The Project Gutenberg EBook of Contos, by Joo da Camara

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Title: Contos

Author: Joo da Camara

Release Date: April 6, 2010 [EBook #31905]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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                              JOO DA CAMARA

                                  CONTOS


                                   1900
                             _LIVRARIA EDITORA_
                          GUIMARES, LIBANIO & C.ia
                         _108, Rua de S. Roque, 110_
                                   LISBOA




                                  CONTOS



                             JOO DA CAMARA

                                  CONTOS


                                   1900
                             _LIVRARIA EDITORA_
                          GUIMARES, LIBANIO & C.ia
                         _108, Rua de S. Roque, 110_
                                   LISBOA




AS MES


O sol despedia os raios mais vividos. O suo aquecido nas cinzas das
queimadas soprava abrazador. Via-se tudo em volta como atravez de vidros
amarellos.

O caminho era ruim, apenas indicado por velhos muros afogados em silvas
e cheios de musgo como ferrugem, que lindavam as tapadas. No meio da
estrada erguiam-se de espao a espao enormes panedos, que ainda
conservavam os furos das brocas, mostrando um trabalho abandonado de um
dia para outro, falta de dinheiro, alguma eleio perdida. Massas
enormes de granito esbranquiado erguiam-se de uma e outra banda, umas
por cima das outras, acastelladas. Por entre as pedras cresciam as
giestas sequinhosas, cujo fructo crepitava abrindo-se aos beijos do sol
e deixava car a semente na terra. Nos pontos mais elevados resahiam do
tremulo azul celeste uns carvalhos rachiticos e tortos, que no davam
sombra.

Elle caminhava alegre, estrada fra, parando de vez em quando para
escolher nos cachos das amoras, que relusiam ao sol, as menos maduras,
avermelhadas, rijas, cujo acido lhe mitigava a sede.

Ainda vinha com o seu bigode, com as calas de linho e as botas pretas
de soldado, em que brilhavam como lentejoulas os pedacinhos de mica do
granito desfeito.

O gosto com que elle diria l na terra ao Antonio:--Deite-me isto
abaixo,  mestre, e talhe-me n'esta cara uma suissa como a que eu tinha
d'antes e a tinha meu pae, que Deus haja.

E passava a unha pela cara, satisfeito, marcando a suissa que havia de
usar.

O gosto com que atiraria para o lado aquellas botas engraxadas, a
mortificarem-lhe os ps e que, apesar do bom tamanho, lhe pareciam botas
de senhora, boas, quando muito, para o domingo, quando fosse  missa. As
botas altas, brancas, de bom salto de prateleira muito commodo e to bom
para andar, l tinham ficado penduradas n'um prego, defronte da lareira,
muito bem ensebadas e recommendadas. Tinham umas tombas,  verdade, mas
eram botas amigas. Como havia de calal-as, contente, para sair com
ellas para o trabalho, quando vem rompendo a aurora, quando o cu 
cheio de luz e ainda no ha sombras na terra!

Ia morto por voltar aos habitos velhos,  santa vida do campo.

Lembrava-se, cheio de saudades, das boas historias, que se contam pela
estrada fra, na volta do trabalho, caminhando lentamente atraz dos
burros, que, de orelhas muito cahidas, projectam na alvura da poeira
sombras de gigantes.

O que ho de rir os ganhes com as historias novas que elle traz do
quartel!

Quasi ao chegar  villa, ao p da volta da estrada, um nadinha para
baixo,  direita,  a fonte. Quando ali se chega, grita-se _ch!_ aos
burros, pra-se um bocado a conversar e contende-se com as raparigas que
passam de bilhas  cabea, bem aprumadas, de ancas fortes e caras
sadias, com uns fios de dentes, que o po de centeio torna muito
brancos, como folhinhas de malmequeres, e que ellas gostam muito de
mostrar, abrindo em grandes risos, por qualquer dichote amavel, as
boccas muito vermelhas, mais frescas e perfumadas que uma ginja.

Aquelle bocado de tempo era sempre o melhor do dia.

E, ao pensar na fonte, alargou o passo.

 coisa aborrecida estar de sentinella duas horas, uma noite de inverno.
E a agua pela valeta a correr, barrenta, cheia de espuma,
precipitando-se na sargeta, com uma bulha muito triste, muito monotona,
to differente do estrepito das ribeiras quebrando as aguas nos rochedos
das voltas!

Elle pensava na fonte e nos taes labios vermelhos. E o tempo assim l
passava mais depressa.

Um outro, s vezes, to triste como elle talvez, gritava-lhe de uma
guarita perdida na treva:

--Sentinella, lrta!

E elle respondia, engrossando a voz:

--lrta est!... Sentinella lrta!

E, emquanto os gritos repetidos se iam perdendo ao longe, recahia no
mesmo pensar constante, a fonte, sempre a fonte, e triste, sempre triste.

Mas afinal estava livre! N'aquella mesma tarde,  hora em que as
chamins comeam fumegando e debaixo das parreiras, emquanto a ceia
aquece, se toca alegremente nas businas, estaria batendo  porta de
casa, disfarando a voz, fingindo ser um pobresinho a pedir esmola e
agasalho.

E ria feliz com aquella ida divertida.

A alegria da me! Era capaz de morrer de gosto a pobre velha, coitadinha!

Sabe Deus, quantas vezes, quando elle pelas madrugadas frias tremia
enregelado na guarita, no molhava ella com lagrimas o travesseiro, a
chorar a sua pobreza.

Recebera duas cartas d'ella muito ternas, cheias de noticias e de
conselhos. Pedia a todos que lh'as lessem e por fim sabias-as de cr;
trazia-as sempre comsigo entre a fardeta e a camisa, mettidas n'um
saquinho de coiro, para se no estragarem.

E, ao lembrar-se de que afinal o tempo, de que tantas saudades tivera,
ia novamente voltar, enchia-se-lhe a alma de alegria, e caminhava
ligeiro, cantando em voz de falsete uma cantiga do S. Joo.

      *      *      *      *      *

Ainda lhe faltavam tres leguas para chegar a casa.

Aquelles sitios j eram d'elle muito conhecidos. Lembrava-se
perfeitamente de que, por detraz d'aquellas pedras, que lhe ficavam 
esquerda, crescia basta a herva, regada pela agua de uma fontesita,
onde, por mais de uma vez, de madrugada, quando ali andava guardando as
cabras da viuva, viera armar aos passarinhos.

No havia sitio melhor para descanar um bocado.

No fardel trazia um pedao de po e o conducto, meia duzia de azeitonas
e um queijinho pequeno.

 comer! E, se nos der o somno, dorme-se uma ssta at que abrande o calor!

Saiu da estrada galgando a parede e encaminhou-se para a fonte, pondo em
fuga as cotovias, muito mansas, muito alegres, que saltitavam nas
pedras, emquanto muito alto, parecendo pontos negros no azul do ceu,
umas poucas de aguias descreviam curvas enormes, com a mira n'um burro
morto, que apodrecia entre os rochedos.

      *      *      *      *      *

Quando accordou, j o sol descera muito; o vento tinha virado para o
norte e algum tanto abrandra o calor.

Do outro lado do cabeo ouvia-se um som de chocalhinhos. Eram as cabras
da viuva, que andavam pastando. No alto, d'onde a propriedade se
descobria quasi toda, um pastorito de dez annos, deitado sobre as
pedras, com o chapo de abas largas, todo roto, a servir-lhe de
travesseiro, fazia danar um bogalho na ponta esmagada de uma palha de
centeio, por onde soprava.

Sensibilisou-o tal recordao da infancia, que ali passra como aquelle
pequeno.

--Adeus,  cachopinho! gritou.

--Saude! respondeu o pequeno.

Teria dormido duas horas e achava-se completamente descanado.
Ergueu-se, espreguiou-se, coou desesperadamente a cabea, bateu com os
ps no cho para desentorpecer as pernas e porfim, agarrando no chapo e
no bordo, poz-se alegremente a caminho.

Como por ali no havia vinhas, e isto era no mez das vindimas, no
encontrra ninguem por aquelles sitios, abandonados at ao tempo das
sementeiras.

Caminhava depressa, batendo com o bordo nas pedras, querendo chegar a
casa antes do anoitecer.

Faltava-lhe ainda quasi uma legua, quando o sol se escondeu.

As calhandras tinham erguido o vo e trinavam doidamente, muito alto,
constantes no mesmo logar, batendo muito as azas.

Chegou a uma encruzilhada e parou. Parecia estar em duvida sobre o
caminho que havia de tomar. Passava a mo pela cara, devagarinho,
sem se resolver. O caminho da esquerda parecia tental-o muito, sorria-se
para elle, mas como quem tem medo de ceder  tentao.

E que tentao no era!... Se nunca mais vira uns olhos d'aquelle azul!

A pobre me, quellas horas, sentada  porta de casa, cruzadas sobre os
joelhos as mos, onde umas veias em relevo resaem sobre uma rede confusa
de rugas pequeninas, pensava n'elle talvez, cheia de amor e de quantas
tristezas! Quem passava por defronte da porta tirava o chapo quelles
cabellos brancos, muito bem alisados por debaixo do leno negro da
viuva. N'aquelles olhos meio apagados brilhavam talvez as lagrimas d'uma
saudade... E elle parado ali... cheio de duvidas!

Seguindo sempre em frente, mal chegasse ao alto, veria na encosta
fronteira a casa onde nascera, muito caiada, com a cimalha pintada de
azul, a porta vermelha, a nogueira a que se encosta a vide cheia de
cachos tentadores, e uma volutazinha de fumo azulado a subir, a
subir at desvanecer-se, signal da recompensa depois do dia de trabalho,
a boa ceia quente, o lume que desenregela. Seguindo sempre em frente,
passado um quarto d'hora, estaria nos braos da me, seccando-lhe as
lagrimas, trazendo-lhe o corao que levra.

E continuava em duvidas! Pois a quem mais do que  me queria elle?

E por fim quando se resolveu... tomou para a esquerda.

Pobre me!




O BAILE DOS VELHOS


Houve esta noite festa rija em casa dos padeiros.

Casados ha cincoenta annos, festejaram com estrondo o anniversario do
casamento. E no pensem que por no haver l gente moa a festa
desmereceu. Isso sim! Das oito  meia noite, nem o Bento das mos largou
a guitarra, nem faltaram pares no meio da casa.

Ficou logo combinado, mal o Antonio Pataco falou n'aquillo:--quem no
foi convidado para a boda, tambem no danou n'aquella noite, nem comeu
os leites assados. Ento  que se viu como as mulheres se atiram pela
velhice fra com alma e coragem; eram doze nem mais nem menos, e os
homens apenas seis, todos muito atrapalhados, (tanto mais que o Prior
no contava) tendo que attender a tanta senhora, no querendo
escandalisar nenhuma.

A casa, segundo contam, estava um brinco. Comeava logo pela
illuminao. Das vigas do tecto pendiam sete candeias e, como reforo,
ardiam quatro vellas sobre as mezas dos cantos.  roda da casa, no friso
caiado, tinham disposto a loia branca e na chamin um grande tronco de
asinho ardia, rodeado de piorno, fazendo passar clares vermelhos na
bateria de cobre, disposta, como um tropheu, do outro lado da casa.

Quando um homem pensa que, alm d'aquella riqueza, o Antonio Pataco
tinha mais do que outro tanto em servio na cosinha, e que tudo
aquillo no  nada em comparao com o muito que ns sabemos que elle
tem, haver rapaz na aldeia que merea a linda neta to branquinha e to
rica, fechada provisoriamente n'aquella noite n'um dos quartos do sotam
da casa?

O prior velho foi quem presidiu  festa como  de ver. Est cego de
todo, coitado; mas, apezar d'isso e de andar algum tanto acabrunhado
desde que no pde ler no missal, attendendo a ter sido quem os casra,
l se arrastou conforme pde, e no foi talvez dos que menos se
divertiram. Abordoado  grossa bengala de castosinho de prata,
amarellada pelo uso, tremendo na mo d'elle, assistiu a toda a festa,
at de madrugada, sacudindo em ar de approvao a cabea muito calva,
onde apenas meia duzia de cabellos brancos muito compridos, esvoaavam,
tenuissimos, no ar agitado.

At  meia noite no se fez outra coisa seno danar e mais danar.

O Bento no se canou de tocar na guitarra, apresentando, como pretexto
para no se mexer o tamanho do ventre, que vae tomando com a edade
propores medonhas. Alguns quizeram insinuar que eram as pernas que lhe
comeavam a enfraquecer, mas logo desarmou a intriga, atirando um
pontap, que acertou, como por acaso, nas canellas do mestre-escola.

A pobre guitarra, velha tambem, rachada e fanhosa, no se lembrou seno
de fandangos antigos, e era de vr como aquelles bons velhos, talvez
enganados pelo som d'aquellas cordas que os transportava cincoenta annos
para traz, ouvindo aquella musica alegre, que lhes trazia recordaes
risonhas da mocidade, crearam novas foras e, cheios de animao,
danaram, no meio dos bravos, ligeiros como arveloas, sorrindo-se como
se ainda se namorassem, como, havia meio seculo, se sorriam e namoravam.

Quem abriu o baile foi o padeiro, danando com a mulher.

--Ahi, rapaz! gritou-lhe o Bento.

Mas era l preciso que o animassem! Com o seu bello calo de briche
fino, o collete verde de botes de vidro, as boas polainas hespanholas,
parecia ter voltado aos trinta annos, bem aprumado, de cabea erguida,
arqueando o peito, baloiando os braos, fazendo estalar os dedos.

A mulher custou-lhe mais por causa do rheumatismo; mas, apezar de muito
dobrada, l se animou. Levando aquillo muito a serio, danou perto d'um
quarto de hora, diante do marido, que sapateava, tentando recordar as
habilidades, que n'outros tempos o tornaram falado por todas aquellas
aldeias.

E s a ida d'aquella saiasinha amarella, remexendo-se, tremula, por
toda a casa, perseguida por aquelle velho cheio de cabellos brancos e de
rugas, fazia rir s gargalhadas estrondosas o Prior, que no via nada e
lanava o olhar incerto, ora para um lado, ora para o outro, n'um menear
constante de cabea.

--Est seculo e meio danando, disse o mestre escola com a gravidade do
officio.

--E muitos psinhos, e muitos psinhos! accrescentou o Prior,
continuando a rir.

Todos applaudiam. O Bento na guitarra apressava o andamento.

--No posso, no posso mais! declarou a velhinha deixando-se car
esfalfada num tropeo, ao p da lareira.

--Quem vem ento? perguntou o Antonio, limpando o suor.

E ficou parado no meio da casa, de mos na cintura, olhar altivo,
esticando a perna, com um sorriso orgulhoso.

Muito se danou n'aquella noite, em casa dos padeiros!

      *      *      *      *      *

Mas o melhor foi a ceia.

O Bento esteve famoso. De mais a mais o Antonio, muito naturalmente de
proposito, sentou-o logo entre a Marianna Coxa e a Maria do Rosario.
Imaginem!

Todos se lembravam ainda de quando ellas,  volta da fonte, se
arranharam, por detraz do moinho, no meio dos cacos das bilhas partidas.

Agora, muito tremulas, muito engelhadas, de um lado e outro d'aquelle
corao de bronze, mastigavam lentamente, enchendo as bochechas, de
beios muito recolhidos, tocando quasi com as barbas para cima nos
narizes para baixo.

Emquanto se tomou a canja, houve um silencio quasi geral, apenas
interrompido pelos recados do padeiro  velha criada Mathilde ou pelos
convites aos assistentes.

--O cangiro. Vai j deitando. Comea aqui pelo sr. Prior. Mais uma
colherinha de canja, tia Ignez?

E os velhos, todos em volta, sopravam longamente com as colheres ao p
da bocca e sorviam depois o caldo, com uns apitosinhos gulosos, fechando
os olhos; alguns amolleciam na canja as codeas de po, e o padeiro, de
p, observando, com a concha mettida na enorme terrina, lanava em
redor um olhar attento de bom dono de casa, prompto para dar mais a quem
pedisse.

--Senta-te e come, disse-lhe a mulher. Que afflico!

--Sente-se e coma; isso mesmo! Entre rapazes no ha cerimonias. Quem
quizer mais pea por bocca, gritou o Bento, estendendo o prato.

Mas j ento a Mathilde vinha trazendo os assados.

Os convidados limpavam os beios  toalha e os homens despejavam os
copos para abrir o appetite.

Ento comeou tudo a falar. S o professor  que no tomou parte nas
discusses, por no perder a gravidade. Chamando a si uma travessa, onde
um magnifico perum ostentava a opulencia das carnes aloiradas,
espetou-lhes o garfo e, pondo as lunetas redondas na ponta do nariz
afiladissimo, depois de attentamente ter examinado o fio da faca,
principiou, cheio de sua pericia, a trinchar, seguindo com olhares
gulosos os bocados, que iam cahindo.

O cangiro j voltra por tres vezes  cosinha, quando a padeira comeou
a servir o pato bravo. E da pinha enorme de arroz, que tremia na colher,
iam caindo os baguinhos na toalha.

O Bento repetia todos os pratos e desabotoava os botes do collete.

Foi ento que, depois d'um segredo, que o Antonio Pataco lhe disse ao
ouvido com ar de muito misterio, a Mathilde sahiu, entrando pouco depois
com os leites e trazendo debaixo dos braos umas poucas de garrafas,
que poz sobre a meza defronte do padeiro.

--Sabem, meus senhores?... Garrafas lacradas por mim no dia do meu
casamento. Os seus copos, faam favor... Ora adeus! O que  isso, sr.
professor? O copo maior... Ento? O vinho  o sangue dos velhos.

O sangue no sei, a lingua  com certeza. Instantes depois, a algazarra
subira de tom a tal ponto, que o professor, de p, examinando  luz
a transparencia da amethista enorme que lhe refulgia no copo, teve de
pedir auxilio ao dono da casa para impr silencio  velhada.

--Meus senhores... comeou.

Mas as velhas no se continham; haviam de palrar por fora. Mal o
mestre-escola, com ar choroso, comeou falando de tantos que faltavam
quella festa, puzeram-se ellas a gritar:

--Basta! Basta! No queremos tristezas!

Deus me perde, mas est me parecendo que o vinho lhes subira s
cabecinhas brancas.

No sei se o professor tambem desconfiou da coisa. Muito offendido, todo
vermelho, sem poder dominar com a sua fanhosa voz de falsete a immensa
berraria, pousou o copo sobre a meza e comeou a atacar o queijo,
resmungando.

O Bento  que teve as honras da noite, contando historias da sua
mocidade.

Rapaz perfeito, dono de tres moinhos, era mais a mim, mais a mim, todas
o queriam.

--E mal sabes tu, Antonio, uma coisa. A tua Josepha tambem me esperava 
porta, quando eu passava, atirando-me cada olhadella!

--Que  l isso? perguntou o Antonio, erguendo-se, entornando o copo
sobre a meza e deixando correr em dois fios pelas rugas do queixo o
bochecho que tinha na bocca.

Como o Antonio tem mau genio, a questo esteve por um triz a azedar-se.

--Ainda tu acreditas n'aquelle traste! disse a Josepha levantando a mo
e como que ameaando o Bento d'uma tremenda bofetada.

-- verdade, sim senhores,  verdade! teimava o Bento, estirado por cima
da meza, de collete j todo desabotoado.

Os outros velhos protestavam, rindo muito. O Prior serenava o Antonio.
Elle bem devia ver que tudo aquillo era troa e que o Bento estava a
brincar.

--E quem sabe? continuou este. Talvez que voc no festejasse hoje o
anniversario do seu casamento, se eu n'esse tempo no andasse meio parvo
por causa ali da tia Domingas.

--Anh? perguntou a tia Domingas, approximando da orelha o concavo da mo.

--Que andou meio parvo por vocemec, explicou o Prior a berrar.

A tia Domingas, um poucochinho tonta, engoliu com muito esforo um
grande bocado de leito, que ruminava havia um bom quarto de hora, e
disse toda commovida:

--No me fale n'esse tempo, sr. Bento, no me fale n'esse tempo!

E durante toda a ceia houve sempre alegria, menos na cara do mestre-escola.

--Que tem, sr. Matheus? perguntou-lhe o Prior. Ha muito que lhe no oio
a voz.

--Vossa Reverencia bem sabe que nunca fui...

--Sei, sei, interrompeu o Prior. Aqui a sr. Bernarda que diga o que
vocemec foi.

      *      *      *      *      *

Pela madrugada, quando j as cotovias cantavam pelos campos e as figas
das janllas luziam como fios de cristal, levantaram-se todos para sahir.

O Prior cabeceava, havia um bocado, e o Bento, depois de muito contar e
muito mentir, assentara sobre o peitilho bordado a segunda barba
rubicunda, olhando por baixo, com olhar acarneirado, cheio de meiguice
avinhada e de somno mal combatido.

Havia longos silencios e bocejos profundos.

Ento as velhas lembraram-se de, como havia cincoenta annos, acompanhar
a Josepha ao quarto.

E pelo corredor a Josepha, com a sua saiasinha amarella, bordada, com
largas fitas de velludo preto, muito envergonhada, era seguida pelo
Antonio, que, por brincadeira, queria impedir que os amigos viessem,
dizendo que no era costume.

Pararam todos  porta.

Pela janella entreaberta a luz fria da manh entrava no quarto,
enchendo-o d'uma serena meia claridade.

O quarto estava na mesma: o oratorio defronte da porta sobre a commoda
de pau santo,  direita o bahu encoirado, tapado com uma chita de
ramagens, ao fundo o leito antigo, muito alto, coberto com uma colcha
escarlate e onde, uma ao lado da outra, muito chegadas, duas almofadas
bordadas, pequeninas, alvejavam na penumbra.


Havia cincoenta annos!




