The Project Gutenberg EBook of O Condemnado/Como os anjos se vingam, by 
Camilo Castelo Branco

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org


Title: O Condemnado/Como os anjos se vingam

Author: Camilo Castelo Branco

Release Date: May 29, 2010 [EBook #32586]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CONDEMNADO/COMO OS ANJOS ***




Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
of public domain material from Google Book Search)






                              O CONDEMNADO

                      *      *      *      *      *



                              O CONDEMNADO

                                  DRAMA

                      EM TRES ACTOS E QUATRO QUADROS

                        SEGUIDO DO DRAMA EM UM ACTO

                          COMO OS ANJOS SE VINGAM

                                   POR

                          CAMILLO CASTELLO BRANCO



                                  PORTO
                           VIUVA MOR--EDITORA
                            PRAA DE D. PEDRO
                                  1870

                      *      *      *      *      *


                           IMPRENSA PORTUGUEZA
                          Rua do Bomjardim, 181.

                      *      *      *      *      *




A JOS CARDOSO VIEIRA DE CASTRO


Se ainda tens lagrimas, se ainda as tens no corao, meu infeliz amigo,
permitta Deus que possas verter alguma na pagina onde encontrares uma
palavra, um grito de lacerante angustia, como tantos que has de ter
abafado.

N'este livro, no pude bem assignalar um leve trao do teu enorme
infortunio. No pude, porque a tua desgraa no tem nome.

Figura-se-me que tu, Vieira de Castro, na tua cerrada noite de seis
mezes, ainda no pudeste vr ao sol de Deus os sulcos por onde desceu de
teus olhos o sangue, a seiva toda de tua mocidade.

Entre o teu passado e este dia de hoje--cujas horas vo j batendo na
eternidade de uma tristeza irremediavel--ests tu empedrado de assombro
a encarar no abysmo onde te resvalou a mo que beijavas e ungias de
lagrimas de felicidade.

No fundo d'essa voragem vs as tuas coras de gloria a seccarem-se, a
desfazerem-se, a pulverisarem-se--o desabar deploravel d'uma esplendida
vida que foi a tua,  grande espirito!

Levanta d'ahi os olhos, alma atormentada, antes que vejas em lodo o p
das tuas grinaldas, sobre as quaes vo cuspindo homens to escassos de
misericordia, como de dignidade.

Deus que te veja chorar, e te envie o doce trago da morte, que recebers
sorrindo como todo o homem que expira vergado ao pso de sua cruz, mas
no  ignominia d'ella.

Falta-te morrer, Vieira de Castro, para que em tua sepultura se
respeitem as cinzas d'um grande corao extremado na honra e na desgraa.

                                                CAMILLO CASTELLO BRANCO.




PERSONAGENS

    D. Eugenia de Vasconcellos (ou D. Leonor)           28 annos

    Viscondessa de Pimentel                             50   

    Visconde de Vasconcellos                            55   

    Rodrigo de Vasconcellos                             28   

    Pedro Gavio Aranha                                 27   

    Jorge de Mendanha ou Jacome da Silveira             51   

    Jos de S                                          50   

    Joaquim, criado.

    Joo, criado.

    Outros criados e pessoas que no fallam.

          *      *      *      *      *

    A scena corre no Porto em 1857.




O CONDEMNADO




ACTO PRIMEIRO

Sala pomposamente trastejada, mas em desordem. Portas ao fundo e
lateraes. Dois criados esto espanando a mobilia.

N. B. _O criado Joo, mais montezinho que os outros, denota a estupidez
velhaca do aldeo._


SCENA I

JOAQUIM E JOO

Joaquim _(refestelando-se em um soph)_

 Joo, toca a descansar; senta-te, mas com geito, se no afundas.

Joo _(apalpando o estofo)_

Isto foi amanhado com bexigas cheias de vento? Queres tu vr que eu vou
rebentar o fole? _(Deixa-se cair e levantar pelo elasterio das molas)_
Ih! cuidei que dava co' costado no solho! Um homem regala o cadaver
n'estas enxergas!

Joaquim

Isto sempre  melhor que andar a guardar ovelhas na Samardan, eim?

Joo

O qu? pois no fostes? Tomra-me eu l com as minhas ovelhas. Assim que
m'alembram os nossos montes, comeo a esbaguar e trigar-me aqui dentro
do corao _(pondo a mo na barriga)_.

Joaquim

O corao no  ahi, bruto! Ahi so as reins.

Joo

Onde  ento?

Joaquim

Aqui. _(Pondo a mo perto do sovaco do brao direito)_.

Joo _(com espanto)_

Aqui?! Credo!

Joaquim

Ahi mesmo. Aqui foi sempre o corao; e o bucho est aqui, salvo tal
logar _(apontando o umbigo)_.

Joo

O bucho aqui? aqui  a espinhela; o bucho  onde ce a trincadeira.

Joaquim _(rindo-se com ar de ironica piedade)_

Joo, tu chegaste da Samardan ha quinze dias, e eu tenho palmilhado
todas as capitaes do reino de Portugal. Olha se me ensinas onde est o
bucho, a mim, que tenho sido criado de conselheiros, de conegos, de
bares, e mesmamente de ministros de estado! O bucho desde que o mundo 
mundo, foi sempre aqui _(insiste na demarcao)_. Faz-te esperto, rapaz!
O patro j me disse hontem:  Joaquim, este teu primo  um burro.

Joo

Eu bem ouvi. No foi assim que te disse o patro. O que elle disse foi:
 Joaquim, este teu primo  to burro como tu.

Joaquim

No disse isso.

Joo

Na minha salvao, disse; e c a mim, se o patro me torna a chamar
burro, vou-me p'ra a terra. Eu no sou burro, sou christo baptisado.
Alcunhas no nas quero. C no Porto  costume essa chalaa.

Joaquim

Que chalaa?

Joo

Todos so bichos.

Joaquim

Todos so bichos? Ms maleitas me tolham, se eu te percebo!

Joo

Lembras-te quando eu fui p'ra porta da rua saber quem vinha c? Pois
olha, ao primeiro veio um fidalgo que se chamava _Lobo_; depois um
_Raposo_; depois um _Leo_; depois um _Coelho_ e um _Lebre_, e outro
senhor chamado _Camello_, e outro _Pato_, e um _Rola_. Olha que
bicharia! Eu estava a vr quando chegava um Urso e um Boi. L na
Samardan toda a gente aveza nomes de gente, pois no aveza?

Joaquim

Homem, tu nunca viste nada. Faz minga correr todas as capitaes do reino
de Portugal como eu. Olha que os fidalgos quasi todos tem bichos...

Joo _(atalhando)_

Tem bichos? Arrenego-os eu!

Joaquim

No me falles  mo; quasi todos teem bichos no nome  o que eu queria
declarar na minha proposta. Tu no inzaminaste as armas reaes que o
patro tem nas quintas l de riba?

Joo

Olha que j estive a malucar que na porta da quinta do Corgo esto as
armas do rei com dois largatos e um lacrau. Os largatos, salvo seja,
teem assim as unhas _(recurvando os dedos)_. E o lacrau tem a lingua 
dependura _(figurando)_. Mas c o patro no se chama largato nem
lacrau, que eu saiba.

Joaquim

O animal que viste no  lacrau. O bicho que bota a lingua de fra
chama-se leopardo.

Joo

Isso  nome de christo... Leonardo!

Joaquim

Leopardo, asno!

Joo

Tu no me chames asno, primo! No me desfeiteies. Quem no sabe,
aprende. Ento por que tem o patro o leopardo nas armas reaes?

Joaquim

 historia antiga l da familia.

Joo

Ento esse bruto era da familia do patro? Tu tamen no s pequeno
alimal, Joaquim! Ests um bom fistor! Olha se me engrampas a mim.
Olha... _(Arregaa o olho esquerdo)_.

Joaquim _(alvoroado)_

Espana, que ahi vem gente...


SCENA II

OS MESMOS E O VISCONDE DE VASCONCELLOS

Joaquim

Tenha vossa excellencia muito bons dias, senhor visconde.

Visconde

Adeus. Meu filho saiu?

Joaquim

Saiu s nove horas e mais a senhora. Acho que foram comprar arranjos
para o baile.

Visconde

Quando  o baile?

Joaquim

manhan, senhor visconde.

Joo

 manhan, mas saber vossa excellencia que s comea de noite.

Joaquim _(acotovelando-o)_

Cala-te ahi!

Visconde

Vo; e assim que meu filho entrar digam-lhe que estou aqui. _(Os criados
sem)_.


SCENA III

Visconde de Vasconcellos

Bailes! bailes! com que tristeza os imagino!... Quem me dera no saber
que meu filho d bailes!... Deixasse-me eu ficar na solido do meu
desterro na aldeia... Era preciso que a minha amargura entrasse no
corao vioso e feliz de meu filho, para que a desgraa o no assalte
em pleno gozo de mocidade, saude e abundancia... Era preciso; mas ha
cruel impertinencia n'este meu desejo. Um velho a querer regelar uma
alma em flor com os seus pezares, com os seus tantos invernos vividos e
chorados ao p d'uma sepultura!... isto  uma iniquidade! Os experientes
da vida, os que envelheceram penitentes, onde quer que chegam, levam
comsigo um fantasma funesto. Na sua presena, aos descuidados do futuro
desmaia-se a cr brilhante das alegrias; aos loucos afortunados
irrita-os a catadura torva da tristeza; os mais generosos espiritos no
desculpam o velho, que se ao encontro da mocidade e lhe diz: Envelhece
antes do inverno da vida, para que o desandar da roda te no colha ainda
na primavera, e te no abra no rosto o sulco das lagrimas. _(Ouve-se o
rodar de sege)_. Eil-o que vem respirando as fragrancias dos vinte e
oito annos; e eu aqui estou como espectro de terriveis presagios,
esperando-o nos sales, d'onde a noite de manhan fugir de pressa como
fogem as noites que abrem na memoria uma data, um nome, que no fim da
vida as lagrimas no podem desfazer... Para que hei de entristecel-o?
Deixal-o sonhar, deixal-o illudir-se. Que desconte na desgraa porvir
isto que se chama felicidade, este brincar com as flores que cobrem a
boca do abysmo. Deixal-o ser moo at que a primeira nortada do
infortunio lhe bata no rosto. _(Suspenso e recolhido)_. No posso, no
posso. Aquelles que ainda podem salvar-se quero que me ouam gemer no
parcel onde naufraguei.


SCENA IV

VISCONDE E RODRIGO DE VASCONCELLOS

Rodrigo _(beijando-lhe a mo)_

Esperou muito tempo, meu pae?

Visconde

No esperei. Onde est tua mulher?

Rodrigo

Eugenia vem j. Foi largar a capa e o chapo, e naturalmente matar
saudades do filho. Eu tencionava ir logo pedir-lhe a sua vinda ao baile
de manhan.

Visconde

Ias convidar-me para um baile, Rodrigo?! A mim?! j me viste em bailes?

Rodrigo

Certamente no. Nas quintas, onde vossa excellencia costuma viver, seria
rara a tentao dos bailes _(sorrindo)_; e meu pae, que deixou ha tantos
annos as salas de Lisboa, de certo no succumbiria  tentao em Lamego
ou Amarante. Eu sei no entanto que meu pae frequentou os bailes da
capital, e se distinguiu entre os mais notaveis moos, alguns dos quaes
ainda hoje reflorescem alegres primaveras, a julgal-os pela cr das
barbas. Ainda hontem uma dama da alta sociedade de Lisboa, prima dos
condes de Travaos, me perguntou se o pae ainda conservava memorias do
gentil rapaz que havia sido. Recorda-se de uma senhora viscondessa de
Pimentel?

Visconde

Muito bem.

Rodrigo

Pde vl-a aqui manhan.

Visconde

Essa dama ainda folga em bailes?

Rodrigo

Porque no? Representa uns trinta e cinco annos.

Visconde _(sorrindo)_

 mais nova do que eu uns cinco annos. Eu tenho cincoenta e seis.
Lembro-me perfeitamente da Francisquinha Almeida, que depois casou com
um Pimentel, que a fez viscondessa. Era mulher de talento satyrico,
pouco exemplar nos costumes, e... _(Mudando de tom)._ Deve ter branco o
formoso cabello loiro que tinha...

Rodrigo

Agora  negro.

Visconde

Sim? Ahi tens, meu filho, uma das proeminencias ridiculas do teu baile:
essa dama tingida, pintada, galhardeando-se, e talvez polkando
garbosamente como quem sacode dos hombros o pso de meio seculo. Mas o
ridiculo dos bailes no  o mau; o mau, o pssimo  o que  triste,  o
que no pde ser visto seno por olhos que choraram muito...

Rodrigo _(interrompendo-o)_

Vai o pae entristecer-se... e comeou to bom, to ironico...

Visconde

As minhas ironias, Rodrigo, so sempre amargas; mas o fel que ellas tem,
todo contra mim reverte. Ahi vem Eugenia; mudemos de conversao.


SCENA V

OS MESMOS E D. EUGENIA

D. Eugenia _(beijando a mo do Visconde)_

Como est, meu pae?

Visconde

Bom. Vejo que est excellente a minha filha. Ainda no perdeu as boas
cres que trouxe da provincia.

D. Eugenia

Quem me l dera outra vez!

Visconde

Na aldeia? n'aquella casa melancolica, cercada de montanhas, onde nunca
chegaram os ecos das musicas de um baile? Queria-se outra vez na aldeia
a minha Eugenia?

D. Eugenia

A primavera ainda vem to longe...

Visconde

E depois que l estiver, a menina ha de ter saudades do baile de ha
quinze dias, do baile de manhan, e dos bailes que...

D. Eugenia _(interrompendo-o)_

No, senhor. O que eu vejo e sinto agradavel nos bailes  o
contentamento de Rodrigo. Elle est acostumado a estes recreios, e acha
n'elles o prazer que eu provavelmente acharia tambem, se no tivesse
sido creada e educada em um recolhimento. Por mais que a gente queira
habituar-se  vida c de fra, o geito e o acanhamento da clausura no
se perde.

Visconde

A minha filha, portanto, sacrifica-se aos usos e costumes da sociedade
elegante...

D. Eugenia

Aos costumes da sociedade elegante, no, senhor; ao contentamento de
Rodrigo, sim.

Visconde

Pois, Eugenia, encarecidamente lhe peo que empenhe todo o valor do seu
corao em persuadir a meu filho que ha contentamentos mais solidos e
ineffaveis que os bailes. Insinue-lhe com as suas phrases singelas e
amoraveis que as serenas delicias da vida intima fogem assustadas das
folias estrondosas das salas. E diga-lhe que, no fim de uma noite de
baile, apparecem nos tapetes umas flores sem vio, que muitas vezes
symbolisam coraes sem innocencia. Coraes e flores perderam a candura
e aroma na mesma hora, queimados pelo calor da mesma respirao.

Rodrigo _(sorrindo)_

Ahi vem o pae com as suas theorias pessimistas. Ainda ninguem viu os
vicios da sociedade por vidros de tamanho augmento!

Visconde

Eugenia, deve ter muito em que lidar. Quem d um baile precisa
mortificar-se oito dias antes, e fazer holocausto das suas canceiras ao
Bom-Tom, idolo creado pelo paganismo moderno. A civilisao tem
apostolos e martyres. Ora v.

D. Eugenia

Janta comnosco, sim?

Visconde

Pde ser.

D. Eugenia

At logo, _(apertando-lhe a mo--Se)_.


SCENA VI

VISCONDE E RODRIGO

Visconde _(com gravidade)_

Agora, se te apraz, Rodrigo, argumentaremos a respeito de bailes; e
ficas avisado para, na presena de tua mulher, nunca me desafiar a
discutir comtigo em assumptos de corrupo social. Agradece tu ao acaso
a santa ignorancia que Eugenia te trouxe do recolhimento. No a
illustremos; ouviste, Rodrigo? No a illustremos... Bem vejo que ests
no proposito de descondensar as trevas que a separam das brilhantes
damas que decoram as tuas salas. Sei isso. Queres o diamante lapidado;
queres que elle refulja  luz dos bailes. Vaes entrando com ella por
estas portas do grande mundo, por estes bazares onde a mercadoria humana
se assoalha; onde os coraes como que andam  vista nos seios
descobertos; onde, emfim, as almas se caiam e purpuream como as caras...

Rodrigo

Jesus! que imaginao! Meu pae est illudido com a sociedade.

Visconde

Illudido, eu! Pois... quem cuidas que eu fui?!

Rodrigo

Sei que meu pae foi um rapaz distincto, um cortezo, um modelo de
fidalgos; sei que meu pae se estremou na sua sociedade, e de certo l
no achou as demazias de desmoralisao que se lhe figuram na sociedade
de hoje. Suppondo que nos sales de ha vinte e tantos annos, meu pae
encontrou almas viciosas e pessimas, quantas se lhe no depararam
virtuosas e optimas? Se eu l procuro exemplo de bons costumes em moo
rico e considerado, no encontro meu pae?

Visconde

No. Quem te disse a ti que eu no fui um... um villo?

Rodrigo

Se meu pae houvesse sido um villo, ninguem ousaria dizer-m'o... Sei o
que meu pae foi. Teve os lapsos e quedas proprias da idade, sem quebra
de honra. Desenganou-se ou cansou-se mais cedo que o vulgar dos homens,
apartou-se d'elles sem deixar rasto de ignominia.  isto que eu
conjecturo do seu passado.

Visconde

Se t'o assim disseram, mentiram-te; e, se finges ignorar o que fui, sou
incapaz de baixas hypocrisias a pretexto de manter a minha dignidade de
velho e de pae. _(Pausa)_. Rodrigo, eu depravei-me... perdi-me. Teu pae
confessa-se diante de ti, para ajuntar mais um flagello ao aoute com
que a Providencia o fere. A fora da alma, a probidade, a indole
generosa que se me formou na educao, perdi-as, e foi nos sales que as
perdi. No me foi necessario immergir na lama das orgias para de l
sahir libertino. Nunca ahi desci. Foi nas salas que o meu corao se
encheu da peonha dos desejos perversos; foi nos bailes que eu perdi os
mais vulgares sentimentos da honra, no salvando sequer a coragem, esse
derradeiro anteparo do cynico, essa falsa honra que empresta a mascara
aos assassinos em duello. Dos bailes  que eu sahi infamado e infame aos
meus proprios olhos. Imaginas tu o que  isto de sentir-se um homem
infame diante de si mesmo? E sabes o que seja envelhecer debaixo da
pesada cruz da vida, sem ter um acordar tranquillo no longo espao de
vinte e dois annos? E tomar-te eu nos braos quando eras menino, e
dizer-te muitas vezes:  filho,  creatura innocentinha, pede 
misericordia divina que se d por contente com o immenso calix de
amargura que tenho devorado. Dize a Deus que m'o receba cheio de
lagrimas de sangue. _(Solua)_.

Rodrigo

Meu querido pae, que extraordinaria dr  essa!? O seu espirito sombrio
est exagerando culpas ignoradas. Nunca me fallou alguem nos seus
crimes. Se elles fossem enormes, ou sequer sabidos, no teriam esquecido...

Visconde

A sociedade esquece tudo. Esquece victimas e algozes. Mas no esqueas
tu que viste chorar teu pae. Se poder ser, v sempre estas lagrimas
atravs das alegrias dos teus bailes, e escuta-me l algumas vezes como
se eu te estivesse pedindo que fujas d'elles com tua mulher; e, se no
pdes defender-te d'estes prazeres traioeiros, meu filho, consente que
tua mulher se no aparte das arvores onde a chamam as saudades; deixa
que ella se fique na quietao da aldeia, e vem tu para as cidades. Tu
voltars mais tarde cansado e dilacerado; e, quando cuidares que vaes
sem corao, encontral-o-has no seio puro de tua mulher e no sorriso de
teus filhos. Perde-te; mas poupa a alma de Eugenia, para que te no
falte o ultimo refugio. Olha que uma esposa sem macula, um amor de
mulher sem remorso de crime, nem receio de que lh'o descubram,  luz que
nos vai procurar a todas as voragens. Abysma-te; mas no a desvies do
bero de teu filho; no quebres o sagrado lao, que Deus formou entre a
alma que se est formando, e a alma de me, onde  preciso que arda um
grande amor, santificado por consciencia de grandes virtudes.


SCENA VII

OS MESMOS E JOO

Joo

Fidalgo, est alli um senhor que se chama...

Rodrigo

Como se chama?

Joo

Elle, a fallar a verdade, disse como se chama; mas barreu-se-me de todo;
e mais tenho-o debaixo da lingua, como l diz o outro. _(Recorda)_ Elle
tem dous nomes de bichos.

Rodrigo

De bichos?!

Joo

Sim, senhor fidalgo; mas no  dos que vem c a casa.

Rodrigo

Dos que vem qu?

Joo

D'aquelles fidalgos, que se chamam Lees, Lobos e Camellos.

Rodrigo

Burro!

Joo

Tambem no  burro... Ah! _(sacudindo a mo direita)_ Parece-me que me
lembra. Um  assim, um nome de passarlo grande, que se chama.... Ora o
diabo.... que se chama.... No  corvo, nem pato, nem milhafre, nem...
ah!  Gavio.

Rodrigo

Gavio?

Joo

Saber vossa excellencia que sim; mas elle ainda tem outro nome de alimal.

Rodrigo _(ao pae)_

Eu foi muito amigo d'um rapaz que viaja ha annos, chamado Gavio Aranha.

Joo

Aranha!  isso mesmo.  Aranha.

Rodrigo

Vai de pressa; que entre. _(Joo se)_.


SCENA VIII

O VISCONDE, RODRIGO E DEPOIS PEDRO GAVIO ARANHA

Rodrigo

Foi um dos meus amigos mais constantes. Ha quasi dous annos que no sei
d'elle.

Visconde

Vou sahir. At logo.

Rodrigo

Permitta que eu lhe apresente o Aranha.  um excellente rapaz, o melhor
corao de ctavento que ha no mundo. Eil-o ahi est! _(Vem entrando
Pedro: Rodrigo vai recebel-o nos braos)_ No ha que duvidar.  o Pedro
Aranha. Como ests tu, rapaz? Bello, gentil, com uma cara
espirituosamente franceza.

Pedro

Americano-ingleza, se ds licena. Estas barbas procedem de Nelson, e
do-me o grave tom plastico de um negociante de queijos londrinos.

Rodrigo

Meu pae, apresento o meu intimo amigo de collegio e dos sales de
Lisboa. As nossas alegrias e tristezas da mocidade eram communs. Pedro,
aperta a mo ao melhor dos paes.

Pedro

Respeitosamente aperto a mo ao senhor visconde de Vasconcellos. Ha dous
mezes me perguntaram em New-York se eu conhecia vossa excellencia.
Respondi que tinha a honra de ser amigo muito particular d'um filho do
senhor visconde.

Visconde

Quem se lembrar de mim na America Ingleza?

Pedro

Um portuguez que disse chamar-se Jorge de Mendanha.

Visconde _(recordando-se)_

Jorge de Mendanha! No tenho a mais leve lembrana de tal nome! D'onde 
elle?

Pedro

Provinciano, no sei de qual provincia.

Visconde

Deve ser velho.

Pedro

Entre cincoenta e cincoenta e cinco annos, penso eu. A cara  de
maritimo torrada do sol, um bronzeado de africano; mas a linguagem tem
certo relevo litterario, e as maneiras so aristocraticas, sem preteno.

Visconde

E disse que me conheceu?

Pedro

No, senhor visconde; apenas me perguntou se eu conhecia a vossa
excellencia.

Visconde

Provavelmente  algum dos muitos rapazes da minha criao no collegio
dos nobres. Esqueci todos, excepto um ou dous que j so mortos. Jorge
de Mendanha!... no me posso lembrar. Senhor Gavio Aranha, conversem,
que ho de ter muito que recordar. Eu folgo de conhecer vossa
excellencia. Demora-se no Porto? Creio que no  daqui...

