The Project Gutenberg EBook of Diccionario de Joo Fernandes, by 
Francisco Gomes de Amorim

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.net


Title: Diccionario de Joo Fernandes

Author: Francisco Gomes de Amorim

Release Date: December 22, 2010 [EBook #34718]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DICCIONARIO DE JOO FERNANDES ***




Produced by Pedro Saborano





                               DICCIONARIO

                                   DE

                              JOO FERNANDES

                        LIES DE LINGUA PORTUGUEZA

                                  PELOS

               PROCESSOS NOVOS AO ALCANCE DE TODAS AS CLASSES

                                   DE

                            PORTUGAL E BRAZIL




                               DICCIONARIO

                                   DE

                              JOO FERNANDES




                               DICCIONARIO

                                   DE

                              JOO FERNANDES

                        LIES DE LINGUA PORTUGUEZA

                                  PELOS

               PROCESSOS NOVOS AO ALCANCE DE TODAS AS CLASSES

                                   DE

                            PORTUGAL E BRAZIL


                                           Castigat ridendo mores.


                                 LISBOA
                            IMPRENSA NACIONAL
                                  1878




A QUEM LER


Por bem entendido orgulho, resolveu o auctor d'este livro no privar o
seu nome da gratido dos contemporaneos. Honra lhe seja!

Do seu trabalho se pde dizer sem lisonja; que reune o _utile dulce_.
Instrue e deleita, inspirou-lh'o um opusculo francez, de indole
similhante, intitulado: _Le Carnaval du Dictionnaire_.

Pretendeu o nosso auctor demonstrar que tambem a riquissima lingua
portugueza se presta a graciosas evolues, aos _traits d'esprit_, e
ao _humour_ dos idiomas francez e inglez. Ousar alguem dizer que elle
se no saiu victorioso da empreza? Estou que ninguem se atreve. Bons
ditos, agudezas, epigrammas, finas ironias, satyras, critica de
costumes, tudo aqui se encontra, mais ou menos floreado, conforme requer
cada assumpto.

 possivel que no falte quem faa m cara s definies simples e
claras da maioria dos vocabulos; e que por essa mesma ingenuidade no as
acreditem nem acceitem. O auctor no se desconsola por isso. Elle sabe
que quanto mais grosseiro for um erro, mais facilmente ser admittido;
ao passo que raros crem na verdade pura. Ha pouco mais de trezentos
annos ainda se suppunha que as marrecas (aves similhantes ao patos)
nasciam da madeira dos mastros, dos remos e das tabuas de barcos velhos
apodrecidos pelas aguas; e quando Childrai asseverou que as tinha
visto ao norte da Escocia pr e chocar os ovos como os outros
palmipedes, pouco faltou para que o engulissem vivo! O abbade de
Valmont, refutando-o em pomposos discursos, no comeo do seculo passado,
provava triumphantemente, com applauso de todo o _mundo sabio_, que,
sendo as marrecas animaes de sangue frio, como os peixes, no podiam
chocar, e que as perseves eram larvas de marreca e tambem plantas
marinhas, e que d'ellas se formavam as citadas aves!

Nada custa mais a acceitar do que as verdades singelas, sobretudo se
ellas no lisonjeiam a tolice humana! Ora o auctor tem a consciencia de
no haver commettido esse peccado, assim como a de ter feito uma obra
digna do seu tempo. Ram-n'a, portanto, como podrem: a posteridade lhe
far justia.

No apimentado da linguagem seguiu-se o systema do sabio Raspail, com o
fim de afugentar os vermes... litterarios. Os conceitos, assim
temperados, no embucharo tanto os estomagos exquisitos, embora algumas
vezes produzam irritabilidade passageira, proveitosa para todos os
lymphaticos.

Por entre os gracejos encontram-se muitas verdades instructivas, com
applicao s creaturas hypocondriacas e dyspepticas. No ignorava o
nosso auctor que trabalhava para o futuro, e que o seu livro seria o
unico diccionario serio adoptado por vindouros illustrados; mas nem se
desvaneceu com essa certeza, nem quiz em monumento de to sublime lavor
titulo de armar ao effeito. Podia ter-lhe chamado, com asss de
propriedade, _Diccionario de pimenta na lingua_, ou, mais cruamente,
_tira-pelle_, _escacha-pecegueiros_, _leva couro e cabello_, etc.
Preferiu, comtudo, o simples titulo de _Diccionario de Joo Fernandes_
para o maior padro da moderna litteratura portugueza. Que modestia, to
digna de elogio no seculo corrupto em que todos se gabam e louvam a si
publicamente!

E comtudo o que mais estava aqui a calhar era _Diccionario raboleva_.
Cousa de pr e tirar, sem a minima ida de offender, que no faz mal
nenhum, e que vem tanto a proposito n'estes tempos de carnaval perpetuo.
_Raboleva_  como quem diz carapua. Mas a carapua, no sentido intimo e
transcendental,  invisivel para todos e s a sente quem a pe. Ao passo
que o _raboleva_ so os outros que o vem em ns e nos gritam:

--Raboleva!

Que admiravel inveno!  claro que s os tolos lhe no achariam graa.
Confessem, porm, todos que o no forem, que o auctor foi o homem mais
modesto do seu tempo, privando a sua obra d'esse titulo _palpitante de
actualidade_, e assim provaro que sabem ser superiores a invejas
mesquinhas.

O livro porm no carece de nomes pomposos para se tornar celebre. Elle
ahi vae, eu acho-o bom, sou de voto que o approvem para os collegios,
que o compre toda a gente, e peo a immortalidade que me compete...
a seis tostes por cabea.

                                                      _Joo Fernandes_

                                                     Auctor da dita obra.

_N. B._--_P. S._ Os artigos desengraados, ou obscuros, no so meus.
Traduzi-os do francez e do chin. Eu s fiz os que teem graa.

                                                           _J. F._



*****
  A
*****


A

*ABA*--Diz-se de mesa, em vulgar; mas no estylo poetico toma-se por
petala da flor chamada oramento, onde pousam mais zangos do que abelhas.

*ABADA*--Por um singular capricho da lingua d-se este nome ao corno do
rhinoceronte, e s canastradas de leis mais duras de roer, que os
parlamentos approvam sem exame, no fim das suas sesses!

*ABAETADO*--Panno grosseiro com que alguns grandes homens vestem a
sua delicadeza.

*ABAFADIO*--O ar da independencia, para certos patriotas.

*ABAFADO*--Vinhito soffrivel antes de se ter inventado o _oidium_, a
_philoxera_, a flor de enxofre, a baga de sabugueiro, o campeche, a
anilina, a fuchsina, e outros ingredientes capazes de estoirar o
estomago do grande diabo.

*ABAFADOR*--Sujeito que no deixa fallar os outros.

--Amigo zeloso, que abafa o alheio para que se no constipe.

*ABAFAR*--O mesmo que atabafar; cobrir ou esconder o que  dos outros,
de modo que os donos no vejam.

*ABAIXAR-SE*--Maneira de poder andar seguro por caminhos difficeis.

*ABALISADO*--Grande comedor.

*ABJECO*--Usar botas sem meias.

*ABJURAR*--Tem, em politica, muitos significados pittorescos: virar a
casaca, mudar de cara, roer a corda, passar o p, atirar as cangalhas a
terra, etc.

Em religio: Deitar um rombo de madeira nova n'um barco podre.

*ABSOLVIO*--Dar um bispado _in partibus infidelium_.

*ABUSO*--Planta nociva, que grla e rebenta por toda a parte.

--As verrugas nacionaes.

*ACADEMIA*--Cozinha litteraria e scientifica, da qual nem todas as
comidas so gratas ao paladar.

*AAMO*--Ponto de contacto entre o co e o jornalista, nos paizes em que
a rolha faz parte das instituies.

*ACANHADA* (MULHER)--Capil de cavallinho.

*ACANHAMENTO*--Casaco apertado.

*ACCIONISTA*--Unica especie de mosca, que se apanha com vinagre... de
sete ladres.

*ACEIO*--O luxo do pobre... que elle raras vezes tem.

*ACTOR*--Proteo por conta alheia.

*ACTRIZ*--Espelho de reflectir paixes.

--Flor artificial.

*ADMIRAO*--Sentimento que s nos acommette diante das nossas obras, ou
quando nos vemos ao espelho.

*ADULAO*--Musica da aria do servilismo.

*ADVOGADO*--Actor que representa autos.

*AFFEIOADO*--O que apenas diz mal de ns, em vez de tambem nos bater.

*AGIOTAGEM*--Montado, onde se engordam aves de rapina.

--Monturo, onde os cogumellos so venenosos.

*AGUA*--_Rara avis in Olissipone._

--O sonho de Lisboa.

--Cousa que muitos corpos nunca viram.

--Horror de certas caras.

*AJUDA* (DE CUSTO)--Clyster que todos gramam com gosto.

*ALBUM*--Victima que faz victimas.  o caso de exclamar: _Abyssus
abyssum invocat._

--Machina de achatar poetas.

*ALCANCE*--Descuido intelligente que faz correr dinheiro dos cofres
publicos para os particulares.

*ALEGRIA*--Premio na loteria da vida.

*ALEXANDRINO*--Verso: o elephante da poesia.

--Homem: o pigmeu dos Alexandres.

*ALGIBEIRA* (CHEIA)--Alma nova.

--(VAZIA) Veia sem pinga de sangue.

*ALGODO*--Materia prima da belleza plastica. Tranquillisae-vos,
senhoras; todos fazemos de conta que no percebemos.

*ALIMENTICIOS* (GENEROS)--Misturada infernal, em que todos os artigos
teem drogas suspeitas. Ha de vir um tempo em que o consumidor, para se
livrar de ser roubado e envenenado, com assentimento da auctoridade
publica, ter de ir procurar a subsistencia nas origens de todos os
generos. Mais claro: Para comer sem repugnancia e sem perigo, ter que
imitar os quadrupedes, e, posto ao lado d'elles, pastar nos campos o
trigo infantil e virgem de toda a combinao toxica. Concorrer com os
ces s vinhas, e ahi se regalar com os puros cachos ideaes (estylo da
_ida nova_), isentos do mistiforio horrendo que mais tarde lhes mistura
no sumo o taberneiro boal, ou qualquer outro ladro e assassino da
mesma laia. Cortar o seu bife do boi vivo ( moda dos bemaventurados do
paraizo scandinavo, que os comem de um javali sempre inteiro), e
mamar com os vitellos seus collaos a manteiga e o queijo na fonte
original da tta incorrupta (salvo o caso de ter bexiga, o que desde
logo nos evitar a vaccina). Emfim, senhores tendeiros, merceeiros,
commercieiros, taberneiros, leiteiros, aougueiros, peixeiros e mais
vares da magna caterva dos envenenadores publicos (excepes honradas 
parte, se ainda as ha), em chegando esse tempo, que os vossos abusos
attrahem fatalmente, levar-vos-ho todos os diabos e s vossas
caranguejolas de chimica assassina, o que ser de grande allivio para o
resto da humanidade e de jubilo para este que vos admira como fluidos, e
vos detesta como patifes, se acaso o sois, o que no  licito duvidar.
Para esse tempo espero em Deus que a vossa raiva impotente vos faa
rebentar como morteiros em arraial saloio. Amen.

*ALLOPATHIA*--Antiga companhia de pompas funebres, furiosa por lhe
terem creado concorrentes ao seu monopolio.

*ALMANACH*--Pasteleiro sem mlho.

*ALVEITAR*--Pobres bestas! No poderem, ao menos como ns, dizer onde
lhes doe, para que as matem em regra!...

*ALVEITARIA*--Arte de estoirar brutos.

*ALVIELLA* (RIO QUE HA DE TRAZER AGUA A LISBOA)--Um mytho.

*AMA*--Caricatura da maternidade.

*AMABILIDADE*--Virtude dos ministros que promettem sem teno de cumprir.

--Chave de abrir coraes.

*AMADORES* (DE TOURADAS)--Membros das sociedades protectoras dos
animaes.

--(DE BELLAS ARTES) Entes inoffensivos, que os artistas fingem tomar a
serio para que lhes comprem as obras.

--(DE ANTIGUIDADES) Victimas felizes da industria moderna.

--(DA BELLEZA FEMININA) Idealistas.

--(DE THEATRO) Estomagos de bronze, que digerem desde a lama do lupanar e
o opio at o chavelho e o ferro velho.

--(DE BOA MESA) So as pessoas mais rasoaveis, e assim mesmo se lhes
impinge a miude gato por lebre.

*AMAR*--Soffrer, desde a dor de cotovello at  colica do medo.

--Preludio de bebedeira.

*AMARGURA*--Rua que vae da cadeia ao tribunal.

*AMBIO*--A nossa,  sempre nobre. A dos outros, baixa e vil.

*AMIGO*--Inimigo domesticado.

*AMIGOS*--Sujeitos de que  bom desconfiar para se no ser logrado.

*AMISADE*--Pedra philosophal do janota.

--Chapu de chuva que se volta do avesso logo que ha mau tempo.

*AMOLAR*--Passar a lingua sobre as manchas da reputao alheia, para as
lavar,  maneira do gato.

*AMOR*--Pedra preciosa, que se dava de graa, e por isso desappareceu ha
muito tempo.

--Jovens incautas, desconfiae das paixes a vintem a linha nos annuncios
dos jornaes. Se os pretendentes serios falham tantas vezes, que esperaes
dos que se vos apresentam a declamar prosa pifia e sem grammatica,
entre o bacalhau frescal dos srs. Martins, e os chapus da sr. D. Cecilia?

*ANALPHABETO*--O mais feliz dos entes. Perdem os partidistas da
instruco a todo o transe. Antes de se pensar na escola seria util dar
po aos que se pretendem obrigar a frequental-a. Crear-lhes, em vez
disso, necessidades que traz a educao, sem lhes proporcionar os meios
de as satisfazer, no  beneficial-os,  pervertel-os. Desculpem ss.
exas. a este pobre diabo, que apalpa com frequencia o positivismo da
vida por falta de tempo e de pachorra para subir aos mundos ideaes.
Peo-lhes, porm, que, antes de legislar, estudem um pouco o homem. As
suas illustres pessoas so as que lhes ficam mais  mo. Consultem-se a
si proprios, e digam se, conscios como devem ser dos seus merecimentos,
os julgam convenientemente reconhecidos e remunerados pela sociedade. No
caso de se acharem bem retribuidos, plenamente satisfeitos com a sua
sorte, e convencidos de que no teem direito para aspirar a melhor
estado, decretem a instruco obrigatoria; e no s a primaria e
secundaria, seno tambem a superior. Se, porm, julgam que a sua
intelligencia, os seus talentos e estudos merecem mais alta
considerao, os que pretendem educar viro tambem dentro em pouco a ter
de si proprios igual opinio. E no tendo ss. exas. meio de se
melhorarem a si, como podero satisfazer as necessidades que tero
creado aos povos, a uma nao inteira? No citem a Allemanha a proposito
de tudo, porque j parece desproposito. A Allemanha, sobretudo a
Prussia, onde todos sabem ler, no tem talvez um unico habitante
contente com a sua sorte. Despeja-os aos milhares nos Estados Unidos, e
como este paiz j rejeita emigrantes, procura no Brazil um ponto, onde
caibam 500:000 de uma assentada!

Este magno assumpto no  para aqui. Mas, repito, que ser bom dar
primeiro o po aos que o no teem, e depois muito embora lhes dem o
ensino. Meus senhores, muito boa noite. Estou a car com somno, e fao a
vv. exas. a justia de acreditar que no tero menos do que eu, depois
de lerem este artigo.

*ANARCHIA*--Isso  com os sabios modernos.

*ANATOMIA*--Arte de aprender a trinchar sem garfo.

*ANTECAMARA*--Logar onde os que so mais lacaios no usam libr.

*ANTHROPOPHAGO*--Agiota que faz muito negocio.

*ANZOL*--Rapariga bonita.

--Velha endinheirada.

*APAGADOR* (PARLAMENTAR)--Coveiro da eloquencia.

*APITO*--Grillo, que em vez de estar engaiolado, na maioria dos casos,
leva outros para a gaiola.

*APOIO*--Perguntem aos pobres ministros quanto lhes custa o de certas
firmas...

--Muletas de oiro.

*APOLLO*--Improvisador do fado.

*APOLOGO*--O alfaiate da verdade.

*APOPLEXIA* (FULMINANTE)--Premio grande na loteria dos infelizes.

--(PARCIAL) Primeiro aviso para o pagamento da contribuio...  morte.

--Mandado de despejo sem aviso previo.

*APOSTASIA*--Jogo da cabra cega.

*APPARENCIAS*--O pudor da sociedade.

--A primeira cousa que se deve salvar em todos os naufragios.

*APPETITE*--Socio gerente do estomago.

*APPROVAR*--Servio das maiorias parlamentares.

*ARCO*--Dizendo as auctoridades que  monumental, preparem-se para ver
uma cousa feia, pesada, que esmaga a vista, o espirito e o gosto,
mistiforio de todos os estylos, sem ter nenhum, amontoamento de
pedregulhos enormes, um aleijo, emfim, que custa centos de contos de
ris e entretem, durante longos annos, os ocios dos basbaques e os dos
comedores.

--Sendo arco simples, procurem nas pipas.

*ARGUMENTO*--Metralhadoras em exercicio.

*ARMA*--Muleta do absurdo.

*ARQUEADO*--Sevandija.

*ARQUEAMENTO*--Estylo das pessoas que teem a espinha dorsal muito
elastica e a cabea com pendor para o lado... da sabujice.

*ARREATA*--Um artigo de f absolutista; mais necessario a certos homens
do que a certas bestas.

*ARREPENDIMENTO*--Caldo requentado.

*ARSENICO*--O vinho que se vende nas tabernas de Lisboa. O povo
chama-lhe judiciosamente _mata-ratos_.

*ARTISTA*--Pessoa engenhosa, que agenceia a vida nas algibeiras alheias.

--Malandrino, desde que a qualificao se passou das bellas para as
malas-artes.

*ARVORE*-- n'ella que o homem corrige Deus e a natureza, affeioando-a
de modo que, segundo a sua opinio, fica mais graciosa do que a fizera o
Creador.

*ASNEIRA*--Uns por no ver, outros sem saber e muitos sem querer: todos
a fazem viver.

--Cala-te e pra! O que ias dizer,  uma; o que tentas fazer,  outra.

--Sentinella, brada s armas, que s. ex. vae passar.

--Quem poder gabar-se de no lhe render preito?!

--Divindade que est em toda a parte.

*ASNO*--Parece que foi aos de dois ps que Deus disse: Crescei e
multiplicae-vos. O seu numero tem encarecido tanto a palha, que j se
d po a muitos.

--To feliz, que at suppe que o no conhecem!

*ASQUEROSO*--Escriptor sem vergonha.  o piolho da litteratura.

*ASSASSINO*--Sujeito que arranja meio de viajar de graa... para a Africa.

*ATHEU*--Innovador da peior especie. Cr que as machinas precisam de que
alguem lhes d impulso para poderem andar, e duvida de que o universo
tenha um regulador supremo! Senhor, Senhor! Para quem creaste a palha?!...

*ATTESTADO*--Chave falsa, que se d ao creado despedido para elle se
introduzir na casa alheia.

*ATRAZADO*--Relogio do progresso portuguez. Quanto mais lhe mexem, peior
fica e mais vezes pra.

*AUCTOR*--Ente paradoxal. Acredita no seu talento.

--Parodia de Deus.

*AUCTORISAO* (DOS PARLAMENTOS AOS GOVERNOS)--Viagem por mar desconhecido.