A OUTRA


Era em fins d'agosto,  hora do meio dia.

Havia um instante, que, na torre pequenina da egreja, o sacristo, com a
cabea abrigada do sol por um grande leno de fundo vermelho com
ramagens amarellas, tinha feito soar vagarosamente as ave-marias.

Hora do descano. Alguns dos que trabalhavam mais perto recolheram a
casa para jantar e socegar um pedao, durante a sesta.

Depois tudo pareceu adormecer na aldeia. Junto aos muros, enfileiradas
todas na nesgasinha de sombra, as gallinhas dormitavam; os passaros nos
salgueiraes, que sombreavam o ribeiro, tinham emmudecido. No interior
das casas nenhum rumor, por entre a folhagem nenhuma virao. At as
carroas, nos pateos, com os varaes aprumados, pareciam, como n'um
espreguiamento, dispr-se para o somno.

O sol quasi a prumo dardejava sobre a aldeia os raios quentissimos,
reverberados pelas paredes caiadas de fresco e pelos telhados novos
vidrados, que pareciam em braza, e atravessava com elles as ramarias,
enchendo o ribeiro de manchas movedias, multiformes, cheias de
scintilaes, como pedacinhos de metal.

Era aquella a hora a que d'antes costumava recolher a casa o Jos
Miguel, o melhor caador da aldeia, com a rede quasi a trasbordar, to
cheia a trazia sempre de perdigotos e laparos.

Ainda elle vinha longe, j se ouviam os latidos alegres do co, correndo
na frente.

Ento a mulher, depois de haver posto a mesa, vinha para o limiar da
porta, encostava-se  hombreira, e punha-se  espera, toda risonha,
feliz, fresquinha como uma flr, com o seu vestido de linho muito
engommado.

Os que passavam iam-lhe dando as boas tardes.

--No tarda ahi, diziam-lhe cumprimentando-a. E  como sempre: bolsa
cheia e cartuxeira vasia.

      *      *      *      *      *

Tempos!... Tempos!

Havia quasi um mez que a pobre Marianna debalde esperava o marido
quella hora.

Agora, quando ouvia soar as ave-marias, vinha encostar a testa aos
vidros da janella e, com as faces incendiadas, o ouvido attento,
fitando os olhos numa casa que alvejava ao longe sobre a serra, deixava
correr em fio as lagrimas silenciosas.

E os que passavam, recolhendo s casas, olhavam para ella com um modo
to triste, que ainda mais a entristecia, e iam dizendo uns para os
outros:--Coitadinha!

      *      *      *      *      *

O que lhe custava...! E quanto mais, ao recordar-se do outro vero que
passra!

Para aquillo tinha casado, para mal decorrido um anno, um anno pouco
mais, ali se vr ssinha, chorando o marido que lhe fugira!

Porque assim fra rebelde aos conselhos do pae? Bem lh'o tinha elle
prgado no proprio dia em que dera por aquelles amores!

O pobre mestre-escola, ouvindo-a conversar uma noite,  porta da rua,
viera buscal-a por um brao, arrastra-a pela escada at ao quarto
l em cima, e ali, meneando a cabea, de braos cruzados, lanando
chispas pelos olhos, dissera-lhe apenas:--Senhora!

E ella comeara a chorar e logo elle, ternissimo e afflicto, a enchera
de beijos.

Ainda no pensra n'aquillo...! Pois to nova ainda, havia de assim
deixal-o? E ento por quem? Pelo Jos Miguel, um valdevinos, um doido,
um conquistador!

Recordra-lhe a morte da me que a deixra com trez annos entregue a
elle, o que elle soffrera, os cuidados de que a rodeara, a educao que
lhe dera.

Era  noite, noite muito serena, cheia de murmurios misteriosos, que se
elevavam dos campos n'uma grande serenidade. Ouvia-se ao longe a queda
das aguas do ribeiro e o rodar das azenhas. A janella estava aberta e l
de fra vinham perfumes quentes, fortes, no bafo carinhoso da primavera.

Junto da porta crescia uma roseira, que mettra para dentro do
quarto uma pernada insubmissa, toda cheia de cachos de rosas pequeninas.
Um rouxinol cantava no salgueiral, porque isto era no tempo dos ninhos.

O mestre-escola approximou-se da janella e esteve por algum tempo
respirando aquelle ar que o refrescava agora, mas que lhe trouxe no sei
que recordaes.

Olhou para a filha e viu-a crescida, com os peitos desenvolvidos, o
pescoo muito bem torneado, o cabello farto, enrolado no alto em duas
tranas; viu-lhe a carnadura branca, sadia e forte.

O rouxinol continuava a cantar e a pernada cheia de flores teve um
movimento languido, vergando a um suspiro da noite.

O mestre-escola tomou uma respirao funda e fez um movimento d'hombros
resignado.

-- preciso casar-te, no ha remedio.

Como por miudos se lembrava de toda a scena que tivera com o pae e dos
conselhos que ento lhe ouvira! Bem o previra elle que o Jos Miguel a
havia de abandonar um dia, no porque fosse mau, mas porque era
leviano, que havia de deixar a mulher como deixava agora as namoradas,
que tinham sido, uma apoz outra, todas as raparigas da aldeia.

Que mal empregadas lagrimas ella chorra, at que afinal o pae
consentira no casamento!

Quantas vezes, feitas as pazes, tinham os trez commentado aquella historia!

      *      *      *      *      *

Um dia o mestre-escola fra pelo Prior e outros convidado para uma
caada a que iria tambem o Jos Miguel.

Foi este quem, bastante atrapalhado, veio pela manh bater-lhe  porta.

--Prompto, sr. Eustachio? Olhe que o Prior, ha mais de um quarto d'hora
que est  sua espera no adro!

--L vou! l vou! gritou de dentro o Eustachio.

E appareceu pouco depois, com a sua bota alta branca e o bonnet de pala
verde, que usava havia dez annos.

--Adeus! disse ao Jos Miguel com mu modo.

--Sr. Eustachio...! respondeu este, cumprimentando-o, entre ironico e
atarantado.

E, erguendo os olhos, entreviu na unica janella do primeiro andar,
detraz das folhas da roseira, uma carinha muito bonita, mas muito
triste, que lhe sorria por entre muitas lagrimas.

--Vamos! disse o Eustachio, pondo-se a caminho e olhando de revez para o
outro.

--Deixa estar, grande patife! ia pensando o Jos Miguel. Ainda hoje m'as
has de pagar!

Chegaram ao adro, onde o Prior e mais dois amigos os esperavam com
impaciencia.

Depois de muitas recriminaes e descomposturas, a que o Eustachio
respondeu com desculpas gaguejadas, comearam ali mesmo a caada, porque
a egreja era no fim da aldeia e no sop d'um cabeo predilecto das
perdizes.

Vinte minutos depois, o co do mestre-escola parava, e este, com o dedo
no gatilho, esperava que as perdizes levantassem.

--Entra, co!

Ouviram-se dois tiros; mas as perdizes foram-se voando com saude. O
velho caador fez um movimento de mu genio.

Ento o Jos Miguel, collocado um pouco mais longe, apontou serenamente,
descarregou por duas vezes a espingarda, e as perdizes, depois de por um
instante haverem batido convulsamente as azas, inclinaram as cabeas e
deixaram-se cahir a prumo, como coisas inertes.

--Que  l isso? perguntou o Eustachio.

--O sr. no v? disse-lhe o Jos Miguel, mostrando-lhe a caa morta. So
duas perdizes.

E depois baixinho para o Prior, mas no to baixo que o Eustachio o no
ouvisse:

--E dois _bigodes_. Elle que os v contando.

E contou-os, e no foram poucos.

Felizmente o Eustachio no era de reservas. O rapaz enthusiasmou-o.

--Bravo! dizia elle ao fim da tarde, com o olhito a luzir, o que era
tambem d'umas beijocas a mais na borracha do Prior.

E depois, muito amigavelmente, pondo-lhe a mo no hombro:

--Sabes que tens quasi uma riqueza n'essa espingarda?

      *      *      *      *      *

Com que saudades a Marianna recordava esse momento em que, pela primeira
vez, ouvira da bocca do pae um elogio ao namorado!

--Mas isto no obsta. No quero! teimava ainda o Eustachio. Aquillo  um
cabea no ar. Um dia deixa-te e ficas peor do que viuva!

Afinal consentira. Que lhe havia de fazer?

O Jos Miguel acirrra-se com aquella resistencia e, em vez de abandonar
a rapariga, como fizra s outras, cada vez se mostrava mais assiduo
junto da filha do mestre-escola. A Marianna definhava-se, que era um d
vel-a.

O Eustachio, bem contra vontade, no teve outro remedio, consentiu.

      *      *      *      *      *

O bom tempo tem azas.

Com os olhos fitos na casa pequenina, que alvejava no alto da serra, a
triste chorava amargamente, lembrando-se d'aquelles primeiros mezes de
casada e das alegrias que tinha, quando ouvia ao longe os latidos do
_Valente_, que voltava da caa.

Logo tirava da arca a toalha de linho muito alva, riscada pelo ferro;
puxava a mesa para defronte da janella, que uma parreira sombreava;
dispunha-a com muito cuidado, o logar d'ella e o d'elle, um defronte
do outro, o cangiro cheio de vinho, o po alvo partido em quartos, os
pratos de fructa, que perfumavam a casa.

Ento o _Valente_ entrava muito bruto, saltando, muito desordeiro,
querendo que lhe abrissem a porta do pateo, para onde logo sahia a
correr, enterrando o focinho na panella cheia de caldo e de grandes
bocados de po de munio.

O Jos Miguel muito estafado, atirava para cima da arca a bolsa de caa,
sorria ao ver aquelles arranjos e, enchendo a caneca do vinho muito
fresco, bebia-o depois, de uma vez, d'olhos continuando a sorrir,
soltando ao acabar um bello ah! de satisfao.

--Vamos a isto mulher, vamos a isto! dizia approximando da mesa a grande
cadeira de pu santo.

E, todo olhares gulosos, muito sorridente, de beios estendidos,
destapava a terrina e enterrava a concha nas sopas.

Emquanto ia comendo, vinham as historias do dia.

Ella pouco podia adeantar: estivera em casa trabalhando, no sabia nada
de novo.

Elle ento contava faanhas do _Valente_, que, saciada a fome, muito
sujo, muito lambusado, sentado a um canto, d'olhos meio-cerrados,
esperava com paciencia o fim do jantar e a codea de queijo da sobremesa.

Estava muito velho, coitado do bicho! mas ainda nenhum lhe chegava.

Depois queixava-se da caa. As perdizes por aquelle calor andavam
levadas da breca! O que elle andra por aquelles mattos!

A mulher, sentada defronte d'elle, ria muito contente, mostrando-lhe os
dentes muito brancos entre os labios vermelhos, com duas covinhas aos
cantos.

Pois as perdizes andavam assim como elle dizia, e estava a rede ali to
cheia!

--Mas v l se outro consegue o mesmo, dizia o Jos Miguel todo
orgulhoso.  que d'aquillo e d'estas no ha outro que as tenha na
aldeia.

E apontava para a espingarda e batia nas barrigas das pernas.

--So de ferro!

O mestre-escola vinha muita vez, depois do jantar, ter com elles 
sobremesa, beber um copo de vinho e depenicar no queijo.

Caador velho, muito conhecedor d'aquelles terrenos, gostava de dar
conselhos ao genro, que o escutava attencioso.

Isto no obstava a que, sahindo juntos, o Jos Miguel, fizesse enfurecer
o sogro, matando-lhe a caa que este errava.

--Ora anda l, meu velho, resmungava muito alegre, apanha l mais este,
para a conta.

      *      *      *      *      *

Agora o Jos Miguel continuava a sahir todas as manhs, mas s recolhia
alta noite. s vezes, nem recolhia, e ella, coitadita, levava as noites
a chorar.

Quando o marido sahia, punha-se  janella e via-o desapparecer por
detraz da egreja, onde o sol nascente batia de chapa. Passados minutos,
avistava-lhe o vulto, ao longe, na calva do pinhal. O _Valente_ seguia-o
cabisbaixo, triste, desconfiado, como que a extranhar o dono.
Desappareciam depois entre os pinheiros e ella j no podia c debaixo
tornar a avistal-os. Mas da chamin da casa, que alvejava no alto,
comeava a elevar-se no ar muito sereno da manh um penachinho de fumo
azulado, que logo se desfazia no azul do cu.

Ella ento deitava-se de bruos na cama, e chorava convulsamente.

      *      *      *      *      *

N'esse dia pela uma hora, o Eustachio entrou em casa da filha.

--O teu homem?

--Foi para a caa, respondeu a Marianna, sentando-se no leito e  pressa
limpando as lagrimas.

O mestre-escola trazia o bonnet de palla verde, a espingarda a tiracolo,
o polvarinho e o chumbo. No trazia a rede.

--Bem. Deixa-te estar. Escusas de te incommodar. Deita-te, filha, que eu
vou procural-o.

A Marianna quiz retel-o, extranhando-lhe os modos.

--Talvez o no encontre. Sabe Deus onde elle pra!

--Sabe-o Deus, sei-o eu e sabe-o a aldeia em peso, que  uma vergonha!
respondeu o Eustachio, apontando com a espingarda para o alto do pinhal.
Olha, sabes o que vou fazer?

-- meu pae!... disse a rapariga, levantando-se do leito e vindo
segurar-lhe os braos.

--Deixa-me! Muito tenho eu esperado! No teem mais que o castigo que
ambos merecem. Tu sabes quem ella ?

A Marianna disse que no com a cabea.

Mas no havia de saber!...

--A Maria da Escusa, aquella cigana, que, no contente com ter dado cabo
do marido, morto de desgostos, quer fazer outro tanto ao teu homem... e
a ti! Mas eu vou l e mato-a, mato-a como quem mata uma loba!

E, apertando, nervoso, a espingarda contra o peito, saiu arrebatadamente.

A Marianna, cheia de susto, sem foras para seguir o pae, sem foras
para gritar, deixou-se cahir no leito, desmaiada quasi, sem animo para
pensar na desgraa, que lhe estava acontecendo.

      *      *      *      *      *

Assim esteve por muito tempo. Despertaram a afinal uns latidos alegres,
to conhecidos d'ella. Sentou-se no leito. Os latidos approximaram-se, e
por fim o _Valente_ rompeu pelo quarto, saltando, cheio de fome, pedindo
o jantar, a arranhar na porta do pateo.

Ouviu ento a voz do Jos Miguel. Vinha conversando com o pae e o que
diziam no era coisa triste, porque ambos riam s gargalhadas.

A Marianna correu, muito chorosa, at  porta, e, muito excitada, cahiu
soluando nos braos do marido.

--O que  isso? o que  isso? perguntava o Eustachio, tambem com um
nsito na garganta. Choras ento, porque eu te trouxe o homem? Se
adivinhasse o disparate, tinha o deixado l ficar.

--Ento, mulher, ento? Que tens tu? dizia o Jos Miguel muito commovido.

      *      *      *      *      *

Passada meia hora, arranjado o jantar  pressa, sentaram-se todos  mesa.

A curiosidade, que nem um dito, uma alluso deram motivo para saciar,
sorria nos olhos vivos da Marianna.

Que se haveria passado?

Mas, quasi ao fim do jantar, o mestre-escola, que estava conversando
muito animadamente, enganou-se e, querendo beber  saude da filha, pegou
no copo d'agua; o Jos Miguel, muito lampeiro, antes que o sogro dsse
pela distraco, lanou-lhe mo ao vinho e bebeu-o de um trago.

--No  s na caa que se apanham _bigodes_ sr. Eustachio.

--No, no, respondeu o velho. E tu que o sabes d'hoje...!

O Jos Miguel fez-se muito vermelho, e, porque percebesse na mulher um
sorriso em que a malicia apagra a tristeza, levantou-se da mesa e veio
beijal-a muito.

--Coitada da Marianna!

--Ento ella... enganou-te?

--Porque falas n'isso? Que te importa? Que me importa?

A curiosidade da Marianna ainda no estava satisfeita.

--Com quem?... Dize... Dize... Com quem?

Ento o mestre-escola, muito crado--era talvez da pinga? entendeu dever
deixal-os ss, e sahiu a rir, com um arsinho trocista, muito contente, a
esfregar as mos.




O PAQUETE


Era no fim da azinhaga--uma azinhaga estragada pelas chuvas do inverno e
tendo ainda marcada na lama secca a passagem do ultimo carro de bois.
D'um lado e d'outro velhas piteiras misturavam a cr verde claro das
largas folhas carnosas com o verde escuro, quasi negro, das silvas e
pilriteiros; de espao a espao erguiam-se algum sobreiro decrepito,
faias brancas e prateadas, loureiros embalsamando o ar com o cheiro
forte e bom das longas folhas agudas.

No fim erguia-se a casa com o seu aspecto senhoril.

A hera apoderra-se do exterior e, aproveitando as fendas que o tempo
abrira, espreguiando-se sobre o leito do velho musgo amarello que
revestia cada pedra da parede, ia unir as suas folhas delicadas aos
cachos de arroz que desciam em elegantes pyramides das beiras do telhado.

Uma pequena escada, seis ou sete degraus gastos, abalados, partidos,
conduzia do pateo ao vestibulo do palacio.

Sobre o porto, cuja tinta gretada pelo sol cara pouco a pouco,
ostentava-se, comido pelo tempo, o braso da familia, sobre o qual
ameaava ruina uma grande coroa de conde transformada em coito de
lagartixas.

Os vidros ennegrecidos e apenas translucidos tremiam de velhice nos
caixilhos de chumbo.

Pelo pateo, nos intersticios das pedras, crescia livremente a erva,
e a um canto um rallo juntava as estridulas melodias ao monotono coaxar
das rs do pantano visinho.

O Conde estava na livraria sentado n'uma velha poltrona de coiro com
pregos de metal. Tinha na mo um livro latino, que lia attentamente.

A livraria era uma vasta sala alumiada por trez janellas de grande vo.

Avistava-se ao longe a aldeia com seu campanario branco, suas casinhas
bem caiadas, e os cimos dos choupos erguendo-se acima dos telhados e
indicando a estrada que a atravessava conduzindo d'uma villa a outra.

Entre as janellas e as portas estavam as estantes com os grandes
in-folios amarellos, os grossos diccionarios e as obras classicas
latinas, portuguezas e francezas.

A parede fronteira s janellas, por cima da chamin de marmore branco,
era occupada pelo retrato do av do Conde. Era um homem alto, bem feito,
sympathico. Estava vestido  epocha de D. Joo V. Tinha uma das mos
nos copos da espada, as suas commendas ao peito e uma sombra exquisita,
forte, brutal, na metade do nariz do lado esquerdo. A moldura deixra
car o doirado e estava rendilhada pelo caruncho. A um canto uma aranha
tecra a teia e esperava pela presa, escondida n'um rasgo da tela.

O sol descia e o Conde, para lhe aproveitar os ltimos raios, puchra a
cadeira para o vo da janella e, com o livro sobre o joelho, o cotovello
sobre a perna traada e a testa encostada  mo, lia attentamente uma
passagem de Suetonio.

O crepusculo foi invadindo a sala. O sol, depois de ter com o ultimo
raio brincado um instante na testa veneranda do av commendador, desceu
para detraz do cabeo, e as grandes sombras dos montes fundiram-se pouco
a pouco n'uma tinta geral.

O Conde fechou o livro sobre o index e poz-se a contemplar a aldeia.

O vento do norte entrando pelas fendas das paredes sibillava
tristemente no corredor, os vidros zuniam nos caixilhos de chumbo, as
aves nocturnas, que habitavam as vastas chamins do palacio, comeavam a
piar e aos ouvidos do Conde chegava a alegria da aldeia como nota
extranha d'uma lingua esquecida.

Meiados de novembro, as noites eram frias.

O Conde olhou tristemente para as janellas das casas dos lavradores
alegremente illuminadas pelo fogo vivo das lareiras, e, estremecendo de
frio dentro da velha sobrecasaca parda, levantou-se, tocou uma campainha
e, mettendo as mos nas algibeiras, comeou passeando pela sala.

Era um velho alquebrado e quasi completamente calvo; apenas duas ou trez
madeixas de cabello branco e comprido desciam-lhe da nuca at  golla do
casaco. Usava a barba toda; era curta e branca. Os olhos, cuja luz a
edade ia apagando, eram da cr mal definida que teem os olhos dos
velhos e os das creanas de mama: tinham comtudo uma expresso doce
e melancholica. Ao canto da bocca uma prega vertical, desdenhosa e
altiva quando o Conde estava serio, dava-lhe uma expresso de sympathica
tristeza quando sorria.

Ao toque da campainha accudiu um criado.

Era um velho tambem, mais velho do que o Conde talvez. Trazia vestida
uma casaca por certo verde, de to velha que era, se no lhe occultassem
o estofo accumuladas passagens de linha preta.

Entrou curvado um pouco pelo respeito, outro tanto pelos annos.

--Jos, disse o Conde, vae arrancar mais uma taboa  sala do docel a
arranja o lume.

--Sr. Conde, eu ssinho no tenho foras.

--Chama o caseiro, como tens feito nos outros dias.

--O Manuel foi-se hoje embora, sr. Conde.

--Foi-se hoje embora! Porque?

--Foi trabalhar para a quinta do Joo Pereira. V. Ex. bem sabe que o
homem, coitado, tem familia que sustentar e como os ordenados andam
atrazaditos...

--Effectivamente, recordo-me de que ha j bastante tempo... Ora,
coitado! Mas, porque no me disse elle?... Eu esqueo-me de tudo. Has de
dar-lhe dois pintos da minha parte. Eu te ajudo hoje a arrancar a taboa.

