur Loureiro no  somente um pintor.  mais do que isso,  um
esculptor consummado. O caixilho para espelho, o do quadro
_Convalescente_, e um outro onde se ostenta o seu retrato aguarellado
por Columbano, so bellos.

Mas, o que me encanta, o que me fascina,  o frontal para uma arca, onde
se guardar o enxoval d'um filho querido. Este frontal, desenhado e
executado por Arthur Loureiro,  como que uma symphonia d'amor, sob o
thema sublime do martyrio da maternidade.

[Figura: Frontal d'uma arca (esculptura)--ARTHUR LOUREIRO]

Sem minudencias de descripo, sempre diremos que a bordadura que cerca
a figura da me tendo no regao o filhito querido,  feita com flores de
martyrios em todas as suas evolues, desde o pequenino boto at  flor
completamente aberta e em todo o seu frescor. Flores, folhagem e figuras
soberbamente executadas.

E agora, posto isto, entremos pela pintura dentro.

No somos do _mtier_, nem aspiramos a critico de arte; mero amador,
vendo talvez um pouco bem, sentindo a dentro da alma qualquer coisa de
meigo, por uma paisagem triste, e qualquer coisa de vibrante em frente
d'um retalho da natureza, que o sol banha luxuriantemente.

Amando os quadros pela poesia que infundem, subjugado pela impresso,
que nos deixa qualquer cousa que nos agrada.

Eis o modo como vemos as obras d'arte, quer ellas sejam d'um novo, quer
ellas sejam d'um mestre. E por isso a despreoccupao do meu modo de
escrever. Pondo em evidencia s vezes quadros d'um valor mediocre e
deixando no escuro verdadeiras obras de arte. Que nos perdoem os
artistas essas faltas e vamos  exposio de Arthur Loureiro que foi o
que aqui nos trouxe.

Fallarei d'esses quadros pintados em Villa do Conde, antes porm deve
ter especial meno o largo quadro da nossa barra, pintado n'um pr de
sol irisado, cheio de poesia, com tons d'ouro que se reflectem na agua
superiormente.  um quadro este, de si bastante notavel para definir o
artista.

E agora, que puz em evidencia o quadro que para mim se affigura mais
notavel, vou dizer da minha impresso dos outros quadros expostos.

Um grande ramo de lilaz, que parece espalhar no ambiente o seu perfume
doce e meigo, est feito com tanta frescura e tal graa, que nos tenta a
cortar um pequenino ramo para a nossa botoeira.

As bellas rosas escuras, d'um avelludado meigo e fino, como que tentam
na sua confeco a uma offerta gentil para a nossa namorada.

[Figura: O Passado--ARTHUR LOUREIRO]

So pedaos vivos de natureza, lanados  tela, com proficiencia e
carinho.

Um cosito _mops_ com o seu focinho birrento e negro e o seu pello
amarellado d-nos, a mim pelo menos (que eu sou doido por ces), vontade
de o ameigar, de o chamar carinhosamente e roubal-o ao artista.
Collocado  entrada, talvez por acaso,  como que um fiel guarda
d'aquelle encanto de atelier. Este quadro est feito com cuidado, o que
me d a entender, que o artista segue a theoria d'um escriptor celebre
que dizia:

--Quanto mais conheo os homens, mais amigo sou dos ces.

Andam os nossos pintores delineando paisagens, por esse paiz em fra e
nenhum, que me lembre, tinha ido pintar para Villa do Conde. Talvez
porque julgassem no haver alli nada que pintar e Arthur Loureiro, que
ha vinte annos estava fra do seu paiz, chegou e para socegar dos seus
trabalhos escolares foi para essa linda praia descanar e que descano o
seu, voltou trazendo na sua bagagem deliciosas telas, formosissimas.
Querer citar as melhores seria cital-as todas, eu porm notarei como
primordial--_A Senhora da Guia_--depois, as _Azenhas_ e d'estas no sei
se o que resplende de sol, se o outro, feito por uma manh triste de
chuva.

[Figura: No voltar mais--ARTHUR LOUREIRO]

A _Igreja matriz_, tambem o noto pelo bello do effeito. Como uma mancha
retumbante, n'aquella suavidade de cr, os reposteiros da igreja fazem
resaltar o quadro (ora aqui est onde eu decerto dou raia, em ter
recebido uma bella impresso pelo vermelho que destaca do quadro, mas
sou assim e no ha nada que me atrapalhe).

A _Paisagem geral de Villa do Conde_, com o seu convento e a sua cazaria
branca  formosa.

_O Passado_, quadro cheio de poesia e de candura. Como um poema, de
amor, de dr e de miseria aquella velha sentada  porta da igreja, onde
talvez ella se baptisara, casra e seria enterrado o seu companheiro de
muitos annos, talvez um pescador, que ella hoje chora, pedindo esmola,
na sua miseravel e angustiosa viuvez.

Mas vamos fechar este artigo que vae j longo de mais. Antes porm
notaremos dous quadros, um que se intitula--_No voltar mais_, e que 
outro poema de dr. Junto d'uma bella arvore em flor, um redondendro,
uma viuva e uma creana olham o mar.

Esse mar gigantesco e barbaro que foi, decerto, quem subjugou para
sempre o ente querido d'essas duas figuras insinuantemente bellas nas
suas _silhouetes_.

_O Convalescente_  um retrato primoroso do nosso amigo dr. Francisco
Loureiro, irmo do distincto artista.

 um trabalho feito com muito amor e muito saber. Flagrante de verdade e
correctissimo de desenho.  um bello retrato.

Que me perdoe o artista esta prosa desenchabida e vulgar, mas, mais no
pde dar a minha pena. No entanto ha-de ver o publico que eu no quiz
fazer o rclame do pintor nem a apologia do homem, fiz unica e
exclusivamente a resenha rapida e sincera do trabalho correcto d'um
poeta lyrico da pintura que entre ns vem, se no, fazer uma revoluo
na arte, dar no entanto a nota brilhante, do que deve ser o paisagista
portuguez; pintar a nossa paisagem, sem tons exoticos de cr trazidos
dos paizes estrangeiros. Porque Portugal com o seu ceu e os seus verdes
no pde ser pintado com as cores das paisagens brets.

E mais nada.


  Outubro 1902.


[Figura: Na Eira--LUCILIA ARANHA]




VI

ESCULPTORES PORTUENSES

FERNANDES DE S


Uma das manifestaes mais vivas da arte  a esculptura. Esculpir em
marmore ou em bronze a figura de um individuo, , como que, deixal-o por
toda a vastido dos seculos  admirao, ao respeito ou  saudade dos
seus concidados ou dos seus amigos.  a nota constantemente vibrante de
uma individualidade. Mais duradoura do que a pintura,  ella que,
arrostando nos logares publicos com a intemperie dos tempos, mostra aos
que passam um capitulo da historia dos povos, um acto de alta
philantropia, ou a saudosa recordao d'um ente querido que a morte nos
roubou.

E no  s isso; empolgando o nosso espirito, d a concepo perfeita
d'uma ideia genial que o artista quiz vivificar, dando  dura e informe
pedra ou ao frio bronze a pulsatibilidade da natureza viva.

[Figura: Fernandes de S]

A esculptura, na sua larga e educativa esphera, desde o poema grandioso
da patria, nos heroes que faz reviver, at aos santos, que a religio
faz venerar nos altares, com a larga escala de mil variadas
manifestaes,  uma das mais difficeis, se no a mais difficil de todas
as manifestaes artisticas.

E d'ahi o insignificante quociente de esculptores, em relao aos
pintores.

E, todo este preambulo para vos dizer, que visitei hontem a exposio de
esculptura, que o notavel estatuario Fernandes de S abriu no seu
gracioso _atelier_ da rua de Alvares Cabral, d'esta cidade.

Este moo esculptor, cujo nome no  j uma esperana, mas sim uma
affirmao segura, d-nos, com a exposio dos seus trabalhos feitos
aqui e em Paris, a demonstrao mais definida e assente, de que  um
d'aquelles artistas que mais futuro teem, dentro da sua especialidade.

[Figura: Desafio--FERNANDES de S]

No o queremos collocar a par do grande, do genial Soares dos Reis, mas
pomol-o aproximadamente no mesmo plano de Teixeira Lopes; depois, elle 
novo e tem uma vontade de ferro; ora estes dois bellos elementos, a
mocidade e a energia, juntos ao seu grande talento e ao seu muito saber,
do-nos a garantia de que elle ha de fulgurar, como um astro de primeira
grandeza, na sublime arte de Milo.

Fernandes de S, a continuar assim, no ha-de ser notavel s entre ns,
ha-de sel-o tambem l fra, no estrangeiro. E bom ser que assim
succeda, para que no mundo civilisado se faa a verdadeira justia aos
nossos artistas e se no pense que isto aqui  uma terra de selvagens.

Mas, deixemos estas divagaes e entremos no assumpto que me proponho
expr: Notar as obras que Fernandes de S expe, e isto ao de leve, como
quem quer e no pde, por falta de elementos, embrenhar-se em
philosophicos problemas d'arte.

Dezoito so os trabalhos expostos, qual d'elles o mais empolgante, qual
o mais bem executado.

[Figura: Cames (estatua em marmore de Carrara)--FERNANDES de S]

Desde o largo trabalho--_Cames_--at  pequenina cabecita da
galante--_Bb_--todos elles so soberbos e dignos de especial meno.

_Cames_, estatua em marmore de Carrara, destinada ao Museu de
Artilheria de Lisboa. Aps o naufragio, o grande epico portuguez salva,
n'um heroico esforo, a sua espada e o seu poema--eis o assumpto
representado por esta bella estatua. N'uma attitude de desesperada
ancia, o corpo fidalgo de Cames, sobre uma rocha, a mo direita
crispada agarrando-se a uma saliencia da penedia, na esquerda a espada e
o poema sobre o corao, parece escorregar, resvalando na voragem da
onda, que n'um desespero revoltoso se quebra de encontro quella molle
de marmore. Sublime de concepo. Na figura elegante e adelgaada de
Cames ha linhas d'uma senhoril fidalguia.

Tratado aquelle marmore com o encanto e o amor d'um verdadeiro
portuguez, o esculptor no perdeu uma minudencia, por mais pequena que
fosse. Tudo estudado com perfeita segurana, com verdadeira mestria,
desde a musculatura reteza e vigorosa d'um desesperado em lucta com o
mar, at ao desalinho da roupagem, tudo elle viu, tudo elle estudou
conscienciosamente. E, fugindo da vulgaridade das concepes sobre este
thema, Fernandes de S realisou--segundo o nosso modo de vr--uma obra
genial.

_Rapto de Ganimedes_,  um grupo em gesso, que vs j conheceis de
quando esteve ahi exposto na Exposio da Sociedade de Bellas-Artes,
onde mereceu a segunda medalha, tendo j adquirido a terceira medalha na
exposio de Paris de 1900.

_Beijo Materno_, (grupo em gesso). Verdadeiro poema de amor maternal.
Uma linda mulher, deliciosamente esculpida, sustendo no collo um formoso
_bb_, que ella beija n'uma subtil ancia de ternura. Foi este o seu
trabalho final para o concurso de esculptura em Paris, como pensionista
do Estado.  um encanto.

_Vaga_. Este gesso  d'uma bella idealisao. Uma formosa mulher,
completamente nua, de linhas primorosas, pousa sobrenadando nas ondas
revoltas d'um profundo mar e reclina-se docemente, como adormecida ao
marulhar da agua. Ao contemplal-a deu-nos o corao um baque e
confrontando na mente a mnemonica de quadros vistos, lembrmo-nos d'um,
que nos pareceu a reproduco em pintura d'aquelle soberbo trabalho, e
no nosso espirito ficou como que um espinho a esse respeito. Alguem, mal
intencionado, poderia dizer que Jos de Brito tinha ido alli beber a sua
inspirao e o modelo para o seu quadro _A Vaga_. Ns no nos
abalanamos a tanto, nem isso queremos pensar sequer, porque Jos de
Brito  um grande pintor...

[Figura: Beijo materno (grupo em gesso)--FERNANDES de S]

_Dois bustos_, em marmore que so a reproduco exacta das pessoas que
representam.

O _retrato do dr. Correia de Barros_,  um trabalho bem feito, cheio de
verdade e de vida.

Ha tambem uma _Cabea de velha_, que  primorosa.

No _Pobre_ (bronze dourado) e no _Desafio_ (bronze) ha flagrancias de
expresso, detalhes minuciosos de execuo, que revelam o cinzel subtil,
consciencioso e correcto de quem os executou.

Ah! Mas, onde se revela o corao delicado e a alma poetica do moo
esculptor,  no grupo _Irms_. Que soberba obra! Com que carinho, com
que amisade no foi executado aquelle gesso!

V-se que o artista poz alli toda a sua alma de moo e de moo
apaixonado. Aquellas duas raparigas, d'um olhar meigo e terno, que o
estatuario delineava, com certeza emquanto elle trabalhava cobriam-no
com os seus doces olhares n'uma caricia amiga de irms. Alli poz elle
toda a sua alma lyrica, como no _Cames_, poz toda a alma patriotica.

Ha tambem uma _Cabea de velha_ (bronze dourado), muito bem feita.

Notavel tambem um _Estudo em barro_, coberto com _patine_ verde que lhe
d um tom de novidade. O assumpto  uma cabea de mulher do povo, com o
seu leno. Nas linhas de aquelle rosto ha muita verdade, e um tal ar de
languidez, que logo se nota que dentro da alma do modelo havia um certo
qu de pena ou de saudade.

E tudo isto  lindo e tudo isto  bello, no esquecendo fallar nas
cabecitas de creanas que l vimos. Deixei para o fim isto, porque tendo
eu uma predileco especial por creanas, comprazia-me todo em ser
n'ellas que fallasse por ultimo.

So quatro estes trabalhos: _Cabea de creana_, _Bb_, _Beija-flor_,
_Estudo de creana_.

Que encantadores! Com que amor elle no esculpiu no frio marmore
aquellas quatro perolas, aquellas deliciosas creanas, que so mesmo um
primor!

Uma vez, n'uma exposio que Teixeira Lopes fez no pateo da Bolsa, havia
l um _bb_, o retrato d'um sobrinho d'elle, e eu, estando alli s, no
me furtei ao desejo de o beijar e beijei-o, tal era o seu encanto.

Pois quando visitei a exposio de Fernandes de S, se l me visse s,
posso affirmal-o, beijava todas essas creanas n'uma infinita alegria,
porque as julgava vivas. So realmente uns delicados e subtis bustos,
que me deslumbraram.

E eis em meia duzia de linhas a noticia da visita que fiz, por uma linda
manh, ao atelier de Fernandes de S, onde a luz forte do sol, coada
atravez dos brancos transparentes, n'uma doura meiga, fazia resaltar os
marmores esculpidos, como n'uma luminosa penumbra de sonho.

E permitta o moo esculptor, que to gentilmente nos recebeu, e com
tanta modestia nos apresentou os seus gloriosos trabalhos, que lhe
digamos que o seu talento lhe d direito a mais um pouco de orgulho, e
no a querer deixar-se ficar na modestissima sombra dos que pouco valem.
O seu nome e a sua obra, repito, no so uma esperana, no; so uma
affirmao segura de que elle  um dos primeiros estatuarios
portuguezes.


  Outubro 1902.


[Figura: Busto (Antonio Cano)--FERNANDES de S]




VII

Exposio da Sociedade de Bellas-Artes de Lisboa

CARTA A UM REDACTOR DO "CORREIO DA NOITE"


No me conhece, nem isso  necessario, para o que eu lhe quero confiar.
No  um segredo e, portanto, se achar interessante o que lhe vou dizer,
conte-o ao publico, a esse publico despreoccupado, que l as gazetas,
no para se instruir, mas para ver se o seu nome figura no _Carnet
Mondain_, ou se alguma cousa m succedeu aos seus conhecidos para ter o
pretexto de os consolar nas suas amarguras e nas suas desditas.

Conte-lhe o que lhe vou dizer e estou convencido, que isso lhe ser
agradavel, porque eu, com o meu genio desinteressado e independente, dou
abertamente, picadelas em quem as merece, levantando ao ar em apotheoses
de gloria, tambem, aquelles que a ella teem direito, segundo o meu modo
de ver.

[Figura: El-rei]

Sou sincero, apenas; nunca me embrenhei nos escaninhos da politica e,
por isso, no conheo a intriga; nunca calquei os tapetes dos palacios
dos nobres e da aristocracia e, por isso, no conheo a bajulao; no
me tenho accorrentado ao jornalismo militante e, por isso, no conheo
as conveniencias de redaco. Sou, ainda, mais independente do que o
chefe do partido novo, que no quer para seus soldados seno os que
esto isentos do peccado politico. Sou, emfim, como os homens do norte;
duro como um sobreiro, ingenuo como uma creana... de bigode, sincero
como um convicto e delicado como uma dama.

[Figura: Paisagem (pastel)--EL-REI]

E feita a minha apresentao, ahi vae o que eu lhe queria dizer.

Fui, levado por intensa curiosidade, visitar a exposio da sociedade
Nacional de Bellas-Artes e dei o meu tempo por muito bem empregado. E
dei por bem empregadas as tres horas que l passei, porque morro por
coisas d'arte.

A Arte, a grande Arte, cuja definio perfeita, para mim,  um mytho,
atrae-me como uma feiticeira deslumbrante e maravilhosa. Mas a Arte
pinctural e esculptural, essa, extasia-me e no  para extranhar o
vr-me parado em frente d'um bom quadro ou d'uma bella esculptura, tal
qual como em frente d'uma mulher formosa. Mas, deixemos estas divagaes
e entremos no assumpto da minha carta. Demais, que lhe importa a si que
eu goste ou desgoste, se o meu caro nem sequer me conhece de nome.
Antes, porm, de continuar, ou por outra, de comear, desculpe esta
franqueza: as aguas de Lisboa so ms e pozeram-me o figado n'um pessimo
estado, o que deu em resultado eu ter tido um ligeiro extravasamento de
bilis, que pode ser se manifeste, ainda que ao de leve, no decorrer
desta minha despretenciosa carta.

[Figura: Cabea de estudo--ERNESTO CONDEIXA]

Uf!... que comeo a massar, no acha? Mas que quer, eu sou assim, o mal
 dar-me corda, ho-de aturar-me depois. E posto isto, l vae.

Fui vr a exposio e fui sem a preoccupao de critico d'arte, unica e
exclusivamente como amador, como _dilletanti_, e como tal  que escrevo.
Que me perdem os _artistas_, se nada fr, a minha apreciao aos seus
trabalhos, que me tolerem os _criticos de arte_ se a minha incompetente
opinio brigar com as regras do _metier_, e que se ria o _publico_ se
no gostar da minha prosa e o meu caro redactor se entender que a
pimenta  forte, ou o guizado est mal condimentado, j sabe o que tem a
fazer, , cesto dos papeis inuteis com elle.

[Figura: Barbeiro d'Aldeia--JOS MALHOA]

Comearei tal qual como indica o catalogo, apreciando, sob a impresso
perfeitamente pessoal d'um provinciano, os trabalhos expostos, pela sua
ordem numerica.

Primeiro esto os de S. M. Este artista-amador est l to alto que nada
poderei dizer dos seus trabalhos. Unicamente o que me agradou mais foi o
_No Sado--processo Raffaelli_, se bem que j tive occasio de vr
trabalhos de muito maior valor executados pelo mesmo monarcha, que 
inegavelmente um artista de temperamento definido.

E agora sem respeito nem considerao pelos artistas e qui amadores,
que eu no conheo, ahi vae a minha opinio sincera.


                                                        QUADROS A OLEO


D. Bertha Alcantara, n.^{os} 1 a 4--_Natureza morta e flores_--Natureza
morta e to morta que d vontade de... decorar uma cosinha com
ella.--Amores perfeitos, imperfeitos.--Um agrupamento de lyrios e
mimosas, os lyrios bastante densos, n'um demasiado ajuntamento, que
parece esmagarem-se uns aos outros.

D. Luisa Almedina, n.^o 5--Uns cravos sem cheiro, desconsolados...

Almeida e Silva, n.^{os} 6 a 15. Pinturas varias, assaz recortadas e
lambidas, com ar pretencioso de oleographias caras; este artista parece
andar para traz, quem pintou _O Viatico na aldeia_, _Um critico d'arte_,
_Cabea de cabrito_, (que eu possuo) tinha obrigao de se apresentar
melhor.

Tem n'esta exposio um quadro--_O abat-jour japonez_, que 
verdadeiramente uma japonesice de caixa de ch.

No entanto recommenda-se o seu quadro--_Tarde calma de junho_, que est,
a meu vr, bem, e  o unico que se salva de todo aquelle monto de arte
de recorte...

[Figura: Paisagem--MARQUES d'OLIVEIRA]

Condessa d'Alto Mearim, n.^{os} 17 a 19. Tem merecimento, e muito, esta
amadora--_A Nossa Senhora do Refugio_, bem lanada de linhas, largas
pinceladas dadas sem feminismo, talvez um pouco coquete, na expresso,
para Nossa Senhora, no entanto um bello quadro. O n.^o 17 parece-me
estar trocado, pois no  crivel que s. ex.^a pintasse um retrato de F.
V. n'um velho em traje de fantasia; mas se o pintou, diremos que o
trabalho  bom, a figura est bem estudada, boa carnao, boas
roupagens, mos bem trabalhadas, um bom quadro, emfim.

D. Maria Luiza Alto Mearim, n.^{os} 19 e 20, o _Five  clock tea_  um
bom quadro traado amplamente, com boa luz e muita expresso da figura,
talvez um pouco de branco a mais na cara da dama, que deve ser da
primeira sociedade e que naturalmente usa muito p de _veloutine_, e
d'ahi o tal branco!...

Viscondessa de Ameiro, n.^o 11. _Arvoredo_--eu
chamar-lhe-ia--_Alvoredo_. Est l muito no alto, to alto, que se perde
de vista. Lembra uma travessa de hortalia picada para gallinhas.

[Figura: Mendiga--CARLOS REIS]

D. Virginia Avellar, n.^o 22. _Supplica_.--Uma deliciosa irm da
Caridade, estudada com carinho e amor, tal quanto merecia aquelle lindo
rosto, que um bello sol banhava n'uma suavissima emoo de castidade
e... affecto.

Merecia, a meu ver, uma meno honrosa, mas... foi para outros...

D. Laura Bandeira, n.^o 23. _D. Ignez de Castro_, esguia e airosa, um
pouco theatral, regularmente pintada. O galgo que a acompanha, parece
feito de _grafite_, e se a D. Ignez continua, por muito tempo, com a mo
esquerda n'aquella posio, acaba por cegar o pobre cachorro, pois a
metter-lhe um dedo pelo olho dentro, aquillo d pelo menos uma
conjunctivite...

Leopoldo Battistini, n.^{os} 24 a 27--dois estudos de velhos, um d'elles
passavel--o 25. _Avarento_, horrido de luz e de expresso, parece um
_paranoco_ fugido ao tratamento do dr. Bombarda. O 27--_Barqueiros do
Mondego_. Extraordinario. Parece incrivel que se podesse metter uma
barcaa d'aquellas dentro d'um quadro de 1,26 por 1,87. Effeitos de luz,
detestaveis. A mulher ou tem o peito em fogo ou quer dar a comer
candeias de cebo ardendo,  pobre creana que parece ter ao collo.

D. Emilia A. S. Braga, n.^{os} 28 a 31--_A Maria de S. Joo_ (28)  uma
velhota com cara de boa pessoa, regularmente pintada; acho-lhe as mos,
o rosto e o cabello bem estudados e com boa cr. _A orao_ (29)
_Estudo_ (30) so dois bons quadros, traados com superior criterio,
pincelados largamente, com soberbas expresses, luz boa, cr magnifica;
no n.^o 30 notamos ainda o bem executado do collo d'uma linda mulher.

Jos de Brito, n.^o 32--_A Vaga_.-- j meu conhecido este quadro, d'um
pintor portuense, que tem o seu nome ligado a obras de muito
merecimento. _A Vaga_, na sua ida symbolica no me agrada, mas na sua
execuo, como estudo do n  superior e irreprehensivelmente feito; no
bem trabalhado do desenho e no bem dado da cr, sente-se a curva
avelludada e macia d'uma mulher nova e de carnes duras.  um bom quadro.

Arthur A. Cardoso, n.^{os} 33 e 34--Dois retratos.--O n.^o 33 bem feito;
que para mim, desde que so retratos, o que eu quero  que elles se
paream, quanto ao mais no me importa.

[Figura: Marinha--JOO VAZ]

Joo Luiz Cardoso, n.^{os} 35 a 42--Especialidades em _Arredores_.
Arredores de Aveiro e de Thomar. Notarei como dignos de meno o n.^o
39, um bello poente, e os n.^{os} 40, 41, e 42, onde a luz  bella,
distribuida com methodo e muita uniformidade.

Antonio Carneiro Junior, n.^{os} 43 a 45.--Este artista  um
melancolico, um triste, e se nos quadros expostos o no mostra  que se
limitou a expr retratos. O que dizer d'esses retratos, quando o jury j
disse tudo, dando ao seu quadro--n.^o 43, _Retrato de Teixeira
Lopes_--uma medalha.  innegavelmente um trabalho magnifico. O retrato
n.^o 45, de uma senhora, tambem  muito bom.

Bernardino Trindade Chagas, n.^{os} 46 e 47.--Uma paisagem e um
retrato.--Ataca dois generos differentes com a mesma galhardia e o mesmo
_savoir-faire_. O retrato teve uma meno honrosa.--A paisagem  boa:
Uma mulher sobre um burrico, vae, n'um chouto doce, atravez um caminho
de aldeia, para a capellinha, em Tavira. Boa luz, boa cor, destacando no
tom amarello saibroso da estrada as figuritas, que o artista estudou com
cuidado.

Jorge Collao, n.^{os} 48 a 50.--Este artista  o collaborador artistico
do _Seculo Illustrado_, julgo eu, e por isso preciso ter cuidado com
elle para no ter o desgosto de succeder  minha despretenciosa critica
o que succedeu ao monumento de Sousa Martins, feito pelo Queiroz
Ribeiro. Por isso... fico calado... Mas no fico... ahi vae o que eu
penso.

Na _Partida interrompida_, que teve a 2.^a medalha, acho-lhe o p
esquerdo, que est no plano anterior, um tanto mais delgado do que o p
direito, que est n'um 2.^o plano, um pouco mais atraz e bastante cheio.

O _Nos campos de Arzilla_,  um largo quadro feito com todo o interesse
e correco de quem sabe tratar com pinceis. Uma bella tela cheia de cor
e de um largo poder decorativo.

_Guarda negra_. Talvez no fosse peor ter adelgaado um pouco as mos ao
cavallo, que avulta no 1.^o plano do quadro. Os cavallos arabes so, por
via de regra, d'uma gracilidade especial de mos, que caracterisa bem o
seu genio nervoso e a ligeireza do seu galopar.

Ernesto Condeixa, n.^{os} 51 a 56.--Este  tambem um artista cuja
reputao est feita. Pinta com muita consciencia, muita pratica e
bastante saber. Notarei, para mim como melhor, o 52, em que ha um bello
effeito de sol sobre a agua do mar. O 53, delicioso _Cantinho da praia
de Pao d'Arcos_, e o 56, um soberbo poente nostalgico e poetico na
_Ribeira de Algs_.

Candido da Cunha, n.^{os} 57 a 61.--Poeta sentimental da pintura, lana
nos seus quadros as suas impresses com um sentimento desusado; no  o
pintor do grande sol e da cr que retine como toques de clarim, no;
repassa-os de uma unco suavemente triste, que encanta.  inegavelmente
um quadro de mestre o seu _Hora nostalgica_, 57. Os outros so pequenas
manchas, feitas com muita correco.

[Figura: Vaga--JOS de BRITO]

Mademoiselle Helene Eisembard, n.^{os} 62 e 63.--_Portrait  huile_, 62,
regular, sem espantar. _Fleurs_, 63. Chrisantemos, uma chinesice a oleo,
que se supporta... como chinesice.

Lizzie Escolme, n.^{os} 64 a 70.--Alguns quadros de flores e paisagens.
Sem interesse para mim, a no ser o n.^o 65, _Primeroses e violettes_, e
o n.^o 66, _Lils_, que so regulares, com alguma frescura. O resto...
no vale nada.

Duarte Faria e Maia, n.^o 71.--Uma _miniatura_ lambidita... como
retrato...

C. Gomes Fernandes, n.^{os} 72 a 78.--Tem-se desenvolvido este amador,
desde que se lembrou de querer ser artista; progride innegavelmente,
demais para quem viu, como eu, os seus ultimos trabalhos no Porto; pasma
do modo como est pintado o seu quadro n.^o 72, _Margem do Tejo_. Bem
tocado de luz, regularmente pincelado, com uma certa largueza e um doce
tom, que nos encanta.  tambem interessante o seu _Caminho_ (_Granja_),
n.^o 78. Os outros so quadros de amador com pretenses...

Jos S. Moura Giro, n.^{os} 79 a 87.--S podemos admittir com a rubrica
d'este bom artista os quadros n.^{os} 84 a 87, onde ha gallos e
gallinhas soberbamente pintados, porque, ainda at hoje no encontrmos
ninguem, que tenha na sua palleta cores to brilhantes e to
accentuadamente definidas, para pintar a plumagem retumbante dos gallos.
So estes trabalhos de molde a fazer impor  admirao do publico um
artista como Giro. Mas... pena foi que elle se no limitasse a isso e
tentasse pintar animaes de pello... Os seus gatos (n.^{os} 81 a 84), so
horrorosos; parecem, bem como os coelhos (n.^o 79), _biblots_ de algodo
em rama, para creanas; d'estes que se vendem no Benarde, no Cardoso da
rua Nova do Carmo... Fique-se com esta snr. Giro, que eu, infelizmente,
no conheo. Nunca pinte seno aves, se no quer perder o grande nome
que tem, como primoroso artista que .

D. Isabel Laver, n.^{os} 88 a 93.--O quadro n.^o 88, _Cabea de velho_,
fez-nos parar algum tempo na sua frente e, ao fixal-a, saltou-nos,
instinctivamente, da mente, aquelle pedao de poesia de Caldeira, _A
Mosca_:


  .............................o maldito do velho,
  Da cor d'um rabanete, ou ainda mais vermelho...


Porque de facto o tal velhote parece esculpido n'um presunto de
Lamego... O n.^o 90, _Rosas_, duras e compactas como se fossem talhadas
em porcelana da Vista Alegre, pousadas n'uma jarra d'um detestavel
effeito e cor.

_O ch_, (91). Um bule de prata oxidado e sujo, doce de dezoito vintens
o _arratel_, para velhotas coscovilheiras, que vieram at ns dos tempos
dos francezes.

Jos Leite, n.^o 94.--Um bello retrato de mulher nova, feito com
mestria, e dando a conhecer que o auctor tem disposio e sabe do
_metier_. Foi-lhe conferida uma meno honrosa, uma das mais bem
applicadas do certamen.

Adriano Lopes, n.^o 95.--Um retrato do general Castel-Branco--muito bem
cuidado,-- o seu auctor um discipulo que d honra aos seus professores.

Jos Malha. Eis-me chegado emfim ao Artista que mais me deslumbra, e
mais me fascina. Chegado aqui, o meu desejo  pousar a penna, curvar-me
reverentemente deante da sua obra genial, e limitar-me a gritar
enthusiasmadamente: Salv, pintor da grande luz, do bello sol, da
soberba cr que retine nos teus quadros, como pedaos de crystal
finissimo que se parte.

Era este o meu desejo, mas, alguem, os mal intencionados, esses,
ficariam na sombra a rir-se de mim, e diriam: Porque no falla este
_critico_ do Malha?!...