*AUDACIA*--_Audaces fortuna juvat._ Traduzido em vulgar, quer dizer:
Quem for tolo, pea a Deus que o mate e ao diabo que o carregue.

--Talento dos insignificantes.

*AVARENTO*--Homem que aferrolha no limbo da arca as almas das algibeiras.

*AVENTUROSO*--Espirito de gato.

*AZEDO*--Chefe de repartio que tem a consciencia de valer menos que os
seus subalternos.

*AZORRAGUE*--Instrumento muito eloquente, quando o tocam com alma.

*AZUL*--A cr do cu, a do mar e a do ministro derrotado pelas crtes.




*****
  B
*****


B

*BABA*--Humor que deposita o caracol litterario nas folhas que roe.

*BAILARINAS*--Illuses pintadas.

*BAIXEZA*--Meio de elevao.

*BALA*--Objeco penetrante.

*BALANA*--Salvo-conducto de varios ladres.

*BALO*--Imitao de certos potentados.  grande, co, e no sabe
dirigir-se.

--Mineiro do infinito.

*BALOFO*--Homem sem miolo, ou cheio de palha.

*BANANA*--Entre os homens, caracol sem casca.

*BANCA-ROTA*--Phenomeno physico produzido por uma priso de ventre. Os
intestinos no restituem os laxantes, e causam o volvo.

*BANCO*--O dos rus attrahe as pessoas habeis, que mandam gente para o
do hospital, ou que fazem concorrencia ao que emitte dinheiro.

*BANDALHO*--Bacalhau fresco[1] e homem podre.

*BANQUEIRO*--Artista que faz bancos. Cuidado, no ciam!

*BARALHO*--Oramento do estado.

*BARBARO*--Indigena, que no  applaudido pela sociedade protectora dos
animaes, nem sequer por estes.

*BARQUEIRO*--Caronte peiorado.

*BARRIGA*--Demonio familiar, que desculpa e justifica tudo.

*BASTARDIA*--Uma vangloria, quando instituida pelos reis; uma
vergonha, quando creada pelo povo.

*BASTARDO*--Uma letra e uma uva. A affinidade provm de que o sumo da
uva se engarrafa, e a letra  garrafal.

--Linhagem com que se embrulham muitas familias nobres.

*BATALHA*--Maneira de ter raso,  moda dos brutos.

*BATATAS*--Genero decadente, desde que os illegiveis as empurram aos
eleitores.

*BATERIA*--As de cozinha so muito mais uteis  humanidade do que as de
artilheria. Comtudo  por estas que as naes fazem sacrificios! Este
facto, por si s, basta para fazer o elogio da nossa especie!

*BATOTEIRA*--Viuva de dois ou tres maridos.

*BEATA*--Emolumento ecclesiastico.

*BEIJO*--Uma recordao de Judas.

*BELISCO*--A satyra das unhas.

*BELLEZA*--Flor de um dia, que, apesar da sua pouca durao, explica
muitos segredos.

*BEMAVENTURADO*--O que sente pela primeira vez atrs da sege que o leva
o choito cavallar do correio ministerial.

*BEMDIZENTE*--Genero que se acabou ha muito, e no se manda vir mais.
Era da Parvalheira.

*BEMFAZEJO*--Sabe-se que ainda ha alguns pelo muito que elles se
apregoam a si proprios, como  de justia. Do contrario,
acreditariamos que tinham acabado inteiramente.

*BEMFEITOR*--Pessoa que d conselhos a quem lhe pede esmolas, em vez de
dar bengaladas.

*BENEFICENCIA*--Uma boa cousa que a vaidade estraga.

*BENEFICIO* (PRESTADO)--Coices a haver.

--(RECEBIDO) Servio de que nos esquecemos para no humilhar quem nol-o
fez. Oh! humanidade... Quem no te conhecer que te compre, e ver a
prenda que leva!

*BENEMERITO*--Sujeito que no rouba quanto pde.

*BENGALA*--Tira teimas; pouco usado.

*BERNARDA*--Rede de pescar empregos e postos.

*BERNARDICE*--Conceito virado do avsso.

*BESTA*--Bicho de varias especies. O que no come palha  dos peiores.

*BEXIGA*--A deusa da actualidade.

--Discurso laudatorio.

*BIBLIOTHECARIO*--Um collega da traa.

*BICHAS*--Prefiram as de rabiar.

*BOFETADA*--Concluso, que em alguns casos se torna principio.

--Troco dado sem ser pedido.

--Visita mal recebida.

--Resposta em vulto.

--Eloquencia da mo direita.

--Argumento solido.

*BOI*--Animal que muda o sexo depois de morto.

*BOMBA*--Noticia inesperada.

*BOMBEIRO*--Inimigo de innovaes.

*BONDADE*--Qualidade que attrahe o abuso.

*BORBORYGMOS*--O gargantear das tripas.

*BOTAS*--Terror dos selvagens. Umas botas apertadas, umas calas com
suspensorios e prezilhas, e um collarinho bem teso--eis os beneficios
que a civilisao offerece, de envolta com os seus vicios, ao homem
primitivo! Entalado, esticado e gemendo dentro d'essas prises, o
pobre diabo, costumado a ter como a sua melhor riqueza a liberdade de
movimentos, atira com tudo isso para longe de si, no primeiro ensejo, e
foge para os seus bosques, arma o arco e espreita por entre as arvores
os inquisidores que o atormentaram para lhes agradecer a judiaria com
frechadas. Se estes, porm, o avistam primeiro, e lhe mostram de longe
uma bota e um par de calas, o desgraado larga as armas, e precipita-se
no rio, preferindo ser comido pelos jacars, ou morrer afogado, a dar-se
em holocausto quellas machinas de tratos.

*BOTEQUIM*--Escola de bellas-letras e de bons costumes.

*BOTICARIO*--Agente do coveiro.

*BRAZO*--Estudo dos fosseis.

*BRUTO*--Animal commum: morde e d coice.

*BUGIO*--Parodia humana.

*BURLESCO*--Annuncio em que se promettem enterros pobres fingindo de
ricos.  de tentar os defuntos mais exigentes?

*BURRA*--A personificao do amor moderno. Se Balaam c voltasse, veria
o que  eloquencia! As burras de hoje teem todas o diabo no corpo, um
diabo amarello e luzente, que faz dar urros a quem o quer apanhar!

*BURRO*--Irracional a quem muita gente faz concorrencia.

    [1] Em algumas partes de Portugal chama-se bandalho ao badejo.




*****
  C
*****


C

*CABEADA*--Mais vale sentil-a sem a trazer do que trazel-a sem a sentir.

*CABELLEIRA*--Illuso.... para quem a traz.

*CABELLO*--Uma cano saudosa, cantada em cro por todos os calvos.

*CABRESTO*--Leme que governa  pra. Nem sempre se pe a quem mais
precisa d'elle.

*CAA*--A mais procurada  a dos grandes empregos; sobretudo da especie
sinecura.

*CACETADA*--Um dos modos de exprimir o pensamento.

*CACETE*--Uma ida... politica.

*CACHORRO*--Expresso affectuosa, no nosso tempo.

*CADUCIDADE*--Infancia sem me nem mama.

*CAHOS*--Olhae  roda de vs.

*CAM*--Primeiro exemplo de fraternidade, e segunda victoria do mal
contra o bem. Desde ento teem sido tantos os casos, que j se perdeu a
conta d'elles.

*CAR*--Emprestar a caloteiros.

*CALADO*--Flagello que se impe aos selvagens, a pretexto de os civilisar.

*CALLO*--Perdo, minhas senhoras!  com o mais profundo respeito, e por
interesse vosso, que vos aconselho a no coxear. No ha paixo que lhe
resista. Um p pequeno  bello. No deixeis suspeitar que elle se parece
com um banco de ostras. Cautela com a baixa-mar! No consintaes sequer
que o vosso King Charles vos veja tirar as meias. O diabo s vezes arma-as!

*CALOTE*--Ferida ruim.

*CALOTEIRO*--Ente feliz, que achou quem lhe fiasse.

*CALUMNIA*--Nodoa, que se chega  pelle nunca mais se tira.

*CALUMNIADOR*--Sujeito que atira pedras a uma sombra, e consegue por
vezes acertar-lhe.

*CALVA*--Solido melancolica.

--Terreno esterilisado pelos annos.

--Arvore, d'onde cairam as ultimas folhas.

--Pedra tumular, em cuja superficie pallida e lustrosa se reflecte a
morte... dos cabellos.

*CALVO*--Audacioso, que ainda falla verdade... com a cabea.

*CAMELLO*--O mais injuriado dos animaes. At confundem certos homens com
elle!

*CAMISA*--Uma conveno social.

*CAMISEIRO*--Aio da pudicicia.

*CANADA*--Uma das nossas glorias passadas, que o litro assassinou.

*CANALHA*--Tomado  franceza,  gallicismo; porm a abundancia de genero
nacionalisou-o.

*CANO*--O chiar lyrico da frigideira, onde bailam as pescadinhas de
rabo na bca.

*CANDIDATO* (A DEPUTADO)--Projecto de caustico no paiz.

*CANEIRO*--O cocyto de Alcantara. Desemboca no Phlegetonte, vulgo Tejo,
que  outro lameiro pestilento, nas praias de Lisboa.

*CANGA*--Beno matrimonial.

*CANNA* (DA INDIA)--Materia prima das azas de pau.

*CANNIBAL*--Grande mamador da teta do oramento.

*CANO* (DE DESPEJO)--Fornecedor dos cemiterios de Lisboa.

--Um socio da medicina.

*CANONISAR*--Fingir que se abre aos outros uma porta de que no se tem a
chave.

*CANTO*--A alma buscando outra patria.

*CANTORA* (CELEBRE)--Prodigio de aluguel.

--Escandalo ambulante,  moda Patti.

*CAPACHO*--Limpa-botas, que ss. exas.  elevam s vezes at  altura
de poder limpar tambem as algibeiras  me patria.

*CAPADO*--Mortal do genero neutro.

*CARA*--Desconfiae das taboletas.

*CARACOL*--Corao de mulher leviana. Por mais que se lhe corte a
cabea, revive sempre, e apega-se a todas as plantas.

*CARACTER*--Torneira que s quando serve se v se est rota.

*CARANGUEJO*--Exemplificao dos nossos systemas de viao accelerada.
Isto : _progresso do retrocesso_, segundo a feliz expresso de um sabio
frade bernardo.

*CARAPUA*--Barrete que se pe dando urros intimos.

*CARESTIA*--Synonymo de subsistncia, em Lisboa.

--Doena que no convem curar para no offender Nosso Senhor Monopolio.

*CARICATURA*--O retrato dos nossos amigos.

*CARIDADE*--Virtude, que deixa de o ser quando se mostra.

--Flor do cu, desabrochando no corao humano.

*CARNAVAL*--Tempo em que toda a gente finge doudejar, para fazer suppor
que  sria no resto do anno.

--Sujidade que se cobre com cinza.

*CARRUAGEM*--Desespero dos que andam a p, e que se no lembram que as
suas pernas no correm risco de tomar o freio nos dentes, como as
parelhas dos trens.

*CARTA* (AMOROSA)--Folha da arvore do amor. Amarellece com o casamento.

*CARTAZ*--Programma de governo. Diz sempre a mesma cousa, e nem sequer
os que o fazem acreditam n'elle.

*CASADO*--Boi de canga.

*CASADOS*--A ostra e a perola.

*CASAMENTO*--Priso cellular perpetua.

*CASAR*--Bolo de amor, que todos querem comer, salvo os que teem medo de
indigestes.

*CASPA*--A fina flor mais palpitante[2] da actualidade, que orna as
cabeas modernas. Substitue quasi as idas e os cabellos.

*CATAVENTO*--Pra-raios politico.

--Um gastronomo philosopho. Acha todas as comidas boas, e s exige que
outros as paguem por elle.

*CAVALLEIRO* (FIDALGO)--Pessoa que, em geral, no usa cavallo.

*CELEBRIDADES*--Pessoas a quem a fama pe chocalhos, s vezes muito bem
merecidos, mas muito mal postos.

*CENSURA*--Unico prazer dos deuses... invejosos.

*CEPA*--Tronco genealogico do fidalgo que mais alegra a gente.

*CHAPU* (DE CHUVA)--Symbolo da amisade. Falha-vos sempre em occasies
de tormenta.

*CHARUTO*--Uma ladroeira e um envenenamento.

--Arte de aniquilar mais depressa a especie humana.

--A mais estupida de todas as distraces.

--Prova mais generalisada da tolice humana.

*CHEFE*--Ha muitos, de familia, que antes quereriam ser chefes de ladres.

*CHEIRO*--Guai de quem aspira o de Lisboa!

*CHICANA*--Papel de apanhar moscas, j muito servido.

*CHICOTE*--A unanimidade de opinies vae tornando o seu uso inutil. Cada
vez ha mais quem precise e menos quem d. Pois  pena!

*CHIMPANZ*--Animal que pde intentar ao homem processo de contrafeio.

*CHISPE*--Uma inveno dos grellos de nabo, para se tornarem mais amados
e mais caros.

*CHORO*--Carimbo que a dor nos pe amiudadas vezes, para que no
passemos por falsos infelizes.

--Carantonha da alma.

--Armadilha de apanhar mama.

*CHUMAO*--Segredo que convem no devassar, sob pena de tristes
desapontamentos.

*CINTRA*--A mais m lingua que eu tenho conhecido, dizia, com asss de
indelicadeza, fallando da gente e da terra:-- uma cabea formosissima,
coberta de piolhos!

*CITAO* (HISTRICA)--Bordo de cego.

--(JUDICIAL) Cabresto posto ao homem para o levar onde elle no quer ir.

--(LATINA) Condecorao do espirito.

*CIVILIDADE*--Archaismo.

*CIVILISAO*--Luz que quanto mais intensa mais vicia e devora os
pulmes das cidades.

--Graxa de lustro dada nos povos. Quanto maior e mais repetida for a
dse, mais depressa se estraga o cabedal.

*CIVILISADO*--Traste polido de que convem desconfiar. O polimento
encobre muitas mazellas, e at, s vezes, madeira podre.

*CHLOROPHORMIO*--Amigo que mata.

*COELHO*--Ingenuo dos matos.

*COICE*--A ida em aco.

*COLERA*--Nuvens agglomeradas, que podem produzir chuva de sangue.

*COLICA*--Cousa que d na gente em dia de letra vencida, no havendo
dinheiro em caixa.

*COLLEGA*--Amigo de Peniche. Por causa d'elle, convem jantar na gaveta.

*COLLEGIO*--Machina de estragar creanas.

*COMMERCIO*--Compra e venda, em que raro no  lograda uma das partes.

*COMPANHIA*--Especie de jacar voracissimo; s vezes devora os proprios
filhos.

--D'antes dizia-se francamente quadrilha. Hoje, pelas naturaes
evolues da lingua, e pela suavidade dos costumes, chama-se-lhe
cortezmente seguro de vidas,  maneira de certo paiz que nos ama.

*COMPRAR*--Verbo activo em tempo de eleies.

*CONCUSSO*--Emolumento de certos magistrados.

*CONDECORAO*--Penduricalho que os homens pem ao peito, para que os
tomem a serio.

*CONFEITEIRO*--Perverso, que expe bonitas goloseimas  nossa vista, e
pede dinheiro por ellas.

--O unico productor que no tem direito de se azedar, se quizer vender
doce.

*CONFESSOR*--Vasculho de varrer consciencias.

--Saca-rolhas celeste.

*CONFISSO*--Lavatorio das almas.

--Contrato em que uma das partes despeja sobre a outra as sujidades
intimas, e lhe compra a bemaventurana por meio tosto.

*CONSCIENCIA*--Importuna, a quem muitos voltam as costas.

*CONSIDERAO*--Singular cousa! No se d seno a quem a tem!

*CONSOLAO*--Cataplasma que se pe na dor alheia. Ha muito quem se
engane com as farinhas, e applique a de mostarda em logar da de linhaa.

*CONSULTA* (MEDICA)--Tres contra um!  impossivel escapar.

*CONSUMIDOR*--Ovelha infeliz, a quem todos cardam, at quando ella no
tem l!

*CONTINUO*--Y de secretaria.

*CONVALESCENA*--Lua de mel da saude.

*COPISTA*--Espelho que felizmente no reflecte.

*COPO*--Perdio de muita gente boa.

*CORAO*--Cavallo que quando nos leva por bom caminho nos faz apanhar
coices dos outros.

--Cabide de pendurar affectos.

*CORAL*--Planta que, depois de colhida, se rega com oiro.

*CORRUPTO*--Homem que se pe a par do goraz condemnado na Ribeira Nova,
mas que no tem o mesmo destino, infelizmente!

*CORTADOR*--Membro da sociedade de liquidao social, quando tira
modestamente cem grammas em cada peso.

*CRTES*--Inferno dos ministros, que so ali atormentados pelos que
pretendem ser grandes diabos como elles.

*COSTELLA*--Me do genero humano. Eu amo as de vitella, assadas na
grelha; mas no me opponho a que o leitor ou a leitora prefira as de
carneiro.

*COSTUMES*--Faam ida! As elegantes que no ultimo outomno se refrescavam
nas praias de Mattosinhos, estabeleceram um premio _para o tiro aos
pombos_! Era uma medalha: de oiro, tendo de um lado uma cora de louro (!)
e a seguinte inscripo:--_Premio das Senhoras._--No reverso dizia:--_Tiro
aos pombos no hippodromo de Mattosinhos, outubro de 1877_[3].--No se dizia
se tambem ellas atiravam, mas facilmente se calcula o que a sociedade tem a
esperar d'essas passadas, presentes ou futuras mes de familia. Quando as
pombas se fazem milhafres  porque j no podem ser nada melhor. Ai de vs,
gavies de frak e chapu alto da sociedade protectora dos animaes! D'esta
vez podeis gritar: Aqui d'el-rei!--As matronas do hippodromo so capazes
de vos trucidar, e a ns todos tambem.

*COVARDIA*--N'outro tempo davam-se dois pontaps em quem a tinha;
hoje, todos os covardes so valentes... comedores.

*COVEIRO*--O mais lugubre dos semeadores. Nunca germina a semente que
elle deita  terra.

--Encarregado de esconder os segredos do boticario e as asneiras do medico.

*CRANEO*--Gaveta das idas.

*CREAO*--Gallinhas... e tudo mais, incluindo as grandes obras dos
genios demolidores.

*CREADO*--Pessoa a quem pagmos para que diga mal de ns.

--O mais proximo dos nossos inimigos.

--Doena interna.

*CREANA*--Flor da humanidade.  livrar que n'ella pouse insecto
venenoso, porque lhe converter o bom e franco riso da innocencia em
tregeitos ferozes de maldade e de hypocrisia.

--Phosphoro que ha de produzir incendios.

*CREANCICE*--Ensaio para a maroteira.

*CRENAS*--Ferros velhos, comidos da ferrugem e do tempo.

