Project Gutenberg's Um club da M-Lingua, by Fyodor Mikhaylovich Dostoyevsky

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Title: Um club da M-Lingua

Author: Fyodor Mikhaylovich Dostoyevsky

Translator: Manuel de Macedo

Release Date: March 15, 2010 [EBook #31657]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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    Notas de transcrio:

    O texto aqui transcrito,  uma cpia integral do livro impresso em
    1908.

    Mantivemos a grafia usada na edio impressa, tendo sido corrigidos
    alguns pequenos erros tipogrficos evidentes, que no alteram a
    leitura do texto, e que por isso no considermos necessrio
    assinal-los. Os nomes das personagens apareciam impressos de
    mltiplas formas, e foi feito um esforo de uniformizao da grafia
    dos mesmos, tomando como referencia uma traduo em ingls da mesma
    obra. Na verso htm deste texto esto assinaladas as correces.


UM CLUB DA M-LINGUA





FDOR (THEODORO) DOSTOIEVSKY

Um club da m-lingua

TRADUCO DE MANUEL DE MACEDO



1908

"A EDITORA"

_Largo do Conde Baro, 50_

LISBOA



Typographia "A Editora"--Largo do Conde Baro, 50--Lisboa




O SONHO DO PRINCIPE GAVRILA




I


Maria Alexandrovna Moskalev  com toda a certeza a dama de mais subida
importancia em Mordassov, nem haver quem o conteste. Ao contempll-a,
dirieis que no precisa seja de quem fr, e que, antes pelo contrario,
toda a gente lhe deve obrigaes. Goza de poucas sympathias, na verdade,
 cordialmente detestada, at: mas temida tambem universalmente, e 
isso que ella quer. E no representar isto um rasgo de finura politica?
Por que ser que, por exemplo, apezar de nutrir paixo por mexericos e
de no poder dormir descansada no dia em que no soube nada de novo, por
que ser, sim, que pela apparencia de Maria Alexandrovna, tal  a sua
majestade, no occorre  mente, seja de quem fr, o facto de ella ser a
primeira coscovilheira d'este mundo, ou quando menos, de Mordassov?
Dir-se-ia antes que assim que apparece deveriam cessar, acto-continuo,
de todo os mexericos, as comadres tremerem como garotetes em presena do
prefeito, e as conversas guindarem-se desde logo aos assuntos mais
transcendentes. E todavia, ella, a respeito de uns certos Mordassovenses
est em dia com umas chronicas to escandalosas que, se as dissesse a
proposito e provando-lhes--como ella o sabe fazer--a authenticidade,
Mordassov em pso tremeria tal qual tremeu Lisboa em tempos. Mas se ella
quanto a segredos  o proprio tumulo;  necessario dar-se um concurso de
circumstancias extraordinarias para que ella consinta em falar n'umas
certas coisas,--e isto ainda entre amigos da maxima intimidade. Poder
arriscar uma alluso, dar a entender que "est em dia"; mas pella-se por
manter a qualquer individuo--homem ou mulher--na sugesto de um temor
perpetuo, em vez de o esmagar de um golpe. Isto  que  intelligencia,
isto  que  tactica! Maria Alexandrovna sempre se distinguiu merc do
seu irreprehensivel _comme il faut_.  citada como modlo. L quanto ao
_comme il faut_ no tem rival em toda Mordassov.

Poder, com uma palavrinha, matar, esfacelar, anniquilar uma pessoa que
lhe haja cahido no desagrado,--mas sem lhe tocar, sem suspeitar,
dir-se-hia, a importancia da dita palavrinha. Semelhante trao de
caracter asss trescala a alta sociedade.

Tem optimas relaes. A Mordassov ainda no veiu pessoa que no ficasse
penhorada com as recepes de Maria Alexandrovna. O maximo numero at de
taes visitantes accidentaes ficaram-se carteando com ella. Houve at um
poeta que lhe dedicou versos: Maria Alexandrovna exhibe-os com
desvanecimento. Um litterato de arribao offereceu-lhe uma novlla da
qual fizera leitura em casa da nobre senhora, durante um sarau: produziu
optimo effeito. Um sabio allemo, vindo expressamente de Carlsruhe no
intuito de estudar uma especie singular de vermezinhos chavelhudos que
se encontram no nosso governo (o dito sabio escreveu cerca do alludido
vermezinho quatro volumes _in-quarto_) to encantado ficou com a
amabilidade de Maria Alexandrovna, que ainda hoje, l de Carlsruhe, lhe
escreve cartas respeitosas e moraes. Chegaram at a estabelecer
parallelos entre Napoleo e Maria Alexandrovna. Foi brincadeira, facecia
de ciumentos, e comtudo, apontando a estranheza de semelhante
comparao, atrever-me-hei a fazer uma pergunta ingenua; por que seria
que a Napoleo, no acume da sua gloria, o tomaria uma vertigem? Os
legitimistas attribuem uma tal fraqueza  vil extraco de Bonaparte,
que nem era de estirpe realenga nem sequer de nobreza limpa. Por
espirituosa que seja semelhante opinio,--pois tresanda  mais brilhante
pocha da antiga crte franceza,--atrever-me-hei ainda a perguntar: mas
por que  que a Maria Alexandrovna no a tomaram nunca vertigens? Pois 
um facto; veiu a ser e depois ficou sendo sempre a dama de mais subida
importancia em Mordassov. Conheceu horas atribuladas, no ha duvida, e,
em certas circumstancias, houve at quem dissesse l comsigo: Mas que 
que ha de agora fazer Maria Alexandrovna? E o obstaculo achava-se
transposto como que por encanto.

Toda a gente estar lembrada da maneira porque o marido, o Aphanassi
Matveich, perdeu a posio. Deu-se isso em seguida a uma inspeco aos
fiscaes a quem esta achou tolos em demasia. E a cuidarem que Maria
Alexandrovna no deixaria de perder o sizo, humilhar-se, supplicar,
n'uma palavra, "rebaixar a sua linguarice." Longe d'isso! Percebendo que
as supplicas nada adeantariam, houve-se de modo que a sua influencia no
soffreu a minima quebra, e que a sua casa continuou a ser a primeira
casa de Mordassov. Anna Nikolaievna Antipova, inimiga figadal de Maria
Alexandrovna, a despeito das exteriorizaes de mundana amizade, j
cantava victoria. Mas no tardaram em perceber que era difficil
atrapalhar Maria Alexandrovna, e que esta era mais fina do que a
suppunham.

Aqui, vem ao pintar umas palavras a respeito de Aphanassi Matveich,
marido de Maria Alexandrovna.  um homem muito bem parecido, a correco
em pessoa. Mas, nos casos criticos, assustava-se que nem um borrgo que
percebesse que lhe mudaram o que quer que fosse ao canclo do redil.
Circumstancia que lhe no tolhia o ostentar ordinariamente uns ares de
summa importancia, sobretudo nos jantares de apparato, quando punha a
gravata branca. A majestade de taes sujeitos dura at ao momento de
abrirem a bca: mas ento  tratar de metter rolha nos ouvidos.
Semelhante homem, com toda a certeza,  indigno de pertencer a Maria
Alexandrovna.  esta a opinio geral.

E d'ahi,  unicamente devido  genialissima esposa o facto de elle se
conservar no seu posto. A meu ver, ha muito tempo que o deveriam ter
espetado na horta  laia de espantalho para os pardaes.

Alli, e s alli, poderia ter sido de alguma utilidade. Maria
Alexandrovna fez, pois, muito bem em exilar Aphanassi Matveich para a
aldeia de cento e vinte almas que ella possuia a tres verstas de
Mordassov. E de caminho, digamos que a dita propriedade representava a
totalidade dos bens facultando a Maria Alexandrovna o custear to bem, e
com tamanho estado, a sua casa. Facil foi pois o perceberem que havia
supportado Aphanassi Matveich unica e exclusivamente por causa do seu
cargo, dos respectivos ordenados e... e ainda de uns certos
emolumentosinhos. Agora, que, velho, j nem representava ordenados nem
emolumentos, no seria de justia affast-lo na qualidade de inutil
trambolho?

Aphanassi Matveich leva no campo uma vida agradabilissima. Fiz-lhe uma
visita e passei com elle uma hora encantadora. Ensaia ao espelho as
gravatas brancas, engraxa as proprias botas, no por necessidade, mas
sim por amor da arte, porque gosta de ver as botas a luzir muito. Toma
ch tres vezes ao dia, vae a miudo ao banho e no se rala com coisa
nenhuma...

Esto lembrados d'aquella nojenta historia, ha dezoito mses, a
proposito da Zinaida Aphanassivna, filha unica, de Maria Alexandrovna e
de Aphanassi Matveich? Zinaida  uma beldade, e uma menina muito bem
educada, de mais a mais; mas tem vinte e trez annos e ainda est
solteira. Uma das principaes causas a que atribuem o celibato da Zina, 
o boato vago da estrambotica ligao que dizem haver tido, ha
exactamente dezoito mses, com um rles utchitel[1]--boato que ainda se
no desvaneceu.--Citam uma missiva amorosa escrita pela Zina e que dizem
ter corrido Mordassov de um extremo ao outro. Mas, por favor, no me
diro, leram a tal epistola? No houve em Mordassov pessoa que a no
visse. E ento! onde pra ella actualmente? Toda a gente ouviu falar
nella, mas quem foi que a viu? Eu, da minha parte, ainda no encontrei
uma s pessoa que a tenha visto com seus proprios olhos.

Alluda alguem  tal epistola na presena de Maria Alexandrovna e aposto
desde j que ella no perceber sequer esse alguem. Mas supponhamos que
tenha havido o que quer que fosse de verdade em semelhante atoarda, e
que a Zina haja escrito a decantada epistola, (effectivamente, estou
convencido de que a escreveu): admirem ento a habilidade de Maria
Alexandrovna.

Como se havia de atabafar caso to escandaloso?--Pois bem, procurem, nem
vestigios, prova, que  della? Maria Alexandrovna nem sequer se digna
tomar conhecimento de calumnia to soez, e comtudo, Deus sabe o trabalho
que lhe custou conservar intacta a honra da filha unica! Que a Zina no
tenha ainda casado, isso percebe-se, de mais, at: onde iria ella por
aqui encontrar noivo? A Zina s pode casar com um principe reinante! J
alguem viu mais peregrina formosura?  soberba, l isso ... Dizem que
Mozgliakov a pedira em casamento, mas semelhante consorcio jmais se
effectuar. Quem vem a ser esse tal Mozgliakov?  mo, asss bem
parecido, elegante, peterburguense, proprietario de cento e cincoenta
almas livres de hypotheca. Mas no fura paredes! Leviano, tagarlla,
apaixonado pelas novas ideias... E que representaro cento e cincoenta
almas com ideias novas? O casamento nunca se realizar.

Quanto acaba de ler o amavel leitor foi escrito, ha cinco mses,
unicamente por admirao. Devo convir em que nutro uma tal ou qual
sympathia por Maria Alexandrovna. Quizera escrever o panegyrico de to
magnifica dama sob a forma de uma carta dirigida a um amigo, a exemplo
d'aquellas que outrora publicavam as revistas, n'esses bons tempos que
j l vo, e que, louvres a Deus! no voltam c outra vez!

Mas se no tenho um unico amigo, e, graas  incuravel timidez que de
mim se apodera assim que se trata de litteratura, a minha obra ficou na
gaveta na qualidade de tentame sem seguimento.

Cinco mezes eram pois decorridos, quando em Mordassov se deu um
acontecimento extraordinario.

Um dia, de madrugada, eis que chega o principe K... e vae hospedar-se em
casa de Maria Alexandrovna.

As consequencias d'este acontecimento so incalculaveis. O principe
passou apenas trez dias em Mordassov. Mas esses trez dias deixaram
recordaes fataes e inexpungiveis. Direi mais: o principe foi causa de
uma verdadeira revoluo n'esta nossa cidade. A narrativa da alludida
revoluo vir a ser, certamente, a pagina mais importante da historia
de Mordassov. E  essa pagina que eu, aps innumeras hesitaes, me
resolvi a offerecer, sob forma litteraria ao criterio do respeitavel
publico.

A minha narrativa poder-se-ia intitular: "Grandeza e Decadencia de Maria
Alexandrovna." Grande e seductor assumpto para um poeta.




II


Direi desde j que o principe K... no era um ancio centenario.

 primeira vista, comtudo, ninguem podia deixar de pensar que ia
reverter outra vez aos elementos, a tal ponto se achava gasto! Corriam
em Mordassov as historias mais estranhas a respeito do dito principe.
Affirmavam que estava um tanto ou quanto tinco.

Effectivamente, parecia exquisito que um _pomiestchik_[2] de uma das
mais notaveis familias, dono de quatro mil almas, em posio de obter
consideravel influencia na provincia, permanecesse enclausurado, tal
qual um eremito, na sua magnifica propriedade. Muitos que o tinham
visto, seis ou sete annos atraz, por occasio da primeira vinda do
principe a Mordassov, affirmavam que nesse tempo nem podia supportar a
solido nem tinha ainda aquelles seus costumes de eremita.

Eis os esclarecimentos que pude colher a seu respeito bebidos das mais
seguras fontes.

Outrora--e onde ir isso!--o principe havia effectuado na sociedade um
ingresso de aurora... Durante os annos todos da juventude levara vida
airada, requestando as damas, esbanjando por vezes repetidas o seu
dinheiro em viagens ao estrangeiro, cantando romanzas, fazendo
trocadilhos; mas no se distinguia mediante uma intelligencia acima da
marca. Em semelhante vida, no tardou em dar cabo do que tinha, e,
quando chegaram os dias da senctude, ficou sem um kopek. Aconselhou-lhe
alguem que voltasse para a sua aldeia, que principiava j a ser vendida
em hasta publica.

Aproveitou o conselho, e foi nessa occasio que veiu passar seis mses
em Mordassov. Agradou-lhe immenso a vida de provincia, e pelo espao de
seis mses acabou de se "alimpar" em amorios com as mundanas
provinciaes. Era alis excellente pessoa, de um fausto principesco (em
Mordassov o fausto  o signal caracteristico da mais alta aristocracia.)

As damas sobretudo no cessavam de se alegrar com um hospede encantador
a tal ponto. Deixou entre ns curiosissimas recordaes; entre outras
exquisitices, contavam que o principe gastava a maxima parte do dia ao
toucador. Parecia todo elle feito de pedacinhos enxertados. Scismavam
onde e como fra que elle se haveria decomposto d'aquella maneira. Usava
chin, bigode, suissas, e inclusiv uma pra, tudo postio at o minimo
pellinho, e tudo preto como o proprio azeviche--uma lindeza! Levava todo
o santo dia a pr caio e carmim. Affirmavam que dispunha de um talento
especialissimo em disfarar as rugas do rosto por meio de umas
mlazinhas escondidas com o chin. Affirmavam ainda que trazia
espartilho, havendo ficado sem uma costella ao saltar desastradamente de
uma janella abaixo durante uma aventura amorosa, na Italia. Coxeava da
perna esquerda, uma perna postia de cortia, affirmavam, havendo
quebrado a verdadeira em Paris, em outra aventura.  possivel que
houvesse exaggro, mas o que  certo,  que o olho direito era de vidro:
illudia completamente, alis; ninguem diria que no era natural. Os
proprios dentes eram artificiaes. Passava dias inteiros a lavar-se com
aguas-garantidas, a perfumar-se, a encalamistrar-se. Ultimamente,
comtudo, principiava a fazer-se velho e a tresler. Parecia estar prestes
a terminar a sua carreira, e sabia toda a gente que se achava
arruinado,--e eis que de repente lhe morre uma sua parenta muito
chegada, senhora de muita edade, vivendo em Paris, e de quem no
esperava herdar, em seguida a haver enterrado um mez, exactamente, antes
de fallecer, o unico herdeiro. Eram quatro mil almas e uma soberba
propriedade a sessenta verstas de Mordassov a reverterem no principe sem
a minima partilha. Abalou desde logo para Petersburgo a fim de pr em
ordem seus negocios. Por occasio da partida, offereceram-lhe as damas
um sumptuoso banquete por subscripo. Ha quem se lembre ainda de como,
n'aquelle dia, o principe foi seductor e espirituoso! Era um tiroteio de
calemburgos, de anecdtas extraordinarias. Prometeu voltar o mais breve
possivel para a sua nova propriedade e jurou que na volta daria meza
franca e uma festa--bailes e luminarias--que nunca havia de ter fim.
Depois da sua partida, ficaram as senhoras um anno a falar da tal
promettida festa e impacientes  espera do encantador velhinho.
Organizavam at excurses a Dukhanovo, a aldela do principe, onde se
admirava um antigo solar acastellado, um parque adornado de acacias a
imitar lees, colinas artificiaes, lagos em que navegavam barquinhos
tripulados por turcos de madeira, a tocar flauta, pavilhes de
_Mon-Plaisir_, e quejandos attractivos.

At que por fim veiu o principe, com grande espanto e no menor decepo
de toda a gente, nem sequer passou por Mordassov e foi encerrar-se em
absoluto isolamento em Dukhanovo. Correram boatos singularissimos. A
datar d'esse momento, torna-se obscura e phantastica a historia do
principe. A principio constou que l por Petersburgo lhe no tinham
corrido bem os negocios, que os herdeiros, em vista do seu estado senil,
queriam nomear-lhe um conselho judicial receando que voltasse a esbanjar
os seus bens. Ainda mais: accrescentavam que aquelles vidos caadores
de heranas tinham querido internl-o n'uma casa de saude!
Afortunadamente para o principe, um seu parente, personagem de summa
importancia, saiu em sua defsa, provando  evidencia que o pobre homem,
semi-morto e todo elle artificial, no estava para muita dura,
certamente. E que n'essa conformidade os seus bens viriam a reverter nos
herdeiros sem que estes se vissem na necessidade de recorrer  casa de
saude. Eis o que se diz. So compridinhas as linguas l em Mordassov.
Tudo isto havia assustado o principe, a tal ponto, que se lhe tinha
demudado o genio, descambando em eremito. Por mera curiosidade, vieram
felicitl-o varios Mordassovenses: e ou no foram recebidos, ou se o
foram foi de modo um tanto exquisito. O principe nem mesmo reconheceu,
ou antes, no quiz reconhecer os seus amigos de outrora.

O proprio governador o foi visitar, mas voltou pelo mesmo caminho
dizendo que o principe estava tinco. D'alli em deante notaram que o
governador punha uma cara de palmo, assim que lhe falavam na jornada a
Dukhanovo... Indignavam-se as senhoras. At que por fim se veiu a saber
uma coisa capital; o principe vivia submettido  tutella de uma figurona
por nome Stepanida Matveivna,--Deus sabe que casta de mulher!--que
tinha vindo l de Petersburgo, velha, obsa, usando constantemente o
mesmo vestido de cassa, e sempre com um mlho de chaves na mo. O
principe obedece-lhe em tudo e por tudo e no se atreve a dar um passo
sem a consultar. Ella, lava-o com suas proprias mos, apaparica-o,
passeia-o e entretem-n'o, como se fra um nn; em concluso,  ella
quem bate com a porta na cara aos parentes que principiam a saber o
caminho de Dukhanovo... Foi muito discutida, sobretudo entre as
senhoras, to incomprehensivel ligao. Accrescentavam que Stepanida
Matveivna regia com plenos poderes, e sem ter quem lhe fosse  mo, a
totalidade dos bens do principe. Substitue feitores, creados, arrecada
os rendimentos;  alis boa a sua administrao, e os camponzes no
vem outra coisa. Com respeito ao principe, este nem j arreda um passo
do toucador, a ensaiar chins, pras postias, casacos. Uma vez por
outra, joga s cartas com Stepanida Matveivna; de vez em quando, d o
seu passeio n'uma egua inglsa muito mansa: Stepanida Matveivna
acompanha-o sempre em carruagem fechada, prompta  primeira voz, visto
como o principe s monta a cavallo por garridice e mal se pode ter em
cima do selim. Acontece-lhe tambem o sair a p, embrulhado n'um
sobretudo, com um chapu de palha enterrado na cabea, um leno de
mulher ao pescoo, um monoculo no olho e pendurado na mo esquerda um
aafate para recolher cogumelos e flres campestres. Stepanida
Matveivna, vae-lhe seguindo as pisadas, levando  trla dois latages
de dois lacaios; e um pouco mais atrz, uma carruagem. Se calha
encontrarem um mujik que pra e tira o bonn para lhe fazer a sua
contumlia dizendo: "Bom dia, paezinho principe. Nossa Excellencia,
nosso solzinho!" o principe assesta-lhe o monoculo, acna-lhe com a
cabea com bom modo e diz-lhe em francz: "Bom dia, amigo, bom dia!"
Qual no foi porm o espanto de toda a gente quando, uma bella manh, se
espalhou o boato de como o principe, aquelle eremito, aquelle original,
tinha vindo em pessoa a Mordassov e se hospedara em casa de Maria
Alexandrovna! Foi um rebolio por ahi alm! Estavam  espera de uma
explicao, e perguntavam uns aos outros: "Que querer isto dizer?" No
faltou quem se estivesse enfeitando para ir a casa de Maria
Alexandrovna. Carteavam-se as senhoras, visitavam-se, mandavam as
creadas e os maridos colher informaes. O que maior espectao causava
era a circunstancia de se ter ido o principe hospedar em casa de Maria
Alexandrovna, e no em qualquer outra parte. Anna Nikolaievna Antipova
ficou mais escandalizada do que outra qualquer pessoa, visto o principe
ser ainda seu parente, parente muito arredado,  verdade.




III


So dez horas da manh. Estamos em casa de Maria Alexandrovna, na Rua
Grande, no aposento que a dona da casa, nos dias duplices, enfeita com o
titulo de sala. (Maria Alexandrovna, dispe tambem de um camarim.) O
papel das paredes  correctissimo. Os moveis, pouco commodos, arvoram
com verdadeira predileco a cr vermelha. Ha um fogo, e em cima do
fogo um espelho; deante do espelho um relogio tendo por assunto um
Cupido do mais execrando gosto. Nas paredes, no intervallo das janllas,
dois espelhos a que j tiraram as capas. Adeante dos espelhos, duas
banquinhas, e ainda dois relogios. Toma a metade de um apainelado um
piano de cauda. (Mandaram vir o dito piano para a Zina: cultiva a
musica.) Ao p do fogo, no qual arde uma ba fogueira, esto dispostas
umas poltronas em desalinho pinturesco a mais no poder ser. Ao meio
outra banquinha. No outro extremo da casa, ainda outra mesa, tapada com
uma toalha immaculada e em cima, um samovar de prata, a ferver, no meio
de um lindissimo servio para ch. Uma senhora, residente em casa de
Maria Alexandrovna, a titulo de parenta affastada, Nastassia Petrovna
Ziablova, est especialmente incumbida do ch.

Duas palavras cerca da alludida senhora.  viuva, frescalhona, com uns
olhos castanhos escuros muito vivos, assaz bem parecida;  alegre,
velhaca, at; linguareira, escusado ser diz-lo, e sabendo levar agua
ao seu moinho; tem dois filhos no collegio, para ahi, algures. No se
lhe daria de tornar a casar; vive com bastante independencia; o marido
era official.

Maria Alexandrovna em pessoa est sentada ao p do fogo: acha-se de boa
catadura. Traja um vestido verde claro, assentando-lhe a primor. Est
contentissima com a vinda do principe. N'este ensejo, o principe est l
em cima, todo elle entregue  tarefa de se infunicar.

Maria Alexandrovna nem sequer pensa em esconder o seu contentamento.
Deante d'ella, um rapaz a fazer boquinhas e a cantar, muito animado,
seja o que fr. Percebe-se que se desvla por agradar a quem o est
escutando. Tem vinte e cinco annos. Se no fossem as suas exuberancias,
se no fossem tambem as suas pretenses a engraado, seria toleravel.
Est bem vestido,  loiro e de agradavel presena. J a elle nos
referimos,  o senhor Mozgliakov, mo sobre quem se fundaram esperanas
matrimoniaes. Maria Alexandrovna acha-lhe a cabea um tanto ca, mas nem
por isso deixa de o receber muito bem. Diz elle que est loucamente
apaixonado pela Zina. Dirige-se a esta continuamente, ancioso por
alcanar um ar de riso a poder de bons ditos e de azoamento. Ella,
comtudo, mantem-n'o a distancia, com extrema frialdade. A joven est de
p junto ao piano, a folhear um almanaque.  uma dessas mulheres que
produzem effeito geral ao entrarem numa sala.  peregrinamente formosa:
alta, morena, com uns immensos olhos quasi pretos, esbelta, com um collo
magnifico, uns psinhos encantadores, espaduas e mos de molde classico,
e um pisar de rainha. Est hoje um tanto descorda, a pallidez, comtudo,
torna-lhe mais conspicuo o rubido fulgor dos labios por entre os quaes
lhe luzem, tal qual perolas em fio, uns dentinhos miudinhos e regulares.
Era caso para qualquer de ns sonhar com elles, trs dias a fio, s de
lhes ter posto a vista em cima.  sria a sua expresso.

O senhor Mozgliakov dir-se-hia arrecear-se do olhar fito da Zina, pelo
menos no ergue para esta os olhos sem um tal qual enleio.

 singelissimo o vestido da joven, de gaze branca: Est-lhe bem o
branco, est-lhe lindamente o branco... E d'ahi, que haver que lhe no
fique bem? Traz enfiado n'um dedo um annel de cabello entranado. A
julgar pela cr, aquelles cabellos no so os da mam. Mozgliakov nunca
se afoitou a perguntar de quem seriam aquelles cabellos. Est taciturna,
esta manh, triste, at, ou preoccupada, pelo menos. Em compensao,
Maria Alexandrovna acha-se em mar de dar  lingua. De vez em quando,
esgulha uns olhos desconfiados para a Zina, e olhos furtivos quanto
possivel, como que no se arreceando menos da joven.

--Estou to contente, Pavel Alexandrovitch, (dir-se-hia pipilar) que
estou capaz de gritar da janella abaixo o meu contentamento a quem passa
pela rua. Sem falarmos da agradabilissima surpreza que nos proporcionou,
a mim e  Zina, com vir quinze dias mais cedo do que o esperavamos. 
caso  parte. Mas o que mais me penhorou foi a atteno que teve
comnosco trazendo comsigo o principe. Se soubesse como eu adoro aquelle
encanto aquelle vlhinho! No pode comprehender-me! As pessoas da sua
edade seriam incapazes de semelhante affeio. No sabe as
circumstancias que entre mim e elle se deram, ha seis annos? Lembras-te,
Zina? E eu sem me lembrar de que n'esse tempo estavas em casa de tua
tia. Estou que me no acreditaria, Pavel Alexandrovitch, se eu lhe
dissesse, que servi de guia ao principe, que fui para elle, irm, me?
Havia lhaneza, carinho, nobreza n'aquella nossa ligao. Era...
pastoril!... Nem eu sei como a hei de definir. Eis o motivo porque elle
se lembrou da minha casa com tamanha gratido, o pobre do principe! E se
eu lhe disser, Pavel Alexandrovitch, que  possivel at que o salvasse
trazendo-o para minha casa? No podia evitar o confranger-se-me o
corao, durante aquelles seis annos, sempre que me punha a pensar
n'elle!... Eu... quer acreditar?... at sonhava com elle! Dizem que
aquella creatura, a tal sua carcereira, o enfeitiou, que o deitou a
perder... mas, emfim, o senhor arrancou-o das garras d'aquella harpia!
Urge aproveitar a occasio para o salvar completamente... Mas conte-me,
mais uma vez, como foi que o conseguiu? Descreva-me, muito por miudos, o
encontro de um e outro. Eu ainda agora fiquei to sobresaltada! No vi
seno os traos geraes, mas no ha pormenor que no seja precioso a meus
olhos. Se eu sou assim! Pello-me pelas minudencias, nos acontecimentos
de maior vulto, so os pormenores que primeiramente me chamam
atteno... e... emquanto elle se est arrebicando...

--Mas se eu j lhe contei tudo, apressa-se em responder Mozgliakov,
prompto a recapitular a narrativa pela dcima vez. Tinha viajado toda a
noite... no tinha pregado olho; estava com tanta pressa de chegar ao
meu destino! (Esta ultima phrase ia sobrescritada para a Zina.) Tive que
aturar contendas, berreiros por occasio das mudas. Eu proprio,
confesso, no fiz tambem pouca algazarra.  um poema moderno, sem tirar
nem pr. Mas vamos adeante. s seis horas da manh, em ponto, eis que
chgo  ultima muda, em Ignichvo. Tranzido, mas, isso sim! nem sequer
tiro uns minutos para me aqucer. Pgo a gritar: "Cavallos!" Estou em
dizer, at, que metti um susto  mulher do capataz das mudas: tinha ao
collo um nn, de peito, e estou com receio que se lhe talhasse o
leite.--Era admiravel o despontar do sol! Sabe, aquelle p da geada
escarlate e prateada? E eu, sem attentar em coisa nenhuma, ia a vapor!

Empalmo uns cavallos a um tal conselheiro de collegio,--com quem por um
triz que no tenho um dullo. Afianam-me que um quarto de hora antes
tinha abalado da dita muda um certo principe que viaja com cavallos
proprios. Que pernoitara na muda. Quasi que nem lhes dou ouvidos, salto
para a carruagem, vo por ali fra tal qual um prisioneiro
escapulido.--Ha uma situao parecida em uma elegia de Fet[3].--Ora, a
nove verstas da cidade, justamente, em vista do retiro de
Svietozerskaia, avisto o que quer que seja de singular! Uma grande
carruagem de jornada cada na estrada. O cocheiro e dois latages de
dois lacaios, de p, junto da mesma, e muito atrapalhados. L do fundo
da carruagem vinham uns brros que me confrangiam a alma!... Eu podia
seguir por deante, no tinha nada com isso, mas levou a melhor a
humanidade, pois, como diz Heine, mette o nariz em toda a parte. Paro,
pois. Eu, o meu yamstchik Semene, e uma outra alma russa, accudimos a
ajudar e entre ns seis pmos em p a carruagem. Pmol-a de p,--quero
dizer, sobre os patins.--Uns mujiks que levavam uma carga de lenha para
a cidade ajudaram-nos tambem, (apanharam bem boa gorgta). E eu a dizer
commigo:  o tal principe que passou a noite na muda. lho: Santo Deus!
 o principe Gavrila! Que encontro este! "Principe! bradei: tiozinho!" 
primeira vista, no me conheceu; nem sei se me reconheceria  segunda: e
agora mesmo no estou bem certo em que me reconhecesse. Creio que nem
sequer j se lembra do nosso parentesco. Vi-o pela primeira vez, em
Petersburgo. N'esse tempo era eu um garoto. Lembro-me muito bem, mas
elle, podia-se l lembrar de mim? Apresento-me: fica encantado!
Beija-me, e depois pega a tremer de susto e, em concluso, desata a
soluar. Por Deus! Vi-o com meus proprios olhos: at chorou! Palavra
puxa palavra e, em concluso, acabei por lhe propr que viesse at
Mordassov tomar um dia de descanso. Consentiu sem hesitaes.
Declarou-me que ia para o retiro de Svietozerskaia, para casa do
arcypreste Missail a quem tem em grande conta; que a Stepanida
Matvina--qual de ns, parentes do Principe, no ter ouvido falar de
Stepanida Matveivna? O anno passado, escorraou-me de Dukhanovo com o
pau da vassoira!... Que a Stepanida Matveivna recebera pois uma carta
exigindo a sua presena em Moscou pelo fallecimento de alguem, o pae ou
a filha, nem sei nem quero saber,--talvez que pae e filha ao mesmo
tempo, e ainda por cima para ahi qualquer segundo sobrinho empregado na
fiscalizao dos vinhos. N'uma palavra, tivera que conformar-se,
desamparar o seu principe por uns dez dias e levantar vo, a toda a
pressa, para a capital.

O principe demra-se um dia; dois dias, sem se mexer, a experimentar
chins, a encalamistrar-se, a pentear-se, a fazer paciencias: em
concluso, a solido acabou por lhe ser pesada. Foi ento que mandou pr
o trem e metteu a caminho do retiro de Svietozerskaia. Alguem do seu
squito, com medo do phantasma da Stepanida Matveivna, atrevera-se a
ir-lhe  mo. Mas o principe  cabeudo e tinha abalado na vespera,
depois de jantar, pernoitando em Ignichevo, largara da muda de
madrugada, e, justamente na volta do caminho que vae ter  residencia do
arcypreste, por pouco se no despenha com a carruagem n'uma barroca.
Salvei-o e persuadi-o a vir para casa da nossa amiga commum, a
dignissima Maria Alexandrovna. Diz elle que a senhora  a dama mais
encantadora que tem encontrado em toda a sua vida, e c estamos. O
principe est a pr em ordem os arrebiques com o criado particular de
quem porfiou em no prescindir. Mais depressa se deixaria morrer do que
apresentar-se em casa de uma senhora sem a roupa toda da ordem... E aqui
tem a historia toda...  uma historia deliciosa!

--Que humorista, hein! Zina? exclama Maria Alexandrovna. Que captivante
narrador! Escute, Pavel, uma pergunta: explique-me bem o seu parentesco
com o principe. O senhor trata-o de tio.

--Por Deus! Maria Alexandrovna, se eu sou o proprio a no saber, como 
que sou seu parente. Estou em dizer, at, que talvez seja preciso para
ahi um cento de gravtos para sermos do mesmo ramo. Mas eu c trato-o de
tiozinho, e elle responde-me. E ahi tem, at hoje, todo o nosso
parentesco...

--Foi Deus em pessoa que o inspirou em m'o trazer para aqui. Arrepio-me
s de pensar que poderia ter ido hospedar-se para outra qualquer parte.
Devoravam-n'o! Atiravam-se a elle como quem se atira a um thesouro, a
uma mina!... Eram capazes de lhe tirar a camisa! No pe na sua ideia o
que por ahi vae de almas sofregas, vis e arteiras n'esta nossa
Mordassov.

--Ah! meu Deus! mas para onde queria que o levassem a no ser para sua
casa? Sempre tem cada uma, Maria Alexandrovna, interveiu Nastassia
Petrovna, a incumbida do ch. Talvez quisesse que carregassem com elle
para casa da Anna Nikolaievna!

--Mas com tudo isso, por que se demorar elle tanto?  exquisito! disse
Maria Alexandrovna, erguendo-se, impaciente.

--O tio? Aquillo ainda  negocio para cinco horas! E d'ahi, bem sabe que
est perdido da memoria;  capaz de se ter esquecido de que  seu
hospede.  um homem extraordinario, Maria Alexandrovna. Se soubesse!

--Ora vamos! Que est a dizer?

--A verdade, Maria Alexandrovna.  um homem _mecanico_. No o v ha seis
annos, mas sei o que ha a esse respeito.  a recordao de um homem,
esquceram-se de o enterrar. Tem olhos de vidro, pernas de cortia; todo
elle de _engonos_, a propria voz  artificial.

--Valha-nos Deus, sempre  um tal esturdio! exclamou Maria Alexandrovna
com uns modos doridos. No tem vergonha, o senhor, a falar assim de um
veneravel ancio, que  seu parente? (A voz de Maria Alexandrovna,
n'esta altura assume entonao tocante.) Sequer ao menos, lembre-se de
que  uma reliquia da nossa aristocracia! Meu amigo, essas leviandades
provm-lhe das taes novas ideias em que est sempre a falar. Meu Deus!
tambem eu participo dessas ideias; comprehendo que o principio que rege
as suas opinies  nobre, honrado. Presinto n'essas ideias novas o que
quer que  de elevado, de sublime. Mas tudo isso no me impede de ver os
lados praticos, por assim dizer--da questo. Tenho vivido na sociedade,
conheo melhor que o senhor os homens e as coisas, pois que o senhor 
apenas um rapaz. Este vlhinho afigura-se-lhe ridiculo l por causa da
edade. O senhor, ha dias, affirmava que queria dar alforria aos seus
servos, que cada qual deve ir com o seu sculo. Tudo isso, sem duvida,
l por que o leu para ahi algures no tal seu Shakespeare! Acredite,
Pavel Alexandrovitch, o seu Shakespeare j l vae ha que tempos. Se elle
resuscitasse, apezar de ser um gnio, no percebia uma palavra do viver
moderno. Se alguma coisa existe de majestoso, de cavalheiresco n'esta
nossa sociedade contemporanea,  com certeza a aristocracia. Um principe
 sempre um principe; faz um palacio ainda que seja de uma cabana. Ao
passo que o marido da Natalia Dmitrievna, que mandou construir um
palacio, fica sendo o marido da Natalia Dmitrievna, e mais nada,--e a
Natalia Dmitrievna pode pr em cima de si meio cento de crinlines, que
nunca passar de ser a Natalia Dmitrievna como d'antes. Tambem o senhor,
meu caro Pavel,  um representante da aristocracia, de l veiu. Aqui
onde me v, ouso tambem ter-me na conta de no ser alheia 
aristocracia. Pois bem! Ai do filho que chasqueia dos proprios
antepassados! E d'ahi, no deixar de convir, d'aqui a nada, meu
amiguinho, que  preciso pr de lado o seu Shakespeare, sou eu que lh'o
digo. Estou certa em que agora mesmo no  sincro. Est armando ao
effeito!... Mas... eu para aqui a dar  lingua! Deixe-se estar, meu
querido Pavel; vou saber noticias do principe. Talvez precise de alguma
coisa, e com estes meus criados!... E saiu apressada Maria Alexandrovna.

--Maria Alexandrovna parece estar contentissima pelo facto de o principe
no se ter ido hospedar para casa da elegante Anna Nikolaievna; e
comtudo, a Anna Nikolaievna tem pretenses a ser parente do principe. 
capaz de estoirar de raiva!--observou Nastassia Petrovna.

