The Project Gutenberg EBook of Contos Phantasticos, by Tefilo Braga

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Title: Contos Phantasticos
       segunda edio correcta e ampliada

Author: Tefilo Braga

Release Date: June 1, 2010 [EBook #32646]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS PHANTASTICOS ***




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        Notas de transcrio:

        O texto aqui transcrito,  uma cpia integral do livro
        impresso em 1894.

        Mantivemos a grafia usada na edio impressa, tendo sido
        corrigidos alguns pequenos erros tipogrficos evidentes,
        que no alteram a leitura do texto, e que por isso no
        considermos necessrio assinal-los. Os erros tipogrficos
        que nos suscitaram dvidas foram tambm corrigidos, e foram
        assinalados com um comentrio na verso HTML deste e-book.


              COLLECO ANTONIO MARIA PEREIRA--25. Volume

                           Contos phantasticos




                     COLLECO ANTONIO MARIA PEREIRA


                             THEOPHILO BRAGA

                           CONTOS PHANTASTICOS


                              SEGUNDA EDIO
                            CORRECTA E AMPLIADA


                                  LISBOA
                 Livraria de Antonio Maria Pereira, Editor
                            50--RUA AUGUSTA--54
                                   1894




PRELIMINAR

(DA 2. EDIO)


Vae para trinta annos que esto publicados os _Contos phantasticos_. Em
boa verdade, nunca mais passei os olhos por este livro, que me apparece
agora como obra de um extranho. No tornei a lr esses contos, no por
um affectado desdem pela minha obra, desdem que condemno em todo o
escriptor que se no preoccupa com a coordenao definitiva dos seus
trabalhos, mas porque este pobre livro ficra ligado a impresses
dolorosas cuja renovao evitava.

Foram reunidos em volume em 1865 os _Contos phantasticos_ no meio das
refregas da conhecida _Questo de Coimbra_; publicra a maior parte
d'elles no _Jornal do Commercio_, em cuja collaborao litteraria
auferia uns tantos ris com que ia seguindo o meu curso na Universidade.
De repente achei-me cercado de odios; cortaram-me os viveres na empreza
do jornal, nas aulas de Direito tiraram-me a mesquinha distinco
academica, os criticos espalmaram-me rudemente, os livreiros
recusaram-se a dar publicidade ao que escrevia, e os patriarchas das
lettras com o peso da sua auctoridade sorriam com equivocos sobre o meu
valor intellectual, chegando a circularem lendas depressivas do meu
caracter e costumes que s consegui desfazer com uma vida s claras
e cheia de ignorados sacrificios. Outro qualquer ter-se-hia rendido.

Vi-me forado a inverter as bases da minha existencia, abandonando a
Arte que me seduzia, porque me abandonara a serenidade contemplativa, e
lancei-me  critica,  erudio,  sciencia,  philosophia. N'este campo
os meus erros e exageros bem merecem ser perdoados. S muito tarde  que
consegui conciliar em mim estas duas tendencias do espirito; mas no
pensava em reimprimir os _Contos phantasticos_, a no sr um dia em uma
colleco de cousas avulsas constituindo a ingenua miscellanea das
minhas _Juvenilia_.

Uma carta do meu bom amigo Antonio Maria Pereira surprehendeu-me,
manifestando o desejo de fazer uma nova edio d'estes _Contos_. Como
recusar-me a uma to honrosa proposta?

Resalvei a condio de revr isso de que nem j formava ideia. Foi assim
que tive de lr os _Contos phantasticos_, do rapaz de vinte e dous annos
que existiu em mim, e a frio pude julgar da impresso por elles produzida.
Achei ali uma fraca penetrao do mundo subjectivo ou moral, encoberta com
o esforo das comparaes poeticas e dos epithetos; desgostou-me o estylo
em que a prosa se confunde com o verso,--apresentando ainda a falta de
nitidez de quem no pensa com segurana; e emquanto ao drama da vida, que
 o thema eterno das obras de arte, notei tambem pouco movimento, as
situaes so narradas em vez de succedidas.

O que salva ento o livro?

Uma pequena cousa, que  tudo,--a paixo. Ao fim de trinta annos ainda
achei ali calor, a ardencia de um organismo que se queima, a vibrao
sensorial de uma mocidade plena que se lana de peito aberto ao combate
da vida.

Foi esta paixo flagrante que fez com que esses Contos no ficassem
esquecidos no _Jornal do Commercio_ de 1865; voltando ento de umas
ferias para Coimbra, felicitou-me Ea de Queiroz, affirmando-me que
nos cafs em Lisboa cortavam-se os folhetins, quando traziam algum conto
meu. N'esse mesmo anno Jos Fontana quiz publical-os em um livro, que
seguiu o seu fadario, sendo o mais glorioso o andar na algibeira do
celebre engenheiro Joo Evangelista, que morreu devorado por uma
violenta paixo amorosa. O pequeno livro estava na mesma afinao da sua
alma. Cartas, que ainda guardo, me fallaram da impresso de um ou outro
conto, por esse tempo.

Tudo isto me lembrou ao sentir que effectivamente o fogo que ha n'esses
mesquinhos quadros se communica. E n'este dilemma dos dois amores, em
que ainda se debate o espirito, attrahido para a arte e seduzido pela
sciencia, hoje repassando as paginas d'este livro,  com uma certa
piedade saudosa que o deixo reviver na publicidade, e lhe inscrevo com a
frieza do Qualificador inquisitorial: _Feitas as emendas necessarias
pde correr_.


Fevereiro de 1894.

                                                     THEOPHILO BRAGA.




As azas brancas


I

Sempre o mesmo olhar doloroso! uma constante expresso de magoa, esse
abandono, que  o tedio da vida! Porque  que na flr dos annos, quando
a existencia se purpura com todas as graas que se entrevem apenas em
sonho e se veste das alegrias que a rodeiam, como uma criana
enfeitando-se distrahida com as florinhas espontaneas, tu, bella,
sentida, deixas reflectir pela transparencia da tua face pura um claro
pallido e incerto como de agonias e desespero, como a phosphorecencia de
um grande mar que esta? Diante de ti sente-se uma oppresso estranha, a
mudez sagrada de uma grande floresta, o terror glido, de quem entra na
caverna de uma sibylla. Porque  que os teus vinte annos, as frmas
arrebatadoras do teu flexuoso corpo de sylphide, que verga pela dr,
mais languido e gentil do que a palmeira solitaria embalada nas bafagens
mornas vindas da amplido remota do deserto, como  que toda esta
adolescencia, que te cinge como aurola de encanto e attractivos, me faz
ter medo de ti, me prende a voz temerosa e balbuciante, que ousa s
vezes perguntar-te:

D'onde vieste? Em que scismas? Que vo te acena e est chamando de
longe? Porque te escondes dos olhos que choram de vr-te assim desolada,
na consternao de uma angustia intraduzivel por palavras humanas?
Porque no fallas, e nos contas o que soffres? Porque te deixas ficar
horas esquecidas com a mo firmada ao rosto, suspensa n'uma contemplao
divina, irradiante, de um modo, que ninguem ousa dizer se s da terra,
se s a incarnao de alguma essencia archangelica que anda errante no
mundo a sanctificar o amor no soffrimento?


II

s vezes o teu semblante, onde se pde lr um enigma que se no
destrina, tem a lividez de cera, e a claridade que parece conter em si
o jaspe. Ento julgo vr-te uma santa, sob o aspecto de penitente que
acha em cada successo da vida uma tentao occulta nas apparencias mais
risonhas, no folguedo mais descuidado e innocente, do mesmo modo que
o spide se esconde no alegrete das mais perfumadas flres ou o somno
lethal na sombra da mancinella verdejante e copada, aberta ao sol, como
uma escrava sustentando a umbella com que abriga do rigor das calmas a
voluptuosa odalisca.

Os vinte annos so a alegria, a innocencia, a expanso; ainda no
viveste bastante para provar o travo amargo da vida, no sabes conhecer
a tormenta que ha de vir pela nuvem que negreja, nem a bonana pelo
santelmo, nem os parceis pelo refluxo da vaga marulhosa, nem o porto
pelo perfume embalsamado da terra. Tu passas na vida como um meteoro
fulgurante que no procura aonde ir car, como uma creatura somnambula
que no vacilla, no hesita diante do abysmo que transpe, nem deixa
possuir-se da attraco irresistivel porque a desconhece. A vida  assim
para ti; passas despreoccupada do mundo, levada na ondulao saudosa
d'essas vozes interiores que te segredam mysterios indefiniveis que
fazem sentir o desejo de voar para o alto, at perder-se no azul.

Os teus cabellos, quando os deixas cair destranados sobre os hombros de
marfim, agitados pela brisa vespertina que vem confidenciar comtigo 
janella, que olha para o occidente, esses cabellos louros, extensos, so
como as cordas de uma harpa, em que as imagens incoerciveis de teus
pensamentos vm fallar do co, do amor, no frmito ligeiro, quasi
imperceptivel das vibraes que s tu comprehendes.

Consternada e muda como uma estatua, a Niobe grega, o teu silencio
incute uma sublimidade prophetica; parece guardar a impresso do slo
mais tremendo do Apocalypse,--a misso da mulher forte.


III

Quem sabe se  o amor que a transporta assim para as solides, como a
pomba que vae esconder-se na rocha alcantilada? O amor que esmalta a
vida de harmonias e encantos, que acorda as viraes para levarem longe
o pollen fecundante, que abre o calyce das flores para as abelhas
tocarem os nectarios deliciosos, que une o gemido do regato trepido com
o ruido, brando que adormece, do canavial que orna as margens sinuosas?
O amor  um amplexo, a identificao; como poderia divorcial-a com a
vida, mudar a sua alegria em uma tristeza que  como o presentimento do
sepulchro? Aquelle segredo incommunicavel opprime, aterra como a sphinge
propondo o enigma.

Ella cada vez andava mais desfallecida, pendia de cansao, offegava; mas
procurava illudir os disvelos da familia com um vigor que no tinha,
como succede ao naufrago quasi a afferrar a terra, de que a ressaca da
onda o afasta, e que hesita se deve luctar mais tempo, se deixar-se
engulir nas voragens do oceano. Gravitaria ella em volta de um mundo em
que procurasse absorver-se, e a vida da terra, de c, fosse como o
refluxo que a impellia para longe? Pobre flr, que se debrua nas bordas
da sepultura, ser uma illuso quanto a sua alma ingenua sente? Sero
uma mentira todas as harmonias que se modulam l dentro? O tapiz verde
da relva fresca, lubrica, que a chama para vir doidejar ali n'um volteio
ferico, febril, esconder-lhe-ha o lodo de um charco estagnado que a ha
de engulir para sempre?

Tenho medo de vl-a assim, com os olhos fitos no horisonte, n'essa
morbidez do extasis; a vertigem pde sacudil-a, e precipitar-se, como a
borboleta prateada e indiscreta. A sua alma eleva-se para o co; porque
va to cedo para cima a nevoa da madrugada, de uma alvura nitente? A
andorinha quando parte, va na aza da rajada hybernal que a arrebata.

Mas o mundo acariciou-a sempre; porque se esconde pois e foge d'elle?
Ser a reminiscencia viva do foco de luz d'onde saiu, que lhe inspira
tamanha anciedade, e lhe abre n'alma uma saudade vivissima, que mata? s
vezes est tranquilla, immovel, como quem escuta a toada de um concerto
mavioso que embala e com que se adormece. Oh, quem ousar despertal-a?
Seria perturbar a crystalisao de uma gota de orvalho que se transforma
em perola. Outras vezes tem o olhar pavido, firme, de quem contempla e
pasma ante uma viso immensa e augusta. Que appario risonha vir
fallar-lhe? Eros, na solido remota da noite? Ser o desejo de vl-o, o
desalento do impossivel, que a fazem reconcentrar assim n'essa dr?
Uma lagrima era a gota do oleo aromatico da alampada escondida; em vez
de fazel-o desapparecer, envolto na nuvem branca e etherea, a lagrima
trazel-o-hia como um grande astro que attrae aps si myriades de planetas.


IV

A tarde declinava amena, festiva, com o ultimo lampejo de graa que
deixa presentir j a melancholia do outomno. Emma ergueu-se da mesa; o
rosto estava deslumbrante de transfigurao, possuida do sentimento do
infinito, que lhe dava uma expresso sobrehumana, excelsa, que se no
podia fitar, similhante  _Seraphita_ enlevada nas illuminaes
swedenborgianas, ao transpr os precipicios icarios, inaccessiveis dos
_fiords_ da Norwega.

N'aquella tarde parecia oppressa por uma angustia mais intima. Segui-a,
queria admiral-a na altura a que se remontava, queria que me fizesse
herdeiro do seu manto prophetico, no instante em que se librasse no
carro de fogo, como Elias. E ella era bem a prophetisa do deserto.
Approximei-me. Estava serena e placida, como quem mergulhra no oceano
da contemplao. De mais perto vi que dormia, com um somno hypnotico.
Ficra-lhe um sorriso estampado nos labios; parecia o involucro de uma
chrysalida mysteriosa; a borboleta vora para a luz, abandonra-o na
terra.

Conservava ento um livro sobre o regao; a mo inerte repousava sobre a
pagina. Um leve signal notava uma phrase profunda em que a alma se lhe
absorvra: _Um anjo est presente a um outro, quando elle o deseja_.

Procurei vr de quem era o livro. Era escripto por Swedenborg, o
patriarcha dos theosophos do norte, o que levou mais longe as relaes
com o mundo invisivel. O livro intitulava-se: _A sabedoria angelica da
omnipotencia, omnisciencia, omniprezensa dos que gosam a eternidade, a
immensidade de Deos._

Emma acordou de subito. Senti um estremecimento de terror, comeava a
comprehender a sua solido. Eu mesmo tinha estudado a _segunda vista_,
colligido alguns phenomenos de suggesto que se passavam no meu
espirito, conseguira por uma excitao nervosa perenne a hypnotisao
voluntaria.


V

Tambem no livro _De varietate rerum_ descreve Jeronymo Cardan a
faculdade que tinha de experimentar o extasis espontaneo, e de tornar
objectivas as imagens creadas na sua mente: Quando eu _quero_, vejo o
que me apraz, e isto no s com o espirito, mas com os olhos, com
essas imagens que eu via na minha infancia. Mas agora creio que ellas
so o resultado de minhas occupaes.  certo que nem sempre posso esta
faculdade, comtudo no a tenho seno quando quero. As imagens que eu
vejo esto sempre em movimento;  assim que vejo as florestas, os
animaes, os diversos paizes e tudo quanto eu quero vr. Creio que a
causa de todos estes effeitos est na actividade da minha imaginao e
n'uma vista penetrantissima. Desde a minha infancia tinha de commum com
Tiberio Cesar o poder vr na obscuridade mais profunda, como em pleno
dia. Porm no conservei muito tempo esta faculdade. Apesar d'isso vejo
ainda alguma coisa, postoque no posso distinguir bem o que vejo; e
attribuo este effeito ao calor do cerebro,  subtileza dos espiritos
vitaes,  substancia do olho, e  energia da imaginao. (Lib. IV c. 43.)

 esta uma qualidade vulgarissima nos povos do norte, principalmente os
insulares, conhecida sob a denominao de _Second sight_. Ahi a
imaginao tendo pouca variedade de paizagem que a fecunde, volta sobre
si o que ha edificado e exagera-lhe as propores. Por isso as
theogonias do norte so terriveis. As avalanches suspensas a
precipitarem-se, os nevoeiros diffundidos por toda a parte como um
sudario immenso e frio, a aurora dos polos a desdobrar-se esplendida,
tudo faz sonhar de um mundo phantastico, escutar essas toadas vagas,
indefiniveis dos espiritos que se annunciam pelo ressoar de uma harpa
longinqua. O dom da viso  commum;  assim na ilha de Ferro. Que
virgens se no ostentam n'uma appario repentina, e que o vidente
procura, sem nunca mais poder encontral-as! Balzac, o observador sem
egual do corao, sentiu toda a poesia do norte no poema de _Seraphita_;
 um mysterio, o enlace da philosophia e da poesia, um extasis
indecifravel de Swedenborg, contemplado nas _fiords_ da Norwega. O
delirio de _Seraphita_  o problema incessante da percepo immediata; o
seu amor  mais puro que o ideal de Dyotima,  elle que lhe d a
_segunda vista_.

_Taishatrim_ e _Phissichin_ so os nomes que em lingua galica se do
aos que tem esta faculdade. Os factos observados so innumeros, o seu
estudo  dos nossos dias. Kant combateu a doutrina visionaria de
Swedenborg, mas no attendeu que este phenomeno physico era todo
sentimental; viu no patriarcha dos videntes do norte um impostor. A vida
exemplarissima de Swedenborg  um desmentido completo e irretorquivel
aos argumentos d'esta ordem.

Como explicar a inspirao continua, a _segunda vista_? A alma paira
entre dois mundos--o physico com que se relaciona pelos sentimentos, o
psychico com que se relaciona pelos presentimentos; se  attrahida para
o mundo dos corpos, predominam n'ella os instinctos, e as sensaes,
todas relativas, s lhe advm pela presena dos objectos; se a alma por
um desejo vehemente se eleva do estado de _anima_ ao de _spiritus_, os
sentimentos desprendem-se do nexo das relaes terrestres, e
conhecem tudo independente das sensaes pela representao subjectiva.
 o que acontece aos poetas, cantando a belleza de frmas no sonhadas,
a reminiscencia de harmonias no ouvidas.


VI

Emma estava n'aquella tarde to affavel! tinha por certo a consciencia
de ir em breve completar-se na essencia de algum anjo. As suas fallas
eram como suspiros. Lanou-me um olhar interrogativo, de quem temia
fazer-me uma pergunta indiscreta. Eu desconhecia-lhe aquella
affabilidade de seraphim, costumado a vl-a sempre aria, desdenhosa do
mundo, radiante como na transfigurao do Thabor. Apertei as mos d'ella
entre as minhas, queria tirar um som d'este instrumento celeste, cujo
segredo de harmonia era s percebido pelos anjos. Se podesse desferil-o,
havia de perguntar-lhe o motivo de tanta tristeza, a intensidade d'essa
dr to intima, to espiritual, que se no pde exprimir na
materialidade phonica da palavra. Ella adivinhou o meu desejo:

--Tens uma _vontade_ energica?--perguntou-me quasi a medo e de um modo
sybillino. Seria uma phrase abrupta para qualquer, e inintelligivel at;
eu porm que devo  actividade s d'esta faculdade tudo quanto sou,
as grandes dres, os impulsos irresistiveis, as glorias sonhadas, a
realisao dos mais exiguos appetites, que a encontro na intensidade
absoluta do _Fiat_, que  Deus, que a vejo nos grandes factos do
espirito, a Religio, o Direito e a Arte: na religio manifestando-se
emotivamente na f; no direito, no accordo dos contractos individuaes;
na arte, no ponto onde os gostos diversissimos se harmonisam, isto  o
bello; eu, repito, comprehendi aquella interrogao na sua plenitude. E
comeava a conhecer mais o poder da _vontade_ porque acabava de observar
o resultado do acto em que a exercera.

Emma fitou-me com um olhar profundo; o semblante era magestoso e santo,
como o frontispicio de uma cathedral da Edade mdia; as flexas, as
linhas architectonicas a infinitivarem-se para o alto, eram os seus
cabellos; o olhar, o olhar que me opprimia n'esse instante, era
mysterioso como uma ogiva sombria. Tive o medo do neophyto, quando ouve
mugir a caverna, e escoar-se a brisa gelida e olorante pela fenda do
penhasco, e quasi que se esvae em terra sem sentidos, ao vr attonito as
convulses do hierophante. Emma perguntou-me se eu cria nas relaes com
o mundo invisivel. Hesitei um instante, depois volvi:

--Creio, mas no as sei demonstrar por uma frmula, que, embora
refutavel, tenha valor philosophico.--Ella ouviu-me com o pezar e
serenidade de uma joven esposa na sua viuvez, que ouve o filhinho a
perguntar-lhe pelo pae. Depois murmurou, encostando a face sobre o meu
peito:

--s to novo ainda, e porque matas em ti j o sentimento pela reflexo?
A reflexo  fria,  terrena, no comprehende sem decompr para
recompr. Como se ha de ella elevar ao simples, ao absoluto, que tem por
attributo supremo a indivisibilidade? A luz, que  incoercivel, no se
espelha na face quieta do lago? O sentimento  assim; s elle te pde
levar alm das relaes e das contingencias. A substancia  unica; esta
essencia d'ella  que prende pela unidade a multiplicidade dos
attributos. Todas as vezes que te absorveres na unidade que te allia
como attributo ou modo  substancia, entraste na essencia de todas as
cousas, porque o simples que actua n'esse momento em ti,  o mesmo em
que tudo existe. Vibra em ti a harmonia universal.

E continuou com palavras quasi imperceptiveis. Estava em extasis, no
extasis da abstraco, como o sentia Newton quando determinava a
essencia de uma ordem de factos complexos, na lei que havia ficar
eterna, e a que havia imprimir o seu nome. Tive vontade de lanar-me por
terra, diante d'aquelle espirito incomprehensivel; precipitava-me se
ella me dissesse como satanaz, quando arrebatou Jesus ao pinaculo do
templo:--_Haec omnia tibi dabo, si cadens adoraveris me._


VII

Quando Emma saiu da sua mudez sublime, recostou-se sobre o meu hombro
com uma graa infantil:

--Ainda no sabes porque ando triste? Olha, uma tarde, puz-me a escutar
o murmurio de um regato; parecia-me ser uma musica interior. Tive
vontade de saber o que dizia, de confidenciar com elle, de communicar
minha alma, que aspirava n'uma sde de amor. Ao trepidar mavioso da va
crystallina, scismava, devaneiava, enleiada, embevecida. Adormeci.
Pareceu-me ento aquelle cicio, como de azas de um cherubim que baixasse
a meu lado; via a claridade de alvura de suas roupagens longas, estava
silencioso ao p de mim. Mostrava a expresso da serenidade augusta, uma
apparencia que consolava. Acordei, e o mundo affigurou-se-me um
desterro, a vida um carcere, tinha uma impaciencia de voar, de fugir, o
desejo irrepresivel de tornar a vr o semblante risonho d'aquelle que me
veiu mostrar o mundo intransitavel para a vida, como saral espinhoso.
De outra vez appareceu-me, brilhante como Iahveh na sara ardente. Era
sempre silencioso. O amor emmudecia-me diante d'elle, quiz seguil-o na
viso que se esvaecia lentamente, mas o corpo estava preso aos limos
terrenos, como o cordeiro que se prende nas urzes do matagal. A ancia do
extremo esforo despertou-me. Foi assim que nasceu essa melancholia
profunda, concebida diante do impossivel. Mais tarde conheci o mysterio
da _vontade_; isolei-a em mim, para revocar o ente dos meus sonhos 
realidade de um instante. Quasi que me abrasava na intensidade do
querer. Elle appareceu-me mais triste. Perguntei-lhe se amava?
Sorriu-se. Que era preciso para completarmos uma mesma essencia? o
sorriso converteu-se em uma alegria doida, e disse-me vagamente--va da
terra. Nunca mais tornou a visitar-me no desolamento em que vivo. A vida
assim  o vegetar do lichen na humidade das lagrimas derramadas de hora
em hora. Porque no hei de voar da terra?


VIII

Ouviu-se trindades n'esse instante; cerrava-se a noite, frigida; o luar
vinha saudoso. Emma pediu-me para deixal-a s. Por alta noite via-se a
luz derramar-se pela vidraa do seu quarto, luz viva, silenciosa, como
da alampada do philosopho hermetico surprehendendo a natureza em algum
dos seus segredos mais reconditos.

Emma lia no livro predilecto, que eu deparra aberto sobre o regao.
Pouco depois comeou a alvorada. Quando o silencio era mais solemne e a
natureza inteira parecia reconcentrar-se em santos mysterios, sentiu-se
em casa um estrondo surdo, como o baque de um corpo morto, depois o
bracejar, de quem se debatia nas vascas do paroxismo. Ergueram-se 
pressa, foram apoz o ecco. Era no quarto de Emma. Seria algum pezadello
longo? A porta cedeu  promptido do soccorro. Foram encontral-a em
terra, morta, a pouca distancia do fogo, que saturava o ar ambiente de
exhalaes carbonicas. O corpo j estava frio; o rosto tinha a pallidez
do marmore. A pouca distancia d'ella estava aberto o livro fatal das
exaltaes mysticas de Swedenborg.

Lia-se esta phrase profunda:

A innocencia dos cos produz uma tal impresso na alma, que os que so
affectados d'ella guardam um transporte que lhes dura toda a vida, como
eu mesmo experimentei. Basta talvez ter uma minima percepo para ser
para sempre _mudado_, para querer ir aos cos e entrar assim na esphera
da Esperana.

Seguiam-se outras palavras. Tive medo de lr mais, porque comeava
tambem a sentir a seduco da melancholia e reconcentrao subjectiva,
que leva ao suicidio.




O vo


Tive apenas um amigo na infancia.

Sinto abrir este conto com a minha personalidade; e, sem pretenes a
_humorismo_, nem a estylo digressivo, conheo que a pessoa de um auctor
inculcando-se na sua obra produz o effeito desagradavel, que o senso
esthetico original de Joo Paulo nota no quadro em que o pintor agrupasse
tambem a palheta, o cavallete e os pinceis. O valor da personalidade pouco
; os antigos comprehenderam-n'a perfeitamente, quando deram o nome de
_persona_  mascara que o actor trazia para reforar a voz. A personalidade
que se toca, serve para o trato da rua; a individualidade, o caracter,
revelado na vontade, so immanentes no livro, so o livro. Antes porm de
fechar o parenthesis ahi vo algumas linhas sobre a pessoa do meu unico e
primeiro amigo, um _alter ego_, ou _fidus Achates_, como diriam dois
estudantes de selecta. No nos dmos de repente. Tinhamos o mesmo nome de
baptismo, faziamos annos no mesmo dia, comemos a versejar ao mesmo tempo;
a affinidade electiva entre ns no provinha d'estas coincidencias, nunca
reparmos n'ellas; era uma amizade de terror, respeitavamo-nos. Na eschola
fmos sempre antagonistas; quando passmos a estudar latim, ficmos
surprehendidos ao vermo-nos algemados ao _hora_, _hor_. Ainda os mesmos
desforos, o mesmo orgulho. Ento j nos consultavamos sobre alguma duvida
de syntaxe, como de potencia a potencia. Mais tarde encontrmo-nos sobre o
mesmo banco a ouvir as preleces estupidas de logica, a logica que nos
havia de tornar mos, capciosos, ergotistas. J no nos temiamos, eramos
amigos, tinhamos necessidade um do outro. Depois vieram as confidencias
estreitar mais esta affeio. Foi elle o primeiro a fazel-as. No sei se
era amor, compaixo ou cynismo a primeira aventura que me contou. Era
assim:

Eu tive uma prima, no sei em que gro, culpa das subtilezas canonicas.
A pobre criana possuia uma morbidez voluptuosa no olhar, no os tirava
de mim. A cr morena dizia to bem com as linhas nitidas da physionomia
arabe, que ella sabia animar com um r doloroso de uma melancholia
expressiva, que se lhe reflectia na face! Eu ficara orpho de me e
costumara-me a brincar ssinho; ella procurava-me na minha soldo,
sentava-se junto de mim; o seu olhar incommodava-me. Mas tinha medo
de fugir-lhe, doa-me esta indifferena e para disfaral-a trepava acima
das arvores carregadas de fructos do pomar onde passavamos o vero, e de
l deixava cahir aquelles que mais se douravam com os raios do sol de
agosto, os que me expunham a maiores perigos. Ella aparava-os no regao
com a affabilidade com que se queria associar aos meus folguedos.

Afinal teve vergonha de mim; crava, escondia a face entre as mos,
ficava pensativa e depois fugia-me. N'este tempo contava eu algumas
lies de desenho; os meus arabescos tinham uma frescura de innocencia,
uma rudeza que parecia uma creao pura arte medieval. Eu tinha a
monomania de esboar cabeas. No sei quem na familia, me pediu que
fizesse o retrato d'ella. Fil-o. O caso deu-lhe uns longes de
similhana, tive vergonha da verdade; quando ella me agradeceu com um
sorriso timido, eu rasgava o papel com a crueldade de uma criana que
brinca. No a tornei a ver n'aquelle dia, escondera-se a chorar. No
tinha culpa d'esta frieza brutal; a falta de carinhos perdidos logo no
bero, a verdade d'esse verso eterno de Virgilio:

    _Est mihi pater domi et injusta noverca_

tornaram-me taciturno, incredulo antes de tempo. s vezes obrigavam-me a
brincar com ella. Uma vez fmos todos banhar-nos no Atlantico. A pobre
criana tambem foi. As mars eram gigantescas; era dia para mim de
um orgulho immenso, gostava que me vissem nadar; mostrava uma
superioridade minha. O acaso seguia-me o desejo. Uma onda envolveu no
seu marulho a infeliz Branca; no refluxo levou-a comsigo. Desfalleceu de
susto e foi levada pela vaga, como Ophelia na corrente. Quem sabe se
ella no seu corao tecia alguma cora para mim.

Abracei-a pela primeira vez, impellido por uma fora interior;
sustive-a nos braos, estava fria, pallida. Quando abriu os olhos teve
vergonha de mim; era j o pudor de senhora. Trouxe-a sem custo para a
praia, e continuei em carreiras no dorso da vaga, que se encapellava.
Fra o meu primeiro passo para homem.

N'esse mesmo dia brincmos, jogando o _anel_, um divertimento infantil,
de que ainda guardo saudades. N'este folguedo de crianas o que tem o
anel  sentenciado pelos demais a levar beijos e abraos, ou a dal-os,
segundo o capricho. Tinha o anel a filha do feitor que brincava
comnosco, Annita, uma rapariga de uma candura estreme. Branca pediu-lhe
em segredo que ao percorrer a roda deixasse cair o anel entre as minhas
mos. Assim se deu. Um perguntava o que promettiam a quem tivesse o
anel. Cada qual se lembrou de uma prenda innocente e insignificativa;
Branca prometteu um beijo e um abrao muito apertado.

Eu no devia contar-te mais, porque me sinto infame! Este beijo
perdeu-a para sempre, como o beijo de Paulo e Francesca di Rimini.
Branca foi crescendo, tornou-se formosa  luz de uma esperana
fugitiva, como a flr de um vaso, quando recebe, ao estiolar-se, o calor
ephemero do ultimo raio do sol da tarde. Quando ella me sorriu com
amargura, e crou de sua queda, sorri tambem por compaixo, illudi-a.
Que fazer, se eu era to novo, inconsciente, e queria divertir-me, gosar
o mundo?

Uma vez tinha eu voltado pela ante-manh de uma festa louca. Dormia a
somno solto, prostrado pela fadiga, esgotado da orgia desenfreada. Senti
uma mo fria passar-me de leve nas faces, acordei.

Era ella! Appareceu desmaiada, como a vi uma vez ao luar silencioso,
com uma cr que lhe realava a candidez, e disse-me:

--Vim vr-te na despedida do tumulo. Desde que adoeci nunca mais me
appareceste. O esquecimento  frio e pesado como a lagem sepulchral. Eu
no queria dizer-te isto, no quero magoar-te; perda. Olha, hoje
acordei de um sonho to lindo! deu-me foras para levantar-me do leito e
vestir-me de branco para vir contal-o a ti s. Como no choraria minha
me que me vela se o soubesse! No sei se velava, se dormia; minha alma
parecia voar, suspensa n'uma como cadencia, vaga, quasi imperceptivel,
confundia-se com ella at perder-se no co. Acordei de subito;
restava-me s a illuso. Olhei em roda; a alampadasinha tornava a
solido pungente, augusta; pavoroso o silencio do meu quarto.
Comecei a lembrar-me de ti, dos passados tempos; estava j na terra.
Foi quando descobri a meu lado uma apparencia angelical, a falar-me de
mansinho uma linguagem que eu mal entendia: que o Senhor o enviara para
chamar-me. Eu no pude voar, voar com elle, e sinto agora que a alma me
foge; venho dizer-te adeus.

--E o que lhe respondeste?

--Elle continuou:

Disse-lhe que os sonhos mentiam sempre, que elles a matavam.--No so
os sonhos que me matam, gemeu a desgraada,  a realidade, a realidade.
Bem o sabes, e esse que tudo v. As recordaes so para mim como um
remorso. Que noites, que vigilias inteiras a pensar em ti! cada palavra
tua, que eu decorava, era um poema de amor e esperana; ao repetil-as na
mente diziam-me quanto a alma anceava, e mais ainda, mas enganaram-me
sempre. Lembras-te d'aquella noite? Oh! meu Deus, meu Deus. No sabes
quanto me fizeste soffrer! No conheceste a profundidade do golpe quando
o descarregaste! Disseste-me essas palavras s para perder-me. 
impossivel que isto te no da? Quando me appareceste n'aquella noite
era o luar to sereno, tudo confidenciava comnosco. Estava adormecida
quando chegaste. Depois de me estreitares nos braos e beijares as faces
geladas pelo rociar da noite, porque sorriste de um modo
incomprehensivel? Descobriste-me que no casavas commigo, que outro
havia polluido a minha candura! Era uma blasphemia brutal. Deixei-me
cair em teus braos, sacrificando-te a virgindade para que a
reconhecesses. Desde essa noite no me tornaste mais a amar. Illudi-te?
Porque assim me fugiste? Uma lagrima s rehabilitava-te diante de Deus.
 tarde, muito tarde. Vim s para despedir-me e perdoar-te. Adeus.

--E tu que lhe respondeste?

Voltei-me sobre o outro lado, e continuei a dormir.

--Prosegue.

Foi um pezadello atroz aquelle somno. Julgava-me em uma orgia immensa,
na hora ominosa do sabbat nocturno. Um bando de mulheres volteava
reunido em uma cora desenvolta, n'um tripudio infernal, ao redor de um
carvalho lascado pelos raios que se cruzavam a espaos na solido e
escuridade absoluta da noite. Danavam como possuidas do mesmo furor que
inspirava a corneta de Oberon. Quando eu ia mais arrebatado pelos
requebros voluptuosos, enlaado a um par ligeiro e flexivel, senti um
leve suspiro a meu lado, que se perdeu nos res. Era como o segredo de
uma magoa que eu bem conhecia. Parei. Adormecera a ler uma ballada dos
peregrinos do Rheno contada por Bulwer. Junto a mim descobri uma figura
de mulher linda, etherea; o semblante tinha a serenidade de uma grande
agonia que cauterisa, uma tristeza mais vaga do que a impresso de
saudade que a lua desperta quando se reflecte n'uma lagoa quita. Era
como um seraphim quando chora. No pude olhal-a; a candura do seu
antigo amor exprobrava-me o cynismo. A virao que ciciava no repetiria
to brandamente o que ella disse:

--No sabes como te amo ainda alm da campa! o gelo do sepulchro no
pde apagar o fogo em que os teus olhos me abrazaram. Esqueci o teu
desprezo para perdoar-te. Para que havia ter mais esse flagicio na
eternidade? Que destino, que felicidade a nossa, que regosijo no co, se
no houvesses ludibriado este amor! Nossas almas absorver-se-hiam na
essencia de um anjo, enlevadas n'um sonho de harmonia, at despertarmos
no empyreo. Assim precipitaste-me na manso das penas e soffrimentos,
onde o meu espirito se apura. O amor terreno tenho-o expiado no fogo.
Vs este cendal de alvura transparente? estava quasi a tornar-se
brilhante de gloria! Pedi a Deus este momento to breve para poder agora
ver-te; o goso fugitivo de contemplar-te, a esperana de te achar
triste, scismando em mim com pezar e saudade, a troco de mais cem annos
de novos soffrimentos! Cem annos mais, depois de te encontrar nos braos
de outras descuidado, rindo desvairado n'uma orgia dissoluta. Oh, mas eu
no sei seno perdoar-lhe.--E desappareceu-me, continuou elle, como um
meteoro fugaz, quando passa nos cos, e deixa aps si um rasto luminoso.
Acordei.