Eu vos sado, oh jovens demolidores! E advirto-vos, em nome do senso
commum, que os povos no se levam seno pelas crenas ou pela fora. Vs
apeastes Deus; os descrentes tornar-se-ho communistas ferozes, e sereis
obrigados a recorrer ao despotismo para os domar, no dia da liquidao
social, que to sem tino preparaes. Dizeis-vos homens livres, e os
vossos esforos levam infallivelmente  escravido e  tyrannia! Que
conta dareis ao porvir da herana de vossos paes? A gerao a quem
succedeis, apesar dos seus grandes erros, e at dos seus crimes, tinha
convices profundas; plantou a liberdade na vossa terra, comprando com
o seu sangue os direitos que vs gosaes. Tambem ella foi revolucionaria
e demolidora; mas, ao passo que demolia, reedificava tres vezes mais.
Vs, pelo contrario, derrubaes tudo e no substituis cousa nenhuma. Se
escarneceis de Deus, em que podereis acreditar? Nos vossos livros, onde
mutuamente vos presenteaes com a immortalidade? Pobres loucos! Pensae um
pouco menos em vs e um pouco mais no futuro que apparelhaes para vossos
filhos. Sem religio no ha moral, e a vossa litteratura no produz uma
nem outra. Os que vos acreditarem e seguirem recairo fatalmente no
embrutecimento do materialismo e n'um captiveiro peior do que aquelle de
que nos livraram nossos paes. Debalde restabelecereis o Ente
Supremo, como fez a Frana de Robespierre. As crenas no se decretam. A
sociedade que as vossas obras educarem ser mil vezes mais podre do que
aquella que estaes alluindo; e o que o mundo tem a esperar d'ella para
os seus progressos so carneiros, bogalhos e estrume.

Eu vos sado, mancebos esperanosos!

*CRIMINOSO*--Membro de orchestra universal, que desafinou.

*CRITERIO*--Nome de um macaco do baro de Catanea, que morreu ha muitos
annos.

*CRUZ*--Instrumento onde antigamente se penduravam os ladres, e que
hoje se pendura ao peito d'elles, para variar.

*CUBIA*--Vento que anda no ar que respiramos.

*CUMPLICE*--Pessoa dedicada... ao crime.

*CURA* (DE ENFERMIDADE)--No accusem os medicos, que esto innocentes.
Foi sem elles quererem.

--(DE ALMAS) Pastor. Alguns no desgostam de comer a sua ovelha; outros
contentam-se em cardal-as.

--(DE ENFERMIDADES) Acaso ou providencia.

*CURANDEIRO*--Fadista da sciencia.

*CYNICO*--Homem-co. Ha grande abundancia no mercado, e tem pouca sada.

--Pau estragado pelo caruncho... da immoralidade.

--Creatura que apodreceu por dentro.

--Sujidade que nenhuma agua lava.

    [2] Deixem passar o gallicismo.

    [3] _Diario Illustrado_ de 17 de outubro do mesmo anno.




*****
  D
*****


D

*DAMA*--Mysterio, desde que se usa pintar o cabello.

*DANA*--Arte das pessoas de juizo se fingirem doudas.

--Po de l das jovens casadouras.

--Inveno para fazer dar urros aos maridos ciosos.

*DECADENCIA*--Entrada no beaterio. Oh! meu S. Luiz, rei de Frana,
compadecei-vos d'elles, com um bom milagre... passado!

*DECENCIA*--Uso de certos viajantes, que calam chinellos, nas
carruagens dos caminhos de ferro, depois de terem descalado as botas.

--No dormir de bca aberta... diante de gente.

*DECIMA*--Vesicatorio politico.

--A frma menos poetica, e mais detestada pelos contribuintes.

--Estrophe que arranha e franze as barrigas dos funccionarios publicos.

*DEFEITO*--Esconda os seus, leitora amavel e benevola. No sonhe aquella
pessoa que V. ex. lhe prefere o seu jornal de modas... e os ps de
porco. Depois de casada  outro cantar!

*DEGRAU*--O lombo popular.

*DEGREDO* (TERRA DE)--Tijela da casa, onde se despeja a lavadura dos
tribunaes.

*DELICADEZA*--Ha grande falta no mercado.

*DELICADO* (HOMEM)--Leo que esconde a garra.  preferivel ao que a
mostra, com tanto que nunca mude.

*DEMISSO* (PEDIDA)--Remendo deitado no manto da dignidade.

--(DADA SEM SE PEDIR) Buraco aberto na reputao.

*DENTADA*--Modo por que os ces imitam varios criticos.

*DENTE* (POSTIO)--Um intruso n'uma reunio de familia.

--(FURADO) Hospede importuno.

*DENTISTA*--Homem que repe o que tira.

*DEPUTADOS*--Deuses em perspectiva.

*DESAPPROVAR*--Officio das opposies.

*DESAVERGONHADO*--Papel mata-borro com muito uso.

*DESCARADO*--Fazenda a que o sol comeu a cr. Fica peior, tingindo-se...
com a hypocrisia.

*DESDEM*--Mascara que quasi sempre se v no rosto da inveja.

*DESEJAR*--Desejar o que pertence ao proximo  um mandamento da cartilha
de certa gente. E parece que o proximo fica s vezes muito
lisonjeado e agradecido, segundo a mesma lei novissima.

*DESGOSTO*--Parece incrivel como se supportam bem os que se causam aos
outros!

*DESGRAA*--Pesa-amisade.

--Espantalho de afugentar gente.

*DESHARMONIA*-- o estado actual dos espiritos, tanto na ordem moral e
religiosa, como na politica e na litteraria.

*DESINTERESSE*--Bonito bicho! D'onde veiu elle?...

*DESMAMAR*--Demittir de emprego rendoso.

*DESPOTISMO*--Freio na bca e espora na barriga. Ainda ha muitos
amadores. Que lhes preste!

*DESPREZO*--Legado que eu deixo aos meus inimigos.

*DESTREZA*--Meio de arranjar dinheiro... ou cadeia.

*DEVASSO*--Parafuso que estragou as roscas na porca da consciencia.

*DEVER*--No dizermos nunca tudo quanto pensmos. Quem mostra o corao,
mostra o lombo.

--No emprestarmos dinheiro aos amigos, para nos no arriscarmos a
perdel-o. Os amigos so raros; mas o dinheiro  mais raro ainda, e por
isso antes perder aquelles do que este.

*DEVOTA*--Vivandeira da milicia divina, que faz servio com os olhos
no cu, e com o corao na sacristia.

*DIABO*--Espantalho que j no afugenta passaros da figueira do peccado.

--Nome que se gasta como canella.

*DICCIONARIO* (DE JOO FERNANDES)--Raboleva nacional.

--(EM CINCO VOLUMES) Palheiro incommensuravel.

--(IDEM) Rebanho de sandices.

--(IDEM) Babel da lingua portugueza... e bunda.

--Besta de carga, sendo dos meus collegas.

--Fonte de sciencia, sendo feito por mim.

*DIGNIDADE*--... Conhecem? Coitadinha! Se sabem onde ella est,
calem-se, para no assanhar ninguem.

--Palavra em que o singular nem sempre se pe de accordo com o plural.

*DINHEIRO*--A prova mais evidente de que a unio faz a fora.

--Ar de podrido, que corrompe tudo.

--Rival da graa divina, da culpa original e at de Deus. Por causa
d'elle veem ao mundo os maiores bens e os maiores males; e sem esse
cachorro no ha milagres possiveis! Por isso j quasi ninguem hesita nos
meios de o adquirir. O povo diz que quem furta pouco  ladro, e que a
quem furta muito o fazem baro. L se avenham.

--Silencio, miseraveis! Sou eu que tenho a palavra.

*DIPLOMACIA*--Arte de dourar pilulas e de impingir gato por lebre.

*DIREITO*--Aquillo de que se faz torto... quando calha.

--Um revolver puxado a tempo.

*DIREITOS* (DE CONSUMO)--No toram tanto a escaravelha, olhem que
se quebra a corda!

*DISCIPULO* (DE ALGUEM CELEBRE)--Espelho que deforma a physionomia.

*DISCRETO*--Pessoa que se finge sabia. Outros lhe chamam urso de sala.

--Um defuncto.

*DISCURSO* (ACADEMICO)--Rio de flores... de papoula.

--(POLITICO) Musica de arraial.

*DITO* (SATYRICO)--Pincellada de mostarda.

--(GRACIOSO) Goloseima.

--(INSULSO) Phosphoro molhado.

*DIVIDA* (PUBLICA)--Dartro canceroso das naes. Come como todos os
diabos!

*DIVIDAS*--Doenas secretas.

*DIVIDENDO*--Accionista, lembra-te de que S. Thom queria ver para crer!

*DOENTE*--Se morre so os medicos que o matam; sarando,  Deus que o
cura. Pobres medicos! Felizes d'aquelles que... que escapam das ms
linguas... e das vossas mos.

*DONZELLA*--Ovo que se no pde chocalhar.

*DOR*--A palavra da enfermidade.

*DRAMA*--Dois gallos n'um poleiro.

*DRAMATURGO*--Domesticador de feras, que s vezes o devoram... com os
ps.

*DUELLO*--Raboleva dos tempos barbaros posto nos costumes modernos.

--Caso em que o insultado se rehabilita e se vinga... fazendo-se matar
por quem o insulta.

--Fara em dois actos.

--Ridiculo de que os homens serios no prescindem.

--A mais estupida expresso do amor proprio.

--Quando no degenera em tragedia, o que  raro, fara ridicula,
representada quasi sempre por actores de m morte, e, s vezes, de m vida.

*DUVIDA*--O mais horrivel dos parasitas do homem. Devora-lhe as crenas.




*****
  E
*****


E

*EBRIEDADE*--Nome fino da bebedeira.

*EA*--Corpo sem alma... e sem corpo.

*ECLECTICO*--Diz-se dos sabios, quando no teem opinio sua.

*ECONOMIA*--Oh! almas caridosas, lembrae-vos do desgraadinho que se
chama Portugal, e mandae-lh'a por esmola.

*EDITOR*--Quem quer que tu sejas, se l, onde se roubam impunemente as
obras dos auctores portuguezes, te luzir o olho por esta minha, manda-me
ao menos metade do que ganhares com ella. Se o no fizeres, tornarei o
teu nome to celebre, n'outra edio, que acabars por dar a tua
popularidade a seiscentos milhes de diabos que te levem para as
profundas. Amen.

*EDUCAO*--Parece impossivel como a maioria dos meninos se esquece
d'ella quando chega a converter-se em _homens grandes_!

*ELEIES*--Feira das consciencias.

*ELOGIO*--Alapo por onde quasi sempre cae o elogiado.

*EMBATUCADO*--Noticiarista invejoso, diante da obra que tem de
annunciar, se ella  boa.

*EMPENHO*--Escandalo que todos procuram mais ou menos.

*EMPLASTO*--Artigo novo em lei velha.

*EMPREGO* (RENDOSO)--Teta de vacca gorda.

--(PEQUENO) Rolhinha que se mette na bca das creanas para no berrarem
com fome.

*EMPRESTIMO* (GRATUITO)--Sedenho no cachao da burra.

--(ONEROSO) Estocada, que pde tornar-se mutua, pela insolvabilidade do
devedor.

--(COM GRANDE USURA) Caustico tratado por arrancamento da pelle.  mais
doloroso s vezes para o curador do que para o curado.

*EMULAO*--Irm gemea da inveja.

*ENCADERNAO*--Succede com as mulheres o mesmo que com os livros: s
vezes so as que menos valem que teem mais ricos vestidos.

*ENGRAIXADOR*--Pessoa que vae longe, quando se dedica s botas dos
poderosos.

*ENSABOADELLA*--Locuo sem propriedade. Usa-se indistinctamente para
significar que alguem foi aos queixos de outrem, que o zurziu material
ou moralmente.

*ENSINO*--A ordem volvida ao cahos. Meus meninos, admirae e respeitae o
vosso seculo, que para em tudo ser prodigioso at vos ensina o que
no sabe!

*ENTHUSIASMO*--Fogo de vistas. Perdeu-se o segredo de o fabricar.

*ENVENENADOR*--Vendedor de vinhos. Tendeiro e mercieiro so synonymos.

*ENVENENAMENTO*--Simplificao.

*EOLO*--Sujeito que toca folles.

*EPHEMERA*--A lembrana do favor ou beneficio recebido. Quando se no
apaga, acautelem-se com o beneficiado.

*EPIGRAMMA*--Torquezada.

*ERUDITO*--Ente que resuscita mortos.

*ESCADA*--Revoluo. Quando no faz subir ao poder, pde levar ao patibulo.

*ESCANDALO*--Ordem do dia.

*ESCOLA*--Introduco ao curso da tolice humana.

*ESCORIA*--Fructos podres da arvore social.

*ESCORPIO*--Velho libidinoso.

*ESCOVAR*--Bater _beefs_ no lombo humano, com uma vara de marmelleiro.

*ESCRIPTOR* (PUBLICO)--Senhor Deus, misericordia! Todos o querem ser,
excepto nas listas da contribuio industrial. Livrae-nos d'esta praga,
fazendo com que elles paguem mais e escrevam menos.

*ESCRIVO*--Fugi, rapazes! Se elle vos apanha, come-vos vivos, apesar
das vossas navalhas.

--(DE FAZENDA) Oh, senhor, olhe que eu sempre fui seu amigo! Deixe-me
passar pela malha por onde sempre se escapa certo Achilles, o qual ganha
s por si muito mais do que ns todos os que temos pago at agora,
incluindo os verdadeiros Achilles litterarios. Ou o inscreva a elle, ou
nos tire a todos ns do inferno da matriz, salvo seja tal logar!

*ESCRUPULO*--Excesso de bagagem, que se deita fra para chegar mais
depressa ao fim da viagem.

*ESMOLA*--Imposto sobre o corao.

*ESPANTALHO*--Velho menino.

*ESPECTRO*--Amnistiado com saudades do desterro.

*ESPELHO*--Denunciante que raros desprezam.

*ESPERANA*--Doudice dos poetas, e das pessoas que teem tios no Brazil.

--Flor do cu, que todos procuram inutilmente na terra.

*ESPIRITUALISTA*--Pessoa que prefere crer a ir verificar se a theoria 
verdadeira.

*ESPONJA*--Devoto do deus Baccho.

*ESQUECIMENTO*--Balda de poderosos, segundo affirmam os pequenos
despeitados.

--Desculpa dos que mettem na sua algibeira o relogio alheio.

*ESTADISTA*--Medico, que accumula tambem os officios de boticario e de
enfermeiro, e que no duvida dos seus remedios, nem mesmo quando v
morrer o doente.

*ESTERILIDADE*--Premio grande da loteria do matrimonio.

*ESTOMAGO*--Machina de fazer picardias, a si e aos outros.

*EUPHONIA*--Som que produzem em nossos ouvidos as palavras que nos louvam.

*EXPLICAES* (PARLAMENTARES)--Papas de linhaa.



*****
  F
*****


F

*FACA*--Unha dos assassinos.

--Picareta com que se abre o caminho da eternidade.

*FACADA*--Abertura do infinito.

*FACINORA*--Cantor que desafina.

*FADISTA*--Esfaqueador lyrico.

*FADO*--No digo que no, umas vezes por outras, e  porta fechada.
 nacional e  bonito. Mas no abusem, porque j se rosna muito.

*FALLADOR*--_Douche_ de palavras.

*FALSIFICAO*--Mal empregado! Um trabalho to perfeito, inutilisar-se
por causa das opinies de uns pifios, que no eram capazes de o fazer
melhor!

*FALSIFICADOR*--Artista incomprehendido pelos tribunaes.

*FAMA*--O chocalho dos immortaes.

*FANATICO*--Carneiro que marra.

*FANATISMO*--O pae da intolerancia.

*FANFARRO*--O mano patarata, que engole adversarios com pistolas e
tudo.

*FASTIO*--Repugnancia que teem os difamadores de engulir as injurias
vomitadas. Abre-se-lhes o appetite com uma canna da India.

*FATO*--Encadernao que vale s vezes mais do que o livro.

*FAVOR*--Roldana por onde se iam os amigos para a mesa do oramento.

--Sendo pequeno, cousa que no se agradece; grande, tolice que se amarga
cedo ou tarde.

*FEALDADE*--Urro das feies.

--Defeito que alegra a mulher quando o v nas suas amigas.

*FELICIDADE*-- no ter amigos que nos peam dinheiro, nem familia que
nos d exemplos de anthropophagia, comendo-nos vivos.

*FRIAS* (PARLAMENTARES)--Intervallo e sezo ministerial.

--(ESCOLARES) Sonho de estudante.

--(DE TRIBUNAES) Reforma de letra para os que esperam sentena contra.

*FIDUCIARIO* (CREDITO)--Saturno que muitas vezes devora os proprios filhos.

--Sol que quando faz eclypse total deixa muita gente a pedir chuva.

*FIGO* (PASSADO)--Corao que j no pde amar.

*FILHOS*--A lepra das familias. Anda que se cocem[4] no deixam de comer.

*FINANAS*--Gallicismo que atrapalha muito ministro.

*FITA*--Antigamente, enfeite de mulheres; agora  mais usada pelos homens.

*FLAGELLO*--Auctor que nos l as suas obras, antes de as imprimir.

*FLATO*--Segundo o _Diccionario de synonymos portuguezes_, de Jos da
Fonseca,  ventosidade.

*FLOR*--O balbuciar da planta.

*FLUCTUANTE* (DIVIDA)--_Philoxera vastatrix_ da nao portugueza.

*FOGO*--O cannibal das arvores.

*FOGUEIRA*--Resplendor da inquisio, onde deviam ser purificados todos
os que affimam que aquella senhora no foi to m como a pintam.

*FORCA*--Ultima palavra da sciencia do arroxo. Infelizmente, os que ella
ensinava no aprendiam nada.

*FORMOSURA*--Chave de muitos enigmas.

*FORTUNA*--Creatura sem corao, que s se d por capricho.

--Uma bebeda, que no faz seno asneiras.

*FRALDIQUEIRO*--Homem mulherengo.

*FRANCEZA* (LINGUA)--O portuguez de muitos litteratinhos nossos.

*FRANQUEZA*--Virtude dos anthropophagos.

*FRAUDE*--Brincadeira de mau gosto.

*FRUCTO*--Poema da arvore.

*FUMAR*--Minhas senhoras: No tempo em que estupidas modas, inventadas em
Frana por mulheres de m nota, no tinham estragado as cabeas a vv.
exas., era permittido aos poetas consagrarem versos e louvar a belleza
dos seus cabellos. Depois, as trouxas monstruosas, os _chignons_, as
_cuias_, os _crescentes_, e outros chumaos ridiculos, e absurdos
trouxeram-lhes a calvicia precoce. Hoje no se pde alludir aos
penteados sem que vv. exas. fiquem em duvida se se lhes dirige um
comprimento ou um epigramma. Restavam-lhes ainda, comtudo, os dentes
alvos e as bocas perfumadas para nos no afugentarem inteiramente.

A alimentao de generos falsificados e o mercurio da medicina,
trabalhavam, porm, incessantemente para lhes ennegrecer o marfim e
corromper o halito; mas a aco d'esses venenos era lenta... De repente,
vv. exas., que j se haviam apropriado do instrumento dos fadistas, a
guitarra, lanam-se tambem na atmosphera de tarimba do mau charuto e da
cigarrilha de papel! Isto : adoptam o vicio repugnante do tabaco,
impregnam os seus vestidos no cheiro nauseante d'essa droga venenosa, e
entregam ao fumo, para que lh'os ennegrea inteiramente, os restos dos
dentes que a carea e os preparados mercuriaes iam roendo de m vontade!
Isto  uma resoluo desastrosa, infelicissima, louca. Abstrahindo do
pessimo effeito que produz n'um publico que no foi educado no Brazil,
ou na Havana, o espectaculo da degradao de vv. exas., supplico-lhes
que considerem o caso simplesmente pelo lado artistico. A mulher era
ainda ha poucos annos o ideal do homem. Convinhamos todos em chamar-lhe
fada, nympha, anjo, etc., tanto em m prosa como em peior verso.
Imaginem, porm, se ha possibilidade de sustentar esse ideal,
vendo-o, e _sentindo-o_, com os dentes negros, os cabellos postios, e
rescendendo a cheiro de logares suspeitos! Alem d'isso, tangendo e
amando o fado como as infelizes que no teem mais consolaes, nem
dinheiro.