Mas, notando que lhe no respondem, Madame Ziablova, depois de haver
esguelhado uma olhadla para a Zina e para Pavel Alexandrovitch, percebe
que  alli de mais e sae, tambem, como quem vae procurar qualquer coisa.
E d'ahi, desforra-se da propria discreo deixando-se ficar atrz da
porta, de ouvido  escuta.

Pavel Alexandrovitch trata logo de se approximar da Zina; est
commovidissimo, com a voz a tremer:

--Zinaida Aphanassievna! No est zangada commigo? diz timidamente e com
modo supplice.

--Com o senhor? Mas por qu? pergunta a Zina um tanto ruborizada,
erguendo sobre elle os esplendidos olhos.

--Pela minha vinda prematura, Zinaida Aphanassievna, j no podia
supportar mais longo apartamento. Ainda mais quinze dias! E eu a vl-a
sempre em sonhos! Vim para saber a minha sorte... Mas por que franze as
sobrancelhas, est zangada? Com que ento, ainda hoje no apanho
resposta decisiva?

 Zinaida, effectivamente, carregou-se-lhe o parecer.

--E eu antevia que me havia de falar a esse respeito, encetou ella em
voz rispida com uns vislumbres de despeito. (Declina a vista.) E como
semelhante apprehenso me maguou em extremo, acho melhor cortar de vez
toda e qualquer indeciso... mais vale assim... O senhor exige, quero
dizer, pede uma resposta? Seja assim. A minha resposta ser a mesma que
j lhe dei: espere. Repito-lhe, ainda no estou resolvida, no lhe posso
prometter o ser sua mulher... No  coisa que se obtenha por exigencia,
Pavel Alexandrovitch; mas, para o tranquillizar accrescentarei que o no
rejeito definitivamente. E comtudo, note que, se o deixo esperar uma
deciso favoravel,  por d da sua inquietao. Repito-lhe que quero
tomar em plena liberdade a minha deciso, e se eu em concluso lhe
declarar que o rejeito, nem por isso depois me deve increpar por lhe ter
dado esperanas. E fique isto assente por uma vez!

--Mas ento, ento! exclamou Mozgliakov em voz de mais em mais supplice,
ser isso uma esperana? Poderei fundar uma qualquer esperana n'essas
suas palavras, Zinaida Aphanassievna?

--Lembre-se de tudo que lhe tenho dito e funde tudo que quiser:  livre.
E nada mais acrescentarei. No o rejeito, digo-lhe, to somente: Espere!
Reservo-me o direito de o rejeitar se assim o julgar necessario...
Far-lhe-hei ainda notar o seguinte, Pavel Alexandrovitch: se veiu mais
cedo do que tinha dito com o sentido em operar por meios indirectos,
esperanado em fazer valer a sua influencia, a da mam, por exemplo,
enganou-se nos seus calculos. Se assim fra, rejeitl-o-hia de vez,
entendeu? E agora, basta, se me faz favor! At que eu proprio lhe torne
a falar n'isso, nem palavra a semelhante respeito.

Foi proferido em tom firme, scco, o conjuncto d'este discurso, sem
hesitaes, como se fra decorado de antemo. E Pavel sente o nariz a
crescer-lhe. N'este comenos eis que entra Maria Alexandrovna. Logo atrz
d'esta entra madame Ziablova.

--J ahi vem, Zina! Quer-me parecer que no tarda ahi! Nastassia
Petrovna, avie-se... o ch!

E Maria Alexandrovna n'uma azafama, toda ella.

--A Anna Nikolaievna j mandou saber noticias; a Aniutka, a creada, at
j veiu pedir informaes  copa. Ha de estar como uma bicha! disse a
Nastassia Petrovna, investindo com o samovar.

--E a mim que me importa? responde Maria Alexandrovna, a desfechar as
palavras por cima do hombro a madame Ziablova. Como se me interessasse o
que poder pensar Anna Nikolaievna! Tenho a certeza em como no serei eu
que mande seja quem fr  sua copa. E demais, fique sabendo, muito me
admiro de que me faam passar por inimiga da Anna Nikolaievna, coitada!
Pois  opinio corrente em Mordassov. Ora seja juiz, Pavel
Alexandrovitch. Conhece-nos a ambas: por que  que eu havia de ser sua
inimiga? Para lhe disputar a supremacia? Sou indifferente a essas
coisas! Ella que seja a primeira, eu lhe irei dar os parabens! Emfim, 
injusto, e quero defendl-a.  meu dever. Mas para que  que a
calumniam, para que ho de andar a malhar assim na pobre da creatura? 
nova, gosta de se enfeitar: ser por isso? Quanto a mim, acho que vale
mais gostar dos trapos do que um certo numero de coisas de que tanto
gosta a Natalia Dmitrievna, das taes coisas que nem sequer se podem
nomear. Ser ainda l porque a Anna Nikolaievna gosta de visitas e no
pode parar em casa? Mas, santo Deus! Se ella no tem instruco de
qualidade nenhuma, e com certeza que lhe havia de ser difficil o abrir
um livro e entreter-se dez minutos a fio fosse com o que fosse. 
garrida, d de olho, da janella abaixo, a todo e qualquer que passa pela
rua. E d'ahi?... Mas para que ser que andam para ahi a apontl-a como
uma beldade?  macilenta, que at mete medo! Dansa que  um riso v-la,
chega a ser comica, convenho, mas por que ser que dizem que a polkar 
um portento? Usa uns chapeus inconcebiveis! E d'ahi, ella ter culpa de
lhe faltar o gosto? Affirme-lhe que faz bem em pregar na cabea um papel
de rebuado, e ver que o faz.  linguareira, mas se por aqui no haver
quem o no seja. O senhor Suchilov, com aquellas suas enormes suissas,
est pregado em casa della de manh at  noite, e de noite at manh,
tenho a certeza. E d'ahi, santo Deus! para que  que o marido joga as
cartas at s cinco horas da madrugada? Se o que se v por ahi so maus
exemplos! E demais, no deixar de ser _talvez_ mais outra calumnia.
N'uma palavra, hei de sair sempre, sempre, sempre, sempre a
defendl-a... Mas! ai, Senhor! Ahi vem o principe!  elle!  elle!
conheci-lhe os passos! Era capaz de os distinguir entre mil. At que o
vejo, afinal, meu principe!...




IV


 primeira vista, ninguem confundiria o principe com um velho, mas
examinado de mais perto, ninguem deixaria de verificar que  um cadaver
movido por mlas; empregaram toda a casta de artificios para disfarar
n'um adolescente semelhante mumia. Um chin estupendo, suissas, bigodes
postios, mais pretos que o proprio bano, lhe tapam metade do rosto. As
faces esto pintadas com singular pericia; nem uma ruga: que 
d'ellas?... Vestido no rigor da moda, dir-se-hia sado de um figurino de
alfaiate. Traz assim a modos de uma _visite_, isto , qualquer coisa
elegantissima feita expressamente para as visitas matutinas. Luvas,
gravata, collete, tudo isso de brancura deslumbrante e do mais
requintado gosto. O principe manqueja um tudo-nada, mas to levemente!
Dir-se-hia mais um temprozinho exigido pela mda.

Um monoculo no olho,--n'aquelle, exactamente, que  de vidro,--vem
saturado de perfumes. Quando fala, arrasta umas certas palavras, talvez
por impotencia senil, ou por serem postios os dentes, ou ainda por
elegancia. Pronuncia umas certas syllabas com doura extraordinaria e
accentua a letra _e_. Tem uma pontinha de no se-me-d que lhe ficou da
sua vida de homem feliz em amores. Se no perdeu de todo a transmontana,
pelo menos est sem memoria. Engana-se a cada instante, fica-se a mascar
e a metter os ps pelas mos.  necessario ter um certo dom de
opportunismo para sustentar com elle uma conversa. Maria Alexandrovna,
todavia, tem a consciencia dos proprios recursos, e a presena do
principe lva-a ao auge do enthusiasmo.

--Mas no o acho nada mudado, nada, nada! exclama ella agarrando em
ambas as mos ao hospede e amesendando-o n'uma commoda poltrona.
Sente-se! sente-se, principe! Seis annos! seis annos, inteirinhos e
integrados sem nos vermos, e nem uma carta, nem uma linha, durante todo
o tempo! Oh! quantas culpas no tem para commigo, principe! Se soubesse
o quanto eu estava zangada comsigo, meu caro principe! Mas, e esse ch!
esse ch! Ah! meu Deus! Nastassia Petrovna, o ch!

--Obrigado... --brigado!... sou cul... cul... pado... gaguejou o
principe.

(Esqueceu-nos dizer que gaguejava um tanto; e d'ahi,  moda.)

--Cul... culpado! Ora imagine que, o anno passado, quiz abs...
absolutamente vir aqui, acrescentou a mirar a casa atravs da luneta.

Mas tinham-me mettido medo: disseram-me que por aqui andava a c...
clera...

--No, principe, no a tivemos por c, affirmou Maria Alexandrovna.

--Tinhamos a morrinha, meu tiozinho, interrompeu Mozgliakov, que se quer
tornar conspicuo.

Maria Alexandrovna mde-o com olhar sevro.

--Ha de ser isso... a mo... mo... rrinha ou coisa que o valha. E vae, eu
ento deixei-me ficar. E seu marido, minha que... querida Maria
Nikolaievna, ainda est na ma... a... gistratura?

--No, principe, diz Maria Alexandrovna, meu marido no est na ma...
a... gistratura.

--I apostar que o tiozinho a est confundido com a Anna Nikolaievna
Antipova! exclama o perspicaz Mozgliakov.

Acto continuo, porm, mordeu o beio, percebendo que nem por isso est
muito  vontade Maria Alexandrovna:

--Pois  isso, ... A Anna Nikolaievna, e... e... e eu sempre a
esquecer-me... e ento! Antipovna, exactamente, An... ti... povna,
confirma o principe.

--No, principe, est equivocado! disse Maria Alexandrovna com um
rizinho azdo. Eu no me chamo Anna Nikolaievna, e, confesso, nunca
suppuz que se esquecesse de mim. Estou espantada, principe, sou a sua
velha amiga, a Maria Alexandrovna Moskalieva. No se recorda, principe,
da Maria Alexandrovna?

--Maria Ale... lexan... xandrovna! Ora vejam! E eu a confundi-la com a
Anna Vassilivna...  delicioso!... Dizia eu, pois, que me no fui
hospedar em casa da... E eu, amigo, a cuidar que me levavas exactamente
para casa da tal Anna Matveina!

 impagavel! E dahi, acontece-me isto tanta vez! Quanta vez no vou eu
parar onde no quizra!... Em geral, fico sempre contente, sempre
contente, acontea o que acontecer. Com que ento no  a Nastassia
Vassilivna!

 interessante!

--Maria Alexandrovna, principe! Maria A--lex--androvna! Se  coisa que
se faa! Esquecer-se assim da sua melhor amiga!

--Melhor amiga, sim,  verdade! Perdo, pe... er... do! silva o
principe fixando a atteno na Zina.

--A minha filha Zina! O principe ainda a no conhece! No estava em
minha casa quando aqui veiu pela ultima vez; lembra-se?

--Sua filha!  um encanto! um encanto! murmura o principe assestando
vido a luneta na Zina.--Mas que belleza; disse com visivel sobresalto.

--Serve-se de ch, principe? pergunta Maria Alexandrovna desviando a
atteno do jarreta para um _groom_, parado defronte d'elle com uma
bandeja.

O principe serve-se de uma chavena de ch e contempla o _groom_ de
bochechas rochonchudas e rosadas.

--Ah! ah! ah!  seu filho? Perfeito, muito perfeito! e... e... e... bem
comportado, j se v?

--Perdo, principe... accode pressurosa Maria Alexandrovna. Ainda estou
toda a tremer... Com que, ento, deu uma quda? No se magoaria? No 
prudente arriscar a sua pessoa em semelhantes aventuras!...

--Virou-se! virou-se! O cocheiro virou a carruagem commigo dentro!
exclama o principe com extraordinaria animao. E eu, a pensar que era o
fim do mundo ou coisa parecida. Os santos me perdoem: apanhei um
susto... vi as estrellas ao meio dia, eu esperava l!... eu es...
pera... va l!... E tudo aquillo, por culpa do meu cocheiro, do
Pamphilio: entrego-te este negocio, meu amigo, has de tratar do
inquerito... Estou convencido de que attentou contra a minha vida!

--Muito bem! muito bem, tiosinho! responde Pavel Alexandrovitch, fica a
meu cuidado. Mas oia l; se lhe perdoasse por esta vez, hein, que lhe
parece?

--Por caso nenhum! Tenho a certeza de que quiz dar cabo de mim, elle e
mais o Lavrenty, que eu deixei l em casa. Ora imaginem,
encasquetaram-se-lhe as taes ideias novas, uma negao... que eu sei
l... e era um communista em toda a extenso da palavra. Quando me vejo
a ss com elle... fico logo em suores frios.

--Ah! que verdade, principe! No pe na sua ideia o que eu tambem tenho
aturado a esta sucia! J despedi por duas vezes toda a creadagem. Que
gente to estupida! Anda uma pessoa a ralhar com elles de manh at 
noite.

--E... st claro! Gosto de ver um lacaio que no fure paredes, observou
o principe, satisfeito, como alis succede aos velhos, de que lhes
escutem com respeito a tagarelice,-- at a principal qualidade de
qualquer lacaio,... uma to... leima sincera... em certas occasies.
Incute-lhes uma certa imponencia... solemnidade! N'uma palavra,  mais
distincto, e eu, a primeira qualidade que exijo a um servial  a
distinco.  por isso, que conservo o Tarenty, ests lembrado do
Tarenty, meu amigo? Assim que o vi, percebi-lhe a vocao: Has de ser
porteiro.  phe... e-nome-nalmente es... tupido. Com aquelles olhos de
carneiro mal morto: Mas que boa presena! que solemnidade! Em pondo a
gravata branca, faz um figuro! Gosto d'elle deveras! Eu, s vezes,
ponho-me a olhar para elle, e no me cano de o ver: ali onde o vem,
est escrevendo um livro...  um verdadeiro philosopho a... al... lemo, o
proprio Kant, ou antes, um, per gordo e bem comido, um ser incompleto,
tal qual cumpre a todo e qualquer se... er... vial.

Maria Alexandrovna ri s gargalhadas e bate palmas; Pavel Alexandrovitch
faz cro: acha immensa graa ao tio. A Nastassia Petrovna ri tambem; e a
propria Zina d um ar de riso.

--Mas que graa, principe! que alegria! exclama Maria Alexandrovna. Que
preciosa faculdade de observar ridiculos... E desappareceu o senhor da
sociedade! Privar assim de um talento o mundo durante cinco annos
inteiros!... Mas podia at escrever comedias, principe! Podia muito bem
restituir-nos Visine, Griboiedov, Gogol!

-- verdade,  verdade!... confirma encantado o principe... eu podia
restituir... Quer crr? Eu d'antes tinha muita graa, at escrevi para o
theatro um v... ... deville. Com umas coplas que eram uma delicia! Por
signal que nunca foi representado.

--Que pena! Como havia de ser divertido? Sabes o que te digo, Zina, que
vinha mesmo a proposito. Ns, justamente, principe, andamos a combinar
umas rcitas de amadores com um fim de beneficencia patriotica, em favor
dos feridos... Vinha mesmo ao pintar o seu vaudeville.

--E... st claro, estou prompto a escrevl-o. De mais a mais, j nem me
lembra uma palavra, mas tenho de memoria um ou dois trocadilhos que...
(O principe beija as pontas dos dedos.) Eu, em geral, quando estava no
estrangeiro... fazia um verda... deiro _furor_... Lembro-me de mylord
Byron... fomos muito intimos... Dansava  maravilha a krakoviak no
congresso de Vienna...

--Mylord Byron, meu tio? Ora vamos, que est para ahi a dizer!

--Est claro!... Byron. E d'ahi, talvez fosse outro. Exactamente, era um
polaco, lembro-me agora muito bem; um grande original, o tal polaco!
Intitulava-se conde, e porfim, veiu-se a saber que era cozinheiro.

Mas dansava lindamente a krakoviak. Quebrou uma perna. Foi n'essa
occasio, at, que lhe fiz estes versos:

    O nosso conde polaco
    Dansava a krakoviak

E d'ahi... j me esqueceu... ah!

    Desde que partiu a perna,
    Nunca mais pde dansar.

--Sim, sim, deve de ser isso, rico tiozinho! exclama Mozgliakov, pdre de
riso!

--Est c-claro! Quer-me parecer que seria isto ou coisa que o valha. E
d'ahi  possivel que no seja. O que lhes sei dizer  que os versos me
saram muito bons. Escapam-me certas coisas, tenho tanto que fazer!

--Mas, no me dir, principe, pergunta com muito interesse Maria
Alexandrovna, em que  que se occupa n'aquella sua solido? Lembrava-me
tanta vez do principe! Estou a arder de impaciencia por saber tudo por
miudos...

--Em que  que me occupo! Ora essa... immensa coisa em que me occupar...
em geral. Umas vezes descanso, outras vezes dou o meu passeio... a
imaginar c umas coisas...

--Deve de ter muita imaginao, rico tiozinho.

--Muita, meu caro. s vezes, acontece-me imaginar coisas de que eu
proprio fico pasmado. Quando eu estava em Kadnievo... A proposito, tu
no foste vice-governador em Kadnievo?

--Eu, tiozinho? Que est dizendo! Pelo amor de Deus! exclama Pavel
Alexandrovitch.

--E eu a confundir-te com elle...

E dizia eu commigo: Por que ser que elle est to mudado?... Porque o
outro tinha uma phisionomia imponente, espirituosa... um homem
extra-a-ordina... ria... mente intelligente. Compunha sempre versos... a
proposito... De perfil, era tal qual um rei de copas.

--Acredite, principe, interrompeu Maria Alexandrovna, essa vida ha de
deitl-o a perder, lhe juro eu! Encerrar-se durante cinco annos n'um
ermo! No ver, no ouvir pessoa alguma!... Sabe o que lhe digo, o
principe  um homem perdido! Pergunte a algum dos seus amigos, que lhe
sejam fieis, e todos lhe diro isto mesmo:  um homem perdido!

--De... de... v-ras? arrasta o principe.

--Com certeza... Digo-lh'o como se fra uma irm, porque sou muito sua
amiga,--pois que as recordaes do passado, para mim so sagradas. Que
interesse poderia eu ter em o enganar? Nada, nada,  preciso
absolutamente mudar de vida, alis, no resiste?...

--Valha-me Deus! pois eu hei de morrer, assim, to depressa? exclama o
principe, assustadissimo. E caso  que adivinhou: as minhas humorroides
do cabo de mim, e ha uns tempos para c, principalmente... e quando me
atacam as crises, tenho sin-t--mas es... espan... tosos... Eu j lhe
vou contar tudo... por miudos...

--Deixe l, tiozinho, contar isso tudo, para outra vez. Agora, no ser
tempo de irmos dar o nosso passeio?

--Pois, sim, v l, ficar para outra vez; e d'ahi talvez no
intersse... Mas com tudo isso...  uma doena... extr--mamente
interessante. Com uma tal variedade de episodios! V se me lembras, meu
caro, contar esta noite, com todos os pormenores, uma certa
particularidade das humorroides.

--Ora, escute, principe, atalhou ainda Maria Alexandrovna. Devia ir ao
estrangeiro, para ver se se curava.

-- isso, ! Ao estrangeiro, absolutamente. Lembro-me de que, ahi por
1820, a gente divertia-se im-men-sa-mente no estrangeiro. Estive para
casar com uma viscondessa, e era francsa. Eu estava apaixonado por
ella, e queria consagrar-lhe toda a minha vida. Que ella, alis, casou
com outro... Caso exquisito!... Tinha estado em casa della no havia
ainda duas horas, e foi n'este meio tempo que um baro allemo a
conquistou. Veiu a acabar n'um hospital de doidos.

--Mas, caro principe, estavamos falando na sua sade, e dizia-lhe eu que
devia pensar n'isso muito a srio. Ha grandes medicos l pelo
estrangeiro. De mais a mais a mudana de ar, j por si, 
importantissima. Ter que renunciar a Dukhanovo, por uns tempos, quando
menos.

--Abso-o-lu-tamente! J me conformei, tenciono tratar-me pela
hy-dro... the... rapia.

--Pela hydrotherapia?

--Est claro! Foi isso mesmo que eu disse, pela hy... dro... the... rapia.
J me tratei pela hy... drotherapia. Estava eu nas aguas. Tambem l
estava uma senhora de Moscou, varreu-se-me o nome, uma mulher muito
poetica, com setenta annos, ou coisa assim; tinha uma filha com uns
cincoenta annos, e com uma belida n'um olho. Falavam ambas sempre em
verso. Aconteceu-lhe um desastre! N'um fogacho de genio, matou o criado.
Teve seus da-res e to... mares com a justia. E como eu ia dizendo,
puzeram-me no regimen da agua; que eu, ainda assim, no estava doente:
mas se no faziam seno dizer-me "Trate de si! trate de si!" E eu, por
delicadeza, puz-me a beber a agua e, effectivamente, senti allivio.
Bebi, bebi, e tornei a beber! Acho que bebi um lago inteiro...  optima
coisa a tal hy-dro-the-rapia. Dou-me muito bem. Eu, se no tivesse cado
de cama, tinha passado lindamente.

--L isso  verdade, rico tio. Ora dize-me, rico tio, aprendeste
logica?

--Valha-o Deus! Que pergunta? observa Maria Alexandrovna, escandalizada.

--Est c-claro, meu amigo... ha muito tempo, aqui para ns. Estudei
philosophia, na Allemanha. Frequentei os cursos todos mas d'ali a pouco
esqueceu-me tudo... Mas... confesso, metteu-me um tal susto no corpo com
as taes do... enas que... fiquei atarantado... Eu volto j. Dem-me
licena!

--Aonde vae, principe? exclama, pasmada, Maria Alexandrovna.

--No tardo aqui. No me demoro... Vou apenas... assentar um
pensamento... At j...

--Que tal lhe pareceu? exclama Pavel Alexandrovitch,  gargalhada.

Maria Alexandrovna perde de todo a paciencia.

--Eu no o entendo, na verdade, no posso comprehender de que  que se
ri!--comea ella com animao. Rir de um ancio respeitavel, de um
parente! Rebentar a rir a cada palavra que elle solta da bcca! Abusar
d'aquella bondade evangelica! Tenho at vergonha de o ouvir, Pavel
Alexandrovitch! Mas no me dir o que  que lhe encontra de ridiculo?
Ainda no fui capaz de lhe notar o lado ridiculo.

--Mas se nunca conhece ninguem, se no faz seno metter os ps pelas
mos!

--Ahi tem as consequencias do tal sequestro de cinco annos entregue 
guarda d'aquella megra! Devemos antes ter d d'elle, em vez de rirmos 
sua custa. Veja l, nem a mim mesmo me conheceu, at! O senhor foi
testemunha. Pois no  terrivel!  preciso salv-lo. Eu, se lhe propuz
ir ao estrangeiro, foi na esperana de que se resolva a largar de mo
aquella... regateira.

--Sabe o que lhe digo,  preciso casl-o, Maria Alexandrovna.

--E o senhor a dar-lhe!  incorrigivel, senhor Mozgliakov.

--No sou, acredite, Maria Alexandrovna, eu, d'esta vez, estou falando
at muito a srio. Por que  que o no havemos de casar?  uma ideia
como outra qualquer. Em que  que isso o pode prejudicar? No estado a
que elle chegou,  um expediente que o pode salvar, creio eu. A lei
ainda lhe permitte casar. D'esse modo, v-se livre d'aquella
desavergonhada, desculpe a expresso. Escolher para ahi qualquer
menina, ou qualquer viuva honesta, intelligente, carinhosa e pobre,
sobretudo, que no deixar de o tratar como filha e que comprehender
que lhe deve ser grata. Que coisa melhor lhe poderia acontecer? Um
corao terno e fiel, em vez d'aquella... moita! Est claro que convem
que seja bonita, pois o tio professa ainda o culto da belleza. No viu
os olhos que elle deitava  Zinaida Aphanassievna?

--E onde ir desencantar semelhante ideal? pergunta Nastassia Petrovna
toda ella ouvidos.

--No est m pergunta? A senhora, por exemplo, sem irmos mais longe...
se me d licena, perguntar-lhe-hei por que  que no ha de casar com o
principe? Primeiro e segundo, porque  bonita, e viuva, ainda por cima.
Terceiro, por que  fidalga. Quarto, por que  honestissima. Ha de
am-lo, amim-lo, pr na rua a tal carcereira, carregar com o principe
para o estrangeiro, dar-lhe papinha e goloseimas... tudo isto at que
chegue o dia em que elle diga adeus a este mundo de amarguras, o que
tardar para ahi um anno, quando muito, ou um mez ou dois, quem sabe;
depois fica sendo princesa, viuva, rica e, para compensar o trabalho,
casa para ahi com um marquez qualquer, ou um general.  bonito, pois no
acha?

--Ai! Deus meu! Que amor eu lhe havia de ter, por gratido, quando por
mais no fosse, se elle pedisse a minha mo! exclama Madame Ziablova.

Os olhos feriram-lhe lume, at.

--Mas, isso sim!... so sonhos!...

--Sonhos? Tem empenho em que se realisem? Experimente, pea-me que lhe
alcance essa pechincha. E corto desde j este dedo se hoje mesmo no fr
noiva do principe. No ha nada mais facil do que persuadir o meu tio.
Diz sempre a tudo, que sim. A senhora bem o ouviu, ha boccado. Casamol-o
sem elle dar por isso. Enganamol-o,  verdade, mas se  para seu bem,
pois no acha? Em todo o caso, a senhora do que devia tratar era de ir
arranjando uma _toilette_  altura das circumstancias, Nastassia
Petrovna.

A animao de Mozgliakov transforma-se em enthusiasmo. A Madame
Ziablova, com o seu tino todo, est-lhe a crescer at agua na bcca.

--Eu bem sei; nem  preciso que m'o lembre, que estou para aqui uma
trapalhona... Pareo at uma cozinheira, pois no pareo?

Maria Alexandrovna est com um cara de palmo. Afoito-me a affirmar que
ouviu a proposta de Pavel Alexandrovitch com uma pontinha de terror.
Quer sim quer no, teve mo em si.

--Tudo isso  muito bonito, mas  um chorrilho de futilidades sem ps
nem cabea, e que no vem nada a proposito! disse, com sequido,
dirigindo-se ao Mozgliakov.

--Ento por qu, minha querida Maria Alexandrovna? Por que  que diz que
so futilidades fra de proposito?

--O senhor est em minha casa, e o principe  meu hospede. No consinto
que ninguem se esquea do respeito que se deve  minha casa! Tomo as
suas palavras como mera brincadeira, Pavel Alexandrovitch; mas, ahi vem
o principe, graas a Deus!

--Eu... c... c... es... tou, guincha o principe ao entrar.  espantoso,
querida amiga,... que fecundidade com que acordou hoje este m... meu
espirito! s vezes--talvez no acredites--mas acontece-me estar um dia
inteiro sem me accudir um pensamento a esta cabea...

--Seria a tal queda d'inda agora que lhe abalou os nervos...

--Tambem me quer parecer, meu amigo, ach... acho util, at, o tal
accidente, tanto assim que estou resolvido a perdoar ao meu Pheophilo.
Queres que te diga?--Palpita-me que no premeditar attentar contra os
meus dias. E demais... j est bem castigado, cortaram-lhe as barbas.

--Cortaram-lhe as barbas!--Que me diz? Elle, que tinha umas barbas mais
compridas que um principado allemo.

--Es... t c-claro!... sim... um principado. Em geral, meu amigo, so
muito acertadas as tuas concluses. Mas as barbas d'elle so postias.
Ora imaginem: Mandaram-me um catalogo: acabam de chegar do estrangeiro
umas optimas barbas quer para cocheiros quer para gentlemen: suissas,
barbas  hespanhola, pras  imprio, etc.; tudo de primeira qualidade,
por preos muito m-m-di... cos. E eu, ento, encommendei umas barbas
para cocheiro. Mandaram-m'as: Ma-a... gnificas! Mas a do Pheophilo era
duas vezes mais comprida. E eu muito atrapalhado: que hei de eu fazer?
Recambiar as barbas postias, ou mandar rapar as do Pheophilo? Reflecti
maduramente e resolvi em favr das barbas postias.

--Prefere a arte  natureza, rico tiozinho?

--Pois est claro!... E que desgosto que elle teve quando se viu de cara
rapada. Cada pllo que lhe cortavam era um dia de vida que lhe tiravam.
Mas no sero horas de sair, meu caro?

--Estou s suas ordens, tio.

--Principe, ouso esperar que s ir a casa do governador! exclamou Maria
Alexandrovna, muito sobresaltada. O principe, _pertence-me_, faz parte
da minha familia, por todo o dia. Escusado  dizer, que no tenho nada
que ensinar-lhe, pelo que diz respeito a Mordassov. Talvez queira ir
fazer a sua visita  Anna Nikolaievna, e no tenho direito de o
dissuadir de dar semelhante passo. Tanto mais que estou persuadida de
que a sua propria experiencia lhe servir de guia. Lembre-se de que,
hoje, sou sua irm, sua me e sua aia por todo o dia... Ah! Estou toda a
tremer por sua causa, principe!... O principe no conhece esta gente,
no conhece, digo-lho eu... No, que elle  preciso tempo para os
conhecer.

--Deixe o caso por minha conta, Maria Alexandrovna, disse Mozgliakov;
tudo se passar conforme lhe prometti.

--Entregar-me nas suas mos, eu?... O senhor  um estouvado? C o espero
para jantar, principe. Costumamos jantar cedo. Que pena que eu tenho de
que, n'esta occasio, meu marido esteja no campo! Havia de gostar tanto
de o ver! Estima-o tanto! Dedica-lhe to sincera amizade!

--Seu marido?--Com que ento,... tem marido?--

--Valha-me Deus! Que pessima memoria  a sua, principe? Pois esqueceu o
passado a esse ponto? E meu marido, o Aphanassi Matveich, querem ver que
tambem se no lembra d'elle? Est no campo, mas o principe, em tempos,
viu-o, at, muita vez. Veja l se se lembra; o Aphanassi Matveich?

--Aphanassi Matveich! No campo? Ora vejam l! Mas  delicioso! Tem ento
marido! Que ratice! Existe um v... ... de ville versando sobre o mesmo
assunto: _O marido  porta e a mulher na_... Conceda-me licena!... j
me no lembro l muito bem... a mulher safa-se para Tula... ou para
Yoroslav!...

_O marido  porta e a mulher em Tver_, rico tio, sopra-lhe o Mozgliakov.

--Est c-claro, sim,  isso! Obrigado, caro amigo, exa... cta...
mente... em Tver...  um encanto... um en... can... to...  assim,...
!... a mulher em Koxtroma... quero dizer... em concluso... safou-se...
Um encanto! um encanto! Mas j no sei o que  que eu ia dizendo!... Ah!
sim! vamo-nos embora, hein? At  vista! minha rica senhora! Adeus...
minha linda menina!

O principe beija as pontas dos dedos  Zinaida.

--O jantar! O jantar, principe!

--Demore-se o menos que puder! brada Maria Alexandrovna deitando a
correr atrz d'elle.




V


--Nastassia Petrovna, no seria mau ir deitar a sua rabisca pela
cozinha, disse ella apz de haver acompanhado o principe. Palpita-me que
aquelle traste do Nikitka  capaz de se tomar da pinga e deita-nos a
perder o jantar.

Obedeceu Nastassia Petrovna.  sada, olhou para Maria Alexandrovna e
percebeu que estava animadissima a digna senhora. Em vez de ir vigiar o
tratante do Nikitka, Nastassia Petrovna dirige-se a uma saleta contigua,
d'alli, enfiando pelo corredor, vae ao quarto, e esgueira-se para um
cubiculo de despejos, atulhado de bahs, de vestidos velhos e de roupa
suja de toda a familia. Nos bicos dos ps, acerca-se de uma porta
fechada, sustendo a respirao, e espreita pelo buraco da fechadura:
Aquella porta  uma das trs que abrem para a sala (est condemnada).
Maria Alexandrovna sabe que a Nastassia Petrovna  velhaca, pouco
delicada, de poucos escrupulos, e muito capaz de escutar s portas.
N'este momento, comtudo, Madame Moskalieva est to preoccupada, que se
descuida de toda e qualquer cautlla.

Senta-se n'uma poltrona e despede significativa olhadela  Zina. E a
Zina a sentir o pso d'aquelle olhar. D-lhe um pulo o corao!

--Zina!

A Zina volta com muito vagar para a me o descorado semblante e aquelles
olhos sonhadores.

--Zina, tenho que te falar em negocio importante.

Est de p a Zina; cruza os braos e espera. Deslisa-lhe pelo semblante
expresso fugaz de despeito e de ironia.

--Quero perguntar-te qual  a tua opinio a respeito d'este tal
Mozgliakov?

--Est farta de saber a conta em que o tenho, responde a Zina com modo
constrangido.

--Pois sim, filha, mas est-me parecendo que se vae tornando um tanto ou
quanto impertinente, atrevido; e em concluso, aquella sua
insistencia...

--Diz elle que me ama; se assim fr, acho perdoavel a sua insistencia.

--Admiro-me de uma circumstancia: tu, d'antes, no o desculpavas, assim,
tanto;... antes pelo contrario, eras, at, muito rispida para com elle,
sempre que eu a elle me referia.

--E a mim, o que me causa admirao  outra circumstancia: A mam,
d'antes, estava sempre a defendl-o, e  agora a propria a condemnl-o.

--Confesso que me sorria este casamento. Custava-me vr-te assim sempre,
to triste.--Avaliava bem a tua tristeza,--pois sou capaz de a
comprehender, seja qual fr o juizo que faas a meu respeito.--Chegou
at a tirar-me o somno! Em summa, estou convencida de que s uma mudana
radical na tua vida te poderia salvar, e essa mudana, ha de ser o
casamento. No somos ricos, no podemos ir dar a nossa volta pelo
estrangeiro. Os asnos que povoam esta cidade espantam-se de te ver ainda
solteira aos vinte e trs annos e inventam fabulas a tal respeito. Mas
poderei eu dar-te por marido para ahi um conselheiro d'esta estupida
cidade ou o Ivan Ivanovitch, nosso procurador? Haver por aqui marido 
altura dos teus merecimentos?  certo que o Mozgliakov  apenas um
peralvilho, e com tudo isso, de todos elles,  ainda o mais acceitavel.
 de boa familia, dno de cincoenta mil almas: sempre valer mais que um
procurador que vive de propinas e  custa Deus sabe de que
tranquibernias. E eis o motivo porque me lembrei d'elle. Tanto menos
verdadeira simpathia me merecia, e tanto mais me conveno hoje de que
era o Suprmo Senhor quem me enviava semelhante desconfiana como
advertencia. Pensa bem! Se porventura se offerecesse agora um partido
mais vantajoso, no serias tu a propria a louvar-me de no ter at hoje
dado a tua palavra a ninguem? Pois, ouso crer, Zina, que tu hoje, nada
lhe ters dito de positivo.--Pois no  verdade?

--Para que serviro tantos rodeios, mam? quando podia muito bem ter-me
dito tudo isso em duas palavras, replica a Zina com modo resoluto.

--Rodeios, Zina! Sero coisas que se digam a tua me? Ah! Vejo que de
modo nenhum te mereo confiana! Consideras-me como inimiga muito mais
do que como me!

--Acabemos com isto, minha me. Parece-lhe bonito ficarmos para aqui a
fazer questo de palavras? No estaremos fartas de nos conhecermos uma 
outra?

--Repara em que me ests offendendo, minha filha. Pois no vs que estou
resolvida a tudo, a tudo, comtanto que tu sejas feliz?

A Zina pe-se a olhar para a me com aquella singularissima expresso de
despeito e ironia.

--No estar morrendo por que eu case com o principe para complemento da
minha ventura? pergunta a joven com extranho sorriso.

--Nem sequer te disse uma palavra a semelhante respeito, mas visto que
isso veiu  teia, dir-te-hei que, se fosse possivel, representaria para
ti a felicidade, effectivamente.

--Pois eu acho isso pueril, exclama a Zina toda assommada, pueril,
pueril e mais que pueril! e acho, ainda, que a mam  dotada de
excessiva imaginao:  uma mulher poetica; e tanto mais que  assim que
a classificam em Mordassov. Est sempre a fazer planos. Nem lhe mettem
medo impossibilidades. Assim que vi o principe, tive um presentimento,
de como no deixaria de lhe accudir semelhante ideia. Quando o
Mozgliakov mettia o caso a ridiculo e pretendia que era urgente casl-o,
li no semblante  mam o pensamento. E d'ahi, foi para me falar n'esse
jarreta que a mam principiou por se referir ao Mozgliakov. Mas esses
seus sonhos aborrecem-me de morte, no sei se sabe? E peo-lhe que
fiqumos por aqui!... Nem mais uma palavra, entendeu, mam? Nem mais uma
palavra! Peo-lhe que tome a serio isto que acaba de ouvir da minha
bocca.

--s uma criana, Zina, uma criana doente, e com mau genio! responde
Maria Alexandrovna em voz meliflua; e ests-me faltando ao
respeito.--Offendes-me! No ha me que aturasse o que eu te tenho
aturado! Mas padeces, e eu acima de tudo sou christ. Vou aturando, e
perdo-te. Responde-me a uma pergunta, s e mais nada, Zina. Vamos que
eu, effectivamente, tivesse sonhado semelhante alliana, onde  que est
a puerilidade?--Quanto a mim, nunca o Mozgliakov falou com tanto acerto
como ainda agora, quando tentava demonstrar que o casamento  uma
necessidade para o principe. O disparate era o ter-se lembrado d'aquella
fufia da Nastassia.