E sando ambos, foram a um quarto proximo e arrancaram uma taboa do
soalho. O Jos serrou-a n'umas poucas de partes, feriu lume n'uma
pederneira, porque o Conde reprovava os fosforos como perigosos, e,
pouco depois, uma chamma viva e alegre trepava pela chamin.

O Conde tornou a abrir o livro e continuou a ler Suetonio  luz de um
bocado do seu palacio.

Tinham-se ido as taboas pouco a pouco e j quasi no restavam seno trez
quartos completos, o do Conde, o do Jos e a livraria. Taboas,
vigas, portas e janellas tinham-se desfeito em cinzas.

E os velhos lavradores da aldeia, ao verem o fumo erguer-se acima da
chamin do palacio, sorriam tristemente e diziam:

--Coitado!

Mas o Conde continuava alegre e indifferente. Como at ali nada lhe
faltra, Deus sabe  custa de quantos sacrificios do pobre criado, no
pensava no estado de miseria a que se achava reduzido ou, para melhor
dizer, no queria pensar.

Quando ao domingo voltava da missa, vinha conversando alegremente, com
um certo ar entre familiar e protector, com os lavradores que o
estimavam e gostavam de ouvil-o. Entrava nas choupanas mais pobres, e
afflicto com a miseria que n'ellas encontrava, dizia baixinho para o
velho Jos, que o acompanhava sempre, com o grande missal romano debaixo
do brao:

--Jos, deixa um pinto em cima da mesa para esta pobre gente
festejar o domingo.

E saa tocando ao de leve com os dedos nas faces rosadas das
criancinhas, que olhavam para elle com os seus meigos olhos grandes,
cheios de espanto e de curiosidade.

O Jos demorava-se como que para obedecer ao fidalgo e saia momentos
depois, levando nas vastas algibeiras da casaca os bocados de po negro
e de carne, com os quaes e com a ajuda de mais uma taboa o Conde havia
de jantar n'aquelle dia.

E o Conde continuava alegre e passava os dias conversando, como elle
dizia, com os seus auctores favoritos e entretendo a imaginao com os
sonhos doirados d'um futuro melhor.

Tinha um filho.

Havia trez annos que o seu genio desleixado o obrigra a partir para o
Brazil, na esperana de,  fora de trabalho, reparar os desastres da
fortuna.

E no fra a ambio que o levra to longe. No ignorava elle a
maneira como se sustentava o Conde e o seu genio altivo custava-lhe
sujeitar-se  compassiva esmola dos aldeos.

Um dia, deu parte de suas tenes ao pae, mostrando-lhe a conveniencia
d'aquella partida, occultando-lhe porm uma grande parte da verdade com
receio que a revelao d'ella fosse um golpe fatal na vida do velho.
Repellida primeiramente a ideia como absurda e pouco digna, o pobre pae,
com o corao esmigalhado pela dr e pela vergonha, teve por fim que
render-se e sacrificar o seu orgulho ao orgulho mais nobre do filho.

Obtida a licena, partiu levando como capital a beno paterna e os
poucos pintos que rendeu mais uma hypotheca.

      *      *      *      *      *

Os primeiros dias foram horriveis para o Conde. Sentia um vacuo enorme
n'aquella casa, havia pouco to cheia ainda. Depois a dr foi
abrandando pouco a pouco, e o Conde voltou aos habitos antigos. Tinha
mais um sentimento no corao: a esperana.

      *      *      *      *      *

Uma tarde chegou uma carta que dizia:


Meu caro pae, vou bem, vou muito bem. Pelo proximo paquete espero poder
enviar-lhe cem mil ris, quantia que continuarei a mandar todos os mezes.


O Conde procurou _paquete_ no diccionario de Moraes, mas achou a palavra
comida pela traa.

O Jos chorava de alegria e n'aquella noite deitou duas taboas no lume,
acceitou um copo de vinho ao Joo Pereira, e, quando acabou o tero,
disse para o Conde, com quem o resra em voz alta:

--Para que se realise o que sr. D. Carlos nos promette: Salve, Rainha.

      *      *      *      *      *

E passou-se mez e meio e o Conde dizia:

--O que ser _paquete_?

De Agostinho de Macedo para c no sabia nada, no lia jornaes, nem
vl-os queria. Detestava-os com um odio de velho, quasi instinctivo.
Quando via algum jornal murmurava logo!

--Maonaria!

E continuava a esperar o paquete, como um sebastianista espera D.
Sebastio, com uma confiana cheia de misterios e de pequenas impaciencias.

O palacio j pouco mais tinha do que as paredes. Pouco a pouco, taboa,
por taboa, viga por viga, o quarto do criado passra pela chamin e este
dormia agora na camara do Conde.

E o velho fidalgo dizia ao ver crepitar na vasta lareira as taboas
carcomidas:

--Paciencia! Isto concerta-se depois, quando chegar o paquete.

E o Jos apenas respondia:

--Salve, Rainha.

Estava-se no principio de janeiro.

O Conde comeou a separar os livros em duas classes: a dos livros uteis
e a dos livros inuteis.

Os livros inuteis transformaram-se em calor, e, quando o Conde via as
paginas amarelladas torcerem-se sob a aco do lume, olhava para ellas
tristemente e depois, erguendo os olhos para o retrato do av, dizia
mentalmente, como que pedindo desculpa:

--So os peores.

Acabaram os livros inuteis e o Conde poz de lado os optimos e queimou os
restantes.

Duraram dois dias.

E como o paquete no chegava, o Conde coava a cabea e olhava com um
modo menos respeitoso para o missal romano.

O Jos triplicava o numero das _salve-rainhas_.

E o paquete no chegava, e os manuscriptos arderam, e o Conde
queimou as gravuras e conservou apenas o Suetonio.

      *      *      *      *      *

Passados dias chegou uma carta.

Trazia um sobrescripto azul, um pouco transparente, muito boa lettra,
uma lettra com muitos finos e grossos, como a d'um professor de
caligraphia. Trazia a marca do Brazil e cheirava a carvo de pedra.

Foi o Jos quem a recebeu, e correndo para a livraria, onde o Conde
estendia instinctivamente as mos tremulas sobre as cinzas frias da
chamin, entrou gritando:

--O paquete! o paquete!

O Conde estremeceu, ergueu-se e pegou na carta.

Era talvez a riqueza!

Passou-lhe uma nuvem pelos olhos.

Encostou-se a uma poltrona e, tremendo, abrio o sobrescripto.

E leu:

Temos o doloroso dever de dar parte a V. Ex. do fallecimento do seu
filho...


O Conde no poude ler mais e deixou cair a carta.

Jos exclamava:

--Perdidos! Perdidos!

E dava com a cabea nas paredes.

O Conde conservava-se silencioso e fitava os olhos turvos na folha de
papel azul, que tremulava no cho assoprada pelo vento.

--Resta-nos a caridade, Jos, disse porfim. Vae, vae ter com essa gente
a quem hontem ainda eu dei esmolla, e dize-lhe que o Conde lhe pede, por
amor de Deus, um bocado de po.

E depois soluando:

--Manuel! Filho!... Meu querido filho! E como fazia muito frio, o Conde
queimou o Suetonio.




PERDIDO


Quando ouviu ao longe, no campanario da freguezia, bater meia noite,
entreabriu de mansinho a porta da choupana e escutou por longo tempo.
Nem um sussurro!... Tudo dormia quella hora.

Saiu e, p ante p, com a enxada ao hombro, approximou-se da aldeia, que
tinha de atravessar.

Tudo era em silencio; apenas, muito ao longe, junto  fonte, uma r
solitaria coaxava tristemente.

A lua no minguante alumiava com uma serenidade triste umas trinta ou
quarenta casas, dispostas no fundo do valle, ao acaso, entre os choupos
da beira do riacho e os ultimos pinheiros da matta, que descia pela
encosta em pujante vegetao sombria.

Pelas fendas das portas mal cerradas, ouvia-se por vezes o profundo
ressonar compassado dos homens de trabalho. Ento parava de ouvido 
escuta, olho  espreita, com um p para deante, o outro para traz, posto
de bico, prompto para a retirada. E, quando tudo outra vez cahia no
primitivo silencio, tornava a caminhar devagarinho, sempre cauteloso,
sobresaltado, de olhar desconfiado, como se fosse commetter um crime.

Grossos rolos de nuvens pardacentas, com largas nodoas escuras, onde a
lua, n'uma carreira seguida, mergulhava enchendo o campo de trevas,
comearam deixando cair grossos pingos d'agua sobre a rama dos
pinheiros.

O vento soprava rijo do sul e toda a serra soltava gemidos dolorosos,
fantasticos, em meio do sussurro da folhagem.

 medida que a encosta se ia elevando, cerrava-se mais e mais o pinhal.
A chuva engrossra, e por entre as ramas mal coava um ou outro raio de
luar, iriando, como perolas transparentes, as gottas d'agua, que
tremeluziam no extremo das agulhas.

Era no alto da serra que o seu thesoiro junto pouco a pouco, desde
tantos annos, fra escondido. Vinha augmental-o n'aquella noite, vinha
palpal-o, tomar-lhe o peso, tendo como unicas testemunhas de prazer
tamanho o co de temporal e os pinheiros a gemerem.

      *      *      *      *      *

Subitamente estacou. Na clareira, ao meio do pinhal, era a choupana do
guarda. Ouvira um chro de criana e uma voz triste de mulher a cantar.

O avarento approximou-se p ante p.

-- fome que o pequeno tem, dizia a mulher com a voz cheia de lagrimas,
interrompendo o canto. Se eu no comi!... Seccou-se-me o leite.

E chorava.

Aquella mulher pedira-lhe esmola na vespera. Pedira-lhe esmola!... Tinha
fome, dizia. E elle?... Tinha frio. E elle? O filho definhava-se, desde
que o marido d'ella adoecra. Pedira-lhe esmola, como se lhe fra
possivel, a elle, dar um pedao da sua alma. Era idiota a mulher!

Mas ao som d'aquella voz estremeceu, porque ella, doida, offendida pela
recusa, desgrenhada, d'olhos injectados, chamra-lhe ladro, assassino,
pondo-lhe os punhos cerrados ao p da cara.

--Ho de tudo roubar-te um dia, e tu, co, has de chorar, em cima da
cova onde escondeste o dinheiro, esfregando a cara na lama,... ladro!

E s a ida de poder um dia ser assassinado, roubado, que vinha a
dar na mesma, fez-lhe passar pela espinha um calafrio, que lhe erriou
todos os pelinhos do corpo.

Afastou-se da cha, para longe afugentar aquella ida soturna; mas
poucos passos andra, quando lhe pareceu ouvir o rachador, com uma voz
fraca de tisico, entrecortada pela tosse, pronunciar-lhe o nome.

Novamente estacou e ficou-se boquiaberto, respirando a custo, de ouvido
 escuta, sentindo bater accelerado o corao.

Calra-se tudo na cha e apenas por vezes o vento arrastava pelo pinhal
fra uns tristes gemidos de criana, j falta de foras e farta de soffrer.

Tentariam aquelles roubal-o?

E estremecendo, cheio de susto, deitou a correr pelo pinhal fra,
deixando o vento levar-lhe o chapo esboracado e remoinhar-lhe nas
longas farripas grisalhas, largando aos bocados nos tojos e nas silvas
os tristes farrapos que o cobriam, escorregando na caruma, agarrando-se
aos pinheiros, que sacudidos o encharcavam, a correr, a correr por
ali fra, at ao alto da serra, onde se deixou cahir extenuado ao p
d'um enorme pinheiro manso, scco, que sobre um rochedo escalvado
atirava para o ar os longos braos de espectro.

Era ali o seu thesoiro.

      *      *      *      *      *

Longo tempo ficou estirado, de bruos, sobre os fetos humidos,
arquejando longamente. Depois, creando animo, mostrando fora
inacreditavel em corpo to franzino, com os braos osseos erguendo alto
a enxada e deixando-a depois cair com um esforo, que lhe arrancava do
peito cavado um gemido a cada enxadada, comeou a cavar, a cavar, at
que finalmente o ferro bateu de encontro ao ferro.

Ento afastou a terra, ajoelhou, debruou-se com avidez sobre a cova,
metteu-lhe dentro as mos, e, arquejante, fazendo um esforo
supremo, com um ah! de victoria, puchou a si o cofre, que, rolando no
cho, produziu um som criador do extasis.

Riu-se alto, enlevado. Depois ergueu-se e com a manga da jaqueta limpou
o suor que lhe escorria pela testa.

Ali estava o seu thesoiro!... Seu!

E olhava para o cofre, com ternura, sorrindo-se com uma lagrimasinha no
olho, abaixando-se para sopesal-o.

Queriam roubal-o talvez! Abraava-se ao dinheiro, com o olhar luzente
d'uma fera, sentindo nas entranhas uma coragem enorme para defendel-o,
como nunca loba defendeu um filho.

Podia alguem ter desconfiado do logar onde o escondra... Era muito
noite ainda teria tempo de sobra para leval-o d'ali. Felizmente no lhe
escasseavam foras. Querido thesoiro da sua alma, junto moeda a moeda!

E, outra vez deitado sobre o cofre, abraava-o, beijava-o, como se outra
alma l dentro houvesse de perceber a d'elle; pedia-lhe, cheio de
ternura que no se deixasse roubar, que era vida, sangue de seu corao!

Os pinheiros humidos tornavam balsamica a atmosphera. Os raios obliquos
da lua quebravam as sombras das arvores nos troncos das outras e as
sombras das copas bailavam, fantasticas, sobre os fetos molhados.

E elle ali, to ssinho com seu thesoiro! Havia tanto que lhe no punha
os olhos!

Sentando-se n'uma pedra, approximando o cofre, com um esforo enorme,
fez girar a tampa nos gonzos ferrugentos e queixosos.

O luar, entre dois farrapos de nuvens, encheu o cofre de faiscas d'oiro.
E o avarento, em extasis, fechou os olhos, como encandeado por tanta
luz!

      *      *      *      *      *

O vento cessra de repente e no instante em que o temporal tomou flego,
um grito de dr, estridulo, repetido ao longe, ainda mais dolorosamente,
pelo ecco da montanha empinada, partiu da choa do rachador.

Eram elles com certeza!... Eram os ladres!

Ergueu-se abraado ao thesoiro, tranzido de medo, suando frio. E depois,
espavorido, deitou a fugir, esbarrando nos pinheiros, deixando a carne
nos esgalhos, cahindo, agarrado ao cofre, sobre os seixos agudos, e
levantando-se logo para correr outra vez, correr sempre, para fugir do
grito, que, ameaador, o perseguia.

E toda a noite durante, andou fugido, em correrias pelo pinhal, j nem
sabia por onde. E o sangue e o suor corriam-lhe pela cara.

Quando o luar comeava esmorecendo, ajoelhou, meio desfallecido, e
com as unhas agudas, recurvas, abriu uma cova funda, onde, com esgares
de doido enterrou o dinheiro, longe, muito longe, d'onde estava d'antes.
Tapou tudo e, por instincto de precauo, puxou-lhe os fetos para cima.
E abalou outra vez.

Era manh quando chegou a casa extenuado, esfarrapado todo, com os
cabellos agarrados s faces gotejando sangue, ardendo em febre.
Deixou-se cahir no catre nojento.

O dia rompia sereno. O vento abrandra e s por detraz da serra  que as
nuvens azuladas sombreavam intensamente o fundo da paizagem, em que
destacavam alvejantes as casarias. O sol erguia-se esplendido, enchendo
os campos de joias scintillando no escrinio de verdura. A aldeia
acordra n'um banho de luz, cheia de bulicios, de cantos de gallos e
risos de crianas. Pelas chamins subia uma columnasinha de fumo
azulado, transparente, que a enchia do cheiro bom, alegre, do pinho
queimado nas lareiras, aquecendo os almoos.

      *      *      *      *      *

Quando o homem voltou a si, depois de muitas horas de cruel delirio,
apenas intervallado por curtos somnos cheios de pesadelos, um pesadelo
ainda lhe pareceu a lembrana confusa de toda aquella noite agitada.

Viu-se percorrendo o pinhal immenso, que gemia e danava lugubremente,
estorcendo-se no temporal como um condemnado na fogueira. Lembrou-se do
grito que o perseguira. E logo se viu sujo de sangue, com as unhas
despegadas do sabugo, o corpo cheio de nodoas negras, os joelhos
escalavrados.

Mas onde enterrra o seu oiro?

Passava a mo pela testa, apertando as fontes, tentando recordar o
sitio, a forma d'algum pinheiro, o caminho que seguira. Sentou-se no
catre, rasgando com as unhas lascadas a carne magra do peito,
tremulo, suando frio.

Levantou-se e atravessou a aldeia aos bordos, com a vista desvairada, a
bocca torta, ameaando com a mo de esqueleto as mulheres sentadas s
portas das casas, vigiando os pequenos, que brincavam no riacho,
tostando ao sol os ventresinhos redondos e as cabecinhas loiras.

E o pinhal at onde a vista se alongava sombreava os montes por ali
fra! Ali estava o seu thesoiro, ali debaixo d'uns fetos, cujas hastes
se abriam  sombra d'uns pinheiros, fetos e pinheiros todos eguaes
n'aquella immensidade!

Outra vez, arquejante, mal sustendo-se nas pernas, trepou e desceu
encostas, procurando pegadas, querendo lembrar-se, serenar, passando a
mo pela testa com gestos de desespero, como tentando arrancar do
cerebro a loucura, que, pouco a pouco, o invadia!

      *      *      *      *      *

Quasi noite foi dar  choa do rachador.

Lembrou-se ento que d'ali partira o grito que o amedrontra e,
escumando de raiva, atirou-se contra a porta, berrando:

--Ladres! Ladres!

No meio do quarto estava a criana deitada sobre uma caminha de fetos,
pallida, mirrada, as mosinhas de cera atadas sobre o peito com uma fita
velha de seda roxa.

E o pae e a me, ao lado do cadaver do filho, choravam mansamente.

O avarento parou no limiar da porta, alumiado pelo ultimo vislumbre da
razo.

Recuou instinctivamente e foi cahir sobre um grande molho d'achas,
dizendo palavras desencadeadas, com os olhos esgaseados, doido de todo e
para sempre.

E por deante d'elle passavam bandos alegres de pintasilgos fugindo para
os ninhos, levando nos bicos os farrapos da jaqueta, que elle deixra
nas silvas do pinhal, em quanto os gaios contentes, aquecendo-se ao
ultimo raio de sol d'aquella tarde de primavera, soltavam, pulando de
ramo em ramo, grandes gargalhadas ironicas.




AD ASTRA


Quando o tio Bernardo, deitando o barrete de pelles para o lado,
comeava a apontar para o tecto as nuvens de fumo do negro cachimbo de
gesso, escusado era falar-lhe; s rosnava em resposta um dito de mau
humor ou, quando muito, um disparate. Estava pensando no Brazil, no seu
Brazil, como lhe elle chamava.

E era tratar de no fazer bulha, emquanto elle, sorrindo para os
flores do tecto, recordava scenas da mocidade, temporaes vencidos pelo
arrojo, amores de mulatas, muito ouro ganho n'um s bafejo da sorte.

--O tio Bernardo est no Brazil, diziamos ns baixinho.

E, quando o cachimbo se lhe apagava, olhava para ns a rir, sacudindo a
cinza na unha rugada e negra:

--C me embarquei eu outra vez! Demonio de tabaco! Este diabo vem de
l... No sou capaz de fumal-o sem que logo me ponha a sonhar... Estava
pensando agora...

E comeava uma historia por ns ouvida mil vezes. Eu e minha irm
sahiamos nos bicos dos ps, e elle concluia-a, dirigindo-se a minha me,
que sentada na poltrona de taba, j sem feitio, pouco a pouco adormecia
serenamente.

 com lagrimas nos olhos que, depois de tantos annos, me recordo d'esses
tempos.

A nossa casa era a mais risonha de toda a villa.

Ainda me alegra relembral-a, no alto dos rochedos, sobranceira ao mar.
Muito pequena, mas sempre muito caiada, davam-lhe certo ar as gelosias
verdes das janellas. Tinha em volta uma cercadura de ninhos, e todas as
manhs, no vero, acordava ouvindo cantar as andorinhas.

No inverno era mais triste. Quando havia temporal, as ondas salpicavam
os vidros e minha irm pequenina, assustada como um pardal, escondia a
cabecinha loira debaixo do chaile de minha me, que, sentada  lareira,
lembrando-se do marido e do filho mais velho, que andavam sobre as aguas
do mar, resava o credo em cruz.

No eramos dos mais infelizes; nunca soube o que era miseria. Depois que
o tio Bernardo chegou, houve at sempre, l em casa, um certo luxo, uma
certa despreoccupao pelo dia seguinte.

 que o tio, alm de vir dono d'um cahique, trazia comsigo uma
caixinha de ferro cheia at cima de muito boas libras.

Meu pae, que viera com elle como piloto, pouco tempo se demorou comnosco.

O tio Bernardo disse-lhe, uma noite, depois da ceia:

--Olha, irmo; o que ali est... (e apontava para a tal caixinha) o que
ali est chega-me para aqui poder acabar socegadamente os meus dias.
Sabes que mais? Dou-te de presente o cahique. No tenhas cuidado na
mulher e nos filhos. O teu mais velho tem quinze annos; que v comtigo.
Vai, e s to feliz, como eu fui.

Era sina de todos--o mar. Os mais desgraados eram pescadores; os outros
quasi todos partiam para o Brazil; alguns voltavam pilotos, alguns
commandando por sua conta; eram os mais felizes. Alguns tambem... nunca
voltavam.

E era a lembrana d'estes que tornava to triste a lareira nas longas
noites de inverno, quando uivava o temporal.

      *      *      *      *      *

Um dia parti para a escola um bocado mais cedo que o costume, porque no
quintal do padre prior, tinha visto uma figueira deitar por cima do
muro, para o lado do caminho, um dos ramos todo cheio de figos brancos,
tentadores.