N'outro tempo, o homem que fumava no se atrevia a entrar nos aposentos
de uma senhora, sem ter esfregado os dentes e lavado o bigode com
essencias de cheiro delicado e imperceptivel; mudava cuidadosamente o
fato, para que o odor do tabaco o no denunciasse como pessoa de
instinctos e vicios grosseiros. Hoje, sero vv. exas. que necessitem de
tomar essas precaues, antes de apparecerem aos homens, para que estes
as no julguem amantes de fadistas! Convenho que esto no pleno direito
que lhes d uma sociedade apodrecida, que j no tem que perder; mas
pela minha parte, e at com risco de desagradar a vv. exas.,
declaro-lhes que prefiro a companhia de um cabo de esquadra bebado
 de uma mulher que fuma. Depois d'esta confisso ingenua, sei que vv.
exas. me no mostraro mais, atravs do sorriso amavel, as suas
perolas... pretas. Prefiro, comtudo, o odio de vv. exas.  torpeza de
lhes mentir, louvando-as por andarem de charuto na bca, em vez de
trazerem ao peito o filho que entregam  ama mercenaria. Quando uma
mulher troca o amor conjugal ou maternal por uma caixa de _habanos_, a
sociedade no tem a esperar d'ella seno cinza de mau tabaco.

 esse, effectivamente, o producto de que esto sendo construidos os
homens do futuro. Que lhes preste!

*FUNDOS* (PUBLICOS)--Uma bexiga que se pde romper e deixar-nos afogar,
se nos mettermos a nadar com ella muito ao largo, no mar da especulao.
(Desculpem o estylo pindarico.)

--(HESPANHOES) Ultima inveno dos salteadores civilisados.

--(TURCOS) Disciplinas com que se penitenceia Sua Santidade Pio IX ao
fazer votos pela victoria dos infieis, com o fim de salvar o dinheiro
que piedosamente empregou nos papeis d'elles.

*FUNEBRE*--Proposta de lei, impondo decima aos empregados.

*FURIOSO*--Escriptor apanhado em roubo litterario.

*FUSO*--Arte de derreter opinies politicas.

*FUTURO*--Synonymo de morte, por isso ninguem quer fixar n'elle o
pensamento.

    [4]  claro que o coar, aqui, significa sovar. Esta explicao
    serve s para os que precisam de leme  pra.




*****
  G
*****


G

*GALHOFA*--Dezeseis annos e dezeseis contos de renda.

*GALLEGO*--Segundo certos auctores, o gallego deve ser incluido na
classe dos animaes nocivos, e como tal pde ser destruido.  uma opinio
abominavel.

--Machina de fazer immundicie e brutalidade, segundo outros.

--Pseudonymo de bruto, acrescentam terceiros.

--Homem de ganhar. A peior especie no  a que importmos de Galliza,
nem a que faz fretes;  a que se aluga em quanto pobre e que d coices
depois de rica. Entre ns abunda esse producto das sociedades
corrompidas e mal educadas. Aos que nos veem de Hespanha caracterisa-os
o seguinte facto:

Indo uma vez o general Leone de Monso para o Porto, encontrou um
galleguito, de dez ou doze annos, que seguia a mesma direco. Tendo
saido dois dias antes de Tuy, o rapaz perdra-se no caminho, ia
estafado, com os ps feridos e chorando. Compadeceu-se d'elle o general,
e, depois de o interrogar e saber que vinha para o Porto ganhar a vida,
ordenou generosamente que o montassem n'uma das cavalgaduras que vinha
com as suas bagagens. O joven ganhador, a quem o pae dra,
provavelmente, como unica lio o conselho de no fazer nada sem que lhe
pagassem, poz a mo na anca do cavallo salvador, e, voltando-se
para o general, perguntou-lhe:

--_Canto me d boss?_

*GALLO*--Pimpo de feira.

*GARRAFA*--A mais sublime prova da transmigrao das almas: recebe
espiritos de todas as qualidades.

--Priso de muitas asneiras, quando est cheia d'aquelle precioso sumo
que alegra os tristes e d valor aos covardes.

*GATO*--Perguntem aos alfaiates se sabem o que .

--Facinora de jardins.

*GATO-PINGADO*--A parte burlesca do que ha de mais triste.

*GAZOMETRO*--Sujeito de apparencia sombria e triste, apesar de ter gaz.

--O tendeiro dos candieiros.

--O corao mais inflammavel que se conhece.

--Animal de sangue negro, que a luz irrita e faz estoirar de raiva.

*GENEALOGIA*--Arte de basofiar, invocando o apoio dos defunctos.

*GENERAL*--Summo sacerdote da morte.

*GENEROSIDADE*--Planta rara; cada vez escasseiam mais os terrenos em que
ella medra.

--Senhora desapparecida, lhe chamam outros. Os seus signaes esqueceram,
e por isso no se podem dar  policia para que a procure.

*GIRASOL*--Deputado de todos os governos quando lhe do luz que o aquea.

*GORDO*--Perigo para o magro que viajar com elle de carruagem, no caso
em que esta se volte.

*GORDURA*--Eloquencia do estomago, e sobretudo dos ossos.

*GRALHA*--Orador sem convices.

*GRAMMATICA*--Inutilidade que atrapalha e embaraa varios sabios de meia
tijela.

*GRAVATA*--Meio de afugentar selvagens.

*GRAVIDADE*--Velha que promove o riso dos que no a possuem.

*GREMIO*--Elemento de inimisades.

--(LITTERARIO) Escola de bilhar e de tiro.

*GRIPPE*--Lyrismo do nariz.

*GUARDA*--Mola de segurana, de que  util desconfiar sempre.

*GUERRA*--Arte de ter raso, matando, e de impedir os excessos de
populao que fariam encarecer as subsistencias.

--A unica rival seria da medicina.

*GUIA*--Cabresto util.

--Co de cego. Quem se fia n'elle, esquece-se de que foram outros que o
ensinaram.

*GUITARRA*--Chamariz de amor... e de facadas.

--Corda sensivel de muita gente boa.

-- a sardinha dos instrumentos musicos. No ha paladar aristocratico
que a desdenhe umas vezes por outras.




*****
  H
*****


H

*HARMONIA*--Qualidade rara nos poetas, nas orchestras, nos partidos
politicos e entre casados.

*HERANA*--Diz o proverbio, que antes deixar a maus do que pedir a bons.
Eu prefiro herdar de todos. Oh! tu, rico amavel, que me ests lendo,
reflecte que nada ha como fazer testamento a pessoas que nunca nos
desejaram a morte... E lembra-te de mim. Os teus herdeiros talvez te
contem os dias como quem os corta  tesoura, com febril
impaciencia. E logo que se apossarem do teu dinheiro nunca mais pensaro
em ti, seno para te accusarem de no lhes teres deixado bastante. Eu,
pelo contrario, acceitarei com reconhecimento os teus cincoenta, ou
mesmo cem contos, sem te maldizer se deixares mais a outros.

--Man do cu.

--Colher sem ter semeado.

--Unico fructo que se apanha sem crime na arvore alheia.

*HERDEIRA* (RICA)--Eu quero, tu queres, elle quer. Ns queremos, vs
quereis, elles querem, etc., at apanhar.

*HERDEIRO*--Apanhador de caa que outrem matou.

--Pessoa que precisa ter grande imperio sobre si, para no perguntar ao
testador se tenciona demorar-se muito.

*HISTORIA*--Manjadoura onde os escriptores parciaes pem alguns brutos a
comer gloria.

--O romance das naes.

*HOMEM*--Projecto de tigre.

*HOMEOPATHIA*--A imaginao applicada  sciencia... de beber agua aos
golinhos.

*HONRA*--Genero que se vende... mas j no ha quem compre.

*HONRAS* (CONSERVADAS AO MINISTRO DEMITTIDO)--Maneira de adoar a pilula.

*HUMANIDADE*--Velha pretenciosa que estuda sempre e nunca aprende.

*HUMILDADE*--O sacca-rolhas do orgulho.

*HUMILDE*--Tigre que se encolhe para armar o salto.

*HUMILIAO*--Esporada na alma.

*HYPOCRISIA*--Parodia da virtude; produz sempre mais effeito do que a
parodiada.

*HYPOCRITA*--Reptil venenoso.




*****
  I
*****


I

*IDADE*--Unico segredo que as mulheres sabem guardar, segundo asseveram
os maldizentes.

*IDA*--Fonte subterranea; quando rebenta vem quasi sempre turva.

*IDA-NOVA*--Demolir sem reedificar.

*IDEALISMO*--Religio dos que chegam com a cabea  lua.

*IDILLIO*--Tisana que produz dispepsias no gosto. Exemplo: os versos do
poeta V. que j no teem sabor possivel.

*IDIOTA*--Pessoa que tem boa f em politica.

*IDOLATRIA*--A religio das maiorias parlamentares, quando o idolo  de
ouro, como diz a opposio.

*IGNOMINIA*--Sujidade na alma.

*ILLUSO*--Vacca de muitas mil tetas, onde todos mamam sem dar por isso.

*ILLUSTRAO*--Verniz que por vezes estraga os trastes que o teem.

*IMAGINAO*--Uma bebeda que nos faz amargar quasi sempre o tempo que
empregmos a seguil-a.

*IMPORTUNO*--A carraa da humanidade.

--Sinapismo da paciencia.

*IMPOSTO*--Drastico violento.

*IMPOSTURA*--A taboleta da moda.

*IMPRUDENCIA*--Os tres ultimos copos ou decilitros. Se no fossem elles,
nunca se saberia se o senhor F.  dado a casos tristes.

*IMPUDENCIA*--Meio muito em voga, desde que se reconheceu a inutilidade
da vergonha.

*INCENDIO*--Um innovador atroz.

*INCONSTANCIA*--Borboleta do amor e da politica.

*INDEPENDENTES*--Vampiros da peior especie, quando sabem fingir bem que
no amam o sangue... de burra.

*INDIFFERENTISMO*--Caruncho que est comendo o tutano da dignidade
nacional dos portuguezes.

*INDIGESTO*--Barometro do estomago; ao inverso dos outros,  quando
este sobe que promette tempestade.

*INDIGNO*--Apanhador frequente do que devia dar-se aos dignos.

*INDIRECTO* (IMPOSTO)--Um calumniado. Vae direito s algibeiras dos
governos e chamam-lhe indirecto!

*INDULGENCIA*--Arte de fazer desculpar as proprias faltas.

*INDULGENCIAS*--Letras de cambio sacadas contra o cu. So de cobrana
duvidosa, por falta do acceito.

*INFALLIBILIDADE*--Qualidade que no impede de enganar os outros.

*INFANTICIDIO*--Coice de burra adormecida.

*INFERNO*--Visualidade em narrativa.

--A terra dos albuns, para quem for poeta.

*INFINITO*--O mais antigo dos logogriphos.

--Livro sem fim, onde o homem tresl.

*INGRATIDO*--Arte de saldar contas sem as pagar.

*INIMIGO*--Amigo assanhado.

*INNOCENCIA*--Avesinha que a malicia afugenta.

*INOFFENSIVO*--Abstracto; ou defuncto, antes de entrar em decomposio.

*INSCRIPO* (DE DIVIDA PUBLICA)--Diacho de palavra, que tem mais valor
escripta em papel do que em marmore ou bronze.

*INSIPIDO*--Folhetim do senhor V.

*INSOLENCIA*--Zurro humano.

*INSOLENTE*--Pessoa que pede murros.

*INTELLIGENCIA*--Luz que Deus accende quasi sempre no cerebro dos menos
felizes.

*INTIMO*--Cautela com elle! Sabe o nosso lado fraco, e os nossos segredos.

*INTRIGANTE*--Cozinheiro que salga e apimenta de mais os molhos.

*INTRUJO*--Palavra nova posta a uma qualidade velha.

--Explorador da tolice humana.

*INVEJA*--No bulam com a bicha, que morde e  venenosa.

--Ferrugem de certos trastes.

--Barata que roe uma sombra.

--Raiva dos infinitamente pequenos.

*INVEJOSO*--Figo passado da humanidade.

--Lombriga do talento.

*INVERNO*--Porta do sepulchro  vista.

*IODURETO* (DE POTASSIO)--Pagamento de letra vencida.

*IRA*--Me da apoplexia.

*IRONIA*--Confeito... de amendoa amarga.

--Fel da bexiga da inveja.

*ISCA*--Duzentos contos de dote. Eu dou cincoenta a quem me arranjar o
resto.




*****
  J
*****


J

*JANOTA*--Na opinio de um caricaturista celebre, quer dizer: pessoa sem
vintem... e sem exame de instruco primaria.

*JAULA*--Corpo humano, onde rugem encarceradas as feras intestinaes.

*JESUITAS*--Collegas de Judas, que tambem era da companhia de Jesus.

*JOGO*--Cano de despejo da raso e da fortuna.

--Pedra de toque da educao.

--Pedra atirada para o ar. Cuidado com as cabeas!

*JORNAL*--Cabide de pendurar opinies.

--(DE NOTICIAS) Feira da Ladra litteraria.

*JORNALISTA* (SERIO)--Missionario que prega no deserto.

--(VENAL) Ovelha ranhosa do rebanho.

--(LEVIANO) Semeador de immoralidades.

--(INCONSCIENTE) Um fossador.

--(APAIXONADO) Cego de entendimento.

--(ECLECTICO) Penelope de calas.

*JUDAS*--Official do teu officio; sobretudo se te dever favores.

*JUDEU*--Homem que no empresta dinheiro, e vendedor que no fia cognac.

                                             (Theoria dos _Marialvas_.)

*JUDICIOSO*--Ouo gritos na rua a pedir soccorro!  Possidonio vae
acudir.--Ests brincando?! Para me constipar ou ser esfaqueado por
engano... Conchega-me ahi a roupa s costas, e deixa-me dormir descansado.

*JUIZ*--_Abrenuntio!_ Caros pastores do Bairro Alto, que tocaes flauta
de ponta e mola, no confieis no seu ar benevolo. Aquelle sorriso quer
dizer que s. ex. hesita se dever mandar-vos para o inferno da
Penitenciaria, at que enlouqueaes, ou para o _ameno_ clima de
Moambique, onde dareis um estoiro com a carneirada. O unico meio de
evitar esses dois perigos,  abdicar a navalha, oh amigos de barrigas
alheias!

--Corvo que j no traz queijo no bico, desde que foi logrado pela raposa.

*JUIZO*--No se sabe o que seja.

*JUPITER*--Emprezario de theatro.

*JURAMENTO* (POLITICO)--Espantalho que se pe na figueira, para que os
passaros no vo aos figos.

*JURAR*--Modo de mentir com solemnidade.

*JURISTA*--Oh! leitor amigo, se tu o s, empresta-me cincoenta
inscripes, dadas, para eu o ser tambem.

*JUSTIA*--Um mytho para os pobres, segundo dizem as ms linguas; e modo
dos ricos fazerem do torto direito, como asseveram as mesmas. No
acreditem uns nem outros, porque em tudo se mente muito.

*JUSTIFICAR*--Que diabo entendero elles por justificao?! O meu
advogado, que sabe de mim muito mais do que eu, provou que sou
homem de bem, e mandam-me para a Costa d'Africa! Para a outra vez hei de
pedir que ninguem me justifique.

*JUVENTUDE*--Prisma de cres brilhantes.




*****
  K
*****


K

*KALEIDOSCOPO*--Instrumento, onde cada escola politica v as suas theorias.

*KALIUM* ou *POTASSIUM*--Bebe-o com salsa-parrilha, desgraado! Talvez
assim te doam menos os espinhos das rosas colhidas.

*KALMIA*--Arbusto, em cuja flor as abelhas colhem mel venenoso.  a
_Traviata_ das plantas. S as cabras e os veados a comem impunemente.

*KANTISMO*--Systema de philosophia de Kant, ou arte de mostrar aos
crentes um cabello de Nossa Senhora, to delgado, que nem mesmo quem o
mostra o viu nunca!

*KERATINA*--Materia prima do chavelho. Tambem os ha sem ella.

*KERMES*--Um filho do antimonio vermelho, que rebenta gente como a
polvora rebenta bombas de foguetes. Se lhe carrego a mo  para lhe
retribuir o que elle me tem feito.

*KEROSENE* ou *PETROLEO*--Genero que quanto mais abunda no mercado de
Lisboa, mais encarece.  senhor Governo; acuda aos monopolistas com mais
leis protectoras, e com mais commendas. V. ex. e elles... l se entendem.

*KILO* ou *KILOGRAMMA*--A nossa jurisprudencia sempre tem cousas! Ha
de a gente receber novecentas grammas de carne, quando paga um kilo, e
se chamar ladro ao aougueiro, vae o roubado para a cadeia e no o
roubador! No se pde chamar ladro a ninguem sem que os tribunaes
sentenceiem; mas pde-se ser roubado por todos, sem que ninguem se
importe! A lei protege unicamente os que roubam o povo!

 naes do mundo? Quem d uma medalha de honra a este paiz
originalissimo?! E se no ha medalhas, dem-lhe, ao menos, mais alguns
pontaps, alem dos que todos os dias leva. Mas, voltando ao kilo, convem
saber que o mais que elle d em Portugal, sobre tudo nos aougues, so
novecentas grammas, e j  bem bom.

*KISTO*--Membrana em frma de bexiga, contendo humores perniciosos, que
nasce nos costumes e tem o nome vulgar de alcouce.

*KLOPEMANIA*--Doena caracterisada por uma inclinao irresistvel para
o roubo.  endemica de certo paiz que ns sabemos. Deu-se-lhe o nome
grego para fingir que a cousa no  com _elles_.

*KNOUT*--Moda russa, que conviria introduzir nos nossos costumes, para
lhes dar cr local.

*KYRIE-ELEYSON*--Senhor, tende piedade de ns, que estamos sendo comidos
em vida pelos traficantes de generos alimenticios, e pela administrao
que os tolera e a policia que os protege!




*****
  L
*****


L

*LABO*--Doena que roe muitas excellencias.

*LABIA*--Sciencia de pescar incautos.

*LACAIO*--Imitador servil de certos amos.

*LACONISMO*--Um scco, em resposta a uma insolencia.

*LADRO*--Amador de curiosidades alheias.

--Artista modesto e discreto, que encobre as inclinaes.

--(EM PONTO GRANDE) Predestinado  considerao dos governos.

*LADRAR*--Dizer mal de alguem, por inveja. Zurrar  synonymo.

*LAGRIMAS*--Ultima raso da mulher.

--Secreo da glandula do olho, que muitas pessoas abrem, como torneira,
a proposito de tudo.

--Ha quem sque as da mulher com as da ostra.

*LANGUIDEZ*--Estado da bolsa do empregado publico passado o dia 15 de
cada mez.

*LARAPIO*--Homem que busca aventuras.

--Synonymo de cavalheiro... de industria.

*LAVAR-SE*--Ruim manha, na opinio de muita gente.

*LEILO*--Quem d mais pela minha belleza?!

    _(Uma mulher moa.)_

--Quem compra o meu voto?!

    _(Um eleitor.)_

--Quem quer a minha honra?!

    _(Um sujeito que deseja enriquecer depressa.)_

--Quem quer pretos, e brancos, e moeda falsa?!

    _(Aspirante a baro.)_

--Quem compra empregos e honras?!

    _(Pessoa influente.)_

--Quem quer enriquecer sem trabalhar?!

    _(Um cauteleiro.)_

--Quem quer moralidade, progresso e economias?!