--Mam, declare-me com franqueza, se me est dizendo isso por mra
curiosidade ou com um fim qualquer.

--Peo-te que me respondas: onde vs tu n'isto puerilidade?

--Que aborrecimento! Triste sorte  a minha! exclama a Zina a bater o
p. Vou dizer-lh'o, se  que ainda o no percebeu: aproveitar o ensejo
d'esse velho se achar cado em demencia para o enganar, para o desposar,
assim, enfermo e caduco, para lhe extorquir o dinheiro e andar todo o
santo dia a desejar-lhe a morte, representa, a meu vr, no s uma
puerilidade, mas uma vilania, e no serei eu quem lhe d os parabens por
semelhante ideia, mam.

Silencio.

--Zina, j te esqueceste d'aquillo que se passou ha dois annos? pergunta
de chofre Maria Alexandrovna.

Estremece a Zina.

--Mam, profere com accentuada seriedade, lembre-se de que me prometteu
no me tornar a falar em semelhante coisa.

--Pois bem, minha filha--que eu at hoje ainda no tornei a dizer-te uma
palavra--peo-te que por uma vez to somente me desligues da minha
promessa. Zina! Soou a hora de uma franca explicao. Foram mortaes
estes dois annos de silencio! Isto assim no pode continuar!... Estou
prompta a supplicar-te de joelhos que me permittas falar. Entendes,
Zina,  a tua propria me que cae de joelhos a teus ps! E
demais--dou-te a minha palavra solemne--a palavra de uma me desgraada
que adora a propria filha--seja qual for o pretexto, em circumstancia
alguma d'este mundo, com risco at da propria vida, de nunca mais abrir
a bocca a tal respeito.

--Fale! diz Zina, muito enfiada.

Maria Alexandrovna calculou optimamente o lance.

--Obrigada, Zina. Ha dois annos, pois, que frequentava esta casa, por
causa do teu irmozinho, do Mitra, que Deus tem, um _utchitel_.

--Mas para que foi que a mam assumiu esses modos to solemnes, para que
estar a desperdiar toda essa eloquencia, esses pormenores to
escusados e penosos que ambas estamos fartas de conhecer? interrompeu a
Zina com enfado.

--Porque a mim, que sou tua me, Zina, me assiste o dever de me
justificar a teus olhos. E demais, quero apresentar-te este negocio,
todo elle, sob uma luz nova para ti e que  a unica verdadeira. Emfim,
sem estas promessas, no poderias comprehender a concluso que d'ellas
pretendo deduzir. No creias, minha filha, que intento fazer pouco dos
teus sentimentos. No Zina, has de encontrar em mim uma verdadeira me,
e quem sabe se no sers tu a propria a cair-me aos ps, lavada em
lagrimas, a supplicar-me que conclua essa reconciliao  qual o teu
orgulho se nega ha tanto tempo. Tenho pois que recapitular as coisas
desde o principio, ou calar-me.

--Fale, repetiu a Zina, a maldizer de todo o corao a grandiloquencia
maternal.

--Contino, Zina. Esse tal _utchitel_ da escla communal, um fedlho,
por assim dizer, produziu em ti inconcebivel impresso. Contei sempre
com que o teu sizo, a elevao dos teus sentimentos e tambem a
indignidade do individuo, (visto que  preciso dizer tudo) evitariam
qualquer approximao entre tu e elle. E de repente, vens ter commigo e
declarar-me com firmeza que tens teno de casar com elle. Foi uma
punhalada que me dste no corao, Zina! Soltei um grito e ca sem
sentidos, mas... no deixars de te lembrar do incidente.  certo que
julguei necessario empregar n'aquella occorrencia toda a minha
auctoridade: e por signal que a acoimaste de tyrannia. Reflcte, pois:
um garotte, filho d'um _diatchok_,[4] com um salario de doze rublos
mensaes, um escrevinhador de mus versos que lhe imprimem por d na
_Bibliothca de Leitura_, que no sabe falar em outra coisa a no ser
n'esse maldito Shakspeare,--aquelle fedlho, teu marido! marido da
Zinaida Moskalieva! So coisas que s acontecem nas novllas pastors de
Florian. Perdo, Zina, mas quando me lembro de tal, saio fra de mim!
Neguei-me a consentir. No houve influencia que conseguisse
convencer-te. Teu pae, naturalmente, manteve-se na neutralidade, incapaz
de comprehender-me quando tentei expor-lhe o caso e sem saber fazer
outra coisa alm de pestanejar. Mantens relaes com esse garoto,
proporcionas-lhe at ensejo de te ver, e o que  ainda muito peor que
tudo isso, tens o arrojo de lhe escrever! E as ms linguas desde logo a
trabalhar! Fazem alluses offensivas na minha presena. Esto a pular de
contentes, a embocar as mil trombetas da calumnia. As minhas
antecipaes a semelhante respeito vo se realizando uma por uma. D-se
entre ti e elle um desaguizado e elle manifesta-se indigno de ti.
Ameaa-te de mostrar as tuas cartas, e tu, num assmo de justa
indignao, ds-lhe uma bofetada!... Sim, Zina, conheo tambem essa
circumstancia, estou inteirada de tudo--de tudo, sim! Esse traste,
n'esse mesmo dia, mostra uma das tuas cartas quelle miseravel do
Zanchine, e, d'alli a uma hora a carta est em poder da Natalia
Dmitrievna, minha inimiga figadal!  noite, aquelle, doido, arrependido
j de semelhante aco inqualificavel, por toleima tenta envenenar-se!
N'uma palavra, um escandalo medonho! Aquella pcora da Nastassia accode
toda assustada, a participar-me que ha uma hora que a Natalia Dmitrievna
se acha de posse da tua carta: no se passaro duas horas, sem que a
cidade em pso aprege para ahi a tua vergonha. E eu a esticar os nervos
para no car para ali inanimada. Que lance, Zina! Aquella descarada,
aquella desavergonhada!

A Nastassia exige duzentos rublos para inutilizar a carta. Eu propria,
deito a correr, com os sapatos de trazer por casa, at, atravz da neve,
para ir a casa do judeu Bumschtein empenhar o meu abrochador, recordao
da minha virtuosa me! D'alli a duas horas tinha a carta em meu poder:
roubou-a a Nastassia: arrombou uma boceta e est salva a tua honra. Nem
vestigios, sequer! Mas que dia de angustias! Logo ao outro dia,
encontrei entre os meus cabellos immensos fios brancos,--os primeiros,
Zina! Tu foste a propria a avaliar at que ponto era indigno de ti
aquelle garoto, pois concordas agora, no sem amargura, talvez, que
teria sido uma loucura entregar-lhe o teu destino. Depois, comtudo,
pgas a atormentar-te, a soffrer, no podes varrl-o da lembrana,--no
a elle,--foi sempre coisa to rasteira que a tua vista nem sequer podia
deter-se n'elle,--mas ao teu primeiro sonho de amor. Hoje, esse
desgraado est a expirar--nem sequer j se levanta.--Dizem que morre
tisico, e tu--anjo de bondade,--no queres casar emquanto elle fr vivo;
para lhe poupar soffrimento, visto que  ciumento... e no obstante,
nunca te teve amor, tenho a certeza, amor sincero, elevado! O que o no
impede de espionar os passos do Mozgliakov, de te rondar a casa, de
tirar indagaes...--Tens d delle, minha filha, adivinhou-te o meu
corao, e Deus sabe as lagrimas amargas que me tem encharcado o
travesseiro.

--Veja se acaba com tudo isso, mam! atalhou Zina com enfado. O seu
travesseiro no vem c fazer coisa nenhuma! No poder falar com
singeleza?

--No me acreditas, Zina! No me trates to mal, minha filha! J l vo
dois annos, e no fao outra coisa seno chorar, mas tenho-te encoberto
as minhas lagrimas, Zina, durante esses dois annos mortaes!... Ha muito
tempo que conheo os teus sentimentos. Medi todo o alcance da tua magua.
Poder alguem lanar-me em rosto, minha querida, o haver considerado
semelhante ligao como uma phantasia romanesca, nascida sob a
influencia do tal maldito Shakspeare? Qual seria a me que condemnasse
os alvitres de que tenho lanado mo e achasse rigoroso em demasia o
modo por que avalio este caso? E comtudo, a mim propria represento o teu
longo padecer, comprehendo e apprecio a tua sensibilidade. Acredita:
comprehendo-te melhor, talvez, do que te comprehendes a ti propria.
Estou certa de que o no amas, a esse garoto ridiculo: a quem tu amas 
ao teu sonho,  tua ventura mallograda, ao esvair das tuas illuses. Eu
tambem amei, no cuides que no, e com mais excesso de paixo do que tu;
tambem eu padeci; tinha tambem as minhas illuses!... No falo pois sem
experiencia, e se affirmo que uma alliana com o principe representaria
para mim a salvao, mereo talvez que me dem ouvidos.

A Zina ouviu com espanto aquella estirada declarao, farta de saber que
a mam nunca assume aquelle tom pathetico sem designio occulto. E
comtudo, a concluso deixa confundida a joven.

-- pois a srio, que fala em casar-me com o principe? exclama pasmada a
considerar a me que assumiu attitude majestatica; no  ento uma
hypothese, como se dissessemos?  teno firme e assente, pelo que vejo?
Mas... como  que poderia salvar-me semelhante casamento? E... e... que
relao ter tudo isso com o que acaba de expr-me, com essa historia
toda?... Declaro que a no percebo, mam.

--E a mim, meu anjo, espanta-me que o no percebas! exclama Maria
Alexandrovna, com subita animao. Primeiramente, o facto s por si de
teres de transferir-te para outra sociedade, para um mundo differente;
de teres de dizer adeus de uma vez para sempre a esta nojenta cidade das
duzias, semeada para ti de to temiveis recordaes,  qual te no
prende a minima affeio, onde te assacaram calumnias, onde essa sucia
de pgas te detestam por causa da tua formosura, esse facto s por si,
repito,  j capital. E depois, podes, ainda esta primavera, ir para o
estrangeiro, para a Italia, para a Suissa, para a Hespanha,--Zina--para
a Hespanha, onde irs ver a Alhambra, o Guadalquivir! No estars farta
d'este immundo riacho de Mordassov, com aquelle seu nome inconveniente?

--Mas se me d licena, mam! est falando como se eu j estivesse
casada, ou pelo menos como se o principe me tivesse j pedido em
casamento...

--L quanto a isso no te d cuidado, meu anjo, sei o que estou dizendo.
Deixa-me continuar. Eu disse _primeiramente_, e ahi vae o segundo ponto:
Comprehendo, minha filha, quanto te contrara o dares a mo de esposa a
este Mozgliakov...

--Sei muito bem, nem preciso de que m'o digam--que nunca serei sua
mulher! interrompeu Zina com arrebatamento.

--Se tu soubesses, meu amor, como eu avalio essa repugnancia!  terrivel
o ter que jurar perante o altar de Deus amor e fidelidade quelle a quem
se no pode ter amor!  terrivel o pertencer a um homem a quem se no
pode respeitar. E todavia, exigir-te-hia amor; foi para te possuir que
elle casou comtigo: isso adivinha-se nos olhos que elle te deita quando
no olhas para elle. Mas como simular perpetuamente amor? Ah! minha
filha, aqui estou eu que ando a padecer ha vinte e cinco annos com esta
comedia necessaria. Teu pae deitou-me a perder. Posso afirmar, at, que
envenenou de todo a minha mocidade, e quantas vezes no ters visto
correr as minhas lagrimas?

--O pap est no campo; no esteja a atacl-o, por quem !

--Sim, tu saes sempre em sua defsa, bem o sei... Ah! Zina!
Confrangia-se-me o corao quando a prudencia me obrigava a desejar o
teu casamento com o Mozgliakov! Com respeito ao principe, com esse no
tinhas tu necessidade de representar nenhuma comedia. Escusado  dizer
que lhe no poders dedicar o que se chama amor. E demais, elle proprio
 _incapaz_ de exigir semelhante amor.

--Que disparate, meu Deus! E eu affirmo-lhe que se engana de meio a
meio: no tenciono sacrificar-me,--ignoro alis o fim com que o faria.
Fique sabendo que no quero casar. No casarei seja com quem fr;
ficarei solteira. Tem-se farto de me atormentar ha dois annos para c,
por causa de eu ter rejeitado quantos noivos me tem apparecido, mas no
tem remedio seno conformar-se; no quero, j disse!

--Zinotchka, no te alteres, pelo amor de Deus, sem me ouvires, meu
amorzinho! Que cabea to esturrada! Consente em que eu te exponha o
caso em conformidade com o meu modo de ver, e vers que has de vir a
concordar commigo. O principe poder ainda viver um anno, dois, talvez,
mas no vae alm, com certeza. Ora, mais vale ser viuva e nova do que
velha solteirona, isto sem falarmos em que depois de elle fechar o olho
ficas sendo princsa, rica e livre. Minha querida, desprezas talvez
estes meus calculos baseados na morte de um homem, mas sou me, e quem
haver ahi que condemne a minha previdencia? Em concluso, se tu, anjo
de bondade, ainda tens pena d'esse tal garoto, se tu, conforme eu
suspeito, no queres casar emquanto elle fr vivo, considera que, se
casares com o principe, vaes resuscitar aquelle a quem amas! Se  que a
elle lhe restam ainda uns vislumbres de bom senso, comprehender,
manifestamente, que o ter ciumes a respeito do principe, seria coisa
fora de proposito, ridiculo. Comprehender que no casas com este velho
a no ser por interesse, por necessidade. N'uma palavra,
comprehender... quero dizer--depois de fallecido o principe, j se
v,--que poders casar segunda vez, se fr da tua vontade...

--Casar com o principe, expoli-lo, e estar  espera de que elle morra
para depois ir casar com o meu amante, no  assim?  muito habil; quer
seduzir-me propondo-me... Percebo-a  legua, minha me, percebo-a
optimamente. S o lembrar-me eu de que no pode deixar de fazer alarde
de nobres sentimentos, at, n'um negocio to pouco limpo? Seria muito
mais estimavel o dizer-me, singelamente: " uma ignominia, Zina, mas 
lucrativa; e portanto, acceita." Sequer ao menos era mais franco.

--Mas que teimosia ser essa tua em encarar o negocio no ponto de vista
da trapaa, da arteirice, da cobia? Consideras os meus calculos como
uma soez hypocrisia; mas, em nome de quanto venras como mais sagrado,
onde estar a baixeza, onde a hypocrisia? V-te bem n'aquelle espelho:
s formosa o sufficiente para conquistares com esses teus olhos, sem
mais nada, um reino! E tu, to formosa, sacrificas a um velho os teus
melhores annos; tu, estrella magnifica, vaes embellezar-lhe o occaso da
vida; tal qual a hera viosa, florir na sua velhice! Est afeito 
companhia de uma feiticeira que o sequestra l n'um canto do mundo, e
d'essa feiticeira, s tu, tu, Zina, quem vaes ser successora! O dinheiro
e o titulo d'elle podem l equiparar-se ao teu valor? Onde vs pois
n'isto a baixeza, a hypocrisia?

Nem sabes o que estou dizendo, Zina!

--O dinheiro e o titulo d'elle valem mais do que eu, visto que para os
alcanar, teria que resignar-me a casar com um enfermo. Dmos s coisas
os seus nomes:  uma ignobil hypocrisia, mam!

--Pelo contrario, minha querida, pelo contrario! O caso pode at ser
encarado de um ponto de vista superior, christo. Declaraste-me, um dia,
em um assmo de enthusiasmo, que querias ser irm da caridade: o teu
corao exaltara-se de amor ao pensares nos humanos soffrimentos, outro
qualquer amor parecia-te tibio e mesquinho. Pois bem! Se ainda queres
acreditar no amor, acredita na dedicao, com sinceridade, tal qual uma
creana, com candura. Dedica-te, e abenoar-te-ha Deus! Tem padecido
este velho;  desditoso, perseguem-n'o. Conheo-o ha muitos annos e
sempre lhe dediquei incomprehensivel simpathia, carinho, por assim
dizer: presentia o futuro. S sua amiga, minha filha, seu brinquedo,
at, se  foroso dizl-o, mas aquenta-lhe o corao e fl-o por amor de
Deus! Admittamos que  ridiculo? Elle nem sequer d'isso tem consciencia.
No chega a ser a metade de um homem. Tem d d'elle, tu, que s christ.
Contrafaze-te; com fora de vontade consegue-se domar a alma para
semelhantes faanhas. Quanto no custa o pensar as chagas nos hospitaes,
com que repugnancia se no respira o ar viciado dos lazaretos: mas no
ha anjos que desempenham sem asco essas repugnantissimas tarfas e que
ainda do graas a Deus pela triste sorte que lhes coube? E ahi est o
remedio de que tanto necessitava o teu magoado corao: uma tarefa
heroica! Onde vs tu n'isto egoismo? Baixeza? No me acreditas, suppes
que estou representando uma comedia, no podes comprehender que uma
mulher mundana, n'este meio de viver leviano, possa ter uns sentimentos
de tanta elevao? Pois bem, no me acredites, minha filha! Desconfia do
corao de tua me! mas sequer ao menos concorda em que as minhas
palavras so sensatas e salutares. Esquece que sou eu quem te estou
falando, fecha os olhos, volta-me as costas e pe na tua ideia que  uma
voz misteriosa que ests ouvindo... O que acima de tudo te prende,  a
questo de dinheiro, essa apparencia de compra e venda. Pois bem,
rejeita o dinheiro visto que lhe tens tamanha averso, acceita apenas o
necessario, e o resto, d-o aos pobres. Por exemplo, estende o teu brao
quelle desgraado que est s portas da morte.

--Elle nunca acceitaria, disse a Zina, baixinho, como se estivera
falando comsigo.

--Dado o caso de que elle rejeite, l est a me para o acceitar em nome
d'elle, responde Maria Alexandrovna sentindo que conseguiu acertar-lhe
com a corda sensivel. Acceitar sem que elle proprio o saiba. J
vendeste os teus brincos (presente de tua tia) para lhe accudir, ha seis
meses, que eu bem o sei, e tambem sei que a me, a pobre da velha, anda
a lavar roupa para sustentar o filho.

--Dentro em pouco deixar de precisar seja do que fr.

--Comprehendo-te! apanha de relance Maria Alexandrovna, (accode-lhe
uma inspirao, uma verdadeira inspirao.) Dizem que morre tisico:
mas quem  que o affirma? Indaguei a seu respeito, ha dias, do
Kalist-Stanislavitch... Pois sou a primeira a interessar-me pelo pobre
rapaz, tambem tenho corao, Zina! E o Kalist-Stanislavitch respondeu-me
que a doena  grave, no ha duvida, mas que, at hoje, existe apenas
uma forte affeco dos bronchios,--tu mesmo lh'o podes perguntar. E
accrescentou que a mudana de clima, impresses fortes, podiam curar o
doente. Contou-me elle que, em Hespanha--e j no  a primeira vez que o
oio... li-o, at--ha uma ilha extraordinaria, Malaga, creio eu...
emfim, um nome que lembra o de um qualquer vinho--onde no s os que
padecem do peito, mas at os proprios tisicos saram de todo, graas ao
clima. Vo ali tratar-se fidalgos, e commerciantes ricos. Que elle,
effectivamente, a Alhambra--esse palacio encantado--as murtas e os
limoeiros, os hespanhoes a cavallo nas mulas, no ser o sufficiente a
produzir impresso n'uma natureza de poeta? Suppes que rejeitaria o teu
dinheiro?... Enganas-te se tens d d'elle! A mentira  perdoavel, quando
d'ella depende a vida. Alimenta-lhe a esperana, promette-lhe o teu
amor, dize-lhe que casars com elle quando enviuvares,--tudo se pode
dizer com nobreza: tua me no era capaz de te dar maus conselhos,
Zina!--Has de fazer tudo isso para o salvar e o bastante para te
justificares. Recuperar alento assim que souber que est esperando por
ti. Tratar-se-ha, seguir rigorosamente as recommendaes do medico, ha
de querer resuscitar para a ventura. Se elle se curar, ainda quando no
viesses a ser sua mulher, sequer ao menos tl-o-has salvo! e se a
desventura o tiver mudado, se o houver tornado digno de ti, casars com
elle. Effectuada a cura, poders alcanar-lhe uma situao na sociedade,
facultar-lhe uma carreira. O teu casamento, n'estas condies,
tornar-se-ha possivel. Hoje!... que  que os espera a ambos, se
porfiassem em perpetrar o acto de loucura de casarem. O desprezo de toda
a gente e a miseria.

Pensas acaso que a leitura entre ambos do seu Shakspeare lhes havia de
compensar tudo isso? Ficariam a vegetar aqui em Mordassov at que elle
morresse, o que no tardaria, alis. Mas se est na tua mo o
incutir-lhe gosto pelo trabalho e pela virtude!

Perdoa-lhe e adorar-te-ha. O remorso d'aquelle seu acto vergonhoso
apavra-o! O teu perdo tudo ir pagar e reconcilil-o-ha comsigo
mesmo.

Passa ao servio activo, sobe postos, e se morrer, sequer ao menos
morrer feliz, nos teus braos (visto que poders achar-te a seu lado),
seguro do teu amor, do teu perdo,  sombra das murtas e dos limoeiros,
debaixo da cupula azul de um ceu exotico. Ah! Zina! Tudo isto se acha
nas tuas mos; basta que consintas em casar com o principe.

Cala-se Maria Alexandrovna. Segue-se prolongado silencio. A Zina acha-se
no auge da afflico.

No nos abalanaremos a descrever os seus sentimentos: no os
conhecemos. Mas, a julgar pelas apparencias, Maria Alexandrovna
encontrou o verdadeiro caminho para o corao da filha. No ha duvida de
que a excellente me andou um tanto s apalpadlas, at que por fim
conseguiu pr o dedo na ferida, principiou por maguar sem precauo os
pontos mais sensiveis das feridas ainda abertas, a despeito de um
desenvolvimento por ahi alm de sentimentos.

Agora, comtudo, logrou introduzir na mente da Zina o pensamento que a si
lhe convinha: produzindo-se o effeito, alcanou-se o fim desejado. A
Zina escuta com soffreguido, com as faces afogueadas, o seio a arfar.

--Ora escute, mam,... diz por fim, resoluta, comquanto a subita
pallidez manifeste claramente quanto lhe custa semelhante resoluo.

--Escute, mam...

N'este ensejo, comtudo, resa no vestibulo um ruido: uma voz aguda a
chamar por Maria Alexandrovna.

Maria Alexandrovna levanta-se com vivacidade.

--Ah! meu Deus! demonios levem aquella pga!  a coronela! E eu que
quasi que a despedi, ha quinze dias! accrescenta, desesperada...

Mas  impossivel recebl-a agora! De todo impossivel! E comtudo isso...
quem me diz que me no vir trazer noticias... alis, nunca se
atreveria.  caso srio, Zina, -me indispensavel sabl-o, nada se pde
desprezar...

--Como lhe fico grata por esta sua visita... quanto estimo!... exclama
correndo ao encontro da coronela. A que feliz acaso serei eu devedora de
se ter lembrado de mim, minha preciosa Sofia Petrovna? Encantadora
surpreza!

A Zina deitou a fugir.




VI


A coronela Sofia Petrovna Farpukhina apenas suggere moralmente o tipo da
pga. Quanto ao phisico, participa antes do pardal.  uma mulherita
cincoentona com sardas entre ruivas e amareladas pela cara e uns olhos
que nunca param. O corpo tico, implantado sobre umas slidas pernas de
pardal, esconde-se por debaixo das amplas pregas d'um vestido escuro, de
seda, em continuo restralar, visto como a coronela nunca pde estar
quita.  uma linguareira ruim e vingativa, perde o tino com a seguinte
ideia: "Sou coronela." Ella e o marido, coronel reformado, jogavam a
unhada a toda a hora: elle ostentava no rosto os signaes das garras da
consorte. Ella, prga no bucho com quatro copinhos de vodka, todas as
manhs, e outros tantos ao deitar. Vota um odio figadal a Anna
Nikolaievna Antipova e  Natalia Dmitrievna Padknvina, que a sacudiram
das suas salas, ha oito dias.

--Demoro-me apenas um instantinho, meu anjo, pia a dama; nem
sequer me quero sentar. Traz-me aqui unicamente o desejo de lhe
contar os singularissimos acontecimentos que se esto dando. O tal
principe faz andar n'uma roda viva esta nossa Mordassov. Os nossos
espertalhes--comprehende--no lhe largam o rastro, a farejl-o por
todos os cantos, a puxl-o para todos os lados, obrigam-n'o a beber
champanhe. Eu se o no visse no o acreditava. Como  que o deixou sar?
No sei se sabe que, n'este instante, est em casa da Natalia
Dmitrievna?

--Em casa de Natalia Dmitrievna? exclama Maria Alexandrovna dando um
pulo na cadeira. Mas se elle ia apenas fazer a sua visita ao governador
e a casa de Anna Nikolaievna, e sem teno de se demorar.

--Para se no demorar, isso sim! E agora, corra atrs d'elle!

No encontrou em casa o governador, foi visitar a Anna Nikolaievna, e
prometteu-lhe jantar com ella, e a Natachka[5], bem sabe, que nunca se
de casa, l estava pespegada; carregou com elle para almoar. E ahi tem
o seu principe!

--Que me diz! E o Mozgliakov a prometter-me...

--Pois sim! O tal seu Mozgliakov a quem a senhora no se farta de pr
nas nuvens!... Est em casa delles! Olho n'elle! Veja l se o obrigam a
jogar as cartas e principia para ahi a perder como succedeu o anno
passado. E o principe  capaz de se deixar limpar que nem um prato. E
que calumnias que ella inventa, aquella Natachka! A atordoar os ouvidos
a toda a gente com a galga de como a senhora faz a crte ao principe com
o sentido em... com um certo sentido, no sei se m'entende? E
pespega-lh'o a elle na cara, at; e elle sem perceber patavina, sentado
para ali como um gato encharcado e a responder, a cada palavra: "Ah!
Est claro, est claro!" E sabidas as contas  ella a propria que...
Mandou sar a Sonka[6]. Ora imagine! Com quinze annos e anda ainda de
vestido curto que mal lhe chega ao joelho; tambem mandou vir aquella
orf, a Machka,[7] com um vestido ainda mais curto. Impingiram a ambas
uns casqutesinhos encarnados cheios de plumas, no sei para qu, e ao
som do piano pem-se a dansar, aquelles dois espinafres, deante do
principe, a Kozatchok.[8] Ora a minha amiga est farta de conhecer o
fraco ao principe! A babar-se todo: "Que... e... f... rmas!" diz elle
"... Que... e... f... ... rmas!" E a mirl-as pelo monculo, e ellas com
uns mdinhos, as duas peras! Todas afogueadas  fora de levantarem a
perna! E toda a gente a rir, faa ideia como e porqu!... Que nojo! E
chamam quillo dansar! Aqui estou eu que dansei de chale, quando sa do
collegio aristocratico de Madame Jarm: fiz sensao, acredite... pela
nobreza!

Fartaram-se at de dar palmas uns senadores. Estavam a educar nesse
mesmo collegio filhas de principes e de condes.--Mas a tal Kozatchok,
aqui para ns,  tal qual o Cancan! E eu com a cara a arder, de
envergonhada! No me pude conter...

--Mas, ento... tambem estava em casa da Natalia Dmitrievna? A senhora?
Cuidei que...

--Ento que quer! Ella offendeu-me, a semana passada, e no me ensaiei
para o pespegar a toda a gente. Mas que quer, minha amiguinha, se eu
estava morta por ver o principe, ainda que fosse por uma greta da porta,
e ahi tem por que  que l fui, apezar de tudo, a casa da Natalia
Dmitrievna; a no ser o principe, no era eu que l tornava a pr os
ps! Ora imagine; servem chocolate a toda a gente, e a mim, nem raa,
nem sequer abrem a bocca para me pedir desculpa! Ha de ter noticias
minhas! Mas adeus, meu anjo, vou-me embora, estou com muita pressa...
-me indispensavel encontrar em casa a Apulina Panfilovna para lhe
contar o caso. Ah! Pode-se desde j considerar viuva da lindeza do tal
principe, no  elle que volta para sua casa. Est perdido da memoria,
bem sabe, e a Anna Nikolaievna ter cuidado em o no deixar sar.

Esto com medo de que a minha amiga... todas ellas... no sei se
percebe? a proposito da Zina...

--Que horror!

-- como lhe digo; j corre at por essa cidade. A Anna Nikolaievna no
o deixa sar sem jantar e depois no o larga. Os planos d'ella so todos
elles armados contra a senhora, meu anjo! Fui deitando o olho para o
pateo: que rebolio! Prepararam um jantar com trinta entradas, mandaram
vir champanhe. Quer um conselho? Veja se trata de lhe deitar a mo antes
de que elle v a casa d'ella. No, que elle, pertence-lhe,  seu
hospede! No se deixe engazupar por aquella espertalhona, por aquella
ranhosa! No vale a sola de um sapato, l com ser mulher de um
procurador. E eu, aqui onde me v, sou coronela, fui educada no collegio
aristocratico de Madame Jarm... Forte nojo! Adeus, meu anjinho, tenho o
tren  espera, se no fosse isso, fazia-lhe companhia.

E abalou a gazeta viva.

Maria Alexandrovna, desesperada, toda ella n'um tremor. No padece
duvida que o conselho da coronela  seguro e pratico; no ha tempo para
perder, mas subsiste ainda a grande difficuldade.

Maria Alexandrovna investe para o quarto da Zina. A Zina andava s
voltas pela casa, de mos no peito, muito enfiada, cabisbaixa, no auge
da afflico. Borbotavam-lhe nos olhos as lagrimas. Fulge-lhe porm no
semblante uma expresso de deciso, assim que pe os olhos na me.
Engole as lagrimas e refega-lhe os labios um risinho sarcastico.

--Mam, diz ella, antecipando-se a Maria Alexandrovna, desperdiou
thesouros de eloquencia em minha honra, de mais, at, visto que me no
conseguiu cegar a vista, e eu no ser nenhuma creana. Querer
persuadir-me de que, eu, casando com o principe, ia praticar um acto de
irm de caridade,--profisso para que no sinto a minima
vocao,--justificar mediante um nobre fim baixezas egoistas, tudo isso
representa apenas o mais grosseiro egoismo, entendeu?

--Porm, meu anjo...

--Cale-se, mam, tenha paciencia, e oia-me at ao fim. Saiba, pois, que
tenho a consciencia da sua hypocrisia. Estou pois plenamente convencida
de que o verdadeiro fim de tudo isto  vil; e comtudo, acceito a sua
proposta, completamente, mas _completamente_, entendeu? Estou prompta a
casar com o tal principe, prompta a ajudar os seus esforos no sentido
de o convencer a casar commigo. O motivo d'esta minha resoluo, no 
da conta da mam, baste-lhe saber que me prontifico a tudo: ajudl-o-hei
a enfiar as botas, serei sua creada, hei de dansar para que elle se no
arrependa de ter casado commigo. Mas, em troca, peo-lhe que me diga, o
modo por que pretende alcanar semelhante resultado. No ponho em
duvida, visto que se empenha n'este negocio, o facto da mam ter j
urdido o seu plano. Transmita-m'o, seja franca uma vez na sua vida, eis
as minhas condies.

Maria Alexandrovna ficou to embatucada, que emudeceu sem bulir com um
dedo, com os olhos espipados. Contara com a lucta contra as ideias
romanescas da filha, e ficou estupefacta ao vl-a decidida a agir contra
as proprias convices. O negocio toma verdadeira consistencia. Maria
Alexandrovna, l por dentro, no cabe em si de contente.

--Zinotchka! exclama enthusiasmada, s a carne da minha carne e o osso
dos meus ssos!

Nem uma palavra mais pode accrescentar, lana-se nos braos da filha.

--Ah! meu Deus! Dispense-me dos seus abraos, mam! respondeu, enfadada,
a Zina.  absolutamente deslocado esse seu enthusiasmo. Exijo uma
resposta  minha pergunta, e nada mais!

--Mas, Zina, eu amo-te, adoro-te, e tu a repelires-me!  para te ver
feliz que eu ando a trabalhar. E, dos olhos de Maria Alexandrovna
borbotavam lagrimas _sincras_. Effectivamente, ama a seu modo a Zina, e
d'ahi, a commoo do triumpho torna-a to sentimental como qualquer
_baba_,[9] quelle general de saias. A Zina sente bem, a despeito de
tudo, que a me  sua amiga; mas psa-lhe semelhante amor,
preferir-lhe-hia o odio.

--Pois bem! No se zangue, mam; sei muito bem o que vou fazer, se eu
estou to afflicta!... disse para tranquillizl-a.

--Eu no me zango, no me zango, meu anjinho, cacarja Maria
Alexandrovna recuperando animo. No deixo de avaliar a tua agitao. Mas
no vs tu, querida amiguinha... tu pediste-me franqueza... Seja assim,
serei franca, mas acredita-me. L quanto a um plano inteiramente
definido,  coisa que ainda no tenho, nem o posso ter: tudo depende das
circumstancias. Antevejo at algumas difficuldades.

... Se aquella pga, aindagora, esteve-me para ahi a grasnar um
chorrilho de pessimas noticias. (Ah! meu Deus! no tenho tempo para
perder!) Serei pois franca: juro-te que hei de conseguir o meu fim. No
vs acreditar n'uma miragem qualquer, n'uma illuso; o meu plano assenta
todo elle na toleima do principe, e representa isso uma talagara em que
se pode bordar tudo que se quiser. O mais importante  que nos deixem
operar. E demais, essas fufias nada podem contra mim! exclama Maria
Alexandrovna assentando um murro na msa. Tem confiana, mas cumpre
operar depressa! Hoje ainda faamos o principal, se for possivel.

--Est bem, mam; escute ainda... uma franqueza. Sabe o motivo porque
tanto me interessa esse seu plano?  porque no estou segura de mim
propria. Disse-lhe que me achava decidida a praticar semelhante baixeza.
Mas se os pormenores d'esse seu plano forem repugnantes em demasia,
desde j lhe declaro que me verei obrigada a desistir. Sei que ser mais
uma baixeza, o resignar-me a entrar no lodaal e no ter animo de l
ficar. Mas que se lhe ha de fazer? Se no pode deixar de ser assim!

--Mas, Zina, meu anjo, onde  que tu vs n'isto baixeza? replica,
timida, Maria Alexandrovna. Trata-se de um bom casamento, de uma coisa
normal; encara as coisas d'este ponto de vista e vers que te ha de
parecer muitissimo razoavel.

--Ah! mam, pelo amor de Deus, nada de dissimulaes para commigo! Estou
prompta para tudo, bem v; que mais quer? No se escandalize, peo-lh'o
eu, por eu dar s coisas o nome que lhes compete: ser, talvez,
actualmente, essa a minha unica consolao.

E sorriu com tristeza.

--Ora vamos! Vamos! Est bom, meu anjinho; pode haver estima reciproca sem
identidade de convices. Quanto ao meu plano, tem a certeza em como te
no ir salpicar de lama, isso te juro eu! Querers talvez
comprometter-me? Tudo ha de correr bem, com muita dignidade, at. No ha
de haver escandalo. E ainda quando o houvesse, n'esse caso, d'este ou
d'aquelle modo... j ns estariamos d'aqui muito longe... diziamos adeus
a Mordassov. E depois, essas gralhas que piassem para ahi at rebentar,
j nos no fazia mossa. Merecem que faamos caso d'ellas, porventura? E
como  que tu, Zina, to soberba, podes arrecear-te de semelhante gente?

--Ah! mam, a mim no me mettem medo, acredite! No me entende!
respondeu a Zina, irritadissima.

--Est bom, est bom, minha joia, no te zangues! Onde eu queria chegar
era a que essa gentalha praticam vilanias a cada instante, e que tu...
por uma s vez... Mas, que digo eu... sempre sou muita tola! Trata-se
at de uma nobre aco! Depende tudo do ponto de vista...

--Basta, mam, basta! exclama a Zina.

E bate o p.

Deixa l! meu anjo, no torno mais!

Silencio. Maria Alexandrovna fica a olhar pelas costas para a Zina, que
seguiu por a casa fora com uma expresso de cachorro a olhar para a
chibata.

--Nem sequer chego a perceber como  que tenciona dar-lhe volta,
prosegue com enfado a Zina. Tenho a certeza de que o resultado que
tirar ser uma affronta. Pela parte que me toca, tanto se me d, mas
vae ter desgosto, creia.

--Ora! Se  s isso que te d cuidado, vae descanada, meu anjo!

Comtanto que estejamos de accordo, quanto ao mais, pouco importa! Se tu
soubesses os transes de que eu tenho escapado, s e a salvo! Em summa,
permitte-me fazer uma tentativa.  urgente que eu tenha quanto antes uma
conferencia com o principe. J estou adivinhando o que d'aqui sair. De
quem eu tenho medo  do tal Mozgliakov.

--Do Mozgliakov? perguntou a Zina com desdem.