Eu responderia, porque elle enche com os seus trabalhos to por completo
o meu espirito, que me julgo muito pequeno para fallar d'elles.

Mas, como quero levar de seguida a minha carta, ahi vae a impresso que
tive com os quadros de Jos Malha, n.^{os} 96 a 108.

[Figura: Velloso Salgado]

Destaco como primordial o seu quadro, _Barbeiro da aldeia_, 98,
assombroso de execuo, sublime de expresso nas figuras, mesmo nas que
se perdem nos ultimos planos. Luz soberba, e... desenho rigorosamente
estudado. A seguir _A Descamisada_, 97--magnifico--e o 98, _O Antigo
phosphoro_, em que se v perfeitamente, muito definido, a impresso
asphyxiante do enxofre que arde morosamente, obrigando a pr a distancia
o phosphoro. Que bello trabalho, que primor de expresso na figura, que
distender de brao to naturalmente lanado! e o 99, _Cabea de estudo_,
optimo de luz, e o 102, _Ao cair da tarde_, quanta melancholia doce no
nos imprime, aquelle quadro, e o 108, esse largo quadro decorativo para
a sala de musica do snr. Lambertini? Com que gracilidade no esto
lanadas todas aquellas figuras, n'umas posies naturaes e flacidas que
parecem cheias de mocidade e de vida.

E, deixei para o fim o n.^o 106, que, embora eu esteja em erro,  para
mim um dos trabalhos mais fulgurantes do grande artista.

Aquelle retrato de mulher, com uma elegancia finissima de palmeira,
desenhada com uma distincta correco de linhas e colorida com um mimo
especial de carnao, que palpita, fez-me sentir o grande desejo de me
curvar n'uma postura palaciana e beijar respeitosamente as pontas
d'aquelles dedos, que to despreoccupadamente pousam no teclado do
piano.

Este quadro  para mim d'um encanto inexcedivel. E que me perde o
artista se eu no soube dizer d'elle o que elle merecia.

Raul Maria, n.^{os} 109 a 112.--Quatro retratos, sendo regularmente bem
feito o 109, de Carlos Malheiro Dias, o 111, retrato de Eduardo Brazo,
foi feito decerto em occasio, em que o grande actor estava soffrendo de
_vertueja_, uma especie de erisypela. O retrato n.^o 112, s se admitte
como caricatura.

D. Branca Marques, n.^o 113.--_Uma velha alde_, que nos faz lembrar uma
_batata_ ingleza.

Adolpho Manon, n.^o 114.--_A Costa_. Perfeito quadro para as Messageries
Maritimes; eu chamar-lhe-ia o vapor _City of Lisbon_.

Thomaz de Mello Junior, n.^{os} 115 a 121.-- um paisagista interessante
e de merecimento. Destacaremos os seus quadros: 115, _Salgueiral
d'Azambuja_, paisagem cheia de luz, com uma fita d'agua muito bem
estudada; _O Gerez_, estudado com cuidado, na cr e na luz. O Gerez 
aquillo, conhece-o bem. O 121, _Torre de S. Julio_, que  muito
interessante, e, ento, o 118, _Praia de Nazareth_! uma soberba marinha,
feita com muito criterio e muito saber. As vagas, que se levantam em
caches espumantes, esto, na verdade, feitas magnificamente, e o barco,
que as tende galgar ao esforo dos remos, est estudado com preciso e
rigorosidade.

Thomaz de Moura, n.^{os} 122 a 128.-- um artista que vem l de fra,
com as suas impresses de Paris e da Bretanha; os seus quadros so
tocados de um certo _gris_, que ns no temos, uma cr acizentada que me
fere mal a retina, o que no quer dizer, que elle no tenha merecimento,
que o tem. Especialmente o seu 122, _Carinhos de me_, est muito bem
feito.

D. Fanny Munr, n.^{os} 129 a 133.--Muito gelo, muito gelo e muito gelo,
no entanto no me desagradou o 133, _Na Montanha_.

Isaias Newton, n.^{os} 135 a 149.-- um professor e bem me custa dizer
mal d'elle, mas que querem, a bilis c est s voltas commigo; o seu
134, _O Lago_, parece feito de vidro fiado e os seus, 137, _Entrada para
a quinta do Ex.^{mo} Snr. Novaes_, 139, _Campo do Bomfim_, lembram
oleographias, o unico aproveitavel,  a meu vr, o 135, _Um trecho de
paisagem_.

D. Mariana Palma, n.^o 140.--_Depois do jantar_. Um melo phantastico
com pevides que parecem dentes, queijo cabea de preto com manchas de
bolor. Um mau vinho, dentro de uns crystaes e d'uns vidros da fabrica da
Amora ou da Marinha Grande.

Torquato Pinheiro, n.^{os} 141 a 145.--_O retrato de seu filho_, 141.--
sem discusso o seu melhor quadro n'esta exposio. Torquato Pinheiro 
um paisagista distincto, mas no  menos como retratista. Os seus
quadros so tocados sempre de uma certa ingenuidade, que nos encanta,
so para notar o 144, _Lea de Bailio_, profundamente melancholico, e o
145, _Fim da Tarde_, bem feito, com muita suavidade de luz.

[Figura: Busto de ingleza--TEIXEIRA LOPES]

Columbano Bordallo Pinheiro, n.^{os} 146 a 154.--Eis outro artista que
se impe firmemente  nossa admirao, este no  um artista do sol, ,
deixem-me dizer, um artista psychologo. Faz talvez mais o retrato da
alma do que o retrato do corpo, mas, o que elle sabe , dar umas
pinceladas to originaes, to suas, que os seus quadros conhecem-se ao
longe, sem precisarmos de lhe vr a assignatura. O quadro 146--_A
Pelia_  d'uma execuo to subtil, que apetece passar-lhe ao de leve a
mo sobre aquella pelle, para se sentir o aveludado da lontra, o
147--_Scena d'interior_, ha tal expresso na cara de mulher, que se est
a sentir e a vr, o que ella est pensando l dentro do seu cerebro de
velhota matreira.

Mas, superior a todos, a meu vr, o 152, _Retrato do Conde de Arnoso_. 
extraordinariamente superior.

Manuel H. Pinto, n.^{os} 155 a 156.--Nunca tinha visto nada d'este
artista, e fiquei gostando de vr os seus quadros; so ambos bons, mas o
155, _Dar de comer a quem tem fome!_  muito bem estudado. Ha ali vida,
n'aquella mulher que cuida dos seus bacorinhos com boa _menagre_ e os
bacoritos, esses, na sua _suinissima_ figura de resmunges, esto tambem
muito bem estudados. E no fui s eu que gostei dos quadros, foi tambem
a commisso, que lhe deu uma medalha.

Joo Porfirio, n.^{os} 157 a 158.--O quadro 158  um especimen
comprovativo das theorias de Darwin.

Carlos Reis, n.^{os} 159 a 164.--Este sim. Os seus quadros confirmam bem
o seu bom nome de mestre.

Na figura e na paisagem, em ambos  superior. O seu 159--_Retrato de Max
Van Ypersele de Strihon_,  magnifico, a carnao  flagrante de cr e a
mo? ah! a mo!  um primor de correco. Os 160--_Velho
castanheiro_--161, _Mendiga_--162, _Souto de Castanheiro_--163, _Poente
de abril_, so quatro lindas joias da arte pinctural que apetece roubar
da exposio para revestir o _boudoir_ gentil da mulher que se ama.

Augusto Ribeiro, n.^{os} 165 a 170.--Verdadeiro pintor impressionista.
Unicamente nos d impresses de paisagens do Norte, onde o azul  mais
forte e a vegetao mais luxuriante, verdes d'um matisado mais doce,
mais animado. As suas _pochades_ so regularmente tocadas. As que mais
me agradaram foram as n.^o 167, _Poente_ (Ancora); 169, _Poente_ (Ponte
do Lima); 170, _Poente_ (Paredes do Coura). Foi contemplado com uma
meno honrosa, bem merecida.

Joo Augusto Ribeiro, n.^o 171.--_Um septuagenario_, interessante e bem
feito.

Joo Nunes Ribeiro Junior, n.^{os} 172 a 181.--Pintor de paisagem,
retrato e quadros de genero; muita coisa para um artista s. Os retratos
passaveis, alguns mesmo bons. Paisagem com certo ar, especialmente o
177, que est bem tocado de luz e assumpto bem escolhido; o 178,
_Campolide_, que  interessante. _Os fructos e flores_, 180, esse
achei-o medonho, simplesmente medonho, muito proprio como reclame para a
casa Daupias. Pareceu-me um quadro annunciador. No que, as flores e as
fructas tem que se lhe diga,  preciso muita frescura, para as fazer
resaltar com vida, dos quadros...

[Figura: Tomando o ch--COLUMBANO]

Adolpho de Sousa Rodrigues, n.^{os} 182 a 195.--O seu maior trabalho  o
182, _No trabalho do campo_. No desgostei d'elle, apenas me fez m
impresso aquelle verde das lombardas ou tronchudas. Parece-me que as
figuras se recortam demais n'aquelle fundo verde. O 184, _Sabotier
breton_, achei-o com boa luz de officina e as figuras bem estudadas. A
cr... aquella cr bret, que eu no conheo,  que me fez esmorecer um
pouco. Eu gosto mais da nossa luz. O retrato 195, esse acho-o muito bom,
bem executado, bem desenhado.

Fernando A. M. de S, n.^o 196.--_Arredores de Setubal_. Mau de execuo
e de cr.

Jos Velloso Salgado, n.^{os} 197 a 199.--O grande pintor de retratos e
de tudo o mais, que  este artista, quasi que me dispensava de dizer
qualquer cousa d'elle. Os seus trabalhos veem de ha muito, pondo uma
verdadeira nota de arte no nosso pequeno meio. A sua fama est feita, o
seu nome, ao ser dito, retumba como um echo de gloria na arte da pintura
portugueza. L para o norte temos coisas to lindas, e to
primorosamente feitas, d'este artista, no Palacio da Bolsa, que eu
acanho-me de fazer opinio sobre os seus trabalhos expostos, que so
muito bons. Sobresaindo para mim a todos estes, o 199, retrato de
_Adolpho Msson_.

D. Luiza Stephania da Silva, n.^{os} 200 a 202.--Unicamente me fez
sensao o 201, em que ha uma certa frescura, nos lyrios pintados.

Candido da Silva Junior, n.^{os} 203 a 212.--Dois quadros, em que ha
retratos, paisagem e flores. Deram-me no goto os n.^{os} 205 a 209--o
primeiro uma especie de jardim de velha rabugenta; muita flor, muita
flor, e nenhuma disposio. No s as flores d'este quadro, mas as de
todos os outros so duras, sem frescura, sem cambiantes de tom, quasi
homogeneos na cr. A _magnolia_, 209, at parece um limo... Acceitavel
o 210, _Alfeite_, que  uma manchasita que se suporta bem, para amador.

Joo Ribeiro Christino da Silva, n.^{os} 213 a 218.--Ai pai! que coisas
aquellas! O 213, a meu ver, simplesmente horrivel, os outros...
adeante... a no ser o 218 que  interessantinho na sua frma
miniatural.

Viscondessa de Sistello, n.^{os} 219 a 224.-- uma amadora de certo, os
seus quadros so cheios d'um quer que seja de pretencioso... o n.^o 219,
_Retrato_--achei-o sem vida, muito chapado.--Fez-me saudades, porque me
pareceu uma imitao m, do bello quadro de Velloso Salgado--_Reflexos_.
O 220 passavel, a no ser o ar estudioso e pensador de mais, do menino,
e o 222 a abarrotar de coisas--um pedao de queijo stilton, que faz
lembrar sabo rajado azul, fructas duras, vinhos maus, agrupamento
infeliz. O 221 regularmente tocado, como mancha.

[Figura: Retrato de El-Rei--CARLOS REIS]

Joo Vaz, n.^{os} 225 a 237.--Deliciosa toda a obra d'este _cantor_,
pelo pincel, da agua. Inexcedivel artista em marinhas; com que venerao
eu o admiro, e ao seu _savoir faire_. Ha tanta verdade em todos os seus
quadros, tanta e tanta luz nas suas telas, que ao contemplal-as como que
se sente o marulhar cadenciado das ondas. _A pesca da sardinha_, 225, 
um quadro primoroso. _O barco algarvio_, 229, navegando em pleno mar,
parece que se vae afastando pouco a pouco de ns e que ouvimos o bater,
compassado dos remos na agua. _O moinho do Barredo_, 230, airoso e
lindo, batido do sol--e _O Castello de Montemr_, 234, que parece sair
arrogantemente do fundo d'um azul primoroso, so obras que encantam.
Alli, ha o que se chama faisca artistica, alli ha a nota caracteristica
de quem muito bem conhece a arte de pintar.

Emily Wormsley, n.^o 238.--Um largo quadro de flores, loua da India e
metaes. Boa composio, bem estudado e bem tocado de cres. Foi-lhe
conferida uma meno honrosa, bem merecida.

Francisco Xara, n.^{os} 239 a 240.--As _Papoulas_ do 239, fizeram-me
lembrar flores de papel de seda feitas por alguma menina da baixa, em
horas d'ocio, entre o crochet e o ch com torradas, para enfeitar um
chapeu de campo ou algum oratorio de velhota amiga.


ESCULPTURA

Jos Simes d'Almeida (Sobrinho), n.^o 241.--_Modelo para uma medalha_,
bem executado.

Pedro Cartoccio, n.^{os} 242 e 243.--Fez-me especial atteno o 242,
_Juiz de Phyn_. Um ar malicioso de juiz estecta, definidamente traado,
nas suas bem marcadas linhas,  uma bella cabea lanada com energia e
rigorosidade.

Antonio Teixeira Lopes, n.^{os} 244 a 258.-- sem discusso Teixeira
Lopes, ao momento, o maior esculptor portuguez.  talvez o unico que
pde affirmar ao paiz e ao estrangeiro, que s elle tem o poder de fazer
resaltar do marmore ou do bronze, as suas figuras, to definidamente
perfeitas, que se nos afigura terem vida. Notar aqui os seus trabalhos
seria fazer a resenha das suas 15 obras, porque todas ellas se nos
impem  admirao, do mesmo modo. No entanto, magestosamente solemne,
na serenidade do seu ar, sublime na grandeza do seu pensamento est a
figura, da _Historia_, 252, para o tumulo de Oliveira Martins. E o 244,
_Santo Izidoro_, n'uma serenidade de justo, esculpido com um carinho
doce; ao olhal-o sente-se como que, uma uno sublime e casta que nos
convida  orao.  um trabalho soberbo, as mos, o pescoo, a face, as
roupagens, tudo emfim,  feito com um rigoroso saber. E os _Velhos_, 245
e a _Flora_, 246 e o _Bb_, 247, e todos os outros trabalhos?
Simplesmente soberbos!... Teixeira Lopes  inegavelmente o primeiro
esculptor portuguez.

Antonio Augusto Costa Motta (Sobrinho), n.^o 259.--Uma _Cabea de
estudo_, bem feita.

Jorge Pereira, n.^o 260.--_Um typo de marinheiro_, traado largamente,
sem detalhes de meticulosidade;  na verdade uma bella cabea, bem
estudada e melhor executada.


ARCHITECTURA

N'este genero nada entendo, sou leigo, perfeitamente leigo. No entanto
l vae.

[Figura: Olaia em flor--CARLOS REIS]

Antonio Couto n.^o 261.--_Casino_, preferia vel-o construido, pois
n'esse caso melhor o gosaria.

Raul Lino, n.^{os} 262 e 263.--Gostei do 262, _Esboo para a casa em
Azeito_. Talvez, pela ida do conforto que se deve sentir n'aquella
casa portugueza, com bibelots caros e mobiliario de talha e bilros.

Tertuliano Marques, n.^{os} 264 e 265.--_Projecto do mausoleu a Almeida
Garrett_. No desgostei, acho-o bem estudado.

Jos Alexandre Soares, n.^{os} 266 e 267.--Achei airosa e bem lanada a
fachada para o _Club militar_. Deveria depois de feito ficar uma obra
digna do ser admirada aquella _Praa Publica_.


AGUARELLAS

 uma das mais interessantes manifestaes da arte pinctural, este
genero de pintura, difficil na execuo, s se admitte quando o desenho
 muito correcto e a tinta  dada em pinceladas certas, frescas e
vivas... por isso, o terem-me agradado pouco os trabalhos expostos. A
ver:

Francisco A. Moreira de Almeida, n^{os} 268 a 271.--Francamente,
francamente, teem um ar ingenuo de chromo-lithographia.

Bartholomeu Sesinando Ribeiro Arthur, n.^{os} 272 a 278.-- a
especialidade d'este artista a pintura de costumes militares e com
franqueza, tem-nos, primorosos de execuo, o que no quer dizer que
tambem os no tenha fracos. N'este certamen agradaram-me o 273,
_Official do regimento do Maranho_, feito com muito ar e muito boa luz,
destacando soberbamente no seu arrogante _aplomb_, e o 274, _Official de
estado maior_, tambem bem trabalhado.

Mademoiselle Helena Eisembart, n.^o 279.--_Fructas_. Uns cachos de uvas
com a sua folhagem, boa aguarella, muito fresca, muito leve,
transparente.

Jos Souza Moura Giro, n.^{os} 280 a 285.--C temos outra vez o grande
artista das aves. N'esta seco brilha elle deliciosamente. As suas
aguarellas correspondem precisamente s condies exigidas para a boa
aguarella, cres vivas, transparencia, e frescura; e tudo isso tem as
suas. Notaveis todas as dos n.^{os} 280, 281, 282, 284, 285 mas
sobretudo o _Fausto_ e _Margarida_, 280, _Entrando_, 282, e _Cantando_,
285, que a meu ver so magistralmente feitas.

Jorge Ianz, n.^{os} 286 a 295.--Outro aguarelista, que nos enche, com a
sua cr fulgurante. So bem manchadas as suas aguarellas, fazendo-me
lembrar, no sei porqu, as do fallecido Manuel San-Romo, o artista
mais mimoso, que eu tenho conhecido, como manchista, Ianz e
inegavelmente um artista de merecimento. So muito bons para mim, os
seus 286, em _Toscana_, 288, _Impresses de viagem_, 292, 293, 294, tres
bellas marinhas, muito bem tratadas, o 295, _Descarga no Tejo_, 
admiravel de execuo; a arcada que se v ao fundo do quadro poderia,
com honra, ser admittida n'um concurso de architectura.

Alfredo de Moraes, n.^{os} 296 e 297.--_Costumes da Judea_. No quero
dizer que estejam maus, mas fizeram-me lembrar, Deus me perde, (Deus e
o artista) os homens das tamaras.

[Figura: Entre o almoo e o jantar--MARQUES d'OLIVEIRA]

Roque Gameiro, n.^o 298.--_Retrato d'El-rei_. Aguarella de difficil
execuo, mas superiormente tratada, boa luz, bella cr, roupagem
magnifica, tom de rosto bom. As luvas so uma perfeita illuso.  um bom
trabalho.


DESENHO

D. Beatriz Alto Mearim, n.^o 299.--_Um estudo_, regularmente traado.

Jorge Porphirio, n.^o 300.--_Jardim botanico_. Achei-o palmeirento de
mais. Regular.

Candido da Silva Junior, n.^o 301.--_Um quadrito com cinco cabeas_. S
me agradaram as duas feitas a crayon azul.


PASTEL

No imagine o leitor que eu vou discorrer sobre o effeito do pastel de
fructa, ou de crme, do Baltresqui, no, vou fallar do systema de pintar
a _pastel_--ou por outra, a crayon de cres, e que por signal no  l
das coisas mais faceis, para ser bem feito. Para se trabalhar bem n'este
genero uma das coisas mais necessarias  saber desenho. Que afinal para
se pintar bem o que  preciso  desenhar muito e bem.

D. Luiza Almedina, n.^o 302.--_Retrato de sua irm Ilda_. N'este
trabalho ha varios defeitos, saltando porm  vista a differena da cr
entre o rosto, e o pescoo e collo, que muito prejudica o effeito do
quadro.

D. Beatriz Alto Mearim, n.^o 303.--_Estudo_. Uma velhinha. Regularmente
empastado.

Condessa Alto Mearim, n.^o 304.--_Estudo_. Este quadro a meu vr, devia
estar no catalogo na seco dos desenhos.  bem feito, v-se que esta
senhora no descura a base principal de pintura.

D. Maria Luiza Alto Mearim, n.^o 305.--_Um estudo_. As mesmas
consideraes expandidas para o n.^o 304.

Leopoldo Batistini, n.^o 306.--_Cabea de estudo_. Magnifica de
empastamento doce e finura de trao, penna  que encha to por completo
o quadro. Um pouco mais de margem e seria para mim muito mais agradavel
 vista.

D. Emilia Adelaide Santos Braga, n.^o 307.--_Retrato de Cupertino
Ribeiro_. Trabalho bem feito.

Jos de Brito, n.^{os} 308 e 309.--Superiormente executado o n.^o
309.--_O frade_.

Frederico Cezar Camara Leme, n.^{os} 310 a 312.--Recortado de mais o
312, _Ovelhas_. D-me a impresso d'estas ovelhas de carto e algodo em
rama, tendo ao fundo um vulco de theatro, irrompendo bravamente e pondo
uma luz forte em todo o ambiente.

[Figura: A chegada da diligencia aos Valles em Ferreira do
Zezere--ALFREDO KEIL]

Bemvindo Ceia, n.^o 313.--_Um velho operario_, regularmente tocado,
_comme ci, comme a_.

Joo G. Mattoso da Fonseca, n.^{os} 314 a 320.--Destacarei d'este
artista o 314. _Retrato de D. M. E. F_., que tem o cabello e a pellia
magnificamente tratado. _Ninete_, 315 regularmente feito--especialmente
o cabello, e pluma do chapeu. No gostei do 316, _A F_, porque achei a
figura com muito pouca f, e o 418, _Ao espelho_, em que noto um
determinado abuzo de branco, na cara.

Adriano de Sousa n.^o 321.--_Ave Maria_. A carnao d'esta figura 
muito bem tratada, aveludada e macia.

Jos Malha, n.^o 322.--_Retrato de mademoiselle C. R_.  simplesmente
delicioso este quadro. Como desenho, como technica de execuo, como
posio de modelo, como tudo emfim,  sem discutir esse o primeiro
trabalho a pastel da exposio.

Tenho visto muitos trabalhos n'este genero, mas, nenhum me deslumbrou
como este.

D. Antonio Lobo da Silveira, n.^o 328.--_Um estudo_, mau.

Viscondessa de Sistelo, n.^{os} 324 a 325.--No tive o gosto de
vislumbrar estes trabalhos na exposio ou no estavam l, ou
passaram-me despercebidos, por isso nada direi d'elles.


GRAVURA

Jos Simes d'Almeida (Sobrinho), n.^o 236.--_Medalha_.--Gostei d'ella.


CARICATURA

Aqui  que  tremer e tremer como varas verdes, porque, se estes dois
pandegos me descobrem, ainda tenho a sorte dos caricaturados expostos.
Eu, se tivesse pretenses  popularidade, bem sei o que fazia: desatava
a dizer mal dos dois e elles, para se vingarem de mim, desenhavam-me ahi
em qualquer jornal burlesco e eu passava  gloria entre as gargalhadas
estridulas do publico e a arrelia das pessoas que me querem bem. Porque
eu, aqui para ns, dava uma boa caricatura... Mas no direi mal dos
homens, nem bem... direi s o que sinto... que o primeiro  filho de
peixe e sabe nadar e o segundo tambem nada menos mal.

Perfilar, que vae passar a patrulha da troa e do chiste.

Manuel Gustavo Bordallo Pinheiro, n.^o 387.--Soberbas caricaturas, que
pena , no virem mais para o publico, n'esse _Album de Glorias_, que
to estimado  pelos leitores. Aquelle _Chaby_ est fulgurantissimo de
graa.

Francisco Valenas, n.^o 328.--_Typos_, todos elles bons, mas superior o
_Ricardo Jorge_, fazendo-me saltar o riso, naturalmente, expontaneo.


ARTE APPLICADA

Aqui torce a porca o rabo, ou ainda: o rabo  o peor de esfolar, como
muito bem diz o nosso bom povo nos seus annexins. E de facto assim ...
eis um assumpto em que eu me vejo assaz embaraado--arte applicada!...
eis uma coisa onde vejo um largo campo para entretenimento de damas, a
pintura dedicada de bibelots adoraveis para _boudoirs_ de luxo. N'esta
seco primam com a sua bagagem artistica todas as senhoras que expem.

Umas mais brilhantemente que outras. No vos massarei pois com citaes
de numeros nem de nomes.

[Figura: O rapto de Ganimedes--FERNANDES de S]

Fallarei no emtanto, do n.^o 336, _Goblin_, do Jorge Ianz, que na
verdade  uma das imitaes mais perfeitas que temos visto. Bem estudado
nas cres, que do a impresso nitida de estarmos em frente de um
verdadeiro tecido; s achamos um poucochinho puxado o preo...

Um conto de ris  dinheiro!

A _Moldura-Luiz XIV_, n.^o 337, de Jos Emygdio Maior,  bem esculpida,
correcta no estylo e no desenho.

Tambem gostamos do n.^o 338, _Modelo para uma floreira_,  muito
elegante de frma e est feita com certo mimo. Como arte nova 
acceitavel.

Ah! mas o que eu achei subtil, e vaporoso, foi o leque exposto por D.
Maria Bordallo Pinheiro. Que delicia, que encanto. Aquella senhora vem
de ha muito afirmando o seu grande gosto artistico e o seu forte
temperamento creador.

Que isso no nos admira, mal fora que assim no succedesse, pois ella 
uma grande artista. Todos os seus, so verdadeiros artistas, cada qual
no seu genero. Bordallo, o incomparavel e inimitavel caricaturista;
Columbano, o soberbo pintor; Manuel Gustavo, correcto seguidor dos
passos de seu pae, vae largamente pondo-se a par d'elle, na firmeza e na
correco de caricatura.

Mas no  d'elles que eu fallo,  da rendilheira sublime que consegue
que as operarias de Peniche, faam rendas to finas e to delicadas, que
abertamente se podem pr ao p d'essas custosas rendas de Bruxellas e de
Allenon.

Por isso, aqui lhe significa, este provinciano, que felizmente j
conhecia os seus bellos trabalhos, recordando ainda hoje ao escrever
isto, um leno formosissimo executado por D. Maria Augusta, com peixes e
mariscos, a sua muita admirao pelo seu grande talento.

Notaveis tambem as _Fivellas_ n.^{os} 342 e 343, de Joo da Silva, que
achei bem executadas, no devendo envergonhar-se ao p, das saidas de
cinzeladores, como Jerdelet.

Ia-me passando falar d'uma japonesice em trez actos, que , como quem
diz, em _trez folhas_, d'um _paravent_, pintado por Pigasson Ricot, que,
na verdade, no est feio. Esto bem copiadas as figuras e os effeitos
tirados, no so maus. Acho-lhes o mesmo defeito do Goblin de Ianz: 
muito caro... para amadores.

Sobre o concurso para a capa do catalogo, nada tenho que dizer, pois
isso era unica e exclusivamente da competencia da commisso da
exposio, que deu o primeiro premio ao trabalho de Francisco dos Santos
e o segundo a Tertuliano Marques.

E at que em fim, acabou a massada para o benevolo leitor.

Desculpe-me, portanto, meu caro redactor, o eu ter estendido tanto a
_massa_, como se costuma dizer, mas desagravel me seria, ter promettido
falar de todos e deixar passar em claro algum d'elles.

 provavel que o publico e, muito especialmente, os artistas, no tenham
gostada minha prosa, por eu ter dito muitas barbaridades, mas eu sou
assim; o que tenho c dentro  para se dizer, bem ou mal, segundo posso
e sei. Mas, se esta minha despretenciosa prosa lhe agradou, de vez em
quando, c apparecerei com noticias d'arte, l do norte, do Porto,
d'essa aldeia trabalhadora e honesta, para onde vou partir, pois j
tenho saudades d'ella...


  Maro 1903.


P. S.--As gravuras d'este e d'outros artigos, nem todas so copias dos
quadros notados nos mesmos, mas, na impossibilidade de adquirir
photographias d'elles, usei de provas de quadros dos mesmos artistas,
dando assim a conhecer ao leitor trabalhos de artistas de merecimento e
valor.

[Figura: Guarda arabe--Pastel de S. M. EL-REI]




VIII

PINTORES PORTUENSES

[+] MANUEL SAN ROMO


 com um grande prazer, cheio de saudade, que rapidamente me vou occupar
d'um bello e real talento de aguarellista, infelizmente morto.

Quando elle se finou, sob a dolorosa impresso que me deixou a sua
morte, no me atrevi a vir a publico, depor na sua campa o meu ramilhete
de flores, fazendo a apologia do seu saber e das suas largas aptides
para a pintura. Esperei esse grande acto de justia dos outros, dos que
ento eram os criticos d'arte da nossa terra.

[Figura: Manuel San Romo]

Mas, nenhum, nem um s, compriu com esse dever e Manuel San Romo desceu
 mudez profunda do tumulo sem que alguem viesse dizer que a Arte tinha
perdido um dos seus filhos mais estremecidos e o mais apaixonado dos
seus amantes.

No me admirou que a critica artistica da nossa terra se esquecesse de
San Romo, por isso que, o querido morto, no era d'aquelles que se
expunham  admirao de ninguem; vivia para os seus trabalhos apenas,
dispensando o reclamo pomposo das gazetas e a vida turbulenta dos
_clubs_, exempto de _coteries_.

Era talvez um misantropo. Talvez. Mas, o que inquestionavelmente elle
sempre foi, era um grande sabedor de cousas d'arte.

Conheci-o bem na sua boa intimidade. Era um perfeito cavalheiro, um
verdadeiro _gentleman_; cavaqueador brilhante e fluente fallando d'Arte
com uma tal elevao e enthusiasmo, com uma tal proficiencia e um to
grande saber que, n'essas occasies, fazia-nos lembrar um douto
professor preleccionando eloquentemente sobre assumptos da sua especial
e authorisada competencia.

Ao ouvi-lo discorrer como mestre sobre esses mil problemas intrincados e
complexos da Arte na sua mais ampla acepo, convenciamo-nos de que quem
fallava no era um _dilettanti_ da pintura, mas um critico justo e
sabedor, um verdadeiro homem do _metier_.

[Figura: Na Espectativa--Aguarella de M. SAN ROMO]

Com elle tive longas, longuissimas conversas no seu confortavel atelier
do largo do Viriato, e foi d'alli, talvez, que me veio este prurido de
fallar em artistas e coisas d'arte...

Que saudades tenho d'esse tempo, das magnificas tardes que passei, em
aquelle atelier pequenino e confortavel como _gabinete_ d'uma delicada
dama, replecto d'uma suavidade de luz e n'uma to artistica disposio e
to cheio de flores, que fazia lembrar uma capellinha em festa...

E capellinha era em verdade, onde a Deusa Aguarella era venerada, com um
respeitoso enlevo, pelo seu sacerdote querido, por isso que Manuel San
Romo era um aguarelista _hors ligne_.

Para mim, o querido extincto foi um dos primeiros aguarellistas
portuguezes; a sua maneira especial de manchar ainda no foi suplantada
por mais ninguem. Nem mesmo o grande pintor Casanova, que foi professor
de San Romo, e que  inegavelmente um mestre na aguarella, nunca
conseguiu dar aos seus trabalhos aquelle tom especial de mancha que era
uma das grandes superioridades de Manuel San Romo. E isto fazia-o elle
naturalmente, instintivamente... Aquelle modo era o seu, d'ahi talvez a
impossibilidade de ser igualado.