Pedro

Sou algarvio. Quando cheguei a Lisboa e soube que Rodrigo estava no
Porto, e casado, parti sem demora a vr se conseguia ainda usurpar 
esposa alguma da muita amizade que elle me deu.

Visconde

Meu filho sabe apreciar os verdadeiros amigos. _(Aperta-lhe a mo, e se)_.


SCENA IX

PEDRO E RODRIGO.

Pedro

Senhor Rodrigo de Vasconcellos, vamos a contas. Quando recebeu voss a
minha ultima carta?

Rodrigo

Ha anno e meio, datada no Cairo. Respondi para o Cairo.

Pedro

No recebi. Estava em Alexandria, embrenhei-me pela Asia dentro, e
voltei  America do Norte ha seis mezes. Escrevi-te para Lisboa.

Rodrigo

Sahi de Lisboa ha dezeseis mezes. A tua carta, provavelmente recheada de
descripes romanticas, no ousou profanar o esconderijo onde me foragi
com a minha felicidade de marido extremoso. Vou apresentar-te minha mulher.

Pedro

Venha c voss. Antes de me apresentar sua senhora, conte-me a historia
do seu casamento. Todos os pormenores so pontos essenciaes d'esse
solemnissimo desmentido s tuas grandes theses de celibatario defendidas
nas enormes ceias, em que tu parecias sepultar no estomago o esqueleto
do corao.

Rodrigo

Esqueleto do corao!...  ignorante, aprende que o corao  musculo.

Pedro

 musculo co; eu tambem j sabia isso, mestre; tambem fiz do peito
amphitheatro anatomico; e quando procurava dezoito imagens de mulheres
meio delidas na superficie rugosa do corao, encontrei o musculo, de
que tens noticia, fundi-o, e achei o vacuo. E tu que encontraste?

Rodrigo

Isso.

Pedro

Isso qu?

Rodrigo

O vacuo do corao; mas a plenitude da alma, que  outra casta de entranha.

Pedro

Entranha! a alma  entranha! Collocas a essencia immortal na categoria
do figado e do bao! Deixemos essa questo  Academia real das
sciencias, e vamos  historia do teu casamento. Vaes contar-me alguma
historia onde o lyrico, o ideal, o extraordinario realcem e deslumbrem a
vulgaridade do matrimonio. Vamos s peripecias. _(Em tom emphatico de
narrador)_ Era uma formosa tarde de estio....

Rodrigo

No tem romance, nem sequer lyrismo a historia do meu casamento.

Pedro

No?!

Rodrigo

V l se este casamento recende alguma poesia. Meu pae, estando eu em Beja,
mandou-me procurar no recolhimento da Piedade de Evora duas senhoras nossas
parentas, e que lhes lembrasse o seu antigo primo e amigo, e offerecesse a
nossa casa e os nossos haveres, se ellas carecessem de soccorros. Fui a
Evora, perguntei no recolhimento pelas senhoras, e soube que ambas eram
fallecidas, e que na cella onde tinham morrido vivia uma sobrinha d'ellas,
muito doente do peito e para pouca vida. Vai vendo que funebre exordio!

Pedro

Sim: temos j duas mortas, e uma moribunda! Entras no templo de amor
pelo cemiterio!

Rodrigo

Mandei pedir a minha prima se me concedia o favor de a cumprimentar.
Permittiu que a visitasse no dia seguinte. Fui com um exquisito alvoroo
e presentimento. Appareceu uma formosa menina com as rosetas da tysica
nas faces e um sorriso de santa, como se a sahida d'este mundo lhe dsse
alegria. Conversamos muitas horas. Contou-me que era orphan, e tinha um
pequeno patrimonio, de cujo rendimento se sustentava e mais a sua
Eugenia, um anjo que Deus lhe mandra, como compensao, que em poucos
annos a indemnisasse da felicidade e amor, em desconto do muito que
poderia viver. Visitei-a segunda vez. Apresentou-me ento a sua amiga.
No trato de te incutir espanto da sua formosura. Eugenia tem a belleza
reflexa do ideal incorporeo e indefinido. O que muito me impressionou, e
mais do que a belleza, foi o ar de bondade e melancolia, uns olhos que
pareciam estar sempre lagrimosos e fitos em uma grande calamidade, um
scismar e concentrar-se sem affectao, sem sequer attender  presena
de um homem que poderia ter a vaidade de fazer-se attendivel. Participei
a meu pae o que tinha visto. Recommendou-me que convidasse de sua parte
minha prima Celestina para passar-se do convento aos ares saudaveis de
nossa casa em Traz-os-Montes, e lhe pedisse que levasse comigo Eugenia.
Mostrei a carta de meu pae. Celestina pensou tres dias, e aprestou-se
para a jornada com a sua amiga e as suas criadas.

Pelo caminho me foi contando minha prima a breve historia de Eugenia.
Uma senhora de Lisboa entrou no recolhimento da Piedade de Evora com uma
menina de tres annos, a quem chamava sobrinha. Esta senhora vivia com
poucos meios, e morreu no deixando alguns, quando Eugenia contava
dezeseis annos. Minha prima levou para a sua cella a desvalida menina, e
repartiu com ella a sua penso. N'este sereno affecto encontrei as duas
orphans.

As recolhidas, segundo depois averiguei, suspeitavam que Eugenia fosse
filha da reclusa que lhe chamava sobrinha. Eugenia presume ter a certeza
de que no  filha da senhora que a creou. Como quer que fosse, a
supposio de que a orphan denotava com o seu sombrio silencio a
procedencia de algum desgraado amor, obrigava talvez a curiosidade a
no devassar o mysterio de que minha prima no tinha a menor elucidao.

Celestina melhorou algum tanto na provincia; mas ao cahir da folha,
expirou nos braos da companheira de infancia, dizendo a meu pae, em tom
supplicante, que adoptasse como sua filha a pobre Eugenia. Passados
dias.... V l se te estou estafando com a historia.

Pedro

Homem, no vs o interesse e a gravidade com que te escuto! Passados
dias...

Rodrigo _(proseguindo)_

Meu pae, adivinhando-me, disse que o meu silencio lhe no lisongeava a
alma, que eu ainda mal conhecia.--Se amas Eugenia, casa, disse elle.

Fui a Evora averiguar por onde poderia haver certides necessarias ao
casamento. Nada obtive; apenas um antigo capello do recolhimento me
disse, que a senhora D. Maria da Gloria, tia ou o que quer que fosse de
Eugenia, entrra no convento em 1837 e morrra em 1849 sem ter escripto
nem recebido alguma carta; e que uma vez cada anno apparecia na portaria
um homem ordinario, procurando a reclusa, e provavelmente entregava a D.
Maria da Gloria o dinheiro com que ella parcamente se sustentava. No
pensar do capello esta dama era fidalga, porque o padre que a
confessava uma vez dissera que a secular tinha to nobre sangue como
espirito. Este padre confessor era j fallecido quando o procurei em
Lisboa. Nada pude, portanto, averiguar, nem cuidei mais de inuteis
indagaes. Obtive dispensa das mais urgentes certides, e casei com
Eugenia... Por esta occasio meu pae perfilhou-me.

Pedro

Tu eras filho natural? Eu no sabia.

Rodrigo

No? Nem eu. S depois que sahi do collegio dos nobres e fui 
provincia,  que os criados me contaram que minha me era uma formosa e
pobre moa que amou muito e viveu pouco. Como vinha dizendo, meu pae
perfilhou-me. Deu-me em dote a maior parte da sua casa, e reservou para
si uma quinta afogada entre serranias em Traz-os-Montes. Ora aqui tens.

Pedro

E dizias que no tinhas romance!...

Rodrigo

Romance no ;  o que os romancistas no sabem pintar: a felicidade
perfeita. Eugenia  boa como todas as mes extremosas. Tenho um filho de
seis mezes: a criancinha figura-se-me uma flor que se abriu da innocente
e doce alma da me. Eu no tinha direito a tanto contentamento sem
intercadencia de tristeza. Sou feliz; e creio que o sou, porque ha Deus,
e porque me liguei a um dos seus anjos n'este mundo.

Pedro

Que linguagem! que transformao! Deixei-te sceptico a respeito de
mulheres; atheu, a respeito dos deuses; e um consummado Herodes a
respeito dos meninos. Acho-te um corao cheio dos tres e unicos
elementos da felicidade humana: o amor do marido, a ternura de pae, e a
religio que recebe os bens e os males da vida como favores da
Providencia. Eu tambem creio em tudo isso; mas tambem creio no diabo.
Depois d'isto o que eu poderia desejar-te era doze contos de renda, e um
supplemento de boa saude, como pedia Henri Heine quando no tinha
esposa, nem filho, nem Deus, nem saude, nem dinheiro. Saude tens tu 
proporo dos capitaes, no  verdade?

Rodrigo

Sim; vivo bem, e desassombrado de credores.

Pedro

Ah! tu j no tens credores?! _(baixo)_ Transgrediste o solemne
juramento que fizemos em Lisboa de no pagar a uzurario que abuzasse da
nossa innocencia do juro da lei?!

Rodrigo

Meu pae mandou pagar tudo e a todos.

Pedro

E no te amaldioou?

Rodrigo

No.

Pedro

Oh! que pae! que santo! que patriarcha hebreu!

Rodrigo

Disse-me isto smente: Se houvesses contrahido dividas no valor do que
possues, eu pagaria as dividas e ficarias pobre. Por ra s rico; mas,
se teimares em dissipar, o opprobrio te ensinar o caminho da infamia.

Pedro

Apre! Isso parece-me estylo de pae grego ou romano. Esse caso deve
passar para a nova edio do _Thesouro de meninos_!

Rodrigo

E tu no pagaste quelle dos oculos verdes?

Pedro

A qual dos oculos verdes? Todos os uzurarios que eu conheci tinham
oculos verdes. Eu no paguei a nenhum. Sou equitativo, e no distingo
credores. Tambem sou romano e grego quando dou a minha palavra. Jurei
no pagar.

Rodrigo

Teu pae provavelmente pagou...

Pedro

As minhas dividas? Seria virtude mais velha que os heroismos de Grecia e
Roma, se meu pae pagava as minhas dividas no pagando as d'elle! Os meus
credores devem morrer de spasmo quando souberem que na minha familia no
ha av que pague pelo filho e pelo neto. Descendo de uma raa insoluvel
desde meu vigesimo quarto av D. Ordonho, principe gothico, at mim, que
tambem no pago porque me no chamem gothico, como ra meu vigesimo
quarto av D. Ordonho.


SCENA X

OS MESMOS E D. EUGENIA

_D. Eugenia assoma no limiar de uma porta, e faz meno de retroceder
vendo um estranho_

Rodrigo

Entra, Eugenia. _(Ella entra com uma carta aberta.)_ Quero apresentar-te
ao meu amigo Pedro Gavio Aranha.

Pedro

Amigo desde o collegio, e de quantos elle teve e tem o mais participante
das felicidades em que o venho encontrar depois de quatro mezes de
auzencia.

D. Eugenia

O Rodrigo j me tinha fallado de V. Ex. com muita estima; e eu tenho
muito prazer em vl-o n'esta casa. _(Voltando-se a Rodrigo)_ Chegou
agora esta carta da condessa de Travaos. V.

Rodrigo _(depois de a lr mentalmente)_

Pede um convite para o baile... _(reflectindo)_  Pedro Aranha, como se
chamava o sujeito que em New-York te fallou em meu pae?

Pedro

Jorge de Mendanha.

Rodrigo

Ora ouve l: _(l)_. Minha querida, senhora. Peo-lhe que obtenha do
Rodrigo de Vasconcellos um carto de convite para um sugeito de fra que
foi apresentado ao conde. Chama-se Jorge de Mendanha.

Da sua prima e amiga etc.

Pedro

Oh! c est o homem! E  singular coisa! Quando sahi da America estive
com elle, e nada me disse de vir a Portugal!.. Vo V. Ex.as vr um
homem de romance.

D. Eugenia _(com simplicidade)_

Ento quem  esse homem?

Rodrigo _(risonho)_

Essa pergunta assusta-me! Alvoroa-te a prespectiva d'um homem romantico?

D. Eugenia _(sorrindo ingenuamente)_

Nunca vi nenhum...

Rodrigo

Nem  mim? Ento que sou eu? No sou... sequer romantico!

D. Eugenia

No; tu, Rodrigo, s bom... Eu li alguns romances no convento; e no
encontrei n'elles a semelhana do teu genio; e ns l quando diziamos
que algum sujeito ou alguma senhora eram romanticos, no lhes faziamos
elogio algum. Por isso  que eu desejava saber em que opinio se deve
ter o tal sujeito que o snr. Pedro Aranha diz que  de romance.

Pedro

E poderei eu responder-lhe, minha senhora? Jorge de Mendanha  o
mysterio;  um portuguez com uma cara de beduino; um velho com uns ares
que impe respeito, e ao mesmo tempo se insinuam no affecto dos moos. 
eloquente; mas falla  moda dos atticos. Tem estylo sentencioso, concizo
e cathedratico. Emfim, minha snr., estimo grandemente o novo encontro
com este homem que se destaca das espalmadas vulgaridades que nos
acotovellam nos bailes, nos cafs, nas ruas, em todo este Portugal que 
uma especie de viveiro, onde todos os homens parecem educados para
meninos do cro.

Rodrigo _(sorrindo)_

Por exemplo, aqui tens, Eugenia, um menino do cro creado nos viveiros
de Portugal. _(Indica Pedro)_.

Pedro

Pois bem; eu no inculco a minha sufficiencia para corista; mas  que eu
fui reedificar-me, para assim dizer, nos paizes onde as artes so por
tal modo milagrosas que transformam um homem. A civilisao
anglo-americana  uma especie de depillatorio que descabella os ursos de
todas as naes.

Rodrigo

Tudo portanto que no foi, como tu, receber da thesoura ingleza uma
tosquia,  urso. Obrigado, snr. Gavio Aranha. D alvar de urso aos
seus compatriotas, e eu tenho um criado que vinga os seus patricios
annunciando-te como sujeito que tem dois bichos mais ou menos ferozes na
sua pessoa.

Pedro

O que?


SCENA XI

OS MESMOS E JOO

Joo

Est l em baixo uma fidalga n'um carro.

Rodrigo

N'um carro?

Pedro

Hade ser carroo. Pois ainda ha no Porto fidalgas que se fazem mover
por bois?

Rodrigo _(a Joo)_

 carroo ou carroagem?

Joo

 sim senhor.

Rodrigo

O qu?

Joo

 uma d'estas chirinolas que trazem os moxillas na tampa de diante.

Rodrigo

_Chirinolas que trazem os moxillas na tampa de diante._ Entendeste, 
Pedro?

Pedro

Tu deves ter diccionario particular para entender o sujeito. A linguagem
tem certo pittoresco, e um sabor classico.

D. Eugenia _(rindo)_

Falla  moda de Traz-os-montes.

Rodrigo

Essa coisa  puxada por bois ou cavallos?

Joo

So eguas, fidalgo.

Rodrigo _(a Pedro que ri)_

Este  o creado que te annunciou com dois bichos. _(Para Joo)_ Quem  a
senhora?

Joo

Um dos moxillas disse que  a snr. D. Viscondessa de Pimentel.

Rodrigo _(com as mos na cabea, comicamente)_

Ai! ai! ai!

Pedro

Pois est no Porto a viscondessa de Pimentel?

Rodrigo

Eu vou recebel-a  portinhola; mas tu depois dispensa-me, Eugenia.
Deixas-me fugir, sim, meu amor?

D. Eugenia _(sorrindo)_

Pois sim. _(Rodrigo e Joo sahem)_.


SCENA XII

D. EUGENIA E PEDRO

Pedro

A viscondessa de Pimentel! como atura V. Ex. esta arara de conserva?

D. Eugenia

Conheo-a ha poucos dias. Encontrei-a em casa da condessa de Travaos, e
fui visital-a depois ao hotel de Francfort...  a primeira vez que vem c.

Pedro

Mas ridicula at  commiserao, no  verdade?

D. Eugenia

No... Faz-me d! Tenho muitissima pena das senhoras que se no resignam
com a velhice. No convento, onde eu fui creada, muitas senhoras, sendo
em tudo exemplares, esqueciam-se de se fazer venerar pela idade; e eu
tinha muita compaixo quando se riam d'ellas.

Pedro

Ella ahi est explendida de antiguidade como uma cathedral!


SCENA XIII

OS MESMOS, RODRIGO E A VISCONDESSA DE PIMENTEL

_A viscondessa  uma senhora de 50 annos, trajando no requinte da moda,
e dissimulando a idade com o caio no rosto e cabellos postios. Nos
trejeitos e meneios exagera um desembarao ridiculo, com o intento de
affectar o garbo e desenvoltura de rapariga. Entretanto convem que se
no desmanche dos modos verdadeiramente palacianos e proprios de
esmerada educao e pratica da melhor sociedade._

D. Eugenia _(indo ao encontro da Viscondessa)_

Senhora viscondessa, como est V. Ex.?

Viscondessa

Muito nervosa. E V. Ex.? Hontem no theatro deu-me grande cuidado a sua
sahida no intervalo do 2. acto. Pedi ao primo Travaos que soubesse se
algum motivo extraordinario alem do _spleen_... oh! o _spleen_!..  uma
calamitosa enfermidade esta, no acha?.. depois soube felizmente que o
snr. Rodrigo de Vasconcellos dera uma gentil e formosissima razo da sua
sahida...

D. Eugenia

Ah! sim... Eu sahi porque... _(sustendo-se)_.

Rodrigo _(a Pedro)_

Porque teve saudades do filho, Pedro Aranha.

Viscondessa _(com alvoroo)_

Pedro Aranha! Pois est aqui o snr. Pedro Aranha... Bem me parecia
conhecer... mas por mais que concentrasse as minhas reminiscencias...

Pedro _(apertando a mo da viscondessa)_

Eu esperava ensejo de poder comprimentax V. Ex.

Viscondessa

Vem de Pariz?

Pedro

Da Suissa, minha senhora.

Viscondessa

Da Suissa? paiz das montanhas colossaes, com muitas bellezas selvagens,
e a poesia magestosa e imponente do extraordinario, no  assim?

Pedro

Sim, minha senhora; ha muita poesia grandiosa na Suissa.

Viscondessa

Eu amo as soberbas descripes d'esse paiz! J pedi ao visconde que me
mostrasse a Suissa; mas o egoista respondeu que detesta as viagens em
naes montanhosas. Ha certos espiritos que querem as naes chatas como
elles. Quem me dera beber o ar que sacode os cabellos nos pincaros das
serranias!  desejo que me devora desde menina. O visconde diz com a
mais desgraciosa semsaboria que suba s agulhas do Maro ou da serra da
Estrella onde ha muito r puro. Vejam que curteza de alentos! Para
certas almas o ar  ar em toda a parte. Vr o mar do rochedo de Santa
Helena ou da Trafaria  igual. Tudo  agua: no  assim, snr. Aranha?

Pedro _(ironico)_

Sempre espirituosa, sempre admiravel de critica, e inexoravel com o seu
bom senso em castigar os espiritos canhestros...

Viscondessa

Pois no  assim?

Pedro

Irrefutavelmente  assim, senhora viscondessa. Eu recebo as ordens de V.
Ex. _(a D. Eugenia. Rodrigo pega no chapeu.)_

D. Eugenia

Vo sahir? Vem fazer companhia ao Rodrigo e ao pae? A gente espera o
snr. Aranha.

Pedro

No me dispenso da honra e do prazer, minha senhora.

Rodrigo _( viscondessa)_

Senhora viscondessa. Eugenia, at logo. _(beija-a. A viscondessa aperta
a mo dos dois que sahem)_.


SCENA XIV

D. EUGENIA E A VISCONDESSA

Viscondessa

Teve carta da prima condessa?

D. Eugenia

Sim, minha snr.

Viscondessa

Jantou hontem comnosco um homem sobremaneira excentrico.  esse Jorge de
Mendanha de quem lhe falla a prima.  portuguez, e vem de Inglaterra
recommendado ao conde--coisa singular!--por um lord de tal que o primo
conheceu em Londres. Disse que estivera em Lisboa ha bastantes annos, e
fallou de familias da primeira ordem como quem as conhecia muito.
Perguntei-lhe, quando se tomava o caf, se tinha conhecido, nos bailes
do marquez de Vianna, Francisca de Almeida, que sou eu. Fitou-me com um
sorriso indescriptivel, e disse: conheci. E se a visse hoje,
conhecel-a-hia?--perguntei eu Graas  solidez da sua belleza, (disse
elle) a viscondessa de Pimentel  ainda a depositaria da insigne
formosura de Francisca d'Almeida. No podia dizer uma amabilidade com
tanto e to delicado espirito, pois no? Ha no sei que de puro
parisiense n'isto, _un beau trait d'esprit_ no vulgar em portuguezes,
acha?

D. Eugenia

Sim... Este amigo do Rodrigo conheceu-o na America ingleza, e diz que
elle  velho, mas muito romantico... _(sorrindo)_.

Viscondessa

Velho?! no, minha snr... _(V-se ao fundo o visconde)_.  homem de
quarenta e poucos mais; mas V. Ex. ha de vr um gentleman, um
_distingu_, _un homme  bonnes fortunes_ como l se diz.


SCENA XV

AS MESMAS E O VISCONDE

Visconde _(com mal reprimido azedume)_

A mulher de meu filho no sabe francez, snr. viscondessa.

D. Eugenia

Ah! o pae!.. Estava ahi!

Viscondessa

Com effeito!  possivel que eu tenha o to desejado jubilo de vr o snr.
visconde!? Ha que infinitos annos o no vi! Que doce surpresa!.. mas, ao
mesmo tempo, _(com a mo na fronte, pensativa)_ que turbilho de
recordaes melancolicas! V? no posso vencer a commoo! _(Leva o
leno aos olhos)_ .

Visconde _(sorrindo)_

So os meus cabellos brancos e as rugas profundas que a commovem, minha
snr.? Ainda bem que V. Ex. me no sensibilisa com o espectaculo
pungente da decadencia, snr. viscondessa.

Viscondessa

Pois creia que padeo infinitamente, visconde. Fra de Lisboa, recobro
foras e energia. Eu disse ao Pimentel: quero sahir d'aqui; estou farta
d'isto; Lisboa est estupida; a vida d'esta sociedade  a proza chilra
das sociedades gastas, sem feio, toda safada em relevos, um _cancan_,
uma palestra de senhoras visinhas; emfim, Lisboa acabou-se... a Lisboa
do nosso tempo...

Visconde _(com inteno ironica)_

A Lisboa dos nossos velhos tempos, minha snr....

Viscondessa _(sem attender  interrupo)_

Resolvi sahir instada pelo primo Travaos. Vim, e sinto-me melhor. Acho
certa novidade nos costumes, nas maneiras, no _ensemble_ da vida
portuense. Logo que cheguei e a prima condessa me apresentou esta snr.
como espoza de um filho do visconde de Vasconcellos, pedi logo que me
dessem occasio de vr a V. Ex.

Visconde

Muito grato ao obsequio...

Viscondessa

No me pergunta por alguem de Lisboa, visconde? No quer saber de alguem?

Visconde

Das pessoas que conheci em Lisboa ha 25 annos que me dir V. Ex.? Umas
morreram, outras envelheceram. No me parece aprazivel o passearmos em
um cemiterio a lr epitaphios de pessoas amigas ou conhecidas; nem V.
Ex. folgaria de encontrar-se com alguns velhos que encaram a morte
espantados, e apertam no peito ainda com amor o abutre da saudade.

