The Project Gutenberg EBook of Noites de Cintra, by Alberto Pimentel

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Title: Noites de Cintra

Author: Alberto Pimentel

Release Date: December 22, 2010 [EBook #34719]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE CINTRA ***




Produced by Pedro Saborano





    Notas de transcrio:

    O texto aqui transcrito,  uma cpia integral do livro impresso em
    1908.

    Foi mantida a grafia usada na edio original de 1908, tendo sido
    corrigidos apenas pequenos erros tipogrficos que no alteram a
    leitura do texto, e que por isso no foram assinalados.




             COLLECO ANTONIO MARIA PEREIRA--17. Volume


                            NOITES DE CINTRA




                            ALBERTO PIMENTEL

                                NOITES

                                  DE

                                CINTRA

                   (2. edio, revista pelo auctor)


                                 1908
                    PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA
                           LIVRARIA EDITORA
                        _Rua Augusta--44 a 54_
                                LISBOA



                  COMPOSTO E IMPRESSO NA TYPOGRAPHIA
                                  DA
                    Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA
                       _Rua Augusta--44 a 54_
                                LISBOA




I


Eramos dez, e tinhamos combinado, por desfastio, ir a Cintra, na
primavera, ouvir os rouxinoes.

Parecer menos inverosimil este pretexto, quando se disser que todos,
ento reunidos em Lisboa, haviamos nascido na provincia, onde as volatas
dos rouxinoes dulcificaram as nossas primeiras noites de amor, e que o
mais velho de ns tinha trinta e sete annos apenas.

Ainda assim, como prova involuntaria de que o melhor da nossa vida era
j ento o passado, no foi approvado o projecto sem uma correco
prosaica. Sim, iriamos ouvir os rouxinoes a Cintra, visto que elles no
costumavam fazer-se ouvir nas ruas de Lisboa, mas temperariamos esse
devaneio romantico com as queijadas da Sapa, as laranjas do visconde da
Arriaga, e o _Collares_ do conselheiro Francisco Costa.

Como o mais novo de todos era o Gonallinho Jervis, em cujo espirito
bailavam ainda pagens e castells n'uma chorea medieval, e em cujo
corao ardiam fogos de poetico platonismo, mettemol-o  galhofa
convidando-o a procurar na serra de Cintra um cabello da barba que
Bernardim Ribeiro haveria arrepellado ao vr partir a frota com a
infanta D. Beatriz.

Para falar verdade, nenhum de ns tinha grande confiana na realisao
de to extravagante projecto, mas sobejou-nos motivo para o applaudir,
porque durante mais de dois mezes nos forneceu alegrissimo assumpto
sempre que nos juntavamos todos ou pelo menos alguns.

Deviamos partir em abril, segundo o programma primitivamente approvado
em assembla geral. No fomos, e acreditavamos j que no iriamos,
quando uma noite, no _Martinho_, resolvemos partir a 20 de maio.

O Vasconcellos, muito habituado a viajatas, ficou encarregado de alugar
o _char--bancs_, e elle proprio me disse  puridade que tal no faria
seno  ultima hora, porque duvidava que se realisasse uma excurso
dependente do accordo de dez pessoas, todas ellas mais ou menos atarefadas.

Como se tratava, porm, de um divertimento, de uma _partie de plaisir_,
como lhe chamava o Leotte, aconteceu que,  hora marcada, apenas faltou
um, o Callixto, cuja falta, alis, foi tida como de bom agouro, visto
chamar-se elle Callixto.

Tivemos que esperar  porta do Passeio Publico, que era o ponto de
reunio, _rendes-vous_ dizia o Leotte, que o Vasconcellos fosse alugar o
_char--bancs_, sendo entretanto votada uma moo de censura a este
nosso amigo pela falta de confiana que a communidade lhe inspirava. Eu,
por estar na posse do segredo, abstive-me de votar. Um Cato!

Partimos. Aquillo foi como se todos atirassemos canseiras e trabalhos
para traz das costas. Os palacios do Passeio Publico estremeceram nos
alicerces, sacudidos por um tufo de alegria. A passarinhada fugiu das
arvores precipitadamente, como se ouvisse troar uma pea de campanha. A
policia no estava accordada ainda; se fosse um pouco mais tarde,
deitava-nos a mo. E affirmava o Vasconcellos que tinha visto as figuras
do Tejo e Douro dizerem-nos adeus de dentro do Passeio, muito rapioqueiras.

--Nunca, dizia o Leotte, nunca se fez uma _partie de plaisir_ to
honesta. Nove homens... apenas!

--Querias mais! replicava o Vasconcellos fazendo-se desentendido. No
cabiam c. Olha o pobre Gonallinho, o nosso doce pagem, que teve de ir
na almofada ao p do cocheiro. Onde querias tu metter mais gente, 
Gonallinho?!

--Que  l? respondia elle do alto da almofada.

--Vaes a fazer versos?

--Ainda no. Mas j planeei um conto. Este ar de primavera 
deliciosamente suggestivo. Vocs vero que a minha ideia no  de
todo m. Chamar-se-ha _A primeira entrevista_.

--Has de contal-a em Cintra, gritei eu.

--Pois sim, respondeu o Gonallinho, morto, como todos os novatos, por
divulgar as suas composies.

--Em Cintra, alvitrou o Vasconcellos, sempre o mais auctoritario de
todos, cada um de ns ha de contar  noite uma historia. V feito?

--Menos eu, protestou o Athayde, que era empregado na Junta de Credito
Publico. Eu s estou habituado a contar... _contos de ris_.

--Isso  modestia. No pga.

--Has de contar, intimou o Leotte, aquelle caso do principe das Caldas
de Vizella, que uma noite te ouvi no Gremio.

--Ah! esse era o principe Piratinino.

--No  um conto... _de ris_; mas  um conto de principe. Bem, j temos
dois contos, disse eu.

--E tu, propoz o Athayde, dirigindo-se a mim, tu, que andas sempre com
as mos na massa,  que has de abrir o torneio.

--Pois seja, com a condio de que onde se l _massa_ se leia _maada_.

--Leia-se l o que tu quizeres. Mas olhem vocs, observou o
Vasconcellos, que  preciso matar de algum modo as noites de Cintra, que
so to grandes como as de Lamego. Em Cintra s devia haver dia. As
noites so frias e humidas. Vocs o sentiro.

--Queres ento ouvir rouxinoes ao meio dia?

--Os rouxinoes so o menos...

--Pois no viemos ns para os ouvir?

--Ns viemos para gosar a liberdade que no temos habitualmente, e a
alegria que principia talvez a fugir-nos. Viemos tomar um banho de
oxygeneo. Elle  bem mau!

--Que vo vocs a dizer? perguntou da almofada o Gonallinho.

--Foi o Vasconcellos que fez uma proposta para supprimirmos do nosso
programma os rouxinoes.

--No! nunca! protestou o Gonallinho. De mais a mais tem vindo a
dizer-me o cocheiro que os rouxinoes so aos centos na varzea de Collares.

--Tudo se pde conciliar, sentenciou o Vasconcellos. Ouviremos os
rouxinoes e os contos. Mas vamos ao lado pratico do assumpto. Quantos
dias se querem vocs demorar?

--Eu, cinco dias, o maximo.

--E eu.

--V l, e  de mais.

--Oh! incomprehensivel alma portugueza! exclamei eu. J estragamos a
nossa alegria. Ainda no chegmos, e j tratamos do regresso! Se aqui
fossem nove francezes...

--Ou quatro portuguezes e cinco francezas... reticenciou o Leotte,
sempre propenso ao eterno thema feminino. Lembrem-se vocs da historia
do nosso amigo conde, quando esteve nos Pyreneos. Ao menos l no lhe
faltavam mulheres!

-- verdade!  Leotte, tu has de contar a historia do conde. Tem graa!
j t'a ouvi uma vez.

--Vamos ao lado pratico, insistiu o Vasconcellos. Almo, a que horas?

--s onze.

--E jantar?

--Jantar s seis.

-- melhor s sete.

--Tratem vocs de fazer as noites pequenas. Olhem que so o peor que ha
em Cintra.

--Jantaremos ento s sete.

--Isso  melhor. E de dia ou  noite, sentados em Collares, em Seteais
ou nas cadeiras do _Victor_ iremos contando o nosso _Decameron_,
respirando um bom ar, e um pouco de alegria, pelo menos...

O _Decameron_! exclamou o Leotte. Sabem acaso vocs que os fugitivos da
_peste negra_ de Florena eram sete mulheres e tres homens? Isso
comprehende-se.

-- diabo! cala-te l com essa chorata pelas mulheres! replicou o
Vasconcellos. Pde ser que o acaso te depare em Cintra alguma boa fortuna.

--N'este tempo! objectou, desconsolado, o Leotte. Se fosse no vero!

--O vero tambem tem seus inconvenientes. Ha mais espies, mais fiscaes
da moralidade publica. Leve o diabo tristezas. Toca a divertir, rapazes.

--Olhem l! gritou o Gonallinho.

--Que ?

--Parece-me que j architectei outro conto.

--O que  ento?

--_A morte do bibliophilo._

--Vejam vocs, disse o Vasconcellos, o que so os poetas portuguezes.
Vae aqui um rapaz, na flr dos annos, cheio de imaginao, em caminho de
Cintra, a pensar na morte da bezerra ou do bibliophilo, que o leve!

Rimos todos. E o proprio Gonallinho, que ouviu o reparo, desatou a rir
na almofada.

Quando apeamos  porta do _Victor_, estavamos mais ou menos acabrunhados
pela fome.

--Por S. Thiago, e aos bifes! berrou o Vasconcellos.

E o Victor, muito mesureiro, muito amavel:

--Elles ho de estar menos maus.




II


O almo foi uma devastao, uma hecatombe.

Dizia o Vasconcellos que assim era preciso, visto que s se tornava a
almoar... no outro dia.

Quando samos do hotel eram quasi tres horas. O que se faria? Por onde
se comearia? Os fumos capitosos do almo accenderam brios quixotescos
no espirito da maioria dos nove. A burro e  Pena! era o grito do
Vasconcellos, reforado por mais cinco ou seis vozes.

--Mas isso  a semsaboria de toda a gente! disse o Gonallinho.

-- meu tolo! replicou com vivacidade o Vasconcellos. Querias talvez
fazer versos com o estomago cheio de biffes! A burro e  Pena! insistiu.

Os burriqueiros, que nos tinham feito um verdadeiro crco,
largaram a correr para ir buscar os burros.

Emquanto esperavamos, dizia-me em tom de confidencia o Leotte:

--J perguntei no _Victor_, e no ha l hospeda nenhuma. Mas ha criadas,
ao menos.

E d'ahi a pouco dizia-me o Gonallinho, tambem em tom de confidencia,
muito contemplativo, olhando para o castello da Pena e para o arvoredo
da encosta:

--Como isto  bello!

A burricada  Pena foi, como sempre acontece, uma esturdia hilariante,
cheia de episodios comicos. Quando o burro no caa, caa o cavalleiro;
e as mais das vezes caam ambos.

N'essa folia, que teve muito de carnavalesca, o tempo fugiu
despercebido, as horas voaram. Ao fim da tarde, mergulhados n'um
verdadeiro banho de aromas primaveris, estavamos ns sentados junto ao
_Chalet de Madame_, quando o Vasconcellos alvitrou auctoritariamente:

--Agora, sim senhor. Agora  occasio propicia de darmos principio ao
nosso _Decameron_. Tem a palavra o sr. Fulano, como se combinou.

Era eu. Pois no houve meio de resistir.

--Ora ento, senhores e...

--Senhoras no ha infelizmente! exclamou o Leotte.

--Peo atteno, que eu principio.

E principiei.

--O morgado de Muxagata, ou simplesmente o _Muxagata_, como elle era
conhecido ha vinte annos no Porto, tinha solar a onze leguas de Lamego,
na aldea d'aquelle nome.

Por setembro apparecia na Foz do Douro com uma coudelaria inteira, que
lhe permittia variar de cavallo seis vezes por dia. Gostava d'isso, e
lisonjeava-se de que as mulheres viessem  janella alarmadas pelo tinido
aspero das ferraduras nos burgaus da rua Direita e de Cima-de-Villa.

Era, de resto, um typo de classe, porque nas praias de Portugal no se
perdeu ainda o molde do morgado de provincia com manhas de picador e
boleeiro.

Ha sempre um para amostra.

Todos os dias ia banhar os cavallos  praia dos Inglezes, que era a
menos frequentada. Gastava duas horas n'esse trabalho, e elle proprio
era o banheiro dos seus animaes que,  fora de acicates, acabavam por
investir com a onda.

O Muxagata encharcava-se dez vezes em cada manh desde os ps at aos
hombros.

Sentia-se satisfeito com essa maada quotidiana, que sempre attraa
alguns espectadores. E todo o seu orgulho consistia em saber-se nomeado
como o melhor p de estribo e a melhor mo de rdea que ginetava na Foz.

Eu vi-o pela primeira vez na rua Direita, n'um predio fronteiro  rua
Bella.

Morava eu ali perto. Sabia-se que vinha para aquella casa o Muxagata, e
um bello dia comearam a chegar criados e cavallos. No outro dio
chegaram cavallos e criados. No terceiro dia chegaram criados, cavallos,
e palha.

Ao quarto dia correu voz de que chegaria o morgado.

Os criados e criadas, todos elles atexugados de bom presunto da
Gralheira, fizeram o jantar para s. ex.

Mas s. ex. no chegou.

No dia seguinte fez-se novo jantar para s. ex.