Depois, San Romo dava aos seus trabalhos uma tal frescura, uma tal
transparencia e uma tal suavidade de cores, que as suas aguarellas eram
como uma pintura ideal que sempre nos fascinava.

E como elle desenhava!... Attestavam bem o seu estudo do desenho as
pastas carregadas de trabalhos feitos por elle... Muitos d'esses
desenhos tenho-os eu em meu poder, deliciosos pedaos dum grande poema
d'Arte...

[Figura: Paisagem--Aguarella de M. SAN ROMO]

Pelas gravuras que acompanham o nosso artigo, perfeitamente o leitor
pde verificar que as affirmaes que fazemos so, por todos os motivos
muito justas e muito verdadeiras.

O _fidalgo antigo_  uma soberba aguarella d'um vigor de execuo e
d'uma correco inexcedivel de desenho, e o quadro _No directorio_, e a
_Paisagem de Santa Maria de Boure_, e esses pequenos trabalhos, essas
lindas figuras de mulher, essas deliciosas paginas de livros e todos
esses desenhos no sero manifestaes seguras do seu talento e do seu
valor?!... So! ninguem o pode duvidar...

Mas, Manuel San Romo no era to conhecido do publico como devera ser,
por isso que elle no vendia os seus quadros, dava-os. Foi ao menos
feliz em no necessitar de negociar com o seu trabalho... Vivendo na
abastana no fazia da Arte um negocio, fazia d'ella unicamente um culto
intenso e sincero.

D'ahi os seus quadros, esses primores de aguarella estarem apenas
espalhados por um meio restrito de amigos.

[Figura: Paisagem--Aguarella de M. SAN ROMO]

Manuel San Romo no era exclusivamente um aguarellista, mas tambem um
terrivel _bric--braquista_. Collecionava tudo quanto fosse arte,
gravuras, quadros, mobiliario, faianas e, em especial, livros
artisticos.

Era uma delicia visitar a sua moradia... Que encantadoras cousas,
formosos contadores, armarios soberbos de talha antiga, arcas
abarrotadas de gravuras notaveis e, pelas paredes, quadros assignados
pelos mais distintos mestres de pintura. No seu atelier, alli,  que
elle reunia o que mais fundamente lhe fallava  sua alma de artista, as
faianas mais delicadas, os moveis mais requintadamente artisticos, as
revistas illustradas e os livros mais preciosos. E n'uma _pele mele_
deliciosa tudo se agrupava para dar ao atelier a forma gentil e suave do
gabinete d'uma fina duqueza e o ar sereno d'uma capelinha em festa.

Que a memoria saudosa d'este morto querido, que foi um dos mais
deslumbrantes aguarellistas portuguezes, me releve o vir eu hoje, o mais
insignificante dos seus admiradores, tiral-a da modesta indifferena
publica para a expr  venerao e respeito de todos aquelles que vem
nos artistas alguma cousa de elevado e de verdadeiramente sublime.


  1904.


[Figura: Uma sevilhana--Aguarella de M. SAN ROMO]




IX

A MULHER ARTISTA


Ha dias, n'uma roda onde estavam senhoras, n'uma conversa larga e em que
se debateram varios assumptos, um houve, que especialmente me prendeu a
atteno. Discutia-se Arte em geral, e um dos homens, cavaqueador
_enrag_ emerito e apologista da _no_ emancipao da mulher, desfechou
abruptamente esta phrase: No posso admittir que a mulher seja uma
esculptora ou uma pintora.

[Figura: S. M. a Rainha]

Escusado ser dizer-vos que esta phrase fez no grupo o effeito de um
_duche_ frio e forte. Aps, porem o choque, houve, como era de esperar,
a reaco, e, como poderam, os _paladinos_ da sala, debateram e
rebateram a estranha declarao, com factos, n'uma larga demonstrao de
erudio e talento.

Eu fiquei-me callado, esperando melhor occasio para poder dizer
serenamente, sem precipitao, as consideraes que tinha a fazer sobre
tal assumpto.

E hoje, perfeitamente  vontade, sem presses de especie alguma nem
necessidades de galantear, vou dizer o que penso da mulher artista, e
como eu teria desarmado o gracioso se logo me tivesse permittido
dizer-lhe alguma coisa em resposta ao seu repto.

A mulher  um dos mais perfeitos trabalhos da natureza, quer vista sob o
lado plastico e physico, quer sob o moral e espiritual.  como nenhum
outro ente dotada d'um espirito, que, quando bem educado, se inclina
sempre para o Bello, para o Ideal. Ella, muito mais do que o homem,
deixa-se assenhorar das impresses, e o seu corao, muito mais
passionavel que o nosso, mais facilmente se commove e se infiltra d'uma
doce alegria ou d'uma saudosa tristeza.

Como nenhum outro individuo ella descobre e comprehende pequeninos nadas
psychologicos, que passam despercebidos aos nossos olhos.

[Figura: D. Aurelia de Sousa]

Por isso, quando educada e industriada no grande problema da Arte, deve
facilmente adquirir elementos magnificos para execues de vulto, e de
obras que venham tocadas d'uma suave poesia.

Depois, se a mulher tem o direito de danar e de cantar, e se lhe
admiram as qualidades raras de eximia bordadora, porque negar-lhe o
direito de, tomando os pinceis e o escopro, pintar, esculpir e indo mais
longe mesmo, escrever livros, cujo encanto ser deliciosamente bom? Ora
ella canta e dana desde a origem do mundo e borda desde as eras mais
remotas da antiguidade; portanto, que direito nos assiste a ns, que
caminhamos para o maximo da perfeio, de evitar que ella nos d as
manifestaes mais brilhantes do seu ser artistico, do seu temperamento
singular? Impossivel.

[Figura: Estudo de creana--Aguarella de S. M. a RAINHA]

Isto seria verdadeiramente barbaro!...

Para que ella cante ou dance, s se lhe exige que tenha talento vocal ou
choreographico, tal qual o que se exige ao homem para os mesmos fins. E,
se tal succede e a logica existe, qual a razo porque durante tanto
tempo se puzeram entraves ao franco estudo da pintura, da esculptura e
da litteratura, s mulheres?

Bem sei que o canto, a dana e a musica, eram considerados por todos,
como dotes necessarios e sem os quaes uma senhora no podia briosamente
frequentar a sociedade.

Menina que no danasse, em noite de baile, era como flr sem aroma, que
se ficava estiolando em canteiro, d'onde tinham sido colhidas todas as
olorosas rozas e violetas. Havia pois a necessidade de se aprender a
danar, e todas tentavam ser eximias no _minuete_, na _gavota_, na
_pavana_, na _valsa_, na _polka_, e no _pas-de-quatre_.

[Figura: Tia Bertha--D. BRANCA ASSIS]

Depois comeou a desenvolver-se o gosto pela musica; as audies de
operas nos theatros de S. Carlos e S. Joo, a organisao de escolas
particulares de canto, os concertos onde era chic apparecer, foram
creando os amadores distinctos que no Porto e Lisboa teem affirmado
exuberantemente que n'este nosso torro, no ha s bom sol, ha tambem
boas gargantas e bastante talento, (porque para se cantar bem no basta
s ter uma boa voz  preciso tambem talento e arte). E assim appareceram
em Lisboa e Porto as Ex.^{mas} Snr.^{as} D. Maria Albergaria, D. Laura
Gasparinho, D. Maria Viterbo Ferreira, D. Carminda Guerra Andrade, D.
Laura Leite, D. Alice Freire Silva Braga, M.^{elle} Lidia Oliveira,
M.^{me} Sarah Mattos, M.^{me} Ilda Blanc, D. Stela Pinheiro, M.^{elle}
Castello Branco, Condessa d'Almeida Araujo, Condessa de Proena-a-Velha,
D. Maria Thereza Valdez Pinto da Cunha, D. Carolina Palhares, D.
Leopoldina Kopke de Carvalho, D. Beatriz Arroyo, D. Izabel Vallado, D.
Elisa Lear, D. Albertina Arnaud, D. Julia Villares, D. Thereza
Wandscheneider, D. Edwiges de Castro, D. Judith Marques, D. Bertha
Leaham Camello, D. Camilla Katzeintein, D. Margarida Motta, D. Maria
Luiza Mouro, D. Idalina Castro, D. Laura Leite, D. Anna Fins, D.
Conceio Castello Branco Albuquerque, D. Margarida Fernandes Braga, D.
Bertha Arroyo, D. Julia Pinto Moreira, D. Olinda Rocha Leo.

[Figura: Quem espera desespera--ZE WAUTHELET BATALHA REIS]

Mas, tambem l estava a necessidade de apparecer, de ser notado. Era
preciso cantar para no ficar atraz das outras que apareciam, e assim se
desenvolveu por completo o gosto pelo canto, essa arte sublime que, como
dizia um philosopho, faz um ente transportar-se ao _sol_ sem se lembrar
de _si_.

Com a musica de pianno e rebeca, etc., o mesmo se dava, era como o
canto, um genero de sport artistico. Toda a gente tocava, mas, era
preciso ir mais longe, era preciso tocar bem para ser notado. Em
qualquer parte onde se estivesse, n'uma sala, havia sempre muitos que
podessem exhibir os seus dotes musicaes, mas, no meio deste mar de
tocadores-amadores s se foram distinguindo os que tinham verdadeiro
talento, e assim se notabilisaram ao pianno: D. Maria Josephina
Pacifico, D. Elisa Baptista Souza Pacheco, D. Ernestina Freixo, D. Maria
de Magalhes, D. Leonor Atalaya, D. Maria Ferraz Bravo, D. Esther Coelho
de Campos, D. Carolina Suggia, D. Leonilda Moreira de S, D. Julieta
Vieira Barbosa, D. Elvira Mattos, D. Maria Julia Brando, D. Maria
Helena Carvalho, D. Elisa Allegro, D. Bertha Marques Pinto, D. Aurelia
Paiva, D. Maria Augusta Mattos, D. Luiza Margaride, D. Constana Pinto
Moreira, D. Anna Oliveira Ramos, D. Virginia Suggia.

Em rebeca: D. Judith de Mello, D. Amelia Marques Pinto, D. Laura
Barbosa, D. Irene Fontoura Madureira, D. Rosalia Maia, D. Ophelia
d'Oliveira, D. Luiza Coelho de Campos.

Em violoncello: D. Guilhermina Suggia.

Em harpa: D. Virginia Viterbo e D. Anna Jane Menezes de Mattos.

E isto como o canto foi impulsionado, porque era preciso apparecer com
vantagens sobre outros.

Com a pintura e esculptura porem no se dava isso. Os amadores de
pintura s tinham occasio de mostrar os seus trabalhos, quando algum
d'estes _cabrions_ que teem o nome de _possuidores de albuns_, vinha
pedir a esmola d'uma collaboraosinha, para esses repositorios exoticos
de coisas varias e qui exdruxulas, onde se afundaram muitos poetas e
se lapidaram muitos desenhadores.

E os amadores de esculptura? Esses, nem os havia. E se algum se dedicava
a esse genero da divina Arte, era to escondidamente que ninguem dava
por elle.

[Figura: Condessa d'Alto Mearim]

Mas, sob o impulso grandioso do desventurado Silva Porto iniciava-se uma
nova era d'Arte. Comearam de fazer-se exposies na cidade de Lisboa e
na do Porto, exposies criteriosas que foram o inicio do renascimento
da vida artistica portugueza e o marco milliario do bom gosto e do
aproveitamento de muitos talentos ignorados e de muitas notabilidades
nacionaes.

Promovidas na capital pelo grupo de Leo, esse brilhante gremio de que
fizeram parte Columbano, Ramalho, Malha, Gyro, etc.; e aqui, por um
grupo de artistas e amadores de Bellas-Artes, sem designao especial de
nome, mas entre os quaes figuravam Marques de Oliveira, Julio Costa,
Marques Guimares, Antonio Costa, o saudoso Xavier Pinheiro, Adriano
Ramos Pinto,--as exposies d'arte teem sido actualmente realisadas pelo
Instituto de Estudos e Conferencias.

D'ahi, do agrupamento desses artistas, e tentados pela gloria de se ver
aplaudidos pela opinio publica e instigados pela critica amiga dos
jornaes, fez-se uma como que revolta no meio da sociedade, que vive um
pouco do espiritualismo Artistico do Bello, e como que resaltou uma nova
pleiade de amadores, que tenta a pintura e a esculptura. No meio d'essa
pleiade resaltam como caracteres artisticos definidos e assentes,
individualidades cujos nomes temos que notar e descrever.

[Figura: D. Alice Grilo Lima]

Apparece no alto, como verdadeira fulgurao na arte de esculpir, a
Duqueza de Palmella, a maior alma de artista que pode ter uma amadora.
Os seus trabalhos perfeitamente executados so confirmaes
indiscutiveis do logar proeminente que ella deve occupar entre os que
so sacerdotes na sublime arte de Milo.

No Porto, como sacerdotisa emerita d'essa arte, temos a Ex.^{ma} Sr.^a
D. Joanna Andressen Silva, de que mais adeante fallaremos em artigo
especial.

Na pintura, confirma-se o que a principio digo, s se exige que as
amadoras tenham talento, para se lhe poder garantir o logar ao lado dos
homens na transplantao para a tela da natureza, em todas as suas
variadas manifestaes. E assim, tanto no Porto como em Lisboa, todos os
dias se fazem novas revelaes de senhoras que so verdadeiros
sportwomen artisticas. E assim notaremos, D. Francisca Furtado, D.
Sophia de Souza, D. Amelia de Souza, D. Julia Molarinho, D. Lucilia
Aranha Grave, D. Olympia Faria de Abreu, D. Maria Afflalo, D. Alice
Grillo Lima, Condessa d'Alto Mearim, D. Maria Luiza Alto Mearim, D.
Branca de Araujo Assis, D. Constancia Avides, D. Maria Idalina Carneiro,
D. Margarida Costa Romo, D. Josepha Garcia Greno, (fallecida), D.
Herminia Victoria Lagoa, D. Amelia Lamas, D. Izabel Areias de Lima
Lawer, D. Leopoldina Maia Pinto, D. Maria Teixeira de Moura, D. Laura
Nobre, D. Clotilde Rocha Peixoto, Viscondessa de Cristello, Ze
Wauthelet Batalha Reis, D. Margarida Ramalho, D. Albertina Falker.

E, tudo isto, pela simples razo de haver exposies, onde se pode
mostrar que se tem aptides para a pintura ou para a esculptura, que se
tem talento artistico emfim.

Portanto, desde que se tenha esse bello dom natural, que faz de ns um
poucochinho mais do que a vulgaridade, no acho razo nenhuma para que
se queira tirar  mulher o direito de publicamente mostrar que  um
pouco superiora s outras. Eu, sou d'aquelles que digo: que o saber no
occupa logar, e, que, antes quero ver uma mulher pintar bem um quadro,
do que pintar os olhos e os labios. No primeiro caso s pode mostrar que
a preoccupa o espirito com alguma coisa donde lhe pode vir honra o
louvor, no segundo caso... que no o preoccupa com nada...


  Setembro 1904.


[Figura: Orchideas--D. ALICE GRILO]




X

NOVAS EXPOSIES D'ARTE


Ao mesmo tempo duas exposies de pintura, uma organisada pelo Instituto
de Estudos e Conferencias, outra organisada pelo snr. Laga. Estamos em
mar d'Arte, no ha que vr. Ora eu, que sou um bisbilhoteiro de mil
diabos, l fui, n'um d'estes ultimos dias de bom sol, visitar as duas
exposies.

Boas e ms impresses trouxe d'estes certamens e  o que muito
despretensiosamente direi para diante, conforme o meu modo de vr.

Tem, j se sabe o primeiro logar, a exposio do Instituto, e tem-no por
muitos e variados motivos; entre esses porque  formada por trabalhos de
artistas, se bem que por l andem anichados puros amadores... Mas, isso
fica para depois, para mais larga conversa quando no houver j que
dizer a respeito dos artistas.

Ao Instituto de Estudos e Conferencias, se deve, em parte, a ameudao
de exposies d'esta natureza; pena  que nem todos os nossos artistas
comprehendam o quanto isto  util para elles.

Sente-se por isso alli a falta dos nossos melhores pintores, e  pena.
No sei, nem tentarei desvendar a razo porque os bons artistas no
querem concorrer, mas sinto profundamente que Salgado, Malha,
Columbano, Carlos Reis, Giro, e outros, se fiquem, l de longe, sem nos
dar o gosto de lhes applaudir e admirar o talento nas suas varias telas,
que so quasi sempre admiraveis. Talvez porque no encontrem no nosso
meio quem os saiba comprehender ou quem os saiba pagar, talvez!...

A exposio, no seu geral,  fraca, sem interesse (que barbaro eu sou).
A no ser uma meia duzia de telas, o resto  insignificante, sem
destaque, morrendo pelo... nem sei mesmo porque... mas fazendo-nos
sentir a saudade das exposies realisadas no Atheneu Commercial, ha
tantos annos j, e organisadas por um nucleo de pintores conhecidos.
Isso sim, isso  que foram exposies onde todos concorriam cheios
d'aquella boa vontade e d'aquelle enthusiasmo que  peculiar s almas
novas; que isto no  dizer que as almas d'hoje sejam almas velhas, no,
so almas novas, mas formadas pelo systema arte-nova, to cheia de
curvas e sinuosidades, que treslouca.

Como de costume, l fui encontrar no catalogo nomes dos que nunca faltam
 chamada, honra lhes seja, Marques d'Oliveira, Torquato Pinheiro,
Candido da Cunha, Jos de Brito e Antonio Costa, e a par d'estes, muitos
outros e alguns que comeam agora a apparecer.

[Figura: D. Sophia de Sousa]

D'entre os artistas, que expem, a meu vr, destacam-se Marques de
Oliveira e Candido da Cunha, que so inegavelmente os que do a nota
pelo seu modo e pelos seus assumptos. Jos de Brito, soberbo no seu
pastel _Um frade_, no resto sempre um tom ingente de nevoa que faz os
seus quadros baos.

Torquato Pinheiro, muito bem no _Retrato de meu filho_, assim como,
gostamos d'elle, nos seus--_Fins da tarde de outomno_ e _Rua de Villa
Real_.

Eduardo Moura, esse pintor, cheio de poesia intensa dos encantos
cazeiros, veio  exposio com dois quadros que j lhe conheciamos, mas
que por isso no deixarei de os mencionar, especialisando para meu gosto
o--_Servio feito_, que acho primoroso.

Prat, com os seus estudos no foi completamente feliz; destacam no
entanto a _Cabecita de burro_, que me no desagradou.

Victorino Ribeiro, com o seu--_Esperando um amigo_, est bem
apresentado.

D. Sophia de Souza, regularmente, se bem que se nos tenha mostrado em
outras exposies muito melhor.

D. Aurelia de Souza, com o seu estudo--_Um africano_, muito bem.
Emquanto ao resto dos seus trabalhos achei-os inferiores ao seu muito
talento artistico.

Antonio Jos Costa, como sempre, o primoroso pintor de flores, d-nos
umas _Camelias_ bem tocadas e muito frescas.

De Julio Ramos, pouco ou nada mais temos a dizer do que o j temos dito:
tem talento e sabe do _metier_. A sua _Marinha_  para mim o seu melhor
trabalho n'esta exposio.

Almeida e Silva, esse, parece que desandou; as suas telas so
demasiadamente recortadas e esmiuadas. Lembrei-me com saudade de outros
quadros seus, expostos em tempos idos, como por exemplo, um _Viatico na
aldeia_ e um _Cabea de cabrito_.

Augusto Ribeiro,  um trabalhador incansavel, produz de mais. Desenha
bem e pinta com certo gosto, mas pinta muito. Tem na exposio alguns
quadros de valor e a _Marinha da Foz_, _O atalho ao sol_, so bons. Como
notas typicas do nosso meio so interessantes as manchasitas do
_Bolho_, _Anjo_ e dos _Ferros Velhos_.

[Figura: Marques de Oliveira]

Francisco Gil,  um pintor da Figueira da Foz que tivemos o prazer de
vr pela primeira vez; os seus trabalhos so (perdoem-me o francez)
_comme ci comme a_.

Lago Pinto,  um novo que promette muito e que se apresenta com vontade
de fazer alguma cousa. So muito recommendaveis os seus quadros _Fim da
tarde_ e _Lavadeiras_, em que a agua est bem estudada.

Teixeira Bastos,  um pintor de Lisboa que veio ao Porto mostrar-nos que
tem talento artistico, dando-nos a impresso de que v muito bem. O que
especialmente o torna notado  o magnifico tom de luz que d aos
quadros. _Os castanheiros_, foi para mim o que mais me agradou; so
dignos de meno a _Cabea da rapariga_ e _Canto do Rato_.

D. Leopoldina Pinto  uma amadora distincta.

Carlos Gomes Fernandes,  tambem um amador que comea.  provavel, que
de futuro nos d quadros, que se tornem notaveis, por emquanto , a
nosso vr, um amador que tem vontade de fazer alguma coisa.

Fallei de todos mas deixei para o fim Marques de Oliveira e Candido da
Cunha, porque a meu vr so os dous pintores que attestam profundamente
o seu temperamento artistico.

[Figura: Flores--D. Leopoldina Maia Pinto]

Marques de Oliveira  inegavelmente um mestre e no era preciso que eu o
dissesse, eu que sou um _zero_ no nosso meio critico. Os seus quadros
_Cercanias d'Agueda_, _O Combro_ e as _Lavadeiras_ so obras primas de
desenho, de cr e de luz.

Candido da Cunha, poeta triste da pintura, amando a luz iriada dos
poentes, d-nos quadros maravilhosos, destacando como floro da sua
cora de artista a _Hora nostalgica_. No devemos porm esquecer a sua
_Casa rustica_ e os seus _Moinhos em Lea_. Ha tambem na exposio um
trabalho d'este artista que me extasiou.  o retrato da esposa do
pintor, feito a carvo (claro escuro). Trabalho que por si s bastaria
para n'outro meio, que no o nosso, dar o nome a um artista. Correcto de
desenho,  superiormente primoroso.

Falta fallar d'um amador, to distincto que no pude fugir ao desejo de
lhe reservar um logar mais para o fundo, para que fizesse alguma
impresso d'elle, ao leitor amigo, que tivesse a pachorra de me lr at
ao fim. Refiro-me a Alberto Ayres de Gouveia, discipulo de Marques
d'Oliveira e que honra o mestre. Sabiamos de ha muito que este
cavalheiro se dedicava  pintura, mas francamente, julgavamos que elle
fosse um _dellitanti_ como muitos outros, que tendo tempo livre, se
entretinha a fazer pequenas cousas sem valor, mas, ao comtemplarmos a
sua obra, ficamos confuzo. Era uma revelao... Trabalho agigantado o
seu, topando um assumpto sublime, tal como a _Vida de Jesus_. Pintor
mystico com tal pujana nunca o imaginaramos. Vemos que elle se sae
brilhantemente da empreza em que se metteu. Os seus quadros a _Palavra
do Mestre_ e o _Christo morto_ so verdadeiras obras d'arte. Figuras
estudadas com cuidado, pousadas naturalmente sem poses academicas, tendo
vida e verdade, luz e cr escolhidas com sciencia; pinceladas largas e
justas eis o que se encontra n'aquelles dois quadros.

[Figura: A Caridade--TEIXEIRA LOPES]

No seu _Lettre de Colombine_, ha um effeito de luz admiravelmente
estudado. Mas, Ayres de Gouveia no  s correcto nos seus quadros
biblicos e de phantasia, -o tambem quando faz o retrato, assim podemos
dizer que  bom o seu oleo e retrato de mademoisselle M. F. A.

E desenhando a pastel ou a claro-escuro, tambem se nos revela um
verdadeiro artista; so para notar o seu _Apollo_ e _Retrato de
mademoiselle Allen_, (ambos a pastel) _e cabea de estudo_, (a crayon).

Mas, no digamos mais nada d'esse amador, que podem julgar para ahi que
eu sou amigo d'elle e vim aqui s para o elogiar, e eu no quero isso.

Passemos agora rapidamente  esculptura, deixando em branco as
aguarellas, porque francamente no gostamos de nenhuma.

Em esculptura destaca-se em primeiro logar Fernandes de S com a sua
_Cabea de Velho_ e o _retrato do medico Correia de Barros_, este ultimo
um trabalho flagrante de verdade.

D. Joanna Andressen revela-se-nos uma amadora distincta, pois em pouco
tempo fez progressos grandiosos.

D. Albertina Falker: no gostei do seu _Bb_. No sei que lhe achei de
mau, talvez a posio d'aquella cabecita... No sei...

Com respeito a arte applicada, s direi, que tenho visto muito melhor do
que aquillo.

E acabou-se a resenha das minhas impresses.

Antes, porm, de fechar este despretencioso artigo uma, como que nota
final.

Eil-a:


Uma coisa urge fazer de futuro em exposies congneres. Destacar em
grupos definidos os artistas e os amadores; a cada um o seu logar.

Podero mais facilmente ser apreciados os seus trabalhos, e no teremos
ao primeiro relance uma impresso to m. Aproveitam todos mais, os
artistas, porque juntos, ver-se-ho obrigados a applicar todas as suas
aptides para se destacarem uns dos outros: os amadores, no seu modo de
fazer um pouco _gauche_, no tero o confronto dos quadros dos mestres
que, quasi sempre, os esmagam. Assim, ao entrar n'um _Salon_ tanto o
critico d'arte, como o amador ou o indifferente, saber, logo o desconto
que tem a dar aos trabalhos, dos que comeam, ou fazem arte para
entreter e no far injustas apreciaes. Este,  o meu modo de vr e
penso bem que os proprios artistas me acompanharo n'elle.

Quando porm um amador se impozer pelos seus trabalhos, como os de
Alberto Ayres de Gouveia, ento que entre desassombradamente no gremio
dos artistas e que se sujeite  critica rigorosa dos que sabem do
assumpto.

Emquanto assim no acontecer, estas exposies no tero um caracter
definido, no tero o ar correcto d'um verdadeiro _Salon_. Dar-nos-ho
simplesmente a impresso da sala d'um burguez endinheirado, que finge
ter gosto pela Arte.

Ahi fica a impresso que me deixou a visita feita  Exposio de Pintura
do Pateo da Misericordia.


Dezembro de 1902.


[Figura: Panneaux decorativo na Sala da Bolsa do Porto--VELLOSO SALGADO]




PINTORES PORTUENSES

[Figura: Eduardo Moura]

[Figura: Jos Teixeira Lopes]

[Figura: Julio Ramos]

[Figura: Candido da Cunha]




XI

Uma Exposio de Aguarellas

ORGANISADA por AMADORES


N'um dos sales do Palacio de Crystal, acaba de ser aberta uma Exposio
de Pintura, onde o professor portuense de desenho Joaquim Marinho e suas
discipulas, sujeitam  apreciao do publico os seus trabalhos.

Fui, como  meu costume, vr a Exposio, sem a preoccupao de critico
d'Arte, como um bom _vivant_, um mero collecionador, affeito um pouco a
vr com os olhos do espirito, alm dos olhos da cara.

No terei portanto aqui, n'este modesto _compte-rendu_, phrases
empulgantes, nem sentenas judiciosas sobre os trabalhos expostos.
Modesto ser o meu artigo como modestos so os expositores. Deixo aos
outros, aos que sabem de tudo, aos que chamam a quadros a oleo
_cromolytographias_, essa extraordinaria tarefa de dizer muito e
retumbante, sem dizer nada.

[Figura: Joaquim Marinho]

Fui, como disse acima, vr a Exposio e gostei; entre os quadros
expostos ha alguns que destacam, como manifestaes de estudo e talento.

No farei a resenha detalhada d'elles, nada d'isso, smente indicarei os
que mais fundamente me impressionaram.

Esto n'este caso, como decorativos, os apreciaveis trabalhos a pastel
de Joaquim Marinho, _A Camponeza_, e os de D. Zulmira Almeida e D.
Izolina B. S, _Imitaes de azulejos_. So de completa novidade, dando
uma nota fulgurante de boa concepo e execuo. Estas duas senhoras,
entre varios outros trabalhos, teem mais, a primeira, duas paisagens em
pastel, magnificas; a segunda, uma marinha muito acceitavel.

Ha mais uma _Cabea de creana_ (pastel) de D. Maria Leonor, que me
impressionou deliciosamente. Esta senhora expoz tambem dous outros
quadros, (pasagens), tambem a pastel, muito interessantes.

D. Guilhermina Marinho, com os seus estudos a aguarella, revela-se-nos
uma amadora distincta e conscienciosa; destacarei d'entre elles os
_Recuerdo del Paiz Vicino_, (interessante scena de bailado em Andaluzia)
e _Rapaz de Aveiro_. Primorosos.

[Figura: Paisagem--Aguarella de J. TEIXEIRA LOPES]

D. Maria Joaquina, d-nos duas pequeninas impresses de Vizella, muito
interessantes.

Deixei para o fim propositadamente o fallar do professor. Este, expe,
entre outros, um quadro que eu admiro pelo modo como est feito.  um
trabalho a carvo de grandes dimenses e chama-se a _Batalha de
Malmaison_. Todo aquelle cu est bem trabalhado e cuidadosamente
desenhado.  magnifico.

Tem tambem tres trabalhos a carvo, em madeira, que so interessantes e
apresentam muita novidade. Um d'elles especialmente _Um boi_, est
magnificamente bem feito.

No me alargo mais n'este meu modesto artigo, mas ao terminar no posso
deixar de manifestar aqui o meu applauso ao iniciador d'este certamen
d'Arte, animando-o a que continue a mimosear-nos com exposies como
esta, que distrahem a vista e consolam a nossa alma, farta das
ignominiosas scenas, que vo por esta terra. Aquillo  como um banho
santo ao nosso espirito enervado e doentio.

Parabens, pois, pela sua exposio.


  Novembro de 1900


[Figura: Cabea de estudo--Pastel de JOS de BRITO]




XII

PINTORES PORTUENSES

THOMAZ DE MOURA


Eu sou d'estes sujeitos que gosto muito de vr e de apreciar tudo quanto
de Arte apparece no nosso restricto meio, e por isso fui ha dous dias
at  Photographia Guedes, visitar a exposio de quadros de Thomaz de
Moura.

Conhecia j este artista d'uma exposio, que em Lisboa se realisara,
nas salas da Sociedade Nacional de Bellas Artes e onde elle concorrera
com sete quadros. N'essa occasio e em um jornal da capital tive
occasio de manifestar a impresso que ento recebera dos seus
trabalhos. Hoje, porm, que elle no Porto se nos apresenta, no  muito,
que, mais uma vez, me occupe dos seus trabalhos, n'uma rapida noticia,
sem philosophia d'arte nem detalhes de apreciao, mas unicamente n'uma
resenha breve e simples do que vi.

[Figura: Thomaz de Moura]

Na sala do nosso amigo Guedes de Oliveira, esse bello rapaz, amigo
dedicado dos artistas e to artista como elles, reune Thomaz de Moura 39
trabalhos, que do a nota verdadeiramente accentuada do seu temperamento
artistico.

Talvez, porque a sua alma seja d'um contemplativo, ou d'um triste, ha
nos seus quadros um quer que seja de nostalgico e de sugestivo. No 
d'aquelles pintores que distribuem, s pinceladas, nos seus quadros, as
tintas fortes e vibrantes; os vermelhos carmins e ocres amarellos. No,
enche as suas telas d'umas tintas doces e melancholicas. Depois ha ali
muita paisagem dos paizes brumosos, trabalhos que elle executou l por
fra nas suas viagens de estudo. E a paisagem da Frana e da Bretanha,
essa paisagem,  muito differente da nossa. L, no se encontra um cu
como o nosso, claro e limpido, onde as aves passam n'um vo chilreante
de alegria, o sol de l, como que apparece envolvido em gaze, no 
retumbante e claro como o nosso e as tonalidades da vegetao tem aqui
um forte destaque de frescura que falta n'esses paizes.