Em casa ouviam-se gritos, alaridos, como de um successo repentino e
funesto. Fui a vr. Disseram-me que Branca desapparecra. Cheguei a
convencer-me da realidade do sonho, que um anjo a levra comsigo.
Perguntei debalde. Passou-me pela mente um presentimento horrivel.
Branca costumava ir sentar-se sobre uma rocha que se debrua sobre o
mar, e em cujas furnas as vagas restrugem com um stridor surdo, como o
anceio do ultimo esforo n'uma lucta desegual. Protegida pelo nevoeiro
da madrugada, mais veloz que a ondina da mythologia slava, a pobre fra
saciar os pulmes ralados da febre lenta que a devorava. Houve quem a
visse dependurada na aresta dos fraguedos, o vo branco que levava
fluctuar ao vento, como n'um adeus de despedida. Ella sentira n'esse
instante a attraco do abysmo, lembrou-se d'aquella tarde de agosto, em
que eu a salvara, trazendo-a com um abrao  vida; quiz morrer com a
recordao mais doce que levava do mundo. Precipitou-se. E o mar
murmurava sereno e manso, como a embalar-lhe o seu ultimo somno.

Comecei ento a sentir uma paixo por ella, depois de morta; se a terra
a tivesse escondido, eu a iria arrancar ao repouso sagrado da sepultura,
beijal-a, animal-a com o fogo do meu delirio, despedaal-a n'estes
braos convulsos, e cair tambem inanime. Queria sentir bem junto do
peito o contacto glido de um corpo que eu tantas vezes apertei, das
faces que eu devorava, quando ella se dava aos caprichos da minha
vertigem. Havia n'este amor um pensamento de halucinado, um tanto de
selvagem, de monstruoso; impellia-me uma inquietao continua, sentia em
mim um como ranger de puas do remorso, a voz que interroga Caim. Fugia,
no queria consolaes. Eu ia sentar-me tambem na rocha escarpada, a vr
o mar, procurando a serenidade que me inspirava a contemplao do
sepulchro da minha amada. Vinha visital-o,  busca d'esse allivio de que
fala o poeta do Oriente.

Eram decorridos j tres dias, no se vira mais o corpo de Branca; o mar
queria-o para si, mas eu tinha uma vontade fervente, absoluta, o
desespero de tornal-a a vr linda, roxa, na, desfigurada. Era o mais
que podia soffrer. Ia a mar na vasante, no fim da tarde, as ondas
gemiam brandamente no areal deserto, as viraes da noite sopravam
frias, humidas das bandas do poente. Quando desci da rocha escarpada,
encontrei inesperadamente o corpo de Branca estendido na area. Era uma
criana descuidada, adormecida; a onda que a tinha despido para
namorar-lhe a alvura do corpo, viera deposital-a na praia. Ia a
precipitar-me para ella, unil-a a mim no frenesim d'essa loucura. Tive
medo! recuei sem encaral-a. Temi profanal-a com a vista; estava quasi
na, de costas, com os olhos no co, como pedindo  noite que viesse
recatal-a no seu manto de trvas. Quando tornei junto d'ella com o
lenol para a envolver, senti uma ancia de passamento, a lucidez de quem
entrev a eternidade: conheci que o cadaver de Branca se voltara
de bruos, furtando  vista profanadora o verticello pudibundo da flor
que eu fizera pender sobre o caule e cahir emmurchecida. O inexplicavel
deixou-me um terror que ainda me dura...

No tive animo para lhe pedir que continuasse.




A estrella d'alva

(CONTO MARITIMO DO SECULO XVI)


    N'isto andava tudo, que se no poderiam pr os olhos em parte onde
    se no vissem rostos cobertos de tristes lagrimas, e de uma
    amarelido, e trespassamento de manifesta dr, e sobejo receio que a
    chegada da morte causava, ouvindo-se tambem de quando em algumas
    palavras lastimosas, signal certo da lembrana, que ainda n'aquelle
    derradeiro ponto no faltava dos orphos e pequenos filhos, das
    amadas e pobres mulheres, dos velhos e saudosos paes que c
    deixavam, etc.

                                 _Hist. tragico-maritima_, t. I, p. 55.

O sol esmaltava as cres limpidas do horisonte com uns cambiantes de
purpura e de azul, cujo cariz incompleto e vago reflecte a melancolia
suave em que a alma se concentra n'essa hora fugitiva da tarde. O
horisonte fechava-se lentamente, como o vo de um templo que se cerra.
As viraes travssas da noite volitavam encrespando a face trmula das
aguas, que lhes respondiam s caricias inquietas, confidenciando com um
murmurio sonoroso e confuso. O galeo soberbo da India singrava
ufano, buscando em pra a terra querida da patria; levado nas azas das
mones propicias, a vela branca desfraldada aos ventos, tinha o garbo
da gara altaneira que se libra vaidosa por sobre as ondas, que ella vae
roando de leve. A flamula ondulante, hasteada no tope do mastro de
mezena, serpeava nos res como em adeus silencioso s ribas odoriferas
do Oriente, a despedida ao paiz dos sonhos e das maravilhas. A natureza
como que se absorvera nos encantos d'esta hora; havia um segredo intimo
em cada toada perdida d'este concerto do declinar do dia.

Longo tempo um mancebo encostado  amurada do navio, com os olhos fitos
na corrente das vagas, permanecra absorto n'um scismar incessante, como
quem atava na mente as apparencias de um sonho mentido, como quem
procurava alentar a ultima esperana que prende  vida, e que  como a
hera das ruinas. Conhecia-se-lhe na respirao comprimida no peito, que
offegava de cansao, o esforo acintoso com que procurava afastar da
lembrana um sentimento funesto.

A pallidez retincta nas faces cavadas pelas insomnias longas e
afflictivas, era a expresso dos pensamentos tenebrosos, confusos,
incoherentes, que vinham povoar-lhe a anciedade das vigilias. Quem o
visse sentiria uma dr egual quella, uma vontade irresistivel de
entornar-lhe em sua alma o balsamo das consolaes, com a prodigalidade
do affecto com que a moa desenvolta de Magdala vinha derramar aos ps
do divino Mestre os perfumes inebriantes da sua urna de alabastro.

Quem o visse na mudez expressiva d'aquelle desalento, no desamparo e
soledade de todas as alegrias da vida, sentia-se levado para elle, como
por um condo fascinador, que s vezes possuem certos olhares que
ninguem pde fitar e de que se tem medo. A brisa fresca da noite, que
soprava do poente, como trazendo-lhe o presagio do ocaso de suas
esperanas, vinha volatilisar a lagrima timida e ingenua que tremeluzia
viva na pupilla scintilante.

A este tempo appareceu sobre o convs do galeo alteroso um outro vulto,
todo armado contra a rajada asperrima da noite, que se ia cerrando:

--Ainda aqui, Ferno Ximenez? embebido n'esse longo scismar em que o
passado se te affigura doloroso e feio? Para que foges de teu irmo? Bem
vs que eu procuro distrair-te d'essa agonia lenta que te vae minando a
essencia debil da vida, d'esse espasmo da atonia que produz em ti a
mudez do sepulchro. O que tens tu em uma vida de criana, innocente,
sempre desprevenida, para que o occultes a teu irmo, ao amigo que
soffre com o teu soffrimento, e que exulta com as tuas alegrias? Uma
ave, quando  levada para um paiz distante, longe do ninho que lhe ouviu
balbuciar os primeiros trillos de amor, quando lhe falta a bafagem
tepida das auras em que se espanejava contente, desfallece  mingua,
prisioneira, ralada pela saudade pungitiva que lhe amofina o sr. Tu,
pelo contrario,  medida que os aromas quasi imperceptiveis da terra
abenoada da patria nos vm dar fora para affrontar as tormentas
escuras, as cerraes e os cabos perigosos, perdes o animo ante uma dr
imaginaria, e deixas-te apossar de uma ancia, que um instante s de
reflexo tranquilisaria. Vamos, serena o teu espirito; seja-te o meu
corao o porto almejado onde encontres abrigo. Que receias pois? temes
encontral-a na volta desposada, nos braos de outro? Conta-me a verdade
toda; amas?

--Se com vinte annos apenas haver quem no tenha sentido ainda esse
desvario divino, que acorda de subito em ns todas as potencias da alma,
que rasga brilhante a manh de um eden terreal, dando realidade  vida,
e que a um tempo vibra o estertor e o cicio horrivel dos que se
confrangem no barathro do desespero que elle gera! Eu amo, sim.  um
amor que tem purpureado de risos todas as horas que me absorvo a pensar
n'ella. Para mim  o resumo de todas as bellezas do mundo. Onde a vista
depra uma appario grandiosa, deslumbrante, ahi sinto uma
reminiscencia d'ella; s vezes procuro em vo formar na mente o composto
do semblante engraado, quero tel-a presente pela imaginao  minha
idolatria; mas a phantasia no pde reunir em uma mesma aurola de
encantos tudo quanto ha de mais puro no co e na terra. Eu estou doido.
 o frenesim d'este amor que me enlouquece. Eu no a vejo, nem sei
mesmo j se existe, mas sinto-a como a essencia de um licor suavissimo e
volatil, que inebria a distancia os sentidos. Ella fluctua-me pairando
ante a vista, como um nevoeiro da madrugada que se esvaece nos res ao
romper da claridade, e de que o sol faz realar a alvura esplendente.
Ella nunca me disse que me amava. Quando s em pensamentos a escuto, a
dizer-me segredos intraduziveis, parece-me a bayadera indiana
requebrando-se flascida, com uma morbidez encantadora, a voltear
brandamente s vibraes remotas das gandharvas, instrumentistas do
paraizo. Eu vo na mesma ondulao de harmonia, e sonho um goso
indefinivel, que me exacerba mais as angustias cruciantes, quando
desperto  realidade. Eu no sei mesmo se me ama. Costumado a brincar
desde criana, unindo as nossas oraes infantis em noites de tormenta,
quando seu pae andava sobre as aguas, esta confiana torna impossivel o
mysterio, que alimenta todo o amor.

--Aldona! repetiu desapercebidamente Gaspar Ximenez;--a mesma, a que
me torna aguerrido, audaz para affrontar estas regies nos trminos do
mundo; a que jurou um dia ser minha e me prometteu a mo de esposa, que
eu beijei e apertei tremulo, convulsivo!

Ferno Ximenez comprehendeu estas palavras. Foram como um claro subito,
que lampeja e cega. Os olhos arrasaram-se-lhe de agua, sem as
lagrimas poderem rebentar. Era incrivel o que se passava em sua alma. A
colera, a alegria, a contrariedade das aspiraes mais ardentes da vida,
o desinteresse sublime de um corao generoso debatendo-se tudo
n'aquella alma deserta de esperana! Gaspar Ximenez continuou, como
delirando:

--Amas tambem Aldona? Como ella  meiga e docil!  a rola innocente do
sacrificio. Ella ha de querer a tua felicidade. O que eu disse era uma
loucura. Amo-a como irm apenas; ama-a tambem, mais do que eu, e ser tua.

Ao ouvir estas palavras, proferidas com uma accentuao dolorosa, por
uma abnegao quasi impossivel, Ferno Ximenez no poude represar mais
tempo as lagrimas, que lhe rebentavam ferventes dos olhos. Os soluos
entercortaram-lhe a voz. Elle jurra dar-lhe tambem um dia a maior prova
de dedicao.

A este tempo, ouviu-se um berro do gageiro gritando da gvea:

--Mestre Ferno Mendona, um negrume espesso se alcana no horisonte,
que levamos, pois que a no ser a cerrao do cabo, mais me parece
presagio de tormenta.

O mar comeava j a cavar-se. O piloto mandou logo ferrar o traquete,
cassar a escota  bijarrona, e que o homem de quarto amurasse mais para
sotavento, antes que a borrasca rebentasse de chofre. Instantes depois a
marinhagem tripulava afanosa sobre o convs; a noite estendera pela
amplido dos mares o seu manto glido de sombras, como um sudario de
morte. O vento frigido sibilava na enxarcia; parecia uma serpente
escamosa quando assovia na floresta intrincavel. A orchestra da procella
rompia sonorosa e esplendida, como a retrata Virgilio n'um incomparavel
hemistichio.

--Por San-Thiago, disse Ferno Ximenez, saindo da mudez do espanto em
que o deixra a longanimidade do irmo;--adivinhava-o o diabo do
gageiro, pois j as ondas guidam os castellos de pra, e lambem a ponta
do gorups. Diabo! que se tivesse mando no timo amurava mais para
sota-vento, e talvez que escapassemos  furia da tormenta.

Continuava o ennovellar das vagas como grandes cordilheiras sacudidas
por um vulco subterreo. Instantes depois, o moo descia para o poro, e
as mars gigantes em vagalhes, salvavam o baixel. Soltos,
desencontrados dos quatro pontos, os ventos cem de estouro sobre o galeo.

--Que San-Thiago, o bom apostolo das Hespanhas, seja comnosco, murmurou
o homem do leme, ao apagar-lhe uma mar a luzinha da bitcula. Que o bom
Jesus dos mareantes nos ampare n'esta tribulao, Ave Maria!

A tempestade recrudescia surda  voz do pobre homem de quarto, que no
sabia j o rumo que levava. Pouco depois, as ondas envolveram-n'o no seu
marulho, e o sorveram no pelago insondavel.

Sem governo, o galeo altivo, cruzando-se sobre duas ondas que
rebentaram sobre elle, estremeceu como aluido pelo cavername e costado;
o mastro grande, gemendo sobre si, estalou, e sumiu-se na corrente das
aguas. Por instantes ninguem respirou. S o capito Ferno de Mendona,
conhecendo que o temporal amainara, gritou com intrepidez:

--Salta arriba!

A tempestade amanara consideravelmente; via-se espelhado em todos os
semblantes um sorriso de esperana, illuminado ao claro diaphano do
santelmo, que reluzia no tope dos mastros.

--Salv! salv, oh Corpo Santo!--gritaram todos possuidos de um regosijo
expansivo.

--Podemos agora contar com a bonana,--disse a voz animadora do padre
capello,--que o sacro fogo de Santelmo se nos mostra risonho e
mensageiro de paz. Oxal que sem mais desgraas possamos dizer como o
malaventurado soldado das Indias, o bom Luiz de Cames:

    Vi nos ceus claramente o lume vivo,
    Que a maritima gente tem por santo,
    Em tempo de tormenta e vento esquivo,
    De tempestade escura e triste pranto.

--Mestre Ferno de Mendona!--interrompeu o gageiro,--o galeo tem um
enorme rombo na pra, e d'aqui a meia hora estaremos todos no fundo, se
vos no apraz lanar esta lancha ao mar.--E foi-se cantarolando
aquellas trovas do _Auto da barca do Inferno_, do popular Gil Vicente:

     barca,  barca, boa gente,
    Que que queremos dar a vela;
    Chegar a ella, chegar a ella.

O tom frio com que dissera a ruim nova fazia julgal-o filho da rajada,
como se cria nas incarnaes da mythologia grega. Ouvida a falla do
capito, foram saltando todos para o batel. Pouco depois a no soberba
da India comeara a afundar-se. Ao vl-a sumir-se, o padre capello
lanou-lhe a beno, e proferiu uns versiculos da orao dos mortos. A
mudez tornava mais sublimes estes instantes. Era como na morte de um
heroe, que baqueia ferido no auge da luta. As lagrimas borbotavam dos
olhos dos velhos mareantes ao perderem para sempre aquelle companheiro
das refregas. O batel no podia com a tripulao toda; o mar estava
brazeiro e a cada momento entrava-lhe pela borda.

Assim foram andando  merc das correntes, sem que transluzisse no
horisonte escuro um claro de esperana. O ranger dos remos fazia
lembrar de hora em hora o estertor de uma vehemente agonia. O mar e a
fome infundiam n'alma o tedio da vida.

O mar continuava roleiro. A este tempo uma onda encapellada rebentou
quase de choque sobre o batel. Era preciso alijar para alivial-o. O
capito deitou sortes, para vr os que iriam ao mar. Caiu a sorte sobre
o intrepido gageiro. Pero Gutterrez, um velho marinheiro, atirou-se de
livre vontade. Ferno Ximenez parecia de tal modo embebido na dor funda
que alentava n'alma, que no sabia o que se passava em volta de si. A
sorte fatidica caira tambem sobre o irmo. Despertou da abstraco
dolorosa, ao abrao fraterno extremo. Repentinamente comprehendeu tudo
com a lucidez de que o espirito se apossa nos momentos solemnes da vida.
Deteve-o um instante:

--Uma vez sacrificaste ao meu amor todas as tuas esperanas!  bem que o
reconhea; agora estimo a vida s para dal-a por ti.--E desprendeu-se
dos braos do irmo, com a resoluo do desespero, e arrojou-se  voragem.

Gaspar Ximenez permaneceu attonito, interdito ante o estranho heroismo.
O sol ia j alto, o co tornava-se limpido e sereno, o horisonte
abria-se immenso, como a expanso de um pensamento de alegria. Depois de
haverem remado bastante ainda, descobriram-n'o a distancia seguindo
extenuado o batel. A energia sublime do seu heroismo e dedicao
commovera todos os coraes. Quizeram unanimes recebel-o, estava j sem
foras, quasi immovel. O amor fraternal resplandecera com espanto. Os
membros regelados comearam de novo a sentir vida com a reaco do calor.

O mar ia amansando progressivamente, e antes do cair da noite viram
com pasmo e alegria doida alvejar uma vela. Saudaram-na com a celeuma do
regosijo. Quando passados dias chegaram a beijar a terra de seus paes,
Ferno Ximenez foi professar, cumprir o voto n'um mosteiro, para no
tornar o amor do irmo impossivel.




Lava de um craneo


Quantas risadas se escutam perdidas no r, que s vezes so um punhal
invisivel, brandido por mo diabolica, um veneno propinado a occultas,
que infunde na vida o desalento, o tedio, a indifferena por todos os
grandes sentimentos que nos agitam e nos elevam! O riso  a expresso
mais energica do desespero, quando elle tem um timbre satanico, que
gela, e se repercute na alma como o estampido de uma detonao que
fulmina; ento, mata mais do que a ponta de um estylete penetrante,
embebida no aconito bao, que fere e no deixa vr a cicatriz. Quem no
ha soltado uma vez na vida uma d'essas risadas, que no seja uma
loucura, uma impiedade, uma provocao, uma mentira, talvez um crime? Um
dia ri tambem d'esse modo;  remorso que ainda hoje me punge.

Eu vivia ignorado, obscuro, trabalhando na minha agua-furtada,
alimentado pela febre da aspirao, pelo pensamento de exageradas
vigilias; era a contumacia da desesperao que me dava foras, e me
fazia caminhar incansavel sem saber para onde. Este vacuo da existencia
amputava-me para todas as distraces, via em tudo uma futilidade,
sentia-me mo, com uma vontade de torturar, de contradizer, de estar
sempre em hostilidade com todas as idas que no fossem as minhas. A
dialectica fra para mim uma arma, que ao passo que a manejava com mais
presteza, me tornava mais intolerante. A solido dra-me por um excesso
de vida subjectiva uma susceptibilidade tactil, tornava-me perscrutador,
analysta; pretendia lr em todas as physionomias, deprimil-as ante a
minha consciencia, como um juiz boal, que no pde convencer-se de que
o ro que interroga esteja innocente. Saa para as ruas, a luz
opprimia-me, a multido atropellava-me, sentia-me olhado, como nos
tempos do absolutismo theocratico aquelle que vergava ao peso do anathema.

Um dia sa para respirar o r livre de uma bella manh de vero; uma
veia sarcastica, provocadora, no deixava harmonisar-me com a serenidade
da natureza. Vinha pelo mesmo passeio um sujeito magro, fumando uma
ponta de cigarro. A distancia ainda comecei a analysal-o; cada vez que o
fitava sentia em mim uma hilaridade irrepressivel; parecia-me uma cara
insignificativa. De mais perto representava-me uma incarnao do
grotesco, do comico objectivo, como se encontra nas goteiras das
cathedraes da Edade media. Trazia uma vestimenta velha, esfarrapada, que
produzia uma antithese perfeita com a sua edade. Mais ao p, vi que
tinha um fulgor de vida nos olhos, o movimento, a expresso de uma
intensa actividade interior. Eu tinha caminhado para elle com um riso
mofador, com pretenses a observal-o, este casquilho em quinta mo, e
fui-lhe ao encontro a pretexto de accender um charuto.

Conheci ento o valor da phrase com que o povo exprime um desgosto
intimo e repentino: caiu-me o corao aos ps. Via n'aquelle fato
esfarrapado de escovado, a lucta de uma alma, que arcava com a miseria,
de um homem, que aspirava  decencia, e que proseguia temeroso, como
conhecendo que a vestimenta o degredava e o destituia de importancia,
que um descuido qualquer o expunha aos apupos da vadiagem. Assim
explicava commigo aquelles res affectados de elegancia, que despertaram
a risada, que resou s dentro em mim. Era tambem criana, tinha uma
figura trigueira, uma certa vivacidade de movimentos, uma timidez que se
no accusa e se transforma em reconhecimento  menor considerao.

Pedi-lhe lume com um tom levissimo de ironia. A affabilidade
desarmou-me; o corao doeu-se ao primeiro impulso de sua crueldade.
Tinha vontade de confessar-me seu amigo; era-o n'esse instante, com
todas as veras de alma.

Dias e noites a imagem do pobre rapaz a fluctuar-me na mente; eu estava
indisposto commigo, procurava equilibrar a vida de modo que podesse
alcanar essa virtude sublime da _bondade_, filha quasi sempre da
serenidade e da superioridade de espirito. Era ainda cedo para mim. No
tornra mais a vl-o: julguei-o uma appario diabolica, que viera
inverter uma aco innocente da vida em uma preoccupao, que me
perturbava a tranquilidade.

Uma noite, saia eu do theatro: o frio regelava os membros, a escurido
era profunda como as _trevas visiveis_ de que falla Milton. Esperei 
porta que escampasse. Por um acaso feliz deparei a meu lado com o mesmo
sujeito que um dia soube inverter-me um riso insignificativo em remorso.
Tinha ainda a mesma compostura, esse apuramento que fazia rir os que no
soubessem penetrar os dolorosos mysterios da sua existencia.

O pobre rapaz, no sei que franqueza leu no meu rosto, que se chegou
para mim. Poz-se a commentar o espectaculo; pouco depois, estiou e
partimos juntos. At aqui nada de interessante.

--Quanto mais estudo (disse-me elle, cansado de andar e de fallar),
tanto mais se me alarga a solido do espirito; cada dia encontro menos
pessoas com quem prive, caminho, e a cada passo me vo ficando mais
longe. Quem no entender isto e se revoltar contra a minha frieza,
dir que  orgulho, e egoismo at; os que se doerem de mim diro que 
misanthropia. A meditao  como um segredo, que psa quando no ha a
quem se conte; mas se eu encontrasse uma mulher a falar-me de amor,
sacrificava-me a ella, para vl-a mais ditosa que a pobre Frederica de
Gethe.  a primeira vez que conversamos. O meu amigo deve estranhar
esta liberdade; sou assim, amo a franqueza quando no busca rodeios para
convencer, e tem a fora da expanso sincera, a ingenuidade simples, que
no sabe alliar a amisade com as pragmaticas. A franqueza d'este modo
admira-se, e eu tanto mais, porque a tenho visto sempre usada como
pretexto para dizer insultos impunemente. Acho-me solitario no meio da
sociedade, e tenho ainda no sei que terror de me vr perdido,
atropellado entre as massas. Vivo assim desde criana; como criana fui
tambem poeta, cantei porque tinha medo, queria distrahir-me. Eu
chamo-lhe meu amigo, porque me escuta; era quanto bastava para lhe ficar
reconhecido. A maior parte das pessoas que me ouvem riem-se de mim. Falo
sobre a genese das religies, a origem dos governos, as relaes da arte
com a sociedade, todos os grandes problemas que nos agitam; abanam a
cabea, e dizem com r compassivo: Utopias dos vinte annos. Outras
vezes, descrevo a formao da terra, procuro explicar as evolues da
anthropogenia com a cosmogonia, o aperfeioamento dos sres e a sua
decadencia pelo gro do calor que a materia conserva e vae irradiando;
obedeo  presso da causalidade que me obriga a explicar a mim mesmo os
phenomenos que vejo, e riem-se, perguntam-me onde estudei, que diplomas
tenho das Academias, e voltam-me as costas ludibriando-me, porque no
querem admittir a sciencia sem a auctoridade, vem como profanao um
leigo explicar o que s est  altura da intelligencia dos
cathedraticos. Tenho tido muitos d'estes desgostos na vida. Os homens
que tm certa bondade, tambem me dizem, que a edade me fez todo
idealista, que os annos me daro um caracter pratico de que careo. s
vezes, tendo passado a noite em vigilia a pensar, cheio de frio, com
fome, canso-me a fallar, para receber, ao cabo de um esforo inaudito,
uma gargalhada brutal. Deos sabe quanto custa affazer-me  solido
absoluta. A solido,  verdade, devasta o espirito, porque obriga 
representao interior, dando-lhe um relvo maior do que a realidade.
Sero utopias tudo quanto tenho na cabea?  uma lei natural. Ha na vida
intellectual dois periodos, um de creao, outro de realisao. Hoje
concebo um ideal que no posso determinar; porque ha de vir tempo em que
saberei smente dar frma ao que senti. Convem no rir desapiedadamente
de todas as theorias da mente febril da mocidade, porque ao
approximar-se a edade esteril da fora, quem ha de realisar o que no
ideou? Bem sei que um grande poeta disse antes de mim: Uma grande
vida,  um pensamento da mocidade realisado na edade madura. Em tudo
isto vejo uma fora desoladora no homem, que o domina em tudo, e era
pela analyse d'ella que poderiamos entrar na essencia dos actos de sua
vida-- o egoismo. Quando o homem se v compellido a reconhecer uma
superioridade no seu semelhante, frma d'elle um semi-deus, porque,
ento j no  outro homem que o sobrepuja. Christo  uma ida
transmittida s geraes, que ellas concretisaram em um nome para
comprehendel-a. E depois, porque um homem egual a ns a manifestava, o
egoismo salva-se fazendo-o--filho de Deos. Arranca-se a _Illiada_ das
mos de Homero, porque o orgulho do homem no consente que o homem o
exceda. Vico representa na sua hypercritica a humanidade. Perguntamos,
quem inventou a alavanca antes de Archimedes demonstrar a sua lei? quem
descobriu o parafuso, a serra, bases de toda a mechanica? O egoismo
occultou quanto pde o segredo; apenas a mythologia responde com uma
divindade allegorica, um Saturno, Perdice, Pan e Triptolemo.--

O pobre rapaz falava de um modo precipitado, convulsivo, como se lhe
faltasse o r. A escurido da noite no deixava lr-lhe no rosto a
volubilidade da expresso. De repente, parou  porta de um casebre
velho, situado em uma viella estreita e infecta. Pediu-me para subir. Eu
no podia resistir-lhe; cada palavra vibrava-me c dentro como um
arranco. Fomos tacteando nas sombras, por um caracol de escadas
carcomidas, que nos faltavam aos ps. Ia-se-me esclarecendo o mysterio
d'aquella existencia. Por fim chegamos a um quarto pequenino e baixo,
com um r mephitico, saturado de fumo de tabaco. Elle acendeu uma vella
de cebo roida dos ratos, que tinha presa no gargallo de uma garrafa; a
enxerga com uma manta embrulhada achava-se a lastro. A miseria
arripiava-me. O pobre rapaz deitou-se sem foras; vi-lhe ento,  luz
mortia, uma pallidez cadaverica. Tive medo do seu silencio. Elle estava
envergonhado de tanta indigencia, e procurava rir-se, ridicularisando-a:

--No extranhe vr-me n'esta trapeira; ha uma analogia entre ella e a
minha cabea, onde as idas refervem em tropel confuso, e se conflagram
e se destroem. Estas teias de aranha so s vezes a minha distraco nas
horas de enfado; divirto-me como o Mascara-de-ferro, como Spinosa,
Magliabechi e Silvio Pellico.  em que me pareo com os grandes homens.
Deixemos isto; conversemos a serio diante de quem no sabe rir-se de
mim. Eu tambem tenho pensado na organisao de uma sociedade perfeita,
como Plato e Cicero, Campanella, Thomaz Morus e Fenelon; mas s
encontro essa perfeio no momento em que os vinculos do direito que
prendem as nossas relaes sociaes, e os mysterios e terrores que as
religies incutem, fossem excluidos pelo desenvolvimento completo da
ida do _Bello_; quando deixassemos de praticar uma aco, que vae
contra as maximas do direito ou da religio, no por ser injusta ou
immoral, mas porque repugna ao sentimento do bello. A Arte sobre tudo! 
ella s que nos pde alcanar conjunctamente a perfeio plastica. Assim
a anarchia, a negao absoluta de todo o governo fra de ns, constitue
o ideal do estado; a lei era a consciencia de cada um, a consciencia
sempre incorruptivel a todo o interesse egoista. Porque a Arte 
synthetica, mais do que a religio, a philososphia e a moral, porque s
ella faz o accordo incondicional das vontades por uma emoo universal.
Como chegar um dia a esta perfectibilidade! No se vae l de repente, a
natureza no d saltos. As revolues pela ida pdem tudo; no se
confia n'ellas, nem se emprehendem, porque os resultados s os gosa o
futuro.  esta sciencia nova da Sociologia que ha de levar mais longe a
humanidade. A Edade media, o grande lethargo depois da civilisao da
Grecia e Roma, foi ampliada pela passividade mystica do christianismo; 
uma impiedade que ninguem talvez acredita. A esmola, a onzena sobre a
bemaventurana, era o principio da dependencia e da desegualdade, a
aniquilao do trabalho e da actividade; a reprovao dos juros, o
stigma impresso sobre o judeu, elemento industrial na sociedade
nascente, eram a inercia do capital e do espirito de empreza. A
verdadeira doutrina  um cathecismo popular de economia social.  por
esta sciencia que nos ha de vir a libertao, desde que o homem
reconhea que produz mais do que consome. O trabalho  o unico titulo da
propriedade, a sanctificao da vida. O trabalho  para mim uma
consolao, um orgulho; sou como Plauto, que fazia rodar um moinho, e
nas horas de descano escrevia as suas comedias; como Spinosa, que
gravava vidros para se alimentar nas horas em que se absorvia no
quietismo do pensamento e ampliava a synthese physica de Descartes 
moral humana; eu toco na orchestra de um theatro; de dia penso.

E o pobre rapaz parou em meio, de cansado; depois recomeou, fazendo-me
a historia do trabalho:

--O homem ao destacar-se do ultimo lo da cadeia dos sres, sentiu-se
forte e senhor da terra. A natureza offerecia-lhe por toda a parte seus
peitos uberantes, e este rigosijo de harmonia ligava a sua existencia 
vida pantheistica do universo. A grandeza do homem n'este cyclo
genesiaco, symbolisaram-na os escriptores sagrados no reflexo de graa e
de innocencia que descia das alturas sobre a sua fronte; os escriptores
profanos, menos inspirados pelo idealismo espiritual, retrataram-a na
plastica, nas frmas gigantes do corpo e na magestade homerica de uma
estatura heracleana. N'este primeiro dia, foi o homem como os anjos, via
e falava face a face com a divindade; n'este primeiro dia foi um gigante
da terra, dominava pela fora cyclopica. Ambos os dois mythos tm um
fundo de verdade revelada pela inspirao e intuio do passado aos
prophetas da historia. Senhor e rei na creao, o homem deixou-se
enleiar no seio voluptuoso da natureza. Admirou e caiu adorando. N'esse
instante descobriu a sua nudez, e escondeu-se; sentiu a fome e a sede e
as dres do desterro. O outro mytho, mais violento e terrivel, para
filiar n'essa queda o naturalismo e anthropomorphismo, fal-o _mergulhar
no bruto_, e o satyro, o minotauro,  o homem a confundir-se na
cathegoria inferior dos primates.  queda succedeu a rehabilitao, como
ao occaso a nova aurora de luz. Era a lei eterna das antitheses. Foi o
trabalho o signal da rehabilitao, ser o caminho para a apotheose.
_Sic itur ad astra._ Nos mythos do Oriente, tenebrosos e tragicos, o
trabalho  um stigma que psa sobre o homem,  a dor, a atribulao,  a
terra produzindo cardos e espinhos, fecundada pelo suor do seu rosto. 
o enigma da vida a ser iniciado pelo soffrimento e o soffrimento a
retratar a vida nomada da raa primitiva, na sua passagem atravs do
dezerto. Nos mythos do Occidente  sublime o ideal do trabalho: ahi  a
gloria dos semi-deuses,  a vida errante mas heroica. Chiron ensina o
mysterio da fora. Os _trabalhos_ de Hercules, os _trabalhos_ de Theseu,
eis outros tantos passos para a elevao do homem, perdidos hoje
completamente nas sombras imperscrutaveis do mytho. Nos _trabalhos_ de
Jason e dos Argonautas est symbolisada a inaugurao do commercio
de toda a raa jonica. No Oriente, o trabalho  uma fatalidade
religiosa, um anathema do primeiro passo do homem. O christianismo,
creado no bero de todas as religies, vindo da Asia, transportou
comsigo o mesmo dogma fatidico, mas com expiao. Suavisou o golpe da
espada flammejante, que lanou o homem fra do Eden. Exagerou a culpa
para perdoar o castigo; suscitou no interior do homem uma luta, luta
escura e tremenda, um _eu_ a combater outro _eu_, a carne a revoltar-se
contra o espirito, a confuso e o cahos onde havia a ordem e a harmonia,
e para este dualismo desesperado apontou como panaca--o trabalho.
D'esta ida proveiu um diluvio de sangue para rehabilitar a raa futura;
foi o sangue dos martyres; a arca fluctuante a egreja; o ramo de
oliveira, representando a paz universal e a fraternidade a cruz. S
tarde estes symbolos foram comprehendidos; tinham sido como o enigma da
Sphinge, que devorava os que iam passando. O christianismo ao ideal do
trabalho-pena ligou a universalidade. Na Edade mdia a ordem social era
classificada pela propriedade territorial; a posse era a caracteristica
do senhor, o trabalho da cultura o ferrete do servo. A Edade mdia
feudal  uma antinomia na historia; a influencia manifesta do
christianismo  a communa. O abrao dos povos pelo trabalho do commercio
e da industria, eis o segredo das riquezas de Pisa, Gand, Veneza,
Genova, Bruges e Florena, ao p da barbarie dos estados feudaes.
_Virtus unita fortius agit._ No dia em que o homem descobriu a alavanca,
o parafuso, a fora da agua, foram outras tantas fadigas de que aliviou
seus hombros, sobrecarregando-as na natureza. Hoje o trabalho no  o
sello da culpa segundo a antiguidade biblica, no  o signal da
escravido como na Edade mdia, nem o tributo dos prias, como concebia
Aristoteles: hoje  o symbolo da dignidade do homem. So as machinas que
vo conseguindo pouco a pouco esta realeza do homem sobre o universo. O
hymno do trabalho eleva-se por toda a parte, e as strophes perpetuam-se
ao estrepito das grandes descobertas de Galvani, Fulton, Watt, Pascal.
Pelas machinas ganha o homem tempo  custa da fora, mas fora
dispendida pela natureza. Vir uma epoca em que elle se liberte do
trabalho material; abre-se ento outro horisonte mais vasto--o trabalho
da intelligencia. Prometheu ergue-se dos rochedos caucasicos, no para
roubar o fogo celeste, porque  Deos, mas para atear aquelle que
occultou longo tempo no encphalo. O homem desprender-se-ha da
animalidade para absorver-se no anjo. Se elle se destacou de uma
animalidade inferior, no est terminada a sua progresso ascencional.
Esta theoria explica j a prodigiosa actividade e precocidade
intellectual d'este seculo.