--Do Mozgliakov, sim, pois que cuidas? Mas no te assustes, ainda assim,
Zina, hei-de induzil-o a auxiliar-me, at. Nem tu sabes ainda quem aqui
est, Zina! Ah! to certa tenha eu a salvao, mas assim que ouvi falar
no principe, accudiu-me logo semelhante ideia! Foi uma revelao. Quem
havia de dizer que elle havia de vir parar a nossa casa! Bem podiamos
estar cem annos  espera d'uma occasio d'estas! Ah! s to linda, minha
Zina! Que belleza! Olha, eu, se fosse homem, atirar-te-hia aos ps um
reino! Sucia de asnos! Quem no ha de estar morrendo por beijar esta
mozinha? (Maria Alexandrovna, effusiva, beija a mo da filha.)  a
carne da minha carne!...  preciso casl-o d por onde der, quelle
imbecil! E que bem viveriamos depois, Zina! Pois nunca nos havemos de
apartar, no  verdade? No pes na rua tua me, quando te vires feliz?
Tivemos os nossos desaguizados, mas aonde irs tu encontrar outra amiga
como eu? Eu, apezar de tudo...

--Mam, se est resolvida,  tempo de fazer alguma coisa. Est perdendo
minutos preciosos! disse a Zina, com impaciencia.

--E j vae apertando. Vae, sim, effectivamente. E eu aqui a dar 
lingua! Querem aambarcar o principe! Vou j a correr.  j; mando
chamar o Mozgliakov e carrgo com o principe,  fora, se fr preciso.
Adeus, Zinotchka! Adeus, meu amor, minha pomba! No te desconsoles, no
desanimes, no estejas triste. Ento!... Tudo ha de correr com
dignidade, com muita, at. Tudo est no modo de encarar as coisas.
Emfim! adeus, adeus!

Maria Alexandrovna faz o signal da cruz  Zina e sae. Investe para o
quarto, detem-se um momento em frente do espelho e, d'alli a dez
minutos, l vae rodando por essas ruas de Mordassov, na carruagem de
patins (j dissemos que Maria Alexandrovna vivia  larga.)

--No, no so vocs que podem luctar de esperteza commigo! A Zina
annue, e j  meio caminho andado! No ser bem succedida! Que asneira!
Ah! Zina, com que ento, ha calculos que influem no teu animo? Commovi-a
fazendo-lhe luzir deante dos olhos um risonho porvir... Como ella estava
linda, hoje! Ora, tivera eu sido to formosa, e haveria revolvido, at,
meia Europa. Em summa, paciencia, esperemos. O tal Shakspeare ha-de-lhe
passar assim que ella se vir princsa... E que princsa no ha de
ser!... Gosto de a ver assim; to soberba, to senhora de si!... Tem uns
olhos de rainha!... Como  que ella poderia deixar de conhecer que ia
n'isso o seu interesse?--At que emfim percebeu-o! Ficarei vivendo em
sua companhia, e ha de consentir em tudo que eu quiser.  princsa? pois
tambem eu! Ho-de falar de mim, em Petersburgo, at... E adeus...
cidadezinha da asneira! O principe e o garoto ho-de ir marchando d'esta
para melhor, e eu, caso-a com uma testa coroada! Ha s uma coisa que me
mette medo: no terei usado para com ella excesso de franqueza?
Assusta-me! Assusta-me deveras!

E engolfa-se em suas cogitaes Maria Alexandrovna.

Assim que se viu entre quatro paredes, a Zina poz-se s voltas no
quarto, de mos atrz das costas, a pensar. E no lhe faltava em qu,
com certeza! E a revezes e quasi inconscia repetia: " urgente, 
urgente, ha j muito tempo que devia estar feito!" Que quereria dizer
aquella exclamao? Por mais de uma vez as lagrimas lhe refulgiram
n'aquellas pestanas to longas e sededas. Nem pensava, sequer, em as
enxugar. A me fazia mal em estar-se inquietando! A Zina achava-se
disposta para tudo...

"Eu te direi, deixa estar! pensou a Nastassia Petrovna ao sar do seu
cadoz da farrapada depois de se haver retirado a coronela. E eu com
tenes de pr uma gravata cr de rosa por causa do tal principe! Sempre
sou bem tola! A enfeitar-me para casar com elle! Ora, uma gravata
depressa se pe! Deixa tu estar, minha Maria Alexandrovna! Com que
ento, eu, sou uma pcora, uma miseravel? Acceito duzentos rublos para
arrombar uma bocta! Pois j se v, no deixar escapar a occasio!... E
demais... eu se o fiz foi por ser generosa, pois ainda tive que fazer
despsa... Eu te direi! Hei-de-lhes fazer ver a ambas se sou uma pcora
ou se o no sou! Ho de aprender a lidar com a Nastassia Petrovna!"




VII


Maria Alexandrovna, comtudo, deixava-se arrastar pelo proprio talento.
Concebeu um plano grandioso quanto audaz. Casar a filha com um ricao,
com um principe e um moribundo; casl-a sem que ninguem o soubesse,
aproveitando a senilidade do seu hospede, era no s ousadia, mas
imprudencia, at. No havia duvida, o projecto era seductor, porm, em
caso de malogro, poderia vir a reverter para o autor n'uma confuso sem
antecedentes. Maria Alexandrovna bem o sabia, mas no era mulher para
recuar.

--Tenho-me visto em peores lances, dissera ella  Zina, e era verdade. E
seria uma heroina, se assim no fra?

Certamente, o projecto tinha seus visos de bandoleirismo  mo armada;
Maria Alexandrovna no era, porm, mulher para se prender com taes
ninharias. Resumia o caso n'um dito muito acertado: "uma pessoa no fica
para sempre casada." Era simplicissima semelhante ideia, mas apresentava
 imaginao tamanhas vantagens, que Maria Alexandrovna era a propria a
assustar-se.

Como mulher de recursos, dotada de legitima faculdade creadora, urdiu o
seu plano n'um revez de mo.  certo que apenas se lhe pintiparava na
mente a largos traos, um tanto vagos, at. Escasseavam pormenores e
havia que contar com circumstancias imprevistas. Maria Alexandrovna
tinha porm confiana em si mesmo. No era o malogro que lhe mettia
medo, l isso, no; o que a sobresaltava, era a impaciencia em encetar a
lucta. A impaciencia, a nobre impaciencia minava-a, ao pensar nos
possiveis obstaculos.

As mais srias difficuldades, antecipava-as Maria Alexandrovna por parte
dos seus nobres concidados de Mordassov, e acima de tudo, da nobre
sociedade das damas Mordassovenses: Conhecia, por experiencia propria,
at onde ia o odio de semelhante gente. Nem sequer punha em duvida, j
se v, que n'aquelle ensejo toda a gente lhe avaliava as intenes,
supposto que ninguem houvesse dito ainda uma palavra fosse a quem fosse.
Sabia,  fora de triste experiencia, que no havia um unico
acontecimento, por mais secreto que fosse, referente  sua vida, que,
dando-se pela manh, no andasse  noite na lingua de todas as
mexeriqueiras. Maria Alexandrovna, pois, antevia apenas o perigo, esta
casta de presentimentos, porm, que jamais a haviam enganado, no a
enganariam ainda d'esta vez.

Eis, effectivamente, o que succedera, e de que ella ainda no tinha
conhecimento. Pela volta do meio dia, isto , tres horas, minuto por
minuto, depois de haver chegado o principe a Mordassov, corriam pela
cidade uns boatos algo singulares. Qual teria sido o ponto de partida?
Ninguem o sabia, mas caso  que se espalharam acto continuo.

Afianava toda a gente que Maria Alexandrovna j tinha promettido a mo
da filha, da sua Zina, com vinte e tres annos e sem um kopek de dote, ao
principe: que o Mozgliakov tinha sido posto a andar e que estava tudo
resolvido e assignado.

Qual era a causa de semelhantes boatos? To bem conheciam Maria
Alexandrovna que lhe tivessem adivinhado, com to perfeita unidade, os
mais intimos pensamentos? Nem a inverosemelhana de um tal boato, visto
como um projecto d'aquelle genero se no leva a effeito no espao de uma
hora, nem a falta evidente de todo e qualquer fundamento, pois ninguem
sabia d'onde partira a noticia, puderam dissuadir os Mordassovenses. O
mais surprehendente, era o haver-se principiado a espalhar o boato no
proprio ensejo em que Maria Alexandrovna encetava aquella sua conversa
com a Zina a semelhante respeito. Tal  o faro dos provincianos! O
instincto dos novelleiros das cidadcas attinge por vezes as raias do
maravilhoso. E todavia, o caso explica-se. Baseia-se no estudo intimo e
perseverante do proximo. Todo o provinciano vive debaixo de uma redoma
de vidro, como se dissssemos. -lhe absolutamente impossivel esconder
seja o que fr aos seus honrados concidados. Sabem a seu respeito
aquillo que elle  o proprio a ignorar. O provinciano, de sua natureza,
devia de ser um psicologo profundissimo. E eis o motivo porque eu s
vezes pasmava sincramente d'encontrar na provincia to poucos
psiclogos e tanto imbecil! Mas ponhamos isso de banda.

Estoirou a noticia tal qual o raio. O casamento com o principe
antolhava-se to vantajoso a toda a gente, to brilhante, que a face
extranha d'aquelle negocio a todos escapou. Dava-se ainda uma
circumstancia: A Zina era to odiada ou mais ainda que a propria Maria
Alexandrovna; e por qu? Ninguem o sabia. Entraria talvez em linha de
conta a formosura da Zina, talvez pelo facto de Maria Alexandrovna,
apezar de todos os pezares, ser, muito mais do que a filha, da mesma
massa das outras Mordassovenses. Ausentasse-se ella da cidade, e quem
sabe,  possivel que deixasse saudades. Dava animao  sociedade
mediante incidentes variados. Sem ella aborrecer-se-hiam. Por outro
lado, a Zina, pela sua attitude, parecia pairar nas nuvens e no em
Mordassov. No era da mesma raa, e talvez, inconsciamente, at, tivesse
uns modos demasiado altivos. E eis que esta mesma Zina, cerca de quem
corria tanta historia escandalosa, aquella soberbona, apparecia
millionaria, princsa e entrava no rol da aristocracia. Dentro de um ou
dois annos, talvez, vem a enviuvar e casa para ahi com algum duque, ou
algum general, e quem sabe, com o governador, e coincide exactamente o
estar viuvo e o ser grande admirador da formosura o governador de
Mordassov. Desde ento vir a ser a primeira senhora da provincia, e um
tal pensamento, s por si, era intoleravel, nem haveria noticia capaz de
provocar tanta indignao em Mordassov.

Estrugiam por todos os lados clamores de raiva. Diziam que era indigno;
que o jarreta no tinha o juizo todo; que o tinham enganado, embado;
que urgia livrl-o da soffreguido d'aquellas garras; que, apuradas as
contas, era immoral,--uma ladroeira! Que no faltavam meninas valendo
tanto como a Zina e em condies de casar com o principe.

Todas estas exclamaes e estas linguarices eram apenas supposies da
parte de Maria Alexandrovna, e j era demais. Estava farta de saber que
toda a gente se achava prompta a praticar o possivel e o impossivel,
at, para se oppr a seus projectos. Pois no haviam confiscado o
principe e no tinha agora que o reconquistar a unhas e dentes? E d'ahi,
dado ainda o caso de que ella lograsse tornl-o a agarrar e trazl-o
outra vez para sua casa, no poder comtudo tl-o preso a toda a hora.
Em summa, quem  que lhe podia affianar que hoje, ainda, dentro em duas
horas, o cro solemne em peso das damas de Mordassov se no ter
congregado na sua sala, e a pretexto de ordem tal que se torne
impossivel recebl-as? Se ella lhes fechar a porta, entram-lhe pela
janella. Em concluso, no se podia perder um instante, e todavia, nada
estava feito ainda.

De subito, eis que brota na mente de Maria Alexandrovna, e amadurece do
mesmo jacto, uma ideia genial. Referir-nos-hemos  dita ideia em logar
competente: n'este ensejo, a nossa heroina l ia rodando a toda a pressa
atravs das ruas de Mordassov, tremenda e inspirada, decidida a dar
batalha para reconquistar o principe. Nem sequer sabia o alvitre que
esposaria nem onde o iria encontrar; mas sabia com certeza que mais
depressa devia afundar-se Mordassov do que falhar-lhe um unico de seus
projectos.

Do seu primeiro passo no podia sar-se melhor. Encontrou o principe na
rua e carregou com elle para jantar.

Se me perguntarem o modo porqu, cercada por tantas ciladas armadas
contra si, conseguiu pr o nariz a uma banda  Anna Nikolaievna, declaro
que considero esta pergunta offensiva para Maria Alexandrovna. Deteve o
principe no acto d'este estar  porta da casa da sua rival, e a despeito
de tudo, a despeito at das objeces do proprio Mozgliakov, receoso de
um escandalo, atirou com o ginjinha para dentro do trem. Era n'isto
exactamente que Maria Alexandrovna levava as lampas s suas rivaes. Nos
lances decisivos, no se detinha em presena de um escandalo, tendo como
axioma que o exito a tudo justifica. Escusado ser dizer que o principe
no oppz resistencia de maior, e como sempre esqueceu-se de tudo e
ficou muito contente da sua vida.

Ao jantar, no fez seno dar  lingua, muito alegre, a fazer
trocadilhos, a contar anecdtas que nunca concluia e passando de uma
para outra sem dar por isso. Tinha bebido tres copos de champanhe em
casa de Natalia Dmitrievna. Ao jantar, bebeu mais alguns e ficou
alegrinho. Maria Alexandrovna era a propria a lhe no deixar nunca o
copo vazio.

Eram irreprehensiveis as iguarias, aquelle ladro do Nitichka
esquecera-se de as chamuscar. A dona da casa desvelava-se em electrizar
os seus hospedes com os enlevos da sua amabilidade. A Zina, comtudo,
mantinha glido silencio, e o Mozgliakov nem por isso estava nos seus
dias. Comia pouco, estava muito preoccupado, a pensar; e, coisa que
raras vezes lhe succedia, Maria Alexandrovna estava inquieta. A Nastassia
Petrovna, mazomba, fazia s escondidas signaes ao Mozgliakov e este sem
dar por tal. A no serem Maria Alexandrovna e o principe, haveria
descambado em jantar de enterro.

E comtudo, Maria Alexandrovna encobre intima afflico: assusta-a a
Zina, com aquelles seus modos tristonhos, de olhos vermelhos. E demais,
o tempo no sobeja, e Mozgliakov, esse obstaculo material, est para
alli como um marco de pedra. Ergue-se da msa Maria Alexandrovna, minada
por funda inquietao. Mas qual no  o seu espanto, deixem-me assim
dizer, quando vem ter com ella o Mozgliakov e lhe declara, que sente
muito, mas que se vae retirar immediatamente!

--Aonde  que vae, ento? indaga ella, com simpatia.

--Eu lhe digo, Maria Alexandrovna, enceta o Mozgliakov atrapalhado,
aconteceu-me um caso um tanto esquisito... Nem sei at como lh'o diga...
Mas, pelo amor de Deus, d-me um conselho.

--Que , diga l?

--Meu padrinho, o Borodoniev... conhece, aquelle commerciante...
encontrei-o hoje... est irritadissimo, dirigiu-me exprobaes, diz que
sou um soberbo. Com esta  a terceira vez que venho a Mordassov sem ir
para sua casa. "Vem hoje, me disse elle, tomar uma chavena de ch
commigo". So quatro horas em ponto, e elle toma o ch,  antiga, ahi
pelas cinco horas, depois da ssta. Que quer que lhe eu faa... Eu
avalio, Maria Alexandrovna... Mas colloque-se no meu logar! Foi elle que
teve mo em meu pae que se queria enforcar, quando perdeu aquelle
dinheiro do Estado!... Foi n'essa occasio, por signal, que elle
insistiu em ser meu padrinho. Se fr a effeito o meu casamento com Zina
Aphanassievna, bem sabe que disponho apenas de cento e cincoenta almas,
ao passo que elle  millionario, e mais que isso, at, segundo affirmam.
No tem filhos. Se eu estiver a bem com elle, pode deixar-me cem mil
rublos. Ora elle est com setenta annos, lembre-se d'isto!

--Ah! meu Deus! Mas ento que  que o prende? Por que est para ahi a
marralhar? exclama Maria Alexandrovna, disfarando a custo o
contentamento. V-se embora, v! Com essas coisas no se brinca! E era
por isso ento que estava to absorto durante o jantar? V, meu amigo,
no se demore! Mas devia de ter ido vl-o esta manh para lhe provar que
aprecia a sua benevolencia. Ai! esta mocidade!

--Mas, se Maria Alexandrovna tem sido a propria a arguir-me de
semelhantes relaes! Tudo era dizer-me que era um mujik, parente de
taberneiros e agentes de negocio!

--Ah! meu amigo, quanta coisa se diz sem pensar! Tambem sou sujeita a
enganar-me.--No me tenho na conta de infallivel. E d'ahi... no me
recordo... mas...  possivel que eu me achasse numa tal disposio de
espirito... em summa, o senhor no tinha ainda formulado o seu pedido.
Certamente, que houve da minha parte egoismo maternal, mas agora devo
encarar as coisas de um ponto de vista novo. Qual seria a me que m'o
levasse a mal? V e no perca um instante. Passe a noite com elle... e
oia l! Fale-lhe a meu respeito, diga-lhe que o tenho em muita conta,
que sou muito sua amiga... Proceda com habilidade. Ah! meu Deus!
Tinha-se-me varrido de todo. E era eu que lh'o devia ter lembrado.

--Resuscitou-me, Maria Alexandrovna! exclama Mozgliakov encantado. E
agora obedecer-lhe-hei em tudo e por tudo. E eu sem me atrever a
falar-lhe n'isso! Pois bem, adeus! vou-me embora. Desculpe-me para com a
Zinaida Aphanassievna. E d'ahi, hei de voltar.

--Receba a minha beno, meu amigo. E no se esquea de falar a meu
respeito. Effectivamente,  um velho estimabilissimo. Ha muito tempo que
mudei de opinio a seu respeito. E demais, eu sempre o estimei na
qualidade de Russo dos bons tempos, to despido de artificios. At mais
ver, meu amigo, at mais ver!

"Foi uma fortuna carregar com elle o demonio! Que estou dizendo, foi o
proprio Deus que veiu em meu auxilio."

Pavel Alexandrovitch estava j no vestibulo a enfiar a _chuba_, eis que
rompe por alli dentro, sada no se sabe d'onde, a Nastassia Petrovna.

--Aonde vae? diz, agarrando-o pela mo.

--A casa do Borodoniev, Nastassia Petrovna, a casa do meu padrinho.
Coube-lhe a honra de me baptizar. Um velho rico, um padrinho de quem se
herda, um homem que se deve amimar.

--A casa do Borodoniev! Pois diga adeus, desde j,  sua noiva, disse
com sequido Nastassia Petrovna.

--Como assim?

--Assim mesmo. Suppe que a tem segura? Isso sim! Vae, mas  casar com o
principe.

--Com o principe. Que me diz, Nastassia Petrovna?!

--Que me diz, qu?--Quer ver com os proprios olhos e ouvir com os
proprios ouvidos? Pendure para ahi a _chuba_, e venha commigo.

Pavel Alexandrovitch, aturdido, atira para o lado a _chuba_ e deixa-se
levar para o quarto escuro, cuja porta d para a sala.

--Mas que quer isto dizer! Nastassia Petrovna, no percebo patavina.

--Perceber assim que ouvir. A comedia no tarda a principiar.

--Qual comdia?

--Chiton! No fale to alto! Qual comdia? E  o senhor que paga as
despsas; andam a enganl-o; esta manh, assim que o senhor sau com o
principe, a Maria Alexandrovna pz-se a apoquentar de dr d'ilharga a
Zina, mais de uma hora, com o sentido em persuadil-a a aceitar para
marido aquelle jarreta d'engonos. Dizia ella que no havia nada mais
facil do que era o enredl-o. Propunha uns taes alvitres que a mim
propria me causavam asco. Ouvi-os d'aqui, a Zina annuiu. E que cama lhe
no fizeram ao senhor, ambas de duas! Tem-n'o na conta de um imbecil, e
a Zina declarou formalmente que no casava com o senhor por coisa
nenhuma d'este mundo. E eu, to tola, que j me estava at enfeitando
para pr ao pescoo uma gravata cr de rosa!

Mas escute! escute!

--Se assim ,...  uma infamia! murmurou Pavel Alexandrovitch,
esparvoado, fitando olho a olho a Nastassia Petrovna...

--Mas escute! Vae ouvir o bom e o bonito!...

--Escutar onde?

--Debruce-se se ali n'aquella frincha da porta.

--Mas... Nastassia Petrovna, eu sou l homem que me ponha a escutar s
portas?!

--Emprega bem o seu tempo! Aqui, meu paezinho,  preciso metter a honra
na algibeira. Desde que c veiu, escute...

--Comtudo...

--Se no quer, resigne-se a ficar a chuchar no dedo! E a mim que me
importa? Eu com d do senhor, e o senhor com ceremonias! Ser para mim
que eu ando a trabalhar? Eu, por mim, j nem c fico esta noite.

Pavel Alexandrovitch, muito contra sua vontade, encosta o ouvido  fisga
da porta. Referve-lhe o sangue nas arterias. No percebe uma palavra de
quanto em volta de si se est dando.




VIII


--Com que, ento, divertiu-se muito, principe, em casa da Natalia
Dmitrievna? indaga Maria Alexandrovna, deitando olhar soffrego para a
futura prsa.

(Enceta de proposito as hostilidades do modo mais innocente. De
commovida, tem o corao aos pulos.)

Depois de jantar, transferiram o principe para a sala onde este havia
entrado pela manh. O ginjinha, com lastro de seis copos de champanhe,
j no conserva equilibrio. Em compensao, no cessa de badalar. Maria
Alexandrovna percebe que  apenas uma excitao de momento e que o
hospede, d'alli a nada, ferra comsigo a dormir. Cumpre pois aproveitar a
occasio. Nota com jubilo que o voluptuario ginjinha dispara  Zina uns
olhares de gula. Rejubilam os seus maternaes sentimentos.

--Ex-tr--ma-mente! e, no sabe?  uma mulher incom-pa-ra--vel...
aquella Natalia Dmitrievna, uma incompa-ra-vel mulher!

A despeito dos muitos cuidados, aquelles louvores tributados  rival
fazem sangrar o ciume a Maria Alexandrovna.

--Ora vamos, principe! exclama com os olhos a ferir lume, se essa sua
Natalia Dmitrievna  uma mulher incomparavel, tapa-me a boca, mas 
preciso que o principe conhea muito mal esta nossa sociedade! No passa
tudo de um alarde descarado de sentimentos ausentes, comdia, verniz,
oiro ao de cima.

Erga uma pontinha s apparencias, e encontrar um verdadeiro inferno
escondido por baixo das flores, uma ninhada de viboras promptas a
tragl-o.

--De-v-ras! Estou pa-a-asmado!

--Sou eu que lh'o digo! Ah! meu principe! Ora escute,  a Zina!
Assiste-me o dever--e a tanto me vejo obrigada--de contar ao principe
uma aventura ridicula que se deu a semana passada, com aquella Natalia
Dmitrievna--lembras-te?--Sim, principe, com aquella Natalia a quem tanto
admira.

Ah! meu caro principe, affirmo-lhe que no sou mexeriqueira, mas devo
contar-lhe isto unicamente para lhe dar uma amostra viva e irrisoria da
nossa sociedade.

Haver quinze dias veiu visitar-me essa tal Natalia Dmitrievna. Estavam
servindo o caf, e eu tinha que sair. Lembro-me muito exactamente das
pedras de aucar que ficaram no meu aucareiro de prata: estava cheio.
Volto, e que hei de eu ver? Restavam apenas tres pedrinhas. Ora, a
Natalia Dmitrievna tinha ficado ssinha! Que me diz a isto?

Tem casa, dinheiro, tudo que lhe apetece...  comico e pequenino, pois
no acha?--E por aqui j pode avaliar o que  esta nossa sociedade em
Mordassov.

--De-ve-ras?-- uma gulodice... sobre-natural! Mas como  que ella pde
engulir um aucareiro?

--E ahi tem a sua mulher incomparavel, principe; se j se viu uma
vergonha assim? Eu por mim estou que antes queria morrer, do que
resolver-me a praticar um acto to nojento!

--Est c... claro!... est... claro!--Mas ainda assim--sempre lhe digo,
que  uma linda mulher!

--Quem? A Natalia Dmitrievna! Ora vamos, principe, ella o que   uma
pipa. Ah! principe, principe, que est dizendo? Sempre fiz outra opinio
do seu bom gosto!

--Est--c... claro--uma pipa!--Mas ainda assim--sempre lhe digo que 
bem feita; e depois, aquella pequer... rucha que dansava... essa tambem
... bem feita.

--A Snitchka? Ora! Uma pequena! Tem apenas quatorze annos.

--Est... claro!--mas ainda assim,...  to leve... e com umas
formas..., to... geitozinhas!... E a outra que dan... sou com ella?

--Ah! aquella serigaita d'aquella orph, principe?

--Est claro--orph!  porquinha,--devia ao menos ter lavado as
mos,--mas  sedu-u--ctora.

E o principe, emquanto vae falando, no despega, com crescente avidez, o
monculo do semblante da Zina.

--Mas... que... linda... me... nina! tartamuda... meio estarrecido...

--Zina, v se tocas alguma coisa, ou antes... canta. Canta que  uma
delicia, principe; chega a ser uma virtuose, ouso affirml-o, uma
verdadeira virtuose. E se soubesse, principe, prosegue a meia voz Maria
Alexandrovna emquanto Zina se approxima do piano, com aquelle seu andar,
lento e cadenciado, que pe num sobresalto o jarreta, e se soubesse a
que ponto  amoravel, como  carinhosa para commigo! Que corao! Que
sentimentos!

--Est claro! Sentimentos! E se quer que lhe diga... ainda no conheci
seno uma mulher que se lhe possa comparar como formosura, responde o
principe a engulir a saliva,  a condessa Naniskara; que Deus tem. J l
vae ha trinta annos. Que mulher! Que maravilhosa formosura! Casou com o
cozinheiro.

--Com o cozinheiro, principe!?

--Est claro--o cozinheiro, um francez, no estrangeiro.--E arranjou-lhe
l no estrangeiro um titulo de conde. Um homem muito instruido, com uns
bigodinhos.

--E como  que viviam, e onde, principe?

--Est claro--viviam muito bem! E d'ahi, no tardou muito que se no
apartassem.--Elle roubou-a e safou-se. Quer-me parecer que jogaram as
cristas l por causa de um mlho.

--Que queres que eu toque, mam?

--Por que no cantas, antes? Se soubesse como ella canta, principe!
Gosta de musica?

--Est c... laro! Um encanto--um encanto! Gosto immenso de musica!
Co... onheci muito Beethoven, no estrangeiro.

--Beethoven! Ora imagina, filha, o principe conheceu Beethoven! clamou
Maria Alexandrovna, maravilhada. Ah! principe, pois devras, conheceu
Beethoven?

--Est c... laro: Eramos intimos amigos. Tinha o nariz sempre atulhado de
rap... Que sujeitinho to rato!

--Quem, Beethoven?

--Est c... laro,--Beethoven? E no seria talvez Beethoven... mas sim
outro qualquer. Ha muito allemo, por toda a parte... Que eu, afinal,
parece-me que estou equivocado.

--E que hei de eu cantar, mam?

--Ah, Zina! Canta-me aquella romana, no te lembras? Aquella que tem um
accento to cavalheiresco: a castell e o seu trovador--Ah principe, sou
doida pelos assuntos cavalheirescos! Os castllos! aquelle viver
medival! Trovadores, arautos! Festas e torneios!... Vou te fazer o
acompanhamento, Zina... Sente-se aqui, mais perto, principe! Ai! os
castllos, os castllos!

--Est c... laro! os castllos... tambem gosto de cas... tellos, repete o
principe assestando na Zina o olho solitario: Mas... santo Deus! que
romana!... Estou a conhecl-a... Ha que tempos... que tempos que a
ouvi... recorda-me... ah! meu Deus!...

No me incumbo de dizer o que foi que succedeu ao principe, quando a
Zina entrou a cantar. Cantava uma romana francsa, muito antiga e que
estivera em moda, nos seus tempos. A Zina cantou a primor. A voz pura de
contralto ia direita ao corao. O lindo rosto, os magnificos olhos, os
dedos fusiformes a voltarem as folhas, os bastos e negros cabellos, to
lustrsos, o seio afflante, a sua pessoa fra e linda, toda ella,
concorria tudo a enfeitiar o pobre do gbo. No despegou os olhos de
cima d'ella emquanto ella esteve a cantar. Suffocava de commovido.
Aquelle senil corao, esquentado pelo champanhe, pela musica e pelas
reminiscencias, palpitava cada vez com mais fora, e como no havia
palpitado ha tanto tempo! Estava a ponto de chorar quando ella acabou.

--Oh! minha linda menina! exclamava, a beijar-lhe os dedos, estou
encantado!--E s agora  que me lembro... mas... mas... Oh! minha linda
menina!...

O principe nem foi senhor de concluir.

Maria Alexandrovna sentiu haver chegado o momento psicologico.

--Para que anda a dar cabo de si, principe?--encetou com solemnidade.
Quantos sentimentos, quantas foras vitaes, quanta riqueza moral lhe no
resta ainda? E com tudo isso, foi emparedar-se por toda a vida num
carcere! Fugir do mundo! Das amizades!  imperdoavel! Pense bem,
principe! Encare a vida, como se dissessemos, com uns olhos limpidos!
Lembre-se do passado, da sua aurea juventude, dos seus dias sem
cuidados. Resuscite esse passado, resuscite-se a si proprio! Volte a
viver entre a sociedade dos vivos: v at ao estrangeiro...  Italia, 
Hespanha, principe,  Hespanha. Precisava de um guia, de um corao que
lhe tivesse amor, que o estimasse e que lhe fosse simpathico.

Pois bem! O principe tem amigos, appelle para elles e viro em monte. C
estou eu que seria a primeira a dar de mo a tudo, e a deitar a correr
para acudir ao seu chamado! No me esqueo da nossa antiga amizade,
principe! Deixaria, at, meu marido, se estivesse mais nova, e fosse to
formosa como minha filha, fazia-me sua companheira, sua amiga, sua
mulher, at, se o desejasse.

--Estou certo de que, nos seus tempos, deve de ter sido uma mulher
encantadora, disse o principe a assoar-se.

Tinha os olhos arrazados de lagrimas.

--A ns proprios sobrevivemos nos nossos filhos, principe, responde
effusiva Maria Alexandrovna. Tambem eu tenho o meu anjo da guarda, a
amiga dos meus pensamentos, do meu corao, principe! Rejeitou at agora
sete pedidos de casamento, por se no querer apartar de mim.

--E por conseguinte, vae comsigo quando me ac... com... ompanhar ao
estrangeiro? Sendo assim, irei para o estrangeiro... est resolvido...
exclama o animadissimo principe.--Absolutamente!... E se eu pudesse
lison... jear-me com a es... pe... rana... Mas  uma menina po...
rtentosa, portentosa! Ah! minha linda menina!

E o principe volta outra vez a beijar os dedos  Zina. Tentou at
ajoelhar-lhe aos ps, o pobre do homem.

--Ento!... ento, principe, ia dizendo que se pudesse lisonjel-o a
esperana?... agarrou no ar Maria Alexandrovna, sentindo brotar-lhe novo
accesso de eloquencia. Que homem to singular  o principe!... No se
considera ento digno da atteno das mulheres! A formosura no consiste
apenas na mocidade! Lembre-se de que  uma reliquia da aristocracia
russa!  o representante dos mais refinados, dos mais cavalheirescos
sentimentos, e das mais requintadas maneiras! E a Maria no amou o
Mazeppa[10] porventura? Li algures que Lauzun, um marquz seductor da
crte de Luis... no sei quantos... j velho, conquistou uma das mais
supinas beldades do seu tempo!... E demais, quem foi que lhe metteu em
cabea que j era velho? Quem se atreveu a afirml-o? Homens como o
senhor envelhecero jmais, porventura? O principe, to opulentamente
dotado de sentimento, de alegria, de espirito, de fora vital, de to
delicadas maneiras! Fosse o principe para ahi a qualquer estao balnear
com uma mulher joven, com uma beldade como a Zina, para no irmos mais
longe,--e eu lhe diria que effeito colossal no havia de produzir, o
senhor, reliquia da nossa aristocracia; ella, uma belleza de rainha!
Ella, com aquelle seu pisar majestatico, de brao dado com o principe, a
cantar n'uma sociedade aristocratica; o principe, pela sua parte, a
fuzilar ditos de espirito! Era caso para acudirem os banhistas em pso a
fazer-lhe crte! Dava brado por toda essa Europa! Pois teria a seu favor
os jornaes, todos elles folhetins, e surgia um grito unanime: "Principe!
Principe!"

E o senhor a dizer: "Pudesse eu lisonjear-me com a esperana?"

--Os jornaes... est claro, est claro!... Os folhetins... balbucia o
principe, que no percebeu nem metade do aranzel de Maria Alexandrovna e
cada vez est mais lamecha... Mas... minha rica menina... se se no
sen... te fa... tigada, repita outra vez aquella romana que cantou
inda'gora...

--Ah! principe, ella sabe outras ainda mais bonitas! Conhece a
_Andorinha_? J a ouviu?

--Est claro... mas j no me lembra...

No... no!... aquella que cantava ha pouco: no quero a _Andorinha_!
Quero aquella tal romana: disse o principe a pedinchar como um
pequerrucho.

A Zina recommea a alludida romana. O principe no pode ter mo em si e
ajoelha-lhe aos ps a chorar...

--Oh! minha formosa castell! (Treme-lhe a voz de senilidade e de
commoo).

Oh! minha en... can... tadora castell! Oh! minha querida menina! Quanta
coisa me no veiu recordar do passado!... E eu, ento, vivia esperanado
em outro porvir. N'esse tempo cantava eu com a viscondessa... uns
dutos... essa mesma romana... e agora... ah! Sei muito bem o que me
espera!

O principe proferiu aquella discurso em voz entrecortada e offegante,
intoiriu-se-lhe a lingua... tornam-se inintelligiveis algumas palavras.
Apenas se v que atingiu o acume da commoo. Maria Alexandrovna
apressa-se em lanar azeite no lume.

--Principe! quer me parecer que se vae apaixonando pela Zina.

A resposta do principe vae alm de quanto ousaria esperar Maria
Alexandrovna.

--Estou apaixonado por ella a ponto d'enlouquecer! exclama o velhito
muito exaltado e sempre de joelhos.

Estou prompto a sacrificar-lhe a minha vida... pudesse eu ao menos ter
esperana... Mas levante-me, por quem ... sinto-me um tanto fraco... Se
eu... ao menos, pudesse nutrir a es... pe... perana offerecia-lhe o meu
corao... e ento... eu... Havia de cantar-me todos os dias
ro--ro--man--manas, e eu a olhar para ella sempre... sempre...
sempre... ai, meu Deus!

--Principe, principe! Est offerecendo a minha filha a sua mo, quer-m'a
roubar, a mim, a minha Zina! O meu enlevo, o meu anjo, Zina! No te
deixarei nem por quanto ha! Zina! Venha alguem arrancl-a dos braos,
dos braos de sua me; se  capaz!

Maria Alexandrovna atira-se  filha e estreita-a nos braos, comquanto
se sinta repellida com fora. A mam exaggera um tanto ou quanto a
comedia, e a Zina est em transes de asco. Mas no abre a bca,  tudo
quanto deseja Maria Alexandrovna.

--J rejeitou nove partidos s para se no apartar da me! clama. Agora,
comtudo, o meu corao antev o apartamento. No ha ainda um instante,
reparei que olhava para o principe de modo particularissimo... A sua
aristocracia, a sua finura seduziram-n'a, principe!.. Oh! O principe
apartar-nos-ha... estou-o a sentir.

--A... d... ro-a! murmura o principe a tremelicar como uma folha.

--Com que ento desamparas a tua me! exclama Maria Alexandrovna
atirando-se outra vez ao pescoo da filha.

A Zina, morrendo por pr ponto a to penosa scena, estende ao principe a
linda mo, e faz esforo para sorrir. O principe agarra respeitoso
n'aquella mo e por pouco a no come com beijos.

--Agora, sim, agora  que eu principo a viver!...

--Zina! diz com solemnidade Maria Alexandrovna:  o mais delicado, o
mais nobre dos homens! Um cavalleiro da edade mdia! Ella bem o sabe,
principe, e sabe-o at demais, por minha desgraa!... Ah!... Oxal c
no tivesse apparecido... Entrego nas suas mos o meu thesouro...
Conserve-o, principe!... Escute os rgos de uma me! Qual ser a me que
poder levar-me a mal a minha magua?!

--Basta! mam! murmura a Zina.

--Ha de defendl-a, principe, a sua espada ha de fulgir se as calumnias
se atreverem a tocar-lhe!

--Basta mam, alis...

--Est c... claro... a minha espada!... murmura o principe. Quero que o
ca... casamento se realize, quanto antes... agora...  que eu devras
prin... cipo a viver!... Tenciono mandar desde j a Dur-kha-khanovo...
Tenho l uns brilhantes, quero pl-os a seus ps.

--Que ardor, que arrebatamentos, que nobreza de alma! E lembrar-me eu,
principe, de que se estava a perder n'aquelle ermo!... No me cano em
repetir... Eu, quando me lembro d'aquella... infernal... toda eu me
horrorizo!...

--Mas que queria que eu fizesse?

Tinha tanto... m... mdo! choraminga o principe. Queriam pregar commigo
numa casa de saude... e tive... m... mdo!

--N'uma casa de saude! Ah! que miseraveis! Que vileza, que crueldade!...
J me constou isso mesmo, principe! Mas essa gente est doida! Mas por
qu... por qu?...