E s. ex. no chegou ainda n'esse dia.

O grande Muxagata principiava a ser um mytho para muitos banhistas da
rua Direita e travessas affluentes.

Chega o Muxagata! No chega o Muxagata!  noite, os criados, vendo que o
patro j no chegava n'esse dia, comiam o jantar que estava preparado
para elle.

Passou assim uma semana.

Na segunda-feira seguinte sentiu-se ruido  porta do Muxagata. Foi muita
gente s janellas. No era elle, mas um novo cavallo que chegava. Uma
belleza de estampa, que os criados estavam admirando em circulo  porta
da cocheira. Soube-se a historia do animal. Muxagata j estava no Porto,
e havia comprado aquelle bello exemplar _pur sang_ ao Crte Real de Traz
da S por tresentas libras.

Finalmente,  noite, chegou o Muxagata com o Henrique da Perzigueda e
outros amigos. Vinham a p, todos de esporas e chicote. E antes de
subir, foram  cocheira examinar os cavallos.

Vi o Muxagata. Era alto, forte, moreno: farto bigode preto, e pera.
Foram jantar. O Ricardo Brown, o Crte-Real e outros _sportmen_ caram
logo l. Depois do jantar, houve jogo. Sentia-se tinir dinheiro. Era o
_monte_. Muxagata, depois das libaes do jantar, gostava de fazer o seu
berlote.

Aquillo devia ter acabado noite velha. No dia seguinte, s 7 horas, j o
Muxagata estava na praia dos Inglezes a dar banho aos cavallos.

Varias pessoas foram vr. Outras deixaram-se ficar na praia do Caneiro 
espera dos dois melhores espectaculos que os _mirones_ apanhavam: o
banho do fidalgo Padilha, que entrava no mar preso por uma corda, e o
banho da Cacilda, filha do banheiro Leo, que nadava para o mar largo.

Foi pelo Henrique da Perzigueda, o qual eu vi morrer annos depois n'um
sto da rua de S. Joo Novo, que travei relaes com o Muxagata.

Eu tinha os meus dezoito, e lisonjeava-me de que o Muxagata, a flr dos
_sportmen_ da Foz, me tratasse mano a mano.

Quando elle descia a cavallo a explanada do Castello, sendo admirado no
seu garbo de cavalleiro pelos hospedes do _Hotel da Boa Vista_, dizia-me
adeus com o chicote, e eu parava muito ancho, dando-me ares de
entendedor, at o vr exhibir-se no Passeio Alegre, em frente da casa
acastellada dos Maias da rua das Flores, porque ahi era certo passar s
upas.

Havia sempre senhoras no balco de pedra, que tinha um toldo listrado de
branco e escarlate.

Mezes depois correu fama de que o Muxagata havia raptado uma menina de
Lamego. Falava-se que os irmos d'ella o queriam matar. Mas no morreu
ninguem. Em todo o caso o Muxagata deixara o seu solar e viera
estabelecer residencia no Porto, na rua das Fontainhas, com a sua bella
raptada. A historia do rapto augmentra-lhe a nomeada de fidalgo
extravagante. Algumas vezes vi o Muxagata a cavallo ao lado da famosa
lamecense, vestida de amazona. Iam ordinariamente  Foz por Lordello do
Ouro; voltavam por Miragaia.

Quando recolhiam ao cair da noite pela rua das Flores, os lojistas,
sentindo o tropel dos cavallos, vinham  porta. O escandalo d'aquella
mancebia publica indignava-os; no obstante, cumprimentavam risonhamente
o Muxagata, que era bom freguez dos ourives e dos mercadores de pannos.

Na casa das Fontainhas havia batota todas as noites. Criados de casaca e
leno branco serviam o ch. D. Christina, a bella de Lamego, jogava como
um homem entre os homens.

_Saltava_ nos valetes, e _fazia cerco_ s quinas.

Ella odiava os valetes, dizia. Na sua confiana nas quinas mostrava-se
uma boa portuguesa de Lamego.

Vestia bem: rendas, flores e joias. As joias explicavam os cumprimentos
dos ourives da rua das Flores ao Muxagata.

Usava o cabello apartado ao lado, com duas _bellezas_. Chamava-se
_bellezas_ aos anneis de cabello empastados sobre a fronte. Coisa
tentadora, que desappareceu da circulao.

-- verdade! obtemperou o Leotte.

Prohibiram-lhe que interrompesse.

O p de arroz, continuei eu, era ainda considerado como um _deboche_ de
_toillette_. D. Christina punha muito p de arroz na face, no collo e
nas mos, especialmente nas mos.

Tinha predileco pela essencia de violeta. Ora os perfumes eram
n'aquelle tempo outro _deboche_ de _toilette_. As mulheres no cheiravam
a nada ou cheiravam mal.

Podem vocs admirar-se de que uma mulher de Lamego se avantajasse dez
annos s outras portuguezas em _mise-en-scne_ de _coquettismo_. D.
Christina tinha pendor natural para a vida espectaculosa. Estas
aberraes no so das terras; so dos temperamentos. Uma patricia dos
presuntos de Lamego pde nascer to _coquette_ a dois passos da serra da
Gralheira, quanto uma creatura nascida entre os jardins de Harlem
pde sair brutalmente apresuntada por fra e por dentro.

De mais a mais o Muxagata, tendo-lhe conhecido a bossa,
desenvolvera-lh'a. Educra-a como amante. O idillio de contrabando
precisa ganhar em aperitivos acirrantes o que naturalmente lhe falta em
tranquillidade sincera. As amantes so actrizes de um palco em que se
representa a comedia do amor; as esposas so as sacerdotisas de um culto
domestico, que se faz valer por si mesmo. A differena  grande. D.
Christina tomava a srio o seu papel de actriz, e esforava-se por que
nos applausos do publico entendido reconhecesse o empresario a
conveniencia das aptides theatraes da artista.

Rodaram mais dois annos.

A casa da rua das Fontainhas continuava a ser o _rendez-vous_ dos
estroinas do Porto. Falava-se de perdas e lucros fabulosos na batota do
Muxagata, que fazia concorrencia  do D. Marcos. Muxagata galeava ainda
o mesmo luxo de cavallos, em competencia com o Ferreirinha; e a mesma
pompa de fatos exoticos  porfia com o Ricardo Brown, porque ambos
appareciam s vezes de collete vermelho com botes de ouro.

Dizia-se porm que a casa de Muxagata estava empenhada. O milho, sua
principal colheita, no chegava para tanto. O vinho no era muito.
Legumes, hortalias, amendoas, sumagre, eram em grande quantidade,
mas produziam pequenas receitas. A casa cobrava muitos fros, n'uma e
outra margem do Douro, desde Lamego at Entre-ambos-os-rios, mas andavam
atrazados.

Um dia deu-se pela falta do Muxagata. Correu que tinha ido apurar
rendimentos, que se ficavam por mos de caseiros e foreiros remissos.
Assim fra, effectivamente. O Muxagata estava no seu solar ou por ahi
perto. D. Christina continuava a habitar a casa da rua das Fontainhas.
No saa a p nem a cavallo.

Pelo tempo das colheitas a minha familia ia para uma quinta no concelho
de Sinfes. No fim de setembro fazia-se a feira do Escamaro, que mettia
os pimpes de muitas leguas em redor: o Nascimento pae, o Tameiro, o
fidalgo da Cardia, o Jos Ignacio de Covas, e outros.

Eu tinha que matricular-me nas aulas do Porto. Propunha-me estudar
introduco aos tres reinos, da natureza, como ento se dizia, com o dr.
Almeida Pinto. Fui para a feira, e d'ahi devia embarcar para o Porto, em
companhia do meu condiscipulo Alfredo Leo.

A feira abrira muito animada. O feminino montesinho concorrera em
abundancia. De morgados havia para cima de um quarteiro. E de ourives
do Porto estavam armadas sete barracas. Comia-se, bebia-se, batoteava-se
 grande. As melancias tinham, como refresco, um consumo extraordinario.
O regedor Antonio Pedro, emquanto os cabos de policia dormiam 
sombra das arvores, _micava_ no rei.

Creio que foi o Tameiro que deu a boa nova de que o Muxagata estava na
feira. Disseram-m'o. No meio da minha tristeza por ter que partir para o
Porto, agradou-me a noticia. Fui procural-o.

--Que sim; que estava ali para cima a jogar.

--Mas que veiu elle c fazer?

--Anda aos fros. Quer dinheiro.

N'isto fui abruptamente interrompido pelo Vasconcellos:

--Meninos, apostrophou elle, olhem que a Pena j comea a pr o seu
barrete de nevoa.  a _toilette_ de noite. Vamos indo para baixo. Depois
de jantar se acabar o conto.

--Depois de jantar vamos ouvir os rouxinoes, atalhou o Gonallinho.

--Isso  l como quizerem. Que no esquea o fio da historia. O Muxagata
estava na feira e queria dinheiro--como eu.

--Como ns todos! gritaram uns poucos.

--A burro e ao jantar! commandou o Vasconcellos.




III


-- filho! pelo amor de Deus! deixa os rouxinoes para manh, dizia o
Vasconcellos, depois de jantar, ao Gonallinho Jervis.

--Aqui da janella no se ouve nenhum! J estive  escuta.

--Pudera! Imaginavas ento que uma to poetica ave principiava a amar
logo depois das ave-marias, como um caixeiro que fecha a loja e vae
metter-se n'uma escada a gargarejar para defronte! Tem juizo,
Gonallinho. Para irmos a Collares ouvir os rouxinoes, precisavamos ter
prevenido os trens. Deixa isso para manh, e vamos  historia do Muxagata.

Assim foi resolvido por unanimidade... menos um. Era o Leotte, que foi 
cozinha recommendar que lhe puzessem lamparina no quarto: pretexto para
ver as criadas do _Victor_.

--Vamos l ao conto, ordenou o Vasconcellos: o Muxagata estava na feira.

--Estava effectivamente na feira, continuei, jogatinando com outros
morgados e alguns lavradores ricos de Castello de Paiva e Arouca, n'uma
casa humilde do Escamaro, que no as ha l melhores.

Como o jogo nivella todas as condies, os nobres e os ricaos abancavam
em familiar camaradagem, como se a uns valesse o direito do nascimento,
e a outros o do ouro. As mos de todos elles eram grandes e queimadas do
sol ou do cigarro. Lembrei-me, de repente, das mos finas e brancas de
D. Christina, polvilhadas de p de arroz. Que falta que ellas faziam
ali, as mos de Christina, para brilharem pelo contraste no meio
d'aquelle enorme conflicto de manapulas de granadeiros, que ora se
estendiam semeando dinheiro, ora se retraam recolhendo-o!

E pelo meu espirito passou a ida de que o Muxagata nem por sombras se
lembrava, n'aquelle momento, das mos patriciamente batoteiras da sua
bem amada de Lamego.

Fui injusto.

Uma hora depois, Muxagata punha ponto no berlote. Levantava-se da banca,
que por tal signal era de pinho, ganhando cerca de setenta libras.
Varios lavradores e outros morgados haviam perdido o valor das suas
juntas de bois e das suas varas de porcos. Quasi todos elles, os
morgados e os lavradores, estavam congestionados das repetidas commoes
do jogo. Mas o sorriso triumphal dos felizes principiava a calmar-lhes
as feies perturbadas. O Muxagata estava n'este caso. Irradiava-lhe na
face o lampejo aureo de setenta libras.

Foi depois de acabada a jogatina que elle me deu maior atteno.
Perguntou-me se me demorava na feira ou se recolhia  noite. Disse-lhe
que, a meu pesar, partia duas horas depois para o Porto, por causa das
matriculas.

--O que?! exclamou elle. Voc vae para o Porto?!

Os seus olhos accusavam uma certa satisfao, que esta noticia lhe causra.

Respondi affirmativamente.

--Muito bem. N'esse caso ha de fazer-me um favor: levar quarenta libras
 D. Christina, que, coitada! deve estar muito precisada de dinheiro.
Mas, meu rapaz, pontualidade de cavalheiro: as quarenta libras sero
entregues logo que voc chegue ao Porto. E em tom de maior confidencia:
Eu suspeito at que ella e a pequena (referia-se a uma filhinha de dois
annos) no tero tido que comer.

Esta revelao causou-me triste surprsa: caiu como um raio fulminador
sobre as roseas illuses que eu nutria relativamente ao romance dos raptos.

Pois que?! pensei.  ento para no ter talvez que jantar que uma
mulher, bem nascida e formosa, abandona o seu farto lar paterno,
perdendo todo o direito  estima da familia e ao respeito da
sociedade?! Os poetas d'aquelle tempo costumavam dizer:--O teu amor e
uma cabana. Mas a realidade parecia ir muito mais longe do que os
poetas, porque, comquanto a casa das Fontainhas no fosse propriamente
uma cabana, o que era certo, pela inesperada revelao do Muxagata, era
que no havia l que comer! E depois se eu no tivesse apparecido ali
n'aquelle dia e n'aquella hora, D. Christina e a filha ver-se-iam
condemnadas a soffrer por mais algum tempo ainda as suas duras
privaes?! E o esplendor da casa das Fontainhas, os criados de casaca e
leno branco, os cavallos do passeio at  Foz, as joias e as rendas de
D. Christina era tudo isso a mascara ficticia da pobreza, o ouropel
postio da ruina, que esperava os acasos felizes da batota para ter po
na mesa e p de arroz nas mos?!

