The Project Gutenberg EBook of Factos Notaveis da Historia Portugueza e
Biographia do Marquez de Pombal, by Josefina Pinto Carneiro Perestrelo

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Title: Factos Notaveis da Historia Portugueza e Biographia do Marquez de Pombal

Author: Josefina Pinto Carneiro Perestrelo

Release Date: June 18, 2010 [EBook #32869]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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                            FACTOS NOTAVEIS

                                   DA

                           HISTORIA PORTUGUEZA

                                   E

                               BIOGRAPHIA

                                   DO

                            MARQUEZ DE POMBAL

                                  POR

                  JOSEPHINA PINTO CARNEIRO PERESTRELLO



                                 LISBOA
               TYPOGRAPHIA DE CHRISTOVO AUGUSTO RODRIGUES
                         104--Rua do Norte--104

                                  1882




A exma. sr. D. Josephina Pinto Carneiro Perestrello vae lanar-se na
turbulenta atmosphera da litteratura. S. ex. no se estreia com
assumptos banaes. O seu livro  fructo de profundos e aprimorados
estudos. Seduziu-a o grande vulto da actualidade: e s. ex. no se
contentou com a apotheose do marquez de Pombal... foi buscar a
justificao dos seus actos nas leis primitivas da monarchia; no
assentimento successivo das testas coroadas; e acompanha o illustre
ministro at ao momento em que, desprendido dos enormes cuidados da sua
vida laboriosissima adormece no duro leito da sepultura; e entra nos
dominios da inexoravel posteridade.

Que os anjos protectores das damas honestas e corajosas cubram com as
suas azas de ouro a intrepida escriptora  o que muito lhe deseja a sua
admiradora e amiga

Lisboa, 1 de maio de 1882.

                                              Maria Jos da Silva Canuto.




No  meu intento, nem teria foras para to levantados vos, escrever a
historia circunstanciada do grande vulto que se chamou Sebastio Jos de
Carvalho e Mello depois Conde de Oeiras e mais tarde Marquez de Pombal;
pretendo apenas com os elementos que nos legaram historiadores e
collectores de memorias da epocha, reduzir a breve transunto os traos
principaes da sua, notavel administrao, concorrendo assim com uma
pequenina parte, porque pouco posso e sei, para remunerar, por occasio
do seu centenario, factos que teem em si ensinamento, e que podem servir
de estimolo e exemplo.

Procurarei esboar o perfil d'esse personagem, que dentro em pouco se
tornar quasi legendario, pelo muito que valia, pelo muito que conseguiu
fazer, e porque n'um s homem se reuniu saber, energia, genio,
capacidade, e outros dons que dariam para muitos, mas que reunidas
n'elle foram um conjuncto benefico da prodigalidade divina, pois s um
tal colosso poderia arcar com todos os obstaculos que se lhe oppunham;
com todos os odios, todas as intrigas, todas as calamidades e
catastrophes. S a energia inquebrantavel de um tal reformador poderia
levar a cabo a grande obra de regenerao, e progresso de que Portugal
foi theatro.

A Providencia amerceando-se d'este paiz que j tivera importancia,
insuflou-lhe no espirito todas as qualidades que fizeram d'elle um
estadista admirado, no s dos seus, mas ainda mais pelos estrangeiros.

Direi pois como diz mr. John Smith nas suas memorias do Marquez de
Pombal d'onde traduzirei e colherei muitos dos traos, com que aqui
procurarei dar ideia do seu caracter e feitos:--

    [1] Such men are rised to station and command
    When Providence means mercy to a land,
    He speaks, and they appear: to Him they owe
    Skill to direct, and strengh to strike the blow,
    To manage with address to seize with power,
    The crisis of a dark decisive hour.

Ainda referindo-se a elle diz o mesmo auctor a Sir Robert Peel--:
Refiro-me  coincidencia que se d entre a vossa elevada posio, n'este
paiz (Inglaterra) e a que outr'ora occupou o grande ministro em Portugal.

Ambos foram em tempos criticos escolhidos para sustentar a honra e a
fora de grandes naes; e de ambos se exigia o delicado discernimento e
a firmeza, que distinguiram o dito Marquez,--qualidades estas que lhe
grangearam a admirao e inteira confiana do seu paiz, etc.

Diz ainda o mesmo com referencia  expulso dos jesuitas:--Se fosse
possivel anticipar aqui os promenores das _Memorias_ que se seguem, no
meio de todos os successos agitadores do ministerio d'aquelle estadista,
seria custoso descobrir uma medida que na sua concepo exigisse mais
coragem, ou que em seus resultados tivesse mais duravel importancia do
que a expulso d'aquella seita de Portugal. Este primeiro passo a
principio causou admirao, mas depois foi successivamente imitado pelos
soberanos catholicos de toda a Europa.--Portugal enfraquecido pelas
muitas guerras que havia sustentado dentro e fra do paiz, no promettia
vir a ostentar mais a grandeza e prosperidade que fruira na epocha em
que os seus filhos sulcavam os--_mares nunca d'antes navegados_--epocha
em que floresceram os seus mais illustres navegadores, guerreiros,
valentes, insignes escriptores como o nosso immortal cantor dos
_Lusiadas_, poema epico, que alem do seu grande valor real, tem ainda o
merito da prioridade, pois foi o primeiro poema epico que se escreveu
depois do seculo de Augusto. N'essa epocha a que se chamou a _edade de
ouro_--, os portuguezes levavam a cabo emprezas como a de Vasco da Gama;
plantavam o pendo das quinas na Africa, na India, conseguiam
estabelecer-se na China, iam  Ethiopia, estendiam o dominio portuguez
na Asia desde Ormuz at Malaca etc. No se satisfizeram porem com os
descobrimentos no Oriente e voltaram as suas vistas para o Occidente,
devassa Magalhes o estreito que ainda conserva o seu nome, porem morre
antes de terminar a empresa que se havia proposto. Foi de ento para c
que datam os descobrimentos na America e que Portugal se assenhorea de
vastos dominios n'esse continente, e assim se foi desenvolvendo e
accrescentando a prosperidade e engrandecimento da nao. Uma e outra
haviam sido preparadas e tido principio no reinado de D. Joo I mestre
de Aviz, rei illustradissimo e que deu  patria os mais brilhantes
principes.

Em 1415  tomada Ceuta  fora de armas; em 1418 descobre Gonalves
Zarco a ilha de Porto Santo e no anno seguinte a Madeira, j sob os
auspicios do infante D. Henrique, em 1433 morreu D. Joo mas deixou em
seu filho D. Duarte digno sucessor.

Em 1444  descoberto o archipelago dos Aores, e no anno immediato o de
Cabo Verde. Reinando j D. Affonso V, tomou este aos Mouros, Alcacer
Seguer, em 1458, treze annos depois, foram tomadas Arzila e Tanger.
Seguia-se o reinado de D. Joo II principe que alcanou o ser applidado
o _Perfeito_. Era illustrado, com a sua habil, ainda que por vezes
tenebrosa politica, soube abater todos os poderes que o offuscavam
conservando firme e superior a authoridade real.

Collises terriveis obrigaram-n'o por vezes a lanar mo de meios
extremos, no vacilando em empregar o punhal para fazer justia por suas
mos. Foi no seu reinado que em 1482 Diogo d'Azambuja fundou o Castello
de S. Jorge de Mina na Guin, e dois annos depois descobria Diogo Co o
Congo e perto de trezentas leguas de costa. Em 1497 reinando j D.
Manuel, primo e herdeiro de D. Joo II, partia Vasco da Gama a procurar
a India Oriental chegando a Calecut com dez mezes de viagem. Em 1500,
descobre Alvares Cabral o Brazil.

Foi n'este reinado que o Ceu parecia derramar venturas sobre Portugal,
mas foi tambem n'essa epocha que se principiou a elaborar a decadencia
que se lhe seguiu.

A emigrao para o Brazil tirava  me patria os seus filhos mais uteis,
e mais tarde a ambio do ouro fazia correr para as terras de Santa Cruz
todos que pela industria poderiam colaborar aqui no augmento e
conservao da prosperidade nacional. Alli um clima to diverso do
nosso, muitas vezes a miseria, a fome, a nudez, consequencias de uma
guerra quasi continua com os indigenas e depois com as hordas de
holandezes, de piratas, de inglezes, de francezes, etc., que quizeram
successivamente despojar-nos, fez do Brazil um sorvedouro onde se
afundavam todos, ou quasi todos os portuguezes que abandonavam a
patria por esse _El-dorado_ que se lhe volvia em sudario. Todos esses
braos no bastavam para l, que pela falta de exercitos, estavam esses
poucos sendo alvo de ataques e represalias, em que secumbiram, muitos
milhares e faziam falta na metropole.

 agricultura faltavam braos para se desenvolver; a industria morria de
innanio.

Veio o reinado de D. Joo III, principe pussilanime enervado pelo
fanatismo e incapaz de corresponder s exigencias, que aquella
conjunctura impunha ao inoperante.

Este monarcha arrastou o paiz  decadencia e ao abysmo.

Em vez de conquistas, estabeleceu a _Santa Inquisio_ com todos os seus
horrores. Seguia-se-lhe D. Sebastio que mal saa da infancia. Saturado
tambem de edeias falsas, guiado pelo debil brao de sua av, era quasi
sempre surdo aos conselhos do seu aio e mestre D. Aleixo de Menezes, que
o desviava de entregar todos os poderes em mos sagradas. No soube
utilisar em proveito proprio, e no da patria, que n'elle fundava todas
as suas esperanas, as bellas e nobres aspiraes que lhe ferviam na
mente. Foi impellido pelo enthusiasmo e pelo seu genio cavalleiroso para
as terras de Africa, com o nobre pensamento, de socorrer um rei
desthronado: mas a fatalidade que viera substituir as nossas passadas
venturas perseguiu o mallogrado mancebo e desditoso monarcha, que
derrotado na refrega de Alcacer Quibir, pereceu com a flor da nobresa de
Portugal e o seu exercito de desesseis mil homens, foi destruido e
desbaratado, deixando nas areas d'Africa o cadaver do rei, que no
poderam reconhecer. Esta calamidade trouxe a Portugal as maiores
complicaes. No havia herdeiro immediato e sete pretendentes se
desputaram a cora portugueza, e depois de mil intrigas e confuses o
reino caiu em poder de Filippe II, que appoiava as sus pretenes com um
exercito de 36 mil homens. Invadiu Portugal, fazendo assim, ou por falta
de recursos, para se lhe opporem, ou por desanimo, com que os rivaes se
auzentassem, e o deixassem na posse da sua usurpao.

Ficou pois Portugal anexo  Hespanha, em 1580. Ainda assim esse tyrano
que foi appellidado--_O demonio do meio dia_--s logrou subjugar este
povo  custa de milhares de vidas.--A mortandade e a carnificina foram
horriveis. Diz o Conde da Ericeira no seu _Portugal Restaurado_ e
accrescenta que o mar no querendo occultar tanto delicto, trazia os
corpos s redes dos pescadores, e retiravam-se d'ellas os peixes
offendidos do insulto, recusando ser alimento de homens que mudando as
disposies de Deus, lhes queriam dar homens por alimento.

Esta indignao dos peixes durou tanto tempo, que, segundo diz o mesmo
historiador, foi necessario ir a rogos dos pescadores, o Arcebispo de
Lisboa, em procisso benzer o mar profanado por tantos sacrilegios, para
que elle (como succedeu) tornasse a dar o seu tributo.

A grande importancia a que Portugal se elevara entre as naes da
Europa, no tardou em diminuir. O seu brilho declinou, em consequencia
de torpe governo de Madrid, mas nem s a sua influencia e riqueza, mas o
seu poder maritimo e colonial, porque as nossas esquadras se perderam
nas costas d'inglaterra, fazendo parte da invensivel armada, e as
melhores das nossas colonias foram atacadas e tomadas pela mesma
Inglaterra e pela Holanda com quem a Hespanha estava em guerra.

O imperio que os portuguezes haviam adquirido na Asia, desapparecia. A
perneciosa influencia de Castella sobre o nosso paiz, n'esses
desgraados sessenta annos, ainda hoje se sente, e veio cimentar entre
os povos nascidos para serem irmos, odios que uma desconfiana
constante no deixa apagar. Desconfiana justificada pelo desejo dos
hespanhoes de conseguirem a anexao! esperana que  n'elles uma utopia
inveterada. A fuso das duas naes  repugnante. Ope-se a ella o amor
inabalavel, que os portuguezes, teem pela sua liberdade e a memoria, que
nunca se apagar das atrocidades soffridas, n'esses terriveis annos de
escravido; e mais ainda o caracter e indole dos dois povos, que so
completamente oppostas, e que s podem amar-se em quanto durar o
respeito pelos direitos de cada um. Muito se amam entre si, os bons
irmos; mas cada um governa em sua casa, e ai do amor, se um d'elles, se
lembra de querer governar a do outro.

Era ento n'essa epocha em a nossa capital que se concentrava o
monopolio de todo o commercio do Oriente. Aqui se reunia gente de toda a
parte do mundo para o trafico dos productos da Asia. A posio
geographica de Lisboa tornava-a por assim dizer o logar de _rendez-vous_
de todos os estrangeiros curiosos ou commerciantes. Rebentou a guerra da
Hespanha com Hollanda e em consequencia d'ella os hespanhoes expulsaram
d'aqui os hollandezes que em represalia se assenhorearam de algumas das
mais bellas joias da cora portugueza, avultando entre ellas Ceylo e
Malaca que nunca nos foram restituidas.

A Hespanha principiou ento a colher os fructos que semera. A medida
impolitica e barbara da expulso dos moiros da Hespanha, condescendencia
do duque de Lerma com os padres, e do rei com o seu ministro
omnipotente, foi-lhe to fatal como a de D. Manoel de Portugal com a
expulso dos judeus, mas bem mais tragica. Esse erro politico
cavou-lhe a ruina e preparou-lhe a decadencia, fazendo desconhecer a
Hespanha a quem a comparasse  do tempo de Carlos V. Como ns a Hespanha
tivera tambem um passado gloriosissimo.

N'esses tempos seus filhos pensavam mais no engrandecimento e prestigio
do seu nome, do que em subjugar um povo que pelo seu valor e energia,
pelo muito que tinha feito conquistra o direito de ser respeitado e de
conservar a independencia que sempre soubra manter.

Como ns, que possuimos Alvares Cabral, Gama e outros, a Hespanha tivera
um Colombo, Cortez e tantos mais. Como ns tivera no Cid Campeador o seu
D. Nuno Alvares Pereira.

Em ambas as naes houve illustres navegadores, valentes guerreiros,
habeis politicos, poetas sublimes, prosadores e dramaturgos
universalmente conhecidos. No seculo XV eram consagrados os nomes de F.
del Pulgar, e Juan de Mena, ns vimos florescer Gil Vicente que morreu
no seculo seguinte no qual avultaram os nomes de Lucena, Bernardes,
Cames, Osorio, Damio de Goes, Joo de Barros, S de Miranda e
Bernardino Ribeiro; a Hespanha no teve que invejar-nos porque viu
brilhar os de Carcilaso, Luiz de Leon, Luiz de Granada, Marianna, Santa
Thereza, Cervantes, Gongora, Juan de la Cruz, Lope de Vega e Quevedo. No
seculo XVII tiveram Calderon de la Barca, Moncada e Solis, e ns vimos
surgir os brilhantes talentos de Fr. Luiz de Sousa, Padre Antonio
Vieira, Sousa de Macedo, Freire de Andrade, Manuel de Mello e varios.
So pois irmos os dois povos da Peninsula, a Hespanha deve ser a nossa
alliada natural, mas  mister que se conserve intacta a individualidade
nacional de ambas as naes.

O affecto fraternal que deve unir os dois povos, s pode ser verdadeiro
e duradoiro em quanto durar o respeito reciproco pelos direitos de cada
um. Dotados ambos de grandes qualidades a indole dos hespanhoes 
inteiramente diversa da dos portuguezes. As suas tendencias, gostos,
habitos, etc., so outros e por conseguinte impossivel a sonhada e
appetecida unio. D. Filippe porm, aproveitando a decadencia a que
tantas catastrophes haviam levado o reino, accentuou o seu direito por
meio da fora e de atrocidade em atrocidade elle, e depois os seus
successores opprimiram este pobre povo, at que ao fim de sessenta annos
um punhado de heroes, sem effuso de sangue, sem ferir batalha fez
baquear o odioso dominio de Castella libertando a patria tanto tempo
agrilhoada. Os nomes de Pinto Ribeiro, Castros, Mellos, Almeidas
Athaydes, Telles, Almadas Cunhas, Silvas e outros sero sempre de
gloriosa recordao, e de salutar exemplo.

Parecia que devia renascer com a acclamao de D. Joo IV a grandeza e
prosperidade da nao, mas foi fogo fatuo que breve se extinguiu. O rei
tornou-se timorato e a rainha pouco podia, apesar da sua energica
vontade. Alm d'isso o Conde-duque de Olivares combateu por espao de
vinte e quatro annos propugnando os portuguezes com heroismo para manter
a sua independencia nas fronteiras e para neutralisar as insidias de
Hespanha junto do rei. Por varias vezes habeis conspiraes estiveram a
ponto de inutilisar a prodigiosa victoria dos quarenta bravos conjurados
que appoiados no patriotismo do povo haviam conseguido sacudir o jugo
castelhano.