--Se quer que... lhe diga, nem eu o sei, responde o ginjinha caindo
derrengado de cansao na poltrona. Foi assim--estava eu n'um ba... baile,
e contei-lhe uma anecdta.--Desagradou-lhes e ahi est... e resultou
d'ahi uma historia... uma histo... ria.

--E foi esse apenas o motivo?

--No foi, eu tambem tinha jogado as cartas com o principe Pedro
Dmirititch, e perdido immenso... tinha dois reis e trs... da... damas...
quero dizer, trs da... da... mas e dois r... reis... No  isto... um
r... r... rei e s... da... damas!

--E foi s por isso!--por isso!--Infernalissima protervia! No chore,
principe! No lhe torna a acontecer! D'aqui em diante, encontra-me a seu
lado, meu principe!--Pois no me aparto da Zina, e veremos quem  que se
atreve a abrir bocca. Sabe o que lhe digo, principe? Que o seu casamento
vae deixl-os consternados; vae envergonhl-os! Ho de ver que ainda 
capaz... quero dizer... comprehendero que to peregrina beldade nunca
iria casar com um mentecapto!--E agora, pode olhar para elles rosto a
rosto, de cabea erguida!

--Est--claro... rosto a rosto!--murmura o principe fechando os olhos.

--Est derreado de todo, diz comsigo Maria Alexandrovna; creio que
estarei a soltar palavras ao vento.

--Est commovido, meu principe, precisa de ir descanar, diz debruada
sobre elle com maternal sollicitude.

--Est... c... claro... encostar-me um bocadinho.

-- tal qual... Estes abalos!--Espere ahi, vou acompanhl-o. Eu propria
irei deitl-o, se for necessario... Por que  que est a olhar tanto
para aquelle retrato, principe?

 o retrato de minha me, no era uma mulher, era um anjo! Oh! oxal
ella ainda c estivesse! Era uma santa, uma santa, sim, nem lhe posso
dar outro nome!

--Uma s... anta,  bonito!... Eu tambem tive me, uma senhora
extr... ... ma... mente nut... trida... E d'ahi, no  isso que eu queria
dizer... Estou um tanto fatigado... Adeus... minha linda menina...
amanh... em sum... ma... no importa... At mais ver... at mais ver!...

Tenta fazer um gesto gracioso, mas escorrega no pavimento encerado, e
por pouco se no desiquilibra.

--Cuidado, principe. Encoste-se ao meu brao! grita Maria Alexandrovna.

--Um encanto! um encanto! Agora sim, agora comeo a viver!

Ficou a ss a Zina. Sentia uma oppresso, um desprezo para comsigo
mesmo. Com as faces a escaldar, as mos contradas, os dentes
enclavinhados. Inrte, e a vergonha a arrazar-lhe os olhos de
lagrimas...

N'este lance, eis se abre a porta e investe pela sala dentro o
Mozgliakov--fulvo de raiva!




IX


--Ouvi tudo, tudo!

A Zina a fitar-lhe uns olhos espantados.

--Ah! E so esses os seus sentimentos! exclama com a voz tomada. At que
por fim aprendi a conhecl-a!

--A conhecer-me? repete a Zina (fulgem-lhes os olhos, de colera).
Atreve-se a falar-me assim?

D um passo para o mancebo.

--Tudo ouvi! insiste solemne o Mozgliakov, recuando porm um passo, mau
grado seu.

--Ouviu?--Espionou, diga! emenda a Zina a mirl-o com desprezo.

--Espionei, seja?  verdade, decidi-me a praticar semelhante vilania!
Mas, graas a ella... fiquei afinal sabendo que  a mais... nem sei como
qualificar a sua... tartamudeava o mancbo, de mais em mais atrapalhado
sob o olhar da Zina.

--E quando haja ouvido a tudo, que  que me poder lanar em rosto? Quem
lhe deu o direito de me accusar, de me falar n'esse tom?

--Com que direito!... Eu!? E ainda m'o pergunta!? Intenta casar com o
principe... e a mim no me assiste o direito...!... Pois no me deu a
sua palavra?

--Quando?

--Quando, essa  melhor!

--Esta manh, sem irmos mais longe, o senhor a apertar commigo e a minha
resposta formal foi que nada lhe podia afirmar de positivo.

--Mas no me rejeitou em absoluto, e por conseguinte, guardava-me para o
no chega--poupava-me!...

Contrahiu-se o semblante  Zina com dolorosa sensao, mas no se atenua
o desprezo que sente para comsigo.

--Se o no escorraei, responde em voz grave e compassada, mas algo
trmula, foi unicamente por compaixo. Supplicava-me que esperasse, que
lhe no dissesse que no. "V aprendendo a conhecer-me"--disse o senhor
um dia, "e quando se houver convencido de que sou um homem de caracter
digno,  possivel que me no rejeite." Foram estas as suas palavras, no
principio das nossas relaes, no as poder renegar: E agora atreve-se
a dizer, que o guardo para o no chega! Pois no percebeu, esta manh, o
meu aborrecimento por ver como antecipava de quinze dias o seu regresso?
E todavia, no lhe encobri esse meu enfado, e o senhor foi o proprio a
notl-o, visto que me perguntou se me no agastava este seu regresso
permaturo. Chama ento poupar um homem o no lhe poder encobrir o fastio
que alguem experimenta em ver esse homem? Ah! Eu ento guardava-o para o
no chega!? No! eu dizia commigo, a seu respeito: "Se no  demasiado
intelligente,  bondoso, quando menos"... agora, comtudo, fiquei
sabendo--a tempo, felizmente--que tem tanto de mau como de tolo, e s o
que me resta  desejar-lhe boa jornada! Adeus!

A Zina volta-lhe as costas e caminha, de seu vagar, para a porta.
Mozgliakov comprehende que tudo est perdido; referve-lhe a raiva.

--Ah! com que, eu, ento, sou tolo! vocifra; tolo!--Muito bem! Adeus!
Mas, antes de me ir embora, saiba que a toda a gente ha de constar a
infame comdia que aqui esto representando... tanto a senhora como sua
me. Vou contar tudo a toda a gente, que embebedam o principe, que o
subornam! Ha de ouvir falar de Mozgliakov!

Estremece a Zina, vae para reponder, mas, volvido um instante de
reflexo, encolhe os hombros, desdenhosa, e bate-lhe com a porta na
cara. N'este conflicto, assoma aos hombraes Maria Alexandrovna. Ouviu as
ultimas exclamaes de Mozgliakov e adivinhou o restante. O Mozgliakov
sem, se ir ainda embora! O Mozgliakov  ilharga do principe! O caso
espalhado por toda a cidade pelo Mozgliakov! E todavia,  indispensvel
guardar segredo... Maria Alexandrovna, n'um relance, tudo calculou, a
tudo preveniu, e urde um plano para aplacar o Mozgliakov.

--Que tem, meu amigo? diz estendendo-lhe a mo, cordial.

--Como _meu amigo_! exclama o outro furibundo. E depois de tudo isto;
meu amigo! _Morgen Frh_[11], minha senhora. Metteu-se-lhe ento em
cabea embaar-me outra vez?

--Sinto, devras, acredite, sinto immenso vl-o em um estado de espirito
to estranho, Pavel Alexandrovitch. Que linguagem! Nem sequer mde as
palavras em presena de uma senhora!

--Em presena de uma senhora!... Ser quanto quiser... menos uma
senhora.

(Ignoro o que  que elle queria dizer, mas, com certeza, devia de ser um
qualquer ultrage, de esmagar.) Maria Alexandrovna com os olhos n'elle e
um risinho de commiserao:

--Sente-se, diz, com tristeza, apontando para a cadeira na qual, um
quarto de hora antes, estivra sentado o principe.

--Mas no fim de contas, no me dir, Maria Alexandrovna?... exclama
Mozgliakov, desnorteado. Est-me tratando como se a senhora estivesse
innocente e fosse eu o culpado! No pode ser!... Vae muito alm dos
limites!  abusar da paciencia... de todo... digo-lh'isto!

--Meu amigo... responde Maria Alexandrovna--e deixe-me dar-lhe ainda
este titulo, pois neste mundo no ter melhor amiga...--o senhor est
afflicto, excitado, ferido no corao, e devo pois relevar-lhe
semelhantes desmandos de linguagem. Pois bem, vou abrir-me com o senhor.
Tanto mais que eu, at certo ponto, no deixo de ter culpas para com o
senhor. Sente-se, pois, e conversemos. A voz de Maria Alexandrovna
assumiu o auge da meiguice,  compungida a sua expresso phisionomica.

Senta-se Mozgliakov.

--Esteve escutando  porta, diz ella com uns modos de exprobao e de
indulgencia, ao mesmo tempo.

--Escutei, sim! E por que no? Nem que eu fra um asno!... Se quer ao
menos fiquei sabendo o que andava a maquinar contra mim, responde
Mozgliakov, haurindo valr da propria colera.

--E resolver-se a senhora, com a sua educao, as suas maneiras, a
representar semelhante papel! Santo Deus! Mozgliakov est aos pulos na
cadeira.

--Maria Alexandrovna, no posso ouvir-lhe uma palavra mais! Melhor ser
que se lembre do que est fazendo, a despeito da sua educao e das suas
maneiras, e diga-me se lhe assiste o direito de accusar a outrem!

--Ainda uma pergunta, prosegue ella sem responder. Quem foi que lhe
suggeriu a ideia de escutar  porta? Quem ser que anda por aqui a
espiar-me os passos?  isso o que eu no se me dava de saber!

--L quanto a isso, tenha paciencia, no serei eu quem lh'o diga.

--Muito bem, eu tratarei de o saber... Dizia eu, pois, Pavel, que no
deixo de ter culpas para com o senhor, mas, se  que pde julgar-me com
conhecimento de causa, ver que se tenho alguma culpa  a de lhe querer
bem em demasia.

--Com que ento, quer-me bem?--Esta a caoar commigo, e certifico-lhe
que no torna a enganar-me; serei muito creana mas nunca at esse
ponto!

E elle, n'um sarilho na poltrona, e a poltrona a tremer.

--Por quem , meu amigo, socegue se  possivel, escute com atteno, e
ver que ha de concordar commigo. Eu, a principio, tencionava contar-lhe
tudo, pl-o em dia com tudo sem que se lhe tornasse necessario
aviltar-se ao ponto de escutar s portas. Se o no fiz, foi unicamente
porque o negocio se achava ainda em estado de projecto e podia
mallograr-se. Bem v a franqueza de que uso para com o senhor. E, acima
de tudo mais, no se volte contra minha filha, que de nada tem culpa. 
doida pelo senhor, e custou-me os olhos da cara arrancar-lh'a ao senhor
e persuadil-a a acceitar o offerecimento do principe.

--E eu, que com os meus proprios ouvidos, ouvi,--n'este instante, provas
d'esse tal louco affecto, replica ironico Mozgliakov.

--Muito bem! Mas em que termos se lhe dirigiria o senhor?  assim que se
expressa um namorado? Ser essa a linguagem propria de um homem de fino
trato? Offendeu-a, irritou-a.

--Como se fosse questo de fino trato, Maria Alexandrovna! Esta manh,
ambas me faziam boa cara, mas assim que eu sa e mais o principe,
puzram-me pelas ruas da amargura.--Estou sciente de tudo... tudo.

--Bebido da mesma fonte ignobil, provavelmente, observou Maria
Alexandrovna com risinho de desdem.  verdade, Pavel Alexandrovitch,
pl-o pelas ruas da amargura e, confesso, Deus sabe quanto me custou.
Quanto no tive eu que luctar com os proprios sentimentos! Mas bastar o
facto de eu me ver na necessidade de o calumniar para lhe provar a
difficuldade que eu encontraria em obter d'ella que desistisse do
senhor!  possivel que no veja um palmo adeante do nariz? Se ella lhe
no tivesse amor, eu teria alguma necessidade de appellar para
calumnias? E ainda o senhor no sabe o melhor! Tive que valer-me da
minha maternal auctoridade para lh'o arrancar a ella do corao! Em
concluso, depois de esforos inauditos, consegui alcanar uns arremedos
de consentimento... E visto que esteve  escuta, no deixaria de notar
que ella no me ajudou em presena do principe com uma palavra, sequer,
ou com um gesto. Cantou para alli como um automato; em visiveis
afflies toda ella, e foi por ter d d'ella, que eu carreguei com o
principe. Tenho a certeza, at, de que se pz a chorar, assim que se
apanhou ssinha. O senhor bem viu, quando entrou... Mozgliakov
recorda-se de que effectivamente a Zina estava a chorar quando elle
entrou.

--Mas a senhora, a senhora, por que  que est assim to contra mim,
Maria Alexandrovna? Por que  que me foi calumniar segundo  a propria a
affirml-o.

--Ora, isso agora  outro negocio; e se o senhor m'o tivesse perguntado
em termos logo ao principio, ha muito tempo que lhe teria dado resposta.
Sim, tem razo, fui eu que fiz tudo, eu, ssinha: no esteja a accusar a
Zina. Por que foi que o fiz? E eu respondo-lhe: primeiramente, por
interesse da Zina. O principe  rico, representante de nobilississima
casa, tem relaes, e casando com elle a Zina faz um optimo casamento.
Emfim, se elle morrer, o que no poder tardar muito, pois todos ns,
mais ou menos, somos mortaes,--n'esse caso, a Zina, nova e viuva,
pertencendo  alta sociedade, fica riquissima e casa com quem quizer.
Ora, est claro que ir casar com o homem a quem ama, e que foi o
primeiro a quem teve amor, e cujo corao ter martirizado casando com o
principe. E bastar o arrependimento... O acto que ter mais a peito
ser o de remediar a propria falta.

--Hum! rosna Mozgliakov pensativo, a contemplar os bicos das botas.

--Em segundo logar... mas serei breve a semelhante respeito,  possivel
que me no comprehendesse. O senhor s o que sabe  ler o tal seu
Shakspeare, fonte aonde exclusivamente vae beber os seus nobres
sentimentos; e d'ahi, o senhor est to moo! Eu, comtudo, sou me,
Pavel Alexandrovitch. Caso a Zina com o principe um tanto por causa
d'elle tambem, visto que para elle o casamento pode representar a
salvao! Ha tanto tempo que voto amizade quelle honradissimo ancio,
to bondoso, cavalheiresco! Quero arrancl-o s garras d'aquella
infernal creatura que ha de pregar com elle na cova!... Invoco a Deus
por testemunha em como foi patenteando  Zina todo o alcance do heroismo
da sua dedicao que eu pude convencl-a.

Arrastou-a o irresistivel prestigio da abnegao. Ella propria tem o que
quer que seja de cavalheiresco. Submetti-lhe o meu projecto sob colr de
um acto christo. Vaes ser, lhe disse eu, o amparo, a consolao, a
amiga, a filha, a beldade, o idolo de um homem que talvez que nem um
anno tenha de vida. Mas sequer ao menos, extinguir-se-ha no dce calr
do amor. Estes seus ultimos dias parecer-lhe-ho um paraiso. Onde  que
v n'isto egoismo, Pavel? No! e no!  um acto de irm de caridade.

--A senhora, ento, procede desse modo, por amizade para com o
principe...  laia de irm de caridade? commenta o ironico Mozgliakov.

--Comprehendo essa sua pergunta, Pavel Alexandrovitch,  clarissima.
Suppe que estou fazendo uma confuso jesuitica dos interesses do
principe com os meus. Pois bem,  possivel que me tivesse atravessado
pela mente semelhante calculo, inconscientemente, porm, e sem
resquicios de jesuitismo. Espanta-o esta minha franqueza? Peo-lhe
apenas uma merc, Pavel Alexandrovitch: no involva a Zina n'este
negocio! Est pura que nem uma pomba. No calcula; sabe apenas amar,
pobre pequena! Se houve alguem que calculasse, esse alguem fui eu, e s
eu! Indague, porm, sinceramente da sua consciencia e diga-me quem seria
que no meu logar no haveria calculado? Calculamos os nossos interesses,
as nossas mais generosas aces, at, sem darmos por isso,
instinctivamente. Pois; se enganam, quantos alarmam que procedem movidos
por pura nobreza de alma. Eu, porm, no quero enganl-o. Confesso que
calculei. Mas, sempre quero que me diga, seria levando em vista o meu
interesse pessoal? A mim, Pavel Alexandrovitch, que mais me ser
preciso? Vivi o meu seculo[12], calculei para bem d'ella, do meu anjo,
da minha filha: e qual ser a me que m'o lance em rosto?

As lagrimas inundavam o rosto de Maria Alexandrovna.

Pavel Alexandrovitch tem escutado com pasmo semelhante confisso:
latejam-lhe as palpebras, esfora-se por comprehender.

--Qual seria a me, sim! diga l!... pergunta elle, em concluso.

Mas cae em si, acto continuo, e:

--Canta lindamente, Maria Alexandrovna, mas tinha-me dado a sua palavra,
tinha-me alentado a esperana... Como posso eu supportar semelhante
coisa? Terei que engulir a propria vergonha!

--E acredita talvez que no pensei no senhor, meu querido Pavel? Pelo
contrario, em todos os meus calculos, o senhor tinha a sua parte. Ouso
dizer, at, que foi por sua causa que eu emprehendi este negocio.

--Por minha causa! exclama Mozgliakov, desnorteado, d'esta vez. Como
assim?!

--Meu Deus! Como  que se pode ser to simples, ter vistas to
limitadas! exclama Maria Alexandrovna erguendo as mos ao ceu. Esta
mocidade! O tal Shakspeare! E ahi tem o que elle lhe arranjou, aquelle
sonhador, aquelle phantasista! Viver da intelligencia e dos pensamentos
alheios! E o senhor a perguntar--_meu bom Pavel Alexandrovitch_, qual 
n'este caso o seu interesse. Para maior clareza, consinta-me uma leve
digresso. A Zina ama-o,  incontestavel Mas tenho notado que, a
despeito do seu manifesto amor, o caracter de Pavel Alexandrovitch, as
suas aspiraes lhe tem incutido uma tal ou qual desconfiana. Por
vezes, e como que de caso pensado, contm-se,  fria para com o senhor.
Eis o resultado das reflexes que a levaram a desconfiar. Pois no
reparou tambem n'isto que lhe estou dizendo, Pavel Alexandrovitch?

--Reparei, sim, hoje ainda. Mas que quer dizer com isso, Maria
Alexandrovna?

--Bem v, o senhor foi o proprio a reparar n'isso: logo, no me enganei.
E acima de tudo, foi a estabilidade do seu caracter, a sua constancia o
que mais duvidas lhe incutiu. Sou me, e no havia de conhecer o corao
de minha filha! Ora imagine agora que, em vez de entrar aqui com
exprobaes, e at com injurias, em vez de a irritar, de a offender, de
a melindrar, a ella to bella, to pura e soberba, e por esse facto, a
despeito ainda da sua vontade, ir tornar-lhe mais firme a desconfiana
com respeito s suas inconstancias; supponha que acceitava com brandura
a noticia, com lagrimas de magua, com desespero, at, mas com
dignidade...

--Hum!

--Mau! No me interrompa. Pavel Alexandrovitch. Quero expr-lhe um
quadro que possa ferir-lhe a imaginao. Ora imagine que ia ter com ella
e lhe dizia: "Zina, amo-te mais que a propria vida, mas afastam-nos umas
razes de familia. Comprehendo essas razes: trata-se da tua ventura e
no me atrevo a insurgir-me contra ella. Perdo-te, Zinaida; s feliz se
puderes!" E dito isto, lhe lanava uns olhos, uns olhos de cordeiro nas
vascas da agonia, se me  licita a expresso. Ponha tudo isto na sua
ideia e calcule o effeito que haveria produzido uma scena assim no
corao della!

--Pois sim, Maria Alexandrovna, supponhamos tudo isso-- certo que eu
podia ter me expressado d'esse modo... mas nem por isso deixaria de
voltar pelo mesmo caminho com um no pelas ventas.

--No, no, e no, meu amigo. No me interrompa! Quero acabar de
pintar-lhe o quadro para que no animo lhe produza uma impresso nobre e
completa. Imagine, pois, que a vinha a encontrar; d'ahi a tempos, na
alta sociedade, num baile illuminado _ giorno_, ao som de uma musica
enebriante, no meio de um sem numero de beldades, e, no melhor da festa
to deslumbrante, o senhor, para alli, ssinho e triste, a scismar,
pllido, encostado para alli, algures, a uma columna, mas de modo a dar
nas vistas; o senhor a seguil-a com os olhos na vertigem da dansa; ao p
do senhor a vibrarem os divinos accordes de Strauss. Fuzila por todos os
lados nas conversas o espirito da alta sociedade; e o senhor ssinho,
enfiado, melancholico, immerso na propria paixo.

Considere--em que estado ficar a Zina quando o vir! E com que olhos o
no ha de ella contemplar! "E eu," pensar ella, "que duvidei d'aquelle
homem! Tudo me sacrificou! Despedaou o proprio corao por minha
causa!" Certamente, o seu amor de outr'ra resuscitar-lhe-hia l dentro
com fora irresistivel.

Deteve-se Maria Alexandrovna para cobrar alento. Mozgliakov a barafustar
na cadeira, que por pouco no estoira de todo. Maria Alexandrovna
prosegue:

--A Zina, por causa da saude do principe, parte para o estrangeiro, para
Italia ou para Hespanha, o paiz das murtas, dos limoeiros, do azulino cu
do Guadalquivir, o pas do amor, o pas onde se no pode viver sem amar,
onde as rosas e os beijos adejam por assim dizer no ar. E o senhor vae
atrs d'ella, compromette a sua situao, as suas relaes, tudo!... E
principia ento o seu romance de amor: amor, mocidade, Hespanha... Deus
meu!...  certo que ser platonico o seu amor, puro... mas o senhor... em
summa, enlanguescem a contemplarem-se um ao outro... Espero que me haver
comprehendido, meu amigo?--No faltaro, por l, entes sozes, vis,
miseraveis para affirmar que no foi a lembrana do seu parentesco com o
velho que o arrastou ao estrangeiro. Muito de proposito me referi ao
platonismo do seu amor; no ignoro que haver quem lhe atribua differente
significao.

Mas sou me, Pavel Alexandrovitch e seria incapaz de o impellir para mau
caminho!...  claro que o principe os no poder vigiar a ambos; isso
que importa, comtudo? Poder-se-ha fundar n'isso semelhante accusao?

At que por fim, morre o principe abenoando o proprio destino. Ora
diga-me quem  que depois ha de casar com a Zina, a no ser o senhor? 
parente to afastado do principe que o parentesco nunca poderia
representar um impedimento ao consorcio. Acceita-a, joven, rica,
princsa, e em que ensejo? Quando os mais nobres senhores se poderiam
ufanar da sua alliana! Por causa d'ella, entra na mais alta sociedade;
obtm um posto de summa importancia, promoes. Diz o senhor que dispe
de cento e cincoenta almas? Mas depois ser rico. O principe no deixar
de fazer um testamento nos termos, por isso lhe respondo eu. E em
concluso, o principal,  o ella estar segura dos seus sentimentos e o
senhor vir a ser para ella um heroe pela virtude e pela abnegao. E
ainda me pergunta, onde vae n'isto o seu interesse? Tem-n'o deante dos
olhos, a contempll-o, a rir-se para o senhor, e a dizer-lhe: "Aqui me
tens!" Ora vamos, Pavel Alexandrovitch!...

--Maria Alexandrovna! exclama Pavel Alexandrovitch, a tudo fiquei
percebendo, agora! Portei-me como homem grosseiro, vil, reles!...

Levanta-se com vivacidade e puxa pelos cabellos s mancheias.

--E como homem inconsiderado, accrescenta Maria Alexandrovna,
inconsiderado, eis o que o senhor !

--Sou um asno, Maria Alexandrovna! exclamou com desespero o mo. E
agora, est tudo perdido! E eu que a amava com loucura!

-- possivel que no esteja tudo perdido, declara Madame Moskalieva,
baixinho, como quem est reflectindo.

--Ah! se fosse possivel! Ajude-me! aconselhe-me! Valha-me! E ps-se a
chorar o Mozgliakov.

--Meu amigo, diz em apiedada voz Maria Alexandrovna e estende-lhe a
mo,--praticou esse seu acto no ardor do seu affecto, estava exasperado,
nem sequer tinha consciencia do que fazia. E ella no deixar de o
avaliar.

--Amo-a com loucura e estou prompto a sacrificar-lhe seja o que for!
clama o Mozgliakov.

--Ora escute, justifica-lo-hei aos olhos d'ella.

--Maria Alexandrovna!

--Sim, fica tudo por minha conta: collocl-os-hei em presena um do
outro. E o senhor diz-lhe tudo tal qual eu acabo de lh'o dizer.

--Ah! meu Deus! Que bondade a sua, Maria Alexandrovna!... Mas... no
seria possivel procedermos a isso desde j?

--Deus nos defenda! Sempre  muito estouvado, meu amigo! Ella, ento,
que  to soberba! Ia tomar isso como uma nova insolencia, um ultraje,
at! Eu arranjarei tudo, e no ha de passar d'amanh; agora, comtudo, v
se embora, v at casa do tal negociante, ou para onde lhe apetecer...
Ou, se, antes quer, volte esta noite, mas no serei eu que lh'o
aconselhe.

--Vou m'embora! vou m'embora!

Meu Deus! Resuscitou-me! Mas uma pergunta, ainda: e se o principe no
morre to cedo?

--Valha-nos Deus! Sempre  muito ingenuo, meu caro Pavel! O senhor o que
deve  rogar a Deus que conserve os dias d'aquelle vlhito, todo elle
bondade, carinho, cavalheirismo! Devemos desejar-lhe longa vida, de todo
o corao! E eu serei a primeira; noite e dia, com lagrimas, a rezar
pela ventura de minha filha! Mas, ai de mim! A saude do principe,
coitado, quer me parecer que est muito abalada! E demais, elle no
deixar de fazer a sua visita  capital, de levar a Zina aos bailes, e
receio muito, muito, acredite, que isso concorra a dar cabo d'elle!
Ormos, porm, meu caro Pavel, e quanto ao mais, entregumo-nos nas mos
de Deus! Espre, arme-se de paciencia, seja viril, e viril, acima de
tudo! Nunca puz em duvida a nobreza dos seus sentimentos... Aperta-lhe
com fora as mos, e o Mozgliakov se do aposento em bicos de ps.

--At que em fim! Vi-me livre de um imbecil! diz com ares de triumpho. E
agora vamos aos outros... Abre-se a porta e entra por ali dentro a Zina.
Vem mais pallida do usual; fulgem-lhe os olhos com febril claro.

--Mam, veja se acaba com isto, que eu estou, que j nem posso mais; 
to nojento tudo isto que me vem tentaes de fugir por ahi fora. No me
faa padecer por muito mais tempo, no me irrite! Este lodaal causa-me
engulho, entendeu?

--Zina, que tens tu, meu anjo?... Estiveste escutando  porta! exclama
Maria Alexandrovna olhando de fito para a filha.

--Escutei,  verdade.--Veja se m'o quer lanar em rosto, como o fez
aquelle imbecil? Juro-lhe que se porfiar em obrigar-me a representar
semelhante papel em to vergonhosa comedia, renunco a tudo, e acabo com
tudo, com uma s palavra. No ha duvida que me resolvi a prestar-me 
principal vilania, mas foi por me no conhecer a mim mesma; atabfo com
semelhante vergonha!

E sae atirando com a porta.

Maria Alexandrovna segue-a com a vista e fica a scismar.

" andar ligeira, depressa!  de si que depende tudo, e em si que
consiste o maior perigo, e se esses miseraveis porfiarem em se colligar
contra ns, se principiam para ahi a dar  lingua, tudo est perdido! E
ella no poder resistir contra tantas arrelias e acabar por
entregar-se mediante uma rejeio. Custe o que custar e sem demora, urge
carregar para o campo com o principe. Prego commigo l, n'um pulo, e
carrgo com aquelle estafermo do senhor meu esposo para aqui. Sequer ao
menos sirva para alguma coisa! E assim que o outro accordar,
safamo-nos."

Toca a campainha.

--E ento! a parlha? pergunta ao creado que entra.

--Est prompta, ha que tempos, responde o criado.

(Maria Alexandrovna mandou pr o trem no acto de acompanhar o principe
ao quarto d'este.)

Veste-se  pressa e corre ao quarto da Zina para lhe transmitir o seu
plano e dar-lhe as devidas instruces. A Zina, comtudo, nem lhe quer
dar ouvidos, debruada no leito com o rosto enterrado no travesseiro
ensopado de lagrimas; a arrancar com as niveas mos os compridos
cabellos; tem os braos nus at ao cotovlo. Saccde-a, a revzes, um
estremeo. A me dirige-lhe a palavra, sem que a Zina consinta em
erguer a cabea.

Maria Alexandrovna insiste por instantes, depois, sae, inquietissima.
Sobe para a carruagem e recommenda que espertem a parelha.

"O peor de tudo", vae ruminando comsigo, " a Zina ter ouvido a conversa
que eu tive com o Mozgliakov. Empreguei com ella e com elle quasi que os
mesmos argumentos; ella  orgulhosa e offender-se-hia, talvez... Hum! o
que a tudo sobreleva,  a necessidade de por mos  obra, antes de que
conste seja o que fr! Que desgraa! E se eu, para mais ajuda, no fosse
encontrar em casa aquelle meu imbecil?!"

Ante esta hypothese, enraivece-se, toma-se de um rancor que nada
vaticina de bom para Aphanassi Matveich. E Maria Alexandrovna
impaciente, a esfervilhar!

Os cavallos despedem a galope.




X


A carruagem no corre, va.

Dissmos que, n'aquella mesma manh, emquanto ella andava em procura do
principe, por todos os cantos da cidade, j havia accudido  mente de
Maria Alexandrovna um alvitre genial: era o confiscar por sua vez o
principe quanto antes, e pregar com elle no campo;--n'aquella aldeia
onde floria em paz o beatifico Aphanassi Matveich. Ia pois realizar
aquella sua inspirao. Mas no encubramos ao leitor que principiava a
sentir-se atribulada por uma inquietao inexplicavel. Aos proprios
heroes acontece outro tanto, e no ensejo, justamente, em que esto
prestes a atingir seus fins. Advertia-a um qualquer instincto de que
havia perigo na permanencia em Mordassov.

"Uma vez no campo, vire-se tudo isto ps, com cabea, que a mim tanto se
me d!"

 certo, que ainda no proprio campo, no ha tempo para perder: tudo
poder acontecer, tudo... E n'essa conformidade, Maria Alexandrovna
acha-se resolvida a concluir immediatamente o consorcio. O cura da
aldeia proceder  ceremonia na propria residencia. D'alli a dois dias,
no outro dia, talvez, em caso de urgencia. Quantos casamentos se no tem
visto, aldravados para alli em duas horas! Quanto ao principe,  levl-o
a acceitar como necessidade de bom sizo uma tal precipitao, semelhante
ausencia de toda e qualquer festa. "Ser mais decente e mais nobre"...
Poder-se-hia at seduzil-o pelo lado romanesco do negocio e fazer-lhe
vibrar assim a fibra sentimental do corao. Enebril-o-ha, se tanto fr
necessario, mantl-o-ha n'aquelle estado de embriaguez, e a Zina ha de
ser princsa.

Se houver algum escandalo l por Petersburgo ou por Moscou entre a
parentla do principe, consolaes no ho de faltar. Em primeiro logar,
so coisas que ainda esto para vir; em segundo, Maria Alexandrovna est
convencida de que, na alta sociedade, nada se faz sem escandalo, e muito
mais tratando-se de casamento: que  estilo. Mas os escandalos da alta
sociedade, a seu ver, tem uma cr mui particular de grandiosidade, no
genero do _Monte-Christo_ e das _Memorias do Diabo_. Finalmente, a Zina
bastar-lhe-ha mostrar-se, e a me ajudl-a com seus conselhos, e toda a
gente ficar desarmada, acto-continuo, entre todas aquellas condessas e
princsas, no havendo uma s que seja capaz de resistir  mordassoviana
habilidade de Maria Alexandrovna, ssinha contra todas ellas juntas ou
contra cada uma em particular.

E  animada por semelhante pensamento que Maria Alexandrovna vem ter com
Aphanassi Matveich o qual lhe  necessario, segundo seus planos.

Effectivamente, levar o principe para o campo  levl-o para casa de
Aphanassi Matveich com quem o principe  possivel no se dar l muito de
travar conhecimento: mas se Aphanassi Matveich fr o proprio a
convidl-o, o caso muda de figura. E demais, a appario de um chefe de
familia, de edade veneranda, de gravata branca, casaca, chapeu na mo,
acorrendo expressamente das suas propriedades,  noticia de que se acha
em Mordassov o principe K...  caso para produzir optimo effeito no amor
proprio d'aquelle ginjinha.

At que por fim, havendo tragdo trs verstas a carruagem, o cocheiro
Safron pra junto ao patim de um comprido edificio com um unico andar,
casaro de madeira, com uma extensa fieira de janlas, e envolto n'umas
tilias venerandas.  a residencia estvel de Maria Alexandrovna.

J se acham illuminadas as janlas.

--Onde est o manequim? clama Maria Alexandrovna cando como uma
trovoada, no vestibulo. Que faz aqui esta toalha? Ah! estava aborrecido,
e ainda no saiu do banho! E sempre n'aquelle fadario do ch! E ento!
Para que estars tu para ahi a esbogalhar esses olhos, meu idiota
incuravel? Por que  que se no corta esse cabello?!

Grichka! Grichka! Por que  que no cortaste o cabello ao _barine_
conforme te dei ordem, a semana passada?

Maria Alexandrovna premeditra operar em casa de Aphanassi Matveich uma
entrada menos violenta. Mas ao vl-o entretido a sorver o seu chzinho,
com toda a sua pachorra, no foi senhora de sopitar a indignao. Para
ella, tamanhos cuidados, e para elle, para aquelle ente inutil, aquella
paz podre! Semelhante contraste chca de modo cruel Maria Alexandrovna.
E todavia, o manequim, ou para nos expressarmos com mais urbanidade,
aquelle a quem applicam o podo, est sentado em frente do samovr;
inerte, bcca e olhos escancarados, petrificado, quasi, pela appario
da consorte. O adormecido vulto do Grichka assoma ao vestibulo. O
Grichka tosqueneja os olhos durante toda esta scena.

--Se elle no deixa... E ahi esta porque  que o no fiz, profere em voz
encatarroada e socarrna. Peguei na tesoira para ahi umas dez vezes, e a
dizer-lhe: A _barinia_ no tarda por ahi e apanhamos ambos a nossa
conta!--E vae elle e diz-me:--No--espera ahi: quro que me frizes no
domingo; e  preciso para isso que o cabello tenha comprimento.

--Muito me contas: Com que ento elle, friza-se? Inventaste ento essa
obra dos frizados, assim que eu virei costas?

Que termos so esses? Cuidas talvez que embellezas assim essa tua cabea
de idiota? Santo Deus! Que desordem que por aqui vae! E que cheiro! No
me dirs, miseravel, d'onde provm semelhante cheiro? vocifra a
consorte a crescer de mais em mais ameaadora para o innocente e
assarapantado de todo Aphanassi Matveich.

--Ah... mi-minha mezinha, balbuca o esposo sem se erguer e desfechando
sobre o seu generalissimo uns olhos assustados e suplices, mi... mi...
minha mezi...

--Quantas vezes no tenho eu tentado encaixar-te n'essa cabea de burro
que no sou tua mezinha, pedao de pygmeu? Como te atreves a tratar por
semelhante nome uma senhora nobre cujo logar  na alta sociedade, e no
ao p de um aguadeiro da tua laia?

--Mas, Maria Alexandrovna, tu com tudo isso no deixas de ser minha
mulher em face das leis! e eu... estou-te falando... na qualidade de
marido! Objecta Aphanassi Matveich, levando a um tempo a mo aos
cabellos para os defender.

--Ah! Carranca! Cpo! Se j se viu! Mulher d'elle em face das leis!...
Que querer dizer uma mulher em face das leis? Haver na alta sociedade
alguem que empregue semelhante termo de seminarista:--em face das
leis?--E quem te deu o atrevimento de me recordares que sou tua mulher,
a mim que fao quanto posso para o esquecer? E para que estavas tu a
tapar a cabea com as mos?

Olhem para este cabello! Todo encharcado! No est enxuto estas tres
horas mais chegadas! Como hei de eu carregar com elle? Haver meio de o
arrancar d'aqui?--Que hei de eu fazer? Maria Alexandrovna pga s
carreiras pela casa fra, a estorcegar as mos. A desgraa  nulla e
facil de remediar, no ha duvida, mas se ella no pode ter mo n'aquelle
seu genio imperial, impaciente em presena do minimo impecilho! Sente
que precisa de desabafar a colera na pessoa de Aphanassi Matveich, visto
como a sua habitual tirannia desandou para si em necessidade. E depois,
toda a gente sabe o acervo de inopinadas grosserias de que so capazes,
longe das vistas dos mirones, uns certos entes delicados e pechsos da
sociedade mais grada. Aphanassi Matveich, estupido e tremelica, cana a
vista a seguir com os olhos as evolues todas da consorte.

--Grichka, exclama esta por fim, traze j, j, ao _barine_ tudo que 
preciso para se vestir de ceremonia, cala, casaca, gravata e colete,
brancos. V, despacha!

Onde iria parar a escova do cabello?

--Mas se eu acabo de sair do banho, minha mezinha, vou apanhar algum
resfriamento...

--Qual historia!...

--Estou com a cabea encharcada!...

--nxuga-se. Grichka, escova o cabello ao _barine_, at que enxugue. Com
mais fora... mais... ainda mais... Assim!