O mestre, ou porque desejasse lisongear o tio Bernardo ou porque na
verdade eu me atirasse ao estudo um pouco mais que os outros, quando ao
domingo, depois da missa, nos encontrava a passear na Praa, nunca
deixava de me dizer, tocando-me com dois dedos na cara:

--Ah! que se o tio quizesse... havias de ir longe.

Eu no sabia bem o que elle queria dizer com aquelle _ir longe_.
Lembrava-me logo do Brazil. Mas porque motivo eu e no os outros?

N'aquelle dia, quando j de vara na mo me dispunha a roubar quatro
figos ao prior, ouvi de repente a voz de meu tio. Senti um calafrio pela
espinha.

--Ol, rapaz! que andas por ahi a mariolar, em vez de ires direito para
a escola?

Voltei-me todo assustado e vi-o  janella do prior, que, felizmente para
mim, desatou s gargalhadas.

--Espera ahi que te quero falar.

Esperei, mas quando chegou ao p de mim, apesar de elle nunca me ter
batido, com as duas mos tapei as orelhas e a nuca.

O tio Bernardo poz-se a rir.

--No tens vergonha...!

Comeou andando ao meu lado muito depressa. s vezes parava limpando o
suor.

--Sabes o que vou fazer? perguntou-me. Vou ver se o teu mestre diz
verdade. Quero um dia assistir  escola.

Tremeram-me as pernas. Se ainda depois de me ter apanhado a roubar os
figos, me fosse ver a atrapalhar-me  pedra! Fiz a promessa d'uma vla
de cera  Senhora dos Milagres e, com mais alguma confiana, entrei na
escola e fui pedir a benam do mestre.

Chegmos um nadinha tarde. Estava o Patricio  pedra.

O tio Bernardo fez um signal para que ninguem se incommodasse e
sentou-se ao p do professor. Eu caminhei gravemente para o meu logar.

O Patricio, coitado, que estenderete!

Parece-me ainda estar a vel-o com as calas de quadradinhos, remendadas,
muito curtas, a barriguinha muito redonda, o que lhe dava um
aspectosinho grave, a camisa de panno cru aberta sobre o peito, e dois
bocados de ourelo a servirem de suspensorios. Com as mos nas
algibeiras, os olhos muito injectados, e as azas do nariz a tremerem,
ouvia contendo o mau genio, a rabecada do mestre.

No foi nunca dos mais felizes, coitado! Por ali ficou sempre. Tem
quatro ou cinco medalhas ao peito e todos os dias a fome em casa.

--O senhor... disse o mestre apontando para mim.

Ergui-me e, pegando no giz, acabei com desembarao a conta, que tanto
atrapalhava o Patricio.

--Muito bem. Tire a prova dos nove.  o que eu digo, murmurou, quando
acabei. Has de ir muito longe.

O tio Bernardo pediu ao mestre que me fizesse mais algumas perguntas. A
todas respondi com muito animo e desembarao.

--D. Affonso Henriques, o Conquistador, D. Sancho I, o Povoador, D.
Affonso II, o Gordo...

A historia toda.

--Muito bem. Pode sentar-se.

O tio levantou-se, dizendo-me:

--Estou contente comtigo, rapaz.

E sahiu.

Ao jantar reparei que o tio Bernardo e minha me deviam de ter falado a
meu respeito. Apenas eu abria a bocca, olhavam um para o outro e tossiam
com certo ar misterioso. Minha me teve alternativas de alegria e de
tristeza.

Quando a via rir, pensava:

--O tio falou-lhe na lio.

E, quando a ouvia suspirar, lembrava-me dos figos. Se ella soubesse...!

Quando o jantar acabou, o tio Bernardo chamou-me e disse-me:

--Ouve c. Tu tens uma cara seria e o teu mestre, que deve ser n'isso
entendido, diz que aqui dentro tens mais alguma coisa do que os outros.

E batia-me com os ns dos dedos na cabea.

Eu estava radiante de alegria.

--Alm d'isso tens os pulsos muito fraquitos, e isso  o diabo para um
homem do mar.

A conversao tomava de repente para mim um caminho inesperado. Se os
pulsos eram fracos, e isso era o diabo para um homem do mar, que me
importava o que o mestre dizia que eu tinha dentro da cabea?

Olhei para minha me. Minha me sorria.

--Ainda agora, continuou meu tio, estive a conversar com o padre prior a
teu respeito. Aquillo  que  vida, meu filho: padre!

--No quero! respondi, dando um murro em cima da mesa. No quero ser padre.

--Ninguem te obriga, rapaz. Ha outras vidas to boas ou melhores at.
Medico, por exemplo.

--No quero!

E, desviando os olhos para o lado da janella, vi l onde o co vai dar
um beijo no mar, uma velasinha alvejando, que me pareceu do meu partido
e a gritar-me l de longe:

--Fazes muito bem. No queiras ser medico, no queiras ser padre. Olha
para mim. C dentro vai a ventura!

--Pois no queiras! gritou meu tio.

E comeou a passear pelo quarto, puxando grandes fumaas.

Eu, espantado do meu atrevimento, tinha baixado tristemente os olhos
e, muito amuado, coava a cabea.

--L no collegio, tens tempo de sobra, para te resolveres, disse meu tio
porfim, parando deante de mim. manh vais comigo para Lisboa.

Lisboa!

Soou-me o nome aos ouvidos como palavra magica.

Lisboa! Ia partir para Lisboa, que nunca tinha visto, mas cujo s nome
me despertava na imaginativa sonhos encantadores, prodigios de riqueza,
manses de fadas!

Ergui a cabea, to cheio de alegria, que at me puz a rir de rijo!

Olhei para minha me. Coitadinha, chorava.

--Vamos, disse o tio, batendo-me com a mo no hombro. Vai vestir o teu
fatinho preto, que tens que despedir-te desta gente!

Lisboa! Lisboa!

Eu bem via as lagrimas da minha me, mas este grito da minh'alma
calava-me o corao.

Fui despedir-me do mestre-escola que, adeante de todos, me deu um
valente abrao, dizendo-me:

--Continua assim, meu rapaz. _Sic itur ad astra!_

Eu, muito envergonhado, para fazer alguma coisa, bafejava a palla do
bonnet e limpava-a depois  manga da jaleca.

Ficou-me o latinorio no ouvido. Annos depois encontrei-o... Boa vontade
no te faltava, querido mestre!

 noite, depois da ceia, o tio Bernardo julgou dever discursar.

--Quando s vezes me esqueo para ahi horas inteiras a fumar cachimbo,
vocs pem-se a rir e dizem: L est o tio Bernardo no Brazil!... Pois
bom  que saibas, antes que o aprendas  tua custa: nem tudo so rosas
na vida. E no mar os espinhos so muitos. A gente volta, chega a casa,
esquece tudo. Quantas vezes o diabo no levou a cardada! O que
passou, passou; olha a gente para traz e s v aquillo de que tem
saudades: por isso nunca falo de fomes, de privaes, de perigos... No
te d desgosto no ser homem do mar. Andar sobre as ondas  tentar a Deus.

No sei que mais me disse ainda o tio Bernardo para me provar que, desde
que eu voltava costas ao Oceano e marchava para Lisboa, era o ente mais
feliz do mundo. Bem lhe dispensava o sermo. J me via homem, voltando
para a terra, de relogio e breloques, apertando na praia, depois do
banho, as mosinhas das senhoras, fumando o meu charuto, tratando o
administrador por _tu_ e o prior por _voc_.

--Agora, rapaz, vai deitar-te e pede a benam  tua me.

Ento, no sei porqu, senti de repente um n na garganta e eu, que to
pouco me lembrra d'ella, foi a soluar que lhe cahi nos braos. Ella
apertou-me contra o peito, muito, muito, at me fazer doer, e
dando-me um beijo muito longo, disse-me um adeus to sumido, to
sumido que quasi o no ouvi.

No dia seguinte, ao romper da manh, eu e o tio Bernardo, ambos na
almofada da diligencia, partiamos caminho de Lisboa.

      *      *      *      *      *

Quando, depois de bacharel e de muito tempo gasto a escrever cartas e
procurar empenhos, consegui finalmente ser admittido como amanuense nos
proprios nacionaes, telegraphei a minha me, ou que na resposta me
participou a chegada de meu pae.

No se calcula a alegria com que parti.

Havia trez annos que no via o querido velho, que s de longe em longe
vinha a Portugal matar saudades.

Estavamos ento no principio do inverno e um denso nevoeiro espalhava-se
sobre o mar. Ainda longe da villa, j ouvia o sino da Senhora dos
Milagres tocando afflictivamente para indicar o porto aos que andavam fra.

--O Jos Sacrista, coitado, disse-me o cocheiro, tem o filho l no mar e
desde hontem de manh que est agarrado  corda do sino.

Foi talvez o nevoeiro, ou foi aquelle sino to afflicto, ou talvez d do
sacrista, que fez com que me apeasse da diligencia, levando oppresso o
corao.

No caminho de casa encontrei o mestre-escola que me veio abraar todo
tremulo, cheio de brancas, abordoado a uma bengala.

--Parabens, muitos parabens. Eu bem te dizia.

No pude deixar de sorrir-me.

--Que pena, continuou, vires em occasio to triste!

--O que?

--No sabes?... Valha me Deus! O tio Bernardo...

--Morreu? perguntei ancioso.

--No, felizmente ainda no. Venho de l agora. Mas est to mal...

No ouvi mais e desatei a correr. Estavam todos reunidos no quarto do
tio. Quando entrei, abriu os olhos e disse:

--s tu! ainda bem que vieste. Deu-me o caruncho. Tinha pena de morrer
sem tornar a vr-te. J sei que ests amanuense. Sou um homem rude, no
sei o que isso ; mas deve ser... muito! Foste longe.

Esteve um momento calado, respirando a custo, e depois continuou:

--O teu irmo foi menos feliz. Nasceu forte, foi para o mar. O teu pae
j est farto de andar por esses oceanos e deu-lhe o cahique.

Olhei para meu irmo. Estava herculeo. Uma barba negra, muito espessa,
descia-lhe at meio do peito. Um pesado grilho de oiro cahia-lhe do
pescoo at ao ventre redondo. Meu tio fitou por um instante em mim os
olhos j embaciados, e sorrindo:

--Olhem que mosinhas! No vivias no mar dois dias. Tive raso.
Emfim, graas a Deus, fiz todos felizes.

Fechou os olhos e esteve assim por muito tempo, arquejando. Quando
tornou a abril-os, procurou-me com a vista:

--Tenho pensado muito em ti... Como  o latinorio do mestre?

No sabia o que elle queria dizer... Depois lembrou-me de repente.

--_Sic itur ad astra._

--_Ad astra, ad astra!_ repetiu machinalmente.

E, com os olhos vidrados fitando os flores do tecto, ficou-se a sorrir,
como se Deus o houvera levado para um Brazil ideal.




O VENTURA


Quando comeou de namoro com a Maria Eduarda, ainda no havia carreiras
de vapor. Faziam apenas concorrencia aos catraeiros de Belem os omnibus
immensos da Companhia, que de meia em meia hora passavam, chocalhando
por aquella estrada fra at ao Pelourinho, uns vinte passageiros, a
seis vintns por cabea.

A vida de barqueiro no era ento das peores; e o Jos da Anastacia
com o seu bom genio constante e o sorriso obsequiador, em que mostrava
os dentes amarellados pelo tabaco, quasi da cr do rosto requeimado
pelas soalheiras do Tejo, conquistra as sympathias de muitos, que
preferiam o bote d'elle e a viva conversa do algarvio,  velocidade
pacata dos churries da Companhia.

Era vel-o quando, por exemplo, tinha de transportar at ao Terreiro do
Pao a familia do Conselheiro, azafamado, logo desde manh, lavando o
bote, arranjando o toldo, remendando a bandeirinha portugueza, dadiva
das meninas, e que fluctuava l no alto, no angulo da vla, com mais
donaire e, com o ser pequena, com mais orgulho que a bandeira branca de
cruz vermelha d'uma nu da India.

O Conselheiro, muito amigo d'elle, nunca lhe chamava seno o Ventura.
Tinha-lhe ficado a alcunha. E bem a merecia, quando sentado ao leme, com
a mo junto aos sobrolhos e os olhos piscos por causa do sol, todo
cheio de si e do seu barco, sorria satisfeito, vendo a bandeirinha a
fluctuar l em cima, e a pra do bote, um pouco tombado, riscar o
espelho azul, em que as ondas s l muito longe se encarneiravam, nas
Bailadeiras, junto ao Pontal de Cacilhas.

E os vos azues das filhas do Conselheiro esvoaavam alto, erguidos pelo
vento.

 volta, como no havia pressa, preferiam vir a remos. O Jos, para
entreter, contava historias e fazia reflexes, que as meninas
approvavam, meneando lentamente a cabea, sentadas uma de cada lado do
barco, fitando os olhos nas margens do Tejo que deslisavam lentamente. E
elle, fincados os ps no banco deanteiro, de mangas arregaadas,
deixando ver os musculos possantes dos braos cabelludos, duros como
seixos e palpitando com o esforo, sorria n'uma felicidade santa e
levantava compassadamente os remos, d'onde cahiam enfiadas de
perolas, que os ultimos raios do sol cravejavam de pontos luminosos.

A Anastacia, uma velhinha, que morava n'uma agua furtada, quasi ao cimo
da Calada da Ajuda, benzia-se reconhecida cada vez que o Jos entrava
em casa, atirando para cima da mesa os ganhos do dia; e, pegando na
cabea do filho com ambas as mos, enterrando os dedos rugosos na basta
grenha emmaranhada, beijava com ancia, mil vezes, sobre os cabellos
seccos e duros, o amparo querido da sua viuvez.

Elle, um homemzarro com vinte e tantos annos, adormecia, logo depois da
ceia, com a cabea reclinada no collo da me, canado, mas feliz,
contente n'aquelle ninho.

--Jos, vamos, acorda, dizia ella, dobrando o sero, quando na torre da
Boa Hora batiam vagarosamente as dez.

O Jos levantava a cabea e passava a mo pela nuca, cheio de somno.

--Que  isso homem? Pe-te em p, pedao de mandrio!

Com os olhos meio cerrados, encandeado, dirigia-se ento para o quarto,
murmurando:

--Sua benam, minha me.

E no pediam a Deus seno um futuro de dias assim.

      *      *      *      *      *

Pelos fins de outubro, uma tarde, o Jos lembrou-se de deitar por ali
fra, at Monsanto.

Ia passeando devagarinho.

O vento soprava do noroeste. Ao meio dia tinha dado aquella volta, e o
Jos achava-lhe geitos de querer saltar para a barra. Quando chegou ao
cimo da serra, viu o Bugio rodeado de espuma e as ondas cahindo d'alto,
l por detraz, ao p da Costa.

Diabo do inverno! Comeava cedo.

O sol descia. O Jos parou um bocado a vel-o mergulhar na espuma.

Comeou soprando mais rijo o vento, e, quando o sol desappareceu,
fechava o horizonte uma lista negra, franjada de oiro, que ameaava
engrossar.

Pois paciencia! Felizmente l estavam na gaveta as economias do vero.
Todos os annos havia inverno e na casa d'elle nunca houvera fome, graas
a Deus.

E o Jos levou a mo ao barrete.

Sentia-se feliz, no tinha cuidados, o dinheiro entrava-lhe pela porta
dentro; teria at demais, se fosse a comparar, porque a elle nada lhe
faltava e a muitos faltava tudo.

Lembraram-lhe ento certas historias. Aquella mulher a quem uma vez
alugra o bote, porque a encontrra a chorar no Largo. Tinha deixado os
filhos ssinhos em Caparica e estava ali com um vintem na algibeira; e
elle alugra-lhe o bote pelo vintm, que acceitra, porque no queria
envergonhal-a. E outra vez que elle se escondeu para o Conselheiro o no
ver e alugar o bote ao tio Matheus, que havia dois dias no trabalhava e
tinha a filha doente em casa, a tossir, a tossir, e elle sem
dinheiro para lhe comprar o caustico?

Havia tanta pobreza!

Elle nada lhe faltava e at na algibeira trazia quasi sempre uns cobres,
para o que desse e viesse.

E como levava sede, entrou n'uma taberna e pediu dois decilitros.

O taberneiro tinha sahido. Foi a filha quem veiu servir.

O Jos ficou um pouco enleado a olhar para a rapariga, quando esta lhe
trouxe o copo trasbordando, deixando cahir no pires de barro grosso,
branco, riscado de azul, um pouco de vinho em que ella molhava a unha do
pollegar.

Para o gosto d'elle nunca vira mulher assim!

Levou a mo ao barrete, e disse com a sua educao costumada:

--Muito obrigado.

E ficou-se a olhar para ella, um pouco apatetado, querendo falar e no
lhe occorrendo nada, sentindo como que um n na garganta e um vo
no entendimento, que o apouquentavam.

Era uma rapariga alta, magra, de cabellos castanhos muito finos, muito
compridos, separados no alto por uma risca estreita, mostrando o casco
branquissimo; a orelha pequenina; o nariz perfeito apesar d'uma pequena
quebra; a bocca um quasi nada grande, com o beio interior saliente, e
uns olhos azues escuros, que entonteceram o Jos, quando n'elles demorou
os seus.

Do outro lado do balco, de mangas arregaadas, um pouco enleada tambem
pela ingenua admirao que percebia causar quelle homem, lavava os
copos n'um alguidar de zinco posto em cima d'um mocho, e collocava-os
depois na prateleira de pinho pintada de azul, virando para o ar os
fundos, onde, como aureolas, se alastravam grandes nodoas roxas rebeldes
 limpeza.

A noite vinha-se approximando. A taberneira raspou um fosforo na
prateleira e, desviando a cara dos fumos do enxofre, accendeu o
candieiro de petroleo.

--Muito boa noite, disse.

--Boa noite, respondeu o Jos, erguendo-se um pouco.

E nunca musica para elle valra aquella voz.

O vento fra soprava rijo e o ramo de loiro  porta raspava na parede.

O Jos levantou-se e abriu o saquinho d'algodo. Com voz sumida pediu
por favor dois charutos cortados e pagou, levando a mo ao barrete, sem
se atrever a mais palavra.

Por toda a estrada veiu pensando na rapariga. Trazia-a indelevelmente
fixada na memoria, e at nas mais pequenas particularidades, uns
signaesinhos espalhados pelo nariz e um outro sobre a palpebra um pouco
mais accentuado.

E repetia mentalmente, muito enlevado, as unicas palavras que lhe
ouvira:--Muito boa noite. Muito boa noite.

      *      *      *      *      *

A me extranhou-o. Em vez de adormecer para ali, depois da ceia, como
costumava, pregou os olhos no tecto, e ficou-se a mascar um bocado de
charuto, a mascar, ora serio, ora sorrindo a alguma imagem que
entrevisse, como quem faz castellos no ar, que os v cahir de repente e
logo erguerem-se mais alto. Nem sequer reparou nos olhares
prescrutadores que a me, de vez em quando, lhe lanava por cima dos
oculos.

Mas de repente a pobre Anastacia deu-lhe o corao um baque. E ella que
nunca se lembrra d'aquillo! Pois no era certo que tarde ou cedo havia
de acontecer?

E com um fundo suspiro de saudade pelo bom tempo que passra, murmurou
com os olhos embaciados:

--Queira Deus que seja para bem.

O Jos encarou-a, despertado por aquella voz.

Ergueu-se e approximou-se da janella, que abriu.

O vento soprava do sudoeste. Ao longe a barra roncava medonhamente.
Grossas cordas d'agua entraram no quarto.

--O inverno! disse elle, fechando a janella.

A velha encolheu os hombros.

E depois, com certo ar malicioso, j conformada:

--Ainda agora para ti comea a primavera!

      *      *      *      *      *

Pouco tempo durou.

Uma noite, o Jos sentou-se tristemente  pra do bote e remou devagar
para o largo. Chegado a meio do rio, deixou os remos e, traando a
perna, fincando a barba no punho cerrado, deixou ir o barco na corrente.
Poz-se a olhar, sem as ver, para as mil luzes, que no quadro sobre as
nodoas escuras dos navios brilhavam como lentejoulas no panno negro
dos caixes. Estava triste o Jos naquella noite.

E quando reparou,  ppa do barco, na alcunha d'elle--Ventura--pintada
em grossas letras brancas sobre uma variegada rosa dos ventos, sorriu
amargamente e murmurou com ironia:--Ventura!

O bote arrastado pela vasante passou para alm da Torre, e o Jos perdeu
de vista os pontos luminosos do quadro. Apenas, ao longe, avistava um
candeio baloiando-se sobre a facha projectada, tremeluzente.

Que tristeza aquella!

O bote corria para a barra e comeava saltando na crista das ondas.
Fazia frio, e o Ventura encharcado, tremia.

De repente, o candeio desappareceu. Ento o Jos ergueu-se, pegou
novamente nos remos, virou o bote, comeou a remar com fora para o lado
de Lisboa, arquejando, como a fugir d'um perigo. Mas de novo deixou
cahir os braos, em grande prostrao, e a cabea inclinou-se-lhe sobre
o peito. O bote virou devagarinho e continuou em seu caminho fatal.

O farol do Bugio circulava lentamente, e a luz fixa da Torre de S.
Julio parecia examinal-o com uma grande curiosidade idiota, nunca
satisfeita. O bote passou entre os dois faroes.

As ondas marulhavam de encontro s bordas do barco, e a musica d'ellas
era triste como o corao do Ventura.

E fra o Conselheiro, o seu melhor amigo, quem lhe enterrra o primeiro
espinho!

Ao principio corrra tudo menos mal. Muitos tinham medo do vapor, e mais
que todos o Conselheiro.