    _(Aspirantes a ministros.)_

*Nota.*--O povo, no sabendo para que lado se ha de voltar, nem tendo
dinheiro para taes mercadorias, grita por sua vez:

--Quem quer o diabo que os leve a todos?!

E o leilo contina.

*LEITE*--Liquido suspeito, que se vende publicamente em Lisboa.

*LEITURA, DE PEA* (OUVIR)--Pesadello, depois de se ter ceiado carneiro
com batatas.

*LEMBRANA*--A mais duradoura  a que nos recorda as belliscaduras
feitas ao nosso amor proprio.

*LIBERALISMO*--O pesadello de Roma e dos que gostam do arroxo.

*LIBERDADE*--Um horror, segundo a opinio dos jornaes que mais usam e
abusam d'ella.

--Faculdade que cada um tem de fazer com que o mettam na cadeia.

*LIGA*--Junco de metaes, formando um todo impuro.

*LIMOEIRO* (CADEIA)--Arvore de m sombra. Os que a apanham so quasi
todos obrigados a mudar de ares, e raros se restabelecem.

*LIMPEZA*--Ha mais nas ruas do que nas mos.

*LINGUA*--A arma de maior alcance.

--Instrumento sem cordas, que muitas vezes faz encordoar.

--(CLASSICA)  a guizada.

--(CORRUPTA) Quando se chama de vacca, sendo de boi. Outros dizem ser
synonymo _idioma de vacca_.

*LINGUADO*--Discurso chato.

*LISBOA*--Vasto cemiterio de podrido e lentejoulas, como chamou ao
reinado de el-rei D. Manuel o senhor A. Herculano.

--Cousa immunda e pestifera.

--Tapem os narizes e fujam!

*LITTERATO* (DE BOTEQUIM)--Sujeito sem vintem, sem instruco e sem
officio.

*LIVRARIA*--Unico logar em que  permittido confundirem-se os mortos com
os vivos.

--Exercitos de mudos, que exprimem idas de todos os diabos.

--Instrumento, cujas cordas vibram no corao de todos os seculos.

--A Babel das idas.

--Gazometro do espirito.

*LIVRO*--Soporifero dos parvos.

*LOBISHOMEM*--Cantor que vae perdendo a voz.

*LOBO*--Parlapato imprudente, que imagina poder tratar com o homem de
mano a mano.

*LORPA*--Homem em projecto.

*LOTADOR* (DE VINHO)--Envenenador que faz concorrencia ao medico.

*LOUREIRO*--Emblema de gloria, com que se coroavam antigamente os
poetas. Hoje  emblema de escabeche.

*LUA*--Confidente discreta. Mas nem a ella digas que s pobre, se no
queres que at os ces te evitem, com medo de que tu os mordas a elles.

*LUGUBRE*--Homem que pede dinheiro emprestado.

--Oramento do estado.

*LUNATICO*--O que acredita nos outros e duvida de si.

*LUPANAR*--Casa onde os filhos familias recebem a ultima demo de moral.

*LUVA*--A mais alta expresso social. s vezes  mais limpa do que a mo
que a cala.

*LUXO*--Cancro da sociedade e da familia.

--Perdio de muitas mulheres.

--Sanguesuga de todos os maridos.

*LUZEIRO*--Qualquer jornal pifio, no conceito dos que o escrevem.

*LYCEU*--Accumulao de absurdos. Pobres rapazes! Por que insolitos
meios fazem de vs os homens do futuro! E queixam-se depois se algumas
vezes desatinaes nas academias e nos parlamentos!... Quando chegaes a
ser deputados, pares, ministros, sabios de qualquer tamanho,
lembraes-vos naturalmente do lyceu, onde a ignorancia e a maldade, o
pedantismo e a presumpo estupida vos atrophiaram a intelligencia e
perverteram o senso moral, e daes-lhe para baixo com as vossas reformas,
que os pem cada vez peior! Mancebos de hoje, tomae o conselho de um
amigo prudente, que ama do fundo d'alma a mocidade com todas as
suas loucuras e tolices: Quando chegardes um dia a fazer leis, no
copieis dos estrangeiros as reformas para a instruco de vossos filhos.
Deitae abaixo o lyceu, e restabelecei o antigo curso de humanidades, que
nos deu os grandes homens que sabiam bem das suas especialidades, em vez
dos que hoje fazemos, obrigando-os a aprender tudo para ficarem sem
saber nada.

Zacharias, toca o bumbo! As tiradas graves afugentam o publico. Deixa
brilhar os lyceus, e a rapaziada que os reforma.




*****
  M
*****


M

*M*--Para mim,  toda a occasio em que me pedem dinheiro.

*MACACO*--O nosso parente mais chegado. Copimol-o em tudo, excepto em
andarmos tambem com as mos no cho. Ser para lhe fazermos suppor que
no somos da sua especie? Por sua parte, anda elle muitas vezes s com
os ps, para nos mostrar que no lhe somos superiores, e que podia
imitar-nos, se quizesse, mas que  quadrumano por commodidade.
Seria de grande interesse para a sciencia nomear-se uma commisso
academico-politica, para dar parecer sobre se convir mais que ns
ponhamos as mos no cho, ou que os macacos levantem as suas.

*MACARRONEO*--Estylo de alguns contemporaneos celebres.

*MCULA*--Pingo de azeite no panno da reputao.

*MADRASTA*--Livro mal traduzido.

--Parodia da me.

*ME*--Fonte de agua pura, onde s vezes se criam sapos e sanguesugas.

--(QUE ENGEITA OS FILHOS) Pataco falso.

*MAIORIA*--Rebanho que, em lhe cheirando a defuncto, roe a corda do redil.

--Babylonia de crimes, segundo a minoria.

*MALANDRO*--Besta manhosa.

*MALCREADO*--Bruto que nunca aprendeu a ser homem.

*MALDADE*--Sciencia que mais se aprende, cursando a escola do mundo.

*MALDIZENTE*--O gracioso moderno.

--Cloaca mal fechada.

*MALEDICENCIA*--Prazer dos deuses em frias.

*MALFEITOR*--Comparsa incumbido de legalisar a existencia da policia.

*M-LINGUA*--Escova de arame, com que se alisa a pelle dos ausentes.

*MANCHA*--Verruga da probidade.

*MANDRIO*--Um larapio como qualquer outro.

*MANEQUIM*--Boneco politico. Serve para modelo de pintar situaes.

*MARCA* (DE FAZENDA)--Signal falso, na maioria dos casos.

*MAR*--Occasio que devemos aproveitar, arranjando os nossos negocios,
ou desarranjando... os dos outros.

*MARIOLA*--Homem carregado de cousas feias.

*MAROMBA*--Distinctivo das maiorias parlamentares, no dizer dos que
lhes so adversos.

*MASCARADO*--Bacalhau sem sal.

--Desamparado de Deus, porque lhe falta a graa.

--Esplendor da semsaboria.

*MASSADOR*--Moinho de moer gente.

*MATERIAL*--Homem que trabalha mais de queixo do que de cabea. Para
navegar precisa leme...  pra.

*MEETING*--Vocabulo inglez, que, traduzido para portuguez, quer dizer
fara.

--Rede com que se pescam empregos.

*MEETINGUEIRO*--Co que ladra  lua, e que se faz calar com po ou com
pau.

*MEDICINA*--Monte pio do coveiro. Soccorre-o com defunctos.

*MEDICO*--Oh, cus! Como hei de eu ter animo de os beliscar,
lembrando-me de quanto elles me teem feito?! Ha trinta annos que lhes
ca nas unhas, e ainda estou vivo! Parece incrivel, porque tenho tido
muitos. Mas a verdade  que apenas me tiraram a pelle e me estragaram o
sangue e os ossos!

Queridos e pirios amigos, nenias de casaca, esfolladores amaveis,
permitti que eu, por minha vez, derrame sobre os vossos couros este
pingo de vinagre produzido no meu espirito pelas panelladas horrendas
com que estoiraes os pobres diabos da minha especie. E adeus, at ao
primeiro caustico.

*MEIOS*--A escola mais perfeita acha todos bons, quando ajudam a viver.

*MELODIA*--O tenir do oiro com que nos pagam uma divida julgada perdida.
 como se ouvissemos a alma de Bellini cantar-nos a _Norma_.

*MENTIRA*--Nossa Senhora da Actualidade.

*MERCURIO*--Filho dilecto da medicina.

--Ida me das doenas de pelle.

--Creador de padecimentos que fazem damnar os medicos... que os teem.

*MERITO*--Qualidade de que quasi sempre dizem mal os que no a teem.

*METAMORPHOSE*--Evoluo politica, por meio da qual uma borboleta se
torna em lagarta que roe todos os ministerios.

*METHODOS*--Especie de muletas, que seus auctores gabam muito,
apesar de cairem frequentemente com ellas, e acabarem de quebrar as pernas.

*METRALHADORAS*--Ultima palavra, at agora, do direito moderno.

*MZINHA*--A consolao dada ao ministro que perdeu o poder, com as
palavras do chavo--Serviu muito a meu contento--e com a conservao
das honras.

*MILAGRE*--Viver de empregados publicos, com ordenados de 600$000 ris
para baixo.

--Agua de Lourdes.

*MINEIRO*--Homem com vocao de minhoca.

*MINHOCA*--Sugador modesto.

*MINISTERIO*--Capitolio, Rocha Tarpeia, Calvario, Pelourinho, Olympo, ou
simples tribuneca.  conforme a qualidade dos, que o compem.

--Zodiaco constitucional.

*MINISTRO*--Jupiter em exercicio.

--Homem que muda de amigos.

--Artista que despreza o publico que mais o applaude.

*MINORIA*--_Vox clamantis in deserto._

--A virtude opprimida e a sciencia menosprezada, na opinio dos que a
compem.

*MISERICORDIA*--Virtude sublime de mais para homens politicos. No ha
exemplo de a terem tido com os adversarios.

*MISSO* (RELIGIOSA)--Loteria em que se jogava a pelle contra almas de
sujeitos que adoravam a carne dos missionarios.

*MOCHO*--Apagador parlamentar.

*MODA*--Unica paixo sria da mulher.

*MODESTIA*--Qualidade distincta, que, em geral, s se v nos que no
teem motivo de a manifestar.

--Qualidade negativa para se triumphar.

*MODESTO*--O mais temivel dos orgulhosos, no conceito dos que o no imitam.

*MODISTA*--A pythonissa moderna.

*MOEDA*--Sangue dos estados.

*MOEDEIRO* (FALSO)--Viajante que se esqueceu do proverbio Nunca deixes
caminho por atalho, e  por isso punido pelos jurados, naturaes
zeladores de proloquios.

--Perito que duvda de si, e faz experiencias para ver se o
trabalho da casa da moeda  igual ao seu.

--Pessoa que explora o meio de chegar depressa...  Costa de Africa.

--Algebrista que resolve o problema de fazer cinco mil ris com dois mil
e quinhentos.

--Curioso que procura a grilheta com o buril.

*MONOPOLIO*--Menino bonito que todos os governos respeitam, mais ou menos.

*MONUMENTO*--Um aleijo.

*MORATORIA*--Anemia commercial.

*MORDACIDADE*--Zurrapa litteraria.

*MORIBUNDO*--Luz que bruxuleia com o vento do outro mundo.

*MORTE*--Uma caricatura.

--Fim da representao.

*MULHER*--Quando ama, sereia; quando tem ciumes, gata assanhada; quando
cessa de amar, vinagreira.

--Instrumento impossivel de afinar.

*MULHERENGO* (HOMEM)--Co fraldiqueiro.

*MUNICIPAL* (SOLDADO)--Achilles dos Briseis de Lisboa. Polica e
moralisa a cidade por meio das creadas.

*MUNIFICENCIA*--Patacoada de certos soberanos, que davam terras... a
quem as conquistava aos infieis.

*MYSTERIO*--_Cherchez la femme._

*MYSTERIOS*--Cabellos muito pretos e dentes muito brancos. Convem
desconfiar de tudo, passados os trinta annos. As illuses deixaram de
ser exclusivo da mocidade.




*****
  N
*****


N

*NABABO*-- a posio que mais me sorri, com dez mil elephantes,
carregados de oiro. Se eu a apanhasse, veriam o que era ter graa para
fazer diccionarios!

*NAO*--No se conhece nenhuma to feliz como a nossa. Acorda um
momento para se gabar da sua historia gloriosa, e logo torna a
adormecer! Deus te abenoe, me de heroes... passados!

*NACAR*--Oh, menina, se ao menos eu tivesse as perolas! deitava as
conchas fra.

*NACIONALISAR*--Em linguagem de varios litteratos,  abastardar peas
francezas com portuguez mascavado.

*NADAR*-- bom saber, mas convem mais no precisar d'isso. Por mim,
preferia nadar em dinheiro. E tu, leitor?

*NAMORADA* (RICA)--Prodigio de belleza, ainda que seja feia como o
grande diabo.

--(POBRE) Carapau, do que se d aos gatos.

*NAMORADEIRA*--Especie de mosca. Tanto pousa na flor como no estrume.

*NAMORAR*--Fazer de urso.

*NAMORO*--Primeira expresso da parvoice humana, assim como o casamento
 a ultima, segundo affirmam os descontentes.

*NARCOTICO*--Um livro do senhor V.

*NAVALHA*--Lyra dos poetas do fado.

*NAVIO*--Viajante, a quem as viagens estragam e no illustram.

*NAYADES*--Em Lisboa so fingidas por aguadeiros.

*NUDEZ*--Uso economico e primitivo, ao qual a policia declarou guerra,
para proteger os alfaiates e as modistas.

*NULLIDADE*--Genero que sempre tem saida, apesar da sua abundancia.

--Varo conspicuo.

--Nunca se deprecia, porque serve de marca nas contradanas politicas.




*****
  O
*****


O

*OBRAS* (DE CASAS)--Pinhal da Azambuja, no conceito dos proprietarios.

*OBRIGADO*--Ah! tu infliges-me a humiliao de um servio! Pois deixa
estar, patife, que m'o has de pagar!

*OCIO*--Deleite que os pobres compram caro.

--O antipoda do trabalho.

*OCIOSO*--Membro da liquidao social, quando no tem duzentos contos de
renda.

*OLEIRO*--Escaravelho aperfeioado.

*OLHOS*--Interpretes que tornam diabolicamente verdadeiro o proverbio
italiano: _Traduttore, traditore._

--Portas da traio.

*OPINIO*--Julga-se que fosse uma especie de ventoinha, que o vento
levou ha muitos annos. Passa-se bem sem ella.

*OPPOSIO*--Moinho de moer senso commum, no conceito dos ministeriaes.

*ORAO*--Trao de unio entre a creatura e o creador.

*ORAMENTO*--Mysterio.

--_Monstrum horrendum, informe, ingens, cui lumen ademptum._ O que
traduzido em vulgar quer dizer: Polyphemo, a quem varios Ullysses teem
tirado os olhos da cara, substituindo-lh'os por uma trapalhada.

*ORGULHO*--Paixo digna de quem no pde ter outras.

--A lombriga dos immortaes.

*ORTHOGRAPHIA* (PORTUGUEZA)--Reminiscencia da torre de Babel.

*OSTRA*--Pessoa que no se mostra por dentro seno quando acha mar.




*****
  P
*****


P

*P*--Instrumento que estava a calhar nas costas dos amigos da unio
iberica, se ainda houvesse Brites de Almeida. Infelizmente as padeiras
de hoje, incluindo as de Aljubarrota, preferem a p de vitella, desossada.

*PAAL* ou *PASSAL*--O ultimo osso nacional que se est roendo.
Desperdiaram a farinha e comem agora o farlo!

*PACHORRA*--_Alma mater_ da minha terra. Faz gosto ver como ella engorda
a estudar todas as questes!

*PACIENCIA*--Virtude que ninguem se esquece de aconselhar quelles a
quem pisa os callos.

*PACIENTE*--Um, que se sentiu incommodado, momentos antes de ir para o
patibulo, exclamou, ao ver entrar no seu carcere um homem vestido de preto:

--No  preciso; no  preciso! Prefiro que me enforquem j.

--Sou o executor da lei...--respondeu como desculpando-se o carrasco.

--Ah!--tornou o padecente muito consolado--Cuidei que era um medico!

*PADRE*--Bilheteiro do cu. Escusam de o procurar sem dinheiro, que elle
no abre a porta.

*PADROADO*--Direito que podia ser uma das glorias portuguezas no
oriente, e  uma das nossas vergonhas.

*PAES* (DA PATRIA)--Parricidas e anthropophagos inconscientes. Matam e
comem a me aos pedaos.

*PAGINA*--Desculpem, se lhes impinjo esta!

*PAIO*--Ideal dos que amam... os do Alemtejo.

*PAIXO*--Bebedeira do sangue.

*PALAVRA*--A faca do pensamento.

*PALAVRIADO*--Flores do charlatanismo.

*PALCO*--Parodia do paraizo de Mafoma: tem as houris pintadas.

*PALHA*--Artigo que devia ter muito maior consumo, attendendo ao grande
numero dos que precisam d'ella.

*PALHADA*--Litteratura contemporanea, exceptuado o meu diccionario.

*PALPITANTE*--Corao de mulher, quando joga a primeira carta na banca
do matrimonio.

*PANACEA*--A minha ida de governo. A dos meus adversarios d cabo do
paiz em vez de o curar.

*PANDIGA*--Termo chulo, que tem dado em pantana com muita gente sria.

*PANTANA*--Paiz para onde se vae pelo caminho da pandiga.

*PAPAGAIO*--Deputado da maioria, no dizer dos seus inimigos. Alguns
nunca aprendem a fallar bem.

*PAPO*--O _deficit_ do oramento do estado em Portugal.

*PARAIZO*--Logar onde no ha livros, nem jornaes, nem prodigios de
talento de nenhuma especie.

*PARASITA*--Verme intestinal das pessoas, generosas.

--Orchida que vive nas mesas ricas.

--Collega do piolho.

*PARASITISMO*--Doena que devora ministerios.

*PARENTES*--Inimigos dados pela natureza.

*PARLAMENTO*--Boceta de Pandora.

--Casa onde no ha po, todos ralham ninguem tem raso.

--Casa onde todos querem entrar, e de onde poucos sabem sair.

*PARLAPATICE*--Mana da patacuada.

*PARTIDO* (POLITICO)--Quando opposio, grupo de seis homens e um cabo.
Quando governo, exercito numeroso.

*PARVALHEIRA*--Regio occidental da peninsula hispanica, onde os parvos
grelam e florescem como os nabos.

*PARVOICE*--Uma divindade muito estimada.

*PASQUIM*--Bofetada escripta.

*PASSADO*--Abysmo sem fundo, para onde olhamos sempre.

*PASTA*--Alma dos ministros... e do boticario Rgnauld. A do ultimo 
comtudo, menos peitoral, apesar de ser mais balsamica.

*PASTEL*--Visita querida para estomagos gulosos.

*PASTELLEIRO*--Concorrente de certos politicos, sobretudo se abusa do
mesmo molho para tudo.

*PASTOR*--Lobo disfarado.

*PASTORA*--J no ha. Florian deu cabo d'ellas.

*PATEADA*--Avesso de um bom panno. O direito so as palmas do applauso.

*PATIFE*--Homem de bem que se descuida.

*PATINHAR*--Cousa novamente introduzida, na qual a gente se diverte
fazendo de urso e quebrando as pernas.  uma especie de natao, 
maneira de pato, nos lagos, digo, nos sales dos theatros.

*PATRIOTA*--Homem que quer mamar.

*PATRIOTISMO*--Faro de emprego grado.

--Bordo a que se encosta a barriga.

*PATRONATO*--Cousa que eu nunca apanhei, mas que me consta ser muito
boa, e por isso a recommendo.