A voz foi-se-lhe enfraquecendo, at que se calou; estava macilento,
tiritando de frio; a vista com um brilho phosphorecente, felino. Depois
de alguns instantes de silencio, disse-me com um modo secco, que no
comprehendi logo:

--O succo gastrico  bastante corrosivo e dilacera-me as fibras do
estomago.

Conheci que era a fome que lhe dava esse aspecto, essa consumpo em que
o via prostrar-se. Disse-lhe que esperasse um instante, e sai  pressa
para comprar em uma espelunca uma posta de peixe. Quando voltei, a luz
bruxuleava quasi a extinguir-se; o pobre rapaz estava voltado para a
parede. Sacudi-o. Achei-o frio, com a rigidez cadaverica.




Beijos por facadas

(CONTO DE UMA SERENADA EM HESPANHA)


I

A guitarra

Corria lenta e socegada a noite. Ha n'estas vozes indefiniveis das horas
mortas a suspenso de um segredo, que se no articula; o silencio remoto
parece escutar as musicas de dentro, que se espraiam na alma, como os
sons elios que a brisa entorna da escarpa.

O co estava profundo e puro, recamado de estrellas, brilhando
silenciosas, absortas nas cres spectraes de sua luz, com que
confidenciam e exprimem entre si as sonhadas harmonias das espheras.
Cada trao radiante que se projecta nos res l vae perder-se n'um
fasciculo mais intenso, pensamento de amor, energia inextinguivel
que va a despertar e embalar um devaneio ditoso, que no finda.

Os ventos sopravam macios, remurmurejando na folhagem verde; a veia
crystalina e sinuosa do Manzanares derramava seus aljofres, onde se
reflectiam as graas e a alegria das myriades de astros que bordavam a
cupula do empyreo.

Soaram vagarosamente, como as palavras de uma sentena irrevogavel, onze
horas na torre da Cathedral. A vibrao argentina do sino, ondulando na
calada da noite, fazia escoar-se pelo corpo um estremecimento gelido,
como o pingo de agua que se infiltra das stalactites e cae, de quando em
quando, no pavimento petrificado de uma gruta escura e sem fim.

E a noite proseguia lenta e socegada. Pouco a pouco, uma virao
travessa, vinda dos valles longiquos, dispersou nos cos uma nuvem
espessa, que se havia levantado das bandas do mar. Assomou um leve
resplendor, um claro incerto na cima dos montes; depois, os arvoredos
deixaram jorrar por entre as ramas entranadas um alvor suave. Era a lua
que se alevantava serena do topo das serranias, ostia branca erguida na
reconcentrao intima dos mundos.  luz diaphana e branda, que devaneios
principiados e interrompidos no vago das aspiraes que no tm
realidade! que confisses vehementes, que palavras sentidas, que
protestos fogosos, apaixonados, gerados pelo influxo da saudade e da
melancholia!

 luz tranquilla do astro dos namorados, meditava distrahida em seu
balco, virgem, enleiada nos caprichosos desejos que lhe tumultuavam no
corao infantil. Quinze annos! a efflorescencia da vida no seu vio
exuberante; as alegrias perennes, sem motivo, um transporte a cada
sensao que se ignora e que o acaso revela! Quinze annos! e o peito a
palpitar apressado a cada presentimento de ventura.

Estava em seu balco a donzella timida; as tranas soltas, espalhadas
pelos hombros, eram os jorros de uma catadupa que se despenha; respirava
anciada, como quem acabra de brincar e sente na fadiga, que a prostra,
a tentao de se precipitar novamente na vertigem da cora que passa
ligeira como um volteio de fadas em areal deserto.

A lua illuminava-lhe o semblante com a magestade com que se reflecte
n'uma janella gothica. Parecia adormecida, criana, embalada pela toada
das harpas dos seraphins, que a vinham abrigar do rocio da noite debaixo
da sombra de suas azas brancas. O vento levava-lhe as roupagens longas,
que fluctuavam como uma nuvem rescendente que a envolvesse.

Ella no estava adormecida, scismava. Que mysterios intraduziveis de
amor no lhe viria descobrir esta hora! A natureza, mais velha e
experiente, vinha ensinar sua irmsinha, mostrar-lhe os philtros que um
sorriso esconde, a fascinao de uns olhos humidos de volupia. Sentiria
ella as primeiras notas do amor, pulsando levemente dentro do peito?

O sitio, a hora, a mudez confidente da noite tepida e sombria, tornavam
propicias as palavras timidas, balbuciadas tremendo, com um languor
communicativo.

A este tempo a lua brilhava esplendida de encantos pela amplido
celeste. A donzella cada vez apparecia mais radiante de graa; o luar
tornava-a mais bella, como em uma transfigurao repentina.

Ser uma realidade a existencia d'este typo divino? Ser uma creao
apenas, uma viso chimerica da mente do poeta? Um sonho que a arte sabe
encarnar e insuflar-lhe o sentimento de Rosina, quando espera anciosa
detraz do cortinado alvejante Almaviva, a identificao de um sr
n'outro sr? No. Como uma filha, a mais linda das filhas de Eva, irm
das que foram amadas pelos anjos que se esqueceram do co, ella tambem
sente e ama.  Marcella, Marcella, o sol da velhice do grande poeta da
Hespanha Lope da Vega.

Canado de triumphos, de glorias e pesares, o cantor de _Dorothea_
ama-a, como um viandante do deserto que ama a brisa fresca da collina
que lhe vem alentar os pulmes exhaustos. Corao immenso de um pae, que
enlouquece de alegria ao vr perpetuar-se-lhe no mundo a intelligencia,
os sentimentos que o animaram e lhe trouxeram soffrimentos e glorias,
n'aquella que o abraa como uma vergontea airosa  sombra do roble
secular.

Marcella  o seu pensamento predilecto das horas pacificas da
existencia, a que ha de herdar-lhe o manto prophetico com que o pae
penetrava nos mundos da poesia. Poeta, enleva-se diante da sua obra, a
ideal Galathea, onde vive uma alma afinada pelas mesmas harmonias;
ama-a, com que ternura! _ mas galan que padre._

Marcella estava distraida ao luar no balco; era na rua dos _Francos_;
estava deserta e escura pela sombra. Comeou ento a sentir-se um som
incompleto, como o gemido de um queixume que expira; depois, mo ignota
a dedilhar vehemente, com fora, nas cordas de uma guitarra. As auras
levavam as melodias, ais de um peito que gemia de amor em segredo, e que
ia ditando ao instrumento sonoroso as palavras, que no podia proferir.
O silencio da noite destacava as notas delirantes, como o azul a um
carbunculo que scintilla.

A innocente criana despertou do sonhar ario em que permanecera
absorvida; comprehendeu a linguagem suprema do sentimento, era a
primeira confisso de amor que escutava na vida. Receiou correr o
cortinado. Era a innocencia na sua timidez. A curiosidade, o orgulho de
criana a impellia; comeava a sentir-se bella, formosa. Debruou-se
desprevenida ao balco, mirou, prescrutou nas sombras. A guitarra
fascinadora emmudecra.

Depois, ella viu dois vultos aproximarem-se, traarem as capas,
desembainhando as espadas reluzentes. A mudez tornava assombroso o
recontro. Os ferros cruzaram-se faiscando; eram os rivaes, que se
encontravam ali, levados pelo mesmo amor e pelo mesmo odio, a grande
contrariedade d'este sonho da vida. No se ouvia um gemido; os botes
eram a fundo. Uma espada tiniu no cho partida; o outro galanteador,
generoso, deixou a sua de mo e sacou um punhal do cinto. Era um duello
a todo o transe, questo de vida ou de morte. Marcella nada discriminou
nas sombras; sentia apenas o fragor de uma lucta porfiada. O outro rival
alou o punhal tambem; arrojaram-se aos braos um do outro, espumando de
raiva, cozeram-se de facadas desapiedadamente, at que, escoados em
sangue, cairam desfallecidos.

O vento da noite refrescava; a lua mostrou-se no seu esplendor e deixou
ver o campo do torneio. Marcella recolheu-se aterrada para o seu
aposento; orou a noite toda ante o retabulo de Santa Maria d'Atocha,
promettendo fechar para sempre o seu corao ao amor do mundo.


II

La blanca palomica

Depois dos inesperados transes e provaes, a que s vezes a alma
resiste para novos desastres, Lope de Vega fugiu s tempestades da
vida, envolvendo-se no burel de uma ordem penitente, unindo a contrico
e a poesia no mysticismo radiante das effuses lyricas com que
desabafava nas horas comtemplativas. Quando o espirito solitario descia
 terra e se deixava tocar pela dor, tinha ento o encanto da sua prole,
dos filhos que estremecia. Como se no lembrava elle, com pesar e
saudade indelevel, do seu pequenino Carlos, cr de lirio e de rosa,
quando vinha acariciar-lhe a alma com umas palavras de ternura infantil,
quando o via pular de contente ao vir o dia, como uma antilope nos
prados, quando os seus vagidos eram um gorgeio entrecortado que lhe
pareciam um vaticinio encantador! Pobre criana, ainda coberto do
orvalho matinal, de te expandires  bafagem perfumada da nova aurora,
quando, lirio fanado pela geada, desappareceste na terra para seres
transplantado no co.

O poeta buscava consolao na poesia; era ella que o cercava de uma
aureola de felicidade. Distraia-se cuidando do seu pequeno horto. Era a
imaginao que o revestia, aquelle exiguo canteiro, ornado apenas de
duas arvores, dez florinhas, uma laranjeira e uma roseira, onde
casualmente cantavam os rouxinoes, e onde dois cantaros de agua formavam
a fonte, que gemia e adormecia seus pesares. Contenta-se de pouco a
natureza; elle no trocava este canto da terra nem pelo monte Hybla, nem
pelo valle fertilissimo de Tempe, nem pelos jardins suspensos de
Semiramis, como elle proprio confessa; porque a phantasia creadora
reveste-o de todas as graas de um paraiso sonhado, mostra-lhe columnas
brancas de marmore com inscripes gloriosas, fontes que jorram e se
despenham em borbotes de perolas e aljofres, lagos profundos e limpidos
sulcados por canas que desfraldam as vlas como cysne voluptuoso que
deslisa, rodeados de sombras amenas e encantadoras de arvores soberbas
similhando os gigantes da terra, a vinha entranada aos platanos,
dourada pelo sol de agosto, bustos entre a ramagem espessa, satyros que
se adormecem ao som da lympha fugitiva, nymphas travessas errando na
relva macia, que tapeta o recinto...  um sonho de poeta na sua
soledade. Que tem que seja uma fico esta magnifica paizagem? Elle
sente as emoes que lhe traz o retiro que frma, e para onde se refugia.

Seu filho levado pelos brios cavalheirescos, pelo impulso dos quatorze
annos, deixou-o para seguir a expedio contra os hollandezes e os
turcos. Uma catastrophe desastrosa veiu roubar-lhe mais esta esperana;
a no em que partira havia soobrado.

Restava-lhe s junto de si Marcella, para amenisar as horas lentas e
enfastiadas da velhice. O pae offerecia-lhe seus livros, dedicava-lh'os,
pedindo que os corrigisse; ella reunia s graas do corpo, a harmonia da
plastica com um sentimento delicado, uma penetrao viva e lucida. O
poeta recebra todas as consolaes do co n'aquella filha; era a
sua creao mais perfeita, a admirao dos poetas do seu tempo, era todo
o seu orgulho.

Marcella comeou a apparecer triste; tinha na face a pallidez da planta
que esmorece. Nem uma palavra s de queixume; a mesma abstraco sempre!
Os labios pareciam emmudecidos pelo sello do mysterio. Cercava-lhe os
olhos languidos um disco roxo de macerao, ennublava-lhe o semblante a
preoccupao de uma dr, que no sabia confessar. Quando Lope a chamou
para de junto a si, e a estreitou nos braos beijando aquella flor da
mocidade que o Senhor fizera brotar de suas ruinas, sentiu uma
dilacerao interior, ao ver uma lagrima pura, candida, ingenua,
resvalar-lhe na face em que a dr empanava o vio infantil:

--Oh minha filha! quem podera adivinhar o segredo de tua angustia, e
inverter os pensamentos afflictivos de magoa n'um extasis perenne de
felicidade. Marcella, Marcella! Eu dizia-te um dia, lembras-te ainda?
era n'aquelle livro, que o presentimento me fez intitular _Remedio na
desdita_: Deus te proteja, e te faa ditosa, postoque teus dotes o no
consintam, principalmente se fres herdeira do meu destino. A cora de
gloria que me cinge sangra-me na fronte com dolorosos espinhos; o que a
poesia me ha ditado tenho-o soffrido primeiro. Tu, alma da minha alma,
vs pisando a mesma via dolorosa. Ergue-te d'essa prostrao do
desalento em que te deixas cair! Conta-me o que assim vem perturbar
teus pensamentos tranquillos, roubar-me as tuas caricias que me fazem
rejuvenescer? Eu no sei como amparal-a, interrogal-a, sem que esta
planta mimosa languesa como a sensitiva. Menina, moa, ignorando a
vida, acordaria ella senhora? Leval-a-hia o amor em sonhos ao seu mundo
de aspiraes infindas? Ella inclina-se sobre meu hombro e chora. Como
posso eu consolal-a, dar-lhe as esperanas que no tenho e que de ha
muito me desampararam? Marcella! Ergue a tua cabea; deixa-me vr-te,
beijar-te, enxugar as tuas lagrimas, filha. Dize-me o que te afflige
tanto. Pobre creana, ella cada vez me estreita mais a si.

--Oh meu pae! eu no sei o que me faz to cedo aborrecer as galas, as
seduces do mundo, e me mostra a vida como um dezerto invio,
intransitavel. A alma sente um vacuo que ninguem pode encher.  o
christianismo que me faz germinar no espirito este sentimento vago, uma
sde d'esse goso sem limites da viso beatifica, uma aspirao, um
desejo ardente de regressar  eterna patria, de me confundir nos cros
archangelicos, ao som do trissagio perenne. A natureza por mais
esplendida e vicejante, as flores de aromas mais exquisitos, o co mais
admiravelmente cravejado de estrellas, o azul, o espao aberto,
causam-me o desgosto que havia sentir Moyss do alto da montanha vendo
ao longe a terra promettida e sem poder attingil-a. Quanto mais me sinto
enleada n'este encanto divino da contemplao interior, torna-se-me
mais intenso o desejo de abandonar o desterro d'este valle de lagrimas,
quebrar os vinculos da carne, e acordar no empyreo. Este corpo que me
dste  a priso em que a alma suspira e anceia por soltar-se; ella  a
escrava da Escriptura que vaga  mingua de uma gta de agoa no dezerto:
ella tem diante de si um abysmo, que precisa transpr sem o fitar. Eu
senti em sonho este hymeneu recondito e incomprehensivel do amor divino.
O Amado erra pelas brenhas, chamando a Esposa perdida. Eu no me posso
elevar at Deus, o _Deus absconditus_, pela intelligencia, como os
doutores; deixae que a alma vulgar e humilde, desconhecendo essa vereda
intrincada, caminhe conduzida pela intensidade do seu desejo  eterna
fonte suprema do bem. Eu quero professar em um mosteiro, seguir a regra
da penitencia austera, voltar para a arca santa, como a pomba do
diluvio. Quero envolver-me no burel, mergulhar-me na escurido de uma
cella, e scismar embalada nas musicas do extasis.

--Marcella! para que vaes tornar assim a minha solido mais dolorosa?
Teu irmo, perdi-o ainda to criana! Eras s tu que me restavas no
mundo. Sem ti, de que serve a vida que levo devorada pelas recordaes
do passado. Eu perdi uma esposa, que asserenava em meu corao as
tempestades do amor. Tinha em ti meu unico refrigerio, e desamparas-me
quando me vejo mais s! Pobre filha! Ter ella vergonha do mundo? do
seu nascimento illegitimo? Que provao to dura e repentina me estava
reservada em castigo de uma mocidade turbulenta! Vae, filha, corre aos
braos do divino Esposo: elle s pde dar-te a grinalda immarcessivel,
servir-te com uma legio de anjos. s o ultimo ramo virente que o
destino arranca de um tronco carcomido pelos annos. Vae, vae.--E
apertou-a nos braos a chorar como uma criana.

Tempo depois, a engraada filha do maior e mais fecundo poeta de
Hespanha entrou para o convento das Carmelitas descalas, em Madrid.
Lope de Vega descreve esse abandono do mundo com expresses sentidissimas:

Marcella, o primeiro pensamento do meu amor paternal, cuidava em
casar-se, e uma noite me disse o nome d'aquelle que desejava para esposo.

E eu, que sabia quanto  prudente deixar amadurecer um tal pensamento,
porque ha decises que provm de causas accidentaes, fiz minhas excusas,
esperando sempre no contrariar seus desejos, se elles se fundassem na
verdade de sua alma. Mas vendo cada dia esse desejo a augmentar-se,
determinei-me dar-lhe esse esposo, que sollicitava seu amor. Esse esposo
 bello,  rico,  sabio, e de uma estirpe illustre, e seu pae  nada
menos do que todo poderoso. Eu juro que por parte de sua me  de sangue
real, e que ella  to boa, que no ha attractivos, nem virtudes que no
possua.  uma me to cheia de graa, que pelas suas mos Deus a
dispensa ao mundo. Ella  juntamente rosa e lirio, cypreste e palmeira.

A egreja estava ornada como o thalamo de um noivado. Ento, o poeta viu
sua filha n'esse dia com uma graa, uma belleza, uma perfeio
inexcedivel, que a alegria fazia realar sobre os dons da natureza, que
o contentamento animava de vivacidade e elegancia. O esposo recebia-a
nos seus braos carinhosos. O amor divino transfigura-se sempre na
infancia. Myriades de luzes, damascos e brocados enfeitavam o aposento
nupcial.

Marcella,--continua o poeta--as faces coloridas como duas rosas, e os
labios como banhados por um sorriso honesto, fitou-me: o ultimo adeus
que separava duas existencias.

Sua alma trasbordava de felicidade com esta vocao; e por um ultimo
adeus de seu corpo, ella voltou costas a tudo que o mundo chama festas e
prazeres.

Depois, offerecendo ao joven esposo sua casta grinalda de virgem, ella
estreitou-o a si, cobrindo de beijos seus olhos de esmeralda.

O co fechou a porta ao meu corao cheio de amor paternal;
arrebatava-me a melhor parte da minha alma; e eu era o unico a lamentar
n'esta multido de espectadores. Tornmos  egreja; a desposada deixara
seus habitos de festa, os enfeites, para envolver-se no burel grosseiro.
Suas tranas foram cortadas, porque, como as outras virgens que povoavam
o cro, ella no devia ter para ser bella, mais do que a sua belleza.

Sente-se n'estas palavras do poeta a dr do corao de um pae, a quem
todo o sentimento e unco religiosa no podem consolar. Verga diante
d'essa agonia, resigna-se. Passado o anno do noviciado ainda o corao
virginal de Marcella palpitava com o amor divino. Pronunciou os votos, e
professou.

Ella dormia sobre a palha fria e dura, e andava descala; o corpo
andava occulto em uma vestimenta humilde; s os olhos eram a expresso
de sua alma. Oh bemaventurado desengano das cousas da terra!--exclama o
poeta na solido do seu amor.--Esta virgem to bella, to casta, to
pura, consagrou a Deus os seus dezesete annos!

Estes desgostos da vida foram-o levando  sepultura; Lope de Vega
succumbiu no auge da admirao. O seu funeral foi imponentissimo, como o
de Miguel Angelo. Marcella, a intelligente filha do poeta, pediu para o
cortejo passar pelo convento das Trinitarias descalas. No momento em
que o prstito parou diante do mosteiro, viu-se apparecer por entre as
grades avaras um semblante macerado por uma dr lenta. Era Marcella
chorando a morte do pae, talvez pungida pelo abandono em que o tinha
deixado. Instantes depois, sumiu-se na escurido da cella, e ninguem
soube o que a levara na candura dos dezesete annos a abandonar seu pae
na desconfortada velhice.




A Ogiva sombria


    Sem duvida, no tempo da mais bella flr da architectura gotica,
    quando foi construida a cathedral de Colonia, ligava-se uma grande
    importancia a estes numeros symbolicos, porque a concepo ainda
    confusa das idas racionaes, contenta-se facilmente com estes
    signaes exteriores.

                                                  HEGEL--_Esthetica_.

A Cathedral! a creao suprema da Edade mdia, em que a arte, pelo
sentimento, em uma strophe de pedra, sabe concentrar o espirito radiante
do christianismo, pela fora audaciosa do symbolo! Ella representa a
aspirao incessante da alma que se eleva para o co;  ella como a
Esposa dos _Cantares_, que espera em silencio a visita do Amado, e se
veste de suas galas e reala de encantos. A curva suave da _Ogiva_ imita
uns prpados languidos, uma pupilla scismadora, enleiada n'aquelle
extasis sensual do amor divino, que Thereza de Jesus sentia nos seus
delirios mysticos; as _flexas_ atrevidas, atiradas para os res, a
linha a infinitivar-se, a perder-se no espao, as _agulhas_ bordadas,
rendilhadas, so os cabellos dispersos, fluctuantes da donzellinha, que
se assenta cansada de errar pelas brenhas e em volta da cabana dos
pastores  busca do amado. A _cupula_ altiva, representando aquelle
momento em que a alma se desprende dos limos terrenos e se absorve toda
na mystica unitiva,  o collo, que o poeta dos _Cantares_ comparava 
torre de marfim que olha para o occidente, e cuja magestade  similhante
 da lua que se alevanta. Miguel Angelo chama tambem a uma egreja, nas
effuses do seu pantheismo artistico, _mia sposa_.

Cada monumento antigo  como uma fronte veneranda, enrugada pelos
seculos, animada por uma expresso profunda. Essa expresso  a
linguagem dos vos, creada pelo espirito que no pde contemplar um
facto, acreditar na sua existencia independentemente de uma ida, de uma
razo de ser que procura achar n'elle.  a fatalidade do enigma do
sphinge. As Cathedraes goticas reunem quasi sempre a lenda piedosa com a
lenda grotesca e diabolica; ellas so como a incerteza da alma que paira
duvidosa entre a possesso e o extasis. Umas vezes, so os anjos que vm
de noite trazer de longe grandes blocos para a edificao da fabrica,
que lavram a pedra, que alevantam o mosteiro.  a inspirao do anonymo
nas obras grandiosas. s vezes,  o diabo, que com a mira em dilatar o
seu imperio faz tudo, e transporta para a construco as melhores
peas que rouba de outros monumentos, como uma columna do templo de
Diana em Epheso para o templo de S. Zeno em Verona. A alma do
architecto est retratada na sua concepo; receiando de suas foras
para realisar o ideal sublime dos sentimentos do christianismo nos
monolithos de marmore para que cria uma frma, no teme evocar a
potencia das trevas. Nas Ogivas escuras, soturnas das Cathedraes
goticas, nos arabescos extravagantes das janellas esguias, nos monstros
boqui-abertos que servem de goteiras, nos basiliscos informes dos
pedestaes, reflecte-se esta alliana do mysticismo poetico com o
mysticismo divino. Muitas vezes a Cathedral tem o mysterio de um symbolo
que se mobilisa para exprimir os sentimentos da humanidade; com as
invases e descobrimentos maritimos ella toma a frma de um navio
voltado para o Oriente, d'onde lhe vem a luz; tambem imita uma cruz
estendida ao longo, como na nossa maravilha de architectura, a Batalha,
o poema da crena e do heroismo de um seculo.

Estamos em plena Edade mdia. A noite era caliginosa e tetrica; o
coriscar frequente dos relampagos, o ribombo estridente dos troves
repercutindo-se distante, e o restrugir medonho da floresta, completavam
as harmonias intraduziveis da tempestade. A alma, diante d'este
espectaculo estupendo da natureza, sentia uma presso que a fazia
concentrar-se possuida do sentimento do infinito, a que os homens
que tudo indagam e submettem s formulas metaphysicas chamam--o _sublime_.

Via-se atravs da escuridade absoluta das horas mortas um claro
incerto, como de alampada veladora. Seria algum discipulo de Flamel ou
de Lullo absorvido pelos mysterios da alchimia, submettendo a materia,
interrogando este Proteo eterno, que, a cada pergunta ostenta uma frma
diversa, e responde de mil modos differentes, sem que cheguem a
surprehender-lhe o segredo de sua simplicidade? Seria um monge solitario
enlevado na paz ignota da vigilia, procurando, no silencio da noite,
elevar-se pelo corao at Deus? A luz jorrava da janella do aposento
humilde e sombrio. Dentro, sentia-se o respirar cansado de um peito
oppresso; a alampada espalhava em trno uma penumbra em que fluctuavam
as visagens caprichosas de uma mente tresvariada, e vinha reflectir-se
pallida, descorada sobre o rosto macilento, em que os gestos davam uma
expresso incomprehensivel como os pensamentos que o agitam. Via-se
n'aquelle rosto impressa a anciedade dos que penetram pela intuio a
verdade de um problema insoluvel, e uma distraco leve lh'a fez
esquecer. Sobre uma mesa estavam pergaminhos extensos, desenrolados,
cobertos de linhas cabalisticas, com que se evocam os espiritos
nocturnos, compassos e astrolabios, espheras e mappas.

Era alli que morava mestre Gerardo, o architecto da Cathedral de
Colonia. Estava contemplando o traado da sua obra; a physionomia
animava-se-lhe de quando em quando com uma luz, um resplendor vivo de
transfigurao, como n'um extasis em que o ideal se deixava tocar,
determinar em uma frma s concebida pela mente do homem. Os cabellos
andavam-lhe revoltos, espalhados sobre a fronte, como nas convulses de
uma sibylla quando entrev o futuro, e sente o influxo vertiginoso que
lhe dicta o vaticinio. Depois, uma sombra espessa, como de um desgosto
repentino, veiu offuscar-lhe a serenidade que se lhe espelhra na
fronte, em que os annos redobravam a magestade. N'isto, levou a mo 
cabea, como para suster o impulso de uma ida que lhe occorrra:

--A arte! a arte!  ella que me vem descobrir estas linhas que eu fixo
no marmore, e que ho de ser a admirao dos seculos. Ella vem-me
ensinar este segredo do ornato, a variedade disposta de modo, que leva o
espirito  unidade do pensamento. A arte  uma religio que inspira
tambem uma f viva, ardente, intensa, e d foras para affrontar a
duvida, que cerca e punge o espirito creador. Um dia duvidaram de mim;
no imaginavam que eu podesse levantar essa mole de pedras, uma
Cathedral representando o vo mystico da alma! Riram-se do plano da
minha obra! Eu tenho pensado dias e noites, como na virgem eleita dos
sonhos da mocidade. A Cathedral! ella apparece-me na phantasia,
illuminada por um sol fulgurante, trasbordando de musicas e
harmonias suaves, perfumada de incenso, revestida de purpura, recamada
de ouro, como a noiva que se veste para entrar no aposento do real
esposo. Cada pedra que se vae dispondo, cada arco, cada pilastra
erguida,  a ponta de um vo que se alevanta e me deixa vl-a, sonhal-a,
idealisal-a sobre essa realidade incompleta.  como a terra que vae
apparecendo vagarosamente ao nauta cansado das tormentas,  medida que
se esvaece o nevoeiro da madrugada. A Cathedral! a Cathedral! eu scismo
e estremeo diante d'ella, quando a contemplo; sinto o delirio do
artista grego apaixonado pela carnalidade que ia descobrindo o seu
escpro. Ella parece-me uma fada escondida, e que a arte me descobre o
segredo para quebrar-lhe o encantamento, e mostral-a excelsa, bella,
radiante elevando-se para o alto n'uma asceno divina. Eu queria vl-a
suspensa nos ares, servindo-lhe as nuvens e os cumulos alvacentos de
pedestal! Agora j me no inspira terror o desdem dos meus inimigos:
descobri a ultima strophe do poema da minha vida, hei de confundil-os,
fazel-os curvar-se adorando-a:  o zimborio, a cupula arrojada s
alturas, similhante ao vo extatico da alma at  absorpo em Deus.

Havia n'estas palavras a vibrao frenetica do delirio; mestre Gerardo
de Colonia ficou silencioso como na prostrao dos fortes impulsos que
lhe dra a alegria. Os olhos brilhavam humedecidos, scintilantes,
exprimindo o regosijo intimo da contemplao da sua alma. E tornou a
inclinar-se sobre a folha de pergaminho, a recompr na mente as linhas
que alli traara n'um momento de inspirao. Depois, accometido por um
novo accesso de enthusiasmo, arremessou de si o traado; os olhos
flammejaram coruscantes, parecia que estava doido:

--Eu quero mostrar assim, que essas Confrarias dos obreiros
constructores de Strasburg, de Vienna, de Zurich e Magdeburg no podem
disputar a proeminencia a Colonia. Todos os obreiros e artifices da
Baixa-Allemanha hode reconhecer em mim a supremacia do chefe. Que
importa que Strasburg queira ser a sde da grande mestria? De que vale a
homenagem prestada pelas confraternidades maonicas da Alta-Allemanha,
de uma parte de Frana, da Hesse, da Suabia, de Thuringe, da Franconia e
da Baviera? O zimborio da Cathedral ha de erguer-se bem alto para a
admirao de todos.

E calou-se de repente, como envergonhando-se diante de si mesmo, de se
haver deixado possuir d'aquella vaidade. Depois continuou com dor:

--Quantos monumentos estupendos, quantos obeliscos gigantes, que
assombram as edades, e que mostram o poder creador do homem, competindo
com as creaes de Deus, quantas maravilhas espalhadas pela superficie
da terra, e que o architecto no quiz que se soubesse o seu nome, com
uma abnegao sublime da gloria do mundo! Eu que ainda no completei
a minha obra, que a tenho aqui na cabea, nem sei mesmo se chegarei a
realisar este sonho, se terei a fora de Atlante para suster nos ares a
cupula audaciosa, eu, mesquinho, ufano-me, ensoberbeo-me! O genio no
tem consciencia de si, no conhece o poder magico de que dispe, por
isso no se infatua. O que  a gloria do mundo ante a gloria celeste!
Illuso que nunca chega a ter um momento s de realidade;  uma nuvem
tenuissima que tolda o azul diaphano do empyreo. Para a alma do que
preliba os encantos do co, a gloria do mundo  uma tentao dolorosa,
um martyrio incessante; porque ento para ella a vida  como a luz
vivida da alampada, que se consome no silencio da noite diante da imagem
veneranda; assim, a alma procura envolver-se no olvido, no esquecimento
de si para resplandecer mais pura.

Os legendarios esto cheios d'estas luctas violentas com os sentimentos
mais profundos do corao do homem. Um dia Rubens estremeceu attonito
diante de um quadro escondido na penumbra de um cro em uma egreja
hespanhola; o quadro era um mysterio quasi impossivel de ser traduzido,
divulgado pelas cres sobre a tella. Era a morte do justo. A morbida
expresso do rosto macilento, uma aurola divina diffundindo-se em roda,
a alma anciosa pelo jubilo do co a exhalar-se docemente, como o ultimo
raio do sol da tarde, e por sobre a cabea os anjos debruando-se
das alturas a contemplarem o monge na hora do passamento! Era uma
transfigurao sublime, a ida mais bella, a que resume todo o
christianismo, revelada pela arte. Quando o grande pintor voltou a si
d'aquelle extasis imprevisto, sentiu-se pequeno ao p de uma creao to
perfeita. Perguntou ao monge que o conduzia, que pincel realisra
tamanha obra, para confessar-se seu discipulo, e proclamal-o  admirao
do mundo. O monge sentiu um estremecimento convulsivo, e respondeu-lhe
apenas:--No  j do mundo! e quando elle voltou  sua cella, juntou
os pinceis, a palheta e lanou-os na corrente de um ribeiro que
deslisava manso  falda da janella; e para esconder as lagrimas que
ainda uma vez lhe escaldaram as faces retinctas na palidez da
penitencia, foi procurar conforto na orao fervorosa. Como no teria
tambem esta energia para luctar comsigo aquelle que escreveu na mudez da
cella um livro de resignao e conforto, a _Imitao de Christo_, e que
abnegou d'essa gloria para no tornal-o uma mentira!

Mestre Gerardo de Colonia ficra absorvido em uma meditao profunda. A
tempestade continuava solemne e grandiosa na mudez da noite. Sentiu um
leve rumor no aposento, que a conteno de espirito em que estava mal
deixou perceber. Prestou ouvidos. Batiam  porta.

--Quem ser? assim to fra de horas!--e correu os ferrolhos. Entrou uma
figura alta, embuada em um gabinardo longo, o rosto assombreado
pelas abas de um largo chapeiro.--Quem sois?--inquiriu o architecto,
preoccupado ainda na sua abstraco.

--Sou um irmo da Confraria dos obreiros constructores de
Strasburg;--tornou o desconhecido com uma voz cava.

--Entrae.

Sentaram-se, contemplando-se um instante silenciosos.

--A que vindes?

--O que me traz?--redarguiu o desconhecido com um tom de ironia
acerba,--deves sabel-o melhor do que ninguem. Confias no zimborio da
Cathedral de Colonia, para quereres assim submetter  tua supremacia a
mestria central de Strasburg.  impossivel e chimerica essa tua loucura.
As grandes lojas querem todas a independencia. Demais o zimborio, a obra
que  o teu orgulho, no est prompta e talvez nunca a possas levar ao
cabo.

Mestre Gerardo ficou espantado, hirto de raiva diante da audacia do
desconhecido. Depois, volveu-lhe com uma severidade que lhe abafava a voz:

--Ainda sou architecto! e o zimborio ha de ser o primeiro a saudar no
alto os alvores do sol quando se alevanta. Juro pela minha alma.

--Aposto em como te enganas!

--Aposto em como te hei de confundir, e a todas as mestrias rebeldes da
Allemanha!--insistiu o architecto.

--Pois bem! Eu comecei ha dias a obra do Aqueducto de Treves, e espero
ainda vel-o acabado antes de teres prompta a Cathedral. Se assim no
for, no dia em que deres por acabada a tua obra, despenho-me do
Aqueducto. Tu precipitas-te tambem dos coruchos da Cathedral se eu vier
reclamar primeiro? Acceitas a aposta?

--Acceito.

--Juras?

--Juro.

A este instante ouviu-se longe o canto do gallo. O interlocutor
mysterioso desappareceu subitamente s primeiras notas do nuncio da
alvorada. Foi ento que o architecto reconheceu o--diabo; no quiz
acreditar na realidade d'aquelle pesadello. O canto do gallo  celebrado
nos hymnos da egreja, principalmente nos de Santo Ambrosio. _Gallo
canente vigilemus omnes._ Elle symbolisa a voz interior que desperta a
alma do somno da tentao; foi o canto do gallo que despertou tambem a
Pedro no atrio do Pretorio, quando renegou o Mestre. No mysticismo
poetico elle representa uma parte importante. A imaginao exaltada
pelos sonhos da noite no podia deixar de revestil-o de mysterio. J a
Grecia lhe havia formado o mytho:  o castigo de Alectrio. A sombra que
reclama de Hamlet uma vingana, o cro das feiticeiras de Macbeth,
desapparecem com a magia d'esse canto.