--Nada! dizia elle ao Ventura, batendo-lhe com a mo no hombro. Estes
progressos so muito bons, mas c para mim no servem. Um bello dia...

--Zaz!... Pum!... concluia Jos, rindo muito e imitando com os braos um
grande fogo de vistas, que era a caldeira a rebentar.

E, dez dias depois, o Jos cumprimentava-o com o seu melhor sorriso, e o
Conselheiro passava cheio de pressa, afogueado, levando as filhas a
reboque, muito coxas com as botas curtas, fazendo todos signaes
desesperados com os chapus de chuva para o vapor que apitava, prompto a
largar.

Bem lhe tinha dito o pae da Maria Eduarda:

--Muda de vida, Jos, ou prgo-te a pea.

E, como o Jos no mudava de vida nem a caldeira rebentava, tinham
pregado a pea ao Ventura.

Foi n'um dia em que o catraeiro, pelo maior dos acasos, tinha ganho dois
tostes. E, em vez de os entregar  me, foi  loja da esquina comprar
um collar de contas para levar  namorada.

--Est c, menina Maria? perguntou da porta com o corao a bater.

--Sahiu, respondeu l de dentro a voz do pae. Queres-lhe alguma coisa?

--Nada, respondeu.

E ficou encostado  porta, esperando a noiva.

L dentro o taberneiro virava na frigideira as sardinhas que aloiravam,
bailando e cantando uma cantiga festiva no azeite a ferver.

E o Ventura  porta apertava na mo a caixinha das contas, e tinha fome.

--Ol, _seu_ Manuel Joaquim, disse entrando alegremente na taberna um
cocheiro de grandes melenas oleosas, repuxadas para diante das orelhas,
cara escanhoada, chapu de capa d'oleado deitado para traz. J vieram as
senhoras?

--Ainda no, mas no podem tardar. A pequena disse  me que haviam de
voltar cedo por voc c vir... _Seu_ maroto!...

-- _seu_ Manuel Joaquim!... Eu c dou-lhe a minha palavra...

--Mau! mau!

E, largando as Sardinhas, chegou-se ao p do cocheiro e disse-lhe ao
ouvido:

--Olhe que a ceia est prompta e tenho ali uma pinga...!

O Ventura  porta, envergonhado, sem se lembrar de os matar a ambos,
escondia o p descalo atrz da perna nua e torcia nas mos o barrete de
l esboracado.

E logo voltando, n'um desespero, atirou ao cho a caixa do collar. E as
contas de vidro foram adiante d'elle saltando por longo tempo, fazendo
uma bulha alegre de gargalhadinhas trocistas.

E a me quella hora tinha fome...! E fra talvez a fome que a matra!

L estava enterrada na valla dos pobres, l muito longe, por detraz
d'aquelles montes, que a lua a nascer, espargindo uma baa claridade,
azulava docemente.


Estavam fra da barra, o mar estava picado e o Ventura tremia.

      *      *      *      *      *

No dia seguinte, ao amanhecer, foi encontrado, meio desfeito, para alm
de S. Julio, um bote abandonado, que tinha  poppa escripto n'uma
variegada rosa dos ventos o nome do Ventura.

E quando soube da triste nova, emquanto aos olhos das filhas subiam
saudosas e sentidas lagrimas, o Conselheiro, gravemente, lembrando-se do
pouco tempo que durra a primavera do Jos, citou as rosas de Malherbe.




O PRIMEIRO SORRISO


Mal se tinham accendido as luzes no Colyseu, quando elle entrou
devagarinho, triste, um pouco asmatico, meneando a cabea pallida.

Parece que mais lhe pesava a corcunda n'aquella noite.

Andando pelo corredor estreito, que divide os camarotes dos logares mais
baratos, foi encostar o queixo  teia de pinho, pintada de branco,
junto do caminho atapetado, que a cantora devia seguir do camarim para o
palco.

Era uma artista celebre a que se estreava. Com oito dias de antecedencia
tinha-se espalhado com profuso pela cidade, collado aos vidros das
portas dos armazens de musica, pendurado em quadros s esquinas das
ruas, o retrato lithographado de mademoiselle Eva d'Avenay.

Um dia, o corcunda, passeando depois do jantar, como costumava, pela rua
do Oiro, erguendo a cabea, deu, de subito, com um d'aquelles retratos
na loja d'um livreiro.

Parecido ou no, representava uma mulher lindissima.

Ficou extatico um momento; sentia tremer-lhe o corao um pouco, e como
que dois dedos apertarem-lhe amorosamente a garganta.

Entrou envergonhado, e com voz sumida perguntou ao caixeiro se aquillo
se vendia.

--Um tosto.

Elle que nunca olhra para mulher seno c de muito baixo, coitado,
assentando no meio da espinha as abas do chapu, que (facto pouco
vulgar) por detraz  que amolleciam, podia finalmente, por um tosto
(barato!) contemplar uma mulher bonita  vontade, sentado commodamente,
sem ser visto e sem ter de crar.

Quando sahiu da loja, levando na mo o rolinho de papel pardo, que
embrulhava a lithographia, caminhou mais depressa, quasi alegre, menos
asmatico.

Chegou a casa, desdobrou o retrato sobre a mesa, encostou n'ella os
cotovellos, e, com as fontes apertadas nos punhos cerrados, passou parte
da noite em contemplao da extranha formosura.

Parecia-lhe que afinal aquella mulher tinha que reflectir para elle uma
parte de tanto amor, que todo lhe estava dando e que era o primeiro que
sentia.

Desejos haveria tido, mas amar... Quem? Se, quando passava, todos
se riam e ninguem, ninguem, jmais sorrira para elle!

Quando recordava tempos longinquos, via, como atravez d'um nevoeiro, uma
mulher a quem elle estendia os bracinhos magros, que se lhe debruava
sobre o pequenino bero--to pequenino!--e que o envolvia n'uma
atmosphera de amor, beijando-o muito. Mas essa mulher tambem no
sorria... chorava.

Chorava naturalmente de vel-o to fraquinho, to feio, to infesado. Se
o visse agora, cheio de rugas precoces, com os cabellos alvejando-lhe
nas fontes, e triste sempre, sempre to triste!

Por isso contemplava aquelle retrato, como se fra possivel aquella
mulher loira, voltar a cabea no papel e enviar-lhe, s para elle,
aquelle sorriso que, por todas as esquinas, por toda a parte, ella
enviava... para quem?--para coisa nenhuma; que o retrato era a tres
quartos e ninguem sabia para onde olhava.

      *      *      *      *      *

Os porteiros, cada um  sua porta a receberem os bilhetes, cantarolavam
os bocejos e assoavam-se com estrondo para espertar. O theatro
continuava s escuras.

Um homem gordo entrou devagar, com as mos nas algibeiras do collete,
assobiando por entre dentes. Sentou-se, deitou as pernas para cima da
cadeira que lhe ficava defronte, poz o leno entre o pescoo e o
collarinho, e, tirando um palito da algibeira, poz-se a espalitar os
dentes, com um ar massado.

Duas ou tres filas mais adiante, um outro abanava-se pachorrentamente
com o chapeu, virando um bocadinho a cara para lhe ir o fresco s orelhas.

Conheciam-se e comearam conversando em voz alta:

--Ol, Conselheiro! Ento tambem deitou at c?

O homem gordo encolheu os hombros.

--No ha mais nada que fazer!

E depois de espalitar um bocado:

--Que isto cheira-me a fiasco.

--Ora! disse o outro com ar convencido e para estar de acordo. A tal
mulher...

--A gente cai em cada uma...! terminou o Conselheiro.

E, encostando a cabea para traz, deu largas a um bocejo formidavel.

Um arrumador, que passava n'aquelle instante, sorriu-se aduladoramente,
curvando-se muito.

--Senhor Conselheiro...

--Adeus, _seu_ Jos.

E fechou os olhos, como se estivesse dormindo.

Ah! se o corcunda no andasse to rasteiro, se no fosse to fraquinho,
como perguntaria quelle homem, frente a frente, com que direito
bocejava, quando elle estava ali sentindo o corao a estalar-lhe no peito!

Os musicos com os instrumentos dentro de saquinhos de chita,
comearam a entrar, limpando o suor, resmungando arias, espreguiando-se.

Deram oito horas. Chegaram umas carruagens a trote largo. O theatro
encheu-se rapidamente.

Ouvia-se o sussurro das conversaes e o ranger das varetas dos leques.

Os logares junto da teia, a que se encostara o corcunda, eram da
predileco de muitos; pouco a pouco foram-o empurrando, e elle
apertado, afflicto com a asma, que logo o atacou violentamente, ouvia
por detraz umas risadinhas zombeteiras. Sentiu n'uma orelha bater-lhe
uma bolinha de papel. Um velho mal encarado, ao lado d'elle, estava de
figa feita.

E resignado, agarrando-se aos balaustres da teia, esperava que fosse
aquella noite a primeira feliz da sua vida.

Abriram as torneiras do gaz e a luz jorrou de repente.

Houve um sussurro maior. Muitos, que ainda se no tinham visto,
cumprimentaram-se. Os elegantes das cadeiras apontaram os oculos para os
camarotes e comearam tirando os chapus.

O theatro transbordava.

Os musicos afinavam os instrumentos. Ouviam-se por entre as variaes
alegres da flauta as notas harmonicas das rabecas. O homem dos timbales
batia notas surdas com a mo esquerda e apertava com a direita as
escaravelhas.

Afinal entrou o regente, de casaca e gravata branca, cumprimentando os
collegas, emquanto descalava a luva.

Bateu na estante e ergueu alto o brao.

Houve uns _schius!_ assobiados por alguns amadores, que a toda a salla
impuzeram silencio.

O regente olhou para todos os musicos, demorou-se um instante e depois,
descrevendo com a batuta um quarto de circumferencia, fez signal s
rabecas, que logo comearam tocando muito piano, em unisono.

Era com certeza mademoiselle Eva d'Avenay quem ali attrahia a maior
parte dos espectadores. Os conversadores pouco a pouco foram elevando o
tom e, como as rabecas ssinhas continuavam tocando pianissimo, havia o
que quer que fosse fantastico n'aquelle maestro de grande cabelleira
cahindo-lhe at  golla da sobrecasaca, elevando alto, muito alto, a
batuta, e deixando depois cahir o brao a tremer, a tremer, commandando
uns arcos que se mexiam como puchados por um s homem, mordendo cordas
que no tinham som.

Decididamente o corcunda suffocava.

De repente, a um signal energico do regente, os metaes vibraram enchendo
a sala de notas alegres, vivas, que n'um instante, como por encanto,
cortaram as palestras. Foi um relampago de alegria. O regente sorriu-se
delicadamente e as rabecas continuaram ssinhas no meio da distraco
geral.

Um gaiato gritou l de cima:

--Muito bem!

Tinham acabado felizmente.

A respirao do corcunda era um apitosinho.

      *      *      *      *      *

Instantes depois, corria-se uma cortina e encaminhava-se para o palco
mademoiselle d'Avenay.

Houve um sussurro admirativo. Muita gente ergueu-se. Ouviram-se vozes:

--Abaixo!

Ella, j no palco, sorria impassivel, cumprimentando o publico, olhando
em volta, muito serena.

Alguns enthusiastas davam palmas.

O Conselheiro olhou para o amigo e fez-lhe uma cara como quem diz:--de
truz!

O regente muito amavel curvou-se para a cantora e fez-lhe baixinho uma
pergunta.

Respondeu que sim, muito risonha, muito amavel.

As rabecas preludiaram.

Ella concertava o decote e alisava o cabello na testa.

Era uma mulher em todo o esplendor da belleza dos trinta annos, de
elegancia distincta e intelligente, alta, com o busto quebrado um pouco
na cintura, o peito forte, braos admiraveis, hombros muito redondos, e
nas costas, bem ao meio, uns dois ou trez signaes, que pareciam ter-lhe
sido dados, de caso pensado, pela natureza, para que ninguem julgasse
que aquelle busto era de marmore. Os olhos azues tinham um olhar
profundo e os cabellos loiros e finos emmolduravam uma testa muito lisa,
como de virgem de quinze annos.

Quando cantava, a bocca sympathica, fresca, sorria sempre, alegrando-se
aos cantos com duas pregas infantis.

Do logar onde estava, o corcunda via-lhe o perfil sereno, a longa trana
doirada e todo o vulto branco salientando-se na massa escura dos
espectadores agglomerados nos degraus em amphitheatro do outro lado da
sala.

Quando ella acabou de cantar, toda a plata applaudia, delirante.

O corcunda bem queria dizer--bravo! mas sumira-se-lhe a voz.

Mademoiselle d'Avenay cantou tres vezes n'aquella noite e o delirio
crescendo sempre!

Agradecia muito reconhecida, pondo a mo no peito, fazendo ranger a seda
do vestido.

J os musicos se tinham retirado, j o illuminador comeava fechando as
torneiras do gaz e ainda novas ovaes eccoavam na sala.

Ella tornava a subir ao palco, agradecendo, muito amavel, sorrindo como
no retrato, para o ar, para coisa nenhuma.

E por onde passava deixava no rasto um cheiro forte, bom, que embriagava
o corcunda.

      *      *      *      *      *

Achou-se afinal ssinho.

Umas familias, que se tinham encontrado  sahida, conversavam,
emquanto as senhoras vestiam os chailes e os homens accendiam os cigarros.

Que fazia ali o corcunda? Viera na esperana de que essa mulher ideal,
como elle no sonhara poder haver no mundo, reparasse no pobre verme e
do seu pedestal lhe fizesse a merc d'um olhar.

Mas nem ella o vira, nem elle pudera ajudar  ovao. Bem tinha deitado
os bracinhos por entre os balaustres para applaudir; se no fosse a
asma, teria gritado: bravo! mil vezes. Mas se era to fraquinho...!

Estava extenuado, meio morto; a cabea estalava-lhe.

Sentou-se n'um dos degraus da geral e escondeu o rosto entre as mos.

Pouco a pouco, ia perdendo a memoria do que se passra, conservando
apenas a consciencia de que era um desgraado.

Accordaram-o uns passos de mulher.

Ergueu a cabea.

Mademoiselle d'Avenay, toda embrulhada em rendas brancas, sahia do
camarim muito risonha, conversando com uma velha, que a acompanhava.

Levantou-se. Ella tinha de passar por ali e elle tremia.

Quasi sem foras, desvairado, mal poude pronunciar:

--Bravo! Bravo!

Ella parou um pouco assustada. Vendo-o to pequenino, na meia escurido,
julgando-o provavelmente uma creana, tocou-lhe com dois dedos na cara.
Mas, picando-se nas barbas, retirou a mo e disse:

--_Pardon, monsieur._

E quando passou... sorriu-se para elle.




O MEU REWOLVER


Em dezembro. O sol morria depois de curta vida. A tarde era fria e o
vento cortava.

Triste, cansado, depois de um dia inutil, voltava para casa
silenciosamente, mastigando um charuto insupportavel.

Pesava-me como cruz de ferro a ociosidade que no pudra combater.

A melancolia apoderra-se de mim. Envolvia-me a alma como que n'um
lenol humido e frio.

Bandos de operarios voltavam do trabalho alegres, socegados,
interrompendo com cantigas de fado as conversaes politicas.

Irritou-me a alegria d'elles.

Eu caminhava de cabea baixa; mas s mal definidos pensamentos se
atropellavam no meu espirito, sem razo, como succede nos sonhos inquietos.

Vagas saudades do passado, desejos mal definidos de outro tempo... Tudo
triste, triste.

      *      *      *      *      *

Subi a escada ingreme, que levava ao meu quarto andar, e achei-me em
casa, sem quasi me lembrar do caminho que seguira.

Os ultimos raios do sol entrando pela janella entreaberta morriam,
faltos de foras, allumiando fracamente uns velhos retratos de familia,
immoveis, havia muito, nas molduras carunchosas.

Estava s.

Ainda bem.

Puxei de uma cadeira e sentei-me  janella, resolvido a esperar com
paciencia a noite, que ao mesmo tempo desejava e temia.

A atmosphera era humida e pesada.

Na rua havia profundo silencio.

O occidente, carregado de nuvens negras, orladas por uma franja dourada,
parecia o panno enorme d'um caixo de gigante.

As nuvens cresciam impellidas pelo vento da barra, ameaando breve
toldar o cu.

Luziu a primeira estrella.

Contemplei-a com amor, lembrando-me de que ainda ninguem quella hora
tivesse dado por ella. Estaria talvez no ceu brilhando to s para mim.

E senti no sei que satisfao intima com aquella ida: para mim s!

Puz-me a contemplal-a com amor, a falar-lhe como um poeta; e ella
consolou-me, e, durante toda aquella tarde, foi este o unico momento em
que tive amor  vida.

Um empregado do gaz passou pela rua accendendo os candieiros e
assobiando uma polca.

Ouvi uma voz por cima da minha cabea.

--Menina Maria! Menina Maria!

Era o meu vizinho da trapeira, um empregado de uma casa de penhores,
feio, bexigoso e rachitico.

--Est o gaz acceso. So horas de comearmos a conversar.

N'uma janella do outro lado da rua appareceu a cabea pallida de uma
rapariga, que de dia namorava o boticario e de noite conversava com o
bexigoso.

--Muito boas noites.

A menina Maria comeou a fazer-lhe signaes querendo dizer, creio eu, que
addiasse para mais tarde as declaraes de amor, no fosse eu ouvil-as.

--O que? perguntava o bexigoso. No percebo.  pena estar o tempo de chuva.

-- pena, ! Pouco poderemos conversar. D'aqui a pouco... Olhe, no v?
Esto as nuvens quasi tapando aquella estrella.

E apontou para a estrella, que fra at ali o meu enlevo.

Dei um murro no parapeito da janella e fechei-a desesperado.

      *      *      *      *      *

A nuvem negra, para provar que o bexigoso no era tolo de todo, deixou
cahir como prologo de maior chuveiro, uns poucos de grossos pingos de
agua, que vieram bater tristemente nos vidros da janella.

Accendi o velho candieiro de azeite e recostei-me n'uma poltrona de
oleado, onde dei largas aos merencorios pensamentos.

Decididamente odiava a vida.

E que me prendia a ella? Fra uma cadeia de oiro a d'outros tempos, mas
viera a desgraa quebrar-lhe, um a um, os elos todos.

--A morte!

E machinalmente puxei do rewolver.

Era uma joasinha americana, bonita, de systema engenhoso, com fechos de
prata, que me saira n'um bazar de caridade.

--Eis o remedio para quantos males se soffrem no mundo, pensei. Uma
pouca de coragem, um pequenissimo movimento... e nada mais  preciso.

Comecei a brincar com o gatilho.

--De que serve uma vida a que pde dar fim coisa to pouca?

E, como para convencer-me de que no havia nada mais facil, approximei
da bocca o cano do rewolver.

E vi que tinha medo e que me repugnava a morte.

Lembrei-me do frio da terra e do contacto da carne com os corpos frios e
molles dos bichos nos cemiterios. E requintei na fantasia as sensaes
da longa fileira dos rigidos cadaveres, que via dormindo na valla commum
o somno doloroso da morte.

Passou-me um calafrio pelo corpo, ergui-me, levantei a golla do
casaco e comecei a passear pelo quarto.

Os velhos retratos mettidos na sombra da bandeirola pareceram-me espectros.

Um sobre todos, lembra-me, causou-me horror extranho, n'aquella noite.

Era um conego velho, gordo, sem barba, com uma cora de cabellos
grisalhos em torno d'uma calva lisa e amarella. Tinha uns olhos azues,
pequeninos, que se fitavam na gente para onde quer que se fugisse.

Quando eu era pequeno, tinha um dia virado o conego de cabea para
baixo, para ver se assim parava a perseguio do seu olhar. Meu av, que
n'aquelle momento entrara no quarto, ralhou muito commigo, que fra uma
falta de respeito, que o conego era meu tio, que fra homem de muito
saber e que at compuzra uma grammatica latina com a prosodia em verso.

E eu, que detestava a prosodia e o latim, comecei desde logo a detestar
o tio.

N'aquella noite pareceu-me que os olhos azues e pequeninos scintillavam,
phosphorescentes.

Recuei com um calafrio, procurando fugir ao pesadlo.

E os seus olhos pequeninos, azues, phosphorescentes continuaram a
seguir-me com pertinacia.

Passei a mo pela testa e trouxe-a humida de suor frio.

Dei volta  bandeirola do candeeiro e, cheio de falsa coragem,
approximei-me do retrato.

Estava louco!

--Sou um cobarde! Tenho a cobardia d'uma criana, pensei.

Fui ao armario de po preto, envidraado, onde tinha uma garrafa com um
resto d'absintho.

Um caruncho, com aquelle ruido monotono e compassado, que tanto se ouve
nas casas velhas, incumbira-se da agradavel tarefa de esfarelar uma
prateleira.

E eu sentia dentro em mim uma tempestade! E se me tivesse suicidado, se
junto d'aquelle armario se houvesse passado um drama horrivel, elle
teria placidamente, com a maior indifferena, continuado a morder
voluptuosamente a madeira resequida, em sua obra de destruio.

Abri a garrafa. Bebi sofregamente.

Pela segunda vez approximei da bocca, voltando as costas ao conego, o
cano do rewolver.

Senti abrir-se a janella do bexigoso e ouvi-lhe a voz esganiada:

--Menina Maria! Parou a chuva.

Salvou-me a vida. Escutando-o, quiz despedir-me da voz humana. No curto
momento, em que o meu antipathico visinho levou a dizer aquella phrase,
entrou-me n'alma o receio.

--Decididamente sou um cobarde, um grande cobarde! Preciso beber.

E sahi, mettendo o rewolver na algibeira.