Muitas tentativas contra a vida do rei foram descobertas. Isto tornava o
rei cada vez mais fraco de animo, e entregou-se inteiramente aos
conselheiros que nem sempre foram o que deviam  patria, ao rei e a si
proprios.

Em 1643 romperam-se definitivamente as hostilidades, que s terminaram
em 1665.

Mathias de Albuquerque desbaratou o exercito sob o commando do baro de
Malingen, general da Estremadura hespanhola; todavia as campanhas que
asseguraram e firmaram a independencia do reino, foram j dadas no
reinado de D. Affonso VI. A batalha das linhas d'Elvas foi ganha pelo
conde de Cantanhede em 1659. O conde de Villa Flor desbaratou no
Ameixial o Archiduque d'Austria, o famigerado D. Joo d'Austria em 1663.

Em Castello Rodrigo venceu Pedro Jacques de Magalhes em 1664. No anno
seguinte  refreiada totalmente a ardente furia dos hespanhoes, na
batalha de Montes-Claros, ficando prisioneiros do Marquez de Marialva
seis mil hespanhoes. De ento para c, a posse de Portugal tem sido
apenas o sonho de todo o utopista hespanhol, porem a gente de bom senso
reconhece o absurdo da ideia, e pensa com raso que se n'essa epocha lhe
foi impossivel sustentarem o seu dominio estando Portugal inteiramente
falto de recursos, sangrado pelas continuas guerras tanto aqui como no
Brazil, hoje que dispe de mais braos e mais elementos de resistencia,
no seria empresa facil. Essa regenerao teve principio nas medidas do
Marquez de Pombal.

Pela morte de D. Joo IV, Portugal no mudra muito. D. Affonso VI foi
desthronado e morreu preso no Pao de Cintra e sua mulher foi
authorisada a casar com seu cunhado D. Pedro II pelo clero que foi
chamado a representar n'esta escandalosa intriga, que s por si d a
medida do grau de desmoralisao a que havia chegado tudo n'este
malfadado paiz.

Reuniram-se cortes para legalisar este attentado e fecharam-se para no
tornarem a abrir-se.

O reinado de D. Pedro foi curto e triste. Seguiu-se o reinado faustoso
de D. Joo V, e este poz cumulo  depravao dos costumes e vicios dos
grandes, cavando assim a decadencia do reino.

O povo soffria toda a sorte de vexames dos nobres que praticavam toda a
casta de violencia e infamia acobertadas pela impunidade que lhe era
concedida.

O rei, ou fosse em espiao de suas culpas ou porque o seu genio
gastador a isso o impedia, D. Joo V, querendo imitar Luiz XIV gastou
rios de dinheiro na edificao do Convento de Mafra, na Capella de S.
Joo Baptista e em muitas restauraes de templos; a creao de uma
patriarchal com os seus conegos beneficiados e principaes imitando o
sacro collegio, levou para Roma muitos milhes. N'estas grandezas e
esbanjamentos se sotterraram os productos das uberrimas minas que o
Brazil continha no seu seio e que a industria mineira e o suor do
escravo traziam  superficie da terra. Penalisa ver que tanto dinheiro,
tanto trabalho, e tanta magnificencia no fossem empregadas em coisas de
maior utilidade para o paiz. Ao passo que nos faltavam vias de
communicao para o commercio interior, que no tinhamos fabricas, nem
marinha, de guerra ou mercante, nem exercitos, gastavam-se sommas
fabulosas em edificar um convento pelo theor da basilica de S. Pedro em
Roma, n'uma mesquinha povoao!... Se terminada a obra, vinha d'ella
proveito para a nao, foi coisa que parece no ter preoccupado o
monarcha. Bastava-lhe que fosse lisongeado pelos seus aduladores, que
lhe encareciam a sua piedade. O edificio tem alem do convento e egreja
um palacio soberbo. Tudo foi feito com magnificencia regia; a arte
revela-se em alto grau, e por todos os lados ha que admirar a cooperao
dos melhores artistas que se mandaram vir da Italia.

 grande,  imponente,  sumptuoso e magnifico, mas  triste, sombrio e
pezado. Fui l uma vez, admirei-o muito, mas quando sahi respirei de
alivio por que me parecia que toda aquella mole de pedra me cahia em
cima e me esmagava com toda a sua grandeza. Impressionou-me bastante, e
vel-o-ia ainda com gosto, se bem que estou certa que me faria a mesma
impresso que me produziu ha vinte annos, apezar de j no ser a creana
que era ento. O outro monumento da sua prodigalidade, a capella de S.
Joo Baptista na egreja de S. Roque,  uma verdadeira joia que no tem
rival no genero, attendendo ao seu tamanho. Tem uns desesete palmos de
comprido por doze de largo;  toda feita de _lapis-lazull_, porphyro,
agatha, amethystas, alabastro, crysolithas, prata e ouro. Diz m. John
Smith que custou 225:000 libras, mas, j tenho visto, no sei onde,
estimar a sua importancia em bem mais elevados algarismos.

A concesso da Curia romana para empregar os thesouros do paiz como
o julgasse conveniente, custou tambem grossas quantias. Seguia-se a
creao de uma dignidade ecclesiastica com o titulo de Patriarcha da
qual depende o collegio sacro formado de vinte e quatro prelados. Para
tornar mais notavel a similhana d'esta corporao com a de Roma, os
paramentos do Patriarcha em dias festivos eram eguaes aos do Papa, e as
dos prelados como as dos Cardeaes. As festas e cerimonias religiosas,
no eram eguaes, mas sim superiores s de Roma. Mais de cem clerigos,
diz m. Smith, subsidiarios a quem com profuso se davam honras e
dignidades occupavam logares subordinados a esta nova instituio. Uma
escala infinita de logares inferiores augmentou o pessoal do
Patriarchado a ponto de ser impossivel dizer-se qual a condico em que
se sumia o ultimo d'esta legio clerical! Esta louca vaidade custou mais
de oitenta mil libras afra as pasmosas quantias que se despenderam
antes de conseguirem a licena para a incorporao do estabelecimento.
Foi desde ento que D. Joo V alcanou para os reis de Portugal o titulo
de _Fidelissimo_.

Uma obra porm de grande merito, de reconhecida utilidade, e de grandeza
sem igual foi a que se principiou e concluiu n'este mesmo reinado de
esbanjamentos e desperdicios; s ella confere um titulo de gloria ao rei
que a ordenou e fez levar a cabo. Refiro-me ao aqueducto das aguas
livres de Lisboa, que percorre duas leguas ora subterraneo, ora
elevando-se sobre arcos. Por cima do valle de Alcantara corre sobre
trinta e cinco arcos, sendo a altura do maior 264 ps, e a sua largura
na base de 280. Dois canaes trazem a agua das nascentes, deixando entre
ambos espao e altura para caminhar de p. D. Joo V no morreu sem que
expiasse por espao de nove annos n'um triste estado de imbecilidade os
passados extravios, e deixou a nao sobrecarregada com uma divida de
mais de tres milhes de libras e o thesouro completamente exaurido. Seu
filho D. Jos vivera sempre muito arredado dos actos do governo; contava
ento 37 annos, e muita gente o retracta de acanhada intelligencia,
irresoluto, timido, fraco e cruel. Nada o comprova, antes maravilha a
firmesa com que sustentou no poder o seu ministro, a despeito da sua
mesma familia, de toda a nobresa e de um clero opulento e dominador,
unico homem capaz de dominar a triste situao em que tantos desvarios
nos lanaram.

Por morte de D. Joo V no ficara a Portugal nenhum elemento de que se
julgasse dever sair a sua regenerao. Tudo parecia impellir o reino a
uma aniquilao inevitavel, mas foi n'essa occasio que surgiu um
regenerador, um genio benefico, forte, energico, e sabio, que levara os
primeiros annos da sua vida estudando os males e as causas d'elles e
procurando os remedios na sua fecunda imaginao. Foi elle que com
poder quasi sobrehumano veio, inspirado e inviado da Providencia para
desmascarar hypocrisias, para salvar mesmo a religio de todas as
atrocidades que em nome de um Deus todo bondade e misericordia se
praticava impunemente, para destruir esse poder execrando do horrivel
tribunal da Inquisio, do chamado _Santo Officio_, que sequestrava 
sociedade milhares de victimas innocentes, ou culpadas de um crime que a
s raso mostra no o ser.

Esse homem a quem tanto se deve, foi quem veio restabelecer a verdadeira
religio, porque  a de Christo, a religio de perdo, caridade, amor e
fraternidade, purgando-a quanto possivel dos abusos que em seu nome se
praticavam; foi elle quem veio introduzir no paiz novos estudos, quem
estendeu o po do espirito a todas as classes da sociedade creando
escolas, quem promoveu as industrias, sciencias, litteratura, quem veio
animar e desenvolver o commercio e as artes, revindicar o respeito e o
renome ao seu paiz; reanimar o genio, acabar com os abusos dos nobres
dando mesmo terriveis mas salutares exemplos na nobreza, castigando o
crime onde era praticado, fosse plebeu ou nobre, como o fizera tambem
Richelieu, seu modelo, nas pessoas de Marillac e Montmarency, foi emfim
elle que, ora com benevolencia, ora com severidade, ergueu a patria do
abysmo onde filhos degenerados a haviam lanado.

Sebastio Jos de Carvalho e Mello nascera na capital aos 13 maio de
1699; filho de Manuel de Carvalho e Athayde e de sua mulher D. Thereza
de Mendona. Seu pae era um cavalleiro de pequinissima fortuna, mas que
vivia independente e pertencia  cathegoria distincta pelo titulo de
fidalgo da provincia. Esta qualidade dava-lhe direito a muitos
privilegios da nobreza, ainda que no considerado grande do reino ao que
s dava direito os titulos de conde, marquez ou duque. Sebastio Jos de
Carvalho juntou o appelido de Mello; que lhe vinha de seu av materno,
Joo de Almeida e Mello; costume muito seguido ento, principalmente
quando, como este, vinham de illustre ascendencia. Tinha mais dois
irmos; Francisco Xavier de Mendona e Paulo de Carvalho e Mendona.
Sebastio Jos de Carvalho entrou na universidade de Coimbra, mas
aquelle regimen pouco lhe agradou; e menos a forma porque alli se
ministrava ento o ensino sobre modo differente para uma intelligencia
previligiada como a sua. Descontente deixou os bancos da Universidade
para assentar praa em cadete, a que lhe dava direito a sua nobreza, e
pouco depois fizeram-n'o cabo. No passou d'esse posto; e elle
desgostoso deixou a cazerna como deixra Coimbra. Viu-se outra vez sem
occupao, o seu genio activo e investigador lanou-o em estudos sobre
economia politica, historia universal, legislao e todos os ramos
em que mais tarde o seu genio sublime devia manifestar-se. Veio ento a
Lisboa, chamado por um tio que muito o recommendava ao Cardeal da Motta,
ministro omnipotente n'essa epocha. O Cardeal, homem esclarecido, viu
logo o partido que se podia tirar de to notavel aptido e apresentou-o
ao rei, que o tratou como a quem vinha to bem recommendado. O rei
admirou o talento e variada illustrao que em to verdes annos se
manifestava no mancebo, e pouco depois em 1733 nomeou-o membro da
Academia Real de Historia com a mira em que elle lhe escrevesse a
historia de varios monarchas, cujos reinados fossem mais dignos de to
habil historiador. Negocios porem importantes e que reclamavam immediato
desempenho, no permittiram que satisfizesse o encargo com que o rei o
distinguira; as vistas da crte estavam fixas n'elle, o rei distinguia-o
e protegia-o e conseguio attrahir a atteno de uma joven viuva D.
Thereza de Noronha senhora de muitas virtudes e de illustre nascimento
que era sobrinha do Conde dos Arcos. Parece porem que este enlace foi
combatido, e que a despeito de seus merecimentos e da proteco regia,
no foi sem custo que logrou fazer emmudecer os que desaprovavam a
desejada alliana, sob pretexto de quem no tivera nos seus ascendentes
grandes do reino, embora fosse de illustre nascimento. J ento deveu 
sua energia o conseguir a realisao dos mais ardentes votos do seu
corao. Depois as suas ambies voltaram-se para alcanar emprego em que
bem servindo a patria conseguisse posio brilhante, e na qual
utilizasse as suas faculdades e aptides. O acaso serviu-o a seu
contento com a necessidade que obrigou o rei a mandal-o a Londres como
embaixador. Foi ento que se principiou a manifestar a todos a vastido
dos seus recursos intelectuaes e o muito que havia a esperar de to
acrisolado amor da patria e de to grande genio. Todo o tempo que
desempenhou em Londres o cargo de representante de Portugal no cessou
de velar pelos interesses que lhe estavam confiados, alcanando muitos
privilegios para os portuguezes alli residentes, fazendo desapparecer
todos os vexames que antes soffriam, conseguiu para o seu governo o
direito de prender e castigar os delinquentes inglezes em territorio
portuguez, tendo elles de subjeitar-se s nossas leis. Quando um seu
medico foi preso por um collector, apesar do Acto do Parlamento de 1709,
que prohibia o prender-se nenhum embaixador ou pessoa ao seu servio,
fez com que lhe fosse dada satisfao d'um insulto feito a um seu
empregado, affirmando assim os direitos que os outros pretendiam
desconhecer, e fazendo respeitar a nao que representava e definindo os
previlegios dos ministros estrangeiros.

Conseguiu para os portuguezes residentes em Londres a reciprocidade na
iseno de impostos.

Em 1739 reclamou queixando-se da penhora feita em generos que pertenciam
a Bento de Magalhes, negociante portuguez, como violao dos tractados
existentes entre as duas naes, tractados que davam tambem aos inglezes
aqui residentes as mesmas regallias. O duque de Newcastle em 20 de
novembro respondeu o que se segue: Sua Magestade Britanica sendo
informado de que os vassallos de S. M. Fidelissima que residem em
Inglaterra teem sido sobrecarregados e obrigados ao pagamento de
impostos publicos e parochiaes, que foram lanados por Acto do
Parlamento a todos os habitantes indistinctamente; ordenou-me que vos
participasse, ainda que em virtude da natureza e forma do nosso governo,
no cabe na alada do rei isentar ninguem em particular do pagamento dos
impostos lanados por Acto Parlamentar, no s seria nova, mas sujeita a
grande debate e inconveniencia: comtudo, para dar a S. M. Fidellissima
uma prova da amizade e considerao em que a tem S. M. Britanica, e para
que os subditos de Portugal que residem em Inglaterra fiquem descanados
de que no sero incommodados por causa de quasquer impostos parrochiaes
ou outros que, em virtude de Acto Parlamentar, sejam pagos pelos
habitantes em geral, faz saber que todos esses impostos lhes ficaro
descarregados, sem que por causa d'elles soffram multas ou penas
algumas. Mais tarde por occasio de ser queimada nas aguas do Algarve
pelos inglezes uma esquadra franceza, escreve elle a lord Chatam
pedindo-lhe satisfao, as seguintes cartas:

Eu sei que o vosso Gabinete tem tomado um imperio immenso sobre o
nosso: mas tambem sei que  tempo de acabar com elle. Se meus
predecessores tiveram a fraqueza de vos conceder tudo que quizestes, eu
nunca vos concederei seno o que vos devo.  esta a minha ultima
resoluo: regulae-vos por ella.__

                                                        _Conde de Oeiras._

A segunda  como se segue:

Eu rogo a V. Ex. que me no faa lembrar das condescendencias que o
governo Portuguez ha tido com o governo Britanico, ellas so taes, que
no sei que potencia alguma as haja tido similhantes com outra. Era
justo que essa authoridade acabasse alguma vez, e que se fizesse saber 
Europa que tinhamos sacudido um jugo estrangeiro. No o podemos melhor
provar do que pedindo ao vosso governo uma satisfao que por nenhum
direito nos deve negar. A Frana nos consideraria no estado de maior
fraqueza se lhe no dessemos alguma razo do estrago que soffreu a sua
esquadra em as nossas costas maritimas, onde por todos os principios se
devia julgar em segurana.

                                                        _Conde de Oeiras._

A terceira carta  to longa que me no resolvo a copial-a toda, basta
dizer que em resultado de todas as rases e justas arguies que
terminam assim:

A satisfao que vos peo  conforme com o direito das gentes. Succede
todos os dias que os officiaes de mar, e terra faam por zelo ou por
ignorancia o que no deviam fazer,  portanto a ns que nos pertence o
puni-los, e fazer emendar e remediar os damnos que elles teem causado.
Nem se deve julgar que estas reparaes fiquem mal ao estado que as faz:
ao contrario, sempre  bem mais estimada aquella nao que de boamente
se presta a fazer o que  justo.

Da ba opinio dependeu sempre a fora das Naes.