Viscondessa

Que funebre! que elegiaco!.. V. Ex. abafa o seu antigo espirito com o
pezo dos crepes! Aqui est o que faz a aldeia. Eu estive algum tempo no
campo, onde o visconde se desterrou, sacrificando-me s experiencias
agricolas. Ao fim de oito dias, snr. D. Eugenia, as minhas ideias eram
pavorosas. Se me demoro outra semana, morria abafada. Snr. visconde,
trate de viver, e deixe  morte o cuidado de o apanhar, quando estiver
distrahido. V. Ex. acha sensato estar-se a gente a vr morrer todos os
dias? Eu no.  uma doidice que no abre as portas de Rilhafoles, nem as
da Arrabida, nem as de Cartucha, visto que se acabaram os frades
contemplativos; mas, snr. visconde, olhe que um mysantropo da sua
especie d cabo de si proprio, e flagella, os outros com as suas vises.

Visconde _(ironico)_

Eu sentiria atrozmente se incutia a V. Ex. ideias funeraes, e usurpava
 sociedade feliz as alegrias da sua optima indole, snr. viscondessa.

Viscondessa

Vamos... Venha a ironia que me faz lembrar o Heitor de Vasconcellos de
ha 24 annos. Ria maliciosamente, que eu antes o quero vr assim. Minha
querida amiga, entrego-lhe o cuidado de restaurar o espirito de seu pae.
Diga-lhe as coisas floridas e rejuvenescedoras que a mocidade sabe
dizer. Remoce este animo arido, e no o deixe voltar  aldeia. E adeus,
visconde. At amanh. Conversaremos muito... Ah!  verdade!  visconde,
olhe se se lembra de ter visto em Lisboa um tal Jorge de Mendanha que l
me conheceu ha vinte e tantos annos...

Visconde

Eu j hoje ouvi aqui fallar d'esse Jorge de Mendanha que estava na
America ingleza.

Viscondessa

Est no Porto.

Visconde

No Porto?!

Viscondessa

E vem manh ao baile.

Visconde

Tenho certa curiosidade de o vr.

Viscondessa

 extraordinario!

Visconde

Que singularidade so as do homem, viscondessa?

Viscondessa

 o _incompris_!.. tem a aureola do mysterioso; o incognito, o romance.
_(O visconde solta um frouxo de riso)_ De que se ri, visconde?

Visconde

De mim, por ter a innocente ignorancia de me espantar...

Viscondessa

Espantar-se! de qu?

Visconde

Do enthusiasmo juvenil com que V. Ex. pinta o homem, que, se nos
conheceu ha 24 annos, deve ter uma velhice rasoavel.

Viscondessa

Ahi vem uma jeremiada sobre a velhice!..

Visconde

E, se elle  maior de 50 annos, e finge o _incompris_, o incognito, o
romance, e tem aureola de mysterio, o tal sujeito deve ser
ridiculissimo. No me tente, minha presada snr., que eu sou capaz de
vir ao baile para no morrer sem ter visto um homem do nosso tempo com
uma aureola de mysterio.

Viscondessa _(dando-lhe com a luneta no hombro)_

Magano! Cuida que toda a gente lhe ha de _fazer cauda_ na via dolorosa
da sepultura!.. Ha muito quem ainda sinta o corao desopprimido sob o
pezo da consciencia; deixe rir alguem para que nos no affoguemos em
diluvio de lagrimas. _(Com inteno.)_

Visconde _(pensativo e abatido)_

Eu  que no posso rir-me; mas sei que ha coraes que no soffrem o
pezo das consciencias que nada pezam.

Viscondessa

Adeus, minha querida amiga. Adeus, visconde... Ah! que no me esquea
furtar-lhe duas camelias do seu jardim, que as vi lindissimas quando
vinha subindo.

D. Eugenia

Sim, minha snr., vamos colher quantas V. Ex. quizer.

Viscondessa

Eu amo infinitamente as camelias. As senhoras do Porto mereceram da
providencia dos jardins muito mais amor que as de Lisboa. _Sahem._--_(O
visconde senta-se alquebrado)_.


SCENA XV

O VISCONDE E DEPOIS JOO

Visconde

_Ha muito quem ainda sinta o corao desopprimido sob o pezo da
consciencia_, disse ella. Bem sei, bem sei onde apontavas a frecha...
Estas alluses moraes e penetrantes resaltam s vezes das consciencias
mais diluidas. Receio que esta mulher conte a Eugenia o meu passado...

Joo _(entrando com o Commercio do Porto; e, como no v o visconde,
que o espaldar da poltrona encobre, olha em redor)_

No enxergo ninguem. _(Comea a lr, e vae sentar-se n'outra poltrona,
que tem as costas voltadas para a do visconde)_ Deixa-me vr se ainda
leio por cima. Acho que  inglez, isto. Ser? No me parece. Quem sabe
lr n'estes _coisos_  c o meu primo Joaquim que j foi entregador ou
redactor ou no sei qu d'uma trapalhada d'estas. _(Lendo no alto da
primeira pagina) Po, l, po, l t, ca, in, ter, na. Politega eterna._
Isto acho que  a respeito da religio, ou l da eternidade do outro
mundo. Vamos vr o que diz dos governos: _(Lendo na quarta pagina)
Rolhas e palitos, rua da Ferraria, 46. (Soletrando)_ No  aqui. Ha-de
ser mais abaixo, _(lendo) Linguas de bacalhau, em Cima do Muro._ Linguas
de bacalhau! Isto  chalaa aos deputados... _(O visconde tosse. Joo
levanta-se atrapalhado, deixa o jornal sobre a cadeira, e se da sala
derreando-se para no ser visto. Ao mesmo tempo vem entrando D. Eugenia
por outra porta)_.


SCENA XVI

VISCONDE E D. EUGENIA

D. Eugenia _(aproximando-se da cadeira e inclinando-se com meiguice)_

Como est triste! que tem, meu pae?

Visconde _(erguendo-se)_

Grande pezar de j ter sido alguma hora alegre, minha filha.

D. Eugenia

Parece qu a visita da viscondessa o contrariou.

Visconde _(pegando do Commercio, e lendo mentalmente ao mesmo tempo
que conversa)_

O conhecimento d'esta senhora no lhe convem, Eugenia. Estas mulheres,
emancipadas da opinio publica aos vinte annos, no costumam ser as mais
uteis amigas na velhice.

D. Eugenia

Amiga! Eu apenas a conheo, e no sinto a menor inclinao para ser
amiga de tal senhora.

Visconde _(lendo sempre. Declamao vagarosa)_

Quando a viscondessa quizer contar-lhe as muitas historias que ella deve
saber da vida de Lisboa, mostre-se a minha filha inteiramente descuriosa
de as saber. Esteja de preveno. Eugenia, acautele-se das mulheres que
no tem outra virtude sabida seno a de murmurar dos vicios alheios. A
viscondessa creio eu que no murmura. Hypocrita nunca ella foi. Mas
conta, folga de contar: tira dos bastantes annos que tem o partido
possivel, como quem se preza de conhecer o romance dos ultimos 30 annos
de Lisboa. Alm d'isto, ha de a minha filha observar que certas damas
contam historias de pessima moral acontecidas com muitas das suas
amigas. O seu industrioso plano  dar a perceber que o vicio est por
tal forma naturalisado que j no ha razo para espantos nem sequer para
censuras. Ora eu muito queria que minha filha soubesse de mim smente
que na sociedade habitual da viscondessa de Pimentel as theses de moral
so assim todas pouco mais ou menos. _(Suspende-se subitamente.
Vivamente agitado, fixa attentamente o que est lendo, emquanto Eugenia
se intretem tocando em qualquer adorno das mezas. O visconde serena-se
com grande exforo e disfarce. Depe o jornal, e toma o chapeu. D.
Eugenia tem reparado na commoo do visconde)_. At j, Eugenia.

D. Eugenia

O pae est to pallido!

Visconde

Pallido! No sei o que seja!..

D. Eugenia

Sente-se doente?

Visconde

No, minha filha... Isto so accessos de hypocondria... Vou tomar ar ao
jardim. Volto j. _(Se)_.


SCENA XVII

D. Eugenia, _(s)_

Elle a to mudado e sobresaltado! E estava a lr com tanta inquietao!
Que seria? que viu elle n'este jornal?! _(Pega do jornal e corre os
olhos pela primeira pagina)._ Que  isto? _(estremecendo)_ Este nome...
Jacome da Silveira! _(Faz meno de lr agitadamente, e l alto): Cego
pela paixo feroz do ciume matou..._ Pois elle vive, meu Deus! Que
commoo to funda eu sinto! Que ancia! que susto de que esta noticia me
traga desventuras! _(Lendo) Jacome da Silveira... D. Martha de
Villasboas!_ So estes os nomes!.. O desgraado vive!.. Ainda o verei? E
poderia amal-o, se o visse? Oh! no... Eu vejo sempre o cadaver
d'ella... _(Senta-se a soluar)._


SCENA XVIII

D. EUGENIA E RODRIGO DE VASCONCELLOS

_(Eugenia forceja por limpar as lagrimas)_

Rodrigo _(reparando)_

Estavas chorando, filha?

D. Eugenia

Estava.

Rodrigo

Porque? So as primeiras lagrimas que te vejo.

D. Eugenia

 verdade...

Rodrigo

Mas porque choras, Eugenia? Tu estavas lendo n'este jornal...

D. Eugenia

Sim, estava... Vem ahi uma historia muito triste.

Rodrigo _(procurando no fundo do jornal)_

No folhetim? Pois os romances fazem-te chorar, creana?

D. Eugenia

No  romance;  aqui. _(Indicando-lhe o alto da primeira columna)._

Rodrigo

Aqui na Correspondencia de Pariz? _(Ella faz um gesto affirmativo)_ Pois
que ? _(Correndo com os olhos alguns periodos, balbucia inintelligiveis
palavras, e depois l):_ Contar-lhe-hei um successo digno de atteno,
e d'algum modo romantico, se bem que procede d'um lance de tragedia. 
aqui?

D. Eugenia

.

Rodrigo _(lendo)_

Um cavalheiro portuguez, que hontem encontrei no _Bois de Bologne_, me
mostrou um sujeito que ia passando ssinho, triste e vagaroso. E depois
me contou o seguinte caso que teceria o enredo de um bom romance, se
cahisse na officina de Alexandre Dumas. Ha duas duzias de annos, pouco
mais ou menos, um homem de considerao, residente em Lisboa, de nome
Jacome da Silveira, casado com uma distincta e formosa senhora, chamada
Martha de Villasboas, cego pela paixo feroz do ciume, matou a espoza.
Poucas horas depois, apresentou-se ao governador civil declarando que
matra sua mulher. Interrogado sobre os motivos do crime, respondeu que
no tinha obrigao, vontade, ou necessidade de declarar o crime da
senhora morta, porquanto j estava castigada, e a memoria d'ella no
esperava da sociedade estigma nem rehabilitao. Perguntado como  que
se apresentava, respondeu: Como homem que matou. Na qualidade pois de
homicida voluntario com premeditao foi Jacome da Silveira encarcerado,
julgado e sentenciado em 20 annos de degredo para Africa, em atteno
no sabemos a que circumstancias attenuantes. A sociedade de Lisboa, o
jury, e o juiz que o julgaram e sentenciaram sabiam de sobejo que D.
Martha de Villas-boas morrra criminosa. O cumplice da adultera ra
conhecido. Constava que o ro encontrra superabundantes provas do
crime, as quaes valeriam tanto na consciencia do jury como o flagrante
delicto. Todavia como Silveira teimou pertinaz e loucamente em no
declarar o crime de sua mulher, a condemnao ra inevitavel, a no
estar o jury, como no estava,  altura da to infeliz quanto generosa
alma do ro. Jacome da Silveira era rico. Todos suppozeram que elle se
transferisse d'Africa para onde bem quizesse, sobrando-lhe recursos com
que armar navio que o transportasse  Europa ou America do norte, a no
querer antes levantar-se com o senhorio de Angola e proclamar-se rei
d'quem e d'alem mar em Africa, etc. Estas conjecturas eram indignas do
nobre e excentrico animo do condemnado. Jacome cumpriu a sentena;
completou 20 annos de degredo; e, cobrando alvar de soltura, passou ao
corao da Europa, e nomeadamente ao _Bois de Bologne_, onde hontem o
vi. Tanto quanto de relance o pude vr, deixou-me uma impresso
melancolica. N'aquelle rosto de bronze, transluzia d'esta historia a
pagina que escreveram lagrimas choradas por espao de 24 annos. Na
historia ha duas victimas, e um infame. D'este personagem no lhe sei
dizer o nome. Esse talvez tenha envelhecido socegadamente em Portugal, e
esteja lendo com olhos enxutos esta noticia. _(Declama):_ Mais nada.
Saibamos agora porque choraste, Eugenia?

D. Eugenia

Porque chorei!? no foi to infeliz e triste a sorte d'esta senhora?!

Rodrigo

Triste? decerto foi; mas no era justo que fosse alegre. Esta mulher
deshonrou o marido: foi punida. Ella matou um corao honrado; elle
matou um corrupto. No ha comparao racional entre os dous delictos. Se
tu chorasses por elle que soffreu primeiro a deshonra, e depois a
condemnao a degredo de vinte annos!... As tuas lagrimas poderiam
revelar a piedade abraada  justia; mas chorar pela criminosa que...

D. Eugenia _(atalhando-o)_

Tens razo... Perda s minhas lagrimas... Em poucas palavras me fizeste
comprehender a desgraa d'esse infeliz.

Rodrigo _(pausadamente)_

Pois no  assim, filha?.. Primeiro, a affronta recebida no corao;
depois o aviltamento do amor-proprio e os risos insultadores do mundo;
depois o horrendo trance da morte com as angustias infernaes que deviam
lacerar-lhe a alma; depois o carcere e a sentena; depois vinte annos
sem patria; e finalmente...


SCENA XIX

OS MESMOS E O VISCONDE

Visconde

Que estavas tu dizendo to commovido, Rodrigo?

Rodrigo

Conversavamos a respeito d'esta noticia, meu pae. _(Mostra-lh'a no
Jornal)._

Visconde

J vi.

D. Eugenia

Parece-me que o pae tambem a leu com amargura.

Visconde

Li... Na sala de espera, Eugenia, estava alguem agora a procural-a.

D. Eugenia

Sim? eu vou. _(Se)._


SCENA ULTIMA

RODRIGO E O VISCONDE

Visconde

Pungiu-te essa noticia, Rodrigo?

Rodrigo

Eugenia  que estava chorando de compaixo da mulher que o marido matou.

Visconde

Deixasse-l'a chorar, coitada! Essa mulher, que morreu, foi uma virtuosa
espoza como Eugenia.

Rodrigo

Ento morreu innocente?

Visconde

No.

Rodrigo

N'esse caso, o confronto no lisonga minha mulher...

Visconde

Eu ia dizer-te que D. Martha entrou innocente n'um baile; e, quando
sahiu, sentia a febre da paixo que antecede a morte do brio e do
pundonor. Estava n'esse baile um homem de preversidade contagiosa. L as
ultimas linhas d'essa correspondencia, ahi onde comea: _Na historia ha
duas victimas e..._

Rodrigo _(lendo)_

Na historia ha duas victimas e um infame. D'este personagem no lhe sei
dizer o nome. Esse talvez tenha socegadamente envelhecido em Portugal, e
esteja lendo com olhos enxutos esta noticia.

Visconde _(commovido at s lagrimas)_

Vs os meus olhos enxutos? Repra, filho, que eu estou chorando...

Rodrigo

Est; mas que querem dizer as suas lagrimas?!

Visconde

Querem dizer que o infame, de que falla essa noticia, ... teu pae.
_(Rodrigo estremece. Corre o panno)._


FIM DO PRIMEIRO ACTO.




ACTO SEGUNDO.

A sala do primeiro acto. Ouve-se musica que vem soando das salas, onde
se dana. Damas e cavalheiros cruzam n'esta sala, mas no segundo plano.


SCENA I

VISCONDESSA DE PIMENTEL E O CONSELHEIRO JOS DE S

Viscondessa

Surpreza assim! Jos de S n'um baile do Porto! Encontrar-me ha quinze
dias no Chiado, e no me diz que vem ao Porto. Creatura mais mysteriosa,
com vislumbres de romantica, nunca vi! E estar no Francfort, meu
companheiro d'hotel, sem eu saber! H quantos annos o no encontro em
bailes, conselheiro? Deixe-me vr se me lembro... Foi, foi, foi ha...

Jos de S

Ha 22 annos, minha senhora.

Viscondessa

Mas que maravilhosa converso foi esta? como  que V. Ex. depois de
duas duzias d'annos d'um anachoretismo selvagem, volta aos bailes, a
estes pedaos modernos da Babilonia antiga?

Jos de S _(sorrindo)_

Milagres d'amr, snr. viscondessa, acho eu. Ha amres que rebentam no
inverno da vida como os tortulhos com as primeiras chuvas; e, como no
achem corao onde se hospedem dignamente, recolhem-se  cabea, e
tamanhos estragos l fazem que no  raro vr em bailes muitos doudos
que trazem nos miolos um cupido mais destruidor que um rato em queijo de
cabea de preto.

Viscondessa

Vejo que fez conserva da linguagem pittoresca d'outro tempo!

Jos de S

Pois est claro; nas nossas idades... quero dizer, na minha idade, so
tudo sequeiros e conservas... O corao, como eu o sinto, 
verdadeiramente uma betarraba j curtida...

Viscondessa

Pois sim mas no zombe do amor, que no perda sarcasmos... Olhe que a
occasio  de grande perigo... Veja, veja, o que ahi vai de bellezas...
_(apontando para as senhoras que vo passando)_.

Jos de S _(mirando-as com a luneta)_

 verdade. Bem vejo.  minha querida snr. viscondessa, defenda-me com o
seu bom conselho. Diga-me de que Circes devo acautelar-me.

Viscondessa

De todas.

Jos de S

De todas? pois tambem V. Ex. ter a crueldade de no poupar uma antiga
victima dos seus desdens? Constituamos o dialogo em pleno reinado
d'el-rei nosso senhor Dom Joo V.

Viscondessa _(ironica)_

E quem tem um espirito d'este tamanho andou 22 annos por fra dos bailes!

Jos de S _(rapido)_

Para o no perder, minha snr..

Viscondessa

Diz bem. O espirito aqui perde-se. Esta gente nova parece que se bronca
dos collegios. Aprendem linguas estrangeiras para fallarem com espirito,
e guardam o portuguez para dizerem semsaborias. Vae vr. Entre por essas
salas; encontra cincoenta galantes meninas de uma enxabidez monumental.
Espirito! Foi tempo. No ha hoje em dia quem saiba conversar cinco
minutos sem justificar o mais sincero abrimento de bcca.

Jos de S

Espirito de papoulas, no, minha snr.? Excellente coisa! Eu durmo ha
muito tempo ajudado pelos artigos de fundo das gazetas. Se eu podesse
adormecer acalentado pelas semsaborias dos anjos, trocaria a insipidez
dos anjos pelo sal dos politicos.

Viscondessa

Ai! politicos! no me falle em politica que me estorce os nervos! Pois
no sabe que o visconde por causa da candidatura de meu cunhado me fez
ir a Setubal dirigir as eleies contra o governo?

Jos de S

V. Ex. fez as eleies em Setubal? Isso tem graa; acho-lhe um sal,
mais sal do que Setubal exporta! V. Ex. fez eleies?

Viscondessa

Fiz.

Jos de S

E venceu?

Viscondessa

Venci.

Jos de S

Est claro. Venceu. O amr vence tudo, inclusive as eleies. Um ou dois
raios d'amor despedido por olhos ardentes sobre a urna, fariam o
prodigio de converter em ministerial o deputado opposicionista. Mas, 
querida viscondessa, V. Ex. no receou que os irritados manes de Bocage
a satyrizassem em Setubal?

Viscondessa

Satyrizar-me, porqu?

Jos de S

Pois uma snr. toda poesia, toda flres, toda co, a combinar com as
faces o arranjo d'um deputado, ha ahi cousa que deva recear-se mais da
satyra bocagiana?.. Uma dama politica! Uns dedos finos e cr de rosa,
affeitos a volver as paginas do livro do corao, a profanarem-se na
entrega das listas de costaneira!  muito illustre e muito presada minha
amiga, posto que V. Ex. qual outra Judith venceu o Holofernes
administrativo de Setubal, no posso deixar de lhe dizer que se V. Ex.
e as suas correligionarias comeam a fazer politica, eu e os meus
correligionarios teremos de fazer meia. Este paiz  muito pequeno, e a
custo dar politica para o sexo feio.

Viscondessa

J vejo que o snr. conselheiro continua a considerar a mulher uma
incapacidade para os actos do espirito.

Jos de S

No minha snr. Eu sou obrigado a confessar que ha senhoras
intelligentissimas e com grande capacidade.

Viscondessa

Mas com intelligencia smente honorifica. Concedem-nos a honra da
intelligencia; mas sem exercicio... Obrigadissimas, rei da creao,
obrigadissimas... _(Reparando)_ Ah! ahi vem o Jorge de Mendanha, conhece?

Jos de S _(intencionalmente)_

No conheo Jorge de Mendanha.

Viscondessa

E no se lembra de ter conhecido este nome?

Jos de S

No conheci.

Viscondessa

Eu apresento-o!

Jos de S _(parte)_

Tem graa a apresentao...


SCENA II

VISCONDESSA, JOS DE SA, D. EUGENIA, JORGE DE MENDANHA

Viscondessa _(a Jorge)_

Apresento o snr. conselheiro Jos de S, cavalheiro pertencente  mais
selecta sociedade de Lisboa. Talvez conhecesse V. Ex. _(Indicando
Jorge)_ O snr. Jorge de Mendanha.  natural que j se hajam visto...
_(Os apresentados apertam-se as mos, fixando-se de um modo que deixa
entrever disfarce)_.

Jos de S

Certamente.

Viscondessa

Em Lisboa? _(Signal de comear-se uma polka. Rodrigo offerece o brao 
viscondessa, e Aranha a D. Eugenia. Movimento de pares que atravessam
rapidamente)_.

Rodrigo _(offerecendo o brao)_

 a terceira polka, minha snr.

Viscondessa

Ah! sim? vamos...

D. Eugenia _(com distraco a Pedro Aranha)_

Sou seu par, snr. Aranha?

Aranha

Sim, minha snr.; mas, se V. Ex....

D. Eugenia _(desprendendo-se do brao de Jorge)_

Desculpe, cuidei que... _(Sem os dois pares)._


SCENA III

JORGE E JOS DE SA

Jos de S

Que vieste, afinal, fazer aqui?