Eu estava assombrado por todos estes pensamentos que em tropel se
precipitavam no meu espirito, e no sabia se devia rir-me da comedia do
mundo, se chorar das desgraas e dos raptos alheios.

 hora marcada, o barco rabello do Ramiro descia mansamente o Douro e
abicava ao areio do Escamaro. Alfredo Leo fazia as suas despedidas. Eu
recebia as quarenta libras do Muxagata, e saltava para dentro do barco.
Momentos depois o lenho da _espadella_ rangia, os remos chiavam na
madeira secca das cavidades que n'aquella especie de barcos
substituem as forquilhas, e ns desciamos o Douro deslisando sobre a
grande serenidade das aguas, que montanhas ridas e alcantiladas
marginavam silenciosamente.

Impressionou-me o contraste d'essa placidez austera com a realidade
turbulenta das paixes humanas.

E quando a noite comeou a cair dos cerros alterosos, que rara casa
branca povoava, eu tinha envelhecido moralmente vinte annos.

Chegamos ao Porto cerca da meia noite. Desembarcamos no caes da Ribeira,
que nunca me pareceu mais triste do que n'essa hora. Subimos os dois a
rua de S. Joo, entramos na rua das Flores, ambos muito solitarios, mas
ao chegarmos ao largo da Feira de S. Bento encontramos dois estudantes
do lyceu que, tendo andado  tuna, se dirigiam viciosamente para a
batota do D. Marcos em Cima de Villa. Convidaram-nos a seguirmol-os. Eu
alleguei que tinha de ir  rua das Fontainhas entregar o dinheiro a D.
Christina.

Responderam-me que quella hora j D. Christina estaria, como todas as
mulheres, raptadas ou no, dormindo profundamente n'um poo de virtude.

Que embora, respondi. Iria bater  porta para lhe levar o ouro da perdio.

Pois sim, que fosse, mas que no me custava nada passar cinco minutos
pela batota do D. Marcos.

Fomos. Do dinheiro que eu tinha para despsa de matriculas, livros e
hospedagem, perdi quatro mil ris instantaneamente. Fiquei sobreexcitado
com a perda; sedento de desforra. Tive, confesso-o, o pensamento de ir
jogando todo o dinheiro que trazia at abrir brecha na banca. Queria uma
vingana formidavel. Mas quando eu estava n'esta tortura, hesitante
entre a febre e a honra, um brao invisivel, fosse o pulso do anjo da
guarda ou o impulso da consciencia, como que me arrastou para fra, no
sem que os ps se me pegassem ao soalho.

Nunca me custou tanto ser homem de bem.

Corri  rua das Fontainhas. Surprehendeu-me vr luz na escada e nas
janellas. E dizerem os outros que D. Christina dormiria quella hora
como um poo de virtude! Bati. Um criado de casaca e leno branco, o
Miguel, veio abrir.

Que sim, que a senhora estava a p, ceando, e que tambem l estava o sr.
Antonio Falco, do Marco.

Embuchei. Pois a indigencia que o Muxagata me havia annunciado
refestelava-se, depois da meia noite, n'uma ceia a dois, servida pelo
Miguel de casaca e leno branco?!

Pois as consequencias deploraveis do rapto, o quadro negro da fme
transmudavam-se n'essa orgia de bacchante perdularia, em que o Antonio
Falco do Marco era conviva suspeito?!

E emquanto subia as escadas envelheci moralmente outros vinte annos.

A mesa da ceia resplandecia de loias e cristaes. As joias de D.
Christina no resplandeciam menos do que os cristaes e as loias. E ella
propria, na sua belleza acirrante, resplandecia mais que tudo aquillo.

Disse-lhe eu que era portador de uma encommenda para ella. No ousei,
por uns restos de pudor, dizer que a encommenda eram quarenta libras. D.
Christina perguntou quem mandava a encommenda. Esta pergunta foi a minha
ultima surpresa. De quem poderia ella esperar encommendas depois da meia
noite? Ri-me para dentro, no obstante parecer-me que a pergunta, sendo
muito melindrosa para o Muxagata, no o deixava de ser tambem o seu
tanto ou quanto para mim.

Que era o morgado quem mandava... aquillo.

D. Christina no levou a sua impudencia at ao ponto de perguntar qual
morgado era esse. Entendeu ou fingiu entender que seria o Muxagata.

--Como est elle? perguntou.

Eu respondi com alguma atrapalhao, que parecia troa:

--Bom. Muito obrigado.

E, do lado, o Falco do Marco:

--Esse diabo de homem j se no lembra de ns, nem da filha! Nunca vi
uma cabea assim! Em tendo cartas e _pontos_ no quer saber de mais
nada! Pois j tinha motivos para ter juizo! Nem uma carta tem escripto 
D. Christina, que estaria para aqui ssinha com a pequena, se no
fosse eu!

Levantei-me, puz as quarenta libras, descaradamente,  borda da mesa,
sobre a toalha.

--Ah!  dinheiro! disse D. Christina cortando esquirolas de marmellada.

--So quarenta libras, respondi.

--Pois ento faa-me o favor de lhe mandar dizer que ficaram entregues.

--Perdo! repliquei com certa rudeza. A sr. D. Christina vae escrever
isso mesmo n'um bocado de papel, que eu mandarei ao morgado.

--Sim... farei isso. Mas primeiro acompanhe-nos a cear.

Agradeci, rejeitando. Ento D. Christina disse ao Miguel que lhe
trouxesse papel e lapis. E escreveu em lettra de collegial:

_Recebi as quarenta libras._

_Tua do corao_

_Christina._

Mais nada.

Sa, e respirei com soffreguido a brisa fresca do Douro, que soprava do
Passeio das Fontainhas. Uma tenue nebrina emplumava as arvores que
ladeiam a rua. E eu, de mos nas algibeiras, entregava-me dolorosamente,
calada acima, a esta cruel philosophia: Onde hei de ir arranjar os
quatro mil ris que perdi?!

Soube pela manh que os outros tinham continuado a jogar, e ganharam.

Ora no decurso de dois annos succederam cousas que seriam espantosas se
no fossem humanas.

D. Christina passou definitivamente do Muxagata, quando o sentiu
irremediavelmente arruinado, para o Falco do Marco, que por sua vez se
arruinou tambem.

A lei de 1863 extinguiu os vinculos em Portugal, mas os ultimos
exemplares da raa privilegiada dos morgados ainda hoje florecem, entre
as Christinas indigenas, nas praias de Portugal, em proesas tradicionaes
de batota, de femeao e de gineta.

No inverno os mais d'elles desapparecem no fundo dos seus solares
cultivando as batatas, que no vero seguinte ho de resuscital-os. O
morgado nacional, depois que a phylloxera lhe comeu as vinhas, ficou
reduzido s batotas.

Mas o Muxagata foi a phylloxera de si mesmo: comeu logo de uma vez as
vinhas e as batatas. Como todo o bom morgado, conservou, ainda na
pobreza, o seu enthusiasmo pela equitao. E no tendo j cavallos para
montar, cavalgava, ao longo dos vastos corredores no ruinoso solar de
Muxagata, n'um cabo de vassoura. Um bello dia morreu, e no foi por
desastre do seu ultimo cavallo... de pau.

_Finis, laus Deo_, perorei.

O Leotte, que tinha voltado  sala e ouvido o final da historia, perguntou:

--Da D. Christina nunca mais soubeste!

Expludiu uma gargalhada geral.

--Ol! exclamei. Que novas nos trazes da tua explorao?

--Por ora... nada. Mas opportunamente farei o meu relatorio.

--Pois o mesmo no posso eu prometter a respeito da D. Christina. Nunca
mais soube d'ella.

--E da filha o que foi feito? perguntou sentimentalmente o Gonallinho.

--Tambem no sei. Se viver deve ter agora os seus dezenove annos.

--Como era o nome todo do Muxagata?

--Nunca lh'o soube. Por morgado de Muxagata era que toda a gente o
tratava.




IV


--Ento, se no vamos ainda hoje ouvir os rouxinoes, tambem eu quero
contar o meu conto, disse o Gonallinho Jervis.

--Sim, senhor, concordou o Vasconcellos.

--Mas qual dos dois contos que nos annunciaste pelo caminho? perguntou o
Athayde.

--_A Primeira entrevista._ Tenho porm a prevenir o respeitavel publico,
para evitar uma pateada, que o meu conto, ao contrario da historia do
Muxagata, no aconteceu nunca.  uma phantasia que s poderia ter-se
dado no paiz azul dos sonhos...

--Ditosa idade em que se pensam essas tolices! exclamou o Vasconcellos.

--Mau! protestou o Gonallinho. _Se ralhas, no conto._

--Tem a palavra o poeta, que poder sonhar  vontade sem que ninguem o
interrompa.

Fez-se silencio. E o Gonallinho, romanescamente, depois de ter mettido
os dedos pelo cabello para levantar a gaforina, usou da palavra:

--Custou muito--disse, elle--a planear a primeira entrevista. Era
preciso illudir a vigilancia de tanta gente, inventar tantas mentiras,
saltar por cima de tantos embaraos! Mas, finalmente, o programma,
laboriosamente organisado, tinha sido acceito pela credulidade das
pessoas que se lhe poderiam oppr. Ainda assim, Fanny no ficou
inteiramente tranquilla. Durante os dias que medearam entre o da
elaborao do programma e o da entrevista, andava desconfiada, escutava
pelos corredores receosa de que falassem d'ella, parecia-lhe ouvir dizer
o seu nome e cochichar depois em segredo... O olhar das pessoas de
familia incommodava-a, como se todas essas boas pessoas tivessem
realmente a inteno de observal-a por desconfiana, de lr-lhe nos
olhos esse audacioso plano de uma entrevista no campo.

 verdade que ao mesmo tempo que se sentia atormentada de receios, de
vagos sobresaltos, pensava na delicia d'esse primeiro dia de liberdade
no amor, sem testemunhas, sem disfarces, sentada com _Elle_  sombra das
arvores, ouvindo cantar os passaros a sua cano de estio, vendo
doudejar no ar as borboletas de grandes azas coloridas, cujo vo
independente tantas vezes ambicionra...

Mas se um obstaculo imprevisto sobreviesse! Quanto esta ideia terrivel a
amargurava! A doena de uma pessoa de familia, a carruagem que podia
faltar, a chuva que poderia vir n'esse dia... Como isso era horrivel!
Mas Fanny lembrava-se, para tranquilisar-se, de que a fortuna ajuda os
audazes e de que, como premio  sua audacia, ouviria finalmente cantar
os passaros a sua cano de estio nas grandes arvores sombrias.

Toda a base do seu programma era essa velha desculpa, sempre acreditada,
a doena de uma antiga companheira de collegio, que est a ares no
campo, e  qual se quer dizer o ultimo adeus.

Fanny tinha effectivamente uma amiga de collegio, que estava tysica, e
como as duas familias se no visitavam, o pretexto pareceu-lhe
excellente, o segredo no viria a descobrir-se.

Mas se a pobre doente morresse antes do dia marcado para a entrevista? O
egoismo dos felizes no conhece limites: que morresse no dia seguinte, e
tudo seria pelo melhor. Morrer antes, deixar de soffrer menos alguns
dias, nem por pensamentos Fanny o queria admittir. E todavia, no
collegio, as duas amigas haviam sido muito dedicadas, mas o tempo
passra e s de longe a longe, de anno a anno talvez, se lembravam uma
da outra.

Com o corao de oratorio, como um condemnado que treme de todas
as sombras, que tem medo do rumor de todos os passos, Fanny esperou que
esse desejado dia chegasse.

Dormiu mal, somnos curtos e agitados. Parecia-lhe ouvir assobiar o vento
nas ruas, bater a chuva nas vidraas. Um temporal seria o maior de todos
os contratempos: no a deixariam sair, e, se deixassem, o campo estaria
encharcado, o idillio perderia muito do seu encanto, no poderiam
sentar-se os dois debaixo das velhas arvores ouvindo cantar os passaros
a sua cano de estio.

Mas,  felicidade! to certo  que a fortuna protege os audazes: o dia
amanhecera esplendido, o sol brilhava no cu como um rubi, e o calor do
estio comeava a cair como o halito ardente de uma forja.

Primeiro dia de liberdade no amor! tu s to saboroso como a guloseima
que o collegial devora em segredo na sombra de um corredor ou n'um
recanto da crca. Tu s o fructo prohibido em que podemos finalmente
saciar a nossa voracidade de Tantalos famintos.

A carruagem chegra a horas, a familia, j disposta de ante-mo, no
oppuzera obstaculos. Fanny descera unicamente acompanhada de uma antiga
criada, que fra sua ama de leite, e quando entrou na carruagem nem
sequer fez reparo n'esse pequenino _groom_ de cabello louro, faces
rosadas, que com os olhos postos no cho, n'uma attitude reverente
e humilde, se no era hypocrita, lhe abrira a portinhola do trem.

Fra elle, o pequenino _groom_ louro e rosado, que lhe acommodra a orla
do vestido dentro do _coup_ e que, fechando-o cuidadosamente, esperra,
sempre de olhos postos no cho, ouvir a ordem da partida.

O corao de Fanny batia como o de um canario agarrado na mo de uma
creana. Ella no via, no ouvia, disse ao _groom_, sem fazer reparo
n'elle, uma palavra. O _groom_ saltou para a almofada com a ligeireza
que s as azas podem dar, e a carruagem partiu n'um trote largo,
rasgado, batido.

As arvores da estrada principiavam correndo aos lados do trem, fazendo
os seus cumprimentos n'uma alacridade funambulesca. As arvores pareciam
alegres, trocistas, ironicas, como se estivessem de posse d'aquelle doce
segredo. Fanny, vendo-as passar rapidamente, cuidava ouvir-lhes dizer:

--Mil felicidades, excellencia...