      *      *      *      *      *

Pela segunda vez na vida o bexigoso falra sem dizer tolice.
Effectivamente cessra a chuva, e apenas umas nuvens brancas, com
grandes manchas d'uma cr mais carregada, formavam castellos
fantasticos, entre os quaes corria a lua a toda a brida.

Ao dobrar d'uma esquina encontrei um amigo.

--Aonde vais? disse-me. At S. Carlos?

Pareceu-me offensa a pergunta e estive para responder-lhe:

--No, vou matar-me.

Mas no quiz. Dizer-lh'o, para que? Se no podia perceber-me?

--Vou sem destino, disse.

--J jantaste?

--Ainda no.

--Jantemos juntos n'esse caso.

E deu-me o brao e comemos a descer a rua.

E eu ia pensando com uma certa alegria no jantar e comecei a ver a
morte sob outro aspecto: o suicidio depois de bem comido, numa salla
bonita, quente, alumiada fortemente por dois lustres de gaz.

Que differena! Que admirava que me tivesse faltado a coragem n'aquelle
quarto frio e humido quando eu estava possuido da tristeza da fome? Frio
e fome por toda a eternidade!...

Entrei no hotel cantarolando um bocado da minha opera favorita.

Defronte de ns uns americanos bebiam champagne, _veuve Cliquot_.

--Grande vinho, o champagne! no achas? disse o meu amigo.

--Magnifico!

--Havemos de vir bebel-o aqui um dia d'estes.  pena no poder ser hoje.

--Porqu?

No respondeu e crou at s pontas das orelhas.

E eu achei que para dar coragem nada havia como o champagne.

E puz-me a passar revista a todas as suas boas qualidades, e por fim
achei que eram tantas e tantas, que, esquecido da morte... fui pr o
rewolver no prego.




O MIMOSO


--Est frio, dizia elle subindo o Chiado.

Era um homem de quarenta annos, magro, quasi cadaverico, de melenas to
compridas e to esquecidas de pente que se lhe emmaranhavam nas barbas,
de olhos negros, encovados, de olhar obliquo e desconfiado, a luzirem
com fome por cima das olheiras papudas.

Era no inverno e elle com a mo ossuda, engrifada apertava contra o
peito a sobrecasaca rota, sem botes. No trazia collete e a camisa era
um frangalho. Como se precisa ter gravata para entrar nos passeios, onde
no desgostava de ir  tarde apanhar um bocado de sol, trazia um
pedacinho de panno azul pregado ao collarinho sem gomma com um alfinete
de ferro. As botas rotas, sem taces, tinham, a tapar-lhes os buracos,
camadas sobrepostas de lama secca.

Parou  porta do Baltresqui.

Um janota sentado a uma das mesinhas do caf, deante de uma garrafa de
Pre Kermann, aspirava o fumo aromatico de um charuto pequenino.
Passados momentos, tirou o relogio da algibeira, viu as horas, engoliu
de um trago as ultimas gottas do calix e, chamando o criado pelo nome,
atirou-lhe uma nota de dez mil ris. Quando o criado voltou com o trco,
levantou-se deixando o cobre em cima da mesa.

--Muito obrigado, sr. Visconde, disse o criado, dando-lhe piparotes
na manga do sobretudo suja pela cinza do charuto, que o Visconde
quebrra na borda da mesa.

-- um visconde, observou distrahidamente o homem das botas rotas.

E como o Visconde voltasse para cima, seguiu-o  espera que deitasse
fra a ponta do charuto. Ia apertando a sobrecasaca contra o peito e
invejando o casaco do Visconde, comprido, felpudo, de grande golla, que
se podia levantar e abrigava as orelhas do frio.

O Visconde subia o Chiado devagarinho, com as mos nas vastas
algibeiras, tirando do charuto abundantes fumaas, com aquelle sorriso
de satisfao, que d a certos parvos de bom estomago a digesto de um
bom jantar.

O pobre diabo tinha fome. Almora na vspera; depois no tinha comido.

Mas o que mais o apouquentava era o apetite de fumar.

O fumo adormece a fome e expulsa a melancolia. Pde-se dormir, quando se
tem um cigarro na algibeira e o fumo de um outro enchendo o quarto.
O tabaco  o veneno rei dos venenos, um elixir que mata lentamente, que
embriaga, que socega os nervos, que enfraquece a memoria e d s pernas
uma preguia deliciosa, que faz achar boa a cama pela manh, quando o ar
est cheio de neblina e na rua afogada em lama se ouvem os preges e o
sussurro dos que teem que fazer, dos que trabalham.

--Por isso Deus que afinal  bom, ia o homem pensando, encheu as ruas de
pontas de charuto para os homens e de tallos de couve para os ces, que
no fumam, que no teem que esquecer, que so tolos.

Mas a noite estava chuvosa e as pontas de charuto, no se viam,
enterradas na lama pelas rodas das carruagens. Por isso seguia o ricao,
ancioso pelo momento em que o charuto havia de cahir espalhando em torno
uma chuva de faisquinhas.

O Visconde parava de vez em quando, apertando a mo aos amigos que
desciam.

--Ento que se faz? perguntavam-lhe.

E elle s encolhia os hombros como resposta quella pergunta ociosa e
tola. O homem notou:

--Pois elle no ter nada, mesmo nada, que fazer?

Comparou-se com o Visconde e sentiu uma certa vaidade. Porque elle
trabalhava, fazia alguma coisa. Se lhe perguntassem o qu, talvez no
respondesse logo, assim sem pensar, sem examinar um instante com olhar
desconfiado o fim com que lhe faziam a pergunta. s vezes, quando se
levantava, no tinha de comer; era preciso arranjal-o e arranjava-o. Era
talvez pouco escrupuloso; isso sim.

--Mas, pensava, para se terem delicadezas  preciso alguma coisa na
algibeira.

E isso era raro, muito raro.

Decididamente, se algum lhe perguntasse:

--Ento que se faz? havia de responder como o Visconde, encolhendo os
hombros.

Depois, como se toda esta cadeia de pensamentos o tivesse conduzido
a uma concluso certissima, olhou para o janota, a rir-se, com certo ar
magano, e exclamou baixinho, como quem faz uma descoberta:

--Ol!

E, apontando com o dedo pollegar para o Visconde, disse piscando o olho
a si mesmo:

-- c do meus.

Chegado  rua Nova dos Martyres, o Visconde parou um instante, tirou o
relogio da algibeira e, approximando-se de um candeeiro, tornou a ver as
horas. Esteve um momento como que indeciso sobre o que havia de fazer;
por fim dobrou a esquina e dirigiu-se para S. Carlos.

Tirou as luvas da algibeira e comeou a calal-as.

--Quando deitar elle fra o charuto? pensava o homem.

Mas de repente affirmou a vista e os olhos faiscaram-lhe: o Visconde ao
tirar as luvas da algibeira deixra ficar o leno com a pontinha de
fra.

Contrahiu um pouco as sobrancelhas meditando.

Valeria a pena um leno? Tinha fome. Aquelle leno representava talvez a
ceia. Seria triste na verdade; o que poderia valer um leno?

Estendeu o labio inferior.

Era preciso tomar uma resoluo.

Ora, adeus! Mais valia do que morrer de fome.

Approximou-se nos bicos dos ps.

Olhou para todos os lados. A rua era deserta.

O corao bateu-lhe um pouco. O Visconde podia sentil-o, defender-se,
gritar, e elle iria preso, com fome, e passaria a noite a tiritar de
frio, fechado n'um calaboio.

Animo!

Metteu a mo esquerda por debaixo da aba do sobretudo.

O Visconde cantarolava:

    C'est q' gli...iiis...se.

Victoria! O leno era d'elle!

O homem no tinha sentido nada e acabava a copla:

    Encore un qui n'l'aura pas
        La timbale
        La timbale.

      *      *      *      *      *

Um leno! Ia finalmente comer. Tinha ganho o dia.

E o leno era um bom leno, muito branco, muito novo.

Mirou-o e remirou-o.

No tinha uma s passagem e era de seda.

Era de seda! Queria dizer que representava talvez mais do que a ceia.

Quanto poderia valer aquillo?

O homem chegou-se a um bico de gaz e poz-se a olhar. De vez em quando,
coava com a unha a aza do nariz, signal certo de duvida.

O Gomes  que lh'o poderia dizer. O Gomes era muito entendido; um pouco
ladro, mas muito entendido.

E j esquecido do Visconde e do charuto, voltou e dirigiu-se para a
Calada do Duque.

A casa de penhores era  esquerda, uma casa pequena, asphixiante, cheia
de fato at  porta.

O Gomes estava por detraz do balco, encostado aos livros, com a sua
suissa  ingleza, a caneta atraz da orelha, e o seu sorriso protector.

Um candeeiro de petroleo, com vidro sujo e luz economica, alumiava
fracamente as roupas inuteis, que nas prateleiras at ao tecto esperavam
tristemente pela traa ou pelo proximo leilo.

Uma guitarra sem cordas pendia de um prego ao lado de uma serra. Do
outro lado, o retrato de um bom velho burguez e calvo, com a barba
cerrada, ar de pessoa de bem, e um boto d'oiro, quadrado, no peitilho
da camisa, sorria com bondosa satisfao para um cacho de botas
velhas, que, suspensas do tecto, se lhe baloiavam a dois palmos do
nariz. Tinha valido um dinheiro, valia agora cinco tostes.

O homem parou  porta e poz-se  espreita.

--Muito boas noites, sr. Gomes.

--Ol!

--D licena?

Atirou o leno para cima do balco.

--Faa favor de ver isso.

E,  espera que o exame do leno acabasse, entreteve-se a olhar para uma
borboleta, que esvoaava em torno do candeeiro.

O Gomes desdobrou o leno, sacudiu-o, levantou um pouco a torcida e
comeou um exame minucioso, palpando, virando e revirando a seda.

--Isto de bordados... Um _A_ e uma cora.

E o Gomes sorriu-se, esforando-se por ter um ar intelligente.

--Foi o sr. Visconde que m'o deu para o empenhar, disse o outro,
encolhendo os hombros com impaciencia.

--Pois, amigo, diga ao sr. Visconde que isto pouco valor tem. O bordado
 bom, o bordado tem valor; mas a quem pde isto servir? Quer trez tostes?

--Traste...! resmungou o homem. Ento s vale...?  sr. Gomes, olhe que
roubar  feio. Faa favor de reparar que  de seda.

O Gomes, desdenhoso atirou com o leno.

--D-me um cruzado e vou-me embora.

--Homem, voc parece que no sabe quem eu sou!

E poz doze vintens em cima do balco.

--Traste! tornou a resmungar o homem, pegando nos doze vintens e
encaminhando-se para a porta.

--Quer cautella? perguntou o Gomes com ar de brincadeira, j
desmanchando o bordado com o bico d'uma tesoira.

--Nada. Obrigado. O sr. Visconde no me falou em cautella.

E sahiu sempre a resmungar.

      *      *      *      *      *

Poucas horas depois, estava estirado ao p d'uma sargeta.

Cahia uma chuva miuda e fria e elle sonhava.

Sonhava que tinha roubado um leno de seda, d'uma seda muito fina, to
fina que nem o Gomes sabia ao principio o que lhe havia de dar pelo
leno. E tinha-lhe dado a loja toda, as botas, a guitarra, o oiro que
estava na gaveta do balco, o dinheiro que estava na commoda, tudo. E
elle era rico. Andava de trem e bebia no Baltresqui uma coisa com
bolhasinhas a subirem e que fazia saltar as rolhas das garrafas. Os
janotas do Chiado tratavam-o por _tu_ e os gaiatos davam-lhe _dom_. O
Visconde era muito amigo d'elle e offerecia-lhe charutos
magnificos, que roubava a um estanqueiro muito velho da rua dos
Canos. Tinha um sobretudo cr de canella, muito quente e andava de
luvas. Morava n'um palacio e tinha na salla o retrato do velho que
estava na loja do Gomes, e que era pae d'elle, e do outro lado estava o
retrato do outro pae, do que tinha conhecido, do que lhe dava pancadas
quando elle era pequeno. E o Gomes vinha pedir-lhe esmola. Estava muito
magro. O leno no era de seda, era de papel. E elle tinha um co muito
grande, com olhos de lume, que mordia no Gomes, e o Gomes chorava.

--Leva arriba!

Um policia de voz aspera accordou-o com um pontap.

E, como o homem resmungava, metteu-lhe a mo por debaixo dos braos e
obrigou-o a levantar-se.

--Marche adeante e nada de cerimonias.

Fra dia de grande gala e as luminarias morriam nos preguinhos do
governo civil.

O homem percebia tudo um pouco vagamente. Sentia-se empurrado e via as
luminarias.

Aquillo entristecia-o.

Perguntaram-lhe o nome e ainda teve foras para murmurar com voz avinhada:

--Francisco Antonio, o _Mimoso_.

      *      *      *      *      *

Quando, pela madrugada, acordou, cheio de frio e de fome, metteu a mo
tremula na algibeira das calas e murmurou com voz triste e arrependida:

--Fiz mal.

E depois d'um instante de reflexo:

--Devia ter comprado um massinho de cigarros.




GRI-GRI[1]


Ao longe, para as bandas de Santos, comeavam a apagar os candeeiros.
Uma neblina baixa espalhava-se sobre o Tejo, mas no cu, atravez do
nevoeiro, brilhava, muito fria, a estrella da manh, e a lua, como um
saveiro de prata, de proa e poppa recurvadas, empallidecia pouco a
pouco. Os montes da Outra Banda estampavam confusos no co embaciado os
contornos gigantescos, e no fundo escuro mal se distinguiam as grandes
massas negras dos navios. Occulto n'um monte de pedras, um grillo
cantava distrahido:--_gri, gri, gri, gri..._

O homem vinha d'aquelles lados do Caes do Sodr. Parecia bastante fra
de si; cambaleava por excesso de canao; muito pallido, com o fato em
desalinho, o chapo de palha, amolgado, deitado para a nuca. Parava
repentinamente, de quando em quando, como em frente de um obstaculo
invencivel, e limpava com as costas da mo as bagas de suor
escorrendo-lhe sobre a testa das melenas desgrenhadas, que ento sacudia
para traz com um gesto violento da cabea. Seguia aos SS, machinalmente,
ao acaso, para onde as pernas o levavam. As abas do casaco desabotoado,
onde batia com os braos a dar, a dar, faziam-o parecer na sombra,
quando passava junto dos candeeiros, um grande morcego ferido a
querer esvoaar. Vinha de dentes ferrados, olhar fixo, olheiras pisadas.

J se ouviam os barulhos antipathicos do amanhecer na cidade. Recolhiam
as carroas dos varredores, e na Praa D. Luiz dois empregados, mudos e
somnolentos, limpavam as sargetas do passeio. O homem dos candeeiros
vinha-se approximando, fazendo tinir os vidros, ao cahirem depois da luz
apagada. Para aquelles lados apenas ficou luzindo uma lanterna moribunda
n'uma barca de banhos. Um homem em mangas de camisa, que dormira toda a
noite em cima d'um banco, espreguiou-se muito, dobrou os joelhos,
tornou a esticar as pernas e depois, rodando sobre o centro, sentou-se
de repente, tirou o barrete, coou desesperadamente a cabea. Uns
operarios, com o fardel em leno de chita na ponteira do guarda-chuva,
passaram apressados. Por todos os lados, na cidade alta, em roda da
Praa e nas capoeiras dos terceiros andares, estrugiam cantos de
gallos, roucos e solemnes, conquistadores e desafinados.

O homem, que at ento seguira pelo meio da rua, approximou-se do
passeio. O outro acabara de coar-se e, como a manh estava humida,
enterrara o barrete at s orelhas e, de braos cruzados, muito chegados
ao peito, fazia, para aquecer, o gesto de quem emballa uma criana.
Levantou-se depois e foi para o caes gritar muito prolongadamente--
compadre...!  compadre...!  compadre...! L de longe, d'uma fragata,
responderam-lhe:--Eh! ti'Z...! O homem dos candeeiros passou, e, como
o ti'Z se levantra, o outro sentou-se sem dar por isso, no mesmo
banco, perto d'onde o grillo continuava distrahido:--_gri, gri, gri,
gri..._

Parecia muito afflicto, em grande desespero, relanceando em redor os
olhos, sem fixar a vista em nenhum objecto, como se apenas pudesse olhar
para a sua desgraa. Tirou o chapeu, fincou os cotovellos nos joelhos, e
com as mas das faces sobre os punhos cerrados, arrepelou as barbas
para cima dos olhos. Olhando tristemente para o cho, todo curvado,
vinham-lhe estremecimentos nervosos, que lhe percorriam rapidos o corpo,
fazendo-o levantar as pernas, que recahiam com fora; tinha no rosto a
mascara pallida e feia da tristeza sem consolo; nas olheiras carregadas
e nos cantos dos labios uma amargura dolorosa cavra as rugas muito
fundas. Respirava alto, murmurando exclamaes irritadas d'uma angustia
sem remedio, frases sem nexo, cortadas por soluos.

Os fios do telegrapho cantavam sem pausa uma doida melopa triste,
emquanto ao longe, j se ouvia um murmurio indefinido de vida a comear.
Algumas chamins principiaram a deitar baforadas negras de fumo, que,
no podendo elevar-se na atmosphera humida, alastrava-se sobre o Tejo. E
os signaes das embarcaes e o reflexo d'elles n'uma grande faxa
tremeluzente faziam como que um bordado a oiro no grande vu
esfarrapado de gaze luctuoso.

O horisonte branquejava.

Ouviram-se nos navios os tiros frouxos da alvorada e de longe chegaram
moribundos uns toques de corneta. Junto ao caes passeava, com modos de
avejo na densa neblina, um guarda da alfandega friorento. E o grillo
sob as pedras continuava distrahido:--_gri, gri, gri, gri..._

O homem ergueu-se n'um impeto, como quem toma uma deciso inabalavel
contra argumentos. Cambaleando, arrastando-se, approximou-se do caes.
Pequeninas vagas marulhavam docemente e l do fundo subia um frio
humido, desagradavel, frio de morte. Ento poz-se a fitar os olhos nas
aguas e, como se ellas lhe cantassem uma cano muito meiga, como se
ouvisse a voz da melhor amiga, sorriu-lhes desvanecido, mais tranquillo,
j quasi convalescente da longa noite de exaspero. Duas grossas lagrimas
correram-lhe pelas faces macilentas, o peito oppresso ergueu-se
alto, e elle respirou fundamente, passou as mos pela cara. Pouco
depois, preso de pavor medonho, abalou, sem querer olhar para traz, com
gestos doidos, d'olhos esbogalhados, chapu na mo, melenas erriadas.

E, passados instantes, estava outra vez junto do caes, parado,
meditando, com os olhos fitos na agua.

O Tejo accordra. Do lado do Barreiro surgiam umas velasitas brancas e
rio abaixo singrava, orgulhosa, uma grande fragata de vela avermelhada,
com uma ancora pintada de negro no panno, projectando na agua immovel
como grande placa oleosa, uma imagem tremida, enorme, cortada por uma
linha de espuma. Em terra comeavam a definir-se certos sussurros.
Rangiam portas de tabernas, passavam peixeiras correndo, um guarda
nocturno batia fortemente  porta d'um armazem, ouviu-se um despertador
no interior d'uma casa. O ceu, muito branco havia pouco, tornara-se cr
de laranja. A neblina erguera-se e o fumo das chamins subia a
prumo, alargando-se no alto, como um penacho de porta machado.

Ento o homem decidiu-se e de braos para a frente, atirou-se ao
rio--Chap!--O benemerito guarda d'alfandega, o _72_ por signal,
atirou-se atraz do homem.

E, quando seguia para a esquadra, acompanhado pelo guarda que
gesticulava muito, entre dois soldados da guarda municipal, encharcado,
sujo, envergonhado, arrependido, tranzido de frio, o grillo continuava
distrahido sob as pedras:--_gri, gri, gri, gri..._

      *      *      *      *      *

Ora isto no quer dizer nada; mas ento porque foi que s n'essa
occasio  que elle embirrou com o grillo que fazia _gri, gri_?

    [1] _Variante em verso, publicada pela livraria Popular_




NA BIQUEIRA


Ella tem uns olhos azues to bonitos!... Mas se eu vi! Elle a olhar para
cima... e ella a fazer signaesinhos com o leno!... Vi; ninguem m'o veio
dizer... Fui eu que vi!

E estas cartas que me escreveu! Talvez em nenhuma fale verdade. Esta
ultima  toda mentira com toda a certeza. Quando a escreveu, j foi
depois de ter polcado com elle... E chama-me seu _anjo_ a infame!

Como pde um homem baixar at morrer por uma mulher assim! Morrer,
sim, est resolvido... vou matar-me.

Meu pobre pae, coitado! Sempre com tantos sacrificios por minha causa! O
que dir, quando souber que me suicidei? Pobre velhinho!  capaz de
morrer de desgosto! Tinha vontade de lhe escrever; mas no tenho animo.
Nem animo nem papel. Gostava de me despedir... O resto do papel ainda o
gastei a escrever quella desgraada!

Ah! mas vou afinal vingar-me!... Hei de atribular-lhe a vida com remorsos!

Custa-me tanto morrer!... Dizem que s os cobardes  que se matam. E eu
acho que  preciso ter animo, muito animo!

Mas est decidido.

Vou morrer enforcado... Dizem que no doe nada... Mas morrer! Quem foi
que disse que no doe? Aqui est a corda. Exactamente do tamanho preciso
para que, de manh, quando ella abrir a janella, me veja pendurado, em
frente dos seus olhos, na biqueira do meu telhado.

 preciso no hesitar... Infame! Mas que mulher to infame! E tem uns
olhos to bonitos!... Que besta... o outro!

Bem! agora ponho-me a chorar! So saudades de meu pae!