E,  talvez d'isso que se sente o nosso artista. Mas, quando elle
retratar a nossa paisagem, esse Minho encantador, ento, vel-o-hemos
accentuar perfeitamente as nossas cres e nosso tom.

Algumas das telas apresentadas j so da nossa paisagem, mas, vistas um
pouco ainda com a vista habituada ao cinzento das paisagens brets,
d'ahi o no terem a nitidez accentuada da paisagem portugueza.

D'entre todas essas telas destacarei para mim como a mais subtilmente
inspirativa--_Christo lamentando Jerusalem_, de linhas definidas embora,
em esquicio, de uma concepo bella, d'um effeito sentimental e de uma
suave expresso.

_Os cuidados de me_, que eu j conhecia, so um estudo de interior que
revela muito saber e muita observao.

_O fim da tarde_, delicioso poente, onde o cu tingindo-se de vermelho,
d ao quadro uma inspirao suave do quer que seja de poesia lyrica.

_No limiar da porta_, bella cabea de rapariga, d'um olhar aveludado e
triste, de quem espera por alguem; talvez pelo seu namorado.

No _Cabea de rapariga bret_, ha a mesma serenidade que no _Limiar_.

_Um caminho_,  um bello retalho de aldeia, um caminhosito tortuoso
coberto por uma frondosa ramaria. Appetece descanar um pouco, ali, aps
um largo passeio.

_Os casebres de Alfena_, _O lavadouro_ (Guisec), _Audes_ (Vizella),
_Ribeira de Pont d'Abb_, e mais outros ainda, so manchas tocadas com
primor e com muita proficiencia.

_Os pequenos marinheiros_,  um quadro onde se revela d'uma maneira
accentuadamente definida a disposio que Thomaz de Moura tem para a
figura. Os dous rapazes esto perfeitamente desenhados e sahem da tela
accentuadamente.

Ha um quadrosito tambem notavel,  o _Nos campos_, um pequeno sentado
sobre a relva parece desfolhar malmequeres emquanto ao fundo, sob um
trao de luz, pastam dous mansos bois,  inegavelmente um dos mais
apreciaveis trabalhos expostos.

Mais largo poderia e deveria ser este _compte-rendu_ da exposio, mas
eu prometti apenas uma ligeira noticia, e as minhas aptides criticas
no do para mais.

E ao acabar permitta-me Thomaz de Moura, que lhe signifique n'estas
rapidas linhas a magnifica impresso que me deixou a visita que fiz 
sua exposio.


  1904.


[Figura: Panneaux decorativo na Sala da Bolsa no Porto--VELLOSO SALGADO]




XIII

AMADORES PORTUENSES

D. JOANNA ANDRESSEN SILVA


Sinceramente e no mais grato dos respeitos vou deixar em breves linhas
as minhas impresses sobre o merito artistico d'esta illustre senhora,
amadora distincta d'esculptura, illustre pelo talento e pela fidalguia
do caracter, um caracter d'oiro, propenso ao bem, cheio de f e de
bondade.

[Figura: D. Joanna Andressen Silva]

Eu sei que biographar um amador  trabalho de certo folego, muito
especialmente quando o amador  distincto, como esta illustre senhora;
mas eu no venho com mais largas ideias que fazer uma simples resenha
dos seus trabalhos, resenha esta que servir ao mesmo tempo de ligeira
nota de carteira da visita que fiz ha dias ao seu atelier. A isso, s a
isso, me abalano, convencido de que cumprindo um dever de cortezia
presto ao publico, ao que aprecia as manifestaes d'Arte, um
interessante e util favor.

No me alargarei em detalhes minuciosos do grande problema--a _Arte_.
Rapidamente, aqui e alli, tocarei aquellas notas, que veja de mais
necessidade ferir, para completo comprehendimento do assumpto.

N'esta altura, cabia perfeitamente, como preambulo a estes
_pseudo-perfis_, uma larga tirada sobre _Escolas d'Arte_, _Evolues da
Arte_, _Variedade de gostos artisticos_, _Papel moral da Arte_, etc. No
enveredarei por esse caminho, deixo esse estudo aos outros, aos que com
mais direito e mais conhecimentos possam fallar do assumpto.

Sou apenas uma especie de _reporter artistico_, que vem sempre que
d'isso tem occasio, trazer a noticia d'um amador que se torna notado,
d'um artista que est em fco, d'um atelier que se recommenda pela sua
disposio e pelo _recheio_, e d'um _salon_ que se abre em exposio de
trabalhos _isolados_ ou _collectivos_.

[Figura: Salo do palacete de D. Joanna Andressen Silva]

Feitas as precisas explicaes, vou dar principio  minha singela
narrao, sem balofas adjectivaes e sem assumir o ar solemne e grave
de _Pater Magister_. Serei simples e breve como convem aos que escrevem
para todos: para os que se embrenham nos profundos e intrincados
problemas sociaes e artisticos e para aquelles que s sabem ler. Farei
portanto todo o possivel para que facilmente me faa compreender e
alguma coisa de util, traga, ao fim, em bem da Arte.

Foi n'uma manh formosissima, de sol forte e claro que fiz a minha
primeira visita ao atelier da Ex.^{ma} Snr.^a D. Joanna Leheman
Andressen Silva.

Ao fundo da Rua Antonio Cardoso, rua que partindo da formosa Avenida da
Boa-Vista, vae findar no Campo Alegre, fica o sumptuoso palacete onde
reside esta talentosa amadora. A vivenda s em si  um encanto. A bella
casa, circumdada de formosos parques e jardins, tem um aspecto grandioso
e rico que se impe. Os jardins e o parque que a rodeiam so deliciosos
trechos onde as musas predilectas bafejam e inspiram os menos lyricos a
compor deliciosas bucolicas e onde os menos artistas encontram retalhos
de paisagem encantadora e suggestiva para transplantar  tela. Eu no
posso fallar d'essa paisagem adoravel que me no sinta enlevado pelos
seus encantos naturaes. Como  bello tudo quanto d'alli se avista! Como
 soberbo todo esse quadro immenso, cheio de vida e de luz, deixando-nos
apreciar por momentos o bulicio da cidade, a serenidade das aguas do
Douro, que serpeia l em baixo, a agitao continua do mar, cujas ondas
se vem ao longe n'um revolutear continuo, e a tranquilidade da vida
alde, que se adivinha com as primeiras casinhas que se descobrem do
outro lado, no Monte das Chs!...

[Figura: Canto do Atelier]

Transpostos o jardim e o parque entra-se n'uma ampla galeria, onde,
_bibelots_ caros e artisticos se juntam n'uma delicada confuso que
contrasta com o fino do mobiliario e a riqueza das tapearias. Apenas
alli introduzido, logo me appareceu a distincta amadora, cheia de
attenes e cuidados que encantam, convidando-me a visitar o seu
atelier. Acedi da melhor vontade e caminhei vagarosamente encantado pela
conversa fluente e interessante da illustre senhora que tem a alma d'uma
fina artista e a virtude d'uma delicada e cuidadosa dona de casa.

N'essa passagem atravez de todo o interior formoso e confortavel da
habitao, passagem que fiz com a religiosa unco de quem visita um
museu intimo, tive a grata ventura de pousar a vista em admiraveis
trabalhos de Antonio Teixeira Lopes, Marques d'Oliveira, Julio Costa,
Julio Ramos, Candido da Cunha e muitos outros, e entre estes alguns dos
mais consagrados artistas estrangeiros.

[Figura: Busto de mademoiselle Eliza Andressen]

E tudo isto, todo este batalho de Arte se espalha pela casa,
gentilmente, nos seus logares proprios, n'uma bem estudada escolha de
luz.

Entramos na sala de jantar depois de termos atravessado o salo de
baile. Maravilhou-me a magnificencia das pratas, das louas e dos
crystaes, mas acima de tudo a confeco e o estylo do mobiliario.
Avancei uma pergunta:---Quem fra o auctor d'aquella maravilha? Quem a
desenhara?

E a distincta amadora, sorrindo, contou-me a historia d'aquella mobilia,
dizendo n'uma adoravel simplicidade que para a sua execuo fizera dous
desenhos; um era aquelle, o outro, mais decorativo, mais cheio de
flores, fra posto de parte porque seu primeiro marido no gostara
d'elle.--E eu tambem, concluiu a illustre amadora.

Assim devia ser, porque, por mais formoso que o outro fsse, aquelle
desenho que alli estava, com certeza o havia de supplantar, porque  uma
verdadeira maravilha de Arte, quer em concepo, quer em execuo.

Em seguida atravessamos o jardim, onde brincavam os filhinhos de D.
Joanna, e passamos ao atelier.  este construido sob a sombra protectora
e amiga d'algumas bellas arvores; banha-o de luz intensissima uma larga
janella que l do alto se abre para a estrada.

Uma vez alli dentro, analisei detidamente tudo o que l se achava, desde
o mais insignificante desenho at  mais bem lanada esculptura, desde a
mais pequena revista at ao mais precioso livro de Arte. E apoz isto,
entrei n'um largo inquerito. Sentados n'uns artisticos escabelos,
conversamos um pouco sobre arte, discutimos escolas e processos,
analisamos rapidamente trabalhos que conheciamos de memoria e por ultimo
fallamos da educao artistica da nossa gente. N'esta altura averiguei
que D. Joanna desde creana revelara uma grande disposio para a
esculptura.

Seu pae, um bom e honrado negociante allemo, que viera para o Porto
estabelecer-se, pratico como era, costumava brindar seus filhos com
livros de desenho, que mandava vir d'Allemanha. D. Joanna toda se
enthusiasmava com esses brindes, que collecionava cuidadosamente e
d'onde fazia copias para estudos, revelando desde essa epocha uma
vocao especial para o desenho.

[Figura: Busto de mademoiselle Ramos Pinto]

Quando menina teve como professora Madame Bizarro, que bem conhecida foi
no Porto pelos seus trabalhos em miniatura e bordados.

Foi, portanto, sob a direco d'esta desenhista correcta e sabedora que
ella comeou a seguir verdadeiramente o caminho da Arte. Depois, foi por
algum tempo para a Allemanha, e ahi, vivendo na intimidade da familia
Katzenstein, teve occasio de acompanhar muito de perto e receber mesmo
indicaes utilissimas do conhecido pintor Katzenstein, irmo do Consul
d'Allemanha n'esta cidade. Durante essa epocha D. Joanna amavelmente
_pousou_ para modelo de algumas das figuras dos quadros d'esse
excellente artista, j por vezes devidamente apreciado no Porto, por
quadros de certo merecimento artistico, que tem exposto em varios
certamens a que tem concorrido.

Com estes dois impulsionadores, Madame Bizarro e Katzenstein, D. Joanna
volta a Portugal, cheia d'uma grande boa vontade de ser alguma coisa
mais do que a vulgaridade no nosso meio artistico. E para isso chama
para lhe completar a educao d'arte dous dos mais notaveis artistas e
mais insignes professores: Marques d'Oliveira, o paisagista sabedor e
poetico e Teixeira Lopes o genial estatuario, cujo nome  uma verdadeira
gloria da Arte Nacional.

E, recebendo lies d'um e d'outro com um aproveitamento pouco vulgar,
D. Joanna revela-se no uma amadora distincta, mas uma distinctissima
artista. Affirmam-no exuberantemente os seus trabalhos, internecedores
pelo encanto com que so concebidos e executados.

[Figura: Busto de Mademoiselle Maria Joanna Andressen]

D'alguns d'esses magnificos trabalhos vo aqui photogravuras, pelas
quaes facilmente se v que aquillo que affirmo no  seno a sentida
expresso da verdade. Na photogravura _Recanto de atelier_, ha uma
figurita sobre a meza, _maquette_ de um trabalho em tamanho natural, e
que se intitula _Rapaz jogando a malha_, que  um assombro de bem
executado.

Entre os gessos que ornam o atelier ha um que merece especial menso. 
um _Christo na Cruz_ original do grande e saudoso Soares dos Reis.

Nos trabalhos de D. Joanna salientam-se duas _Cabeas de rapazes_,
bustos de dois filhos seus, mas dos quaes por motivos especiaes no pude
obter photographia.

Parecer ao leitor que quem executa to bellos trabalhos no necessita
mais de professor; no o entende assim D. Joanna e, n'essas condies,
como quer ser tambem alem de esculptura uma pintora distincta, ouve e
recebe orientaes e lies do velho Costa, o meu querido amigo Antonio
Jos da Costa, o artista que mais linda e sabiamente pinta flores em
Portugal.

 desnecessario proseguir. J fica dito o bastante sobre as impresses
recebidas na primeira visita que fiz ao atelier de D. Joanna Leheman
Andressen Silva, n'essa manh deliciosa, de que conservo as mais gratas
recordaes, no s pelo prazer de avaliar de perto os superiores
trabalhos d'essa illustre amadora, mas muito especialmente pelas
preclaras virtudes do seu caracter delicado e requintadamente
attencioso.

Ficarei por aqui, convencido de que a critica sincera e desapaixonada,
dos Mestres d'esta boa terra portugueza, hade dizer mais e melhor, sobre
os meritos artisticos da illustre senhora a quem acabo de referir-me,
quando um dia tiver de apreciar devidamente os seus trabalhos.

[Figura: Guarda fiel--ANTONIO JOS da COSTA]




XIV

PINTORES PORTUENSES

ANTONIO JOS DA COSTA


Ha nomes que, em qualquer parte que se pronunciem, se impem 
considerao de todos ns.

O que encima este artigo  um d'elles.

Como homem e como pintor Antonio Jos da Costa deve ser respeitado e
admirado. Como homem porque  um cavalheiro em toda a acepo da
palavra; como pintor porque  um mestre.

[Figura: Antonio Jos da Costa]

 muito grande a minha ousadia, em tentar desenhar, n'um pequeno artigo,
uma figura culminante da pintura em Portugal; e no vos admireis,
leitores amigos, que eu diga isto, nem julgueis que, ao afirmal-o,
queira empanar a gloria de muitos dos nossos pintores. No. Se considero
Antonio Jos da Costa um grande artista, no quer isto dizer que o
julgue maior que alguns outros, mas simplesmente accentuar que elle  um
dos grandes artistas da pintura em Portugal.

Para mais ao deante reservaremos o fallar d'esses artistas, grandes como
este ou talvez ainda mais, mas, cada um no seu genero.

No quero, nem procuro saber quando e como  que Antonio Costa se fez
pintor: o que tento  provar que elle hoje , em Portugal, um soberbo
paisagista e o primeiro pintor de flores. E se conseguir isto parece-me
que terei dado o meu tempo por bem empregado. Que o mais facil e o mais
demonstrativo seria dizer: vde esses quadros de que vos dou a gravura;
vizitae as muitas casas de amadores onde elles esto espalhados: vizitae
as exposies onde elles apparecem; ide ao atelier do artista e ficareis
convencidos d'esta verdade indiscutivel.

[Figura: Rosas e Peonias--ANTONIO JOS da COSTA]

Mas isso  infelizmente impossivel; os amadores que possuem quadros, com
raras excepes, fazem monopolio dos trabalhos que compram, parecendo
ter medo que os outros, s de lh'os verem, lh'os damnifiquem. E o
artista mora l para Bellos Ares, to longe do centro da cidade, que,
chegados ao seu atelier, o canao seria tanto que no vos deixaria vr
com a devida atteno, as lindas coisas que elle vos mostraria.
Descanai pois que eu,--dando-vos, a traos largos, um relato da obra do
artista--vou privar-vos da fadiga d'essa romagem.

       *       *       *       *       *

Para a pintura como para todas as demais manifestaes da Arte 
necessario, em logar primordial, a disposio natural do individuo. No
basta s a boa vontade. Mas quando esta se alia quella ento tem-se
realisado o supremo ideal, e, embora diga o ditado que querer  poder
n'este caso esse ditado falha porque muitos artistas conheo eu de muito
boa vontade e que querem chegar a onde vo os mestres e nunca l chegam.
E porque? Porque lhe falta a _bossa_ artistica, a disposio natural.

[Figura: Outros tempos. (Esboo)--ANTONIO JOS da COSTA]

Ora com Antonio Costa d-se o caso de elle ter, alem da sua grande boa
vontade, a intuio, a disposio natural para a pintura.

 um paisagista, com uma vista perspicaz de observador, que, ao tracejar
um estudo, faz resaltar logo a nota caracteristica e determinante do
assumpto. E ao olhar esse estudo, no conjuncto de cores e de tons, ns
temos a impresso completa e perfeita do que elle queria dizer nos seus
quadros. Dous esboos acompanham este trabalho, e ambos demonstram
sobejamente o movimentado assumpto, que nos seria revelado pelos
quadros, se elles tivessem tido completa execuo.

No primeiro, que chamarei _Outros tempos_ e que tem o duplo interesse de
ser um repositorio de figuras conhecidas e muito populares no Porto,
taes como o Dr. Pimentel, pae do escriptor Alberto Pimentel, o Amorim
Vianna, o professor Joo Correia, o pintor Rezende, o Brown, etc., que,
na janella e na rua, assistem ao desfilar do regimento onde estamos a
vr perfeitamente o ar aguerrido e os jogos malabares d'esse grupo de
porta-machados e seu tambor-mr que, descendo pela rua da Sovla abaixo
viram para o seu lado direito, para a travessa de Cedofeita, n'uma
cadencia de marche-marche. E na massa quasi informe que os segue ha a
intuio caracteristica do grosso do regimento.

[Figura: No Pinhal. (Esboo)--ANTONIO JOS da COSTA]

No outro, n'um pinheiral esguio, onde bate o sol, veem-se duas figuras
por determinar, estando uma com seu guarda-sol aberto; o terreno 
empastado e ha no horisonte um quer que seja que nos diz que ali  o
mar. Mas nada d'isto est definido, nada disto est executado e, no
entanto, ns vemos perfeitamente n'aquellas manchas que o quadro seria
assim.

Ora esta particularidade, este modo de fazer os estudos  que s 
peculiar a quem nasceu para ser artista, e Antonio Costa -o e em alto
grau.

Depois, como desenha admiravelmente e possue essa grande propriedade de
saber vr os motivos a pintar, d'um pequeno retalho de paisagem, d'uma
cancella, d'um casebre tosco, d'um porto de Quinta, d'um _nada_, faz um
quadro que  sempre um encanto. Muitos e muitos so os seus trabalhos
n'este genero. E mesmo n'aquelles, que a critica no acha completamente
bons, ha sempre alguma cousa, muito at, que  excelente.

Por acaso tenho aqui na minha frente um jornal de 1893 onde um dos
nossos criticos d'arte de mais cotao no Porto, diz o seguinte a
respeito d'um quadro de Antonio Costa, _Portaes do Maro_:  um pedao
de pintura feito com uma sinceridade emovidissima de sensao e uma
franca aco de pincel; em toda a obra do pintor portuense eu separo
esta como a que melhor denunca o seu talento por vezes desigual, com
caprichos de intermitencia, mas talento legitimo testemunhado nos
intervalos de superioridade com um explendido entono glorioso...

Ora este attestado passado ha onze annos ao meu perfilado  a
confirmao do que venho dizendo, e como na arte no  vulgar andar-se
para traz, mas sim cada vez mais aperfeioar-se, cada vez mais estou na
minha, que, se elle n'esse tempo era um bom artista, hoje  um grande
artista.

[Figura: Camelias--ANTONIO JOS da COSTA]

Mas, Antonio Jos da Costa que, alem de pintor, tem o quer que seja de
floricultor, um dia, ao cuidar das suas camelias, dos seus chrisanthemos
e das suas rosas, resolveu, tal como as via, transplantal-as  tela, em
pintura; e, com o seu muito saber e o seu arreigado gosto artistico,
comeou de nos dar quadros to admiravelmente lindos e frescos como as
flores que cultivava, e assim se fez o deslumbrante pintor de flores que
agora .

Ha no espirito de muita gente que pinta, a crena de que as flores so
de facil execuo e d'ahi esse enxame de amadores, que nos surge de
todos os lados desatando a copiar flores dos modelos que a Frana e a
Allemanha nos exporta continuamente. E pintam flores... mas que flores,
Santo Deus!!!!

Para pintar flores  necessario ter na paleta alem das tintas fortes e
vivas... um certo qu de orvalho, um pouco de sol e uma poro de ether,
esse fino fluido que nos cerca. Ora isto  que s elle tem, s elle
possue.

[Figura: Junquilhos e Camelias--ANTONIO JOS da COSTA]

As suas camellias so to frescas e to carnosas que temos a impresso
de que, se as tocassemos, ellas amareleciam tal qual as naturaes. Os
seus chrisanthemos, na variadissima e arrevesada forma das suas petalas,
parecem sair da tela em contorneaes exoticas, envolvidos no tal ether
em que fallei mais acima.

E as suas rosas, d'uma frescura e d'uma suavidade unica, ora aveludadas
como seios de mulheres lindas, ora transparentes como gottas de orvalho,
so admiraveis; parece at exalarem, em delicias, o aroma que lhes  to
caracteristico.

Em todas as suas flores emfim, existe o supra-summo da verdade e da
perfeio...

Ao olhal-as no nos julgamos em frente d'um quadro, julgamo-nos n'um
jardim...

Mas no so s flores que elle pinta deliciosamente. As fructas, tambem
so tratadas por este artista com o mais desvelado e carinhoso amor.

Conheo alguns quadros n'este genero que so um verdadeiro assombro.

Melhor do que eu porm fallam as gravuras publicadas no _Portugal
Artistico_, reproduco de alguns quadros de Antonio Jos da Costa.

E julgo ter assim cumprido o meu dever de homenagem a um artista
respeitado e querido.


  1904.


[Figura: Junto ao Cruzeiro--ANTONIO JOS da COSTA]




XV

EM FRENTE D'UM CARTAZ!...

CHRONICA DO "MONITOR"


Antes de entrar no assumpto da minha Chronica, duas palavras de
desculpa.

No appareci na ultima semana porque estive com as _maleitas_, um diabo
d'umas febres que apanhei quando era rapaz e ia brincar para os campos
do Cyrne, alli para os lados do Reymo.

Pois essas _maleitas_, vieram atacar-me traioeiramente, como costumam,
e quando eu me dispunha a escrever a Chronica tive de me enfiar em _vale
de lenoes_ a tremel-as... Um martyrio, que nem o leitor imagina.

Unica razo porque Vossas Excellencias se viram livres da minha proza a
semana passada. Hoje, porm, no escapam. Estou agora fino como um pro
e muito _bravo_.

Portanto, se virem que arranco da espada com valentia, no vos
afflijaes, porque ella  de _cortia_, como era a da _Justia_, para
matar a _Carria_... Ora pois, como a espada  de cortia, no corta, o
mais que pode fazer  arrolhar. Adiante.

No alto d'este arrazoado escrevi eu:--_Em frente d'um cartaz_!...--E
sabeis a que cartaz me refiro? No sabeis? Pois ides sabel-o. Ao cartaz
executado por Julio Machado para reclame aos festejos carnavalescos no
Porto.

--Porque vai elle dedicar uma Chronica a este cartaz, perguntaro l de
si para comsigo os leitores?

--Por um simples motivo, meus senhores, porque entendo, que aquillo est
muito longe de ser o que se desejava. Julio Machado , inegavelmente,
um bom artista, mas, d'esta vez, no trabalho apresentado deixou muito a
desejar.

No quer isto dizer que elle esteja mal feito, mal desenhado, mal
colorido; no, o que quer dizer  que no era aquillo que se queria.

Que se queria, no digo bem; que eu queria e a maior parte do publico.

Aquillo,  um lindo desenho, para figurar em ponto pequeno, em uma
pagina de revista, na capa d'um livro, ou ainda dum reclame-programma,
para distribuir nos theatros, ou na rua.

Finura de trao, cuidado de desenho, doura de cores... tudo alli ha;
mas, faltam-lhe os requisitos essenciaes para o verdadeiro cartaz:
largueza de trao, cres fortes e retumbantes, cres, que collocadas
pelas paredes, tilintassem como crystaes que se partem, retumbassem como
troves, vibrassem como clarins, ou refulgissem como o sol.

[Figura: Cartaz--JULIO MACHADO]

Acima de tudo isso, era preciso que tivesse o caracter genuinamente
portuguez, que infelizmente no tem. As figuras passam n'elle como se
fossem a reproduo d'uma festa em pleno Paris---o _Boi gordo_, por
exemplo.

Unicamente, como nota portugueza, no primeiro plano um busto de
_lavradeira_, e l entre essa multido apenas um _capote e leno_, como
que querendo fugir para fra do trao delimitador do caixilho, talvez
embaado de se vr seguido por tanta gente, que elle nem sabe quem .

Os nossos mascaras caracteristicos, os _chechs_, os _lavradores_, os
_bebs_, os _gallegos_, etc., etc., que davam a nota definida do nosso
carnaval, esses, fugiram n'um desespero de se verem amarfanhados
n'aquella _pele-mele_ de mulheres em _maillot_, e mascaras que ns no
conhecemos.

Mas a culpa no foi do artista. Elle viu assim o carnaval; viu n'aquella
_cocote_ fina e delicada, que o _pierrot_ leva sobre o grande bombo, a
_Folia portugueza_, e enganou-se!... A _Folia portugueza_ no  assim
to fina e quasi ingenua,  muito mais expressiva, mais valente, de
gesto largo e de fundas gargalhadas, atirando um grande punhado de
_bombons_ ou um _bouquet_ de violetas, com ar de quem no est a estudar
posies ao espelho, despreoccupadamente...

No meu entender, Julio Machado no realisou o verdadeiro programma.

Depois, ha alli qualquer coisa a mais, e que infelizmente me entristece:
 vr suspensas da mo da Folia, como se fossem duas grandes bexigas, as
mascaras da Russia e do Japo. No acho de grande intuio artistica
aquellas duas figuras n'aquelle logar. Quando duas grandes naes se
degladiam n'uma sangrentissima guerra, exquisito  que se aproveite esse
caso para que, como n'um ridiculo de troa, a _Folia_ atira sobre a
multido que se diverte com essas duas grandes figuras.

Mas... adeante; isso nem se discute.

O cartaz ahi est!  o que o publico pde vr! Agora, o que o publico
no pode vr,  o cartaz que apresentou Manoel Monterroso, e  pena,
porque se o visse havia de convencer-se de que este, como ninguem,
comprehendeu qual o verdadeiro caracter que devia ter o cartaz.

No cartaz d'este distincto amador, havia de tudo, bello desenho, cres
retumbantes, e verdadeiro caracter portuguez.

Depois, a concepo era genial, d'um bello artista.

No seu trabalho, uma verdadeira caricatura carnavalesca, revelava-se
mais uma vez o seu espirito fino e observador e o seu trao
caracteristico e definido.

As figuras que elle apresentava, eram recrutadas no nosso meio, de
genuina originalidade portugueza. Oh! mas esse no apparece.

[Figura: Cartaz--MANUEL MONTERROSO]

 que a commisso entendeu que devia premiar os dois e mandar executar
s um. E porque seria isto? Que entendedores fram os que determinaram
resoluo to exotica? Porque no se far a exposio do outro cartaz?

Cumpre ao Club, antes de apparecer em publico com o seu cortejo, fazer
afixar o cartaz de Manoel Monterroso; sem isso ter dado uma prova de
favoritismo, de preferencia a um artista, com o fim, talvez de
amesquinhar outro. E isso no  de pessoas que dirigem um Club cuja
divisa --_Pelo Porto_!

Que apparea o cartaz de Monterroso, para que o publico o aprecie tal
como elle merece, e para que se no fique julgando que o Carnaval ser
palido e desenchabido como o cartaz de Julio Machado.

E que o artista me desculpe, que eu no lhe quero mal. Venho unicamente,
como um dos mais sinceros amigos do Club Fenianos Portuenses, pugnar
pelo bom nome do mesmo e pelo interesse do meu querido Porto, que se
prepara briosamente para receber os milhares de forasteiros que ahi
viro assistir ao carnaval, que deve ser maravilhoso.


  Janeiro de 1905.


Nota--E o Club, depois do meu repto, deixou-se ficar muito calladinho
com o cartaz de Monterroso e no o afixou. _O Janeiro_, porm, na Tera
feira de Entrudo, em illustraes do dia, deu-o em trao ligeiro. Apesar
d'isso, eu, mais meticuloso e mais pratico, aproveito esta occasio para
fazer inserir n'este logar os dous cartazes. Assim, o leitor ver a
justia de meus dizeres e a sinceridade com que eu tracei estas
ligeirissimas linhas. Elles ahi ficam expostos e o publico que os julgue
como entender.




XVI

NA CRUZ

Quadro de JULIO COSTA


Eis ahi duas singelas palavras que envolvem um grandioso poema de dr,
porque exprimem o final d'esse drama de soffrimento que passou Christo.

E o pintor portuense Julio Costa, com o seu muito talento artistico,
conseguiu transportar  tela todo esse sentimento, realisando um quadro
que por si s bastaria para fazer um nome, se elle de ha muito no
estivesse feito.

Esse quadro, estudado com um carinho adoravel de pintor de raa, com
seus laivos de poeta lyrico,  admiravel de execuo e representa
Christo no momento em que, erguendo ao ceu o olhar,
dizia:--Perdoai-lhes, Senhor, que elles no sabem o que fazem.

N'uma bem lanada cruz, que se destaca, em todo aquelle fundo tenebroso
da noute tragica do Calvario, pende, deliciosamente desenhado, e
admiravelmente tratado, um Christo que nos chama o olhar, n'uma
contemplao muda de admirao e respeito.

Que de cousas sentenciosas se poderiam dizer da sua execuo? Mas para
que fazel-o, se o publico conhece bem o merito artistico do nosso amigo?

E a Camara Municipal do Porto, que parece querer agora fazer qualquer
cousa de bom a bem da arte portugueza, acaba de adquirir este bello
trabalho, para o museu municipal.

Quando os nossos leitores poderem admirar mais este soberbo quadro de
Julio Costa, ho de reconhecer que a apreciao que d'elle fao nada tem
de exagerada.

[Figura: Na Cruz--Quadro de JULIO COSTA]


  1902.




XVII

AMADORES PORTUENSES

D. MARGARIDA RAMALHO

Discipula de JULIO COSTA


Tendo que traar algumas ligeiras palavras, para as Notas d'Arte, a
respeito d'uma senhora, que, como amadora, se torna notavel na pintura,
devo pedir venia, e formando um bello arco com lyrios e rozas enfeitar
esta pagina. Depois, respeitosamente, com um certo ar  Antiga, pondo um
p atraz, fazer uma reverencia o mais gentilmente que possa, e
estendendo a minha forte e grossa mo de trabalhador honesto, pegar
levemente nos dedos finos da delicada mo d'essa senhora, e levando-a
fidalgamente aos labios, beijar-lh'a, pedindo-lhe licena para lhe
dedicar duas phrases desataviadas, n'um pequenino artigo sobre o seu
valor como amadora de pintura.

Ella, sorrindo, naturalmente dir que sim, e ento eu comearei a
escrever, cheio d'aquelle doce encanto que nos vem d'esses olhos vivos e
d'um rosto lindo.

[Figura: D. Margarida Ramalho]

E que isto v sem ar de madrigal, porque estou velho de mais j para
isso, e muito especialmente porque eu j no sou s... Adeante!...

Comecemos pois, nada de perder tempo em rebuscamentos de estylo.

Dentre a multido enorme de amadores de pintura, multido cujo calculo 
impossivel fazer, ha alguns, no muitos que merecem especial meno, e
que devem passar n'estas simples Notas d'Arte ao lado dos verdadeiros
artistas, como affirmao de que o talento, acaba por no distinguir uns
dos outros.