E crava de pejo, engolfada em maviosos pensamentos, sem haver trocado
com a sua velha ama uma unica palavra sequer.

Os passaros cantavam n'uma estridula folia matutina, e toda essa onda de
alegria musical parecia inundar o corao feliz de Fanny, enchendo-o de
canticos festivos, que resoavam como n'um ecco interior.

Ao cabo de hora e meia de caminho a carruagem parra, no  porta da
quinta onde a amiga de Fanny agonisava, como ella por disfarce dissera
ao _groom_ ao sair de casa, mas  porta de um velho castello
desmantelado, a que se seguia um parque extenso, coberto de grandes
arvores sombrias, onde os passaros cantavam em liberdade a sua cano de
estio.

Era o logar da entrevista.

E Fanny, vendo parar ahi a carruagem, e apear-se o _groom_, sempre com a
ligeireza de um genio alado, rosado e louro, com os olhos postos no
cho, teve uma vaga suspeita de que esse _groom_, que ella s agora
vira, fosse um confidente encarregado expressamente por Edmundo de
desempenhar to alta misso de confiana.

E, emquanto ella descera, o _groom_, n'uma attitude sempre reverente e
humilde, com a mo na portinhola do trem, ajudara-lhe a desprender do
estribo a orla do vestido branco e fresco, ligeiramente mosqueado de
pequeninas flores de myosote, azues e microscopicas.

Uma deliciosa serenidade alegre alastrava-se por todo o parque n'uma
solido encantadora. Dir-se-ia que o fim do mundo era ali e que, dados
mais alguns passos, por detraz das ultimas arvores do parque, deveria o
ceu pousar na terra.

Edmundo l estava no seu posto, fazendo sentinella  sua propria
felicidade e, quando Fanny chegou, a arvore que o abrigava como que
distendeu os seus longos braos verdes para envolver tambem na
mesma sombra o corpo de Fanny.

A velha criada afastou-se, moendo o tempo na contemplao das flores
campestres e da larga cma das arvores, ora dobrando-se, ora olhando
para cima, e de vez em quando um melro velhaco--era decerto um
melro--zombava da ignara situao moral d'aquella mulher
desfeiteando-lhe o asseio do seu antigo chapeu de palha de Italia.

Uma ironia de melro!

 sombra da grande arvore, que tinham escolhido, Fanny e Edmundo,
enleiados pela cintura, bebiam a pequenos goles de liberdade a sua
primeira taa de amor e, quando erguiam a taa aos labios, estalava-lhes
na bocca um beijo demorado.

As horas passaram rapidamente, a velha criada j no tinha mais hervas
que reconhecer, mais arvores que observar, e os proprios melros estavam
aborrecidos de troal-a.

Era preciso partir, o sol declinava, a tarde fugia. Mais um gole colhido
nos labios, mais um beijo que se arrastava n'uma extensa melodia amorosa.

Finalmente, Fanny pz o p no estribo da carruagem e o _groom_, rosado e
louro, com um olhar altivo, triumphante, abriu-lhe, de cabea erguida, a
portinhola do _coup_ e, quando a fechou, antes de subir para a
almofada, pousou o dedo pollegar da mo direita sobre a ponta do nariz e
espalmou a mo no ar, agitando os dedos.

Era o Amor, disfarado em _groom_, que celebrava a sua victoria como um
gaiato de collegio.

--_C'est gentil!_ exclamou o Leotte.

--Bravo! mavioso Gonallinho! conclamaram sete vozes.

E o Vasconcellos, logo reposto nas suas funces austeras de dirigente,
advertiu a assembla de que onze horas e cinco minutos eram tempo muito
conveniente para que em Cintra cada um pensasse em dormir.

--Onde estar o _groom_ da tua ballada,  Gonallinho? perguntou o Leotte.

--Nos intermundios de Epicuro... respondeu o Athayde.

--Em cascos de rolhas... commentou o Vasconcellos.

-- que eu queria, concluiu o Leotte, que elle viesse accender-me a
lamparina do quarto.

E, rindo, cada um de ns foi para a cama--s onze e dez, noite velha no
paraiso de Cintra, a 20 de maio.




V


No dia seguinte, quando samos do _hotel_ depois de almoo, era quasi
uma hora da tarde.

Convencemo-nos mais uma vez de que no ha nada to bom para gastar o
tempo... como no ter nada que fazer.

Fomos a Collares, em burro. S o Leotte pediu licena para ficar.
Concedida;--sob condio de que daria conta s crtes do uso que fizesse
d'esta auctorisao legal.

--O Leotte traz grande empresa entre mos.

--Empresa de cozinha, que pde esturrar-se facilmente.

--Saberemos depois... dizia o Vasconcellos, fustigando as orelhas do
burro rebeldemente ronceiro.

A varzea de Collares estava realmente encantadora n'aquelle dia. Pairava
no ar uma serenidade saturada de bucolismo e de limpidez
campestre, capaz de inspirar idillios  alma de um agiota. As arvores
floridas perfumavam o ambiente. As aguas do rio das Mas dormiam como a
superficie de um espelho. Passaros cantavam entre o arvoredo, mas no
eram certamente rouxinoes, o que desesperou o Gonallinho Jervis.

Fomos seguindo para o mar, na direco do Cabo da Roca. Muitos rapazitos
de Collares acompanhavam-nos, correndo, pulando adeante de ns. Iam na
esperana de que quizessemos vel-os descer pela Pedra de Alvidrar, como
aconteceu. A mim horrorisou-me vel-os deslisar ao longo d'esse rochedo
empinado, que mergulha no mar; a cada momento me parecia que os ps ou
as mos lhes faltariam, e que, n'um abrir e fechar d'olhos, elles
desappareceriam entre a espuma das ondas, que ali se despedaam com
estrondo.

Tambem fomos vr o Fojo, esse grande funil de rocha bruta, que communica
com o mar, cujo estampido sinistro exerce em ns uma estranha influencia
de repulso.

Foi bello todo esse passeio atravs de uma regio encantadora, onde
ninguem nos incommodava n'aquella occasio, e onde insensivelmente tudo
haviamos esquecido de quanto nos pudesse n'este mundo dar cuidado ou
desgosto.

--O tolo do Leotte perdeu isto!

--O que tr elle feito?!

Soubemol-o depois, quando recolhemos ao Victor, noite fechada.

--Foi um achado! exclamou elle, mal que nos viu.

--Ento?

--Isso  para depois. Durante o jantar, nem palavra, por causa dos
criados, ouviram?

--Est dito.

Quando, findo o jantar, viemos para o salo do Victor, soubemos que o
nosso amigo Leotte tinha descoberto no _hotel_ uma criada originalissima.

--Uma fidalga extraviada do grande mundo! disse-nos elle.

--Como assim?!

--Chama se Maria de Alarco, est aparentada com muitas familias nobres
do paiz, e viu-se reduzida, pela pobreza que herdou de seu pae, um tal
D. Alvaro, a ser criada de todas as suas primas e primos, que venham
hospedar-se no Victor.

--Mas quem  ento esse D. Alvaro?

--Morreu. Perguntei-lhe se sabia os nomes dos avs, e ella respondeu-me
que os seus avs tinham sido _gentis guerreiros_.

--E ella respeita as cinzas de seus avs?

--Ella estava-me contando a sua triste historia, quando outra criada a
veiu chamar, gritando:  Rosa!  Rosa!

--Ento  Maria, e chama-se Rosa?

--Essa pergunta fiz eu a mim proprio. Mas ella, de relance,
percebendo a minha surprsa, explicou que Rosa era o seu nome de guerra,
e D. Maria de Alarco o seu nome de familia.

--Eis o que tu apuraste em todo o dia!

--E j no foi pouco. Talvez que vocs tenham achado muitas criadas
cujos avs fossem _gentis guerreiros_!...

--Para isto, exclamou o Vasconcellos, deixou este tolo de ir passear a
Collares!

--Estou vendo, disse eu, que a tua Rosa  tanto Alarco como era
principe aquelle heroe, da historia que sabe o Athayde, que appareceu
nas Caldas de Vizella.

-- verdade! quero ouvir a historia do Athayde, observou imperativamente
o Vasconcellos. Meus senhores, est aberto o _Decameron_.

O Athayde fez-se algum tanto rogado, mas contou:

--Era um domingo calmoso de agosto. Todos os hospedes do _Hotel do
Padre_, nas Caldas de Vizella, estavam sentados  sombra do parque do
_hotel_, conversando, lendo, jogando, _flirtando_. Nenhum d'elles ousra
ir  estao esperar o comboio. Os passarinhos, se no pudessem
encontrar um doce refugio nas arvores marginaes do rio Vizella, cairiam
do ceu assados e depennados. Com uma soalheira d'aquellas, no havia
nada que apetecesse tanto como o descanso e a sombra.

De repente ouviu-se o silvo da locomotiva.--L chegou o
comboio!--Pois deixal-o chegar!--Quem vier, c vir ter. Vinte minutos
depois, paravam  porta do _hotel_ duas _americanas_, poeirentas e
escanceladas. E um sujeito de fato de flanella branca, chapeu branco,
acompanhado por uma senhora da sua idade--vinte e quatro a vinte e cinco
annos--, atravessou olympicamente o parque do _hotel_ sem cumprimentar
ninguem. Da segunda carruagem apearam-se duas criadas e dois criados,
com pequenas malas na mo.

Este acontecimento causou certa sensao entre os hospedes do _Hotel do
Padre_, visto no haver acontecimentos de maior polpa.

--Quem ser isto? perguntava-se.

-- um principe! dizia ironicamente um janota de Guimares.

--Um principe e uma princeza, acrescentava do lado um banqueiro portuense.

--Com os respectivos veadores e damas, observou bonacheironamente o
padre Jos Maria, que possuia uma graa simples, quasi patriarchal, e
que era um dos hospedes mais estimados no _hotel_.

Depois, emquanto a sombra caa das arvores, todos continuaram
conversando, lendo, jogando, _flirtando_.

 hora do jantar, a princeza e o principe foram vistos j sentados 
cabeceira da mesa, silenciosos e graves. Os seus dois criados, de
casaca, postados por detrs da cadeira do _principe_ e da
_princeza_, conservavam-se immoveis como estatuas.

Todos os outros hospedes, que iam chegando, trocavam entre si sorrisos,
olhares de intelligencia. Padre Jos Maria arregalou os olhos, franziu o
beio, sentou-se. As senhoras diziam segredos umas s outras. Os homens,
de vez em quando, arriscavam em voz alta uma alluso disfarada.

Findo o jantar, o _principe_ e a _princeza_ levantaram-se; os seus dois
criados, muito direitos, arrastaram-lhes as cadeiras. No cumprimentaram
ninguem.

Ento a galhofa expludiu, os epigrammas estalaram. Padre Jos Maria teve
pilhas de graa. Um hospede aventou a ida de que se pedisse o registo
do _hotel_ para saber-se o nome do recem-chegado. Veio o registo. Dizia
simplesmente isto: _Commendador Piratinino e sua esposa._

--Pois, srs., observou padre Jos Maria,  mais a salsa que o peixe!

Riram todos, e novos epigrammas rebentaram n'uma grande hilaridade
desenfadada.

Mas o janota de Guimares teve uma lembrana feliz: que em tom de
confidencia se dissesse aos criados do hotel que o commendador
Piratinino era nada mais e nada menos que um principe disfarado.

--E Piratinino  um bello nome para principe! observou uma senhora.

--Principe... de magica, pelo menos, acrescentou alguem.

--Mas se nos perguntarem d'onde o homem  principe, que responderemos?

--Que  principe da Ribria.

--E onde ficar geographicamente a Ribria?

--Sim... isso...

--A Ribria ficar na peninsula dos Balkans, entre a Rumlia e a
Bulgria, se quizerem. Nas Caldas de Vizella pode haver tudo, menos um
mappa da Europa. Ninguem ir verificar; soceguem.

--Magnifico!

--Maravilhoso!

Ficou tratado que Piratinino era o principe da Ribria, e que a Ribria
ficava nos Balkans. Dois minutos depois, fazia-se a revelao aos
criados, pedindo-lhes a maxima reserva, para no comprometter o
_incognito_ do principe. Quatro minutos depois os criados tinham
revelado o segredo s criadas do _hotel_ e, passada uma hora, constava
em toda Vizella que no _Hotel do Padre_ estava hospedado um principe
estrangeiro muito rico.  noite, em todos os circulos de conversao,
acrescentava-se: Fabulosamente rico. E sabia-se j em toda a villa que,
depois do principe, havia chegado uma carroa com bagagens,
suspeitando-se que a maior parte das malas traziam joias da princeza,
porque um terceiro criado as vinha guardando como o drago de cem
cabeas guardava os pomos de ouro do jardim das Hesprides. Diziam
alguns, com uma certeza convicta, que na Ribria havia minas de metaes
preciosos, e outros, por inculcarem sciencia ou por espirito de
hyperbole, acrescentavam que no principado da Ribria jmais houvera
_deficit_.

Corria tudo s mil maravilhas.