O fiel e zeloso Grichka esfrga, com quanta fora tem, o seu _barine_ a
quem, para mais commodidade, agarrou pelo cachao, encostando-o para
trs no divan.

Aphanassi Matveich por pouco no desata a chorar.

--E agora, em p!... V se o levantas, Grichka, d c a pomada...

--V, abaixas-te ou no, miseravel!

Abaixa-te, j te disse, meu papa jantares.

Maria Alexandrovna com as proprias mos besunta a grenha ao marido,
puxando sem d nem consciencia pelos cabellos, bastos e grisalhos que
elle, por sua desgraa, no deixou cortar. Aphanassi Matveich pe-se a
gemer, a suspirar e aguenta, Deus sabe como, semelhante provao.

--Miseravel! Foste tu que murchaste as flores da minha mocidade!...
Abaixa mais essa cabea, no ouves! Abaixa-te!

--Mas como  que eu murchei as tuas flores, minha mezinha? regouga o
esposo de bruos no divan.

--Manequim! Nem sequer percebeste a allegoria! Agora v se te penteias.

--Grichka, veste-o depressa, anda!

A nossa heroina senta-se n'uma poltrona a vigiar com olhos de inquisidor
a ceremonia indumentaria.

Aphanassi Matveich l conseguiu tomar folego, e, quando se chegou ao
lao da gravata, afoita-se a ponto de emittir opinies crca do feitio
e da perfeio da laada. Em concluso, assim que envergou a casaca, a
distincta personagem tem reconquistado de todo o aprumo e pega a
rever-se ao espelho com manifesto desvanecimento.

--Mas para onde  que tu me levas, Maria Alexandrovna? indga, a fazer
moquenquices  propria imagem.

Maria Alexandrovna hesita em acreditar n'aquillo que ouviu.

--No ouvem isto? Ora o manequim! E como te atreves tu a perguntar-me
para onde  que eu te lvo?

--Mas j se v que o devo de saber, minha mezinha.

--Caluda! Torna-me tu a tratar de mezinha, e muito mais no sitio aonde
vamos, e ficas sem ch um ms inteiro.

O marido, espavorido, nem bole sequer.

--Se j se viu? Nem sequer conseguiu apanhar a mais rles condecorao?

Colhero de marmita!--exclama ao contemplar com desprezo a casaca do
marido, casaca virgem de toda e qualquer insignia.

At que por fim, Aphanassi Matveich sente-se melindrado.

--Eu no sou colhero de marmita, sou conselheiro, minha mezinha,
pondra com assmo de nobre indignao.

--Qu--qu--qu?--A raciocinar, por mais que me digam! Ora o mujik, o
ranhoso! Tenho pna de me faltar tempo para te ensaboar esse bestunto,
quando no... Mas no as perdes, deixa estar!... Grichka, d-lhe o
chapu e a _chuba_[13]. Assim que eu sar, arruma estes trs quartos e o
quarto aberto. V, pega n'essa vassoira! tira as capas aos espelhos, aos
relogios e quero tudo prompto em menos de uma hora! E tu, tambem, veste
a casaca, e d luvas aos criados! Ouviste, Grichka? Ouviste?

Sobem para a carruagem. Aphanassi Matveich est com uma cara espantada.
Maria Alexandrovna d voltas ao miolo para lhe encasquetar na cabea e
na memoria as recommendaes mais essenciaes, elle, porm,
interrompe-lhe as suas cogitaes.

--Maria Alexandrovna, eu esta noite tive um sonho to exquisito, diz,
aps breve silencio.

--pre! Manequim de uma figa! E eu que estava a pensar!... Como te
atreves tu a vir-me para c com esses teus sonhos de mujik? Escuta, e
olha que t'o digo pela ultima vez, se te atreveres, hoje, a fazer a
minima alluso aos taes sonhos ou ao quer que seja,... toma sentido...
nem sei o que ha de ser de ti! Escuta bem: o principe K... est
hospedado em nossa casa. Lembras-te do principe K...

--Se lembro! minha mezinha, lembro-me muito bem! E por que  que elle
nos dispensou tamanha honra?

--Cala-te, no  da tua conta! Tu, com a maxima amabilidade, e como dono
de casa, vaes convidl-o a vir comnosco para o campo. Partimos ainda
hoje. Mas se lhe disseres uma palavra s que seja, em toda a noite, ou
amanh... ou no outro dia... ou em toda a roda do anno, mando-te guardar
gansos! Nem palavra! So essas as tuas funces--e mais nada!
Intendeste?

--Mas se me fizerem perguntas?

--No importa! Clas-te.

--Pois sim, mas uma pessoa nem sempre pode ficar calado, Maria
Alexandrovna!

--Responde com monosylabos, um _hum!_... ou coisa que o valha, para que
fiquem na persuaso de que s homem espirituoso e que reflectes antes de
responder.

--Hum!...

--E atenta bem n'isto que te estou dizendo. Carrgo comtigo: ouviste
falar do principe, e acto-continuo, doido de contente, deste-te pressa
em vir apresentar-lhe os teus respeitos e convidl-o a ir para o campo.
Percebeste?

--Hum!

--Para que ests tu j a dizer: _hum!_ meu parvalhco! Responde.

--Est bom, minha mezinha, tudo se far  medida dos teus desejos. Mas,
no me dirs por que  que eu tenho que o convidar?

--Qu, qu? pois ainda te mettes a raciocinar?! Que tens tu com isso? E
ainda te atreves a fazer-me perguntas?

--Mas...  que eu, por mais que faa no posso perceber como  que eu o
hei de convidar sem dizer palavra!

--Eu falarei por ti, e tu, fazes-lhe a tua cortesia, e mais nada,
percebeste?--De chapeu na mo...

--Percebi..., minha me... Maria Alexandrovna.

--O principe  espirituosissimo: diga elle o que disser, ainda quando se
no dirija  tua pessoa, responde-lhe a tudo com um sorriso bonacheiro
e alegre, percebeste?

--Hum!

--E elle a dar-lhe com o _hum!_ V se acabas com o tal _hum!_--a mim,
responde-me ao que eu te perguntar. Percebeste?

--Percebi, Maria Alexandrovna, percebi muito bem. E como  que eu no
havia de perceber? Mas estou a dizer _hum!_ para me ir exercitando. O
que tu queres  que eu me ponha a olhar para o principe, com um ar de
riso... mas quando elle no me vir?

--Forte espantalho! Forte idiota! Cala-te, cala-te, e cala-te! Olha e
sorri.

--Mas se elle  capaz de suppor que sou surdo!

--Olhem a desgraa! Sequer ao menos no ficar sabendo que s um
imbecil.

--Hum! E se mais alguem me fizer perguntas?

--Ninguem t'as faz, deixa estar! E demais, no estar l ninguem. E se
por infelicidade, do que Deus nos defenda, apparecer alguem e te
perguntarem alguma coisa, responde desde logo com um sorriso sarcastico.
Sabes o que vem a ser um sorriso sarcastico?

--Uma careta muito espirituosa, pois no  verdade, minha mezinha?

--Eu te darei o espirituoso, deixa estar, manequim! E quem  que te iria
suppor capaz de ter espirito, meu asneiro? Um risinho de escarneo,
percebeste? De escarneo e de desdem.

--Hum!

--Ai! Estou toda eu em suores frios por causa d'este estafermo! murmura
Maria Alexandrovna. No ha mais que ver, acho que fez uma jura em como
me havia de murchar de todas as minhas flores! Teria sido muito melhor o
prescindir delle.

A raciocinar por esta forma, Maria Alexandrovna tudo  olhar pela
vidraa do trem e atiar o cocheiro. Voam os cavallos, e ella a achar
que se no mexem. Aphanassi Matveich, alapardado a um canto, a repetir
mentalmente a lio. At que emfim a carruagem alcana a casa de Maria
Alexandrovna! Mas ainda bem a nossa heroina no tinha posto p no patim,
eis que v passar ao lado do seu proprio trem um trenl coberto, de dois
assentos, o trenl da Anna Nikolaievna Antipova.--Vinham n'elle duas
senhoras. Uma dellas  a propria Anna Nikolaievna Antipova, a outra a
Natalia Dmitrievna, duas amigas sinceras e recentes. Maria Alexandrovna
olha para ellas, e o corao d-lhe um bque. Ainda bem no abrira a
bocca para exclamar, eis que chega outra carruagem, com outra visitante.
Ouvem-se alegres exclamaes.

--Maria Alexandrovna com o Aphanassi Matveich... ambos no mesmo trem!
Feliz coincidencia! E ns que vinhamos passar a noite em sua casa!
Agradabilissima surpreza!

As visitantes galgam a escada a pipilarem que nem andorinhas, Maria
Alexandrovna contempla-as, estupefacta.

--E no vos tragar o cho! diz, l comsigo; cheira-me isto a conluio...
Pois sim!... vocs o que no tem  unhas para luctar commigo, minhas
amiguinhas!... Esperem um nadinha!...




XI


Mozgliakov sau de casa de Maria Alexandrovna, consoladissimo. No foi a
casa do Borodoniev, pois necessitava de estar ssinho. Sentia a cabea
atravancada de romanescos devaneios. Phantaziava a explicao solemne
com a Zina, o generoso perdo, scena melancolica no baile, l em
Petersburgo; Hespanha, o Guadalquivir, o principe no leito da agonia a
juntar nas proprias mos as mos dos dois amantes, e em concluso, o
amor d'uma mulher to formosa, vencido por tanto heroismo; por aqui e
por acol, um ou outro favor de alguma baronsa, ou condessa de alto
cothurno, n'aquella sociedade onde semelhante casamento lhe daria
certamente ingresso, um logar de vice-governador, dinheiro; n'uma
palavra, toda a eloquente descripo de Maria Alexandrovna. Mas, emfim,
como explicl-o?--Atravs de todos aquelles arrebatamentos eis lhe surge
o seguinte pensamento, algo desagradavel, que, em todo o caso, tudo
aquillo estava ainda em vl-o-hemos, e no momento actual, elle, com o
que ficara, fra com um nariz de palmo! De subito, nota que se alargou
demais pelo arrabalde menos central de Mordassov. Vem cando a noite.
Pelas ruas, ladeadas de pardieiros, ladram, como alis succede em
toda e qualquer cidade provincial, aquelles innumeros ces que
infestam de preferencia os bairros em que nada ha que guardar ou
que roubar. Derrete-se a neve. De vez em quando, topa-se com algum
_mestchanine_ retardado, ou com qualquer _baba_[14] enfunicada n'uma
tulupa e a arrastar umas botifarras. Tudo aquillo principiava a irritar
a Pavel Alexandrovitch: mau signal, visto como, quando uma pessoa est
contente, a tudo acha risonho. Pavel Alexandrovitch lembra-se com
despeito de que, at aquelle dia, era elle quem dava o tom em Mordassov.
Era recebido por toda a parte como um noivo, uma situao to
interessante, e felicitavam-n'o, e elle todo desvanecido. E eis que, de
subito, vinha a constar que se achava reformado; rir-se-hiam  sua custa
por toda a parte. E com tudo isso no  exequivel estar a iniciar toda a
gente ao segredo do tal baile de Petersburgo, da columna melancolica e
do Guadalquivir!

Triste e pensativo, acaba por formular este pensamento que secretamente
lhe faz sangrar o corao desde alguns instantes: "Mas tudo isto ser
verdade, realmente? Vir tudo a acontecer conforme m'o pintou Maria
Alexandrovna?" Occorre-lhe, n'aquelle ensejo, exactamente, que Maria
Alexandrovna  mulher arteira quanto possivel; que, apezar da estima
geral que disfructa,  uma enredadeira de respeito, que mente com o
maximo desplante, que  possivel que tivesse motivos particulares para o
afastar; que, emfim, o descrever um quadro seductor no compromete a
coisa nenhuma. Pensa na Zina, revca aquelle seu olhar de despedida to
pouco compativel com um desatinado amor. Lembra-se de que uma hora antes
foi tratado por ella na qualidade de asno--sem tirar nem pr. Ante uma
tal recordao, Pavel Alexandrovitch estaca de vez, como que pregado ao
cho, e ruboriza-se a ponto de lhe virem as lagrimas aos olhos. E como
que de proposito, d'ali a instantes, acontece um desagradavel incidente:
escorrega e estatla-se num monto de neve... Emquanto elle escabuja e
patinha, um bando de canzoada, que vinham atrs d'elle a ladrar, accodem
por todos os lados; um d'elles, o mais pequeno e mais atrevido,
aferra-se-lhe  aba da chuba. Pavel Alexandrovitch desenvencilha-se
dando ao diabo a cainada e o destino e, com a aba do casaco
esfarrapada e uma indefinivel tristeza na alma, l se vae arrastando at
 esquina da rua. Ali, percebe que vae perdido.

 sabido que um homem, quando se acha perdido em um bairro que lhe 
extranho, e muito mais de noite, nunca se resolve a meter a direito por
uma rua larga. Impelle-o, mau grado seu, um poder misterioso para toda a
casta de betesgas que topa a geito. Em harmonia com este sistema, Pavel
Alexandrovitch perde-se de todo. "Diabos levem tanta chimra!" exclama e
cospe com engulho. "Leve o diabo os sentimentos elevados e o tal
Guadalquivir!"

No me abalano a afianar, que Mozgliakov n'aquelle ensejo apresentasse
aspecto por demais seductor. At que emfim, extenuado, fatigado, em
seguida a haver andado a smo para cima de duas horas, alcana a
escadaria de Maria Alexandrovna. Fica espantado ao dar com os olhos em
tanta carruagem: "Tem visitas? Alguma _soire_? Com que inteno?"

Informado por um lacaio de que Maria Alexandrovna tinha carregado com
Aphanassi Matveich do campo, de gravata branca, que o principe j est
acordado, mas que ainda no desceu do quarto, Pavel Alexandrovitch, sem
dizer palavra, vae l acima ter com o tio. Acha-se n'aquella disposio
de animo em que um homem de caracter fraco se decide pela ideia de maior
malignidade, em favor da vingana, sem se lembrar de que vir talvez a
arrepender-se, durante toda a sua vida.

Sobe. D com os olhos no principe, sentado n'uma poltrona em frente do
seu toucador de viagem, com a carca  vela, mas com a cara j rebocada
e com as suissas e a pra postia j pegadas. O chin est entre mos do
edoso criado particular, Ivan Pakhomitch. Ivan Pakhomitch est a
pentel-o com modo absorto e respeitoso. O principe apresenta aspecto
lamentavel. No se acha ainda restabelecido d'aquella sua temulencia.
Enterrado na poltrona, a tosquenejar as palpebras, todo elle engelhado,
amarrotado, e a olhar para o Mozgliakov como se o no conhecesse.

--Como vae de saude, rico tiozinho? indaga Mozgliakov.

--Como? Ah! s tu? acaba por dizer o tio. Pois eu, manozinho, dormi a
minha somnca. Ai! meu Deus! exclama de subito, animadissimo. E eu que
estou sem o chi... chi... n... n!

--No se assuste, tiozinho! Eu ajudo-o a pl-o se quiser.

--Ora esta! E ahi ests tu senhor do meu segredo! Eu bem dizia que era
pr... preciso fe... fe... char a po... rta! Pois ento, meu amigo, vaes j,
j, dar-me a tua palavra de honra que... que, no has-de abu... sar do meu
segredo, e que no dizes, a nin... guem que  po... pos... tia a minha
cab... be... leira!

--Ora vamos, tiozinho, pois suppe-me capaz de semelhante vilza?
exclama Mozgliakov que deseja agradar ao ancio.

--Est, claro... est... c... laro, e como eu sei que s cavalheiro...
v... la... vaes fi... car espantado: vou te des... vendar de todo os meus
se... segredos--Que me dizes a estes bi... bigodes--m... meu caro?

--Um portento, rico tio, espantosos! Como  que os pode conservar do
mesmo comprimento, por tanto tempo?

--Socga, meu amigo... s... so postios, diz o principe a olhar muito
ufano para Pavel Alexandrovitch.

--Postios!?-- inacreditavel! E as suissas, ento? Confesse que as
pinta, tiozinho!

--No s as pin... into, como so postias e mais que... que pos... tias!

--Postias! Isso agora, tenha paciencia, o tio est a caoar commigo!

--Pa... lavra de honra, amigo! exclama o principe desvanecido. Ora pe na
tua ideia, que toda a gente... sem excepo--anda ill... udida, como tu. A
propria Stepanida Matveina no quer acreditar que o sejam, e olha que 
ella quem m'as pe. Mas tenho a certeza, meu amigo, de que me has de
guardar segredo--D-me a tua pa... palavra de honra...

--Conte desde j com ella, querido tio! Mas, insisto, suppe-me ento
capaz de semelhante vilania?

--Ai! meu amigo! Que tombo que eu apanhei! No fazes ideia! O Pamphili,
tornou-me a virar a car... a carruagem.

--Pois elle tornou a pregar-lhe outro tombo? Mas quando?

--Iamos ns quasi a chegar ao... mo... mos... teiro...

--J sabia, tiozinho!

--No, no  isso... se ainda no ha duas horas. Fui ao mo... mosteiro.
Foi elle que me levou... e pregou-me um tombo! Que susto que... que eu
apanhei! Ainda nem tenho o co... corao no seu logar.

--Mas o tio estava a dormir?

--Est... c... laro... estava a dormir... E vae... d'ahi fui...
vi... viajar... E d'ahi... d'ahi... talvez fosse... Ah! que coisa to
exquisita!...

--Afirmo-lhe que estava a dormir, tiozinho... que sonhou... Depois de
jantar ferrou-se a dormir muito socegado.

--De... devras?!

O principe ps-se a scismar.

--Sim... sim... effec... tivamente, talvez fsse. E d'ahi, lembro-me
muito bem do sonho... todo. Primeiramente, sonhei com um toiro muito
bravo... com uns pus!... Depois com um pr... ... curador... mas tambem
tinha p... pus!

--Havia de ser o Nikolai Vassilivitch Antipov, tiozinho.

--Est... claro... era elle... era... E depois tambem sonhei com
Na... napoleo... Bo... bo... naparte. No sabes, amigo, diz toda a gente
que n... nos parecmos?... De perfil... pelos modos... fao lembrar um
papa... muito antigo: Tu, que dizes?... Achas que te... terei ares de
papa?

--Acho que se parece mais a Napoleo.

--Est... c... laro...  assim... mesmo... de... de... frente. E d'ahi,
tambem d'isso estou conven... cido, meu caro. Vi-o em sonho, sentado l
na sua ilha... No sabes? A f... legar... muito contente... muito
lam... peiro!... Que graa que... eu lhe achei!

--Refre-se a Napoleo, tiozinho? indaga Pavel Alexandrovitch, todo elle
absorto, a observl-o.

Principiava a surgir-lhe na mente um estranho pensamento, sem que elle
pudesse formull-o com clareza.

--Est claro... Na... na... po... leo. Tivmos uma pa... palestra
filos... fica... No sabes? tenho pena de que os Inglezes lhe fizessem
aquillo que... que lhe fizeram...  verdade que se elles o no tivessem
en... gaiolado... atirava-se para ahi a to... toda a gente... aquelle
damnado! Mas com... apezar d'isso... foi pena!... Eu c... por mim no
era capaz de o fazer! Prega... va com elle n'uma ilha deserta...

--Deserta... ento para qu? perguntou, distrahido, Mozgliakov.

--Est... claro... De... deserta, no, mas habitada por gente com juizo.
E depois arranjava-lhe distraces... theatro, mu... musica...
ba... bailados e tu... tudo isso por conta do Estado. Dva-lhe licena
para passear... vi... vigiado... j se v... qu... quando no...
pi... pisgava-se... Elle gostava de uns certos blos... Pois bem!
faziam-se-lhe todos os dias... Tratava-o com pa... pater... nal carinho:
Elle... commigo... arre... pen... dia-se... di... digo... t'o eu.

Mozgliakov escuta distrahido a garrulice do vegte, a roer as unhas,
impaciente. Elle a querer desviar a conversa para o assunto do
casamento, e nem sequer sabe o motivo, mas referve-lhe l dentro uma
maldade, infame. De subito, eis que exclama o tio, muito espantado:

--Ai! meu amigo! E eu que me esquecia de t'o par... parti... cipar...
Sabers que fiz ho... je o meu pe... pedido!

--O seu pedido, tiozinho?... exclama Mozgliakov animando-se
acto-continuo.

--Est... c... claro... o meu pedido! J te vaes embora, Pakhomitch? Est
bem.  uma menina encanta... dora!... Mas confesso... amigo, que andei
com leviandade, estou-o per... cebendo agora... Ai! meu Deus!

--Mas, se me d licena, querido tio, quando  que fez esse tal pedido!

--Confesso, que... no... sei ao certo, qu... ando foi, amiguinho!...
Querem ver que... seria sonho, tam... tam... bem?... Que co... isa t... to
ex... quisita!

Mozgliakov estremece de contentamento... Accode-lhe uma ideia luminosa.

--Mas a quem, e quando  que fez o tal pedido? repete impaciente, j.

--... ... fi... lha da casa, meu amigo... quella... lin... da me...
nina! E d'ahi... esqu... ceu... me o nome. O peor, meu amiguinho... 
que no posso casar,... impos... sivel, meu amigo! Que hei de eu fazer?

--Pois decerto... semelhante casamento iria deitl-o a perder! Mas, uma
pergunta: Tem a certeza de haver feito o pedido?

--Est... claro... tenho a certeza... tenho...

--E se fosse sonho, como aquella sua quda da carruagem?

--Valha-me Deus!... E o c... caso  que  possivel... no tal sonho... E
o... peor  que e... eu j nem tenho cara para lhe apparecer... E no...
achas que se poderia saber... indi... recta... mente, se eu faria ou no
o tal pedido?

--Sabe o que lhe digo, querido tio? Que acho at escusado ir tirar
informaes.

--E... por-qu?

--Por que tenho a certeza de que tudo foi sonho, tambem.

--Tambem... me quer... parecer... m... meu ca... ro, e tanto... m...
mais que eu estou sempre a ter sonhos... assim.

--Ento j v, tiozinho... Faa de conta que beberia mais um copito ao
almoo... ou ao jantar... e ahi tem...

--Est... claro... amigo... foi isso foi,...  o que havia de ser.

--Tanto mais, que o tio, por mais influido que estivesse, nunca se iria
arriscar a fazer um pedido to disparatado. O tiozinho, desde que o
conheo, tive-o sempre na conta de um homem de muitissimo tino.

--Est... c... laro. Est... c... laro.

--Ora considre: ponha na sua ideia que os seus parentes, to mal
dispostos j, para com o tio, vinham a ter conhecimento do caso, que
acontecia?

--Ai! meu Deus! exclama o assustadissimo principe... que acontecia?... 
verdade!

--Ento, j v! Punham-se a berrar todos  uma que estava doido, que era
preciso nomear-lhe tutres, que o tinham embaado, e catrafilavam-n'o
para ahi em qualquer parte, guardado  vista.

O Mozgliakov estava farto de saber que o argumento ra de molde a deixar
espavorido o principe.

--Ai! meu Deus! exclamou o jarrta, todo elle a tremer...
engaiolavam-me?!

--Ora considre, tiozinho, passar-lhe-ia nunca pela cabea o ir fazer um
pedido to disparatado? O tio avalia muito bem os seus interesses!
Affirmo-lhe que foi sonho.

--So... nho, sim,  o que foi! So... nho... e mais nada! Ah! tu... 
que... que acertaste... com a coisa! E fico... te grato, muito grato...
por me teres con... vencido.

--E eu, contentissimo, tiozinho, por termos vindo  fala. Se no fosse
eu, o tio ficava acreditando que estava noivo, e procederia n'esse
sentido. Veja l do que se livrou!

--Est c... laro... me... livrei... dizes bem!

--Lembre-se de que est com vinte trs annos essa menina! No ha quem a
queira, e eis se no quando, apparece o tio, rico, nobre e vae pedil-a
em casamento! E ellas, j se v, apanham a plla no ar: affirmam a toda
a gente que o tio est noivo e impingem-lh'a em casamento. E em seguida,
pem-se  espera de que o tio se v indo desta para melhor.

--Que... me dizes!

--E depois, tiozinho...  l coisa que convenha a um homem da sua
jerarchia...

--Est c... claro! Jerarchia...

--To intelligente... to amvel...

--Est... c... claro... intelligente...  is... so... !

--E em concluso,  principe... Ser partido que lhe convenha,
porventura? Se  que, por qualquer motivo insiste em querer casar.
Lembre-se do que diriam os seus parentes.

--Ai, meu amigo, comiam-me em vida! Elles que j me no tm feito poucas
terrafi... as... aquelles des... almados! Ora imagina! Desconfio at
que... qu-rem pregar commigo n'uma casa... de... sa... sade! Ora,
dize-me, achas que se... ja razoavel? Que  que eu havia de fa... zer
numa casa de sade?

--Pois certamente, rico tio, e ahi est o motivo porque eu j o no
largo quando o tio fr l para baixo. Esto l visitas.

--Vi... sitas! Ai! valha-me Deus!

--No se assuste, tiozinho, eu vou com o tio.

--Sou-te m... muito obrigado... muito! F... ste a minha redempo! Mas,
qu... res que te diga, eu antes queria ir-me embora!

--Amanh, tiozinho, amanh, s sete horas da manh! Hoje, despede-se de
todos e declara que se vae embora.

--Ab... so... lu... tamente!... safo... me... ab... solu... tamente!...
vou para casa do padre Missail... Mas... meu amiguinho, e se ella casar
commigo contra minha vontade?...

--No lhe d cuidado, tiozinho, c estou eu. E demais, digam o que
disserem, responda sempre que foi sonho... o que  verdade, alis.

--Es... t... c... claro, sonhei!... Mas sempre te direi... meu a...
mi... miguinho, que foi um sonho delicioso!... Que for... mosura!  um
por... tento! E se... soubesses!... Com umas... frmas!

--Pois ento, at logo, tiozinho, vou indo l para baixo... E o tio...

--Ora... essa!... Ento para aqui me deixas?... exclama o principe,
assustado.

--No  isso, tiozinho, eu o que vou  indo adiante... no vamos juntos.
Primeiro eu, depois, o tio.  melhor assim.

--Est-c... laro... melhor. E eu, demais a mais, tenho que tomar nota
d'um pensamento... capital.

--Pois  o que deve fazer, tio, v assentando o seu pensamento, e
depois, no se demore, apparea, e conte que, amanh...

--Amanh, de manh, para casa do-arci-prste... sem fa-lta,... casa...
do ar... ci... ci... Magnifico! Mas olha que... ella  um por... tento de
formosura! Que... frmas! Se no houvesse outro remedio seno casar com
ella... eu... ento...

--Deus o livre de tal, querido tio!

--Est claro!... livre... Est dito! at j, meu amigo! Eu no tardo l.
 s tomar no... ta... A proposito,... e... ago... ra me lembra que te
queria perguntar... se... j... j tinhas lido as _memorias_ de Csanova?

--J, tiozinho... Mas por qu?

--Est... c... claro--Por qu?--Mas... deixa l... j me no lembro do
que  que te queria dizer.

--Depois se lembrar, tiozinho, at logo.

--At logo, amiguinho, at logo...--Mas que foi uma... delicia... o tal
sonho... l isso foi!




XII


--Vimos vl-a todas, todas! A Prakovia Ilinicha no tarda por ahi! A
Luisa Karbovna tambem queria vir, pipila a Anna Nikolaievna dando
entrada na sala e a inspeccionar tudo em redor com uns olhos de
bisbilhoteira.

 uma mulherzinha, bonitinha, veste com riqueza, mas com umas cres
espalhafatosas, e com presuno na sua boniteza. Fareja-lhe que o
principe deve de estar alapardado n'um cantinho qualquer e mais a Zina.

--E a Katerina Petrovna tambem no deixa de apparecer, accrescenta
Natalia Omstrievna, mulhero com propores de colosso  qual tem
reduzido o pso os jejuns e dando ares de um granadeiro.

Traz um chapelinho, minusculo, cr de rosa, pespegado na nuca. Ella, vae
em trs semanas,  a mais intima amiga da Anna Nikolaievna, de quem ella
anda atrs, ha muito tempo, e a quem se pudesse nem a pelle lhe deixava.

--O alegro que ambas me deram em vir passar a noite commigo, nem ha
palavras que o possam exprimir, cantarla Maria Alexandrovna, um tanto
refeita j da instantanea surpreza. Mas no me diro a que feliz acaso
devo o prazer?... Nem contava, j, com semelhante honra!

--Valha-me Deus! Maria Alexandrovna, no seja m! diz muito aucarada a
Natalia Dmitrievna, com voz de pipa, e tregeitos, toda ella--o que
estabelecia curiosissimo contraste com o seu exterior.

--Mas minha querida, pipila Anna Nikolaievna, precisamos concluir os
arranjos do tal theatro. Ainda hoje o Petre Mikailovitch disse ao Kalist
Stanislavitch que est contrariadissimo por no terem corrido bem as
coisas, e porque andassemos a jogar as cristas. E como succedesse
ajuntarmo-nos todas quatro, dissmos comnosco: "E se ns fossemos ter
com a Maria Alexandrovna a ver se levamos a cabo este negocio?" A
Natalia Dmitrievna passa palavra s outras, e cem aqui todas. D'este
modo poderiamos chegar a um accordo e as coisas entravam no seu curso
regular.  para que no digam que apenas sabemos andar  unhada, pois
no  assim, meu anjo? accrescentou dando um beijo a Maria Alexandrovna.

Valha-me Deus! Zinaida Aphanassievna, est cada dia mais linda!

Anna Nikolaievna atira-se  Zina e prega-lhe um beijo.

--Mas se a menina no tem outra coisa que fazer a no ser o ir
embellezando dia a dia, affirma com affectada amabilidade Natalia
Dmitrievna a esfregar as mos.

--Demonios as levem! E eu que nem sequer j me lembrava do tal theatro!
Sim, senhor, estas pgas tem apurado a malicia! murmura Maria
Alexandrovna fula de raiva.

--E tanto mais, meu anjinho, accrescenta Maria Nikolaievna, que o nosso
querido principe se acha hospedado em sua casa. Bem sabe que no ha
_pomietok_ de Dukhanova, de paes a filhos, que no tenha tido um
theatro. Tommos informaes e vimos a apurar que existe algures um
armazem atulhado de scenario velho, e um panno, e fatos, at. O principe
esteve hoje em minha casa, mas se quer que lhe diga, fiquei to
assarapantada com a visita, que de todo me esqueceu tocar-lhe em
semelhante coisa. Agora, comtudo, tencionamos conversar com elle a esse
respeito; ha de ajudar-nos, e o principe no deixar de dar as suas
ordens para que nos remetam toda essa cangalhada. Pois a quem haviamos
de encommendar por aqui coisa que se parea com uma vista de theatro? E
d'ahi, queremos que o principe em pessoa participe da nossa empresa. 
necessario levl-o a subscrever:  para os pobres. Quem sabe se elle se
no encarregar, at, de qualquer papel;  to condescendente, to dado!
Correria tudo s mil maravilhas.

--Pois j se v, que acceita um papel! Tanto mais que nada ha mais facil
do que induzil-o a desempenhar seja que papel fr, accrescenta
significativamente Natalia Dmitrievna.

Anna Nikolaievna no tinha enganado Maria Alexandrovna. Vo chegando de
instante para instante senhoras. Maria Alexandrovna quasi que nem tem
tempo de se levantar para recebl-as e de proferir as exclamaes da
praxe em semelhantes casos, exigidas pelas conveniencias.

No me afoitarei a descrever uma por uma as visitantes. Direi apenas que
cada uma d'ellas desfecha insidiosa olhadella para a dona da casa. Todas
ellas denunciando na fisionomia vida impaciencia. Entre as nobres
damas, mais de uma, at, concorria ali na espectativa de presencear a
qualquer escandalozinho extraordinario: ficariam desconsoladissimas se
se no dsse o dito escandalo. Exteriormente, desfaziam-se em
amabilidades, Maria Alexandrovna porm estava armada para a lucta.
Choviam perguntas a respeito do principe, naturalissimas todas ellas, na
apparencia, mas por detrs de todas l estava uma alluso.

Serve-se o ch. Sentam-se todas  msa. Apodera-se do piano um grupo,
Zina, ao convite de tocar ou de cantar, responde, muito sca, que se
acha incommodada. A pallidez do rosto abona-lhe alis a veracidade.
Segue-se um tiroteio de perguntas simpticas, e isso mesmo d motivo
para uma alluso.

Indagam noticias  crca de Mozgliakov,   Zina que so dirigidas.
Maria Alexandrovna no tem mos de medir: acha-se presente a um tempo em
cada canto da sala, ouve tudo que dizem as visitantes, supposto sejam
mais de dez. Responde a quanta pergunta lhe dirigem sem ter necessidade
de remexer as algibeiras  procura de palavras. Est toda ella a tremer
com o sentido na Zina, e muito admirada por esta no sair da sala,
conforme  seu costume em taes occasies. Notam tambem a presena de
Aphanassi Matveich. Por via de regra fazem escarneo d'elle para
melindrarem Maria Alexandrovna na pessoa do marido. Hoje, porm, tudo 
quererem sacar as palavras do bucho ao to singelo e franco Aphanassi
Matveich. Maria Alexandrovna, inquieta, no tira os olhos do marido,
collocado em estado de sitio.

Elle, responde a todas as perguntas: Hum! com uns modos to entalados e
pouco naturaes que  de uma pessoa se derramar.

--Maria Alexandrovna, no ha quem saque uma palavra a Aphanassi
Matveich! exclama uma caapa de uma dama com uns olhos vivos e uns ares
de intrepidez, como quem no tem medo seja de quem fr, e se no
atrapalha com coisa nenhuma. Veja se lhe diz que seja mais delicado com
as senhoras.

--Ainda estou para saber o que  que elle ter hoje, responde Maria
Alexandrovna, toda ella sorrisos e interrompendo a sua palestra com a
Anna Nikolaievna e com a Natalia Dmitrievna. No est nada expansivo;
aqui estou eu que ainda no fui capaz de lhe ouvir uma palavra. Por que
 que no respondes  Felissata Mikhailovna, Athanasio?--Que foi que lhe
perguntou, Felissata Mikhailovna?

--Mas... mas... minha mezinha... tu no me recommend... encta Aphanassi
Matveich assarapantado, desnorteado.

N'este ensejo, est espcado ao p do fogo acso, com o dedo pollegar
enfiado no bolso do collete, em atitude pinturesca e a chuchurrebiar o
seu chzinho.

Atrapalham-n'o as perguntas das senhoras, pe-se crado qual candida
donzella. Porm, ainda bem no encetara a propria justificao, eis que
topa com uns olhos to irritados da consorte furibunda que fica
petreficado de terror. Sem saber o que ha-de fazer e desejoso de
remediar a asneira, e reconquistar a estima de Maria Alexandrovna,
engole um golo de ch, mas o ch est a ferver, Aphanassi Matveich
escalda-se, engasga-se, toma-se de um froixo de tosse, e pisga-se da
sala para o quarto, deixando banzada toda a assembleia. Perceberam tudo,
e Maria Alexandrovna nem pe em duvida o estarem cabalmente informadas
as suas visitas, e o haverem-se congregado em sua casa com intuito
malevolo.

 perigosa a situao. Podem muito bem obrigl-o a descoser-se,
enredl-o na propria presena da mulher. So capazes, at, de carregar
com o principe e de o malquistar com Maria Alexandrovna... Em summa,
cumpre contar com o peor.

A sorte reserva  nossa heroina ainda outra prova. Abre-se a porta, e d
entrada o Mozgliakov, a quem ella suppunha em casa de Borodoniev. A
previdente senhora estremece como se o que quer que fosse lhe houvera
trespassado o corao. Mozgliakov pra nos umbraes da porta, um tanto
intimidado, e pe-se a examinar a assembleia. No consegue dominar o
sobresalto a ler-se-lhe no semblante.

--Ai, meu Deus! Pavel Alexandrovitch! exclamam diversas vozes.

--Ai, meu Deus! Mas  o Pavel Alexandrovitch!

--E a senhora a dizer-nos, Maria Alexandrovna, que elle a estas horas
devia estar em casa do Borodoniev?

E a dizerem que estava escondido, Pavel Alexandrovitch, l em casa do
Borodoniev, ladra Natalia Dmitrievna.

--Escondido? repete Mozgliakov com sorriso contrafeito.  um tanto
exquisita a expresso! Queira perdoar, Natalia Dmitrievna, eu no me
escondo nem tenho motivos para me esconder seja de quem fr, accrescenta
vibrando significativo olhar a Maria Alexandrovna.

Estremece Maria Alexandrovna.

--"Ora esta! querem ver que se insurge tambem este bonifrate? diz
comsigo, a examinar Mozgliakov. No faltava mais nada!"

--Ser verdade. Pavel Alexandrovitch, que est reformado... das suas
funces?--arrisca a atrevida da Felissata Mikhailovna, a olhar para
elle, ironica.

--Reformado? Reformado de qu?

Fui apenas transferido; tenho o meu logar l em Petersburgo, responde
com secura Mozgliakov.

--Ainda bem! E desde j o felicito; continua a Felissata Mikhailovna.
Tivemos um susto por sua causa, quando nos disseram que andava a ver se
arranjava um logar em Mordassov. Que, logares, por aqui, so pouco
estaveis. Pavel Alexandrovitch, de um dia para o outro apanha-se uma
demisso.

--A no ser que se trate de um logar de _utchitel_, para ahi em qualquer
escola communal... Esses tm ferias... observa a Natalia Dmitrievna.

 to transparente a alluso, to grosseira, que  propria Anna
Nikolaievna assoma-lhe o rubor s faces e pega s cotoveladas  peste da
amiga.