Jorge

Ver como se houve a Providencia n'este pleito que eu terminei com a
sociedade. Fui condemnado. Apellei da iniquidade da terra para a justia
do co. Agora, vim vr como a justia do co sentenciou. Quero vr, face
a face, e sem que me conheam, o homem que matou a alma da mulher que a
sociedade disse que morreu s minhas mos. Morta estava ella. Matou-a
quem a cobriu de opprobrio: matou-a o infame que eu venho procurar
n'estas salas, 20 annos depois que offereci a minha sentena de desterro
 suprema alada de Deus. Vejamos, pois, o que Deus fez d'elle. Por ora,
o que presenceamos, meu amigo, faz-me desconfiar que a justia celestial
no desce a sujar as suas balanas n'este lamaal da terra. _(sorrindo)_
Suspeito que o meu recurso de revista foi l em cima julgado por
desembargadores que fazem obra pela jurisprudencia que levaram de c.
_(Triste e concentrado)_ Ainda o no vi; mas sei que estou nas suas
opulentas salas. Aqui de certo no mora a desgraa. Os infelizes no
accendem tantas serpentinas para se mostrarem. O homem que depravou
Martha, e atirou s mos da minha vingana esse cadaver, Heitor de
Vasconcellos vive! nobilitaram-no com uma cora de visconde, saborea-se
nas dces chimeras que esmaltam o ouro da vida; e, de mais d'isso, tem
um filho que lhe regala a velhice com estas musicas e danas. _(Ouve-se
a orchestra, por um breve espao, durante o qual Jorge medita
concentrado. Depois a musica descahe para uma toada triste e como remota
acompanhando a declamao)_ E o condemnado fui eu. Abri-lhe as portas de
minha casa, leveio-o ao intimo do meu lr, puz na sua mo a de uma
mulher que eu adorava, dizendo a ambos que se dessem os parabens da
minha felicidade. E elle empestou-lhe a alma, insinuou-lhe no corao o
despejo, e a infernal coragem de me trahir e matar. Matou-me. Quem foi
dos trez o desgraado? E ella jaz onde a infamia lhe no peza. Eu venho
de arrastar meia existencia debaixo de um co maldito. Heitor de
Vasconcellos envelheceu: placidamente lhe corre a vida debaixo d'estes
tectos explendidos e por sobre estas alcatifas aveludadas. A sociedade
respeita-o. Nos seus sales esto os sabios, os virtuosos, os ricos, e
tambem o pae de familias com suas filhas, e os maridos com as espozas
sem macula. O condemnado fui eu. Perdi a mulher que amei, perdi a honra
que amava mais, lavei o sangue de minhas mos com lagrimas em vinte
mezes de carcere, e vinte annos sem patria. Aqui estou. Venho vr o que
a divina Providencia me diz d'este homem que voltou as costas 
sepultura da mulher que ambos matamos... ao infame que envelheceu feliz.
Respondi, Jos de S. No me perguntes mais o que vim aqui fazer.


SCENA IV

OS MESMOS E A VISCONDESSA PELO BRAO DE RODRIGO

Viscondessa _(descendo para o proscenio)_

Mas o visconde no vem, snr. Vasconcellos?

Rodrigo

Meu pae prometteu vir, se bem que ainda ao anoitecer estava na cama
bastante incommodado, e com tenes de ir esta madrugada para a provincia.

Viscondessa

Incommodado de que? Ainda hontem o vi com bastante animao; mas, em
verdade, muitissimo abatido de espirito est elle! O snr. conselheiro,
no viu ha muito o visconde de Vasconcellos?

Jos de S

Ha vinte e trez annos, minha snr.

Viscondessa

Ento no o reconhece, sem que lh'o mostrem.

Rodrigo _( viscondessa)_

V. Ex. quer aqui ficar? _(sorrindo)_ Eu no posso deixar de ir ser
testemunha das incommodidades que V. Ex.as soffrem n'esta casa. Snr.
Jorge de Mendanha, eu folgaria que um baile no Porto no intdiasse
antes da meia noute o cavalheiro que vem dos sales de Pariz.

Jorge

Dos areaes da Africa, snr. Vasconcellos.

Rodrigo

Mas tambem viajou na Europa...

Jorge

Na volta d'Africa, passei por algumas cidades da Europa: mas no
frequentei bailes; e, quando os visse, quer-me parecer que as salas de
V. Ex. no poderiam temer-se da confrontao.

Rodrigo

 snr. Mendanha... _(Rodrigo fica gesticulando com Jorge)._

Viscondessa _(que tem estado a conversar com Jos de S)_

Nada, polkas no quero mais. Bate-me o corao espantosamente. Olhe este
pulso, snr. S.

Jos de S _(apalpando-lhe o pulso)_

Valentissimo!  o palpitar dos 18 annos,  vida,  sangue que pula, que
polka n'um corao ainda rijo. Eu iria jurar que V. Ex. tem um
aneurisma...

Viscondessa

O qu?

Jos de S

Um aneurisma d'amor, no se assuste. A viscondessa j sabe que no se
morre de taes aneurismas.

Viscondessa

Acha? Este S  o contraste de seu pae, snr. Rodrigo. O visconde  a
elegia, este  o madrigal. Olhe o que faz viver no Chiado em Lisboa ou
nas Mattas de Traz-os-montes! Veja o espirito folgazo d'este rapaz...

Jos de S

 cruel! Pde caber tamanha vingana em alma to dce? Chegamos a um
tempo em que at os favos de mel se azedam! No me disse ainda ha pouco,
minha muito contraditoria senhora, que eu tinha vivido duas duzias de
annos como anachoreta selvagem?

Viscondessa

Fra dos bailes; mas dentro de Lisboa, onde os espiritos remoam e
esvoaam como...

Jos de S

Como morcegos nas torres da Conceio velha.

Viscondessa _(a Rodrigo)_

Olhe, olhe esta fecundidade! o que eu queria era vr seu pae assim
galhofeiro, snr. Vasconcellos.

Rodrigo _(sorrindo, a retirar-se)_

Pois eu logo que o veja, snr. viscondessa... Pde ser que o duelo de
espirito em que V. Ex.as to destramente se batem, produza no meu velho
e melancholico pae uma inveja salutar. _(Se)._


SCENA V

JORGE, VISCONDESSA E JOS DE S

Viscondessa _(acautelando-se de que a ouam os que atravessam a sala)_

 conselheiro, lembra-se perfeitamente da parte que teve o Vasconcellos
n'aquella tragedia do Largo do Intendente?.. Ora se lembra!..

Jos de S

N'aquella tragedia... ah! sim,.. No recordemos, no recordemos...

Jorge

Recordemos... Eu gosto de ouvir tragedias.

Viscondessa

Se V. Ex. esteve em Lisboa ha 20 e tantos annos ha de lembrar-se de uma
senhora que o marido matou por ciumes...

Jorge

Injustos?

Viscondessa

Isso no. Ella amava sem duvida nenhuma este visconde de Vasconcellos.
No se recorda?

Jorge

Tenho uma vaga lembrana.

Viscondessa

Como se chamava elle? o marido? Lembra-se, Jos de S? Espere... era
Silveira no era?

Jorge

Conheceu-o V. Ex.?

Viscondessa

No. Quem conheci muito foi ella. Estivemos ambas no collegio de M.elle
Duchateaux, no Rato. Era lindissima a pobre Martha de Villasboas! Nunca
vi o marido, porque nunca a visitei depois que casou, visto que no
recebi parte do casamento. Offereceu-se-me ensejo de o conhecer em
alguns bailes onde concorremos, mas nem o vi nem desejei conhecel-o
desde que me asseveraram que elle fizera uma rigorosa seleco das
amigas de sua mulher, receando que as amigas mais desempoadas a
despenhassem no abysmo. _(Rindo)_ Ha assim muitos maridos que rodeam as
mulheres de anjos; mas Satanaz que  indisputavelmente mais esperto que
os anjos, e gosta de luctar com as difficuldades, consegue s vezes
pregar logros verdadeiramente infernaes aos maridos, deixando os anjos
tristes e at certo ponto compromettidos.  o que aconteceu s
irreprehensiveis amigas da pobre Martha--umas creaturas que andaram
pelas egrejas a orar por alma d'ella, como se precizassem introduzil-a
no co, para poderem alegar um exemplo em seu favor no dia do juizo...

Jos de S

Intrepida lingua, snr. viscondessa! Espada de dois gumes!

Viscondessa

A minha lingua no  intrepida,  portugueza.

Jos de S

Seja; mas os mortos que durmam em paz.

Jorge

Mas eu pediria  snr. viscondessa que me relacionasse com todos os
mortos que deixaram na terra memorias tragicas. Ter V. Ex. a bondade
de satisfazer a curiosidade de um homem, cuja atteno s pde ser
captiva de grandes desgraas? _(Jos de S com ar de enfado vae ao fundo
e torna)._

Viscondessa

Sim, eu resumo a historia em duas palavras para no ferir a
sensibilidade do snr. conselheiro. Martha apaixonou-se por este Heitor
de Vasconcellos, homem perigoso que o Silveira recebeu na sua
intimidade. No sei bem como o marido suspeitou a perfidia, ou
interceptou a correspondencia. O que penso  que Martha no soube
esconder a culpa na mascara d'aquella santa hypocrisia que costuma
escrever nas sepulturas os epitaphios d'algumas excellentes esposas, que
eu conheo, e o conselheiro tambem conhece, no acha?

Jos de S

Eu conheo muitas esposas excellentes.

Viscondessa

Mascaradas?

Jos de S _(apontando para D. Eugenia que vem entrando pelo brao de
Pedro Aranha)_

Ahi tem um modelo de esposos.

Viscondessa

Cazou ha anno e meio.


SCENA VI

OS MESMOS, D. EUGENIA E PEDRO ARANHA

D. Eugenia

Eu andava procurando V. Ex.as Fogem do bulicio? tomra eu tambem fugir.

Pedro _(a D. Eugenia)_

A snr. viscondessa  hoje muito generosa com V. Ex.

D. Eugenia

Sim? pois quando deixou de ser generosa a snr. viscondessa?

Pedro

Se V. Ex. quizer, despovoa-lhe as salas onde se dana. Basta
annunciar-se que a snr. viscondessa est aqui derramando as perolas do
seu espirito.

Viscondessa

Cuida que est lisongeando uma _femme savante_ de Moliere este Trissotin
em formato pequeno! este snr. Aranha que tem mais peonha que o
appellido quando quer ter um espirito de ventosa.

Pedro

Eu sou das aranhas que no tecem a sua teia em todas as ruinas.

Jos de S _(parte)_

Bravo! esto bonitos!

D. Eugenia _(ouve-se a orchestra)_

Vai danar-se, snr. viscondessa.

Viscondessa

Eu no vou danar, minha querida. Fico por aqui a reconstruir o passado
com o auxilio das reminiscencias do snr. conselheiro S. Estou a
imaginar-me com vinte e dois annos. Isto  bom e innocente recreio. Se a
gente retrocede alguns annos, acha-se em sociedade de menos parvos.

D. Eugenia _(a Jorge)_

E V. Ex. est triste?

Jorge

 minha senhora, no...

D. Eugenia

Est; pois eu no vejo? Parece-me que ama tanto os bailes como o pae de
Rodrigo e como eu...

Pedro _(ao novo signal da mazurka)_

Vamos, minha snr.? _(Sahem. Movimento dos pares atravessando no
corredor)._


SCENA VII

VISCONDESSA, S E JORGE

Viscondessa

J viram uma sinceridade mais infantil? A dona do baile a dizer-nos que
no gosta de bailes? Tanto importa como declarar-nos que a nossa
companhia lhe  mediocremente agradavel; no acham?..

Jorge

Esta senhora parece-me boa, triste, mas realmente pouco habituada s
salas.  do Porto?

Viscondessa

Nada, no ; mas eu tambem no sei d'onde seja. Este casamento de
Rodrigo d dois capitulos para um romance semsabor como se escrevem em
Portugal.

Jorge

Os romances portuguezes pde ser que sejam semsabores; mas as tragedias
tem um no sei que de irritante, um acre de sangue... Vamos  tragedia,
snr. viscondessa,  tragedia interrompida.

Viscondessa

Pois eu no conclui?

Jorge

No minha snr. V. Ex. chegou ao ponto em que...

Viscondessa

Em que o marido a matou. Ella morreu envenenada, e elle entregou-se 
justia. Ajude-me a recordar, snr. Jos de S? Que explicaes deu o
Silveira matando a mulher e deixando viver o Vasconcellos?

Jos de S

Silveira no deu explicao alguma, snr. viscondessa.

Viscondessa _(com impeto)_

Ai! ai! ai! a quem eu estou contando a historia... Ainda agora me
lembro! ora esta! pois V. ex. no era o amigo intimo de Silveira? No
passava os dias com elle no Limoeiro?

Jos de S

Passava, minha snr.

Viscondessa

Ento aqui tem o melhor informador que V. Ex. podia encontrar. Conte o
que sabe, conselheiro.  verdade, queira dizer-me: a filha de Martha de
que tomou conta a Maria da Gloria Villasboas, que  feito d'ella, sabe?

Jos de S

No sei.

Viscondessa

Ento que sabe? Esta ignorancia  singular, por no dizer irrizoria!
Querem vr que a candura d'este varo se est insurgindo contra uma
historia de corrupo social.

Jos de S _(sorrindo)_

Isto no  candura, minha snr. Eu estou corrompido bastantemente para
no ser tolo. Na nossa sociedade, minha viscondessa, as canduras
apodreciam antes de florir innocencias tamanhas. Declaro a V. Ex. que
no sei o que  feito da filha de D. Martha de Villasboas. Mas que
insistencia, senhora! Tendo V. Ex. tantas flres e tantas coisas cheias
de vida e de luz no seu espirito; para que ha de estar enluctando a sua
gentil conversao com umas memorias em que ha lagrimas a respeitar e
infamias a perdoar?

Jorge _(severamente)_

A perdoar!

Viscondessa

E eu accuso alguem! O snr. est exquisito! Eu no sei se a Humanitaria
d medalhas aos sentimentalistas como V. Ex. Este snr. se vir
representar o Othello de Shaskspeare se do theatro para no vr
historiada a infelicidade de Desdemona e a colera barbara do marido. 
capaz de os ir accusar  policia!

Jos de S

Eu no me retirava do theatro, nem iria accusar  policia as adulteras
mortas visto que no accuso as vivas; no sahiria do theatro; mas em vez
de olhar para o palco, olharia para as snr.as que contemplam sem
impallidecer o horrendo trance da morte de Desdemona; e, na seguinte
noite, iro vr no mesmo palco representar uma comedia em que se zombe
d'um marido deshonrado, e se mova a piedade das plateias a favor da
adultera e do seu cumplice.

Viscondessa

Optimo! Isso  bom, bonito e eloquente. Mas eu, se no desmaio quando
vejo as agonias fantasticas das peccadoras no theatro, tambem me no rio
dos maridos escarnecidos, nem me commovo pela desventura d'aquellas que
fizeram do seu corao um filtro de peonha e de infames lagrimas.
Quando Martha de Villasboas foi morta, eu no fui das que se vestiram de
lucto e andaram pelas egrejas a fazer-lhe uns baratos suffragios pela
alma, e formavam grupos nos adros execrando a ferocidade do homem que
no pde dispr da pacifica tolerancia dos maridos que acompanharam s
egrejas as devotas esposas. Se eu tivesse a f que ensina a rezar pela
salvao das almas, rezava em caza. No indo  egreja, nem saindo a
irritar odios contra o infeliz marido de Martha, cuido que respeitei
bastantemente a desgraa de ambos. E, se as minhas oraes valessem
perante Deus, eu pediria perdo para ella, e misericordia para elle.

Jorge

Esse grande desgraado, se ouvisse a snr. viscondessa, cuidaria que
houve no mundo duas pessoas que choraram por elle...

Viscondessa

Eu que tinha sido excluida das relaes de Martha, fiz mais, snr.
Mendanha. Sabia que existia uma menina de tres annos, quando a minha
amiga de infancia morreu. Fiz inuteis exforos para descobrir a paragem
da menina. Se tivesse encontrado em desamparo a filha de Martha,
leval-a-ia para minha caza... _(Momentos antes Eugenia e Pedro Aranha
tem entrado na sala que vo atravessando, e Eugenia applica o ouvido ao
que se est dizendo: e solta com sobresalto uma exclamao quando a
viscondessa termina)._


SCENA VIII

OS MESMOS, PEDRO, D. EUGENIA

D. Eugenia

Ah!

Pedro

Que tem V. Ex.?

D. Eugenia _(aproximando-se do grupo com dissimulado socego)_

V. Ex.as estavam conversando a respeito de...

Viscondessa

De frivolidades, minha snr.

D. Eugenia _(com muito embarao)_

Cuidei que ouvi proferir um nome que... V. Ex.as diziam coisa que eu
no devo ouvir... A minha chegada perturbou a snr. viscondessa.

Viscondessa

No minha snr. Estava-se conversando e recordando coisas antigas... a
sociedade de Lisboa de ha vinte annos.

D. Eugenia

Pois sim; mas V. Ex. no fallou de uma senhora chamada Martha de
Villasboas?..

Jorge

Fallou, snr. D. Eugenia. E que sabe V. Ex. da pessoa que teve esse
nome?..

D. Eugenia _(encarando-o com susto)_

Nada...

Jorge _( parte a Jos de S)_

Sabe a historia do sogro.

Jos de S _(o mesmo)_

 natural.

Viscondessa

O senhor Aranha, diz-me onde est a prima Travaos...

Pedro

Eu conduzo V. Ex. _(d-lhe o brao.. Sahem)._


SCENA IX

D. EUGENIA, JORGE, S

Jorge _(aproximando a cadeira)_

De Martha de Villasboas estavamos ns effectivamente conversando, minha
snr. Quando a mulher que teve esse nome sahiu d'este mundo, V. Ex.
teria apenas nascido.

D. Eugenia

V. Ex. conheceu-a?

Jorge

Vi-a. Quer V. Ex. provavelmente que se lhe conte um episodio da
historia de seu sogro...

D. Eugenia _(erguendo-se de impeto)_

De meu sogro? No intendo... que tem que vr meu sogro com essa senhora?

Jos de S _( parte a Jorge)_

Descrio. _(Se)._


SCENA X

D. EUGENIA E JORGE

Jorge

No semblante angelico de V. Ex. reluz sinceridade. No posso crr que a
snr. D. Eugenia finja ignorancia; mas tambem no posso perceber o ar de
interesse com que me pergunta se eu conheci Martha de Villasboas.

D. Eugenia

Fui creada n'um recolhimento, onde muitas vezes ouvi contar a
desventurada sorte d'essa snr.

Jorge

Ah! ficou-lhe na memoria o nome, e no corao o d da mulher que teve a
infelicidade de ser amada do marido at ao extremo de ser morta por elle...

D. Eugenia

E elle amava-a!?

Jorge

Que pergunta! Pois no v que elle a matou por ciumes?

D. Eugenia _(como aterrada)_

Matar! que horror, meu Deus!

Jorge

O horror no  matar;  sobreviver a esse cadaver que deixa uma herana
de deshonra eterna. O horror  viver com o pezo d'esse cadaver, no
sobre a consciencia, mas sobre o corao esmagado para nunca mais
ressurgir. Para que V. Ex. possa sem espavorir-se, pr os olhos de sua
alma no homem que matou Martha, imagine-o esposo, amante e apaixonado,
ao quarto anno ainda noivo, cuidando que sua mulher a cada novo dia que
vem sempre de caricias, sente a preciso de redobrar de ternura e
gratido. Veja-o de joelhos, ao p de um bero onde lhe brincava com os
beijos uma creana que elle chamava filha...

D. Eugenia _(com impeto)_

Ento V. Ex. conheceu-o?

Jorge

Se conheci!.. Considere-o de repente sem a esposa, sem a filha, com a
alma varada pela morte das duas vidas que viviam n'elle. A me
descaroada vae ao bero onde est a creana, grava-lhe no rosto o labo
da sua infamia, involve-a na sua mesma mortalha, sepulta-se com ella. O
marido e pae  de repente arrancado a impuxes de opprobrio dos braos
de uma esposa querida. Quando lhe elle agradecia as alegrias de seu
amor, e a creana sorrindo parecia entender os jubilos do pae, Martha
punha um p sobre o corao do marido, outro, sobre o seio da filha, e
repartia entre os dois a deshonra que lhe subejava. Do homem que por
espao de quatro annos lhe beijra os ps, fez um desgraado sem nome;
mas a sociedade precizando dar um nome a esse desamparado, chamou-lhe
assassino. Elle matou-a, snr. D. Eugenia; foi a si proprio que elle se
matou. Era foroso espedaar a alma que se identificra ao corpo
contaminado da mulher perdida. As convulses do veneno dilaceraram-lhe
duas robustas vidas, a do corao e a do pundonor. O anjo que esse homem
chamava filha cahiu dos braos da me, e elle repulsou-a dos seus,
porque... no sei onde esto torturas comparaveis s da incerteza entre
um bero onde sorri um innocente e a sepultura onde os vermes completam
a podrido de uma coisa infame como  a mulher que deixou seus filhos
envergonhados se lhe proferirem o nome. Peo perdo, se estou magoando a
sua sensibilidade, minha snr. V. Ex. est soffrendo, e eu disse
palavras acerbas como se as estivesse dizendo em frente dos juizes que
condemnaram Jacome da Silveira. Chora! V. Ex. chora?! porque?

D. Eugenia

E porque no pediria essa criancinha a vida de sua me? Ella choraria o
seu remorso ao p do bero da filha... O desgraado que praticou um to
duro castigo devia deixal-a viver, abandonal-a, para que a orf no
ficasse to sem abrigo,  caridade de estranhos... No se mata uma me
que tem nos braos uma criancinha de tres annos.

Jorge _(severo)_

Essa mulher que morreu tinha o amante que primeiro lhe matou os brios; a
criana podia ser filha do amante; e, se elle fosse menos infame do que
cobarde, deveria retribuir a deshonra da me, repartindo com a orf as
pompas d'esta casa.

D. Eugenia _(vivamente agitada)_

No entendo, snr.! Porque diz V. Ex. que a filha de Martha devia ter
parte nas pompas d'esta casa? Responda... diga... diga que segredo 
este de que vae estalar uma grande desgraa... Olhe que  atroz a minha
desconfiana...  horrivel... e eu receio morrer...

Jorge

 incomprehensivel o susto de V. Ex.! Receia morrer... porqu? A snr.
D. Eugenia est formando espantosas tragedias na sua fantasia! Olhe que
no ha nada extraordinario que deva atemorisal-a... Contou-se aqui a
historia d'um homem atraioado, e d'uma mulher morta...

D. Eugenia

Mas meu sogro teve parte n'esse terrivel acontecimento?

Jorge

E quando tivesse, minha snr.? Ha ahi nada mais vulgar, que um homem
deshonrado por outro? E acaso viu V. Ex. incapellarem-se grandes
tormentas  volta das pessoas como seu sogro?

D. Eugenia

Mas... s duas palavras... depressa, antes que venha gente. Meu sogro
foi quem perdeu Martha.... foi? _(Agitando os braos, desprende-se-lhe
uma pulseira, que Jorge levanta; mas, ao acolchetar-lh'a, repara e
estremece)._

Jorge _(rancoroso)_

Quem lhe deu esta pulseira? quem lhe deu este retrato, senhora?

D. Eugenia

Retrato! isto no  retrato... Esta pulseira deu-m'a...

Jorge _(interrompendo-a com mal reprimido arrebatamento)_

Seu sogro? Esse ignobil costuma dar s esposas dos filhos os retratos
das amantes?

D. Eugenia

Jesus! Oua-me...

Jorge

Sabe a snr. que este retrato  o de uma adultera que se chamou Martha?
uma adultera que deu a seu sogro o retrato que o marido lhe dera n'esta
pulseira entre as joias do noivado? _(Arroja a pulseira ao cho, e vae
pizal-a quando Eugenia a levanta impetuosamente)._

D. Eugenia

Pois este retrato  o d'ella? _(beijando-o e soluando)_ Oh! eu no
sabia... Vem gente... no quero que me vejam chorar... siga-me... eu
tenho muito que lhe dizer... siga-me a outra sala. _(Toma-lhe o brao e
sahem rapidos)._


SCENA XI

VISCONDE DE VASCONCELLOS E JOS DE S

Visconde

Quando me disseram que estavas aqui esperava eu que as foras me
deixassem preparar para a jornada...

Jos de S

Para onde vaes, visconde?

Visconde

Para Traz-os-montes, para uma torre onde estaria bem apartado da
sociedade o Leproso de Xavier de Maistre... Ha muitos annos que te no
vejo, Jos de S. Eramos rapazes a derradeira vez que nos vimos! Ests
ainda robusto, e com o colorido da mocidade nos gestos e nos olhos.
V-se que no inclinaste a cabea para o peito a chorar. No afogaste em
lagrimas, quando eras moo, os embries d'onde te floriram as alegrias
da velhice. No fui eu assim, Jos de S. Sabes que formidavel trance me
envelheceu quando eu principiava a viver. A Providencia ainda no
levantou a mo inexoravel. No pdes imaginar o que ha sido a minha vida.