N'essa tarde, os principes no saram a passeio, e d'este modo logrram
inconscientemente a justa curiosidade do povo de Vizella, que se tinha
agglomerado nas vizinhanas do _hotel_. Mas no dia seguinte pela manh
suas altezas foram tomar o seu banho  Lameira, o povo pde vl-os,
contemplal-os, os pobres filaram-n'os, os curiosos seguiram-n'os, e o
principe, voltando-se para trs, disse a um dos criados que dsse
esmolas aos pobres e s creanas. O criado distribuiu para cima de
dezoito vintens em cobre. Por um tris que o principe e o criado no
apanharam _vivas_. Mas desde aquella hora, toda a gente, incluindo os
hospedes que tinham inventado a _blague_, ficou capacitada de que
Piratinino era realmente um principe.

Suas altezas saram de tarde a passeio. Os hospedes do _Hotel do Padre_
esforavam-se a explicar que na Ribria a etiqueta era muito rigorosa, e
que o principe no podia saudar seno os fidalgos do seu paiz. Foi
preciso inventar isto, porque o povo de Vizella, que tinha visto uma vez
em Guimares el-rei D. Luiz cumprimentar toda a gente, estranhava
o facto. Em compensao, todos os populares cumprimentavam suas altezas,
e eu pendo a acreditar que o proprio Piratinino se ia sentindo
principe... cada vez mais.

A coisa constou. Vieram pobres de Guimares, de Negrellos, de Santo
Thyrso, de modo que foi preciso, no _hotel_, prohibir-lhes a entrada no
parque. Mas elles, illudindo a ordem, penduravam-se das arvores, para
serem os primeiros a lobrigar e a assaltar sua alteza o principe da
Ribria. De cada vez que saa, o excelso principe tinha uma despsa
obrigada, de dezoito vintens pelo menos. E os hospedes do _hotel_
saboreavam em segredo, n'uma risota permanente, o bom exito da sua
inveno.

Um dia o criado do principe pediu informaes aos criados do _hotel_
sobre a navegabilidade do rio Vizella. Aquelle a quem a pergunta fra
feita veio, com a melhor boa f d'este mundo, dizer aos hospedes que sua
alteza ia n'aquella tarde para o rio.

--Para o rio! exclamaram os hospedes. E padre Jos Maria observou do lado:

--Para o Rio... de Janeiro, talvez. O principe sente-se arruinado pela
mendicidade das Caldas de Vizella e seus arredores. Vai talvez restaurar
a fortuna.

Mas o criado explicou: Que no. Que o principe tinha dinheiro como
milho. Que ia mas era para o meio do Vizella divertir-se com um
barco que trouxera.

--Onde est o barco? perguntaram.

--Est dentro de uma grande mala, que veio na carroa.

Com effeito, um dos criados do principe chamou um homem, que foi ao
hotel buscar a mala grande, e dirigiu-se com elle para a beira do
Vizella. Pouco depois saiu o principe, todo vestido de branco, sua
_toilette_ favorita, pelo que j algumas pessoas lhe chamavam--_o
principe branco_.

Deu-se rebate no _hotel_, e todos os hospedes, repartidos em diversos
grupos, se encaminharam para as margens do Vizella, seguindo uns pela
Lameira, outros pelo Mourisco.

O boato sara verdadeiro. O principe estava effectivamente no meio do
Vizella, pescando  linha dentro de um barco de lona, um pouco
similhante quelle, se bem que mais pequeno, em que o general Caula
atravessou o Tejo n'uma experiencia feita em agosto de 1874. Na margem
ficra o criado, e a mala cuja tampa estava levantada, aberta.
Comprehende-se que um principe no permittisse ao criado a honra de
tomar assento a seu lado dentro do mesmo barco. J sabemos que na
Ribria a etiqueta  muito rigorosa.

Toda a populao de Vizella, a fluctuante e a permanente, pde saciar
seus olhos curiosos na contemplao d'esse quadro inteiramente novo ali:
um principe estrangeiro pescando  linha dentro de um barco de
lona. S os hospedes do _Hotel do Padre_ se riam, porque os do Cruzeiro
do Sul, que no estavam na confidencia, e os bons populares ingenuos
tomavam o caso muito a serio, e contemplavam encantados o _principe
branco_ pescando.

Escusado ser dizer que sua alteza no pescou coisa nenhuma. Quem pesca
so os pescadores, porque teem obrigao d'isso. Os principes
divertem-se, e enfadam-se.

Foi o que aconteceu a sua alteza, porque, naturalmente enfastiado, quiz
abicar a terra. Mas o barco comeou a rodopiar, a oscillar, e o
principe, j um pouco impaciente, redobrava de esforos, de presso.

Toda a gente sabe com que facilidade, n'estas condies, se volta um
barco. Foi o que aconteceu ao do principe. Sua alteza fizera um
movimento menos cauteloso, e o barco tombou. Era um vez um principe n'um
charco.

Grande grita se levantou de entre os populares. Os hospedes do _Hotel do
Padre_ riam a bandeiras despregadas. Um rapazito atirou-se ao rio, para
ir salvar sua alteza, que barafustava na agua. Cheirava-lhe a grande
gorgeta, ao rapazito; nadava como um desesperado.

Foi-lhe facil trazer para terra o principe, e o barco. Mas o principe,
que estava de fato branco, precisava mudar de _toilette_. A decencia
reclamava-o. E emquanto o criado corria ao _hotel_, a pedir outro
fato para sua alteza, o desgraado principe da Ribria, mettido dentro
da mala, s com a cabea de fra, evitando olhar para qualquer parte,
esperava humilhado...




VI


--E eu que sei quem elle ! apostrophou o Maldonado, que era o mais
silencioso de todos ns.

Achmos graa  observao, espicamos o Maldonado.

Elle explicou que tinha estado n'aquelle anno no Porto e que tambem l
tinha apparecido o commendador Piratinino, de fato branco, o qual seguiu
d'ali para as Caldas de Vizella.

Era... disse-nos o nome, que no vem para o caso.

Mas como o Maldonado houvesse quebrado o seu silencio habitual, o
Vasconcellos intimou-o a dar qualquer pequeno contingente para o nosso
_Decameron_.

Que no; que no sabia historia nenhuma. Que no tinha geito para contar.

E a assemblea insubordinada:

--Que contasse alguma coisa, seno que o levaria o diabo.

--Que de mais a mais o Maldonado no era baldo de gosto litterario:
conhecia os poetas gregos, lia muito Thecrito.

--Que, finalmente, contasse alguma coisa obrigada a Thecrito.

Muito instado, cedeu.

--Pois ahi vae um caso, offerecido ao Leotte.

--Oh!

--Uma lio de moralidade para quando elle fr av.

--Que genero?

--Genero realista. Eu, infelizmente, no tenho a imaginao do nosso
Gonallinho. Conto o que aconteceu. E, sem mais preambulos, ahi vae.

--Eram dois velhinhos, seccos e rosados, alegres e gaiatos, muito
amigos, socios na patuscada, sempre de mos dadas, como dois banqueiros
do amor, nos sindicatos do prazer.

Ambos casados, os marotos, mas azevieiros como Anacreonte. Tendo sugado
na flr do matrimonio todo o mel de uma longa lua nupcial, deitaram a
correr aventuras, de brao dado, por amor da variedade, beijando, como
borboletas insaciaveis, o nectario de todas as flres que encontrassem
na sua marcha triumphante.

Calados como ratos, de muito segredo e de muita ronha, iam saboreando a
vida e zombando da velhice, que apenas ousava nevar-lhes os
cabellos, respeitando o corao e o mais.

Tiveram filhos canonicos e souberam educal-os. Conciliando os seus
deveres de chefes de familia com os seus apetites de uma mocidade perpetua.

Sempre muito dissimulados, toda a gente os tinha por impeccaveis. Mas
elles, a ss, um com o outro, riam-se de toda a gente. Eram solidarios:
e confidentes nas suas rapaziadas invernias, e fechavam a sete chaves o
segredo das suas funcanatas serodias.

Um tivera uma filha, que casou; o outro tivera um filho, que tambem
casou. Mas a filha do primeiro no casou com o filho do segundo, por
accrdo dos dois velhos.

--No quero o teu filho para a minha filha, disse o primeiro ao segundo,
em segredo, porque receio que elle saia ao pae, e largue a fazer
infidelidades como tu.

E riram os dois, dando-se pansadinhas,--_eh!--eh!_--como se estivessem
em plena verdura da mocidade. Mas em casa, deante do genro e deante da
nora, no ousavam falar em Thecrito, a no ser para reproduzir algum
verso casto do bucolico grego, como por exemplo aquelle em que a pastora
diz a Daphne: O casamento no tem penas nem dres; mas smente alegria
e danas.

Secretamente, no fundo da sua consciencia, elles estavam de accrdo
quanto s _danas_ do casamento, porque varias vezes se tinham
visto mettidos n'ellas por causa da sua libertinagem, receosos das
consequencias de alguma conquista aventurosa.

Intimamente, rezavam pela cartilha de Thecrito, no quando elle
preconisava as alegrias do casamento, mas quando, por exemplo, fazia o
elogio do beijo roubado a uma pastora sem a responsabilidade do matrimonio.

Cada um dos dois velhos teve um neto. Agradeceram muito  Providencia o
favor de lhes dar netos do sexo masculino, porque os lisonjeava a ideia
de que os netos lhes honrariam, por hereditariedade, a tradio patusca.

 medida que os rapazes foram crescendo, mais os dois velhinhos
frascarios se fecharam em maior discreo, de modo que das suas
aventuras serodias no pudesse chegar noticia aos netos.

Pela primavera, quando as arvores rebentavam e os campos erveciam,
sentiam-se renascer, vibrar; e sempre que o p lhes escapava para a
folia, cuidadosamente afivelavam a mascara, para no serem apanhados com
a bocca na botija.

Os rapazes estavam uns homensinhos, de cara penugenta, e os dois avs
concertaram entre si ir-lhes dando algum dinheiro, para que no
guardassem toda a mocidade para a velhice.

--Como ns... dizia um.

--Eh! eh! respondia, rindo, o outro.

E ao cabo de alguns momentos de meditao:

--Isto tem que ser por fora... exclamava um.

--Isto, o que?

--Dar com a cabea pelas paredes, e fazer tolices. Portanto, quanto mais
cedo a tempestade passar, melhor. Eu bem o sei... Comecei muito tarde, 
o que foi...

--E eu!... ponderava o outro.

Ora a verdade era que elles tinham comeado desde o principio, que  a
maneira mais logica e chronologica de comear.

Os rapazes gastavam dinheiro, que os velhos lhes davam, e como a
mocidade no  mais do que a primavera da vida, elles tinham, a respeito
dos avs, a vantagem de no precisarem esperar pelo calendario.

Atiravam-se.

A primavera do anno chegra, e os dois velhos, galvanisados por ella,
deitaram-se a farejar conquistas por toda essa Lisboa galante.

Mas, como dois gastronomos do amor, que sempre foram, j estavam um
pouco aborrecidos de bons petiscos, e o que elles agora queriam, a
proposito de petiscos metaphoricos, era achar iguarias optimas.

--Achei! disse uma vez um velho ao outro.

--Aonde?

--Longe, mas bom.

--Aonde?

-- Penha de Frana.

--Irra! que  longe! Mas dize l.

--Vinte e quatro annos. Formas redondas, linhas esculpturaes, frescura,
belleza, mocidade. Uma alface, que a gente tem vontade de trincar, para
refrescar-se.

--J o sabes?

--Suspeito-o, pelo que vejo. Mas tenho aqui um bilhete de apresentao
para ns ambos.

--Bravo! excellente! L iremos...

E  noite, das nove para as dez horas, os dois velhinhos passaram por
entre filas de lojas illuminadas, desceram honestamente o Chiado sem
olhar para as _estrellas cadentes_, que lhes davam encontres, to
honestamente como se fossem  _Baixa_ comprar bolos moles para as
esposas desdentadas.

Muita gente os cumprimentava, e elles correspondiam ao cumprimento com a
gravidade austera de duas pessoas idosas que fossem caminhando para um
_lausperenne_.

Mas, l por dentro, no que elles pensavam era no alto da Penha: uma
casinha de um andar, menos mal alfaiada, com rotulas verdes no
_rez-de-chausse_.

E n'um passinho curto, mas rendoso, atravessaram a Baixa, passando
honestamente por entre filas de lojas illuminadas, foram andando,
andando, ganhando o largo do Intendente, galgando para Arroyos, sempre a
rir l por dentro--_eh! eh!_--at que comearam a marinhar lentamente
pelo Caracol da Penha, aonde o perfume do prazer lhes parecia
chegar j, como o bom cheiro de uma cozinha, que se sente ao longe.
Chegaram ao alto da Penha.

-- ali, disse um.

--Ha luz no _rez-de-chausse_, observou o outro.

E espionaram, que no fosse alguem suspeital-os. Depois, cautelosamente,
aproximaram-se das janellas de rotulas verdes. Ouviram conversar, rir.
Na Penha de Frana, s dez horas da noite, o vicio tem confiana na
solido: no  preciso fechar as portas das janellas.

--Espreitemos e ouamos.

--Sim... ouamos e espreitemos.

E aps um momento de silenciosa contrariedade:

--Ha homens, e eu conheo as vozes. Depois, puxada a gola s faces, os
chapeus enterrados na cabea, continuaram escutando.

E, de subito, caminhando para o intervallo das janellas, medrosos,
desapontados, disseram, com os labios colados  orelha um do outro:

--So os nossos netos!

De repente, como se ambos obedecessem ao mesmo pensamento, deitaram a
descer por ali abaixo, a descer, fazendo da fraqueza foras.

S na rua direita de Arroyos tornaram a parar. Certificando-se de que
no eram seguidos, exclamaram de novo:

--E esta! Eram os nossos netos!...

