The Project Gutenberg EBook of Christovam Colombo e o descobrimento da
America, by Joo Manuel Pereira da Silva

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Title: Christovam Colombo e o descobrimento da America

Author: Joo Manuel Pereira da Silva

Release Date: May 24, 2010 [EBook #32519]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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    *Notas de transcrio:*

    O texto aqui transcrito,  uma cpia integral do livro impresso
    em 1892.

    Mantivemos a grafia usada na edio impressa, tendo sido corrigidos
    alguns pequenos erros tipogrficos evidentes, que no alteram a leitura
    do texto, e que por isso no considermos necessrio assinal-los.



CONFERENCIAS PUBLICAS

EFFECTUADAS NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO


CHRISTOVAM COLOMBO

E O

DESCOBRIMENTO DA AMERICA

PELO CONSELHEIRO


_J. M. Pereira da Silva_

Deputado e Senador durante o Imperio, Membro honorario do Instituto
Historico e Geographico Brazileiro e da Academia Real de Sciencias de
Lisboa


BRAZIL--RIO DE JANEIRO
IMPRENSA NACIONAL
MDCCCXCII




CHRISTOVAM COLOMBO

E

O DESCOBRIMENTO DA AMERICA




CONFERENCIAS PUBLICAS

EFFECTUADAS NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO


CHRISTOVAM COLOMBO

E O

DESCOBRIMENTO DA AMERICA

PELO CONSELHEIRO


J. M. Pereira da Silva

Deputado e Senador durante o Imperio, Membro honorario do Instituto
Historico e Geographico Brazileiro e da Academia Real de Sciencias de
Lisboa



BRAZIL--RIO DE JANEIRO
IMPRENSA NACIONAL
MDCCCXCII



PROPRIEDADE DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGRAPHICO BRAZILEIRO




    DEDICATORIA

    _Ao_ INSTITUTO HISTORICO E GEOGRAPHICO BRAZILEIRO _offerece a
    propriedade das conferencias effectuadas cerca de_ Christovam
    Colombo e do Descobrimento da America, _como homenagem de
    considerao, e testemunha de apreo, que lhe tributa seu socio
    honorario._

                                       _J. M. Pereira da Silva._




    O INSTITUTO HISTORICO E GEOGRAPHICO BRAZILEIRO resolveu em sesso
    publica agradecer ao Sr. Conselheiro J. M. Pereira da Silva, e
    proceder  publicao de suas conferencias, reunindo-as em um
    volume, que sirva para commemorar a celebrao do 4 centenario
    do descobrimento da America, que o mesmo Instituto pretende
    celebrar no dia 12 de outubro de 1892.




ADVERTENCIA


Ao approximar-se o 4 centenario do descobrimento da America por
Christovam Colombo, e ao annunciarem-se festejos, com que tem de ser
celebrado em Madrid, Chicago e Genova, to fausto e glorioso
acontecimento, entendeu a Sociedade Promotora da Instruco, fundada no
Rio de Janeiro, que lhe convinha egualmente commemoral-o, restaurando as
conferencias populares  que anteriormente havia presidido, e
encarregando ao Sr. Conselheiro Joo Manuel Pereira da Silva a misso de
tratar d'aquelle assumpto.

Cinco conferencias effectuou o Sr. Conselheiro, resumindo quanto
interessava  historia do descobrimento da America e  biographia de
Colombo. Acolheram-nas as Gazetas e o publico com a maior benevolencia.
O decano da imprensa brazileira, o _Jornal do Commercio_ do Rio de
Janeiro, as fez apanhar por meio de tachygraphos, e as publicou
integralmente em suas interessantes columnas.

Essas conferencias formam, reunidas, o actual volume.

No as quiz o autor alterar e nem imprimir-lhes novos additamentos:
entendeu que si valor haviam tido, no o deviam perder, modificadas que
fossem na frma ou na essencia. Convinha mais que corressem como
foram pronunciadas, corrigidos apenas os erros da imprensa, e riscados
os incidentes da occasio, que s interessavam ao orador e ao auditorio.

O estylo e a linguagem do orador devem a frma ao improviso da palavra e
das phrases, e por isso apresentam naturalmente incorreces e lapsos,
porque lhes falta aquella lima que o escriptor emprega em suas vigilias,
quando recolhido ao seu gabinete, e quando adstricto  uma acurada
meditao.

Comprehende-o o leitor intelligente, e, pois, apreciar com justia.




CHRISTOVAM COLOMBO

E

O DESCOBRIMENTO DA AMERICA




PRIMEIRA CONFERENCIA

17 de maio de 1891


Subindo hoje a esta tribuna que, ha cerca de dous annos, conserva-se
muda, deserta, abandonada, e relanceando os olhos pelo auditorio no
intuito de comprimental-o, e agradecer-lhe o comparecimento, assalta 
meu espirito uma ida triste, confrange-se-me o corao com uma dolorida
reminiscencia. Noto a falta de um grande patriota que desde o comeo e
durante muitos annos seguidos honrou sempre estas conferencias,
animando os oradores com sua presena, incitando os ouvintes com suas
palavras, quelles pedindo a perseverana no trabalho, a estes
aconselhando concorressem afim de se alcanarem resultados vantajosos e
proficuos aos estudos scientificos e litterarios. Refiro-me ao Sr. D.
Pedro II, que ora, ingratamente expellido da patria, sente de certo
ainda bater-lhe o corao de saudades por ella, e faz votos ardentes
pela sua felicidade e futuro.

Pago este tributo de gratido, prestada uma homenagem devida de
respeitosa saudao, passo a tratar do assumpto annunciado para nossa
conferencia de hoje, appellando, como em outras occasies, para a vossa
benevolencia.

Sorriu-me esta ida com a leitura dos annuncios publicados em periodicos
de varias naes. No proximo anno de 1892 celebrar-se-ha o quarto
centenario do descobrimento da America. Achamo-nos na America, somos
Americanos, porque nos no recordaremos de epoca to memoravel!

Para que se comprehenda, porm, a historia do descobrimento da America,
necessario nos  comear pelo estudo da situao social, politica,
economica, scientifica e litteraria da Europa durante o seculo XV.

Sahia da edade mdia, penetrava na da renascena, e passava por
extraordinarias evolues. Cahia a feudalidade, isto , o dominio
despotico, brutal e caprichoso de fidalgos, senhores de castellos, de
cidades, de vastos territorios, tanto leigos como ecclesiasticos e que,
independentes dos chamados reis e imperadores, victimavam os povos
residentes em suas terras e sob seu jugo. Elevava-se sobre as ruinas do
feudalismo o poder illimitado dos monarcas, que comeavam a governar
naes maiores e mais unidas: apparecia j tambem  tona d'agua,
reclamando liberdades civis, a classe mdia e popular, que at ento
existira esmagada e submettida.

Desenvolvia-se a industria e o commercio; propagava-se a instruco que
estava monopolisada nos claustros, privativa quasi dos representantes
da egreja christ que succedera ao antigo culto do polytheismo pago.

Occupava-se, todavia, toda a Europa em guerras ou intestinas ou
externas: Italia era presa de estrangeiros; Frana lutava com
Inglaterra, unida  Bourgonha e Bretanha; Allemanha fazia e desfazia
imperadores nominaes; Hespanha brigava com Arabes e Mouros, ainda donos
de parte de seu solo, e repartia-se tambem em varios estados christos
independentes. O imperio grego de Constantinopla estorcia-se em
paroxismos diante das invases e victorias dos Turcos asiaticos, que o
assaltavam de continuo.

Nenhuma nao possuia ento marinha militar propriamente dita e apenas
exercitos, dando-se as grandes batalhas e praticando-se as excurses
bellicas em terra e s em terra.

Havia, porm, em um canto da Europa, o mais occidental, banhado pelo
Atlantico, um povo pouco numeroso, mas guerreiro. Firmara na batalha de
Aljubarrota por uma vez sua nacionalidade apoz tres seculos de separao
e tal qual independencia do resto das Hespanhas. Proclamara-a nas
crtes de Coimbra de 1385, elevando ao throno D. Joo, Mestre de Aviz,
filho bastardo de D. Pedro I. No tinha mais inimigos a combater,
carecia, entretanto, de empregar sua actividade e aspiraes audaciosas
em qualquer empreza de vulto.

Desmembrado no principio do seculo XII do Condado da Galiza, convertido
em reino independente, alargara-se pela conquista sobre terras de Arabes
e Mouros at o sul. Mais longe ia-lhe a ambio, e, pois, adiantou para
o mar suas energias e affoitezas. No tivera ao principio marinha, e
para se apoderar dos territorios meridionaes precisou do auxilio das
armadas do Norte, que se dirigiam s Cruzadas. Do governo de D. Diniz em
diante aprendera, porm, com os Genovezes a atirar-se ao oceano. No o
convidava elle com seus murmurios  lanar-se-lhe nos braos?

Feliz como rei, afortunado como pai, foi D. Joo I. Seus cinco filhos
honraram-lhe cavalheirosamente a familia e a patria, j pelos
talentos e qualidades, j pela bravura do brao e ardentia do animo. D.
Duarte foi rei e rei preclaro. D. Pedro, Duque de Coimbra, illustrado em
todos os conhecimentos scientificos e litterarios da epoca, animo
prudente, superior, e esforado cavalheiro, ganhou experiencia em
viagens pela Europa e Asia, e era por isso chamado o Infante das sete
partidas do mundo. D. Henrique de Vizeu combatera em Ceuta como um leo,
e entregava-se aos estudos cosmographicos. D. Fernando morreu
prisioneiro de Mouros em Fez, e D. Joo ainda moo acabou a vida, quando
ambos promettiam egualar nos meritos e qualidades a seus irmos que
tanto se haviam ennobrecido.

De Mouros estava livre Portugal; nem um pisava em seu solo que no
vivesse em captiveiro: tentou ao rei e aos principes uma grande faco,
atravessar os mares que separam a Africa da Europa, levar a guerra aos
territorios e dominios em que Mouros se achavam, e expellil-os tambem
daquellas regies, como o haviam sido de Portugal. Dito e feito.
Ceuta, a mais rica e commerciante cidade de Marrocos, foi atacada e
subjugada em 1415 pelas armas de D. Joo I: teve de arriar o crescente
de Mahomet e ornar-se com a cruz santissima de Christo: e foi o Infante
D. Henrique, seu principal vencedor, nomeado para governar a conquista
verificada.

Teve ento D. Henrique ensejo de aprender a lingua arabe, ler seus
livros, estudar seus monumentos scientificos, ouvir seus sabios,
seus cosmographos, e muito lucrou e aprendeu, porque eram ainda os
Arabes o povo mais illustrado da epoca. Terminado seu governo e
restituido  patria, um pensamento, um intuito se lhe fixou no
espirito,--adeantar--estender os conhecimentos cosmographicos e
geographicos--descobrir terras de que j haviam fallado os antigos
Gregos e Romanos, e que ento se no conheciam mais--devassar os
segredos dos mares, opulentando com novos dominios sua patria--dilatar e
propagar a religio christ, e desenvolver emfim o commercio com novas
mercadorias e escambos.

Na ponta meridional de Portugal ergue-se o Cabo de S. Vicente: descansam
alli uns penedios aoutados pelos ventos, batidos de continuo pelas
ondas dos mares, e que se prestavam a ser um ponto apropriado para
observaes, estudos scientificos, e pratica de navegao. Para esse
sitio agreste recolheu-se o Infante e em Sagres estabeleceu moradia, e
escola de cosmographos e mareantes. Attrahiu sabios Malhorquinos,
Allemes, Italianos, Judeus, Arabes, Portuguezes. Dia e noite, aos
gemidos e marulhar das vagas e aos furores das tempestades, estudavam-se
livros e mappas, e perscrutavam-se os mysterios das estrellas. Tudo
quanto escreveram os antigos, quanto sabiam os Arabes, quanto ensinavam
os viajantes europeus, examinava-se, discutia-se, tirava-se a limpo. O
Duque de Coimbra fizera-lhe presente de exemplares manuscriptos das
viagens do Veneziano Marco Paulo, de Mandeville e de Conti, que fallavam
das opulencias e grandezas das Indias. Chamava-se assim ento todo o
continente da Asia, inclusive a China denominada Cathay, e o Japo
Cypango.

Quasi que no passava a navegao de costeira; fugia-se aos altos mares;
apenas a bussola introduzida pelos Arabes servia de instrumento nautico;
consistiam os navios em nos, de cerca de 200 ou mais toneladas, para
carregamentos de mercadorias particulares; em gals de guerra com
tombadilhos  ppa e pra, espiges de ferro na pra, vos no centro
para 40 a 50 remeiros, dous ou tres mastros para pequenas velas; em
galeotas que se armavam tambem em guerra, mais pequenas; em caravellas e
fustas, sem convez, e as maiores de cem toneladas, e ninguem ousava
praticar viagens sino com a terra sempre  vista. Os Venezianos,
Genovezes, Pizanos, e Catales iam buscar as mercancias indiaticas ao
Egypto,  Syria,  Constantinopla, ao mar Negro, onde ellas chegavam em
caravanas, provenientes pelo golpho Persico e pelo mar Vermelho;
percorriam o Mediterraneo, dobravam as costas de Portugal e Hespanha,
dirigiam-se  Frana, Inglaterra, Allemanha e at  Moscovia. Os
Normandos, Bretes e Flamengos seguiam do norte para o sul encostados
tambem e sempre  terra, e penetravam no Mediterraneo. Os Arabes
conheciam unicos a navegao do Indosto e da Africa oriental, onde
largamente traficavam, trazendo do Egypto para a Mauritania os generos
de que careciam.

 mister penetrar nestas miudezas para se comprehender a temeridade dos
Portuguezes ao coalhar os mares com navegantes e descobridores de
terras: hoje a navegao  facil, grandes os navios, movidos at pelo
vapor, machinismos e construces admiraveis, instrumentos nauticos
perfeitos, conhecidos os caminhos talhados nos oceanos, e manifestas as
posies dos astros: ento eram tudo trevas, difficuldades, perigos,
terrores.

Que fim tinham levado as ilhas da Atlantida e das Antilhas, de que
fallaram Plato e Aristoteles? As terras que os Phenicios diziam ter
conhecido, e que denominavam afortunadas? Onde estavam as ilhas das sete
cidades e de S. Barandon, que se inscreviam nas cartas geographicas da
epoca, confusa e differentemente? Por que se no chegaria ao mar
tenebroso, como se intitulava o Atlantico proximo ao equador, s
zonas torridas, que se pintavam inaccessiveis e inhabitaveis? Por que se
no dobraria a Africa, que se pensava acabar  10 gros de latitude
Norte, correndo ento para o oriente  ajuntar-se s Indias, conforme os
dizeres dos Arabes, que de Marrocos por terra chegavam at quasi o Senegal?

Todas estas questes se propunham e ventilavam-se no areopago fundado em
Sagres por D. Henrique de Vizeu. Plinio, Ptolomo, Strabo, o Veneziano
Marco Paulo, os Arabes Endrisi e Averrohes, eram os oraculos pelos seus
livros; Jaime de Malhorca e Vasseca os desenhadores mais habilitados de
cartas geographicas.

Convem aqui summariar as lendas que a respeito se espalhavam, e que,
acreditadas no s pelo vulgo, como pelos espiritos cultos e sabios da
epoca, espalhavam terrores de approximar-se ao sul da Mauritania.

Deixemos de parte as fabulas de Plato e Aristoteles quanto s ilhas da
Atlantida e Antilhas, posto que os mappas de 1400 as mencionem
ainda: como  curiosa a legenda da ilha das sete cidades, onde se
recolheram sete bispos, que calava de ouro as ruas, possuia palacios de
marmore, asylara o ultimo rei godo-hespanhol Rodrigo, e dera eterna
felicidade  Ennoch e Elias recolhidos  seu seio! Como encanta, a lenda
de que a ilha de S. Brando fra visitada por um abbade escossez
Barandon, acompanhado por So Mal, que resuscitou um gigante j
enterrado, baptisou-o e annunciou-lhe a felicidade na outra vida? Sabeis
o que resultou? O gigante, depois de quinze dias, quiz por fora morrer
e morreu de novo para alcanar a bemaventurana no Co! Certo  que esta
ilha figurava em todos os mappas dos seculos XV e XVI, nos proprios
traados ao depois por Colombo, e no globo attribuido  Behaim. Certo 
ainda que no XVII e XVIII foi mandada procurar por navios hespanhes,
por ordem do seu governo, porque arrastados por illuses opticas os
habitantes dos Aores teimavam em que era vista, bem perto delles, em
certas epocas do anno.

Resolveu-se D. Henrique a iniciar os descobrimentos, seguindo a costa
Africana, no intuito de apoderar-se della. Custou-lhe espantosamente.
Seu pai animava-o, mas no tinha dinheiro. Empregou o Principe a renda
do ducado e a do mestrado de Christo que administrava. Marinheiros,
pilotos, ninguem queria arriscar-se a ir alm do Cabo Non, porque se
espalhava que dahi em diante comeava o mar tenebroso e as tradies que
corriam aterrorisavam a todos. Com o emprego de inauditos esforos
conseguiu o Infante que Zarco e Tristo Dias, em 1418, alongando-se pelo
oceano, descobrissem as ilhas do Porto Santo e Madeira, e em 1431
Gonalo Velho as dos Aores. Nada disso o adeantava todavia. O que elle
procurava era a Africa, era o que havia alm do Cabo Non. D'ahi
fugiam-lhe os mareantes, ahi no se atreviam  ir os pilotos. Morrendo
em 1433 D. Joo I, obteve D. Henrique que o novo rei, D. Duarte,
mandasse expedio guerreira  Mauritania, tendo-o e a seu irmo D.
Fernando  frente; explore-se a Africa por terra, j que o mar est
assustando!

Infeliz empreza! Os Portuguezes foram em Tanger derrotados. D. Fernando
cahiu prisioneiro e morreu no meio de tormentos em Fez. D. Henrique
volveu para o seu promontorio de Sagres em 1437. No desanimado
perseverou nas lutas com o oceano, cujos segredos anciava descobrir.

Mais lhe firmava no espirito os propositos de percorrer a costa Africana
a ideia de encontrar o caminho para as Indias, e collocal-as em directa
communicao com Portugal. No diziam os mappas que a costa Africana
parava aos 10 gros? No o incitava a leitura de Marco Paulo na
descripo da Tartaria, Cypango e Cathay? No havia chegado ao Indosto
Alexandre com os seus Gregos,  Armenia os Romanos,  Jerusalem os
Cruzados? J que no podia ir por terra, combatendo Mouros, ou correndo
a costa septentrional da Africa, por Argel, Tunis, Tripoli e Egypto, no
era indispensavel proseguir em expedies maritimas? No estaria
reservado a Portugal e a elle o papel glorioso de iniciar e executar
emprezas que espantassem o mundo?

O povo murmurava, a nobreza zombava, era um louco na opinio de muitos,
como so sempre considerados os genios que se adiantam alm do seu
seculo. Que lhe importava! Idas firmadas em fundas convices no se
desfazem sino diante de realidades demonstradas. Obteve que Gil Eannes
chegasse ao Cabo Bojador, dobrasse-o, reconhecesse-o e voltasse a
dar-lhe a boa nova; no era ainda o fim do mundo, mas ninguem l fra,
salvo mouro ou arabe, e por terra.

Aps o Cabo Bojador, descobriu Nuno Tristo, em 1443, o Cabo Branco, e
em 1449, Cadamosto, o Cabo Verde e o Senegal, onde encontrou marfim,
ouro e hordas de pretos, que conduziu para os Algarves, comeando ento
o trafico de escravos Africanos na Europa. Dous papas mandam bullas de
concesso de todas as terras alm do Cabo Bojador, elogiando e
preconisando de heroe o Principe. Os Pontifices Romanos reputavam-se
ento autorizados para distribuirem reinos e coras.

Quantos erros geographicos se emendaram desde logo nos mappas? Quantos
prejuizos populares se desfizeram? Chegara-se no entanto ao gro 20
e no apparecia o mar tenebroso cuja fama enchia  todos de pavor.
Continuar, continuar, e o caminho das Indias ahi estava proximo e certo,
no tardaria a Africa em terminar, e dobrada que fosse se chegaria ao
reino do Preste-Joo, de quem tanto se fallava de outiva;
avistar-se-hiam as terras das perolas, dos brilhantes, dos perfumes, dos
tapetes, dos damascos, da pimenta, do cravo, das riquezas consideradas
as maiores do mundo. No se penetrara j na zona torrida, e no se
descobrira que ella era habitavel?

Falleceu, infelizmente, no correr de 1460, D. Henrique, j nos fins de
sua vida glorificado, endeosado pelos seus e admirado na Europa por
causa das noticias das terras que tinha descortinado, e que se foram
espalhando, apezar das difficuldades de communicaes internacionaes
naquella epoca.

Ao cessar a primeira metade do seculo XV tres acontecimentos
verificaram-se, no entanto, na Europa: 1. Constantinopla, a capital do
imperio grego christo, successora de Roma, cahira em poder dos
turcos, que, derrotando os Arabes, se tinham apoderado de toda a Asia
menor, e dahi passado para Europa, onde fundaram novo imperio, que 
pouco e pouco avassallou a Grecia, a Bulgaria, a Roumania, a Servia e os
estados do Danubio, e comeou a ameaar a Allemanha pela Hungria; 2.
Descobrira-se em Mayena a arte de imprimir, e os livros tenderam logo 
baratear, as luzes  derramarem-se, e a civilisao  crescer; 3.
Hespanha esforava-se por unificar-se, reunindo em um s reino Navarra,
Arago, Catalunha, Castellas, Galliza, Leo e Bascos; e Frana alcanara
emfim expellir os inglezes do seu territorio, e procurava alargar-se at
o Mediterraneo, e assenhorear-se da Borgonha e da Provena.

A esses trabalhos entregavam-se as naes europeas, emquanto que
Portugal cuidava de navegaes. Agora, mais que nunca, precisava-se de
abrir caminho para as Indias pela Africa, porque os portos da Asia
Menor, do mar Negro e de Constantinopla, submettidos e acurvados
pelos turcos de Mahomet, feixavam as communicaes, restando apenas o
Egypto que se conservara independente do jugo quer do Arabe j decahido
e escravisado, quer do Turco, que sobre todos os mussulmanos se erguera,
e apregoava-se o primeiro dos povos de crena Mahometana.

D. Affonso V de Portugal foi de novo guerrear na Mauritania, subjugou
Arzila, Alcacer e Tanger. Por sua morte D. Joo II preferiu continuar as
excurses maritimas de seu finado tio D. Henrique e approximar-se da
Asia, dobrada a costa Africana: digno successor pela grandeza identica
do pensamento, e mais poderoso porque era rei, e agora entrava a Cora
nas emprezas com fora propria e sob direco governativa.

Foi nesse tempo que chegou  Portugal Christovam Colombo, pelo anno de
1470, aventureiro audacioso, temerario, instruido em mathematicas e
cosmographia, e ancioso de tomar parte nas emprezas portuguezas, em que
j se empregavam muitos compatriotas seus, e de outras naes
europeas. Chamava Portugal e attrahia  si quantos aventureiros
arrojados desejavam navegar e descobrir terras, porque era Portugal a
unica nao que se devotava  to proficuo servio.

Abrira, portanto, Portugal as portas que escondiam os continentes,
rasgara caminhos no seio dos mares, desenvolvia e aperfeioava as
sciencias cosmographicas, geographicas, astronomicas, melhorava
instrumentos de navegao, tornara-se o precursor de todo o movimento
progressivo, que seguiu o universo durante o seculo XV.