Jos de S

Basta-me vr-te para crr que tens soffrido; porm, no o imaginava eu
assim. Depois que sahiste de Lisboa, poucos annos passados soube que
tinhas um filho. Ha dias chegando ao Porto, soube que teu filho dava um
baile, e que tu vivias quasi sempre na provincia. Estas noticias, a
fallar verdade; no me parecem bastantemente significativas da vida
dolorosa que tens passado. Eu julgava-te feliz como o vulgar dos homens.

Visconde

Jos de S, o mundo quando v padecer os grandes criminosos, recusa
acreditar que elles soffrem, para os ter sempre debaixo do peso do seu
odio. Se um supplicio secreto os mata lentamente, o mundo, embora lhes
veja lagrimas nas rugas do rosto, no tem compaixo d'elles. A sociedade
cr pouco nos castigos occultos da justia divina, porque no conhece
justia efficaz e exemplar seno a dos carceres, dos degredos e das
forcas. Desde aquella hora funesta em que eu me vi ao mesmo tempo o mais
miseravel e despresivel homem... quando me foi foroso esconder no meu
antro as lagrimas por aquella... cuja sepultura eu abri... desde aquella
hora accendeu-se em minh'alma um inferno inextinguivel.

Jos de S

Os teus amigos cuidaram que terias ento a louvavel e virtuoza coragem
do suicidio.

Visconde

A virtuoza coragem do suicidio! depois que se atropellaram em frente de
mim desgraas tamanhas, o matar-me ento seria coragem? O partir a
corrente que me prende ha vinte e dois annos a um incessante supplicio
seria coragem? Eu n'aquelle tempo no tinha o menor vislumbre de
religio, o matar-me sem pavor da eternidade seria, nas minhas
circumstancias, o complemento de uma vida proterva. Fechar olhos para
no vr a sombra de Martha, nem Jacome no degredo, seria um acto de
valor? No. Valor  ter ainda hoje lagrimas para ambos... E no dia em
que eu no poder chorar, descrerei de Deus e ento... matar-me-hei, por
intender que expiei acerbamente, e no fugi ao castigo...

Jos de S

Mas parece que fugiste do duelo.

Visconde

Eu no podia affrontar-me com o homem que eu deshonrara. Criminosos como
eu aceitam uma bala, no aceitam um contendor no campo da honra.
Matam-se, no se desaffiam taes homens. A sociedade quereria que eu
apontasse um florete ao corao do marido de Martha? Se eu o matasse
atenuaria a minha baixeza com esse acto de deshumanidade?.

Jos de S

Mas a sociedade, quando v os delinquentes na tua condio, pergunta
como  que expiam.

Visconde

Essa pergunta me fazes tu em nome da sociedade?

Jos de S

No: se eu te interrogasse, visconde, seria por minha conta. A sociedade
creio eu que no te pergunta nada. D-lhe bailes; que a sociedade troca
por isso o prazer de te diffamar. A sociedade em quanto dana no
dilacera reputaes. Evita, quanto puderes, ser desgraado e pobre. Isso
 que se no perda. Ainda que os remorsos te cortem o corao, s tu
rico, e vers que a sociedade conspira em te distrahir com o espectaculo
da fara humana em que os trues sacodem os cascaveis para que no ouas
os gemidos da tua consciencia.

Visconde

Eu no dou bailes; d-os meu filho que  moo, e no se priva dos gozos
da mocidade porque me v chorar. Jos de S, tens sido duramente severo
comigo. No me queixo. Generosamente me apertaste a mo; e eu no
merecia tanto. Se alguem houvesse compaixo de mim, no serias tu por
certo, que foste amigo de Silveira e o confidente de afflices
superiores ao entendimento de desgraados maiores do que eu. Chorei-os
ambos, porque os matei ambos. Peguei d'aquelles trez entes cheios das
alegrias da honra e do amr... e atirei-os  voragem do opprobrio e da
morte... Despreza-me tu, desprezem-me todos, que eu no tenho
rehabilitao... no posso arrancar-me das prezas implacaveis do meu
remorso. _(Cahe extenuado numa cadeira)._

Jos de S _(comtemplando-o, e entre si)_

No te erguers no, infeliz! Pza-te na consciencia o cadaver de Martha...


SCENA XII

OS MESMOS, VISCONDESSA, PEDRO ARANHA COM OUTROS GRUPOS QUE SE CRUZAM AO
FUNDO

Viscondessa

Ai! alli est o visconde! _(aproxima-se inclinando-se)_ Visconde!

Visconde

Minha senhora... _(levantando-se a custo)._

Viscondessa

Soubemos agora que V. Ex. tinha chegado, e procuramol-o em todas as
salas. Reanime-se!

Visconde

Estou bem, snr. viscondessa.. E V. Ex. tem-se enfastiado?

Viscondessa

No me enfastio; gelo-me de horror, quando penso que a luz do sol nos ha
de mandar sahir d'este paraizo.

Pedro

Onde todos os pomos so prohibidos.

Jos de S

E os maduros tambem? _(tregeitando como alluso  viscondessa)._

Viscondessa

Os verdes principalmente  que so prohibidos pela mesma razo que o
eram as uvas  rapoza; no acha, snr. Pedro Aranha?

Pedro

Eu acho que V. Ex. sabe tudo, adivinha tudo,  a arvore da sciencia
d'este paraizo. Descubriu ultimamente que eu vinha depr o meu
inveterado scepticismo s plantas de uma menina portuense.

Jos de S

E eu no admiro; que n'estas salas tenho eu visto explendidas bellezas,
s quaes seria facil empreza dobrar o orgulho d'esta moderna seita de
scepticos, e de jovens canados d'amor que se deploram em Portugal por
versos mais ou menos errados, e morrem quasi sempre desconhecidos na sua
rua.

Viscondessa _(ao visconde)_

Que abstraco! que melancholia! Distraia-se!..  visconde _(indigitando
um par)_ quem  aquella menina que parece ir adormecida sobre o hombro
do menino respectivo?

Visconde

No sei, minha snr. Eu conheo n'esta sala V. Ex. e a mulher de meu
filho. Onde est Eugenia?

Viscondessa

 uma pergunta que eu ia fazer. Ha coisa d'um quarto de hora que a vi
passar pelo brao de Jorge de Mendanha.

Visconde

No tive o prazer de vr esse cavalheiro, e provavelmente j o no verei
por que vou sahir.

Jos de S

Tu no ests hospedado em casa de teu filho?

Visconde

No, Jos de S. Eu amo bastante meu filho e minha nora para os no
mortificar com a presena continuada d'uma velhice repellente...

Viscondessa

Ahi vem lamentao do profeta... Se vem, deixo cahir a fronte com o pezo
da mortificao!.. Ah! aqui vem a snr. D. Eugenia com Jorge Mendanha.


SCENA ULTIMA

OS MESMOS, JORGE, RODRIGO, EUGENIA, E CONVIDADOS QUE VO PASSANDO

_Do lado fronteiro, por onde entrou Mendanha, vem Rodrigo que se
avisinha do pae no intento de o apresentar. Jorge de Mendanha pra, em
frente do visconde, largando o brao de Eugenia e deixando pender os
braos. O visconde encara Mendanha com penetrante frieza e spasmo._

Rodrigo _(a Mendanha)_

Tenho a honra de apresentar a V. Ex. meu pae. _(O visconde est fitando
convulsamente Jorge. Este mantem-se immovel, com a fronte alta e o olhar
fixo e sinistro. O visconde recua, erguendo as mos em attitude de quem
repelle uma viso, e cahe nos braos de Eugenia e de Jos de S)._

Rodrigo _(avisinhando-se com altivez de Jorge)_

Quem  o senhor?

Jorge _(apontando para o visconde)_

Pergunte-lh'o. _(Desce o pano vagarosamente)._


FIM DO SEGUNDO ACTO.




ACTO TERCEIRO




(1. QUADRO)

Sala do hotel de Francfort.--Vem-se gallegos atravessar carregados de
malas.


SCENA I

VISCONDESSA, E UM CREADO, POUCO DEPOIS

Viscondessa _(em trajes de viagem)_

A carroagem ainda no chegou?

Creado

Foi-se chamar, snr. viscondessa.

Viscondessa _(irritada)_

Parece que as carroagens no Porto no se mandam buscar, mandam-se fazer.
A velocidade aqui  impossivel, fra do carroo! Ai! Lisboa, Lisboa!
Ol! _(ao creado)._

Creado

Minha senhora.

Viscondessa

O snr. Mendanha j se levantou?

Creado

Parece-me que ainda se no deitou. Desde que chegou do baile tem
passeado sempre no quarto.

Viscondessa _(ao creado que est sacudindo o pano da jardineira)_

 sr homem!

Creado

Minha senhora.

Viscondessa

O snr. conselheiro Jos de S est com o snr. Mendanha?

Creado

Est no quarto d'elle.

Viscondessa

Est mais alguem de Lisboa n'este hotel?

Creado

Mais ninguem, snr. viscondessa.

Viscondessa _(tirando dois bilhetes d'uma carteira)_

Pegue l: d estes bilhetes aos snrs...

Creado

Ahi vem o snr. conselheiro. _(se)._


SCENA II

JOS DE S E VISCONDESSA

Jos de S

Que madrugada  esta! V. Ex.,  uma hora da tarde, j radiosa, em trem
de viagem!

Viscondessa

No dormi nada, tenho os nervos em convulses, estou doente, e vou para
Lisboa no _Lusitania_ que se s duas horas felizmente. Que me diz 
scena melodramatica do baile?

Jos de S

Pareceu-me mais tragica do que melodramatica.

Viscondessa

Mas quem anda a fazer tragedias pelos bailes hoje em dia! Aquillo  d'um
anachronismo e mo gosto revoltantes! Se os maridos atraioados comeam
a dar-se ares de fantasmas tragicos nos bailes, os sales ho de
tornar-se medonhos, e cada marido ha de dar-se o tom e o feitio d'um
bravo de Veneza em veteranos.

Jos da S

No se graceja assim com o infortunio, snr. viscondessa.

Viscondessa

Ora pelo divino amr de Deus, snr. S! A gente no ha de vestir-se de
lucto por que o senso commum vae morrendo hydropico de ridicularias! Eu
acho natural e perdoavel que o seu amigo Jacome da Silveira despisse os
ares carregados e funebres da _vendetta_, e esmurraasse na Praa Nova
ou no jardim de S. Lazaro o visconde; mas isto de enroupar-se n'uma
_toilette_ mysteriosa, coriscando dos olhos uns fulgores fulminantes,
para afinal de contas ajuntar o escandalo  irriso, sinto dizer-lhe,
conselheiro, que  um soberano disparate, e que o seculo vae muito
luminoso para podermos receber a srio estas excrecencias da idade
media. Que diz?

Jos de S

Eu no disse nada. Estou ouvindo e admirando a snr. viscondessa de
Pimentel.

Viscondessa

Eu no armo  admirao, meu presado conselheiro; quero apenas que me
vejam protestar contra tudo que tem vislumbres de tolice. Ora queira
dizer-me: no estava ha muito tempo esquecida a desventura de Martha? O
visconde no fugiu da sociedade para que ninguem se lembrasse d'ella e
d'elle? Isto  verdade: que diz?

Jos de S

Ainda no disse nada, minha senhora.

Viscondessa

Bem sei que no disse nada. O snr. S ensaia-se para estadista n'esta
diplomacia de _boudoir?_ Parece-me que desperdia a sua infinita
sagacidade n'esses ares meditativos com que trata coisas
insignificantissimas.

Jos de S _(sorrindo)_

Estou quasi resolvido a irritar-me contra V. Ex. Se continua a
injuriar-me, ai da viscondessa e de mim!

Viscondessa

Mas rebata isto, snr. S. Que lucrou o seu amigo bulindo nas cinzas de
Martha? Reviver miserias...

Jos de S

Minha senhora, no bula V. Ex. n'ellas, que a memoria de Martha 
sacratissima desde que expiou acerbamente a sua culpa.

Viscondessa

Concordo; e por isso mesmo reprovo que Silveira... Ah! uma nota
curiosa... O conselheiro, reparou n'aquelle pendor sentimental da cabea
de Eugenia sobre o hombro de Silveira, quando passeavam nas salas menos
concorridas?

Jos de S _(ironico)_

No reparei n'esse escandalo!

Viscondessa

No? foi coisa que deu nos olhos de muita gente. Que infinita graa e
que profundo mysterio no teria o apaixonar-se Eugenia... _(rindo)._

Jos de S

Ora, minha senhora... V. Ex. traz a sua formosa cabea repleta de mos
romances... Bem se v que os seus nervos andam destemperados pelo terror
das tragedias... _(ouve-se o rodar da sege)._

Viscondessa

Ahi est a sege... Adeus. _(apertando-lhe a mo)_ Vou por casa de
Eugenia deixar-lhe um bilhete, se a no poder vr de relance.

Jos de S

Vae auscultar-lhe o corao a vr se effectivamente est apaixonada pelo
meu amigo?

Viscondessa

Quem sabe?... quem sabe...

Jos de S

Ah! viscondessa, viscondessa... Receio que seu benemerito esposo esteja
mais arriscado que o de Eugenia...

Viscondessa _(fazendo-lhe uma mezura  antiga)_

_a n'est pas gentil, mon cher. Au revoir._

Jos de S _(cortejando-a profundamente)_

Sempre admirador e sempre admirado. _(A viscondessa se)._


SCENA III

JOS DE S E UM CREADO

Creado

O snr. Mendanha mandou-me saber se V. Ex. j estava a p.

Jos de S

Diga-lhe que estou aqui.


SCENA IV

JOS DE S E DEPOIS JORGE

Jos de S

 necessario revelar a este infeliz as minhas esperanas de ainda
podermos encontrar a filha de Martha, fazendo-lhe chegar ao corao a
certeza de que  sua filha. _(Examinando a carteira)_ Felizmente que
tenho comigo a carta. Se no alcano nortear-lhe o espirito para outro
destino, receio que uma terrivel fatalidade venha recomear as
desventuras d'este malfadado homem. _(A Jorge que entra)._ Descanaste?

Jorge

Nem levemente: comeo a vr novos abysmos.

Jos de S

Tambem eu, Jacome.

Jorge

Esta minha vinda a Portugal...

Jos de S

Eu no t'a aprovei. Se o teu intento era completar um plano de vingana,
fizeste bem no me consultar. Eu te responderia que uma grande
calamidade no justifica planos sanguinarios, por melhor mascarados que
venham em requintes de pundonor. Se me consultasses, dir-te-hia que a
honra que ensanguenta as mos s pde a allucinao desculpal-a, e que
um assassinio premeditado vinte annos  um acto de selvageria, se a
demencia o no desculpar. Quando me avisaste da tua chegada ao Porto com
um pseudonimo, comecei a duvidar da sanidade do teu juizo. A mudana de
nome no podia dissimular um plano incompativel com a honra que te perdeu.

Jorge _(interrompendo-o e levantando-se com impeto)_

A honra que me perdeu!.. excellente palavra. A honra devia nobilitar-me,
se era honra. O que perde e avilta deveria ser o despejo, o cynismo, o
impudor, o desvergonhamento que petrefica na cara do infame a lama que
lhe atiram. Comigo no foi assim. A honra quiz desafrontar-se; sacudi de
mim a vibora que me crivava o corao de infernaes farpas; mas a
sociedade e a sua justia vieram e bradaram-me: Vae, condemnado; vai-te
sem alma, sem dignidade, sem amigos, sem a misericordia de ninguem!
Vae-te n'essa leva de ladres e facinoras; vae contar na Africa as horas
de 7300 dias e noites. Vae, por que tiveste a audacia de condemnar pelo
teu desforo os centenares de despejados que no consentem que tu sejas
mais brioso do que elles. Se querias gozar os teus direitos de cidado,
se querias a liberdade dos homens de bem, se querias a considerao dos
honestos, recebesses a affronta em silencio, embora a sociedade te visse
o ferrete na testa; ostentasses ignorancia da tua deshonra; apertasses
em publico a mo que estrangulara na garganta de tua mulher os sagrados
juramentos da sua lealdade. Se da tua casa haviam feito um prostibulo, e
dos teus carinhos de esposo um incentivo para irritar os prazeres do
crime, bebesses o teu calix como tantos para quem o fel de uma deshonra
de mera conveno chega a perder o seu travo. Quem te disse a ti,
assassino, que a vida humana no era inviolavel? Eras marido
amantissimo? Estremecias tua mulher com ternura de pae? Durante trez
annos de idolatria no imaginaste sequer que o teu amor podesse ser
assim galardoado? E foste trahido? E foste apunhalado pela mo que
beijavas? E viste a mulher adorada roxeada nas faces pelos beijos
d'outro homem? viste-a bem perdida, bem na lama, bem no abysmo? No
importa. A vida humana  inviolavel! Soffresses, miseravel! Acceitasses
a ignominia que deixou de o ser desde que os infames a partilhal-a so
tantos que no se podem escarnecer. E, se tinhas necessidade de sacudir
o dardo do corao, bebesses tu o veneno, e morresses, e deixasses tua
mulher viuva e formosa viver, a sua inviolavel vida e gozar-se na
inviolabilidade da sua devassido...  assim que a sociedade falla aos
desgraados como eu, Jos de S?

Jos de S

Desafoga, Jacome; mas em nome das tuas infinitas amarguras te peo que
vejas em mim o unico homem que te quiz enxugar as lagrimas. Eu louvo os
moralistas, que escrevem excellencias sobre a inviolabilidade da vida
humana, e invejo-lhes o socego, a placidez, o solido raciocinio com que
legislam para as paixes no conforto do seu gabinete. Esses taes nos
daro exemplos de cordura quando a sorte funesta os collocar entre a
deshonra e a theoria; mas, meu querido amigo, no me perguntes se a tua
vingana est cumprida, e se a tua desaffronta requer a vida d'esse
esmagado homem que hontem  noute viste cahir nos meus braos. Que
queres tu fazer d'aquella preza de remorsos? No o vs to dobrado pela
mo da Providencia? No lhe vias na face a escurido profunda d'aquella
alma?

Jorge

E quem te disse que eu vim a Portugal procurar esse homem para o matar?

Jos de S

Suspeitou-o o receio que tenho de que o prazo dos teus infortunios ainda
no esteja fechado.

Jorge

Essa suspeita vinda de outro que no fosses tu seria ultrajante. Se nos
meus designios entrasse a morte de tal homem, eu no praticaria o
abjecto ardil de entrar disfarado em sua casa. Hontem te disse no baile
o que alli fra fazer. Encarei o reprobo que tremia debaixo do fardo da
sua ignominia. No tenho mais que vr. A vida  o patibulo d'aquelle
condemnado. A Providencia sentenciou-o. Para que no falte nada ao seu
supplicio at a coragem do suicidio o desamparou. Creio em ti, Deus! No
se  perverso impunemente. Os que morrem afogados nas lagrimas que fazem
chorar no so os que mais dolorosamente expiam. Incomportavel inferno
deve ser-lhes o recordar-se!.. A minha vingana, Jos de S, completa-se
com a vida do algoz da minha felicidade. Quero que elle viva. No tenho
mais que fazer em Portugal.

Jos de S

Tens. O teu corao pde reflorecer ainda. Penso poder vaticinar-te um
resto de vida com luz, com alegria, com amor. Eu suspeito que Leonor
existe.

Jorge

A filha de Martha?

Jos de S

A tua filha.

Jorge

Minha!.. No me afflijas. Olha que ainda se faz noite na minha alma, se
vejo a imagem d'essa creana. Minha! que absurda nova! onde foste saber
que ella era minha filha?

Jos de S

Se viste nas rugas do visconde de Vasconcellos assignalada a mo da
Providencia, por que duvidas crr que a Providencia premeie as tuas
agonias, tamanhas e com tanta paciencia soffridas, mostrando-te a
creana que se acalentou em um seio sem macula, a filha do teu sangue,
do teu corao e da tua alma?

Jorge _(com vehemencia)_

Queres tu enlouquecer-me? queres que eu v d'essa esperana  tristeza
mortal do desengano? Como sabes tu que ella vive... e  minha filha?

Jos de S

Escuta.


SCENA V

OS MESMOS E UM CREADO, O CREADO COM UM BILHETE DE VISITA N'UMA BANDEJA

Jorge _(lendo)_

Rodrigo de Vasconcellos _(Declamando:)_ Que vem aqui fazer este homem?
No lhe fallo... Em que occasio!..

Jos de S

Ha de sobrar-nos tempo. Falla-lhe; mas no deixes apagar pela rajada da
colera a ideia luminosa de que tens uma filha. _(Ao creado)_ Que entre.
_(O creado se)._

Vou para o meu quarto. Quando elle tiver sahido voltarei. _(Se)._


SCENA VI

RODRIGO E JORGE

Rodrigo _(com altivez sarcastica)_

No sei a quem tenho a honra de me dirigir.

Jorge

J tive a honra de lhe dizer que o perguntasse a seu pae.

Rodrigo _(com solemnidade e tristeza)_

Meu pae no me responde. Soffre em silencio, e eu receio que elle morra.
Quem  o snr. que entrou nas minhas salas, e introduziu no seio da minha
familia o escandalo e a desgraa em presena de centenares de testemunhas?

Jorge

Entrei nas suas salas, tencionando sahir d'ellas dignamente como seu pae
no costumava sahir. No dei escandalo. Os seus convidados viram um
homem estremecer e desmaiar diante de mim sem que eu lhe chamasse sequer
infame.

Rodrigo

Lembro-lhe que est fallando com um filho do visconde de Vasconcellos.

Jorge

Sei isso. Tome nota do conhecimento que tenho de V. Ex., para todos os
effeitos. Quer por tanto saber quem sou? A minha biographia diz-se
depressa. Fui amigo de seu pae, desde a infancia que ambos passamos no
collegio dos Nobres. Cazei. Era suprema a felicidade de marido, quando
convidei seu pae a vr nas douras da minha vida intima o soberano bem
d'este mundo. Disse-me seu pae que via em minha mulher a belleza do anjo
e o corao da sancta. D'este anjo e d'esta sancta fez seu pae uma
adultera. Deshonrou-me. Matei-a. Seu pae fugiu. Eu encarcerei-me;
esperei a sentena, e fui condemnado a degredo. Ha seis mezes que sahi
de Africa. Vim vr seu pae. Vl-o e mais nada. Vi. Achei-o miseravel at
ao asco. Repelle e enoja. A Providencia fl-o asqueroso. Deixei-o 
Providencia, que sabe a raso mysteriosa porque taes creaturas se fazem.
Resta-me dizer-lhe o meu nome. Sou Jacome da Silveira.

Rodrigo

Ouvi dizer ahi que meu pae fugiu. No creio.

Jorge

Informe-se.

Rodrigo

Meu pae  um cavalheiro.

Jorge

Em relao a mim, seu pae  um villo. Desejo que V. Ex. no torne
irrisoria esta nossa j longa, primeira e ultima pratica. Parece-me
irracional, seno insensata a noticia que me d do cavalheirismo de seu
pae, quando eu lhe conto uma historia...

Rodrigo _(com desdem)_

Vulgar.

Jorge

So vulgares na sua familia estas historias? Semelhante cynismo vae mal
e indecorosamente a um marido! Bom ser que sua senhora no se
familiarise com historias assim vulgares, principalmente se aos
infamissimos personagens se d o nome de cavalheiros.

Rodrigo

Minha mulher no tem que vr com a nossa entrevista, snr.

Jorge

De accrdo. Respeito-a muito. Nunca vi lagrimas mais dignas da virtude.
 pena que ella chore n'este tremedal...