Um dia o architecto subira  Cathedral; estava prestes a terminar-se a
cupula. A alegria hallucinava-o. Appareceu-lhe ento uma cabea
disforme, rindo, confrangendo-se em esgares satanicos por entre as
sombras profundas de uma ogiva. Disse-lhe que estava prompto o Aqueducto
de Treves. Mestre Gerardo empallideceu e voltou o rosto  pressa!
Aquella nova enterrava-o. Baixou os olhos como para suspender uma
vertigem instantanea, fatalmente o relance mediu a altura da Cathedral;
o angulo visual dilatou-se de modo que lhe produziu a attraco do
abysmo. Resistiu debalde, vacillou um instante e despenhou-se por fim.
Disseram que fra a alegria explosiva de vr a sua obra, que lhe causara
o desvario que o precipitou.

Assim conseguiu estabelecer o seu predominio a Mestria central de
Strasburg.




As aguias do norte

(CONTO POLACO)


Harpa sacrosanta, orvalhada pelas lagrimas dos videntes, que repousam
sobre ti frontes encanecidas, banhadas no pranto do captiveiro, quando 
tarde abandonada na solido do exilio,  beira da torrente, a aragem
vespertina vinha gemer em tuas cordas, o cantico remoto era como o
anceio de um corao oppresso, ai, que se perde confundido com o rojar
das cadeias.

Inclina-te agora em meus braos, e vibra-me um canto de desespero,
insoffrido, eterno, para acordar a turba, que dorme sob o peso das
gargalheiras.

O vento livre saber levar a toada longinqua, para achar ecco no peito
dos desgraados. Patria! patria! s a tunica inconsutil sobre que rodam
os dados do infortunio.

Polonia! tu s o peito exangue, ferido pela lana do incredulo. Podesse
o teu sangue dar a vista ao que te fere com mo obstinada. Ao menos, que
o teu ultimo arranco afaste para bem longe o bando dos abutres selvagens
que pairam sobre ti, Prometheu, algemado em terra, mas, que ainda nas
convulses da agonia mostra a animao do fogo divino da liberdade.

Oh! mas o que vale ao poeta desterrado contemplar a ruina da patria!
Para que ha de elle pedir  sua harpa um canto de angustia e saudade, se
aquelles que o escutam e se sentem fortes para luctar com um esforo
sobrehumano, so depois martyres do sublime enthusiasmo?

Que tristeza profunda o lembrar-me que o meu poema a _Tentao_,
exaltando os estudantes da Lithuania para sacudirem os tyrannos, fez com
que os oppressores arrojassem para os steppes e minas da Siberia a flr
da mocidade da Polonia! Pobre Karl; ainda tenho aqui a carta em que elle
me conta os trabalhos da jornada para o desterro:

      _De um estudante de Lithuania ao Poeta anonymo da Polonia_

Em todos os tempos a poesia tem sido a expresso dos sentimentos
profundos da humanidade; chora com as suas dres, e  ella que vae ao
sepulchro das naes proferir o _Surge et ambula_  raa supplantada
pela presso dos despotas. Desde os prophetas de Israel, e Tyrteu e
Callino at Rouget de Lisle, Kerner e Poetefi, a poesia tem dirigido as
revolues;  como a columna de fogo que leva  terra promettida atravs
dos errores do dezerto.

Ns eramos crianas, animados dos sentimentos mais puros, que a edade
no deixa contaminar; choravamos de magoa e despeito, com vergonha de
vermos envilecida, sob o jugo obscurante dos czares, esta pobre patria
esmagada por um colosso de inercia e barbarie. Um dia appareceu-nos um
poema estranho, novo, um grito ancioso em que se exhalava uma alma.
Pareceu-nos a voz da Polonia que nos chamava em seu desalento;
sentimo-nos fortes no primeiro impulso.

Estudavamos em Lithuania; uma noite reunimo-nos para lr o poema.
Brilhava em cada rosto um lampejo de colera e esperana. Cada estrophe
era um sobresalto, a anciedade do sacrificio. Eramos como aquelles
crentes dos primeiros seculos do christianismo, tinhamos a sde do
martyrio. A noite da conjurao era tempestuosa como os pensamentos que
nos agitavam. Jurmos alli, com as mos sobre as estancias mysteriosas
que nos vieram despertar do lethargo da oppresso, abnegar do amor, da
familia, da vida, por esta desgraada Polonia. A alampada solitaria que
allumiava o aposento deixava uma penumbra phantastica e terrivel, como
em um tribunal whemico; os olhos coruscavam com brilho de alegrias
sanguinarias. O enthusiasmo precipitava-nos. Sentiamos foras de
Atlante, uma audacia e tenacidade para a lucta; mas, via-se ao mesmo
tempo em cada rosto a sombra, no sei de que pensamento funesto, de uma
aspirao irrealisavel. Seria uma desgraa imminente?

Quando nos abraamos como irmos na mesma crena, para os transes mais
dolorosos, correram as lagrimas, ferventes, como nos momentos rapidos de
uma despedida para sempre. Havia um silencio augusto. Parecia que o co
e a terra escutavam o nosso juramento; que a patria agrilhoada
interrompera os lamentos para escutar a voz consoladora de seus filhos,
que esperavam o dia da redempo.

Foi ento que ella appareceu, Hedwige, a mulher que eu amava, o cabello
destranado pelo vento da noite, cansada, offegando, sem cres, enfiada
de susto. Julguei-a uma appario angelica, que baixava para trazer-nos
a palma do martyrio, a annunciar os transes d'este horto em que
estavamos recordando as agonias da Polonia. Como ella estava bella,
radiante; era uma prophetisa, altiva como Dbora quando proclamava s
gentes a lei, a sombra das palmeiras entre Rama e Bethel, sobre as
fronteiras de Benjamim e Ephraim. Ficmos suspensos, esperando o hymno
que havia romper dos labios sellados por um mysterio profundo. Como
deixou ella a casa de seus paes, nas sombras da noite medonha? Como
soube onde estavamos; quem a trouxe aqui? Fra o amor, esta
illuminao da segunda vista. Hedwige proferiu, depois de alguns
instantes de repouso, com a voz entrecortada e tremula:

--Ainda  tempo! Os soldados russos vm em busca de ns; sabem da
conjurao, e perseguem-nos; poupemo-nos para a hora suprema do resgate.

Depois ella veiu para mim e abraou-me. Ia comear a fallar, quando se
sentiu na rua o estrepito de armas, e vozearia de uma soldadesca brutal
e desenfreada. No me custava a vida; mas tel-a a meu lado, alli! vl-a
sujeita  irriso e malvadez dos que vinham para prender-nos! Pobre
Hedwige; ella abraou-me e sorriu-se:

--Tens medo? vejo-te to pallido! Receias que eu no tenha coragem para
corresponder  tua bravura? Eu sou mulher,  verdade. Era ao suspiro de
uma mulher que a liberdade romana acordava sempre. Lucrecia e Virginia
ensinaram-me tambem a ser forte um dia. Karl! eu sinto que n'este
instante nos une um amor mais alto e desinteressado, que nada tem das
paixes terrenas. D-me o abrao que ha de fundir n'uma s as nossas
almas para sempre. Agora j te posso dizer como Arria, se te visse
esmorecer no perigo, o que elle disse levando o punhal ao peito: _Poe,
us, non dolet!_

O tumulto, o som confuso das armas, o tropear dos soldados, no me deixaram
ouvil-a mais. Entraram na sala sombria, como uma onda turbulenta que
irrompe derrubando os diques e se precipita como um vertice fremente. As
armaduras reluziam, e nos causavam a vertigem do terror. Um frio lethal
escoou-se por mim; lembrou-me luctar para defendel-a.

Reinava um silencio de morte. J sabiamos a sorte que nos esperava.
Depois vieram lanar-nos as cadeias pesadas, as gargalheiras infamantes
da escravido, ultrajando com risos aquelle sentimento puro que nos dava
constancia para o martyrio. Era impossivel resistir; todo o esforo
seria inutil. Deixei passivamente algemarem-me. Um olhar firme de
Hedwige inspirou-me uma resignao indizivel. No sei que apparencia
divina, que irradiao sublime, etherea, envolvra o rosto da minha
amada, que os soldados no se atreviam a aproximar-se. Seria esse
terror, que fazia cair em terra, fulminados, os que tocavam na Arca
sacrosanta? Na serenidade altiva que ella mostrava n'este instante,
conheci-lhe uma resoluo extrema; Hedwige queria tambem ser
prisioneira, para soffrer commigo as dores do desterro. Ella lanou mo
do poema que estava sobre a mesa, e comeou a recitar algumas das
estrophes mais arrebatadas, com uma voz prophetica, no tom mysterioso de
uma sibylla. A magia d'aquella voz sentida prendia; ficaram immoveis,
quedos, escutando-a:




Fragmentos de uma Elegia polaca


--E lentamente, mui lentamente, por detraz do Homem-Deus, avana
deslumbrante de belleza e sem vestigios de morte a minha dilecta
Polonia.--Ella pra sobre os umbraes da Sio promettida a todos os
povos, e--d'estas alturas sagradas sua voz retumba, dirigindo-se s
naes reunidas muito longe, l em baixo, nos trminos do espao.

A mim, a mim, oh vs, raas fraternas! A ultima lucta do derradeiro
combate terminou;--os embustes das traies e das mentiras terrestres
esto destruidos.--Subi commigo para o reino da paz.--E o cro das
naes lhe responde: Beno e gloria a ti, oh Polonia! porque ainda que
tenhamos todas soffrido,--tu supportaste mais tormentos que nenhuma de
ns,--Pela enormidade das injustias accumuladas sobre ti, conservavas
constantemente o inimigo debaixo do raio de Deus!--No transe do
martyrio, tiravas de teu corao uma vida mais energica que a dos teus
oppressores,--e pelo teu sacrificio nos salvaste.--Beno e gloria a ti,
oh Polonia!

Oh! quantas vezes por uma noite sombria do outomno, a voz de minha me
ou de algum antepassado se do tumulo, e chega at mim para me fallar do
futuro.--Eis que a este ruido mysterioso, vises estranhas me
apparecem.--O canto de triumpho soltando-se do peito de milhes de
homens, resa em derredor.--Os vencedores passam em phalanges
innumeraveis,--eu vejo as brancas, resplandecentes figuras das irms e
dos irmos libertados da escravido;--a centelha da immortalidade faisca
de todas as frontes.--Mesmo sem azas, elles vogam no r, como se
fossem alados; sem coras brilham como se fossem coroados.--E eu mesmo
prosigo no meio de todos, e me sinto em uma especie de co desconhecido,
antecipado.

E, quem sabe? talvez que a prophecia dos meus sonhos se realisasse j
sobre o tumulo da Polonia! E no havia seno eu, eu cadaver, que faltava
entre os resuscitados! Oh, atravs d'estas grades e d'estes muros que me
fecham como as taboas de um feretro, o meu espirito se illumina e se
expande ao longe, transpondo o tempo e o espao!--Sim, eu vejo: alm,
por toda a parte myriades de estrellas e flores;--o mundo regenerado
celebra suas nupcias com a joven liberdade!--Na aresta dos Alpes, no
cimo dos Carpathos, o co resplandece com os raios da mesma aurora,--e
todos os povos unidos, confundidos, parecem formar um s oceano, por
sobre o qual  levado o espirito de Deus[1].

 medida que ia proseguindo no canto, Hedwige, como a Sulamite dos
_Cantares_, comparada  torre que olha para o occidente, parecia
suspensa; o semblante com a graa diaphana de um seraphim. N'aquella
elevao surprehendente, a commoo embaraou-lhe a voz; no pde
fallar; ficou hirta, livida, como na concentrao violenta do extasis.
Era o genio da Polonia incarnado em uma mulher que soffria. Hedwige
ficou silenciosa; nem um queixume, uma lagrima sequer, quando lhe
roxearam os pulsos. Quando tornou a si, e conheceu que ia compartilhar
commigo a mesma sorte, sorriu-se, com a expresso divina da alegria
dolorosa e da resignao.

Dias depois leram-nos a sentena. Doze annos de desterro e trabalhos na
Siberia. Hedwige escutou impassivel. Custava-me tanto vel-a soffrer em
silencio; ella fazia um esforo inaudito para no vergar com as dores
excessivas; no queria redobrar o meu soffrimento. Oh meu Poeta! foi
ento que me convenci de que o homem  o lobo do homem; peior ainda que
o lobo cerval, porque espia os segredos da nossa alma, e antes que nos
inflijam as sevicias do corpo, torturam-nos o espirito, insultando os
sentimentos mais recatados e santos que nos do coragem nos desalentos
da vida.

Partimos todos na carroa dos desterrados, um _kibitka_ peior que o
tormento inventado para matar o integerrimo Atilio. As rajadas do
inverno eram cortantes, e tiravam-nos todo o vigor para avanar; depois,
vieram amontoando-se os gelos, e nos obrigaram a proseguir a p; a
desolao dos steppes, por onde passavamos, despertava-nos no sei que
sympathia, talvez porque eram uma similhana visivel do abandono e
ruinas em que estavam nossas almas.

Hedwige, delicada e fragil no podia caminhar mais, via-a desmaiar pouco
a pouco; a lividez do sepulchro no semblante desbotado! Parecia-me a
flor mimosa, emmurchecida com as geadas da noite. As pancadas do _knut_,
um ltego formado de tiras de couro cr e rosetas de ferro, com que a
verberavam para adiantar caminho, esgotaram-lhe as foras. Eu no sei
que haja palavras humanas para exprimir a dor e a raiva que senti n'esse
instante, porque o corao do homem nunca soffreu tanto, para descobrir
uma expresso para este infinito da angustia. Hedwige nem se atrevia a
olhar para mim; depois vi-a cair transida de frio e cansao; esgotra o
ultimo esforo. Quizeram deixal-a sepultada entre o gelo. A noite vinha
a fechar-se asperrima, atroz; eu no podia sequer lembrar-me que o corpo
da minha amada ia ser em breve pasto dos abutres. Via-me tambem j sem
foras. Pedi para leval-a aos meus hombros.

Era a loucura e egoismo do amor, que fazia com que a conduzisse, para
sentir ainda agonias mais violentas que a morte.

--Oh! antes me deixasses sepultada na solido dos steppes, exposta s
aves nocturnas, do que vermo-nos agora separados para sempre!--Disse-me
ella a abraar-me phrenetica, louca, quando nos separaram, mal que
chegmos s minas da Siberia.

Os meus companheiros do infortunio no os tornei mais a ver; Hedwige foi
condemnada ao trabalho das minas de mercurio, muito longe. No soube
mais d'ella. A mim, enfiaram-me um capote de feltro e desceram-me
por uma corda pelas gargantas da terra, por um boqueiro escuro; 
medida que ia baixando, ia sentindo vozes confusas, ruido de enxadas.
Ento, vi na obscuridade profunda a luz baa e mortia das lampadas de
segurana, e uma multido de homens escaveirados, magros; era uma cidade
de mumias. Era aquella a minha habitao para doze annos de existencia.
Admirava-me de ver alli crianas; filhos dos desgraados obreiros,
rachiticos, enfezados, no conheciam a luz do mundo, a vida resumia-se
no trabalho insano. As dores que supportava haviam-me embotado o
sentimento, tinha a impassibilidade do idiotismo, a mudez do assombro.
s vezes uma lembrana longiqua de Hedwige e de minha me, a quem no
pude dizer ao menos o extremo adeus, me davam a consciencia de que ainda
vivia; mas no podia alliviar-me com as lagrimas.

Os que me viam nunca se atreveram a perguntar qual o meu crime. No sei
que esperana me prendia  vida, para que me no despedaasse contra as
rochas que ia arrancando. Estava j acostumado  obscuridade. Um dia
comeou a lembrana de Hedwige a occupar-me a imaginao. Seria uma
saudade viva? algum presentimento? Lembrar-se-hia ella tambem de mim
n'esse instante? Julgava-a j morta, criana e debil como era. Sem
Hedwige, para que queria eu a vida? Oh! se a visse ainda uma vez
morreria contente, resignado, perdoando tudo quanto os que se dizem
meus similhantes me fizeram soffrer.

Era uma loucura esta ida. E continuavamos silenciosos a romper a mina
lobrega e funda. Comemos a sentir um cco surdo; eram os trabalhadores
de outras minas, que se encontravam. Continuei a trabalhar com mais
afan, na direco d'onde vinham os sons abafados.

Encontrmo-nos dias depois. Que alegrias, que abraos intimos entre
aquelles socios da desgraa. Se estivesse ali Hedwige! Que fatalidade! o
meu desejo era o presentimento. J te esqueceste de mim? Senti um
abrao sem vigor; fitei nas sombras o vulto, que me fallava e me
estreitava a si. Era ella, livida, desconhecida, com a magreza da
consumpo; o mercurio penetrra-lhe a parte esponjosa dos ossos. Tive
horror do ente que amava, era s a compaixo que me prendia a ella.

--Lembras-te das palavras de Simeo quando na apresentao do templo
viu o Messias em seus braos? Hoje digo-te o mesmo, Karl; j posso morrer.

E eu continuei a viver para vr prolongados a miseria e os flagicios
incriveis, que me cercavam. J no tinha o amor, que alimentava as horas
da minha solido. Hedwige tinha-me expirado nos braos; soltra a alma
candida, acrysolada nas tribulaes, no ultimo beijo, que recebeu de
mim. D'ahi por diante a vida pareceu-me mais impossivel de supportar; eu
no vivia, vegetava como o lichen no fundo de uma caverna escura. A
imbecilidade proveniente da atonia e dos pesares indescriptiveis
prolongara-me a existencia vegetativa.

Lembrava-me minha me. Se a tornaria a vr ainda! Estaria ella j no
sepulchro, ralada com a saudade da ausencia, cansada de esperar a volta
do captiveiro? Sem successos, nem distraces, que me preoccupassem a
vida, cada momento parecia-me um seculo de desesperao. Estes doze
annos foram uma outra existencia. Quando voltei  patria julguei um
renascimento; mas tornava a apparecer  luz do mundo para mais provaes
e dres, porque minha me estava morta; a patria, o que ainda me fazia
palpitar o corao com vida, vejo-a esquecida, inerte sob o jugo
prepotente da Russia. Hoje escrevo-lhe, meu Poeta, porque  a unica
pessoa, que me resta no mundo, e s me prende  vida o juramento, que
fiz de immolal-a no altar da patria.--_Karl_.

O Poeta anonymo da Polonia produziu com os seus poemas o mesmo que
Mickiewich, o auctor do _Banquete de Walenrood_. S depois de morto 
que se soube o seu nome; era o conde Sigismundo de Krasinski. A
liberdade da Polonia fra o unico ideal da sua inspirao;  ella sempre
que transluz nas maravilhas com que enriqueceu a litteratura polaca, nos
_Psalmos do Futuro_, no _Iridion_ na _Comedia Infernal_ e na _Tentao_,
a que anda ligado este facto que narrmos.

    [1] Strophes XIX, XX, XXI do poema _O Ultimo_, do conde
        Sigismundo Krasinski.




O relogio de Strasburgo

(CONTO DE 1352)


A Edade mdia est completamente caracterisada nas suas lendas; porque
se no hade por ellas recompr a historia, animal-a com essas cres
vivas, dar-lhe movimento. A mais extensa, a que absorveu todas as
imaginaes rudes e creadoras, foi a lenda do Diabo, reproduco do
dualismo persa, que apparece fatalmente no periodo instinctivo da gense
religiosa. D'esta idealisao do mal provm, na arte, a realisao
anonyma do grotesco, muitos dos velhos fabularios, e na ascese divina a
tentao de que esto cheios Ribadaneyras e Bollandistas.

A sciencia, nos primeiros seculos da Egreja, foi despresada, amaldioada
como inutil e perigosa, porque tornava o espirito rebelde,
orgulhoso; a alma perdia com ella a simplicidade, que a elevava at
Deus. A observao das leis physicas do mundo era uma impiedade; Bacon e
Sylvestre II foram olhados como feiticeiros.  um martyrologio
interminavel o desenvolvimento da razo. Foi um dos algozes Sam Paulo:
Eu destruirei a sabedoria dos sabios e rejeitarei a sciencia dos
eruditos. O que  feito dos sabios? O que  feito d'estes espiritos
curiosos das sciencias do seculo? No os ha convencido Deus da loucura
das sciencias d'este mundo? A Egreja no se contentou com a acrimonia
da invectiva, quiz encarnar este verbo do obscurantismo. As luctas e as
agonias que se seguiram esto perpetuadas em um sem numero de lendas
sobre as revoltas do espirito, que vieram a synthetisar-se no typo do
_Fausto_.

Em pleno seculo XIV. O sol brilhante, em um co sereno e limpido de um
dia de alegria, derramava-se em torrentes sobre a cathedral de
Strasburgo. Voltada para o oriente, segundo o rigor do symbolismo
religioso, recebia a luz do alto, como um cenaculo em que as linguas de
fogo vinham revelar os mysterios da vida e a serenidade, que ella havia
de infundir aos tristes que se accolhessem, corridos das tempestades do
mundo, na tranquillidade do seu recinto. A luz reflectia-se coruscante
das vidraas, que ostentavam um rosicler das cres mais caprichosas e
vivas; cada pedra, cada angulo, cada saliencia destacava-se
mostrando os rendilhados e lavores exquisitos; a torre parecia ento
mais altiva, no topetava com as nuvens, perdia-se na profundesa do
espao azulado e puro. Era um bello dia de primavera.

Diante da cathedral magestosa foram-se agrupando pouco a pouco alguns
vultos ociosos; e, attrahida _na razo directa das massas_, instantes
depois a multido fluctuava impaciente, como quem espera um prodigio
annunciado, _exempligratia_, um ecclipse. No era nenhum ecclipse, nem
tampouco o apparecimento de um cometa, que ento fazia tremer os
pontifices e os reis. No era mesmo procisso esplendida, que o povo e
os amadores de tertulias estavam esperando com anciedade. O que seria
ento?

Uma figura extranha, embuada em um tabardo escuro, chapo emplumado ao
uso da crte, vinha montado, a passapello, em um cavallo fouveiro;
custava-lhe a romper por entre a turba apinhada; estrangeiro ali, no
quiz atropellar ninguem, e resolveu esperar que o concurso fosse
diminuindo.

--O que est toda esta gente aqui a fazer, em um dia de
trabalho?--perguntou o desconhecido para um rapaz, que parecia
esconder-se entre o vulgo, com um r de tristeza e de uma dr
indizivel.--Ha alguma procisso ou festa de jubileu? Ainda as portas da
cathedral esto fechadas.

-- certo que vindes de bem longe,--volveu-lhe vivamente o pobre
rapaz--pois que ainda vos no chegou a fama do grande Relogio de
Strasburgo.  uma maravilha da Allemanha. No vdes aquella estatuasinha
da Virgem? Diante d'ella, vem ao bater do meio dia os trez Reis Magos
com seus presentes, e o Gallo automato, que l est, saccode as azas
logo que o sol toca o zenith.

O cavalleiro no teve tempo para comprehender o que ouviu, porque um
susurro immenso, repentino, burburinhou por toda a praa. O carrilho de
Strasburgo dava meio dia. Ficaram boquiabertos, attentos esperando o
apparecimento dos Reis Magos. Sentiu-se primeiro o ruido estrepitoso de
umas azas pesadas, depois o clangor de uma voz nea, soturna. O
cavalleiro estava pasmado com o que via. A fama do Relogio de Strasburgo
correra as partidas do mundo. Os palacios, os mosteiros, os castellos
desejavam uma maravilha egual. Ignorava-se o nome do artista. O cabido
da cathedral ufanava-se com to magnifico e singular artefacto.

--Oh! dize-me,--acudiu o cavalleiro, saindo do espasmo da
admirao--dize-me quem fez esta obra prodigiosa, que  a inveja de
todas as cidades do mundo! Porque se no fala no nome d'elle? Onde est
o artista? Venho de Frana para vel-o.

--Perguntaes, nobre cavalleiro, como se eu pudesse violar tal segredo!
Mal sabeis que as vossas palavras acordam na minha alma uma dr profunda
como um ecco n'um pramo aziago. Quem fez o Relogio, perguntaes vs,
e a gloria tenta-me, precipita-me, impelle-me a arriscar a vida! Foi meu
pae!--E as lagrimas de alegria e pesar foram-lhe arrasando os olhos, at
que rompeu em um choro insoffrido de criana. O cavalleiro apeou-se e
estreitou-o nos braos.

-- a saudade de teu pae, que te lava o rosto com esse pranto de
ingenuidade e amor? No soube a morte respeitar to preclaro engenho? E
eu que vinha da parte de Carlos V, de Frana, para visital-o e fallar-lhe!

--Elle ainda vive, senhor. Mas que vida! Oh! antes a morte o tivesse
envolvido nas suas trevas geladas; antes houvesse nascido sem aquella
luz do talento, que  sempre a predestinao do martyrio.

A praa estava j deserta, e os dois partiram enleiados n'esta
conversao. Chegaram  officina do relojoeiro. Era um velho; as cans
alvissimas formavam-lhe um diadema venerando; tinha o rosto escondido
entre as mos, como quem se abysmra n'uma abstraco intensa, ou n'uma
grande e entranhavel agonia. O estrangeiro permaneceu hirto sob a
soleira da porta; no se atrevia a interromper os processos mysteriosos
d'aquella mente perscrutadora. A criana aproximou-se com familiaridade,
e segredou-lhe longamente umas palavras mal articuladas e confusas. O
velho ergueu ento a fronte banhada em uma alegria suave, e voltou-se
para a porta:

--Buscam-me da parte de el-rei Carlos V de Frana?--perguntou elle
com um r affavel e indicando um assento ao desconhecido.

--Em verdade, el-rei me envia aqui.

--E o que pretende de mim, que nada posso, el-rei, que tudo manda?

--Conhecendo a vossa boa fama, vendo que enriquecestes a Allemanha com
essa maravilha do Relogio de Strasburgo, elle quer tambem collocar na
torre do palacio da Justia uma machina, que dividindo com justeza as
doze horas do dia, ensine a observar a justia e as leis.

--Como o no serviria eu de boa vontade, se me no houvessem apagado
para sempre o lume dos olhos. No vdes estas orbitas vasias?
Cegaram-me. Ha j dezeseis annos que vivo mergulhado n'estas sombras
cerradas, que me antecipam a escurido tetrica do sepulchro, mas que me
prolongam a vida, no abandono da desgraa, para soffrer a cada instante
as mais excruciantes provaes. Eu vivo ao desamparo; nem sei j
trabalhar. N'esta solido do espirito, para esquecer o tedio e a
desesperao que me pungem, eu invento machinismos complicados, que o
meu pobre filho executa.  elle o herdeiro do meu engenho. Cada pancada
do relogio no carrilho da cathedral,  uma palavra de sarcasmo, um
insulto vibrado por uma lingua satanica, s entendida por mim. Vou
contando as horas na mudez das noites de insomnia, e cada uma me
descreve com mais feias cres esta morte onde fui precipitado em vida.

Havia nas palavras do velho um mixto de resignao e dor, uma
conformidade, uma santidade admiravel. A fronte, enrugada pelos annos e
o estudo, pendia-lhe sobre o peito; o filho ainda imberbe, engraado,
ingenuo, estava de p a seu lado, mudo, com os olhos no cho.

--Como houve mos to barbaras, que ousaram pr diante do vosso
espirito, para sempre, a sombra eterna da morte? Foi o acaso? Foi a
malvadez que vos despenhou n'essa desgraa? Seria a inveja quem vos
supplantou  traio, vendo-se obrigada a admirar os artefactos que no
podia exceder? Oh, contae-me. No! no! tenho horror de ouvir; deve
custar-vos muito isso. El-rei ha de sabel-o e acudir-vos.

O velho ergueu lentamente a fronte; poisou as mos sobre a cabea loira
do filho, brincando distraido com os cabellos anellados. Depois de um
momento de indeciso, comeou:

--O bispo Joo de Lichtenberg encommendou-me um relogio grande para a
torre de Strasburgo. Era preciso que as horas canonicas fossem
observadas com escrupulo; as irregularidades na diviso do tempo
causavam graves inconvenientes s resas e officios divinos do cro. Eu
trabalhei dois annos consecutivos; tinha empenhada n'aquella obra a
minha fama. Inventei um kalendario em que representava as indicaes das
principaes festas moveis: ao lado puz-lhe um quadro em que estavam
escriptas em verso as principaes propriedades dos sete planetas; ao meio
colloquei-lhe um astrolabio, em que os ponteiros notavam o
movimento do sol e da lua, as horas e os quartos. Ao alto estava uma
estatua da Virgem, ante a qual se inclinavam, ao dar do meio dia, as
figuras dos tres Reis Magos. Ficaram espantados com a maravilha da obra;
sou por toda a parte a fama d'ella. O povo agglomerava-se na praa para
vr. O cabido receiou que os outros mosteiros ou as crtes da Europa
quizessem ter um monumento egual. Como impedil-o? Uma noite, estava eu
descanando do trabalho assiduo, improbo que levava, quando me bateram 
porta. Vieram dizer-me que o relogio estava parado. Levantei-me 
pressa, atterrado, confuso, e dirigi-me para a torre. Quando ia subindo,
e j a uma altura vertiginosa, apagaram-se de repente os archotes; os
que me acompanhavam, lanaram mo de mim para me precipitar; as unhas
prenderam-me s fendas da cantaria, com a tenacidade do amor  vida. Por
fim, cansados, agarraram-me, arrancaram-me os olhos. Aos meus gritos, os
malvados respondiam que me dsse por feliz em no ser queimado vivo na
praa publica, exposto  irriso da plebe, por feiticeiro; que eu tinha
pacto com Satanaz, que o evocava com linhas cabalisticas com que formava
as rodas denteadas.

O pobre velho permaneceu um instante silencioso reflectindo no assombro
d'aquella noite infernal; depois mudando de conversa, o embaixador
pediu-lhe para levar o filho, que havia de fazer por certo o
relogio para o palacio da justia. No faltaram negaes e hesitaes. O
velho conhecia o talento do filho, e temia um egual desastre. O
cavalleiro jurou protejel-o com a vida, e trazel-o incolume a casa de
seu pae, logo que tivesse findado o trabalho.

O relogio foi posto na torre do palacio da Justia, e, elle que
aconselhava a observancia da justia e das leis, foi o mesmo que, dois
seculos mais tarde deu o signal para a execranda carnificina da noite de
S. Bartholomeu.

Quando o filho do relojoeiro de Strasburgo voltou  patria, ainda o
pobre velho vivia. Estava no meio da sua desgraa, possuido de uma
alegria infinita. Na solido do espirito em que ficara, procurara
constantemente vingar-se. Vingou-se afinal. Um dia conseguiu
aproximar-se do Relogio, e tocou em uma roda de tal forma, que no
tornou mais a regular, apesar de todos os esforos; em 1574, intentou
restaural-o Dasypodius, outros em 1669, em 1731, at que cessou de
trabalhar em 1789, como uma riliquia ultima da Edade media que
arrebatava a Revoluo. O desgraado levava esta unica consolao do
mundo. A mesma lenda se conta dos relogios de Nuremberg, de Auxerre e
Lyon, em que as verses parecem filhas da comprehenso de uma mesma
verdade.




Um erro no kalendario

EPISODIO DA HISTORIA DA INQUISIO EM HESPANHA


I

Quem o visse sentia-se atrahido para elle por uma fatalidade
irresistivel. O olhar encovado e scintilante tinha a fascinao da ona
refalsada. A estamenha monastica da humildade era uma arma de que se
servia. A cr sombria do remorso, que o ralava interiormente, sabia
invertel-a to bem na macerao da penitencia, que assim facil lhe era
devassar todas as consciencias, e submettel-as ao seu capricho,
tyrannisal-as, alimentando sempre uma infinidade de horrores
futilissimos, com que as trazia suspensas. Cabisbaixo, meditando
continuamente um longo plano de vingana, de uma sevicia obscura e
mesquinha, os que o viam achavam n'aquella gravidade satanica de monge
um r contemplativo de compuno piedosa.

O frade fez-se Director espiritual.

De uma extrao illustre, rico, herdeiro de um grande nome, porque
despresaria as pompas do mundo, os amores do seculo, as glorias?
Acordar-lhe-hiam os annos todos esses sentimentos a um tempo na alma, e
o horror do impossivel tornal-o-hia hypocrita, apagando-lhe a esperana
com o sopro do cynismo? Elle amra a filha de um velho fidalgo de
Hespanha, que desejava tambem realisar essa alliana dos seus
pergaminhos com as grossas sommas do enamorado de Hernanda, a madrilena
engraada, de ingenua desenvoltura. Hernanda, na morbidez voluptuosa da
sua natureza oriental, nunca mais sorriu, nunca mais deixou vr aquella
alegria impaciente que a animava, logo que soube a resoluo da familia.
Detestava o galanteador, aborrecia-o de morte, resistindo sempre s
instancias e ameaas do pae, que procurava sacrifical-a aos interesses e
pompas do seu brazo de armas.

Hernanda tinha um amor de infancia, puro, recondito; como um raio de luz
que nos fecunda ao desabrochar da vida, aquella affinidade precoce e
ignorada de todos fora uma intuio do sentimento. Amaram-se longo tempo
sem saber o que era amor. Quando um dia acordaram  luz sentiram
necessidade um do outro, a anciedade de uma mesma aspirao identificou
as suas almas para sempre. Cedo o noivo proposto soube da existencia de
um rival obscuro. Procurou-o, farejou-o na sombra, lanou-lhe o repto.
Encontraram-se. Ambos corajosos e fortes bateram-se destemidos em
um duello a todo o transe.

Logo que Hernanda soube da morte do seu amor primeiro jurou um odio
eterno ao assassino. O velho fidalgo no comprehendia estas coisas;
ameaou-a com o convento. A ida da clausura, em vez de amedrontal-a,
sorriu-lhe; era um refugio, o unico que lhe restava no mundo, depois de
perdida a esperana que resume todas as que se podem ter na vida.
Professou.

O galanteador assistiu impassivel na egreja, para ouvil-a pronunciar os
votos. Havia n'aquella coragem uma alegria selvagem, egoista, para vr
que a mulher que elle amava debalde, no havia de pertencer a mais
ninguem. Depois de satisfeito este instincto, lembrando-se de que fra
ludibriado, despresado, passou-lhe pela cabea uma ida atroz de
vingana. Queria salvar o seu orgulho ferido. Lembrou-se tambem de
abandonar o mundo, esconder-se debaixo da cugula monastica. Para os que
o conheciam foi um rasgo heroico de resignao; para elle era um meio de
poder vr de mais perto Hernanda: s assim podia tortural-a, vir a ser
seu Director espiritual.

O socego da solido deixa apreciar os ruidos mais imperceptiveis;
Hernanda na mudez da cella, na ausencia completa de interesses que lhe
povoassem a existencia, era impressionada profundamente pelos
sentimentos mais leves que lhe passavam n'alma como as auras suaves
pelas cordas de uma harpa. A imaginao desenvolvera-se a tal
ponto, que a fazia soffrer. Foi assim que frei Pedro, o disfarado
monge, veiu a ser seu Director de consciencia. Elle exagerava as
doutrinas mysticas do dualismo, o predominio do mal, essa lucta
incessante do espirito contra a carne, fortificada pelas mortificaes
do corpo, pela vigilia, cilicios, jejuns, e oraes fervorosas.
Provocava-a a abstrahir do goso dos sentidos, a contrariar a natureza e
abnegar da vida. Apontava-lhe a natureza risonha e luxuriante como uma
voluptuosidade, o regosijo e sde de amor que a harmonia do universo
infunde como uma infraco  regra austera da perfectibilidade.