                                                        _Conde de Oeiras._

O rei de Inglaterra mandou um Embaixador extraordinario a Lisboa dar as
satisfaes pedidas.

Foi tambem Pombal que alcanou pela sua habil diplomacia que os
ministros estrangeiros em Londres podessem importar todos os moveis,
roupas, vinhos etc. sem pagamento de direitos. Durante a sua estada em
Londres estudou constantemente e foi alli que bebeu a longos tragos,
essa sciencia que devia fazer d'elle um modelo. Sully, Colbert e
Richelieu foram as suas fontes e com elles se identificou sendo Sully o
principal objecto, segundo diz mr. Smith, da sua venerao e estudo,
podendo os maiores enthusiastas d'esse grande vulto comparal-o sem
receio ao seu prototypo. Em 1745 voltou Pombal  patria, parece que a
seu pedido, em consequencia do edito promulgado contra os papistas.
Voltando a Portugal no teve logo em que occupar a sua actividade e
voltou as suas vistas pava os abusos que via praticar por toda a parte;
estudou-lhe as causas e foi amadurecendo os seus projectos de futuro,
para destruir o mal que reinava em todos os ramos de administrao
publica. Comprehendeu que s medidas sabia e prudentemente empregadas
poderiam levantar a nao da decadencia em que caira; que a falta no
vinha dos povos mas do governo, que s instruindo e no corrompendo,
ensinando e no conservando na inercia e derigindo o povo para a
regenerao pela instruco e pelo trabalho, poderia conseguir
erguer o reino  grandesa que ambicionava. Era pois myster dar trabalho
a todas as classes, occupar os braos e o espirito do povo, dando a cada
um a proteco a que tinha direito dando assim ao governo cidados uteis.

O paiz estava devastado pelos ladres, as leis eram lettra morta, a
prepotencia espalhada por toda a parte, o povo desmoralisado, o
commercio e a industria aniquilados.

Quando estava absorvido por todas estas idas, suscitou-se entre
Benedicto XIV e a imperatriz Maria Thereza, senhora to celebre pelas
suas virtudes como pela variedade da instruco que lhe adornava o
espirito, uma desintelligencia a respeito da extinco do patriarchado
da Aquileia, desintelligencia que promettia serias consequencias como
quasi todas as que tem havido com a Santa S, por tenderem quasi sempre,
no s a separarem-se da egreja, mas ao aniquilamento da f catholica. A
imperatriz confiava na capacidade de Pombal, e s da sua probidade, so
juizo e penetrao, esperava uma soluo digna, equitativa e justa.

Conhecida a sua competencia e provavelmente a pedido da imperatriz que
conhecia a sua capacidade, foi Pombal enviado a Vienna como embaixador,
onde conseguiu arranjar tudo a contento de todos, firmando-se na
justia, equidade e justos direitos de cada um.

Uma carta encontrada em Paris, no archivo da secretaria dos negocios
estrangeiros, d a medida do apreo em que eram tidas pelos diplomatas
estranhos as eminentes qualidades do illustre estadista; apreciao que
no pde deixar de ser imparcial e justa por que a elevada posio
official do Embaixador em Vienna lhe dava mil occasies de estar em
contacto com o Marquez de Pombal; transcrevo pois na integra o alludido
documento alli encontrado com o titulo de: _Correspondencias d'Austria,
n. 244 despacho de M. Blondel, ministro de Frana em Vienna, dirigido
ao governo austriaco e datado de 10 de janeiro de 1750._--M. Carvalho
foi por muito tempo Embaixador de Portugal em Londres, d'onde o rei seu
amo o fez sair para o collocar aqui, no intento de que empregasse a sua
influencia para restabelecer a harmonia entre esta crte e a de Roma. O
ministro foi egualmente encarregado de fazer readquirir ao eleitor de
Mayence as boas graas e a affeio do Papa.

N'estes dois negocios deu elle provas da sua habilidade, da sua
sabedoria, integridade, moderao e sobretudo de muita paciencia, e
alcanou no s a benevolencia de todos os interessados, mas tambem a de
todos os ministros estrangeiros, e das pessoas de considerao de Vienna.

M. Carvalho  nobre em tudo, sem ostestao, cordato e prudente;
replecto de principios e sentimentos de honra, no visa seno ao bem
geral; e eu sei que no foi por culpa d'elle que a imperatriz no chegou
mais cedo a sentimentos pacificos.  to bom cidado como homem probo, e
a sua partida foi sentida tanto pela crte como pela cidade. Tem
approximadamente de cincoenta a cincoenta e cinco annos e casou em
Vienna com a filha do General Daun. Esta  a traduco do despacho
francez, documento insuspeito de parcialidade, por isso que os francezes
no so prodigos de louvores para os estranhos.

Veio pois em 1750 para Lisboa, pouco antes da morte de D. Joo V. Logo
que subiu ao throno D. Jos I, Pombal tomou posse da pasta que j lhe
fra destinada, principiando ento a tomar parte no governo com o saber
e energia que s um athleta privilegiado poderia desinvolver. A
restrico dos poderes da Inquisio, o desapparecimento dos ladres que
infestavam as ruas da capital, a organizao interna do servico do pao,
que era uma especie de pinhal D'Azambuja, onde todos roubavam, reduzindo
os empregados de oitenta a vinte, fiscalisando os gastos da ucharia,
descendo a todas as minucias e occupando-se de tudo com egual proficiencia.

Desde que conseguiu organisar a administrao interna do reino voltou as
suas vistas para as possesses de Alm-mar, onde tudo chegra  ultima
miseria.

Para ligar os interesses dos colonos aos dos indigenas, prohibiu a vinda
das donzellas ricas do Brazil, que para aqui vinham encerrar-se nos
conventos, prejudicando assim o augmento da populao; e promoveu
cazamentos com os mancebos do paiz, por meio de dotes e augmento de
interesses de varias especies; promoveu o commercio com a Asia e
particularmente com a China, e aconselhou ao rei a humanitaria medida da
emancipao dos indios das provincias do Par e Maranho, tornando-os
livres, subtrahindo-os  explorao dos colonos europeus, e buscando os
meios de os civilisar. Os negros de Africa no obtiveram o mesmo
beneficio, pelo seu abatimento e conveniencias politicas que por ento o
impediram. Como j disse, aos portuguezes que casavam com donzellas
indigenas eram concedidas certas franquias. Em seguida ao decreto que
emancipava os indios, assignou o rei outro, fundindo as duas companhias
Maranho e Gro Par. Esta medida veio dar novo incremento  classe do
commercio entre Portugal e as colonias da America, tomando estas um novo
aspecto.

A aristocracia tremia de raiva vendo coartarem-lhe a preponderancia de
donatarios: o os jezuitas previam que os seus excessos tinham encontrado
um moderador que lhe refreiasse as demasias. Colligavam-se e conspiravam
com a nobreza vendo n'isto o unico meio de combater o seu commum
inimigo; mas Sebastio Jos de Carvalho formra os seus projectos
que seguiu sempre com tenacidade indomavel e soube de tal modo captar a
confiana de D. Jos, que este surdo a todas as insinuaes disfaradas
e a todas as invectivas francas, continuou a sustentar e seu ministro
que em breve tinha de prestar-lhe ainda maiores servios. No primeiro de
novembro de 1755 soffreu Lisboa o horrivel cataclismo do terramoto. A
capital ficou quasi destruida e, a sua populao, parte ficou morta,
outra ferida, e a restante aterrada pela espantosa catastrophe. O mal,
j de si grande, no veio s. Seguiu-o o triste cortejo das suas
inevitaveis consequencias; no meio, porm, de to grandes horrores, o
Marquez de Pombal impassivel e inalteravel, multiplicava-se, por assim
dizer, apparecendo em toda a parte onde a sua presena fosse necessaria,
soccorrendo por todos os meios possiveis as victimas e prestando auxilio
com disvellada sollicitude. Os decretos, as ordens e as providencias
succediam-se sem interrupo, e todas patenteavam exuberantemente a
aptido d'esse homem a quem nenhuma desgraa conseguia aterrar, a quem,
por maior que fosse o mal, no faltava a lucidez do espirito para lhe
encontrar o remedio. A catastrophe teve logar s 9 horas e alguns
minutos da manh: o dia apparecera risonho e sereno; nunca o ceu se
mostrara to limpo de nuvens, nunca o Tejo ostentra mais transparentes
as suas aguas que nem uma leve aragem o agitava; a natureza parecia
repousar; tudo respirava socego e confiana; tudo parecia prometter
segurana e tranquilidade. Bastaram porm alguns minutos para
transformar em desesperao, horror, miseria e espanto esse risonho
quadro! Parecia que todas as furias do inferno haviam conseguido
escapar-se e se tinham espalhado sobre a terra pouco antes to mimosa, e
cado raivosas sobre a desditosa Lisboa, trazendo aps si o terramoto, o
roubo, o assassinio, o incendio e toda a sorte de calamidades. Era dia
de Todos os Santos, o povo da capital corria para as egrejas para ouvir
missa. Os templos estavam brilhantemente illuminados e mal poderia
suppr-se que essa cidade to casquilha e to vaidosa da sua belleza,
seria dentro em pouco um monto de ruinas e de cadaveres. O primeiro
abalo foi precedido por um ruido subterraneo por toda a cidade: a
principio debilmente, depois cada vez mais forte e com uma continuidade
medonha. A terra gemia surdamente, e todos escutavam tranzidos do susto
esse desconhecido rumor. De repente, o solo abriu-se, as casas
desappareceram, uma nuvem de p ergueu-se ao ceu, e um concerto de
gritos e lamentos fez-se ouvir de todos os lados! A dr e o desespero
foram indiscriptiveis. O Tejo revolto, medonho, crescendo e saindo do
seu leito, parecia ameaar engulir o que o fogo poupra. De um lado a
destruio pelo incendio, do outro um inimigo no menos terrivel
ameaando com o diluvio; por toda a parte um espectaculo nunca
visto; horrivel tragedia composta de milhes de tragedias! Diz algures
um escriptor que: Parecia que Deus quizera vingar n'um s dia os crimes
de muitos seculos. Por toda a parte se via o restante da populao da
capital com lagrimas nos olhos e physionomias onde se pintava o mais
cruel desespero, gritos agudos, de mulheres, de creanas e dos
moribundos, extorcendo-se nas chammas ou sob as minas. Era espantoso! A
tantos males succedeu-se outro, que veio completar a destruio: os que
no tinham ficado sepultados gritavam, impelliam-se, imploravam a
misericordia do ceu recitando oraes que novo desabamento vinha cortar,
ou novas fendas abertas sob seus passos faziam calar ingulindo-os. Os
que fugiam para as margens do, antes to formoso Tejo, esperando achar
alli abrigo, deparavam com um quadro to medonho como aquelle a que se
esquivavam. Em consequencia dos grandes abalos de terra o rio estava
terrivel, bramindo revolto em violenta agitao; em alguns minutos
tornara-se n'uma corrente furiosa, que subira desmedidamente, e que
arrastava depois comsigo quanto se lhe deparava. Os navios, mesmo os de
grande lotao, submergiam-se; outros, no podendo resistir ao impeto
das vagas alterosas que lhe despedaavam as amarras, iam desapparecer em
vertiginoso redopio nos medonhos sorvedouros, ou eram arremessados uns
contra os outros pelas iradas ondas e se despedaavam! Para completar
este quadro estupendo em que todos haviam tido farto quinho de
desventura e em que se no sabia quem mais se lastimasse, se os que
haviam perdido a vida, se os que tinham perdido quanto lh'a fazia amar.
Comeou a apparecer fogo em differentes sitios da cidade e que lavrando
com incrivel rapidez veio completar a obra de destruio. Quantos
horrores aguardavam os que sobreviveram! quantas dres! quantas mes
loucas sem saber que fra feito dos filhos que estremeciam! quantos
filhos procuravam anciosos os paes, quantos maridos e esposas procurando
os consortes, quantos pezares, quantos coraes despedaados, quanto
desespero! Entre os magnificos edificios destruidos, conta-se a
magnifica Patriarchal de D. Joo V, o Pao real, a egreja de Santo
Antonio, os palacios dos tribunaes, ministerios, arsenal, casa da India,
alfandega, a vedoria, a Opera e os palacios de Lafes, Aveiro, Cadaval,
Marialva, Tavora, Fronteira, Valena e Lourial, as bibliothecas real e
a de Lafes, a do convento de S. Domingos, a do Marquez de Lourial, a
de Monseigneur Magalhes, e a do Inquisidor Simo Jos. No se poude
saber ao certo o numero de mortos, mas foi avaliado em mais de dez mil.
Todavia alli onde tudo tremia e vacilava, via-se um s homem impassivel
e forte, era o Marquez de Pombal.

No meio d'estes horrores as prises abertas deram saida aos malfeitores
que recuperando a perdida liberdade se lanaram como lobos famintos
sobre a desditosa cidade, levando comsigo a violencia, o roubo, a
embriaguez, cevando emfim a completa satisfao de todos os appetites
brutaes. Diz o sr. Smith no seu livro d'onde tenho extrahido grande
parte do que escrevo:--Para corroborar os factos de que trato, fiz o
extracto de varias correspondencias do ministro inglez em Lisboa, que
no deixaro de interessar o leitor no s pela incontestavel
authenticidade, mas tambem porque n'elles se encontram circunstancias
que nunca foram publicadas. O seguinte  d'uma correspondencia de 6 de
novembro de 1755, onde se acha uma descripo viva e graphica d'aquelle
infausto successo.--A perda do meu bom e digno amigo o embaixador
hespanhol, que ficou esmagado  porta de sua casa, quando tentava
escapar-se para a rua, junta  dr que ha cinco dias me causam as
tristes noticias, que a cada passo nos trazem relativamente  sorte de
uma ou de outra pessoa do nosso conhecimento pertencente  nobreza, a
qual, pela maior parte, se acha inteiramente arruinada, tem-me
seriamente sensibilisado; mas o que sobre tudo me afflige  a sorte dos
desgraados subditos de S. M. Britannica, da classe inferior, que de
todos os lados affluem a minha casa pedindo-me po, e andam espalhados
por todo o meu jardim com mulheres e filhos; at agora no tenho deixado
de soccorrer a todos, e continual-o-hei a fazer em quanto me no
faltarem os meios, o que espero no succeder, attendendo s
convenientes medidas que o sr. Carvalho para isso tem tomado. Tem-se
dado as melhores providencias possiveis para impedir o roubo e o
assassinato de que ha tres dias tem havido frequentes casos, vagueando
pela cidade turbas de desertores hespanhoes que se valem da occasio
para commetterem taes delictos. Tendo-me sido confiadas consideraveis
quantias que alguns inglezes que tiveram a felicidade de salvar parte de
seus bens, depositaram em minha casa, pelo que tive em toda a noite a
casa cercada de ladres, escrevi esta manh ao sr. Carvalho pedindo-lhe
uma guarda, o que espero me ser concedido.

Uma outra do mesmo ministro, de 15 do mesmo mez, refere as seguintes
particularidades:--O primeiro abalo comeou pelas dez horas menos um
quarto da manh, e, tanto quanto pude julgar, durou seis ou sete
minutos; depois succedeu-se um intervallo de cerca de cinco minutos
antes do segundo, que durou uns tres minutos, pouco mais ou menos; de
sorte que n'um quarto de hora foi esta grande cidade convertida em
ruinas. Em seguida rebentaram muitos incendios, que no espao de cinco
ou seis dias consumiram todos os generos e outras cousas. Parece que a
fora do terremoto teve a sua sde mesmo no centro de Lisboa, por
que os prejuizos no so to consideraveis para qualquer dos lados.
Julga-se que partiu do caes que se estende da alfandega at ao Pao, que
desabou, e se sumiu completamente, submergindo-se alguns barcos tambem
ao mesmo tempo. As aguas subiram de vinte a trinta ps, e desceram outro
tanto com intervallos, segundo me contaram. (Isto parece dar raso a
crer-se que no leito do rio se fizeram as mesmas fendas e abysmos, o que
explica as alternativas da agua subindo e baixando repentinamente). No
foi s Lisboa que soffreu os estragos do terremoto, por que se
estenderam a outras terras do reino (e tambem da Europa) principalmente
a Setubal e ao Algarve, onde foram bem sensiveis. Calcula-se que s em
Lisboa foram victimas d'aquella calamidade trinta mil pessoas, que
pereceram umas queimadas, outras afogadas, ou sepultadas nas ruinas.