Christovam Colombo teria ento 35 annos, e sua vida, antes desta epoca,
no est ainda hoje conhecida. Os autores que lhe escreveram a
biographia, muitos foram elles, tanto hespanhoes como italianos e de
outras naes, divergem, contradizem-se, por frma que ao certo se no
alcana a realidade.

Patenteava Christovam Colombo grandes talentos e muitos conhecimentos
mathematicos, geographicos e cosmographicos; escrevia mappas e cartas, e
tratou de empregar-se logo na marinha portugueza, casando-se com a
filha de um Perestelo, navegante habilissimo, gratificado pela Cora com
a donataria da ilha do Porto Santo. Foi com elle que aprendeu, estudou
os roteiros, recebeu lies, e delle herdou escriptos e mappas
importantes a respeito de navegaes maritimas.

Colombo relacionou-se tambem com todos os marinheiros e pilotos que
serviam em Portugal, fez com elles viagens diversas  Africa e aos
Aores, e fixara residencia ordinaria na ilha da Madeira.

Dedicado ao estudo nautico, pesquizador de todos os factos que se
passavam, engenhou logo empreza que lhe dsse renome.

Era ambiciosissimo de gloria e, pois, cuidou de desenvolver a sua
actividade, para o fim de adquiril-a.

Nessa epoca era abraada por muitos sabios e cosmographos a ideia de que
o mundo terrestre formava uma esfera ou globo.

Copernico, j como que tambem adivinhara, que, em torno do sol fixo, 
que gyravam a terra e os demais planetas.

Para que esta theoria fosse, porm, admittida precisava-se ainda que no
seculo XVI os trabalhos de Galileu a demonstrassem cabalmente.

Prevalecia no seculo XV unicamente, e para os sabios s, o principio da
redondeza do globo, formado de terra e aguas, e coberto por uma
atmosphera, onde dominava a lei da gravitao, que arrastava ao centro
todo e qualquer peso.

Christovam Colombo convenceu-se desta theoria, que com o andar dos
tempos cada vez se lhe arraigou mais no espirito.

Com a leitura dos livros ento existentes e dos mappas, bem que confusos
e repletos de muitas falsidades e inexactides, percebeu que se podia ir
s Indias directamente, seguindo da Europa para Oeste, e que este
caminho era mais certo, curto e commodo que o de dobrar o Cabo das
Tormentas, baptisado com o nome de Boa Esperana, por D. Joo II, na
ponta sul da Africa.

No tinha Marco Paulo collocado o Cathay ou China na costa, e bem assim
as ilhas de Cypango ou Japo, de que fallara um seculo antes? No
ficavam assim esses paizes fronteiros  Europa e  Africa Occidental?

As cartas e mappas de ento apresentavam a Asia como mais extensa para o
lado da Europa, e o globo menor do que  na realidade.

Os arabes, entendidos mestres de geographia e astronomia, adoptavam
estas theorias erradas. Ellas, todavia, mais animavam, excitavam e
firmavam a ida de Colombo, que calculava no exceder a distancia do
Atlantico de duas a tres mil milhas maritimas; tendo, alm disto, ouvido
em suas viagens aos Aores,  Madeira e s Costas Africanas, contarem
marinheiros e pilotos, que as vezes se encontravam madeiras e arvores
lavradas, que na Europa no existiam; e que nos Aores haviam apparecido
naufragados, cadaveres de dous homens de organisao physica diversa da
Europa, cada vez mais robustecia-se seu intento de procurar as Indias,
atravessando o Atlantico e seguindo para o Occidente.

No era Colombo como navegante superior a alguns pilotos que desde D.
Henrique trilhavam arrojadamente os mares e commettiam grandes e
faanhosas emprezas; no sobrepujava a um Gil Eannes e nem a um
Bartholomeu Dias, quer na intrepidez, e quer na firmeza e tenacidade de
animo.

Como sbio, no excedia tambem nem a Jayme de Malhorca, nem a Behaim,
geographos eminentes da epoca e empregados em Portugal, e menos ainda ao
Infante D. Henrique, cujos conhecimentos mathematicos conseguiram-lhe
justa nomeada no mundo, e proporcionaram-lhe a felicidade de executar e
fazer executar sublimes emprehendimentos.

Atirava-se, porm, Colombo  emprezas com uma certa allucinao,
proveniente de profundissima convico.

Imaginava-as por si espontaneamente e fazia-se seu proprio executor. 
nisto que fundava a superioridade sobre seus contemporaneos.

Propoz-se ento Colombo a D. Joo II para emprehender uma viagem
directamente s Indias sem que torneasse a Africa. Para que pensar em
dobrar o Cabo da Boa Esperana? No estavam alli defronte de
Portugal as Indias com a China e o Japo? Mais depressa e menos
perigosamente se no chegaria l?

Convocou D. Joo II a conselho seus mais reputados sabios. Entre elles
figuravam dous judeus, mestre Jos e mestre Rodrigo, famosos
cosmographos. Opinou o conselho que mais annos menos annos se dobraria a
Africa, e se navegaria seguro para as Indias, e que assim continuasse
El-Rei nos seus planos anteriores; que si no era sonho de Colombo a
viagem directa ao Oeste, por desconhecida se no devia tentar, parecendo
fructo da imaginao mais que da sciencia humana.

Indeferiu D. Joo II, portanto, a proposta de Colombo, que queria navios
tripolados e garantias de honras e lucros para o caso de sahir-se bem da
empreza.

Desesperado e j ento viuvo porque lhe fallecera a mulher portugueza,
abandonou Colombo a terra,  que servia. No correr do anno de 1485 ou j
era 1486 seguiu viagem para Genova.




SEGUNDA CONFERENCIA

31 de maio de 1891


Suspendemos a primeira conferencia effectuada  respeito de Christovam
Colombo e do descobrimento da America, ao referir o despeito que
assaltara  aquelle famoso navegante quando soube que fra recusado por
D. Joo II seu projecto de viagem directa s Indias pelo Atlantico,
seguindo rumo de Oeste.

Disse-vos j que partira de Portugal e dirigira-se para Genova.
Amargurava-se porque desde o principio do seculo era Portugal a unica
nao da Europa, que se entregava  empreza audaz de descobrimentos de
terras novas e desconhecidas; e pois lhe parecia difficil encontrar,
outra que ousasse devassar e curvar os mares e arrancar de seu seio
continentes ignorados.

No era alli que se apuravam ento os conhecimentos geographicos, que se
desfaziam tradies e legendas pavorosas do mar tormentoso da Africa, em
que a edade mdia acreditava; que mostrara enfim que era fabula a
existencia de monstros marinhos recontados por Endrisi,--de estrellas
luzentes, por Rogerio Bacon,--do cahos impenetravel nas proximidades da
linha segundo Albi,--de basiliscos descriptos por Averrhoes,--de
gigantes, seras com rabos, pigmos com olhos nos hombros e de mil
outras fices extravagantes, devidas  imaginao dos Arabes, que assim
pintando o Atlantico affastavam os espiritos de ousadias de affrontal-o?

Chegado a Genova, convencido sempre Colombo da exequibilidade de seus
planos maritimos, tratou de obter do governo da republica meios para
executal-os, e navios para emprehender a viagem projectada em seu
espirito, affianando ao estado grandiosas vantagens e glorias
immarcessiveis. Decorria ento o anno de 1486, e portanto quando j
bastantes progressos e adiantamentos haviam os portuguezes conseguido,
quer na arte de navegar, quer no emprego  bordo do astrolabio e do
quadrante, que, no reinado de D. Joo II, juntos  agulha, unica
empregada no tempo de D. Henrique de Vizeu, facilitavam agora as
emprezas de atirar-se aos mares, abandonar as costas terrestres,
podendo-se j, em grandes distancias, reconhecer e tomar as alturas e
ficar-se certo da posio maritima.

Com razo escolhia Colombo a Genova por ser sua patria, no intuito de
dar-lhe as honras do descobrimento das Indias, que convinha effectuar-se
quanto antes pois que os portuguezes proseguiam na sua rota, e com suas
diligencias mais tarde ou cedo encontrariam o Indosto e as Indias
proximas ao Mar Vermelho e ao golfo Persico.

Genova, porm, estava decadente, bem como Veneza, e todas as demais
republicas maritimas da Italia, que tanto poderio e commercio haviam
exercido na edade mdia, aproveitando-se da fraqueza do imperio grego de
Constantinopla. Trancavam-lhes agora as relaes mercantis os Turcos,
senhores do mar Negro, do Bosphoro, e da Syria. Genova no se achava
habilitada, portanto, para assentir-lhe s propostas.

Dissemos que Genova era sua patria. Foi elle sempre em sua vida
considerado Genovez quer em Portugal quer depois em Hespanha. Todos os
escriptores coevos o affirmavam. Depois de morto, porm, como adquirira
e legara um nome glorioso e immortal, diversos povos, em escriptos a
respeito, tentaram chamal-o seu compatriota: at o Diccionario Larousse
o faz nascer na Saboia! Para esclarecer a questo de um modo terminante,
e provar-se claramente que em Genova e dentro da cidade nascera, e de
familia pobre alli residente, publicou-se em Hespanha, no seculo actual,
seu testamento datado de 1498, e bem assim os processos que contra a
cora hespanhola e contra seus herdeiros hespanhoes haviam promovido
varios fidalgos e familias italianas, que pretendiam ser
reconhecidos seus parentes e herdeiros em falta de linha directa;
publicaram-se egualmente em Genova, nos nossos dias, umas linhas
escriptas por Colombo, no anno de 1506, dias antes de fallecer, na
pagina branca de um breviario, que existe ainda na bibliotheca Corsini
de Roma.

Duas vezes no testamento falla Colombo de sua patria Genova, em uma
verba legando uma penso  qualquer membro de sua familia alli
residente, casado e pobre; e exigindo expressamente em outra verba que
seus descendentes amassem e venerassem a cidade de Genova, porque em
Genova elle nascera e de l sahira.

Na nota do breviario citado depara-se egual declarao por elle firmada.

Dos processos, que mencionamos, resulta tambem a prova de que no
pertenciam  sua familia os Colombos de Escaro e nem outros de Piemonte
que reclamavam os titulos com que elle fra agraciado pelo governo
hespanhol, e que para conseguirem seus fins allegavam falsamente que
elle nascera, uns em Escaro, e outros em Savona.

Por que mostraria Colombo tamanho amor  Genova, si no fosse alli
nascido? Tanto interesse pela republica, onde apenas passara os
primeiros annos da mocidade, e que, como Portugal, lhe recusara os meios
de ganhar a gloria? No pulsava-lhe o corao com os impetos do
patriotismo?

J vos declarei que se ignoram os feitos de sua vida at  edade de 35
annos, quando  Portugal chegara e l se estabelecera. Uns escriptores
fallam de suas navegaes  bordo de navios, sob as ordens do Duque de
Anjou, que pretendia apoderar-se de Napoles; outros referem combates
maritimos em que elle entrou contra armadas Venezianas; minuciam os
francezes o nome de um Colombo que servira em suas nos de guerra.

Nada, porm, se demonstra com esses ditos. No podiam haver outros
Colombos? No enganaria o nome ou o appellido?

O que se sabe de certo no tocante  vida de Colombo comea s da chegada
delle  Lisboa, em 1470. Nem mesmo se pde fixar a data do seu
nascimento, por ausencia completa de elementos comprobatorios.

No esmoreceu Colombo com o indeferimento de Genova; continuou cada vez
a convencer-se mais da exequibilidade de seus planos, com as
correspondencias que ento estreitou com um eruditissimo geographo de
Florena, chamado Toscanelli. As cartas de Toscanelli animavam-no
resolutamente  no recuar delles. Enviava-lhe, para fortalecer seus
designios, livros, escriptos, esclarecimentos e mappas, dos quaes
resultava a ida de que a Asia estava fronteira  Europa; os mares que
as separavam, no comprehendiam distancia maior de duas  tres mil
leguas, e continham em seu seio as ilhas de Cypango ou Japo, e banhavam
a costa da China, que Marco Paulo visitara, e estudara, seguindo por
terra pela Armenia e Persia; declarava-lhe ainda Toscanelli que o
Indosto no era to opulento e rico como o Cathay e Cypango, e o
Indosto  que deviam os portuguezes encontrar, logo que dobrassem o
Cabo ultimo da Africa, e seguissem rumo do Oriente.

Dizem sem o menor fundamento alguns escriptores que Colombo se
offerecera tambem  Veneza e  Inglaterra: nada consta dos arquivos de
Veneza que o comprove, e, de certo, alli se encontraria qualquer indicio
ou documento, porque guardavam-se preciosamente quantos esclarecimentos
obtinha a republica sobre factos ainda de muito menor importancia. No
tocante  Inglaterra, escriptores referem que Colombo mandara para l
seu irmo Bartholomeu propr-lhe o projecto.

Bartholomeu estava ento empregado no servio de Portugal e acompanhara
a Bartholomeu Dias na viagem e descobrimento do Cabo da Boa-Esperana:
do servio portuguez sahira para o de Hespanha, quando chamado pelo
irmo, no anno de 1493. Nem um documento apparece que mostre sequer
apparencia de presumpo a semelhante asserto. No derivaria esta
opinio do dito dirigido por Colombo aos reis de Hespanha, quando pela
primeira vez lhe indeferiram a pretenso, de que procuraria auxilio
de Inglaterra ou Frana? Mas que se no verificou, porque conseguira
afinal que se aceitassem seus servios?

Como quer que seja, o que est provado  que, dissuadido Colombo de
servir  Genova, partira para a Andaluzia, no dizer de uma testemunha
que depuzera em processo, a procurar em Huelva um parente mareante que
alli se retirara e com elle entender-se  respeito de seus projectos;
que, passando pelo convento franciscano da Rabida, situado quasi 
margem do rio Tinto, pedira e alcanara agazalho dos monges; que,
conversando com o prior, Juan Perez, captou-lhe as boas graas pela
sciencia que patenteara, versado como tambem era Juan Perez em estudos
cosmographicos.

Resultou da residencia de Colombo no convento da Rabida, que se lhe
affeioou Perez, e este, que entretinha boas relaes com o confessor da
rainha Isabel de Castella, D. Fernando Talavera, animara Colombo a
partir com cartas suas de recommendao, em que affirmava que seria
gloria para Hespanha coadjuval-o na empreza do descobrimento das
Indias, para que Portugal no monopolisasse a navegao e os louros de
proveitosas conquistas ultramarinas.

Partiu Colombo do convento da Rabida para Cordova, onde se achava ento
a rainha, D. Isabel de Castella, occupada em aprestar meios de guerrear
os Arabes e Mouros de Granada.

Para bem se comprehender a somma enorme de trabalhos e paciencia que
Colombo empregou, mister  examinar a situao de Hespanha naquelle
momento.

Isabel herdara a Cora de Castella, que comprehendia em Hespanha as Duas
Castellas, Leo, Galliza, Asturias, a Extremadura, as provincias
Vascongadas, e a parte occidental da Andaluzia, que se divide de
Portugal pelo rio Guadiana, e a oriental que segue para Murcia e
Valencia. Fernando herdara o Arago, Catalunha e Napoles, e  fora de
armas apoderara-se, depois, da Navarra. Tantos principados, portanto, em
que se dispersara outr'ora a Hespanha christ, formavam agora unidos
tres reinos christos smente: Portugal, o Arago e Castella. Ao lado e
no meio delles conservava-se independente, todavia, o reino Arabe de
Granada, que possuia a melhor parte da Andaluzia com excellentes cidades
e portos maritimos sobre o Mediterraneo, pelos quaes se communicava com
os Mouros da Africa septentrional.

Tinham-se casado Fernando e Isabel, bem que continuassem a governar cada
um separadamente seus reinos e dominios. Fernando era guerreiro,
astucioso e desleal, repleto sobretudo de ambies; Isabel possuia um
excellente corao, qualidades viris, talentos selectos: posto que todos
os actos do governo contivessem os nomes dos dous monarcas e elles
combinassem quasi sempre em vistas politicas, a administrao gyrava
independente tanto em Castella como no Arago.

Zelo religioso e fanatismo exaltado animavam a ambos os soberanos.
Anciavam estabelecer a unidade da f e da Egreja catholica em todos os
seus dominios: no admittiam divergencias religiosas, e quantos no
fossem orthodoxos deviam ou receber o baptismo ou ser expellidos do
slo.

Accrdes neste pensamento, deportaram para fra de Castella e Arago a
todos os judeus em numero de mais de trezentos mil, os quaes at ento
alli viviam  sombra de tolerancia governamental, exerciam officios
proveitosos, praticavam a medicina e cirurgia, mostravam-se distinctos
em varios ramos das sciencias, e das industrias. Perdera muito a
Hespanha com esta barbara e atroz expulso de uma raa de homens, que
muito concorriam para sua felicidade e engrandecimento. Logo, aps, no
desejo sempre de extirpar toda a heresia implantaram em Hespanha a
instituio do Santo Officio da Inquisio, reformada sobre a que o Papa
Innocencio III fundara para exterminar os Albigenses, que se tinham
separado da obediencia devida  Roma. Deram a esse hediondo tribunal
faculdades civis de processar, prender, empregar torturas, condemnar,
queimar em fogueiras todos quantos no obedecessem escrupulosamente aos
mandamentos ecclesiasticos, e no prestassem inteira crena a seus
dogmas; ou faltassem aos deveres mesmo exteriores que a Egreja
impunha e recommendava. Pretenderam, incitados por seus prejuizos
religiosos, que D. Joo II de Portugal lhes imitasse o exemplo. Este
grande rei, porm, no admittiu a inquisio, e no tocante aos judeus,
at acolheu em Portugal benignamente os que Hespanha expellira, e que
imploraram sua proteco. Durante seu governo ella lhes foi
constantemente dispensada.

Executadas estas medidas, cuidaram os dous reis hespanhes de repellir
tambem do solo a raa Arabe e Moura que ainda l viviam, e pois
apromptavam-se em Cordova para uma guerra de exterminio contra Granada,
no intuito de se apoderarem do unico estado Mahometano que ainda durava,
e de empurrarem para a Africa os proselytos do Koro.

Achavam-se, pois, em Cordova, organizando os exercitos que deviam
guerrear os Mouros de Granada, quando ahi chegou Colombo.

O confessor da rainha, D. Fernando Talavera, tomou a Colombo por um
visionario, e qui por um aventureiro, e no fez caso das
recommendaes do prior Joo Perez. Pobre e desconhecido, cuidou,
ento, Colombo de esperar do tempo melhor exito  suas pretenses, e
para viver dedicou-se a desenhar e traar mappas geographicos que pela
curiosidade eram j ento muito procurados. Conseguiu, aps bastantes
mezes, introduzir-se nas sociedades do nuncio do Papa, e do
intendente-mr das finanas de Castella, aos quaes agradou com sua
instruco scientifica e seu enthusiasmo religioso.

Decorridos alguns mezes, conseguiram os dous personagens apresental-o ao
arcebispo de Toledo, e este  Isabel e  Fernando. A rainha ao ouvil-o
impressionou-se favoravelmente, Fernando, porm, oppoz logo duvidas.
Deliberaram sujeitar, todavia, seus projectos a uma junta ou concilio de
geographos doutos e de professores da universidade de Salamanca, afim de
prestarem consulta. Ordenaram que D. Fernando de Talavera installasse um
concilio em Salamanca,  elle Colombo expuzesse seus planos, e o
concilio formulasse opinio  respeito.

Passaram-se ainda alguns mezes antes que em Salamanca se reunisse o
concilio, composto de bispos, principaes titulares da Egreja, frades
eruditos e lentes da universidade. Foi o local escolhido para funccionar
o concilio o convento de Santo Estevam. Isabel fixou desde logo 
Colombo uma pequena penso pecuniaria no proposito de auxilial-o.

Nada ha de mais curioso que as actas das sesses do concilio de
Salamanca. Ento, e em Hespanha particularmente, a religio estava
ligada  sciencia.  sombra daquella  que esta caminhava. A religio
dominava pelas consciencias, pelo fanatismo e pelas supersties e
prejuizos da epoca. Os bispos e sacerdotes, ao mesmo tempo que
representantes da Egreja, eram guerreiros, empunhavam armas, cobriam-se
de capacetes para as guerras contra os Mouros, acompanhavam os reis, e
tomavam parte nos combates. Nos ecclesiasticos estava alm disso
concentrada toda a instruco, toda a sciencia: dahi a importancia que
adquiriram e que lhes abria as portas de todos os altos empregos da
politica, da administrao, do ensino nas universidades, e da direco
dos estudos. No encontravam rivaes para os cargos publicos sino em
poucos fidalgos da denominada grandeza hespanhola. Na administrao
publica predominava quasi exclusivamente o clero pelo numero e pelo
saber, e era ouvido em todos os assumptos, e at nos de guerra.

Installou-se a veneravel assembla. Foi introduzido Colombo e comeou 
expr suas idas e  fundamentar seus projectos. Muitos adormeceram, no
as comprehendendo; outros o consideravam com preveno, pensando que era
elle um visionario, um allucinado, um impostor aventureiro. Os mais
eruditos tomaram-no at por herege em doutrinas religiosas. No lhe
faltaram immediatamente contestaes e contrariedades, e ellas eram
extrahidas quasi sempre dos livros sagrados, das noes canonicas, dos
axiomas theologicos, das crenas inherentes ao culto e  consciencia!

Colombo fundava sua theoria na redondeza do globo, que tinha a frma
espherica, e que, dividido em terras e aguas de mares e rios, e
circumdado pela atmosphera celeste, sustentava e cumpria a lei physica
da gravitao attrahindo ao centro o menor peso. Esta theoria, que j
haviam apregoado philosophos Gregos e Romanos, e afamados geographos e
astronomos Arabes, no era em toda a Europa adoptada porque a edade
mdia influenciava-se com as interpretaes e lettra da Biblia, e com as
doutrinas apregoadas pelos padres doutos da egreja catholica.

No era nem orthodoxa e nem possivel essa theoria--clamavam os sabios do
concilio de Salamanca.--A Biblia, que  o primeiro dos livros sagrados,
a contradizia. No se lia nos psalmos que os cos estendiam-se por sobre
a terra como uma pelle ou tenda? No affirmava S. Paulo que formavam um
tabernaculo? No estavam accordes neste ponto todos os commentadores e
theologos como S. Basilio, S. Jeronymo, Santo Athanasio, Santo Ambrosio,
S. Gregorio e Santo Agostinho? No podia a terra ser sino rasa, coberta
pela atmosphera ou cos. Admittida a theoria de que era redonda,
dahi resultava logo a da existencia de antipodas que lhes parecia
extravagante. A theoria de Colombo no passava de erros, em que viveram
alguns intitulados philosophos da antiguidade Grega e Romana, erros
demonstrados pela religio christ, que representava toda a verdadeira
sciencia.

Citavam em seu apoio os seguintes trexos das obras de Santo Agostinho:

--A doutrina de antipodas--dizia o lumiar da Egreja-- incompativel com
os fundamentos historicos da nossa f. Dizer que ha terras habitadas da
outra parte do globo, equivale a dizer que ha naes que no descendem
de Ado, pois  impossivel que passassem o oceano intermediario.
Equivale a negar a Biblia, que declara expressamente que todos os homens
derivam de um s pai.