No pense o leitor que eu vou transplantar para aqui, todos os amadores
de talento que ha na cidade da Virgem. Isso seria impossivel.

Vou apenas apresentar-vos uns dous ou tres, com incitamentos para os
outros.

E a aprezentao d'estes amadores, visa a dous fins:--animar os alumnos,
na esperana de se verem glorificados um dia publicamente, em lettra
redonda e excitar os professores para que desde que encontrem nos seus
discipulos aptides para o desenho e para a pintura, ou esculptura, os
obriguem a destacar-se no nosso meio artistico.

No devem portanto, os que no apparecem n'este livro, vr da minha
parte, n'esta falta, o desejo de os no notar. No, no  assim;  que
nos limites d'este volume no cabem todos, e por isso s aqui aparecem
aquelles com quem mais em contacto estou e de quem mais de perto conheo
as obras.

Se algum dia porm eu voltar a publicar outro volume como este, ento
dedicar-lhes-hei uma grande parte d'elle e alli apparecero todos os
amadores, que o meream, est bem de ver.

E, no me deixava eu alargar por ahi abaixo em salamalekes para os
amadores da pintura, sem me lembrar, quasi, que tinha que dedicar estas
paginas a uma senhora?

Queira V. Ex.^a desculpar, minha senhora, e entremos no nosso assumpto.


--Como foi que eu conheci pessoalmente esta senhora, que de ha muito
conhecia de nome?

Vou explical-o.

s noutes reuno-me muitas vezes com o velho amigo Julio Costa e
discutimos muitos e variados casos. Entre essas conversas muitas vezes
nos entretemos a fallar de Arte. N'uma d'essas occasies, discutindo
aptides de alumnos, Julio Costa fallou-me largamente d'esta sua
discipula, que mostrava uma disposio especial definida para a pintura.

Era, no uma d'estas senhoras, que se prendeu em simples bibelotagem
d'Arte, mas, que, uma vez dada a estudar, queria ir para deante.

Julio Costa afeioou-se a esta discipula e dedica-lhe uma especial
estima.

Uma noute, depois d'uma d'essas conversas muito vulgares entre ns,
disse-me Julio Costa:--Voc sabe, Lemos, fallei em si e na conversa
d'hontem  minha discipula de Mattosinhos e manifestei-lhe o desejo que
voc tinha de visitar o seu pequenino atelier.

--E ella que disse?

--Que poderia ir quando quizesse, que bastava eu ter-lhe dito que tinha
vontade que voc visse os seus trabalhos, para immediatamente consentir;
que eu, como professor, no lhe teria fallado n'ella, se no visse que
ella tinha qualquer pequena coisa que merece apenas s vr-se. E,
confessava-me o Julio Costa: dizia isto to cheia de modestia to
encantadoramente, que voc deve l ir e muito breve.

--Pois vou l no domingo. E fui. Era meio dia, quando me apeei do
electrico, na alameda de Mattosinhos, mesmo  porta da caza onde mora D.
Margarida Ramalho.

A caza, com um doce aspecto de frescura, fica alcandorada um pouco acima
do nivel da estrada, circundada por um jardimsito bem tractado e onde se
ostentam bellas flores.

Das janellas desfructa-se o rio Lea, que indolentemente se espreguia,
n'um _dulce far niente_, at desaguar l ao longe no mar, em Leixes. E,
quasi em frente das janellas, na alameda, entre a frondosa ramaria das
arvores, a figura de Passos Manuel impassivel e serena, n'uma atitude de
resignado ante a aluvio de zangos, que por este tempo de vero se
encarregam de zumbir de volta d'elle, como os _Passos_ d'hoje zumbem em
volta da sua _Memoria_.

Perdoe-me a gentil senhora, mas ao apear-me do electrico e ao olhar para
aquella figura, fiz estas mesmas consideraes.

Pois bem, logo que cheguei subi ao jardim e bati docemente  porta. Veio
abrir-m'a uma creadita loura, d'um louro acastanhado.

Perguntei se D. Margarida estava e entreguei o meu carto de visita.

Voltou dentro em pouco dizendo que sim, que podia passar  sala. Entrei.
D. Margarida no se fez esperar.  uma senhora nova, baixinha, magrinha
e muito loira, interessante como um lindo _biscuit_. Recebeu-me o mais
amavelmente possivel. Peo-lhe desculpa do meu atrevimento mas o Julio
Costa tinha me fallado d'ella com tanto interesse, que tinha
immediatamente feito nascer no meu espirito de admirador do bello,
procurar ensejo de ir ver os seus deliciosos quadros.

Eram favores, do seu professor, dizia ella. Mas j que tinha vindo ento
sempre ia mostrar-me os seus trabalhos.

Entrei no atelier, um recantosinho alegre onde ella estuda os seus
assumptos e onde os pe em execuo, depois de ter em pleno ar livre,
feito os esquissos e os precizos estudos.

[Figura: Castanheira--D. MARGARIDA RAMALHO]

 no atelier que ella tem os seus melhores trabalhos, pousados
artisticamente pelas paredes, todos elles com magnificas qualidades de
cr.

Aqui,  um quadro representando uma rapariga  porta d'uma taverna, com
uma assadeira de castanhas, n'um taboleiro, castanhas j assadas, e n'um
cesto ao lado mas. No fogareiro da assadeira ainda restos de lume. A
rapariga, d'uns doze annos, olhos azues, cabello louro, poderiamos dizer
dourado. Uma expresso dolente, um ar pensativo e triste, talvez, quem
sabe? com receio de que no appaream freguezes e ella tenha que levar
tudo aquillo para casa, sem ter apurado vintem. Por detraz d'ella, v-se
uma grande pipa j vazia, no fundo escuro.  um quadro bem tratado,
cheio de um intimo sentimento. Alli, uma _Cabea de velho_, de barba
branca amarellada e chapeu largo,  verdadeiramente interessante, feito
com proficiencia, destaca deliciosamente da tela, e sente-se, que se a
aragem passasse um pouco forte, aquella barba ondularia fluente e suave.
Mais alem, n'uma boa e s frescura, de moa sadia, uma _Rapariga de
Villar d'Andorinho_, com o seu typico chapeu de maanetas pretas,
irradia vida e cr.

Outros mais ainda, mas como nota final d'este recinto, um delicioso
quadro que intitularei _Volta da fonte_. Uma rapariga muito esguia e
muito fina desce uma rampa trazendo ao hombro um cantaro cheio de agua e
isto por um sentimental fim de tarde.

Em todos estes trabalhos se denota uma perfeita orientao, um serio
estudo. V-se que D. Margarida Ramalho no  uma amadora vulgar, que se
atira inconscientemente a executar a pintura, sem primeiro a ter
estudado conscienciosamente. Alli ha valores, tonalidades, tons e meios
tons, perspectiva, desenho, arte emfim.

[Figura: Cabea de velho--D. MARGARIDA RAMALHO]

Sa do lindo atelier depois de demorada vizita, e de agradavel conversa
por onde pude concluir que havia j 7 annos que estudava. Subindo a
escada, no patamar encontram-se os seus primeiros estudos em dezenho,
dos quaes destacarei como mais notaveis um _Perfil de Mulher_ e uma
_Cabea de expresso_, de guerreiro. A todos esses trabalhos liga esta
amadora uma especial predileo. A convite da illustre amadora entrei
depois no seu _boudoir_, cheio do mais profundo respeito. Este quarto,
mobilado com simplicidade, mas fino gosto, mereceu a minha atteno
porque as suas paredes so decoradas delicadamente pela sua habitante.

N'um enlevado sentimento de amor pela Arte, D. Margarida Ramalho,
entendeu e muito bem, que no seu quarto de dormir ella devia reunir e
patentear aos seus olhos alguma coiza que saindo do seu esforo
artistico constantemente lhe desse um doce effluvio emotivo e agradavel,
e ento traou em largos _panneaux_, com os seus finos pinceis,
deliciosas artemizias e frescas e orvalhadas rozas. Um verdadeiro
encanto. Ao tecto deu o collorido azul duma suave atmosphera, como um
vago sonhar do ceu. E sobre a cabeceira do seu leito pintou uma linda
composio d'aquellas bellas flores--bons dias e boas noites, dentre as
quaes pende um formozo Christo de marfim.

Quando o quarto estava completamente pintado, D. Margarida pediu ao seu
professor que lhe pintasse alli qual couza que podesse, dizia ella, dar
um ar de grandeza quellas pobres flores. E Julio Costa, querendo ser
agradavel  sua discipula porque v n'ella uma verdadeira fanatica da
Arte, e muito e muito a estima, pintou ento n'um vo escuro da janella,
um _Fim de tarde_. Numa larga planicie arida e muito extensa, l ao
fundo, o sol cae, e ao esconder-se deixa um tom alaranjado, donde saem
fortes e espalhados raios dum vermelho intenso.

E D. Margarida conta-nos tudo isto timidamente. Porque ella  uma
timida. Tem um grande respeito pela Arte e esse respeito cria-lhe uma
indiscriptivel duvida sobre o seu poder executante d'obras de largo
folego.

Fallei-lhe de trabalhos que conhecia de varios pintores e ella, como que
se alterava, quando eu lhe dizia, que a achava com foras de tentar
obras assim, e s me respondia: Est enganado, eu sei l fazer tanto!...
E apesar disso os seus trabalhos demonstram bem o contrario.

 vulgar, segundo me diz o Julio Costa, ao apresentar-lhe um assumpto
para tractar, ella dizer-lhe: Eu no fao isso, porque  muito difficil,
muito difficil. Depois, principia a desenhar cheia dum grande escrupulo,
sempre com medo de errar, chegando ao fim e tendo executado o desenho e
depois a pintura em equilibrio muito estimavel e mesmo muito notavel.

E ella faz isto tudo, porque admira intimamente a Arte e  uma doce
adoradora do Bello.

No se atreve ao mais difficil, sem considerao, sem respeito, treme
ante o mais modesto e o mais singelo trabalho, e por isso consegue ser
notavel entre os amadores de pintura.

Tinha feito a minha agradavel vizita e ia despedir-me, quando ao passar
pela sala de visitas notei um bello piano. Atrevi mais uma
pergunta:--Era ella tambem a amadora?... Era, e executando com talento.
Rogada ento para se fazer ouvir, descerrou o piano, passou suavemente
os dedos pelo teclado e soltou l de dentro um primoroso _Nocturno de
Chopin_, que me deixou no espirito a nota viva do seu grande amor 
Musica. D. Margarida  uma _virtuose doubl_ de pianista e pintora.

Disse-lhe adeus, e ao sar para tomar o electrico que me trouxesse ao
Porto, abenoava o Julio Costa, que tinha conseguido que eu passasse
duas horas deliciosamente.

[Figura: Impresso de Paris--CANDIDO da CUNHA]




XVIII

Novos quadros de ARTUR LOUREIRO

I

NO SEU ATELIER do PALACIO de CRYSTAL


Os quadros que n'este momento se acham expostos no _atelier_ do delicado
artista Arthur Loureiro, devem ser vistos com atteno, porque esses
trabalhos fazem resaltar rapidamente todo o segredo emotivo. No so
como certos quadros que precisam para serem comprehendidos uma intuio
especial e definida. No, nas telas de Loureiro logo nos resalta clara e
ridente a verdade, tendo o grandioso merito de se incutirem no nosso
espirito pelo espectaculo de linhas e de cres harmoniosas, de leves
sensaes, lembranas e sonhos que se misturam pouco a pouco com o
prazer da impresso visual.

[Figura: ARTHUR LOUREIRO]

Arthur Loureiro, inegavelmente,  um grande artista, e embora alguem no
goste d'isso,  d'aquelles que aferrado ao seu trabalho lucta lealmente,
sinceramente, na ideia firme e correcta de mostrar que sabe e que tem
fundos recursos para grandes e luminosos emprehendimentos.

Loureiro, embora o julguem um triste, um melancholico, no  d'aquelles
que preferem o aroma resinoso dos bosques e o perfume das flores, na
doura d'um crepusculo, na hora em que a nossa alma sobe tristemente s
regies do ideal, e que os objectos se descoram e a paisagem toma uma
attitude recolhida e quieta!... No, elle verdadeiro filho do norte,
onde as raparigas, vermelhas como roms e os rapazes, valentes como
heroes, cantam poemas sublimes de amor e de luz, n'uma musica
altisonante e harmoniosamente alegre, elle, ama mais o grande sol de luz
intensa e forte e o sussuro que nos d a nitida impresso da vida e do
trabalho.

E tudo isso se v nos seus quadros, n'esses cincoenta trabalhos
expostos, que so, como j o disse um meu collega da imprensa, como que
provas definidas para um concurso de Arte. Com aquelles documentos,
Loureiro affirma que em todos os generos de pintura  um mestre. No
retrato, na paisagem, na marinha, no estudo d'animaes, no genero
decorativo, em todos elles o nosso artista se nos apresenta
verdadeiramente grande. E seno,  _vol d'oiseau_, rapidamente, vejamos:
_Os tigres_ que anatomia e que correco; como se desenha to nitida e
to visivelmente o trao de todo aquelle animal n'uma postura molle de
traio e de fora. Como vemos atravs d'aquelle olhar felino e do
aveludado da sua garra, a indole perversa que d'elle se acolhe. E com
que verdade esto tractados aquelles olhos brilhantes e magoadores, d'um
outro, que por traz do que est no primeiro plano, parecem fitar o
espectador, na esperana de filal-o, n'um salto rapido e traioeiro. 
inegavelmente um d'estes trabalhos que s por si fazem o nome laureado a
um artista.

_Estudo decorativo_. Simplesmente soberbo e encantador. Entre flores,
envolvendo-se n'um veu de gaze transparente e lucido, sae como uma
deslumbrante rosa, toda vio e frescura, uma linda creana, encantadora
e meiga como um anjo, tendo na mo uma haste de flores-_saudades_. N'um
fundo rutilante de luz, como na aureola ridente d'uma fresca manh de
Agosto, destaca essa linda figura. E como foi desenhada e como foi
executada. Alma de poeta, d'esses poetas que cantam as manhs claras do
sol e os rostos lindos das raparigas, foi a que concebeu aquelle quadro
e que o executou. Nada mais...

_O retrato do Chico Anthero_.--Perdo, doutor, tratal-o assim, mas,
francamente, quando olhei para o seu retrato no pude respeital-o e
pedi-lhe que contasse uma d'aquellas suas historietas. No contou, mas 
tal a semelhana, tal a expresso, to seu aquelle modo e to
psychologicamente estudado aquelle quadro que me pareceu mesmo ouvil-o a
larachear e a rir.  um primor de execuo,  um assombro de correco.

[Figura: Retrato de S d'Albergaria--Pintado por ARTHUR LOUREIRO]

_Retrato do dr. Julio de Mattos_.--Bello trabalho feito na largueza
subtil d'um quadro d'arte, no com a preoccupao d'um retrato para
galeria de definidores da ordem terceira, mas um retrato intimo, que
temos no nosso gabinete de trabalho, ou no nosso quarto, retrato para
ns, para consolo da nossa alma e dos nossos. Tal  o retrato do dr.
Julio de Mattos, que incompleto como est, j mostra que ha-de ser um
quadro to bello, to bem feito como o do _Chico Anthero_.

_O retrato do dr. Magalhes de Lemos_ tambem  um bello trabalho.

Ha mais dois retratos de senhora, dois estudos, como Loureiro lhe
chamou, mas que so dous primores. Loureiro adoptou para os seus
retratos uma frma e um tamanho especial o que lhe d uma gracilidade
gentil e meiga, deixem-me assim dizer.

Em quanto  _Paisagem_ muito teria que dizer se podesse alargar este
artigo, mas como me no  possivel n'este momento, limito-me a fallar
dos seguintes quadros:

_Rua do Meio_.--Da vulgaridade d'uma rua, com casas de um lado e
d'outro, e uma egreja no primeiro plano, teve Loureiro a habilidade de
fazer um dos seus para mim mais interessantes quadros.--E porque?
perguntar o leitor. Outro qualquer o faria...--Mas no fazia. Para isso
 preciso saber-se vr e vr muito bem, conhecer mil pequenas cousas e
transplantal-as para a tela com uma especial pericia e arte... d'onde se
conclue que aquella rua no  como no  uma coisa chata, sem relevo.
Aquella rua  um quadro e dos mais interessantes.

_Montanhas da Galliza, Corgo, Monte de Santa Tecla, Alto de Santo
Antonio, Barra de Caminha_. Tudo isto so retalhos sublimes da natureza,
que Loureiro transplantou  tela com uma verdade flagrante e uma
technica segura.

Fecho por aqui este meu despretencioso artigo fazendo apenas uma leve
considerao. Ha no nosso Muzeu quadros de quasi todos os pintores
portuenses, mas no vimos ainda l nenhum de Arthur Loureiro. Agora,
como nunca ha occasio para que a Camara do Porto, que parece se
interessa um pouco pelas cousas d'Arte da nossa terra, compre um quadro
a Loureiro para o Muzeu Municipal.

E porque no ha-de fazel-o!?... Tem este artista dois quadros que esto
a pedir transplantao para logar, onde todos os possam apreciar
condignamente e so: os _Tigres_ ou _Por montes e vales_.

Cumpre  camara do Porto este dever de gratido para com o artista
distincto, que aps 20 annos de ausencia, volta a Portugal cheio de Arte
a glorificar-nos com os seus trabalhos.


II

ARTHUR LOUREIRO e os seus discipulos


Nada ha que mais me enthusiasme e me anime, do que saber que ainda ha,
quem, dentro da esphera da Arte, tenha iniciativas e emprehendimentos de
coisas uteis e aproveitaveis, sem mira a vanglorias ou a fabulosos
lucros, unica e exclusivamente pela Arte.

Ha annos, todo eu me enthusiasmei, quando meia duzia de artistas, homens
de lettras e amadores, tentaram crear no Porto uma sociedade de Arte,
que infelizmente, como todas as coisas uteis, cahiu ao tentar elevar-se;
digo mais, morreu de morte affrontosa ao nascer.

Depois, perante a iniciativa do Instituto de Estudos e Conferencias, que
parecia vir dar a nota correcta de que as exposies d'Arte seriam
verdadeiros concursos de trabalhos definidos de artistas, tambem me
enthusiasmei, porque imaginei que, com os elementos de que elle dispunha
poderia fazer muito melhor do que o que tem feito, se bem que tenha
feito alguma coisa.

Apparece depois um sr. Magalhes, que no conheo, em communicados nas
gazetas, a dizer verdades amargas a respeito do Palacio de Crystal e a
reclamar para aquellas duas alas lateraes, que foram em tempo bazares,
esclas de pintura, de lavores femininos, etc., emfim, reclamando o
aproveitamento d'aqnelles dois esplendidos _atelieres_ em alguma coisa
de util para a Arte... Mas, infelizmente as verdades que o sr. Magalhes
dizia, ficaram perdidas como perolas em chiqueiro de porcos, porque a
gerencia do Palacio de Crystal achou mais util tel-os assim vasios, do
que aproveitados em _qualquer coisa_... Assim, podia em noites de
_spleen_, passear n'ellas, como a sombra do Hamlet, sem tropear em
qualquer coisa que tornasse o Palacio interessante ao publico, mais do
que os macacos e o sr. Vieira da Cruz!... E essa ida, como era boa,
morreu, n'um significativo desprezo por parte dos interessados no
rejuvenescimento do Palacio de Crystal.

Veio por fim Arthur Loureiro, esse laureado artista que todos ns
conhecemos, pelo seu talento, e lana a ida de uma escla d'Arte, tal
como ellas so no estrangeiro. Lucta com mil difficuldades ao principio
para poder realisar o seu plano, e eu ao saber do seu emprehendimento
todo me enthusiasmo um momento, para pensar logo em seguida que a sua
idia ha-de morrer, como morreram todas as outras. Mas, tal no succede;
Arthur Loureiro se no fundo  um bom portuguez e um genuino portuense,
vem saturado d'essa convivencia de vinte annos com os inglezes, gente
que tem tanto de aventureiros como de previdentes. Debaixo d'essa
esplendida orientao Loureiro cria a sua escola de pintura para
senhoras e no desanima, confiado em que querer  poder. E hoje  elle o
unico artista que, no nosso meio, realisa este grande melhoramento, em
prol da Arte: ter uma escola onde vo os seus discipulos, n'uma
confraternisao artistica, tomar as sbias lies que elle lhes d com
a sua proficiencia e saber.

E, com que arte, e com que cuidado, elle soube transformar uma sala fria
e desconfortavel n'um _atelier_, que se no  um _especimen,_  no
entanto um delicado recinto onde o gosto decorativo do artista se casa
perfeitamente com a severidade das paredes, onde pousam como
scintilantes fulguraes de genio, trabalhos, estudos e composies do
professor, de mistura com gessos de estudo.

[Figura: Retrato do dr. Francisco Anthero--ARTHUR LOUREIRO]

Fui ha dias ao _atelier-escola_, precisamente no momento em que
terminavam as lies e as alumnas, fulgurantes de mocidade e alegria,
saiam n'um chilrear que encantava. Os cavalletes, espalhados pelo
_atelier_, eram como sentinellas que ficavam guardando os logares das
discipulas. Passei-os em revista, cheio de curiosidade e de interesse em
notar n'aquelles esboos as disposies de quem os tinha executado.
Aqui, desenho dos principiantes, de diversos objectos, taes como
garrafas, jarros, pucaros, etc., e onde elles, emquanto desenham, vo
tendo noes do que  a perspectiva pratica.

Mais alm, estudos de fructas e flores, e entre esses os d'uma discipula
que compe e applica aos tecidos as flores e os fructos que desenha e
que pinta do natural.

Outros, desenhos de gessos das differentes escolas, grega, romana e
renascena... Mais alm, cpias flagrantes a oleo, dos modelos vivos e
dos costumes populares portuguezes.

Uma verdadeira escola, methodica e definida, onde os alumnos no copiam
os seus trabalhos de modelos que veem de Frana ou da Allemanha s
grosas, mas sim do natural; estudando desde as mais rudimentares noes
de traos e linhas, at aos intrincados problemas da perspectiva, ss
por si, apenas com as indicaes do professor.

So tambem para notar as pastas carregadas de estudos que os discipulos
executam em casa, aps as lies, e que so documentos irrefutaveis do
bom aproveitamento d'este systema de ensinar o desenho e a pintura.

Entre os discipulos de Loureiro, ha um que se torna notavel, porque com
48 lies apenas, uma cada semana, tem feito maravilhosos progressos.
D'este discipulo, j eu tive occasio de fallar, quando em tempo
dediquei duas linhas a uma exposio que Loureiro fez e em que
appareceram alguns estudos d'elle.

Ha tempos, porm, quando visitei o _atelier-escola_, tive uma boa
occasio de vr de novo trabalhos seus feitos alli: uma bella copia a
oleo do gesso, correcta de execuo e de desenho e mais uns trabalhos
que elle fizera fra da escola, em passeio d'Arte pelo campo e pela
praia. Havia uma marinha bem tocada, e uma paisagem delicadamente
pintada e superiormente estudada e desenhada, no fallando n'um
interessante quadro de camelias, que me encantou. Talvez porque eu gosto
muito de flores, e aquellas estavam to frescas, que me fizeram uma
magnifica impresso.

 elle o sr. Manuel Lucio um dos amadores que, se continuar assim, mais
brilhantemente poder affirmar o que se tem dito de Loureiro: que se 
grande como artista, no o  menos como professor.

Mas, voltemos  escola. Tem ella sobre todos os outros _atelieres_ a
grande vantagem de estar installada nos jardins do Palacio. Quando a
primavera, ridente, enche aquelle recinto de flores e de sol, c para
fra, para o ar livre, vem os discipulos, e, ou recolhem nas suas telas
as flores lindas e frescas e os pontos de vista deliciosos que d'alli se
disfrutam, ou estudam e pintam pequeninos recantos do jardim variados e
bellos. E tudo isto realisa Arthur Loureiro, no sem largas e
complicadas difficuldades, que felizmente elle v cobertas de bom
resultado, se bem que com pouco interesse.

Ao vir-me embora depois de ter dado os meus parabens sinceros ao
professor pela sua iniciativa, pensava em como aquelle bello recinto do
Palacio de Crystal poderia ser aproveitado para tanta, tanta coisa util,
em vez de jazer ignominiosamente alli, mudo e sinistro como um crime.

E que tudo isso se poderia fazer se quem o dirige, visse mais alguma
coisa do que umas _reles exposies de flores e aves_ e do que umas
_festarolas de arraial_ com _musica do Z da Gaita_ e _fogo d'artificio
do Devezas_!...

[Figura: Tigres--ARTHUR LOUREIRO]


III

ARTHUR LOUREIRO e a Academia de Bellas-Artes


Ha tempos n'uns bem elaborados artigos da _Voz Publica_, alguem, que eu
no sei quem , veio apresentar a ideia de que Arthur Loureiro deveria
ser professor da nossa Academia de Bellas-Artes.

Achei to acceitavel e to util para a Academia essa ideia, que n'este
momento em que me tenho de occupar da sua exposio de quadros, entendi
dever acompanhar na sua propaganda quem to desinteressadamente a
apresentou. No  que eu venha a campo combater afincadamente em favor
d'este artista, no, venho s como mero espectador do grande palco da
vida applaudir quem soube apresentar a ideia.

Arthur Loureiro foi um dos mais distinctos discipulos das nossas
academias de Bellas Artes e tem a sua folha de bom profissional,
resplandecendo de brilho e cheio de gloria immoredoira.

No foi no seu paiz natal que elle se completou em arte, foi no
estrangeiro, nas grandes terras onde ser-se pintor no  uma mera
galanteria de gente fina; foi nas terras onde se faz da Pintura alguma
coisa mais pratica e mais definida do que entre ns.

Voltou tarde  patria, vinte annos passados sobre o seu curso. Quer isto
dizer, que elle vem mais senhor do _metier_ do que aquelles que
meramente se demoram l por fra uns tres ou quatro annos.  certo que
muitos que estudaram no estrangeiro nem sempre ao voltar veem mais
vigorosos e mais trabalhadores do que quando partiram. Mas elle no.

Arthur Loureiro, foi unicamente para trabalhar e affirmam-no
exuberantemente os cargos que por l occupou distinctamente, taes
como:--examinador das classes de Arte da National Gallery of Victoria, e
director e professor de 1.^a classe dos cursos de Dezenho e Pintura do
Presbiteriam Ladier College em Melbourne, na Australia.

[Figura: S no mundo--Quadro de ARTHUR LOUREIRO]

Ora estes cargos dados a um estrangeiro, a um portuguez, o que affirmam
 o que o seu nome era ali conhecido e que estava  altura de occupar
esses logares com toda a hombridade e todo o saber.

Mas ha mais, quando terminou o seu curso em Portugal foi classificado
para pensonista em Paris, onde fez uma larga e profunda aprendizagem
d'arte.

Concorreu a muitas e variadas exposies, onde os seus quadros foram
sempre apreciados como mereciam. Entre esses deveremos notar como
primordiaes a Exposio Religiosa da Belgica onde o seu quadro, _A Viso
de Santo Stanislau de Kastka_, foi acolhido com enthusiasmo por toda a
critica, e muito especial referencia mereceu ao celebre critico
religioso, l'Alb Moeller. E ainda em Londres, onde concorreu, a
convite,  Greater Britian Exibition, em 1899 e foi recompensado com
diploma d'honra e medalha de ouro. Ha pouco foi elle eleito Academico de
Merito da Academia da Victoria, em Melbourne.

V-se bem claro, por tudo isto, que Arthur Loureiro era considerado e
muito, l fra, como um verdadeiro artista que .

Estou d'aqui a vr a balburdia que vae no nosso meio artistico por estas
minhas despretenciosas notas, mas no so ellas mais do que o desejo de
provar que o homem est  altura de occupar um logar de professor na
nossa Academia.

Porque estou bem certo de que elle, chamado a dar provas publicas do seu
saber artistico, ellas sero convincentes.

Se elle  um grande artista, no  menos um grande trabalhador,
incansavel; trabalhando, quer em quadros para expr e vender, quer dando
lies quelles que desejam bem conhecer a arte de pintar, no seu
_atelier_, no Palacio de Crystal Portuense. N'esse mesmo _atelier_ j
por varias vezes tive o prazer de visitar exposies organisadas por
elle.

Ali me mostrou elle que embora longe de ns por tanto tempo, no se
deshabituara das cres e da luz da nossa boa terra. No veiu inebriado
com o nebulozo da Escocia, com o cinzento da Frana, nem com o vermelho
violaceo da Italia.

Veiu isento de escolas, preoccupando-se s com o que via na natureza tal
qual ella se apresentava, vibrante de luz se o sol espadanava
rutilantemente no espao, nebuloso e triste, se a nevoa cobria a
atmosphera e a paisagem que pintava.

Era como que o executor da verdade tal como ella deve ser. Era, emfim,
um paisagista perfeito e definidamente portuguez.

Pois bem, todos ahi viram as suas recentes exposies, e que eu saiba,
ainda ninguem amesquinhou o seu muito merecimento; pelo contrario todos
foram  uma a dizer que elle tinha valor. A critica, que deve ser
sincera e justa, no teve por onde o atacar, nem veiu dizer d'elle seno
que era bom, por isso a sua entrada como professor de paisagem na
Academia de Bellas Artes, do Porto, deveria ser acolhida por todos os
professores e alumnos com enthusiasmo, se bem que a nossa Academia no
seja para largas manifestaes.

Mas deixemos agora o artista para fallarmos da sua ultima exposio.


No _atelier_ de Arthur Loureiro, ha um no sei que de conforto que nos
prende. Sob a sua direco tem-se transformado aquella fria sala n'um
bellissimo gabinete, onde se podem passar horas e horas admiravelmente
bem. Decorado com simplicidade, mas com um especial _cachet_ de
galanteria os seus quadros destacam alli maravilhosamente.

Vou fallar delles, como sei, ou como entendo.

Como nota primordial destacarei o grande quadro, cujo titulo  _De
aldeia em aldeia_ e que inspirou ao bello poeta M. Ricca, esta quadra:


  Sob a cruz pesada e feia
  Da miseria que a consomme
  Corre _d'aldeia em aldeia_,
  Na Via-sacra da fome.


[Figura: De aldeia em aldeia--ARTHUR LOUREIRO]

 um soberbo trabalho, desenhado com cuidado e pintado com amor. Uma
velhita andrajosa atravessa um trecho de paisagem, por um caminho
encharcado. Que correco e que luz, verdadeira obra prima que um grande
mestre no se envergonhar de assignar.

_No pinhal_.  um delicioso estudo de pinheiros, graceis e altos com a
sua coma dum verde _fonc_, que parece sussurrar com a aragem que passa.

_Mar agitado_. Agua deliciosamente tratada e transparecendo atravez
d'ella a penedia que ella cobre. Luz deliciosa de grande ar.

_Vaga quebrada_.  um pequeno quadro em que uma vaga se espadana como
champanhe de encontro a um rochedo. Com que vigor est pintada essa
molle de agua, que n'um desdobrar vertiginoso e bravo encontra um
obstaculo e se desfaz para o ar, como n'um grito de desespero!

_Retrato de G. Nogueira_. Este retrato  um primor de parecena e de
trabalho. Loureiro poz n'elle um cuidado especial e amigo;  uma obra
prima.

_Nevogilde_. Um trecho de paisagem portuense, muito sentida, muito
nossa.

_Padeira de Avintes_.  um delicioso estudo dos nossos costumes
populares. Modelo gracil e airoso como so todas as nossas lavradeiras,
correctamente desenhado, primorosamente pintado.