Era preciso a solido para gosar essa existencia intima, recondita, e
arrebatar-se at Deus. Com o silencio imposto, arvorado em preceito,
exaltou-lhe a vida interior, e o tumulto de idas que se succediam
prolongava a excitao cerebral. A vigilia extensa e continua, a
macerao e a leitura piedosa foram-lhe desconcertando o equilibrio
nervoso. As vises extravagantes cercavam-na; vozes estranhas
segredavam-lhe palavras assombrosas, que ella repetia tremendo na
penumbra do confessionario.

Foi ento que o monge, depois de a ter desprendido pela ascese
insistente dos limos da terra, lhe comeou a falar de amor, o _amor
divino_, a anciedade preenchida pelo vacuo, a sde mitigada com a calma
do dezerto. A imaginao perdida n'esse ideal vago, sem realidade
possivel, delirava, revestia a imagem palpavel com todos os
encantos de um devaneio sensual, dava-lhe vida, amor, para corresponder
ao que tumultuava na sua alma solitaria. Mulher, menos curiosa da razo
sufficiente das cousas, sujeita a perturbaes hystericas, enamorava-se
da fronte altiva e conjuntamente modesta do Christo, como a
representavam os pintores da Edade media; esquecia-se da vida exterior,
parecia que a alma livre se absorvia na imanencia da divindade. Era este
amor, inspirado pelas imagens dos templos, to desvairado como a paixo
do artista grego pela estatua eburnea que palpitava debaixo do escpro.
Santa Rosa de Lima amava uma imagem da Virgem que tinha nos braos o
_bambino_. Ozana de Mantua, diante de uma imagem linda, caa em extasis.
Estas figuras de Jesus, radiantes de candura e fascinao, bellas,
fallavam aos sentidos;  por isso que o _amor divino_ tem na sua
vehemencia e transporte um caracter sensual, como o exprimiram o
solitario da Ombria nos seus cantos a Santa Clara, S. Joo da Cruz a
Santa Thereza de Jesus, Madame Chantal e S. Francisco de Sales, Fenelon
e Madame Guyon.

O Director espiritual da desditosa Hernanda, descrevendo-lhe o _amor
divino_, isempto da zelotypia das paixes do mundo, no tendo a alma
candida de nenhum d'esses apaixonados e santos poetas, presentira, dois
seculos antes, a theoria ascetica de Molinos. Tinha em vista matar o
peccado pelo peccado. Era impossivel j. Hernanda pairava em espirito
pelo empyreo; sua alma pura abysmara-se na immensidade do fco de
todo o amor. O extasis em Hernanda, originado pelo fervor piedoso, era o
entorpecimento dos sentidos, um scismar indolente  cadencia dos
inefaveis concertos das cytharas dos cherubins.

Ento o Director de consciencia descobriu uma nova tortura para
flagellal-a; tinha um prazer infernal em tornar-lhe lento o soffrimento.
Elle mostrava-lhe que era o extasis o mais alto favor do co concedido
aos seus eleitos, e descobria ao mesmo tempo como isso era para todos os
grandes santos uma provao difficil, pelo terror dos _proprios
merecimentos_. Sam Paulo, o que melhor revelou nos seus escriptos o
espirito do christianismo, na Epistola segunda aos Corynthios, fala
d'este terror.

N'aquella virgindade timida da alma, o corpo foi caindo em inanio;
tinha uma immobilidade beatifica. Apesar de todos os flagicios e
maceraes, o rosto conservava ainda a frescura da rosa entreaberta,
rociada pelo orvalho matutino. No passamento das virgens, sereno como o
declinar de uma aurora vespertina de primavera, Jesus visitava as suas
desposadas, como referem os legendarios. Hernanda abrazra-se no amor
ardente do co; o vacuo absorvera-lhe o derradeiro alento e sua alma
soltou-se na ancia do infinito. Alta noite, sentiram-se umas harmonias
transbordando em enchentes do orgo do mosteiro; era uma musica
indisivel, nunca ouvida na terra. Foram vr; ninguem percorria o
teclado. Melodias suavissimas e remotas derramavam-se da cella de
Hernanda. Entraram. Respiravam-se perfumes arios em torno d'ella. Um
sorriso diaphano, angelico, lhe ficra nos labios desbotados, como a
ultima vibrao de uma harpa que se quebrara; parecia a incarnao de um
sonho melifluo das harmonias de Palestrina.


II

Desde o romper d'alva, que os sinos da Cathedral eccoavam clangorosos
n'um dobre funerario; o povo agitava-se inquieto pelas ruas, como na
impaciencia de uma grande festa. Era o dia de um _Auto de F_ em
Hespanha, uma solemnidade extraordinaria, com que se celebrava e honrava
a coroao dos reis, o nascimento do herdeiro presumptivo, e a sua
maioridade; era o grande drama judiciario da velha jurisprudencia
theocratica revestido dos horrores do symbolo, mesclado de sangue
derramado pelo fanatismo e prepotencia monachal. A procisso vinha
coleando ao longe, com uma gravidade funebre, misturada de risos do
rapazio que tudo paroda. Por todas as janellas negrejavam cabeas,
donzellas engraadas, contentes, distraidas com a festividade
apparatosa.  frente das confrarias e irmandades, os carvoeiros traziam
a lenha para a fogueira, imitando o passo da Escriptura, em que Isaac
caminhava para a montanha do sacrificio. Seguiam-se em filas
extensas os frades dominicanos, arvorada na frente a cruz branca, e o
bolso inquisitorial de damasco vermelho do duque de Medina Celli. Os
penitenciados vinham vestidos de um modo irrisorio e grotesco,
descalos, cobertos de um sambenito, com um chapeu afunilado, com
figuras cabalisticas, diabos, labaredas e caveiras pintadas.

A multido pavida e credula, sentia aquella grande contradio do
corao humano, apupava os miseraveis que interiormente a commoviam e
lhe arrancavam lagrimas de compaixo. Chegados proximo do estrado real,
o Inquisidor geral veiu receber o juramento da extirpao das heresias.
Os brandes crepitavam nas mos dos condemnados; tornavam mais lugubre o
momento. Depois viu-se levantar uma figura macilenta, a cabea encoberta
no capuz, cruzadas as mos sobre o peito em que tinha repousado um
crucifixo, o mesmo que um dia apresentra diante dos reis catholicos
Fernando e Izabel, dizendo-lhes que--o vendessem por trinta dinheiros,
j que se queriam tornar menos rigorosos contra os judeus. Era o
prgador frei Pedro. A voz taurina fazia estremecer as turbas,
representando-lhes ao vivo, nos esgares e visagens que fazia, os
terrores das penas do inferno. A multido estava suspensa ante as
vociferaes sangrentas do dominicano.

--Sabes... (disse um desconhecido para um cavalleiro ainda novo, que
estava attento) no o conheces?

O outro respondeu-lhe em voz baixa, de um modo quasi imperceptivel:

--Ah, s tu, Diego Ortis? Bem o conheo pela fama de seu nome.  Pedro
de Arbus.

E no te sentes possuido de raiva ao pronunciar esse nome de um
hypocrita e assassino?

--Assassino?

--Sim! Bem o devras saber, porque  a ti a quem compete a vingana.
Elle pretendeu por todos os meios desposar Hernanda, tua irm.
Lembras-te? Era rico, e teu pae desejava com todas as veras d'alma este
enlace. A infeliz menina resistiu sempre, at que se viu obrigada a
professar em um mosteiro, abandonada da familia. No  verdade isto?
Ferido no orgulho, elle metteu-se a padre, disfarou-se debaixo da
cugula monastica e fez-se seu Director espiritual. Matou-a lentamente
com jejuns e maceraes, com a lembrana continua da tentao e da
condemnao eterna. Pobre Hernanda! o mundo disse que morrera como uma
santa; Deus sabe que desesperos profundos lhe abalaram a vida, e quantas
vezes, no intimo da alma oppressa, no amaldioou a hora do seu nascimento!

--E como sabes isso?

--Como o sei? Eu digo-te s que a vingana no dorme. Tambem tenho um
legado de sangue a cumprir. Era meu irmo o apaixonado, o eleito de
Hernanda. Se ha nada mais santo do que um amor que nos acompanha desde a
infancia. Alonso Ortis, doestado pelo rival audacioso, bateu-se
generosamente e caiu ferido, morto  traio. J comprehendes tudo.

--Inferno! Para que me disseste essas cousas aqui, entre esta gente?
Sinto a convulso da raiva que prostra, a sde de sangue que me atira
para elle. Hernanda! a desgraada, a silenciosa, a timida, que tudo
soffreu e nunca soube queixar-se! Eu quero trocar todas as tuas dores
por um prazer egoista de vingana. Fala-me, Diego Ortis; o que queres de
mim?

--Quero prudencia! Eu tenho esperado dia e noite, por toda a parte, e
nunca o tenho encontrado! nunca esta mo deixou de repousar sobre o
punhal, e ainda me parece que no  chegado o momento.

A este tempo o frade estava na perorao do discurso; a turba batia nas
faces, consternada, por terra. Os dois vultos permaneciam de p,
insensiveis. O prgador desceu do pulpito e vinha acercando-se d'elles
com um olhar ameaador, para reprehendel-os da inslita irreverencia. O
joven fidalgo precipitou os planos de vingana, e arremetteu com um
punhal no r: apesar do impeto com que foi brandido resvalou sobre o
habito que encobria debaixo uma armadura cerrada.

Ergueu-se um susurro repentino. Era impossivel a salvao; com a ancia
do desespero Diego Ortis descarregou-lhe promptamente sobre o craneo
tonsurado a sua espada de cavalleiro. O povo alarmou-se e ia a
precipitar-se sobre os facinoras; recuou de horror diante da
impassibilidade dos dois. A estatura corpulenta do padre tomou as
propores de um Goliath, derrubado, banhado de sangue negro, a massa
encephalica derramando-se pelas soturas fracturadas do craneo. Fazia
horror.

N'aquelle mesmo dia os dois assassinos foram penitenciados;
interrompeu-se a missa, e a procisso proseguiu levando-os para o
_Quemadero_, onde, com os demais, foram devorados pelas chammas.
Seguiram-se as pesquizas, as vexaes e os sequestros; com os seus
processos tenebrosos a Inquisio lanou a rede por sobre muitas
familias. A Hespanha era, como se disse, uma grande fogueira. Mas como
ha uma antithese fatal na natureza humana, manifestada muitas vezes, a
cada instante da vida, na transio instantanea do sublime ao ridiculo,
Roma parodiou tambem esta scena sanguinolenta do drama tetrico de
Torquemada na fara jocosa da canonisao do frade prgador, que ainda
hoje se venera nos altares e de quem resa a folhinha com o nome de S.
Pedro de Arbus.

_Ora pro nobis._




A adega de Funck

CONTO FUNDADO DAS NOTAS DE HOFFMANN


A ironia, quando no  despertada pela lucta incessante de contrariedades
imprevistas, que cercam o espirito de duvidas e desesperos, e o deixam na
prostrao da indifferena e do cynismo,  uma doena, uma febre lenta, que
vae devorando a existencia, depois de a ter despido de todas as alegrias.
Observa-se no pessimismo do poeta. O riso com que a ironia se traduz, que 
a expresso que mais de prompto lhe acode no accesso do phrenesi suscitado
pela vista repentina de um contraste, para quem o comprehende,  uma
visagem infernal, um esgar que gela, um arremedilho de cadaver sacudido por
uma pilha galvanica.  uma descarga nervosa pela via muscular, como uma
compensao, como notaram os physiologistas.

A gargalhada  tambem a linguagem das grandes agonias;  esta polaridade
mysteriosa da nossa natureza dupla, constituida j em aphorismo: os
extremos tocam-se. A ironia, derivada do mesmo principio supremo,  a
impresso abrupta de uma ida infinita que se compara com outra finita,
cuja disparidade intuitiva desperta em ns todas as vibraes do
sentimento comico. A primeira manifestao do comico na vida foi por
certo o _grotesco_; Susarion e Thespis caracterisavam os seus
personagens com borras de vinho. Elle apparece-nos no mundo moderno como
uma arma da burguezia contra a presso do clero e as extorses dos
senhores feudaes, na _Festa do Asno_, nos _servios_, nos _fabliaux_,
nos baixos relvos e goteiras das cathedraes. O pico, a agudeza do
pensamento esto completamente materialisadas na imagem; eis o comico
pela sua parte visivel ou objectiva, tanto da sympathia popular.

O _humour_  um gro elevado; no contraste que se funda na antithese da
aco e o pensamento, a frma no corresponde, contrara mesmo a
expresso da ida, d'onde resulta uma monotonia triste; o esforo do que
procura alegrar-se infunde nos que o contemplam uma melancholia
indefinida, como na _Viagem_ de Sterne.

A ironia  a impossibilidade de conciliar os elementos da antithese, ou
o contraste mental que gera todo o sentimento comico: tal  o
desespero de Hamlet propondo ao seu espirito o problema insoluvel e
eterno:

    _To be or not to be that is the question._

A imaginao de Hoffmann similha um kaleidoscopo onde estas trez
cambiantes do sentimento se reflectem, confundem, se cruzam em direces
infinitas, formando um espectro a que chamamos o _phantastico_. A
ironia, o humorismo e o grotesco succedem-se, como phases da sua
inspirao. Quando elle sente estas inverses do systema nervoso,
annuncio da _tabes dorsalis_ que progride de um modo irremissivel, o
pensamento ento d frma a todas as vertigens; a dr torna a creao
pessoal, caprichosa; os retratos que elle faz so quasi sempre
caricaturas, a incarnao de um riso de desespero. As bebidas e o seu
cachimbo de Kumer vm distrail-o da consumpo que elle observa a cada
instante em si. O fumo que se ennovella em frmas extravagantes no r, e
se dissipa como uma chimera fugitiva, representa-lhe os typos que
reproduz nos seus contos. Ao fogo, na concentrao intima da familia, o
cachimbo povoa-lhe o aposento de sylphos e gnomons, que embalam a
phantasia enlevada em sonhos incriveis, com musicas estranhas que o
deliciam no egoismo do soffrimento que o corre. Elle tem uma affeio
particular s pessoas espirituosas, porque lhes suppe talvez a veia
sarcastica proveniente de algum estado morbido. Quando se retrata
caricaturisa-se.

Muitas vezes acceita-se uma creao comica, rimo-nos, sem saber que a
inspirao que a produziu foi a doena que arrebatou Molire, o
desalento de Gil Vicente, a resignao de Scarron. Porque no procuraria
Hoffmann distrair-se com o vinho, afogar n'elle a preoccupao do mal
irremediavel, que lhe atacava a espinha dorsal?

O seu editor Funck, homem estimavel de caracter, a quem a especulao
no poz em guerra com os que tm a infelicidade de precisar escrever,
convidou-o para passar alguns dias na sua residencia em Bamberg. Funck
tinha uma magnifica adega e lembrava-se perfeitamente d'aquellas
expresses de Hoffmann: Fala-se muito do enthusiasmo que procuram os
artistas no uso das bebidas fortes; citam-se musicos, poetas que no
podem trabalhar seno assim; _eu no sei_, mas  certo que com esta
feliz disposio, direi, quasi sob a constellao favoravel, em que se
est quando o espirito passa da concepo  realisao, as bebidas
espirituosas acceleram a torrente das idas.

Funck tinha o mais excellente de todos os vinhos, como lhe chamava
Hoffmann, o _Porto_, que no seu nome traz o segredo da sua fora. O
escriptor original era esperado com anciedade em Bamberg. Chegou por uma
tarde fria. O co estava escuro, carregado de nuvens; relampejava a
espaos, como o preludio de uma grande trovoada nocturna. Quando a
natureza  triste sentimos uma vontade de nos reconcentrarmos; o
lar domestico  a grande poesia do norte. Um dos maiores castigos no
antigo direito germanico era a pena severa expressa n'aquella formula
romana _interdictio tecti_; o banido  comparado ao lobo solitario; a
casa era arrasada, tapado o poo, extincto para sempre o fogo do lar.

Hoffmann esquecia todas as dres ao abraar aquelle amigo; com toda a
liberdade de uma confiana intima sentou-se logo ao piano. O phrenesi da
inspirao fazia-o percorrer desesperadamente o teclado. Era a sua
ultima composio, meio improvisada com o jubilo que sentia. Comeou um
canto com uma voz desentoada, que fazia arripiar os nervos; parecia que
estava em delirio. N'isto um trovo rebentou com um estampido soturno.

--A natureza, disse elle para Funck, escarnece-se de mim, parodia-me a
voz roufenha. Ha bastantes dias que tenho sentido humor para o romantico
religioso. _Jovis omnia plena!_ Hoje, no sei se  o excesso da alegria,
predomina em mim uma exaltao humoristica levada at  ida da aberrao.

Funck continuava silencioso. Hoffmann permaneceu alheiado alguns
instantes, como levado por uma serie de deduces, que absorvem
fatalmente toda a conteno do espirito. Estava a diagnosticar-se; a
prolongada doena dera-lhe um certo conhecimento do seu estado. Depois
proseguiu:

-- notavel! Que diversidade de sensaes agora. Disposies
humoristicas, colericas, com um humor musical exaltado, e
sentimento de um bem estar com indifferena. Como conciliar tudo isto? O
systhema nervoso inverte-se-me de dia para dia.

Restrugia um aguaceiro espesso. Ha no cair da agua uma magia, que adormece.

--Vamos, disse Funck, interrompendo aquella reflexo penosa, eu tenho um
excellente remedio. Vejo-te tiritar com frio, de um modo que me tira a
satisfao do agasalho que presto a um amigo. O seio de Abraho deve
estar com uma temperatura suave; refugiemo-nos l.

--Como isso era bom! mas infelizmente as azas da poesia no nos
desprendem da terra; a realidade  peior do que o sol para as azas de
Icaro; ella toca-nos o corpo com mais aspereza do que o velho Satan
quando experimentava o desgraado varo da terra de Hus. Agora acho-me
divorciado com a poesia, com a musica, com a pintura; so as tres furias
que sob uma apparencia seductora surgiram das sombras do paganismo para
attribularem-me o espirito.

--E por que no havemos de refugiar-nos, em uma tarde d'estas, no seio de
Abraho?--disse Funck procurando interromper a corrente das idas
afflictivas.--No  to dificil como pensas. Nem so precizas azas para ir
l. Para descermos basta obedecer  lei eterna da gravidade, que sobre ns
psa. No sabias ainda que a gravidade  o nosso peccado original?

Hoffmann sorriu-se; o seu amigo tomou um tom humoristico para se
adequar ao caracter d'elle n'esse dia.

--Apesar da facilidade que apresentas ainda no resolvi o problema. Como
iremos ns procurar conforto ao seio de Abraho?

--Segue-me.

Funck caminhava adiante com um r victorioso. Hoffmann sorria-se com um
modo duvidoso, para que o riso o defendesse do logro que esperava.
Desceram uma escadaria escura; uns ferrolhos pesados gemeram, como se se
abaixasse uma ponte levadia. Entraram. Era um subterraneo fundo,
allumiado por um lampadario de bronze. Depois de affeito  sombra,
Hoffmann pde discriminar grandes toneis dispostos, como uma longa fila
de cachaci-pansudos conegos.

Era a adega do seu amigo Funck. De facto havia ali uma temperatura
tepida, de fermentao. Nenhum olhar importuno atravs da abobada calada.

--Se os velhos patriarchas, principalmente nosso pae No, no trocariam
de boa vontade a tua adega pelo seio de Abraho!--Hoffmann estava
animado de uma alegria indisivel; era um homem de extremos; a
sensibilidade excessiva deixava-lhe apreciar os mais desapercebidos
contrastes, era por isto que elle possua mais do que ninguem o _genus
irritabile vatum_.

Mal acabava de proferir aquellas palavras, quando se atirou de um salto,
com uma loucura de criana, e se escarranchou em um tonel.

Funck seguiu o exemplo.

--A vida  um grande mar, que estua em convulses interminaveis; felizes
os que caindo na voragem encontram d'estes delphins, que os tomam sobre
si e os levam a porto seguro.

--Foste feliz na imagem, principalmente, porque o vinho desperta-me o
humor erotico-musical, e os delphins, se dermos credito a antigos
fabuladores, eram levados pela magia da musica.

E comeou a cantar alguns trechos da sua opera a _Ondina_, que s
interrompeu para levar  bocca o sifo de lata que estava mergulhado na
pipa. Hoffmann tocava a realidade dos seus contos.

--Este no d pelos calcanhares do teu dilecto _Porto_?--accudiu Funck;
o vinho de Nuits  dos melhores de Borgonha, e, graas ao co, podemos
nadar em mar de rosas.

A noite corria tempestuosa e tetrica: os troves rebentavam com uma
detonao tremenda. Nos res, coriscou um relampago repentino e veiu
illuminar com um claro pallido o rosto dos dois amigos, que tocavam
n'este momento os copos espumantes. Era um quadro com toda a verdade e
simplicidade de Teniers, como o proprio Funck, em uma nota de uma edio
do seu amigo, confessa com aquella ingenuidade allem.

Hoffmann ficou deslumbrado com o fulgor instantaneo; tinha a mudez do
terror.

--Em que pensas?

--Um conto, um conto horrivel!

--Mais uma saude, e narra-me essa historia ponto por ponto.

--Historia? dizes bem; porque tem muita verdade, ao menos a verdade da
arte. Nunca te fallaram n'isso? Admira! Foi to notorio. Quem a no
conheceu! Bella, como era, ninguem podia fital-a sem experimentar o
pasmo da admirao. As linhas do semblante tinham uma irradiao
etherea, perdiam-se no r. Era uma viso suspensa, a incarnao de um
sonho indizivel de amor.

A tristeza realava-lhe a candura angelica. Para ella, a vida era um
desterro no mundo. Passava, alheia de tudo, distraida, sem saber que
levava apoz si todas as aspiraes que um olhar de relance, fortuito,
gerava na alma. Um dia vi-a pelo brao de um homem feio, que a conduzia
com burlesca familiaridade! Disseram-me que era o marido.

Perscrutei o segredo de uma unio para mim impossivel, inexplicavel. No
tinha sido arrojada a hypothese: viviam com uma certa paz artificial, um
accordo de conveno ante a sociedade. O marido bem conhecia, que a
familia da engraada criana a forara quella unio desegual; a
consciencia da riqueza no conseguira persuadil-o de que a merecesse; e
espreitava, espiava-lhe todos os olhares, interpretava-lhe cada gesto
insensivel.

O que no idearia o ciume? O ciume que no tem a franqueza selvagem de
Othello  vil, infame. Um dia, a infeliz senhora, comeou a
sentir-se indisposta; no faltavam carinhos da parte do esposo, no
poupava esforos para consolal-a, com uma solicitude hypocrita. O mal
progredia, convulses violentas a accommettiam, vertigens assombrosas,
dores intensas, como se lhe retalhassem as entranhas. O marido escutava
os gemidos com um pungimento affectado.

Conhecera que morria:--Sabes, disse ella tomando-lhe uma das mos, eu
deixo a vida, mas custa-me baixar  frieza do sepulchro sem te dizer uma
palavra. Oh! nem sei como revelar-te esse segredo, esse desvario de uma
paixo infantil. No soube guardar a fidelidade do thalamo. O marido
ouviu a confidencia solemne com um r estupido de imbecilidade:--s
n'este momento to generosa e grande! A verdade nos teus labios vibra-me
de um modo que tudo te perdo. Choras? escuta. Deixa tambem fazer-te uma
revelao tremenda: envenenei-te.

Hoffmann no pde tirar do conto a moralidade que se espera, e caiu,
esquecido do mundo, entre os toneis do seu amigo.


  Revelao de um caracter

Como eu, elle tambem vivia ignorado, ocioso, distrado, fumando sempre,
debruado de uma janella que deitava sobre o mar. Passava horas
esquecidas assim, a contemplar as ondas no seu eterno refluxo, imagem
dos pensamentos reconditos, das aspiraes impossiveis, que tempestuavam
na solido de sua alma. Muitas vezes me disse elle, quando a indiscrio
da amisade o ia interromper do quietismo contemplativo que o absorvia, e
lhe perguntava que idas mysteriosas o afastavam para to longe da
realidade e da vida:

--Se fosse possivel exprimir, stenographar na palavra tudo o que se
revolve na mente, o homem mais sabio pareceria um tolo; se fossem
coerciveis todos os sentimentos, que passam e succedem no corao,
o homem mais santo e simples apparecer-nos-hia com a hediondez da infamia.

E continuava, embebido n'um scismar indefinivel, extranho a tudo o que
se passava em volta d'elle, como na reconcentrao de um grande
desgosto. Outras vezes mostrava uma alegria irrepressivel, impaciente,
louca, sem motivo; mas cada riso era o preludio de imprecaes e ironias
pungentes, que vibrava dos labios acerados: o enunciado breve e incisivo
d'uma grande verdade, mas triste, horrenda, incrivel, e infelizmente
verdadeira, que a sua lucidez de doente descobria. No sei qual o
torturra primeiro, se a duvida ou o sarcasmo. Elle submettia  analyse
fria os sentimentos mais puros e intimos, volatilisava-os pelos
processos de uma dialectica irretorquivel, e por fim o ultimo canon da
sua logica era uma gargalhada irritante que fazia gelar de medo. Elle
mesmo se doa de sua crueldade, era o primeiro a accusar-se e a procurar
corrigir-se. As linhas de sua physionomia davam-lhe ao semblante uma
frma angulosa, de energia; o olhar incerto no repousava, como quem
observa nas sombras de um abysmo insondavel, nunca o fitava, temendo
talvez que lhe surprehendessem na expresso fugitiva que o animava o
ridiculo, que sabia admiravelmente descobrir.

Deixei de procural-o longo tempo; repugnava-me aquelle caracter
incomprehensivel; para monomaniaco era insupportavel, para
excentricidade despresivel. As contradies tornavam-no absurdo.
Custava-me vel-o na consumpo d'essa apathia, criana e foragido do
mundo, sem ter a commoo dos grandes sentimentos que nos prendem 
vida, e que so o conforto nas horas vagarosas do desalento. De uma vez
encontrei-o a ler com uma voracidade, como a de Isaas ao revolver as
paginas dos arcanos imperscrutaveis. Procurei vr se a sua imaginao
viva o tornava illuminado, se era a consciencia da segunda vista, da
percepo immediata que o tornava ocioso e inerte:

--O que ls? Que livro  esse que um dia te prendeu a atteno
inconciliavel?

--Uma terrivel obra prima, uma perigosissima e espantosa maravilha de
arte!  um romance de Diderot, que contm em si o germen de uma
revoluo moral, o _Neveu de Rameau_. Nunca o leste?  impossivel
observar mais profundamente o corao do homem, isolar-lhe os
sentimentos e reproduzil-os em uma creao mais brilhante. Somos todos
como elle. _Rameau_  a grande contradico da nossa natureza, com a
differena que obra segundo essa fora, no se contrafaz pelas
conveniencias da sociedade, obedece-lhe fatalmente, e  por isso que
horrorisa; as maximas do cynismo mais revoltante e abjecto, as doutrinas
mais subversivas de toda a ordem, vm-lhe no dialogo animado, seguidas
de sentimentos purissimos, intenes boas e justas, de um modo abrupto,
que espanta. Os seus paradoxos so os da humanidade, com a differena
que a educao os abafa no intimo de nossa consciencia, e elle, o
parasita, o musico, o bandido, o desgraado _Rameau_, tem a infelicidade
de pensar alto; deixa vr, atravs da sua ingenuidade, todas as paixes
despertadas por desenfreados instinctos, que existem egualmente em ns,
mas que os refreamos e os detestamos, como se fossem a degradao nos
outros. Este livro  a synthese da philosophia do seculo XVIII; ella
avanou principios de uma verdade inconcussa, de raso profunda, a raso
universal, de todos os tempos, mas que foram combatidos e ainda hoje no
so completamente admissiveis, por esta maldita necessidade de
transigirmos com as conveniencias.

Esquecera-se n'aquelle dia do habitual silencio; fallava com uma
verbosidade febril; observaes penetrantissimas, rasgos de uma intuio
pasmosa lampejavam brilhantes, no decurso da conversao. Expressando-se
sempre com difficuldade, ento, jorravam-lhe as palavras faceis e
promptas, com uma nitidez que acompanhava as mais delicadas analyses.

A este tempo, assomou a uma janella fronteira ao seu quarto uma visinha,
que vivia honestamente na desgraa, irm d'aquella flor de Magdala,
calcada aos ps pelos que no comprehenderam o impulso dos sentimentos
que a transviaram. A pobre trabalhava e distraa-se a vr os que
passavam; cantava e ria esquecida do seu opprobrio. Estava vestida com
uma cr triste, que lhe realava a expresso dolorosa. Elle viu-a;
cumprimentou-a com um sorriso leve, que traduzia um epigramma, que fra
comprehendido. Depois voltou-se para dentro:

--Ha uma affinidade intima entre a mulher e as cres; a escolha, a
preferencia, a seduco por uma,  a linguagem de um sentimento
recondito, que resa dentro em si, e que ella no sabe exprimir,  o
symbolo na sua frma mais poetica e simples. A mulher  sempre uma
criana, chora e ri ao mesmo tempo; como sente mais do que pensa, quer
mais do que pode. A grande contradico, que faz com que realise as
nossas aspiraes vagas e ideaes! Como uma criancinha que tem sde, e,
no sabendo ainda pedir agua, aponta para ella e exulta, assim a mulher
no podendo revelar o sentimento indefinido que a eleva, que a faz
soffrer e amar, serve-se da linguagem symbolica das cres, para
completar a expresso que lhe transluz no rosto. Raphael, na sua
inspirao divina, entreviu este mysterio quando ao determinar o ideal
da Virgem na arte moderna, tomou a cr do azul ethereo para colorir-lhe
o manto. O ideal da mulher no mundo antigo, menos espiritual, mas
egualmente bello, mostrava-a como uma flor, a creao mais aprimorada da
natureza, a planta mimosissima e languida;  assim _Sacuntala_, na
poesia da India; a _fraqueza_, que pde tanto como a constancia heroica,
quasi impossivel, de sua irm _Griselidis_ na Edade mdia; ella
confidencia com as aves, os arbustos choram na despedida, as flres
amam-n'a como uma irm gmea, um carpello tenuissimo animado  luz
do sol brilhante, perfumado com todas as essencias de uma atmosphera
limpida e serena.  por isso que do Oriente veiu aquelle modo de fallar
de amores pelo _salem_, um ramilhete allegorico das paixes que
perpassam na alma. Ha rostos de mulher archangelicos, sublimes,
realados pelas cres; a cr  a expresso da luz, como a luz uma
expresso do espirito. Quantas mulheres perdidas, com um r de
innocencia que illude! a preferencia pelas cres, que as fazem realar
tanto,  por certo o desejo mais intimo de sua alma, que os labios no
se atrevem a proferir. Como para cada zona ha uma analogia com as cres
luxuriantes da vegetao, pelas cres das roupagens se pode conhecer a
mulher; a oriental voluptuosa, enlevada n'um tropel de pensamentos de
alegria, sentindo o corao a trasbordar-lhe desejos, que desconhece,
orna-se com as cres que mais fallam aos sentidos, as mais vivas, as que
mais seduzem. No  isto assim?

--; porque o genio pde dizer tudo impunemente. D vida s creaes que
inventa, soffre com ellas, que so a alma da sua alma.

--Se assim fosse, no andaria no mundo travado este antagonismo do senso
commum, positivo e costumeiro, inflexivel nos seus juizos praticos, com
aquelles que procuram realisar na vida os sentimentos superiores e eternos
com que animaram a argila fragil, que procura constantemente elevar-se
acima da materia a que est presa.  a lenda do cego de Smyrna, corrido,
perseguido de terra em terra; no lhe comprehendem a vocao. Afferem-lhes
as aces pelos factos vulgares, de todos dias, e a disparidade faz com que
se lhes chame um desgraado, um extravagante, um doido.

--Revoltas-te contra o senso commum?

--Revolto-me contra toda a generalidade, que procura absorver o
individuo, assimilal-o, confundil-o. Quero que a individualidade se
constitua e imprima o seu caracter, de modo que o tempo e o espao
attestem a passagem do grande homem.

--Revoltas-te contra a natureza?

--O que  a natureza diante da obra d'arte?--e elevando-se em um
hegelianismo de sectario, elle proprio respondeu: Um verbo
insignificativo, que apresenta todas as formas de que o bello pode
revestir-se, o archetypo material que s se espiritualisa no typo, que 
um facto da consciencia humana. Quando na imitao do archetypo a
verdade  to exacta, que o typo se confunde com elle, o sentimento que
ento disperta  incompleto, porque no deixou perceber que 
determinao do facto presidiu uma consciencia. O bello  uma creao
toda subjectiva;  despertada pela natureza, mas no existe l;
escolhemos as imagens em que melhor a podemos manifestar nas suas
multiplices e variadas realisaes, as caracteristicas que a
traduzem fra de ns. O bello  absoluto. No existe o feio, que 
apenas uma hypothese negativa em que se funda a synthese das realisaes
artisticas; o bello! o ponto onde convergem todas as evolues da forma,
incluidas na polaridade do bonito e do feio, e gravitando em volta
d'esse principio unico, eterno,  o ideal que as faz tender para elle. O
bonito e o feio so as duas relaes que nos levam  comprehenso da
ida do bello. O bonito desperta-nos esse sentimento espontaneo por
inspirao intuitiva; o feio leva ao mesmo resultado pela reflexo. O
_Sapo_, de Victor Hugo, asqueroso, repellente, depois de idealisado, 
profundamente bello. Quando se espiritualisa a imagem, e  esta a misso
da arte, o espirito ha de amar a sua creao. O estatuario delira com o
amor da Galathea. No posso deixar de obedecer a esta fatalidade do meu
caracter; deixo-me arrastar pela contradico. O bello tem algum tanto
de convencional; assim admiramos uma illuminura da Edade mdia, os
arabescos de uma janella gothica. O que parece conveno no  mais do
que a reflexo, que nos faz descobrir n'aquillo que contemplamos um
progresso do espirito, e nos mostra a tendencia da natureza a ser
espiritualisada. Pelo sentimento do bello se obtem o desenvolvimento e
elevao que podem prestar-nos na vida a religio e o direito; o
_verdadeiro_ e o _justo_ no so mais do que as manifestaes do _bello_
no mundo moral. Ha s uma religio,  a da arte! O pantheismo  a
suprema creao poetica, a identificao dos sentimentos do bello e do
verdadeiro. Mesmo o direito primitivo teve um caracter pantheista, a
natureza  animada,  testemunha na accusao,  pura como no ordalio,
firma o contrato, submette-se tambem  penalidade, tem personalidade; os
animaes compareciam tambem em juizo. A arte sobre tudo! ella suppre a
sciencia e a observao, pela intuio viva; a realidade  contingente,
variavel; o ideal, a creao pura do homem,  intangivel, eterno,
emquanto a obra de Deus se converte em p. Sacrifiquemos-lhe tudo na vida.

--Mesmo o amor?

--O amor? Rio-me da tua credulidade. Ainda fazes uma religio d'esse
sentimento egoista, que procuras elevar acima da animalidade. Querem
afferir as affinidades electivas pelo que vem nas paixes descriptas
pelos poetas. O amor como o imaginas, s existe nas obras d'arte; fra
de l  uma falsificao, uma loucura, um impossivel. Eu explico o
egoismo olympico de Goethe recusando o beijo de Frederica, a dedicao
symbolisada no que a mulher tem de mais apaixonado e expressivo. Pede ao
amor a paixo, como pedes  natureza a paizagem; depois de te possuires
de todos esses sentimentos, eleva-te acima da passividade pela reflexo
fria, calculada, e ters a consciencia das frmas com que has de fazer
sentir os outros, dominal-os, possuir os segredos de suas emoes, e s
grande! No fallo mais n'isto; s fica bem na bocca de Dyotima.