Foi abraado o chronista, que realmente nos soubera prender a atteno.
O seu numeroso amigo Leotte, em agradecimento da dedicatoria, pegou no
Maldonado ao collo. Uma ovao!

A breve trecho, o relogio do Victor dava meia-noite.

--Mas ento, apostrophou o Gonallinho, a gente ha de ir-se embora sem
ouvir os rouxinoes?!

Vozes, ao levantar da feira:

--Amanh!

--Amanh!

O Gonallinho Jervis disse-me que ia para o seu quarto escrever.

--O que vaes tu escrever, meu lyrico?

--Vou, antes que me esquea, dar forma ao outro conto que pensei pelo
caminho.

--Ah! _A morte do bibliophilo_? Pois vae, e manh o lers.

Ia eu para deitar-me, quando o Leotte, muito intrigado ainda com a
historia de D. Maria de Alarco, entrou no meu quarto, procurando
certificar-me de que, para desenvencilhar mysterios de mulheres, tinha
elle faro como ninguem. Que eu veria; que ou a rapariga tinha falado com
sinceridade ou que elle era um grande tolo, do que no estava convencido.

Depois pegou a contar casos do seu tempo de Coimbra, memorias de
condiscipulos e j eu tinha perdido o somno quando elle abordou a
historia do seu condiscipulo Barcellos.

--Quem era esse? perguntei.

Como lhe dei trella, foi um gosto ouvil-o.

Barcellos, o grande, passou quasi desconhecido fra de Coimbra, onde se
doutorou, e fra de Salvaterra de Magos, onde nasceu.

Bohemio e improvisador como Bocage, fez a sua lenda em Coimbra, no meio
de uma sociedade de rapazes em que a falta de talento era tida como
rarissima falha de toque denunciada na contrastaria intellectual da
Universidade. Na terra dos cegos, quem tiver um olho  rei. Mas o
Barcellos galgou ao primeiro premio e ao primeiro logar atravs de uma
basta legio de sujeitos em que os anonymos eram pequenissima excepo.

O Barcellos apenas differia de Bocage em no reproduzir pela escripta as
suas composies. Falou; toda a sua vida se foi n'isso: falar. Teve
improvisos felicissimos, extraordinarios, principalmente em prosa.
_Verba volant._ Os seus discursos no foram fixados pela stenographia.
No so conhecidos no paiz. Mas aquelles que lh'os ouviram, jmais
podero esquecel-os.

De copo em punho, a graa, a verbosidade, a satyra e a anecdota emergiam
da onda rubra do Bairrada como Venus do seio da vaga azul do oceano. Uma
belleza! um primor!

A Universidade quiz doutoral-o. Elle respondeu que em Salvaterra de
Magos um capello era a insignia mais inutil d'este mundo.
Redarguiram-lhe que um capello equivalia a uma cathedra. L isso
no! elle s tinha geito para ser estudante, respondeu. Visto que
deixava de ser estudante, iria para Salvaterra annullar-se. Mas a
Universidade teimou em dar-lhe o annel de doutor. Elle enfiou-o no dedo,
e tratou de annullar-se em Salvaterra.

Metteu-se em casa. Saa da cama para ir jantar, e s oito horas da
noite, de charuto ao canto da bocca, apparecia na botica, que o esperava
com interesse. Tomava a palavra, monopolisando-a, logo que lhe
lembrassem um assumpto, qualquer que fosse.

Falou-se uma noite da intelligencia dos ces. Um caador da localidade
contou, como quem lana  terra uma semente para que se reproduza, a
historia de uma perdigueira, que tinha a idolatria da caa. Em passando
um caador de arma s costas, ainda que lhe fosse desconhecido, a
perdigueira seguia-o. Em ouvindo assobiar, punha-se de orelha fita, e
partia. Era um estranho que a chamava? No se lhe dava d'isso:
acompanhava-o. O seu gosto, o seu enthusiasmo era a caa. O caador
disparava o primeiro tiro. Acertava? caa uma perdiz? A perdigueira
pulava de contente, estava alegre e interessada para todo o dia. Falhava
o tiro? A perdigueira comeava a olhar desconfiada para o caador.
Falhava um segundo tiro? A perdigueira amuava, aborrecia-se. Mas se o
terceiro tiro falhava, a perdigueira desandava para casa,
abandonando o caador.

O grande Barcellos ouvia sorrindo, aquecendo, vibrando, como Bocage nos
mais felizes raptos da improvisao. Lanado o assumpto, apanhava-o no
ar, senhoreava-o, frchava-o de glosas em que a imaginao refervia
torrencial.

--No me admiro, dissra n'essa noite o Barcellos, erguendo-se e
passeando, muito peripoletico e muito jovial. Eu lhes conto o que me
aconteceu em Coimbra, a proposito da intelligencia dos ces. Era no meu
sexto anno. Estava-me preparando para defender theses. Uma estopada que
a Universidade me metteu pela porta dentro! Recolhia uma noite para
casa, na rua do Correio, paredes meias do predio onde o _Mata-frades_
nasceu.  esquina da S Velha, oio ganir dolorosamente um canito na
escuridade. Aproximo-me, curvo-me...

E, de cocoras, elle representava, como um actor consummado, a sua
narrativa.

--Encontro effectivamente um co, um pequeno co vadio, um desherdado da
fortuna, com uma perna partida. Pobre animal! Levanto-o cautelosamente,
chego-me a um candeeiro, examino a fractura. Sinto na minha alma esse
generoso impulso de caridade que todo o racional completo sente pelo
irracional incompleto. A gente ri-se s vezes de um homem coxo: mas
sente-se abalado perante um co que anda de perna no ar. So
segredos da nossa incomprehensivel natureza, que difficultam o
principio theorico da fraternidade universal. Entro em casa, deponho
delicadamente o canito sobre a minha cama. Vou  estante. Tiro o
primeiro livro encadernado em que puz os dedos. Era um Michelet.
Deixal-o ser. Tanto melhor! Um philosopho humanitario estava a calhar
para uma aco meritoria. Rasgo a encadernao. Corto-a em tiras, e
applico as talas  perna quebrada. Ligo-a. Ponho o co sobre uma
cadeira, cubro-o com a minha capa de estudante. Deito-me. Adormeo.

O grande Barcellos accendeu outro charuto, afastou do pescoo o seu alto
collarinho engommado, e proseguiu:

--Ao cabo de vinte dias de tratamento, a fractura tinha solidificado.
Tiro ao co o apparelho cirurgico, e elle, sem lamber a mo que o havia
beneficiado, rompe pela porta fra, desce a escada, safa-se pela rua
abaixo de rabo cado. A ingratido dos ces! meditei eu. Nem um olhar,
nem uma caricia, uma demonstrao qualquer de agradecimento! Fosse um
homem, e abraar-me-ia. Fosse uma mulher, e beijar-me-ia. Era um co:
safou-se como quem era. Ah! meus amigos, que errado juizo este! Cerca de
dez dias depois, estava eu, de papo para o ar, lendo uma d'aquellas
coisas que a gente s l em Coimbra: um doutor. Um doutor que tem
escripto  a praga maior que se conhece. Sinto arranhar na porta do
quarto: primeira vez, segunda vez, terceira vez.  um gato! disse
eu. Atirei fra o doutor, saltei da cama, pego no meu basto da noite e
abro a porta disposto a enxotar o gato impertinente. Sabem os srs. quem
era? Era o _meu_ co da perna partida, so como um pro. Mas trazia
outro, trazia outro co, que tambem quebrra uma perna. Achei-lhe graa.
Com que ento, disse eu voltando-me para o ingrato canito de que to
cuidadosamente havia tratado, tu pensas que isto aqui  casa de
algebista? Achas mais barato do que ir ao _endireita_? Abriste conta
corrente comigo? Mas quando pagas tu, refinadissimo tratante? Safaste-te
 franceza: nem uma, nem duas! e trazes-me agora um amigalhote coxo para
que eu o concerte? E o _meu_ co crivava o seu vivacissimo olhar em
mim, como a perguntar-me se eu entendia o sentido da sua visita. O
outro, de perna no ar e focinho no cho, esperava pela consulta. Mas no
fim de contas, disse eu, tu tens ao menos uma qualidade nobre: s amigo
do teu amigo. Elle quebrou uma perna,  teu parceiro na bohemia, sabes
que eu concerto pernas, e vieste c. Pois vamos l a isso, meu ingrato
de uma figa. Tiro outro livro da estante, e ponho duas talas de papelo
na fractura do canito. Deito-o sobre uma cadeira, mando-lhe dar de
comer, mas emquanto espero que a servente traga umas sopas, o
introductor safa-se pela escada abaixo. No est m esta! reflexiono.
Com que ento isto  chegar, vr e vencer! Mas... mas pensei que
talvez um sentimento de delicadeza obrigasse o _meu_ co a retirar-se:
quereria porventura poupar-me ao sacrificio de sustentar dois hospedes.
Seria ou no seria. No dia seguinte vejo-o entrar de repente. Pe-se do
cho a olhar para o outro, que estava na cadeira, certifica-se de que
elle tem as talas, de que est em tratamento, de que eu sou um
_endireita_ acabado e um philantropo inexgotavel. Si. Durante oito dias
ninguem o v mais, talvez para me significar que confiava plenamente na
minha cirurgia. Ao nono dia volta a visitar o amigo. Olha para elle,
parece dizer-lhe com os olhos--_Isso vae bem_--e raspa-se. O curativo
chegou a seu termo, e o _meu_ co nunca mais voltou. Levantei o
apparelho com a mestria que d a pratica. Lembrei-me at de abrir um
consultorio para ces; mas tive receio de que a faculdade de medicina me
fizesse instaurar processo, visto que eu s podia abrir consultorio para
demandistas. O co safou-se como o outro, sem um olhar, uma caricia, uma
qualquer manifestao de agradecimento.

--E nunca mais os viu? perguntaram ao grande Barcellos.

--L vamos, respondeu elle. Fiz exame de licenciado, defendi theses,
tomei capello. Dia cheio na Universidade, o do capello. Puz na cabea
uma borla doutoral, e recebi auctorisao solemne para acrescentar ao
meu nome mais seis lettras. A Universidade confirmou o tratamento que a
minha servente me dava desde o primeiro anno. Abraos dos lentes e
de toda a mais doutorana; abraos dos estudantes, abraos dos
archeiros. A propria _Cabra_ parecia dizer-me: Se eu pudesse descer,
mettia-te os tampos dentro. Vou a casa para descansar do capello,
emquanto n'um _hotel_ da baixa se prepara o jantar do doutoramento.
Deso at  S Velha, entro na rua do Correio, aproximo-me de casa e
vejo  minha porta, cada um de seu lado, os dois ces que eu concertei,
e que me iam dar os parabens! Aqui teem os senhores o que  a
intelligencia do co.

Tal foi--exclamava o Leotte enthusiasmado--a improvisao do grande, do
immortal Barcellos n'uma noite da botica. E todas as outras noites eram
assim.

-- homem! atalhei eu. Vae deitar-te e deixa-me dormir, que so duas
horas da noite!




VII


Depois de um terceiro dia passado no mais delicioso pantheismo vadio de
que ha memoria, e em que o Leotte, sempre intrigado com a historia da
criada, houve por bem, _malgr lui_, acompanhar-nos, reunimo-nos, depois
de jantar, no salo do Victor para continuarmos os nossos seres
litterarios, a que, seja dito de passagem, j todos mais ou menos iamos
tomando gosto.

As reluctancias que alguns, a principio, manifestavam, quando o
presidente Vasconcellos e o _sabio congresso_ os intimavam a falar, iam
desapparecendo. Com mais um mez de Cintra, saa d'ali um enxame de
oradores. Que desgraa, se tal acontecesse!

Durante o dia, mettemos  bulha o Leotte por causa do seu supposto
achado de uma fidalga na cozinha do Victor. Elle estava um pouco
azoinado com a nossa troa. E, por orgulho ou convico,
promettia, protestava tirar o caso a limpo.

J n'aquelle mesmo dia, pela manh, apesar de se ter deitado tarde como
eu, havia trocado com a rapariga algumas palavras, poucas: e ella
asseverara-lhe, dizia elle, que havia falado verdade na vespera.

--A rapariga tem um certo ar de ingenuidade, que me convence!
insistia elle.

--Contou-te o seu romance, como todas, exclamou o Vasconcellos. Parece
que no conheces o genero! Muito tolo s!

--Conheo o genero, conheo, mas, por isso mesmo, acho que ella fala
mais verdade do que todas as outras que costumam impingir-nos o _seu_
romance. Emfim, veremos. Deixem-me vocs em paz.

 noite, no Victor, no houve duvidas sobre quem primeiro falaria. Pois
que o Gonallinho Jervis havia escripto j o seu segundo conto, como de
manh confessra, foi-lhe concedida a palavra, e, em verdade, outra
coisa no desejava elle.

Ouvimos pois, no meio do silencio regulamentar, que o Vasconcellos no
deixava interromper, a narrativa que o nosso bom Gonallinho planeara na
almofada do _char--bancs_ ao lado do cocheiro. O que  o poder da
imaginao juvenil! Foi ao lado de um cocheiro de praa, que
naturalmente cheirava a aguardente e suor, que elle phantasiou
essa em verdade joiasinha litteraria, por elle proprio denominada _A
morte do bibliophilo_.

--O bibliophilo Joseph, contou, era uma alma antiga, um espirito
classico, que vivia no p dos livros e no p das ruinas.