Em outra carta datada de 19 do mesmo mez mr. Castres diz para o seu
governo que D. Jos tinha ido com toda a sua crte habitar em barracas
de lona n'uma quinta, e que a malfadada nao estivera em eminente
perigo de ser presa da peste e da fome, e conclue louvando o zeloso
procedimento de Pombal, que de dia e de noute se mostrava infatigavel em
empregar todos os remedios que a miseria geral pedia. Transcrevemos
ainda a seguinte passagem por me parecer de maior interesse:--Como os
abalos no cessaram inteiramente desde o primeiro dia da nossa
desventura, a crte com pouco mais de dois teros da sua populao
continua ainda a acampar nos campos e quintas d'estas paragens. Os
predios que ainda se vem de p, na cidade e na extenso de algumas
leguas nas suas visinhanas, esto realmente, pela sua maior parte, n'um
estado to deploravel, que ser custoso encontrar um entre cincoenta,
que possa resistir ao inverno, ainda que sustentado por espeques.
Facilmente se deprehende qual seria a continua perplexidade que a todos
dominava, pelo que ainda em 13 de dezembro em outra correspondencia diz
mr. Castres:--J l vo quarenta dias desde que sobreveio o grande
terremoto, e com tudo raro tem sido o dia que se tenha passado sem se
renovarem os nossos sustos, sendo os repetidos tremores quasi sempre
acompanhados de to fortes abalos de vez em quando, e com especialidade
na noute passada, que obrigaram a fugir, quasi ns, para o descampado,
com grande perigo de vida, n'uma estao to rigorosa como esta, no s
os que haviam comeado a habitar os aposentos inferiores dos predios,
que ainda se achavam de p, mas aquella gente mesmo que se abrigra em
barracas. Entretanto o sr. Carvalho, que parece possuir a confiana
absoluta do rei seu amo, no descana um instante em dar todas as
providencias para que n'esta cidade de ruinas no escasseem os
mantimentos; para obrigar toda a classe de operarios que affluiram das
terras mais remotas do reino, a voltar s differentes occupaes, e para
pr cobro aos muitos roubos, que inevitavelmente succedem em epochas de
tanta desordem como esta, principalmente em logar to exposto como
este.--Por muito tempo o susto e o terror se conservaram na desditosa
cidade, onde ainda em 16 de janeiro seguinte se sentiu um violento abalo.

A desgraa que ferira Portugal inspirou o mais vivo e caritativo
interesse a toda a Europa, e todos os governos nos mandaram offerecer os
seus bons auxilios. De Inglaterra mandou Jorge II 97:200 libras entre
generos e dinheiro. S. M. Catholica e S. M. Christianissima offereceram
soccorros de toda a especie que o ministro dispensou. O rei de Hespanha
que perdera no terremoto o seu embaixador, no desprezou meio algum para
fazer acceitar o seu auxilio ao governo portuguez, e para isso ordenou 
alfandega de Badajoz, que deixasse passar livre de direitos todos os
generos exportados para Portugal.

Luiz XV tambem foi em extremo delicado comnosco; e no quiz que o conde
de Bachiseu, embaixador em Lisboa, saisse d'aqui em crise to dolorosa e
na qual, dizia o ministro Rouill, era necessario patentear a S. M.
Fidelissima por meio da assiduidade e auxilios a parte que o rei de
Frana tomava nas desgraas que opprimiam Portugal. O rei D. Jos foi
bastante sensivel a todas estas provas de affeio dos seus alliados,
mas no acceitou as suas offertas. Quando Luiz XV ouviu dizer que se
acceitra o soccorro de Inglaterra encarregou o Embaixador de saber a
verdade, e eis a carta que este diplomata escreveu a Carvalho e Mello:

_Ce n'est pas le dpit, dit-il, qui me fait demander s'il est vrai que
S. M. Trs-Fidle ait accept les offres de S. M. Britannique mais
l'esperance que conserve S. M. Trs-Christinne que ses offres pourront
egalement tre acceptes._

Carvalho respondeu que:--O rei seu amo teria acceitado reconhecido os
offerecimentos generosos dos seus alliados, se tivesse sido necessario,
que as perdas que Portugal acabava de experimentar eram grandes, mas que
em geral s atacavam o luxo. Que no futuro haveria em Lisboa menos
palacios, menos quadros, menos moveis ricos e que isso seria o meio de
fazer voltar a nao  sua antiga simplicidade. Que as terras seriam
agora mais bem agricultadas pelos fidalgos, que Deus seria adorado com
mais fervor nos seus templos despojados das pompas, e que a riqueza
publica se augmentaria, e as finanas melhorariam de situao. Esta
resposta pareceria um pouco grosseira e vaidosa se nos no
lembrassemos de que a Frana tinha em vista alcanar em troca dos
seus beneficios a cesso do commercio do Brazil que receiava ver em
poder da Inglaterra. O ministro dos Negocios Estrangeiros em Frana, mr.
Rouill, achou esta resposta digna de um philosopho e de um estadista
abalisado, ainda que convencido, dizia elle, de que os factos nunca
realisariam os desejos e previses de Carvalho.

Se os auxilios de Jorge II foram acceites  porque a Inglaterra em vez
de fazer polidos offerecimentos, votou por unanimidade uma verba de cem
mil libras destinadas a trazer soccorros a Portugal, e em vez de lh'os
oferecerem, mandou-os directamente ao ministro.

Os servios pois d'este ministro e grande estadista, iam j de foz-em-fora.

O facto  que os prejuisos eram enormes e diz-se que superiores a 7
milhes de libras, apezar de que muita cousa se foi desenterrando e
encontrando graas s sabias e previdentes medidas tomadas por Pombal.
Das grandes riquezas suterradas na Patriarchal, foi achada a cruz de
prata, estimada em 30:000 libras. D'essas e de outras ruinas
desenterraram-se pelo tempo adiante, 1:500 arrobas de prata. O rei e sua
familia, estava no Pao de Belem, na occasio do terremoto, e felizmente
nada soffreram alem do grande susto, e a dr de presensiar tanta
desgraa. Quando chegou o ministro para offerecer ao rei, as consolaes
e servios que pedia a situao, achou todos em lagrimas, e o rei
derigindo-se-lhe perguntou-lhe que julgava elle a proposito fazer-se
para minorar e attenuar tanta desventura?--Meu Senhor, enterrar os
mortos, e cuidar dos vivos. Foi a resposta concisa, que com toda a
serenidade deu o Marquez de Pombal, resposta que elle mostrou no ser
uma bravata oca, e que executou com extraordinaria energia. Desde ento,
D. Jos que sempre tivera pelo seu ministro sympathia e considerao,
reconheceu n'elle um espirito previlegiado, e superior, e cencedeu-lhe
sempre inalteravel affecto, e at respeito. O ministro saiu de Belem,
correu a Lisboa e aqui partilhando todos os perigos e dando remedio a
tudo que o tinha, no se apeiava da sua sege, dia e noute, apparecia em
toda a parte, e a sua serenidade e coragem, a sua figura nobre e a sua
tranquilidade no meio de tanta tribulao, impunham o respeito e a
admirao, e incutiam animo aos que o observavam. Aonde fosse necessaria
a sua presena, l estava; mesmo dentro da sua sege, expedia correios
com ordens para toda a parte, em menos tempo do que se emprega, em
elaborar um s decreto, lavrou elle mais de duzentas providencias, umas
para conservao da ordem, outras para a distribuio dos mantimentos,
para enterrar os mortos, para dar casa aos que vagueavam sem tecto,
outras para remover e tratar dos feridos e doentes, outras
finalmente para evitar a saida dos roubos para fra da cidade onde
seria mais facil rehavelos, prohibindo a saida de qualquer que no fosse
portador de salvo-conducto. Eis as medidas mais notaveis e que na
conjunctura promulgou: A D. Rodrigo Antonio de Noronha.

Sua Magestade  servido ordenar que V. S. mande armar as lanchas,
barcos ou escaleres, que parecerem necessarios, para rondar o rio de
Lisboa, visitando n'elles, todos quantos botes, lanchas, ou barcos,
sairem dos navios estrangeiros, ou para elles forem, por constar que
levam os impios e sacrilegos roubos, que se teem comettido em casas e
Igrejas: e como para ellas pode faltar gente militar, se pode V. S.
valer das Ordenanas, e Auxiliares; e da Tenencia que se acha aberta,
podero ser vistidos com uniformes, e armados as que se embarcarem para
as ditas rondas. E para tudo o que a V. S. for preciso a este respeito,
tem ordem do mesmo _Senhor_, o Illmo. e Exmo. Sr. Marquez,
Estribeiro-mr. Aos commandantes das sobreditas rondas determinar V.
S. que embarguem todas quantas embarcaes, encontrarem de noite no
rio, sem distino, at amanhecer.

Deus Guarde a V. S. Pao de Belem aos 4 de novembro de
1755.--_Sebastio Jos de Carvalho e Mello._

P. S. A referida visita se estender tambem aos navios Portuguezes que
no forem de pessoas conhecidas e livres, de suspeitas.

Outra para o Corregedor da comarca de Coimbra:

Sendo presente a S. Magestade, que todos os creados de escada a baixo,
gallegos, e homens de trabalho, que serviam na crte, e suas
visinhanas, tem desertado em tumulto, pela preoccupao, de que no
haver dinheiro para se lhe pagar, e outros para transportarem os muitos
roubos, que teem feito com impiedade deshumana, abusando da calamidade
que tem ferido a capital do Reino.  servido o mesmo sr. ordenar, que V.
Mce. requerendo por este a todos os Ministros da Justica, e officiaes
dos Auxiliares, e Ordenanas, e communicando-lhe irrimissivel perda dos
seus postos, faa guardar as estradas, e barcas de passagem, de tal
sorte, que nenhuma pessoa de qualquer qualidade e condio que seja,
possa avanar o seu caminho e menos sair do reino, ou ainda d'entro
d'elle, passar de uma a outra provincia, sem levar _Passe_. E sendo
pessoa das profisses acima referidas, sero logo reconduzidas em levas
 sua propria custa, de Villa em Villa, at que sejam entregues n'esta
Crte  ordem do Duque Regedor das Justias. O que tudo V. Mce.
executar continua, e successivamente, at que eu o avise de que S.
Magestade revogou esta ordem.--5 de novembro, de 1755. Deus Guarde etc.

N'esta conformidade se escreveram circulares a todos os Corregedores das
comarcas do reino.--Para o Marquez d'Abrantes:

--Sua Magestade  servido que V. Ex. mande  ordem de D. Rodrigo A. de
Noronha as embarcaes que elle pedir, e couberem no aperto do tempo,
para as visitas e transportes dos mantimentos que se acham a bordo dos
navios ancorados n'este Porto; cujas deligencias o mesmo _Senhor_ tem
encarregado ao cuidado do mesmo D. Rodrigo de Noronha.--aos 4 de
novembro de 1755--Deus Guarde a V. Ex. etc.--_Sebastio Jos de
Carvalho e Mello._

Dirigidas a D. Rodrigo ha muitos, uns, para lhe ordenar que v a bordo
dos navios surtos no Tejo e apartar de todos os mantimentos encontrados
a bordo, os indespensaveis para as equipagens, _e fazer transportar e
pr em arrecadao as restantes com as avaliaes dos preos communs, e
ordinarios, que at ento valiam. Outros, para que desse livre entrada
s pescarias, aviso ao Marquez de Alegrete para exercer toda a
vigilancia e mandar fixar editaes para que os padeiros, tendeiros,
artifices e todos os homens de ganhar no podessem vender os seus
generos ou exigir preos superiores aos do mez de outubro antecedente,
isto sob penas gravissimas caso infringissem a lei de 4 de novembro;
aviso ao Duque Regedor ordenando-lhe que os ministros encarregados das
inspeces dos Bairros mandem ao Presidente do Senado da Camara, as
relaes de todos os mantimentos, que descobrissem fosse onde fosse; 6
de novembro. Aviso ao Marquez Estribeiro-mr para pr guardas aos
Erarios Reaes; 2 de novembro. Aviso ao Marquez de Tancos com ordem de
fazer passar  crte, algumas tropas do Reino, para manter a ordem e
socego publico.--3 de novembro._

Aviso ao Marquez de Alegrete, _para fazer com que os ministros
encarregados da inspeo dos bairros mandassem as relaes dos
mantimentos para as participar aos ministros encarregados de, no
Terreiro do Pao e na Ribeira as distribuir ao povo;--12 de novembro_.

Aviso ao Duque _sobre o parecer de recolher os doentes no Hospital
Real:--6 de novembro_.

Aviso ao Estribeiro-mr, _para fazer tirar das minas o corpo do
Embaixador de Hespanha;--7 de novembro_.

Ordem ao Duque Regedor, _para chamar  sua presena os ministros da
inspeo dos bairros, ordenando-lhe a priso dos authores das
suggestes, com apparencia de profecias, espalhadas por alguns
malfeitores para aproveitarem o terror e cometterem livremente_
_roubos e crimes atrozes vendo a cidade desamparada de seus
moradores;--No tem data_. Outra ordenando ao mesmo Duque _que empregue
nas obras da cidade os ciganos que a inquietavam_. Officio ao Patriarcha
_pedindo-lhe a necessaria authorisao para que os cadaveres fossem, com
todos os ritos da Igreja, levados em navios at fra da Barra e alli
deitados ao mar com pesos, a fim de evitar pela decomposio dos mortos
uma ipedemia_. Mandou _tirar uma relao minuciosa dos officios e
rendimentos de toda a gente, empregando-se no desentulho e obras, todos
os que eram vagabundos ou vadios, dando-lhe salario e comer_. Estas no
so nem a decima parte das providencias tomadas pelo illustre ministro,
mas so as que dos tres volumes que aqui tenho, e que contem todas me
pareceram de maior interesse e menos longos. Parece impossivel como um
s homem poude pensar em tanta cousa. Todavia apesar d'estas e todas as
outras providencias com que o ministro procurou atacar e evitar os males
e as suas consequencias, o arrojo era tanto que os malfeitores com
licenciosidade inaudita no recuavam praticando  luz do dia toda a
casta de infamias e levando o roubo, a violao e o assassinio a toda a
parte onde podiam entrar, sendo necessario pr guardas em todas as casas
que pela sua abastana, e importancia lhe podia servir de alvo. Foi em
consequencia d'este estado de cousas que o ministro fez proclamar a lei
de Lynch. Todo o delinquente apanhado em flagrante era preso, processado
e sentenciado no logar do crime e alli mesmo ficava enforcado para
servir de lio a quem quizesse imital-os. Esta medida energica e
indespensavel no calamitoso estado a que chegra a capital, pz cbro
nos attentados e os moradores da cidade poderam ento dormir socegados
confiando no vigilante cuidado de Carvalho e Mello.

No eram s estes os negocios que absorviam a fecunda imaginao do
ministro de D. Jos; tinha que defender-se dos inimigos que tudo
aproveitavam para o atacar; tinha que defender as costas de Portugal,
dos corsarios argelinos, que pretendiam approveitar do terror e da
desordem que uma tal catastrophe espalhra e que no desperdiavam,
todas as occasies para desembarcar, espalhando tambem o roubo e o
terror. Em alguns dias, o ministro enterrara mortos, desenterrara vivos;
fizera encher os fossos abertos pelo tremor, enterrando n'elles muitos
cadaveres; mandra transportar os feridos e moribundos, para hospitaes
que fizera preparar em varios sitios da cidade; nada faltava n'estes
hospitaes provisorios; os medicos, os enfermeiros os remedios appareciam
como por encanto ao contacto da varinha magica da sua energia sublime.
No Pao, as princezas e suas criadas no descanavam em preparar
ataduras e fios.

Onde a caridade tanto tinha que fazer, nem todos os padres ficaram
inactivos; muitos d'elles puseram-se ao trabalho com um zelo
verdadeiramente evangelico; levavam aos hombros os mortos para os
cimiterios; conduziam nos braos os feridos para os hospitaes,
encommendavam uns, consolavam outros, e animavam os moribundos com
caridade christ. Foi assim que essa caridade se ligou ao zelo do
ministro activo e resoluto para attenuar tanta miseria. Mas infelizmente
tambem houve alguns que em vez de seguirem o salutar exemplo de seus
irmos exercendo a sua nobre e caritativa misso, calcaram aos ps
deveres, verdade, humanidade, e fraternidade, e lembraram-se de subir ao
pulpito, a essa cadeira que s deve servir para prgar o amor e
caridade, e atacar o rei e o seu ministro accusando-os a ambos de
impiedade e incutindo no povo a persuaso de que os peccados do rei e a
heresia do ministro, eram a causa do tremendo castigo que Deus
justamente irado fizera cair sobre o reino; que as desgraas de toda a
sorte no cessariam de sobrevir sobre seus desgraados povos, em quanto
o rei no fizesse penitencia publica por seus muitos peccados. A estes,
alcanou-os a justia: foram perseguidos e severamente castigados pelo
intuito barbaro de quererem augmentar a m ventura da nao com
dissenses intestinas, assim como os outros haviam sido louvados e
premiados. Quanto mais o ministro redobrava de zelo e de actividade,
tantos mais males appareciam reclamando a sua interveno. Conseguira
por meio de acertadissimas medidas evitar a peste; combateu a fome e
venceu esse inimigo esqualido e medonho; conseguiu libertar a cidade dos
ladres que a infestavam todavia com quanto tivesse feito muito lhe
faltava ainda que fazer para terminar a sua obra, Lisboa desapparecera,
era necessario fazel-a renascer, como a phenix, das proprias cinzas. Foi
para este lado que se voltaram todas as faculdades da sua provada
intelligencia: fez lavrar um plano sob as suas idas, corregiu-o, animou
as construces que principiaram logo, facilitou essas edificaes por
todos os meios; fixava prasos para se fazerem sob penna de expropriao:
deixou livre a importao de todos os materiaes necessarios; auxiliou
essas construces por muitas consesses, garantias e privilegios, etc.,
que instigavam os constructures e capitalistas a empregarem o seu
dinheiro, e assim procurou auxiliar e conseguiu a reedificao da
desmantelada Lisboa.