Rodrigo

Insisto em affirmar que meu pae  cavalheiro. No ouso condemnar as
fragilidades d'elle. Limito-me a lastimal-as, tanto mais que nenhum
homem, virtuoso ou vicioso, educou um filho com to elevados conselhos e
exemplos.

Jorge _(sorrindo)_

Exemplos!

Rodrigo

Nunca deslizei da linha da honra que meu pae me traou. Adivinhei que
elle havia soffrido uma cruel catastrophe em sua mocidade, por que no
vigor da vida o conheci triste, apartado da sociedade, sombrio, e s. Ha
trez dias soube a causa da sua longa expiao--expiao emfim acabada,
porque sei que meu pae chegou ao termo de sua funesta carreira, e
estende os braos para a bemaventurana da sepultura. No entanto, se
elle podesse desafogar-se das dores mortaes que o abafam, V. Ex.
encontraria deante da sua mal empregada bravura o homem que lhe no
fugiu; mas fugiu  horrenda contingencia de matar o homem que tinha
offendido. Permitta Deus que meu to honrado quanto infeliz pae
restaure, pouco que seja, de suas foras, e V. Ex. conte com um peito
bem a descoberto do seu ferro, se  sua vingana se fazem necessarias
algumas gottas de sangue.

Jorge

Regeito. Eu quero que seu pae viva.

Rodrigo

Sem embargo d'essa sarcastica concesso de vida, cumpre-me dizer ao snr.
Silveira: primeiro, que tenho um s nome, e que o no mudarei quando
houver de insultar o mais valente, ou o mais covarde; segundo, que,
morto meu pae da angustia que o abateu, hei de obrigar o seu indirecto
assassino a retirar de sobre a sua campa as injurias cuspidas sobre as
cans d'um velho, cujo crime, longamente expiado, o havia posto na
posio alta onde os vituperios de V. Ex. no deviam chegar; terceira,
que sinto um verdadeiro prazer na hypothese de que o snr. Silveira ter
a coragem que inculca.

Jorge

Eu tenho apenas inculcado desprso; e d'hora em diante no poderei seno
inculcar o tedio que o snr. Vasconcellos me est fazendo. _(Aponta-lhe a
sahida da sala)._

Rodrigo

Concluiremos n'outra parte. _(Se)._


SCENA VII

JORGE E JOS DE S

Jos de S

Ouvi tudo. Mal vae isto, Jacome! Bem pressagiava eu que se esto
encadeando outros elos  corrente das tuas fatalidades!.. Como evitars
o duelo?

Jorge _(serenamente)_

Em meio de tudo isto, o rapaz teve momentos em que me abalou
profundamente. Via-se ali um filho, nobre corao de filho. D'uma vez
divisei-lhe lagrimas. Se elle, n'esse lance, me diz que seu pae era um
desgraado digno de compaixo, eu creio que lhe diria: Pea a Deus que
quebre ao penitente os espinhos do remorso; que eu deixal-o-hei a ss
com o fantasma que o arrasta  sepultura... E, depois, que immensa
piedade me fez a mulher d'este moo, aquella doce alma que se desfazia
em prantos pedindo-me commiserao...

Jos de S

Calculemos o progresso d'esta nova calamidade. O visconde, fulminado
pela tua presena, provavelmente succumbe. Se elle morre, o filho
desafia-te. Irs ao campo. Se o matas, matars um homem que quiz, com ou
sem razo, defender a memoria de seu pae. Imagina o restante da tua
vida, da tua velhice, com mais um fantasma para as tuas noites de
insomnia. Se elle te mata, fechaste lastimavelmente o cyclo das tuas
desventuras. Morres sem que os teus amigos de ti possam dizer que tinhas
preciso de morrer legitimamente; quero dizer, que acabaste consoante as
leis da honra; por que eu considero trez vezes scelerado o homem que vae
n'um duelo apontar uma pistola ao peito d'outro que no odeia. Que
rancor podes ter ao filho do visconde? ao marido d'aquella meiga
creatura que hontem chorava diante de ti com a unco do anjo que pede
commiserao para a perversidade humana? No te disse ella que, se
tivesses uma filha, os odios entranhados em teu corao sahiriam nas
primeiras lagrimas de contentamento? Pois bem. Tratemos de procurar
essa, filha de cujo amor depende a tua regenerao. Vejamos se ainda ha
n'esta vida algum contentamento para ti. Se estas esperanas fallecerem,
joga a tua vida nos desafios, ou para te entreteres matando, ou para
morrer entretido.

Jorge

Vamos... conta-me o teu sonho.

Jos de S

O meu sonho, se sonho , comea na deploravel noite em que D. Martha
sentindo aproximar-se a morte...

Jorge

Depressa.

Jos de S

Antes de expirar escreveu uma carta.

Jorge

A quem?

Jos de S _(tirando a carta da carteira)_

 irm que tinha no convento da Encarnao. L.

Jorge _(examina a lettra com grande commoo)_

L tu... No posso.

Jos de S _(lendo)_

Minha irm, escrevo-te nas ancias de uma terrivel morte. Morro
envenenada por Jacome. Invoco o sancto nome de Deus para jurar que
Leonor  filha de meu marido. Elle disse que no era seu pae quando eu
lhe pedi que a no desamparasse. Mostra-lhe este meu juramento, feito ao
ir d'esta vida  presena de Deus. Se elle a desamparar, d-lhe tu
metade do teu po. Adeus. Chora-me e pede ao Senhor pela tua pobre Martha.

D. Maria da Gloria recebeu esta carta, sahiu do convento, e entrou em
tua casa, quando a irm era morta. Eu dirigi o enterro da defuncta, e na
volta do cemiterio soube que D. Maria da Gloria tinha levado a sobrinha.
Indaguei na Encarnao; ninguem me soube dizer a paragem de tua cunhada.

Jorge

E soubeste depois?..

Jos de S

Quem o sabia era um teu creado velho que j o havia sido do pae de
Martha; mas esse disse-me que jurra a D. Maria da Gloria nunca divulgar
a residencia da filha de sua irm.

Jorge

Porque?

Jos de S

Porque no queria atirar aos desprsos do mundo a filha d'uma senhora
assassinada...

Jorge

Nada me disseste...

Jos de S

Que importava dizer-t'o para Loanda? Sobejavam-te l mortificaes. Alm
de que a delicadeza impunha-me o dever de te no fallar da creana que
tu no julgavas tua filha.

Jorge

Mas esta carta...

Jos de S

Esta carta est em meu poder ha dois annos.

Jorge

Quem t'a deu? Maria da Gloria? Ento onde est Maria da Gloria? onde
est minha filha?

Jos de S

Quando ha dois annos voltei da Exposio de Pariz, encontrei no meu
escriptorio uma carta escripta vinte dias antes e assignada por um
empregado do hospital de S. Jos, pedindo-me que chegasse l para
negocio urgente. O empregado chamou um enfermeiro, o qual me apresentou
uma carta ditada pelo teu creado, nos ultimos momentos de vida, em que
declarava que D. Maria da Gloria o mandara chamar, cinco annos antes, em
perigo de morte, e lhe entregara uma carta para te ser entregue se
voltasses a Portugal. E no ponto em que ia proferir o nome do convento
onde tua filha estava, expirou golfando sangue.

Jorge

E afinal? onde est minha filha?

Jos de S

At hoje tem sido frustradas as minhas dilligencias nos conventos de
Lisboa; mas tu vaes lanar mo de recursos em que tenho toda a confiana.

Jorge

Quaes? Que esperanas me ds, Jos de S?


SCENA VIII

OS MESMOS E UM CREADO

Creado

Procura V. Ex. o snr. Pedro Gavio Aranha.

Jorge _(a Jos de S)_

J ser o cartel? _(ao creado)_ Que entre. _(O creado se)._

Jos de S _(sorrindo)_

Jacome, olha que temos de procurar tua filha.

Jorge

Na eternidade?


SCENA IX

OS MESMOS E PEDRO ARANHA

Pedro _(cortejando-os)_

Snr. Silveira, snr. conselheiro. A minha misso  triste...

Jorge _(risonho)_

Eu havia adivinhado a sua misso triste.

Pedro

Que tinha V. Ex. adivinhado? Isso  extraordinario!

Jorge

Vem representar o pundonor agastado do snr. Rodrigo de Vasconcellos?

Pedro

No, snr. Rodrigo de Vasconcellos, d'aqui a poucas horas, se verter
sangue, ser o de suas lagrimas. V. Ex. entrando n'aquella casa,
fulminou a felicidade de dois esposos que se adoravam, e o futuro d'uma
creancinha que me parece condemnada a no poder dizer o nome de seus paes.

Jorge

Que lhes fiz eu?

Pedro

Creio bem que V. Ex., trasido na onda da fatalidade, seno antes pela
mo da Providencia, o mal que fez, as tempestades que levantou, no as
promoveu voluntariamente. O snr. Jacome da Silveira quando entrou em
casa de Rodrigo de Vasconcellos, e viu os sobresaltos e anciedades de D.
Eugenia, decerto no podia prever que ia separar os dois esposos
dilacerando-os pelo corao.

Jorge

No o entendo, snr. Aranha!.. Que ? Eu separei e dilacerei os coraes
dos dois esposos! Que tenho eu que vr com um ou outro? A snr. D.
Eugenia fallou-me de outra que morreu, e disse-me que ouvira contar a
sua historia, e chorou, no sei se compadecida de mim se d'ella... Tinha
uma pulseira com um retrato, que denunciava a impudencia de quem o
possuira e lh'o dera...

Pedro

O retrato que D. Eugenia tinha na pulseira era o retrato de sua me.

Jorge

Isso  falso, snr.! O retrato era d'uma mulher que se chamou Martha, e
foi amante de... _(sustendo o impeto de colera)_.

Pedro

Sem duvida nenhuma. O retrato da snr. D. Martha  o que a snr. D.
Eugenia tem na pulseira.

Jorge

No me diga pois que o retrato  da me d'essa senhora.

Pedro

Affirmo a V. Ex. que a esposa de Rodrigo de Vasconcellos  filha de D.
Martha de Villasboas, e que a pulseira no a houve do sogro, mas sim de
D. Maria da Gloria, irm de sua me.

Jorge _(rapido)_

Entendi eu bem? Repita... Comprehendes tu, Jos de S? Repita o snr...

Pedro

Que o filho do visconde est casado com uma senhora cuja filiao ainda
hontem ignorava. Sabe D. Eugenia que V. Ex. foi o marido de sua me, e
tambem suspeitava desde muito, e desde hontem principalmente soube que
V. Ex., desconfiado da lealdade de sua senhora, repulsra uma menina
chamada Leonor, a qual viveu em um Recolhimento, chamando-se Eugenia, e
d'esse Recolhimento sahiu com uma prima do honrado rapaz com quem casou.
Esta deploravel senhora est hoje apertada na cruelissima angustia de se
vr apontada por V. Ex. como filha do pae de seu marido. Este conflicto
 pungentissimo para uma alma, cuja sensibilidade est exaltada por
sentimentos religiosos. Eu acabo de presenciar a destruio rapida que a
paixo e a vergonha esto fazendo n'aquella desoladissima
senhora--vergonha de ser apontada como filha da adultera morta a veneno,
e como suspeita filha do cumplice de sua me, e esposa de seu proprio
irmo! Fui chamado a confidenciar n'este inferno, e aconselhei-a que
occultasse o mysterio do seu nascimento. No posso, bradou ella,
sinto-me morrer esmagada pelo opprobrio da minha situao. Se o visconde
 meu pae, receio vl-o morrer s mos do matador de minha me; se meu
pae  Jacome da Silveira, eu no posso deixar de me abraar n'aquelle
grande desgraado, e dizer-lhe que sou sua filha!

Jorge _(interrompendo-o com as mos fincadas nos braos d'elle)_

Oua, snr... Ella chamou-se Leonor?  filha de Martha? Foi ella mesma
que lhe disse: eu sou filha de Martha?

Pedro

Quem poderia dizer-m'o seno a snr. D. Eugenia?

Jorge

Jos, como comprehendes tu isto?

Jos de S

Que tens a tua filha. A Providencia collocou o anjo  borda d'um abysmo
em que tarde ou cedo cahirias.

Jorge

V dizer-lhe que est aqui seu pae... Diga-lhe que eu lhe inundei o
rosto de lagrimas quando a deixei no bero aos trez annos. Diga-lhe que
ajoelhei com ella nos braos, e dei brados a Deus pedindo-lhe um abalo
no corao que se despedaou quando a infernal duvida m'a desentranhou
do peito, e eu a repulsei, exclamando: no s minha filha. Nas
primeiras noites de carcere, eu via um spectro, e uma sombra
compadecida, como a de um anjo lagrimoso. O anjo quando eu cahia de
rosto contra as lages, e adormecia atrophiado pelo frio da madrugada,
punha-me na face a mo e aquecia-m'a; collava os labios nos meus ouvidos
aturdidos de um gritar estridente, e dizia-me: pae. Eu despertava, e
cria que a febre cerebral ia matar-me... Fui para o desterro. Por entre
o bramir, das ondas ouvia o vagir da creancinha; e de noite, buscando-a
no co, parecia-me vl-a envolta em mortalha branca, entre as nuvens que
passavam, e as estrellas que pareciam contemplar em mim o homem que
reuniu em si quantas agonias Deus pde crear n'um dia de cruel
omnipotencia. Eu no podia ento chorar como hoje. Deus no me deu a
esmola das lagrimas para que o reconhecesse e confessasse na hora em que
viesse a encontrar a face do anjo que nas infinitas noutes de degredo
ainda me apparecia e dizia: Espera Chegaram. Sinto as lagrimas.
Sinto-as no corao, que renasce; mas aqui dentro ha um anciar que me
suffoca... Onde foi Deus levar minha filha?.. _(sorrindo)_ Deus!.. Onde
hei de eu ir procural-a?.. Alli... alli onde a desgraa, um acaso, um
accidente estupido a levou! Hei de eu ir buscal-a, pedil-a... a quem? ao
marido? ao filho do meu algoz? Meus amigos, este apparecimento de minha
filha no  um bem com que Deus me premeia...  uma nova esponja de fel,
que me do para eu matar a minha sde d'amor e de felicidade. No
existe... Leonor est morta para mim... para sempre morta... meu Deus!..
Deixai-me choral-a segunda vez. _(Esconde o rosto soluante entre as
mos)._


FIM DO PRIMEIRO QUADRO




2. QUADRO

Ante-camara luxuosa. D. Eugenia ajoelhada  beira de um bero com
armao de cortinados, contemplando um filho de poucos mezes. Rodrigo,
com o aspeito quebrantado, vem entrando vagarosamente.


SCENA I

D. EUGENIA E RODRIGO

Rodrigo _(com muita brandura)_

Eugenia...

D. Eugenia _(levantando-se)_

Meu bom anjo, estavas aqui?

Rodrigo

O sorriso da creancinha alumiou a escurido da tua alma?

D. Eugenia

Adormeceu, e suspira de sorte que parece lhe est gemendo o corao...
_(beijando o rosto da creana)_ Eu no posso com tantas agonias,
Rodrigo! _(abraando-o impetuosamente)_ Espedaa-me o arrependimento de
no te haver dito o nome de minha me... Eu sei que teu pae me daria o
po da subsistencia ainda que no fosse causa da morte d'ella; mas minha
tia disse-me que eu seria desprezada e repellida, se declarasse o nome
de minha me; que as mais deshonestas senhoras teriam vergonha de se
compadecerem de mim; e que eu, sobre tantas desventuras, tinha a da
pobreza, a mais repugnante de todas. Isto me dizia a minha sancta tia,
lavando-me o rosto com lagrimas, como se quizesse purificar-m'o das
manchas do opprobrio da minha infeliz me. Mas o que ella me no disse
foi que eu no poderia proferir sem receio o nome de meu pae. Ella no
quiz aviltar aos meus olhos a sua pobre irm assassinada. Nem me revelou
quem foi o homem que a tentou e perdeu, nem sequer me deixou entrever a
duvida de que eu fosse filha d'esse, que hontem cobriu de eterno lucto a
nossa familia. Se elle no  meu pae, Rodrigo, que me s tu a mim? No
vs que o marido de minha me dir que eu sou tua irm, e que o nosso
filho herda a deshonra d'esta nossa unio impossivel... impossivel, meu
Deus!

Rodrigo

Que queres tu pois fazer da tua vida, da minha, e d'esta creana?!

D. Eugenia

No m'o perguntes a mim, que morro de afflico! Ensina-me a ter
animo... Dize-me, Rodrigo, como ha de chegar um raio de luz a esta nossa
situao to negra! Que te diz o corao, filho?

Rodrigo

Que esperemos, Eugenia. Quando meu pae estiver menos febril,
perguntar-lhe-hei com dolorosa franqueza o segredo do teu nascimento, e...

D. Eugenia _(interrompendo-o anciada)_

No perguntes que pdes matal-o. Se elle tem de morrer, que v sem a
terrivel surpreza de saber quem sou. Poupa-o, que eu tenho tanta pena
d'elle como de ti. No lhe digas quem sou. Ha nada mais afflictivo? 
Rodrigo, que horrenda angustia a d'elle se eu sou... sua filha!
_(Esconde o rosto nas mos)._

Rodrigo

Ahi vem o pae...


SCENA II

OS MESMOS E O VISCONDE

_O visconde vem amparado por dois creados_

Rodrigo _(adiantando-se a recebel-o com apparente alegria)_

ptimo! bella surpreza! N'esta cadeira, meu pae. _(Rodrigo e Eugenia vo
recebel-o dos braos dos creados, e conduzem-o  cadeira)._

D. Eugenia

Est muito melhor...

Visconde

Estou, filha.

Rodrigo

Que sente agora?

Visconde

Ancia de repouso, e a nuvem da eternidade a toldar-me os olhos. Eis que
chega a noite da morte. _(Fitando Eugenia)_ Como est desfeita a sua
formosura, Eugenia! Onde as lagrimas chegam, comea a morte a sua obra
de destruio... Comprehendo bem a sua piedade, menina. Como no
conheceu me nem pae, o grande amor filial que tinha no seu corao,
deu-o ao pae do seu Rodrigo. Deus lh'o recompense no amor de meu neto...
Cheguem para aqui o bero. Quero vr o meu lvaro... _(Approxima Eugenia
o bero)_ Adeus. Adeus. Tu entras, e eu vou sahir. Guardai-o, filhos.
Conta-lhe tu, Rodrigo, a minha vida e morte... Eu queria beijal-o. _(A
Eugenia que faz meno de o tirar do bero)_ No, no. Deixal-o
dormir... Que serenidade! Tambem eu hei de tl-a. Para os grandes
desgraados o sepulchro  suave e socegado como o bero das creanas.
Eugenia, venha aqui... No chore d'esse modo, filha! Lamente-me, se eu
viver.

D. Eugenia

Eu no choro... o pae ha de restabelecer-se. _(Rodrigo gesticula a
Eugenia para que ella se esconda de modo que o pae a no veja)._

Rodrigo

Meu pae. _(Espera instantes que o pae levante a cabea)._

Visconde

Eugenia?

Rodrigo

Foi l dentro. Na ausencia d'ella, fao uma pergunta a meu pae, e da
ousadia lhe peo perdo.

Visconde

Pergunta.

Rodrigo

Essa infeliz senhora que meu pae amou... a mulher de Jacome da Silveira,
tinha filhos?

Visconde

Uma filha.

Rodrigo

Que se chamava...

Visconde

Leonor. Uma creana entre trez e quatro annos, muito formosa. Sabes
alguma coisa d'essa menina?

Rodrigo

Meu pae soube que destino lhe deram?

Visconde

No. Alguns amigos meus de Lisboa a procuraram sem resultado. Se ella
tivesse apparecido, eu adoptal-a-hia, sabendo que o pae a renegra de
filha aleivosamente, mas digno de desculpa...

Rodrigo

Mas meu pae tem a certeza de que Leonor era filha de Jacome da Silveira?

Visconde

Como tu tens a certeza de que este filho  teu: jural-o-hei com os olhos
na sepultura, e o corao na misericordia de Deus. Quando comecei a...
cavar o abysmo da minha victima... Leonor j tinha dois annos e meio, e
fitava-me com os seus grandes olhos d'um modo mui triste que parecia
dizer-me: Eu por amor de ti, ficarei sem pae e sem me E ficou.
_(Eugenia, que tem ouvido muito alvoroada este dialogo, n'este lance
corre em grande transporte aos braos de Rodrigo)._

D. Eugenia

Graas, graas, meu Deus! Fizestes o milagre, virgem do co! Agora sim,
que toda a minha alma respira desopprimida! s meu Rodrigo! _(Ajoelhando
aos ps do visconde)_ Bem haja, bem haja que me tirou a morte de sobre o
corao, e de sobre esta creana um affrontoso opprobrio!

Visconde _(enleado)_

Que ?! que diz, Eugenia?

D. Eugenia

Chame-me Leonor, que eu sou Leonor... Sou a filha da peccadora que
morreu... Sou a orf que a me de Deus guiou at ao corao de seu filho.

Visconde _(agitadissimo)_

 isto febre, meus filhos?  o delirio dos ultimos arrancos? No me est
esta senhora dizendo que  filha de Martha?!

D. Eugenia

Sou... sou...

Visconde

Ajudai-me... erguei-me... Foras, vida, um dia de vida, meu Deus! Um dia
para chorar comtigo, Leonor... Olha que tinhas a mais amoravel e
extremosa das mes... o corao mais sancto do amor maternal. Formosa
como tu... da tua edade... respeitada e adorada; contente, feliz,
virtuosa, boa... Mas... matei-a... No foi teu pae que a matou,
Leonor... Fui eu!... O veneno que lhe fazia espumar sangue, e ranger os
dentes convulsos, e rojar-se no cho, e atirar-se a gritar para o teu
bero, esse veneno fui eu que lh'o vasei no peito... Eu fui quem a
despenhei dos respeitos publicos para a deshonra irrevogavel, da mais
rica e florida existencia para um torro desconhecido do cemiterio, para
a valla dos pobres... e levantei-lhe como monumento uma memoria infame!
Fui eu... eu fui o algoz... _(Resvala  cadeira, solua e prosegue:)_
Meus filhos, ide, ide... Pede-vol-o com as mos erguidas o penitente na
agonia... Ide pedir a Jacome da Silveira... Vae, filha, vae pedir a teu
pae que me perde. Dize-lhe que  um agonisante que lh'o pede... Um
homem que at esta hora invocou a morte, e a morte, a enviada de Deus,
no quiz derrubar-me sem este grande trance. Vae, Leonor, vae dizer a
teu pae que eu morro. Apaga-lhe o fogo da ira com as tuas lagrimas...
Chora-lhe no corao, que a piedade renascer, e o perdo vir a tempo
de eu poder acabar sem estas angustias de remorso que me...


SCENA III

OS MESMOS, E PEDRO ARANHA

Pedro _(a D. Eugenia)_

Se V. Ex. quizesse sahir  primeira salla, encontraria seu pae.

D. Eugenia

Jesus! Que hei de eu fazer, Rodrigo!

Visconde

Vae... cumpre o meu pedido, Leonor. Dize a teu pae que Heitor de
Vasconcellos lhe pede perdo.


SCENA ULTIMA

OS MESMOS, JOS DE SA E JORGE DE MENDANHA

Jorge _(com as costas voltadas para o visconde)_

Aqui estou, Leonor. _(Leonor inclina-se como quem vae ajoelhar)._ No
ajoelhes. Se algum de ns deve ajoelhar, sou eu diante de ti. Vingada
ests do meu desamparo, filha. Perdi as tuas caricias por espao de
vinte e um annos. Agora, o que pdes dar-me  lagrimas. Eu t'as recebo
como signaes da misericordia divina. Snr. Rodrigo. _(Rodrigo
approxima-se)_ Vou expatriar-me outra vez. Deixo-lhe o bom e nobre
corao de minha filha. Quem a aceitou e amou pobre, nada lhe importa
saber que ella  rica. Filha, privei-te do amor de pae; mas os bens de
fortuna, como no podiam dar-me um instante de paz, no se perderam.
Poders enxugar com elles muitas lagrimas, se ellas no forem de
angustias tamanhas como a minha.