Todo o mundo da sua actividade intellectual, concentrada e profunda,
havia passado j, mas elle resuscitava-o, nas suas cogitaes luminosas,
to vivo e to perfeito, como se a idade-mdia, que de preferencia
amava, fosse um ramo de flres, de que pudesse sentir ainda o perfume
longinquo.

Barbaros que invadiam a Europa, cavalleiros e trovadores, castells e
pagens, guelfos e gibelinos, cruzados que partiam para a Terra Santa,
burguezes que levantavam o grito da insurreio communal contra os
senhores feudaes, exercitos que se despedaavam n'uma guerra de cem
annos ergendo os pendes da Frana e da Inglaterra, o imperio
succumbindo perante o papado no parque do castello de Canossa, para
resurgir depois triumphante na batalha de Volksheim; Roma desabando na
sua grandeza moribunda, ao passo que as monarchias modernas palpitavam
na primeira vibrao da sua vitalidade autnoma, mares tenebrosos que se
estavam offerecendo  quilha das primeiras naus descobridoras, como um
terreno inculto ao dente fecundador da charrua, vagas revoltas de uma
grande epopa maritima, que espumavam anciosas da appario de um
Gama dominador, tudo isso rolava no seu espirito, como no sonho de uma
febre permanente, passando, agitando-se, baralhando-se tumultuariamente
sobre a tela historica de dez seculos de civilisao medieval.

Em torno da sua alta cadeira de braos, a que estava sempre preso como
Prometheu ao rochedo, longas filas silenciosas de canes de gesta e de
novellas de cavallaria, in-folios de capas de pergaminho levemente
rugoso, grossos volumes de encadernao to dura como um arnez, formavam
disciplinarmente,  espera que elle, com um simples volver de olhos, os
chamasse  refrega de todos os dias, lhes dsse a voz de commando, o
grito de alarma.

Sorriam-lhe do alto da estante, como que constituindo a ala dos
namorados n'aquelle exercito de livros, os poemas carlovingeos, cheios
da poesia dos combates, como na _Cano de Rolando_, cheios de
ingenuidade heroica, como na _Cano do Figueiral_; os poemas da
_Tavola-redonda_ em que o espirito cavalheiresco pairava, como a
borboleta na indeciso de dois nectarios, entre a lenda do rei Arthur e
a tradio do Santo Graal.

Depois galopavam para elle, mal que os chamasse com os olhos, os
esquadres interminaveis dos cavalleiros andantes, fazendo flammejar no
ar a espada nua, desembainhada em honra de uma dama, que  noite,
nas crtes de amor, emquanto dois trovadores se digladiassem
improvisando _tenses_, lhes havia de dar n'um sorriso, feito de rosas e
perolas, o premio da victoria.

Ah! como o bibliophilo Joseph amava to de dentro, tanto do imo peito,
esse galante mundo aventuroso que divinisava a mulher a ponto de que,
derrubado o altar por Cervantes, toda a realidade da belleza parecia to
pallida como o reflexo do sol agonisante resvalando nas vidraas
coloridas d'uma janella gothica.

Foi por isso que bibliophilo Joseph passra toda a sua vida sendo um
celibatario sem familia, longe do calor absorvente das fundas affeies
domesticas, na solido sepulcral que s os livros povoavam.

Herdra de um velho tio todas as preciosidades bibliographicas que
completavam o thesouro da sua bibiotheca. Abrira, por desfastio, o
primeiro livro, como um operario insciente que experimenta a medo a
engrenagem de uma machina. Impellido por uma especie de dever sagrado,
que lhe era imposto pela posse de um legado querido e precioso, foi
voltando pagina sobre pagina, mas, a meio da leitura, como o viajante
que fica encantado de encontrar um bello paiz desconhecido, sentiu-se
preso pelo interesse e pela curiosidade e, chegando  ultima pagina,
reconheceu que, tendo penetrado n'um palacio maravilhoso, o seu espirito
exigia d'elle que no parasse no vestibulo.

Foi assim que a pouco e pouco devassou os segredos do passado fechados
n'esses cofres de pergaminho, n'esses velhos codices poeirentos, que lhe
deram a clara noo do cyclo cavalheiresco, em que a mulher, poetisada
pela imaginao, perdia toda a mundanidade vulgar, para se exalar pelo
amor que a divinisava.

Purificados no crisol da idade-mdia, todos os sentimentos humanos
pareciam nobilitar-se de uma peregrina fidalguia, de uma lealdade
heroica, de uma abnegao sobrenatural, que nenhuma outra civilisao
pudera reproduzir nem copiar integralmente.

Amadiz era para elle um symbolo epico da alma antiga.

Ferido em combate, mas fortalecido pelo seguro amor que Oriana lhe
inspirara, elle havia recusado a mo de Briolanja porque, n'aquelles
tempos de f imperturbavel, o corao era feito de diamante para
resistir aos golpes da tentao e para no seu proprio brilho conservar
inalteravelmente lucida a imagem uma vez gravada.

Bibliophilo Joseph vivia absorvido como um rei excentrico na sua vasta
crte de livros, rodeado apenas de Amadizes e Palmeirins imaginarios,
com os quaes praticava longas horas, ouvindo-os e respondendo-lhes,
inquirindo do passado com uma devoo fanatica.

Um criado que o servia, o velho Leo, era a unica pessoa que podia
entrar no recinto sagrado da bibiotheca, mas tendo comprehendido
intuitivamente a paixo dominante do amo, impuzera-se o dever de no a
perturbar jmais.

Leo, de origem castelhana, havia passado na mocidade pela casa dos
Medina-Sidonia, e tomra desde ento um gesto de grave compostura, que
no perdera nunca.

Vestindo todos os dias a sua casaca, atando a sua gravata branca, para
servir o sabio, como o havia feito, na mocidade, para servir os
Medina-Sidonia, Leo cumpria religiosamente o seu dever de grande
escudeiro de uma crte sem cortezos.

No dirigia nunca a palavra a seu amo se no para responder concisamente
s perguntas que elle lhe fazia. Entrava na bibliotheca sempre em bicos
de ps, quando o amo l estava, e muitas vezes, por j ter passado a
hora do jantar, pousava ao de leve sobre a vasta escrivaninha de
castanho, a que o bibliophilo se sentava, uma pequena bandeja contendo
uma ligeira refeio, que o amo tomaria se quizesse. Leo retirava-se
silenciosamente, deixando ao bibliophilo toda a plenitude do goso de
jantar no meio dos seus livros com o Bimnarder da _Menina e moa_ e com
o Danteo da _Diana_ de Montemayor.

O mais que Leo se permittia fazer, depois de ter deixado ficar a
bandeja, era espreitar pela fechadura da porta, receoso de que o amo se
houvesse esquecido de estender o brao para aproximar a refeio.

Leo tinha uma grande dedicao antiga por aquelle homem cheio de
sciencia e de virtude, que atravessava a existencia sem se contagiar das
paixes mundanas, conservando intacto um corao de ouro e um espirito
de luz.

Se via o amo ingerir  pressa a refeio, tranquillisava-se, e s
voltava tempo depois a espreitar pela fechadura da porta para o vr dar
um pequeno passeio hygienico, enrijecendo as pernas, em roda da
bibliotheca, como se andasse passeando n'um jardim, batendo os ps
deante dos canteiros, parando a observar as etiquetas latinas das plantas.

O que bibliophilo Joseph examinava era a sua colleco preciosa de rosas
bibliographicas, de raras tulipas litterarias. Demorava-se olhando a
lombada dos quatro in-folios da _Vita Christi_; tirava da estante, para
acarinhal-a, a _Historia do mui nobre Vespasiano_; fazia uma rapida
visita ao _Pentateuco hebraico_ e ao _Almanach perpetuus_, que eram
proximos vizinhos; folheava, envolvendo-o n'um olhar em que gorgeavam
beijos paternaes, o seu querido _Boosco deleytuoso_, que lhe exhalava
nas mos, como um lirio aberto, todo o perfume da antiguidade quinhentista.

Leo via o bibliophilo entregue a esse bom passeio hygienico, que tanto
lhe deleitava o espirito, e acabava de tranquillisar-se pela saude de
seu amo, que, muitas vezes, quando no alternava com a leitura o menor
exercicio muscular, tinha tido, ao levantar-se da cadeira, depois
de longas horas de vida sedentaria, vertigens gastricas.

Quando a noite principiava a cair, Leo entrava com o enorme candieiro
de tres bicos, cuja luz uma larga pantalha de lato afrouxava. Poisava-o
sobre a escrivaninha, com o leve ruido de uma mosca que passasse, e ia
accender, ao fundo da bibliotheca, o fogo de sala, fortemente chapeado
de ferro, para no communicar calor s paredes.

C fra, na rua, principiavam, d'ahi a pouco, a rodar as carruagens que
batiam para os theatros, para as festas frivolas da noite. Umas vezes
por outras passavam fanfarras, folias populares, que iam para os clubs
operarios improvisados ao ar livre. Outras vezes sentia-se o estrondo de
bombas de incendio, que passavam, arrastadas vertiginosamente; e os
sinos da cidade, alvoroados, ouviam-se badalar, pedindo soccorro.

Mas nunca esse movimento exterior eccoava na habitao solitaria do
bibliophilo de modo a perturbar a paz do seu espirito. Parecia que ao
sol posto se tinha erguido a ponte levadia de um castello, bem
defendido por um cinto negro de ameias e de fossos.

S excepcionalmente bibliophilo Joseph fozia soar a campainha para
chamar o seu velho Leo.

Comprehende-se, pois, a angustia com que o dedicado escudeiro
ouviria uma noite dois toques de campainha consecutivos.

Correu  bibliotheca.

Bibliophilo Joseph, quando elle entrou, forcejava por levantar-se da sua
alta cadeira de braos, mas as foras traam-n'o, as pernas
dobravam-se-lhe, e o sabio, muito pallido, encostou-se, vencido pela
doena, sobre o espaldar.

Leo acudiu-lhe carinhosamente, levantou-o nos braos tremulos, foi
depl-o no leito, chorando.

O bibliophilo sentiu-lhe as lagrimas, colheu-lhe docemente a mo, abriu
os olhos, demorou-os fitando-o, e disse-lhe:

--No chames ninguem, que manh estarei melhor.

Toda a noite o velho Leo velou junto ao leito de seu amo, que,
levemente anciado, parecia de vez em quando, com os olhos abertos,
querer fixar o pensamento n'um ponto vago, que lhe fugia.

Ao romper da manh, Leo, sentindo um movimento nervoso do doente,
interrogou-o.

Bibliophilo Joseph, com a face marmorisada n'uma pallidez terrena,
disse-lhe abrindo um sorriso triste:

--Queria, meu velho amigo, que me realisasses um desejo.

Leo, pendido ao leito, o peito offegante, escutava reverente.

--Que me amparasses com o teu carinho at  bibliotheca.

O velho criado levantou-o nos braos, envolto nas roupas do leito, e foi
sental-o, entre almofadas, na alta cadeira de respaldo.

Um cansao extremo parecia aniquilar o bibliophilo, ao passo que Leo
sentia rijos os seus braos como se fssem de ferro.

Com doloroso esforo, bibliophilo Joseph disse ao velho escudeiro,
indicando-lhe uma estante:

--Traze d'ali o _D. Quichote_ de Miguel Cervantes. Abre-o, e l onde
entenderes melhor.

Leo correu  estante, tirou o _D. Quichote de la Mancha_, e,
aproximando-se da cadeira do amo, caiu de joelhos, com o livro aberto.

Lentamente, a voz embargada pelos soluos, comeou a ler, e emquanto
elle lia, o bibliophilo, cerrados os olhos, escutava cada vez mais
anciado...

Foi assim que aquella alma cristallina, para quem a idade-mdia tinha
sido uma delicia, exhalou o derradeiro suspiro, emquanto o velho Leo,
sempre de joelhos, lia o _D. Quichote_ de Cervantes,--o epitaphio eterno
da idade-mdia.

Os applausos foram unanimes, postoque nem todos os ouvintes gostassem
sinceramente d'esta especie de contos, a que o Vasconcellos, com maior
ou menor propriedade, chamava phantasticos. Elle, por exemplo, preferia
a escola realista: estava mais no seu genio, alis pouco propenso a
idealisaes romanescas. Mas a verdade era que, afastada a questo
de assumpto, o Gonallinho Jervis logrra dar  sua narrativa uma forma
litteraria, que revelava um escriptor.

Do Leotte sabia o Vasconcellos que no viriam phantasias, fabulaes
romanticas; que, pelo contrario, quando o Leotte falasse, seriam
assumpto obrigado as mulheres. Ora no conto do Gonallinho, segundo a
expresso do Vasconcellos, nem meia mulher apparecia.




VIII


Foi pois o Vasconcellos, que n'essa noite excedia o seu bom humor
habitual, quem lembrou que, para contrapor ao Gonallinho, s havia um
homem entre ns, e que esse homem era o Leotte.

Estavamos n'isto, quando o Victor, dono do _hotel_, appareceu  porta da
sala, pedindo-nos licena para entrar.

--Era negocio urgente, dizia elle.

Convidmol-o a entrar, sentar-se, e dizer.

No fim de contas, o negocio era simples.

Do proprietario do _Hotel Braganza_, de Lisboa, recebera elle um
telegramma pedindo-lhe que na manh seguinte tivesse promptos, pelo
menos, um quarto e uma sala, contigua ao quarto, para um brazileiro e
sua esposa.

Precisava portanto que um de ns, o Maldonado, mudasse de aposento,
porque occupava justamente o que preenchia aquellas condies.