E comeou a assoviar uma ria caprichosa, passeiando vagarosamente;
depois voltou-se para mim:

--Ha ainda que descobrir na musica; falta-lhe realisar o principio da
ironia, como ha em todas as frmas particulares da arte. A poesia tem a
satyra; a pintura a caricatura e o grotesco; s a musica precisa
attingir a antithese do pathetico. O pathetico e a ironia so os dois
polos de toda a evoluo esthetica. Todas as creaes na arte sem
d'estas duas paixes oppostas. Uma  o natural, a outra  o no natural
como natural; uma sustenta o sublime, a outra o ridiculo. Ao pathetico
eleva-se todo o que soffre; s o riso  a fora das grandes
individualidades. Ri-te de tudo; o riso denota sempre uma superioridade.

No o comprehendia; o seu riso pungente de ironia desarmava-me. O genio
 uma nevrose, uma disformidade; o que nos outros me parecia egoismo,
n'elle no sabia como chamar-lhe. Para elle a gratido era a
justificao do servilismo; o sentimento religioso uma tradio da
ignorancia primitiva; o amor de me uma impertinencia, que s se d
entre os animaes da classe dos mamiferos, pela converso do habito em
instincto. Explicava tudo assim. Parecia uma alma devastada por longas
abstraces, que andava errante no mundo,  busca de uma formula
impossivel. A analyse continua dava-lhe uma certa malvadez, tornava-o
intratavel.

O caracter faz-se. Quaes seriam as circumstancias que o
transformaram at quelle ponto? Indagava-o como um problema
interessante. Fui por deduces pequeninas. Muitas vezes me fallava elle
da harmonia plastica das frmas. Contou-me uma historia original: uma
menina engraada, cuja belleza realava com uns dentes alvissimos de
jaspe; a vaidade de mostral-os tornara-a jovial. Infelizmente tropeou
em uma escada e quebrou um dente. Perdera o seu melhor encanto. D'ahi em
diante, procurando encobrir esse defeito, tornou-se taciturna,
melancholica, apprehensiva, at que se foi definhando e morreu de
desgosto. Contava-me isto como uma grande verdade, como doutrina que
professava. Admirava o costume de Sparta, que mandava despenhar de uma
rocha as crianas disformes. Pobre rapaz! Como uma circumstancia
pequenissima lhe influiu no caracter e na existencia. Elle era aleijado
de um p, como Byron, e era este o seu desgosto intimo, que o trazia
solitario e o tornava aggressivo, porque se via amarrado a um
ridiculo.




O sonho de Esmeralda


Oh! meu amigo, oh! meu poeta, tu no sabes o que  um rapaz que se aos
vinte annos da sua agua furtada, sem conhecer o mundo, ignorando a vida,
tendo vivido alimentado por sonhos impossiveis, rico de todas as
leituras, levado por ambies altivas, que o fazem grande, sentindo
muito, amando tudo, e que o acaso atira ao meio de uma cidade opulenta,
onde ninguem se conhece, onde todos se egualam e atropellam! Foi quando
comprehendi aquelle tercetto de Dante, de uma profundesa nocturna, que
me abysmava, cada vez que o repetia na mente:

    No meio do caminho d'esta vida
    Dei por mim na amplido de selva escura,
    Pois que a vereda certa era perdida.

No sabes como o ruido de uma cidade immensa, o ddalo das ruas, a
extranhesa e indifferena dos que passavam, me tornava solitario no
meio das multides. Tantas vozes perdidas no r, e nenhuma para mim!
Tantos braos cahidos com desdem, e sem nenhum me estreitar a si.
Parecia-me o tumulto como um naufragio em que a ancia do salvamento nos
torna egoistas, insensiveis para as agonias dos outros.

Todas as aspiraes que me fizeram deixar o retiro benigno onde me
voaram os primeiros annos, mostrando-me o mundo como uma grande festa,
que me despertaram o desejo de ser tambem um dia conviva, iam-se
apagando, abandonavam-me como no encontro fortuito de um desconhecido.
Sentia-me pequeno, incapaz de luctar, de me impr a admirao dos outros.

O que teria sido de mim nas horas monotonas do desalento, nos longos
dias do desamparo, se no fra a poesia! At ento tinha ella sido um
folguedo, um brinco infantil, innocente, um vagido timido e suave da
alma, que anceava a luz, como uma borboleta prateada antes de romper a
chrysalida nocturna. Sem ter quem me fallasse, pedi  poesia os seus
antigos carinhos, um alento de esperanas, um orvalho para refrescar a
aridez do dezerto em que me via. Ella, a irm dos tristes, a alma dos
que soffrem, como veiu terna, espontanea, compassiva para consolar-me!
Cantava, como uma criana, quando tem medo e procura esvaecer os vultos
caprichosos que lhe voejam na phantasia. Foi a poesia tambem que salvou
o desgraado Jacopone, quando, abalado pelos desastres da vida,
errando pelas ruas desvairado e doido, apupado da plebe, perseguido,
veiu bater s portas de um mosteiro, d'onde egualmente o repelliam. Foi
ella que lhe deu a paz da cella e a serenidade da contemplao.

Oh santa e divina poesia! bem hajam os que choraram por que te
descobriram e trouxeram  vida, como uma prola nunca vista trazida do
fundo do oceano. Bem hajam os que ainda choram, por que te guardam em
si, como uma vestal solicita ateando continuamente a labareda do altar.
Bem hajam os que ho de vir para soffrerem, por que nos comprehendero
sentindo-se aliviados.

Andava pela cidade sem destino, vagabundo; eu mesmo ia comprar o
alimento para o dia, e enojava-me esta guerra mesquinha e vil do pequeno
commercio para os que chegam incautos, inexperientes. Os fundos, e bem
poucos que eram, iam-se reduzindo de dia para dia; estava quasi sem
dinheiro, e com um orgulho e altivez incrivel para affrontar o futuro.

Enrolado, dentro de uma gaveta, tinha um manuscripto, que escrevera para
distrair-me na solido das minhas horas. Quando me lembrei d'elle
comecei ento a dar-lhe o valor que at alli no conhecia. A
necessidade, que se approximava, a cada instante, fazia-me procurar
n'elle todas as esperanas. Pobre manuscripto! Quem o poder entender,
quem dar dinheiro por essas paginas sem sentido, que a ninguem
tocam e que nem ao menos fazem rir? Demais, estava escripto com uma
letra inintelligivel, entrelinhado e sublinhado, em um papel repassado
de tinta amarella, que mal se percebia. Quando me vi quasi sem dinheiro,
 _porta inferi_, tornei a enrolar o manuscripto, metti-o debaixo do
brao, e sahi. Passava pela porta dos editores e no me atrevia a
entrar. Tinha medo que me insultassem com um riso de escarneo, por me
verem to criana e j com pretenes a auctor. Guardava sempre para
manh a extrema resoluo, e tornava a trazer o livro para casa e a
fechal-o na gaveta. No imaginas que horas de tormentos! Eu temia que me
apagassem com um riso todas estas esperanas, e me convencessem com
argumentos assim da minha nullidade; bem conhecia o que me haviam de
dizer, previa-o, cheguei a escrever a resposta que os editores me
dariam: O seu manuscripto no tem leitores; no  um romance, nem um
conto; tem algumas paginas excellentes, mas no pde dar lucro de
maneira alguma.

Era esta a resposta que eu antecipava, para me no dor tanto depois
quando a recebesse. Um dia, o ultimo, sai a tremer com o manuscripto. Oh
meu amigo, para que te hei de fallar n'estas cousas? Nem eu queria
chegar a este ponto, quando te prometti contar a historia d'essa mulher,
que tu conhecias melhor do que eu. N'esse dia, comecei a sentir
povoar-se-me a soledade da vida, mas com outras dores, desesperanas
novas.

Nos primeiros mezes que passei n'aquella cidade, tinha lido e estudado
desesperadamente; a meditao fra o refugio do tedio, mas era como um
abutre que me lacerava as entranhas.

Vi-a! leve, delgada, divertida, olhando para todos, com uma graa
encantadora de infancia, com uma gentileza de senhora, confundida pelo
meio da plebe, sorrindo para os que a fitavam. Foi um d'esses sorrisos
que me levou a alma presa. Que lucta obstinada e escura dentro d'esta
pobre alma! o estudo e a paixo debatiam-se, arcavam, procuravam
mutuamente supplantar-se. Eu tinha acabado de ler a _Notre Dame de
Paris_, e achava em mim no sei que analogias sinistras com Claudio
Frollo. A _Notre Dame_ de Victor Hugo  a rosa emmurchecida, que
rejuvenesce ao sol do mysticismo,  a _Turris eburnea_ por quem o poeta
se apaixona no sublime delirio da arte. Claudio Frollo! o desgraado
arcediago deixou tambem correr tranquilla a mocidade no retiro do
estudo; depois a _Esmeralda_ enfeitia-o, danando, no volteio
vertiginoso das praas. So duas paixes que se combatem. Qual d'ellas
triumphar? A fatalidade do impossivel?

Eu no conhecia o labyrintho de ruas da cidade populosa e immensa, a em
busca d'ella sem saber para onde. Encontrava-a quasi sempre, por uma
coincidencia fatal. De uma vez, lembra-me ainda, foi quando a vi mais
bella do que nunca, mesmo do que todas as mulheres. Estava confundida
entre a multido, que a abafava na sua onda; mas para mim realava
tanto como um carbunculo que reflecte em si a luz de todos os cirios.
Via-lhe na expresso languida e curiosa a alma de todas as almas dos que
a cercavam. O povo amontoara-se para vr subir aos res um balo. Era um
dia de alegria e de festa; quando a descobri estava com os olhos
erguidos para o co. Oh! se ella soffresse, se implorasse a Deus uma
consolao, no estaria mais sublime e radiante. O que a fazia confundir
o azul dos seus olhos com a limpidez do firmamento era a curiosidade de
criana. E contemplava o balo que subia, alheia  vozeria da gentalha.
Desejaria elevar-se tambem s alturas, e ento estava pensando no
devaneio d'esse desejo? Quem sabe os caprichos que passam pela alma de
uma mulher? Quem pde contar todas as ondas que faz uma brisa
perpassando levemente  flr das aguas? Quando baixou os olhos  terra
deu com os meus, que a contemplavam, sorriu-se. Oh! como aquelle sorriso
me faria esquecer todos os pezares, me daria coragem para todas as
luctas, me insuflaria alento para os mais inauditos esforos, se ella se
no sorrise assim para todos.

Para todos!  este egoismo do sentimento que gera os nossos males,
exacerba a mais terrivel das paixes, a mais selvagem e vil, que  s
grande pela loucura. Eu tinha ciumes de todos, porque ella sorria
prodiga de encantos, tanto para os que passavam indifferentes, como para
o que a contemplava com o desinteresse com que se olha para um
marmore antigo ou adorando a sua morbidez de Madona, como para aquelles
espiritos baixos e abjectos que a fitavam desassombrados, preoccupados
de um desejo faminto e estupido de sensualidade.

Criana e indiscreta, seria a innocencia que a fazia sorrir para todos,
como uma borboleta que va de flor em flor, ou como uma rosa que
embalsama de perfumes todas as viraes que passam? Eu no sabia, e
tinha medo da verdade. O amor triumphava completamente do estudo. A
verdade, que procurava incansavel no ardor das vigilias, agora j no me
mostrava os mesmos encantos. Queria que se escondesse, que se no
deixasse tocar por mim, como um arcano divino. Quem podesse viver sempre
illudido! Oh! verdade! verdade! para que vens agora, que te no busco,
acordar-me to cedo do sonho doirado?

A multido dispersou-se ao vir da noite; eu fui seguindo para onde ella
habitava. Ia perdido, a distancia, sem conhecer as ruas; a pequena,
distrahida, como por descuido olhava para traz. Depois que soube onde
morava, procurava a cada instante vel-a. Havia uma fatalidade que me
atirava para essa mulher. S, no meio de uma cidade grande,
desconhecido, amava a perdio, e sentia-me arrastado, sem ter ao menos
um Tiberge que me salvasse, como o amigo do infeliz Des Grieux, amante
da _Manon Lescaut_. O futuro! nem j podia vl-o, com a vertigem que um
olhar fascinador me causava; apagava-se esse ideal que me dera
tantas vezes coragem nos transes e provaes da vida. Ria-me do futuro.
E que  o futuro? De que me vale preparal-o, consummindo a vida, se me
foge antes de o gosar? Viver obscuro! embora n'uma trapeira, mas ter um
dia, ao menos, a mais pequena realidade de tantos sonhos! Ter que
apalpar entre as vises brilhantes, sem corpo, e que nos mentem sempre.
Viver obscuro! Que haver melhor, quando se tem ao lado aquella que se
ama e resume todos os encantos e riquezas do mundo na mais pequenina de
suas fallas?

Sentia-me escorregar lentamente para o precipicio; a paixo dava-me uma
lucidez com que explicava a loucura e a justificava diante da
consciencia que me accusava de instinctos baixos, sem dignidade.
Apparecia-me  janella todas as tardes; sentava-se ali e costurava.
Tinha um orgulho indizivel ao lembrar-me que, de entre todo aquelle
bulicio de gente desconhecida, havia uma mulher que pensava em mim e me
estava esperando. O amor tornava-me timido; queria fallar-lhe e no
sabia. Pedi ento  poesia que fallasse por mim.

Para um amor puro, ethereo, que se esconde e no se atreve a
declarar-se, nada o exprime melhor no seu vago ideal do que um soneto.
Estudei esta frma, a mais completa das frmas lyricas. Elevado como a
ode, melifluo e simples como o madrigal, sentencioso como o epigramma, 
a synthese de todas as frmas do lyrismo. Como o no desenvolveu o
genio da Italia, nas suas elevaes erotico-mysticas! Nas duas primeiras
strophes do soneto, o sentimento revela-se pela imagem, occulta-se sob
ella como indefinido, intangivel; o predominio da imagem tem a quadra,
frma livre para as representaes do mundo exterior. Depois  que o
sentimento se mostra no seu esplendor absorvendo em si todas as
potencias da alma;  o terceto que o traduz, a triade fatidica, que se
imprime mysteriosamente em todos os factos do espirito. Do accordo entre
a imagem e o sentimento, provm a diversidade das frmas poeticas. Se a
imagem se mostra na sua complexidade finita, a poesia tem um caracter
didactico e descriptivo; se o sentimento se sobreeleva  imagem e se
manifesta na sua subjectividade, eis o lyrismo puro.  por isso que o
soneto  a frma suprema do lyrismo. Santificaram-n'o Dante, no retrato
do amor ideal, na _Vita Nuova_; Petrarcha, exaltando o amor religioso de
Laura na solido de Vauclusa; Miguel Angelo, esse Protheu que encarna
todas as frmas do bello, e Vittoria Colonna, confidenciando ambos com
os sonhos da arte, de um modo que ninguem macularia o seu platonismo
radiante.  tambem nos sonetos religiosos de Lope de Vega, que se
conhece a profundidade de sua alma sensivel, e nos de Cames, que se
aspira o perfume da saudade de seus mallogrados amores.

Esquecia-me a dissertar sobre o soneto para evitar o ridiculo de ter
assim cantado esse desvario. Eu a via todas as tardes  janella;
tinha a seu lado um passarinho, que saltitava, chilreando contente, para
quem fallava, dizendo o que queria que eu ouvisse. Como no perceberia
elle estes segredos de amor, quando o estava embalando com o seu cantar
soffrego, tremente. De uma vez atirei para dentro da janella este soneto
traduzido do hespanhol de Lope de Vega. No ha expresses humanas que
possam dizer mais:

    Dava alimento a um passarinho um dia
    Lucinda, e pela estreita portinhola
    Foi-se-lhe a ave das grades da gaiola
    Ao vento livre, onde a cantar vivia.

    Entre-rindo, a mosinha ella estendia
    Para o suster; na dor que a desconsola,
    Diz (pois como a vergontea se estiola
    Sem luz, sua face a pallidez tingia):

    Para onde vs? e deixas este ninho
    Que de frouxel teceu a doce amiga,
    Que a brincar com o teu bico se enamora?

    Ouviu-a enternecido o passarinho,
    Bate as azas para a priso antiga,
    Que tanto pde uma mulher que chora.

O que haver na poesia antiga que exceda este primor? Quem soube
idealisar assim uma lagrima? Comprehenderia ella a profundidade d'este
sentimento? E sorria-se de cada vez que lhe enviava novas
confidencias, mas do mesmo modo que sorria para todos. Para todos!
Sempre esta ida infernal a envenenar-me todas as horas da vida. O poder
das lagrimas que lhe descobri, a _fraqueza_ que vence todas as foras,
no tinha esse mysterio, quando as derramei ao vr-me n, abandonado
pela esperana fagueira, que fugira como o passarinho de Lucinda.
Disseram-me... nem eu sei o que me disseram. Fra a me, a mesma que a
susteve nos joelhos quando a atirou  vida e a amamentou com seu leite,
quem a arrojou  perdio. Quem havia de adivinhar que sob um r de
candura, que a cercava de uma aurola divina, vergava uma alma oppressa
pelos insultos dos que lhe pagavam! O que  uma cidade grande! No se
devoram com os horrores da anthropophagia, mas a vida vae continuamente
alimentando-se da vida. No sei, no posso contar-te tudo.

      *      *      *      *      *

Um anno depois encontrmo-nos; o pobre rapaz estava possuido novamente
da paixo dos livros. Era uma anciedade de saber, no menos funesta, que
o amputava para todos os gosos da vida. No me atrevia a fallar no
antigo amor; tinha medo de acordar-lhe as agonias que estariam talvez j
adormecidas. De uma vez, estavamos juntos, vi passar a distancia uma
rapariga, um typo raphaelico de candura; ia seguida por uma mulher
velha e tropega. Era uma antithese que fazia pensar muito. Elle olhou-a
e foi acompanhando-a com a vista, com certa anciedade; depois, como
refreado pela reflexo, olhou para mim envergonhado, crou e disse,
procurando esconder esta impresso repentina:

-- ella.

No comprehendi immediatamente; fui barbaro, pedindo que me explicasse o
mysterio d'essas palavras intercortadas. Elle apenas pde proferir uma,
mas que era o resumo de todas as dores e decepes, da compaixo que
ainda sentia, do ideal a que tinha aspirado, da fatalidade a que tinha
succumbido. Olhou-a, ella j ia longe; depois que a viu desapparecer,
disse, contemplando ainda e com a voz a apagar-se:

--Uma ruina!




O Evangelho da desgraa


Era uma criana linda, linda como os amores. Os movimentos impensados da
infancia davam-lhe a cada instante uma nova expresso de candura, faziam
amal-a, beijal-a. Ella no sabia que estava ssinha no mundo; a pomba
no tinha a aza maternal sob que se occultasse, quando viesse o abutre
pairando para arrebatal-a. Ria, descuidada.

A graa com que saltava! Parecia um pequeno gato quando brinca.

Faltava-lhe pae e me que lhe soubessem interpretar todos os requebros,
a meiguice das palavras apenas balbuciadas, adivinhar seus medos,
aspirar-lhe os risos, unir-se s suas alegrias, beber-lhe as lagrimas
sem motivo.

Era uma florsinha nascida  beira da estrada, exposta aos ventos da
noite, ao rigor das calmas, ao tropel dos que passam, banhada de
perfumes que ninguem vem respirar, derramados ao capricho das viraes.
Pobre filha! Como estas plantas que se estiolam e seccam, mal rebenta o
gomo que as hade substituir, a me morrera ao trazel-a  luz; com ella
se foram para a cova todos os carinhos que nos embalam e fazem esquecer
as dres por onde se nos d a conhecer a vida.

Sem me!

Ninguem sabe o que  vr descer a noite negra, e as crianas que
brincavam comnosco cairem de cansadas em um regao que accalenta, ouvir
as cantigas que as adormecem e lhes afastam o medo; e no saber por que
no temos aquillo tambem, no haver quem nos chame, nos fale e nos conte
maravilhas, e nos esconda no calor benigno de um seio que bate por ns.
A orphandade! E depois quando os primeiros alvores da mocidade comeam a
doirar-nos a existencia, a acordar a um tempo todos os sentimentos bons
e santos, no ter quem nos descubra e faa presentir as saras que nos
podem prender, as torrentes que nos podem levar, os abysmos em que se
pde cair. Uma me! Ella nos ensina a amar e nos faz bons com o seu amor.

E se o amor inconsiderado da gloria nos arrasta, se a vertigem de
alcanal-a d coragem para affrontar o impossivel, sacrificar a vida por
um fumo que o tempo dissipa, feliz de quem tem uma lagrima na vida
que nos ensine o que ella vale, para no dal-a por to pouco.

Mas a pobre criana na sua ignorancia ditosa no sabia d'isto; brincava
ssinha, aprendia a ser me. Que affagos perdidos com a boneca que
embalava ao seio, que beijava, vestia e despia, fallando com uma ternura
que ella adivinhava, porque nunca no mundo ninguem lh'a havia dado,
ensinado.

Aos sete annos perdeu seu pae; era pescador. Elle e a sua barca
desappareceram em uma noite de temporal. Costumada a vl-o poucas vezes,
a criana no deu pela falta; esqueceu-se de que tinha pae, como se
acostumra  falta dos desvellos de sua me. O pescador, quando a para
a costa deixava-a sempre em casa de uma visinha, com quem distribuia os
diminutos ganhos que apurava. Esta visinha era como todas as pessoas que
resam muito com a mira no co, e de tal frma se tornam refractarias a
todo o sentimento, sem affeio a ninguem, incapazes de uma
generosidade; ento para as crianas, que no comprehendem, so mais
aterradoras que um mestre de meninos. Quando a visinha soube da morte do
pescador, carpiu, deplorou, sem saber como subtrahir-se ao encargo da
abandonada criana. Se at ali o nimio descuido e desmazello eram
providenciaes, porque ao menos no vinham atrophiar os impulsos
expansivos da infancia, d'ali em diante a visinha arrogou-se a
auctoridade absoluta, expressa n'esta maxima popular--quem d o po
d o ensino. Mas a criana tinha um dom que a defendia de todas as
atrocidades brutaes da prepotencia irresponsavel, era linda, linda!

Quantas vezes no passou pela cabea da desalmada visinha amparal-a at
 edade em que pudesse auferir um lucro criminoso d'aquella formosura
angelica. Belleza funesta que vem accumular a desgraa  indigencia, dar
uma cr mais sinistra  miseria. Tinha sete annos apenas! custava tanto
esperar. Lembrou-se ento a visinha--uma ida luminosa que a livrou de
escrupulos de consciencia e lhe asserenou o animo alvoroado por uma
caridade que a sorte lhe impuzera--a criana tinha ainda um av do lado
materno, feitor de uma rica propriedade. Era a algumas legoas de
distancia; em um domingo, depois da missa da madrugada, poz-se a caminho
com a pequena e foi entregal-a ao av.

Nada mais commovente do que a infancia e a velhice quando se amam e se
comprehendem; tem ambas uma frescura juvenil, o frescor dos orvalhos
doirados da alvorada e da geada nocturna, a luz e sombra formando um
brando crepusculo em que se scisma sonhando alegrias por vir e illuses
que no tornam.

No se descreve a loucura de jubilo que o velho sentiu ao vr a criana,
carne da sua carne, uma parte da sua alma, que reflorescia viosa no
engraado renovo. Ria, chorava no seu transporte, doudo, doudo de
contente ao beijal-a. Fitava-a, esquecia-se a vr-se n'aquelle
retrato, a menina dos seus olhos, como lhe chamava quando os soluos lhe
no embargavam a voz.

--Eu no podia morrer, sair d'este mundo, sem te vr, minha filha! Tu
bem sabias isto; foram os anjos que t'o disseram, por isso quizeste vir.
Trazes-me o dia mais alegre da minha vida. Quando tua me nasceu foi
n'um dia como este, e eu no me alegrei tanto; no me lembrava que uma
filha  o melhor encanto da velhice! Estava longe da minha alda, muito
longe, andava na guerra havia quasi um anno, e ainda no era bem um que
estava casado. Quando voltei, j tua av e tua me tinham morrido. No
te importam estas cousas! Tu queres brincar? Vae correr, anda  tua
vontade. Como ella  to bonita! Eu choro sem saber porqu! Tinha pedido
tantas vezes ao pae que a trouxesse c um dia. Eu no devo deixal-a ir;
ella  minha agora.

Quando o velho soube que a criancinha estava completamente orph no
mundo, deu graas ao co por lhe havr poupado a vida de tantos riscos
que atravessra. Julgava-se o roble secular que protege o arbusto
flexivel, quando as rajadas retouam na floresta. Queria penetrar os
designios da providencia, que o destinra no declinar dos annos para a
guarda d'este thesouro de candura.

O velho,  noite, sentava-a sobre os joelhos, fallava como a uma pessoa
desenvolvida, contava-lhe historias do passado, at que adormecia,
e se esquecia vellando ao p d'ella, horas inteiras. O que lhe no
contaria o velho na sua simplicidade de justo? Mutilado como estava das
longas batalhas em que entrra, perguntava-lhe a criana a historia de
cada cicatriz. Ella nunca vira estas disformidades nas outras pessoas e
tinha medo; o velho distraa-se de continuo pintando-lhe os recontros,
as contraminas, as cargas; s vezes no fallava para ella, fallava
comsigo, vehemente, exaltado, por fim ria-se de si, e acabava por
beijal-a muito. Isto repetido quasi sempre ao fim da tarde, quando o sol
dardejava na aresta da montanha, e vinha de longe a toada dolorida e
plangente da sineta de uma freguezia proxima.

A apparencia do velho infundia consolao; a falta de dentes dera-lhe
uma disposio aos beios desbotados de modo que parecia ter sempre um
riso de mofa, inoffensivo, divertido, communicativo. Sobretudo, o que
era mais sympathico na sua fealdade eram uns olhos, de pequenos, to
alegres e vivos, que pulavam, como no vigor da edade e das paixes, em
umas orbitas encovadas, maceradas pela senectude. As cicatrizes das
ballas e espadagadas, misturando-se com as rugas da velhice, em vez de o
tornarem repulsivo, davam-lhe um aspecto attrahente, em que o bom humor
que o animava deixava reflectir um fundo de bondade, que tem quasi
sempre as pessoas que soffreram bastante.

E quanto no tinha elle soffrido? Noivo, casado de um anno, viu-se
forado a abandonar seu lar, deixar a roupa de camponeo pela farda
apertada, a choa pela caserna, o nome por um numero, o leito fresco,
cheiroso com roupas de linho, pela tarimba, e sobretudo a vida
sanctificada da familia que acabava de formar em roda de si, pela guerra
em que se ia confundir.

Fra no tempo da guerra peninsular. Uma estrella funesta o acompanhou
sempre, amparando-lhe a vida para soffrimentos inauditos. Nunca entrou
em aco d'onde no voltasse ferido; todos galardoados sempre, d'elle
ninguem se lembrava! A jovialidade dava-lhe foras para resistir 
oppresso da injustia. De uma vez levaram-lhe os dedos quasi todos,
porque em uma carga de cavallaria teve de fazer das mos capacete.
Retalhado, calcado aos ps do esquadro, ainda ali a sorte acintosa o
guardou para novas provaes. O pobre soldado no sabia queixar-se; por
fim como no pudesse dar ao gatilho, passaram-no para a artilheria.

Ahi subiu de ponto a sua infelicidade. Em uma investida a pea que
descarregava esteve quasi nas mos do inimigo; era um magnifico
apresamento. Exasperado de raiva encravou-lhe o busil, para no fazer
mais fogo. Depois, que a levassem os contrarios! N'isto o peloto foi
distrahido para outro lado. Julgaram ento o misero soldado traidor aos
seus, e descarregou-lhe o general um golpe que o estendeu por terra. Em
uma nova investida dos contrarios conheceram a prudencia do artilheiro,
mas deixaram-no estendido por morto; as carretas passaram por sobre
elle e fracturaram-lhe as pernas. Pediu debalde aos inimigos, que iam de
avanada, que o acabassem de matar. Ninguem o ouviu, com o estrepito das
descargas e do rodar dos trens, o ruido da cavallaria e o ecco dos
clarins. Depois da batalha, quando iam atiral-o  valla, pediu que lhe
poupassem a vida. Doeram-se d'elle e levaram-no.

Passados longos annos, depois de percorrer alheias terras e ter
affrontado a fome e a solido de extrangeiro, pde voltar  sua aldeia,
desacompanhado de felicidade, sem um unico signal de reconhecimento
pelos servios. A esposa que deixra um anno quasi depois de casado,
tinha j morrido, deixando uma filhinha na orphandade. Ella mesma fra
crescendo, fizera-se mulher; humilde, havia dias que se casra tambem
com um pobre pescador. O velho soldado no quiz ir aguar com a sua
presena a sociedade dos dois esposos; restava-lhe um antigo amigo, que
ouviu attento as suas calamidades, e o convidou para tomar conta de uma
rica herdade que possuia. Ao menos encontrava no fim da vida a suavidade
dos campos, e a tranquilidade da solido.

Quando se tem soffrido muito, cada momento est cheio de saudades da
vida, porque o soffrimento  o signal mais certo de que se tem vivido.

Estava pois n'esse remanso o velhinho quando no desejo de ver a creana,
filha de sua filha, passra annos e annos na doce espectativa. S
quando lh'a trouxeram e a beijou com a loucura de quem se sente duas
vezes pae,  que soube dos novos desastres que o saltearam. Que havia
fazer seno resignar-se! Aquella planta debil e mimosa era o que lhe
restava na vida; protegia-a com afan, sollicito, esmerado, como um
amante, cioso de que um atomo impalpavel de p a maculasse.

Em todos os momentos, em qualquer parte o velho e a creana agrupavam-se
to bem, que a natureza, por mais bella e surprehendente, era sempre
accessoria, o fundo do quadro em que realavam. N'este idylio encantador
a creana passou a infancia mais descuidada e feliz; a liberdade dos
campos, a serenidade do espirito deram-se as mos no desenvolvimento
d'ella.

Estava uma rapariga!

Linda, linda como os amores!

Quem a via esquecia-se a olhar, contemplava.

Era mais um seraphim do que uma creatura.

Os olhos tremeluziam-lhe com um fulgor metalico; pareciam nunca terem
sido empanados pelas lagrimas. Cantava a toda a hora como um passarinho
das balsas; mas as cantigas que modulava distraida, eram a expresso do
segredo mais recondito da sua alma. Lavando na ribeira ao som da agua
corrente, ouviram-lhe uma vez cantar:

    Os meus olhos so dois peixes
    Que nadam n'uma alaga;
    Choram lagrimas de sangue
    Por uma certa pessoa.

E quem seria essa pessoa, a primeira que soube arrancar uma lagrima
d'estes olhos to puros e meigos? Maior que todos os poetas, mais do que
Deus talvez, quem soube dar frma ao sentimento d'aquelle corao
virginal em uma gota de agua, uma lagrima caida, irm gemea das que os
anjos andam pelo mundo aparando em suas urnas crystalinas, para as
engastarem como estrellas da noite saudosa no vacuo do firmamento. E
ella cantava:

    O corao e os olhos
    So dois amantes leaes,
    Quando o corao tem pena,
    Logo os olhos do signaes.

Ella espalhava ao vento os seus pezares, mas ninguem os percebia; o av
alegrava-se ao vl-a sempre entrar em casa cantando; mal sabia que a
harmonia sonorosa era o ruido de uma grande tormenta. A pobre criana
soffria muito, amava! Ha na vida do corao um momento em que todas as
emoes, impulsos e sentimentos se alevantam a um tempo, e vo apoz o
primeiro que os acorda. So como os perfumes derramados pela primeira
brisa que chega.  como um _estado nascente_ da paixo.

Don Juan sabia por certo este segredo, conhecia o momento em que todas
as mulheres se perdem, porque se do ao primeiro que apparece.

Nem ella conhecia porque amava, nem tampouco o impossivel que se erguia
entre o seu amor e o nascimento desegual d'aquelle que a
endoudecera com as palavras balbuciadas tremendo. Amava o filho do
antigo amigo de seu av, dono da herdade em que habitava; estupido, uma
d'essas almas boaes, nascidas para deturparem tudo, porque no vem,
nem sonham seno o mal, mesmo no instante em que a linguagem mais intima
da candura vem affagar-lhes o deserto em que o seu egoismo as esconde.
Demais, elle tinha esta regularidade de feies, de uma monotonia que
enfada, chata, insignificativa, mas que dizia bem com a alma que o
animava, incapaz de qualquer acto generoso, de instinctos vis, mas
julgando-se digno de todos os respeitos diante da sociedade. Tanto mais
criminoso parecia, quanto era ainda novo, tambem criana, em quem se
espera a ingenuidade dos primeiros annos que tudo perda.

Aquelle que a innocente rapariga amava, no pensava seno em perdel-a.
Era to facil! Estava desprevenida, no via a traio da ona refalsada,
onde esperava uma attraco irresistivel! Mal haja quem no falla
verdade n'este episodio mais santo e verdadeiro de toda a existencia.

A pobre pequena no sabia estas subtilezas do peccado; foi apoz os seus
sentimentos, deixou-se adormecer ao som da voz que a illudia, para
acordar com a gargalhada fria e insultante no fundo de um abysmo onde
fra atirada para sempre. A alegria que at ali tivera, e era a sua
principal belleza, perdeu-a com a innocencia.

Ja no cantava; andava silenciosa, desolada, como na afflico de uma
dr que se no exprime. A unica pessoa que a amra verdadeiramente no
mundo, seu av, no tinha alma para perguntar-lhe o que a trazia assim
oppressa.

Ella envergonhava-se das lagrimas, represava-as, bebia-as! Uma vez, pela
volta das trindades, o velho voltava do trabalho; pousou a enxada ao
canto da choa. Sentaram-se  mesa frugal; no comiam, preoccupados por
uma angustia que se no atreviam a confessar um ao outro.

A final o av perguntou-lhe com uma doura inexcedivel:

--O que tens?

Ella prorompeu n'este instante em uma torrente de lagrimas
irrepressiveis; ia para fallar, os soluos intercortaram-lhe a voz;
atirou-se ao pescoo do velhinho, estreitou-o a si, sem poder fallar.

Era o maior golpe que o desgraado soldado experimentava, o ultimo que
lhe abalava a vida.

Comprehendeu tudo.

Traduziu as meias palavras da queixa dolorida, e soube que o filho do
seu protector fra o seu algoz.

No podia accusal-o, vingar-se; era uma horrivel colliso de deveres!
Ficou com a immobilidade do espasmo; hirto, como Bonifacio VIII diante
da multido que ia para despedaal-o. Sentado  mesa, com a mudez do
assombro, assim permaneceu a noite toda, at que ao outro dia deram com
elle regelado, cadaver!

      *      *      *      *      *

O desespero das imprecaes do desgraado da terra de Hus, deitado sobre o
monturo, coberto de lepra, envergonhando-se da luz, desejando haver tido o
sepulchro por bero e por seio que o escondesse a podrido e os vermes da
terra, todo este cicio da immensa agonia da alma que se alevanta at Deus
e na sua fraqueza lhe exproba a desegualdade da lucta,  uma das mais
completas, a primeira manifestao do poema eterno da agonia.