D. Eugenia _(ajoelhando)_

O perdo, meu pae!

Jorge

Que tenho eu que perdoar-te, anjo?!

D. Eugenia

O perdo... para o pae de meu marido. _(O visconde est erguido e
amparado nos braos de Pedro Aranha e Jos de S)._

Jorge _(sem olhar para o visconde)_

A misericordia dos homens no pde ser mais indulgente que a de Deus.
Quando esse homem no sentir sobre a consciencia o pezo da justia
divina, o meu perdo ser-lhe-ha inutil. Eu no posso perdoar-lhe a elle,
por que Deus ainda me no perdoou a mim. Leonor, eu ainda choro tua me.
Elle... que morra a choral-a. _(Aponta-o sem o vr)._


FIM.

      *      *      *      *      *




COMO OS ANJOS SE VINGAM

DRAMA EM UM ACTO.


PERSONAGENS

    FRANCISCO DE VALLADARES--30 annos, esposo de

    D. ALBERTINA--entre 20 e 25 annos.

    D. ANTONIA DE VALLADARES--irm de Francisco de Valladares, 25 annos.

    CONSELHEIRO SOUSA--pae de Albertina.

    JOO LOBO--medico, entre 30 e 40 annos.

    LEONARDO--creado velho.

    Uma creada, nova.

      *      *      *      *      *



COMO OS ANJOS SE VINGAM




ACTO UNICO

Ante-camara espaosa, bem mobilada. Portas ao fundo e lado.

_Joo Lobo vem sahindo do quarto ao fundo. Albertina se de ps elle._


SCENA I

JOO LOBO E D. ALBERTINA

Albertina _(com vehemencia e receio)_

O nosso doente continua bem, no  verdade, snr. Lobo?

Joo Lobo

Seu marido, minha senhora, pareceu-me mais concentrado, mais triste.

Albertina _(afflicta)_

Sim?! Peorou?

Joo Lobo

Deixei-o hontem risonho, com excellente pulso, a planear viagens, bailes...

Albertina _(sobresaltada)_

E tornou a febre, meu Deus?

Joo Lobo

Sim, ha o quer que seja.... e pde ser que isto no passe d'um
accidente... mas... Que est V. Ex. cogitando? Suspeita que alguma
impresso moral...

Albertina _(preoccupada e abstrahida)_

Nada... Eu hontem de tarde sahi para vr minha me. Demorei-me uma hora;
e quando entrei no quarto achei-o a conversar com minha cunhada.
Beijei-o; elle sorriu-se de um modo extranho. Quiz pedir-lhe explicao
d'um ar to desacostumado na nossa vida de cinco annos; mas temi
inquietal-o. Perguntei depois a minha cunhada se... Ella ahi vem.


SCENA II

OS MESMOS E D. ANTONIA

Joo Lobo _(comprimentando-a)_

V. Ex. nos vae dizer se alguma impresso moral pde explicar a tristeza
e abatimento em que encontro seu mano.

D. Antonia _(desdenhosa)_

J a mana Albertina me fez a mesma pergunta. Acho curiosa a indagao!
Eu no sei se meu mano recebeu impresses moraes...

Joo Lobo _(sempre sereno e risonho)_

 que eu deixei-o hontem socegado e alegre...

D. Albertina

 verdade. Bem viu a mana Antonia como elle estava bom quando eu sahi;
depois, encontrei-o com a mana, e fui recebida com certas maneiras...
havia no sei que desconfiana e mysteriosa intelligencia entre meu
marido e...

D. Antonia _(atalhando-a)_

E eu?!

D. Albertina

Sim... pareceu-me...

D. Antonia

Ora esta! Tem coisas esta senhora! Sempre injusta comigo!

D. Albertina

Injusta, no. Sou incapaz de ajuizar mal de ninguem. No v o doutor
cuidar que eu tenho sido para a mana Antonia o que ella deixa
entender... Que mal lhe fiz? que injustias minhas a offenderam?
_(Ouve-se o toque de campainha no quarto de Francisco Valladares)_ O
Francisquinho chama. _(Corre ao quarto)._


SCENA III

JOO LOBO E D. ANTONIA

Joo Lobo

A mim cumpre-me lembrar-lhe, minha senhora, que o estado de seu irmo 
melindroso. Olhe que os dois fios quasi quebrados d'aquella vida esto
mal soldados. Sacudam-lhe a alma com alguma leve paixo, que os fios
partem-se...

D. Antonia _(impaciente)_

Mas que fiz eu ou que disse?!

Joo Lobo

No sei o que V. Ex. disse ou que fez. O que sei  que a snr. D.
Antonia odeia sua cunhada.

D. Antonia

Que calumnia! odeio minha cunhada!

Joo Lobo _(sempre sereno)_

E, se puder perdl-a, perde-a.

D. Antonia

Porqu?.. por que hei de eu querer perdl-a?..

Joo Lobo

No lhe respondo. O meu silencio pede  sua consciencia que responda,
minha senhora. E se V. Ex. calar a voz da consciencia, ver como ahi na
sociedade do Porto se levantam cem vozes a dizer-lhe...

D. Antonia

O qu?..


SCENA IV

OS MESMOS E D. ALBERTINA

D. Albertina _(alvoroada)_

Elle est to inquieto!.. Vamos l, doutor... _(suspende-se)_ V... v!
_(O doutor entra na alcva)._


SCENA V

D. ALBERTINA E D. ANTONIA

D. Albertina _(com brandura e commovida)_

Mana Antonia, se me fez mal, remedeie o mal que fez a seu mano e a mim.

D. Antonia

Eu! que teima! que aleivozia!

D. Albertina _(rapida e a meia voz)_

Eu accuso-me de ter querido obrigar a mana Antonia a ser honesta, a ser
uma digna irm de meu marido. Accuse-se a senhora de ter tentado
vingar-se de mim calumniando-me.

D. Antonia

Que me accuse!  original a ordem! Ahi vem a virtuosa senhora com a
deshonestidade da minha vida! D-me licena. Retiro-me que no v ser
contagiosa a minha deshonestidade! _(Se rindo uma rizada nervosa.
Albertina encaminha-se para a alcva guando o doutor vem sahindo)._


SCENA VI

JOO LOBO E D. ALBERTINA

D. Albertina

J?! que tem elle?

Joo Lobo

Mandou-me sahir: quer estar s.

D. Albertina _(com espanto)_

Mandou-o sahir?!

Joo Lobo

Terminantemente; mas com delicadeza.

D. Albertina

Ento que vem a ser isto, meu Deus? O snr. Lobo suspeita que meu marido
possa...

Joo Lobo

Possa o qu, minha senhora? Enlouquecer?  o que V. Ex. quer perguntar?
No ouso dizer-lhe as minhas suspeitas.

D. Albertina

Ento  certo? O Francisco pde enlouquecer?!

Joo Lobo

Podemos todos enlouquecer, minha excellente amiga... Descance. O snr.
Francisco Valladares est febril; no est doudo... Aquella febre tem o
ardor d'uns infernos que costumam accender-se n'uns coraes
perversissimos...

D. Albertina _(atalhando-o)_

O corao de meu marido  bom, snr. Lobo.

Joo Lobo

No me entendeu, snr. D. Albertina... Seu marido desconfia da minha
probidade.

D. Albertina

Como? desconfia?!

Joo Lobo

E da virtude de V. Ex.... desconfia tambem.

D. Albertina _(tremula e anciada)_

No pde ser, no pde ser! _(Faz meno de correr para a alcva: o
medico sustem-a com um gesto)._

Joo Lobo _(a meia voz)_

Repito-lhe que a fragil vida do snr. Valladares nos est aconselhando
muitas cautelas. Escute-me serenamente. Eu suspeito que sua cunhada
comeou hontem a obra infame do descredito de V. Ex. Era preciso
dar-lhe um cumplice: fui eu. Sua cunhada escolheu o homem competente,
porque a sociedade me tem calumniado mil vezes para usar largamente do
direito que eu lhe dei de me accusar uma vez com justia.  sempre
assim; excepto quando o vicioso ou a viciosa aprenderam as artes da
hypocrisia depois que a primeira fragilidade lhes fez resvalar o p e
cahir com estrondo. O grande caso  cahir sem estrondo. Ora seu marido,
minha nobre senhora, no me julga melhor nem peor do que sou julgado
pelo restante da sociedade. Chamou-me, quando receou morrer; e hoje
talvez preferisse a morte  fraqueza de me chamar... Eu, porm...

D. Albertina _(interrompendo-o)_

Mas ento  preciso que eu me defenda j, e na sua presena, snr. Lobo!..

Joo Lobo

No, minha senhora. As commoes e luctas que necessariamente
acompanhariam tal defeza, abririam a sepultura ao lado do leito do snr.
Valladares.  cedo. Seu marido por emquanto apenas v em V. Ex. o anjo,
e em mim o tentador. _(sorrindo)_ D'um pobre diabo _(desculpe V. Ex. a
phrase plebea)_; d'um pobre diabo tem querido a sociedade fazer um
sugeito possuido das influencias satanicas dos Tenorios e dos Faustos.
No se impaciente, minha senhora. Olhe que no est ssinha. Quando mais
opprimida sentir a sua innocente e nobilissima alma, imagine que v
sempre ao seu lado... a Providencia.

D. Albertina

Mas o meu silencio pde condemnar-me.

Joo Lobo

Quando a interrogarem responda; mas no provoque altercaes. Espere que
seu marido se fortalea; no queira V. Ex. curar uma alma enferma como
a delle. Qualquer balsamo o irritar. E quando eu lhe disser que se
vingue restaurando a sua dignidade, ento ser tempo de salvar o seu
nome... e o meu. No posso nem devo demorar-me. Adeus, minha senhora.

D. Albertina _(apertando-lhe a mo muito affectuosamente)_

Adeus, meu bom amigo... No o desampare... _(D. Albertina vae  porta da
alcva, escuta, e hesita; vae levantar o fcho quando a porta se abre)._


SCENA VII

D. ALBERTINA E FRANCISCO VALLADARES

_Francisco Valladares extremamente magro e pallido, caminhando a custo.
Veste um rob de chambre_

D. Albertina _(tomando-lhe o brao)_

Pois tu levantas-te, meu filho?

Francisco de Valladares

Estou bom... no vs, Albertina? Sinto-me forte. _(Senta-se prostrado)._

D. Albertina

Ardem-te as mos... Que imprudencia! O medico consentiu que te levantasses?

Francisco de Valladares _(aps uma longa pausa, em que conserva o rosto
escondido nas mos)_

Quero sahir. O dia est sereno.

D. Albertina

Pois tu queres sahir em convalescena to arriscada?! No vs que pdes
recahir!

Francisco de Valladares

A recahida  a cura. Onde uma sepultura se fecha, fechou-se a bcca d'um
abysmo. A morte quando se aproxima  bella; s vista ao longe, 
horrivel. _(Ergue-se)_ Estou vigoroso. Vou a Cintra. Que tirem a caleche.

D. Albertina

Pela tua vida te rogo que no vs, meu querido filho.

Francisco de Valladares

A minha vida!.. por que me no pedes antes pela minha honra?

D. Albertina

Pois sim, peo-t'o pela tua honra...

Francisco de Valladares

E pela tua...

D. Albertina _(com dignidade)_

O qu? Que me pedes tu?

Francisco de Valladares

A ti?.. que me deixes morrer...

D. Albertina _(muito commovida)_

E tu queres morrer?

Francisco de Valladares

Honrado.


SCENA VIII

OS MESMOS, LEONARDO E DEPOIS O CONSELHEIRO SOUSA

Leonardo

Est aqui o snr. conselheiro Sousa. _(Se. D. Albertina vae ao encontro
do pae e beija-lhe a mo)._

Conselheiro

l! a p! Optima convalescena, snr. Valladares! Ainda hontem lhe davam
vinte dias de cama!..

Francisco de Valladares

Estou melhor.

Conselheiro

E tu como ests, filha?

D. Albertina

Bem; e a mam peor?

Conselheiro

Peor, e pediu-me que te viesse buscar, se teu marido podesse
dispensar-te. Imagina que morre, e quer todos os filhos  volta da cama.
J l esto tuas irms.

Francisco de Valladares

Pde ir; eu mesmo insto que v.

Conselheiro

Tenho ahi a sege; no te demores na _toilette_. _(Se Albertina)._


SCENA IX

O CONSELHEIRO E FRANCISCO VALLADARES

Conselheiro

No seria perigosa imprudencia sahir da cama, snr. Valladares? Acho-lhe
um certo rubor nas faces...

Francisco de Valladares

 signal de bom sangue, quando no seja de nobre vergonha.

Conselheiro

Como?

Francisco de Valladares _(inquieto)_

Quero sahir de Portugal por algum tempo... Vou para Florena...  um
clima restaurador; quem l no pde viver sente-se morrer mais
suavemente. Os grandes infelizes devem pensar em morrer onde as agonias
lhes sejam menos crueis. Vou s... quero ir s. Estou intratavel,
impertinente, phrenetico. Tudo me enoja, e eu devo enojar a todos.

Conselheiro

Menos a sua esposa que o ama extremosamente e o no deixar ir s.

Francisco de Valladares

Deixa... ha de deixar. No admitto contradices que poderiam matar-me...

Conselheiro _(com assombro)_

Matarem-no!.. quem?

Francisco de Valladares

E para qu?! Eu no embarao a passagem a ninguem! _(Com exaltao de
louco)_ Passem! Praa ao vicio! Rompa triumphante. Eu sou pequeno para
me atravessar  bcca da voragem. Entrem, abysmem-se, esmaguem-me o
corao, mas deixem-me a honra salva.

Conselheiro _(parte)_

Est perdido!


SCENA X

OS MESMOS E D. ALBERTINA

D. Albertina

Estou prompta, meu pae. _(Aproxima-se do marido, beija-lhe a fronte com
serena altivez)._ At logo, Francisco.

Conselheiro

O doutor Lobo aconselha viagens a teu marido?

D. Albertina

Eu ainda no ouvi fallar em viagens.

Conselheiro _(encarando-os alternadamente)_

A infelicidade entrou n'esta casa ha poucas horas...

D. Albertina

Entrou, mas ha de sahir. _(Com resoluo. Aproxima-se do marido
tocando-lhe no hombro)._ Olha que eu tenho Deus por mim. Hei de vencer.
Vamos, meu pae. _(Sem)._


SCENA XI

FRANCISCO DE VALLADARES E DEPOIS LEONARDO

Francisco de Valladares

Pois esta mulher sabe que me  suspeita a sua lealdade, e no se
justifica? No seria natural que me interrogasse com lagrimas e fizesse
ahi grande estrondo com a sua dignidade ferida? _(Tange uma campainha
com phrenesi. Apparece Leonardo)._ A snr. D. Antonia?

Leonardo _(com ar de maliciosa candura)_

A snr. D. Antonia est a conversar no jardim. V. Ex. quer que a chame?

Francisco de Valladares

A conversar... com quem?!

Leonardo

Com o visconde de Espinhal.

Francisco de Valladares

E esse homem est no meu jardim?!

Leonardo

No, snr.: est no jardim do visinho.

Francisco de Valladares

Chama essa senhora. _(Leonardo se)._


SCENA XII

FRANCISCO DE VALLADARES

N'esta casa consideram-me morto... Ha em tudo isto que me cerca e
atormenta o travor da peonha que est dilacerando uma familia. Assim
que a doena me prostrou, a deshonra chegou ao meu leito de moribundo
para me abafar. _(Inclina a cabea para o peito; demora-se um instante,
senta-se de golpe, mas a custo, e amparando-se)_ Eu no quero morrer!
Fui um homem inutil; mas antes da minha morte, hei de deixar uma lio
aos infames, e um exemplo aos que no acceitam de boamente o seu
opprobrio. _(Reflectindo)_  impossivel. O meu corao no podia
enganar-se assim. A duvida nunca passou pelo meu espirito, nem sequer o
receio... Estar ella innocente?..


SCENA XIII

O MESMO E D. ANTONIA

D. Antonia

O mano chamou?

Francisco de Valladares

Chamei.

D. Antonia

Eu tinha ido ao jardim vr as suas araucarias. Esto lindissimas.

Francisco de Valladares

Eu recommendei-lhe ha mezes, Antonia, que se no descuidasse um momento
dos seus deveres n'umas relaes amorosas em que a vi muito arriscada. O
visconde do Espinhal  um homem que tem perdido no conceito da sociedade
algumas senhoras na posio da mana Antonia. O mundo, que despreza as
mulheres que elle diffamou, nobilitou-o ao mesmo tempo com o diploma de
conquistador, e o visconde considera-se obrigado a sustentar a sua
reputao.  justia ou  dignidade dos irmos e dos maridos responde
com o duello; e  moral pacifica das familias com a zombaria. Ora eu,
prevendo que o seu descredito, Antonia, me levaria ao extremo de lhe
pedir a elle contas do seu honrado nome, pedi  mana que terminasse essa
perigosa inclinao. Antonia prometteu terminar. Cumpriu?

D. Antonia _(hesitante)_

Cumpri, mano Francisco.

Francisco de Valladares

 sempre assim verdadeira? Quando accusa os outros  to sincera como
quando se absolve a si?

D. Antonia

No percebo...

Francisco de Valladares

Mentiu; mas est perdoada com a condio de desmentir-se das suspeitas
que me deixou da fidelidade de Albertina. Repita-me o que sabe de sua
cunhada. Chamo a sua consciencia  presena de Deus. Diga, mana Antonia,
que viu? em que funda as suas desconfianas?

D. Antonia

As minhas desconfianas?..

Francisco de Valladares

Sim; no me obrigue a repetir o que est bem impresso na sua lembrana.

D. Antonia

Eu j disse que desconfiava... porque... Ha certas coisas... que
inspiram suspeitas at certo ponto... sim, eu desconfiei porque...

Francisco de Valladares

Essa hesitao parece um annuncio de arrependimento por haver calumniado
a pobre Albertina...

D. Antonia

Calumniado! Tem coisas o mano Francisco! Sou incapaz de calumniar.

Francisco de Valladares

Bem. Diga ento l desembaraadamente. _(V-se ao fundo Leonardo que
escuta por entre o reposteiro)._

D. Antonia

Disse e digo que Albertina faz ostentao de virtudes que no tem.

Francisco de Valladares

Disse mais pelo claro que lhe parecia que ella trazia o corao
distrahido...

D. Antonia

Foi isso.

Francisco de Valladares

E que Albertina amava o doutor Lobo.

D. Antonia

Justamente.

Francisco de Valladares

Agora venham as provas que hontem lhe no pude pedir porque Albertina
entrou.

D. Antonia

As provas!

Francisco de Valladares

Tem as provas?

D. Antonia

Para que quer o mano saber... So coisas que o affligem, e lhe aggravam
os padecimentos.

Francisco de Valladares

No me d razes parvas. _(Ergue-se convulso)_ Responda! Mando que
responda! As provas?

D. Antonia

No se exaspere. Eu vou satisfazl-o... Quando o medico sahiu uma vez do
seu quarto, Albertina esperou-o n'esta salta, e demorou-se algum tempo
a conversar com elle, tendo-lhe as mos apertadas nas d'ella. Outra vez,
a creada de sala contou-me que ella estava a chorar de joelhos, e o
medico a levantara com muito carinho e palavras meigas. D'outra vez fui
eu que a vi abraada n'elle com ar de grande alegria... Outra pessoa me
disse tambem que a vira sahir de casa do medico e entrar n'uma sege...

Francisco de Valladares

Que pessoa?

D. Antonia

Certa pessoa...

Francisco de Valladares _(irritado)_

O nome?

D. Antonia

O visconde do Espinhal.

Francisco de Valladares

J o nome de minha mulher cahiu n'essa sentina? _(muito agitado)_ Ento
est perdido tudo! Embora esteja innocente, Albertina perdeu-se! A
deshonra da mulher de Fracisco de Valladares  propalada pelo visconde
do Espinhal. _(Fita a irm rancorosamente, travando-lhe do brao)_ Se
ella estiver pura,  preciso que a senhora v ser infame longe d'esta
casa onde morreu sua me... _(Francisco de Valladares se impetuosamente
a entrar no quarto, mas encosta-se de fraco ao espaldar d'uma poltrona.
Leonardo se apressado a dar-lhe o brao)._


SCENA XIV

OS MESMOS E LEONARDO

Francisco de Valladares

Onde estavas, Leonardo?

Leonardo

Passava no corredor quando V. Ex. ia cahir.

Francisco de Valladares

Eu no cio. Deixa-me s. _(Entra no quarto)._


SCENA XV

D. ANTONIA E LEONARDO

Leonardo _(com respeito)_

Minha senhora, vou-lhe pedir um favor por alma de sua me. A menina 
christ, e no ha de faltar-me.

D. Antonia _(com sobranceria)_

Que quer?

Leonardo

Que se arrependa emquanto  tempo, e v dizer a seu mano que a senhora
faltou  verdade na intriga que armou  sua pobre cunhada. Faa-me isto,
porque a senhora  catholica.

D. Antonia

Quem lhe permittiu o atrevimento de me fallar assim?

Leonardo

Isto no  atrevimento, senhora;  confiana e amisade de creado antigo.

D. Antonia

Os creados antigos so sempre creados, entendeu? _(Meno de sahir)._

Leonardo

A menina faz favor de me ouvir aqui baixinho? _( bcca da scena)._

D. Antonia

Diga.

Leonardo

Lembre-se que sua cunhada desfaz esta meada quando quizer; e se ella a
no desfizer, desfao-a eu, dou-lhe a minha palavra de homem catholico,
que me preso de ser.

D. Antonia _(alto)_

Que meada? que meada?

Leonardo

A menina quer que eu lhe responda tambem a gritar? Veja l. Seu mano
est alli pertinho, e a demanda pde ficar acabada aqui n'esta sancta
hora. Torno a pedir-lhe por alma de sua mesinha que v dizer a seu
irmo que no disse a verdade. A senhora disse a verdade at certas
alturas; mas torceu-lhe as voltas para arranjar a mentira; sim, V. Ex.
bem me percebe, e a consciencia l lhe est gritando; porque a menina ,
foi, e ha de ser sempre catholica.

D. Antonia _(afogando os impetos da ira)_

Que petulante! que villo!


SCENA XVI

OS MESMOS E UMA CREADA

_Leonardo fica ao fundo, escutando ao quarto de Francisco Valladares,
emquanto a creada se aparta com D. Antonia_

Creada _(a meia voz, e rapidamente)_

O snr. visconde mandou saber se havia alguma novidade.

D. Antonia

Elle ainda est no jardim?

Creada

Est, sim, minha senhora.

D. Antonia

V se o passas para a sala do meio... Preciso muito fallar-lhe. Quero
sahir d'esta casa quanto antes.

Creada

O peor  se Leonardo d f... Veja se o entretm c para dentro... _(Se)._


SCENA XVII

D. ANTONIA E LEONARDO

D. Antonia

Venha c, Leonardo.

Leonardo

Minha senhora.

D. Antonia

Explique-me essas embrulhadas que esteve atrapalhando. No o entendi.

Leonardo

No?! pois ento logo lhe explicarei. So horas de dar o lunch ao snr.
Francisquinho. _(Vae a sahir)._

D. Antonia

Espere.

Leonardo

Tenha paciencia que est o doente esperando. _(Se)._

D. Antonia

O maldito desconfiou!..


SCENA XVIII

D. ANTONIA E O CONSELHEIRO SOUSA

Conselheiro _(a D. Antonia com severidade)_

Seu mano, senhora?