_Barcos_. Um quadrito interessante, onde ha dois barcos que parece
boiarem docemente nas aguas mansas do rio, sob um ceu suave d'um azul
transparente e bom.

Mais outros quadros ainda, todos elles confeccionados com mestria;
alguns estudos de desenho, cabeas rigorosamente estudadas nos seus
claros-escuros.

E esta exposio no est a abarrotar de exemplares, mas toda ella
comporta coisas lindas e boas.

Ao sahir d'ali, vem-se sob a impresso sincera de que tudo aquillo 
nosso, e muito nosso.

Vem-se to bem disposto, que se fica com o desejo de l voltar muitas
mais vezes.

[Figura: Paisagem--ARTHUR LOUREIRO]

[Figura: Flora--Quadro de ARTHUR LOUREIRO]


IV

Mais uma visita ao Atelier de ARTHUR LOUREIRO


Eu j disse algures que Arthur Loureiro era um poeta na pintura e hoje o
repito aqui, no desprendimento sincero de quem o admira pelo seu
talento. Os seus quadros so _bucolicas_ de cr e de luz. Ha-os que so
como deliciosos sonetos camoneanos. Ha-os que so verdadeiros poemas. As
pequenas telas veridicamente portuguezas, com a sua cr e a sua luz
d'aldeia, so como cantigas de namorados entre os rumorejos do trabalho
campestre.

Arthur Loureiro, talvez, porque viveu muito tempo longe da sua patria,
ao voltar, como que tentou, n'um largo sentimento de amor patrio,
desforrar-se d'aqui no ter vivido sempre. E n'uma subtileza ideal
desenhou e pintou a grande alma portugueza, desde a Torre dos Clerigos,
at ao mais escondido recanto do Minho. A sua obra  como que o grito
sentido do filho prodigo que volta ao fim de muito tempo  casa paterna.
E que foi elle seno um filho prodigo da Arte, que andou por terras
estranhas a expandir o seu talento em grandes manifestaes, e que ao
voltar, um pouco abatido da grande lucta, nos mostrou que, se alguem o
julgava j um estrangeiro, a sua alma pulsava no mais sublime
enthusiasmo por tudo o que  nosso, por tudo o que era portuguez, desde
as suas paisagens at aos seus homens.

E agora mais uma vez fallemos dos seus quadros, e dos do seu discipulo.

Antes porm de entrar na enumerao dos seus trabalhos ahi vae uma
opinio.

Na occasio em que eu visitava a exposio entravam ali um grande pintor
portuguez (Souza Pinto), um grande actor portuguez (Augusto Rosa), e um
grande actor francez (Coquelin Ain). Pois estes tres cavalheiros
insuspeitos para todos, depois de larga apreciao aos trabalhos
expostos, quedaram-se em frente d'um quadro que ha muito est no atelier
_A Primavera_, e Souza Pinto, esse artista cujo nome resa no
estrangeiro como um clarim de gloria nacional na arte de pintura, disse
que se admirava que aquelle quadro ainda no tivesse sido adquirido para
o muzeu nacional como um especimen de boa pintura e de soberbo desenho.

Tambem eu teria soltado o meu brado de admirao, se no soubesse que o
Estado e as Camaras no teem dinheiro para essas cousas, e s o teem
para _festejos balofos_, para _comesainas opiparas_ e para _bolos_
rendosos aos afilhados; para mais nada. A galeria nacional de pintura no
Porto  talvez mais parca do que a do mais pequeno amador.  uma
vergonha!!...

[Figura: Pinheiros--ARTHUR LOUREIRO]

Adeante, que vamos gastando muito tempo com consideraes philosophicas.

Pois os quadros expostos de Loureiro, so 17 novos e uns 8 j vistos.

Dos antigos nada direi seno que so soberbos, dos modernos, d'esses
alguma coisa mais escreverei. Entre todos ha um que me encanta
profundamente.  _O Pinhal_!... Um dia ouvi dizer a alguem que o
pinheiral era um motivo que no dava nada na pintura, pela sua frma,
pela sua cr e pela sua uniformidade. N'essa occasio, no me quiz
manifestar, eu no sou pintor e no queria cahir em erro deante de quem
tinha obrigao de conhecer o assumpto melhor do que eu, mas, c para
mim mantinha a minha opinio formada; o pinheiro presta-se  pintura, a
questo  sabel-o desenhar e pintar. E Loureiro com o seu quadro
_Pinhal_ veiu completamente preencher a minha modesta opinio. Alli,
n'aquella tela esguia, sob a correco impeccavel de desenho, erguem-se
uns pinheiros, que parecem balanar sob a presso do vento que passa
assobiando na sua ramaria.

A _Feira Nova_-- uma delicada _pochade_ verdadeiramente caracteristica
do que so as nossas feiras no Minho, sob barracas de lona branca, que
se prendem aos troncos das arvores, com o borborinho de centos de
lavradores e lavradeiras, acotovelando-se na furia de serem os primeiros
a vr o que ha alli para vender.

A _Carvalheira_--Uma larga arvore de folhas amarellecidas que comeam a
cahir sob o ventinho frio do inverno;  deliciosamente estudada.

E a _Desfolhada_, e a _Estrada do Gerez_ (sob a chuva), as _Alminhas_ e
o _Caminho de Besteiros_--e todos elles, emfim, como so to
verdadeiramente nossos, to sentidamente portuguezes, verdadeiramente
minhotos, nos seus verdes inconfundiveis, na sua luz inimitavel.

Entre as tres _cabeas de estudo_, ha duas de uma velha, que so um
encanto. Traadas na meticulosidade de pormenores, so feitas largamente
com pulso de quem  um verdadeiro artista.

Alm dos trabalhos do mestre, que so como sempre magnificos, tomando
uma das paredes do atelier, esto os trabalhos do discipulo, do snr.
Manoel Maria Lucio Junior, que ha unicamente um anno, estuda com
Loureiro, desenho e pintura.

Aos meus collegas da imprensa, como que tem passado despercebido o
trabalho d'este amador, que entra agora no nosso meio artistico. Ora eu,
que inegavelmente sou o mais incompetente dos apreciadores dos quadros,
sempre lhe quero dispensar duas linhas.

Manuel Lucio  um rapaz da nossa fina sociedade, que todos ns
conhecemos como sendo um dos elegantes da nossa terra.

Durante muito tempo julguei-o um _bon vivant_, dedicando unicamente o
seu espirito ao talho d'um _veston_ ou ao feitio de uma gravata. Um dia,
porm, entrando a visitar Loureiro no seu atelier-escla encontrei l
este cavalheiro dando lio de desenho. Acabada a aula, Loureiro
mostrou-me trabalhos de varios discipulos e abrindo uma arca artistica
que elle ali tem, tirou de dentro varios desenhos e disse-me:--so
feitos pelo Lucio,  um rapaz de habilidade.--E de facto os desenhos que
elle apresentou, revelavam uma certa disposio para a Arte.

Passaram-se tempos, o mestre foi para fra e ao voltar encontrou-se em
frente d'um discipulo que lhe d honra, porque Manuel Lucio, dotado
d'uma vontade de ferro em conhecer o methodo de desenho e de pintura tem
trabalhado denodadamente e tem conseguido com isso e com as bellas
indicaes do professor o que muitos com idas ao estrangeiro no tem
conseguido.

Quatorze so os trabalhos expostos por este intelligente discipulo de
Loureiro. Cinco trabalhos a oleo, cinco pasteis e quatro desenhos a
lapis.

[Figura: D. Adelia Ramos : Discipula de Arthur Loureiro]

Entre os desenhos notarei _O Contador_, que  uma prova irrefutavel do
modo como elle interpretou as noes de perspectiva indicadas; na
pintura a oleo notarei os _Cravos_ e um retalho de paisagem, onde as
cres e os tons esto bem achados, resaltando os planos da chateza
vulgar, propria dos estudos de amadores.

Aonde porm eu admiro a disposio artistica de Manuel Lucio  nos
pasteis, especialisando uns _Effeitos d'agua_, um _Poente_ e um _Ceus
nublados_.

Innegavelmente o discipulo d honra ao mestre e o mestre deve estar
orgulhoso por ter achado, quem to bem tenha sabido comprehendel-o e to
sabiamente aproveite as suas indicaes. E recebam os dous, mestre e
discipulo a sincera expresso do meu applauso.


  1903 a 1904.




XIX

AMADORES PORTUENSES

MANUEL MARIA LUCIO JUNIOR

Discipulo de ARTHUR LOUREIRO


O Arthur Loureiro  um velho rapaz, pintor d'alma e corao, trabalhador
infatigavel, cavaqueador ameno e interessante, amigo dedicado, e, acima
de tudo isto, professor consciencioso e sabedor.

[Figura: MANUEL LUCIO no Atelier de ARTHUR LOUREIRO]

Ora eu, que gosto de passar bem o meu tempo, vou muitas vezes, e
especialmente aos domingos, ao Palacio de Crystal, dar dous dedos de
cavaco ao Arthur Loureiro, no seu delicado e interessante atelier.
Appareo alli por volta da hora e meia.  quando elle acaba de dar lio
ao Manuel Lucio, que, quasi sempre, quando eu entro ainda l est
dentro, com a sua _blouse_ vestida, paleta em punho, dando as ultimas
pinceladas no modelo que copia.

Outro dia, copiava elle uma velha; quando entrei, estava j limpando os
seus pinceis e a paleta para se ir embora.

Nas faces de Arthur Loureiro pairava um alegre sorriso de satisfao.

Que se teria passado de extraordinario para que elle estivesse to
sorridente?!... Alguma boa nova da familia ausente, ou grande bem estar
na sua delicada saude?!... Talvez as duas coisas juntas!? Quem sabe?...

--Esperemos os acontecimentos, disse eu commigo, avido, no entretanto de
conhecer o motivo d'aquella intima alegria. O que fr soar, pensei,
porque o Loureiro com a sua peculiar franqueza, no occulta por muito
tempo o motivo que o faz estar assim satisfeito e alegre. E assim foi...

Mal o Lucio saiu, virou-se para mim e sem mais, disse-me, indicando a
porta por onde saira:-- um discipulo que me ha-de dar honra, podes
crer... Tem bastante disposio e  muito applicado... Ha-de dar muito
se continuar assim, e se se convencer que isto de pintura no se aprende
em dous dias.

Queres vr? E sem esperar resposta levantou o tampo do seu divan-arca,
saccou de l de dentro uma pasta com desenhos e algumas pinturas a oleo,
dizendo: so d'elle.

Eram de facto estudos que o Manuel Lucio tinha executado em casa, longe
das vistas do professor, mas sob a orientao e as lies que o Loureiro
lhe dava, proficua e sabiamente aproveitadas.

Era especialmente por isso, porque tinha encontrado, n'aquelles estudos
que n'esse dia o discipulo trouxera  sua apreciao, a boa vontade, a
applicao e a disposio natural de que elle era dotado, que Loureiro
alegremente se sorria.

E elle tinha razo. Manuel Lucio, que eu tinha por um exterior, um
balofo, quando o via passar ostentosamente, as suas sobrecasacas
talhadas pelos ultimos figurinos, as suas gravatas espaventosas e ricas,
onde pousavam joias caras e os seus chapeus altos sempre muito polidos e
muito lustrados, no era o que eu pensava.

Olhava-nos, parecia ter um ar sobranceiro de _enfant-gat_, ou, como eu
costumo dizer portuguesissimamente, _menino bonito_, e sentia-se por
elle um quer que fosse, que obrigava a pl-o, com uma certa reserva, na
devida distancia a que se pem sempre os infatuados, que no valem nada
e que julgam ser verdadeiras notabilidades. Era um juizo errado aquelle
que eu fazia; reconheo agora que no o conhecia, e nunca lhe tinha
encontrado nem podia encontrar predicados por que o admirasse. Estava de
sobre-aviso a seu respeito.

Hoje, porm, ponho de parte essa opinio errada que d'elle fazia e isso
porque tendo acompanhado com grande interesse os estudos d'esse
discipulo, e o seu aproveitamento n'aquella risonha escola d'Arte, que o
bom Loureiro tem no seu interessante atelier dos jardins do Palacio de
Crystal, e como o reconheo digno de ser notado entre os amadores que
n'este momento ha pelo Porto, vou dedicar-lhe algumas palavras de
incitamento, para que no esmorea na empreza da Arte em que o seu bom
gosto e as suas disposies artisticas o metteram. No pense, porm,
Manuel Lucio que eu vou incensal-o louvaminheiramente; no, vou
rapidamente em duas leves pennadas dedicar-lhe algumas palavras de
elogio merecido e sincero.

[Figura: Marinha--MANUEL LUCIO]

Para isso, soccorro-me de alguns informes que Loureiro me deu e
fallaremos os dous conjunctamente, eu pelo que tenho visto nas minhas
visitas ao atelier-escola, e especialmente na ultima exposio de
trabalhos de discipulos, elle pelo que tem apurado do estudo que o
discipulo tem feito e de como tem recebido salutarmente as suas sabias
lies. Comecemos pois.

Um dia, Arthur Loureiro que tinha aberto ao publico a sua escola de
pintura para senhoras, confiado no bom gosto que ultimamente se estava
desenvolvendo entre as _madames_ para esta manifestao de Arte, viu
entrar-lhe pela porta dentro este rapaz chic, que perguntava se elle
quereria dar-lhe algumas lies de pintura. Loureiro immediatamente se
promptificou a isso, mas sob condio que elle deveria comear por onde
todos devem comear, pelos rudimentos de desenho. S n'essas condies o
poderia acceitar como discipulo.

Accedeu o nosso amador immediatamente, pois farto estava elle de saber
que o pouco que tinha estudado com um _soi disant_ de nada lhe valia e
logo combinaram dar breve inicio aos seus trabalhos.

Ao principiar estas lies, Manuel Lucio, vinha cheio de uma inegualavel
boa vontade, um honroso desejo de vir a ser na pintura, alguma coisa
mais, do que as habituaes vulgaridades, e por isso, pondo completamente
de parte as noes que recebera de um insignificante professor, que
d'isso s tinha o nome, pois emquanto ao resto era d'uma nullidade
completa, todo elle se dedicou a estudar e a cumprir as instruces que
Arthur Loureiro lhe ia dando.

E assim, foi desenhar, desde os primeiros rudimentos at  perspectiva,
e isto por longas lies, sem nunca dar mostras de canao ou
aborrecimento, pelo contrario sempre cheio d'um grande prazer em traar
firme e rapidamente o contorno e o claro-escuro dos objectos que
copiava.

E ainda hoje continua e affincadamente, desenhando todos os dias, mesmo
a fra dos esboos que fez para os seus quadros.

Depois de ter desenhado muito a lapis e a carvo, copiando gessos e
modelos, entrou ento no desenho a cres, (pastel) e fez a paisagem e a
figura, isto tudo do natural, e fel-o com uma tal garridice e um tal
desenvolvimento que os seus trabalhos mereceram os applausos, no s do
seu professor, mas da critica conscienciosa e honesta de alguns
entendidos.

Aps isto passou a pintar a oleo, no atelier, e sob a vista e a
conceituosa informao de Loureiro, lanou  tela flores que estudou em
todas as suas minudencias, sem comtudo fazer dos seus trabalhos,
rendilhados e lambidos quadros.

No, Manuel Lucio, estudou as flores desenhando-as e colorindo-as depois
nos tons e nos valores que ellas deviam ter.

E emquanto no atelier-escola pintava flores sob a vista do professor, l
por fora, ssinho, apenas com as sabias noes recebidas tentava a
paisagem a oleo.

Eram estas algumas das que Loureiro me mostrava, e de que eu vos dou
umas gravuras.

Vieram em seguida os estudos a oleo de gessos, feitos com muita
consciencia e extraordinaria proficiencia, e hoje estuda valentemente,
como um verdadeiro amador de talento, o modelo vivo, e ainda ha pouco
n'uma exposio de alumnos que Loureiro promoveu no seu atelier, elle l
estava com 19 trabalhos a oleo entre os quaes alguns havia que eram
verdadeiramente maravilhosos de cr, de luz e de verdade, e 9 desenhos,
provas irrefutaveis de quanto elle trabalha e do bem como trabalha.

Mas Manuel Lucio no  s um amador de pintura consciencioso,  tambem
um burilador de litteratura _hors ligne_ e um entendedor de coisas
d'Arte. Deve-se  sua pessoa o prefacio do Catalogo da 1.^a Exposio de
Alumnos no Atelier-Escola. N'esse prologo o nosso perfilado discorre
sabiamente sobre as vantagens de desenhar perfeitamente para bem pintar.
So uma serie de consideraes bem feitas e profundamente estudadas, que
do a verdadeira orientao do seu modo de pensar e proceder n'este
genero de _sport_ artistico em que se metteu.

Depois, como tem muita leitura d'Arte, elle reune a um bello amador, um
cavaqueador agradavel e um conhecedor cheio de saber.

Ahi fica em rapidas linhas o que eu posso dizer do discipulo de Arthur
Loureiro, o bello discipulo que faz honra ao professor.


  1904.


[Figura: Barra, Foz do Douro--MANUEL LUCIO]




XX

UMA EXPOSIO DE QUADROS

do Instituto de Estudos e Conferencias


No louvavel intento de desenvolver a Arte de pintura entre ns, o
Instituto de Estudos e Conferencias, realisou no pateo da Misericordia
mais uma outra exposio.  pois d'este certamen artistico que me vou
occupar n'este rapido artigo.

Fui l, quando a exposio era vedada ao publico. Unicamente ali tinham
entrada os socios do Instituto e os delegados da imprensa, e por isso
muito  vontade me demorei por l umas duas horas a analysar.

S o quadro de Sousa Pinto me reteve boa parte do tempo. Que aquillo ,
para mim, o que se chama o requinte da perfeio.

[Figura: Sousa Pinto]

No abalanarei opinio sobre tal trabalho, porque me julgo
infinitamente pequeno para discutir obra to magistral.

Sousa Pinto, tem o seu nome feito, nome glorioso que se impe l fra,
nos grandes centros artisticos, como o _Salon_, onde os seus quadros so
recebidos com toda a considerao e premiados com as melhores
recompensas. E a critica sabia e correcta dos grandes analystas da Arte,
essa critica que  indomavel como a justia, tem dito que elle  um
grande, um superior pintor. Gloriosa coisa  por isso, para ns,
podermos admirar hoje na nossa despretenciosa exposio um trabalho de
to requintada perfeio como o _Ferreiro_ de Sousa Pinto. Portanto,
antes de entrar na enumerao dos trabalhos expostos, consinta a
direco do Instituto de Estudos e Conferencias que a felicite por ter,
como vulgarmente se diz, mettido esta lana em Africa; porque Sousa
Pinto no quer sujeitar-se  critica portugueza, e n'estas condies
foge de apparecer nas nossas exposies.

Mas no nos demoremos mais, sigamos para diante, que eu vim para lhe
fallar do conjuncto da Exposio, e no s de um artista.

[Figura: JOS de BRITO no seu atelier]

Aberto pois o catalogo acha-se inscripto como n.^o 1 o snr. Almeida e
Silva, que desta vez me convence de que  um artista. Eu estava mal
impressionado com elle, os seus trabalhos, talvez por muita
meticulosidade de acabamento e pelo recortado das figuras e dos
assumptos, tinham o quer que fosse de oleographico. Mas, n'esta
exposio, elle vem mais pujante de execuo, mais artista. E em
qualquer dos generos em que se apresenta mostra aptides definidas.
Entre esses trabalhos destacarei: _O Rio Pavia no Outomno_, _Manh
d'Outubro_, _Veterano de Ormuz_, _Tranquillidade_, _Retrato do snr. D.
Diogo d'Almeida_ (Reriz). Ha mais alguns quadros, mas esses so
inferiores.

[Figura: Crepusculo Matutino--CANDIDO da CUNHA]

Segue-o Jos de Brito, com dous retratos a oleo de que no gosto nada.
No entanto noto o _Retrato de Antonio Ramos Pinto_, a pastel, que 
muito bem feito, e as aquarellas, que apresenta so todas bem tocadas,
especialmente umas tres que so um primor de execuo. _As Margens do
Lea_, (2 quadros), _Caminho de Nevogilde_ e _Villarinha_,
especialmente.

Abel Cardoso, com quatro quadros, dos quaes destacarei o _Tapada_. Ha
uma portinha vermelha a destacar na linha do muro da quinta, que d uma
nota interessante. O retrato do militar esse, meu Deus,  phantastico.

Candido da Cunha. Sempre o sentimental artista que desde sempre conheci.
Tem tres quadros, qual d'elles o mais bem feito, sempre com um ar
nostalgico do pr do sol, que elle to distinctamente pinta. _O
Crepusculo Matutino_  um delicioso encanto.

D. Alice Grillo, tem tres quadros, um de _Flores_, outro de _Rosas e
fructos_, e um _Estudo de velha_. Para mim os dous primeiros so
superiores. As laranjas so bem pintadas, de bella cr e as rosas e os
amores perfeitos, so lindamente tocados, d'uma grande frescura.

[Figura: Paisagem--MARQUES d'OLIVEIRA]

Marques d'Oliveira. Eis um nome que se impe e que sempre que se
apresenta nos deixa convencidos de que  um talentosissimo artista. Nos
seus quadros, ha um certo qu que demonstra a technica superior d'este
mestre de pintura. E embora alguns criticos queiram abocanhar o nome
feito d'este artista, elle supplanta toda essa inveja, que outra cousa
no era o que eu ouvi dizer d'elle. Dos quadros expostos, pincelados de
uma frma correcta e distincta, destacarei o _Rua de Agueda_, _Effeito
da tarde_ (Agueda), _Ces da Ribeira_, _Espinho_, _Effeito da tarde_
(Espinho), o que quer dizer que so todos.

[Figura: Guardando vaccas--EDUARDO MOURA]

D. Julia Molarinho.  pintora da nova ala que vae dando a nota do seu
merecimento. Os seus quadros _Cabea de preto_, _Cabea de rapaz_,
_Poente_ e _Pochade_, so bem feitos, especialmente os dous primeiros.
Tem mais quadros, que no me prenderam a atteno.

Eduardo Moura. Apresenta-se com um s quadro, se bem que pelas suas
aptides deveria ter exposto mais.  um trabalho bem feito, digno de ser
admirado.

Thomaz de Moura. Com uma _Cabecita de rapariga_ regularmente executada.
Ha tambem muito de monotono no fundo, um azul indefinido.

D. Leopoldina Pinto. Tres quadros de _Flores e fructos_. Tem um quadro
de _Geranios_ que est bem tocado, d'uma certa frescura. Esta senhora 
especialista n'esta qualidade de flores. J n'outra exposio apresentou
um quadro de geranios que era um assombro de perfeio. Os crysanthemos
esses no so bons. No quadro _Fructos_, ha umas uvas bem tratadas, com
bastante transparencia.

Arthur Prat.  um pintor de cres retumbantes. Os seus quadros so como
fanfarras de luz. Gosto d'elles porque me do muito bem a nota estridula
e alegre dos campos do sul. Apresenta dez quadros, alguns d'elles
regularmente feitos e regularmente estudados.

Julio Ramos. Esse paisagista que tanto nos tem encantado com os seus
quadros, apresenta-se tambem d'esta vez com muita distinco, se bem que
me no prenda a atteno, como d'outras vezes que tem exposto.

Carlos Reis. Ora aqui est um pintor que  para mim um genial artista.
Seguidor dos moldes de Silva Porto, apresenta-se n'esta exposio com
cinco quadros que so uma maravilha. _O Idilio_,  uma pintura
deslumbrante. _O retrato de minha me_,  tambem um superior trabalho,
feito com toda a correco, d'um verdadeiro mestre.

[Figura: JULIO RAMOS no seu atelier]

Augusto Ribeiro, nos seus quadrinhos _mignons_ apresenta-se
admiravelmente--at nem parece o artista de outros tempos. Agora mais
socegado, mais accentuado, fez-nos a pintura do nosso Minho em paginas
d'album, mas muito bem feitas.

Joo Augusto Ribeiro. Com um quadro s, um _Estudo de velho_, primoroso
de desenho e de cr, flagrante de verdade.

D. Aurelia de Sousa. Dous trabalhos a oleo de que no gosto e um
pastel--_N'um jardim antigo_, que est muito bem executado.

D. Sophia de Sousa. Apresenta quatro quadros, dos quaes destacarei como
mais digno de meno a _Paisagem_.  uma verdadeira artista.

Julio Teixeira Bastos. Seis telas expostas. Destaco _O Melro_, como
sendo a que mais impresso me fez.

[Figura: Torquato Pinheiro]

Torquato Pinheiro.  com toda a correco que se nos apresenta, n'este
certamen, este conceituado artista. Dos seis quadros expostos notarei
como melhores os seguintes:--_Tarde no Corgo_, correctissimo, _Rua da
Pedreira_ e _Crepusculo_.

Joo Vaz. O superior pintor de marinhas, vem  exposio com tres
quadros que so um encanto, especialisando a _Barra de Lisboa_ onde a
agua  tratada d'um modo irreprehensivel.--_Barracas de Pescadores_,
tambem muito bem feito. O outro--_Margens do Sado_, tem para mim uma
nota que o torna desagradavel:  uma serie de piteiras que do ao quadro
um qu de bordado a missanga.

Eurico Ricardo Jorge. Apparece pela primeira vez em publico e
apresenta-se muito bem com o seu estudo a pastel--_Cabea de velho_.

Jos David. Tem algumas aguarellas que esto bem manchadas.

E nada mais porque j vae muito longe este artigo.


[Figura: Retrato de Bernardino Reaes--TORQUATO PINHEIRO]




XXI

Uma Exposio de Carneiro Junior

No Pateo da Misericordia


A Exposio Carneiro Junior  mais uma confirmao do talento de quem a
organisa. Esse bello rapaz, desde a primeira vez que com elle fallei
logo conquistou em extremo a minha simpathia.

Alma de poeta epico, idealisando sempre, n'um desejo fremente de ser
grande, quadros que prendam e enthusiasmem quem os v.

D'esta vez, no seu grande quadro, mais humano e mais terreno, deve ter
sido melhor comprehendido pelo publico que tem visitado a exposio.

Assumpto de molde a prender bem a alma de todos os que ainda tem um
pouco d'amor  sua patria,  o seu quadro uma pagina flagrante de
verdade e de movimento, arrancada  Historia de Portugal. Figuras
talhadas em moldes verdadeiramente portuguezes, agrupadas flagrantemente
em posturas naturaes, o seu quadro , innegavelmente, uma bella obra.

A figura altiva, mas sem arrogancia, do hespanhol vencido que recebe uma
cora de flores para collocar no punho da espada, como para dizer que
no a elle mas sim a ella se deve qualquer gloria obtida,  bem
estudada; e o portuguez, que respeitosamente offerece como galharda
dadiva de simpathia a mesma cora,  de soberba concepo. Era primeira
inteno do artista dar outra orientao a estas duas figuras, mas fez
bem em ter resolvido assim o problema. A fidalguia da guerreira Hespanha
no podia tomar posio humilde deante d'um portuguez illustre e
valoroso que tinha a gentileza de offerecer-lhe uma capella de flores,
que mos delicadas de mulher tinham composto.

[Figura: Entrega de Evora--Quadro de ANTONIO CARNEIRO JUNIOR]

Ha no quadro figuras flagrantes de verdade. Os frades do-nos a
impresso serafica d'homens que, entre o latim e o repasto, no quizeram
tambem fugir  manifestao imponente que o povo fazia ao guerreiro
vencedor.

Os cavallos esto bem estudados especialmente o que tem a garupa virada
ao espectador, cujo tom de cr d o verdadeiro avelulado sedozo de um
alazo fogoso e bem tratado.

A neblina que se percebe por entre a porta em arco da cidade, no seu tom
cinzento violaceo tem perfeitamente o tom do amanhecer dos dias lindos
do Alemtejo.

Este quadro, destina-se a ornamentar a escadaria do sumptuoso palacio do
snr. Barahona, d'Evora, um dos homens que mais tem acompanhado e
protegido a Arte nacional.

Destacam-se para mim depois, n'esta exposio, os retratos. Ha-os
flagrantissimos de verdade taes como o do _Dr. Joo Novaes_, e do
_Antonio Cruz_, esse velho rapaz que conheci tal qual desde os tempos
idos do _Jornal da Manh_. O retrato do auctor n'uma postura scismadora
e triste, verdadeiro estudo psycologico da sua individualidade; 
soberbo. A figura distincta e airosa da esposa do seu amigo Alberto
d'Oliveira, executada  noute sob a luz viva d'um largo candieiro de
petroleo,  adoravel de cr e de execuo.

No _Retrato da Ex.^{ma} Snr.^a D. Emilia de Carvalho_, executado com
primor e cuidado, ha um ar de ingenuidade deliciosa e amiga que nos
prende. A cabecita da pequenina Rachel, com os seus olhitos vivos e o
seu ar risonho, d-nos a tentao de um beijo todo amor, todo candura.

Notei na faco de todos os retratos um qu do genio de Columbano, mas
um qu bom, sem aquella psychologia profunda e doentia que o mestre d
s suas composies. Carneiro Junior  a meu vr mais humano, mais
positivo.

Da paisagem destacarei para aqui, como tendo-me dado mais viva impresso
as seguintes: _Rio Tamega_ (Amarante), _Crepusculo na montanha_, _Lea_
(estudo), _No bosque_ (impresso), _O mar_, _Um poente_ e _Rua do
Bomfim_ (tarde de chuva), os quaes so flagrantes de luz e de tom. _O
mar_, com o seu fundo em iris avermelhado  bello e a _Rua do Bomfim_,
em tarde de chuva, na sua meia nevoa,  deliciosa.

Os desenhos para o estudo do grande quadro so magnificos de correco e
de justeza. Cabeas estudadas do natural, nas suas linhas definidas, so
primores de quem sabe e muito da, para mim difficilima, arte de
desenhar.

[Figura: Baixo relevo (Bronze)--ANTONIO TEIXEIRA LOPES]

Ha na exposio uma coisa que me encanta sobre todas as outras: so as
cabecitas dos filhos do pintor, desenhadas a sanguinea. No sei se por
ser essa a minha cr predilecta, se pelo bem executado d'ellas.
Naturalmente por ambas as circumstancias. So retalhos da alma d'esse
poeta pintor que elle copia com um carinho desusado. J na sua outra
exposio um dos quadros que mais me enthusiasmou pelo amor e cuidado
com que estava feito foi o retrato da esposa do artista, aquelle que
tinha uma grande abada de flores. Isto confirma o que eu penso do homem,
um _menager_ todo conforto e carinho. Ponto, porm, que eu no estou
aqui a fazer o retrato psychologico do artista, mas smente a resenha
dos seus quadros; mais nada.

[Figura: A Procisso--CANDIDO da CUNHA]

Fechando, vou fallar do esquisso final para o seu quadro grande.

Elle chama-lhe um esquisso definitivo, eu chamo-lhe um quadro completo.
Gosto d'elle tanto ou mais do que do grande. Se me permitte,
chamar-lhe-hei a miniatura do trabalho que  o _clou_ da exposio.

Que Carneiro Junior desculpe este deslizar de cousas a respeito do seu
talento artistico e da sua exposio.

E, a proposito d'esta e outras exposies, no ser mau repetir que o
meu fim no  outro seno vr se se obriga o publico a interessar-se um
pouco mais por o nosso meio artistico. Conheci alguns homens cheios de
dinheiro e com pretenes a ter bom gosto, que nunca na sua vida
gastaram dez tostes, que fosse, em uma pintura, a no ser na pintura
obrigatoria das portas e das janellas da sua casa. Tm, quando muito
oleographias ricamente encaixilhadas nas suas salas de receber.