O ministro de Frana em despacho, respondendo a pedido de informaes
para o seu governo, com respeito ao terramoto e suas consequencias,
dizia: que apesar de toda a boa vontade e grandes deligencias
empregadas por M. Carvalho, reputava impossivel a ressurreio de
Lisboa.

Tinham de levar um solemne desmentido, felizmente, as previses do
Embaixador francez e Lisboa no s se ergueu do seu abatimento, mas
ainda ao erguer-se se apresentou muito melhor do que era antes, surgindo
mais formosa do que nunca fra. Parecia que as chamas do incendio, e as
lagrimas de seus filhos a tinham purificado, embellezado e fecundado o
seu solo.

Para reedificar a capital eram indispensaveis sommas enormes; o ministro
no tardou em encontrar os meios de as obter; fez brotar nos negociantes
de Lisboa o pensamento de offerecer ao rei 4% sobre todas as
mercadorias, offerta que elle tratou de fazer acceitar ao monarcha,
lavrando logo o decreto de 2 de janeiro de 1756. Os consumidores  que
soffreram com este imposto muito mais que os negociantes; isto era um
verdadeiro imposto de consumo sobre os generos de primeira necessidade
mas sem que a maior parte dsse por isso elle adquiriu os meios para
reidificar a cidade, infatigavel no seu zelo, e desejo de engrandecer a
nao que lhe fra bero, Sebastio Jos de Carvalho depois de
neutralisar e remediar os males devidos ao tremor de terra, procurou
desenvolver os recursos que se podiam tirar do paiz; riquezas no
exploradas, e fontes de rendimento que at ento tinham jazido na inercia.

A industria era to nulla em Portugal como a agricultura, e todo o
empenho do grande ministro era erguel-as do seu abatimento. Seguiu para
a industria o exemplo do que fizera pela agricultura: o monopolio,
privilegios e favores de toda a casta foram os seus agentes. Estabeleceu
grande numero de fabricas s quaes dispensou toda a sua proteco.

Promovendo a industria julgava poder conservar o ouro que nos vinha das
colonias e obrigar os inglezes a comprarem a dinheiro os nossos vinhos
que ento eram trocados pelos seus artefactos. Nada deve admirar que o
ministro illudido pelas ideias geralmente seguidas n'essa epocha em que
se julgava que s o ouro era riqueza, procurasse conservar no paiz a
maior poro possivel d'esse metal. Elle no tinha  sua disposio
outros meios para conseguir desenvolver a industria, e se o decorrer dos
annos tem ensinado outros, n'aquelle tempo no lembraram nem eram
conhecidos, e o conde de Oeiras via-se a braos com mil difficuldades
que elle, s, tinha de applanar, com mil urgencias a que s o seu genio
poderoso podia obviar, e no podia por isso entregar-se a um estudo
unico aturado que o fizesse encontrar a soluo de problemas que s
muito mais tarde se foram resolvendo. Muitas das industrias por elle
patrocinadas nem mesmo eram conhecidas no paiz; a educao industrial
no existia, e foi-lhe mister fazer vir alguns estrangeiros, para aqui
estabelecerem fabricas, que seriam uma escola para o povo que ellas
empregassem; e para attrahir aqui, abandonando os seus lares, esses
industriaes, era indispensavel offerecer-lhes interesses e proteco que
os animasse ao sacrificio. Fabricas de sedas, de vidros, de botes,
chapelarias, relojoarias, pannos, estamparias, serralharias, fundies,
varias tecelagens, etc., receberam concesses e subvenes, para se
desenvolverem e aclimatarem no paiz, foi tudo fructo da sua iniciativa e
patriotismo. Imitador de Colbert chegou a ultrapassar o seu modello, e
ninguem com justia pode accusal-o, como o fazem alguns historiadores de
proteger o monopolio, por isso que lhe no sobravam meios para, sem
elle, conseguir o seu nobre empenho.

O desleixo dos governos occasionou a decadencia da industria,
agricultura e artes a que tinha chegado o paiz.

Muitos accusam os tractados estabelecidos entre a Inglaterra e Portugal
de ter causado essa decadencia, mas mudar-se-ha de opinio logo que se
analyse os resultados que d'esses tractados colheu a agricultura,
principalmente a dos vinhos, que deve aos contractos celebrados pelo
conde d'Oeiras com a Inglaterra, e  creao da Companhia do Alto Douro,
o seu progressivo desenvolvimento. Ha quem ataque rudemente essa medida
do previdente ministro, mas a meu vr difficil seria na occasio lanar
mo do meio que desse to proficuos resultados, e se a Inglaterra lucrou
muito com isso no fez mais do que approveitar a inepcia dos nossos
governos, o que poderia ter feito outra qualquer nao e em condies
talvez mais onerosas para ns, e no se obrigando, como elles, a
receberem os nossos productos e a comprarem-nos ou trocarem pelos nossos
vinhos, com excluso dos de outra qualquer nao, os seus generos e
manufacturas. Apesar da rudeza e altivez com que o sabio ministro
respondeu por vezes s exigencias do gabinete Britanico, quando sentia
da sua parte a raso e a justia nem por isso deixou de empregar todos
os esforos para conservar inalteraveis as relaes affectuosas entre os
dois gabinetes. A verdadeira causa depois da decadencia do reino foi a
sua riqueza colonial, a imigrao, a sde do ouro, a falta de braos e a
inaco dos governos e no a Inglaterra em absoluto. Vejamos o que a
esse respeito diz o proprio Marquez:

--As minas de ouro. Vde qual , ha sessenta annos a unica fonte das
riquezas de Portugal. No  necessario ser politico, basta valer-se da
arithmetica, para mostrar, que um Estado, que inclina toda a sua
administrao para as minas deve perecer necessariamente.

--Ouro e prata, so uma riqueza de fico[2]. J se v que
a opinio do ministro de D. Jos baseada na sua muita sabedoria e
aturado estudo se inclinava a ver tambem n'essa grandeza o germen da
nossa decadencia, ainda que tambem fazia aos inglezes srias e asperas
arguies.

O estabelecimento dos jesuitas no reino e no Brasil foi, segundo o modo
de vr do Conde de Oeiras, muito pernecioso  nao, e n'essa
conformidade procurou o meio de os arredar do seu caminho. Os filhos de
Layola tinham por meio do confessionario e do ensino adquirido uma
preponderancia grave e quasi absoluta, e o ministro no poupou
diligencia e habilidade para conseguir annullar esse poder. Os jesuitas
que tinham alistados nas suas bandeiras homens de grande intelligencia
defenderam-se com vehemencia, vigor e finura. Esta guerra foi bem
prejudicial, pois j custava a Portugal tres milhes de libras; os
negocios caminhavam vagarosamente e a morosidade no se cuadunava com a
fora intelleclual e temperamento energico de Pombal, que, impaciente
pela reluctancia dos jesuitas resolveu tomar medidas positivas e
indeclinaveis. No era empresa facil: os padres tinham  sua disposio
poder e influencia, no lhe faltavam armas para combater. Eram jesuitas
os directores espirituaes de toda a familia real. Moreira era o
confessor de El-Rei, e estes eram outros tantos instrumentos que era
necessario frustrar. O ministro no desanimou. O rei estava ao facto das
intrigas em que andavam envolvidos os padres da Companhia, e
comprehendeu que s tinha dois caminhos a seguir: se no sustentava o
ministro seria elle proprio derrubado pelos seus poderosos inimigos, que
lhe no perdoariam, e perdia o ensejo de regenerar a nao como tanto
ambicionava; no vacilou e a 19 de setembro de 1757 demittiu o seu
confessor e os de sua familia prohibindo-lhe at a entrada no Pao sem
expressa licena sua. Este golpe foi decisivo, e o ministro no perdeu
tempo, e escreveu logo a Francisco de Almada ministro portuguez em Roma
para que pedindo e obtendo do Santissimo Padre uma audiencia particular
e secretissima lhe referisse tudo o que havia com relao aos jesuitas
e que elle lhe dizia n'essas instruces s quaes diz o ministro: Se
omittiam n'ellas muitos e mui aggravantes escandalos, que se no podiam
referir sem maior indecencia, e pejo de quem as escrevesse e ouvisse.
Ordena-lhe que faa saber ao Papa: que os jesuitas haviam sacrificado
todas as obrigaes christs, religiosas, naturaes e politicas a uma
cega, insolita e interminavel ambio de governos politicos e temporaes;
de acquisies e conquistas de fazendas alheias, e at de usurpaes de
Estados, e dizia mais, que toda a demora que houvesse em obviar a to
grandes desordens, teria a consequencia de as fazer irremediaveis;
accrescentava que El-Rei mandra recolher s respectivas casas e
suas filiaes todos os confessores da familia real, que eram jesuitas;
e que Sua Magestade supplicava ao mesmo tempo a Sua Santidade, que se
servisse de dar sobre esta importante materia to efficazes
providencias, que os abusos, excessos e transgresses dos jesuitas
cessassem por uma vez, esperando o mesmo Senhor que  paternal, e
apostolica providencia de Sua Santidade no faltasse a menor parte do
que se fazia preciso em to notorias urgencias, para que uma religio,
que havia feito tantos servios  Igreja de Deus, no cabe n'estes
reinos e seus dominios, pela corrupo dos costumes de seus religiosos,
e pelo geral escandalo que tinham causado com to successivos e
extranhos abusos. Queixava-se mais ainda de que os padres, mesmo
depois de serem despedidos do Pao, ahi levavam a desordem e a intriga,
que buscando por todos os modos impedir a fundao da Companhia dos
vinhos do Porto, dos aggravos que faziam procurando oppr-se 
organizao da Companhia do Gro Par, dizendo at o padre Ballestes do
pulpito, que quem entrasse n'essa Companhia no entraria na de Jesus
Christo.

As provas d'estes e de outros attentados foram juntas  mesma carta de
instruces. No as vi nem sei de que especie eram mas deviam ser
concludentes. A consequencia d'estas queixas acompanhadas dos
documentos, para no admittirem evasivas ou delongas, foi Benedicto XIV
por meio de um breve de 1 de abril de 1758 nomear ao Cardeal Saldanha
reformador e visitador da Companhia de Jesus, tanto em Portugal como em
todas as suas colonias.

Logo que de Roma chegaram as credenciaes, o vigario apostolico fez um
edital declarando: que os jesuitas portuguezes mesmo contra as leis de
Deus e das naes, dirigiam um commercio illicito, e que por isso o
prohibia e que se d'aquella data em diante, o continuassem ficariam
sujeitos s penas estabelecidas pelas leis. Por bula do Benedicto XVI
de 1741 foi prohibido a todas as ordens religiosas (sem especificar
nenhuma) toda e qualquer transaco, trafico ou commercio e toda a casta
de poder temporal, e que podessem comprar ou vender os pobres indios,
empregando-se s em convertel-os e civilisal-os. Foi a primeira bula
pontificia com o intuito de evitar o pessimo procedimento dos religiosos
e missionarios na Asia, Africa e America e prohibia sob pena de
excommunho a quem quer que fossem de se atrever a reduzir  escravido,
os indigenas ou a vendel-os, compral-os, trocal-os, dal-os ou separal-os
de suas mulheres e filhos; roubar-lhe seus haveres leval-os para outras
terras, ou prival-os fosse por que meio fosse, da sua inteira liberdade.

Ninguem poder accusar Benedicto XIV de injusto, antes  isto uma prova
da excellencia do seu caracter. Pouco depois foi publicado um edital
em 7 de junho de 1758 concebido n'estes termos: Por justos motivos que
nos foram presentes e muito do servio de Deus e do publico, havemos por
suspensos dos exercicios de confessar e pregar em todo o nosso
patriarchado os padres da Companhia de Jesus, por ora e emquanto no
ordenarmos o contrario. Ao passo que estas medidas devolviam ao rei a
plenitude da sua authoridade, e o prestigio que lhe haviam usurpado, um
monstruoso attentado punha em eminente risco a vida do mesmo monarcha.
Tramou-se uma conspirao para o matar e tanto a opinio publica como a
devassa a que se procedeu foram unanimes em accusar os padres da
Companhia e os nobres, que bem largamente expiaram o seu horrendo crime,
se o praticaram. O extracto do officio de mr. Hay de 10 de outubro de
1759, em que o ministro inglez refere ao seu governo os ultimos
acontecimentos, daro ao leitor uma ideia da opinio geral, eis o
officio: Como a Companhia de Jesus  muito poderosa n'este paiz est
por isso eminente a sua queda: para o que concorrem os grandes
fundamentos que ha para acreditar, que os obstaculos que se teem opposto
s expedies das foras unidas (na America meridional) tem sido
principalmente fomentadas por elles. No  mister transcrever mais
correspondencias dos ministros estrangeiros pois todos so unamimes em
affirmar a sabedoria e justeza das ideias e actos do ministro D. Jos.
Emquanto a mim, comquanto respeite muito as opinies de pessoas a quem
venero e que lhe so contrarias, e mesmo a opinio geral que lhe 
adversa, no creio em que todos, ou mesmo a generalidade fossem maus.
Convencida de que, como em todas as classes, ha maus, entre elles, no
posso acreditar em que uma corporao inteira fosse m. Isto porm no
importa uma duvida, e creio piamente que muitos dos jesuitas d'aquella,
e de todas as epochas, foram os culpados da expulso que soffreram ento
e da geral reprovao que todos soffrem.

O nosso padre Antonio Vieira era bom, muito bom mesmo; S. Francisco
Xavier e tantos outros que honraram a Companhia; no faltavam tambem os
que tinham a ambio do mundo e das riquezas e o desejo de exercer
influencia na governao do estado, na direco dos estudos, na
consciencia dos particulares. Nem isto  para admirar, quando entre
elles haviam homens douctos, capacidades, engenhos, e quando taes cousas
se do, no falta uma voz intima que assegure que a taes dons cabe o
dominio. Esse brado intimo que Pombal sentia em si mesmo, era aquelle
que muitos jesuitas sentiriam quando no silencio da clausura a
consciencia os advertia de quanto excediam aos que dirigiam e dominavam
a sociedade civil.

Essas ambies e intentos foi o que lhe fez perder a todos o
conceito e considerao de que j tinham gosado. Como j disse, um
terrivel crime veio lanar o terror e a indignao em todos os animos.

Os inimigos do ministro que se encontravam em todas as classes visto que
os nobres lhe no perdoavam a sua preponderancia, o clero as suas
medidas que lhe aniquilavam as ambies, a sociedade civil e o povo que
era o instrumento d'essas duas poderosas classes, queriam a todo o custo
derrubar esse obstaculo tremendo e como o rei se obstinava em
sustental-o determinaram destruir o rei para facilmente conseguirem os
seus intentos. O golpe era certeiro, se lograssem o desejado exito, mas
Deus no quiz e talvez muitos innocentes pagassem sem culpa o execrando
crime.

Os inimigos eram pois muitos e terriveis: o auctor d'esta terrivel
conspirao era o proprio mordomo-mr de El-Rei, o duque de Aveiro,
caracter ambicioso, avarento, falso e orgulhoso, e que no possuia
qualidade alguma que o tornasse agradavel, ou que justificasse o
valimento que o rei lhe dispensava. Parece que o ressentimento por
alguma offensa imaginaria que suppoz ter recebido do rei ou do seu
ministro, ressentimento alimentado por muito tempo pelos padres segundo
dizem varios historiadores foi a causa que o impelliu ao crime.