*PAULADA*--Prazer dos deuses... que a do.

*PAVO*--Especie de passaro, depennado pelo senso commum, que no serve
seno para dar gloria... aos alfaiates.

*PAZ*--Somnolencia da diplomacia.

*P*--Hemistichio humano.

*PA* (PARA SELVAGENS)--Presilhas, gravata, botas e suspensorios.

--(PARA CIVILISADOS) Respeitar-se a si e aos outros. A liberdade (como
hoje a entendem) vae dando cabo d'esta ultima.

*PEO*--Os pequenos jogam com os de pau, os grandes com, os de carne e
osso. O segundo methodo  mais bonito, salvo para os que apanham.

*PECHINCHA*--Uma boa moa com trezentos contos de ris. No se ponham
com escrupulos, que ha muito quem queira.

*PEONHENTO*--Sapo litterario. Arrasta-se pelos escriptorios dos
jornaes, e como no pde subir, lana a baba para o ar com o intuito de
salpicar tudo que est acima d'elle.

*PECULATO*--Descuido dos que mettem na sua algibeira o dinheiro do
estado. Em certo paiz que eu sei, ha muitas propriedades, que bem podiam
chamar-se,  romana, _peculatorius_.

*PEDIR*--Systema de escurraar amigos.

*PEITA*--Uma cousa que acabou desde que todos queriam antes ser peitados
do que peitar.

*PEIXEIRO*--Repuxo de palavradas.

*PELLE*--Campo que quanto mais se cobre de flores mais repugnante
parece. Nascem n'elle as bexigas, o sarampo e a escarlatina, sem fallar
nas dez mil variedades de herpes, desde a sarna e o dartro at o cancro
e a lepra. Felizes d'aquelles a quem tiram a pelle!

*PELOURINHO*--Diminutivo de pelouro. Os vereadores podem estar n'um e
n'outro, conforme seus merecimentos.

*PENEIRA*--Em phrase popular so os vidros dos oculos com que vemos o
proximo quando o escovmos. (_Veja o artigo:_ M LINGUA.)

*PENHOR*--Garantia que por vezes se exige aos roubados no acto da
expoliao.

*PENITENCIARIA*--Renascimento da inquisio e da Bastilha, que zomba das
revolues e progressos do espirito humano.

*PENNA*--O buril que mais profundamente grava a ida no corao dos
seculos.

--Stylete, cuja ponta  mais rija que o diamante.

--Arma que honra o homem quando elle a emprega em defeza dos opprimidos;
e que o deshonra quando serve a injustia e a tyrannia.

*PENSAMENTO*--... O maior bem que Deus nos fez foi dar-nol-o de modo que
ninguem o possa ver. Do contrario, comiamos-nos vivos uns aos outros.

*PENSAR*--Viver, asnear.

*PENSIONARIOS*--Vermes intestinaes.

*PEQUENO*--Homem que se julga muito grande.

*PEQUICE*--Signal por onde os deuses que ns fazemos revelam a sua
origem mortal.

*PERDO*--Applauso que pede _bis_ aos patifes.

*PERDER* (A CABEA)-- gallicismo duplamente censuravel, porque, na
maioria dos casos, as pessoas que o empregam j no teem ps nem cabea.

*PERDULARIO*--Cavallo que deita a maior parte da palha fra da manjadoura.

*PRFIDO*--Rato que roe o queijo da amisade.

*PERNA*--Silencio!... No profanemos os mysterios do algodo em rama.

*PERNAS*--Eu prefiro as do porco.

*PERRARIA* (PERRICE)--Um prazer feminino.

*PERSEVEJO*--O calumniador: morde e esconde-se, apenas sente que o
procuram.  o mais covarde dos insectos nojentos.

--Companheiro de cama que nos roe a pelle.

*PERU*--Sujeito que attrahe peruas, das que trata o artigo immediato.

*PERUA*--Phantasia da linguistica popular, de sentido obscuro. Muitas
pessoas respeitaveis a teem tomado, no intuito de ver se decifram o
enigma, porm adormecem antes de tel-o adivinhado.

*PESCADA*--Uma filha de Amphytrite, que eu amo, cozida, com azeite e
vinagre, e at frita, com salada.

--A rosa do mar.

*PESCADINHA*--Imitadora das creanas que chucham no dedo, quando os
cozinheiros lhe mettem o rabo na bca. Peo perdo aos srs. grammaticos
d'esta amphibologia. No  s creanas que o cozinheiro mette o rabo na
bca,  s pescadinhas. O diacho da grammatica est a mangar commigo!
Entenda-se que  o rabo das ditas pescadinhas que elle mette na sua bca
d'ellas, e no outro rabo qualquer.

*PESTE*--A doutrina dos nossos adversarios.

*PETROLEO*--Intelligencia dos candeeiros.

*PHAROL*--Amigo que nos adverte.

--Olho das praias.

*PHENOMENO*--Ha de mostrar-se no dia em que um amigo me der cincoenta
contos de ris.

*PHILANTHROPO*--Aquelle que no te desanca nem te rouba.

*PHILOSOPHIA*--Sciencia de confundir tudo.

--Arte de no crer em cousa nenhuma.

*PHOTOGRAPHIA*--Calamidade que propaga as caras feias.

*PIANO*--Maravilha do engenho, antes de vulgarisado. Agora, machina
infernal de machucar paciencias e ouvidos. Oh! jovens prodigios, que os
paps e as mams, repletas de parvoice e de jubilo odioso, impingem
s visitas infelizes, eu vos arrenego!

*PIMENTA*--Artigo que, se no fosse a minha modestia, eu affirmaria
existir n'este diccionario em grande abundancia e para fazer arder todos
os paladares.

*PINOTE*--Expanso por mimica.

*PINTAR-SE*--Arte de no verificar as datas.

*PINTURA*--Depois que se usa a da cara e a dos cabellos, j ninguem
presta atteno s outras.

--Arte de engraixar cabeas.

*PIPA* (DE VINHO)--Gaiola do jubilo.

*PIRATA*--Caador de noivas ricas.

*PITEIRA*--Planta-se nos vallados, e deita gente nas vallas[5].

*PLASTICA*--A arte de modelar... com pasta de algodo.

*PLEBEU*--Cidado que tem noventa probabilidades por cento para subir,
emquanto que o nobre tem o mesmo numero d'ellas para descer.

*POBRE*--Bedelho de ces e gatos.

*POO*--Furo por onde quasi sempre sae o dinheiro e no entra agua.

*POEMA*--Caldeirada de versos. Eu prefiro as de enguia.

*POESIA*-- como cada um a sente e entende. Para uns resume-se n'um
bom pichel de vinho novo, diante de um lombo assado; para outros  a lua
reflectindo-se nas aguas serenas dos lagos; para a me, o riso do
filhinho no bero; para o pae, o no ouvir chorar a creana quando quer
trabalhar; para o soldado, no ter de ir  guerra; para o empregado, um
feriado; para a donzella, um noivo; para o agiota, noventa e nove por
cento; para o ministro, a pasta indisputada e os applausos da maioria;
para o marinheiro, o bom vento; para o medico, um caso de doena bem
horrivel e bem desconhecida; para o fumador, optimos charutos; para o
viajante, mundos desconhecidos; para a mulher, um vestido como no tenha
nenhuma das suas amigas; para o marido, uma familia que no lhe pea
dinheiro; para o janota, objectos que pr no prego e botequim que fie
_cognac_; para as actrizes, palmas e admiradores ricos; para os
escrevinhadores, quem lisonjeie as suas inepcias e semsaborias;
para os maus auctores, quem lhes louve a estupidez e a ignorancia; para
os emprezarios, auctores famintos; para os inuteis, um fato bem feito...
para mim a poesia  o silencio, a solido e o somno.

*POETA*--Simplorio.

--Esculptor que desenha no ar.

--Pyrilampo que segrega pieguices luminosas.

--Ente que se diz incomprehendido, e que o  realmente quando pretende
conquistar o mundo em verso. Desgraado! Se queres que te entendam,
falla na boa e classica prosa do peru trufado e do vinho da Madeira, que
tu no detestas... nem eu.

*POLEIRO*--Pomo de discordia. E cada vez ha mais gallos!

*POLICIA* (DE LISBOA)--Um mytho.

*POLIDEZ*--Fazenda de bonita apparencia.

*POLITICA*--Machina de moer consciencias.

--Bailarina pervertida pelas contradices e caprichos dos compositores
de dansa.

*PONTO*--N dado na barriga dos empregados, quando se suspendem os
pagamentos.

*PONTUAO*--Os alfinetes de pregar a palavra escripta.

*PORCO*--Sonho das mulheres pallidas e nervosas.

--Um curso de philosophia ambulante. Meditem e digam se no  verdade.
Comido pelos que mais o amam! Em quem se ha de fiar a pobre gente
suina?!

*PORTEIRO* (DE SECRETARIA)--Cerbero ministerial.

*PORTUGUEZ*--Lingua que todos fallam e ninguem sabe.

*POSSIDONIO*--Cousa feia, parvoce.

*POSTIO*--Oh, minhas senhoras... mil perdes!  o meu triste officio de
escriptor quem me obriga, sem eu querer, contra todos os meus
sentimentos e desejos, a traar aqui estas linhas, que at fazem crar o
lapis de oiro com que as escrevo! Acaso vv. exas. j reflectiram bem na
situao em que se collocam, quando entram n'uma casa de modas e pedem
(a um homem, santo Deus! E s vezes a que homem!) certo objecto, que ali
se v ostentosamente pendurado nas armaes pelas fitas com que ha de
ser preso s cinturas de vv. exas.?! Essa cousa, cujo aspecto me faz
baixar os olhos, e me d ao rosto a cr de lagosta cozida,
chamava-se um... francez. A casta linguagem da elegancia d-lhe hoje o
nome de _tournure_. Mas nem por isso o traste deixa de ser para vv.
exas. porem sobre os quadris, com o fim de fingirem (oh! moda!) que
teem um... muito grande. Mas, minhas senhoras, para que serve a vv.
exas. um... muito grande, que (de mais a mais!)  postio?! O impudor
(desculpem a dureza da phrase) o impudor no est no tamanho artificial
do trazeiro. A natureza poderia, sem sacrificio, ter-lhes feito a
vontade, dotando-as com um... verdadeiro, de mais vastas propores
ainda do que o fingido. Onde o caso se me afigura espinhoso para as
pessoas medianamente graves,  quando o caixeiro (no uso pleno dos seus
direitos de fazer valer a mercadoria) se permitte a familiaridade de
passar complacentemente a mo sobre a rotondidade do objecto, e medindo
com a vista o posterior de vv. exas., lhes diz sorrindo:

--Este deve ficar-lhe bem!

A primeira vez que presenceei uma scena d'estas ca para traz, sobre uma
cadeira, fulminado de vergonha, pelas palavras do vendedor. Na minha
candida ingenuidade pensei que a compradora do traste em questo ia
esmagar o homem com um d'esses olhares olympicos, que as grandes
actrizes usam uma vez na vida, quando representam de Lucrecias, em noite
de beneficio. Mas a senhora volveu, visivelmente lisonjeada, e rindo
tambem:

--Acha?...

Era uma pessoa de alta sociedade, como se diz em calo aristocratico,
me de familia, e trajada como uma rainha. Comprou o sobresalente, que,
depois de embrulhado, um lacaio levou para a carruagem, e despediu-se,
com uma cortezia e um riso amavel do logista e dos seus empregados.
Abysmado por tamanho rebaixamento moral, fiquei com ar de ingenuo de
theatro particular, ruminando commigo os seguintes pontos, que
respeitosamente submetto  critica de vv. exas.:

--Se uma senhora, me de familia, se preoccupa com artificios e modas
ridiculas, enchumaando-se, pintando-se, contrafazendo-se, e mentindo a
si e aos outros, persuadida de que alguem acredita na cr dos seus
cabellos e na altura dos seus seios e trazeiro, n'um tempo em que raros
so os que se no pintam e enchumaam, que educao dar a seus filhos
com esses exemplos?! Comea desde o bero a leval-os por um caminho, do
qual nunca mais podero sair--o da impostura; costuma-os ao fingimento,
porque lhes serve de modelo do modo mais funesto e contagioso. E quando
elles chegarem  idade de pensar, ser sua propria me a primeira pessoa
a quem percam o respeito, que ella no soube arreigar-lhes n'alma com um
procedimento srio, modesto, franco e simples. Em vez de boas e ss
lies de religio, de moral, de probidade e honra, deu-lhes noes
falsas de tudo, conhecimentos superficiaes e idas incompletas;
enchumaou-lhes a raso com crenas postias, envernizou-os com uma
educao viciosa e lanou-os na circulao, pervertidos antes de tempo,
como moveis novos feitos de madeira j carunchosa. So estes productos
que compem a maioria da sociedade actual, em todas as naes que se
dizem cultas. D'elles saem os professores, os medicos, os padres, os
juizes, os deputados e os ministros!...

Minhas senhoras, rogo a v. exas. que se dignem reflectir um instante
n'este problema:--Que pde esperar-se para o progresso e aperfeioamento
da especie humana, de homens que vem suas mes a comprar...
francezes?--O que pde sair de um trazeiro postio, a no ser o rabo
(cauda) de seis metros, que principia a substituil-o?

Se vv. exas. entenderem que vale a pena, meditem um pouco este
assumpto, sem se prenderem com a circumstancia de ter sido o meu
diccionario, e no qualquer outra moda que chamou para elle a sua atteno.

*POSTURA*--Devaneio municipal para recreio dos policias.

*POVO*--Pau para toda a obra. Se, como o boi, elle no desconhecesse a
sua fora, outro gallo lhe cantaria. Em todo o caso, tomem cuidado no
lhes caia em cima, porque pesa muito.

*PRATICO* (HOMEM)--No se fiem n'elle. D'antes pediam-se homens praticos
a proposito de tudo. Agora j todos se julgam experimentados, e no
fazem seno dar com as cangalhas em terra. Cautela! Sobretudo com mau
tempo duvidem da sua sciencia. Eu, em me cheirando a especialista, ps
para que te quero! Se teem amor  pelle, faam outro tanto.

*PRGADOR* (MAU)--Machina de moer senso commum.

*PRESENTE*--Indifferena de que manh teremos remorsos e saudades.

--Cousa que se dava antigamente. Hoje  apenas tempo dos verbos.

--Leitor benevolo, se acaso ests costumado a mandar-me alguns, que o
teu zelo se no esfrie com esta generalidade. No era a ti que eu me
dirigia, mas sim aos sovinas que nunca me deram nada.

--Chave com que s vezes se abre a porta do futuro.

*PRESILHAS*--Escotas das calas.

*PRIMAVERA*--Uma prova da immortalidade. Nada morre: tudo se renova e
transforma. Se duvidam, reparem nos abusos que se reproduzem
incessantemente na nossa terra.

*PRIMITIVO*--Sujeito que no corresponde a um comprimento.

*PRINCIPIOS*--Fins de muita gente.

*PROBIDADE*--Tolice que hoje s se tem por esquecimento.

*PROCESSO* (JUDICIAL)--Duello em que ambos os contendores ficam feridos.

*PROSA*--Po da ida, da qual a poesia  o bolo.

*PROSTITUIO*--Fleimo ardente, que nasce nos costumes.

*PROTECTOR*--Estaca que se pe s plantas para se apoiarem. s vezes cae
sobre ellas e quebra-as.

*PROTECTORES* (DIREITOS)--Testemunho irrecusavel da capacidade dos
economistas, que por amor de quatro compadres fazem gemer quatro milhes
de almas.

--Um gosto caracteristico da nao portugueza:  obrigar os seus
subditos a gastar tudo mau pelo dobro do que custa o bom, persuadida de
que assim faz acreditar aos estranhos que ns temos industria e artes.
J ... simplicidade!

*PROXIMO*--O que est mais perto. Cuidado com elle!

*PRUDENCIA*--A melhor arma que ns estragmos convertendo-a em pachorra.

*PRUDENTE*--Aquelle que mata outro em vez de se matar a si.

*PUDOR*--Vestuario da alma.

*PULHA*--Mulher que pinta o cabello e usa dentes postios.

*PURGANTE*--Insurgente dos intestinos.

*PURGATORIO*--Um dia de eleies para os candidatos.

--Calabouo da policia.

--Sedlitz das almas.


    [5] O povo chama piteira  bebedeira.




*****
  Q
*****


Q

*QUADRA*--A frma de poesia mais supportavel, por conter apenas quatro
versos. Ainda assim  raro que d'esses no sejam tres detestaveis e um
mediocre.

*QUADRILHA*--Reunio de pessoas que se associam para explorar... o proximo.

*QUADRO* (PAINEL COM PINTURA)--Diziam dois sujeitos de m lingua,
visitando uma exposio da Sociedade Promotora de Bellas Artes:

-- aquelle, tu entendes?

--Entendo, sim. Que queres que te explique?

--Sabes se este cartucho  de coelho, ou se o coelho  de cartucho?

Dizendo isto, apontou, para um quadro que figurava um coelho morto, a
par de um cartucho de papel semi-azulado. O companheiro olhou para a
pintura, depois circumvagou os olhos pela sala e respondeu:

--O cartucho  de coelho e o coelho  de cartucho. Percebes?

--Percebo. Mal empregado tanta tinta estragada! Isto, posto  porta dos
droguistas, fazia um visto.

--Olha que se te ouvem, racham-te.

--Porqu? Acaso no pago eu a minha libra para promover o
desenvolvimento do desandamento?

--Certamente. Mas no vale atacar com baldas certas. Bem sabes que
o costume da terra  andar para traz.

-- aquelle, vamos embora. O que ns protegemos so as drogarias e no
as bellas artes.

--Espera. Se te sair o premio de duzentos mil ris, vendes-me o
quadrinho para eu dar  Josepha, que tem muito d de brutos aleijados?

--Quanto me ds por elle?

--Tres libras. Achas que as valer?

--Parece-me rasoavel.  teu... se me sair.

--Est dito ento.

*QUADRUMANO*--Homem degenerado. Outros asseveram que  aperfeioado, e
que ns, vindo d'elle, estragmos o typo.

*QUADRUPEDE*--No lhe batas, cruel! Quem sabe se  teu irmo?

*QUARENTENA*--Rosna-se muito. Ser bom nomear uma commisso... para que
se rosne mais.

*QUARTANS*--No brinquem com ellas! Esto compradas pela pharmacia e
pela medicina.

*QUARTEL*--Ninho de heroes... na casca. Muitos goram.

*QUARTILHO*--Tudo no mundo se transforma para peior! At o bom e honrado
quartilho se virou em pifio decilitro! Oh! amadores, que lastima! Como
ha de um homem saber agora qual era a sua conta?!

*QUEBRAR*--Arte de tirar a camisa aos outros.

--Remedio infallivel para se ficar inteiro. Um milho de curas!!!

*QUDA*--Visinho do coice. No caiam, rapazes; seno levam!




*****
  R
*****


R

*RABUGEM*--Affinidade entre a creana mal educada, a mulher de mau genio
e o co doente.

*RACIOCINIO*--Meio de chegar  tolice pelo caminho mais longo.

*RAFEIRO*--Professor de instruco primaria. Guarda gado miudo, e vive
do acaso como os ces sem dono. O desdem com que o tratam, indica
asss o zlo da sociedade pelos seus futuros membros.

*RAIO*--Buscap celeste.

--Gracejo pyrotechnico da electricidade.

--Advertencia de que as nuvens teem a palavra.

*RAPTO*--Combinao amorosa em que o raptor  muitas vezes o roubado.