Aquella biqueira tentou-me.  de zinco, parece muito forte, algum tanto
virada para cima.

Vamos.

Est frio c fra... Chovisca... A noite  escura!...

Ali esto as janellas do quarto d'ella, d'onde tanta vez olhou para mim,
d'onde tanta vez me falou e me atirou beijos com as pontinhas dos
dedos!... Que mentira! Agora faz o mesmo ao outro!

Est frio! Ser bom vestir o sobretudo... Assim estou melhor, mais
conchegado... para morrer!

C estou outra vez a chorar!

manh, quando abrires as tuas janellas, has de ver, mesmo em frente, o
meu corpo, baloiando-se ao vento soturnamente.

O peor  se fico com a lingua de fra...  to feio uma lingua de fra!
Eu fico to feio!... E os olhos...! Os olhos d'um enforcado...!

Mas est decidido, est decidido. O enforcado  o mais limpo dos suicidas.

Se no fosse o medo j l estava. Um suicida  um valente!

Atemos a corda. Mau! o telhado escorrega...! Se eu cahisse l abaixo!...
S pensal-o me arripia todo!

D'ali  que ella erguia os olhos tanta vez para a minha trapeira!

Devagar... Assim.. Parece-me que o lao est bem dado... Quasi que no
vejo com as lagrimas... Est bem dado, est; est seguro.

O melhor  descer pela corda, e depois, l em baixo, quando tiver
chegado ao fim, metto o pescoo no lao, segurando a corda, devagarinho,
muito devagarinho... e deixo apertar.

Como  triste morrer assim to novo, to cheio de vida!...
Morrer!... Chega a ser estupido...! porque afinal eu tinha um futuro
talvez brilhante... Um praticante de pharmacia... Morrer assim to novo!

Mas como isto faz chorar!

Est frio!

Ella dorme...! Se adivinhasse...!

No pensemos mais n'isto. Sejamos homem!

Devagarinho...!

Estou suspenso sobre o abismo! Uma altura de cinco andares...! Sinto um
frio na espinha...! Se as mos se me escapassem...!

No me despedi bem do meu quarto. Devia de voltar para cima. Afinal fui
ingrato com elle. Tive ali momentos bons.

A corda d-me cabo das mos. Devo estar quasi na ponta... C est o
lao. Estou mesmo, mesmo em frente das janellas. Se me baloiasse um
bocadinho, tocava-lhe com a ponta do p nos vidros.

Punhamos o lao ao pescoo. Foste tu, mulher devassa, que me fizeste
esta gravata!... Agora deixemos apertar devagarinho.

Apre!  aspera a corda!

 horrivel morrer-se assim! Se ella me visse, se arrependesse e me
salvasse!

J tenho os braos canados...! Que tentao de voltar para cima!

Morrer...! Mas  uma desgraa!... uma tolice!

Hein? Que  isto? Pareceu-me sentir estalar o zinco da biqueira!...

Talvez fosse engano... Mas o melhor  voltar... verificar...

No, no  engano, que horror! Estalou,  certo. Ao mais pequeno
movimento estala e dobra! Se verga demais, o lao escorrega e eu
esmigalho-me l em baixo nas pedras da calada!

Quem me ac...!

E se ella apparece  janella?

Doem-me os braos, j no posso mais!

Mas ento  certo!... Mas ento vou morrer! Mas no quero, d'essa
morte horrivel no quero!

E no poder subir...! Talvez com um esforo grande, apoiando os ps 
parede... Mas o zinco estala cada vez mais, dobra-se todo...!

Se eu batesse as palmas ao guarda nocturno...? Mas como? Para bater as
palmas seria preciso largar a corda... Se me pudesse segurar com uma s
mo, despir-me com a outra e bater as palmas no...

Mas nem sei o que penso! No posso suster-me s com um brao... Sinto
faltarem-me as foras!... E se ella abrisse a janella e me visse n'essa
posio ridicula?

Agora  que  certo! agora  que tenho de morrer!... E ninguem, ninguem
me salva!

Tenho as mos a arder; no posso mais. Quem me dera ter animo para
gritar!...

Ainda que queira subir j no posso... E o zinco verga cada vez mais, ao
mais pequeno movimento!

Parece-me que sinto passos...!  preciso estar muito quieto...! Valha-me
Deus! O lao j correu um bocadinho...

Os passos approximam-se...  uma patrulha!

 camaradas!... camaradas!... Pchiu!...

No so ladres que tenho em casa, no senhor. No vem que estou
pendurado?... Acudam depressa!... O zinco est todo dobrado!
Depressa!... Sim, senhor, acompanho-os  esquadra.

E o lao a escorregar!...

Depressa! A porta l em baixo est aberta.

 s preciso arrombar a c de cima.

Tolice! Porque no a deixei eu aberta tambem?

E se algum me quizesse acudir?

Os passos approximam-se...

Graas a Deus!... est a porta arrombada!

Acuda! acuda depressa!

Obrigado camarada!... No ponha o p no zinco!...

Meu Deus!

 meu pae, coitadinho!

Que horror!

Ella tem uns olhos azues to b...!




REQUIEM AETERNAM


Todas as tardes, quando o azul no alto do cu comeava a desmaiar, ou j
a enlutar-se nas pregas, pouco a pouco, serenamente accumuladas pela
neblina da noite, recolhia a casa, aos solavancos sobre as pedras da
calada, a carruagem das velhinhas.

Espantosa, de grandes rodas espessas, ferragens desconjuntas, tecto
esboracado, tinta bexigosa, puxavam-a dois cavallos brancos,
magros, muito magros, de joelhos grossos, orelhas cahidas, choutando sem
brio, coxeando dolorosamente, com um ar de philosophos sem rao a
caminho da morte.

Atraz saltava a carruagem com um tinir de ferragens, soturno como um
ranger d'ossos em dana macabra. E eu encostava aos vidros da janella a
testa ardendo com febre, para ver a passagem d'aquellas duas velhinhas
sympathicas, irms decerto, gemeas talvez, to eguaes, com os
cabellinhos bracos alisados sobre as testas enrugadas, as boccas
reentrantes, os olhinhos apagados, tremulas, encolhidas como passarinhos
com frio, com os mesmos fatos de luto, o mesmo ar tranquillo, o mesmo
sorriso de bondade. Macrobias  espera que a morte viesse n'um beijo
perfumado cerrar-vos para sempre os olhos, como devieis soffrer,
cabeceando, sacudidas, empurradas brutalmente uma contra a outra pelas
mollas duras, aos safanes das sob-rodas da calada! Boas velhinhas,
minha paixo unica, minha esperana d'um dia inteiro, quando eu
vivia isolado com a minha melancolia, n'aquella casa onde o vento
soprava tristezas, onde o sol nunca entrou e onde as corujas riam de noite!

O cocheiro, um velho muito velho, corcovado, segurando tremulamente as
redeas, com as mos pousadas sobre os joelhos, conservava um certo ar de
casa nobre, apezar da nodoa esverdinhada, que se alastrava nas costas da
sobrecasaca, e do chapo de furta-cres, pequeno, de abas largas,
arrombado, sem pllo, com um velho galo todo oxidado, velho, muito
velho, d'outros tempos muito melhores.

Que volta misteriosa dava todos os dias aquella carruagem, que s tardes
ali passava trepando pela calada? D'onde vinham, para onde iam, em que
palacio ou castello arruinado moravam as boas velhas? Quem eram? Nunca o
soube.

E era talvez por isso que as amava tanto. Architectava historias
fantasticas a respeito d'ellas, da carruagem, do cocheiro, dos
cavallos, e, quando por fim ouvia o rodar pesado e o tinir das
ferragens, sentia o corao pulsando rapido, a respirao difficil, um
calor nas faces, como se em vez da decrepitude a caminho do cemiterio,
fosse uma primavera cheia de flores e de mocidade, que ali passasse em
grande aureola de luz, em nuvem subtil de perfumes.

Creio que as velhinhas, n'uma doce, apagada recordao de galanteios
havia muito passados, adivinharam o meu amor, e olhavam para mim,
risonhas, fazendo renascer faiscas nos olhos cr de cinza, que um
sorriso bordava com ondas de preguinhas por cima das rugas! E eu, com a
testa encostada s vidraas, via desapparecer a carruagem fantastica,
emquanto a noite descia lentamente e, muito desafinados, piavam l no
alto, em doidas correrias, os negros andorinhes.

Boas, santas velhinhas, benza-vos Deus!

A calada subia em linha recta, tendo por fundo o cu ainda vermelho,
quellas horas. A carruagem levava uns cinco minutos at chegar ao
alto, e l em cima, esfumada pela distancia, com as grandes rodas
salientes, tombadas para fra, similhava uma grande borboleta negra, que
a descida precipitava na rutilante fogueira do pr do sol.

      *      *      *      *      *

Pouco depois accendiam-se no co muito pallido as primeiras estrellas.
Ento um doido, que morava no rez do cho, comeava a uivar
sinistramente e pela casa espalhava-se um cheiro intenso, um fumo
suffocante d'ervas, que a irm queimava por conselho d'uma bruxa, entre
rezas plangentes, arrastadas, de arrelia.

Pessimista bilioso, mal com a vida, fugira de parentes e de amigos, e
ali vivia isolado, merencorio, cheio de azedumes, n'aquella rua onde os
casebres em ruinas se alinhavam tristemente, com vidros esverdeados,
telhados cheios de corcovas, paredes desaprumadas, com ervas
crescendo junto aos muros em que as osgas aqueciam ao sol os dorsos
escamosos.

E dava-me bem n'aquella paizagem cuja musica harmonisava com as minhas
queixas, n'aquelle scenario que havia procurado e emfim descobrira, onde
arrastava as minhas preocupaes, os meus desvarios, na priso
voluntaria que escolhera e me era cara  fora de melancolica, que eu
amava porque me era hostil.

Ao meu odio pela gente e pelas coisas, uma s coisa escapra--aquella
carruagem a desconjuntar-se, pyrilampo nas trevas da minha noite, nota
suavissima no concerto da minh'alma.

To egual era sempre a dr que me atormentava, to parecidos rodavam
meus dias, que o vero passou, sem que, olhando para traz, eu pudesse
ver na estrada, que andei triste, o marco d'uma alegria, d'um aspecto
novo, d'uma miragem na vida.

Aquelle amor, aquella quasi paixo, que ao principio as velhinhas
me haviam inspirado, esse mesmo sentimento purissimo affligia-me agora,
 medida que o sentia crescer.

O tempo fra passando, e os cavallos cada vez choutavam menos, coxeavam
mais, mais brancos, mais tisicos, mais dolorosamente meditabundos; o
cocheiro mais corcovado, um pouco descahido na almofada, deixava pender
o chicote; a carruagem tinha na frente umas tiras de papel sobre um
vidro rachado; cordas, a que todos os dias se juntava um n, ligavam os
arreios; as velhinhas tinham menos palhetas doiradas no olhar, quando me
sorriam. E j me sorriam como a pessoa conhecida, que occupasse na vida
d'ellas o logar em que moravam na minha, o que augmentava a minha tristeza.

Agora, cada vez que l no alto da calada se afundava a carruagem,
ficava scismando se teriam desapparecido de uma vez todos os meus
sonhos, tudo--que era smente aquillo--quanto  vida me prendia.

O vero, muito lentamente, assim foi rodando, at que vieram as
primeiras chuvas.

Que tarde turbida e melancolica! Se no viessem...! E de tanto pensar
n'ellas, vi qual era sua pousada na minh'alma. Se no viessem...! Dia
immenso em que, cheio de inquietaes passeei pelo quarto at
entontecer, approximando-me da janella a cada instante, vendo apenas na
solido da calada a chuva a cahir, a cahir, rio enorme, que se
despenhava at l abaixo, rolando barrento, cheio de espuma,
quebrando-se, saltando sobre as pedras arrancadas, bi-partindo-se l no
fundo, desapparecendo na curva e galgando as escadinhas, onde se
precipitava em cascata, com uma bulha monotona...

O doido, a quem a meia escurido d'aquelle dia exacerbra a furia,
torcia-se, berrava como um possesso; e logo de manh espalhou-se pela
casa o tal cheiro que eu detestava, de alfazema queimada, de alecrim e
d'outras ervas com que o demonio embirra.

Dia immenso, que me parecia no dever acabar!

Na minha imaginao exaltada via, como de ento para c vi sempre, um
ente unico n'aquella carruagem, com as donas, os cavallos, o cocheiro,
como se uma s alma os animasse a todos, no podendo desligal-os,
abstrahir d'uns para s pensar nos outros.

O dia vinha descendo e, ancioso, sentindo pelo ser fantastico que me
fazia pulsar o corao, aquelle fervoroso amor, que os encarcerados
dedicam s vezes a uma formiga, a uma aranha, a uma plantasinha
qualquer, com as unhas cravadas na carne do peito, tive uma das mais
doidas alegrias da vida, quando senti sobre a lama que se alastrava de
lado a lado, o rodar lento, abafado, por que suspirava semi-doido.

Os cavallos gemiam, suavam, lanando pelas ventas baforadas densas. As
sob-rodas, occultas pela lama e que o cocheiro no evitava, cego pela
chuva que o zurzia, faziam cambalear o trem como um ebrio. E l
dentro mal pude avistar, atravez dos vidros embaciados, as velhinhas que
sorriam.

Abri a janella para as ver desapparecer. Julguei que nunca chegassem ao
alto. O cocheiro com um gesto afflicto brandia o chicote; os cavallos
pegavam-se, ajoelhavam na lama; as molas estalavam.

Chegaram finalmente. Disse-lhes um adeus maguado. E emquanto a noite
descia, sentado junto da janella, parecia-me ver, como n'um sonho, a
carruagem fugindo, fugindo, por uma estrada que no acabava nunca,
levando no tejadilho, de p, como os anjos dos coches de enterro, a
figura da morte. E a chuva cahia, cahia, e a noite embrulhava-se n'um
vo muito negro, cheia de frio.

      *      *      *      *      *

Nunca mais as vi.

Passaram-se mezes. Na tera feira de entrudo uns mascarados bebados, que
desciam pela calada, traziam adiante aos pontaps, em grande
troa, um chapo de furta-cres, pequeno, de abas largas, arrombado, sem
pllo, com um velho galo todo oxidado, velho, muito velho...

Boas e santas velhinhas!

_Requiem ternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis._




AS ESTRELLAS DO CEGO


Noite de Natal.

Terminra a missa. Repicavam sinos e o povo descia alegre os degros em
ruina da larga escadaria.

A noite era cheia de estrellas, luzes d'altar immenso sob o immenso
docel de velludo azul. O co muito frio parecia rir-se, a piscar os
olhinhos alegres.

Ainda nos eccos da alta abobada em bero resoavam os ultimos cheios
do orgam do convento. Pela porta aberta de par em par, onde a multido
se acotovelava  sahida, vinha de dentro da egreja um perfume religioso
de flores, de fumo de incenso, de cera queimada.

O altar reluzia ao fundo, e as luzes inquietas enchiam de zig-zagues
rutilos as lentejoulas e os fios de seda nos mantos bordados da Santa
Familia e na colxa de damasco do bero pequenino, em que o Menino Jesus
drmia.

Tocavam sinos, e os repiques, como foguetes, subiam pelo ar denso da
noite fria, entre a algazarra do povo, massa escura caminhando pela
noite escura. A larga frontaria da egreja, comida pelo tempo, abafada
n'um velho tapete de musgo, sobresahia no co em mancha muito negra,
d'onde jorravam feixes luminosos, ondas de harmonias, luz e canticos de
triumpho.

Um pequeno desceu a escada levando um cego pela mo.

Iam fechar-se as portas. Sahiam os ultimos devotos.

O cego era um velho corcovado, tremulo, com a face cheia de rugas
crusadas, como um pedao de papel amachucado. Os olhos sem luz
voltava-os para o co, meneando a cabea constantemente, como se
procurasse... o qu? E sorria. Dava a mo ao petizinho e descia os
degraos tacteando-os com o p.

--Ainda mais um, av... E outro... E outro.

Fechou-se a egreja. O candeeiro da esquina mal alumiava o adro.

E o cego sorria e afagava a mo do pequeno.

O povo espalhou-se pela ruas. Eram como estilhaos de alegria por toda a
cidade.

Vinha a gente descendo pelos beccos angulosos, pelas travessas em
declive rapido. E parecia que todos levavam n'alma um pedao de luz
d'aquella noite em Belem cantada nos evangelhos, da alegria
d'aquella musica ouvida no templo, quando os sinos repicaram e o
cro entoou o _Gloria in excelsis_! Todos falavam, todos riam, muitos
cantavam. Era a ceia prompta em casa, era o dia seguinte todo elle
inteirinho de descano!

Noite de Natal! Noite de Natal!

E eu fui por ali abaixo tambem, atraz do cego.

O pequenito teria oito annos. Loiro. D'olhos azues. Olhava para as
estrellas a rirem l em cima.

Os olhos tinham a cr do co, e o que n'elles brilhava tanto podia ser o
reflexo das estrellas como a luz placida da sua almasinha.

Caminhavam os dois por ali abaixo e conversavam.  voz tremula do velho
replicava compassadamente o pequenino. E o que elle dizia com a sua
vozita infantil, linda como um trinado, devia de soar aos ouvidos do av
ainda como um cantico, como se um anjo d'aquelles, que haviam aos
pastores annunciado a vinda do Senhor, houvesse ficado na terra;
porque o cego continuava sorrindo, e, a descer pelos beccos escuros e
tortuosos, afagando a mo do netinho, fitava os olhos condemnados s
trevas l em cima, l muito em cima, d'onde vinha aquella luz toda, que
alegrava os olhos da criana.

Conversavam os dois contentes. Eu ouvia bocadinhos do que diziam,
palavras soltas, por onde, mais ou menos, reconstituia a conversao.

Esperava-os em casa a me do pequeno, filha do cego. Os dois levavam
fome. A mulher ficara em casa fazendo a ceia. E ao velho ouvi dizer, uma
ou duas vezes, gulosamente:

--A canja.

E o pequeno:

--Degro, avsinho.

E o cego, muito attento, vagarosamente, tacteava o degro com o p,
afagando a mo do neto, cantarolando.

Pelos beccos, pelas travessas, sob os arcos dos pateos irregulares,
cheios de sombras, disseminara-se a gente. Iamos agora ss, ns trez,
n'aquelle caminho.

Ouviam-se ainda passos ao longe, eccos de vozes, uma ou outra guitarra
em lojas fechadas, onde brilhavam as frinchas das portas; de quando em
quando, um bater de palmas ao guarda nocturno, passos correndo, um tinir
de chaves. Um gallo cantou n'uma trapeira.

-- tarde, disse o velho.

Caminhavam mais depressa agora.

E eu ia andando atraz d'elles, sem saber bem porqu, atrahido talvez
pela doura do quadro, pelo encanto do grupo, pela meiguice das vozes,
por ver tanta alegria onde tanta miseria se cuidava, tanta paz nas
almas, onde tanta dr devia de suppr-se.

Passei-lhes adeante. Esperei junto de um candeeiro. Queria ver-lhes
ainda uma vez os rostos.

O cego continuava a olhar para o co, meneando a cabea. O pequenito ao
lado, agora que na rua tinham acabado os tropeos, olhava para onde
olhava o cego.

A cabelleira loira, toda em anneis, no lhe cabia dentro do chapo e
cahia-lhe, revolta, pela testa, ao longo das faces, pelas costas.

Era lindo, lindo! E o cego, que o no via, continuava a sorrir!

Deixei-os passar adeante.

A rua alargava-se entre casarias irregulares. Caminhavam mais  vontade
agora, mas tinham-se calado. Culpa talvez da minha indiscrio.

Faziam ecco no silencio da noite os nossos passos sobre a calada, na
rua deserta.

Pararam. O velho bateu cinco argoladas  porta de uma casa esguia, com
grades de madeira nas janellas cheias de vasos. Passados poucos
segundos, ouviu-se a pancada violenta do trinco puxado com fora desde
l de cima.

O cego e o pequeno desappareceram na escurido da escada. A porta bateu
com estrondo.

Ouvi ainda o velho cantarolando, emquanto subia. Pouco a pouco a voz
sumiu-se. Encostei o ouvido  fechadura: uma bulha de passos
apagando-se, mais e mais, a cada volta da escada; uma voz muito
alegre--devia de ser a da me do pequeno recebendo-os--palavras que
no percebi... E fechou-se l em cima uma porta.

      *      *      *      *      *

Ento passei para o outro lado da rua e fiquei-me a olhar para aquella
casa.

Era noite de Natal, noite de festa, noite cantada pelos poetas. Talvez
as cordas da minh'alma vibrassem ainda em unisono com os cantos
d'aquellas vozes to devotas, singelamente entoados por detraz das
grades do cro, hymnos muito simples ao Deus Menino nascido.

No co de immaculada pureza as estrellas vibravam raios de luz
intensissima. Fazia frio.

E eu quedava-me a olhar para aquella casa, to pobresinha, to velha,
to escura, to cheia de flores d'alto a baixo!

Uma janella no telhado illuminou-se.

Comeava a ceia do velho. Eu reconstituia o grupo dos trez: a mesa
encostada  parede na trapeira muito baixa, o velho aspirando os
perfumes da sopa, a terrina sobre a toalha muito branca, o pequeno
defronte do av, e a mulher a sorrir-lhes, ouvindo-lhes as historias, o
throno, o presepio, a missa, o canto das freiras, a vinda por ali abaixo
a horas mortas, a minha perseguio.

E o pae do pequeno? Ah! sim, esse tambem l estava... Pois quem trabalha
para sustentar a alegria n'aquellas almas?... Santa familia!

Que deliciosa ceia! Que paz tranquilla! Que boa noite de Natal!

Tanto falava o cego na canja, rua fra, pela mo do pequeno! Quem no
tem olhos, tem melhor paladar.