Se isto no explica a adheso do duque a essa conspirao contra a vida
do rei, ento s se pode julgar que fosse a mira em novos interesses e
riquezas, que lhe adviriam se o rei tivesse consentido no casamento de
seu filho D. Martinho com a opulenta herdeira de Cadaval. O segundo
conjurado era o marquez de Tavora destituido de saber e de
intelligencia, mas que talvez fosse levado ao crime para vingar uma
affronta; a opinio geral porm no lhe d esta causa e dizem que o
despeito de no ter obtido o titulo de duque, da mesma sorte que o
marquez de Gouva, e tendo ficado sem recompensa do seu governo na
India, lhe insuflou no espirito o desejo de vingar com um regicidio a
negada elevao; instigado por sua mulher para entrar na conspirao de
que ella se fez a alma, graas ao seu caracter arrojado e intrepido. A
sua posio social, nobresa e riqueza eram outros tantos auxiliares para
o seu talento. A estes chefes da conspirao juntavam-se os dois filhos
do marquez de Tavora, um ambicioso como sua me e particularmente
offendido, o outro de um caracter maliavel como seu pae e que como elle
se deixou arrastar ao crime. O terceiro era o Conde de Attouguia genro
da marqueza, todos arrastados por ella como se v da sentena e o narra
o sr. Francisco Luiz Gomes na sua obra--_Le Marquis de Pombal. Esquisse
de sa vie Publique_--da qual traduzirei o que diz respeito a este
attentado e s consequencias d'elle bem como quanto se seguiu
relativamente aos jesuitas: Os cumplices eram marquezes de Tavora, seus
dois filhos e seu genro. A marqueza foi a principal cabea, auxiliada
pelo padre Malagrida, que ella fazia julgar santo, Jos Romero cabo de
cavallaria e que acompanhra seu marido  India, Antonio Alvares
Ferreira creado grave do duque de Aveiro, Manuel Alvares Ferreira seu
irmo, Jos Polycarpo seu cunhado, e Jos Miguel lacaio do duque. O
caso dera-se assim: A 4 de setembro de 1758, as portas do palacio do
rei fecharam-se repentinamente e o rei deixou de apparecer em publico. O
governo socegou o corpo diplomatico e o povo, dizendo-lhe que o rei
estava de cama em consequencia d'uma sangria que soffrera por ter dado
uma pequena queda. O ministro de Frana, Saint-Julien, apressou-se em
participar a noticia ao seu governo, mas alguns dias depois em carta
particular e escripta em cifra, disse que a verdadeira doena do rei era
uma ferida no hombro direito, occasionada por dois tiros que lhe haviam
sido disparados na estrada de Belem; que os assassinos eram seis, ainda
que s munidos de tres espingardas uma das quaes no dera fogo, e que as
duas outras tinham crivado de ballas a caixa do trem.

O povo de Lisboa no foi to feliz como o ministro francez, que foi o
primeiro a ter noticia to circumstanciada do acontecimento. Em todo o
reino se acreditava no que Carvalho fizera espalhar. S a 15 de dezembro
 que D. Luiz da Cunha, ministro dos Negocios Estrangeiros, revelou ao
corpo diplomatico o attentado que tivera logar a 3 de setembro. Carvalho
aconselhra ao rei que fingisse uma quda para melhor se assegurar dos
criminosos. Preparou tudo com prudencia e mysterio a fim de que o golpe
que queria vibrar fosse mais seguro. As suas investigaes foram de tal
modo secretas que aquelles que elle soppunha chefes da conspirao nem
deixaram de frequentar o Pao.

Um d'entre elles, o duque de Aveiro, mordomo-mr, ali dessempenhou as
suas funces at ao momento em que foi preso. A 12 de dezembro, ento,
quando todos j tinham esquecido a quda do rei, Carvalho fez fechar na
torre de Belem o duque d'Aveiro, o marquez de Tavora, seus filhos Luiz e
Jos, seu genro conde de Athouguia, o cabo Braz Jos Romero, ligado 
casa de Tavora, Antonio Alvares Ferreira, criado grave, Manoel Alvares
Ferreira e seu irmo Joo Miguel, lacaio do duque. Fez ao mesmo tempo
conduzir com boa escolta e fechar no segredo do convento das Grillas a
marqueza de Tavora. Todos os conventos dos jesuitas foram cercados de
tropas e ordens secretas foram dadas para serem presos Manuel e Nunes de
Tavora, irmos do marquez do mesmo titulo, e os marquezes de Alorna e de
Gouveia.

Um rumor principiou ento a espalhar-se na cidade: dizia-se que os
assassinos se haviam dividido em tres bandos, que o duque de Aveiro
acompanhado do seu lacaio e de um outro, formava a primeira emboscada e
havia atirado sobre o cocheiro um tiro de espingarda, que falhou; que o
bolieiro, dando por isso, se poz, sem prevenir o rei, a esporear as
mullas para evitar novos tiros; que por este motivo os que faziam parte
da segunda emboscada vendo a sege a gallope se viram obrigados a atirar
com precipitao sobre o vehicolo; que estes dois tiros fizeram ao rei
crueis ferimentos desde o hombro direito at ao cotovelo, em fim que o
attentado tivera logar pelas onze e meia da noite na estrada de Belem.

Carvalho no mandou todos estes accusados de to diversas cathegorias
para os tribunaes ordinarios. Foram levados ante um tribunal
extraordinario chamado _Tribunal da inconfidencia_, presidido pelos
ministros e composto de juizes escolhidos pelo rei entre os magistrados
de sua confiana. O crime julgado por este tribunal era simples e
espedito. Os accusados no podiam defender-se pela voz de um unico
defensor; para accumular provas contra elles Carvalho publicou um edital
promettendo quelles que as podessem e quizessem fornecer, grandes
vantagens, como a de elevao  nobreza, o titulo de _moo fidalgo_, e
de cavalleiro quelles que j fossem nobres; o titulo de _viscondes_ aos
_moos fidalgos_, ou o titulo immediatamente superior aos que j
tivessem algum; isto sem detrimento de outras recompensas de dinheiro ou
empregos nas justias ou finanas ou commendas. Aproveitou tambem
perdoar aos cumplices que se resolvessem a declarar tudo o que soubessem
da conspirao; assegurava que a infamia ligada ao nome de delator, no
tinha raso de ser logo que se tratasse de um crime contra o rei. Em
quanto o Tribunal tinha as suas cesses no maior segredo, Carvalho
povoava as prises de suspeitos. Muitos fidalgos para l foram. A espada
de Democles estava suspensa sobre a cabea dos fidalgos portuguezes. O
julgamento no se fez esperar. Foi assignado a 12 de janeiro pelos tres
ministros, Carvalho, D. Luiz da Cunha e Thom da Costa, e pelos juizes
Cordeiro, Bacalhau, Santos Barbosa, Leiria, Oliveira Machado e pelo
promotor fiscal. Eis as sentenas:

O primeiro chefe (duque d'Aveiro) foi condemnado a ser esquartejado
vivo, a serem-lhe quebradas pernas e braos e afinal queimado e as suas
cinzas espalhadas no mar. As suas armas despedaadas, casas e palacios
arrasados e seus bens confiscados. O marquez de Tavora foi condemnado ao
mesmo supplicio. Ninguem mais poderia usar do seu nome sob pena de
confiscao de bens. Antonio Alvares Ferreira e Jos Polycarpo
condemnados a darem a volta da praa de Belem de barao ao pescoo
precedidos de um pregoeiro e depois ligados a postes elevados e
queimados vivos e as suas cinzas deitadas ao mar. Jos Polycarpo fugira,
no julgamento offereciam-se grandes premios a quem o prendesse. Luiz
Bernardo Jeronymo de Athaide, conde de Athouguia, Jos Braz Romero,
Manuel Alvares e Joo Miguel foram condemnados a perecerem n'um mesmo
cadafalso, serem alli estrangulados, depois do que se lhe quebrariam
pernas e braos, depois queimados e as suas cinzas deitadas ao mar.
Quanto  r D. Leonor, marqueza de Tavora, por algumas justas
consideraes, foi exceptuada das penas mais severas, que merecia a
enormidade de seus crimes, e s a condemnou a ser conduzida com barao
ao pescoo, precedida do pregoeiro publico, sobre o dito cadafalso, onde
soffreria a pena de morte, cortando-lhe a cabea e sendo depois queimada
e as cinzas deitadas ao mar. Nem uma palavra a respeito dos jesuitas! A
execuo seguiu o julgamento. Foi no dia 13 de fevereiro de 1759 s 8
horas da manh. O aspecto da cidade era sinistro e ameaador. Via-se na
praa de Belem fronteira ao Tejo, um cadafalso de dezoito ps de altura.
A praa estava cheia de tropa, o rio mesmo estava coalhado de
espectadores. No se ouvia seno o ruido surdo da multido que queria
presencear a morte d'esses grandes senhores. De repente dois homens
trazendo uma cadeirinha, e precedidos de um pregoeiro, atravessaram a
multido. Era a marqueza de Tavora que chegava. Tinha a corda no pescoo
e um crucifixo na mo. Uma capa escura a envolvia e algumas fitas
brancas lhe fluctuavam na cabea. Dois padres a acompanhavam e lhe
inspiravam essa f ardente que fortalece a alma, com que a fazem
sobrepujar a fraqueza da materia e que  uma luz contra as trevas da
agonia. A marqueza subiu o cadafalso com passo firme; no estava abatida
pelo crime, nem intimidada pelo espectaculo, com o horror da morte que
ella parecia affrontar com serenidade de espirito e por um sorriso de
paz. Logo que chegou ao cadafalso o algoz mostrou-lhe as barras e os
outros instrumentos de tortura que bem depressa deviam arrancar a vida a
seu marido e filhos queridos. Ento a mulher que at alli mostrra rara
firmeza, aquella que no tinha patenteado a minima fraqueza feminina,
nenhum desfallecimento de espirito e cujo semblante nem empallidecera,
no pde resistir ao golpe dirigido ao corao de me e de esposa. A
natureza roubou-lhe a sua resignao christ, e a marqueza chorou. O
algoz fel-a ento sentar n'uma cadeira, vendou-lhe os olhos, e querendo
amarrar-lhe os ps levantou-lhe um pouco o vestido; no me toque
gritou-lhe ella, indicando assim que a sua dignidade de mulher estava
ainda acima do seu titulo de marqueza e do poder dos seus inimigos.
Um segundo depois a cabea rolava no cadafalso cortada por um s golpe.
A multido tornou ainda a afastar-se para deixar passar a cadeirinha que
d'esta vez trazia Jos Maria de Tavora, o filho mais novo do marquez. O
mancebo tinha apenas 21 annos, corao bravo e um semblante esplendido
de juventude e belleza. Os seus longos cabellos louros deitados para
traz deixavam ver a sua fronte nobre e pura.  commiserao que
inspirava a sua bella juventude, juntava-se o pesar de o ver perecer to
miseravelmente. Durante o captiveiro o mancebo dra as mais claras
provas de rara firmeza; nem ameaas, nem torturas poderam arrancar-lhe
uma confisso; permaneceu sempre encerrado em obstinado silencio, ou
(quem sabe) na sua innocencia. Todos os juizos humanos podem enganar-se;
por mais douto que seja o homem no pde ser infallivel, pois que essa
qualidade s  attributo de Deus. Acareado com seu pae, disse: que se
cingia unicamente ao que elle confessasse, por que preferia partilhar a
sua sorte a contradizel-o. O desgraado mancebo soffreu o supplicio com
santa resignao. O conde de Athouguia e Luiz de Tavora seguiram o
mancebo ao cadafalso. Ambos haviam confessado que eram culpados e que
toda a sua familia era cumplice na conspirao. Os criados do duque de
Aveiro foram queimados vivos, soffrendo horriveis torturas. O pregoeiro
annunciou outra execuo: era o marquez de Tavora. Vinha este vestido
com o mesmo fato com que fra preso. Tudo n'elle indicava coragem e
dignidade; parecia que a misericordia divina descera sobre elle para o
confortar no momento em que elle e toda a sua raa iam extinguir-se.
Soffreu o supplicio com tanta coragem e resignao como sua mulher e seu
filho Jos. O duque d'Aveiro foi o ultimo. Vinha descalo e de cabea
descoberta, tremulo e abatido. Prenderam-n'o  roda, com as pernas e
braos ns. Foi despedaado vivo atroando a praa com dilacerantes
queixumes. Depois, roda, cadafalso e cadaveres tudo foi queimado e as
cinzas lanadas ao Tejo. Seria justo? quem o pde affirmar?

Com justia ou sem ella isto tudo foi horrivel, mas se considerarmos que
tudo se passou em epocha em que os castigos eram todos de refinada
crueldade no nos admiraremos de que assim se praticasse com reus
convictos de regicidio, e nas condies em que se deu o crime. A tortura
era empregada em toda a parte principiando pela inquisio que se
constituia tribunal de um Deus de vinganas em vez de insinuar-se pela
caridade e pelo amor.

O facto  que Sebastio de Carvalho comeara pretendendo assellar o seu
predominio pela promoo do bem commum, pelo desenvolvimento moral e
industrial do povo, arrancando  ignorancia e obscurantismo o nervo
principal da republica. Nas circumstancias extraordinarias que
concorreram no principio da sua administrao e que deram logar a que
revelasse todo o poder do seu genio, contava com a gratido de seus
contemporaneos e com o bom senso do rei; que veriam n'elle o ministro
unico capaz de supportar o pesado encargo das consequencias originadas
por essas mesmas circumstancias. Se o direito que exercia podia ser
ligitimo aos olhos do monarcha e do povo, e verdadeiramente--_par droit
de conquete_--a nobreza e o clero no lhe perdoavam a falta de foros e
_o droit de naissance_. O longo reinado de D. Joo V, destruindo o
espirito aventuroso do antigo Portugal, j bastante affrouxado nos 60
annos de captiveiro, e particularmente n'aquelles em que fra ministro
omnipotente e fanatico fr. Gaspar da Encarnao, cujo sobrinho era o
mesmo duque d'Aveiro, ducado em que elle o investiu por uma proviso
regia, contra os direitos reconhecidos da marqueza de Unho, porque o
marquez de Gouva se achava em grau mais affastado de D. Maria
Guadalupe; em todo esse periodo a fidalguia e clero tinham ganho
preeminencias que mal se conciliavam com a regra commum, a que o marquez
pretendia que todos se sujeitassem, no havendo seno o rei, por um
lado, e as subditas para outro. O extirpar os abusos foi sempre o
escolho dos grandes reformadores; os possuidores de previlegios no os
abandonam por convencimento, e menos ainda em proveito da
collectividade; o bem commum oppe-se sempre s isenes e franquias dos
grandes vassallos e a unidade monarchica jamais pode fundar-se _sem
abater_ violentamente os senhores feudaes, cujas pretenses chegavam a
hombrear com a cora e a empanar-lhe o brilho. O interesse de classe
levou sempre os previlegiados a colligar-se para manter as excepes ao
direito commum. Muitas vezes por meio de revolta armada, outras pela
traio. D. Joo II e Luiz XIII eram exemplos que Pombal tinha na
historia. No podendo impr-se por uma administrao sabia e previdente,
teve, como aquelles, de empregar o terror. As suas execues so mais o
frio calculo de um estadista consumado, que derruba os obstaculos que se
lhe oppem, do que o resultado d'uma ferocidade sanguinaria, que mal ia
com os seus antecedentes, com o seu amor de familia, com a educao dada
a seus filhos, e com a amizade que entreteve em todas as suas affeies.
A execuo do duque d'Aveiro e seus cumplices produziu o effeito que
antevia, a perseguio contra uma Ordem poderosissima, lisongeava as
outras que viam com inveja os progressos e riquezas da Companhia de
Jesus; a represso dos furores da inquisio no podia deixar de
satisfazer o povo a quem o tribunal era odioso. A carnificina de Belem
impressionou fortemente naturaes e estranhos. Muitas publicaes no
estrangeiro, particularmente em Roma, feitas pelos jesuitas, trataram de
commover os animos em favor das victimas e contra a iniquidade do
ministro. Eram por certo em muito maior numero os detractores do marquez
de que os apologistas; e to grande foi o effeito, que ainda hoje no
falta quem duvide da justia do castigo e quem ponha mesmo em duvida a
existencia do crime. Tambem se cr que a sentena foi annullada por D.
Maria I rehabilitando a memoria dos suppliciados. Houve porem
effectivamente tentativa de regicidio. Foram os justiados, auctor e
cumplices n'essa tentativa? Que parte tomaram os jesuitas no crime visto
que a sentena s falla de dois confessores do Pao e do P. e Malagrida
confessor da marqueza, o que podia ser interveno individual e no
determinada pelos prelados d'esta ordem? O melhor testemunho em favor da
execuo provando a tentativa foi o effeito da descarga do bacamarte,
que causou sete feridas de zagalote desde o hombro at ao cotovello e
peito do rei. Este, mandando voltar atraz, no s temia que outras
embuscadas estivessem preparadas no seguimento, mas queria ir 
Junqueira onde mais depressa seria soccorrido pelo seu ciurgio que alli
morava proximo do marquez d'Angeja, seu amigo, em cuja cama foi tratado.
Os dois assassinos, diz a sentena, retiraram pelo caminho que vai pela
quinta do Meio, donde se dirigiram para a travessa do Guarda mr e
depois para Lisboa.

Este itenerario pe em duvida o que diz a sentena, isto , que os tiros
fossem disparados no logar em que se levantou o templo, ainda
chamado--_a Memoria_--porque fica j muito perto do Pao d'Ajuda. Os que
combatem tal documento, pretendem que os tiros fossem dados contra Pedro
Teixeira, creado favorito do rei e contra o qual o duque nutria odio
profundo, e que fosse na ponte d'Alcantara, seguindo a sege o caminho
at casa do marquez d'Angeja; mas contra tal argumento oppe-se o
procedimento do rei, o qual mandou levantar o templo no logar em que
suppz que o salvara a interveno de Nossa Senhora, de quem era muito
devoto, mas particularmente por haver pedido a sua filha, mesmo  hora
da morte, que mandasse concluir a _Memoria_ por elle votada em aco de
graas  Virgem que o protegera e salvra. O rei era muito religioso e
no pode suppr-se, que em artigos de morte fizesse declaraes oppostas
 verdade s para ir de accordo com o processo. Alem d'isto, o estado
d'aquelle espirito em occasio to solemne, deu mostras do seu
convencimento absoluto quando declarou que perdoava aos seus inimigos o
mal que lhe tinham feito, declarao ouvida por toda a sua familia pelo
seu confessor e por quantos lhe cercavam o leito.