*RASO*--Uma faculdade, que quanto menos se tem mais se affirma que se
possue. Em Frana, quando a no tinham, erguiam-lhe estatuas, e
adoravam-n'a personificada por qualquer meretriz.

--Um disparate fugido de Rilhafoilles. Todos a querem para si, e ninguem
prova que tenha direito a ella seno os doidos que a no reclamam.

*RATOEIRA*--Olhos bonitos.

*R*--Parte visivel da embarcao encalhada no banco do crime. A proa
est mergulhada na consciencia do jury.

*REACCIONARIO*--Um acido corrosivo.

*RECEITA* (PUBLICA)--Bicha furada.

--(MEDICA) Preludio de um epicdio em crua prosa.

*RECONCILIAO*--Vinho azedo ou restaurado com maus ingredientes, que
raros bebedores podem tragar.

*RECRUTA*--Aprendiz de heroe, que, emquanto se ensaia a bater o cho com
os ps, trocaria de bom grado o basto de marechal que tem em
perspectiva por um bordo de peregrino para regressar ao lar paterno.

*REFLEXO*--Luz que alumia asneiras.

*REFORMA*--Maneira por que em Portugal se peiora e estraga tudo.

--Oh, senhores, ao menos no reformem os costumes! Que ser de ns, se
lhes mexem?! Bem basta o deploravel estado em que elles j esto!...

*RELATORIO* (DE LEI)--Tizana politica.

--(DE PESSOA QUE FOI ESTUDAR AO ESTRANGEIRO) Clyster litterario.

*RELOGIO*--Especie de inquisidor que nos miga a vida.

*REMEDIO*--Dois pontaps dados a tempo  o melhor que se conhece para
curar patifes.

*REMORSO*--Indigesto da alma.

*REPARAO*--Acto muito penoso para os poltres e para os proprietarios.

*REPROVADO*--Nadador que descaiu com a corrente.

*REPTIL*--Bicho venenoso, que se arrasta sob a sombra dos homens de
merito, lambendo-lhes os ps quando no pde morder-lh'os.

--Especie de homem degenerado.

*RESPEITO*--Ah! meu caro senhor, que tempos! J ninguem quer ser
respeitoso!...

--E o senhor sabe se ainda ha quem saiba ser respeitavel?

*RESTITUIO*--O peior dos vomitorios.

*RETRACTAO*--Esponja com que cada um se suja a si para lavar os outros.

*REVOLUO*--Caso em que os que levam mais pancada no so os que
recebem mais recompensas.

--Jogo de xadrez, no qual s aos pees no  permittido recuar.

*REVOLWER*--Inveno do diabo, que faz ter juizo a muitas creaturas de
Deus, quando se puxa por elle a tempo.

*RHEUMATISMO*--A escravido... dos membros.

*RICA* (MULHER)--Isca que attrahe velhacos.

*RICINOS*--Vasculho intestinal.

*RICO*--Desgraado de quem todos dizem mal, quando no lhe apanham
dinheiro.

*RIGORISTA*--V. ex.... Perdo... eu... ns. Isto : Pessoa que s v os
outros e nunca olha para si.

*RIQUEZA*--Vv. exas. no teem notado quo frequentemente se encontram
os mais ricos pianos em casa de pessoas que no sabem tocar!

--A lampada maravilhosa de Aladin.

--... No conheo. A patifa tem andado sempre por longe da minha porta.

*RISCO*--Devia ser um trao, ou linha geometrica; porm, pelas evolues
da lingua, entende-se que pde tornar-se um furo na pelle ou nos haveres.

*RISO*--A flor da alma.

--Porta do corao escancarada.

*ROMANCE*--A imaginao em vulto.

*RONCAR*--Trombeta de Jerich do amor. Ao primeiro ronco desmorona-se tudo.

*ROSARIO*--Deus... com ervilhas.

*ROSTO* (PHYSIONOMIA)--Taboleta de que convem desconfiar.

*RUAS* (DE LISBOA)--Caminhos sobre vulces, que em vez de fogo teem...
cheiro pestilencial.

--Vallas de lama e de poeira, que levam s do cemiterio.

--Estrumeiras disfaradas, e cujos nomes, na sua grande maioria, do a
medida da illustrao das vereaes e dos governadores civis que teem
dirigido a cidade. Alguns d'esses nomes no cabem no sobrescripto de uma
carta, e so impossiveis para o uso do telegrapho; outros cheiram mal,
como as ruas que os teem; e muitos so estupidos, absurdos e repetidos
vinte vezes. Conservam-se todavia para gloria da administrao e da
municipalidade, que no querem bolir com elles pelo muito respeito que
sempre tiveram a tudo quanto  tolice.

*RUDE*--Pessoa por descascar.

*RUDEZA*--A cdea humana.

*RUGAS*--Caminhos abertos pelos ps do tempo.

*RUGIR*--Maneira por que os intestinos fingem de tigres.

*RUMINANTE*--Animal que remoe muitas vezes a mesma comida. Exemplos: o
boi, o romancista, o compositor de musica, etc., etc.




*****
  S
*****


S

*SABEDORIA*-- a arte de ser tolo sem que os outros percebam. Sabenas
para que servem? Disse o Cames, ou no sei quem. Portanto,  chiar do
papo e deixar gyrar o marfim.

*SABER*--A desgraa da humanidade. Quanto mais o individuo se afasta da
sua esphera, maior numero de necessidades cria e mais difficuldades
achar para satisfazel-as. Os apostolos da instruco a todo o
trance nunca pensaram n'isto. Quanto maior for o numero dos instruidos,
menos emprego haver para elles, e a sociedade ter tornado mais
insoluvel o problema da felicidade humana. O que na ignorancia se
contentava com cigarros e mau vinho, illustrado querer Champagne e
charutos havanos. Aonde os tendes para lhe dar, oh! prgadores do ensino
obrigatorio?! Acaso a vossa sociedade pde satisfazer as aspiraes
ambiciosas de um povo de sabios?! Julgaes que os communistas de Paris
no sabiam ler nem escrever? Ora mettei a viola no sacco, que eu fao o
mesmo.

*SABIO*--Aquelle que chegou a conhecer a sua inepcia e ignorancia. Creio
que no ha nenhum.

*SABUJO*--Co que engraixa botas.

*SADIO*--Natural de terras em que no ha boticas nem medicos.

*SAGUO*--Foco de infeco, alimentado em Lisboa pelo patrocinio da
policia.

*SAL*--A maior necessidade litteraria do nosso tempo.

*SALADA*--Discursos parlamentares.

*SANDICE*--Senhora do meu maior respeito.

*SANGUE*--Moeda circulante dos corpos. Est todo falsificado pelos
alimentos venenosos e pelos canos de esgoto, que so as medalhas de
honra da cidade de Lisboa.

--Liquido composto actualmente de tanta cousa suspeita, que bem se lhe
pde chamar lavadura de tijela da casa.

--O que ha n'elle de singular  que temos muito menos desde que os
medicos nos no tiram nenhum. Provavelmente porque tinham extrahido
demasiado a nossos paes, por adiantamento.

*SANGUENTO*-- assim que eu amo o _beef_ e que os conquistadores amam os
povos.

*SARCASMO*--Aplainadela com ferro amolado de novo.

--Vespa do intellecto.

*SATYRA*--A pimenta da litteratura.

*SAUDADE*--O estado de quem tem o capote empenhado, depois de jogar a
ultima libra que lhe deram sobre elle, quando sente apertar o frio.

*SAUDE*--Planta rara que os medicos no conseguiram ainda extinguir
inteiramente.

*SCEPTICO*--Paladar estragado por generos falsificados.

*SEDA* (BICHO DE)--Se esses pobres vermes soubessem para quem trabalham
s vezes!...

*SDE*-- tambem um dos motivos por que a gente bebe. Mas entre a agua
dos canos de chumbo e os vinhos das nossas tascas deve haver hesitaes
dolorosas!

*SEGREDO*--Se no queres morrer solteira, nem ao teu travesseiro reveles
o que te aloira os cabellos, ou te arredonda graciosamente o seio. Um
olhar desconfiado adivinha trouxas e chumaos, at onde elles nunca
existiram! As tintas claras so perfidas; o algodo em rama tem
achatamentos imprevistos, de denunciante vilo; no te fies seno no
_roast-beef_ inglez, no salpico de Castello de Vide, no bom Bairrada e
no velho Porto. S elles so discretos e generosos. Pede-lhes o que te
falta, e sers feliz se te attenderem.

*SELVAGEM*--Sujeito que no doura pilulas.

*SEMENTEIRA*--Fonte da esperana.

*SENSO* (COMMUM)--Velharia. A ida nova promette dar cabo d'elle.

*SENSUAL*--Pessoa que tem o diabo no corpo.

*SENTIR*--Padecer.

*SEPULTURA*--Logar onde se arrumam cousas inuteis, que no tornam a
servir.

--Caixa do esquecimento.

*SEREIA*--Ministro cantando  maioria quando ella se mostra esquiva.

*SERIEDADE*--Quasi que j ninguem acredita n'ella, nem sequer os que
a teem!

--Indicio de decadencia.

*SERINGA*--A musa dos intestinos.

--Sacca-rolhas das tripas.

*SERPENTE*--Mulher que assobia.

*SERTANEJO*--Transio do homem para o bruto.

*SERVIO*--Cousa que se esquece tanto como o chapu de sol.

*SEVANDIJA*--Especie de lagarta que infesta as antecamaras dos ministros.

*SILENCIO*--Parede feita pelos meus collegas Joes Fernandes em torno de
todas as obras que no saem do seu gremio, com o louvavel intuito de
impedir que se lhes vejam os defeitos. Ah! meu pobre diccionario!...
Elles te ensinaro a ter juizo.

*SIMPLICIDADE*-- persuadir-se a gente de que ainda ha generos no
falsificados, policia que puna os vendedores que nos envenenam, agiotas
de corao, meninas que no queiram casar, sujeitos que faam cara a um
grande dote, ainda que a noiva seja _tout ce qu'il y a de plus...
chose_; e _muchas cosas mas_.

*SINAPISMO*--Cataplasma que se damnou.

--Remorso da pelle, quando sente a mostarda tomar o freio nos dentes.

*SINECURA*--Lobinho tornado em tta.

*SINEIRO*--Encarregado de espantar as almas, quando toca a finados, para
que ellas no voltem aos corpos, caso em que poderiam surprehender
muitos segredos de familia, que lhes tirariam as illuses que levaram da
terra.

*SINISTRO*--Crdor que quer que lhe paguem.

*SINO*--A voz da igreja sem a poesia da religio.

--Vizinho insupportavel, sobretudo quando nos repete sem parar a noticia
da morte de pessoa querida.

--Berrador que nunca enrouquece.

--Amigo que sada o nosso nascimento, e chora a nossa morte... quando
pagmos a quem o faa alegrar ou entristecer.

--Actor da fara da vida e da comedia da morte.

--Pantomineiro alugado para fazer um papel que elle recita sempre no
mesmo tom.

*SOCIO*--Companheiro de cama, que muitas vezes quer puxar a roupa toda
para si.

*SOLDADO*--Qualificao atrozmente ironica. Para familiarisar o homem
com a ida de que ha de ser partido, comea-se pelo aterrar, apenas
senta praa, com a affirmativa de que j no est inteiro!

*SOLTEIRO*--Passaro que sonha com a gaiola.

*SOMNO*--Esquecimento.

--Porta, atrs da qual a gente se esconde dos desgostos.

*SOMNOLENCIA*--Enfermidade passageira. Acommette muito as pessoas que
ouvem louvar os seus amigos.

*SORRISO* (DAS CREANAS)--Flor do paraizo.

--(DAS NAMORADEIRAS) Rede de apanhar patos.

--(DA MULHER AMADA) Sol que nos aquece.

--(DOS QUE PRECISAM) Armadilha.

--(DOS HYPOCRITAS) Careta a que se deve responder com dois pontaps, em
sitio que a gravidade dos leitores, e a minha propria, me impede de
revelar, mas que facilmente adivinhar a sua perspicacia.

*SUBORNO*--Azeite que se d nas molas para que os trastes funccionem 
nossa vontade.

*SUBRIPIO*--Verbo latino conjugado por todas as naes modernas. Pde
traduzir-se por abafar o alheio.

*SUICIDIO*--A ultima loucura. Mulher que eu adoro, pela tua salvao te
peo que no me estragues os phosphoros! Est tudo pela hora da morte! E
desde j te previno que se me saires pela janella, no dou nem dois
patacos a um padre para te fazer o enterro. Esperars na rua pela tumba
da misericordia ou pela carroa do lixo. Os suicidas no valem uma
pitada de tabaco.

*SUOR*--Producto natural das bestas do carga e dos constipados felizes

*SUPPLICIO*--Rouxinol cantando na gaiola a aria da liberdade.

--Gato contemplando a frigideira cheia de carapaus mergulhados em azeite
fervendo.

--Romeu corrido a cacete pelo pae de Julieta.

*SUSCEPTIBILIDADE*--_Noli me tangere._ Traduzido em portuguez diz assim:
No bulam com o bicho que se assanha!

*SUSPEITA*--Nodoa difficil de lavar.

*SUSPENSO*--Compassos de espera nos pagamentos.

*SUSPENSORIOS*--Adrias das calas.

*SYLLABUS*--Papo, filho de Papa.

*SYSTEMA*--Cada individuo tem o seu.  a melhor maneira de chegarmos a
um accordo!




*****
  T
*****


T

*TABACO*--Envenenador que reparte com o estado os seus lucros para que
este o deixe funccionar livremente.

*TABERNA*--Lupanar do estomago.

--A me das facadas.

*TALENTO*-- a arte de nos fazermos applaudir por outros mais tolos do
que ns.

*TANGENTE*--Jangada de salvao.

*TELEGRAPHO* (TRANSATLANTICO)--Cordo umbelical dos dois mundos.

*TELHA*--Barrete invisivel s para os que o trazem.

*TELHADO*--Varanda de Julieta, onde miam os Romeus, que s vezes vo
apalpar a rua com os lombos, da altura de um quinto andar.

*TEMPESTADE*--Que miseria! At me recusou um vestido de seda que levava
apenas trinta metros!

--Mas, querida, bem vs que  uma enormidade! Quando nos casmos,
gastavas sete metros...

--Cale-se ahi, monstro! Ento, no quer elle que a moda esteja s
ordens da sua sordicia! Se lhe parece vista-me com chita de tosto.

--Usava-a minha me, e...

--Que horror! D-me para modelo uma velha idiota...

--Senhora!

-- Josepha, leva o meu almoo para o quarto.

--Commigo no contes. Vou almoar e jantar fra.

Cro

--Casem-se, amigas!

--Casem-se, amigos!

--Que delicias, que prazer!

Antes me eu desse ao demonio.

--Dez diabos me levassem

No dia do matrimonio!

*TEMPESTUOSO*--Domicilio conjugal no dia em que a senhora sente resoar
os seus nervos como bordes de viola.

*TEMPO*--Capital que ns julgmos comer, quando  elle quem nos come.

--O mais fino dos ladres. Rouba-nos annos de vida, sem que dmos por isso.

*TENDEIRO*--Homem que baralha e embrulha tudo.

*TENTAES*--Para o china, opio; para o indiano, betel; para o turco,
caf; para o japonez, rasgar a barriga; para o inglez, vinho do Porto;
para o francez, cancan; para o italiano, macaroni; para o hespanhol,
touros; para o allemo, cerveja; para o arabe, cavallos; para o
norte-americano, excentricidade; para o brazileiro, Paris; para o
portuguez, Brazil.

*TESOURA*--A opinio dos vossos amigos a vosso respeito.

*THEATRO*--Casa de corrupo.

--Parodia do mundo.

--Pelourinho onde se expem theorias mais ou menos absurdas.

*THEORIA*--Bexiga de boi assoprada.

--(POLITICA) Metralhadora do senso commum e dos dinheiros publicos.

*THEORICO*--Um ingenuo. Do vivo ao pintado ha grande distancia.

*THESOURO* (PUBLICO)--Um anemico.

--Infeliz a quem todos sangram.

--Pobre diabo! Os teus medicos so quasi sempre da escola do doutor
sangrado, e tu no querias entisicar?! Aguenta-te e espera o resto. Quem
te comeu a carne, tambem te ha de roer os ossos.

*TIGRE*--Animal a que chammos feroz... Oh, cus! se as costelletas de
carneiro e de vitella fallassem!...

*TIMIDO*--O que furta pouco.

*TINTA* (DE ESCREVER)--Cousa de que nem todos sabem servir-se sem se
sujar ou sem sujarem os outros.

--O rio do pensamento, quando corre sobre o papel.

*TINTEIRO*--Monstro prodigioso, de cuja bca saem quasi todas as bellas
maravilhas e todas as aberraes da intelligencia humana.

*TITULAR*--Sujeito que se disfara.

*TITULO*--Acontece frequentemente aos da nobreza o mesmo que aos dos
livros. Que desencantamento, quando se conhece o sujeito ou a obra que
os trazem!

--Carimbo com que os reis marcam os vassallos, como os lavradores fazem
aos gados.

--(LITTERARIO) Papel em que se embrulham muitas nullidades.

--(DE NOBREZA) Graa pesada, pelo que custa em dinheiro, quando no 
tambem um gracejo pela qualidade do agraciado.

*TOICINHO*--A cdea do porco.

*TOJO*--Genio de mulher casada, quando no comprehende a sua misso na
familia.

*TOLO*--Homem de espirito, na actualidade.  elle que consegue tudo que
deseja; os intelligentes ficam a ver navios no alto de Santa Catharina.

*TORNEIRA* (DE PIPA)--Boca de varia eloquencia.

*TOURADA*--Contra-veneno das associaes protectoras dos animaes.

*TRABALHO*--Genero depreciado.

--Premio a que todos fazem cara na loteria da vida.

*TRANCA*--Fundo de reserva para as occasies criticas. Mal empregado no
se acudir mais vezes com ella a tanta gente que a precisa!

*TRAPAA*--Carambola por tabella.

*TRAVESSA*--Linha de bastardia.

*TREMORES* (DE TERRA)--Sezes perigosissimas para os que assistem  doente.

*TRIBUNA*--Metralhadora parlamentar.

*TRILO*--Os borborygmos do canto.

*TRINCHADOR*--Sujeito que cria difficuldades a Deus para o dia de
juizo.

*TRISTEZA*--Inverno na alma.

*TRIUMPHAR*--A arte de fazer dar urros aos collegas.

*TROUXA*--Cabea feminina.

*TULIPA*--Mulher formosa e estupida.

*TUMBA*--Caixa de inutilidades.

*TUMULO*--Ultima vaidade e ultima insolencia do dinheiro. Perguntae aos
que dormem sob as cryptas soberbas se l dentro  menos intenso o frio
da morte do que no fundo da sepultura humilde, que ellas privam do sol.




*****
  U
*****


U

*UBIQUIDADE*--Ter seis empregos... e no servir nenhum.

*ULCERA*--Divida que se no pde pagar.

*ULTIMATUM*--Se o no sangrarmos morre hoje.

--E se o sangrarmos?

--Poder viver ainda... at manh.

*ULTRAJE*--O senhor insulta-me?!

--Insulto, sim, senhor.

--Isso  serio?.

--Muito serio.

--Logo vi. Commigo no se brinca. Passe muito bem.

--Covarde!

--Amalia! Fecha a porta depressa! Esse homem que vinha atrs de mim no
est bom de cabea.

--Canalha!

--Oh! patro, olhe que elle cuspiu-lhe na cara!

--Porcalho! Fecha... e d c um leno lavado.

--O senhor no lhe quebra os queixos?!