Acorrentado sobre os fraguedos que te serviram de leito, Prometheu
vencido, a Fora e a Violencia guardaram os sarcasmos para a hora em que
as extorses convulsas no amedrontam os algozes; deixaram-te aos
abutres famintos, fustigado dos ventos, mas ao menos o turbilho erguia
o grito da ameaa; o orvalho das noites refrescava-te o ardor da raiva,
e o Oceano consolava-te porque te dizia: Prometheu, mesmo pregado contra
essas rochas, sabes fallar ainda com liberdade! Deus banido, os outros
deuses feriram-te porque nos alentaste a vida com a esperana; se  de
fora o soffrimento cumpra-se a fatalidade! Elles no conheciam as dres
fundas, que se no vem, que matam lentamente, as dres da alma, no as
conheciam por isso no as infligiram. As grandes obras da arte, Job
e Prometheu, foram os que fizeram sentir no mundo as maiores dres; mas
a dr moral, que os deuses antigos desconheceram, a dr muda, essa  uma
creao do homem, o maior inimigo do homem.




Aquella mascara


I

A dr transforma-te! Ests desconhecido. J no tens o entendimento e a
vivacidade dos dias da tua alegria. Que desastre repentino te deu essa
immobilidade do espanto? Desfolharam-se to cedo as flores da tua
primavera; esto desbotadas as rosas de tua face, extincto o fogo
d'esses olhos, que davam alma a tudo quanto dizias. A tua alma
expandia-se, mostrava-se franca, como a verdade; illuminava-te o rosto,
como um sol rutilante na immensidade tranquilla do mar. Eras exaltado,
febril no que sentias; cada palavra tua era o sto de uma paixo
latente. Tinhas o segredo da fascinao, a magnanimidade do heroe, e a
impenitencia do ergotista; eras a um tempo seraphim e demonio, podias
transportar ao setimo co, ou atirar ao barathro a mulher que te
seguisse. Tinhas a consciencia da fora e rias-te de todas as mulheres,
no te affligia o amor. Ainda era cedo para pensares n'isso, se  que se
pensa quando nos atiramos  luz que nos deslumbra. Comparavas a
sociedade a um oceano revolto, e s tinhas em vista levar o teu baixel a
porto seguro; a estrella que te guiava, a mono fagueira que
desfraldava aos pontos do co a tua vella branca que havia de ser, a no
ser o amor? O amor era um pequeno movel para ti; a ambio dava-te
maiores impulsos, querias ser grande e dominar, absorver os outros. De
facto tinhas em ti um poder assimilador, reduzias os outros a ti. No
meio dos caprichos da tua individualidade altiva, mostravas grandes
verdades. Eras todo sensualista, cercavas a vida de prazeres, mas s
d'aquelles que te proporcionavam os recursos infinitos da intelligencia.
Para ti a arte era mais do que todas as sciencias do mundo, era a
synthese suprema das faculdades do homem, porque  pela arte que elle
adquire a consciencia de si. A aco justa, no a conhecias pela
harmonia dos principios eternos da justia, era preciso sobretudo que
fosse capaz de produzir uma obra de arte. Todas as tuas posies eram
esculpturaes, podiam-se reproduzir no marmore; no era a affectao que
te levava a este estudo, eram as tuas idas da eurythmia, a necessidade
de completar as expresses de tua alma no movimento exterior que mais as
significasse. quelles que no comprehendiam isto, que se riam e
violavam os encantos da plastica, chamavas-lhes _Verna_, um nome
insultante, com que mostravas a sua incapacidade para sentirem o bello.
Dotado d'esta serenidade impassivel que tem o homem verdadeiramente
superior, s vezes no sabia porque deixavas um instante de ser bom; no
se te dava de sacrificar os outros com tanto que te engrandecesses.
Parecia um egoismo revoltante. Tu no professas a egualdade. Os _Verna_
existem, para que entulhem a valla em que o heroe poderia cair. Isto 
assim. J vs que te conheo. Para que te escondes agora? Porque me no
contas a anciedade de todas as tuas dres! Eu sou incapaz de te humilhar
com a minha compaixo. Se te custa, no me digas tudo, deixa-me
adivinhar, presentir o mais; temos em tudo a necessidade do indefinido.
As grandes dres so como as lagrimas; so mais ardentes  medida que se
represam.

--Eu tenho vergonha de te no haver descoberto ha mais tempo o labor
mysterioso que se tem operado em minha alma. Amo! Esta palavra diz tudo.
A minha agonia provm do meu orgulho;  um golpe que de sempre,
eternamente, que me faz ser mo, vingativo, e me d fora para esmagar
os outros. Em mim o orgulho  o movel de todos os grandes sentimentos, 
elle que me pde fazer mais do que homem. Tu sabes perfeitamente a minha
vida; tem sido at hoje um combate incessante; a aura pequena que
me cerca, o favor e a considerao que tenho tem sido uma conquista
infatigavel, como aquelles combates sangrentos da velha tactica nas
minas e contraminas das fortalezas. Detestei a familia em que nasci
porque foi a primeira que me humilhou e me queria egualar. No imaginas
que esforos inauditos para conseguir uma diminuta independencia  custa
de um trabalho insano, o trabalho da intelligencia, que ninguem
reconhece, que se no paga. Depois, vr-me envolvido na alta sociedade,
ter de competir e de mostrar-me forte, no querer que ninguem
adivinhasse a minha indigencia! No sabes, o que  voltar alta noite do
ruido de uma grande festa e atirar-se um homem de cansado a cima de uma
enxerga alastrada em uma mansarda lobrega, depois das mais brilhantes
ovaes, depois de ter aspirado o perfume quasi celestial da gloria.
Quantos n'aquella noite no invejariam a minha transfigurao, sem saber
que o Thabor por onde subia era semeado de cardos que me ensanguentavam.
De um dia para o outro me vi cercado de gloria; fallava-se em mim,
queriam vr-me, estava em moda, era recebido como principe, festejado,
seguido. Explicavam a distraco continua que me tornava alheio a este
culto perenne, pelo extasi da alma, pela abstraco continua do espirito
pairando entre o co e a terra. No era assim. Lembrava-me o passado, a
miseria e o abandono do dia de hontem, e doa-me o contraste. A gloria
s por si era pouco, no me saciava. Queria bastante gloria, mas
para dal-a. Tinha necessidade de encontrar uma pessoa no mundo que
vivesse da minha vida. Para amar tinha os typos da minha phantasia,
desenhava-os a meu capricho, como queria, puros como Ophelia, dedicados
como Griselidis, minhas, minhas como _la Belle au bois dormant_. Mas os
dias corriam sem novidade de impresses, e os typos archangelicos que me
cercavam, que evocava dos abysmos da imaginao ardente desamparavam-me
como as filhas do Rei Lear. Lembras-te do quadro gigante traado pela
audacia de Shakespeare, quando o velho pae, com as cans fluctuando ao
vento da tempestade, no inverno, caminha desolado no seu abandono? As
filhas da minha imaginao desamparavam-me e o tedio da alma era o
deserto glacial em que me via perdido. Eu sentia em mim bastante fogo,
muita vida, para dal-a a quem viesse compassiva e no soubesse mesmo
confessar o seu amor. Havia de interpretar cada olhar, como uma aurora
que se abre, cada sorriso como uma cataracta de luz que nos envolve e
nos confunde no infinito. Creara um longo sonho de amor, bello, bello,
quanto sabia que era impossivel realisal-o no mundo. Por fim convenci-me
tanto da verdade que o julgava possivel. Conheces estes sonhos dos
nevoeiros do norte; quando a ondina se confunde na cerrao, e o desejo
vehemente de vel-a, de abraal-a, comea pouco a pouco a dar-lhe frma,
a vestil-a de realidade, at que um dia se sente nos braos d'aquelle
que a trouxe um momento  existencia pelo ardor da aspirao? Foi
como encontrei a mulher que primeiro me fallou de amor. A confiana
d'ella fez-me grande. Disse-me que no queria a minha gloria; que antes
me queria obscuro para ter de amar s a mim. Deixei-me levar por
aquellas palavras que eram uma musica celeste; quando j no podia
resistir a mim mesmo, o orgulho atacou-me de frente.

Disse-lhe ento que era impossivel o amor entre ns. Rica, bella, no
podia ser amada desinteressadamente, ao menos diante do publico. Tinha
vergonha que dissessem que a amava pela fortuna que possuia; esmagava-me
esta ida vil do senso commum. Desde esse instante procurei combater-lhe
o sentimento puro que me revelara. Descobri-lhe uma rival, com quem
ella, apezar de todos os encantos, no poderia competir, que a deixaria
na sombra a estiolar-se, emquanto se aureolava de luz, se dava 
adorao de todos; era a Arte, a Arte! Quando lhe descobri esta
atrocidade do egoismo, em vez de desmaiar e desfallecer como aquella
ingenua e timida donzella que se prostra ante a magestade olympica de
Goethe, repellida pela sua rival a Arte, que a lanou fra do seu
templo, pelo contrario se enlaou a mim com uma candura infantil,
despreoccupada, beijou-me em delirio, segredando-me com uma voz que se
coava por mim, que me vencia: O que  a Arte sem a realidade! Depois
disse-me com a voz languida, frouxa, impensada como a melodia de uma
harpa elia: Eu bem sei que no tenho uma belleza que deslumbre;
nem ella existe seno para exprimir algum sentimento. O que agora se
passa em mim  uma verdade,  por isso que as outras me chamam bella. Se
eu tivesse uma correco de frmas como um marmore antigo, tinha medo,
sabia que no era amada por mim, que me adoravam os contornos da
plastica. Gosto mais de ser como sou, posso ser amada com mais verdade.
Sentia-me mais do que Deus; elle nunca teve uma adorao assim; tinha
vontade de precipitar o tempo, e chamar-lhe minha. O amor ia crescendo
de dia para dia. Diante da mulher que eu sonhara, era preciso mostrar-me
grande para merecel-a. Eu bem sei que a minha familia hade combater o
nosso amor; que importa! Tenho medo de no poder luctar. Se me
violentarem a casar com outro, tens direito a reclamar quando quizeres o
teu amor.  impossivel! Nunca. Essas palavras na bocca de qualquer eram
infames, abjectas; ditas por ti, so uma dr funda, a abnegao de quem
no sabe resistir. Eu pensava em alcanar uma posio social  custa de
todos os esforos; depois iria pedir a sua mo de esposa. O successo
est em no precipitar o tempo. Confiava na minha vontade inabalavel.
N'um instante desampararam-me todos os planos de felicidade; vi-me s!
No sei mesmo a quem accuse. Seria por fora minha, se eu podesse ser
infame. Ninguem mentiu. Perdi-a para sempre; entre ns ergue-se o
impossivel. Eu nunca duvido do seu amor; mas de que me serve agora,
que  j realmente de outro homem? No sabias que estava j casada? No
sei como explicar isto! Ella tinha um primo, o unico herdeiro de um
titulo, das grandes riquezas de sua familia. Era a ultima pessoa que
restava, rachytico, infesado, com a doena hereditaria, que foi levando
um aps um os seus irmos. Voltara de uma viagem pela Europa; elle mesmo
chegara a esquecer-se do praso fatal que lhe estava imposto pela doena.
Apaixonou-se pela prima, pediu-a, dizendo que no queria deixar
extinguir-se o nome de sua casa. Accederam immediatamente. A victima
innocente no pde resistir a estes combates domesticos, de todos os
dias; deixou-se levar, como o cordeiro do sacrificio. Vi-a pela ultima
vez no carro com o noivo; senti-me pequeno e envilecido, parece que me
enterrava pelo cho. Depois no tive coragem de apparecer. Temia os
epigrammas dos outros. O orgulho  o meu maior algoz; devora-me como um
cancro. Sinto-me mo, com vontade de esmagar os outros, no comprehendo
a generosidade. Este desgosto fez uma alterao profunda em minha vida;
nunca mais posso fallar verdade, porque me mentiram no momento mais
santo da vida. Sinto-me com a imbecilidade do assombro, estou estupido;
sou um involucro vasio, abandonado pela borboleta; como uma concha
atirada do fundo do mar immenso a uma praia deserta. Apossa-se de mim um
desespero insoffrido ao lembrar-me que ainda sou criana, e que
tenho de arrastar uma vida erma de todas as esperanas.

--Eu bem sei que no mentes, que no  imaginaria a tua dr. Basta olhar
para a tua face; tem empanado o brilho da mocidade;  como um lago que
vae perdendo a limpidez, e que as bafagens mornas evaporam. Eu queria
saber consolar-te sem te humilhar. Bem sei que  muito difficil. No
achas a minima distraco onde os outros encerram todos os seus
prazeres. Deixa que a tua indifferena te leve. A mulher que amaste 
hoje condessa, e abre os seus sales aos amigos que festejam os annos de
seu marido. Vem commigo.  um baile de mascaras. Ninguem te pde
descobrir; eu apresento-te como um amigo intimo. Tu precisas cauterisar
essa agonia. Vem vestir-te.


II

Pela volta das onze horas da noite os dois mascaras foram introduzidos
na sala do baile. Era mais vivo o estridor das walsas; as cres
deslumbrantes, as pedrarias, os reflexos da luz, a confuso e o delirio,
os pares enlaados n'um volteio frenetico, tornavam communicativa,
convulsa tamanha alegria. Entraram desapercebidos, sob domins singelos.
Debaixo de uma mascara de setim ninguem sabia que andava escondido um
grande desgosto; a mascara servia mais para no deixar ver aos
outros aquella tristeza funda que no era para ali. Ia pelos sales
olhando, seguindo, como quem caminha nas trevas. Cada vulto que passava,
gracejando, rindo distrado, parecia-lhe uma larva errante n'um pramo
deserto. Tanta mulher bella, tantas palavras de amor, vibradas tremendo,
e nem uma sombra leve de verdade. Como os homens se alegram quando sabem
que esto entre si a mentir!

N'essa noite a condessa estava arrebatadora de encanto; acabara de tirar
a mascara n'esse instante, e o calor que lhe afogueava a face dava-lhe
uma cr lasciva, de endoudecer; o cansao, os labios entre abertos, que
estavam como a pedir beijos, tornavam-na languida, voluptuosa como a
huri mais ideal dos sonhos do propheta. Caiam-lhe algumas tranas
desprendidas no fragor da dana, sobre os hombros alabastrinos, como
n'uma travessura, como os cabellos de uma odalisca que se alevanta do
banho embalsamado e tpido. Uma das rosas da sua grinalda caiu
casualmente no cho. O olhar mais ardente e expressivo de uma mulher,
no podia ser to fatal como a queda d'aquella rosa. A mascara de setim
aproximou-se mysteriosamente e ergueu-a do cho. A condessa seguiu-a
vagarosamente com a vista, e esperava que a flor lhe fosse restituida. O
mascara escondeu-a em si, e confundiu-se nos grupos que se cruzavam.
Ninguem deu por isto. Depois a orchestra rompeu com as notas estridentes
e repentinas de uma contradana.

--Digna-se V. Ex. dar-me a honra de ser meu par?--disse o mascara de
setim aproximando-se levemente da condessa.

--Com tanto que diga para que escondeu a rosa?

--Se escondi a flr, temia que a calcassem aos ps. Custava-me tanto vr
esmagada a imagem mais triste de minha alma.--Apenas proferidas estas
palavras com a voz abafada e tremula, a condessa ergueu-se de subito,
hesitando se deveria ouvir uma confidencia que a compromettia; o mascara
de setim deu-lhe o brao e foi collocar-se ao fundo da sala diante do
seu vis-a-vis, triumphando d'aquella irresoluo.

--E o que pretende fazer d'essa flr?

--Guardal-a.

--A sua determinao leva-me a perguntar quem lhe deu direito para tanto?

--No devo dizel-o.

--Ordeno!

--No  justo satisfazer todas as indiscries, principalmente quando...

--Complete a phrase.

--A ingenuidade de criana...

--Diga tudo.

-- irresponsavel pelo passado.

--No comprehendo!--Retorquiu a condessa fitando a mascara, procurando
em vo surprehender debaixo d'ella quem seria capaz de fallar assim. Um
mixto de terror e de curiosidade embaraava-a, no sabia o que devia
fazer. Depois de alguns instantes de silencio, disse quasi em
lagrimas:--Tenho medo de si! Oh d-me essa flr.

--Nunca!

--Exijo!--tornou a condessa com a voz sumida, sentindo-se dominada pela
fascinao do desconhecido.

--Aqui est a rosa,--disse o mascara tirando do seio a flr quasi
murcha.-- impossivel entregal-a. Eu posso exigir mais em paga d'ella.
Posso exigir tudo!  uma promessa inviolavel como o juramento. Um dia a
mulher que eu amava, no extremo de sua vertigem e loucura por mim,
prometteu ir at onde eu estivesse, e ahi entregar-se-me, se soubesse
que eu tinha a vida contada por instantes, e havia de sar d'este mundo
sem abraal-a ao menos uma s vez como minha. Os desgostos tm-me
devorado lentamente a existencia; presinto a cada instante em mim a
frieza do sepulchro, e no soube ainda erguer a voz e reclamar a
promessa fatal. Nem eu a quero! Bastou-me ouvil-a para antecipar no
mundo todas as venturas do empyreo. Deseja a rosa ainda?

--O senhor dilacera-me!--volveu a condessa com a voz dorida, e com uma
delicadeza inexcedivel.

--Se a flr que deixou cair est cheia de espinhos! No me atrevo a
entregal-a. Dou pela rosa a unica ida que me podia fazer persuadir que
ainda vivo!  uma troca generosa! Acceita? Um dia a mulher que eu amava,
conheceu a desegualdade da nossa posio, disse-me, de um modo que
s ella saberia dizer sem macular a ingenuidade de sua candura:--Se me
violentarem a casar com outro, tens direito a reclamar quando quizeres o
meu amor! Seria uma infamia vir lembrar-lhe uma palavra proferida no
momento mais exaltado da paixo, para perdel-a por um capricho. No vale
essa promessa. Agora ainda quer a flr?

--Oh, no! no!--accudiu a condessa represando as lagrimas que lhe
inundavam os olhos scintillantes.--Eu no sei o que quero agora! Ninguem
podia fallar-me assim a no ser... Fale-me, eu estou conhecendo esta
voz!  impossivel que no seja! No sabe como  horrivel esta incerteza.
No o julgo capaz de atraioar-me! Erga uma ponta da mascara, deixe-me
vl-o, a mim s, e fico descansada.

--Eu no podia atraioal-a, nem mentir-lhe. Sou quem imagina; vim para
vl-a pela ultima vez, porque me sinto acabar; esto contados os dias da
minha vida; passo com as folhas d'este inverno. Bem o conheo, e
resigno-me. No pensei que o primeiro amor que se tem na vida poderia
ser to funesto.

--Oh, no falle assim, que me mata! Eu tenho remorsos de no ter luctado
mais tempo; no tive culpa; minha familia quiz a minha infelicidade. Eu
amo-o porque no sabe accusar-me. Quero vl-o! j que no  possivel
mais. Tire por um instante a mascara.  o que ouso pedir-lhe.

--Eu tenho medo de arrancar a mascara; est pregada com o suor frio que
me escorre da fronte. Para que me quer vr? Estou to demudado! No sou
o mesmo. Deve ter horror de mim; estou quasi esqueleto.

--Por um instante s! quero vl-o, afaste um pouco a mascara.--N'este
instante a condessa voltou a face de aterrada. Contemplou de relance os
estragos que uma dr lenta fizera sobre as faces to animadas que
primeiro reflectiam os seus primeiros rubores. Fez um esforo inaudito
para suster-se; a mascara de setim deu-lhe novamente o brao e foi
sental-a no mesmo logar onde tinha cado a rosa da grinalda; depois
segredou-lhe umas palavras de abnegao e bondade:

--Esta rosa  a primeira que hade reflorir sobre o meu sepulchro.--E
saiu; a noite ia remota; os alvores da madrugada luctavam com as luzes
baas das salas, o acordar da natureza com o ruido vertiginoso da festa;
o tedio e o cansao traziam a desanimao, como acaba sempre o baile
mais esplendido.


III

Apezar da impertinencia de rachytico e da estupidez vinculada na sua
descendencia, o conde tratava perfeitamente sua mulher. A causa d'este
respeito provinha da desegualdade, da fora de intelligencia, da graa
com que ella se tornava interessante para todos. Admiravam-n'a, e
esta venerao reflectia-se um pouco sobre o marido. O conde sentia que
sua mulher lhe dava a importancia que no tinha por si, e respeitava-a
tambem.

A alegria com que ella andava! Sentia-se me, tinha vontade de amar.
Dera-lhe Deus um filho, uma alma para o seu amor. Parecia-lhe que ao
beijal-o, ao tel-o sobre os joelhos, se esquecia de tudo, de um passado
feliz, de uma unio forada, do vasio da existencia, mesmo d'aquella
noite ligeira, em que contemplou as ruinas que fizera, e que lhe deixou
recordaes pungentes, infinitas. Depois, a lembrana do passado amor, o
primeiro, o puro, o intimo, vinha unir-se a esta ida risonha de ser
me, que a fazia esquecer-se de tudo! Pobre me! O conde preoccupava-se
apenas com a existencia de um herdeiro. Era o que bastava. Almas vis que
destroem o que ha de mais santo na vida pelo interesse mercenario!
Doente, no seu amor a me sentia-se cada vez mais compassiva;
lembrava-lhe a rosa que lhe tinha caido do cabello, o cavalleiro que lhe
fizera a despedida para o sepulchro, e esta saudade comeou
vagarosamente a influir, a exercer uma aco mysteriosa sobre o feto.
No  estranho este phenomeno maravilhoso em physiologia. O segredo da
callipedia das mes gregas consistia em contemplar estatuas admiraveis
cuja belleza se reflectia depois nos filhos.

Passados mezes veiu  luz a criana. O conde andava louco com o
nascimento do filho.  medida que os traos da physionomia se iam
precisando, a criana parecia-se menos com o conde; elle comeou a
observar isto. No se atrevia a fazer uma accusao. Era impossivel.
Depois as desconfianas tomaram corpo em sua alma, quando viu que a
creana se parecia muito, muito com o rival, que preterira. Com a
malignidade acintosa de achacado, foi torturando com esta atrocidade a
tranquilidade de sua esposa. Ella, quanto mais se refugiava no passado,
tanto mais via o filho represental-o diante dos seus olhos. No sabia
defender-se; a innocencia no se preoccupa com argucias, no quiz
resistir, e deixou-se vergar pela dr. Foi a definhar-se lentamente no
soffrimento mudo d'esta impia injustia. Assim a rosa que refloriu sobre
um sepulchro que impensadamente abrira, veiu cahir desfolhada pelas
viraes da tarde sobre a terra fresca que acabava de a cobrir.




A rosa de Sron

(POEMA EM PROSA)


I

Era noite; o som do _sino corrido_ ecora pela Judiaria; emmudeceu como
se as passadas lentas de um convidado de pedra troassem no meio das
risadas de um festim. A alegria e o ruido do trabalho suspenderam-se; os
mesteiraes e homens de officio fecharam as portas; os christos, odiando
a raa maldita, separaram-se, deixando-a ao medo da noite. Ento na
pequena casa do judeu accende-se a luz do lar; cansado de receber
insultos durante o dia, de vr em roda de si a vileza e a traio, a lei
e o fanatismo a ameaal-o, esquece por um instante os planos da sua
industria, os recursos com que produz o ouro e os capitaes com que hade
comprar a sua segurana, e entra no fco mais intimo da familia. Entra
prostrado; banha-lhe o suor as faces, traz o desgosto pintado na
fronte encanecida, vem afadigado das longas migraes, amedrontado pelos
terrores das grandes crises do estado; ao asylar-se no remanso da casa,
entra como o errante do deserto em um osis desconhecido; o semblante
tranquillo da esposa lembra-lhe o typo de Esther, da Sulamite, de
Dbora, da Sibylla palestiniana, e abraa-a com a sofreguido com que
umas fauces resequidas se dessedentam em uma nascente viva. Vm depois
os filhos, debruam-se-lhe dos hombros, prendem-se-lhe s pernas,
enlaam-se em volta do corpo, e n'essa hora o judeu sente-se outra vez
forte para todas as luctas, para todos os opprobrios, para todos os
vexames, com alma para affrontar a miseria e o queimadero. Falla das
tradies de Israel, da sua migrao atravs dos seculos, da terra
promettida, e do Messias, no o idolo papal que se impe pela fogueira,
mas a boa nova da egualdade e da liberdade humana.


II

Na Judiaria, habitava um velho negociante de joias e pedrarias; quando
algum potentado casava, mandava sempre ali escolher o presente de noiva,
a compra de corpo, o dom da manh. Elle tinha as prolas das mais lindas
do fundo do mar; as rochas mais encantadas do Oriente tinham
entregues ao joalheiro os brilhantes facetados da agua mais limpida;
topazios, esmeraldas, adereces, diademas, nunca o thesouro da Senhoria
de Veneza reuniu riquezas de tanto gosto e primor. Viera de Hespanha, no
tempo da grande expulso dos judeus por Fernando e Isabel; o facho de
Torquemada allumiou-lhe o caminho de Portugal, terra da tolerancia e da
paz. O clima, o r, a doura do co, lembram-lhe o Oriente; elle ama
como filho a boa terra luzitana. Voltava do trabalho  hora do sino
corrido; deixava o thesouro que faria a inveja de bastantes thronos, mas
vinha vr outro thesouro, o mais querido, e extremecido--uma filha de
quinze annos. Chamava-lhe o bago das vinhas de Engadhi; chamava-lhe a
Rosa das campinas de Sron, irm gemea da filha de Jepht, pura como
Dbora, deslumbrante como a Sulamite.


III

O pae entrara para casa; veiu a filha abraal-o quasi  porta. Se o bom
do velho no recearia que lhe descobrissem essa flr escondida!
Esperava-o a tranquillidade do lar; os risos e folguedos das outras
crianas faziam-lhe esquecer os apupos e maldies da gentalha. Jogral
de um povo rude, o lar tornava-o um patriarcha, um levita, sacrosanto
como Moyss descendo o Monte do Senhor. Sentou-se de cansado. Tinha
perto de si o _Guemra_; ao lado vem assentar-se a filha, Ebla, assim
chamada do nome da Lua, como conta o velho _Livro de Enoch_. Ebla
fallou-lhe:

--Nunca mais tornaremos a vr Sio, e os tumulos dos prophetas? nem
escutaremos o susurro dos nossos rios?

O pae, emquanto as outras crianas brincavam, poisou o dedo sobre o
verso do _Guemra_, volveu-lhe um sorriso doloroso.

--Virgem do cro das donzellas de Sio, os nossos filhos continuam a
nossa existencia na terra; assim como o castigo vem dos paes sobre a
cabea dos filhos, o Senhor tambem recompensa nos filhos os bens que os
paes tiverem merecido. Ha quantos seculos andamos longe de Sio bemdita;
eu sinto que os meus no pisaro o solo da terra promettida; mas vejo-te
ao meu lado, como a flr que brota de uma ruina; eu no poderei entrar
na Cidade dos prophetas, serei como Moyss no alto do Abarim; mas o
Senhor deu-me uma esperana, fez-te nascer em meu lar, filha. Assim o
fanatismo e a atrocidade me no arranquem a vida. Uma noite, eras tu
ainda pequenina, em Toledo; a noite ia escura e carregada, chovia,
cruzavam-se os raios. Sou na Judiaria uma voz sinistra: s onze horas
do sino da Cathedral, a hora em que deviamos abraar a religio de
Christo, seriamos lanados nas fogueiras das praas ou abandonar para
sempre a formosissima terra de Hespanha. Os meus thesouros l
ficaram, e dei-me por feliz em trazer-te commigo. Portugal anda entregue
s descobertas e aventuras do mar; os odios de raa ainda c no tinham
sido exaltados pela classe dos tonsurados. Trouxe-te ao collo, e tu me
deste animao e alento na fugida.

-- meu pae, accudiu Ebla, passou hoje pela nossa porta uma cigana,
cantando romances e siguidilhas de Hespanha, e pedi-lhe para ella cantar...

--E que ouviste? interrompeu o judeu aterrado.

--Ella contou-me que el-rei D. Manoel vae em breve casar com a filha de
Fernando e Isabel a Catholica, e que ella s acceita a mo de esposo com
a condio de desterrar para sempre os judeus para fra de Portugal. E
acompanhava a noticia com a cantiga castelhana:

    Ea! Judios
     enfardelar!...
    los Reyes mandan
    passar la mar.

O velho judeu ficou assombrado; fechou o _Guemra_, e repousou a cabea
sobre o livro. De repente sentiu-se eccoar pela Mouraria o som secco e
repetido de uma matraca, e de espao a espao, a voz do pregoeiro das
justias, bradar:

Ordem d'el-rei para os judeus de Lisboa se apresentarem na alvorada com
uma dana judenga, guisos, touras e guinolas, para irem receber o
squito da nova rainha. Soffrer pena de morte o que levar armas
comsigo. O rabbi da Judiaria ir na frente das dansas.

Debaixo das janellas do velho judeu soaram estas palavras. O canto da
cigana revelado pela filha lembrou-lhe um presagio funesto.

--Patriarcha no lar e truo nas ruas! cumpra-se o destino a troco da
paz.--E levantou-se com o aspecto venerando de sacerdote magno, e foi
sacudir a sua vestimenta de guisos, procurar a palheta, emquanto
esperava o toque da alvorada.


IV

Lisboa tumultuava em festa immensa; arcos e flres, salvas de
artilheria, estandartes, musicas, annunciavam o dia da chegada da
infanta D. Isabel, mulher do monarcha Venturoso. J se sentia o
estrpito do cortejo real; pelas portas da cidade vem entrando as dansas
dos mesteiraes. Primeiro, vinha a _Folia_, com gaitas e pandeiros 
velha portugueza, dansando em volta de um tambor; trazem guizos nos ps,
cantam letrilhas de folgar e sainetes galantes; os guizos dos artelhos
no reteninte som confundem as coplas. Com gentil ademan no r volteiam
lenos acenando. Vinha depois a _Carraquisca_, a dansa dos barqueiros e
mareantes dos galees do Tejo; trazem andando um balano que imita
um bambula dos pretos, aprendido l nas conquistas. Vae passando a
_Cativa_, uma outra dansa de agrilhoados mouros, bailando aos modos da
Sal, vo confessando preito  nova rainha. J vem perto a _Gitana_,
toda feita de ranchos de raparigas vestidas de variegados pannos, cintos
de ouro e vermelho; voam-lhes as roupagens com o vento cruzando facas
entre si, ao doce baylo da _Mourisca_, que os sentidos fez perder com a
trisca dos volteios. Eis que chega tambem a _Dansa judenga_! Os apupos
do povo alevantaram-se furiosos chamando-lhes traidores; as vaias e as
pedradas eram pelo r sem conto; a plebe desenfreada atira-se de roldo
sobre a _judenga_ ao entrar da cidade, e abafam as queixas dos
opprimidos com risadas. Vinha na frente o velho Rabbi, dirigindo a
guinola e toura, quando um malvado lhe arrepella as barbas brancas. Os
olhos do veneravel velho chamejaram de indignao e vergonha; levantou a
palheta de bobo que bamboava nos ares, e descarregou-a na cabea do
atrevido, com a mesma altivez de animo do velho Consul da cadeira curul.
O villo cahiu por terra e l ficou calcado aos ps da multido que se
atropellava e rua furibunda sobre a desgraada dansa judenga. O velho
Rabbi fugiu a todo o custo; a multido precipita-se apoz elle; gritando,
chamando-lhe rfece assassino. A noite vinha descendo, e protegido pelas
sombras do crepusculo se ia livrando dos golpes que lhe atiravam. O
velho ia quasi exhausto, a turba que o perseguia ia rareando apoz elle;
j poucos o seguiam; mais um esforo, e ficaria salvo; as pernas parecem
falhar-lhe, falta-lhe o ar; sente vontade de atirar-se ao cho e
deixar-se retalhar. Mas um raio de luz e de vigor lhe atravessou o
espirito; lembrara-se de Ebla, de sua filha!

Ia o velho Rabbi a entrar j na Judiaria, estava quasi  porta de casa
quando um dos poucos populares que ainda vinha atraz d'elle lhe deitou a
mo. Inesperadamente veiu-lhe um soccorro imprevisto; um donzel do
squito do principe Dom Affonso, e que andava ainda triste com a morte
do seu joven amigo, sentiu um impulso do bem e defendeu o velho judeu.
Desembainhou a espada e os populares retiraram-se. O Rabbi bateu 
porta; abriram.  luz de um candil viu o moo cavalleiro a cara mais
linda de nazarena, os olhos mais languidos que no teria a Sulamite; o
sorriso mais puro, a graa, a meiguice, a expresso de Quirub. Que
contraste! na rua o genio do mal a seguil-o, em casa o anjo da candura a
allumial-o, a inspirar-lhe serenidade.

O velho Rabbi vinha ensanguentado e roto; ao receber o abrao de Ebla
tirou-lhe do pescoo um colar de perolas, e veio dal-o ao desconhecido.
O moo cavalleiro beijou-o, e tornou-o a entregar.

--Quem s, que te mostras to generoso e cavalleiro? perguntou o Rabbi.

--Dom Tello; e adeos!

O moo cavalleiro perdeu-se na sombra da noite; ai d'elle se a essa hora
entrasse em casa do judeu; a lei era implacavel; condemnava-o  pena do
fogo.

O velho Rabbi sentou-se offegante, com a cabea encostada aos hombros da
filha. Quiz comear a fallar-lhe mas as lagrimas e os soluos irrompiam
frequentes. Alfim, pode ligar as palavras e contar-lhe o succedido.

--Oh meu pae; parece que os nossos desastres no acabaram aqui. Hoje
passou rente  gelosia uma cigana, e parou a cantar, e dizia que el-rei
D. Manuel casando com a infanta de Castella, a primeira promessa do seu
dote era tirar aos judeus os filhos de menos de quatorze annos, e
baptisal-os  fora, e matar os mais velhos e pol-os fra de Portugal...

--Filha,  o co que manda esse aviso; tu foste a minha providencia.

E desceu a um subterraneo da casa, e l se entreteve ssinho dispondo as
suas riquezas para a hora da expulso.

Ebla ficra por instantes s; revolvia na mente o dito da cigana; nas
cantigas a cigana dissera-lhe mais cousas: Que um cavalleiro moo e
formoso a adorava; que por ella seria capaz de abandonar a religio em
que nascera e seguil-a at aos confins do universo. E que se um dia
visse um moo trigueiro, de bigode preto e olhos vivos, faiscantes, era
D. Tello, aquelle que a adorava. Ebla atou na mente esta lembrana;
lembrou-se que Tello, o moo cavalleiro acabava n'esse instante de
salvar o pae. Nasceu-lhe na alma um amor repentino; veiu-lhe uma vontade
de vl-o, de lhe fallar; notou a generosidade de no acceitar mas beijar
o collar de prolas. Solcita e a medo assomou  gelosia; a luz do
candil reflectiu-se fra, atravs das grades da adufa. Sentiu uns passos
na rua, depois uma voz mansa e suave que proferiu no silencio da noite:

--Ebla!

Estes sons entraram na alma da donzella; e obedecendo  fascinao
d'aquella voz, lanou a cabea de fra. Viu na sombra um vulto, que a
irradiao lhe illuminou como a imagem vaga descripta no cantar da
cigana. Aquella voz, como vibrada por um verdadeiro amor, disse-lhe com
o imperio de uma vontade irresistivel:

--Vem.

Ebla desceu em cabello, e sentiu-se envolver em um abrao apaixonado,
vehemente, expressivo. Era a primeira vez que sentia o amor. Deixou-se
levar sem saber porque, nem para onde.