Referiam ainda a passagem extrahida dos escriptos do grande theologo
Lactancio, que assim se exprimia:

--Ha absurdo maior que acreditar que existem antipodas tendo os ps em
opposio aos nossos? Pessoas que andam com os taces para o ar e a
cabea para baixo? Que haja logares no mundo, em que tudo  s avessas,
as arvores estendem para baixo seus ramos, e chove e neva de baixo para
cima? A ideia da redondeza da terra deu nascimento  fabula dos
antipodas, com os ps para o ar. Cahidos os philosophos pagos nessa
crena extravagante, de absurdos passam a absurdos, e para defender uns,
inventam outros.

Nada ha que estranhar nessas ideias. As sciencias dos antigos Gregos e
Romanos haviam sido esquecidas com o desmoronamento do imperio de Roma,
com a invaso e victorias dos barbaros do seculo IV em diante, que
avassallaram toda a Europa Occidental e cobriram o mundo de trevas. O
Christianismo foi semeando nova luz sobre esse cahos formado pelos
Godos, Francos, Slavos, Germanicos, Hunos e Lombardos. Mas o
Christianismo ia esclarecendo o mundo sob a influencia de supersties,
prejuizos e fanatismos. A sciencia desenvolvia-se quasi exclusivamente
na egreja e nos claustros e impressionava-se, portanto, de espirito
devoto e fanatico. Nessa atmosphera  que progrediu, e dahi a ignorancia
de muitas verdades que a antiguidade pag propagara pelos Aristoteles,
Plates, Plinios e mais escriptores, que os Gregos do imperio de
Constantinopla, christos separados, conservavam, e que eram egualmente
adoptadas pelos Arabes que em seu tempo foram os mais instruidos dos povos.

Com os descobrimentos, com os estudos cosmographicos, com os progressos
da astronomia e da nautica, que Portugal conseguira, que o principe D.
Henrique de Vizeu favoneara, era corrente entre os eruditos Portuguezes
a theoria da redondeza da terra. Alguns Allemes e Italianos que tinham
travado relaes com os pilotos portuguezes, ou que se applicaram a
estudos serios nos seus gabinetes, admittiam-na tambem, e alguns globos
que j se fabricavam, bem que informes e errados, apresentavam a terra
sob a frma espherica. Hespanha porm nunca se aventurara 
descobrimentos de terras, nunca se entregara  estudos geographicos;
combatera sempre e constantemente em terra, mostrando-se heroica nao,
na gloriosa luta contra os Arabes e Mouros que se haviam assenhoreado do
seu solo, e o dominaram sete  oito seculos, at que foram de todo
repulsados da peninsula Iberica. A marinha que at ento Hespanha
contava era essencialmente costeira.

Fernando de Arago conseguira formar, todavia, na Catalunha, pequenas
esquadras com que vigiava suas costas contra Mouros, continha o estado
subjugado de Napoles, e encommodava os Bereberes das costas visinhas da
Africa.

No , pois, para espantar-nos a relutancia dos sabios hespanhes contra
a doutrina da redondeza da terra.

No se contentaram os membros do concilio de Salamanca, apoiados nas
doutrinas da Egreja Catholica e nos livros dos Prophetas e dos santos
padres do Christianismo, rebatendo a possibilidade de ser a terra redonda.

A redondeza da terra admittida,--perguntavam elles a Colombo,--como
depois de descer de um lado podia-se subir voltando por esse ou pelo
outro lado? Nem mesmo os mais propicios ventos conseguiriam prestar
foras para se caminhar para cima. No era sabido que havia zonas
torridas inhabitaveis e que s a temperada, que era a septentrional,
estava adaptada  moradia dos homens? Dentro da zona torrida no existia
o cahos? Quem l fosse poderia voltar? Admittida a hypothese da
possibilidade, quantos annos seriam precisos para atravessar os mares, e
como levar mantimentos e agua para sustentarem-se os aventureiros?

A todas estas argucias, erros e prejuizos, derivados da ignorancia e do
pedantismo, respondia Colombo com calma e sabedoria, protestando sempre
que era conscienciosamente catholico, e pela religio christ estava
disposto a morrer. Muitos dias duraram as sesses, e as actas
transcrevem todos os seus incidentes e debates, at que o concilio as
suspendeu, protestando cansao.

No entanto continuavam os reis hispanicos a combater o reino de Granada,
atacando-o por varios pontos e lados, e a pouco e pouco
conquistando-lhe territorios, castellos, praas e cidades, que
incorporavam logo em seus Estados.

Voltou Colombo para Cordova, e esperou a deciso dos monarcas.
Acompanhava-os  guerra, coadjuvava-os com seu brao e com seu valor;
esforava-se em ser-lhes util para lhes ser agradavel; e no perdia
occasio de patentear  rainha seus enthusiasmos religiosos e seus
sentimentos catholicos, no intuito de assim affeioar-lhe a sympathia e
ganhar-lhe a proteco.

Depois de mais de um anno decorrido teve Colombo resposta de que, em
presena da opinio e consulta do concilio de Salamanca, no se
acceitavam seus projectos.

Acabrunhado deixou a Crte, e seguiu caminho do convento da Rabida, onde
de novo recebeu benigno acolhimento do prior Juan Perez.

Sentiu-se o prior offendido, e tratou de chamar amigos para ouvirem a
Colombo e combinarem em qualquer alvitre: um medico illustrado e um
navegante rico de Palos, Martim Pinzon, chefe de importante e numerosa
familia, formaram com elle e Colombo a sociedade em que se
discutiram os projectos e theorias do geographo.

Pinzon que era instruido, e o medico intelligente, convenceram-se, tanto
como o prior, de que o plano de Colombo era exequivel, e daria grandes
proveitos, riquezas e gloria  Hespanha. Resolveram que se tentassem
ainda esforos com os reis de Hespanha para acudirem ao pedido de
Colombo. Partiu um emissario com cartas para varios personagens
eminentes, rogando-lhes a interveno.

Bem succedidas foram as endereadas ao Duque de Medina Celi e ao
arcebispo de Toledo: conseguiram estes personagens importantes que
Isabel mandasse de novo chamar Colombo  sua Crte.

Partiu Colombo ao encontro dos monarcas que estavam em Santa F, cidade
improvisada na Veiga de Granada, junto  capital dos Abencerrages, e
destinada  combatel-a, apertando-a em cerco. Corria o anno de 1491.

A guerra absorvia os cuidados de Isabel: era ella a protectora de
Colombo, porque Fernando considerava sua ida de utopia: a guerra
foi ainda causa de que nada por emquanto se decidisse. Por fim cahiu
Granada em poder de Castella: assistiu Colombo  scena da entrega das
chaves do Alhambra e da cidade, da expulso e desterro para a Africa dos
reis Mouros e de quantos subditos seus se no prestaram a ser baptisados
christos. Presenciou tambem a entrada de Fernando e Isabel dentro dos
muros da famosa capital que teve de derribar os crescentes Mahometanos
das mesquitas e edificios, e erguer em seu logar a Cruz de Christo
victoriosa e ufana.

Nada de deciso todavia  respeito dos projectos de Colombo, e j se
entrava no anno de 1492. Desanimado com tantas demoras resolveu elle
partir, e inesperadamente, de Granada, decidido a procurar outros
governos, que lhe comprehendessem as ideias e as coadjuvassem.

Fallava em Frana e em Inglaterra, como apoios que lhe restavam, e d'ahi
provm sem duvida a assero de que elle se offerecera  Inglaterra para
conseguir seus designios.

Bem no havia deixado a crte quando o Duque de Medina Celi e a Marqueza
de Moya obtiveram que Isabel o ouvisse de novo. No estava a Rainha
vencedora de inimigos Mouros? No estava delles liberta toda a Hespanha?
No havia o Papa applaudido a sua empreza e concedido aos monarcas
hespanhoes o titulo de reis catholicos? Augmentasse ella seus louros
gloriosos, tentando emprezas maritimas, aproveitando os talentos de
Colombo, engrandecendo a Hespanha com conquistas ultramarinas, e abrindo
 Europa o caminho das Indias.

Mandou-se procurar Colombo, que partira no proposito de abandonar a
Hespanha. Regressou Colombo para Santa-F, e ordenou a Rainha se
lavrasse contracto na conformidade do seu pedido.

 singular o contracto: tem data de 17 de abril de 1492, escripto e
assignado em Santa-F. Declarando Fernando que no concorria para elle,
Isabel tomou todas as despezas  sua conta e conta exclusiva de
Castella, sem que o Arago participasse.

Dizia no 1.  que Colombo teria para si durante sua vida o cargo de
almirante nas terras que descobrisse e conquistasse; 2. que seria
vice-rei e governador, podendo designar tres pessoas  Rainha para ella
escolher o que interinamente o substituisse; 3. que poderia entrar com
um oitavo das despezas do armamento e navios; neste caso lhe caberia
mais um oitavo dos beneficios; 4. que Colombo e seus herdeiros teriam
direito a um decimo de todas as pedras preciosas, metaes, perolas,
prata, ouro, especiarias e mercadorias; 5. que  Cora de Castella
pertenceriam exclusivamente os dominios das terras achadas e
conquistadas e suas respectivas rendas e beneficios; 6. que Colombo e
seus descendentes, logo que houvessem conseguido descobrimentos de
terras, poderiam usar do titulo e honras de Dom, o que em Hespanha
significava ento fidalguia da primeira plana.

Logo que celebrou-se o contracto, a piedosa Rainha ordenou que se
entregassem  Colombo duas caravellas armadas e tripoladas
convenientemente, confiando-lhe sua absoluta direco, e pagando a Cora
os soldos e vencimentos dos officiaes, pilotos, empregados e marinhagem.
Partiu Colombo radioso para Palos, porto designado para seu embarque, e
levou comsigo as ordens rgias necessarias afim de que as cumprissem as
autoridades, alcaides, corregedores, e empregados civis e militares.

Ganhara emfim o premio de cinco annos de trabalhos, desesperos, mofas,
zombarias, com a paciencia, a resignao, o talento e a pertinacia nos
designios, que lhe assoberbavam o animo.

Era Palos um pequeno porto  margem do rio Tinto, quasi em sua junco
com o rio Odiel; apenas reunidos ambos lanam-se no mar, ao occidente de
Cadix e quasi nas proximidades da Andaluzia com a provincia portugueza
do Algarve. Porto naquella epoca frequentado por mercantes, e abastado
de navios e marinheiros, que se entregavam ao commercio e  navegao
costeira do Mediterraneo. Hoje acha-se inteiramente decahido e
despovoado, porque os moradores transferiram-se para o de Muguer,
mais acima no rio e mais apropriado s necessidades da povoao e s
exigencias da vida maritima. Palos ficava perto do convento da Rabida, e
era a patria dos Pinzons, familia poderosa, que alli residia.

Pensaes acaso que custou caro  Cora de Castella o favor feito 
Colombo? Nem um sacrificio, nem o das duas caravellas. Teve apenas que
pagar soldadas aos marinheiros e empregados. Havia o povo de Palos
commettido, no anno anterior, um motim, um alvoroto contra as
autoridades. Foi pela Rainha Isabel condemnado a dar as duas caravellas
e toda a tripolao, commutada nisto a pena maior a que estava sujeito.

Comprehendereis agora, minhas senhoras e senhores, quantas difficuldades
e talvez perigos ameaavam ainda  Colombo e  sua empreza! Enfureceu-se
a povoao de Palos ao ler o Alcaide, com todas as formalidades da lei,
e no adro da egreja, a ordem rgia, a sentena comminatoria e decisiva
da Cora. Quasi que houve segundo motim. Foi preciso que o prior Joo
Perez viesse acalmal-o com conselhos e exhortaes religiosas; que
chegasse fora armada de Sevilha com corregedores  frente; que Martim
Pinzon empregasse toda a sua influencia, propondo-se  dar uma terceira
caravella de sociedade com Colombo afim de perfazer-se oitava parte das
despezas da empreza, compromettendo-se tambem a acompanhal-o com seu
irmo Vicente na navegao projectada, e provando assim que ninguem se
devia temer e assustar diante da viagem projectada.

No empregassem as autoridades o arbitrio e a fora, violentando os
povos de Palos, que nada ainda se conseguiria. Uma caravella, a maior,
que Colombo denominou _Santa Maria_, de pouco mais de 100 toneladas de
carga, de convez corrido, castellos na ppa e na pra, dous mastros com
velas redondas e latinas, foi arrancada  fora a seus donos; a outra,
de 80 toneladas, chamada a _Pinta_, custou rateio aos moradores,
lanando-se-lhes uma derrama segundo suas posses, e executando-se a pena
incontinente sem aggravo nem appellao. Pinzon prestou uma menor,
que recebeu o titulo de _Nina_. Estas duas ultimas no tinham
convez, eram abertas no centro, com accommodaes na ppa e pra para os
mareantes.

Imaginae que embarcaes eram! Superiores lhes so de certo as actuaes
sumacas costeiras, os pequenos brigues e escunas de cabotagem de nossos
mares interiores e de nossos rios. No  que faltassem ento navios
maiores, mas Colombo preferiu os pequenos, afim de poder approximar-se
das costas, que exigiriam talvez menor calado de quilha.

Complicaram-se ainda as difficuldades para o calafeto, apparelhos e
viveres, e para o recrutamento forado da marinhagem. Fugiam todos, e
foi necessaria uma verdadeira caada de homens, que se prenderam, e
presos trabalhavam diante de tropas que os vigiavam, empregando castigos
rigorosos nos recalcitrantes.

A povoao lamentava-se, estremecia, chorava, porque acreditava a viagem
uma loucura perigosa para fins desconhecidos, uma perda total dos
navios e morte certa dos mareantes, entre os quaes se incluiam numerosos
parentes e amigos, obrigados  acompanhar Colombo.

Completou-se por fim a tarefa. Colombo confessou-se com o prior, os
empregados e marinheiros com padres particulares. Colombo embarcou-se na
_Santa Maria_, e dous dos Pinzons tomaram o commando das duas caravellas
mais pequenas, levando todas cerca de 140 homens de tripolao.
Soltaram-se as velas no dia 3 de agosto de 1492, e levantadas as
ancoras, foram as embarcaes descendo vagarosamente o rio e penetrando
no mar que proximo e bem perto ahi roncava, emquanto que lagrimas e
maldies dos povos de Palos continuavam a mal agourar a viagem.




TERCEIRA CONFERENCIA

14 de junho de 1891


Commandando finalmente tres miseraveis caravellas, affronta Colombo
ousadamente as vagas do mar Atlantico em procura das Indias, dessas
maravilhosas Indias que elle s conhecia pelos livros errados e mappas
defeituosos, que a apresentavam e collocavam defronte da Europa e da
Africa, terminadas nas costas do Cathay ou China, e nas ilhas do Cypango
ou Japo. Na sua convico, na sua crena profunda, na sua f, as Indias
no estavam muito longe de Marrocos e de Portugal, separava-se apenas o
Oceano Atlantico, e a ellas se podia chegar directamente pelo rumo de
oeste.

Velas ao largo, ventos mais ou menos favoraveis, mais ou menos
ligeiramente agitadas navegavam as caravellas, engolfando-se no oceano,
rumando ao principio ao SO.  procurar as Canarias, situadas  cerca de
27 gros de latitude, e que lhes deviam servir de ponto intermediario da
viagem. No lhe ensinavam o caminho os mappas geographicos, os
esclarecimentos do seu amigo Toscanelli de Florena, e bem assim o globo
ultimamente publicado e attribuido ao mestre Behaim, de Nuremberg, que
elle conhecera quando em servio de Portugal?

No figuravam todos esses documentos o Japo ou Cypango na mesma
latitude, pouco mais ou menos, das Canarias, e, na mesma longitude,
pouco mais ou menos, em que depois foi encontrada a Florida?

Ao largar do porto de Palos, abriu Colombo um livro em branco, e
denominou-o jornal de sua viagem. Dedicou-o aos reis da Hespanha.
Conserva-se ainda nos archivos da Cora este precioso documento, e foi
publicado no seculo presente, pelo celebrisado geographo Navarrete
em sua interessante colleco de viagens. Escrevia nelle Colombo dia por
dia e minuciosamente os successos da sua derrota, desde o momento de
deixar a barra denominada de Saltes. Com uma introduco pomposa, assim
comea:

--_In Nomine Domini Nostri Jesus Christi_--Encarregado pelos muito
altos, poderosos e excellentes reis da Hespanha, etc.--de descobrir os
paizes e habitantes das terras das Indias e um Principe poderoso chamado
o Gro-Kan da Tartaria, etc.--afim de convertel-os  nossa santa
Religio Catholica, Apostolica, Romana--parti de Palos a 3 de agosto de
1492, etc. Cada noite escreverei neste livro tudo quanto se passar
durante o dia.--

Devemos, pois, dar todo o credito a estas notas, e assentar sobre ellas
nossas observaes de preferencia ao que referem muitos escriptores,
que, para agradarem ao publico, inventaram episodios que se no
encontram no jornal de Colombo e nem se provam documentalmente. No
fallo s dos escriptores contemporaneos de Colombo como Ovido, Las
Casas, Pedro Martyr, Cura de Palacios: refiro-me tambem aos posteros
como Herrera, e Garscilaso, e at aos mais modernos como Benzoni, Munoz,
Robertson, Prescott e Irving.

Tratou o chefe da pequena frota de captar desde logo a confiana e a
estima dos subordinados, de impr-lhes respeito, e ao mesmo tempo de
embeber-lhes no animo a crena de que se no navegava a esmo e sem
destino certo, mas que se caminhava direito para as ilhas do Japo
encostadas s Indias e fronteiras s Canarias. Visto que elle expunha
sua vida, que lhe devia ser preciosa, no tivessem os companheiros
receio de entregar-se  sua direco. Encontrou felizmente auxiliar de
immenso valor e influencia em Martim Pinzon, que efficazmente o
coadjuvou nos mais difficultosos transes e perigos da viagem, e que era
muito venerado pela maioria da equipagem, pertencente ao porto de Palos.

Ao correr o terceiro dia de viagem o leme da _Pinta_ desconjuntou-se, e
trabalho insano exigiu para se concertar no meio do mar, mais ou
menos aoitado pelos ventos. Demorada foi, por isso, a viagem at s
Canarias, e tornou-se necessario moderar e equilibrar a carreira dos
navios para que dia e noite navegassem proximos e  vista.

Arribou-se  ilha Gomera; praticaram-se os reparos das caravellas,
refez-se a aguada, carregou-se lenha e conseguiram-se algumas provises.
Continuou-se a viagem, e agora rumo directo de oeste, entranhando-se em
mares no devassados ainda nem pelos Portuguezes, que se achegavam s
costas africanas para as correrem para o sul, e descobrir-lhes os portos
e ancoradouros. As ilhas Canarias, apezar de encontradas pelos
Portuguezes em suas excurses maritimas, e de pretender o Duque de Viseu
consideral-as por isso de seu dominio, Portugal foi compellido 
reconhecel-as propriedades de Hespanha porque navegantes hespanhes as
tinham descoberto antes dos Portuguezes, e dellas tomado posse em nome
da Cora de Castella.

Que sustos assaltaram as tripolaes ao passarem pela ilha de Tenerife
no momento em que do seu pico saltavam flammas de fogo, que
illuminavam a atmosphera! Era para elles novo o espectaculo de uma
erupo volcanica, e custou bastante  Colombo explicar-lhes a natureza
de phenomeno natural, citando-lhes os exemplos do Etna na Sicilia e do
Vesuvio em Napoles.

Iam desapparecendo os dias e as noites, andando-se sempre, e nem um
signal de terra! s vezes calmarias detinham a marcha dos navios,
batendo nos mastros as velas inertes, e soffriam mais que nunca os
mareantes incommodos dos balanos descompassados dos navios sobre as
aguas alis tranquillas do oceano!

Adiante caminhava sempre a _Pinta_ por mais veleira, sustendo de quando
em quando a marcha para no separar-se das caravellas companheiras.
Tinha-se percorrido cerca de duzentas leguas, e apenas se encontrara
boiando sobre as aguas um pedao de mastro de navio! Comeavam j a
assustar-se os marinheiros, apezar de recontar-lhes sempre Colombo, que
na distancia de setecentas leguas das Canarias estavam os opulentos
portos e cidades riquissimas do Japo e da China, e ahi se encontrariam
thesouros que compensariam os trabalhos! Quantos espiritos comearam
entretanto a prostrar-se! Teriam dito adeus ao mundo que deixavam atrs
de si? No veriam mais os compatriotas, os amigos, as familias, o torro
natal, tudo que o homem mais preza e estima em vida! Diante o cahos, o
mysterio, o perigo! Mais de um marinheiro velho chorou, lembrando-se da
patria!

Quatrocentas, quinhentas leguas tinham-se vencido, e nada de terra!

E o que por alguns momentos abalou um tanto tambem  Colombo foi
observar com o cuidado e pericia que elle empregava, que a agulha
variava durante as noites e manhs. Tres dias meditou observando e
occultando o phenomeno. Perfeita estava a bussola. Seria causa a
estrella polar, que como os demais corpos celestes soffria evolues e
descrevia cada dia um circulo em derredor do polo? Assim o declara em
seu jornal haver conjecturado.

Previdente como era, e adivinhando murmurios da tripolao, havia
formado desde as Canarias dous cadernos de estimativa, um verdadeiro e
exacto para seu uso, e outro para ser a todos aberto e mostrado. Neste
ultimo diminuia diariamente as milhas caminhadas, afim de se no
amedrontarem os marinheiros com as distancias percorridas.

Felizmente que para infiltrar nos animos alguma coragem, alli appareciam
de quando em quando uns monticulos de terra com arbustos balanceados
pelas vagas; acol esvoaava um passaro aquatico e tambem uma meia duzia
delles logo depois se mostravam.

O que produzia alguma esperana nos navegantes era a limpidez, a
temperatura da atmosphera, muito menos quente em egual latitude que a
das costas de Africa.

De bordo dos navios fazia-se fogo e matava-se um ou outro dos passaros
volantes; e s vezes apanhavam-se peixes que serviam de agradavel
repasto.

Em diversas occasies illudiram-se com aspectos de nuvens accumuladas,
que figuravam terras. Disparavam ento em gritos de alegria, entoavam
canticos de agradecimento aos cos! Tombavam de novo nas apprehenses e
sustos ao verificarem o engano. J claramente se manifestava a decepo
dos animos dos tripolantes; terras no appareciam: os indicios que se
notavam, bem que se succedessem uns aps outros, no bastavam para
acredital-as deante de si. No houve propriamente alvoroto ou revolta,
mas a decepo mostrava-se to intensa j, que se devia temel-o.
Propalava-se francamente a opinio de que era mister retroceder, afim de
se no perderem todos, homens e caravellas! Colombo quasi no comia e
nem dormia, observando durante toda a noite os astros, relanceando os
olhos pelo firmamento, e procurando descobrir-lhe o termo no mysterio
das aguas!

Uma vez, a 25 de setembro, ao anoitecer, Martim Pinzon gritou da ppa da
_Pinta_ para as duas caravellas, que tinha avistado terra, e queria
um premio, apontando para o SO. e mostrando uma longa listra preta por
cima dos mares, destacada no fundo do horizonte. Todos proromperam em
vivas! Echoou pelo limpido horizonte e em solemnes saudaes o cantico
de _Gloria in excelsis_, acompanhado pelas vozes de toda a equipagem!