--Persuadem-se ento que Pavel Alexandrovitch seria homem para marchar
nas piugadas de um reles _utchitel_? insiste a Felissata Mikhailovna.

Pavel Alexandrovitch, sem saber o que ha de dizer, volta costas e d de
rosto com Aphanassi Matveich de mo estendida para elle. Mozgliakov,
alvar, no acceita a mo do conselheiro e faz-lhe rasgada contumlia,
com pretenes a ironica. Acerca-se da Zina e, mirando-a a fito,
socina-lhe:

-- a culpada de tudo isto... mas espere, e ainda esta noite, ver se eu
sou, ou no sou um asno!

--Esperar, eu?--Como se j se no estivesse vendo o sufficiente! retruca
a Zina muito de rijo, a medir com uns olhos desdenhosos o
recem-rejeitado.

Mozgliakov precipita a retirada, espavorido pela expanso vocal da
donzella.

--Vem de casa do Borodoniev? resolve-se por fim a perguntar Maria
Alexandrovna.

--No; venho de estar com meu tio.

--Com seu tio?--Esteve com o principe?

--Ai meu Deus! Com que ento o principe j est acordado? E a dizer-nos
que estava ainda recolhido, acode Natalia Dmitrievna a enterrar pelo
cho abaixo Maria Alexandrovna com uns olhos em que transluz odio e
triunfo.

--No lhe d cuidado o principe, Natalia Dmitrievna, replica o
Mozgliakov; est acordado, e, graas a Deus, recuperou as suas
faculdades. Tinha bebido uns copitos a mais, hontem, em sua casa, e
acabaram aqui de o toldar de todo; de modo que se lhe tinha varrido
completamente o tino. Bem sabe, que est um tanto fraco de cabea.
Agora, comtudo, eu e elle tivemos uma conversa, e est com o juizo no
seu logar. No tarda por ahi, meia hora, Maria Alexandrovna, para lhe
dizer adeus, e lhe dar os agradecimentos pela sua franca hospitalidade.
Logo de madrugada vamos at  Charneca, tenciono acompanhl-o at
Dukhanovo, a vr se lhe evito para ahi algum tombo, como aquelle que
hoje apanhou. Voltar a collocar-se ao abrigo do broquel da Stepanida
Matveivna, que a estas horas j deve ter regressado de Moscou, e lhe
no tornar a consentir o expr-se outra vez aos riscos de uma jornada,
isso lhe asseguro eu!

E o Mozgliakov, maligno, a examinar Maria Alexandrovna, embatucada e
estupefacta.

(Psa-me o ter de confessar que, pela primeira vez na sua vida, sente
medo a nossa heroina).

--Retira-se manh! Mas ento... como assim? indaga de Maria
Alexandrovna a Natalia Dmitrievna.

--Como assim? repete Anna Alexandrovna, pasmada.

--Como assim? effectivamente, coam outras vozes. E ns a julgarmos
que...  extraordinario, na verdade.

A dona da casa nem atina sequer com o que ha de dizer. Eis que, de
subito,  attrahida a geral atteno por um episodio da mais
extraordinaria excentricidade. Ouve-se, na saleta contigua, um alarido
de vozes, de exclamaes, e rompe por ali dentro a Sofia Petrovna
Karpukhina.

A Sofia Petrovna  sem discusso possivel a mulher mais original em toda
Mordassov;  original a ponto que tiveram que a excluir da sociedade. E
cumpre advertir que ella, regularmente, s sete horas, despacha a sua
merenda, e que depois de a despachar fica sempre n'uma disposio de
espirito... mais que muito emancipada... para no irmos mais longe. E 
n'esse estado, exactamente, que ella effectua em casa de Maria
Alexandrovna to inesperada appario.

--E esta! Com a senhora  sempre assim, Maria Alexandrovna! berra ella
estrugindo a tudo: isto ser modo de proceder para commigo?!... No se
assuste, vim aqui de corrida, nem me sento, sequer. Vim de proposito
para saber se  verdade aquillo que me disseram. A senhora a dar bailes,
banquetes e n'este meio tempo, a Sofia Petrovna para ali a um canto, em
casa, a concertar as meias! A senhora a ajuntar em sua casa a cidade em
peso, menos a mim! Commigo, d'antes, tudo era: minha amiguinha, meu
anjo,--quando lhe conveio saber o enredo que a Natalia Dmitrievna a seu
respeito e do principe andava a tecer, e vae seno quando, a Natalia
Dmitrievna, de quem a senhora--hoje mesmo--como ella alis diz da
senhora--disse cobras e lagartos--est para ahi amesendada na sua
_soire_! No se assuste, Natalia Dmitrievna, passo muito bem sem o tal
seu chocolate de dois kopeks cada pau. Eu, quando me appetece beber seja
o que fr, l em minha casa no falta, graas a Deus; tomra a senhora!

--Bem se v! observa a Natalia Dmitrievna.

--Ora vamos, Sofia Petrovna, exclama Maria Alexandrovna, afogueada de
despeito, que  que tem? Socegue!

--No lhe d cuidado a minha pessoa, Maria Alexandrovna, estou sciente
de tudo, de tudo! guincha com a voz de pipia a Sofia Petrovna,  qual
fazem crco as visitantes, que no cabem em si de contentes com o
escandolozinho. Estou informada de tudo e foi l a sua Nastassia quem
m'o pespegou, tim-tim por tim-tim! A senhora pregou uma camoca ao tal
principe e tanto apertou com elle, at que lhe pediu em casamento a sua
filha--que j nem tem quem a queira! E a senhora a ver-se j toda
emproada, a julgar-se uma duqusa, com manto e tudo.--Pfu-u! No cuide
que me mete mdo! Tenho visto muitas duqusas e aqui onde me v sou
coronela! Ah! A senhora ento nem sequer me convidou para a bda!--C
por mim, escarro-lhe em cima!--Tenho muito com quem me dar, tomra a
senhora. O ponto est que eu queira! V ouvindo: Hontem jantei eu com a
princesa Zalikhvatskaia, e por signal que at o commissario principal, o
Kuropchkine, me pediu em casamento. Estou-me ninando para o tal seu
_salsifr_.

Pfu-u! Arreda!

--Escute, Sofia Petrovna, responde Maria Alexandrovna fora de si, fique
sabendo que assim ninguem se atreve a pr p numa casa decente;... e
n'esse seu estado, de mais a mais!... Se me no favorece desde j com a
sua ausencia... obriga-me a appellar para...

--Bem sei, chama os criados para me prem no olho da rua? No lhe d
cuidado, sei muito bem o caminho. Adeuzinho! Case l a sua filha com
quem muito bem quiser. E a senhora, Natalia Dmitrievna, escusa de se rir
 minha custa: eu c, ao tal seu chocolate, s se lhe cuspir dentro!
Ella convidava-me l! Isso sim! No, que l em minha casa no ha quem
danse o _kazatchok_ diante de principes! E l a senhora, tambem, Anna
Nikolaievna, de que  que se est a rir? O seu Suchilov partiu indagora
uma perna: e l o levaram em charla para casa--ha de-lhe fazer falta,
j se v! Pfu-u! E a senhora, Felissata Mikhailovna, se no avisa
aquelle calcanhar rachado do seu Matvehka que, se torna a consentir que
a sua vacca esteja todo o santo dia aos brros debaixo da minha janla,
parto-lhe as pernas, ao tal seu Matevchka! Adeuzinho, Maria
Alexandrovna! A bom intendedor, o resto j se sabe! Sade!

Pfu-u!

Some-se a Sofia Petrovna. Desata toda a gente  gargalhada. Maria
Alexandrovna ficou entupida de todo.

--Estou em dizer que beberia a sua pinga, diz a Natalia Dmitrievna,
muito de mansinho.

--Se j se viu semelhante desaforo;

--Abominavel criatura!

--Se quer ao menos fartmo-nos de rir!

--Que chorrilho d'inconveniencias!

-- ella abrir a bca!--Passa fora!

--Mas que queria ella dizer com as taes bdas? indaga em ar de mofa a
Felissata Mikhailovna.

-- temivel! exclama Maria Alexandrovna. E so uns monstros d'este
calibre que andam para ahi a desacreditar a toda a gente, com a estupida
linguarice! E sabe o que lhe digo, Felissata Mikhailovna,  que me no
admira, que umas fufias assim sejam recebidas na nossa sociedade,
quando, o que  ainda mais para admirar, ha gente que a ellas recorra,
que lhe d ouvidos, e que lhes d credito... cambada!...

--O principe! O principe! gritam  uma.

--Valha-me Deus! O principe!

--Graas a Deus! At que emfim vamos ficar sabendo a verdade.




XIII


Entra o principe, dilatados, os labios por aquelle seu meigo sorriso. A
inquietao insuflada pelo Mozgliakov n'aquelle descuidado corao
desapparece de todo, ao dar com os olhos nas damas: derrete-se desde
logo que nem um rebuado.--Elle, em geral, entretem muitissimo o bello
sexo. A Felissata Mikhailovna affirmava, at, esta manh, por
brincadeira, j se v, que estava pronta a sentar se-lhe nos joelhos, se
elle quisesse, pois era "um encanto de um ginjinha, um encanto nunca
visto, at." E Maria Alexandrovna sem tirar d'elle os olhos, a
estudl-o, tentando prever-lhe no semblante o desfecho de to critica
situao.  evidente haver o Mozgliakov comprometido gravemente o
negocio e o estar um tanto vacilante a emprsa. E no obstante nada se
pode ler no rosto do principe... est, como sempre, insipido e
encantador.

--Ai, meu Deus! At que ahi vem o principe! E ns todos  sua espera!
exclamam diversas damas.

--Com impaciencia, principe, com impaciencia, pipilam as restantes.

--Li... son... son... jeia... me... sum... ma... mente, diz o principe
sentando-se  msa defronte do samovar a ferver.

As damas atrigam-se em fazer-lhe cerco. A Anna Nikolaievna e a Natalia
Dmitrievna so as unicas que se deixam ficar ao p de Maria
Alexandrovna. Aphanassi Matveich sorri, respeitozissimo. Mozgliakov
sorri tambem a olhar com uns ares de provocao para a Zina a qual, sem
fazer caso delle, se acerca do pae e se senta ao lado d'este n'uma
poltrona.

Ah! principe--sempre  verdade que se retira? indaga a Felissata
Mikhailovna.

--Est c... claro... minhas senhoras, retiro-me; vou... im... me... diata..
mente para o estrangeiro.

--Para o estrangeiro, principe!

--Para o estrangeiro! clama toda a gente em cro. Que ideia!

--Pa... ra o est... est... rangeiro, affirma o principe, a tomar atitudes,
e n... no sabem?--eu se vou ... ... por causa das taes... ideias novas.

--Como assim? As ideias novas?

--De que  que se trata? perguntam as damas a olhar umas para as outras.

--Est... c... laro!... As ideias novas! insiste o principe com uns modos
de intima convico; vae l toda a gente, agora, por causa das ideias
novas, e eu se vou ... com... o sentido tambem de me sa... turar.

-- capaz de estar com o sentido em ir filiar-se por l em alguma loja
maonica? intervem o Mozgliakov desejoso de fazer brilhar o seu espirito
na presena das damas.

--Est... c... claro, meu amigo, no t'enganas. Eu, em tempos, pertenci,
effectivamente, a uma loja manica. Animavam-me, at, umas ideias,
muitissimo generosas... Propunha-me a fazer muita coisa... em... em
favor da... in... instruco... mo... moderna. Queria dar carta...
de... al... fo... forria ao meu Si... do... dor, mas safou-se antes de
tempo, com grande es... panto da minha parte. Que lemb... rana to
ra... tona! Depois, um dia, encontrei-o cara... a... cara... l em Paris,
vestido como um dandy, com umas suissas,... a passear pelo
bou... levard... com uma "_menina_". Acenou-me com a cabea... e mais
nada. E a tal _menina_, que levava p... pelo brao tinha uns ares to
agai... atados... to ape... titosa.

--O tiozinho, ento, d'esta vez, em se apanhando em Paris, d a
liberdade aos servos todos, sem excepo?

--Est..., c... claro... adivinhste-me o pensamento, meu c... caro. 
tal qual... quero dar liberdade a to... dos elles.

--Ora vamos, principe, safam-se-lhe todos de casa, e depois, quem  que
lhe paga o dizimo? exclama a Felissata Mikhailovna.

--Pois j se v, que se safam, acode, inquieta, Anna Nikolaievna.

--Ai, meu Deus! Que me diz? Ento parece-lhe que o faam?

--Safam-se, safam-se, pudera no... To certo! E o senhor, depois, v-se
ssinho, confirma a Natalia Dmitrievna.

--Ai! meu Deus! Visto isso... ento n... no lhes dou... al... for...
ria! E d'ahi, eu dizia isto... por dizer.

--Antes assim, tiozinho.

Maria Alexandrovna, at agora, tem estado calda a observar. Parece-lhe
que o principe se esqueceu d'ella, totalmente, e no acha isso natural.

--Principe, enceta elevando a voz e com dignidade, peo-lhe licena para
lhe apresentar Aphanassi Matveich, meu marido. Veiu expressamente do
cantinho da sua aldeia, assim que soube que o principe se achava
hospedado em minha casa.

Aphanassi, todo elle sorrisos e a fazer papo. Afigura-se-lhe que acabam
de lhe enderear um cumprimento.

--Ah! Fol... go im... menso... Apha-anassi Matveich. D me licena...
est-me a parecer que... me lembro... do que quer que seja...
Aphana-assi Matvei... tch? Ah! sim! sim! Aquelle que estava no campo?...
Encantado! encantado! Quanto esti... imo... Meu amigo, exclama o principe
dirigindo-se a Mozgliakov... mas foi elle que... que... como se intende,
ento?... O marido l por fra... e a mulher... em... Sim, sim, l n'uma
cidade... e a mulher...

--Ah! principe,... isso pelos modos ha de ser: o _Marido l por fra_, e
a mulher _em Tvor_, o tal vaudeville, que uma companhia ambulante
representou l em casa o anno passado?

--Est c... claro, em _Tvor_, e... eu... sempre a esqu... qucer-me!
Encantado, encantado! Com que, ento,  o senhor? Quanto estimo
conhecl-o! diz o principe sem se erguer da cadeira, de mo estendida
para Aphanassi Matveich. E ento, como vae?

--Hum!...

--Est optimo, optimo! acode Maria Alexandrovna.

--Est... c... claro... bem se v... Com que, ento, vive sempre no
campo? Pois, senhor, estimo muito.--Mas que bochchas to cordas que
elle tem! E no faz seno rir!...

Aphanassi Matveich sorri e faz-lhe a sua vnia, a arrastar o p pelo
sobrado. E comtudo, assim que ouve a ultima observao do principe, no
se pode suster e desata uma gargalhada alvar. E imita-o toda a gente. As
damas soltam guinchos de alegria. A Zina, corrida, ruboriza-se e vibra
uns olhos coruscantes a Maria Alexandrovna, que se est comendo de
raiva.  tempo de desviar a conversao.

--Dormiu bem, meu principe? indaga com voz tranquilla, intimando ao
mesmo tempo, com uma olhadella vivaz, Aphanassi Matveich a que volte
quanto antes para o seu logar.

--Dormi op... ti... mamente... E, no sabem, tive um s... nho
deliciso, deli... ci... so!

--Um snho! Gsto tanto de que me contem snhos! exclama a Felissata
Mikhailovna.

--Tambem eu! accrescenta a Natalia Dmitrievna.

--Um s... nho... deliciso... repete o principe com meigo sorriso; mas
 segredo o tal snho.

--Como assim, principe? Nem sequer se pode contar? observa Maria
Alexandrovna.

--Um grande segredo! repete o principe.

Recrudesce a curiosidade.

--Mas, ento, deve de ser interessante, interessantissimo, exclamam de
todos os lados.

--No se me dava de apostar que o principe, no tal seu snho, estava de
joelhos aos ps de alguma beldade a fazer-lhe a sua declarao de amor!
exclama a Felissata Mikhailovna. Ora vamos, principe, confesse!
Confesse!... ento, meu rico principezinho da minha alma!

--Confesse, principe, confesse! exclamam por todos os lados.

E o principe deliciado, a escutar aquella gralhada. Lisonjeia-o a
supposio, e lambe-se todo, at.

--Comquanto seja um grande segredo, no tenho remedio seno confessar
que ma... madame, com grande espanto da minha parte, por pouco o no
adivinha de todo.

--Adivinhei! exclama com arrebatamento Felissata Mikhailovna. E ento,
principe,  preciso dizer-nos quem  essa tal belleza!

--Tem obrigao de o dizer!

--Achar-se-ha aqui?

--Diga, diga, meu rico principezinho!

--Principe... meu amorzinho! Diga! Morra depois, mas diga!

--Mi... nhas... senhoras! Minhas se... senho... ras, se insistem em
absoluto por que lh'o diga, apenas lhes po... derei desvendar uma coisa:
era a mais seductora, a mais virtuosa menina, de quantas... tenho
conhecido em minha vi... vida!

--A mais seductora... de quantas aqui esto? Quem ser? indagam entre si
as damas a trocarem signaes de connivencia.

--Com toda a certeza que deve de ser aquella que disputa a fama de ser a
primeira beldade de Mordassov, prorompe a Natalia Petrovna a bater as
palmas com aquellas manpolas cr de lagosta e sem tirar os olhos de
cima da Zina.

E toda a gente com os olhos pregados na Zina.

--Mas como , ento, que o principe, com uns sonhos assim, no se casa
por uma vez? indaga a Felissata Mikhailovna.

--Soubessemol-o ns, e que noivazinha lhe no teriamos arranjado!
affirma, d'ali, outra dama.

--Case-se! case-se, principezinho da minha alma--pipla uma terceira.

--Case! case-se!--guincham por todos os lados. Por que  que no ha de
casar?

--Est... c... claro... por que  que eu me... n... no hei-de casar?
acde o principe, atrapalhado.

--Tiozinho! exclama o Mozgliakov.

--Est... c... claro, meu amigo, j te percebi. O que eu queria
dizer-lhes, minhas senhoras,  que me no posso casar. Concluida esta
deliciosa _soire_, em casa da nossa amabilissima hospeda, amanh
tenciono ir at a charnca, e d'ali, para o es-trangeiro, quero ir
estudar a ins-tru-co euro-ro-pa.

A Zina est enfiada e vibra  me uns olhos rancorosos. Maria
Alexandrovna, comtudo, assentou n'uma resoluo. At agora, estava 
espera, a apalpar o terreno, supposto lhe parecesse achar-se
sufficientemente compromettido o negocio e haverem-se-lhe antecipado
seus inimigos. Percebe tudo, finalmente, e, de um golpe, quer acabar com
aquella hydra das cem cabeas. Ergue-se, majestatica, acerca-se da msa
a passo firme e com soberbo olhar enterra pelo cho abaixo aquelles
pygmeus que a rodeiam. Reluz-lhe nos olhos o fogo da inspirao. Vae
aniquilar aquella sucia de coscovilheiras peonhentas, esmagar aquelle
sevandija do Mozgliakov como quem esmga uma barata, e com um golpe
decisivo, reconquistar de todo a influencia que perdeu sobre a pessoa
d'aquelle idiota d'aquelle principe. Claro est que para isso ha mister
de appellar para um atrevimento extraordinario, mas no ser isso que
escasseie a Maria Alexandrovna.

--Minhas senhoras, enceta com modo solemne (Maria Alexandrovna nutre
paixo pela solemnidade), minhas senhoras, tenho estado a ouvir calada
as suas gracinhas e acho que j vae sendo tempo de que eu, pela minha
vez, lhes dirija algumas. Bem sabem que nos achamos aqui juntas,
unicamente por mero acaso. Estimo isso muito... Nunca me haveria
resolvido a tornar publico um to importante negocio de familia antes de
o exigirem os dictames do mais estricto decoro. E acima de tudo, pedirei
perdo ao nosso distinctissimo hospede. Mas quer me parecer que  elle o
proprio quem, mediante remotissimas alluses a semelhante circunstancia,
me suggere o pensamento de que a formal declarao d'este segredo lhe
ser grata, mas que ella lhe inspira apprehenses. No  verdade, meu
principe, que me no enganei?

--Est claro... no se enganou... e estimo muito... muito... diz o
principe sem perceber palavra d'aquillo de que se est tratando.

Maria Alexandrovna, no intuito de melhor dispr o seu lance, toma o
folego e pe-se a examinar todo o auditorio, todos  uma a escutl-a com
vida e inquieta curiosidade. O Mozgliakov, todo elle a tremer, a Zina,
muito afogueada, levanta-se... Aphanassi Matveich, n'estes assados,
assa-se.

--Sim, minhas senhoras, folgo immenso de as tornar participes d'este
segredo familial. Hoje, depois de jantar, o principe, seduzido pela
formosura de... pelas qualidades de minha filha... conferiu-lhe a honra
de lhe pedir a mo. Principe, conclue ella com um tremor na voz, querido
principe, no me deve querer mal por esta minha indiscreo. O auge do
contentamento, eis o que conseguiu arrancar-me do corao, um tanto
prematuramente, este segredo estremecido, e... qual ser a me que m'o
leve a mal? Nem encontro sequer palavras que descrever possam o effeito
produzido pela inspirada sada de Maria Alexandrovna. Ficaram todos
varados de espanto. As visitantes, que suppunham assustar Maria
Alexandrovna, deixando-lhe antever o estarem senhoras do seu segredo,
matl-a com a divulgao do segredo, esfacell-a com o poder unico das
alluses, ficam estupefactas perante uma to denodada franqueza. Uma tal
valentia era um signal certo de bom exito.

--Por conseguinte,  por sua propria vontade que o principe vae casar
com minha filha Zina. Ninguem o enganou, ninguem o embriagou... E por
tanto, no foi com esconderijos,  laia de ladro, que o obrigaram a
tomar estado! Maria Alexandrovna, n'essa conformidade, no se arreceia
seja de quem fr, e no ha ninguem que possa malograr este casamento.

Paira um borborinho que desde logo se transforma em jubiloso alarido. A
Natalia Dmitrievna arremete de braos abertos para Maria Alexandrovna,
segue-lhe o exemplo a Anna Nikolaievna, e a Felissata Mikhailovna vem na
trazeira do rancho. Pem-se todos de p, baralham-se. Das damas, algumas
ha que esto fulas de raiva. Pegam a dirigir parabens  Zina,
atrapalhada, e atiram-se, at, ao Aphanassi Matveich. Maria Alexandrovna
estende os braos com enfase, e  viva fora, quasi, agarra-se  filha
aos abraos a ella. To smente o principe, todo elle a rebulir, a
considerar esta scena, de olhos espantados. E d'ahi, agrada-lhe aquillo.
Ao ver a filha nos braos da me, saca, at, do leno e limpa o canto do
olho onde bugalhou uma lagrima. Atiram-se a elle, tambem, para lhe dar
os parabens.

--Parabens, principe, parabens! guincham por todos os lados.

--Com que ento  certo, sempre vae casar?

--Sempre se casa, effectivamente?

--Ora at que se casa, principezinho da minh'alma!

--Est... c... claro... est... c... claro! responde o principe, encantado
de semelhante enthusiasmo. Confesso-lhe que a sua simpatia me tocou o
corao... Nunca me ha... de esquecer! Encan... tado! Encan... tado!
Fizeram... me, at, vir as lagrimas aos olhos.

--Venha um beijo, principe! guincha mais que todas juntas a Felissata
Mikhailovna.

--E confesso-lhe... prosegue o principe, que fiquei pasmado por ver que
a nossa digni... ssima hos... peda, adivinhasse... com tanta
pers... picacia, um sonho to extraordi... nario, como se fosse ella...
que o sonhou... tal qual--Es... panto... sa pers... pica... cia.

--Ora esta! E o principe ainda a insistir no tal sonho?

--Ento, vamos, principe, confesse! clama o cro das damas a fazer-lhe
cerco.

--Deixe l, principe,  escusado estar com esconderijos,  tempo de
patentear o seu corao, declara em tom categorico Maria Alexandrovna.
No me escapou a fina alegoria, a delicadeza cavalheiresca, que se
revelam na forma discreta por que tornou publico o seu pedido. Sim,
minhas senhoras,  verdade, hoje ainda, o principe ajoelhou aos ps de
minha filha, e de modo real e verdadeiro, que no em sonho, formulou
solemnemente o seu pedido.

--Quan... to... ha de mais real... e nas m... msmas circunstancias,
appoiou o principe. Minha me... nina, proseguiu com summa delicadeza
dirigindo-se  Zina cada vez mais atrapalhada, juro-lhe que jamais me
atreveria a proferir o seu n... me, se acaso o no tivessem outros...
mencion... ado antes. Foi um sonho de... licioso... uma... de... licia de
um... sonho! E folgo immenso... em ter ensejo... de o manifestar Um
encanto!... Um encanto!

--Mas, como se intende isto? Elle insiste em se referir ao tal sonho!
murmura a Anna Nikolaievna dirigindo-se a Maria Alexandrovna, inquieta e
um tanto enfiada.

Mas, ai! O corao de Maria Alexandrovna est alanceado por tristissimos
presentimentos.

--E ento? murmuram as damas a olharem umas para as outras.

--Ora vamos, principe, profere Maria Alexandrovna com um sorriso
amarello, confesso-lhe que me deixou pasmada.--Admira-me que esteja a
insistir n'essa sorna do tal sonho! Eu at agora, estava na f, de que
fosse mro gracejo da sua parte... mas... se o , ha de convir, que se
vae prolongando um tanto fora de proposito... No posso nem devo admitir
que seja outra coisa alm de uma distraco...

--Deve de ser por distraco, efectivamente, assobia a Natalia
Dmitrievna.

--E... st... c... claro!... Di... distraco! repete o principe sem
perceber o que  que d'elle pretendem... Ora... ima... ginem, vou
contar-lhes uma anecd... ta. Fui convidado pa... ra assistir a um
enterro, em Petersburgo, n'uma casa burgusa, mas decente, e... e fiz
confuso... supps que era para festejar o nas... cimento de uma creana,
(o tal dia... nata... licio j l... ia, havia mais de uma semana)... e fui
comprar um lindo rama... lhete de camelias para a pessoa... fes... tejada.
Entro... e que hei de eu ver? Um su... jeito mui... to digno, de uma certa
edade, estendido em cima da mesa... Fiquei passdo, sem saber onde me
havia de meter e mais o meu ramo.

--Pois sim, principe, no se trata agora de anecdtas! atalhou Maria
Alexandrovna despeitadissima. Minha filha, louvado Deus, no tem
necessidade de andar  pesca de noivos, mas inda agora, o senhor, em
pessoa, ali ao p d'aquelle piano, a pediu em casamento. Ninguem o
obrigava... para mim propria foi uma surpreza... mas sou me, e ella, 
minha filha... Acaba de referir-se a um sonho; sempre estive na f de
que fosse uma alluso aos seus esponsorios... Sei e mais que sei, que o
viraram de dentro para fora--desconfio quem fosse--tal qual uma luva,
mas...--queira explicar-se, principe, e queira fazl-o quanto antes!
Semelhantes gracejos no tem cabimento n'uma casa respeitavel.

--E... st.. c... claro! No so brin... cadeiras para... uma casa
respeitavel, concorda o principe... inconsciente, mas um tanto inquieto.

--Ento, no me responde, principe! J lhe pedi que quisesse explicar-se
de modo peremptorio: confirme, confirme, desde j, diante de toda a
gente, o facto de haver pedido hoje minha filha em casamento.

--Es... t... c... claro... estou pronto a confirmar... Tanto mais, que j
lhes contei tudo, e Felissata Yako... kolevna adivinhou ca... balmente o
meu sonho.

--Sonho! Qual sonho!? exclama rabiosa Maria Alexandrovna; no foi sonho.
Foi realidade, principe, intendeu? Realidade e mais que realidade!

--Rea... li... dade... repete o principe erguendo-se da cadeira... Est-se
dando... tudo aquillo de que... tu me preveniste, accrescenta
dirigindo-se a Mozgliakov. Afirmo-lhe, Maria Alexandrovna... que ha
equi... voco da sua parte. Tenho toda a certeza em como foi sonho!

--Meu Deus! geme Maria Alexandrovna.

--No se afflija, Maria Alexandrovna, intervem a Natalia Dmitrievna; ao
principe, varreu-se-lhe da memoria... elle se lembrar.

--Isso nem parece seu, Natalia Dmitrievna! responde furibunda Maria
Alexandrovna. Isso so l coisas que se esqueam? Ora vamos, principe,
deixemo-nos de facecias! Dar-se-ha o caso de que esteja armando em
Lovelace? Mas, tenha a certeza, sem falarmos em que  pouco proprio da
sua edade, juro-lhe, que lhe no ha de valer! Minha filha no  para ahi
qualquer viscondessa francsa! No ha ainda muito tempo, lhe estava ella
a cantar uma romana e o senhor de joelhos a seus ps, a formular o seu
pedido de casamento.--Serei eu que estou a sonhar? Fale, principe...
Estarei a dormir, porventura?

--Es... t c... claro!... e d'ahi, talvez que no, responde o principe,
desnorteado de todo... Quero dizer... no creio... que estou a sonhar...
pre... sente... mente. Mas... no v a senhora... que eu, indagora,
estava a sonhar... e depois vi... em sonhos, que eu, a sonhar...

-- preciso paciencia, meu Deus!... Que quer dizer com isso? Em sonhos,
que eu, a sonhar! Nem o proprio demonio era capaz de o perceber!... O
principe estar a delirar?

--Est c... claro!... Nem o proprio demonio... E d'ahi... eu  que no
percebo uma pa... palavra, declara o principe a olhar para todos os
lados, inquieto.

--Mas como  que o principe pde ainda acreditar que  sonho, depois de
eu lhe ter contado os pormenores d'esse tal supposto sonho do qual o
senhor no tinha dado parte a ninguem?

--Mas quem nos affirma que o no tivesse j contado a alguem, insinua
n'este ensejo a Natalia Dmitrievna.

--Est... claro... a alguem, confirma o principe.

--Que comedia! murmura a Felissata Mikhailovna  vizinha.

--Ah! meu Deus! excede a humana paciencia! vocifera Maria Alexandrovna,
a estorcer as mos, no auge do exaspero. Se ella at lhe estava a cantar
uma romana; uma romana! Tambem a veria no tal sonho?

--Est... claro... effectivamente, uma romana, murmura, absorto, o
principe.

De repente, vem ressuscit-lo uma reminiscencia.

--Meu amigo, exclama dirigindo-se a Mozgliakov, tinha-me esquecido
dizer-te, indagora, que ella me tinha cantado uma romana... em que
havia uns cas... tellos... muitos... com um tro... vador... Est...
claro... recordo-me... e por signal... que at chorei... e agora nem sei
j, se seria realidade ou se foi sonho.

--Tiozinho, responde o Mozgliakov com a maxima tranquilidade que pde
assumir (com quanto lhe trema a voz) no me parece l muito grave a
dificuldade. Na realidade, no direi que no tenha ouvido uma romana,
canta to bem a Zinaida Aphanassievna! Acordar-lhe-hia reminiscencia dos
seus bons tempos de outrora, dos instantes ditosos, talvez que da tal
viscondessa com quem o tio cantava tambem, algum dia, romanas e  qual
se referiu esta manh. E depois, a dormir, sonharia talvez que estava
apaixonado e que tinha formulado o seu pedido de casamento.

Maria Alexandrovna fica atordoada com semelhante insolencia.

--Ai! meu amigo! effectivamente! Ha de ser isso! exclama o principe,
contentissimo. Sim, sim, a dor... dormir!... umas agrad... aveis
sensaes... Lembro-me da romana, e eu a querer casar... Um sonho! E
tambem ali estava a viscondessa... Ah! como tu desen... vencilhaste bem
tu... do isso... meu caro! Muito bem!  eu agora estou convencido:--era
um sonho, Maria Vassilievna! Affirmo-lhe que est... equi... vocada: foi
sonho!... eu... nunca seria capaz de estar gracejando... com a sua...
respeita... bilidade.

--Ah! agora, agora estou vendo quem foi o autor de tudo isto! exclama
fora de si Maria Alexandrovna com os olhos fitos em Mozgliakov. Foi o
senhor, o senhor! homem sem dignidade! Foi o senhor! Enganou este pobre
idiota para se vingar de ter apanhado um no pelas ventas! Mas tu m'as
pagars, miseravel! Tu m'as pagars, deixa estar!

--Maria Alexandrovna, vocifra por sua vez Mozgliakov, vermelho que nem
uma lagosta cozida, so to... as suas palavras... nem sei at que ponto
as suas palavras... uma senhora da sociedade jmais se permittiria...
Estou defendendo meu tio... e confesse que o querer seduzir de
semelhante modo...

--Es-t... c-claro--seduzir... seduzir... de semelhante... modo--mia o
principe, que se ergueu da cadeira e tudo  querer esconder-se por
detrs de Mozgliakov.

--Aphanassi Matveich--despulma-se a berrar Maria Alexandrovna, no
ouves que esto para aqui a desacreditar-me? Perderias tu o sentimento
dos teus deveres, porventura? No sers tu mais que um cpo? Para que
ests tu para ahi a piscar os olhos? Outro qualquer no teu logar tinha
j lavado com sangue o ultraje que nos esto fazendo!

--Minha esposa! enceta com solemnidade Aphanassi Matveich, lisonjeado
por ver que se lembram delle, minha esposa! no seria sonho,
effectivamente? E depois, tu, ao acordar, ficares suppondo que era
verdadeiro...

Aphanassi Matveich, nem tempo tem de concluir a sua espirituosa
interpretao. As visitantes, at ali, contiveram-se mantendo uns mdos
de corts hypocrisia, mas d'esta vez a risota foi geral.

Maria Alexandrovna, esquecendo de todo as conveniencias, atira-se ao
marido, para lhe arrancar os olhos, provavelmente; vem-se na
necessidade de a segurar  fora.

A Natalia Dmitrievna aproveita a circunstancia para entornar uma doze
d'alcatro no lume.

--Ah! Maria Alexandrovna, quem nos diz que no foi sonho,
effectivamente? emitte em voz represada.

--Um sonho? Um sonho o qu? clama Maria Alexandrovna sem perceber.

--Ento! Maria Alexandrovna, so coisas que acontecem.

--Acontece? Mas que  que acontece?

--Talvez que a senhora tenha visto tudo isso a sonhar!

--A sonhar! Eu? A sonhar! E atreve-se a dizer-m'o na cara!

--E d'ahi,  possivel, insiste a Felissata Mikhailovna.

--Est... c-claro!...  po... pos-possivel, murmura por sua vez o
principe.

--Pois tambem elle! Elle! Santo Deus! Maria Alexandrovna enclavinha as
mos.

--No se desconsole, Maria Alexandrovna! Lembre-se de que os sonhos 
Deus que os manda! No ha coisa nenhuma n'este mundo que possa ir vante
contra a sua santa vontade... nem  motivo para que se altere.

--Est... c-claro... no ha motivo...

--Cuidam talvez que sou alguma doida? consegue apenas silvar Maria
Alexandrovna esganada de raiva.

Encheu-lhe a medida s foras semelhante scena. Procura  pressa uma
cadeira e deixa-se cair, exanime.

Segue-se uma algazarra.

--Acudiu a tempo o chelique!

N'este conflicto, porm, eis que surge por entre a balburdia geral, a
intervir, uma personagem muda at ento, e se transforma desde logo a
feio da scena.




XIV


Era sobremodo romanesco o caracter da Zinaida Aphanassievna. No sabemos
se teria abusado da leitura daquelle "pateta do tal Shakspeare", l, com
o tal seu _utchitelzinho_, mas at agora ainda no havia praticado um
to heroico acto de loucura como o que praticou n'este conflicto.

Enfiada, com os olhos a relampejarem-lhe de resoluta, toda ella n'um
tremor, um portento de formosura e de colera, avana, varre com a
provocao nos olhos toda aquella gente em redor de si, e por entre o
silencio geral, dirige-se  me a qual, assim que a Zina se levantou,
tornou a abrir os olhos.

--Para que  estar com fingimentos, mam?  j to sujo, tudo isto a que
estamos assistindo! Basta de mentiras! No vale a pna estar a tapar
lama com a propria lama.

--Mas que  isto, Zina! Tu no ests em ti! exclama Maria Alexandrovna,
erguendo-se de repello.

--Eu bem a tinha avisado, mam, de que no podia supportar semelhante
vergonha! No estejamos a sujar-nos mais do que o estamos j!...
Assumirei a responsabilidade de tudo. Fui, eu, visto que consenti, que
teci toda esta vilissima... intrigalha. A mam estava na f de que
trabalhava com o sentido em me tornar feliz, sequer ao menos tem
desculpa: eu, nenhuma!

--Que vaes tu dizer, Zina! Bem me dizia o corao que me estava ainda
guardado mais este desgosto!

-- assim mesmo, mam! Vou declarar tudo! Nem sei como no morri de
vergonha... cobrimo-nos de opprobrio, tanto a mam como eu...

--Ests exagerando, Zina! Nem sabes o que ests dizendo! Contar tudo,
para qu?... No ha a minima necessidade... Quem se cobriu de opprobrio
no fmos ns, e vou provl-o!

--Deixe-me falar! No quero estar calada por mais tempo na presena de
uma gente que desprzo e que vieram aqui unica e exclusivamente para se
rirem  nossa custa. Entre estas mulheres, sem excepo, no ha uma
unica a quem assista o direito de me condemnar! Todas ellas esto
prontas a fazer cem vezes peor do que fizemos, eu, e a mam. Com que
direito poderiam ellas, com que direito se atreveriam a fazl-o?

--Ento! J viram?

--Quem n'a ouve falar!...