Os tres agentes principaes, Aveiro, Tavoras e os jezuitas, tiveram parte
distincta, o que no revela a uniformidade das penas.

O primeiro foi de certo o auctor; ninguem o duvida, nem mesmo a sentena
revisoria. Dos Tavoras no se pode dizer o mesmo to abertamente, ou,
pelo menos, nem todos entraram na conspirao. Os jezuitas no foram
activos e podiam, alguns, ter alimentado os odios dos conjurados,
ficando ainda a duvida se elles prefeririam a morte de D. Jos  do
Marquez de Pombal. As desintelligencias d'elles com o duque de Aveiro,
desde o tempo de seu tio fr. Gaspar, as rivalidades dos Tavoras contra o
duque d'Aveiro e a reconciliao posterior d'estes elementos, que se
juntavam diariamente,  indubitavel que foi obra do director espiritual
da Marqueza, o padre Malagrida, que nunca faltou s reunies dos
descontentes, que achavam em casa da Marqueza todo o agasalho, e onde
julgavam poder fallar impunemente do rei e do seu governo. As offensas
pessoaes feitas ao marquez, velho, e ao seu herdeiro, pelas relaes
occultas do rei com a marqueza, nova, que feriam o orgulho do duque, sem
mesmo exceptuar as que vinham de egual sentimento por diversa causa,
tudo poderia concorrer para o desejo de vingana na pessoa do rei, de
preferencia a um crime contra o seu ministro. Se alguma preveno ou
duvida podesse haver contra o facto incriminado aos ros, ou antes, a
alguns d'elles, ella desappareceria em quem lesse o livro de Amador
Patricio, que so memorias da epocha, e em que no falta a paixo contra
o marquez e o seu governo. O auctor no encontra um unico merecimento,
uma unica medida, boa em todas as excellentes medidas do grande e sabio
reformador, mas quando chega a fallar no attentado, relata as
circumstancias e acha justo o castigo. A opinio geral de ento, sem
exceptuar a de todos os ministros estrangeiros aqui residentes e que
relatam aos seus governos os acontecimentos, so unanimes n'estes
pontos. Salvo na culpabilidade do joven Jos de Tavora que tambem foi
justiado, e de alguns mais das familias Tavora e Alvor, que ficaram
tantos annos encarcerados.

Se Pombal quiz atterrar os nobres, conseguiu-o muito alm do necessario.
Procurar os criminosos, accusal-os e condemnal-os  morte, era uma
consequencia da legislao, mas accrescentar  perda da vida as
flagellaes que antecederam e se succederam s execues, em vez de
justia foi crueldade desnecessaria e condemnavel.

Mas ainda n'este seculo tivemos um triste exemplo de crueldade
similhante, dado pelo grande Napoleo, que prendeu, em paiz estrangeiro,
o duque de Enghien e fez fuzillar em Vincennes a pobre creana, s para
atterrar a nobreza.

Os jezuitas, Jos Moreira, que fra confessor do rei; Jacintho da Costa,
que o foi da rainha, e Thimoteo de Oliveira, dos principes,
frequentaram, depois de expulsos do Pao, o palacio dos Tavoras, e foram
por isso encerrados nos carceres por suspeitos; no ha prova, porm, de
que elles incitassem ao crime ou fossem d'elle sabedores; e se o fossem,
o marquez no se limitaria  priso, e leval-os-hia ao patibulo, como o
fez a Malagrida. D'este foi o conde de Oeiras inimigo implacavel, e se
bem que o padre foi o instigador do crime, compunge-se o corao quando
se examina por que meios se conseguiu uma morte to violenta e os
pretextos procurados para a praticar. Este padre, que fra logo preso no
forte da Junqueira e tratado com os maiores rigores, era attentamente
vigiado. Na solido do carcere, e por no estar ocioso, escreveu a vida
da Senhora Sant'Anna, na qual a sua imaginao febril introduzia coisas
que no resistiam a qualquer exame; aquelle espirito e corpo
enfraquecidos e enferenicos, j pela recluso, j pelos jejuns, chegou a
disparatar e fez das suas vises de fanatico uma historia da me da
Virgem. Esse foi o pretexto. Quando o padre rematava a sua obra, foi-lhe
tirada e submettida ao exame do Santo Officio, onde j era inquisidor
geral o irmo do marquez, Paulo de Carvalho, e esse tribunal o condemnou
a ser garrotado e queimado como hereje impenitente. Foi um verdadeiro
escarneo fazer passar este fanatico por um hereje e condemnal-o como
tal, visto que civilmente este se escapra, pelo fro ecclesiastico, ao
tribunal especial que julgra os seus cumplices no crime de regicidio.
Foi ainda uma aggresso feita  Companhia de Jesus e  crte de Roma,
que se oppunha a que os tribunaes ordinarios conhecessem dos crimes
ecclesiasticos. Malagrida era catholico fervente, talvez enthusiasta na
sua f; teria o espirito pervertido pela leitura dos casuistas da sua
Ordem, e talvez essas doutrinas falsas o fizessem no encarar o
regicidio como crime gravissimo; mas, quando o mataram, era um louco, um
visionario. Aquelle livro em que se baseava a sua condemnao, seria
hoje a sua absolvio, havendo-o como desacizado e irresponsavel; tinha
ensandecido. Os dois bispos de Cochim e Cagranor, tinham ambos vestido a
roupeta da Companhia. A sentena e execuo de Malagrida fez tal
impresso no bispo de Cochim, que este escreveu ao outro uma carta em
que declarava que tal sentena no era mais que um libello contra a
Companhia, que Malagrida era um sacerdote de solidas virtudes e que os
factos que lhe attribuiam deviam ser inventados. A India, por distante,
no escapava  vigilancia do Marquez de Pombal. Soube da existencia da
carta e conseguiu obter copia d'ella. J era o anno de 1774, e ainda o
marquez expediu um despacho  Meza Censoria, no qual se v que o
antagonismo estava to vivo como nos primeiros tempos da lucta travada
com a Companhia de Jesus, visto que similhantemente na tal carta, diz o
marquez: S havia a _paixo_, a _malicia_, a _calumnia_, a _ignorancia_
e a _temeridade_, e que era um legitimo parto, no de um bispo, mas de
um homem todo possuido dos pessimos e detestaveis espiritos da soberba,
da vingana, e esquecido de Deus, da eternidade e de si mesmo. A Meza
Censoria no foi menos energica no seu estylo: a carta foi julgada
_mentirosa_, _infame_, _impia_, _blasphema_, _sediciosa_, _escandalosa_
e _heretica_, condemnando-a a ser lacerada e publicamente queimada pela
mo do algoz, na Praa do Commercio, o que se executou.

Quando D. Jos deixou de existir, sua filha, correspondendo ao perdo
que seu pae dera a todos os seus inimigos, soltou os presos politicos,
que por tantos annos jazeram nas masmorras. Cada um voltava com o desejo
de vingana e com elles todos os parentes e descendentes pediam  rainha
a rehabilitao da memoria d'aquelles que expiraram no cadafalso e a
restituio de bens a seus legitimos herdeiros. D. Maria I, de animo
timorato, e balanando sempre entre a memoria de seu pae e as suggestes
do marido e dos inimigos do marquez, no sabia como haver-se em tal
difficuldade, porm, o conde de Assumar, casado com uma filha dos
Tavoras e que tantos annos estivera preso sem outro delicto que no
fosse esta alliana, reclamou resolutamente a reviso da sentena, e
sendo appoiado pelos novos ministros e pelo confessor da rainha, esta
resolveu-se a submetter a exame a sentena condenmatoria contra a qual
se protestava. Effectivamente essa sentena revisoria tira aos Tavoras e
conde de Attouguia, a responsabilidade no crime de regicidio e
rehabilita a sua memoria. O que n'isto ha de mais estranho  que a
maioria dos desembargadores, que agora absolviam os ros mortos, eram os
mesmos que assignaram a sentena anterior com todos os seus horrores que
ella comprehendia; achavam agora tardiamente que se no havia guardado
as formalidades prescriptas pela lei.

Segundo este documento fica provado  sacciedade a existencia do crime;
que o duque d'Aveiro, querendo vingar-se do rei por este lhe negar o
rendimento de commendas que entravam para a caixa das commendas
extinctas, e por impedir o casamento de seu filho D. Martinho com a rica
herdeira de Cadaval; e alm do duque os dois familiares d'elle e o
cunhado de ambos, Jos Polycarpo. A esta sentena revisoria oppz o dr.
Joo Pereira Ramos, procurador da cora, tres ordens de embargos: uns de
abreco e sobreco, e ainda de effeito de integridade do processo,
impugnando a sentena pelos seus mesmos fundamentos. O arrojo d'este
magistrado, que era irmo de D. Francisco de Lemos, bispo de Coimbra
e amigo de Pombal, foi de todos admirado, mas causou na rainha novas
vacillaes, deixando-a n'aquelle combate violento entre o dever de
filha respeitosa e a quem cumpria no atacar a memoria da justia feita
por seu pae, e as diligencias que perante ella empregavam os
interessados e mesmo pessoas de sua familia. N'esse combate e nos
escrupulos de uma consciencia tibia, se lhe passou o tempo e se lhe
esvaeceu a razo. Com aquelle incidente do recurso interposto, nunca a
segunda sentena passou em julgado, ficando por tanto de nenhum effeito,
e de p, a proferida em 1759. Se quizermos julgar de um rei ou de um
estadista, avaliando os seus actos, praticados em outras epochas, pela
philosophia de um seculo que se avantaja em idas humanitarias, que no
teve os d'elles, raro ser aquelle que no merea o nome de tyranno; 
necessario examinar os costumes da epocha em que viveram, quaes as idas
dominantes na sociedade que governaram, qual o estado da sua legislao
penal. Os grandes reformadores tem muitas vezes de fazer calar o corao
para seguir o que lhe aconselha o entendimento. Pedro I, da Russia, no
poupou o proprio filho mas fundou um imperio e a sua memoria 
respeitada, no como sanguinario, mas como fundador de uma
nacionalidade, como um previdente legislador e que introduziu n'um paiz
semi-selvagem, as artes e a civilisao a que estava alheio.
Naturalmente o pae chorou o filho, mas o rei no vacillou. Uma me, no
saberia fazel-o.  por isso que as que alimentam a ridicula otupia de
chegar a epocha em que a mulher seja chamada a desempenhar cargos na
republica (que as ha), devem perder essa ida, que, para ser realisavel,
era necessario que a mulher podesse dominar o corao pelo entendimento,
pois de outro modo no se governam naes. A mulher deve ser o anjo do
lar,  me,  mestra, e capaz de tudo quanto dependa de sentimentos
nobres e brandos, mas so raras, e ainda bem, as aberraes que mentindo
ao seu destino doce e nobre, se fazem notar pela crueldade. O homem tem
outra misso; destinado a proteger e a deffender, Deus deu-lhe outra
fora de animo; a mulher que se desvia da senda que a Providencia lhe
marcou, torna-se m e cruel, mas nunca chega a ser grande; o homem que
segue o seu caminho, no intuito de bem governar, v-se muitas vezes
constrangido a calcar todos os sentimentos, por que v ao longe o
beneficio que tirar.

Os humanitarios de hoje, se tivessem nascido ha um seculo, e tivessem o
talento de Pombal, para chegar aos mesmos fins buscariam naturalmente os
mesmos meios. No era s em Portugal que se empregava a tortura.

O joven cavalheiro Laborde e alguns rapazes da sua edade, foram
accusados de haverem ultrajado um crucifixo que estava n'uma ponte de
Abberville, foram condemnados a padecerem a amputao da lingua
arrancada por meio de tenazes, e a tortura ordinaria e extraordinaria. A
sentena confirmada pelo parlamento de Paris foi executada por cinco
algozes. O cavalheiro Laborde depois de ter padecido a tortura, foi
executado em Abberville. Este desgraado rapaz subiu ao cadafalso com
uma coragem tranquilla e padeceu o supplicio sem se queixar. A sua
execuo causou tal horror, que se no atreveram a proseguir no processo
dos demais accusados.

Ainda vou reproduzir um outro exemplo, e muitos mais poderia dar se o
caso carecesse de mais exemplos, mas quem ha que no tenha lido mil
casos identicos em documentos, em jornaes, na historia de todos os
paizes, mesmos os mais civilisados?

A tolerancia e os sentimentos de humanidade no eram as qualidades
brilhantes dos seculos anteriores. A crueldade era levada ao requinte, e
quem no tiver lido e desejar convencer-se de que era systema geral, no
tem mais do que ler a historia de Roma e da doce Italia em geral, a de
Hespanha, onde Torquemada d largo assumpto, e mesmo a da Frana
republicana.

Se accusamos o ministro, o que diremos do rei? Acaso Pombal fez quanto
se deixa dito sem a sanco regia? No salpicaria essa monstruosa
execuo as capas de arminhos do rei e da rainha? No seria esse rei
(to temente a Deus), connivente na barbaridade? foi-o sem duvida, mas
em relao  epocha no poderia obrar de outro modo, e repito,  isso o
que justifica a todos os que cooperaram para essa terrivel carnificina.

Vejamos o outro exemplo: este da-se na Prussia e j sob o governo do
actual monarcha que muitos dizem illustrado e bom mas que se no chama
D. Luiz I: ao nosso bom rei  que ninguem arrancaria a sanco de to
horrorosa sentena. Leiamos o _Times_, _isto em 1870_!

Execuo do assassino do bispo de Emerland.--Rudolpho Hhnapfel, o
alfaiate, que assassinou o bispo Von Hatten e seu mordomo, na sua
residencia episcopal em Franemburg, foi executado na madrugada de 7 do
corrente, no oiteiro, que fica a cerca d'uma milha d'aquella cidade,
proximo  estrada de Elbing. Os juisos pronunciados em ambos os
processos pelos tribunaes do crime foram acordes em condemnal-o  morte
por meio do supplicio da roda, que comearia pelas extremidades
inferiores do corpo acabando nas superiores (_voa unten auf_). A 15 do
mez proximo passado foi a sentena, confirmada pelo assentimento regio,
que tomou uma nova formula.

No reinado anterior custumava correr como se segue: Lemos a sentena e
ordenamos a sua execuo! Hoje adoptou o soberano esta phrase:
Lemos esta sentena e queremos que se d livre curso  lei! O preso
houve-se por muito tempo, com bastante presena de espirito, sem
patentear um s indicio de remorso, ou arrependimento at ao momento em
que na ultima audiencia, lhe foi lida a sentena do tribunal;
operando-se ento visivel alterao na sua conducta. A 27 do referido
mez quando ouviu a ordem regia para a sua execuo, estava to agitado,
que no podia fallar, pelo que recebeu ento o auxilio espiritual do
sacerdote. Na vespera do supplicio foi confessado e recebeu a
communho. Outro jornal o _Elbing_ Zeitung diz o seguinte sobre o
mesmo: s 4 horas e meia da manh foi o preso removido de Braunsberg
n'uma carreta bem escoltada, chegando ao logar destinado para a execuo
s 6 horas. Mais de 10:000 pessoas affluiram de toda a diocese quelle
logar ao romper do dia, sendo digno de notar-se que mais de metade, eram
mulheres. O criminoso desceu da carreta, em deploravel estado de
desalento tomou uma bebida restaurante, que lhe foi administrada, sendo
em seguida conduzido ao cadafalso, onde lhe tiraram as algemas: ajoelhou
com o padre que o acompanhava e orou. O prisidente do tribunal de
Braunsberg, leu a sentena que o condemnava a ser rodado, comeando a
tortura pelos ps, e voltando-se para os tres algozes disse-lhe:--E
agora vol-o entrego para o devido cumprimento d'esta sentena.--Ouvindo
isto o reu, olhou para o padre e tornou a ajoelhar, mermurando breve
orao; levantou-se depois, colocou-se no cadafalso com fria resoluo,
e recusando o auxilio dos algozes, pz elle mesmo os ps e os braos na
posio exigida e exclamou com voz firme:--Deus se compadea da minha
pobre alma. O algoz cubriu-lhe o rosto e o terrivel supplicio da roda
comeou. Em dez minutos deixou aquelle desgraado de existir sendo o
cadaver, j reduzido a uma massa informe, mettido em um caixo j para
isso preparado.

Os espectadores retiraram-se visivel e profundamente commovidos.

Basta de exemplos revoltantes, para retomar o fio da interrompida
narrativa.

Depois das ultimas cartas de que fallei, os jesuitas contavam com a
elevao ao poder do novo papa, para arranjarem os seus negocios, mas j
iam desanimando quando a nomeao de Rezomnico para confessor de S. S. e
que era jesuita lhe fez renascer novas esperanas.