Enganadora illuso! Era uma nuvem que no dia seguinte j se no via no
espao! A aurora desfizera todas as apparencias de terra, bem que
durante a noite para ella, que estava ao SO., se navegasse a pannos
largos, desviando-se do rumo de O. De quando em quando repetiam-se estas
scenas creadas pela imaginao e desejos dos navegantes, e nada de
terra, bem que mais de 700 leguas se tivessem j caminhado pelo oceano,
pensando a tripolao que s 500 devassara. Eis, porm, que comearam a
apparecer passaros de diversas qualidades, e hervas em montes e
parecendo frescas, que concorriam bastante para alliviar os sustos!

Corria a noite de 11 de outubro, e estava Colombo encostado  amurada do
castello da pra, meditabundo e abatido, como que desanimado,
sentindo apenas rebentar-lhe do peito uma ultima esperana brotada da
profunda convico, que unica o alimentava.

Mais de oitocentas leguas tinham andado desde a ilha de Gomera. No dava
o globo attribuido  Behaim posio das ilhas do Cypango ahi por perto,
segundo os livros do viajante terrestre Marco Paulo? A quantidade de
passaros que se encontravam no espao, a direco de seus vos para o
Oeste, no o confirmavam? Por elles se no regulavam os Portuguezes, com
quem aprendera em suas viagens? No mostravam-se ainda frescas as hervas
e arbustos que apanhavam de sobre as aguas? Peixes verdes, s proprios
de rochedos, no se colhiam aos anzes? No estendido horizonte, ao som
monotono das ondas rebentando nos flancos dos navios, no adivinhavam
seus olhos alguma cousa extraordinaria?

Davam 10 horas quando elle como que deslumbrou em frente uma luzinha,
que se movia. Navio no podia ser. No o havia naquellas paragens.
Temendo illudir-se chamou um piloto e mostrou-a. Confirmou-lhe o piloto
que era luz. Chamou outro, que foi da mesma opinio. A luz ora
desapparecia, ora manifestava-se quasi claramente. Colombo ordenou que a
marcha fosse parallela e no em direitura  luz, para melhor se
reconhecer a verdade.

Soavam duas horas depois da meia-noite, quando um tiro de pea de bordo
da _Pinta_ estrondou repentinamente. Todos levantaram-se, correram,
subiram, uns aos mastros, treparam outros por sobre as amuradas. Seria
devras terra? No equivaleria ainda a uma illuso?

A terra desenhava-se feliz e francamente agora na deanteira dos navios.
Revelara-se o grande mysterio do oceano: estava ganha a gloria para o
navegador intrepido e arrojado!

Podemos imaginar a scena. Que espectaculo sublime apresentou ento a
equipagem dessas tres caravellas! Estavam, devras, deante das Indias?
Haviam-nas descoberto? Ou que terra era esta ao Oeste em tanta distancia
da Europa, em mares desconhecidos e nunca perturbados pelas quilhas
de navios? Mandou Colombo amainar um pouco a carreira das caravellas
afim de ir a pouco e pouco melhor observando.

Na sexta-feira 12 de outubro de 1492, ao romper da alvorada, contemplou
Colombo o Novo Mundo, o mundo que posteriormente foi denominado America!
Que importa que elle pensasse, como sempre pensou, e morreu ainda assim
pensando, que descobrira as ilhas e costas Indiaticas, e no um novo
hemispherio, collocado entre a Europa e a Asia, e correndo de um para
outro polo? No tinha com o seu genio, com seus estudos e trabalhos,
percebido terras novas defronte da Africa e Europa?

No fra elle o primeiro Europeu a seguir esse caminho directo do
Occidente, em vez de procurar outro pelo Cabo da Boa Esperana, dobrado
em 1486 pelos Portuguezes que persistiam em por elle continuar, seguindo
rumo para o Oriente, o que triplicava, quadruplicava a distancia e
durao da viagem? Para Colombo no houve duvida mais, estavam alli as
Indias, e s terras que descobria foi dando o nome de Indias
Occidentaes, como costas oppostas ao Indosto que os Portuguezes
procuravam.

A terra que via Colombo defronte de si pareceu-lhe uma ilha, no
montanhosa, mas coberta de espessos e altos arvoredos. O aspecto
encantava, e  proporo que os navios se approximavam, foram
apparecendo homens, sahindo dos bosques, e que se collocavam curiosos
nas praias a olhar para as caravellas. A atmosphera diaphana, perfumada,
mais ainda o enchia de contentamento e enthusiasmo.

Lanam-se ao mar as ancoras. Tres chalupas enchem-se de homens armados.
Colombo embarca-se em uma, coberto com um manto encarnado, de espada em
punho e sustentando no outro brao o estandarte real de Castella e
Arago. Os dous irmos Pinzons descem para as outras duas. Rema-se para
terra. Os habitantes curiosos fogem para os bosques. Colombo salta:
ajoelha-se, rende Graas a Deus, beija o cho e derrama lagrimas de
alegria! Resoam os ares com canticos a Deus, em cros repetidos. Colombo
estende ento a espada, levanta o estandarte, e, rodeado de seus
companheiros, declara a terra de posse e propriedade da rainha de
Castella e do rei de Arago, e d-lhe o nome de S. Salvador. Manda pelo
escrivo lavrar termo com todas as formalidades e jura aos Santos
Evangelhos que, na qualidade de almirante e governador em que se
considera desde aquelle instante, obedecer escrupulosamente s rgias
magestades, que representa como subdito fiel e dedicado.

Todos saudam, applaudem o chefe, proclamam sua autoridade, e juram-lhe
egualmente obediencia.

Os naturaes da terra descoberta, notando a attitude tranquilla dos
invasores, vo perdendo os sustos, de que a principio se tinham
apoderado; sahem  pouco e pouco dos bosques, bem que se mostrem
bastantemente suspeitosos. Homens, mulheres, todos ns, de uma cr de
cobre, cabellos pretos e compridissimos, s vezes pelo corpo, pelos
narizes e pelo rosto pinturas toscas com tintas differentes: talhe
ordinario e elegante!

Mais se confirma Colombo de que est nas Indias, porque Marco Paulo
dizia que a cr dos Indios no era branca como a dos Europeus, e que na
China, Japo e Tartaria puxava ella mais ou menos para o bronzeado e o
amarello. Como porm estavam ns? Como no via habitaes, cidades, taes
e to ricas como Marco Paulo apregoara?

Dirigiram-se para os gentios signaes de chamada, gestos de caricias,
mostrando-lhes bugigangas de pedrinhas, rosarios de contas, carapuas
coloridas. Posto que exprimindo palavras meigas e amigaveis, no eram
entendidos! Mas a pouco e pouco se foram os gentios approximando,
empunhando lanas pontudas de po, e sem ceremonia recebendo os
presentes, que se lhes offertavam, e que pareciam alegral-os.

Ao cahir da tarde retiraram-se os hespanhes para bordo das caravellas;
no dia seguinte viram, antes de desembarcarem de novo, numerosos
gentios nadando  roda dos navios e batendo palmas, como para saudal-os,
e muitos em canas compridas ou pirogas movidas com remos. Traziam de
terra bolos ou pes de mandioca, que offereceram aos navegantes europeus.

Estavam travadas as relaes. Voltaram  terra os hespanhes. Perceberam
ento pequenos ornamentos de ouro, de que os gentios usavam, e que
trocavam por bugigangas, rosarios e carapuas. Colombo prohibiu logo o
trafico do ouro, por pertencer  Cora por seu contracto.

Perguntou-lhes por signaes onde estava o ouro, e elles apontaram para o
lado do sul. Havia, pois, terras ao sul, e nellas ouro. O ouro era o
principal incentivo dos aventureiros.

No dia 14 reconheceu o almirante, embarcado em uma chalupa, as costas da
ilha, e viu ao p uma outra pequenina, que hoje se chama Whattling, e
que era a que mostrara-lhe a luz, por elle percebida na noite de 11.
Arvoredo espesso, excellentes aguas, praias faceis, e umas pequenas
aldas nos bosques.

Tomou o almirante a seu bordo sete gentios, na inteno de ensinar-lhes
castelhano e servirem elles de guias e interpretes. Prestaram-se-lhe de
boa vontade, convidados com caricias.

Deixou a ilha de S. Salvador e seguiu rumo do sul, e o mais lindo
panorama se lhe desdobrou ento aos olhos. Numerosissimas ilhas
salpicavam os mares. Penetrava-lhe pelos sentidos um aroma agradavel dos
bosques.

Cada vez mais acreditava Colombo que estava nas Indias, porque Marco
Paulo declarara que o Cypango continha uma enorme quantidade de ilhas,
abundantes de especiarias e arvores odorificas.

Em uma desembarcou, dando-lhe o titulo de Conceio, povoada como S.
Salvador; depois em outra que chamou Fernandina; logo aps em uma
terceira, cujo aspecto o inebriou, e por isso lhe poz o nome de Isabel;
o mesmo espectaculo presenciou em todas: estavam cobertas de arvoredos
gigantescos, eram habitadas por gentio manso e tranquillo.

Passando pelo meio dessas ilhas numerosas proseguiu para o Sul, apontado
pelos guias gentios de S. Salvador: chegou a uma terra immensa, e
desembarcou em um excellente porto ao Norte, onde corria um rio copioso,
por cujas aguas foi subindo facilmente.

Maravilhado do esplendor e magnificencia da terra, dos passaros
multicores, das plantas que avistava, dos pinheiros e arvores
fructiferas e desconhecidas pelos Europeus--exclamou:--Eis os Campos
Elyseos! No ser Cypango?--Era a ilha de Cuba que elle descobria, e que
intitulou Joanna, por ser este o nome da Princeza hespanhola filha de
Isabel e Fernando.

Viu maior quantidade de ouro nos ornamentos dos gentios, mas no lhes
entendeu a linguagem; nem o Arabe nem o Chaldeo fallavam! Pelos signaes
com que elles respondiam mostrando-se-lhes ouro, atinou logo que o ouro
vinha do paiz que estava mais ao Oriente. Viveu perfeitamente em paz com
os indigenas de Cuba, e gastou dias em reconhecer parte das suas costas
do Norte. Duvidoso si estava em ilha ou em continente, entendeu
todavia no lhe ser util perder tempo em examinar a terra, preferindo
continuar at que deparasse povos civilisados e ricos, e que por
emquanto no encontrava.

Deixou Cuba portanto, e seguiu rota para o ponto designado pelos gentios
da terra, sempre que se lhe fallava em ouro. Navegou para ESE. No dia 5
de dezembro achou-se defronte da ilha do Haity, que denominou
Hespanhola, e que  tambem conhecida pelo nome de S. Domingos.

Estudemos agora, ainda que succintamente, a geographia e topographia
destas localidades, afim de colhermos maiores esclarecimentos que bem
elucidem as peripecias do descobrimento.

Entre a ponta da Florida aos 25 gros de latitude Norte e s bocas do
rio Orinoco aos 9 gros, estreita-se a terra Americana pelo lado
occidental, e forma ento um isthmo, que se estende entre os dous
grandes continentes, abrindo pelo Oriente uma larga bahia chamada das
Antilhas, no fundo da qual ao occidente se escondem golphos
importantes como o do Mexico, de Honduras, de Darien e outros. A bacia
que mais propriamente se appellida mar das Antilhas contm em seu seio
as ilhas de Cuba, Jamaica, Haity; e na parte de Lste onde se confunde
com o Atlantico  toda fechada por uma muralha ou linha quasi symetrica
de ilhas maiores ou menores, chamando-se as situadas ao norte Lucayas,
que pertencem ao grupo septentrional, e as do lado do sul Caraibas. Por
entre as do Norte penetrara Colombo quando descobriu S. Salvador.

Est o Haity quasi aos 20 gros de latitude Norte.  ahi que Colombo
mais encantos encontrou, e foi a ilha que elle mais amou e sempre
preferiu em sua estima. O clima, o slo, as florestas, as flres, os
fructos, a posio, as minas de ouro que desde o principio ouviu dizer
existirem nas montanhas do interior; todas estas circumstancias
affeioaram-lhe sympathia particular. Durante sua vida considerou-a como
a ilha de Offir, onde reconta a Biblia que Salomo mandava navios buscar
ouro. Colombo morreu na convico que era o Haity a ilha indiatica
do Offir.

Tratou logo Colombo de firmar pazes com os gentios, e de fundar ahi o
dominio hespanhol, como em um centro que lhe abrisse as relaes para as
Indias quer insulares, quer do continente asiatico, que perto devia
achar-se, segundo seus estudos e calculos.

Mostravam-se os gentios, seus habitadores, amigos e innocentes como os
das outras ilhas que visitara; menos selvagens, todavia, porque
observavam-se entre elles signaes de cultura de algodo, ainda que
agreste, caminhos traados atravez dos bosques, e aldas regulares
edificadas.

Com um cacique respeitavel chamado Guanacaguary abriu relaes,
presenteou-o, visitou-o, recebeu-o a bordo, e banqueteou-o agradavelmente.

Infelizmente na noite do Natal, descuidos dos officiaes de quarto
deixaram a sua caravella arrastar-se pelas correntes impetuosas das
costas, e ella enterrou-se em areias, de onde os mais diligentes
esforos no puderam arrancal-a. Perdida, naufragada assim a _Santa
Maria_, seus tripolantes desembarcaram parte, e parte com Colombo
transferiram-se para a _Nina_.

Encontrou Colombo em Guanacaguary auxilios para o salvamento de tudo que
havia a bordo do navio naufragado. Cuidou incontinenti de estabelecer
uma fortaleza, a que deu o nome de Natividade; nella depositou algumas
peas de artilharia e gente destinada  guarnecel-a, e dispoz-se a
voltar para a Hespanha, afim de levar noticias de seus descobrimentos e
viagens, e pedir reforo de homens, com que pudesse sustentar e
continuar suas conquistas.

No queria deixar S. Domingos sem que alli permanecessem hespanhes como
nucleos de povoaes futuras, defendidos pela fortaleza levantada e
ligados em sympathia com os gentios. Convinha impr a estes estima e
respeito, de modo que quando regressasse de Hespanha para S. Domingos
pudesse livremente proseguir em suas emprezas maritimas.

Muitos marinheiros hespanhes, agradados do clima e do gentio,
prometteram-lhe ficar em terra. Era uma necessidade imperiosa, porque as
duas caravellas, que sobravam, no podiam conter a equipagem das tres,
que commandara, tanto mais que perdida fra a maior. Ouviu, pois, com
grande prazer que acceitassem quarenta hespanhes a proposta de
occuparem a fortaleza, durante sua ausencia, e desde logo devotou-se 
ida de partida.

Enlevou-se-lhe a imaginao em vos altanados, em allucinaes mysticas,
em projectos extravagantes. No annunciara no seu jornal de bordo que
Isaias o amparava e impellia para espalhar por todas as partes do mundo
que encontrasse, a Religio do Crucificado? No estava talvez
predestinado para augmentar a influencia da Egreja Catholica? No
poderia egualmente arrecadar nos paizes conquistados riquezas taes, que
lhe facilitassem os meios de ir com um exercito poderoso salvar o tumulo
de Jesus Christo, e repr e firmar em Jerusalm o culto do
verdadeiro Deus? No era isto para elle um sonho; era um desejo, uma
ancia, uma inspirao do co, que lhe parecia sorrir como ida
realizavel, to pratica e facil como fra o descobrimento das Indias
Occidentaes. Afim de conseguil-o carecia, porm, de gente, de armas, de
soccorros de Castella, e era seu proposito, regressando  Hespanha,
enthusiasmar os monarcas e povos, e alcanar delles os recursos com que
voltasse habilitado para os mais grandiosos emprehendimentos.

Em Genova estava sua familia carnal, seu bero; Hespanha, porm, agora,
Hespanha que o coadjuvara nos seus heroicos designios tornara-se sua
patria de adopo, e por Hespanha e gloria de Hespanha convinha-lhe
sacrificar-se. Exaltado o espirito, inundava-se de vises;  assim
organizado o genio, inflltra-se-lhe um atomo de loucura, e realiza ento
grandes feitos ou meritorios, e extravagantes actos que s brotam do
mysticismo das idas que o dominam. Aquella atmosphera de Hespanha do
XVI seculo respirava o mysticismo, a allucinao, e no se podia
resistir-lhe. Colombo, que j se deve dizer hespanhol, Ignacio de
Loyola, Santa Thereza de Jesus, e tantos outros engenhos superiores,
perdem-se nessa abstraco de idealidade mystica, de arroubos
espirituaes de singular natureza, dignos entretanto da mais sincera
admirao!

Firme no proposito que amadurecera, fortifica seriamente a Natividade
com sufficiente artilharia; confia o presidio  quarenta homens, aos
quaes nomeia chefes, e deixa-lhes instruces miudas para viverem bem
com os gentios, recommendaes de muita prudencia e paciencia, e
affiana-lhes que voltar breve para o meio delles, trazendo milhares de
companheiros, e premios de preo pelos seus servios e denodo. Com as
equipagens dos tres navios, se no conseguiriam as grandes emprezas que
agora comeam; de Hespanha devero vir os auxilios de gente para
leval-as ao cabo. Aos que ficam cabe mais honra e mais gloria que aos
que o acompanham na volta para a patria. Alcana assim promessas de
obediencia e trata do seu regresso  Europa.

Aprestadas regular, convenientemente as duas caravellas; carregadas com
pequenas quantidades de algodo, que conseguira; de bastantes plantas
exoticas e aromaticas, papagaios e aves desconhecidas, de colorido
deslumbrante, macacos e uma duzia de gentios que se dispuzeram a
seguil-o; levando tambem a pequena quantidade de ouro em joias e
adereos que recebera dos indigenas; despediu-se Colombo amoravelmente
dos quarenta companheiros que ficavam no forte da Natividade e do
cacique seu amigo, e fez-se de vela, seguindo rumo de NE., tomando o
commando da _Pinta_.

Feliz e quasi tranquilla fra a viagem para as Indias; a volta, porm,
para Hespanha tornou-se lenta, trabalhada e perigosa. Mais ao norte
dirigindo-se, encontraram-se mares bravios, romperam grandes temporaes e
as duas pequenas caravellas por vezes sossobraram no meio das aguas do
Atlantico, batidas e inundadas pelas vagas furiosas. Quantas vezes
anteviu Colombo perdido todo o seu trabalho! E que dr o assoberbava,
lembrando-se de que outro no descobriria esse caminho das Indias,
que elle conquistara com seu arrojo e f, caso morresse nos mares e com
elle seus companheiros, sem que  Hespanha chegassem noticias! Que
pericia no lhe foi preciso applicar ao governo dos navios, que coragem
mostrar para animar as equipagens estafadas e desesperadas! Quantas
promessas  Virgem Santissima, aos santos predilectos, caso se salvassem!

Avistaram felizmente a ilha de Santa Maria, no archipelago dos Aores,
depois de andarem muitos dias  matroca as duas caravellas, entregues s
correntes do oceano, impellidas para onde os ventos as empurravam, sem
poderem usar das velas, porque seria um perigo, nem tomar alturas por
falta de sol e de estrellas; coberto sempre o co de negras nuvens!

Com difficuldades obteve Colombo que as autoridades portuguezas da ilha
lhe consentissem concertos nas caravellas e lhe prestassem alguns
soccorros de viveres. Ao deixar Santa Maria, nova tempestade irrompeu, e
to impetuosa, que separaram-se de uma vez a _Pinta_ e a _Nina_.
Colombo tratou por seu lado de procurar abrigo na primeira costa, e
avistando as montanhas de Cintra, penetrou no Tejo com o seu navio,
emquanto que a _Nina_ commandada por Martim Pinzon, atirada mais para o
Norte, seguia rumo differente.

Que espanto o da populao de Lisboa ao avistar a caravella de Colombo
apparecer  barra, subir o Tejo, fundear defronte de Belm, e, visitada,
obter informaes de que Colombo descobrira as Indias pelo Occidente!

D. Joo II mandou-o ir logo  sua presena, interrogou-o, ouviu-o
attentamente e louvou-lhe a faanha em termos lisonjeiros e agradaveis,
no manifestando a menor decepo ou despeito, acolhendo-o antes com
cavalheirismo. Despediu-o com presentes, afim de que livremente seguisse
para a Hespanha, depois de receber os soccorros de que carecia. De
Lisboa tomou Colombo rumo maritimo para o Sul, e dobrado o Cabo de S.
Vicente entrou na barra de Salter, na manh do dia 15 de maro de
1493. Subido o rio Tinto, fundeava ao meio-dia em Palos, depois de quasi
oito mezes de ausencia, que tanto durara a sua excurso maritima! Caso
inesperado! Appareceu e chegou a Palos, na tarde do mesmo dia, a
caravella _Nina_, cuja vista e noticia perdera Colombo desde a altura
dos Aores. Depois de errar longos dias pelo oceano, alcanara
egualmente Pinzon dar fundo no porto, de onde partira.

Imaginai, minhas senhoras e senhores, as impresses, as sensaes, as
alegrias, os exaltamentos, os transportes, a admirao dos habitantes de
Palos, ao reverem seus amigos, ao saudarem a empreza portentosa que se
commettera, e que elles nunca haviam pensado que se podesse realizar!

Tinham-se descoberto as Indias, e era Hespanha que se gloriava do feito,
e antes que Portugal as deparasse! Por quasi um seculo inteiro Portugal
as procurava em vo, emquanto que logo a seu primeiro ensaio de
navegao maritima, ao primeiro e fraquissimo commettimento que
praticara Hespanha, com tres miseraveis caravellas, abrira para as
Indias o caminho da Europa!

No se devia tudo ao genio de Colombo?  sua audacia,  sua pertinacia,
 sua paciencia,  sua sciencia,  seus trabalhos? No arriscara seu
nome, sua vida, em servio e gloria de Hespanha?

Pensavam-no perdido, morto talvez, porque nem uma confiana depositavam
nem sabios nem povos em sua temeraria e louca empreza, e eil-o com seus
navios, radioso, triumphante, coberto de glorias!

Correram todos a recebel-o, a vel-o, a ouvil-o, a perguntar noticias dos
amigos, das terras descobertas, dos novos mundos das Indias! Com
difficuldade pde elle desembarcar, dirigir-se  egreja a render graas
 Deus! As ruas cobriram-se de folhas de arvoredos, as casas ornaram-se
de cortinas, aos ares subiram os fogos, estrondaram as peas de
artilharia, repicaram festivamente os sinos dos templos, repercutiram
estrondosamente os gritos e saudaes geraes, espontaneas. Foi para
Palos um dia de incomparavel jubilo, de alegria louca, de transportes
patrioticos! Reis no so acclamados com mais espontaneidade e
enthusiasmos! Como que um delirio se apoderava de todos os animos!

Sabendo Colombo que os reis catholicos estavam em Barcelona, para elles
escreveu logo e fez partir emissarios communicando-lhes sua chegada.

Depois de rever seu amigo, o prior Joo Perez, a quem tanto devia,
partiu para Barcelona, levando em seu sequito os gentios que trouxera, e
cujas figuras causavam espantosa admirao, e as plantas, aves e animaes
exoticos que trazia das terras descobertas, bem como os pequenos
ornamentos de ouro que colhera e que mais excitavam as cobias.

Por toda a estrada que vai de Palos  Barcelona derramavam-se multides
de povo: tomavam suas togas as autoridades, os alcaides, os corregedores
para o comprimentarem; os sacerdotes benziam-no cobertos das mais
esplendidas vestes; a plebe applaudia-o, saudando-o estrepitosamente.

Era uma marcha triumphal, que lembra as honrarias dos antigos vencedores
romanos, voltando de suas conquistas e carregados de despojos e
prisioneiros.