E o pequeno como devora!  que  tarde e no costuma estar de vla
quellas horas! Comprida manh ter na cama. J os olhitos se lhe
comeam a fechar.

E o pae e a me a rirem, contentes de os verem assim!

Que boa noite de Natal!

Fitra os olhos na janella, no sabia d'ali apartal-os. Tambem eu agora
olhava para cima, como ainda agora o pequeno para as estrellas, o cego
no sei para onde.

Porque olhava o cego para o co?

Tornou o gallo a cantar. Ouvi-o, ao longe, mais alegre, como quem j
adivinha a madrugada.

Ha quanto tempo estava eu ali? Porque olhava para aquella trapeira?

Encaminhei-me vagarosamente para casa.

Havia tantas estrellas no co! Como era linda a noite de Natal! Como
tinha razo o pequenito dos cabellos loiros de olhar para as estrellas!
Que quantidade de luz! Tantas! Tantas!... Talvez o pequeno se lhe
mettesse em cabea de contal-as! Houve uma, quando vinhamos pela
travessa abaixo, que passou correndo, deixando um rastro muito longo...
Era como a estrella dos Reis Magos. Que luz no tinham os olhos do
pequenito! E o cego sorrindo ao p d'elle, com os olhos tenebrosos
postos no co! Porque?  que se lhe voltavam para l os olhos d'alma, 
que na alma tinha elle mais luz do que o pequeno nos olhos.

E vejo-os ainda a descerem pelos beccos, o velho meneando a cabea, o
pequenito a dar-lhe a mo? Degro, avsinho? ambos com os olhos no co,
a estrella a correr...

Que lindas estrellas v o cego!




OS NETOS


Andavam todos pasmados, a falar baixinho pelos cantos.

O D. Affonso parecia outro!

Se fosse um Affonso qualquer!... mas o Dom, o quarto, o do Salado!...
Quem jmais o vira assim de olhar to doce na sombra do supercilio
carregado, de riso to lhano sob as enormes barbas patriarchaes,
honradas entre as mais honradas dos affonsinos?

O Coelho, que, havia muito, andava tramando o crime, at disse baixinho
ao Pacheco:--Ali ha coisa! O Pacheco j a farejra, olha quem! E
entretanto, o D. Affonso, todo fra dos eixos costumados, dizia graas,
quando passava alguma dama a rojar sedas na peugada da linda Inez.

Ia seu caminho o drama tenebroso. Tanto haviam feito, que j tinham
escangalhado o socego da que depois de morta foi rainha. E o sceptro,
sobre que to famigerados heroicos havia de bordar o Dr. Ferreira,
parecia pesar nas mos do monarcha menos do que se fra de pechisbeque,
talvez tanto como de papelo doirado.

 que n'aquella noite...

O homem tinha um fraco: pelava-se pela canja!

Elle em pessoa comprra a gallinha, uma ave amarella, que era uma
belleza, gorda, anafada... Depois de muito regatear, e por ser a elle,
D. Affonso,  que a saloia a vendra por seicentos e vinte! Um rico
pedao de toucinho, um bom naco de prezunto, o bello chourio,
cheirinhos, arroz da melhor tenda... Ora adeus! Um dia no so dias.
Aquella noite de Natal havia de ser falada!

E, por debaixo dos longos bigodes brancos, brancos de neve, El-rei
lambia os beios.

Chovia a potes.

O drama terrivel, a mais calamitosa tragedia da historia patria, ia-se
pouco a pouco desenrolando.

Inez lamentava-se. Os horrificos algozes haviam-a trazido ante o rei.
Eram tres judeus de calvario de semana santa, muito capazes de dar sete
pesadlos a quem no estivesse prevenido. Muito cabello, muita
sobrancelha, muita barba, vozes de tyrannos. Ella erguia para o co
cristalino os olhos piedosos, attentava nos meninos cheios de somno,
falava ao av cruel nas brutas feras e nas aves agrestes, na me de Nino
e nos irmos que Roma edificaram; queria ir fosse l para onde fosse,
para a Scythia fria ou para a Lybia ardente, comtanto que a
tirassem d'ali. Era de partir os coraes! Mas aquelles patifes, de
punhaes desembainhados, sanhudos, faziam esgares!

E a desditosa amante do Principe, entre soluos e lagrimas,
pensava:--Que demonio tem hoje o D. Affonso?

O rei s via a canja, os olhinhos da gordura, o arroz muito branco... E
arregalava o olho e abria a venta!

Ah! que delicioso quadro! Que lhe importavam a linda Inez de rojo a seus
ps, as iras do filho apaixonado, a politica do reino, as Hespanhas, os
Castros?

Uma trapeira, que, toda envolta em arroz de telhado, era como um
ramalhete, n'uma rua estreita, escura, tortuosa, para l lhe tugia o
pensamento. Em volta d'ella cantavam pardaes todas as manhs, e o sol
mal nascia, pintava-lhe os vidros como se fossem pedras preciosas,
rutilantes. Tanta paz l dentro, tanto riso de creanas!

Noite de Natal muito fria. Ih! como chovia l fra! Cantava a agua,
cahindo em jorros das biqueiras sobre as pedras das caladas. Como
estavam lamacentas as ruas, cheias de poas! O vento do sudoeste
arrastava pelo co as nuvens desgrenhadas, e chovia sem descano.

L dentro da trapeira, tanta luz, tanta alegria!

Noite de Natal! A toalha resplandecia muito branca sobre a velha mesa
herdada dos avs, um nadinha coxa e remendada. Era um velho traste
amigo, n'aquella noite todo enfeitado para a festa. O candeeiro,
entornando sobre a alvura do linho um circulo de luz aconchegador, fazia
faiscar as laminas das facas, estriava com fogo os cabos muito limpos
das colheres. O po, ha pouco vindo do forno, ainda fumegava embrulhado
na flanella, e seis guardanapos engommados ostentavam formas
caprichosas, em cima dos pratos: pombinhas, leques, roms abertas.

L dentro, na cosinha, riam as crianas.

A mais pequenina, uma gorducha rosada e muito loira, fechava os olhos
canadinhos de somno, teimando em no querer deitar-se, que havia com as
mais velhas de assistir  grande festa.

E a panella a chiar e o vinho a aquecer e o quebrar das nozes!

V l um homem ralar-se com a politica do reino, ter consciencia de sua
altissima misso, comprehender o direito divino, recalcar no corao a
piedade e ser cruel contra o proprio filho meio louco de amor e que a
dr tornaria completamente louco, contra os infantes seus netos, contra
a formosa fidalga chorosa, que deixava espalhar pelos hombros os fartos
cabellos pintados de loiro!

--Pois sim, cantem, pensava elle.

E respondia to distrahido, to fra do sentimento, que todos, pasmados,
diziam:

--O D. Affonso... ali ha coisa!

Corriam-lhe pelas faces uns arripiosinhos, impaciencias perceptiveis sob
as enormes barbas todas brancas, fazendo-lhe tremer as azas do
nariz e os cantinhos das fartas sobrancelhas.

O filho, o D. Pedro, com voz de trovo, arrancava do peito as ultimas
exclamaes e afastava-se a largos passos para ir pegar em armas. A
crte, attonita, afflicta, corria para a vasta janella rendilhada para
ver o desgraado amante atravessar os pateos, chamar os seus, com elles
dispor a vingana. Era ento que o velho heroe do Salado, desgraadinho,
cheio de lagrimas na voz, com o corao dilacerado, deante do corpo
inanimado da linda Inez, havia de soluar altissimas philosophias sobre
a vaidade das vaidades, o peso d'aquella cora sobre as cans, d'aquelle
sceptro nas mos decrepitas.

--A canja, a canja! pensava elle.

E ainda o ecco murmurava os ltimos gemidos d'aquelle diabo de tragedia,
e j o D. Affonso galgava a quatro e quatro os degros da escada, sem
cora, sem sceptro, sem barbas, respondendo ao contra-regra, que o
chamava para ir agradecer os applausos da claque:

--Vo para o diabo!

E, meia hora depois, que alegria!

Quando chegou a casa, em volta da mesa, a filha, o genro, os tres
netinhos, todos a cantarem o hymno da carta:--Tchim! Tchim!...
Taratatchim! Taratatchim!

Que bem que cheirava a canja!

Aquella noite de Natal havia de ser falada!




A BURRINHA BRANCA


Meu av tinha uma burrinha branca, que parecia um macho.

Era branca e lustrosa como um cotosinho de serralha, esbelta, com as
mosinhas muito finas, viva, com as orelhitas muito curtas. Uma estampa.

Quando o av sahia n'ella, no havia general em campo de batalha que
mais garboso se apresentasse. Tic-tic!--l iam os dois pelos caminhos.
Vinham as mulheres s portas e era um cro:

--Benza-te Deus, burrinha!

 que tinha uns modos que prendiam o olhar de todos.

Homens havia que embirravam com o av, por causa d'aquella fortuna, e
diziam ao vel-os:

--Raios os partam!

Mas o velhote no cuidava de mulheres, despresava invejosos e s pensava
na burra.

Chamava-se Pomba, pomba por dentro e por fra, to branquinha d'alma
como de pllo.

Muito meiga, quando o av lhe levava a rao, esfregava n'elle a cabea,
mexia as orelhas e dava ao rabo, que  o modo por que os burros fazem
festas  gente. O av dava-lhe beijos.

Por todas essas aldeias, nunca vi gato nem co, animalzinho mais
querenudo.

Assim passaram muitos mezes de muita paz e socego.

L o nosso visinho sapateiro  que se mordia de inveja. De amarello que
era fez-se verde, de magro um trinca-espinhas. Era dono d'um cavallinho
lazo, coxo, pelludo, calado de tres ps e bebendo em branco.

Pois ainda queria comparar o diabo do homem!...

Ora isto da malha branca da testa correndo pelo focinho at ao beio 
de mau agoiro. Diziam os moiros que os cavallos assim marcados tinham na
cabea a mortalha do cavalleiro. At onde seja verdade no sei; mas vi
mais d'uma vez o lazo aos coices nas estrellas e o sapateiro no cho
com as costellas amolgadas.

Pois, apezar d'isso, s para fazer rabiar o av, dizia que no trocava!...

A Pomba era um apetite. Invejavam-lhe ovelhas a mansido.

O av calava-se, porque bem conhecia o sapateiro. Ria-se, sem que
ninguem desse por isso, que eram tantas as rugas na cara, que mais uma
menos uma no fazia differena. Onde se lhe conhecia a alegria era nos
olhos, uns olhitos pequeninos, j sem cr.

A burrinha a trote,--tic-tic!--e elle:

--Bons dias, visinho!

Ento o cavallicoque escanzelado, muito malcreado, tinha o mu sestro de
rinchar.

O av no gostava do atrevimento; mas que havia de fazer seno
conformar-se com o namoro desaforado de quantos quadrupedes na terra
havia? Era a linda cabecinha branca apontar entre os humbraes da
cocheira e logo cada zurro de repicaponto, que, fosse a Pomba como
certas mulheres, seria a aldeia um co aberto.

Ella, muito dengosa,--tic-tic!--olhava para todos de soslaio, mas nenhum
encarava de fito.

Eu levava-a muita vez a pastar. E, como o av no queria que ella
perdesse um s ponto da reputao, dizia-me sempre:

--No percas o animalzinho de vista. No deixes de pear a burra.

Nem o mais pintado se lhe havia de chegar, que eu tinha sempre o olho
n'ella e nunca as peias me haviam esquecido.

Entretanto chegou o mez de abril e toda a charneca se encheu de flores,
desde as copas mais altas dos sobreiros at s ervinhas, que se escondem
envergonhadas debaixo das moitas.

A burrinha abria muito as ventas, respirando o ar fresco da madrugada,
que cheirava a alecrim e a rosmano, que nem eu sei encarecel-o! Os
estevaes eram todos em flor e a charneca parecia um mar todo elle verde
e branco, quando o vento cursava por essas mesas fra.

Ella gostava de ouvir os passarinhos, que at parece que os entendia.
No ha como mus exemplos. Andava azougada e o av inquieto.

--Peia-me a burra, dizia sempre.

Iam tamanhos desaforos pela aldeia...! Mas quem havia de pensar...?

      *      *      *      *      *

Ora, por esse tempo, a Pomba fez quatro annos, o que  tambem a
primavera na vida dos burros.

Uma certa manh, o sol, depois de trez ou quatro dias de choviscos,
appareceu de repente limpo de nuvens e com tanta luz, que as abelhas
embebedaram-se todas. Era um zunir l pelos ares, que at dava alegria 
gente. E l em baixo no montado, ao p do rio, ainda os rouxinoes se no
tinham calado, j os trigueires andavam cantando. Era dia de festa
tanto na terra como no co!

Ora um homem pde ser marrca, aleijado e feio como eu sou, ha coisas
que lhe vo direitinhas  alma.

Larguei a burra no ferregial e fui-me deitar debaixo da figueira.

Dizem que o sol, quando nasce,  para todos; porque no havia de haver
uns raios para mim? Tanta moa boa na aldeia e eu estropiado, sem me
atrever...

Puz-me a olhar para aquelles montes, d'onde o sol vinha a subir. Um
moinho ao longe bracejava, com as velas muito brancas, que mal se
viam no co todo em volta cintado de cr de sangue. Zuniam as abelhas,
cantavam os passaros, e o cheiro das flores, em que me tinha deitado,
trepava-me  cabea. Fechava os olhos encadeados com a luz do co e
punha-me a sonhar. O sol appareceu por detraz do monte, correu uma
aragem, as florinhas do rosmano curvaram-se, escondendo-se na troca dos
beijos. Passaram no ar duas borboletas brancas, uma atraz da outra, e
pelas ervas andavam gafanhotos aos saltos. Eu pensava em muita coisa
junta e cantarolava baixinho uma cantiga, que tinha ouvido de longe,
n'um baile da vspera:

    Qual a distancia e a lonjura
    Onde o sentido caminha,
    Onde  que elle vai parar,
    Isso ninguem adivinha.

Ora os versos que eu cantava, a burra tambem os sabia. Tinha-me
esquecido peal-a e, quando voltei a mim, no vi da burra nem rastos!

E ali fiquei eu, no sei que tempos, como um simplacheiro, de queixos
cahidos e mos a abanar, sem achar uma ida que me allumiasse, sem ver
remedio de vida, a tremer das furias do av.

Depois, muito cosido com as paredes, fui at  cocheira. Talvez a Pomba
tivesse tomado o caminho de casa.

O av, satisfeito como um gato ao borralho e descanando em meu cuidado,
assentra a barba sobre o peitilho, e no pateo, sentado no banco de
pedra, dormia ao sol.

A burra no estava.

Fui para a charneca. Onde via esteva pisada, procurava achar um rasto.
Levava n'uma palhinha a medida certa da ferradura; mas as poucas horas
de sol n'aquella manh tinham endurecido a terra.

O sol foi subindo e at ao meio dia andei leguas. O corao batia-me
tanto, que me fazia doer. No parei. Ia  doida, sem destino.
Bateram na villa ave-marias. Dei por mim a quatro leguas da aldeia.
Calaram-se os passaros; as papoilas das estevas enrolaram-se para
dormir; anoiteceu, e eu deixei-me ficar toda a noite na charneca, a
tremer de susto e de frio. Toda a santa noite um mocho piou e eu pensei
na coa que me esperava. Se no fosse a marrca, tinha fugido para
assentar praa. Uma d'aquellas s pela fortuna! E toda a noite tive nos
ouvidos a mesma cantiga... Mas quem podia adivinhar...?

Era quasi madrugada, quando cheguei a casa.

Mal o av me avistou, bateu-lhe o queixo como em ters, e at os beios
se lhe fizeram brancos.

--E a burra? perguntou.

Por felicidade, n'essa altura, a Pomba entrou no pateo, a passo, de
orelha muito murcha, como quem traz peso na consciencia.

Foi o que me valeu. Eu, que tanta praga durante a noite lhe rogra, tive
at vontade--palavra!--de desatar aos beijos  minha salvadora.

Mas j o av a tinha agarrado. O desgosto no lhe havia feito esquecer o
costume, pelo contrario, e uma melhor matadella de bicho tornava-o ainda
mais terno.

O que elle disse  burra! O que elle lhe disse!

      *      *      *      *      *

Mas embora o velho perdoasse, o mal estava feito. Breve d'isso se
convenceu. Primeiro foram apenas suspeitas, passados dias uma certeza.

O av andava envergonhado. J, quando passava em frente da porta do
sapateiro, no largava chalaas para a loja. O caso tinha sido falado.
Isto de ms linguas na aldeia!... O av parecia-lhe que a honra da burra
tinha o que quer que fosse com a honra d'elle. D'antes sempre
cantando--_tiro-liro-liro!_--andava matuto agora. Quem seria?...
Vo l saber! Nasceu-lhe um odio enorme a todas as cavalgaduras a quem
pudesse attribuir a desgraa. Desafogava comigo e dava-me bofetadas,
cada vez que dizia no a peaste! O asno do moleiro era amarello com
uma cruz nas costas e tinha fama de requestado. Nunca mais o poude ver.
Contra todos tinha uma pedra no sapato e, quando o lazo rinchava,
dizia:--Desavergonhado! Mas no desconfiava d'elle. To feio!...

Quiz ver se a Pomba se trahia. Quando passeava pela aldeia na burrinha,
ia-lhe sempre observando qualquer gestosinho das orelhas. E ella muito
seria... tic-tic!...

      *      *      *      *      *

Uma madrugada vim dar parte ao av de que havia mais um machinho na
cavallaria.

Nem sequer acabou de engolir o copinho de aguardente e atravessou como
doido o pateo.

Um macho! Um macho!... Mas ento quem?... quem?

A luz da alvorada mal coava pelos intervallos da telha v, cobertos de
teias de aranha, onde se baloiavam palhas. Foi preciso que eu
accendesse a candeia.

Como a Pomba enternecida lambia o filhinho!

Era um machinho lazo, muito feio, calado de tres ps, bebendo em branco.

Quando o av lhe no deu ali um estupor,  porque j no morre.

O caso,  claro, fez bulha, ainda mais do que o primeiro.

Eram quasi dez horas da manh, quando o av, que se fra encostar na
cama, ralado pelo desgosto, ouviu uma voz alegre, que lhe gritava:

--Parabns!

Veio  porta furioso e mostrou o punho ao sapateiro, que se afastava,
rindo, a chouto, no lazosinho coxo, pelludo, calado, dos trez ps e
com a tal malha de mu agoiro...

Ora o que desconsolou o av foi o que me deu alegria para a vida.
Aquillo do cavallicoque animou-me, porque a burra estava despeada e foi
at onde muito bem lhe pareceu. So gostos. Pobrinho d'uma figa n'alma,
no corpo e na algibeira, vivi desde ento com uma esperana.

      *      *      *      *      *

Quando o marrequita acabou de contar a historia, a Caetana que andra
servindo os freguezes, poz-se vermelha... vermelha...

--At mais logo, disse elle, sahindo.

O diabo do marreca tinha sorte!




INDICE

                              Pag.

    As Mes                      1

    O Baile dos velhos          13

    A Outra                     27

    O Paquete                   47

    Perdido                     63

    Ad Astra                    77

    O Ventura                   95

    O Primeiro sorriso         113

    O Meu rewolver             127

    O Mimoso                   139

    Gri-gri                    153

    Na Biqueira                161

    Requiem aeternam           171

    As Estrellas do cego       183

    Os Netos                   195

    A Burrinha branca          203




LIVRARIA EDITORA

GUIMARES, LIBANIO & C.IA

108, R. de S. Roque, 110--LISBOA

*Mulheres da Beira*, contos, de Abel Botelho--1 vol. broch. $700

*Os Amores de Camillo* (Biographia amorosa de Camillo C. Branco) por
Alberto Pimentel--1 vol. illustrado, broch. 1$200

*Lyra insubmissa*, versos de Abel Botelho--1 vol. broch. $500

*O Lubis-homem*, comedia em 3 actos, de Camillo C. Branco--1 vol. broch.
$600

*Historia do Culto de N. Senhora em Portugal*, por Alberto Pimentel--1
vol. de 500 pag. in-4. com mais de 80 gravuras--br. 2$000, enc. 2$600

*Cartas da Condessa d'Alve*, romance, por Daniella--1 vol. broch. $500

*Pintores e poetas de Rilhafolles*, por Julio Dantas--1 vol. ill. $400

*Viagem  roda das viagens*, por Alberto Pimentel--1 folh. impresso em
papel de linho $200

*Tratamento natural*--(7. vol. da Colleco do povo) pelo dr. Joo
Bentes Castel-Branco--1 vol. cart. $100

*Meia Noite*, pea em 3 actos, de D. Joo da Camara--1 vol. br. $500

*Rindo...*, contos de D. Claudia de Campos--1 vol. br. $700

*Pela Vida fra*, memorias, de Silva Pinto--1 vol. broch. 800 enc. 1$000

*O Sonho da Rainha*, por Alberto Pimentel--1 folheto $100

*Pedro Alvares Cabral e o descobrimento do Brazil*, por Faustino da
Fonseca--1 vol. cart. $100



    Notas de transcrio:

    O texto aqui transcrito,  uma cpia integral e inalterada do livro
    impresso em 1900.

    Mantivemos a grafia usada na edio impressa, tendo sido corrigidos
    alguns pequenos erros tipogrficos evidentes, que no alteram a
    interpretao do texto, e que por isso no considermos necessrio
    assinal-los. Mantivemos inclusivamente as eventuais incoerncias de
    grafia de algumas palavras, em particular quanto  acentuao.





End of the Project Gutenberg EBook of Contos, by Joo da Camara

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS ***

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Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
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Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
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and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
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The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
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number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
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Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
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business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

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methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


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concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


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unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
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