Pois  preciso que esses homens que podem, venham s exposies, puchem
pelos cordes  bolsa, comprem quadros aos artistas que levam uma vida
de trabalho e de estudo para nos darem com palpitaes flagrantes os
retratos que executam, e com vibraes de luz e de cr as paisagens que
retalham da grande Me Natureza para telas, que poderemos ter no nosso
quarto de trabalho, recordando-nos pedaos da nossa querida terra, to
bella de paisagens, to deslumbrante de sol.




XXII

Notas ligeiras d'uma Exposio


Maio  o mez das flores, dos poetas e dos artistas. E a comprovar o meu
dizer l se abriu n'este mez das graas e das benos, a 5.^a Exposio
de Bellas-Artes, que a prestante aggremiao Instituto de Estudos e
Conferencias, com o seu grande empenho de vulgarisar entre ns o gosto
pela Arte, promoveu. Como simples informador d'um limitado publico l
fui n'essa romagem artistica no primeiro dia, mas, porque me vi rodeado
por todos os pintores portuenses, no me atirei a tomar notas, nem a
esmiuar detalhadamente tudo aquillo.

[Figura: D. Lucilia Aranha Grave]

Dois dedos de conversa a este, mais dous quelle, ouvindo opinies que
passavam no ar, n'um quasi sussurro de confidencias, no podia o meu
espirito socegadamente fazer a apreciao sentidamente minha, que eu
queria fazer. Depois, eu tenho a veleidade de ter opinio, de pensar
s... e no fazer como muitos que se deixam ir na correnteza do que lhe
dizem os _espiritos santos de orelha_.

Eu vou sempre umas tres ou quatro vezes s exposies d'arte, e fico
burguezmente, como um bom mercieiro, estatico deante de todos os
quadros... em alguns como n'uma adorao pelo bem executado, n'outros
como n'um pasmo, do arrojo da concepo e n'outros ento, assombrado,
fulminado, ante a imbecilidade com que elles so feitos. E depois,
serenamente, sem pretenes, nem vaidades, com a franqueza com que
fallaria a um conhecido de ha muito, venho dizer ao publico a impresso
que tive.

No levo a minha franqueza ao ponto de ser descortez com os artistas que
conheo, nem a incensar bajuladoramente aquelles de quem sou amigo:
no... sou um _critico_ moderado... sem _coterie_, e honestamente
independente.

[Figura: Paisagem--AURELIA de SOUSA]

O _vernisage_ (eu estou muito visto em termos francezes, no acham?)
esteve este anno, como em poucos, animado de artistas...

O _salon_ tinha um quer que era de superior. Os artistas tinham-se dado
ali _rendez-vous_...

Uma coisa faltava para dar a nota _chic_, e fina... eram os rostosinhos
galantes d'algumas das nossas damas. Se ellas tem apparecido, poderia
dizer n'este artigo com _aquelle meu gesto  Augusto Rosa_, que o outro
me encontrou, que a abertura da Exposio tinha estado muito curiosa,
muito _becarre_.

[Figura: Aos grillos--JULIO RAMOS]

Faltaram porm essas notas estridulas de garridice das senhoras, mas, em
compensao appareceram por l magnificos tipos _caricaturaes_ e
_grotescos_!... Se at eu estive l!!!...

Agradou-me  primeira vista o conjuncto do certamen, se bem que de
visita mais demorada, como a que em outra vez fiz, no trouxe de l a
mesma impresso.

Ahi est, se eu tivesse feito de afogadilho este artigo teria dito que a
exposio era geralmente boa, e agora no, no seria to pessimista.
Recortarei pois do catalogo alguns nomes como os de mais destaque.

Em primeiro logar, e affirmando cada vez mais a caracteristica de um
primoroso paisagista, Marques de Oliveira, com as suas trese telas de
paisagem e marinha, e ainda como affirmativa de que elle toca com o
mesmo saber a nota da figura, uma primorosa _Cabea de velha_, to
finamente tratada, to cuidadosamente desenhada e collorida que me
maravilhou.

A seguir vem Candido da Cunha, esse delicioso poeta nostalgico de
pintura, que me suggestiona com os seus quadros, poentes deliciosos,
onde parece que, atravez d'uma doce tonalidade de aldeia, se ouve o
religioso toque das Av-Marias.  Candido da Cunha um d'estes pintores
que ao serem vistos uma vez nos seus trabalhos, deixam ficar na nossa
retentiva o seu modo especial de pintar, para nunca mais se esquecer,
tal  o seu sentimento.

Torquato Pinheiro tambem se nos apresenta bem, com uns nove quadros, que
a no ser aquelle seu tom _gris-violete_, to seu, to peculiar, me
fariam uma mais larga impresso. Destacarei porm as _Lavadeiras na
levada_, _ vista do Maro_, _Sol de tarde_ e _Fim de tarde_ (Real,
Porto).

[Figura: Paisagem--CANDIDO da CUNHA]

Julio Ramos, tambem nos d quadros que demonstram o seu saber,
especialmente o _Fim da tarde_, que , a meu vr, um explendido
trabalho.

Jos de Brito vem  exposio com dous retratos a oleo, um pastel e
algumas aguarellas. Dos retratos a oleo notei como bem executado
especialmente o de _D. Margarida G. Oliveira_. O seu pastel--_Retrato do
conselheiro Avides_,  um bello trabalho. Este artista  para mim um dos
melhores desenhistas a pastel. As suas aguarellas so bem feitas, muito
bem feitas.

[Figura: Lavadeiras na levada--TORQUATO PINHEIRO]

Joo Augusto Ribeiro.--Esse bello artista que conheci como um dos bons,
vem  exposio com seis quadros. Destacarei _O Estudo_ (de troncos),
_Depois da chuva_, _A Madrugada_, que me parecem affirmar d'uma maneira
categorica que Ribeiro  um bello artista.

[Figura: D. Margarida Costa Romo]

Ha ainda Eduardo de Moura com um quadrinho muito interessante _Um
interior de um aido_, onde o assumpto  estudado com cuidado, e pintado
com saber, dando a confirmao de que este artista no  uma
vulgaridade.

Mais alguns artistas ha na exposio, mas, para no desviar o espirito
do leitor, nem lhe massar a paciencia, no me occuparei d'elles, nem dos
seus trabalhos. No  porque alguns no meream a minha atteno
especial, mas, tenho que dedicar duas palavras a algumas senhoras
artistas, e aos amadores, e se fosse a gastar muito tempo e espao,
pouco poderia dizer d'estes ultimos.

Quando entrei pela primeira vez na exposio, logo me saltou  vista um
quadro de _Camelias_, que eu julguei ser do velho Costa o grande pintor
de flores. Aproximei-me e com surpreza vi que no era d'elle, mas, sim
de D. Margarida Costa Romo, uma nova que ao apparecer nos diz logo
quanto vale. Mas, no admira, l diz o dictado:--filho de peixe sabe
nadar--e D. Margarida Costa  filha de um bello pintor, o Julio Costa.
Pois esta senhora com os seus tres quadros d-nos a impresso sincera de
que se continuar, como principia, ha-de ser uma grande artista.

D. Alice Grillo Lima. J muito nossa conhecida como uma verdadeira
artista, tambem d'esta vez se nos apresenta com muita correco e saber.
So bons os seus dous quadros de camelias.

D. Sophia de Sousa, n'esta exposio vem desfazer uma desagradavel
impresso que me tinha ficado d'uma exposio anterior. Agora, com
pujana artistica, apresenta-me seis quadros, entre os quaes, com uma
garridice soberba digna de nota, o seu _Ao sol_, que  um trabalho
largo, definido, cheio de luz, de cr, de transparencia. _Uma paisagem_
e o _Margens do Ave_, so trabalhos dignos de meno.

Apparecem n'esta exposio alguns amadores entre elles, um com muitos
quadros, o sr. Hugemin, que j em tempos fez uma exposio s sua, onde
deu provas evidentes de que  um amador-artista de valor.

[Figura: Ao Sol--SOPHIA de SOUSA]

Entre as amadoras est a snr.^a D. Maria Afflalo, que pela primeira vez
expe os seus trabalhos e que fazendo-o prova que tem muitas aptides
artisticas e  uma discipula que honra sobremaneira o seu professor Jos
de Brito.

D. Leopoldina Pinto, com o seu quadro _Flores e fructos_, apresenta mais
uma prova do seu saber pinturar.

D. Clotilde Rocha Peixoto,  uma discipula da Academia de Bellas Artes
que se apresenta com um largo quadro inspirado na deliciosa poesia de
Campoamor:


  Quin supiera escribir!


 um amplo trabalho executado visivelmente com muita e muita
proficiencia. Ha uma das figuras (o padre) que est traado com
correco e muita propridade.

Poderei affirmar que esta amadora  uma das novas que mais firmemente
demonstra que ha-de ser uma bella artista.

[Figura: D. Maria Afflalo]

Ainda figuram na exposio mais algumas senhoras, taes como: Viscondessa
de Sistello, Condessa de Alto Mearim, D. Maria Alto Mearim, D. Beatriz
Alto Mearim.

A condessa de Alto Mearim confirma de um modo justificado o seu talento
_hors ligne_ na confeco do bello quadro _Poveretta_.

D. Beatriz Alto Mearim, apparece com o seu estudo a pastel; tambem lhe
no fica a dever nada.  este seu trabalho uma prova incontestavel do
seu muito merito artistico.

D. Maria Luiza Alto Mearim apresenta duas cabecinhas interessantes e
regularmente bem feitas.

Viscondessa de Sistello, com tres paisagens feitas com conhecimento de
Arte, especialmente uma, que  bellamente feita.

[Figura: Jos Romo Junior]

Ha na exposio dois trabalhos de esculptura, um de Fernandes de S,
_Rapto de Ganymedes_, outro de Jos Romo Junior, _Cabea de estudo_.

A respeito do primeiro artista j eu disse atraz n'um desenvolvido
artigo, o que pensava d'elle. Successor indiscutivel de Teixeira Lopes,
 um bellissimo talento.

Do segundo, Romo Junior,  a primeira vez que vejo trabalhos seus, e
confesso que a _Cabea de velho_ que apresenta, me d uma magnifica
impresso. A figura lanada com largueza tem magnificos requisitos. 
uma demonstrao evidente de que Romo Junior maneja o cinzel e o
escopro com proficiencia. Um novo de talento que, de futuro, ha-de
continuar a affirmar que a raa dos esculptores portuenses  das de
primeira ordem.

Na seco aguarella s figuram os nomes de dois concorrentes Jos de
Brito, de quem atraz j fallei e D. Isabel Lauer.

Esta ultima com dois quadrinhos de figuras. Para mim no me desagrada o
operario, se bem que nenhum d'elles por completo me prenda muito a
atteno. Bastante amaneirados e muito exquisitos.

[Figura: Poveretta--Condessa de ALTO MEARIM]

Com desenho a pastel apparecem tambem s dois concorrentes: Jos de
Brito, artista consumado n'este genero, e D. Beatriz Alto Mearim.

Falta fallar de duas seces, ainda: desenho a claro-escuro e arte
applicada. Na primeira das seces ha um trabalho delicioso de Torquato
Pinheiro, um fino desenho do _Convento de Santa Clara_ de Villa do
Conde, trabalho impeccavel de correco e firmeza.

Luiz Bastos, traz-nos retalhos d'essa linda Coimbra a cidade dos
Bachareis, apanhados em estudos varios do Choupal, do Rio Mondego, de
Santo Antonio dos Olivaes, etc. Alguns feitos com mestria.

Na arte applicada, Jorge Collao, o distincto caricaturista do
_Supplemento de O Seculo_. Os seus azulejos so interessantes e dignos
de nota, especialisando o grande quadro _Reviravolta_, estudado com
interesse e executado com cuidado.

E eis, meu amigo publico, a impresso sincera de quem viu a exposio
com a independencia caracteristica do seu pensar e com a antecipada
disposio de no regatear merecimentos a quem os tivesse, nem adular
aquelles que, sendo mediocres, aspiram  enfatuada bazofia de serem
notaveis. Sinceridade e nada mais.

 provavel que os _verdadeiros_ entendedores no pensem como eu, mas l
diz o dictado:--que seria, do amarello se no houvesse mau gosto.

Deveria fechar j aqui a minha informao mas vejo l expostos uns
azulejos, _panneaux_, etc., que se desculpam por serem o reclame de uma
fabrica de Ceramica, porque, se tem sido apresentados como trabalhos
artisticos, ento deveriam ser exautorados rigorosamente.

E adeus, que no tenho tempo para mais, nem sei mesmo se alguem ter
coragem de ler isto at ao fim.

[Figura: Barcos de pesca--JULIO RAMOS]




XXIII

AMADORES PORTUENSES

ALBERTO AYRES DE GOUVEIA

Discipulo de MARQUES DE OLIVEIRA


Este meu biographado no  precisamente um amador; poderia, sem receio
ele ser contraditado, e sem medo de errar, incluil-o francamente no
numero dos nossos mais distinctos pintores, e isso porque os seus
trabalhos artisticos so de molde a dar-lhe esse fro.

Alegro-me ao escrever este artigo, e alegro-me porque  sempre com
consolo que me refiro quelles que, possuidores de algum valor, se no
deixam adormecer  sombra ele alguns louros colhidos na paz doce da
mandria, antes tentam a mais e mais fixar as suas aptides, n'um
trabalho serio e proveitoso.

E, Alberto Ayres tem feito isto. Desde que se emprehendeu a pintar tem
trabalhado com afinco e muitissimo proveito.

[Figura: Alberto Ayres de Gouveia]

Conhecia de ha muito este rapaz, que, pela sua avultada fortuna, pelas
relaes de familia, e por viver na alta roda, onde se dava o prazer de
ser um dos eleitos, eu tinha na conta de um excellente cavalheiro, um
fino homem de sala, cavaqueador com espirito e mais nada!

Mas, enganei-me redondamente, o que no  para admirar, porque acontece
a muito boa gente.

O meu biographado era tudo aquillo e ainda mais alguma coisa:--um amador
_enrag_ da pintura.

Como soube eu isto e como tive emfim a confirmao do seu merecimento
artistico? Vou tentar dizel-o em poucas palavras.

Nas noites frias de inverno temos por costume reunirmo-nos alguns amigos
em cavaqueira alegre e discutimos n'essas occasies muitissimas coisas,
problemas d'Arte, mundanismo, casos alegres do dia, philosophando de vez
em quando sobre politica, litteratura, celebridades, theatros, etc.,
etc. No  um cenaculo, nem uma academia,  um _cercle_ algo espiritual,
onde a alegria tem especialmente o seu logar.

Pois n'uma d'essas cavaqueiras abordou-se o assumpto pintores e
amadores, e entre outros nomes veiu  tela da discusso o nome de
Alberto Ayres de Gouveia, que um dos circunstantes conhecia
perfeitamente.

Elogiou-o, fez a historia da sua aprendizagem d'Arte e eu fiquei como se
costuma dizer com a _pedra no sapato_ e, como observador que sou, tratei
immediatamente de me informar do merecimento verdadeiro ou falso d'este
amador.

De divagao em divagao e de informe a informe, vim a concluir que o
meu amigo tinha muita razo e que Alberto Ayres era de facto um rapaz de
incontestavel merecimento artistico.

Mas, no s como pintor elle deveria ser apreciado, como auctor e amador
dramatico tambem. Eu me explico.

Um anno, estando a banhos como de costume, na formosa e aristocratica
praia da Granja, alli deu as suas provas de amador, desempenhando, n'uma
festa de caridade, alguns papeis de umas deliciosas comedias, que elle
proprio tinha escripto, e que, segundo entendedores do genero, eram
verdadeiras joias litterarias finamente buriladas.

E, com esta minha eterna mania de conversar, uma tarde, no atelier do
meu muito amigo e infeliz Manuel San Romo, fallando-lhe dos
divertimentos da Granja e a respeito do baile Luiz XV que alli se dera,
das finas recitas que a gentil colonia alli a banhos, costuma realisar,
o nome de Ayres de Gouveia foi citado e eu disse como me tinham
inspirado sobre o seu merito litterario e artistico.

Manuel San Romo, com aquelle seu modo correcto e fino e aquelle seu
espirito ousado e emprehendedor, n'um gesto todo de enthusiasmo
fallou-me d'elle dizendo, que no que elle era notavel era na pintura e
citava um formoso retrato do Snr. D. Antonio Ayres de Gouveia, ento
Bispo de Bethesaida, hoje Arcebispo da Calcedonia e tecendo-lhe os mais
rasgados elogios, affirmou-me que elle era um amador que havia de futuro
marcar epocha entre os artistas (mestres) portuguezes.

[Figura: A palavra do Mestre--ALBERTO AYRES de GOUVEIA]

A opinio de Manuel San Romo, era para mim como uma pagina do
Evangelho; elle que lhe via merecimento era porque na verdade o tinha.

O retrato se no era uma maravilha, dizia San Romo, era no entanto uma
obra acceitavel e cheia de bellos predicados, um verdadeiro quadro
tocado com proficiencia, desenhado com saber, d'um colorido doce e d'uma
mais que regular semelhana.

Ao ouvir isto, logo se me arreigou no espirito a ideia de que elle tinha
talento e me nasceu o desejo de ter de _vizu_ a confirmao d'isso, o
que s poderia conseguir visitando o seu atelier e a sua galeria, pois
que elle, nem expunha, nem vendia os seus trabalhos.

Como conseguir porm isto? Quasi impossivel, porque o amador fugia 
visita que eu tentava fazer-lhe, querendo assim deixar-se ficar no
encoberto mysterio d'uma modestia, que no tinha razo de existir.

Passara-se tempo, muito tempo, sem que eu tivesse o prazer de,
encontrando-o, lhe manifestar o desejo que tinha de n'uma visita ao seu
atelier, vr o que elle tinha realisado em Arte.

Em 1902, abre uma das exposies que o Instituto de Estudos e
Conferencias to proveitosamente tem organisado e realisado no Pateo da
Misericordia. Era um magnifico dia de _vernisage_, e eu ao entrar sou
immediatamente attrahido d'um modo particular e suggestivo, por umas
poucas de telas que me saltam  vista impressionantemente. Tomo do
catalogo e folheando inquiri quem  o seu auctor. O nome de Alberto
Ayres de Gouveia era o que se lia por cima dos numeros que eu procurava.
Eram, de facto, de molde a impressionar os trabalhos expostos.  mente
me saltou, como uma doce recordao, a conversa que tivera com Manuel
San Romo e immediatamente me convenci de que quem pintava aquelles
quadros no podia ser apellidado de simples amador.

Era indiscutivelmente muito mais do que isso, era um verdadeiro artista
e com trabalhos taes, que alguns pintores, com nome feito, no
desdenhariam assignar.

Em artigo que n'outro logar publco a elles me referi e alli disse
alguma coisa do que pensava a tal respeito. Agora porm que dedico ao
seu auctor duas paginas do meu livro, em especial, no ser demais
tornar a fallar d'elles.

Eram para mim esses trabalhos primorosos, mas, se alguns defeitos tinham
eram elles por si to insignificantes que apenas mereciam o reparo
ligeiro e unicamente indicativo, sem que viesse aggravado com a
investida descortez e brutal de certa critica imperduravel e muitas
vezes inconsciente. Porque os trabalhos expostos eram indicados no
catalogo simplesmente como d'amador, mas d'amador distincto e correcto
em verdade.

E bastava s isto, que elles fossem de amador, mas feitos firmemente com
largueza de trao, preciso de cr, correco de desenho e de
perspectiva, definidos emfim como de verdadeiro artista, para espantar a
critica de campanario e os entendedores _bon march_.

E tudo isto porque? Porque habitualmente os amadores quando apparecem em
publico com trabalhos seus, so estes to banaes e to simples que
passam perfeitamente desapercebidos entre os trabalhos dos artistas, sem
lhe fazerem mossa, ou sem lhe provocarem confrontos.

Com Alberto Ayres, porm, no se dava isso, apparecia pela primeira vez,
mas to desassombradamente e com trabalhos de tal folego, que at houve
quem no quizesse acreditar que eram d'elle. Mas eram e to bons que
poderiam entrar com gloria em qualquer concurso, pois tenho a certeza
que ao seu auctor seria dada uma primeira classificao.

[Figura: Christo morto--ALBERTO AYRES de GOUVEIA]

Ento  que mais e mais se me encasquetou na cabea a ideia de observar
toda a sua obra, conhecel-o no seu intimo, na sua maneira de vr e de
pintar, e depois de um assedio em forma consegui que elle me desse a
honra de permittir-me uma visita d'Arte. E visitei ento a sua
formosissima casa, onde se espalham artisticos _bibelots_ e bellos
trabalhos de muito valor artistico. Fiz esta visita cheio d'uma suave
unco que se deve aos templos onde se sacrifica a um Deus. N'aquella
casa sacrificava-se a Deusa Arte e por isso reverente alli me conservei.

Conversando durante algum tempo contou-me a sua iniciao na arte de
pintar, e como, sob a competente e abalisada inspeco do grande Marques
d'Oliveira, pde conseguir o que fazia.

Desenhou muito, e quando lanava os seus vos para mais alto, sob
indicaes do professor, foi em viagem artistica pela Europa, aos paizes
onde mais afincadamente se rende culto  Arte e alli estudou nos museus
e nas escolas de pintura alguma coisa que lhe dsse conhecimentos uteis.
E assim, analysando e estudando os quadros geniaes dos mestres e
acompanhando os adeantamentos e os progressos das novas escolas,
percorreu os muzeus de Madrid, Paris, Londres e Italia, no com a
despreoccupao de um _touriste_, mas com a observao religiosa d'um
crente, sob a indicao e a companhia de Marques de Oliveira, seu
professor e que  entre os que pontificam na Pintura, um dos que mais
sabiamente sabem vr, porque  dotado d'um espirito critico especial e
finissimo.

Da visita que fiz ao atelier d'este distincto amador, ficou a mais grata
e a melhor das impresses.

D'entre as telas que vi, as que mais fundamente me impressionaram foram
a _Leitura das prophecias_, _Retrato do Ex.^{mo} e Rev.^{mo} Snr.
Arcebispo de Calcedonia_, _A palavra do Mestre_, _Retrato do proprio
auctor_, _Retrato de A. Burnay_, _Estudo_, _Baixo imperio_, _Appolo_ e
_Cabea d'estudo_ (carvo), que so admiraveis.

[Figura: S. Joo lendo as prophecias--ALBERTO AYRES de GOUVEIA]

D'alguns d'estes trabalhos, apresento as gravuras, que pude conseguir,
quebrando quasi  fora a modestia do meu biographado.

El-Rei D. Carlos, n'uma visita que fez  Exposio de Bellas-Artes em
Lisboa, fez meno especial dos seus quadros, chamando-lhe pintor
notavel e de pulso.

E de facto El-Rei no se enganou porque Alberto Ayres de Gouveia est na
galeria dos artistas de pintura portuguezes mais distinctos.

[Figura: Paisagem--CANDIDO da CUNHA]

[Figura: Estudo--JOO AUGUSTO RIBEIRO]




XXIV

Uma Exposio de Estatuetas

FRANCISCO GOUVEIA


J era tempo de dedicar algumas palavras de justia, ao distincto
artista Francisco Gouveia, cerca da visita que fiz  sua magnifica
exposio de esculptura, aberta aqui no Porto, no Salo da Photographia
Guedes, e cumprir o dever gratissimo de corresponder  galanteria e ao
modo penhorante como elle me acolheu.

E fao-o, porque nunca antepuz  manifestao de admirao pelos
trabalhos de qualquer artista de valor, outra qualquer manifestao.

[Figura: Francisco Gouveia]

A Arte, para mim a mais sublime das cousas, a mais insinuante das
manifestaes, tem um logar to alto, to deslumbrante, to culminante
que em frente d'ella eu julgo-me insignificantemente pequeno, e
curvando-me reverente, fico depois extatico, cheio d'unco na mais
santa e na melhor das adoraes.

Por isso, ao abalanar-me ao cumprimento d'um dever sagrado, eu
commetteria um crime de lesa-religio artistica se no dedicasse algumas
paginas  deliciosa exposio, que ha tempos tive o prazer de visitar.

J o tenho dito varias vezes e hoje o repito: eu sempre que tenho ensejo
de admirar uma obra de arte, pintura, esculptura, musica, ou seja o que
fr, nunca falto; sou dos que vou primeiro, e, quasi sempre, dos que
sahem no fim.

 facil ficar perfeitamente embasbacado em frente d'um quadro, ou d'uma
esculptura, durante horas, alheio a tudo quanto se passa em volta de
mim, tal me tem succedido ante as obras de Malha, Salgado, Carlos Reis,
Marques de Olivieira, etc., e como em nenhumas outras, ante as
extraordinarias creaes do sublime Teixeira Lopes.

Por isso, como um fanatico pela Arte eu accorri ao Salo da Photographia
Guedes a vr os trabalhos, j para mim conhecidos de nome, do nosso
querido concidado Francisco Gouveia.

Que este artista, como todos os bons esculptores portuguezes, tambem 
filho do Porto.

Francisco Gouveia, era um nome que se impunha j de ha muito 
considerao e  admirao de todos ns, porque l fra, no estrangeiro,
affirmava exhuberantemente, com os seus trabalhos, que ns os
portuguezes tambem somos capazes de dar provas evidentes e definidas de
intellectualidade e aptido artisticas.

[Figura: Teixeira Lopes--F. GOUVEIA]

Entre muitos dos seus bellos trabalhos destacarei, para fazer notar
aqui, o seu _Beatriz de Portugal_, que marcou d'uma frma confirmativa e
energica o seu saber e o seu modo de esculpir.

Este trabalho ao apparecer em Paris, de tal nomeada foi cercado, que
mereceu a honra de ser reproduzido em diversas illustraes
estrangeiras, onde se fizeram referencias honrosamente dignas ao nome do
nosso artista.

Mas, como diz Xavier de Carvalho n'um pequeno esboo critico a respeito
de Francisco Gouveia: quiz ser o artista naturalista no minucioso
detalhe, comeando por nos dar um _Ea de Queiroz_ apanhado n'uma _pose_
verdadeiramente natural e sincera. Depois temos a serie das suas
esplendidas estatuetas, to cheias de vida plastica, d'um correctissimo
desenho, mesmo quando o esculptor passa da maneira emocional do seu
mestre querido Injabert  larga _bauche_ de Rodin que mesmo chegou a
attingir na silhueta do grande artista rebelde.

E de facto assim . Francisco Gouveia realisou este _desideratum_ e ao
abrir ao publico indifferente e  critica honrada e honesta d'uns,
venenosa e malsinada d'outros, a sua exposio, fel-o, sem aspirar as
louvaminhiches dos primeiros nem temer boas ou ms apreciaes dos
segundos. Fel-o como affirmao publica do seu talento artistico e da
sua persistencia do trabalho, fel-o como era justo que o fizesse.

Para isso traz-nos 78 trabalhos qual d'elles o mais fino, qual d'elles o
mais correcto, qual o mais bem estudado, e mais bem executado.

Desde a estatueta sria  estatueta caricatural, desde os medalhes
graves s mascarasitas patinados, nada ha alli que no seja correcto e
que no seja perfeito.

Estudos regularmente anatomisados, dando o individuo em todo o seu ser,
em todo o seu aspecto, com todo o ar natural, parecendo mover-se regular
e compassadamente, vivificados, com movimentaes naturaes, expresso
definida no rosto. E tudo isto em estatuetas que variam entre 40 e 60
centimetros d'alto.

Mas, ha para mim, entre todos os trabalhos expostos, um, que  dos mais
extraordinarios--a caricatura psychologica do grande morto _Ea de
Queiroz_!--Fulgurantissima de genio. Vemos n'ella, n'aquelle bronze,
atravez da esgrouviada figura do romancista que nos assesta o monoculo
n'uma persistente meticulosidade de observador a sua alma analysta, com
um qu de sarcastico, como sorrindo-se interiormente de toda esta nossa
sociedade, que elle olha atravez da sua impertinente lente. 
simplesmente assombroso.

[Figura: Ea de Queiroz--F. GOUVEIA]

A minha vontade era fazer notar uma a uma as estatuetas, as composies,
as caricaturas, as medalhas, mas isso  impossivel e portanto, em mais
duas palhetadas vou fechar este artigo.

Entre os trabalhos _estatueta-retratos_, muitos d'elles de pessoas
nossas conhecidas, ha alguns com quem appetece conversar um pouco. A do
_Marcos Guedes_, a do _Pae Ramos_, (ambos estes collegas do _Janeiro_),
a do _Snr. Caetano Pinho da Silva_, a do nosso querido _Teixeira Lopes_,
a de _Guedes d'Oliveira_ so magnificas. Ha tambem um retrato do grande
poeta _Guerra Junqueiro_ (phantasia), que  muito interessante. Guerra
Junqueiro  apresentado com uma tunica que lhe cae sumptuosamente como a
um propheta, tendo o brao direito levantado em meno de quem prga o
Evangelho, e no brao esquerdo as taboas da lei.  delicioso de
concepo e de execuo.

Na _estatueta-composio_ destacarei: _A viajante_, _A primeira
esculptura_, _A parisiense_, _A tristeza_, _Meditaes_, _Grupo de
leitoras_, _Saudades_ e _Ama parisiense_ (do jardim de Luxemburgo).

[Figura: Marcos Guedes--Guedes d'Oliveira--Guerra Junqueiro--_Pae
Ramos_--FRANCISCO GOUVEIA]

Mas que estou eu aqui a destacar, se todas ellas so boas, se todas
ellas me encantaram?!...

As outras, terras-cotas, bronzes, etc., so, como estas, deliciosas
obras, que merecem ser vistas e apreciadas devida e detalhadamente.

No  esta exposio de molde a ser visitada como uma exposio de
quadros, onde as cres nos venham de longe em varias tonalidades, 
vista. No, aqui precisamos de parar, analysar feies, expresses,
linhas, tudo, emfim.  preciso deixar a vista pousar durante um pouco,
para examinar toda aquella perfeio, toda aquella correco, que no se
pde vr  _vol d'oiseau_.  preciso fazer como eu fiz, estar l horas e
voltar l mais vezes, que de cada vez que se l volta novas cousas se
descobrem nos trabalhos expostos. Quem v s uma vez, quasi sempre no
v nada.

Vou acabar por aqui, antes, porm, devo dizer que Francisco Gouveia  um
d'estes rapazes insinuantes, com quem se sympathisa logo que se falle
com elle uma vez.

Modesto em extremo,  um trabalhador de verdadeiro merito, e um espirito
lucidissimo. E eu, ao fechar o meu artigo para as Notas d'Arte, aqui lhe
deixo significadas, ainda que muito pallidamente, a minha admirao ao
seu grande talento artistico e a convico de que o seu nome tem o
direito indiscutivel de figurar a par do dos nossos primeiros artistas,
pois exuberantemente conquistou um dos primeiros logares, como sacerdote
magno, no templo da sublime Arte Portugueza.

[Figura: Paisagem--LUCILIA ARANHA GRAVE]

[Figura: Teixeira Lopes]

[Figura: Caim--TEIXEIRA LOPES]




XXV

MANUEL MONTERROSO


Tenho para mim este modo de pensar, talvez exotico, mas convicto, de que
a caricatura  um maravilhoso remedio para muitas doenas sociaes.

Bem sei que nem sempre a cura se faz e a caricatura  applicada sem
resultados praticos. Mas, muitas vezes, a maior parte d'ellas, a
applicao adquada, d'uma caricatura, no momento psychologico, produz
tal revoluo no meio onde  lanada, que a doena social desapparece
como por encanto.