Nas grandes e pequenas cidades que atravessava, ruas, casas, edificios
se paramentavam, levantando bandeiras, espalhando illuminaes, tocando
sinos, roncando a artilharia, e resoando os ares com vivas, gritos
enthusiasticos, e sons repetidos de musica.

Custava-lhe escapar  curiosidade das populaes, que a cada passo
estorvavam-lhe a marcha. A exagerao de seus feitos inventava
prodigios, e coroava-o como ente extraordinario!

Que admirao pelos gentios, pelos macacos, pelos papagaios! Que
esperanas no ouro! Tudo era assombro! Seria milagre, sim, que os
Hespanhes de ento acreditavam em toda a especie de milagres.

Entrou em Barcelona acompanhado por clerigos, fidalgos, autoridades,
militares, pessoas de todas as classes, que o acompanhavam, uns desde
Palos, outros juntando-se-lhe pela estrada!

Acolheram-no os reis catholicos com a maior amabilidade, cercados de
toda a sua esplendida e luzida crte, e ao chegar Colombo para perto
delles, levantaram-se do throno, abraaram-no, mandaram-no sentar a seu
lado, e ouviram-no com a maior atteno e curiosidade. _Te-Deums_ nas
egrejas, musicas pelas ruas, trophos e arcos, illuminaes, tudo
manifestava a gloria de Colombo, e os reis de Hespanha passeavam com
elle pelo meio do povo, para o honrarem e engrandecerem!

Decretaram logo os reis um premio  Colombo de trinta coras de ouro,
por haver sido o primeiro que avistara terras das Indias: no fra quem
descobrira a luz nocturna da ilha de Wattling, proxima da de S.
Salvador? Concederam egualmente armas  sua familia com a legenda:

    Por Castilla y por Leon
    Nuevo mundo alh Colon.

Fizeram partir incontinente para a Frana, Italia, Allemanha emissarios
annunciando que Colombo descobrira as Indias para a Hespanha! Os
reis catholicos ostentavam-se vangloriosos dos feitos de Colombo, e
prometteram-lhe coadjuval-o em tudo quanto meditasse e emprehendesse. De
differentes pontos da Europa receberam parabens, e tambem de Roma no
tardaram embaixadores, que o Summo Pontifice enviava para congratular
Isabel e Fernando e entregar-lhes uma bulla que promulgaram na cidade
eterna, concedendo-lhes, no tocante s regies descobertas por seus
subditos, direitos eguaes aos que Portugal recebera no tempo do infante
Dom Henrique de Vizeu. Para que se no travasse conflicto entre as duas
Coras, que tinham entrado em emprezas de conquistas ultramarinas,
declarou o Summo Pontifice na referida bulla, que traada uma linha
ideal do polo do Norte para o polo do Sul, a cem leguas ao Oeste das
ilhas dos Aores e Cabo-Verde, as terras do oriente pertenceriam a
Portugal e as do occidente  Hespanha. Assim decidia o Papa da sorte do
mundo, no sendo de estranhar que o rei de Frana perguntasse-lhe em
que verba do testamento de Ado achara Sua Santidade o direito de
distribuir os territorios do globo!

Convencidos os reis em presena da exposio pomposa que lhes fez
Colombo das grandezas das ilhas indiaticas que descobrira; das vantagens
que colheriam fazendo dellas suas conquistas, e povoando-as de
Hespanhes; do ponto de apoio que ahi deparariam para estender suas
relaes e dominao s Indias; convencidos mais ainda ao
apresentar-lhes Colombo os gentios e explicar-lhes que eram da raa das
Indias, segundo ensinavam os livros dos viajores que tinham visitado
aquellas partes do mundo, e conformes em tudo, traos, cr e frmas com
os chins e tartaros, doceis para receberem o baptismo, e crerem na
religio de Christo, no se demoraram em expedir ordens terminantes para
apromptar-se uma esquadra de navios, embarcar-se nella grande quantidade
de gente, artilharia, armas, munies, cavallos, gado, e o que mister
fosse para l empregar-se, e confiar tudo  inteira e exclusiva
disposio de Colombo, afim de que proseguisse nas descobertas, munido
de elementos poderosos com que praticasse a guerra, sendo preciso, e
firmasse posses da Cora, que durassem, e excluissem alheias pretenses.




QUARTA CONFERENCIA

28 de junho de 1891


Logo que soou aos espertos ouvidos de El-Rei D. Joo II, de Portugal, a
noticia de que o Santo Papa publicara e enviara aos reis de Castella e
Arago uma bulla concedendo-lhes terras a descobrir, alm de 100 leguas
ao Occidente das ilhas de Cabo-Verde, protestou immediatamente contra o
direito que a curia romana se arrogara e declarou aos reis de Castella e
Arago que se no submettia s bullas Pontificias.

Um conflicto poderia nascer deste incidente, caso no chegassem a
accordo amigavel os monarcas de Castella, Arago e Portugal; um tratado,
porm, celebrado em Tordesilhas, em 1493, estendendo a linha ideal
traada de 100 a 365 leguas, e compromettendo-se os soberanos a
respeitar em tudo mais a bulla referida, serenou os animos timoratos, e
puderam, ento, desassombrados de sustos de guerra, cuidar os reis de
Hespanha de aprestar a expedio maritima, militar e colonisadora,
promettida a Colombo, para que elle continuasse na empreza do
descobrimento das Indias Occidentaes, to felizmente iniciada em sua
primeira viagem.

Olhava Isabel particularmente para os interesses da religio catholica.
Quanto no ganharia Castella propagando o Christianismo nas Indias,
chamando ao gremio da Egreja Romana tantas almas pags, perdidas
naquelles desertos, baptizando e salvando infelizes creaturas, a quem
estava feixado o reino dos cos!

Para outra direco pendia Fernando de Arago. Salvao de almas era
para elle questo secundaria. A principal consistia em conquistar
terras, augmentar dominios, alcanar riquezas para Hespanha, e dos
relatorios pomposos e discursos bombasticos de Colombo derivava-lhe
a ideia de que immensas vantagens resultariam de uma segunda viagem de
explorao.

Combinavam, portanto, agora, tanto Isabel como Fernando nos desejos e
propositos de coadjuvar a Colombo, e de facultar-lhe todos os meios com
que podesse realizar seus projectos.

Decretaram immediatamente uma leva de soldados e marinheiros, e uma
esquadra de dezesete navios armados, que tudo se collocava  disposio
de Colombo. J no servia o pequeno porto de Palos para to grande
empreza. Foi designado o de Cadix, muito mais importante. Annunciou-se
egualmente que  bordo se receberiam voluntarios militares, maritimos,
profissionaes de industrias, missionarios, medicos, pharmaceuticos,
agricultores, que quizessem partir para a conquista das Indias
Occidentaes ultimamente descobertas. Transmittiram-se ordens s
autoridades de Andaluzia para se prestarem ao servio, e aos recebedores
das finanas para despenderem as sommas necessarias.

Que contraste entre a segunda viagem, que vai Colombo emprehender, e a
primeira effectuada em 1492, em que apenas teve sob seu commando tres
miseraveis caravellas com 140 homens de tripolao, e quasi que sem
despender o thesouro de Castella quantia notavel de dinheiro!

 que os reis agora estavam convictos de abundantes proventos, e tambem
exaltava-se favoravelmente a opinio do povo. Ento fra preciso
recrutar  fora gente, derramar tributos, arrancar a seus donos os
miseraveis e velhos chavecos que partiram de Palos, no meio dos choros,
maldies e desesperos dos habitantes. Mas em 1493 todos queriam ir,
brigavam por ir. Foi mister determinar que no mais de 1.200 pessoas se
recebessem a bordo da esquadra. Cavalleiro avido de distinguir-se em
emprezas romanescas; especuladores que pensavam encontrar riquezas que
os saciassem; navegantes que sonhavam viagens maritimas venturosas;
missionarios inflammados do zelo de promover a dominao da Egreja e o
conhecimento da verdadeira f; fidalgos, plebeus, obreiros,
lavradores, commerciantes, todos corriam pressurosos  offerecer-se para
a partida. No os olhavam mais as populaes como victimas de temerarios
e loucos planos; tinham-lhes agora inveja pelas opulencias e ouro que de
certo adquiririam.

Dizia Lopo da Vega em uma comedia famosa:

    Nono lhos leva christandad,
    Sino el oro y la codicia.

Tal era o enthusiasmo que produzira a primeira viagem de Colombo, e to
exageradas se espalhavam as noticias das grandezas e magnificencias das
Indias Occidentaes por elle felizmente encontradas!

Trabalhosa foi a tarefa de escolher a gente que pretendia embarcar.
Colombo, queixoso dos Pinzons, no os quiz mais para companheiros.
Escolheu outros pilotos e mareantes; acceitou egualmente varios fidalgos
pobres, que lhe pareceram animados do espirito guerreiro hespanhol.
Entre elles alistou-se um cortezo muito afamado pelo seu valor na
conquista de Granada, e pelas suas aventuras romanescas. Chamava-se
Alonzo Ojeda, e vaticinara-lhe a sorte uma brilhante fama, bem que
minguada de proveitos e de felicidade. Mais de mil e duzentas pessoas
embarcaram em tres grandes gals, e quatorze caravellas, estas maiores
de cem toneladas, e aquellas de trezentas, guarnecidas todas e
convenientemente de peas de artilharia, e dos melhores petrechos de
guerra e apparelhos de navegar. No houve profisses e classes da
sociedade que alli se no representassem, bem como todas as especies de
animaes domesticos, sementes de plantas, cepas de vinha, cannas de
assucar, e outros objectos de industria preciosos, e de necessidades
domesticas e publicas.

De Cadix partiu a esquadra, no dia 25 de setembro de 1493, no meio das
saudaes estrondosas do povo. Collocava-se emfim o governo do reino,
francamente,  testa de emprezas maritimas, e despendia com largueza as
sommas necessarias. Da primeira viagem de Colombo, si nem a elle e nem 
Cora couberam vantagens materiaes, visto que sob este ponto de
vista fra improficua, da segunda muito se esperava. Entrara tarde em
descobrimentos de terras ultramarinas, mas entrava com resoluo, vigor
e poderosos elementos, e por isso Hespanha conquistou glorias
imarcessiveis e proventos espantosos de riqueza e opulencia.

Da sua capitanea apenas de posse, transmittiu Colombo aos commandantes
dos outros navios instruces precisas para as eventualidades da viagem.
Seguiu ao SO. para Gomera, onde refez-se de algumas provises e aguada.
Tomou rumo dahi em direitura para o Haity, mais ao sul do que o fizera
na primeira expedio. Aos 15 gros de latitude N. descobriu, no dia 1
de novembro, numerosas ilhas em frente da esquadra. Estavam todas
cobertas de vegetao abundante, que exhalava perfumes pela atmosphera;
comprehendiam-se no grupo das chamadas Antilhas, que pelo Sul e Lste
feixam o mar interior por ellas separado do Atlantico. Dirigiu-se para a
mais proxima e deu-lhe o nome de Dominica. No encontrando
ancoradouro seguro, desembarcou em outra quasi to extensa, que
appellidou Maria Galante. Levando comsigo por interpretes os gentios que
o haviam acompanhado de Haity  Hespanha, e que j fallavam um pouco o
idioma castelhano, tratou de reconhecel-a, e entender-se com os indigenas.

No encontrou, porm, nem-um signal de populao; s florestas espessas.

Dirigiu-se ento para uma terceira, chamada por elle Guadelupe. Visitou
uma alda, de onde fugiram os habitantes ao avistarem navegadores
estranhos, deixando apenas crianas abandonadas, que Colombo esmerou-se
em adornar com rosarios e braceletes de contas, no intuito de patentear
seus propositos pacificos para com os indigenas. Essa alda mostrava-se
semelhante s de Cuba, S. Salvador e Haity; conteria quarenta casinhas
collocadas em um quadrado, construidas de madeira, cobertas com folhas
de palmeiras. A alda tinha s sahida por uma especie de portico. Dentro
das casinhas rdes de algodo para dormir, algodo em rama e
tranado, arcos e flexas, e utensis de pedra e madeira. Horrorisaram-se
estupefactos os hespanhes, notando craneos humanos pendurados, que os
gentios interpretes declararam pertencer  inimigos prisioneiros, que os
Caraibas, terriveis habitadores das ilhas do sul, matavam para comerem e
devorarem em seus festins e folguedos. Pelas praias encontraram canas
de um s tronco de arvore, mas enormes, em que cabiam quarenta a
cincoenta homens.

Ordenou Colombo que uma partida de marinheiros commandada por Ojeda
penetrasse no interior da ilha e examinasse seus sitios: voltaram elles,
no fim do dia, conduzindo muitas mulheres, que os tinham procurado, e
quizeram acompanhal-os. Soube, pelas conversas que os interpretes com
ellas travaram, que haviam sido roubadas s ilhas vizinhas e reduzidas 
escravido, e supplicavam as no deixasse elle naquella ilha entregues 
ferocidade dos moradores que se tinham evadido com medo dos castelhanos.
Comprehendeu Colombo que eram tribus de barbaros que alli
habitavam: acolheu as mulheres a bordo e continuou sua viagem, ancioso
de chegar  fortaleza da Natividade no Haity.

Atravessou por entre muitas e innumeras ilhas de diversas dimenses, e
deu fundo em uma que recebeu o titulo de Santa Cruz. Eis que de um
promontorio surgiu-lhe uma piroga com bastante gente; apenas avistada
mandou Colombo uma chalupa a seu encontro. Os gentios da piroga deitaram
a fugir. Empunhavam arcos, disparavam no entanto flexas que feriram a
varios hespanhes, bem que defendidos por seus escudos. Combatiam to
valentemente como elles algumas mulheres. Cahiram os castelhanos sobre a
piroga, viraram-na no abalroamento; mas os gentios e as mulheres que a
guarneciam atiraram-se ao mar, e mesmo nadando faziam chover flexas
sobre os hespanhes, ao passo que desappareciam aos olhos mergulhando e
impossibilitando sua perseguio. Percebeu-se que as flexas tinham
veneno nas pontas, porque um dos castelhanos feridos morreu do virus
communicado.

Levantou ento ancoras a esquadra e descobriu a grande ilha conhecida
pelo nome de Porto Rico, de encantador aspecto; fugiram tambem os seus
moradores apenas avistaram os navios. Depois de uma pequena explorao,
continuou Colombo sua viagem e chegou emfim ao Haity, parando a esquadra
defronte do local onde se construira o forte da Natividade e onde elle
deixara 40 companheiros, quando partira para Hespanha. Era noite j, e
para signal roncou a artilharia de bordo, avisando os amigos de terra.

Que surpreza foi, porm, a sua! Amanhecera o dia e ninguem lhe
apparecia! Espantado de no avistar o forte, desembarcou, e em terra
descobriu-o inteiramente arrasado; nem um hespanhol ahi deixado
encontrou, e apezar de gritos e tiros de artilharia para lhes servir de
chamada, ninguem appareceu-lhe! Expediu logo gente que visitasse a alda
no muito distante, do seu amigo, o cacique Guanacaguary. Deserta e
destruida estava tambem a alda. Mandou-o procurar nos mattos, e
felizmente em nova alda foi elle encontrado. Soube ento pelos
interpretes que os hespanhes do forte tinham roubado ornamentos de ouro
e mulheres aos da tribu guerreira do Cibo, que entre si mesmos haviam e
por causa da diviso dos despojos, que alcanaram, travado luctas
sangrentas e mortiferas, e que provocando com seu procedimento os
furores do cacique Canoabo, este os atacara, vencera, matara a todos e
arrasara completamente o forte. Accrescentava-se ainda que Guanacaguary
esforara-se em defender os hespanhes, mas fra derrotado, ferido e
obrigado a esconder-se nas florestas at que Canoabo se houvesse
retirado, e elle pudesse estabelecer-se com sua tribu em novas tabas que
construira.

Inicia-se por esta maneira a historia dos estabelecimentos europeus na
America. As paixes desordenadas dos invasores produziram guerras civis
e a perversidade de seus espiritos suscitou contra elles os odios dos
gentios que at ento pareciam mansos, mas que eram por natureza
barbaros e vingativos.

Tratou Colombo de pacificar os animos dos gentios, que mostravam-se
agora desconfiados dos hespanhes; convidava-os a ir  bordo dos navios,
acolhia-os com caricias e presenteava-os generosamente afim de
angariar-lhes de novo as sympathias.

As visitas, no entanto, que a bordo do Almirante repetiam os gentios,
suas conversas com as indigenas que Colombo acolhera nas ilhas das
Antilhas, deram em resultado um espectaculo singular.

Em uma noite ellas se precipitaram todas ao mar. Bem que perseguidas
pelos hespanhes, mergulhavam, nadavam, e agarrando-se a rochedos, que
se entranhavam nas aguas, desappareceram e escaparam s perseguies!
No teriam havido concertos? To suspeitoso como o dos gentios tornou-se
dahi por deante o animo de Colombo.

Traou ento a planta de uma cidade em terra, que denominou Isabel,
edificada no centro norte do Haity, perto do Monte-Christo; no tardou
em construil-a, abrindo ruas e praas, edificando casas, levantando
fortificaes e estabelecendo uma egreja. Foi esta a primeira povoao
que os europeus firmaram na America! Della tomaram posse os hespanhes,
e a mais vasta morada reservou Colombo para si, como almirante e
governador das conquistas. Distribuidos terrenos, principiou-se a
cultura do slo, e confiaram-se-lhe as sementes de plantas europas, as
cepas de vinha e de cannas de assucar, que se desenvolveram rapidamente.
No esqueceu a propagao dos animaes, e preparou-lhes os pastios
indispensaveis. Em pouco tempo uma cidade hespanhola assim organizou-se
e constituiu-se o nucleo de outras, que se semearam por aquellas paragens.

Expediu depois Colombo gente numerosa s ordens de Ojeda, cujo
desembarao e intrepidez temeraria lhe agradavam, afim de que
explorassem o interior da ilha, dirigindo-se particularmente para as
montanhas do Cibo, onde, segundo os dizeres dos gentios, existiam
importantes minas de ouro.

Cumpriu exacta e resolutamente Ojeda a sua tarefa. Bateu por vezes os
gentios do Cibo, aprisionou muitos, reconheceu signaes de ouro virgem
nos leitos das torrentes e rios, e soube que existiam minas do mesmo
metal, mais para as alturas dos morros. Estabeleceu-se em ponto
fortificado, e remetteu a Colombo algum ouro em p e pedaos
petrificados. Para l partiu immediatamente Colombo  testa de
quatrocentos homens; feriu variados combates com os gentios e verificou
com seus olhos a verdade do que Ojeda lhe communicara.

Fez voltar, no entanto, alguns navios para Hespanha, a dar contas de sua
commisso. Confiou o commando a Antonio Torres, incumbindo-o no s de
proclamar as riquezas da terra, levando para prova amostras valiosas de
ouro, bastante algodo, plantas aromaticas e pimenta que adquirira; como
de voltar com a maior brevidade trazendo vinho, medicamentos, viveres,
armas, vestimentas, cavallos, artifices, agricultores, e particularmente
mineiros para se rasgarem com proveito e maior facilidade as minas
opulentas do Cibo.

Infelizmente sorriu ao espirito de Colombo uma deploravel ideia: por que
no converteria em escravos os gentios que nos combates aprisionara?
Vendidos em Hespanha, como em Portugal e mesmo em Hespanha se vendiam
mouros e pretos de Guin, no prestariam ao thesouro rgio colheita
abundante de impostos, que o coadjuvasse nas despezas indispensaveis s
expedies maritimas? Convencido deste principio, embarcou cerca de
quinhentos gentios nas caravellas que apparelhara e que expedira
immediatamente para Hespanha.

As ideias fanaticas da epoca consideravam quem no fosse catholico como
inferior em direitos aos catholicos, os hereges e pagos podiam,
portanto, escravisar-se: por que escapariam os gentios da America  este
destino,  esta sorte miseranda? Apezar de seu espirito adeantado, no
podia Colombo resistir  influencia das ideias do seu tempo.

Emquanto se occupava Ojeda nas pesquizas de ouro, deliberou Colombo
proceder  novas exploraes de terras. Seguiu em um navio e tomou rumo
pelo sul de Cuba, em direco do oeste; encontrou a ilha da Jamaica;
admirou suas bellezas naturaes, deu-lhe o nome de Santa Gloria, quiz
desembarcar, mas oppuzeram-se os gentios em grandes canas, armados de
arcos e flexas. Pareciam guerreiros como os Caraibas, no pacificos e
mansos como os de Cuba, e em geral os do Haity. Foi, pois, compellido
Colombo a descer em terra levando chalupas bem guarnecidas de gente.
Pela primeira vez empregaram-se, alm das armas mortiferas de fogo,
enormes ces de fila, que se atiravam furiosamente sobre os gentios, e
que muito coadjuvaram aos hespanhes em suas victorias, pois que
apavorados de terror fugiam elles para os mattos e escondrijos.

Da Jamaica, bem que no domada e nem em parte submettida, partiu Colombo
tratando de correr as costas meridionaes de Cuba, no intuito de
verificar por si si era ilha verdadeira. Navegou por entre as
numerosas ilhas appellidadas Jardins da Rainha. Ahi foram amigaveis as
relaes com o gentio, traando Colombo constantemente mappas
geographicos das terras que via. Voltou para a cidade de Isabel ao
findar o anno de 1494, sem ter conseguido contornar Cuba em toda a sua
extenso. Com a mais intensa alegria encontrou ahi seus irmos
Bartholomeu e Diogo, que  seu chamado se tinham despedido do servio
maritimo de Portugal, e embarcado immediatamente para o Haity em navios
que de Hespanha haviam partido no correr do anno, trazendo para as
Indias Occidentaes auxilios de gente e viveres.

Infelizmente, porm, o caracter turbulento e altivo, e o levantado
espirito dos hespanhes no se desviavam de sua natureza e instinctos,
trocando o slo europeu pelas terras Americanas.

Sedies formaram-se logo em Isabel; um Bernal Dias excitou grande
numero de moradores contra o governo de Colombo, e ousou ameaal-o:
suffocada a revolta, castigados os criminosos e enviados para a Hespanha
o chefe e os principaes cumplices, outra e mais terrivel sedio
rompeu, capitaneada por Margarito e pelo Padre Boyle, que se apoderaram
com seus asseclas de alguns navios, e partiram para Hespanha sem se
importarem com o almirante.

Comprehendeu ento Colombo as difficuldades da sua situao diante de
gente to insubordinada, e que se considerava illudida, porque no
obtivera logo riquezas que sonhara, e pois considerava, por esse motivo,
 Colombo como autor de suas infelicidades e soffrimentos.

Perseverava tambem inimigo o famoso cacique Canoaba, que ousou formar um
tal qual cerco regular em torno de Ojeda quando se estabelecera nas
montanhas do Cibo, e contra elle dirigir continuadas escaramuas e
assaltos. Era Ojeda felizmente bravo e sagacissimo. Empregando
estratagemas, conseguiu colhel-o s mos, aprisional-o, e remettel-o em
ferros para Isabel. A guerra, pois, contra os gentios, inaugurava
peripecias perigosas, e combates a combates se succediam, sem que se
tivessem subjugado aquelles selvagens da ilha, bem que j mais ou
menos povoada pelos hespanhes e dividida em districtos. Voltara Torres,
no entanto, de Hespanha, trazendo reforos  Colombo. Fel-o de novo
Colombo voltar com novo carregamento de indigenas escravisados e com os
productos, que pde colher, pensando assim sustentar seus creditos
perante os reis catholicos.