--Para elle querelar, ou quebrar-me tambem os meus?! Prefiro o almoo.
Pe o fiambre na mesa.

*ULULAR*--Fingir de Shakspeare ou de Molire.

*ULYSSES*--Pantomineiro.

--Raposo de especie humana.

--Saloio.

--Cigano que negoceia em cavalgaduras. Todos teem sido victimas de um ou
mais Ulysses na sua vida. Tratem pois de os evitar na occasio da morte,
porque elles so capazes de nos fazer errar a cova.

*UNO*--Sobre a ultima receita medica a ultima receita da igreja.

*UNHADA*--Gracejo felino ou feminino.

*URNA*--Vaso funereo, para os que ella mata, eleitoralmente fallando.
Para os vencedores  uma piscina de agua de rosas em que muitos se
banham... pela primeira e ultima vez.

*URSO*--Homem namorado.

*USURA*--Cancro que roe a pelle  sociedade moderna, com singular
indifferena da roda.

--Maneira de descascar gente como se descascam peras.

*UTOPISTA*--Ente inoffensivo, quando no tenta impingir aos outros a sua
pedra philosophal.

*UVA*--Ternura-me.




*****
  V
*****


V

*VACCA*--Animal que se chama boi antes de entrar no aougue.

*VADIO*--Peixe que ce na rede da policia.

--Artista que prepara um quarto no hospital, na cadeia ou n'um asylo,
quando no apanha viagem gratuita para o ultramar.

*VAIDADE*--Estado em que a creatura humana se assimilha a um per
arripiado, ou a uma bexiga assoprada. Outros lhe chamam por isso
_peruite_ e _bexiguite_.

--Desculpa que cada um d a si proprio da sua parvoice.

*VAIDOSO*--Papelo pintado.

--Pessoa que insulta o senso commum.

*VALSA*--Inveno do diabo, que este mette no corpo s mulheres, e que
ellas passam aos homens.

*VARREDOR* (MUNICIPAL)--O laxante das ruas.

*VELA* (ACCESA)--Alma em pena.

--(APAGADA) Hibernao.

*VELHACO*--Especie de garrano de dois ps. Sempre que rincha d coice.

*VELHICE* (HUMANA)--Bola de sabo prestes a desfazer-se.

--Trapo que nem sempre vem de bom panno.

--Os que a no respeitam, esquecem-se que vo andando para ella, e que
d'esse modo comeam a ser dignos de lastima, ainda mais cedo do que
aquelles de quem zombam.

*VELLUDO*--Genio de mulher que pretende casar. Livrem-se d'elle depois
de lhe cair o pello!

*VENALIDADE*--A amiga de ss. exas.! Suba, que os seus amigos esto
impacientes por deitar carruagem.

--Escorregadela.

*VENENO*--Atmosphera artificial de Lisboa.

*VENTOINHA*--Pessoa que se forra ao trabalho de ter opinio propria.

*VENTRE*--_Deus ex machina_ de todas as patifarias. Segundo o
_Diccionario de synonymos portuguezes_, de Jos da Fonseca, tem outros
significados que a decencia do meu livro no tolera. Aquelle
diccionario, destinado  mocidade, e approvado pelos nossos sabios,
attesta o que se deve esperar do ensino, dos que ensinam e dos que so
ensinados, n'esta classica terra da parvoice.  um acerbo de sandices,
proprias para crear sandeus.

*VENUS*--Pessoa de m nota, segundo a mythologia grega. Modernamente,
creada que aspira aos Martes da guarda municipal.

*VERDADE*--Origem de malquerenas.

--Co perdido, que anda a fugir de todos com o rabo entre as pernas.

--Pessoa envergonhada diante de saltimbancos.

--Rede de apanhar inimigos.

*VERGONHA*--Vocabulo sem sentido.

*VERME*--Bicho que roe as costas das celebridades. Algumas pessoas lhe
chamam inveja.

*VERNIZ* (SOCIAL)--Untura com que se escondem os defeitos da madeira podre.

*VERSATILIDADE*--Flor cultivada no jardim das conveniencias.

*VERSO* (HARMONIOSO)--Preludio musical.

--(DURO, OU ERRADO) Chavelho retorcido.

*VESPA*--Emblema da critica: o ferro sem o mel.

*VIAJANTE*--Almocreve de petas.

--Folha levada pelo vento da curiosidade.

*VICIO*--Racha na loua.

--Escola de aviltamento.

--No proximo  tudo quanto em ns so virtudes.

*VIDA*--Fara, comedia, drama ou tragedia, conforme a interpretao que
cada um d ao seu papel.

*VIDRO*--Reputao de mulher, que qualquer cousa embacia ou quebra.

*VINAGRE*--Em vulgar, vinho de Collares, do que se vende em Lisboa.

--Em estylo campanudo, divorcio.

*VINHA*--Ida me, d'onde nasce o pae da desordem.

*VINHO*--Poesia da pipa.

--Espirito que at aos materialistas d alma quando lhes entra no corpo.
 livrar de que elle tome a palavra l dentro, porque, se falla, vae
tudo com os diabos!

*VIRTUDE*--A violeta humana. Floresce na sombra.

--Substantivo feminino, pouco usado.

*VISITA* (DE CEREMONIA)--Estreia de botas novas.

--(DE PESSOA AMIGA) Sol em dia de inverno.

--(DE MEDICO) Ponto na mortalha.

--(DE PADRE) _Consummatum est!_

*VISUALIDADE*--Arte de virar a casaca diante do publico.

*VIUVA*--Passaro que chora... pela gaiola.

*VIUVEZ*--_De profundis_, que se canta quasi sempre com musica da aria:
_Oh! querida liberdade!_

*VIUVO*--Condemnado que obteve commutao de pena.

*VIVEIRO*--D'antes havia-os de plantas, aves, peixes, etc. A sociedade
moderna inventou os de patifes, que so muito mais faceis de aclimatar.

*VOLCES*--Bocas da me terra. Quando fallam de mais vae tudo por ares e
ventos.

--Coraes de namoradas de annuncio e de theatros particulares.
Apagam-se com o casamento.

*VOTO*--Artigo de commercio eleitoral.

--(DE CONFIANA) Corda para enforcar quem o deu.




*****
  W
*****


W

*WAGON*--Pessoa que tem muitos nomes e appellidos.

*WAGONETE*--Filho de sujeito que traz muitas condecoraes. Outros lhe
chamam fidalgote.

*WALKYRIA*--Deusa da antiga mythologia scandinava, que designava nos
combates aquelles que deviam morrer. Dizem os satyricos que os
medicos representam perfeitamente de Walkyrias cada vez que receitam.
Calumniadores!

*WHIG*--Nome do partido que na Inglaterra se diz defensor da liberdade.
Ingrato Portugal! Deves-lhe tanto, e ainda no lhe deste todas as tuas
colonias! Deixa estar, sovina, que os liberaes _inglezes_ tomaro posse
d'ellas, sem que tu lh'as ds, para te ensinar como se administra bem.

*WICLEFISMO*--Doutrina do heresiarcha Wiclef. No podia agradar ao
illustre _mendigo_ do Vaticano, porque lhe negava a supremacia sobre as
outras igrejas, e prgava a vida exemplar e a pobreza.




*****
  X
*****


X

*X, ou CH*--Uma ladroeira e um envenenamento com que os chinas
retribuem a todas as naes do mundo o opio que s os inglezes lhes
impingem.

*XACA*--Anspeada do exercito dos idolos do Japo.

*XACARA*--Deus nos livre das que se fazem hoje imitando as antigas!
J sabem a minha opinio: a respeito de versos, nem mesmo  moda de
fallar minhta, com _b_ e _c_ cedilhado. Prefiro-lhes o paio com
ervilhas, e at o chourio com ovos.

*XAMATE*--Asneira que se acha em todos os diccionarios da lingua
portugueza, e que transcrevo smente para demonstrar que  locuo
viciosa.  este o primeiro diccionario serio que a restitue  verdadeira
pronuncia de XEQUE-MATE. _(Veja adiante.)_

*XAQUE*--Mais asneira pelas rases j ditas. (_Veja_ XEQUE.)

*XAQUEMA*--Tecido de que se fazem cilhas s bestas.--Porque andaro
ainda tantas de suspensorios?--perguntaria Jos Agostinho de
Macedo.--Talvez pelo equivoco de trazerem as mos no ar?

*XAROPADA*--A maior suavidade da medicina. Apenas estraga o estomago.

*XAROPE*--Discurso do devedor que pede reforma de letra.

*XENOMANIA*--Gosto de estrangeirices, muito peculiar em varios
litteratos que no sabem a sua lingua.

*XEQUE*--Termo de xadrez, quando se annuncia ao parceiro que o rei
d'elle est ameaado de perigo. Os diccionarios portuguezes trazem
_xaque_, palavra que nunca se pronuncia entre ns.

--Em todo o caso, prefiram os xeques dos bancos aos do xadrez, que eu
fao o mesmo.

*XEQUE-MATE*--Ultimo lance do jogo do xadrez, quando o rei vencido flca
prisioneiro. Nenhum dos diccionaristas portuguezes conheceu at
hoje aquelle jogo, alis no escreveriam todos, com automatica
unanimidade, _xamate_, que ninguem diz, nem disse nunca, em vez de
_xeque-mate_.

--D. Miguel, em Evora Monte; Napoleo III, em Sdan; D. Carlos, na
Hespanha; todos levaram _xeque-mate_. A opposio portugueza deu xeque
aos ministros passados, que entregaram a partida, e est hoje
applaudindo outros jogadores. Vejam, mas no atrapalhem. Preparam-se
grandes lances, sobretudo se jogarem os bispos! Tomem sempre cautela com
os pees. Por se no contar com elles, perde-se muitas vezes o jogo.

*XIPHOIDE*--Nome scientifico da espinhela. Oh! caros leitores, se ella
vos cair alguma vez, procurae-a... n'este diccionario.

*XIRA*--Grande comezana  mesa do oramento.

*XIS*--Segundo um sabio estrangeiro, residente em Portugal, _x_ vem de
_chin_, que o dito philologo escreve _xin_. Em questes de to alta
sciencia metto a viola no sacco.

*X*--Gritem todos, quando virem algum ladrador partir a correr, com
grande posta que lhe atiraram para o calar.

*XUPISTA*--Amador de capil de cavallinho em ponto grande.

--Descobridor de pessoas raras, das que ainda caem.

*XYLOALOES*--Pau que d o aloes, e que se poderia chamar, com
propriedade, _pau de Raspail_. Oh, meus amigos: o aloes  bom; mas no o
tomeis nunca sem caldo de hervas. Elle s por si faz cousas de todos os
diabos, desde a queimadela at aos rugidos medonhos das feras
intestinaes!

*XYLOLATRA*--Adorador de imagens de pau. Carissimas devotas de S. Luiz &
C., bem fazeis vs, que no sois xylolatras, segundo rosnam falladores
atrevidos!

*XYLOPHORO*--Cada um dos ministros encarregado de accender e alimentar o
fogo sagrado... do amor da pasta.




*****
  Y
*****


Y

*YPSILON*--Um timido que rarissimas vezes comea alguma cousa por si, e
que s apparece quasi sempre no meio da multido.

--Ente inutil, e por isso o mais pobre de entre os vinte e cinco irmos
que lhe deu a arte de escrever. Por mais que eu o apertasse e
espremesse, deitou apenas o magro chorume d'estes dois artigos. Bolas
para elle!

_Y mas no hay_.




*****
  Z
*****


Z

*ZABUMBA.*--Estylo retumbante de certos discursadores.

--Os versos do senhor X.

--O elogio do senhor Y feito pelo senhor Z.

*ZAGAL*--Pessoa que falla  maneira dos heroes de Florian.

*ZANGO*--Ingenuo que faz livros com versos alheios.

*ZANGARREAR*--Fallar ou escrever contra ns.

*ZOZO*--Discurso laudativo.

*ZARCO*--Perfido auxiliador do tempo nas caras das bailarinas.

*ZAS!*--O que precisam os patifes que nos roem a pelle.

*ZELADOR*--Pessoa util... a si.

*ZIGUE-ZAGUE*--Maneira de ir mais depressa.

*ZOMBARIA*--Pulga do espirito.

*ZURRAR*--Tomar a palavra, sem a pedir primeiro.

*ZT*--Cousa que passa diante da nossa vista com a rapidez de um passaro.
E modo por que eu me despeo do leitor:


                                    ZT!




NOTA FINAL

OU A

ULTIMA PALAVRA DA SCIENCIA


Amaveis leitoras e benevolos leitores:--O homem que acaba de dotar to
generosamente a nao portugueza, e tambem a brazileira, com obra de
tamanho prestimo e valia, pede-vos que no a largueis da mo sem vos
terdes deliciado com estas linhas, que so remate e cora do edificio
consagrado  vossa admirao e regosijo.

Congratulae-vos commigo, povos d'aquem e d'alem mar! O monumento est
concluido. Apesar das difficuldades da empreza, foi levado ao cabo
pela energia da vontade e pelo poder maravilhoso do genio, que o
levantou sobre alicerces de diamante. A fama vae tomar conta d'elle para
o tornar eternamente celebre; e os editores disputaro, de faca em
punho, a honra de o reimprimir cincoenta vezes por anno.

Oh! gloria! oh! loureiros e palmares... onde tendes rama que chegue para
tal triumpho?!

Jornalistas illustres, aparae as vossas pennas; academias e institutos
scientificos, abri as vossas portas; povos, que vos prezaes de
civilisados, saudae o Diccionario de Joo Fernandes!

--Viva Joo Fernandes!--Ouo eu j d'aqui gritar s multides
enthusiasmadas.

--Viva!

--Mas quem  Joo Fernandes?!

A esta perfida e insidiosa pergunta cala-se tudo; os sabios
entreolham-se de bca aberta; e os outros suspendem a respirao,
receiando serem elles os predestinados. Por fim, responde uma voz:

--Joo Fernandes  um grande homem!

--Immenso!--apoia outra.

--Incommensuravel!--acode terceira.

--Sublime!

--Unico!

--Engraadissimo!

--Sapientissimo!

--Immortalissimo!

--Foi elle quem mandou dar para baixo no povo,  porta do Passeio Publico.

--E quem matou o projecto da avenida para o Campo Grande.

--E quem levantou a questo dos muros...

--E quem embirra com as grades...

--E quem diz...

--Bolas, meus amigos! bolas!--exclama o auctor do Diccionario.--Essas
obras so de outros Joes Fernandes; no confundam a minha com as dos
meus collegas. Todos somos de grande fora; mas eu no trato as
cousas tanto em absoluto.  verdade que no deixei ir o Polyphemo com um
s olho, no artigo _oramento_; que deixei escorregar a mo, s vezes
sem querer, no modo por que tratei os meus amigos medicos, a medicina e
a botica, que Deus afaste da minha porta por todos os seculos dos
seculos, amen; que escovei soffrivelmente a poesia e a politica; e que
fui asss sincero com as mulheres... Porm nada d'isso vos auctorisa
para me impingirdes filhos alheios. Que se aguente cada Joo Fernandes
d'esta terra com os seus feitos. O meu  este. Vanglorio-me d'elle; e,
attendendo a que no convem alargar mais o cavaco, declaro-o a ultima
palavra da sciencia, e recommendo-vos que o elogieis com alma, se no
quizerdes fazer m figura passando por ignorantes em materia de gosto.

No fim d'este discurso recrudesce o enthusiasmo, repetem-se os vivas e
quebram-se  pedrada as vidraas de todos os livreiros que no teem
o _Diccionario_  venda. O auctor, enternecido com essas demonstraes,
diz modestamente, comeando a fazer a barba a si:

--J vem que no sou dos taes Joes Fernandes de tres ao vintem...

--No--acodem os fanatisados;-- dos de pataco!

--Macanjo.--rosna um patife que no gostou do livro.

--Olhem esse maroto que est a dizer mal de mim!

--Quem foi?!

--Que  d'elle?!

--Calumniador!

--Invejoso!

--Vibora damnada!

E a multido invade a casa do auctor, pga n'elle e passeia-o em
triumpho pela cidade, com meia cara rapada, e a outra meia com barba de
tres centimetros coberta de espuma de sabo. Este pormenor commove o
resto da populao de Lisboa, que segue immediatamente o triumphador.

Ouve-se grande algazarra nas livrarias e vendem-se dez mil exemplares da
obra em dez minutos. Vendo este successo, o tal sujeito, que fallra em
macanjo, chega-se ao p do auctor e diz-lhe, fulo de raiva:

--Eu chamo-me a critica... e vou fazer-te o resto da barba.

--Pois faze, mas compra o livro.

O povo, que percebe a cousa, salta por cima da critica, esborracha-a e
esgota o resto da edio--outros dez mil exemplares!

Joo Fernandes volta rico para casa, e grita de longe  familia:

--Dei-a em cheio! Posteridade, s minha!

E cae o panno.


FIM




ERRATAS

Necessrio aplicar!!!!!!


LISBOA

IMPRENSA NACIONAL

1878





End of the Project Gutenberg EBook of Diccionario de Joo Fernandes, by 
Francisco Gomes de Amorim

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DICCIONARIO DE JOO FERNANDES ***

***** This file should be named 34718-8.txt or 34718-8.zip *****
This and all associated files of various formats will be found in:
        http://www.gutenberg.org/3/4/7/1/34718/

Produced by Pedro Saborano

Updated editions will replace the previous one--the old editions
will be renamed.

Creating the works from public domain print editions means that no
one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
(and you!) can copy and distribute it in the United States without
permission and without paying copyright royalties.  Special rules,
set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark.  Project
Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
charge for the eBooks, unless you receive specific permission.  If you
do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
rules is very easy.  You may use this eBook for nearly any purpose
such as creation of derivative works, reports, performances and
research.  They may be modified and printed and given away--you may do
practically ANYTHING with public domain eBooks.  Redistribution is
subject to the trademark license, especially commercial
redistribution.



*** START: FULL LICENSE ***

THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK

To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
distribution of electronic works, by using or distributing this work
(or any other work associated in any way with the phrase "Project
Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
Gutenberg-tm License (available with this file or online at
http://gutenberg.net/license).


Section 1.  General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
electronic works

1.A.  By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
and accept all the terms of this license and intellectual property
(trademark/copyright) agreement.  If you do not agree to abide by all
the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B.  "Project Gutenberg" is a registered trademark.  It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement.  There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement.  See
paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D.  The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work.  Copyright laws in most countries are in
a constant state of change.  If you are outside the United States, check
the laws of your country in addition to the terms of this agreement
before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
creating derivative works based on this work or any other Project
Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
the copyright status of any work in any country outside the United
States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
copied or distributed:

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.net

1.E.2.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
and distributed to anyone in the United States without paying any fees
or charges.  If you are redistributing or providing access to a work
with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
1.E.9.

1.E.3.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
terms imposed by the copyright holder.  Additional terms will be linked
to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
permission of the copyright holder found at the beginning of this work.

1.E.4.  Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
License terms from this work, or any files containing a part of this
work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.

1.E.5.  Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
electronic work, or any part of this electronic work, without
prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
active links or immediate access to the full terms of the Project
Gutenberg-tm License.

1.E.6.  You may convert to and distribute this work in any binary,
compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
word processing or hypertext form.  However, if you provide access to or
distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.net),
you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
form.  Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7.  Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.8.  You may charge a reasonable fee for copies of or providing
access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
that

- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
     the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
     you already use to calculate your applicable taxes.  The fee is
     owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
     has agreed to donate royalties under this paragraph to the
     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
     must be paid within 60 days following each date on which you
     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
     address specified in Section 4, "Information about donations to
     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
your equipment.

1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.net

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