--Mas est nos offendendo!...

--E ella, sim, que ser?

--Ella sabe l o que est dizendo? remata a Natalia Dmitrievna. Seja
dito, entre parenteses, que a Natalia Dmitrievna no deixava de ter
razo. Se a Zina considerava aquellas damas indignas de julgar  me e a
si, por que era ento que se ia confessar na sua presena? Em summa, a
Zina tinha procedido com excessiva precipitao. E mais tarde, era esta,
at, a opinio das pessoas mais sensatas em Mordassov. Tudo se poderia
haver conciliado.  certo que Maria Alexandrovna, pela sua parte, se
havia prejudicado pela sua precipitao e sua altivez. Ter-lhe-hia
bastado meter a ridiculo o idiotazito do ginja e pl-o a andar. A Zina,
comtudo, de caso pensado e como que para arrostar com o bom senso e a
sisudez mordassovense, dirigiu-se ao principe.

--Principe, diz a Zina ao velho que desde logo se pe de p com
deferencia, a tal ponto o impressionou a fisionomia da Zina, queira
perdoar-nos, mas saiba que o enganmos!

--No te calars por uma vez! desgraada! vocifera Maria Alexandrovna.

--Minha--menina,--minha... menina... minha... en... en... cantadora...
murmura o principe, pasmado.

O caracter soberbo, fogoso e mistico da Zina leva-a a transpr quaesquer
limites. Esquece-se dos transes por que estar passando a me ante esta
publica confisso; s v a salvao, a redempo na franqueza, e vae at
ao fim.

--Enganmol-o, sim, uma e outra, principe; a mam resolvendo-me a
aceitar a sua mo, e eu em consentir. Embriagmo-nos, eu, puz-me a
cantar e a fazer tregeitos na sua presena com sentido em o saquear,
conforme se expressou ha pouco Pavel Alexandrovitch, para lhe roubar a
sua fortuna e o seu titulo. Era ignobil! E peo-lhe perdo! E comtudo,
juro-lhe, principe... que a minha inteno... O que eu queria era... mas
 duplicar a injuria o estar a procurar desculpas. E todavia,
declaro-lhe, principe, que se eu tivera casado com o senhor, se eu o
houvesse saqueado e roubado, em compensao, haver-me-hia tornado o seu
brinquedo, a sua criada, sua escrava... A mim propria m'o havia
prometido, e cumpriria o meu juramento...

Veiu interrompl-a um deliquio, as visitantes esto de p, todas ellas,
com os olhos esgazeados. A to imprevista quanto incomprehensivel
expanso (para ellas) da Zina desorientou-as. O principe, to smente,
tem os olhos arrazados de lagrimas, de commovido, supposto no perceba
metade sequer do que ella tem dito.

--Mas... es... t... claro... que hei de casar com a menina... com a
minha... l... linda menina, visto que tanto o... o deseja. E isso para
mim re... representa... at, subida hon... ra... Mas, no deixarei... de
insistir em que foi sonho!... Vejo tan... ta coisa, a so... sonhar! Por
que  que se ho-de estar a inquietar? Eu no percebi coisa nenhuma, meu
amigo, prosegue dirigindo-se a Mozgliakov; explica-m'o, se fazes favor!

--E o senhor, Pavel Alexandrovitch, que se vingou de mim de modo to
cruel, como  que pde combinar-se com semelhante gente para me
esfacelar desacreditando-me? Allegava amar-me!... Mas para que estarei
eu para aqui a prgar-lhe moral!... Sou mais culpada que o senhor,
offendi-o; tambem para com o senhor me vali de hyprocrisia, de mentira!
Nunca lhe tive amor, e se eu um dia me resolvesse a desposl-o, seria
unicamente para me ver livre d'esta maldita cidade... Mas declaro-lhe,
que se tal houvesse succedido, teria em mim uma esposa fiel e carinhosa.

--Zinaida Aphanassivna!

--E se ainda me conserva rancor...

--Zinaida Aphanassivna!!

--Se  que, algum dia, prosegue a Zina a rebalsar as lagrimas, se  que
algum dia me teve amor...

--Zinaida Aphanassievna!!!

--Zina! Zina! Minha filha!

--Sou um miseravel, Zinaida Aphanassievna, um miseravel, e nada mais!...

Produz-se um rebolio estupendo, uma vozearia de espanto, de indignao,
de atroar a tudo. Mozgliakov ficou que nem que fra de pedra, incapaz de
pensar, de falar.

Sempre que um caracter fraco e co, afeito a constante submisso, se
decide a insurgir-se, pra sempre perante um certo limite. A principio,
a insurreio manifesta-se com summa energia,  a energia do desespero,
comtudo; arremete contra os obstaculos, de olhos vendados, e assumme
sempre fardos pesados demais para os seus hombros. Chega um momento em
que o desatinado se assusta de si mesmo, estaca, como que atordoado, e
diz comsigo: "Mas que estou eu fazendo?" E distende-se o arco, pede
perdo o insurrecto, supplca, implora que as coisas "voltem a estar
como estavam", comtanto que isso se effectue quanto antes... Foi o que
se deu com o nosso Mozgliakov. Afflictissimo com o desastre de que fra
autr, a si proprio se abomina, despedaa-o o remorso, as ultimas
palavras da Zina anniquilaram-n'o de todo. O passar de um extremo a
outro extremo representa para si obra de momentos.

--Sou um jumento, Zinaida Aphanassievna! Um jumento, nem mais nem menos!
Ou ainda peor! Mas hei de provar-lhe, Zinaida Aphanassievna, que hei de
saber tornar-me um homem de bem!... Saiba que o enganei--tiozinho! Fui
eu, fui eu que o enganei!--O tio no estava a sonhar, e pediu
effectivamente a mo de Zinaida Aphanassievna! Quando lhe disse que fora
sonho, enganei-o de meio a meio...

--Mas que coisas to espantosas que esto vindo a lume! assobia a
Natalia Dmitrievna.

--Es... t... cclaro... um sonho... responde o principe... Mas socga, por
favor! Assustaste-me... pa... pa... lavra de honra! E que bella voz que tu
tens! Estou pronto a ca... sar, se f... fr... necessario... Mas tu foste
o pro... prio a af... firmar-me que... que foi sonho!

--E como  que eu agora o hei de despersuadir? Que hei de eu fazer?
tiozinho, considre em que se trata de um negocio muito srio, de
familia!

--Est... cclaro... Pen... sarei. Espera ahi! Deixa ver se me vou
recordando... por p... partes... Pri... meiramente, o Phio... philo, o meu
cocheiro.

--No se trata agora do Phiophilo, querido tio!

--Est... cclaro!.. No se trata... j se v... que era de Napoleo... E
depois, tommos ch... Appareceu uma se... senhora... e comeu-nos o
aucar... todo...

--No  nada d'isso, tiozinho, destampa para ali o Mozgliakov, fra de
si, quem lhe contou essa historia foi a Maria Alexandrovna, a respeito
da Natalia Dmitrievna! Eu estava ali, escondido, atrs da porta; ouvi
tudo!

--Ora esta, Maria Alexandrovna! agarra no ar a Natalia Dmitrievna, com
que ento foi pespegar ao principe que eu lhe tinha furtado o aucar?
Eu, ento, venho a sua casa para furtar aucar!

--Passa fora! mal encontra foras para emitir Maria Alexandrovna.

--No, l isso, tenha paciencia, Maria Alexandrovna, no lhe assiste o
direito de se negar a responder. Eu, ento, furtei-lhe o aucar? Estou
farta de saber que no faz seno cortar-me na pelle, ha muito tempo!...
Sou eu, ento quem lhe furto o aucar!...

--Mas... mi... minha senhora... isso de aucar... era sonho... o tal
sonho...

--Dorna d'uma figa! resmunga entre dentes Maria Alexandrovna.

--Eu lhe direi quem  a dorna! ulula a Natalia Dmitrievna. E a senhora,
que ser ento? Ha muito tempo que me pz essa linda alcunha! Mas,
sequer ao menos, tenho um marido, emquanto a senhora se contenta com um
cpo.

... Es... t... cclaro... Tam... bem me lembro da Dorna...

--Ah! elle  isso?... Tambem veiu meter a sua colherada?--Atreve-se a
injuriar uma senhora fidalga?! Com que, ento, sou uma dorna; olha quem
fala, que nem sequer tem pernas!

--Es... t... cclaro... Sem pernas...

... Como foi... que disse?

--Pois est sabido--nem pernas--nem dentes--Ora apanha!

--E um olho, s!... accrescenta Maria Alexandrovna.

--Um espartilho a suprir as costellas!

--Com a cara de mlas, toda ella!

--E nem um pello nessa careca!

--O proprio bigode,  postio, pateta das duzias, agrava Maria
Alexandrovna.

--Res... peitem--o meu na... nariz... sequer ao menos!  verdadei... ro!
exclama, o principe banzado de todo.--Fs... te... tu que me
de... nunciaste, meu amigo!

Para que fste contar que o meu--cabllo era--po... postio?

--Tiozinho!

--No, meu amigo, j aqui no posso ficar... leva-me para qu... alquer
parte... Que gente!

Para onde tu me trouxeste!... Valha-me Deus!

--Idiota! vocifera Maria Alexandrovna.

--Ai! meu Deus! suspira o coitado do principe. J nem sei porque seria
que aqui vim parar--mas vou ver se me lembro.--Leva-me d'aqui para
fora--mano! Faziam-me em bo... bocadinhos!--E depois,  urgente que eu v
anotar um... uma ideia... ca... capital.

--Venha d'ahi, querido tio, ainda estamos a tempo. Vem commigo ahi para
um hotel, qualquer, e no me aparto do tio...

--Mas... est... cclaro, com o senhor...

Adeus minha lin... da menina!

... A menina... e s a menina  a unica... que  virtuosa.  uma..
nobi... lis... sima donzella!

Vamos l... meu caro...

Ai! meu Deus!

No me abalanarei a descrever o epilogo da to desagradavel scena, que
se seguiu  retirada do principe. Os visitantes foram-se safando n'um
berreiro de estrugir a tudo. Maria Alexandrovna ficou ssinha, em meio
d'aquelle seu desastre. J  infelicidade! Podero, riqueza, gloria,
foi-se tudo no espao de um dia! Percebia e mais que percebia que nunca
mais levantaria cabea! A tirannia por ella exercida durante to longo
prazo sobre Mordassov estava aniquilada de todo. Que lhe restava? No
era filosofa, Maria Alexandrovna. Passou uma noite pavorosa.
Desacreditada a Zina, um nunca acabar de linguarice! _Hrror, hrror,
hrror!_ Na minha qualidade de historiografo sincero, cumpre-me
mencionar que Aphanassi Matveich esteve a tiritar toda a santa noite no
cubiculo, s escuras, onde se fra alapardar para conservao dos seus
olhos.

O dia immediato no amanheceu fagueiro: isto de desgraas vem sempre aos
pares.




XV


Desde as oito horas da manh que corria pela cidade um boato
inacreditavel. Repetia-o cada qual com maligno contentamento, conforme 
da praxe sempre que se trata d'algum escandalo do qual foi victima
qualquer pessoa d'amizade.

--Perder quelle ponto a vergonha!

--Rebaixar-se daquella maneira!

--Arrostar assim com todas as conveniencias!

--Que costumes!

Eis o que succedera:

Logo de manhanzinha, ahi pelas sete horas, salvo erro, entrava em casa
de Maria Alexandrovna uma pobre vlhita, afflictissima, a supplicar da
aia que fosse quanto antes accordar a _barichina_[15], mas esta, to
smente, s escondidas de Maria Alexandrovna. A Zina, assustada,
accudira desde logo. Cae-lhe de joelhos aos ps a velhota, aos beijos a
elles, a inundar-lh'os de lagrimas, a exorar-lhe que venha ver o Vassia.

--Passou to mal a noite! Suppe-se at que no chega ao outro dia!
Accrescenta a velha que foi o proprio Vassia quem manifestou desejos de
tornar a ver a sua amada, antes de morrer; e supplica-lhe em nome do
passado, e que, se ella se negar, morrer no auge do desespero!

A Zina despede por ali fora, sem dizer nada  me. Vae de corrida at o
extremo de um dos arrabaldes mais pobres de Mordassov. Ali, n'uma baiuca
muito velha e escalavrada,  qual suprem as janelas umas como que rchas
abertas nas paredes, n'um cochichlo muito baixo de tecto e fedorento,
meio atravancado com uma fornalha, jazia, em cima de uma camada de
taboas, cobertas com uma enxerga, delgada que nem uma folha de papel, um
mo, escondido debaixo de um capte todo elle farrpos. Tinha livido e
refegado o semblante, os olhos, a luzir com o fgo da fbre, as mos,
seccas e transparentes. Quasi que nem respirar podia; era o estertor.
Comquanto o houvesse desfigurado a doena, conservava retraos de
formosura. Triste espectaculo, na verdade, aquelle rosto de tisico, do
moribundo. A edosa me que, ainda hontem, acreditava na cura percebe
finalmente que vae em breve ficar ssinha n'este mundo. Com os braos
cruzados, olhos scos, para ali est, sem comprehender, sem poder
desviar a vista de cima do enfermo, aniquilada, perseguida pela viso da
cova, na terra fria do velho cemiterio atascado de neve.

No olha para ella o Vassia, irradia-lhe no semblante a ventura: at que
por fim v aquella a quem, vae n'um anno, durante aquellas suas eternas
noites de doente apenas viu em sonhos. Percebe que ella lhe perdoou,
visto que veiu, visto que lhe aperta as mos, visto que o contempla com
aquelles seus lindos olhos, a chorar e a rir ao mesmo tempo. Resuscita
de todo na alma do enfermo o passado: desperta-lhe dentro d'alma a vida
como se quisra tornar-lhe sensivel a que ponto  triste o ter que a
deixar.

--Zina! Zinotchka! No chores... no me estejas a lembrar que vou
morrer... deixa-me contemplar-te, pensar que me perdoste. Vou morrer
sem pensar que morro, at, beijando-te as mos... Ests to magrinha,
Zinotchka! Anjo querido, a bondade com que tu ests a olhar para mim!
Lembras-te do gosto com que te rias, d'antes? Ai! Zina! Eu j nem sequer
te peo perdo!... Nem quero lembrar-me do que aconteceu... eu  que m'o
no perdo, a mim proprio... E quanta noite sem poder dormir, Zina!
Quanta noite no levei eu a pensar, a recordar-me, a estalar, quasi, com
saudades!...  melhor que eu morra! Sou incapaz de viver, Zinotchka!

E a Zina, lavada em lagrimas, muda, a apertar nas suas as mos do seu
amado, como se quisra arrancl-o  morte.

--Ento, no chores! insistia o enfermo. Eu morrerei hoje, porventura?
Se ha tanto tempo que est morta a felicidade! s mais intelligente e
vales mais do que eu... bem sabes que valho menos do que tu, por que
ser que me tens amor? Bem sabes que te no mereo! Oh! quanto me no
tem feito padecer semelhante pensamento! Ah! querido amor, foi um sonho
a minha vida: no vivi, sonhei! E eu a desprezar a multido: e que
razes tinha eu para ser to soberbo? A purza do meu corao? A nobreza
dos meus sentimentos? Mas se tudo isso tinha apenas a consistencia dos
meus sonhos, nada mais, Zina!

--Basta! basta! Matas-me!

--No me interrompas, Zina!... Perdoste-me, bem sei: e ha j muito
tempo, talvez, mas avaliste-me e comprehendeste o que eu era, e  isso
que me atormenta. Sou indigno do teu amor, Zina! Fste sempre leal e
generosa; fste ter com tua me e declaraste-lhe o teu firme desejo de
casar commigo, ou com mais ninguem: e cumpriste a palavra dada, pois que
para ti, palavra e aco so uma e a mesma coisa! Ao passo que eu,...
eu! No sabes, eu at hoje no tinha comprehendido, sequer, a extenso
toda do sacrificio que fazias em ser minha mulher. E lembrar-me eu de
que tu, commigo, te arriscavas a morrer de fome! Mas se a mim parecia-me
que nada ha n'este mundo que se compare  honra de ser esposa de um
grande poeta... sem nome,...  certo! No quiz intender o motivo que
alegavas para retardar o nosso casamento. Tu a padeceres por minha
causa, eu a martirizar-te, a exprobar-te, a desprezar-te... at que por
fim te ameacei com aquella carta... Eu, n'esse instante, nem sequer
cheguei a ser um miseravel, mas sim um ente abjecto, e nada mais! Ah!
nem quero pensar at onde iria o teu desprezo! No, no!  bom que eu
morra! Obrigado por no haveres querido pertencer-me! Iriam correndo os
annos, e quem sabe se eu afinal no viria a ver em ti um tropo ao meu
porvir. Sim, antes assim! E agora, o amargor das minhas lagrimas, sequer
ao menos, purificou este meu corao. Ah! Zina! Concede-me um quinho no
teu amor, to smente, no teu amor de algum dia!--N'esta hora
derradeira, sequer ao menos! Sou indigno do teu amor, bem o sei! mas...
mas... mas... ai meu anjo!

E a Zina, desfeita em pranto, a escutar. Tentava interrompl-o, elle
porm, ia proseguindo... supplice, a gesticular, e aquella sua voz
debil... abafada e sibilante,... fazia mal  Zina...

--No me tiveras tu encontrado, e no me terias amado, e no morrias...
disse a Zina. Ah! Oxal nunca nos tivessemos encontrado!

--No, meu amor, no! No te estejas arguindo da minha morte! A culpa
foi minha, e s minha! O amor proprio... o romantismo!... Nunca te
contaram, Zina, a minha estupida historia? Existiu aqui, ha trs annos,
um prisioneiro, um miseravel, um ladro. Mas no dia em que chegou o
castigo, faltou-lhe o animo. Sabendo que no levam a justiar um
enfermo, alcanou uma garrafa de vinho, deitou-lhe de infuso tabaco e
enguliu-o. Tomaram-n'o uns vomitos que duraram tanto que principiou a
escarrar sangue e deu cabo dos pulmes. Levaram-n'o para o hospital e,
d'ali a dias, morreu tisico. Pois bem! Occorreu-me  memoria esse
ladro, no dia em que se deu aquelle caso da carta... E resolvi acabar
commigo da mesma maneira. E por que foi que eu, de proposito, escolhi a
tisica? Por que foi que me no enforquei ou me no deitei a afogar?
Seria porque me assustasse uma morte to abrupta? Talvez; mas a mim
quer-me parecer que concorreriam, e no pouco, para isso, as minhas
ideias romanescas. No me largava este pensamento: Que morte to bella
no ser a minha, estirado como agora o estou, n'uma cama, com o
estertor da tisica!... E tu, ao p de mim, a lamentar-me, e a padecer
com a ideia de que eras talvez a causa da minha doena! E eu a ver-te
entrar por ali dentro, arrependida, ajoelhar  beira do meu leito... E
eu a perdoar-te e a expirar nos teus braos!... Toleima, Zina, pois no
era?

--Esquece-te de tudo isso, nem me tornes a falar das tuas culpas, que tu
ests a exaggerar; lembrmo-nos dos momentos ditosos, dos dias de
ventura.

--No m'o perdo, meu amor, e  por isso que falo a semelhante respeito.
Ha j dezoito mses que te no via. Queria alliviar este meu corao!
Durante esse tempo todo, eu para aqui, ssinho, e no houve um s
instante, em que eu no pensasse em ti, meu amor. O que no desejaria eu
fazer para reconquistar a tua estima? At ao derradeiro instante no
acreditei que morria; no me entreguei  cama desde logo, andei a p,
por muito tempo, com o peito escangalhado. E que sonhos to ridiculos!
s vezes suppunha ser um grande poeta e em vesperas de publicar um poema
como ainda no tinha apparecido outro egual n'este mundo, que ninguem
tivera genio para o escrever. E eu a pensar que me iriam n'elle todos os
meus sentimentos, a minha alma, toda inteira, e que, d'este modo, me
acharia sempre a teu lado, e que qualquer que fosse o sitio em que te
encontrasses, os meus versos ir-te-hiam recordar a minha existencia, e o
meu sonho unico era acreditar que tu em concluso poderias dizer: "No,
elle a final no  to mau como eu o suppunha". Toleima, Zina, toleima,
pois no ?

--No, no, Vassia, exclamava a Zina.

E debruada sobre o peito d'elle, pz-se-lhe aos beijos s mos.

--E o ciume! Como me atormentava o ciume durante esse tempo, todo! Eu,
se tivesse ouvido falar no teu casamento, caa morto, redondamente!... E
eu a vigiar-te, a espreitar-te... Era ella quem l ia (apontando para a
me). Tu nunca tiveste amor ao Mozgliakov, pois no  verdade? Ai! meu
anjo! Lembrar-te-has tu de mim quando eu j no fr d'este mundo?
Lembras, sim, que eu bem sei! Mas os annos ho de ir passando,
arrefecer-te-ha esse teu corao, o inverno ir-te-ha tomando posse da
alma, e olvidar-me-has, Zina!...

--No, no, nunca! E nunca me hei-de casar, tem a certeza!... Foste o
meu primeiro amor e sers o derradeiro.

--Tudo morre, Zinotchka, tudo, at a propria recordao, at os mais
nobres sentimentos. Do logar a um certo raciocinio: frio, que acalma as
saudades. Insurgirmo-nos, para qu? Trata de aproveitar a vida, ama, s
feliz. Ama um vivo! Para que serve o teu amor a um morto?--E comtudo,
no me esquas de todo! Tivmos horas atribuladas,  certo, mas quantos
dias de tanta doura? Ah!--Foram-se de uma vez para sempre!... Escuta,...
amei sempre o pr do sol... Oh! no!... morrer, por qu?... Ah!
viver, viver! Lembra-te da primavera! Do sol! To lindo! Das flores!
Vivemos por uns tempos n'uma festa! E agora, olha! Olha!

E o pobre enfermo a apontar com a mo difana o vidro empanado pela
giada. Depois agarrou-se s mos da Zina e entrou a chorar com amargor.
E os soluos a esfacelarem-lhe o j dilacerado peito.

E assim se passou todo o dia: A Zina a dizer-lhe que jamais o olvidaria,
que a ninguem n'este mundo viria a dedicar amor egual quelle que a elle
lhe dedicra. E elle a acreditl-a, a sorrir-lhe, a beijar-lhe as mos.

N'este meio tempo, Maria Alexandrovna, inquita, havia j mandado por
mais de dez vezes indagar o que seria feito da Zina, a supplicar-lhe que
voltasse para casa, que no acabasse de se desacreditar na publica
opinio. At que por fim, ao lusco fusco, resolveu-se, esparvoada de
receio, a ir, em pessa, em procura da filha. Exorou-lhe de joelhos; a
Zina a ouvil-a sem a intender. Maria Alexandrovna sau desesperada. A
Zina estava decidida a passar a noite junto do moribundo. No lhe largou
da cabeceira. O estado do infermo ia peorando a olhos vistos: quando
rompeu a madrugada, quasi que nem conservava sopro de vida. E no
obstante, viveu ainda um dia inteiro. Porm, no momento em que o sol no
occaso abrasva as vidraas, exalou-se a alma com os ultimos raios.

Deu-se ento horrivel scena. A edosa me abraou-se com o corpo do
filho, e, voltada para a Zina:

--Fste tu que o deitaste a perder, maldita! clamou.

A Zina, porm, no ouvia coisa nenhuma; estava para ali, qual estatua
insensivel, como se, a ella, a alma a tivera deixado tambem. At que por
fim, abaixou-se, fez sobre o defunto o signal da cruz, beijou-o na
testa, e sau do quarto.

To tremendas sensaes, e aquellas duas noites de vla, quasi que a
haviam enlouquecido de todo... e depois, sentia-se prestes a entrar em
um novo viver, triste, ameaador.

No teria ainda andado dois passos, eis lhe surge na frente o Mozgliakov
como se com elle se abrira o cho.

--Zinaida Aphanassievna, disse com timidez, rodando a vista para todos
os lados, Zinaida Aphanassievna, sou um jumento; isto , no  isto
que... Se me d licena, no serei um jumento, visto que procedi
briozamente, apezar de todos os pezares... Mas l que fui um jumento,
fui... e estou mais que arrependido... Est-me a parecer que estou a
meter os ps pelas mos, Zinaida Aphanassievna. Perdoe-me, atendendo a
este concurso de circunstancias...

E a Zinaida, inconsciente, a olhar para elle, e a seguir seu caminho,
sem tugir. Como no passeio no houvesse logar para dois, Mozgliakov
desceu para a calada.

--Zinaida Aphanassievna--proseguiu o mancebo, se m'o consente, estou
pronto a renovar o meu pedido, pronto a esquecer tudo, a
perdoar-lhe--com uma condio:--Ficar tudo sendo segredo por emquanto.
Ausenta-se d'esta terra o mais breve possivel, eu sigo atras, s
escondidas, casamos para ahi seja onde fr, sem que ninguem d por isso,
e vamos para Petersburgo. E ento! Que me diz? Consente, Zinaida
Aphanassievna? Responda, depressa, por quem ! No posso esperar;
poderiamos ser vistos.

A Zina no respondeu: olhou para o Mozgliakov, to somente, mas fl-o,
porm, de modo tal, que elle comprehendeu desde logo, cumprimentou-a e
sumiu-se por detrs da primeira esquina.

"Ora esta! matutava; ella, ainda no haver dois dias, a lanar em rosto
a si propria as culpas todas, e agora!..."

N'este comenos, em Mordassov, precipitavam-se os acontecimentos.

O principe, acarretado pelo Mozgliakov para o hotel, n'aquella mesma
noite cau perigosamente enfermo. Os Mordassovenses s vieram a ser
informados do caso ao romper do dia. Kalist Stanislavitch no largava a
cabeceira do doente. Ao anoitecer, effectuou-se uma conferencia dos
medicos todos de Mordassov. Os convites para comparencia eram redigidos
em latim. E no obstante, a despeito do latim, o principe achava-se em
estado de delirio, e tudo era pedir ao Kalist Stanislavitch que lhe
cantasse uma certa romana, a fallar a respeito de chin e bigode
postio e, de vez em vez, muito assustado, soltava uns berros.
Concluiram os medicos que era uma inflammao do estomago, resultante do
excesso de hospitalidade mordassovense, e que d'ali tinha passado 
cabea. Alegaram, tambem, no sei com que fundamentos, um tal qual abalo
nervoso. E d'ahi, no se esqueceram de notar que o principe havia muito
que manifestava predisposies para a morte e que, por conseguinte...
est claro!--e que por conseguinte, morria. Esta ultima hypothese
pareceu ter certo fundamento: o pobre do ginjinha expirou ao terceiro
dia, ahi pelo anoitecer. Obito a tal ponto inesperado consternou
Mordassov. Acudiram em chusmas ao hotel, discutiam, abanavam a cabea, e
concluiram acusando directamente "os assassinos do principe, coitado!"
(aludindo assim a Maria Alexandrovna e  filha).

Concordava toda a gente em que to escandalosa historia no deixaria de
dar brado, e podia, at, "ir muito longe".

Mozgliakov nem sabia j que fazer  sua vida. A situao,
effectivamente, antolhava-se perigosa. No fra elle quem accarretara
com o principe para casa de Maria Alexandrovna? No fra elle tambem que
carregara com elle para o hotel? No sabia o que havia de fazer com o
cadaver, onde o enterrar, a quem informar. E de mais a mais, como
passava por ser sobrinho do principe, o seu medo todo era no se
lembrassem de o accusar de ter morto o veneravel ancio.

Eis que de repente mudam as scenas. Uma bella manh, chega  cidade um
viajante, desconhecido. E Mordassov, em peso, pespegado  janella, a
commentar o adventicio.

--O tal viajante era nem mais nem menos que o celebre principe
Chtchepilov, parente do defunto, sujeito de seus trinta e cinco annos,
usando dragonas de coronel e as agulhetas de ajudante de ordens. Aquella
gran-cruz compenetrava de um respeitoso pavor a todos os
_tchinovnicks_[16] do logar. O prefeito de policia por pouco no
indoidece.

Em breve se veiu a saber que o principe vinha de S. Petersburgo e j
havia passado por Dukhanovo. No encontrando ali ninguem, viera
seguindo as piugadas do principe at Mordassov, onde o surprehendera a
fatal noticia. Tomou desde logo a tudo sobre si, e Mozgliakov retirou-se
muito encolhido em presena do lidimo sobrinho.

O illustre defunto foi trasladado para o mosteiro. Ao outro dia, a
cidade em peso congregou-se a ouvir a missa funeraria. Entre as
senhoras, corria que Maria Alexandrovna compareceria em pessoa na
egreja, para pedir perdo alto e bom som perante o caixo, em
conformidade com as exigencias da lei. Escusado ser dizer que tal Maria
Alexandrovna no appareceu.

Fra para o campo e levra a Zina, parecendo-lhe insustentavel a
situao na cidade. L da sua aldeia, ia recolhendo com inquietao as
atoardas e mandava tomar informaes.

Do mosteiro a Dukhanovo, o caminho passava a uma versta das janellas de
Maria Alexandrovna. Teve pois occasio de ver desfilar o prestito
funebre. Atrs do fretro seguia uma longa cauda de trens. E por largo
espao, n'aquelle campo branco de neve, foi perfilando aquelle seu vulto
negro, lento e majestoso, o carro melanclico.

D'ali a oito dias, Maria Alexandrovna, com a filha e Aphanassi Matveich,
transferiu-se para Moscou. A aldeia e a casa foram postas em leilo.

E assim perdeu para sempre Mordassov uma senhora, o _mais comme il faut_
possivel!

O caso no escapou a commentarios; nem faltou quem affirmasse que o
Aphanassi Matveich se achava tambem  venda juntamente com a aldeia...

Rodou um anno, outro ainda, e ninguem tornou a falar em Maria
Alexandrovna.

E comtudo, correu que havia adquirido outra aldeia em outro governo, e
que outra capital de districto no tardaria em tremer entre as suas
potentissimas mos. A Zina estaria ainda  espera de noivo.

O Aphanassi Matveich...

Mas no nos tornemos co de boatos sem fundamento.  falso tudo isso.

      *      *      *      *      *

J l vo trs annos desde que eu escrevi as linhas que acabaes de ler.
Quem me diria que ainda havia de vir a folhear o manuscripto para lhe
accrescentar ainda mais uma lauda?

Mas vamos ao facto:

Principiarei por Pavel Alexandrovitch Mozgliakov.

Ao ausentar-se de Mordassov, foi direitinho a Petersburgo, onde alcanou
o logar que lhe andava prometido havia muito tempo. No tardou em se lhe
franquearem as portas da sociedade, infronhou-se n'umas intrigalhas,
guindou-se s alturas de espirito do sculo, tornou a apaixonar-se,
renovou o seu pedido, voltou a apanhar um no pelas ventas, enguliu-o, e
no podendo digeril-o, sollicitou o ser incorporado a uma expedio
enviada a um dos cantos mais remotos d'este nosso paiz sem limites.

O corpo expedicionario transpz sem novidade de maior florestas e
desertos, alcanando a capital da longinqua regio.

Foi acolhido pelo general-governador.

Era um homem magro e de semblante severo, um velho militar, ferido em
diversas campanhas, condecorado com dois crchs e com uma cruz branca.
Convidou a todos os _tchinovniks_ para um baile effectuado aquella mesma
noite.

Pavel Alexandrovitch estava encantado. Envergara a sua casaca
petersburguense, com a qual contava para produzir immenso effeito, e deu
entrada nas salas nobres com modo desassombrado. No tardou porm a
perder o aprumo em presena de tanta dragona de cachos e de tanta farda
enfeitada de commendas. Cumpria-lhe ir fazer a sua venia  esposa do
governador, nva, diziam, e formosissima. Aproxima-se, muito senhor de
si,--mas--de subito,--escancara a bca, e fica pregado ao cho, de
assombrado. Com um sumptuoso vestido de baile, surge-lhe na frente a
Zina, feraz, soberba, linda, e resplandecente de joias, toda ella. Nem
conheceu o Pavel Alexandrovitch, os seus olhos nem se detiveram sequer
no semblante de mancebo. Mozgliakov recuou e foi perder-se entre a
turba-multa, e soube da bca de um juvenil _tchinovnick_ coisas
interessantissimas.

Soube que o governador era casado ia j em dois annos, desde uma viagem
que fizra a Moscou. Desposara uma joven muito rica, de optima familia.
A generala era muito soberba e s dansava com generaes, (havia nove no
baile). A generala tem em sua companhia a me, senhora intelligentissima
da mais alta aristocracia, mas que se submete  vontade da filha. E
d'ahi, o general extasia-se tambem deante d'esta. Mozgliakov referia-se
ao Aphanassi Matveich, mas n'aquella regio remota ninguem dava noticia
delle.

Um tanto restabelecido d'aquelle seu sobresalto, Mozgliakov deu uma
volta pelas salas e lobrigou Maria Alexandrovna, vestida com singeleza
e, muito animada, a falar com uma personagem grada. Faziam-lhe cerco
varias senhoras que lhe sollicitavam a boa sombra. Maria Alexandrovna
era amavel com toda a gente.

Mozgliakov arriscou-se e foi-se-lhe apresentar. Maria Alexandrovna teve
assim a modos de um estremeo, mas sopitou-se, acto-continuo. Dignou-se
reconhecl-o e pediu-lhe novas dos seus amigos de Petersburgo. A
respeito de Mordassov, nem palavra e foi como se tal coisa no
existisse, em concluso, proferiu o nome de um qualquer principe
estranho ao Mozgliakov, voltou-lhe as costas sem affectao,
dirigindo-se a uma personagem grada de cabello grisalho e aromatizado,
e d'ali a instantes, dir-se-hia haver-se esquecido de todo de Pavel
Alexandrovitch, que ficou para ali com cara de tolo, diante della.
Mozgliakov, engatilhando um sorriso sarcastico, e de chapeu na mo,
regressou para a sala nobre. No sei dizer o motivo, mas considerava-se
offendido e no se prestou a dansar. Nunca mais lhe desampararam o
semblante quer uns ares tristes e de distraco quer um mfistoflico
sorriso! Recovado em pinturesca atitude a uma columna, (parecia que de
proposito, tinha columnas o salo), e toda a santa noite, horas a
seguir, para ali se deixou estar no mesmo posto, a seguir com os olhos a
Zina. Tempo perdido, infelizmente! Todas aquellas artimanhas, aquelles
tregeitos todos, aquelles ares romanticos e de nimia decepo... etc...
etc... nada lhe valeu... A Zina nem sequer deu f da sua presena. At
que por fim, estafado, exasperado, com os ps dormentes em resultado da
immobilidade, faminto, pois no tinha ceado a fim de melhor sustentar o
seu papel de amante dolorido, recolheu para sua casa, derreado, abatido.
E esteve a p horas esquecidas, a matutar no passado... Logo no dia
immediato, pediu transferencia e alcanou uma misso que o reconduziu a
Petersburgo. Voltou a serenidade a entrar-lhe na alma assim que voltou
costas  cidade. L ao longe, o espao, o infinito, o deserto, a
denegrida neve das florestas nos confins do horizonte. Ao som das patas
dos cavallos a chofrarem, e a acompanharem o retinir e o telintar das
campainhas. Pavel Alexandrovitch esteve pensativo, por instantes, mas
depois, adormeceu muito socegado da sua vida.

Acordou na terceira muda, fresco, bem disposto, e a pensar noutra coisa.


FIM




    [1] Mestre escola

    [2] Proprietario territorial.

    [3] Poeta russo.

    [4] Sacristo.

    [5] Diminuitivo offensivo de Natalia.

    [6] Diminuitivo offensivo de Sonia.

    [7] Diminuitivo offensivo de Maria.

    [8] Dansa nacional russa.

    [9] Mulher de mujik.

    [10] A filha do principe Kotchbey.

    [11] At mais ver. (em allemo)

    [12] Modo de dizer russo--por: _a minha vida acabada_.

    [13] Pelissa.

    [14] (Camponsa.)

    [15] A menina.

    [16] Funccionarios.




EXCERPTO DO NOSSO CATALOGO


Bibliotheca Moderna de Romances Nacionaes e Estrangeiros

200 ris fortes o volume de 200 a 250 paginas

Volumes publicados:

*Os Ex-homens*--_Maximo Gorki_--1 volume.

*Angustia*--_Maximo Gorki_--1 volume.

*Na Priso*--_Maximo Gorki_--1 volume.

*Varenca Olessova*--_Maximo Gorki_--1 volume.

*O que eu penso da guerra*--_Conde Leo Tolstoi_--1 volume.

*O Calvario*--_Octave Mirbeau_--1 volume.

*O Filho de Napoleo*--Carolus--1 volume.

*O Cerco de Paris*--_Alphonse Daudet_--1 volume.

*O Coronel Chabert*--_Honor de Balzac_--1 volume.

*Historia d'um Crime*--_Maximo Gorki_--1 volume.

*Os Estranguladores de Bengala*--_L. Boussenard_--2 volumes.

*A Cortezan de Sagunto*--_V. Blasco Ibaez_--2 volumes.

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gravuras, *1$000 ris fortes*.

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album, illustrado com 74 gravuras, *2$000 ris fortes*.

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ricamente encadernado, dourado por folhas, *13$500 ris fortes*.

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esplendidas illustraes de _Bonamore_, *1$800 ris fortes*.

*Orlando Furioso*--_Ariosto_--3 volumes illustrados com 81 magnificas
illustraes, *12$000 ris fortes*.

*Terra Illustrada*--_Onsime Reclus_--1 volume de 1.252 paginas com 600
finissimas gravuras, *11$000 ris fortes*.





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Fyodor Mikhaylovich Dostoyevsky

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