D. Antonia

Est no seu quarto.

Conselheiro

Avise-o de que o estou esperando.

D. Antonia

Elle ahi vem. _(Se)._


SCENA XIX

CONSELHEIRO E FRANCISCO DE VALLADARES

Conselheiro

Snr. Valladares, minha filha descreveu-me com mais lagrimas que palavras
a infelicidade com que a Providencia a est castigando porque me
desobedeceu. O snr. Valladares soffre tambem porque induziu minha filha
a rebellar-se contra a vontade de seu pae. Adivinhei que Albertina seria
desgraada; mas nunca me feriu o corao o receio de que o snr.
diffamasse minha filha com affrontosas suspeitas. Albertina tem um
defensor; sou eu,  seu pae. Accuse-a na minha presena.

Francisco de Valladares _(com enfado)_

Estou doente, estou febril, snr.; no venha atormentar-me... Esses ares
magestosos de pae irritado no me salvam da ignominia, nem desculpam os
desvarios da snr. D. Albertina. A accusao, se houver de fazer-se, no
tem de ser julgada por juiz to incompetente, como V. Ex. Ora, se eu
no me queixo para que ha de queixar-se o snr. conselheiro? Eu, por
emquanto, resumo os meus queixumes em dizer-lhe que estou aviltado, que
sou escarnecido, que perteno aos incentivos da zombaria, e contribuo
para sustentar  custa da minha dignidade a irriso nos sales e nas
praas onde se applaude o impudor do visconde do Espinhal, e de...

Conselheiro

Basta. Ouvi ahi um nome que  personagem n'este romance torpe que V.
Ex. est urdindo. O visconde do Espinhal!.. As salas onde este illustre
devasso  recebido so as salas de muito homem de bem, incluindo as
suas, snr. Valladares.

Francisco de Valladares

As minhas!.. as minhas!..

Conselheiro

As suas.

Francisco de Valladares

J encontrou em minha casa o visconde?

Conselheiro

No, snr., por que eu nunca entrei nas suas alcvas.

Francisco de Valladares

Isso  uma insinuao hedionda, snr. conselheiro!

Conselheiro

Insinuao hedionda e vilissimo affrontamento  o que o snr. est
cuspindo na cara de minha filha. Sou pae, snr.; e sou pae de uma mulher
virtuosa que outra mulher perdida calumniou. A hora da justia no
tardar. O cumplice de minha filha ser interrogado na presena do
calumniador.

Francisco de Valladares

Na minha presena!  original o escandalo! Ento V. Ex. quer fazer
justia, ridiculisando-me? No o conseguir, que eu estou em minha casa;
bom ser lembrar-lh'o.

Conselheiro

No me esqueci; mas, se a inteno da indelicadeza  mandar-me sahir,
declaro-lhe que no sahirei, sem levar d'aqui a minha filha a retratao
de V. Ex. Provavelmente ella no voltar a esta casa...


SCENA XX

OS MESMOS E D. ALBERTINA

D. Albertina

Volto, aqui estou, por que no hei de voltar?! _(serenamente)_ O pae no
me deu tempo a estar com a mam alguns instantes. Receiei que tivesse
vindo para aqui, e magoadamente lhe digo que me arrependi de ser to
expansiva!.. Como ests abatido, meu pobre Francisco! Matam-te, meu
filho! Parece incrivel que a Providencia divina no diga  tua alma que
eu estou innocente!

Francisco de Valladares _(concentrado)_

Seria preciso que a Providencia tivesse cegado as que a viram sahir de
casa de... _(Retrahindo-se com doloroso esforo)._


SCENA XXI

OS MESMOS, LEONARDO, E DEPOIS JOO LOBO

Leonardo

O snr. doutor Lobo. _(Se)._

Francisco de Valladares _(ao conselheiro)_

Esta indecente situao preparou-m'a V. Ex.!

D. Albertina _(afflicta)_

Que vem a ser isto, meu pae? No v o estado de meu marido?!

Conselheiro

Importa-me a tua dignidade muito mais.


SCENA XXII

OS MESMOS E JOO LOBO

Joo Lobo

Felizmente que eu chegava a casa quando recebi o recado.

Conselheiro

Fui eu, snr. doutor, que pedi a sua vinda.

Joo Lobo _(tomando o pulso de Francisco Valladares)_

Isto assim no vae bem, snr. Valladares. Se V. Ex. no quer, ou no
pde subordinar  raso e  necessidade o alvoroo em que est o seu
espirito, mais doente do que o corpo, no tenho que fazer aqui. Tenha a
briosa coragem de ser homem, para viver. _(Francisco de Valladares faz
um gesto de constrangimento, sorrindo-se com amargura)._

Conselheiro

 o que elle faz, snr. Lobo. Vae affastar de si as pessoas que o
atormentam, ou mais exactamente so essas pessoas que muito por sua
vontade se affastam. Eu sou uma, e minha filha  a outra pessoa
importuna que est impeonhando o mo r que este doente respira.

Joo Lobo

Sua filha?! Pois a snr. D. Albertina atormenta seu marido?! V. Ex. sem
duvida proferiu um gracejo ou uma ironia, mas ha n'isso alguma coisa que
me punge como principal testemunha do incomparavel amor que esta senhora
tem a seu marido, ou tinha ha poucos dias. E como principal testemunha,
embora no seja chamada, vou depr n'este pleito, e hei de ser escutado
pela delicadeza de V. Ex.as _(Circumvagando a vista pela sala)_ Falta
alguem no meu auditorio. O tribunal no pde funccionar sem a presena
da snr. D. Antonia. Requeiro que seja chamada S. Ex. _(O conselheiro
tange a campainha)._

Francisco de Valladares _(erguendo-se com impeto)_

Eu  que me nego a pertencer ao seu auditorio, snr. Joo Lobo. Querem
sujeitar-me a uma tutella vergonhosa! _(Quer sahir)._

Conselheiro _(retendo-o)_

No sia. Prohibe-lh'o a honra de sua mulher. _(A Leonardo que entra)_
Diz  snr. D. Antonia que se lhe pede o favor de entrar n'esta sala.
_(Leonardo se)._

D. Albertina _(a meia voz)_

Tu precisas de ouvir a minha justificao, Francisco?

Francisco de Valladares _(fixando-a lagrimoso)_

Quem podesse tirar-me de sobre a alma este pezo de infelicidade!..


SCENA XXIII

OS MESMOS, D. ANTONIA E LEONARDO QUE FICA AO FUNDO

_Silencio d'algum segundos. D. Antonia entra sobresaltada_

Joo Lobo

Ouvi agora dizer, snr. D. Antonia, que sua cunhada vae separar-se de
seu marido. Esta m nova commoveu-me to profundamente quanto eu estava
convencido de que esposos, como estes eram, amantissimos e felizes,
raros se encontrariam, e principalmente nas classes elevadas onde as
apparencias de felicidade conjugal so quasi sempre convencionaes, uma
especie de hypocrisia que  assim mesmo um tal qual respeito que se
presta  virtude. Se V. Ex. no sabia isto que me espantou, deve estar
admirada pelo menos...

D. Antonia

Decerto.

Joo Lobo

E a no ser V. Ex., ninguem como eu pde testemunhar quanto a snr. D.
Albertina amava seu marido, posto que, s ha trez mezes fui chamado para
tratar o snr. Valladares; V. Ex. porm, que ha cinco annos conhece sua
cunhada em familiar intimidade, decerto pde levantar voz mais
auctorisada em abono d'esta virtuosa senhora. _(Fixam todos D. Albertina
que se mostra mortificada pelo interrogatrio)_ Mas, se V. Ex. quer ter
a bondade de me conceder a mim a satisfao de ser o primeiro a depr,
serei eu testemunha, e ser V. Ex. o juiz. Quando fui chamado  junta
que se fez ao snr. Francisco de Valladares encontrei o seu assistente e
mais facultativos conformes em capitular de incuravel a sua doena.
Recordo-me que ao sahir com os meus collegas da sala da consulta,
encontramos esta senhora na sala immediata com as mos postas diante de
ns, perguntando se no tinhamos esperana de lhe salvar o esposo.
Ninguem respondia por compaixo; mas eu quasi convencido disse
afoitamente  snr. D. Albertina: seu marido pde restaurar-se, minha
senhora. Proferidas estas palavras, S. Ex. quiz beijar-me as mos; no
o conseguiu, mas orvalhou-m'as de lagrimas. Comecei o tratamento do snr.
Valladares, por voto do seu assistente. A doena progrediu, desmentindo
os meus vaticinios. J as esperanas me iam tambem abandonando, e eu a
compenetrar-me das enormes angustias que atormentam a vida do medico,
emquanto elle no sente esfriar-lhe o corao como o dos cadaveres em
que v desapparecer o orgulho da sciencia. Eu considerava o doente
perdido, quando lhe sobreveio uma pneumonia em extremos de fraqueza. Um
dia, sahi d'aquella alcva, e encontrei alli de joelhos esta senhora
supplicando-me a vida de seu marido, to abafada por soluos e perdida
de cres, que, ao levantal-a quasi desmaiada, a amparei nos meus braos
e lhe pedi que suffocasse o chro para que o doente a no ouvisse.
D'esta vez _(sorrindo)_ recordo-me, sem esconder o riso, que S. Ex.,
com a mais perdoavel das prodigalidades, me disse extremamente anciada:
Eu dou tudo quanto temos a quem salvar meu marido. Vejam como o amor e
a paixo fizeram no elevado espirito d'esta senhora um intervalo de
insensatez!--angelica e sancta insensatez! S. Ex. queria dizer talvez
que dava a propria vida pela do esposo; mas o corao antes queria a
indigencia para ambos que vida para um s. Acho mais sublime o
sacrificio dos bens da fortuna. Eu  que no podia acceitar a proposta
sem que o snr. Francisco de Valladares fosse ouvido, por que as
senhoras, segundo o codigo civil, no podem dispr dos bens do casal...
_(Sorri-se, e vae tomar o pulso ao enfermo)_ Est muito agitado. Se o
estou constrangendo, fecho o depoimento... D-me licena que prosiga?..
Mas ainda agora reparo que V. Ex. me tem ouvido de p!.. Eu pedia
que... _(O conselheiro senta-se. D. Antonia tambem com ar de violentada;
D. Albertina permanece em p, ao lado da poltrona do marido, Joo Lobo
tambem de p)._ N'outro dia, tendo-me eu demorado de proposito para dar
tempo aos effeitos d'umas sarjas, foi-me annunciada a visita de uma
senhora que apeava d'uma sege. Eram 7 horas da manh. Como eu estivesse
ainda recolhido, e minha me me dissesse que era a snr. D. Albertina
que me procurava afflictivamente, pedi a minha me que fosse  sala
receber S. Ex. Quando entrei estava a lagrimosa senhora rogando a minha
me que me pedisse a mim a salvao de seu marido. O quadro tinha uns
traos de magestosa tristeza! Minha me respondia-lhe a chorar que
pediria a Deus, e no ao medico. N'outra occasio, por volta de uma hora
da noute, era eu chamado ao pateo do Club, onde encontrei a esposa do
snr. Valladares. D'esta vez no podia eu j dar-lhe esperanas que no
tinha. Mas vinte e quatro horas depois a febre remittiu, a anciedade
acalmou, o doente sorriu-me, e a esperana renasceu. Mais trez dias
depois, disse eu  snr. D. Albertina: seu marido est livre de
perigo. S. Ex. ento mais allucinada pelo jubilo do que estivera pela
angustia, abraou-me, e chamou-me seu querido salvador. No me chamou
salvador de seu marido; que isto seria uma vulgaridade; chamou-me seu
salvador, como quem diz: a vida que salvaste  a minha; eu sentia-me
morrer da morte de meu marido. At aqui o sublime. Agora a loucura da
felicidade. S. Ex. foi buscar o seu estojo de joias, poz-m'o entre as
mos, e disse: quando tiver esposa d-lhe esta lembrana da mais feliz
das esposas. Foi-me necessario _(sorrindo)_ convencer aquella senhora
de que eu fiz voto de celibato, e no podia sem infraco do voto
agenciar esposa a quem dar as joias. S. Ex. transigiu, e dispensou-me
de quebrantar o proposito. Falta quasi nada  concluso do meu
depoimento. Depois d'estas commoventes manifestaes d'um amor de esposa
virtuosissima, seu mano, snr. D. Antonia, influenciado no sei porque
mos espiritos, atira  face sem mancha d'aquella senhora um labeo de
muito injuriosa suspeita. Ora diga-me V. Ex. se isto no  injustia
para fazer chorar os anjos! _(D. Antonia parece quebrantada)._

Conselheiro _(erguendo-se)_

O meu depoimento  mais breve.

D. Albertina _(correndo para o pae)_

Pela vida de minha me... por tudo que ha mais nobre e sancto na sua
alma!..

Conselheiro

O que ha mais sancto na minha alma  a tua honra.

D. Albertina

Mas meu marido est seguro da minha innocencia, e no precisa que eu me
justifique.

Conselheiro

Eu  que devo e quero justificar a tua sahida d'esta casa.

Francisco de Valladares

E quem diz a V. Ex. que minha mulher sae d'esta casa?

Conselheiro

Nenhum direito obriga minha filha a conciliar-se to de barato com quem
a infamou. O marido que desacredita sua mulher innocente  apenas... um
baixo calumniador sem direito a impr-lhe a obrigao de o amar, e muito
menos de o soffrer. No pde a minha filha morar sob o mesmo tecto da
snr. D. Antonia.

D. Albertina _(a D. Antonia a meia voz)_

Mana Antonia,  melhor sahir d'esta sala. Eu vou remediar como puder
este infortunio.

D. Antonia _(erguendo-se animosa)_

Como a senhora quizer. _(Vae sahir)._

Francisco de Valladares _( irm)_

Espere!

Conselheiro

O que deu causa  torpe aleivosia d'esta senhora foi minha filha ter
reprehendido brandamente sua cunhada porque as suas tendencias a
perder-se doudamente eram de tal fora que nem j o escandalo de descer
ao jardim alta noite escondia dos seus criados.

D. Antonia

Os creados mentem! Que o digam na minha presena. _(O creado que est ao
fundo avana dois passos tranquillamente)._

D. Albertina _(supplicante)_

Est bom, meu pae... pelo divino amor de Deus!

Conselheiro

Espero ser desmentido pelos seus criados, snr. D. Antonia! _(Leonardo
d mais dois passos)._

D. Albertina _(perpassando pelo creado a meia voz)_

Nem uma palavra.

D. Antonia _(a Leonardo)_

Viu-me alguma vez no jardim depois que as portas se fecham? _(Relance
d'olhos entre D. Albertina, e Leonardo)._

Conselheiro

O calumniador por tanto sou eu, minha filha.  deploravel o papel que me
distribues. Menos caridade com os infames, e mais respeito aos meus
cabellos brancos e  tua propria dignidade, Albertina!

D. Albertina

Mas que trance este, meu pae! Terminemos isto, peo a todos por piedade
que terminemos isto!

Francisco de Valladares

Como  que se defende, Antonia? Calumniou Albertina porque ella
reprovava os seus depravados instinctos de mulher que perdeu os brios de
senhora?

D. Antonia

No quiz calumnial-a, nem os conselhos da mana Albertina me eram
precisos para eu conservar brios de senhora. As mulheres solteiras que
amam no perderam os brios nem so deshonestas.

Francisco de Valladares _(irritado)_

Calumniou ou no?

D. Antonia

No a quiz calumniar. Calumniada sou eu, quando me dizem que perdi os
brios, e que vou de noute ao jardim, e que...

Conselheiro

E que no vae ao jardim desde que o visconde do Espinhal sbe facilmente
do jardim s janellas d'esta casa.

D. Antonia

Quem disse tal?

Leonardo

Fui eu; e, se o no disse, o snr. conselheiro advinhou que eu o queria
dizer.

D. Antonia

Voss mente! _(Leonardo caminha para uma porta do lado)_.

D. Albertina _(atalhando-o)_

Onde vae?

Leonardo _(a meia voz)_

O visconde est n'esta primeira sala.

D. Albertina _(a meia voz)_

Por piedade no faa isso, Leonardo! _(Alto)_ Eu comprehendo bem a
insistencia da mana Antonia. Ella sabe que eu me ajoelhei aos ps do
snr. Joo Lobo; sabe que o abracei; sabe que eu fui a casa d'elle: tudo
isto  verdade. O que ella no sabia  que eu pedia ao doutor a vida de
seu irmo quando ajoelhava, e lh'a agradecia cheia de lagrimas quando o
abraava. No mundo julgam-se assim muitos actos e o mundo no  nem
responsavel nem condemnado. Deus que assim nos fez  por que quer que
assim nos sofframos uns aos outros. A mana Antonia no reflectiu na
inteno dos meus actos. Viu-os pelo lado mo, e julgou-me como era
justo ao seu modo de vr. Eu smente me queixo da imprudencia dos seus
juizos.

Francisco de Valladares

Basta. Esta senhora no  imprudente,  infame. Leonardo, d-me a chave
do meu escriptorio que est no meu quarto. _(Leonardo sae)_ O seu dote,
senhora,  to opulento que o visconde do Espinhal em troca d'elle vae
dar-lhe um optimo esposo e uma cora de viscondessa. Vou entregar-lhe
duas inscripes nominaes de 2:000$000. Valem no mercado uma quantia que
sobredoira as suas virtudes. A senhora, recebido o seu dote, retire-se,
e v fazer ao dote o que fez  herana de virtudes de nossa me.
_(Leonardo entrega-lhe a chave. Elle levanta-se convulso)_.

D. Albertina

Onde vaes, meu filho? No vs... Logo... manh se far isso, Francisco.
Descana, senta-te.

Francisco de Valladares

No me afflijas, deixa-me.

D. Albertina

Pois senta-te, e d-me a chave que eu vou. Eu sei onde esto as
inscripes...

Francisco de Valladares

Vae. _(Da-lhe a chave)._

D. Albertina _(perpassando pela cunhada)_

No se afflija, que eu espero salval-a. _(Sae)._


SCENA XXIV

OS MESMOS EXCEPTO D. ALBERTINA

Francisco de Valladares

Snr. Joo Lobo, devo-lhe duas vidas; e mais lhe devo pela da alma, por
este desafgo do corao... Perdoou-me j, no  verdade, doutor?

Joo Lobo

Se o snr. Valladares me pede a mim perdo, em que termos ha de pedir a
misericordia de sua senhora?

Francisco de Valladares _(apontando para a irm)_

E aquella!.. onde ir dar?.. que vergonhas se preparam para o apellido
de minha sancta me!..

Joo Lobo

Eu creio que ella tem um grande e sagrado refugio.

Francisco de Valladares

Qual?

Joo Lobo

O corao da snr. D. Albertina.


SCENA ULTIMA

OS MESMOS, E D. ALBERTINA

D. Albertina

Aqui esto as inscripes.

Francisco de Valladares _(a Leonardo)_

Entregue isto  snr. D. Antonia. _(Leonardo demora-se a olhar para o
rlo com hesitao)._

D. Albertina _(muito carinhosa)_

Ento ficas ssinho, Francisco? Sahimos ambas?

Francisco de Valladares

Se sahem ambas?! Sahires tu, minha querida Albertina! Deixa-me ento
ajoelhar a teus ps, e rogar o teu perdo com as mais contrictas
lagrimas que a minha alma te pde dar! _(Ajoelha)._

D. Albertina _(erguendo-o)_

Meu filho, ests perdoado com uma condio. Se esta fr penosa, tem
paciencia; peo-te que a acceites, em desconto das angustias que me
despedaaram desde o instante em que estive perdida para o teu corao.
Acceitas a condio, meu querido amigo?

Francisco de Valladares

Qual condio?!

D. Albertina _(tomando a mo da cunhada)_

Has de perdoar-lhe... _(Sorrindo)_ ou eu no perdo.

Francisco de Valladares

Ento  certo que s uma sancta, minha filha?

D. Albertina

No sou sancta; sou apenas uma mulher que se esfora por que tu sejas
sempre um anjo de bondade.


FIM.


      *      *      *      *      *

Pertencem ao auctor os direitos provenientes da representao dos dois
dramas que formam este livro.

Porto 30 de Dezembro de 1870.

CAMILLO CASTELLO BRANCO.

      *      *      *      *      *


ERRATAS ESSENCIAES

PAG.    LINH.   ERROS                           EMENDAS

35      1       passarl                        passarlo

41      8       de de marido                    de marido

43      14      estando em Beja                 estando eu em Beja

46      15      precedencia                     procedencia

68      ult.    conhecidos                      conhecido

104     15      Em Lisboa                       Em Lisboa?

117     4       snr. viscondessa?              senhora viscondessa!

120     14      espirito de venturoza           espirito de ventosa

122     8       VISCONDE                        VISCONDESSA

       9       Visconde                        Viscondessa

134     14      com o pesar d'esse cadaver      com o pezo d'esse cadaver

140     9       que se chama                    que se chamou

144     4       pois que                        depois que


                      *      *      *      *      *

                       PORTO--IMPRENSA PORTUGUEZA
                          Rua do Bomjardim, 181.





End of the Project Gutenberg EBook of O Condemnado/Como os anjos se vingam, by 
Camilo Castelo Branco

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CONDEMNADO/COMO OS ANJOS ***

***** This file should be named 32586-8.txt or 32586-8.zip *****
This and all associated files of various formats will be found in:
        http://www.gutenberg.org/3/2/5/8/32586/

Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
of public domain material from Google Book Search)


Updated editions will replace the previous one--the old editions
will be renamed.

Creating the works from public domain print editions means that no
one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
(and you!) can copy and distribute it in the United States without
permission and without paying copyright royalties.  Special rules,
set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark.  Project
Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
charge for the eBooks, unless you receive specific permission.  If you
do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
rules is very easy.  You may use this eBook for nearly any purpose
such as creation of derivative works, reports, performances and
research.  They may be modified and printed and given away--you may do
practically ANYTHING with public domain eBooks.  Redistribution is
subject to the trademark license, especially commercial
redistribution.



*** START: FULL LICENSE ***

THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK

To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
distribution of electronic works, by using or distributing this work
(or any other work associated in any way with the phrase "Project
Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
Gutenberg-tm License (available with this file or online at
http://gutenberg.org/license).


Section 1.  General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
electronic works

1.A.  By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
and accept all the terms of this license and intellectual property
(trademark/copyright) agreement.  If you do not agree to abide by all
the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B.  "Project Gutenberg" is a registered trademark.  It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement.  There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement.  See
paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D.  The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work.  Copyright laws in most countries are in
a constant state of change.  If you are outside the United States, check
the laws of your country in addition to the terms of this agreement
before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
creating derivative works based on this work or any other Project
Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
the copyright status of any work in any country outside the United
States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
copied or distributed:

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org

1.E.2.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
and distributed to anyone in the United States without paying any fees
or charges.  If you are redistributing or providing access to a work
with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
1.E.9.

1.E.3.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
terms imposed by the copyright holder.  Additional terms will be linked
to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
permission of the copyright holder found at the beginning of this work.

1.E.4.  Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
License terms from this work, or any files containing a part of this
work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.

1.E.5.  Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
electronic work, or any part of this electronic work, without
prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
active links or immediate access to the full terms of the Project
Gutenberg-tm License.

1.E.6.  You may convert to and distribute this work in any binary,
compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
word processing or hypertext form.  However, if you provide access to or
distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
form.  Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7.  Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.8.  You may charge a reasonable fee for copies of or providing
access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
that

- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
     the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
     you already use to calculate your applicable taxes.  The fee is
     owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
     has agreed to donate royalties under this paragraph to the
     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
     must be paid within 60 days following each date on which you
     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
     address specified in Section 4, "Information about donations to
     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
your equipment.

1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