N'aquella noite, com as festas do casamento de el-rei D. Manuel, as
portas da Judiaria ficaram abertas. Ebla e D. Tello afundavam-se na
escurido da noite, quando entra na Judiaria um tropel immenso de homens
de armas e de cavallo; ia na frente o alcaide da justia. Ao som de uma
matraca restabelecera-se o silencio, e pela escurido sombria e
soturna da Judiaria soava uma voz sinistra, como de sentena:

Prego d'el-rei D. Manoel, para os judeus, ao toque da alvorada,
embarcarem para fra de Lisboa, sob pena de morte.

A palavra morte accendia na multido um enthusiasmo frenetico que
apupava, ameaava e esbravejava cantando entre risos alvares:

    Ea! Judios
     enfardelar!...
    los Reyes mandan
    passar la mar.

quelle grito sinistro, toda a judiaria se levantou em pezo; do fundo do
seu subterraneo saiu o velho Rabbi, solicito, temeroso, mas constante.
Ouviu proferir a sentena ominosa. Chamou por sua filha, e foi accordar
as outras crianas que dormiam; a mulher voltou apressada do p dos
thesouros. Tornaram a chamar por Ebla; o grande ruido das ruas e da
multido nada deixava perceber. Chamou por Ebla com uma afflico de
morte; viram a porta aberta; multido de gente que tripudiava, lanando
fogo s casas. O velho pae parecia um leo ferido.

--A maldio d'esta raa caiu inteira sobre mim. Perdi tudo ao
levarem-me essa filha. A minha condemnao, a minha morte para salval-a.
Se ha no mundo alguma fora superior, que seja o destino das cousas,
Jahv ou Jesus, acaso ou as potencias do inferno, conjuro tudo
sacrifico-lhe a minha vida, a minha sorte pelo apparecimento d'Ebla. De
que vale todo esse ouro e pedrarias se perdi Ebla; levaram a minha joia
de mais valia, e com ella todas as esperanas e alegrias da minha vida...

Era incomportavel a dr do velho; ia continuando, frenetico, doido;
queria fazer-se christo para procurar a filha, quando eccoou de novo a
voz do alcaide da alta justia:

Soou agora o toque da alvorada; o incendio lavra j na Judiaria!--Ao
embarque, ao embarque nos galees do Tejo, ou a morte  escolha.

O velho Rabbi saiu com sua mulher e dois filhos pequenos, levados em
tropel confuso e lamentos para o Tejo, aonde se enchiam os galees de
Hollanda, e resoava o ecco lugubre:

    los Reyes mandan
    passar la mar.




Os quatro filhos d'Aymon

(CONTO DO CERCO DO PORTO)


Havia tres dias que o Marechal Solignac desembarcara no Porto com alguns
soldados belgas; com elles entrara tambem para dentro do crco um
terrivel inimigo--o cholera-morbus. Aos tiphos, que j devastavam a
cidade, veiu ajuntar-se essa nova desolao, para tornar mais completo o
triumvirato da morte. De cem pessoas, atacadas diariamente, succumbia um
tero. A fome ia conduzindo ao desespero, porque, alm das foras
inimigas, desde janeiro que os vendavaes bloqueavam a barra.  falta de
carne, os doentes eram sustentados a spa de bacalhau; os caldos eram
temperados com assucar e aguardente, as camas eram desfeitas para
sustento dos cavallos, e, alm dos preos dos generos encarecerem,
os mercieiros vendiam falsificaes doentias, taes como de azeite e oleo
de linhaa, ou de manteiga e sebo. Era preciso luctar com a fome, e em
fevereiro comeou a distribuir-se uma sopa economica, de um quartilho de
caldo de feijo com arroz e farinha de trigo; no primeiro dia acudiram
trezentas pessoas, ao segundo dia subiram j a setecentas as raes.
Emfim, desde a perda do reducto do Monte de Crasto, que Solignac apenas
conservou oito horas, as condies de resistencia da cidade tornaram-se
desesperadas; derrotado o marechal, na sua tentativa de assalto ao
Castello do Queijo, em 24 de janeiro, a consequencia desastrosa fez-se
logo sentir. O inimigo comprehendeu que, fechando a barra do Porto,
venceria o crco pela fome. Para isso fortificou quasi toda a costa, e
levantou a terrivel bateria de Serralves, que cortava toda a
communicao com a Foz. Pelo seu lado, os liberaes reforaram o reducto
da Senhora da Luz e occuparam immediatamente as alturas do Pastelleiro e
do Pinhal. Mas a resistencia ia-se tornando cada vez mais inutil, porque
alm da chuva de granadas que cahiam dia e noite sobre a cidade, alm da
recrudescencia do cholera, para o qual j no bastava o hospital da
Quinta dos Congregados, o mar conservava-se to tempestuoso que no era
possivel apparecer vla alguma no horisonte! Foram quarenta dias
desesperados, quarenta dias em que esteve tudo perdido, menos a fora
moral.

A historia official, subordinada  exaco dos boletins de campanha, no
allude a este cyclo dos quarenta dias do principio do anno de 1833, e
comtudo n'esse periodo de desolao extrema  que se praticaram os
maiores rasgos de validez moral: todos foram heroes, as mulheres, os
velhos.  triste que homens do talento de Garrett e de Herculano, e
mesmo generaes que sabiam trocar a espada pela penna, e que foram heroes
n'esses grandes dias de sacrificio, se no lembrassem de colligir as
sublimes tradies epicas do crco do Porto, que ainda casualmente se
repetem. Essas tradies vo-se perdendo, como toda a poesia de um povo,
que comea a morrer pelo esquecimento do seu passado. Contaremos um
d'esses esplendidos episodios, desconhecido dos historiadores, mas
conservado ainda na vida burgueza do Porto; pinta-nos o espirito de
resistencia em que a cidade se achava, n'esses quarenta dias decisivos.

A 4 de maro, as tropas de D. Miguel foram atacar as posies dos
liberaes na Foz, seguras de que era j impossivel sustental-as mais
tempo; no meio da sua hallucinao, os atacados tomaram a offensiva, e
os rebeldes retiraram-se deixando duzentos mortos no campo. D. Pedro,
que gastava os seus esforos em conciliar os generaes despeitados,
apparecia sempre em todos os momentos de conflicto. Era junto dos
soldados, ao p dos voluntarios burguezes, que elle readquiria confiana
e se mostrva alegre, presentindo o triumpho da causa da liberdade.
D. Pedro appareceu na bateria da Luz; foi ahi que se lhe tornou
reparavel um velho que elle encontrava sempre vagabundo pelas linhas,
nos pontos em que eram renhidos os ataques. Notou que o velho andava
desarmado, e observando diligentemente; no pde deixar de dirigir-se a
elle com um interesse e familiaridade em parte provocados pelo seu
aspecto venerando e cheio de auctoridade:

--Amigo! que faz voc por aqui?

--Senhor, tenho aqui nas linhas um filho.

--Bem; ento ande  vontade, se no tem medo das balas.

--Medo das balas? Isso so confeitos de noivado. No tivesse eu c os
meus setenta e quatro, que outro gallo cantaria.

--O seu filho, v-o d'ahi?

--Por ora ainda o vejo. No estou aqui por ter medo de perdel-o;  para
ir socegar as mulheres, as irms, que sempre esto com cuidado. Querem
saber alguma cousa das linhas.

Este dialogo foi interrompido por um toque de carga  baioneta; pode-se
imaginar quem trouxe para a cidade a noticia do triumpho. Chegou o
terrivel dia 24 de maio; estava acabado de construir o reducto das
Antas, guardado apenas por trinta soldados de caadores 5. N'isto, as
tropas inimigas, de dois mil homens, tomaram o reducto das Antas! Era
preciso desapossal-as, a todo o transe, e de facto no poderam conservar
o reducto alm das tres horas da tarde desse dia. Infanteria tres,
nove e dez, quarenta lanceiros e um batalho inglez cumpriram o seu
dever; foi uma refrega atroz. O Monte das Antas ficou juncado de
cadaveres; mais adiante, na Casa Negra, era ainda maior a carnificina.

Foi no combate da retomada das Antas que D. Pedro tornou a encontrar o
velho burguez; j lhe haviam dito como se chamava. Era o contraste do
ouro, o typo do antigo homem bom, cho e abonado, como o caracterisa a
Ordenao do reino; chamava-se Cosme Martins. Assim que D. Pedro deu por
elle no tropel, destacou-se dos officiaes, para fallar-lhe:

--Outra vez por aqui, com este fogo?

--Tenho c outro filho.

--Outro filho? Como se chamam os rapazes?

--Na bateria da Luz est o meu Eduardo, tem dezenove annos feitos.

--Pde bem com a espingarda. E o outro?

--Est aqui nas Antas;  o meu Thomaz, j formado em leis.

Em meio da conversa, D. Pedro foi interrompido por uma d'estas
circumstancias que se do em todo o campo de batalha; vieram contar-lhe
como se achara uma carta na algibeira de um morto por onde se sabia que
era o major dos realengos de Trancoso. No se tornaram a vr, n'esse
dia, o velho e D. Pedro.

A sete de abril, descobriu-se a longa estacada feita pelos inimigos
desde as primeiras casas de Paranhos at  Eira do Covlo. Queriam
fortificar-se alli; no havia tempo a perder; era preciso desalojal-os.
A artilheria dos liberaes comeou a responder desde as nove horas da
manh, e durou o fogo at s seis horas da tarde. Cruzaram-se as
baterias da Gloria, do Pico das Medalhas, do Serio, da Aguardente e de
S. Braz. Uma fora de mil homens sahiu fra das linhas, para tomar de
assalto o monte do Covlo, que os inimigos abandonaram. Porm, no dia
10, os miguelistas voltaram, com o intuito de retomar os pontos
perdidos, onde os liberaes tinham levantado um reducto em menos de oito
horas. Estavam l dentro apenas duzentos soldados; foram atacados por
mais de dois mil dos rebeldes, que chegaram at dez passos de distancia.
No meio do fogo, quasi  queima-roupa, jogavam-se os insultos que
tornavam mais violento o ataque; de dentro perguntavam aos assaltantes
se elles traziam os saccos para a pilhagem da cidade. Foram momentos
decisivos: duzentos homens livres poderam esmagar dois mil janizaros.

No meio d'esse implacavel desbarato, andava D. Pedro, e quando tornou a
avistar o velho, que estava envolvido em um antigo capote de camelo,
sorriu-se para elle, como quem o tomava j como um presagio de
felicidade. E emquanto tocava a reunir, D. Pedro foi para elle,
esfregando as mos:

--Ol! bom homem.

--Senhor D. Pedro, elles hoje  que pagaram o vinho.

--E bem pago. Ento voc tem por c mais algum filho?

O velho no pde deixar de alegrar-se com a pergunta maliciosa, e
respondeu com uma convicta serenidade:

--Tenho aqui mais outro filho.

--Outro filho, homem! De dois, sei eu.

--Este  o que me ajuda no officio; ficou de hontem para hoje no reducto
do Covlo, e j sei que est so como um pro...

--Parabens, amigo, parabens. Com que ento, na bateria da Luz, um; no
reducto do Monte das Antas, outro; no Covelo...

-- o meu filho Cosme.

--Ainda tem mais algum?

O velho sorriu-se, com r de quem busca attenuar uma phrase, que poderia
ser tomada como expresso de vaidade:

--No queria fallar do outro filho, que tenho na bateria do Pico das
Medalhas, antes de me encontrar alli com vossa magestade.

--Oh! homem! outro filho?

--E mais que tivesse; esse  o meu Fortunato; e quando no est no fogo
da bateria fica de semana, em servio medico no hospital dos cholericos
de S. Pedro de Alcantara.

D. Pedro emmudeceu diante da revelao casual de um to completo
sacrificio. Abraou o velho, porque no pde articular palavras, e
os olhos marejaram-se-lhe de lagrimas. Aquella natureza egoista,
como a de todos os principes, insensivel  dedicao como o revela a
demisso do grande Mousinho da Silveira, foi uma vez tocada pela
realidade das cousas. As palavras desinteressadas d'aquelle velho
revelaram-lhe que se elle sabia sacrificar-se por uma filha, ninguem, em
uma cidade sem muros, cercada por mais de oitenta mil inimigos, dizimada
pela peste, apertada pela fome, ameaada pelo saque, ninguem poupava o
seu sangue, porque todos queriam converter a liberdade em um direito. O
sacrificio de um pae ficava supplantado pelo sacrificio a uma gerao
inteira!




Odio de inglez

COMMENTARIOS AO CONTO DO SR. THEOPHILO BRAGA

_A adega de Funck_


Uma das idas de que todo o bom artista se possue fortemente, foi de que
Hoffmann, apesar da extravagancia das suas composies, no inventava
totalmente os typos singulares da sua grotesca e terrivel galeria.
Hoffmann, como Callot, Lantara, Heine, Diderot, e Chamisso, accusados de
terem creado typos fra da natureza, extravagantes, impossiveis, e
movendo-se n'uma atmosphera puramente ideal, tinha reunidos, s potentes
faculdades creadoras do poeta, todos os finos e preciosos dotes de
observao--o apanagio especialissimo da pintura.

Ora Hoffmann foi uma das mais privilegiadas e divinas organisaes
artistas--por que como todos o sabem excellentemente--foi _maestro_,
poeta e pintor.

 possivel que a imaginao singular do narrador allemo preenchesse
muitas lacunas dos dramas reaes, de que o seu lapis tomava apontamentos,
lhe dsse depois uma outra vida mais poetica, mais ideal, mais conforme
 sua organisao de visionario, de poeta e caricaturista--e elles
depois apparecessem no seu estranho reportorio sensivelmente
transformados e melhorados--como um artista mysanthropo emendando a
natureza, e nos seus momentos de mo humor permittindo-se a liberdade de
a achar vulgar e imbecil.  possivel, porque todos os verdadeiros
artistas tm sentido estas taciturnas horas de mysanthropia incuravel, e
este profundissimo desgosto da ordem regular das cousas.

Mas o que  certo  que achamos attestados notaveis tanto nos seus
contos como nas suas carteiras, notas secretas, de que Hoffmann era um
espirituoso observador, e que no creava--totalmente--as suas
composies por muito estranhas que paream.

N'um dos mais bellos contos de Theophilo Braga, _A adega de Funck_,
n'aquelle dialogo entre o visionario e o amigo, achamos sempre um novo,
melancholico e precioso sabor. Baseia-se o conto n'aquelle amor do
artista pela novidade dramatica e singular que apresentam certas
peripecias vulgares da vida real. Hoffmann mostra-se possuido da ida de
escrever um conto fundado n'uma aventura sinistra de um homem a quem a
mulher confessa, na hora cheia de lagrimas da agonia, de o haver
trahido, e a que elle retribue successivamente com a fria e medonha
confisso de a _haver envenenado_.

Ora ns, na distraco solitaria do nosso gabinete, folheando ha pouco
um livro curioso pela sua notavel excentricidade, de Emilio
Colombey,--encontramos a sinistra historia, que tanto impressionou o
nervoso narrador allemo.

Emilio Colombey diz haver extrahido a noticia, que nos impressionou
tambem, das columnas da _Gazeta dos Tribunaes_, de 1795.

Vamos dar alguns pormenores sobre esta historia colhidos no livro de
Colombey, que serviro como de curiosa nota ao conto phantastico de
Theophilo Braga;--os leitores de apurado gosto litterario acharo prazer
em conhecer a aventura terrivel.--

O auctor d'esse assassinio mysterioso, diz a _Gazeta dos
Tribunaes_,--depois de descrever o homicidio de um official de marinha
ingleza que se affastava rapidamente n'um escaler de guerra, o
_Penguim_, no canal de S. Jorge,--o auctor d'esse assassinio singular,
pertencia a uma das mais antigas e illustres familias inglezas.
Chamava-se lord A... e gosava no condado de Tifferay de todos os
privilegios inherentes ainda  auctoridade feudal. Os sentimentos que
lhe votavam, tambem, eram geralmente, mais do terror que os da amizade;
porque era bem notorio que o lord, no seu odio pela Irlanda, no tinha
retrogradado muito aos tempos da Rosa Vermelha e da Rosa Branca, e que
no era por falta de vontade que os irlandezes no eram tratados to
deshumanamente como sob Henrique VII, quando conquistou aquella ilha e
lanou as bases da legislao atroz que devia pesar sem interrupo
sobre esta nao humilhada.

No era voluntariamente, tambem, que lord A... viera estabelecer-se na
Irlanda, depois de haver sido por muito tempo em Londres um dos _dandys_
mais requintados do Regent Street e de Piccadilly: tinha-lhe cabido em
herana um vasto dominio no condado de Tipperary. Mas o testamento do
legatario tinha uma clausula pela qual se estabelecia que este no
poderia ser senhor do dito dominio, seno com a condio de o habitar
perpetuamente. O lord inglez, que estava longe de possuir uma fortuna
correspondente  illustrao do seu nascimento e ao seu amor do luxo,
viu-se na necessidade de subjugar-se a esta extravagante exigencia.

A antipathia hereditaria que tinha  Irlanda mais se aggravou com esta
restrico, e o seu humor, naturalmente melancholico, tornou-se sombrio
e feroz. Comtudo, como era rico, e ligado a uma dama caritativa e
formosa, que, afinal de contas, semeava em torno de si o dinheiro com
uma rara profuso, a opinio publica mostrava-se paciente e attribuia,
no sem razo talvez, as frias violencias e os excessos sem paixo a que
se deixava levar,  originalidade do seu caracter.

Lord A. seguido de um doutor que fra chamar,--porque mal acabara de
commetter o assassinio fra chamar um medico para assistir a lady que se
achava agonisando,--Lord A. seguido do doutor, atravessou
silenciosamente o seu dominio, embrenhou-se no campo, e subiu com passo
firme o caminho em declive que conduzia  entrada do castello senhorial.

O cuidado que se havia tomado de estender por todos os corredores uma
espessa cama de palha e feno, a physionomia alterada dos creados que
atravessavam machinalmente as camaras e os corredores, como para fugirem
a um indomavel terror, emfim os gritos dilacerantes que quebravam, por
intervallos, o profundo e frio silencio que reinava n'aquella casa,
affirmavam sufficientemente que se estava representando ali uma scena de
agonia.

Lord A. sem se dignar dirigir uma palavra aos creados, penetrou no
quarto d'onde partiam os gemidos desesperados. Uma mulher extremamente
nova ainda e de uma physionomia das mais seductoras, estava estendida
n'um leito, na attitude de um soffrimento incrivel; os longos cabellos
loiros desmanchados envolviam-a toda; corria-lhe o suor do rosto; e o
corpo abalado de estremecimentos convulsivos retrahia-se sobre si mesmo
a intervallos, com uma horrivel flexibilidade.

O lord parou a este espectaculo. A doente ouvira-lhe o ruido dos passos
e pronuncira o seu nome: fixou n'elle um olhar desvairado com uma
indefinivel expresso de dr, e voltando-se para o medico, que se
conservava ao p do leito n'uma immobilidade contemplativa, bradou-lhe
n'uma voz sonora que no admittia hesitao nem recusa:

--No tendes nada aqui que fazer, senhor, sahi!

O medico parecia indeciso, e cheio de duvidas terriveis: no emtanto no
tratou de se oppr a esta ordem, porque um simples olhar bastou-lhe para
comprehender que lady A... estava perdida. Todavia pegou na mo da
doente, baixou-se para vel-a melhor, e no poude ser senhor de um
estremecimento, observando que as unhas d'aquella mo, j livida,
estavam mosqueadas de pequenas nodoas negras. Assim que saiu do quarto,
lady A... fez um signal ao lord de approximar-se, e opprimindo-lhe o
brao com uma fora cheia de paixo:

--Mylord, esperava-vos para morrer, no chameis ninguem, no invoqueis
soccorro algum, o mal  irremediavel, o doutor bem o percebeu: viste-o!

Abafou no travesseiro os soluos involuntarios que lhe arrancava o
soffrimento, e ajuntou:

Ouvi, mylord;--uma pobre mulher  morte, que succumbe s mais atrozes
torturas, tem direito, talvez, a alguma indulgencia. Rasgae, oh! rasgae
por um momento o manto de frieza com que vos cobris... por que tenho um
favor supremo a solicitar-vos, uma confisso dilacerante a fazer-vos...
Eduardo, lady A... acha-se criminosa, bastante criminosa para comvosco.
Durante a vossa ultima estada em Londres, um homem, que na mocidade
amei, aproveitou-se do isolamento em que me achava pela vossa ausencia,
para despertar com suas palavras, em mim, recordaes mal extinguidas.
Que mais direi? No vos achaveis aqui para me defenderdes da minha
fraqueza, para me proteger contra o meu corao, succumbi...  isto o
que vos quiz confessar antes de descer ao sepulchro, e o que me causa
dres mais atrozes do que as da agonia. Sde clemente, mylord!... A
expiao succedeu logo  culpa. Sinto arderem-me as entranhas. Deus
encarregou-se de vos vingar!

Lord A. escutra esta confisso solemne da moribunda com uma atteno
grave e recolhida. Os seus gestos em perfeita immobilidade, no deixavam
transparecer colera, espanto ou piedade. Contentou-se s em apertar a
mo da moribunda que procurava a sua.

Surpreza com este silencio, lady A... por um violento esforo tratou de
se levantar no leito, e encarou fixamente o marido, procurando vr se
lhe lia nos olhos o seu pensamento mais secreto.

--Depressa, mylord, soluou ella,--um derradeiro beijo; o beijo do
perdo.  quasi n'uma morta que o daes!

--Eu sabia tudo, e perdo-vos,--respondeu o lord sem se commover. Mas,
lady, a vosso turno, tendes tambem que me conceder um perdo: fui eu que
vos envenenei.

E ajuntou com o mesmo sangue frio:

--Quanto ao vosso amante matei-o esta manh nas margens do canal de S.
Jorge.

Uma exclamao de horrivel espanto, um grito de odio selvagem succedeu a
esta dupla revelao, atirada de um modo to calmo no meio de uma to
dolorosa agonia.

Sempre senhor de si, lord A. no abandonou a cabea da moribunda em
quanto esta no exhalou o derradeiro suspiro.

Depois de lhe ter emfim coberto a cabea com o lenol mortuario, pegou no
castial que havia illuminado esta scena lugubre e subiu ao andar superior
onde estavam situados os seus aposentos particulares. Ao affastar-se
d'aquelles tristes logares, teve o cuidado de ir fechando as portas dos
diversos quartos por onde atravessava, de lhes tirar as chaves e ir
correndo todos os ferrolhos, atraz de si, sem excepo de algum.

Ninguem teria podido suspeitar, nem da sua attitude firme, nem dos seus
gestos fleugmaticos, um indicio qualquer da mais leve agitao; e se por
acaso o temor ou o remorso lhe agitavam surdamente o corao,
esforava-se por occultal-o a si mesmo.

Durante toda a noite viu-se brilhar uma luz no quarto de dormir do lord;
no chamou creado algum, e reinou sempre o mais profundo silencio n'esta
parte do castello.

No outro dia pela manh o creado de quarto do lord tentou debalde
penetrar nos aposentos, e, cheio de inquietao, mandou chamar os
_constables_ e os _policemen_. As portas foram abertas pela fora
armada, e quando entraram poderam ver ento o lord estendido em cima de
um tapete e banhado em sangue.

Uma expresso de ironia convulsiva era a unica cousa que a morte lhe
deixara impressa na physionomia decomposta. Sem perder cousa alguma do
sangue frio estoico de que os suicidas inglezes teem offerecido at hoje
to espantosos exemplos, o lord havia-se degolado com uma navalha
de barba, e havia separado de um unico golpe, com uma fora incrivel e
com a mais sinistra habilidade a seco da arteria carotida.

A vella, quasi toda consummida, ardia ainda sobre a mesa, onde estava
collocado, no logar mais visivel, um papel, lacrado e sellado com as
armas do lord e com esta epigraphe escripta certamente por um punho
firme e seguro:

_Testamento de lord A... fallecido em C... a 7 d'outubro de 1795_

Este papel, depois de aberto, indicava o _spleen_ feroz que roa o lord,
e o odio cego que elle votra  desgraada Irlanda:

Eu deixo e lego a somma annual de dez libras esterlinas para serem
pagas, perpetuamente, pelos meus successores; essa somma, tal  a minha
vontade e o meu gosto, ser empregada em comprar um certo licor, chamado
vulgarmente _wiskey_; e fazer-se-ha saber ao publico que este licor deve
ser distribuido a um certo numero de particulares irlandezes, smente,
cujo numero no poder ser superior a vinte; e devero ajuntar-se no
cemiterio em que eu hei de ser enterrado. Ahi dever ser entregue a cada
um, um bordo de carvalho e uma faca, e, assim armados, comear a ser
distribuido um quartilho de _wiskey_ a cada um, at que toda a rao
seja consummida, e  minha vontade que isto tenha logar todos os annos a
17 de maro ou a 10 de outubro.

A razo por que assim determino isto  para que os habitantes
grosseiros da Irlanda, cada vez que se juntem, nunca lhes escasseiem
armas para se destruirem; e por isso quiz tomar o meio mais efficaz de
os reunir, na esperana que com o tempo chegaro a despovoar por suas
proprias mos o seu paiz, que se poder tornar a povoar depois com uma
raa civilisada vinda de Inglaterra.

Aqui termina a estranha noticia dada pela _Gazeta dos Tribunaes_, que
extrahimos do livro de Colombey.

Ora Hoffmann  muito provavel que houvesse lido o celebre jornal, que
trazia sempre dramas muito notaveis por aquelles tempos to agitados de
1795, e muito mais notaveis especialmente para aquella imaginao
ardente do poeta allemo: pois que  certo que na sua carteira existiam
muitos outros apontamentos como este; ou a que Hoffmann no tinha achado
no seu espirito a frma especial em que os devia moldar; ou porque novas
phantasias de visionario o impediam.

Muitos dos seus contos tinham sido achados na conversa dos amigos, nos
jornaes, na rua e nas obras dos auctores que lia. Juntamente com este
drama, este terrivel conto em embryo--que Theophilo Braga faz to bem
perseguir a imaginao doente do artista n'uma noite chuvosa,  luz
crepuscular de uma lampada, n'uma adega subterranea--juntamente com este
apontamento, estava outro colhido no _Diabo coxo_, de Lesage. O assumpto
devia ser um demonio perseguidor e conselheiro. E com estes mais...

O que Hoffmann faria com este terrivel incidente, colhido na _Gazeta dos
Tribunaes_, ou talvez na transcripo dos jornaes allemes, deixo-o
suppr quelles que teem admirado as vises terriveis do
allemo.--Talvez um conto cheio de phantastica tristeza, como o D. Juan
ou o Morgado?!...

                                                            GOMES LEAL.




NOTA.--O livro d'onde extrahimos este commentario cerca do bello conto
de Theophilo Braga intitula-se _Les originaux de la dernire heure_.
Citamol-o aqui para no fazermos como certos histries lentejoulados das
letras, cujos plagiatos so em to grande numero como as obras, e para
os quaes ser um dia terrivel aquelle em que se lhe desafivellar a
mascara da consciencia cancerosa e em que se proceder a excavaes nas
suas obras.

                                                                 G. L.

(_Da Tribuna_, n.os 8, 9 e 10, de 1874).




ADDITAMENTO




Carta a Jos Fontana

(DA 1. EDIO)


                                                     _Meu caro editor_

Disse-me que esperava um prologo, para comear a publicao dos
_Contos_; lembrou-me escrever-lhe um capitulo de esthetica sobre esta
frma litteraria. O publico no gosta de abstraces. Por minha vontade
desistia do promettido; limito-me porm a algumas consideraes historicas.

A frma do _conto_  de origem oriental. As fabulas de Bidpa foram o
primeiro ensaio para fazer sentir uma moralidade abstracta por meio de
uma fico interessante.  pelo seculo XII que esta creao do genio do
oriente apparece na Europa, imitada na _Disciplina clericalis_ de Moyss
Sephardi, conhecido depois da sua converso ao christianismo com o nome
de Petrus Alphonsus. A _Disciplina clericalis_, escripta em latim
barbaro, para ensino dos clerigos, compe-se de trinta e sete contos e
apophtegmas, que o auctor imagina dados por um arabe a seu filho na hora
da agonia. A popularidade do livro foi dispondo os animos para a cultura
d'esta frma litteraria.

O _Conde de Lucanor_ de D. Joo Manuel, algumas das fices do _Gesta
Romanorum_, o _Decameron_ de Boccacio, os _Contos de Cantorbery_,
resentem-se bastante do livro do judeu convertido da Huesca.

Uma creao do genio celtico e germanico  o mundo ferico; elaborada
lentamente na phantasia popular, animada n'esses typos de Melusina,
Morgane e Urgante, dos trovadores da Edade mdia, cantada depois nos
galanteios de Boiardo e Ariosto, Spencer e Shakespeare, tornou-se o
divertimento infantil dos _Contes bleus_, os contos de fadas, colligidos
nas _Notte piacevoli_ de Straparole, publicadas no seculo XVI, e no
_Pentamerone_ de Giambattista Basile em 1637.

O conto  a frma litteraria da lenda. Boccacio no _Decameron_,
n'aquellas transies instantaneas do ridiculo ao pathetico, revela uma
face profunda da historia, o estado dos espiritos na terrivel peste de
1358. A imaginao era to perigosa como o contagio; a distraco
calculada, o prazer egoista dos jardins de Pampinea, a indifferena, o
scepticismo que se desenvolve nas grandes calamidades, s podiam
suspendel-a na exagerao do terror. Nos contos da Edade mdia ha uma
mistura de devoo e desenvoltura; no _Heptameron_ da rainha de Navarra,
as aventuras cavalleirosas, as intrigas de amor, os padres e monges
seduzindo as novias, entretecem-se com reflexes moraes, e de _quelque
lon de la sainte Ecriture_.  a mesma antithese fatal que parodia a
exaltao religiosa nos ritos grotescos da egreja. A Edade mdia
retratou-se em todas as suas creaes, mesmo nos _fabliaux_ e no conto.

O conto  a passagem do fabulario para a linguagem da prosa, ingenua,
rude, de uma franqueza maliciosa muitas vezes, e desenvolta. O conto era
uma situao inventada para aproveitar um dito feliz, um repente
engenhoso dos seres das crtes e dos castellos; nasceu d'aquelle genio
primitivo, com que Froissart narrava a historia.

Demogeot, na sua _Historia da Litteratura franceza_, considera os contos
do seculo XVI como alheios ao desenvolvimento intellectual;  uma
affirmao menos verdadeira por absoluta. A actividade d'este periodo, a
fecundidade e originalidade verdadeiramente cahoticas reproduzem-se em
Rabelais, o creador de _Gargantua_ e _Pantagruel_.

A Renascena com as fices gregas e romanas desnaturara o conto. No
seculo XVII elle torna-se volumoso, arrebicado de galanice e galanteria
amaneirada. As attenes tinham refluido sobre os trabalhos
philosophicos; ficaram as creaes imaginativas em poder das
Gamberville, de Scudery, de La Calprende e quejandos, que as alongaram
fastidiosamente com pieguices sentimentaes, por essas sries indefinidas
de volumes da _Polexandra_, _Caritea_, _Cytherca_, _Cassandra_,
_Pharemundo_, _Ibraim ou o illustre Bassa_, _Artamene ou o grande
Cyrus_, _Clelia e Almahide_. Os heroes apaixonados so Anacreonte
conversando em amaveis versos, Bruto e Lucrecia, Horacio Cocles e
Clelia, movidos pelos interesses da sociedade moderna; a magestade
escultural da antiguidade e da historia em presena das pequeninas
intrigas amatorias tocra o cumulo do ridiculo!

O movimento, a convulso philosophica do seculo XVIII apparece tambem no
romance e no conto. Lesage escalpelisa a natureza humana, e o _Gil Blas_
 a synthese das observaes profundas; o abbade Prevost analysa as
paixes n'uma lucta intima, recondita, e procura os sentimentos novos
que scintillam dos que se embatem e se destroem. _Manon Lescaut_  uma
das verdades eternas do sentimento humano, a contradio do que mais se
aspira e idealisa, a vontade negando-se, mobilisando-se nos multiplices
desejos que tumultuam na alma. Voltaire philosopha tambem nos seus
_Contos_. Diderot, sobretudo, a intelligencia mais robusta do seu tempo,
mathematico, artista creador pela reflexo e inspirao, reduz ao
interesse do conto,  peripecia da aco as verdades mais abstractas. Na
assombrosa maravilha de arte, o _Neveu de Rameau_, mostra a maldade
disfarada em virtude pelas conveniencias; todos nos horrorisamos ao vr
alli o nosso retrato; sentiamos aquillo, mas no tinhamos a
coragem, a abnegao para dizel-o. O sobrinho de Rameau mostra-se
infame, ao passo que  sublime de razo, porque diz tudo o que pensa.
V-se agitarem-se n'aquelle cerebro em ebulio todos os processos
intellectuaes. Na _Religiosa_, Diderot evoca as dores cruciantes e
desconhecidas, soffridas nas trevas por um corao ingenuo, que  o
ludibrio do interesse egoista, do fanatismo estupido, e da superioridade
brutal. Este conto por si  uma revoluo latente. A analyse
delicadissima dos pequenos sentimentos que formam a grande lucta na alma
da _Religiosa_ no  inferior ao quadro do quietismo de Michelet no
processo da Cadire, e excede por muitas vezes a profundidade com que
Manzoni no _Promessi Sposi_ retrata as agonias da desgraada Genoveva no
convento de Monza.

Uma vez descobertos estes segredos do sentimento, o conto deixou de ser
individual; o romance  o desenvolvimento de uma these da vida na
sociedade. Richardson  a admirao de Diderot; Gothe descobre Diderot
 Allemanha, traduzindo a sua obra prima; elle mesmo isola os
sentimentos do amor e o dever no _Werther_ e chega pela arte  concluso
logica do suicidio.

Hoffmann, o caricaturista das paixes, de uma individualidade
extravagante, nas creaes abstractas d'aquella imaginao de
hypocondriaco deixa-lhes o incompleto do maravilhoso; mais tarde os
editores do aos seus contos o nome de _phantasticos_. Nos Contos de
Hoffmann ha uma srie de observaes psychologicas, de impresses
instinctivas que supprem a falta de imaginao; os seus contos so o
diagnostico de uma alma doente.  o lado que os torna apreciaveis,
apesar do capricho e grotesco dos typos a que a mente hallucinada d
frma. Os Contos de Edgar Po, a imaginao mais extraordinaria da
America, tm o phantastico da insolubilidade dos problemas philosophicos
que constituem a aco; tocam s vezes a alta metaphysica. Tendo de
transigir com as materialidades da vida, na esterilidade da indigencia
pede a inspirao ao alcool; elle sente a excitao lucida que lhe
d a fora espantosa da inveno, mas conhece j em si a tremulencia,
que  a decomposio inevitavel, e exclama no meio da fadiga--_No ha
peior inimigo do que o alcool!_ Edgar Po  a fora da imaginao e do
ideal supplantada pelo positivismo de uma sociedade manufactureira e
orgulhosa do seu caracter industrial; nos seus Contos ha a allucinao
prophetica da doudice.

A frma do conto  estudada em todas as litteraturas da Europa; trazendo
a lume este pequeno trabalho, s nos inspira a boa vontade de
corresponder ao movimento que observamos l fra. Que mais teriamos a
dizer de um livro simples que lhe no desnaturasse a inteno.


Coimbra, 8 de maro de 1865.

                                                        THEOPHILO BRAGA.






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*** START: FULL LICENSE ***

THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
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paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
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Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
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or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
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against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
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works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


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