Muitos hespanhes, porm, que haviam regressado para Hespanha, comearam
a espalhar alli vozes e noticias desabonadoras de Colombo; accrescia que
poucos proventos alcanavam ainda  Cora, visto que no traziam os
navios mercadorias e ouro, que compensassem os sacrificios que ella
fazia com as expedies. Maior intensidade tomaram as intrigas e o
descontentamento, ao chegarem  Hespanha o padre Boyle e Margarito.
Perdia Colombo no conceito, e comeavam  manifestar-se-lhe adversarios.
O Bispo Fonseca, presidente do tribunal fundado para os negocios das
Indias Occidentaes, declarou-se logo seu inimigo e em memoriaes e
relatorios dirigidos  Cora accusava-o constantemente por tudo
quanto parecia nocivo aos interesses dos subditos e das conquistas.

A Rainha Isabel, impressionada com as noticias que se espalhavam, e com
as communicaes de Fonseca, resolveu mandar ao Haity um emissario
incumbido de syndicar do procedimento de Colombo, e publicar edictos
concedendo licena mediante clausulas aos subditos que desejassem ir ou
mandar, por sua conta particular, navios que se destinassem a
exploraes e descobertas de terras fra da alada e da autoridade do
almirante das Indias. Joo Aguado partiu immediatamente em caracter
official para o Haity, commissionado pelo governo, e pela Castilha se
espalharam os edictos regios.

Chegado que foi Aguado  villa de Isabel, mostrou-se Colombo resentido
por lhe parecer falta de confiana o acto dos soberanos. Mais ainda
exacerbou-se, sabendo do decreto que permittia a aventureiros emprezas
exploradoras nas Indias Occidentaes, que elle reputara estarem todas sob
seu governo exclusivo.

Aguado abriu inquerito contra Colombo e ostentou autoridade
independente. Reuniu elementos que lhe pareceram sufficientes para
prejudicar ao almirante. No ousando, porm, no Haity, commetter acto
offensivo, decidiu-se a voltar para a Hespanha, afim de ahi formular,
sem susto, sua accusao. Prestou-lhe Colombo uma caravella para a
viagem. Temendo, todavia, o resultado do inquerito, preparou outra para
si, e transferindo o governo ao irmo Bartholomeu, seguiu para Hespanha
ao mesmo tempo que Aguado. Acompanhava assim a accusao e o magistrado
que a instaurara, no propsito de nullificar-lhes os effeitos: era j o
anno de 1496.

Apenas tomou terra em Cadiz, seguiu Colombo para Burgos, onde se achavam
os reis hespanhes. Convem dizer-vos, minhas senhoras e senhores, que
no vos deveis admirar que os soberanos de Castella e Arago ora
estivessem em uma, ora em outra cidade dos dous reinos, que lhes
pertenciam. Capital de Hespanha s tornou-se exclusivamente Madrid
para residencia do Rei e centro da administrao geral, em tempo de
Felippe II, na ultima metade do seculo XVI. At ento eram todas as
principaes cidades consideradas capitaes, isto , os soberanos residiam
umas vezes nesta, outras vezes naquella, mudando sempre a crte para
assim agradarem a todos os povos das antigas provincias outr'ora
independentes, que no queriam perder sua autonomia, e mostrar-se-iam
desgostosos quando uma capital fixa fosse preferida para morada dos
monarcas. E pois, no correr destas narrativas, os encontrais em Cordova,
Granada, Sevilha, Barcelona, na Salamanca, e agora em Burgos e no
intervallo do tempo achavam-se egualmente em Valhadolid, Saragoa,
Toledo e Leo.

No foi por Isabel mal acolhido Colombo, bem que sem aquelle enthusiasmo
e intimidade, de que elle recebera publicas e particulares demonstraes
em 1493. Nos funccionarios elevados deparou, porm, frieza, assim como
em Fernando de Arago. Para o povo andava j bastante desconceituado:
no o acreditavam mais aquelle here, aquelle ente sobrenatural que
descobrira as Indias Occidentaes, e promettera  Hespanha tanta
opulencia e riqueza que, desgraadamente, se no tinha ainda realizado!

Procedia o descredito, em que comeava Colombo a cahir, de ser accusado
de enganar os soberanos e zombar da nao com descripes exageradas dos
paizes descobertos, que mais custariam despezas e sacrificios que
vantagens e gloria; attribuiam-lhe ainda uma administrao tyrannica e
oppressora, com que coagia os subditos  revoltas constantes; e
imputavam-lhe tambem ambies arrojadas de exploraes novas e
inconscientes de que no havia proveito a esperar.

Felizmente para Colombo levara elle para Hespanha bastante ouro
extrahido das montanhas do Cibo e de uma mina ahi encontrada no sitio
denominado Hayna, que se descobrira com signaes de ter soffrido j
antigas excavaes. Esta circumstancia ultima, que elle verificara, mais
lhe confirmava a ideia que tinha de que o Haity era a ilha de
Offir, e que aquellas excavaes regularmente effectuadas deviam ter
sido praticadas pelos povos indiaticos das costas fronteiras  ilha.

Quer apresentando e entregando notavel quantidade de ouro para os cofres
publicos; quer com discursos e relatorios afianadores de maiores
riquezas, e em que reluzia sempre a esperana de tornar catholicas
tantas almas perdidas, que imploravam o baptismo para se salvarem, com o
que correspondia s delicadas cordas da consciencia da Rainha; conseguiu
Colombo desfazer muitos preconceitos e calumnias propaladas  seu
respeito. Declarou-lhe por fim Isabel que continuaria a confiar nelle e
lhe prestaria novos auxilios, com que executasse terceira viagem s
Indias Occidentaes, explorasse terras at encontrar o Japo e a China, e
cuidasse de extrahir das minas descobertas no Offir a maior somma
possivel de riquezas.

Que difficuldades se lhe antepuzeram, no entanto, aos desejos de
aprestar navios com gente e carregamentos necessarios! Ora
allegava-se que o thesouro regio estava esgotado com as guerras que o
ambicioso Fernando travara contra a Frana; ora excessivas despezas
exigidas pelos casamentos da princeza D. Joanna com o archiduque
austriaco Felippe, que governava em Flandres, e do principe D. Joo com
uma infante egualmente da casa d'Austria.

Oppunha-se por seu lado tambem Fernando de Arago a todo o gasto para se
descobrirem ilhas e terras selvagens e incultas, preferindo nas guerras,
em que quasi sempre laborou na Europa, empregar os recursos de Hespanha.

A Rainha, porm, decidiu-se  coadjuval-o efficazmente, logo que soube
que em julho de 1497 El-rei D. Manoel, que herdara a cora de Portugal,
tratava de executar o pensamento e recommendaes de D. Joo II,
fallecido em 1495, de perseverar nos aprestos de uma grande expedio
para as Indias do Indosto, e conseguira emfim fazel-a partir de Lisboa,
s ordens do almirante Vasco da Gama, que como seu auxiliar levara
em sua companhia o famoso Bartholomeu Dias, que descobrira e dobrara a
ponta final da Africa, o tormentoso Cabo da Boa Esperana. Cortou ento
por todas as difficuldades, e ordenou que  todo o preo se prestassem
auxilios  Colombo.

No era agora desairoso  Castella deixar que a nao portugueza
proseguisse s nos descobrimentos, e se lhe avantajasse em gloria e
riquezas, que das Indias pintadas e imaginadas com as mais deslumbrantes
opulencias deviam provir?

No tardaram em promptificar-se seis grandes navios convenientemente
armados e tripolados no porto andaluz de S. Lucar, vizinho do de Cadix.
Foram carregados de armamentos e viveres em abundancia, de obreiros e
mineiros para a extraco do ouro, e de missionarios para a catechisao
dos gentios.

Confiados de novo  Colombo, transmittiu-lhe a Rainha instruces para
que no parasse na empreza de abrir commercio com o Japo e a China.

Partiu assim Colombo para sua terceira viagem de descobrimento das
Indias em julho de 1498, e agora do porto de S. Lucar.

J algumas naes da Europa agitavam-se, no entanto, com o pensamento de
relacionar-se tambem com as Indias. Por que Hespanha e Portugal seriam
as unicas a ganhar louros gloriosos na historia do mundo, a dilatar os
conhecimentos e sciencias cosmographicas, a opulentar-se e enriquecer-se
em commercio e navegao? Faltavam  ellas elementos e meios para
emularem e competirem com os dous povos da peninsula iberica? No
dispunham egualmente de homens habituados aos azares maritimos, de
temerarios chefes e soldados intrepidos para tomarem parte no movimento
assombroso e conquistador, cujas noticias causavam o espanto e a
admirao geral?

Que poderiam, porm, Francezes intentar quando seu rei, Carlos VIII,
vivia occupado em reunir  cora franceza a Bretanha, no desejo de
completar a obra de seu finado pai, Luiz XI, que anciara unificar a
Frana em um s reino? Quando, alm disso, iniciara guerras com Fernando
de Arago por ciumes de dominar a Italia, e apoderar-se de Napoles e
Sicilia? Atrevidos eram ainda como sempre o haviam sido os normandos,
marinheiros audazes, e pois, em despeito das ordens rgias, e apoiados
s em suas energias e temeridades particulares, comeavam
espontaneamente  devassar as aguas do Atlantico, seguindo primeiramente
os passos dos portuguezes pelas Costas da Barbaria e da Guin.

Adeantou-se-lhes, porm, Henrique VII de Inglaterra: resolvido 
partilhar as glorias de abrir caminho  seus subditos para a India,
convidou a um venesiano, de nome Joo Caboto e a seus filhos, residentes
em Bristol; autorizou-os  tripolarem navios, que seguindo como os
hespanhes o rumo de Oeste, descobrissem terras e dellas se apossassem
em nome da cora britannica. No perdeu Caboto tempo; aprestou navios, e
ousou viajar affoitamente, antes que terminasse o anno de 1496.
Foram-lhe propicios os ventos, e acertada a direco. Descobriu em
principios de 1497 terra na America Septentrional aos 58 gros de
latitude; encaminhou-se dahi para o Sul e verificou varios pontos;
chegando  bahia de Cheasepeake, aos 34 gros, no slo fixou postes
declarativos do dominio britannico. Voltou para Inglaterra levando  seu
bordo algumas madeiras e bastantes gentios. Pararam ahi por alguns annos
as exploraes por parte de Inglaterra, porque no resultavam da viagem
beneficios correspondentes s despezas effectuadas. Si fra Colombo o
primeiro que descobrira a America em 1492, e se apossara das ilhas do
mar das Antilhas; foi Caboto o primeiro europeu que avistou, em 1497, a
terra firme, bem que j no Haity se houvesse Colombo estabelecido e ahi
fundado a primeira povoao europa. Tanto, porm, um como o outro,
conjecturavam que tudo aquillo eram ilhas asiaticas e no propriamente
terra firme, ou um continente separado e novo.

Deixado este incidente, que muito esclarece, todavia, a historia do
descobrimento da America, acompanhemos  Colombo em 1498, na sua
terceira viagem executada, j depois da partida de Vasco da Gama, que em
1497 deixara a barra do Tejo, largando de Lisba, em busca egualmente
das Indias.

Com seus seis navios fundeou Colombo, segundo seu costume, na ilha
Gomera. A tres ordenou seguissem directamente para a cidade de Isabel,
no Haity. Com os outros tres, dirigiu-se para o Sul e arribou s ilhas
de Cabo Verde. Dahi caminhou para OSO., e a 31 de julho descortinou aos
9 gros de latitude terra desconhecida. Era a ilha que tomou o nome de
Trindade. Deslumbrando para o sul montanhas longinquas e que se perdiam
no espao, para ellas proseguiu sua rota, e achou-se deante de um canal
rodeado de rochedos e recifes.

Espantou-se de ver o mar, bem que no agitado por ventos, levantar-se em
ondas altanadas e subir e descer furiosamente, banhando terras cobertas
de vegetao robusta e deslumbrante.

Passou instruces aos commandantes dos navios e aos pilotos para se
acautelarem contra as correntes e impetos das vagas, emquanto elle
tratava de examinar o phenomeno.

Ordenou que das lanchas lanadas ao mar se examinasse seu fundo.
Provadas as aguas, percebeu-se que eram doces inteiramente. Comprehendeu
logo que se precipitavam alli rios caudalosos, que s de terras vastas e
no de pequenas ilhas podiam nascer to possantes e to abundantes.

No se enganava. Alli rebentava o famoso Orenocco por suas numerosas e
tumultuarias boccas, despejando aguas altivas no Oceano e fazendo recuar
as salgadas do mar, prestando assim gosto adocicado s vagas e causando
esse phenomeno de elevaes extraordinarias, de correntes perigosas e de
ondas assoberbadas.

Communicou com a terra e pelos seus interpretes, que se entenderam com
os gentios, soube que penetrara no golpho denominado Pari, que o paiz
era cultivado, e os indigenas mansos.  ponto ainda duvidoso si
desembarcou ento o proprio Colombo, ou si apenas mandou pisar o
continente por seus officiaes. Como quer que seja, avistou emfim a terra
firme, travou relaes com os indigenas, presenteou aos caciques com
innumeras bugigangas e vestimentas coloridas, e recebeu em troca fios de
perolas, que diziam os naturaes vinham do Oeste. Maravilhado e
satisfeitissimo, continuou sua viagem, tratando de sahir do golfo em que
se achava. Deparou caminho pela Bocca do Drago, e penetrou no mar das
Antilhas: numerosas ilhas se lhe apresentaram ainda. A costa do Pari
seria ainda uma ilha, ou era j parte do continente das Indias que por
alli se estendiam? Posto que mergulhado em duvidas, tomou as alturas,
verificou as localidades, e tratou de recolher-se ao Haity, para mais
tarde e acuradamente proceder  escrupulosa explorao.

Chegado  Isabel, soube que seu irmo Bartholomeu fundara uma nova
cidade ao sul da ilha,  qual dera o nome de S. Domingos, nas
proximidades das minas de Hayna, e que resultados mais compensadores
alcanavam suas fadigas, tendo-se extrahido j bastante ouro. Para
l partiu incontinenti Colombo, e converteu S. Domingos em sde do
governo. Fundaes de novas aldas e fortes militares determinou tambem,
assegurando assim a posse da ilha e curvando os gentios a seu governo.
Concedeu a uns liberdade, com obrigao de pagar tributos; declarou
captivos os remissos, e empregou-os nos trabalhos da minerao. Quanto
aos prisioneiros de guerra, perseverou no systema de envial-os para
Hespanha, afim de l se venderem como escravos.

No viviam, porm, tranquillos os hespanhes; intrigas, tumultos, rixas
entre si, ameaas de revoltas, tinham roubado muito tempo  Bartholomeu,
durante a ausencia de seu irmo. A presena deste no extinguiu as
tentativas sediciosas. Um capito, Roldan, havia levantado o estandarte
da rebellio, e  frente de gente bastante tinha-se fortificado em um
posto militar, atacando dahi e assaltando as povoaes hespanholas
vizinhas, e incitando as tribus de gentios a se no resignarem ao
jugo dos hespanhes, que muitas eram e dirigidas todas por caciques
particulares. Foi o almirante compellido a guerrear de novo.  frente de
numeroso corpo de soldados e servindo-se de ces de fila, e agora tambem
de cavallaria, de que j dispunha, e que muito assustavam e maltratavam
os gentios, dirigiu-se s possesses do cacique Guarionez e desbaratou-o
completamente. O mesmo no pde, porm, fazer no tocante aos revoltosos
hespanhes capitaneados pelo chefe Roldan. Conjecturou ser melhor
politica transigir e conciliar-se, fingindo acredital-o arrependido de
haver-se levantado contra Bartholomeu, que elle accusava de injustias
praticadas.

Era um bravo e ousado soldado, que Colombo poderia conter com geito, e
aproveitar para emprezas de vulto, bem que dahi podesse resultar quebra
de seu prestigio. No seria mais desastrosa uma guerra civil, caso o
tratasse como qualquer outro rebelde e elle resistisse, como se deveria
temer?

Cumpre aqui dizer que o ouro e perolas enviadas para Hespanha, e as
communicaes officiaes feitas por Colombo de que descobrira as terras
opulentas do Golfo do Pari, e que dahi esperava colher copiosas
riquezas, incitaram os animos de muitos audazes aventureiros, que se
propuzeram logo aos reis catholicos para  suas expensas particulares
emprehenderem descobrimentos novos. No annunciara o governo que
concederia patentes para suas emprezas? Animava-os, alm disso, o bispo
Fonseca, e  um delles, Alonso Ojeda, seu protegido, antigo companheiro
e subordinado de Colombo, mas de quem agora se manifestava inimigo,
concedeu-se carta rgia patente para por sua conta aprestar navios e
explorar continentes novos.

Quatro caravellas aprestou Ojeda, e partiu do porto de Santa Maria,
defronte de Cadiz, em maio de 1499, levando como seus socios e
companheiros um basco atrevido, por nome Joo de la Csa, que aprendera
s ordens tambem de Colombo, e o florentino Americo Vespucio, que
residia em Hespanha, e era muito applicado  estudos cosmographicos e 
confeco de cartas maritimas, e ambiciosissimo de tomar parte em
expedies da India. Foi esta a sua primeira viagem, sob o commando de
Ojeda, bem que elle em cartas particulares, que se publicaram, e que
muito teem illudido os historiadores, declarasse falsamente que j em
1497 viajara nas Indias Occidentaes: com quem e quando, nunca exhibiu
provas e nem deu ou deixou o menor esclarecimento, cahindo em
contradices palpaveis, e em inexactides  respeito dos gros de
latitude, o que prova imaginara e no vira com seus olhos. Conseguiu
Ojeda do bispo Fonseca cpia do roteiro da terceira viagem de Colombo, e
dirigiu-se inteiramente por elle. Descahiu um pouco para o sul, e,
segundo affirma, descobriu terras que se conjecturam ser as Guyannas,
bem que credulos escriptores pensem ter elle chegado ao Brazil. Volveu
das Guyannas para o Norte, sem ter ultrapassado a linha, como elle
proprio o assevera. Atravessou o golfo de Pari, e foi cosendo-se com a
terra firme. Desembarcou perto da Bocca do Drago, e encontrando
valentes oppositores nos gentios, travou com elles combates
sanguinolentos, e perdeu bastante gente. Continuou, e ao entrar no golfo
de Venezuela, simularam os indigenas que o acolhiam amistosamente,
levando para bordo dos quatro navios hespanhes cerca de vinte mulheres.
Confiadamente desceu  terra Ojeda. Foi ento assaltado repentinamente,
e com difficuldades inauditas pde voltar para seus navios. Revelaram-se
os indigenas valentes lidadores, e usavam de flexas, escudos e lanas,
batendo-se com alguma estrategia, e matando bastantes soldados adversos.

Proseguindo em suas aventuras, sem nenhum proveito, chegou ao Cabo da
Vela: faltando-lhe viveres, dirigiu-se ao Haity, quando recebera ordens
positivas em Hespanha para l no desembarcar nessa ilha que era
privativa de Colombo.

Que decepo apoderou-se de Colombo ao saber que navegavam hespanhes
por aquellas aguas e terras que elle reputava de seu governo e que
lhe no prestavam preito e homenagem! No infringira a Cora hespanhola
seus contratos concedendo-lhes licenas? No se lhe desprestigiava a
autoridade?

Quantas difficuldades, perigos e desgostos para Colombo! No lhe
bastavam as permanentes sedies de rebeldes hespanhes contra sua
dominao. No se haviam levantado Guemara e Moxica em 1500? Moxica e
seus companheiros haviam sido condemnados  morte e executados, e
Colombo precisava tornar-se mais severo e inexoravel com os
conspiradores. Felizmente para Colombo, occupou-se Ojeda em concertar
seus navios e refazer-se de viveres e aguada, e voltou para Hespanha sem
causar-lhe o menor desgosto.

As noticias, porm, que  Hespanha chegavam  respeito da situao do
Haity, das sublevaes alli verificadas, e dos actos rigorosos que fra
Colombo compellido  commetter, suscitaram de novo clamores do povo
contra Colombo, e impressionaram forte e desagradavelmente a propria
rainha Isabel  seu respeito. No ouvia ella smente queixas de
seus inimigos e relatorios parciaes do bispo Fonseca? Por elles julgou
conveniente decretar uma providencia destinada  syndicar o procedimento
de Colombo, e  averiguar a verdade das accusaes, que constantemente
se lhe dirigiam. Nomeou  Bobadilha para seu representante nas Indias
Occidentaes, e muniu-o de plenos e geraes poderes para castigar quantos
julgasse criminosos, e retirar at das mos de Colombo o governo da
colonia, caso o considerasse indispensavel.

Em julho de 1500 partiu Bobadilha para o Haity.

Apenas desembarcado em S. Domingos, chama as autoridades, mostra-lhes
seus plenos poderes, e declara-se na posse das conquistas,
aproveitando-se da ausencia de Colombo e de seu irmo, que estavam no
forte distante da Conceio.

Todos curvam-se  sua voz e s ordens rgias. Manda ento Bobadilha
intimar  Colombo para que venha defender-se de accusaes que contra
elle haviam sido endereadas  Cora. No se temeu Colombo de
partir para S. Domingos. Bem, todavia, no havia chegado, foi preso com
seus irmos e amigos, carregados todos de ferros, e encarcerados em uma
fortaleza. Processos se organizaram, ouviram-se como testemunhas quantos
se suspeitavam adversos ao almirante. No houve crime de arbitrio,
tyrannia, concusso, ou roubo que lhe no fosse imputado. Embarcados em
uma caravella foram Colombo e seus companheiros de infortunio mandados
para Hespanha, com ferros aos ps, e ordens para serem vigiados por
guardas, quaes ros de horrorosos attentados. Assim pagavam os reis de
Hespanha  Christovam Colombo seu grande feito de descobrir um novo
mundo!




QUINTA CONFERENCIA

12 de julho de 1891


Entramos no seculo XVI. Resplendia elle, e corria seu primeiro anno, o
de 1500.

Devia, com certeza, ter-se fundamente impressionado a Europa com as
novas continuadas de expedies effectuadas por hespanhes e portuguezes
em mares nunca at alli devassados, e descobrimentos de terras
inteiramente desconhecidas.

Portugal comeara ao principiar o seculo XV. Unica nao persistira,
durante elle, em aprestar e atirar ao oceano uns apoz outros navios.
Tinha conseguido desencerrar os segredos dos mares; tinha conseguido
dissipar os terrores da zona torrida, corrido a costa d'Africa para
o sul, dobrado--primeiro povo--a linha equinocial, e attingido e
reconhecido emfim o Cabo da Boa-Esperana, ao sul, aos 34 gros de
latitude. Abrira, portanto, o commercio da Guin e da Mina, e
avassallara as copiosas ilhas, que desde os Aores ramalhetam o
Atlantico, em ambos os hemispherios. Hespanha comeara, em 1492, 
explorar continentes novos, sob a direco de Christovam Colombo, e
alcanara no curto espao de oito annos penetrar no mar das Antilhas,
dominar importantes ilhas e avistar a terra firme do Pari e Venezuela.

Estaria s  Hespanha e  Portugal destinada a gloriosa tarefa de
retalhar os mares, deparar terras novas, aperfeioar as sciencias
mathematicas e physicas, abrir relaes commerciaes com povos
desconhecidos? E o que  mais, gravar na historia universal as paginas
mais deslumbrantes e proveitosas para a civilisao e a humanidade?