Clemente 13 foi aclamado, e o Geral dos jesuitas Ricci, no perdeu um
momento em lhe apresentar um memorial para as reformas. Queixava-se de
que os no tinham ouvido quando os accusaram, e de que se attribuiam
a todos os jesuitas residentes em Portugal e suas dependencias, culpas
commettidas por um ou outro, isoladamente. Protestava a innocencia dos
superiores e pedia que fosse revogada em Roma, a reforma principiada em
Lisboa a 12 de maio.

Na congregao as opinies dividiram-se; uns votaram pela revogao
immediata do breve, que tachavam de offensivo  dignidade do papa:
outros advogaram a causa do rei de Portugal, contra os jesuitas. Depois
de larga discusso, resolveu-se o seguinte: O cardeal Achinto, deveria
entender-se com o nuncio e recommendar-lhe que se entendesse tambem, com
o cardeal visitador, e aconselhar-lhe toda a moderao possivel no
cumprimento do seu encargo.

Isto foi poeira que no cegou os jesuitas que ficaram pouco satisfeitos;
mas no desanimaram, e principiaram a espalhar boatos absurdos a
respeito de Portugal e do seu governo. A morte do patriarcha de Lisboa,
foi attribuida pela Companhia aos remorsos, e julgavam com estas e
outras falsidades excitar o zelo do seu protector, o cardeal Torregnani,
que fra nomeado secretario d'Estado. Veio a complicao do attentado
contra o rei, tornar mais critica a situao dos jesuitas. Malagrida foi
morto e os outros suspeitos presos, uns no forte da Junqueira, outros na
quinta do duque de Aveiro.

Todos os seus bens foram encorporados nos da cora como pertencentes a
inimigos do rei, e de seus Estados; assim declarados por decreto do
tribunal.

Todas estas ordens, dizia Carvalho, so indicadas pela economia e pela
necessidade do rei, de deffender a sua real pessoa, e o seu governo, e o
repouso publico de seus subditos, o exige em quanto esperam novos
recursos da Santa S. As melhores intenes so muitas vezes
envenenadas. Houve quem dissesse que o motivo que impellia Carvalho, a
fazer sequestro nos bens dos jesuitas, era a ambio de se enriquecer
com os seus despojos.

Foi uma calumnia inventada pelos mesmos padres com o intento de denegrir
o caracter do ministro que em todos esses bens no teve a minima parte.

Depois de prender os padres e sequestrar-lhe os bens, Carvalho
dirigiu-se ao papa para julgar Malagrida e seus cumplices. Estas mras
formalidades em nada diminuiram a energia das suas reclamaes. Elle no
julgava necessaria a approvao do papa para punir Malagrida, mas
embaraava-o d'um lado o rei, que no queria faltar a nenhuma atteno
para com a Santa S, do outro, o povo fanatico e cheio de prejuisos.
Dirigiu-se ao papa, como em tempo o fizra a Benedicto XIV, um dos mais
sabios pontifices, que tem empunhado a thera, mas que no concedeu
mais que a reforma da ordem, golpe que ainda assim foi decisivo, e que
os padres estavam longe de esperar, porque fra preparado no maior
segredo; pedia a Clemente XIII em nome do procorador geral da cora,
authorisao para o conselho chamado _Conselho de Consciencia_, poder
relaxar ao brao secular depois da degradao pronunciada conforme os
decretos canonicos todos os ecclesiasticos seculares e regulares
convencidos de conivencia no attentado de 3 de setembro, e os que de
futuro se tornassem ros do mesmo crime. O rei junctou a esta preteno,
ou supplica do procurador geral da cora uma carta sua cheia de affecto
e confiana e dizia a S. S. que resolvera expulsar os jesuitas do seu
reino e dependencias, e que era resoluo irrevogavel. Uma memoria
minuciosa dos crimes e excessos praticados por esses religiosos,
acompanhava a carta e a supplica e Carvalho fez remetter tudo ao nosso
embaixador em Roma para que este ficasse ao facto do que se desejava,
acompanhando ainda esta remessa de instruces particulares dadas em
longa carta que termina assim:--Em fim, caro primo S. Magestade deseja
a paz e quer at  ultima extremidade mostrar ao papa, os sentimentos
affectuosos, e o respeito filial que lhe tributa, ainda que est
persuadido, de que cincoenta annos de guerra com qualquer potencia da
Europa, lhe eram menos nocivas  sua autoridade do que a presena dos
jesuitas no reino e seus dominios. Em concluso S. M. ordena-me que
previna a V. S. de que deve mostrar na crte de Roma tanta moderao
como firmeza, fallando sempre como um ministro, deve fallar ao Supremo
Pastor ou ao que occupa o seu logar, fugindo principalmente dos dois
maiores peccados politicos que so: recordar faltas passadas e
irremediaveis, o que azeda sempre os animos; o segundo o de ameaar o
Soberano ou seus ministros. A esse respeito deve imitar o cardeal Dossa
que emprega sempre a terceira pessoa servindo-se de phrases como estas:
cr-se, teme-se receia-se etc.

Apesar porem de toda a energia que Almada desenvolveu, encontrou a
vontade firme do secretario de Estado o Cardeal Torregiana, que era
primo de Ricci, e amigo dos jesuitas e que no dissimulou a sua opinio
e a sustentou com firmesa. O mesmo papa lhe no era adverso, e Almada,
comprehendeu logo que nada conseguiria. Carvalho publicou ento o
decreto de 28 de junho de 1759 pelo qual os jesuitas, eram
desnaturalisados, proscriptos e expulsos, para sempre de Portugal e seus
dominios.

Todos os portuguezes eram obrigados, sob penna de morte, a prohibir-lhe
a entrada no reino, e de ter com elles a minima correspondencia ou
relao. O decreto exceptuava os jesuitas presos, e os que no tendo
ainda pronunciado o quarto voto, quizessem despir o habito; todos os
seus bens foram postos em deposito.[3]

A execuo seguiu o decreto, e perto de 600 jesuitas, de todas as idades
foram no meio de soldados, embarcar nas margens do Tejo no _S. Nicolau_
que em sete dias os levou a Civita-Vecchia. A noticia da expulso dos
jesuitas, s chegou a Roma, a 2 de agosto, depois do papa ter mandado um
correio extraordinario a Portugal com quatro despachos para o nuncio o
cardeal Acciajuoli; o primeiro era dirigido ao presidente do conselho de
Consciencia e das Ordens que permittia a este tribunal o entregar ao
poder secular os jesuitas convencidos de conniventes no attentado, mas
este breve nada dizia com respeito ao futuro, como queria Pombal. O
segundo era uma carta do papa para o rei, na qual appellava para os seus
sentimentos misericordiosos pedindo-lhe a vida d'aquelles ministros do
altar, que eram mais miseraveis do que criminosos.

Na segunda carta o papa manifestava ao rei a dr do seu corao
despedaado e inquieto rogando-lhe que no expulsasse os jesuitas e de
fazer continuar a visita e reforma ordenada por Benedicto 14; so estes
os sentimentos, dizia elle, que me dicta o meu amor pela justia e pela
verdadeira gloria de V. Magestade. O quarto despacho era uma memoria do
papa para Carvalho; sustentava n'ella os termos da primeira dizendo que
toda a ampliao dada a esta conseco seria considerada contraria s
immunidades eclesiasticas e attentatorias s suas prerogativas. Estas
foram as causas determinativas da ruptura com a crte de Roma, porque
Carvalho sem mais demora tomou a resoluo definitiva. Vendo-se livre da
presso da S. S poz em pratica todas as medidas que tanto o
preoccupavam. Conseguiu que a Frana e Hespanha se lhe ligassem pedindo
a extinco da Companhia. Foi ento que a fecunda imaginao de Pombal
se desentranhou em medidas sem numero. Por toda a parte se estabeleceram
escolas em boas condies, tanto primarias como secundarias. A elle se
deve a organisao sria e util da Universidade, prohibiu os compendios
em uso, por nocivos, e substituiu-os por outros convenientes; creou a
escola do Commercio, fundou o Collegio dos Nobres, decretou a liberdade
para todos os escravos que pisassem o solo de Portugal, complemento
precioso das sabias medidas contra a escravido das colonias como que se
tornra celebre logo no principio da sua elevao ao poder. Todos os
grandes estadistas, sob qualquer forma de governo que seja, se sentem
arrastados por impulso irresistivel a introduzir nas suas leis a
philosophia, a religio, e a liberdade. O marquez de Pombal foi quem
apesar de governar pelo systema absoluto implantou a liberdade no nosso
paiz.

Foi elle que creou o _Conselho de fazenda_ fazendo convergir ao thesouro
publico todos os impostos. Um acontecimento que Pombal no esperava veio
crear-lhe novas complicaes. A 16 de maro de 1762 o enviado de Frana
Jacob O. Dune e o de Hespanha Torrero com ordens e instruco da crte
de Madrid, apresentaram ao ministro dos Negocios Estrangeiros de
Portugal, o _memorandum_ que principiava pedindo a alliana offensiva e
deffensiva do nosso rei contra os inglezes; Pombal fez responder que so
poderia guardar a neutralidade, por que sendo ns alliados da Inglaterra
com quem mantinhamos relaes estreitas e amigaveis, no podiamos sem
ter recebido offensa, fazer-lhe guerra, que mesmo Portugal enfraquecido
pelas adversidades por que passra, no devia expr seus filhos a
soffrer consequencias que no poderiam supportar, mas que o rei
offerecia a sua mediao para o restabelecimento da paz. A resposta a
esta, foi impolitica e grosseira e declararam as duas potencias que bom,
ou mau grado do rei de Portugal, as tropas hespanholas aqui entrariam e
que ao rei ficava o direito de as considerar como amigas ou inimigas.
Indignado com esta concluso que nem era justa nem acceitavel, Pombal
insistiu na sua primeira resposta accrescentando que _S. M. Fidelissima
gastaria at a ultima telha_ do seu palacio para se deffender e que os
seus subditos derramariam at a ultima gota do seu sangue, mas que no
sacrificavam a honra da cora e da nao. Foi declarada a guerra e
pedidos os passaportes que Carvalho lhe promptificou dizendo-lhe que
logo comprehendera que as crtes de Madrid e Versailles ao assignarem o
_Pacto de Familia_ era j com teno de fazer de Portugal theatro da
guerra caso se recusasse entrar no accordo. De facto a 30 de abril
entraram os hespanhoes, a Frana declarou-nos tambem a guerra e a
despeito do _artigo VI_ do tractado de Vienna d'Austria os portuguezes
residentes em Frana foram mandados sair em 15 dias perdendo os seus
bens a favor da cora.

O exercito, que no chegava a 8:000 homens, estava em pessimas
condies, no tinham nem munies, nem fardamentos, as praas estavam
desmanteladas e desguarnecidas.

O Marquez com pasmosa tranquilidade fez desapparecer todas as
difficuldades. Com incrivel rapidez organisou um exercito de 50:000
homens, e appareceram uniformes e munies em abundancia. Para
governador d'Elvas foi o conde de Unho, D. Joo de Lencastre para o
Minho, Marquez de Lourial para o Algarve, e D. Rodrigo de Noronha,
irmo do marquez de Marialva, e grande militar, foi chamado  capital e
nomeado tenente general. Os hespanhoes traziam 40:000 homens que
foram derrotados e em 1763 concluiu-se finalmente a paz em Fontainebleau
declarando o art. 21 do mesmo tratado o que se segue: As tropas
Francezas e Hespanholas evacuaro sem reserva alguma todos os
territorios, campos, cidades, praas e castellos de S. M. F. na Europa
que possam ter sido conquistadas, com a mesma artilheria e munies de
guerra que n'ellas acharam; quanto s colonias, se tiver havido alguma
mudana na America, Africa ou India todas as cousas sero postas como
estavam na conformidade dos tratados que existiam entre as crtes de
Frana, Hespanha, e de Portugal antes da guerra.

A este tempo chegaram seis mil homens d'Inglaterra que se juntaram aos
nossos 50 mil. Foi restabelecida a paz. Como Richelieu, o ministro
procurou sempre devolver ao rei toda a fora que tirava ao clero.
Portugal deve a Pombal medidas que lhe do direito  gratido e
admirao de todos os portuguezes, taes como as de 20 de julho de 66, de
9 de setembro de 69 e a de 3 de abril de 1770, a primeira sobre
testamentos. A morte do rei em 1777 veio por fim  sua carreira
brilhante. Durante a doena do rei a regente D. Marianna senhora to boa
como sagaz nada alterou apesar da boa vontade dos inimigos do Marquez
principalmente o cardeal Cunha a quem o ministro protegra sempre. Aos
20 de fevereiro depois de longo soffrimento a vida do rei extinguiu-se
tendo sessenta e dois annos. N'esse dia o ministro foi como costumava
informar-se do estado do rei, e o Cardeal adiantando-se deu-lhe a fatal
nova com sinistra alegria e ajuntou: Nada mais aqui tendes que fazer;
as vossas funces terminaram.

O marquez s lhe respondeu com um olhar de profundo desprezo. O seu
espirito esclarecido de ha muito previra a sorte que o esperava. O rei
nascera com as qualidades de corao e de espirito que fazem os
monarchas independentes. Tinha a intelligencia clara e era justo, mas a
sua principal gloria vem-lhe de ter sido o rei de um tal ministro. A
rainha principiou o seu governo pelos actos que so mais gratos ao
corao. Principiou perdoando, em nome de seu pae. O marquez continuou a
ser ministro apesar de no gosar da confiana da rainha. Comprehendendo
a sua falsa posio instou muito tempo pela sua demisso, allegando os
seus longos servios, avanada edade e enfermidades. Afinal conseguiu
que a rainha julgasse a proposito dar-lh'a, e a primeira pasta que se
lhe tirou foi a das finanas em que mais servios prestara, deixando no
thesouro que encontrara vasio, 80 milhes de cruzados, eloquente cifra
que attesta a excellencia da sua administrao. Eis o decreto:--Em
considerao da alta e singular estima que o rei meu pae (que Deus tenha
em gloria) teve sempre pela pessoa do marquez de Pombal e a pedido
do dito ministro que me pede a permisso de se demittir de todas as
funces com que est sobrecarregado, allegando que a sua edade e muitas
enfermidades lhe no permittem continuar ao meu real servio; em
atteno ao seu pedido lhe concedo a dita permisso, mas conservando-lhe
em quanto viver o direito ao rendimento que lhe competia como Secretario
de Estado dos Negocios do reino, ajuntando a isso por graa especial os
rendimentos das commendas de S. Thiago de Braga e da de Christo que se
acha vaga por morte de Francisco de Mello e Castro. Feito no pao da
Ajuda 14 de maro 1777. Os termos lisongeiros e a graa que as
acompanhou foi derradeira homenagem da rainha ao ministro e amigo de seu
pae. O marquez retirou-se para Pombal e ahi ficou depois desterrado por
ordem da mesma rainha, soffrendo por todos os modos e fallecendo depois
minado de desgostos pela ingratido; eis o seu epitaphio:

                                 AQUI JAZ
                    SEBASTIO JOS DE CARVALHO E MELLO,
            MARQUEZ DE POMBAL, MINISTRO E SECRETARIO DE ESTADO
                               DE D. JOS I
                             REI DE PORTUGAL;
                         O QUAL REEDIFICOU LISBOA,
                           ANIMOU A AGRICULTURA,
                          ESTABLECEU AS FABRICAS,
                          RESTAUROU AS SCIENCIAS,
                            ESTABLECEU AS LEIS,
                             REPRIMIU O VICIO,
                           RECOMPENSOU A VIRTUDE,
                          DESMASCAROU A HYPOCRISIA,
                           DESTERROU O FANATISMO,
                          REGULOU O THESOURO REAL,
                  FEZ RESPEITADA A SOBERANA AUTHORIDADE;
                              CHEIO DE GLORIA
                             COROADO DE LOUROS
                          OPPRIMIDO PELA CALUMNIA,
                     LOUVADO PELAS NAES ESTRANGEIRAS:
                              COMO RICHELIEU
                           SUBLIME EM PROJECTOS,
                    IGUAL A SULLY NA VIDA, E NA MORTE:
                          GRANDE NA PROSPERIDADE,
                         SUPERIOR NA ADVERSIDADE,
                             COMO FILOSOPHO,
                               COMO HEROE,
                              COMO CHRISTO,
                           PASSOU  ETERNIDADE.
                             NO ANNO DE 1782
                          AOS 83 ANNOS DE IDADE
                      E NO 27. DA SUA ADMINISTRAO.



    [1] Homens assim so elevados ao poder e a mandar, quando a
    Providencia tem em vista beneficiar uma nao.  sua voz surgem: a
    Ella devem a habilidade de bem dirigirem o golpe, o vigor para o
    vibrar, a pericia para exercer a autoridade, e o poder com que
    vencem uma crise em hora de decissivas trevas.

    [2] _Montesquiou._

    [3] Arch. dos Negocios Estrangeiros de Frana, v. LLXXXVI fl. 164.





End of the Project Gutenberg EBook of Factos Notaveis da Historia Portugueza
e Biographia do Marquez de Pombal, by Josefina Pinto Carneiro Perestrelo

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Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
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of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
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Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
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1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
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WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
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If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
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with this agreement, and any volunteers associated with the production,
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or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


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