[Figura: Manuel Monterroso]

Com todos os remedios acontece a mesma coisa. Quantas vezes um illustre
clinico applica um caustico, cheio de confiana, convencido que dentro
de duas horas a pelle do doente estar levantada e suppurante, e apesar
do medicamento estar em pleno effeito, o caustico falha, ou porque o
doente j no d reaco para que o resultado seja satisfatorio, e
n'esse caso est morto, ou ento por que a pelle  de tal frma grossa e
callejada que no ha nada que a possa atravessar e remover!

As doenas da sociedade so tal qual as doenas dos homens. E ella
propria tambem tem anomalias como qualquer doente.

Uma sociedade morta, ou quasi a dar o ultimo suspiro, pde ser
causticada com caricaturas, que no resurgir. E o mesmo succeder se
ella pela desfaratez dos seus caracteres fr uma sociedade _estanhada_,
endurecida e callejada. Mas se entre essa sociedade alguma coisa houver
ainda que vitalmente sinta as picadas ardentes da caricatura, ento ella
resaltar e viver pondonorosamente espurgada do mal que a amortecia e
definhava.

[Figura: Dr Leopoldo Mouro--Caricatura de MANUEL MONTERROSO--Publicada
na _Voz Publica_]

A mesma revoluo se faz na vida social dos homens isoladamente.
Caricaturados por um lapis mordaz, mas fino, que os apresente  irriso
publica, sob qualquer dos seus aspectos ridiculos, elles remorder-se-ho
na sua vaidade intima e, procuraro, embora disfaradamente, curar-se
dos seus defeitos, se  que o mal da desfaratez os no contaminou to
intimamente, que os tenha posto por completo fra da aco benefica,
embora torturante do medicamento.

Muitos, muitissimos factos poderiam ser apontados como provas
indiscutiveis e irrefutaveis, se quizessemos d'um modo affirmativo e
terminante impr a nossa opinio. Mas, no, no temos nem esse desejo,
nem essa vaidade. Ao delinear estas linhas, simplesmente o fazemos como
o _avant-propos_  apresentao que tentamos fazer d'um dos mais
distinctos medicos portuenses, e no momento presente o primeiro
caricaturista portuguez.

Hoje que infelizmente perdemos o maior de todos os nossos
caricaturistas--o grande, o incomparavel mestre--Bordalo Pinheiro, posso
dizer abertamente que Manuel Monterroso  entre ns o unico capaz de
seguir to gloriosamente como o Mestre, as suas deslumbrantes pisadas e
seu genio fulgurante e radioso.

[Figura: Uma pagina da _Parodia_--MANUEL MONTERROSO]

E, no quero que Monterroso me agradea estas verdades sinceras que me
saltam da penna, ditadas pelo pensamento, espontaneamente, lealmente,
taes como as sinto. No, nem o meu fim  esse. Se lhe dedico algumas
palavras  porque na minha pequenez de insignificante amador de Arte,
tenho por elle, pelo seu lapis fino e caustico e pelo seu muito talento
artistico, uma profunda admirao.

Extasiava-me diante das caricaturas de Bordalo com a venerao adoravel
de verdadeiro admirador, do engraado, do mordaz, do bello e do
correcto.

Hoje ante o trao fino, seguro, preciso e mordaz de Monterroso tambem me
permitto ficar extasiado. E tudo isto porque o considero um optimo
caricaturista, um perfeito desenhista.

Incapaz, como sou, de faltar  verdade, no escrevia que o achava
grande, nem o diria to afoitamente, se no estivesse, como estou,
convencido de tal.

No digo isto,  bom que se saiba, para me dar ares; digo-o porque
rebuscando e procurando na pequena galeria dos caricaturistas
portuguezes, no encontro nenhum que possa passar-lhe adiante. Nem mesmo
o Manuel Gustavo, que ainda assim, para, mim,  um dos melhores.

[Figura: Joo Oliveira Ramos--Caricatura de MANUEL MONTERROSO--Publicada
na _Voz Publica_]

Pois, nem mesmo esse, que to intimamente conviveu com o Mestre, que to
de perto recebeu as suas lies, pde dizer ousadamente a Manuel
Monterroso:--eu valho mais do que tu... o primeiro logar pertence-me...

Por que de facto no vale. Manuel Monterroso tendo a intuio natural de
_fazer bonecos_, (como elle diz), conhecendo anatomicamente o homem (ou
elle no tivesse sido um dos bons discipulos do terrivel Lebre[1],
possuidor d'uma retentiva verdadeiramente photographica, elle, vendo uma
vez um individuo, apanha-lhe immediatamente, no s as linhas geraes,
mas os mais pequenos detalhes caricaturaes: e, n'estas condies, com
estes predicados e alem de tudo isto uma boa dse de talento, realisa
desenhando verdadeiras obras primas.

[Figura: Raphael Bordallo Pinheiro--Caricatura em barro de MANUEL
MONTERROSO]

Fulgurantissimas de graa so as varias paginas, que muitas vezes, de
collaborao com os litteratos Campos Monteiro e Guedes d'Oliveira,
viram a luz na _Parodia_.

Notavel como trabalho de verve fina e delicadissima a caricatura que foi
offerecida ao Dr. Joo Pereira Dias Lebre, professor de anatomia da
Escola Medica do Porto, no anno em que elle se jubilou.

Notaveis os seus trabalhos, que tem distribuidos por amigos, em
amistosas dadivas.

Caricaturas avulsas de typos conhecidos feitas em intimas camaradagens e
que o grande publico nunca teve o prazer de vr, mas que eu conheo
perfeitamente bem. No fallando nas caricaturas que a largos traos de
carvo elle lana rapidamente sobre o papel branco que friamente
apparece ao publico, quando em algum concerto de caridade elle vem
tambem coadjuvar o luzimento d'essa festa, com a irradiao do seu genio
repentista e correcto.

N'essas occasies  que elle tem mostrado mais publicamente a facilidade
com que retem e executa o desenho caricatural dos typos apresentados.

A todos quantos tenho visto fazer este genero de trabalho, tenho notado
uma coisa: elles ao apresentarem-se em publico trazem j no seu cerebro
estudados e desenhados os typos a executar, e assim invariavelmente nos
atiram com o Jos Luciano, o Hintze Ribeiro, o Burnay, o Z Povinho, o
Rei de Inglaterra, o Rei de Portugal e outros personagens, cujo perfil
est de ha muito conhecido e estudado, perfis que, a maior parte das
vezes, eu mesmo, leigo em desenho e em caricatura, ia desenhar depois de
uma leve recordao.

Manuel Monterroso, no faz assim. Uma vez no palco ou estrado, lana a
vista por sobre a plateia, e com aquelles olhinhos vivos e penetrantes
fca um individuo. Olha-o duas vezes e em seguida, costas voltadas ao
publico elle ahi vae, carvo em punho, traando, rapida e precisamente o
typo que escolheu.  assim que elle faz; nunca trouxe de casa, no seu
caderno de apontamento, as notas typicas dos individuos a desenhar.

Mas, no s como desenhista e caricaturista a lapis ou a aguarella, elle
 notavel. Ha alguma coisa mais a notar no meu artista.

Como ceramista tambem  para ser notado e muito.

--Ora? dir o leitor! Como ceramista? Pois no lhe conhecia essa
prenda?!

--Nem eu! Mas ha tempos em conversa, a rirmos sobre mil coisas diversas
e muito especialmente sobre _bonecos_, Manuel Monterroso disse-me 
queima roupa: Sabe, vou fazer _bonecos_ em barro, caricaturas de outra
especie.

--Voc est a brincar, disse-lhe eu.

--No estou, no, ver. E a primeira ha-de ser a do Bordalo (ainda elle
era vivo). Dito isto, despediu-se de mim, e, bem contra minha vontade,
no o tornei a vr durante uns poucos de dias.

Nem mais me tinha lembrado d'isso, quando uma bella manh vejo entrar o
Monterroso pela porta dentro com um embrulhosito na mo, dizendo:--C
est a obra.

[Figura: O Rei da Pea--Caricatura de MANUEL MONTERROSO--Publicada no
_Primeiro de Janeiro_]


[Figura: Os Donos da Casa--Caricatura de MANUEL MONTERROSO--Publicada
no _Primeiro de Janeiro_]

Corri apressado ao seu encontro, obrigo-o a mostrar-me o embrulhito e...
ante a appario que se fazia deante dos meus olhos eu ficava estasiado.

Uma delicada, uma fina maquete da figura em corpo inteiro do grande
mestre da Caricatura, apparecia diante de mim, admiravelmente lanada,
sabiamente estudada e medida, bellamente executada. No parecia o
primeiro trabalho de um amador, no. Era o trabalho de quem sabe e
muito, como o barro se espalma e se contorna, como se modela e como se
vivifica.

No penseis que fao o elogio balofo d'uma insignificancia. Fao
simplesmente a resenha verdadeiramente sincera de uma das mais notaveis
manifestaes do talento do meu querido caricaturista.

[Figura: Jos Ribeiro--Caricatura em barro de MANUEL MONTERROSO]

No resisti, abracei-o, felicitando-o e pedi-lhe que continuasse
n'aquelle novo systema de caricaturar os homens notaveis do nosso tempo,
e do nosso conhecimento. Prometteu-me continuar mas, a sua medicina e os
seus muitos afazeres, no tem consentido que os meus olhos possam vr
mais d'aquellas deliciosas obras.

A reproduco em bronze da _maquete_, em que fallei foi elle, como
manifestao da sua muita admirao e amizade pelo grande mestre,
levar-lh'a a Lisboa, onde Bordalo, como eu, se extasiou ante a
disposio artistica de Monterroso e a execuo d'aquelle trabalho.

E, posto isto, posso fechar o artigo porque j provei bem  evidencia
que Manuel Monterroso  innegavelmente um rapaz de indiscutivel talento.

Mas, perguntar o leitor: a que veiu aquelle prologo em que se fez jogar
a medicina e a caricatura como meios curativos da sociedade e das
gentes?!

Eu explico.  que se no tivesse gasto tanto tempo ainda vos havia de
dizer como  que o Manuel Monterroso pde ser ao mesmo tempo um grande
caricaturista e um bello medico. Isso porm fica para segundas leituras.




XXVI

A BAIXELLA BARAHONA


Venho cheio d'um sincero enthusiasmo fallar-vos agora exclusivamente
d'um dos maiores acontecimentos para a arte de ourivezaria portugueza, e
no s para ella como para a Arte, na verdadeira accepo da palavra; da
Baixella Barahona!  esta j bem conhecida em todo o Portugal, pelo que
d'ella tem dito os jornaes de Lisboa, mas um brado mais, d'um sincero
amador, nunca faz mal para engrossar o cro de hossanas, que em volta de
to magnificente obra, se tem levantado por todos quantos a tem visto.

A casa Leito & Irmo, innegavelmente os primeiros joelheiros e ourives
portuguezes, levaram a cabo a execuo da obra mais monumental e mais
artistica no seu genero, que se tem feito em Portugal ha cem annos para
c. E estou bem certo que ser preciso passar um incalculavel numero de
annos para que se faa uma outra obra assim.

[Figura: Columbano Bordallo Pinheiro]

Dous so os motivos, que me levam a acreditar n'esta profecia: A falta
de homens de gosto e de dinheiro, como o dr. Francisco Barahona; e a
falta de comprehenso da maior parte da gente, de que a Arte  a
manifestao mais bella e mais brilhante do desenvolvimento espiritual e
intellectual d'uma nao.

Mas, como no me julgo com competencia para divagaes philosophicas
sobre _Arte_, _Dinheiro_ e _Gosto_, vou entrar no meu assumpto--A
Baixella Barahona--da qual esto em exposio o _Centro de meza_, e as
_Duas serpentinas_.

So estes tres monumentos, deixem-me assim chamar-lhe, uma coisa
phantastica. Delineados sobre motivos esculpturaes do tempo de D. Joo
V, harmonisou-se n'uma contextura brilhante, encantadora, fazendo-nos
passar, como que em revista as decoraes architectonicas dos monumentos
da epocha, os escudos d'armas da casa real de D. Joo V, as talhas
douradas dos conventos, as conchas nacaradas dos mares, que ns
portuguezes dominamos nos nossos tempos de navegadores, e as aguas
espraindo-se nas nossas formosissimas praias onde o mar bate
altisonante, cantando ainda restos das nossas passadas glorias.

[Figura: Serpentina da Baixella Barahona]

 como que a orquestrao muda d'uma epopeia de deslumbramento e de
luxo. Mereciam um poema, tal  o seu primor e a sua riqueza.

Por ambas as vezes, que fui vr estas deslumbrantes obras de arte,
fiquei estasiado algumas horas, na contemplao d'ellas, e cada vez que
as olhava novos encantos lhe achava; aqui eram os festes de flores que
pareciam baloiar ao sopro da aragem, pendentes das mos torneadamente
papudas dos deliciosos amores; mais em baixo, os golphinhos com as suas
fauces escancaradas d'onde jorram torrentes d'agua que se espraiam pelo
enconchado da base; de todos os lados, as nacaradas conchas encurvadas
caprichosamente n'um anichamento sublime de preciosidades do fundo do
mar, e contornando tudo isto n'uma justeza de frma, n'um carocolar de
serpente, d'um brunido admiravel, como que uma fita de seda que mos
delicadas de fadas se entretivessem a dispr alli, como cercando aquella
serie de deliciosas coisas.

Alguem que tenha visto a Baixella, dir: e as figuras que alli existem
onde as deixar ficar o chronista?

As figuras essas so deslumbrantes de contextura, e se me deixei ficar
para o fim a fallar n'ellas, , que to fundo me feriram no espirito que
lhe reservo um logar mais ao fim do artigo para que quem me ler nunca se
esquea d'ellas.

O centro, como muito bem diz o nosso amigo M. Oliveira Ramos, na memoria
escripta expressamente para ser distribuida pela casa Leito aos seus
convidados, compe-se d'uma taa oblonga de amplo bojo, enfunada para a
base e recordando talvez na sua frma, o casco dos nossos galees do
periodo aureo.

[Figura: Centro de meza da Baixella Barahona]

De cada lado d'esta taa e como sentados no rebordo, ha duas figuras; um
Fauno e uma Bachante.

O Fauno, tendo n'uma das mos uma frauta de Pan, ri brejeiramente para
um amor que parece ter-se deitado na base a analysar aquelle typo to
caracteristico e to bem delineado. E a Bachante com um exhuberante
cacho d'uvas, tenta o outro amor que, deitado tambem, nos d a impresso
suave d'um delicioso _bb_ a quem uma nympha estivesse fazendo negaas
com em brinquedo.

Mas,  tal o deslumbrante das frmas e o rigor da anatomia d'estas
figuras, to primorosamente modeladas e to assombrosamente executadas
que parece que aquella fria prata, de que so feitas, se anima e
palpita. Todo o conjuncto  bello, mas as figuras extasiaram-me.

Columbano Bordallo Pinheiro, ao modelar aquelles primores de arte,
(talvez isto seja uma heresia), fez, a meu vr, um dos seus trabalhos
mais geniaes, a manifestao mais ampla do seu muito talento.

Porque  preciso ter-se muito talento para se realisarem obras
d'aquellas.

Ficarei por aqui, se bem que no era esse o meu desejo, mas a falta
d'espao e de tempo, a isso me obrigam. Antes porm de fechar cumpre-me
fazer, por este meio, o que j fiz pessoalmente, dar um aperto de mo, a
quem se abalanou a uma empreza como esta e saudar enthusiasticamente
com o meu fraco appoiado os grandes collaboradores d'esta manifestao
de arte portugueza,--o dr. Francisco Barahona, o verdadeiro patriota que
sabe como ninguem comprehender para que serve o dinheiro,--Columbano
Bordallo Pinheiro, que para essa obra deu parte do seu _eu_
artistico--Augusto Luiz de Sousa e Francisco Ignacio Cardoso os dois
artistas ourives sob a direco dos quaes se executou tal obra.

[Figura: Magdalena--Columbano Bordallo Pinheiro]

Aos snr. Leito & Irmo um bravo! Um bravo enthusiastico d'um humilde
admirador.

E para fechar, folgarei immenso ouvindo dizer que esses tres monumentos
vo mostrar ao mundo inteiro, na Exposio de Paris, que em Portugal ha
verdadeiros artistas e homens de arte.


  Lisboa, 31-4-900.




XXVII

CONCLUSO


Fechando este volumesito despretencioso e vago, que fiz publicar, no
com a vaidade de escriptor ou critico d'Arte, mas simplesmente para
reunir n'um mlho, pequenos e insignificantes artigos, que escrevi em
dias socegados e alegres, e que appareceram em revistas e jornaes
diarios aps visitas feitas a Ateliers, Escolas e Exposies d'Arte,
onde tive o superior prazer de passar algumas horas boas e distrahidas,
julgo ter prestado um pequenissimo servio ao meu paiz e  sua Arte.

So estas paginas simples notas de um amador. Nem ellas desejaram nunca
ser mais do que isso. Escrevi-as sincera e desapaixonadamente sem
interesses ligados aos artistas, nem o desejo de ser amavel para com
elles.

[Figura: O Desterrado--SOARES dos REIS]

Fil-o como conversador inveterado que sou, e que, no desejo constante de
conversa, escolhi o grande publico para lhe expr as minhas impresses
pessoaes e quem sabe, faltas de sciencia e talvez de criterio.

Tenho dito mil vezes, n'essas paginas atraz o digo, e no ficar mal ao
ir-me embora, repetil-o mais uma vez:--eu no sou um critico d'Arte, nem
tenho pretenes a isso.

E, n'essas condies, sob uma tal ordem de ideias, interessando-me pelas
exposies d'Arte, pelo desenvolvimento pintural dos discipulos e pelo
engrandecimento dos professores, excitando os que comeam para que breve
se ponham ao lado dos que j vo na vanguarda, animando o publico e
creando-lhe aos poucos o gosto pela Arte, dando noticias resumidas
d'algumas exposies, destacando alguns artistas e amadores dos que mais
em fco tenho encontrado, embora sem aquelle _tino especial_ de critica
_hors ligne_, como convinha para tal emprehendimento, julgo no entanto,
que contribuo dentro das minhas foras, para o desenvolvimento do gosto
pela pintura e pela esculptura entre os meus compatriotas, com estes
artigos.

N'um paiz como o nosso to cheio de poesia, to cheio de sol, to cheio
de cr, com costumes to typicos e figuras to accentuadamente
caracteristicas, com pedaos de natureza (paisagem e marinha) to cheia
d'um extraordinario encanto, d'um collorido to nosso, to genuinamente
bello, necessario se torna que elle seja sabiamente estudado e
proficientemente transplantado  tela e v mundo em fra, fazer esta
grande affirmao: que no nosso paiz, caracteristicamente pittoresco,
que como poucos  dotado de bellezas naturaes dignas de serem admiradas
por todo quanto em _tourismo_ d a volta ao mundo, ha uma pleiade de
artistas, verdadeiramente grandes, e que valem tanto como os que ha bons
l pelo estrangeiro.

Se eu, debaixo d'este ponto de vista, apontando, notando, frizando,
destacando e elevando, entre os que trabalham n'esta bella obra,
aquelles que a meu vr mais dignos so de meno, conseguir excitar os
outros para que trabalhando honradamente, gloriosamente se possam
collocar ao lado d'elles, darei por bem empregado o meu tempo.

E como no quero que se diga que esqueci os que mais gloriosamente teem
batalhado n'esse combate da Arte, aquelles, que emquanto vivos
produziram genialissimas obras, e seriam assombrosamente grandes em
qualquer parte do mundo, aqui deixo ficar, nas ultimas paginas do meu
livro, tres copias de tres trabalhos sublimes dos sublimes mestres,
d'esse trio sagrado de sacerdotes magnos do templo da Arte--Soares dos
Reis, Silva Porto e Raphael Bordallo Pinheiro.

E nada vos direi de taes genios artisticos porque para isso seria
preciso escrever tres volumes, e acho que quem  to pequeno como eu no
se deve abalanar a empreza to ardua e to difficil, pois que para
fazer o elogio d'estes sublimes mestres, exige-se pelo menos ser to
grande como elles na litteratura e na critica.

[Figura: Conduzindo o rebanho--SILVA PORTO]

Por isso simplesmente, como significao de respeito e muita admirao
ao seu grande talento, aqui lhe deixo significado o sentimento da minha
muito grande venerao.

Havereis de ter notado n'este meu livro faltas extraordinariamente
grandes, bem sei. Mas, que quereis, quem d o que tem no  obrigado a
mais.

Desejaria ainda fazer um catalogo, biographico e artistico dos nossos
melhores artistas e das suas obras com sabias notas descriptivas, mas
isso era trabalho largo de mais para quem to fracamente maneja a penna
e to leves conhecimentos tem em tal assumpto.

Se um dia, porem, l para o futuro, me achar com coragem de emprehender
empreza de tal bojo e tanta responsabilidade prometto-vos que o farei o
mais larga e o mais desenvolvidamente possivel.

E os artistas que me perdoem ento tal arrojo e tal atrevimento.

Por hoje apenas estas leves notas reportivas d'um insignificante amador
de Arte.

[Figura: Vinte annos depois--RAPHAEL BORDALLO PINHEIRO]

       *       *       *       *       *

Como estou em mar de desabafos, no ser de todo mau que antes de
terminar o mandato que a mim proprio impuz no deixe de dizer alguma
coisa a respeito d'alguns erros que apparecem nas Notas d'Arte. Por
isso, com a maior franqueza declaro que, no querendo seguir as pisadas
d'uma grande parte dos nossos litteratos, imputando aos pobres
typographos erros que s cabem aos auctores como maus revisores
d'aquillo que escrevem, dou o seu ao seu dono affirmando que todos os
erros que surgem pelo volume fra s podem ser attribuidos  ligeireza
com que tracei todas essas rapidas Notas d'Arte que, a meu vr, apesar
dos seus defeitos tem a grande vantagem de mostrar o grande amor que
tenho  arte sublime do Bello e o desejo ardente de vr galardoados os
meritos dos artistas e dos amadores portuenses.

A illustrao e a benevolencia do leitor, pesando bem a senceridade das
minhas palavras, supprir todos os erros remediando assim o velho
costume de finalisar com _emendas_.  certo que ninguem vae ao co sem
_emenda_, mas uma vez que se faz uma _confisso expontanea_ o
_penitente_ fica perdoado dos seus _peccados_.


  30 de Novembro de 1906.




INDICE


DOS ARTIGOS                                                         Pag.


No Limiar                                                              1
Impresses d'uma Exposio                                             5
Pintores Portuenses.--Julio Costa                                      9
Pintores Portuenses.--Antonio Carneiro Junior                         17
Thadeu Maria d'Almeida Furtado                                        21
Pintores Portuenses.--Arthur Loureiro                                 25
Esculptores Portuenses.--Fernandes de S                              31
Exposio da Sociedade de Bellas-Artes de Lisboa                      39
Pintores Portuenses.--Manuel San Romo                                67
A Mulher Artista                                                      73
Novas Exposies d'Arte                                               81
Uma Exposio de Aguarellas organisada por Amadores                   89
Pintores Portuenses.--Thomaz de Moura                                 93
Amadores Portuenses.--D. Joanna Andressen Silva                       97
Pintores Portuenses.--Antonio Jos da Costa                          105
Em frente d'um Cartaz!...                                            113
Na Cruz                                                              117
Amadores Portuenses.--D. Margarida Ramalho                           119
Novos quadros de Arthur Loureiro:
    I--No Atelier do Palacio de Crystal                              127
   II--Arthur Loureiro e os seus discipulos                          131
  III--Arthur Loureiro e a Academia de Bellas Artes                  135
   IV--Mais uma visita ao Atelier de Arthur Loureiro                 141
Amadores Portuenses.--Manuel Maria Lucio Junior                      145
Uma Exposio de quadros do Instituto de Estudos e Conferencias      151
Uma Exposio de Carneiro Junior                                     159
Notas ligeiras d'uma Exposio                                       163
Amadores Portuenses.--Alberto Ayres de Gouveia                       171
Uma Exposio de Estatuetas.--Francisco Gouveia                      179
Amadores Portuenses.--Manuel Monterroso                              185
A Baixella Barahona                                                  193
Concluso                                                            197





INDICE


            Retratos         Pag.               Quadros               Pag.

S. M. a Rainha                 73--Estudo de creana (aguarella)        75

El-Rei                         39--Paisagem (pastel)                    40
                                   Guarda arabe (pastel)                66

Alberto Ayres de Gouveia,     171--A Palavra do Mestre                 173
                                   Christo Morto                       175
                                   S. Joo lendo as Profecias          176

Adelia Ramos (D.)             144--

Alfredo Keill                    --A chegada da deligencia aos Valles
                                    em Ferreira do Zezere               61

Alice Grillo Lima (D.)         79--Orchideas                            80

Antonio Jos da Costa         105--Chrysanthemos                         7
                                   Guarda Fiel                         103
                                   Rosas e Pionias                     106
                                   Outros tempos                       107
                                   No Pinhal                           108
                                   Camelias                            109
                                   Junquilhos e Camelias               110
                                   Junto do Cruzeiro                   111

Arthur Loureiro            25-127--Barra--Foz do Douro                  26
                                   Frontal d'uma arca                   27
                                   O Passado                            28
                                   No voltar mais                     29
                                   Retrato de S de Albergaria         129
                                   Retrato do Dr. Francisco Anthero    132
                                   Tigres                              134
                                   S no Mundo                         136
                                   De aldeia em aldeia                 138
                                   Paisagem                            139
                                   Flora                               140
                                   Pinheiros                           142

Aurelia de Sousa (D.)          74--Paisagem                            164

Branca Assis (D.)                --Tia Bertha                           76

Candido da Cunha             7-88--Impresso de Paris                  125
                                   Crepusculo Matutino                 153
                                   A Procisso                         162
                                   Paisagem                            165
                                   Paisagem                            177

Carlos Reis                      --Mendiga                              44
                                   Retrato de El-Rei                    55
                                   Olaia em flor                        57

Carneiro Junior                17--Retrato                              18
                                   Entrega de Evora                    160

Columbano Bordallo Pinheiro   193--Tomando ch                          53
                                   Candelabro                          194
                                   Centro de meza                      195
                                   Magdalena                           196

Condeixa                         --Cabea d'estudo                      41

Condessa d'Alto Mearim         78--Poveretta                           169

Duqueza de Palmella              --Cabea de negra                       4

Eduardo Moura                  88--Guardando vaccas                    155

Fernandes de S                31--Desafio                              32
                                   Cames                               33
                                   Beijo Materno                        35
                                   Busto de Antonio Cano                37
                                   Rapto de Ganymedes                   63

Francisco Gouveia             179--Teixeira Lopes                      180
                                   Ea de Queiroz                      181
                                   Marcos Guedes, Guedes d'Oliveira,
                                     Guerra Junqueiro, Pae Ramos       182

Joanna Andressen Silva (D.)    97--Salo do Palacete de D. Joanna       98
                                   Canto do Atelier                     99
                                   Busto de Mademoiselle Elisa
                                     Andressen                         100
                                   Busto de Mademoiselle Ramos Pinto   101
                                   Busto de Mademoiselle Joanna
                                     Andressen                         102

Joo Augusto Ribeiro            8--Estudo                              178

Joo Vaz                         --Marinha                              45

Joaquim Marinho                89--

Jos de Brito               6-152--Vaga                                 47
                                   Cabea de estudo (pastel)            91

Jos Malha                     5--Que grande calamidade                 6
                                   Barbeiro d'aldeia                    42

Jos Romo Junior             168--

Jos Teixeira Lopes            88--Paisagem (aguarella)                 90

Julio Machado                   --Cartaz                              114

Julio Costa                     9--Retrato do Conselheiro Joo Franco   10
                                   Retrato de Oliveira Martins          11
                                   O Calvario                           14
                                   A Ti Anna                            15
                                   Na Cruz                             118

Julio Ramos                88-156--Aos Grillos                         164
                                   Barcos de Pesca                     170

Leopoldina Pinto (D.)            --Flores                               84

Lucilia Aranha Grave (D.)     163--Na Eira                              30
                                   Paisagem                            183

Manuel Maria Lucio Junior     145--Marinha                             147
                                   Barra--Foz do Douro                 149

Manuel Monterroso             185--Caricatura do auctor das Notas
                                     d'Arte                              1
                                   Cartaz                              115
                                   Dr. Leopoldo Mouro                 186
                                   Uma pagina da Parodia               187
                                   Joo Oliveira Ramos                 188
                                   Estatueta de Raphael Bordallo
                                     Pinheiro                          189
                                   O Rei da Pea                       190
                                   Os donos da Casa                    191
                                   Estatueta de Jos Ribeiro           192

Manuel San Romo               67--Na espectativa                       68
                                   Paisagem                             69
                                   Paisagem                             70
                                   Uma sevilhana                        71

Margarida Costa Romo (D.)    166--

Margarida Ramalho (D.)        119--Castanheira                         122
                                   Cabea de velho                     123

Maria Afflalo (D.)            168--

Maria Augusta Bordallo
  Pinheiro (D.)                  --Um leno de rendas                   23

Marques d'Oliveira             83--Paisagem                             43
                                   Entre o almoo e o jantar            59
                                   Paisagem                            154

Raphael Bordallo Pinheiro        --Vinte annos depois                  200

Silva Porto                      --Conduzindo o rebanho                199

Soares dos Reis                  --O Desterrado                        197

Sophia de Sousa (D.)           82--Ao Sol                              197

Sousa Pinto                   151--

Teixeira Lopes                184--Busto de inglesa                     51
                                   Santo Isidoro                        65
                                   A Caridade                           85
                                   Baixo relevo (Saudade)              161
                                   Caim                                184

Thadeu Maria de Almeida
  Furtado                      21--

Thomaz de Moura                93--

Torquato Pinheiro             156--Retrato de minha Me                  8
                                   Retrato de Bernardino Reaes         157
                                   Lavadeiras na levada                166

Velloso Salgado                49--Panneaux para o Palacio da Bolsa     87
                                   Panneaux para o Palacio da Bolsa     95

Zo Wanthelet Batalha Reis       --Quem espera desespera                77


Notas:

[1] Um dos mais distinctos professores da Escola Medico-Cirurgica do
Porto, j fallecido.




Lista de erros corrigidos

Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+---------------------+----------------------+
  |          |      Original       |      Correco       |
  +----------+---------------------+----------------------+
  |#pg.    6| o educao          | a educao           |
  |#pg.   37| fificar             | ficar                |
  |#pg.   45| destestaveis        | detestaveis          |
  |#pg.   47| 52                  | 62                   |
  |#pg.   54| 312                 | 212                  |
  |#pg.   82| fezendo-nos         | fazendo-nos          |
  |#pg.   90| medesto             | modesto              |
  |#pg.  106| devido              | devida               |
  |#pg.  111| tratados            | tratadas             |
  |#pg.  133| delicamente         | delicadamente        |
  |#pg.  134| professsor          | professor            |
  |#pg.  141| granda lucta        | grande lucta         |
  |#pg.  147| interressante       | interessante         |
  |#pg.  164| centamen            | certamen             |
  |#pg.  188| Eatasiava-me        | Extasiava-me         |
  |#pg.  190| carderno            | caderno              |
  |#pg.  192| modela o como       | modela e como        |
  |#pg.  192| elogie              | elogio               |
  |#pg.  194| ddivagaes         | divagaes           |
  |#pg.  202| Adelina Barros      | Adelia Ramos*        |
  |#pg.  202| Zerere              | Zezere               |
  |#pg.  203| Tomanho             | Tomando              |
  +----------+---------------------+----------------------+

* ndice alterado de acordo com legendas das imagens da obra.

As variaes de nomes prprios foram mantidas de acordo com o original.





End of the Project Gutenberg EBook of Notas d'arte, by Antnio de Lemos

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOTAS D'ARTE ***

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number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


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