Certo  que,  excepo de Inglaterra, que em 1497 fixara marcos de
posse na costa Norte-Americana, graas s ousadias dos Cabotos, mas
que ahi parara, nada mais promovendo; nem a Frana com seus destemidos
marinheiros normandos, que durante a edade mdia assolavam as praias de
Hespanha, Portugal, Napoles e da Sicilia; nem qualquer outra nao
europa se movia ao raiar do seculo XVI, primeiro dos tempos chamados
modernos,  seguir-lhes o exemplo.

A cora hespanhola firmara o principio de concesses  particulares que
proseguissem na carreira das exploraes, entendendo que era mais
conveniente politica aproveitar-se dos seus trabalhos, sem dispendios,
antes com vantagens para o thesouro.

Logo aps Ojeda, quatro novos argonautas partiram de Hespanha, e no
mesmo anno de 1499, Pedro Alonzo Nino, Leppe, Bastides e Vicente Pinzon,
munidos de cartas patentes de concesso. Colombo aprendera na escola
maritima portugueza. Creara, porm, em Hespanha, ao devotar-se ao
servio das coras de Castella e Arago, uma escola notavel egualmente
de marinheiros intrepidos e arrojados, que emulavam briosamente com
os portuguezes. Tanto Ojeda e os Pinzons, como Leppe, Nino e Bastides
eram discipulos de Colombo; haviam sido seus companheiros de emprezas
ultramarinas, e servido sob suas ordens desde a primeira viagem de
descobrimento em 1492. Os feitos e a gloria de Colombo attrahiam para a
vida maritima muitos hespanhes ambiciosos que posteriormente
commetteram portentosas faanhas. Nino com uma s pequena caravella do
porte de 50 toneladas percorreu, em 1500, as costas de Venezuela e
Maracaibo; enriqueceu-se com perolas que em quantidade alcanara dos
gentios, e que levadas para a Europa suscitaram ainda mais a cubia.
Vicente Pinzon, sahido tambem de Palos em fins de 1499, foi o primeiro 
dobrar a linha equinocial para o sul, em afastada latitude, commandando
quatro caravellas. Navegando ento para o Oeste, descobriu a 28 de
janeiro de 1500,  varios gros de latitude sul, uma terra, que
denominou Santa Maria da Consolao, e que parece ser o actual Cabo de
Santo Agostinho.

Era terra do Brazil, bem que ainda seja hoje duvidoso, si o Cabo de
Santo Agostinho, na provincia de Pernambuco, ou outro mais ao norte,
porque nos assentos do diario de bordo se no fixou exactamente a
latitude, e apenas um calculo approximado. Foi, portanto, Vicente Pinzon
o primeiro a avistar e pisar o continente brazileiro. No tocante 
Ojeda, pelo seu proprio jornal maritimo e por suas declaraes no
processo judiciario dos filhos de Colombo contra a Cora, ultimamente
publicado, resulta prova de que no passou a Equinocial para o sul.
Pinzon tomou posse, em nome dos reis de Hespanha, das terras que
avistara. Encontrando depois numerosos indigenas, que lhe resistiram com
denodo e lhe mataram dez homens da tripolao dos navios, teve que
abandonar o sitio e seguiu para NO. Achou-se em um mar de agua doce, sob
a linha equinocial, ahi descortinou tambem terras opulentas de arvoredo
e reconheceu que estava nas boccas de um rio caudaloso, com mais de
trinta leguas de largura. Era o nosso Amazonas, cujas aguas,
entranhando-se nas do oceano, e repellindo-as com fora, subiam e
desciam a olhos vistos, levantavam vagas monstruosas, e roncavam com
medonho estampido. Saltou ahi em terra, e no encontrando opposio dos
gentios, apanhou por surpreza  muitos que embarcou nos navios, seguindo
logo depois para o Pari. Um terrivel tufo causou o naufragio de duas
de suas caravellas. Salvaram-se  custo as restantes, que aportando
felizmente ao Haity, dahi voltaram em setembro para Hespanha. Bastides
no passou do golfo do Pari, bem como Leppe, posto que este declarasse
em seu jornal de bordo que vira o hemispherio sul, quando confessa no
tomara os gros de latitude. Dahi deriva-se haver muitos chronistas
assegurado que elle avistara o Brazil. Dando noticia das boccas de um
rio caudaloso, em que quasi se perdera, conjecturou-se ser o Amazonas,
quando deve ser o Orinoco, pois que, nenhum documento apparece que prove
haver Leppe ultrapassado a linha equinocial.

Emquanto assim e unicos navegavam os Hespanhes pelos mares do Oeste,
no cessavam, por seu lado, os portuguezes de continuar em
descobrimentos ultramarinos para as bandas do Oriente. Em 1497 partira
Vasco da Gama, e voltara para Lisboa em 1498, aos 29 do mez de agosto.
As verdadeiras Indias haviam por elle sido descobertas, o mar Vermelho,
o golfo Persico, Calicut e a costa do Malabar; Sofala, Moambique,
Melinde, Mombaa na Africa Oriental. No contente ainda El-Rei D. Manoel
com as Indias encontradas por seus marinheiros, mandou que Corte Real,
em 1500, praticasse uma excurso ao Norte pelo Atlantico no proposito de
acompanhar os hespanhes ao Oeste. Avistou este explorador a costa do
Labrador, e o rio S. Loureno. Em segunda viagem, a que de novo se
arriscou, enterrou-se nos gelos do polo Norte, e ahi pereceu
desastradamente, sem que nenhumas noticias delle se recebessem.

 9 de maro de 1500 largara tambem de Lisboa Pedro Alvares Cabral,
commandando armada importante, afim de continuar as exploraes de Vasco
da Gama. Fugindo das calmarias da Africa Occidental, e pondo-se ao largo
e ao O. para mais ao sul demandar o Cabo da Boa-Esperana,
descobriu no dia 22 de abril as terras do Brazil. Achava-se defronte do
Monte Pascual na provincia da Bahia, aos 17 gros de latitude.
Desembarcando os portuguezes no dia 23, travaram relaes com os
indigenas que pareciam mansos, e tomaram tambem posse da terra. Nella
demoraram-se alguns dias, e deram-lhe o nome de Vera Cruz.

Allegou Hespanha seus direitos  terra do Brazil, descoberta antes e ao
N. por Vicente Pinzon: mas por convenios diplomaticos, e em considerao
do estipulado no tratado de Tordesilhas de 1492, abriu delles mo,
considerou-a conquista portugueza, e prohibiu a seus navegadores que no
futuro para ahi se dirigissem.

Nem Colombo, nem Caboto, nem Ojeda, nem Corte Real, nem Pinzon, nem
Cabral, acertaram jamais no conhecimento e apreciao das terras que ao
Oeste da Europa e da Africa haviam descoberto. Continuaram todos na
crena de que eram ilhas sino costas da Asia, e portanto as
denominavam constantemente de Indias Occidentaes, e a seus habitantes de
indios.

Ninguem adivinhava que entre a Asia e a Europa existisse um continente
novo, inteiramente ento desconhecido, habitado por uma raa diversa, e
onde ao lado de selvagens bravios e anthropophagos e selvagens mansos e
innocentes, residiam naes civilisadas como os Incas do Per e os
Aztecas do Mexico!

Si Hespanha vangloriava-se com os descobrimentos de terras occidentaes
praticadas por Christovam Colombo, oppunha-lhe Portugal agora os das
Indias Orientaes, effectuados por Vasco da Gama. Eram os dous grandes
vultos, cuja fama rivalisava, e que espantavam a Europa com seus feitos
gigantescos. Si aps Colombo, denodados Hespanhes, como Ojeda, Vasco
Nunez de Balbo, Fernando Cortez e Francisco Pizarro ganharam-lhe
importantissima parte do continente Americano, e conquistaram at reinos
civilisados como os do Mexico e Per, ao lado e no centro de povos
barbaros; Bartholomeu Dias no se manifesta tambem arrojado
navegador, e no commettera faanha reconhecendo o Cabo das Tormentas?
Duarte Coelho, Francisco de Almeida, Affonso de Albuquerque e Joo de
Castro no perscrutaram e avassallaram as verdadeiras terras indiaticas,
no submetteram as naes poderosas e opulentas do Malabar e golfo
Persico de Malaca? No levantaram na Asia um assombroso imperio portuguez?

Deviam, portanto, ao saberem dessas excurses prodigiosas de Portuguezes
e Hespanhes, incitar-se os espiritos interesseiros dos povos europeus.
Manifestou-se de feito um tal qual movimento, ao principiar o seculo
XVI, para que Portuguezes e Hespanhes no fossem os unicos que
dominassem o mundo at alli ignorado. Que importava que os feitos dos
filhos da Iberia produzissem admirao e espanto, formassem verdadeiras
epopas? Francezes e Inglezes e Hollandezes achariam tambem theatro
vasto para empregarem sua actividade e satisfazerem suas ambies. Havia
espao para todos. Convinha no se conservarem tranquillos espectadores
do movimento. De 1500 em deante entraram, pois, em scena Inglezes,
Francezes e Hollandezes, em procura tambem de conquistas ultramarinas, e
particularmente na parte Norte da America e entre o Orinoco e o Amazonas
conseguiram plantar estabelecimentos e firmar posses de terras.

Emquanto se preparam ou se desenvolvem os acontecimentos, que temos
referido, bem que paream estranhos  primeira vista, mas que estudados
coincidem e explicam os relativos  Colombo e ao descobrimento da
America, prosigamos na narrativa de sua priso e remessa para Hespanha.

Chegara, em 1500, a Cadix, aps viagem curta, o navio, que conduzia
preso a Colombo. Nada mais natural que a mudana repentina das
impresses dos animos populares. A opinio corria em Hespanha
desfavoravel  Colombo, accusado por quantos Hespanhes regressavam do
Haity, despeitados de se no terem enriquecido, quando haviam partido da
patria arrastados pela ida de um Eldorado certo e immediato, que
lhes compensaria os trabalhos e sacrificios. Ninguem o defendia, e
secretas se guardavam suas communicaes officiaes, noticiando-se,
apenas, seus procedimentos que pareciam tyrannicos.

Ao vel-o, porm, os moradores de Cadix, desembarcar preso, com ferros
aos ps, em andrajos despreziveis, e ser transportado da caravella que o
trouxera para o calabouo dos grandes criminosos, lembraram-se de subito
do quanto elle havia praticado de importante e portentoso, descobrindo
as Indias Occidentaes, lanando gloria imarcessivel sobre Hespanha, e
creando uma escola de marinheiros e exploradores, que levavam a bandeira
rgia aos confins da terra! Quantos o accusavam at alli comearam por
delle apiedar-se, observando sua situao do momento; no tardaram em
tomar seu partido, e em declarar-se contrarios aos que o perseguiam!

Modificou-se assim de novo em Hespanha a opinio publica, sem que
esperasse informao, nem esclarecimentos, nem provas; por instinctos de
justia, porm; por opposio  violencias,  arbitrios e
despotismos. Um grito unisono soou desde Cadix at s mais distantes
cidades e povoaes dos dous reinos de Castella e Arago.

Logo que soube do acontecimento em Granada, onde estava ento a Crte
hespanhola, mostrou-se pezarosissima a rainha Isabel e arrependida do
que havia praticado. Tratou incontinente de remediar o mal, passou
ordens terminantes para Cadix, afim de soltarem-se os presos vindos de
S. Domingos; mandou entregar  Colombo a quantia de dous mil ducados,
pois que devia carecer de dinheiro, e por seu proprio punho
escreveu-lhe, convidando-o a dirigir-se  Granada, afim de explicar-lhe
os desgraados successos, que tinham motivado to desagradaveis
occurrencias.

Cumpriu Colombo a ordem de Isabel, satisfeito por lhe ser dirigida to
distincta demonstrao de affecto da Rainha. Cumpre dizer aqui que 
bordo j o commandante da caravella o tratara cordial e respeitosamente,
e quizera tirar-lhe dos ps os ferros que o apertavam e opprimiam: elle,
porm, o no consentira, declarando que obedecia ao que haviam os
reis de Hespanha ordenado  Bobadilla, como seu delegado, e s uma nova
deciso rgia poderia allivial-o dos seus soffrimentos.

 curioso ler-se ainda em um escripto de Fernando Colombo, publicado
posteriormente em Hespanha, que no seu gabinete em Sevilha tinha
pendurados s paredes aquelles ferros que manietaram a seu pae desde S.
Domingos at Cadix, e que este lhe pedira que  sua morte fossem com seu
corpo encerrados na sepultura, que se lhe abrisse. Seria invento do
filho para gloriar o pai? Posto que em nenhuma das obras impressas 
respeito de Colombo se falle deste incidente, e nem do destino que os
ferros tiveram,  verosimil a narrativa, desde que se estuda o caracter
altivo e o espirito heroico de Colombo.

Acolheu-o a Rainha benevolamente no magestoso edificio do Alhambra,
antigo palacio e fortaleza dos Arabes, edificado sobre montes apraziveis
ao lado da cidade de Granada, e dominando uma formosa e extensissima
veiga, entrecortada pelos dous rios Darro e Xenil, verdadeira maravilha
da architectura! No lhe permittiu que se lhe lanasse aos ps;
levantou-o e affirmou-lhe sua confiana e amizade com palavras
repassadas do maior sentimento. Assegurou-lhe egualmente que jmais elle
desmerecera do seu conceito e que ella continuaria a dar-lhe provas do
seu affecto.

Destituido foi logo Bobadilla da sua commisso, e mandado recolher 
Hespanha; nomeado Ovando para substituil-o no governo das Indias
Occidentaes, durante a ausencia de Colombo, com ordens expressas de
partir immediatamente. No tardou Ovando em seguir para seu destino, 
frente de imponente frota, no proposito de executar as ordens rgias em
seus dominios das Indias Occidentaes.

Reclamou, no entanto, Colombo autorizao de voltar para S. Domingos, e
auxilios poderosos com que pudesse dilatar os dominios de Hespanha nas
terras descobertas, convencido cada vez mais de que navegando ainda para
o Oeste encontraria por fim o continente da Asia, de que lhe pareciam
ser ilhas proximas os logares at ento reconhecidos. Prometteu
Isabel acceder-lhe aos desejos, logo que houvesse recebido noticias da
commisso confiada  Ovando, e se certificasse de que a ordem publica e
a autoridade legal se tinham restabelecido em S. Domingos. No pesaria
nessa resoluo da Rainha influencia de Fernando de Arago, que
considerava j dispensaveis os servios de Colombo, porque novos
argonautas hespanhes se applicavam,  seu exemplo, em excurses
exploradoras de terras, que, sem quasi sacrificios do thesouro,
continuariam e talvez completariam a obra por elle iniciada?

Qualquer que fosse a causa, certo  que arrastou-se muito tempo ainda
Colombo pela crte, sem conseguir satisfao a seus projectos. Durante
os longos dias que assim decorriam, antes que alcanasse deferimento,
lembrou-se de uma ideia antiga, que sempre lhe ruminava o espirito, e
que era a de libertar o tumulo de Jesus Christo em Jerusalem; propunha-a
constantemente  Rainha, e escrevia egualmente  respeito ao Summo
Pontifice de Roma, implorando-lhe as benos e a interveno
protectora para que podesse realizal-a! Ao terminar o anno de 1502  que
resolveu a Rainha deixal-o partir para as Indias Occidentaes, influida
pelos seus discursos de que era necessaria para Hespanha uma descoberta
que excedesse  de Vasco da Gama e  de Pedro Alvares Cabral, afim de
que a Hespanha se no deixasse sobrepujar pela nao portugueza. Quatro
pequenas caravellas se lhe confiaram de novo, de cerca de 60 toneladas
cada uma, tripoladas por 150 homens.

No era mais o poderoso governador de esquadras importantes: dir-se-hia
um aventureiro obscuro, como o fra na sua primeira viagem, e como o
haviam sido Ojeda e Pinzon. Recebia, comtudo, instruces para cuidar de
novos descobrimentos, dirigir-se  terra firme das Indias, pelo rumo de
Oeste, e abrir emfim relaes commerciaes entre ellas e Hespanha;
prohibia-se-lhe, porm, desembarcar no Haity, que convinha conservar-se
sob o governo de Ovando, suspensos, no entanto, por conveniencias
publicas seus direitos firmados nos contratos de 1492.

Resignou-se Colombo a to estranhas resolues. Que faria elle em
Hespanha, no querendo cumpril-as? Vegetaria vergonhosamente quando seu
genio incitava-o ainda para grandiosos emprehendimentos, e no o
interesse, mas a gloria, a anciedade de gloria, o transportava,
inspirava e electrisava?

Em maio de 1502 partiu do porto de Cadiz, para executar sua quarta
viagem s Indias Occidentaes. Estava j avelhantado, contava entre 60 a
70 annos de edade, e mostrava-se reduzido de corpo, e depauperado de
foras physicas. Era alimentado quasi exclusivamente pelas faculdades do
espirito, que conservavam a robustez, a fora, a energia da primitiva
mocidade, sem que houvessem soffrido com as decepes, trabalhos e
soffrimentos. Demorou-se em Arzilla, ento possesso portugueza na costa
de Marrocos, e depois na ilha da Grande Canaria, que comeava a ser
frequentada e habitada pelos Hespanhes como sua propriedade. Refeitos
ahi os navios de viveres, seguiu o rumo de Oeste e deu fundo na ilha de
Martinica, ou, como pensam alguns chronistas, na proxima de Santa
Lucia.

Posto que contrariamente s ordens da Rainha, pensou que poderia tocar
em S. Domingos, para o fim de ahi deixar uma das caravellas muito
ronceira e deteriorada, e em seu logar receber outra com que pudesse
proseguir nas emprezas que lhe estavam confiadas.

Mandou Colombo a S. Domingos um dos seus officiaes pedir a Ovando
autorisao para trocar uma das suas caravellas, arruinada e incapaz de
navegar, e declarar-lhe na mesma occasio que tinha necessidade tambem
de receber viveres.--Acredital-o-heis?--Prohibiu-lhe Ovando que se
approximasse de S. Domingos!--Era assim expellido brutalmente das terras
de que se reputava pelo seu contrato com a cora governador exclusivo e
almirante!--Mandou de novo Colombo supplicar  Ovando que permittisse,
pelo menos, que se abrigasse no porto durante uma tempestade que
ameaava, que elle percebia imminente, e que poderia causar a perda de
seus pequenos e miseraveis navios! At para to legitima supplica
foi-lhe denegada a licena!

Como no transbordaria de dr e de indignao sua alma, to susceptivel
de todos os sentimentos compassivos? Como encararia essa ingratido de
homens para com elle, que honrara e gloriara Hespanha com seus feitos
memoraveis! Para com elle que fra chefe e mestre de todos esses entes
secundarios, que agora dominavam!

No teve remedio sino fazer-se ao largo com suas caravellas: mas como
pela experiencia maritima antevia a exploso de temporaes, e
particularmente dos daquellas paragens, procurou logo o primeiro
escondrijo da ilha, e uma enseada occulta onde se abrigou contra a
tormenta que approximava.

Ella no faltou  seus calculos previdentes. O proprio porto de S.
Domingos presenciou o naufragio de varias caravellas; a frota hespanhola
que dalli sahira dias antes, e em que se embarcara para Hespanha
Bobadilla, perdeu a maior parte de seus navios; o proprio Bobadilla
exhalou a vida no seio das vagas em que foram as embarcaes
submergidas.

Amainado o tempo, proseguiu Colombo, e achou-se defronte do Cabo de
Honduras, no fundo da bahia. Desembarcou, tomou posse em nome da
Hespanha, e travou relaes com os indigenas. Pisava em terra firme
Americana, e pensava ainda achar-se nas Indiaticas! Correu depois a
costa para Lste acompanhando-a; chegou ao Cabo de Graas  Deus, e dahi
seguindo para o Sul encontrou o territorio de Mosquitos e mais longe a
Costa-Rica. Em poder dos gentios com quem relacionou-se, viu copiosa
quantidade de ouro em joias, coras, braceletes, que elles trocavam por
ninharias europeas, declarando que era o solo abundante desse metal
precioso. Da Costa-Rica assim por elle denominada por causa das
noticias, navegou ao longo de Nicaragua e Veragua at Porto Bello e
Golfo de Darien, procurando uma passagem para o Oeste. Desenganado de
que a no encontrava ainda, regressou para Veragua, por lhe parecer a
localidade mais apropriada para a fundao de uma colonia europa,
e para ahi descanar algum tempo, concertar suas caravellas
bastantemente deterioradas e refazer-se de viveres.

Pde-se dizer que seus sonhos de ouro de descobrir as verdadeiras Indias
comeavam  esvaecer-se e evaporar-se quaes verdadeiras chimeras! Via s
terras habitadas por selvagens, no deparava as cidades opulentas, o
commercio importante das Indias, da China, das ilhas do Japo, como o
haviam descripto os viajores que da Europa, Egypto e Jerusalem haviam
penetrado no interior da Asia! E por mais que procurasse o occidente
esbarrava em regies incultas e desprovidas de toda a civilisao! E
entretanto aquellas ilhas, aquelle continente eram a Asia, porque se no
conhecia outro solo que se lhe interpuzesse deante da Europa! Aoutado
pelos ventos, empurrado pelas correntes, dirigindo caravellas
imprestaveis e estragadas pelo tempo e pelos mares, manobrava, todavia,
posto que velho, com aquella pericia, que o distinguira no meio dos mais
perigosos parceis.

Em Veragua deparou um excellente porto banhado por um rio navegavel, ao
qual deu o nome de Belm. Devia o solo conter ouro, e ser o sitio
apropriado para descanar das fadigas maritimas, que j agora tanto lhe
pesavam! Resolveu-se a edificar ahi uma povoao hespanhola, que
servisse  projectos futuros.

Escolhido o local, desembarcou com sua gente, e applicou-se  edificao
de uma cidade, fortificada convenientemente e sita s ribas do rio.
Acolheram-no agradavelmente os indigenas ao principio; pouco tempo,
porm, depois, mudaram de procedimento, assaltaram-lhe a povoao, e bem
que repellidos voltaram por varias vezes como inimigos francos. Pensou
Colombo que lhes imporia a paz com a fora de armas; collocou-se 
frente de setenta e cinco homens, e assaltou-os em sua alda mais
proxima. Destroou-os em luta pertinaz e arrasou-lhes quasi inteiramente
a alda. Difficil, porm, tarefa a de domar gentios to destemidos, e
que pertenciam  raa valente dos Caraibas, tanto mais audaciosos quanto
do interior precipitavam-se hordas e hordas no intuito de se
soccorrerem, e auxiliarem. E como poderia Colombo resistir-lhes com um
to pequeno numero de hespanhoes, bem que suas armas de fogo e seu
denodo e valentia o amparassem? Preferiu abandonar seus intentos de ahi
fixar uma povoao europa, que no poderia sustentar-se por muito
tempo. Embarcou-se de novo, agora decidido a voltar para a Hespanha, e a
exigir melhores embarcaes e mais poderosos elementos com que podesse
proseguir em seus designios. No perdera ainda as esperanas de dilatar
sua gloria por novos feitos que praticasse! Um temporal, porm, o
assaltou logo depois da partida de Veragua. To maltratados ficaram seus
navios, que o almirante com dr reconheceu-os innavegaveis. Faziam agua
por todos os poros; no havia meio de segurar-lhes as costuras; a cada
momento ameaavam naufragar, e nem dia nem hora e nem minuto tinham de
descano os navegantes occupados em esgotar as embarcaes que se
afundavam  olhos vistos.

Difficultosamente arribou  Jamaica. Examinando com cuidado o estado das
caravellas, percebeu-as perdidas de todo, incapazes at de arrostar
aguas tranquillas. No havia para ellas salvao, qualquer que fosse a
viagem. No descobriu remedio sino em abandonal-as por impossivel o
concerto. Conhecendo quanto eram bravios os indigenas da Jamaica, no
ousou desembarcar. Formou plano novo. Enterrou nas areias da praia as
suas caravellas, para que ao menos lhe servissem de morada. Encalhadas
assim e firmemente, para o convez transferiu os depositos de armas e o
resto de mantimentos e munies, e ahi armou leitos para si e para a
tripolao, como casas improvisadas. Por este modo poderia conter os
indigenas e defender-se quando assaltado, em quanto lhe no viessem
soccorros do Haity. Mandou apromptar a melhor lancha de bordo, nella
embarcou intrepidos navegantes e incumbiu-lhes fossem  S. Domingos
pedir embarcaes, que o viessem buscar, compromettendo-se com Ovando
que no lhe disputaria o governo da ilha, e s queria navio, em que
podesse recolher-se  Hespanha. Pediu-lhes toda pressa em trazer-lhe
auxilios, e animou-os  seguir a costa meridional do Haity at chegar 
S. Domingos.

 mais facil que imagineis do que me seria pintar-vos os soffrimentos do
infeliz almirante: doente e obrigado a apasiguar a uns, consolar a
outros, animar os companheiros prostrados, desesperados, irritados, que
delle se queixavam, imputando-lhe temerarias e fantasticas emprezas. No
menos de duas revoltas francamente irromperam; resultou de uma que se
embarcaram cerca de vinte e cinco sediciosos em escaleres e canas de
gentios, e atiraram-se aos mares para se acolherem  S. Domingos, sem se
importarem com o commandante e companheiros que deixavam. Ao segundo
motim conseguiu Colombo oppr resistencia, e feriu-se combate  bordo
dos navios encalhados; abandonados estes pelos sediciosos, foi mister
continuar a luta em terra,  vista dos gentios que se espantavam de
assistir  brigas entre os invasores. Houve mortes de parte 
parte, mas Colombo venceu e sustentou ainda sua autoridade!
Exasperava-se, todavia, porque mezes e mezes estavam decorrendo sem que
lhe viesse resposta de S. Domingos! Mais penosa e attribulada tornava-se
ainda sua situao, smente alimentando-se com os vegetaes e fructas,
que por bem ou ameaas conseguia dos indigenas!

Felizmente que de S. Domingos chegou, no fim de um anno de soffrimentos
na Jamaica, uma pequena embarcao que se conseguira fretar, destinada a
receber  seu bordo Colombo e os tripolantes dos navios naufragados!
Seguiu ento para S. Domingos; ahi recebeu-o Ovando convenientemente, e
prestou-lhe uma caravella em que seguisse viagem para Hespanha.

Que sentimento, que dores agudas no supportou Colombo, revendo a terra
que elle tanto amara, curvada agora pela mais terrivel tyrannia e
perseguidos e maltratados os gentios como animaes bravios! Tanto
Bobadilha como seu successor Ovando tratavam exclusivamente de escavar o
solo, procurando minas de ouro.

Para conseguir melhor seus intentos, aprisionavam indigenas,
obrigavam-n'os  fadigas superiores s suas foras, atormentavam-n'os
com castigos atrozes, trucidavam-n'os  menor relutancia. No parecia
sufficiente o arbitrio e violencia da autoridade official. A horda
hespanhola existente na ilha, famelica de riquezas, visionaria de
opulencias, atirava-se s minas por si e por sua conta particular,
arrastados pela avidez de arrancar-lhes o thesouro. Para realizar seus
desejos no s escravisavam por seu lado, como com castigos barbaros
obrigavam os desditosos selvagens  trabalho excessivo  que no estavam
acostumados; resultava-lhes a morte mais ou menos apressada, conforme a
robustez dos corpos.

Taes foram os horrores praticados contra os infelizes indigenas, que a
voz eloquente de Las Casas acordou por fim os sentimentos religiosos da
Rainha. Impressionada Isabel com as noticias, ordenou que em vez de
escravisar os gentios, se mandassem buscar s costas africanas pretos
afim de os substituirem no captiveiro. Infelizmente s com a
extinco dos miseros americanos  que socegou a tyrannia dos invasores,
e se puderam executar as ordens rgias! Doze annos depois da descoberta
do Haity, cerca de um milho de naturaes haviam perecido, victimas da
cobia hespanhola, porque Ovando ao receber ordens rgias terminantes
para no escravisal-os, e para substituil-os por pretos arrancados 
Africa, entendeu que a segurana dos hespanhoes exigia a diminuio de
seu numero, e ento pretextando levantes e rebeldias delles, moveu-lhes
guerras continuadas, e permanentes assaltos. O exterminio augmentava de
frma que a olhos vistos desappareciam os mal aventurados indigenas!
Horrorisa ainda hoje a noticia da matana em massa denominada de
Xaragua, em que mais de tres mil, velhos, moos, mulheres, crianas,
foram esmagados  passos de cavallo, despedaados pelos ces de fila,
fuzilados pelos arcabuzes dos soldados, e cortados pelas espadas dos
hespanhoes, sem que se lhes attendesse s vozes implorando misericordia,
e sem que os gentios oppuzessem a menor resistencia quando
surprehendidos em sua alda!

Que arrependimento no seria agora o de Colombo! De que lhe servia a
gloria do descobrimento da America deante do painel tenebroso, que aos
olhos se lhe desfraldava! No fra o algoz dos americanos. Fra, porm,
quem ahi levara os carrascos para que exterminassem barbaramente uma
raa de homens innocentes e pacificos!

Desembarcado em Cadix, dirigiu-se Colombo para Sevilha, onde foi
obrigado a demorar-se alguns dias por se lhe aggravarem os padecimentos
physicos. Escreveu, no entanto,  Rainha, summariando-lhe os desastres
de sua ultima viagem. A morte inesperada de Isabel de Castella, em 1504,
cortou-lhe, porm, todas as esperanas de conseguir justia s suas
reclamaes. Estava pobre, e tinha sido despojado do seu governo e dos
seus bens no Haity. Logo que pde emprehender viagem, seguiu, todavia,
de Sevilha para Segovia  procurar D. Fernando de Arago, que, alm
do seu reino, governava como regente o de Castella, na ausencia da filha
D. Joanna, herdeira de Isabel. Bem que encontrasse frieza no acolhimento
que lhe fez o Rei, perseverou em suas supplicas, acompanhando-o a
Valhadolid.

Ahi suas molestias o levaram de novo ao leito, do qual se no levantou
mais. Morreu em 1506. Nem mesmo depois de perder a vida, ficou o cadaver
tranquillo no tumulo. Aps alguns annos seus herdeiros o transportaram
para Sevilha; tempos mais decorridos, para S. Domingos; ainda em 1795,
cedida pelos hespanhoes aos francezes a parte da ilha que possuiam,
transferiram-se os restos mortaes de Colombo para a de Cuba, onde desde
ento repousam.

Minhas senhoras e senhores.

At aqui historimos os factos: agora apreciemos o verdadeiro valor
delles, o resultado que o mundo colheu de to trabalhados e heroicos
esforos.

Muitos so e alguns excellentes os escriptores que tratam da America e
de Colombo, e em todas as linguas europas. Bibliothecas
importantes formariam as colleces de livros publicados  respeito. E
portanto varias verses, differentes apreciaes, contrarios juizos,
factos differentemente recontados e opposies manifestas, encontram-se,
desde os chronistas que s o cobrem de elogios at aquelles que procuram
a todo transe escurecer-lhe a memoria, e denegrir-lhe os creditos.

Soffreu numerosas injustias durante a vida. No menos clamorosas se
levantaram contra sua reputao depois de sua morte.

Para se lhe reduzir a memoria espalharam-se muitos escriptos destinados
 arrancar-lhe os louros que conquistara com seu genio, pertinaz audacia
e insoffrida temeridade.

Ousou-se negar-lhe at a gloria do descobrimento da America,
asseverando-se que antes delle outros haviam reconhecido o novo mundo, e
entre esses scandinavos pelo Norte do continente, e um piloto portuguez
que na Madeira fallecera ao voltar de viagens que praticara.

Que  das provas escriptas, dos vestigios deixados por esses
exploradores primitivos? Que  das narraes que elles fizeram? Como
antes de Colombo ninguem nisso fallou? Como nada constava ento na Europa?

Ainda da Atlantida de Plato encontraes o mytho, a legenda, que o grande
philosopho grego attribue aos egypcios, mas em que no acredita. Quanto,
porm, s viagens dos noruegos e islandezes, cumpre dizer que s depois
da morte de Colombo  que nellas fallou-se.  muito possivel que um ou
outro navegante daquelles mares, impellido pelos ventos e correntezas
das aguas, avistasse costas desconhecidas do Norte da America, sem as
ter procurado de proposito e de sciencia certa. Que provaria isso sino
o acaso? Como, porm, s se espalharam estas noticias depois que Colombo
baixara  sepultura? Entretanto inventaram-se lendas, imaginaram-se
sagas, decantaram-se expedies de aventureiros que da Groelandia se
communicavam com a America; minuciaram-se tradies, e fabricaram-se
noticias escriptas. Colheu Colombo ou qualquer outro navegante
esclarecimentos, indicios desses descobrimentos anteriores?--No, nada
delles se sabia, nem mesmo por meio de tradies oraes e que se
propalassem. Nem no solo americano vestigio se encontrara. E quando
ellas fossem reaes, no eram conhecidas.

O que  verdade e verdade historica,  que de nenhuns elementos por
elles colligidos, si  que existiram, se aproveitou Colombo para ousar
ir em busca das Indias. Inspirava-o s a certeza de que havia de
encontral-as, logo que era redondo o hemispherio terrestre. Fallam
alguns escriptores hespanhoes de um piloto portuguez que lhe deixara na
ilha da Madeira derrotas e itinerarios  que havia procedido, e de que
resultara recolher elle a noticia de terras novas ao oeste. Demonstram,
porm, o asserto, com documentos? No os teriam portuguezes publicado
quando acaso os houvessem encontrado? Quando mesmo alguma noticia
identica lhe chegasse aos ouvidos, perderia elle os direitos de
descobridor? Quantas vezes se apropria o genio inventor de
trabalhos anteriores de outros, mas confusos materiaes, e a elle se deve
a inveno e no aos antecedentes? Equivale o descobridor de terras ao
inventor. Assim Newton, assim Galileu, assim Leibnitz, assim Colombo. Do
feito de Colombo  que resultou para a Europa o conhecimento do novo
mundo. Antes delle tudo se ignorava.

Que importa que procurasse a Asia, e tomasse a America pela Asia? No
era a America inteiramente ignorada? Quem adivinhava ento que entre a
Europa e a Asia existia um continente to importante e dilatado?

Que importa ainda que, encontrados na America povos to distinctos, e
alguns to adeantados em civilisao como os do Mexico e os do Per, se
possa dizer que tinham havido communicaes entre elles e os de outras
partes do mundo? Com a Asia porventura? De l teriam vindo, 
presumivel, pelo Norte, aonde quasi se ligam Asia e America. No s os
monumentos como os traos physionomicos dos Mexicanos, Peruanos e outras
tribus coincidem. Como, porm, se deram essas migraes de povos,
quando se realizaram, eis questes sujeitas ainda  conjecturas mais ou
menos naturaes, no  juizo exacto e certo.

Da Europa, porm, antes de Colombo, jmais fra aberta navegao: no se
conhecia, nem se adivinhava a existencia da America. Quando muito o
saberiam os asiaticos, e estes no o communicaram nem aos gregos, nem
aos phenicios, nem aos romanos, nem aos egypcios. Seriam os chins, ou os
japonezes, que occupavam terras oppostas e que nem uma relao ou
contacto travavam com os asiaticos do Oeste, persas, judeus ou arabes?

Si ninguem sabia que havia America, em que desmerece seu descobridor por
encontral-a em caminho para a Asia? No ia elle no proposito firme de
procurar terras ignotas para os europeus?

No resultou do seu achado--appellidae assim o feito--que importa!--no
resultou gloria para o seu nome, e o que  mais, a maior vantagem moral,
social, politica, physica, intellectual para a Europa e para o mundo!

Na historia universal no raia pagina mais proficua e nem mais gloriosa.

Os passos de Colombo e dos hespanhoes seguiram depois na America
portuguezes, inglezes, francezes e holandezes. Devassando egualmente os
mares atlanticos, tomaram todos parte no continente descoberto: todos
colheram louros, todos conquistaram terras, que povoaram com suas raas,
mas no lhes cabe a gloria que compete exclusivamente ao primeiro
descobridor e  nao que lhe servia.

E quanto no ganhou a Europa, fundando cidades e Estados na America,
creando futuras naes independentes e civilisadas que guardam suas
tradies e suas linguas? Que como filhos a estimam bem que vivam vida
propria e livre?

Tentou-se ainda diminuir a gloria de Colombo com o facto de que elle
morrera persuadido de que descobrira as Indias Occidentaes e no a
America, isto , um mundo novo.

No morreu egualmente na mesma convico Americo Vespucio, o piloto que,
pela primeira vez, em 1499, e depois empregado em armadas
portuguezas, percorreu as costas da America central e as do Brazil, e
falleceu em 1512? O desenhador habilissimo de cartas geographicas, o
feliz mortal emfim, cujo nome coroou o novo mundo?

Como Colombo e quantos navegadores visitaram as terras americanas at
quasi 1520, a Europa inteira persuadia-se que a Asia para alli estendia
e prolongava suas costas maritimas do occidente, e no havia um
continente entre a Asia e a Europa.

Toda a Europa denominava at 1520 a parte da America descoberta de
Indias Occidentaes e pois seus indigenas de Indios. O proprio continente
brazilico passou por muito tempo depois de seu achado quer por Pinzon
quer por Cabral, depois de exploraes j effectuadas pelos portuguezes,
hespanhoes e francezes como uma enorme ilha assim descripta e pintada
nos mappas que se publicavam na Europa.

Para saber-se que era um mundo novo, mesmo depois que j hespanhoes,
portuguezes, inglezes, francezes e hollandezes, para alli navegavam,
alli traficavam e alli formavam presidios e colonias, foi preciso
que um audaz aventureiro hespanhol, Vasco Nunez de Balboa, subindo, em
1513, s altas montanhas do isthmo de Panam, daquelles cimos levantados
descobrisse o Oceano tranquillo ao Oeste, e das terras d'alm e dos
proprios mares tomasse posse em nome de Hespanha. Foi preciso que em
1519 o cavalheiro Cortez tivesse domado o imperio do Mexico; que em 1520
Magalhes,--portuguez no feito, mas no na lealdade--buscando egualmente
as Indias emprehendesse e praticasse, seguindo o isthmo, que ainda hoje
conserva seu nome, a primeira viagem em derredor do globo; que
finalmente o arrojado e sanguinario Pizarro encontrasse em 1527 o
imperio dos Incas na costa do Oceano Pacifico.

S de ento por deante  que se alteraram os mappas geographicos,
destacando-se da Asia o mundo novo, e particularisando-se como
continente proprio. E o primeiro _mappa-mundi_ que se desenhou assim,
com a separao da Asia e America, data de 1530; foi publicado em
Baulez, e attribue-se  Pomponio Mela, que applicou ao novo mundo o
titulo de America, deixando de denominal-o como at alli de Indias
Occidentaes por que era geralmente conhecido. Appellidou-o de America,
sem duvida, porque as melhores cartas geographicas da poca tinham a
assignatura de Americo.

Nem a Americo se deve attribuir a responsabilidade de to negra
injustia; chamava-a elle de Indias Occidentaes, como todos os seus
contemporaneos, e assim rubricava as cartas que espalhava com sua
assignatura.

Esta assignatura de Americo, nas cartas geographicas, causa foi de se
lhe dar seu nome, e no outro ao continente descoberto por Colombo.

Segundo a opinio de alguns geographos, foi um Martinho Waldizemuler que
em um tratado de cosmographia publicado em Saint Di, annos antes,
lembrara a conveniencia de chamar-se de America as Indias Occidentaes,
porque os melhores mappas e roteiros haviam sido por elle desenhados e
impressos.

Confirmaram o titulo as edies, que desde ento se repetiram, daquelle
_mappa-mundi_ de 1530, e que se derramaram profusamente, firmado o erro,
que o tempo consagrou, e que nunca mais se conseguiu corrigir, apezar de
haverem empregado bastantes esforos muitos afamados e eruditos sabios
da Europa.

No obsta ainda que antes que Colombo visse a terra firme e nella
pisasse, o houvesse effectuado o audaz Caboto, em 1497.

No eram partes da America as ilhas de Haity, Cuba, S. Salvador, Porto
Rico, Jamaica, Guadelupe, de que j Colombo se apossara, e onde fundara
fortes e at povoaes hespanholas? Podemos pela frma seguinte
estabelecer as datas dos descobrimentos da America: em 1492 Colombo; em
1497 Caboto; em 1499 Ojeda; em 1500 Pinzon, e logo aps no mesmo anno
Cabral e Corte-Real. Cabe a gloria de preferencia a Colombo, cabe-lhe
exclusivamente a gloria do descobrimento da America. Seu nome ligou-se
para sempre ao novo mundo, e nenhuma pretenso, por mais ousada,
conseguir roubar-lhe os louros, que lhe foram dispensados com toda a
justia. Todos os mais navegadores seguiram apenas seus passos, bem que
se distinguissem com faanhas dignas de memoria.

--Minhas senhoras e senhores!

Tenho concluido a misso que me foi confiada de conversar comvosco a
respeito de Colombo e do descobrimento da America, no momento em que
grandes festas se preparam em Hespanha, Chicago e Genova no intuito de
commemorar-se o quarto centenario do dia glorioso--12 de outubro de
1492, em que o novo continente raiou para Europa e lhe revelou sua
opulencia e suas grandezas. No tratei de narrar episodios, que a
legenda ajuntou  historia, pensando ornal-a, quando a escurecia e
falsificava. Mais de cem livros, mais de quarenta escriptores examinei e
estudei para poder extrahir de suas narrativas o que s fosse exacto, e
se houvesse realizado. Joeirei, comparei, contrastei os ditos e
asseveraes de todos, desprezei os que se no comprovam, e
expuz-vos com franqueza e lealdade o que se pde e se deve appellidar
verdade historica.

Faltavam-me qualidades, sei-o bem, para satisfazer plenamente vossa
curiosidade, attrahir vossa atteno, captar vossa benevolencia; todavia
a concurrencia numerosa e ininterrupta, que teem provocado estas
conferencias, os applausos que immerecidamente me haveis prodigalisado,
provam-me que, dados os devidos descontos s habilitaes do orador,
tendes apreciado suas intenes, e portanto grangeado, para todo sempre,
seu profundo reconhecimento.




INDICE


                                                                      PAGS.

PROLOGO...

PRIMEIRA CONFERENCIA--Situao moral e politica da Europa ao principiar
o seculo XV--As diversas naes--Portugal--Principios de descobrimentos
de terras desconhecidas--Unica nao que se dedica s navegaes
ultramarinas--Principes D. Pedro de Coimbra--D. Henrique de Viseu--D.
Joo II--Serve em Portugal Christovam Colombo--Prope-se  ir
directamente s Indias pelo Oeste--Recusa--Abandona Portugal..........   1

SEGUNDA CONFERENCIA--Colombo em Genova--Nada consegue--Parte para a
Andaluzia--Obtem proteco para Isabel, Rainha de Hespanha--Apresenta
seu plano--Sujeita-se ao Concilio de Salamanca-- recusado--Tenta
procurar outro paiz que o auxilie-- chamado de novo pela Rainha--Tomada
de Granada--Contracto para a expedio maritima--Preparativos de tres
caravellas em Palos, que se lhe confiam--Primeira viagem..............  25

TERCEIRA CONFERENCIA--Peripecias da viagem--Descobrimento da Ilha de S.
Salvador--Reconhecimento da terra e dos habitantes--Visita  outras
ilhas e  Cuba--Fixa-se no Haity--Descripo das localidades e mares
novos--Deixa um forte e quarenta hespanhoes--Volta para Hespanha--Seu
acolhimento pelos monarcas e pelo povo................................  57

QUARTA CONFERENCIA--Segunda viagem--Descobrimento de novas ilhas no mar
das Antilhas--Funda uma cidade no Haity--Percorre as costas, bem como as
de Cuba e Jamaica--Encontra minas de ouro, cuja explorao
comea--Revoltas de hespanhoes--Trafico e captiveiro dos
indigenas--Desespera-se com a vinda de um syndicante--Confia o governo
ao irmo, e dirige-se de novo  Hespanha--Volta para Haity--3 viagem--
preso por Bobadilha, e remettido em ferros para Hespanha..............  95

QUINTA CONFERENCIA--Descobrimentos de hespanhoes, portuguezes e
inglezes--Impresses da Europa--A verdadeira Asia visitada por Vasco da
Gama--Colombo  solto, e realiza a 4 viagem--Desastres e decepes que
soffre--Volta  Hespanha e morre--Consideraes sobre o descobrimento da
America--Primeiros globos e mappas  respeito--Americo Vespucio--Quando
se soube que era continente proprio e separado da Asia--Como alli, aps
hespanhoes, entraram inglezes, portuguezes, francezes e
hollandezes--Como se lhe deu o nome................................... 137




OBRAS DO MESMO AUTOR

J PUBLICADAS

HISTORIA DA FUNDAO DO IMPERIO BRAZILEIRO--Comprehendendo:

    1 periodo de 1808 a 1825 3 vols. 2 edio.

    2        de 1825 a 1831 1 vol.  2   

    3        de 1831 a 1840 1      2   

CURSO DE HISTORIA DOS ESTADOS AMERICANOS--Comprehendendo: America do
Norte, Mexico, Per, Chile, Venezuela, Equador, Nova Granada, Buenos
Aires, etc. 1 vol.

NACIONALIDADE, LINGUA E LITTERATURA DE PORTUGAL E BRAZIL 1 1 vol.

VARES ILLUSTRES DO BRAZIL DURANTE OS TEMPOS COLONIAES 2 vols. 3 edio.

MEMORIAS LITTERARIAS E POLITICAS 2 vols.

DISCURSOS PARLAMENTARES 2 vols.

POESIA EPICA E POESIA DRAMATICA 1 vol.

JERONYMO CORTE-REAL, chronica do seculo XVI 1 vol.

MANOEL DE MORAES, chronica do seculo XVII 1 vol.

D. JOO DE NORONHA, chronica do seculo XVIII 1 vol.

ASPASIA--Narrativa do seculo XIX 1 vol.

GONZAGA--Ensaio poetico 1 vol.

LITTERATURE PORTUGAISE, son pass, son tat actuel 1 vol.

SITUATION SOCIALE, POLITIQUE ET ECONOMIQUE DE L'EMPIRE DU BRSIL 1 vol.

FELINTO ELYSIO E SUA POCA 1 vol.

Curiosidades da historia e da legenda 1 vol.






End of the Project Gutenberg EBook of Christovam Colombo e o descobrimento
da America, by Joo Manuel Pereira da Silva

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page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


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Literary Archive Foundation

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spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
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Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
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with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


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