Despachado favoravelmente o requerimento, logo. A uns alegrou--e foi
d'este numero o Leotte--a chegada de novos hospedes, especialmente de
uma mulher; a outros, que estavam saboreando a liberdade da solido,
contrariou a noticia. Eu pertencia a estes ultimos.

Apanhando o Victor a geito, falmos-lhe na _criada fidalga_, como ns
diziamos. Pedimos informaes.

--Ella conta sempre essa historia, acho eu, disse-nos o Victor, mas isso
tem-me interessado pouco. So l coisas dos criados uns com os outros. O
que eu posso dizer  que a Rosa tem, effectivamente, algum ar de no ser
to grosseira como as outras criadas. Mas, se v. exas. o desejam,
perguntem-lhe a ella mesma por isso, quando quizerem, menos hoje, porque
ella est engommando roupa. Pde ser manh ou quando v. exas.
quizerem, se fazem teno de se demorar.

Agradecemos a concesso que o Victor nos fizera, naturalmente para
equilibrar a concesso que ns lhe fizemos do quarto do Maldonado.

O Leotte estava triumphante: que no se tinha enganado; que j iamos
vendo que quem tinha razo era elle, porque o proprio Victor confessra
que a Rosa no era to grosseira como as outras criadas.

E alegre por esta revelao, teve ainda menos duvida do que a principio
em contar uma tolice qualquer que lhe lembrasse, dizia elle.

--Vou-vos dizer um caso engraado e verdadeiro, annunciou o Leotte.

--Isso  que se quer, approvou o Vasconcellos.

---Com mulher? perguntou o Maldonado.

-- dos autos... respondeu o Leotte. _Toujours la femme._

--A historia do conde? perguntei eu.

--No; essa fica para outra vez.  uma que me lembrou agora.

Ouvimos.

--Voltavam de uma praia, no muito distante de Lisboa, tres amigos que
na melhor das intimidades tinham feito juntos a sua estao de banhos.

Vocs de certo os conhecem pessoalmente, mas a mim corre-me o dever de
lhes occultar a individualidade sob a mascara do pseudonymo.

Poderia,  certo, chamar-lhes os amigos _Tres estrellas_, mas as
estrellas sempre tiveram fama de romanticas, e o conto  seu tanto ou
quanto realista. Uma coisa brigaria com a outra. Prefiro pois inventar
tres nomes de guerra e charmar-lhes:

Arthur Reinaldo.

Leopoldo Ambrosio.

Jacinto Procopio.

E, declarados os nomes, a ninguem ser licito duvidar dos recursos da
minha imaginao.

Os nossos tres heroes pagaram a sua conta de _hotel_, fecharam as
suas malas, e dirigiram-se para a proxima estao do caminho de ferro.

Chegando ahi, encontraram na sala de espera uma senhora distinctamente
elegante, vestida de preto, coberto o rosto com um espesso vu.

Todos tres arderam em curiosidade de vr-lhe a face, e de saber quem fosse.

Mas o vu era impenetravel  perspicacia de seus olhos.

Quando chegou o comboio, offereceram-se, como bons cavalleiros andantes,
para conduzir ao wagon as malas da mysteriosa dama. Simples pretexto
para entrarem na mesma carruagem.

A traa vingou, vieram juntos. A dama mostrou-se amavel, espirituosa
at, mas o vu, sempre pendente, continuava a occultar-lhe o rosto, que
elles tanto desejavam vr.

A distancia no era grande, e, graas  boa companhia em que vinham,
ainda mais pequena lhes pareceu.

Chegaram a Santa Apolonia depois da meia noite, despediram-se da sua
companheira de viagem, que lhes agradeceu a amabilidade com que a
trataram, mas, como era natural, todos elles desejavam seguil-a para
ficarem sabendo onde morava em Lisboa aquella mysteriosa dama, que tanto
lhes dera no goto.

Pensaram comtudo que seria inconveniente seguirem-n'a todos tres ao
mesmo tempo, e de commum accordo resolveram delegar n'um s esta
empresa, sob compromisso solemne de que narraria aos outros com a maxima
exactido tudo quanto se passasse.

Jacinto Procopio foi o escolhido para to importante commisso
de confiana.

Feito o accordo, despedidos os tres, Jacinto Procopio, investido nas
suas funces de espio galante, v a dama aproximar-se da fila de trens
que estacionavam no Largo dos Caminhos de Ferro.

E ouvindo rodar uma das carruagens, que devia ser aquella que a
mysteriosa dama havia tomado, entra n'outra carruagem, ordena ao
cocheiro que largue sem perda de vista aquelle trem que acabava de partir.

O cocheiro assim fez, guiado pelas lanternas da carruagem que o
precedia. De vez em quando Jacinto Procopio, pondo a cabea fra da
portinhola, espreitava; e, como visse as lanternas a brilharem como dois
pharoes no trem da frente, tranquillisava-se.

Haviam chegado ao Terreiro do Pao, e o cocheiro da primeira carruagem
parou de repente, fazendo signal ao do segundo trem para que passasse
adeante.

Jacinto Procopio disse com os seus botes:

-- ella que no quer ser seguida. Pois tenha paciencia, porque eu no
estou resolvido a fazer-lhe a vontade.

E falando para o cocheiro:

--No faas caso. Deixa-te ficar.

Houve um momento de espera. O primeiro trem continuou rodando, e o
segundo tambem. Seguiram um atraz do outro ao longo do Aterro, subiram a
rampa de Santos, entraram na rua de S. Joo da Matta.

Jacinto Procopio ia jubiloso: a caa no conseguira fugir-lhe.

E depois, ficando a saber onde a dama morava, diria a verdade aos outros
ou no diria. Havia ainda de pensar n'isso. No fosse to tolo que,
depois de tanto trabalho, dsse lenha para se queimar.

O primeiro trem parou  porta de um predio na rua da Santissima
Trindade; e o segundo trem parou logo apoz o primeiro.

Jacinto Procopio salta precipitadamente do estribo, quer vr apear-se a
dama, mostrar-se-lhe, para que ella reconhea aquelle dos tres que
pareceria ter tido maior interesse em seguil-a.

Abre-se a portinhola da primeira carruagem e Jacinto Procopio v descer,
de mala na mo, quem? A dama que elle julgava haver seguido, e  qual
queria mostrar-se? No! V apear-se Leopoldo Ambrosio!

E os dois desatam a rir como possessos, quebrando hilariantemente o
silencio pacato da rua da Santissima Trindade.

A dama havia tomado outro trem, se  que tomou algum.

O logro fra completo.

Tanto quanto a alacridade que lhes desconjuntava as costellas o
permittiu, os dois trocaram explicaes, contaram um ao outro como as
coisas se haviam passado depois que se separaram no Largo dos Caminhos
de Ferro.

As revelaes de Leopoldo Ambrosio foram interessantissimas.

Afigurou-se-lhe que era a dama que o seguia no segundo trem. E este caso
intrigava-o.

--Ento  ella que me segue?! dizia elle com os seus botes.

E um fumosinho de vaidade passava no seu espirito, cegando-lhe o
entendimento.

No Terreiro do Pao, como o segundo trem viesse sempre na piugada do
primeiro, Leopoldo Ambrosio quiz desenganar-se, e ordenou por isso ao
cocheiro que dissesse ao do segundo trem que passasse adeante.

As duas carruagens, como j contei, pararam quasi ao mesmo tempo.

E como o cocheiro do segundo trem no obedecesse ao convite que lhe
fazia o do primeiro trem, Leopoldo Ambrosio mais se convenceu de que era
effectivamente a dama que o seguia.

Ento, todo ancho d'essa estranha aventura, em que elle parecia ser o
galanteado, deixou-se conduzir ao longo do Aterro, sonhando sonhos cr
de rosa na escurido de uma noite negra.

E no fazia seno espreitar pelo oculo da carruagem a vr se a
dama mysteriosa e distincta continuava a seguil-o.

O seu trem subiu a rua de S. Joo da Matta e chegou, finalmente,  da
Santissima Trindade. Parou no numero que elle havia indicado ao cocheiro
e que era o da sua residencia.

N'isto o outro trem pra logo.

--O que! exclama Leopoldo Ambrosio. Ento _ella_ pra tambem! Apea-se!
Vae talvez cair-me nos braos, dizendo n'uma grande allucinao de amor:
Segui-te, porque quero ser tua!

Tirou a mala para fra do trem; que no fosse esquecer-lhe na anciedade
febril d'essa proxima exploso de amor.

Abre-se immediatamente a porta da segunda carruagem, e Leopoldo Ambrosio
v apear-se, no a dama que elle imaginava vir seguindo-o, mas o seu
amigo Jacinto Procopio, de que se havia separado momentos antes no Largo
dos Caminhos de Ferro.

E quando no dia seguinte se reuniram todos tres, e os dois contaram os
episodios grotescos d'aquella aventura mallograda, Arthur Reinaldo,
desapontado, rogou nove mil novecentas noventa e nove pragas aos seus
dois amigos, que haviam estragado todos os bellos sonhos de conquistador
feliz que tinha sonhado.

O caso  authentico e garantido pelo testemunho insuspeito de tres
cavalheiros to acreditados nos seus respectivos bairros como so os
srs. Arthur Reinaldo, Leopoldo Ambrosio e Jacinto Procopio, tres
pessoas distinctas e um s logro verdadeiro.

--Bravo!

--Bravo!

--Um dos tres eras tu...

--Pois j se deixa vr que era.

Gargalhadas, partes, commentarios. A atmosphera aqueceu; o proprio
orador estava vibrante, excellentemente disposto. Que contasse a
historia do conde, que ainda era cedo. Que contaria, mas que precisava
primeiro um copo de cognac. Veio cognac para todos.

--Pois ento, meus caros, disse o Leotte, ahi vae a historia do conde.

Silencio geral.




IX


Imaginem vocs que  o proprio conde que est falando.

Eu lhe conto, disse-me o conde.

E, accendendo vagarosamente o seu charuto, cruzando a perna direita
sobre o fmur da esquerda, contou, com o seu habitual sorriso, levemente
malicioso:

--Estava eu em Pariz, onde tinha ido mais uma vez com o pretexto de
assistir s festas de 14 de julho. Oito dias depois, como os jornaes me
avisassem de que todo o Pariz--o Pariz doente e o Pariz so--havia
desertado para os Pyrineus, resolvi partir tambem, para fazer alguma
coisa, e para no ficar... s! Tomei o primeiro _expresso_, e, ao cabo
de 19 horas de viagem, apeava-me na estao de Pierrefite.

Achei-me, mal puz o p em terra, em plena vida: a grande vida dos
Pyrineus no estio.

Bastas massas de verdura engrinaldavam pittorescamente os rochedos, e a
paisagem formosissima do valle de Argels, contrastando com as aguas
revoltas do Gave, seria capaz de me inspirar uma cloga, se eu tivesse a
bossa de poeta bucolico.

Na estao havia uma espessa agglomerao de gente, um borborinho
estridulo, que me fez acreditar que todos os doentes que se
sobrescriptavam para Cauterets iam de perfeita saude, a comear por mim...

Os _omnibus dos hoteis_ solicitavam-me, na razo de 2 francos e 50
centimos, por duas horas de caminho; os cocheiros das _calches_
disputavam-me a cabea por dez francos. Preferi os _omnibus_, por nada
menos de tres razes:

1. Eu detesto a solido, e os _omnibus_, como o seu nome indica,
garantiam-me duas horas de viagem alegre, em companhia da gente que mais
fala no mundo: os francezes.

2. Eu relacionara-me no _expresso_ com tres francezes e quatro
francezas, a duas das quaes, alternadamente, e s vezes simultaneamente,
principiei a fazer um pequenino p de alferes, como ns c dizemos.

3. Esta razo  futil: era mais barato.

As minhas duas francezas saltaram para dentro de um _omnibus_, e eu
parodiei os carneiros de Panurge, saltando para onde ellas saltaram.

Duas horas deliciosas!

As francezas eram amigas de collegio: uma d'ellas, cunhada de mr.
Bourgoin, um burguez rico, viajava para se divertir acompanhando a irm
casada; a outra viajava, tambem para se divertir, acompanhando a sua
amiga, cunhada... do cunhado.

Apenas o burguez precisava das aguas de Cauterets por causa do
rheumatismo, que  uma doena de todos os burguezes. Se no fosse isso,
como elles seriam felizes, especialmente... os ricos!

S elle, pois, tomava tudo aquillo a srio, falando-me da composio das
aguas, das differentes _sources_ de Cauterets, em que predominava o
elemento alcalino.

As duas amigas, por sua vez, encareciam-me a belleza dos passeios de
Cauterets, citavam-me _la Promenade des Oeufs_, vasta explanada onde
todas as tardes toca no kiosque a musica do Casino e onde a variedade
dos divertimentos--bailes infantis, jogos, tiro ao alvo--e os _chalets_
dos vendedores pem em todo o recinto uma nota de animao movimentada,
grrula, que a enorme concorrencia da _station_ completa; da montanha de
_Cambasque_, ao fundo da _Promenade des Oeufs_,  qual se sbe em
zig-zags, para descobrir um ponto de vista encantador; do _Marmelon
Vert_, a dois kilometros de Cauterets, o _rendez-vous_ do _sport_; do
_Parque_, sombreado de bellas arvores seculares; da _Grange de la Reine
Hortense_, d'onde se avistam os valles de Argels e Lourdes; e da
_Glacire_, a estreita garganta nunca visitada por um raio de sol...

Planeavam _parties de plaisir_, _repas champtres_, que ns desdoiramos
com o vocabulo plebeu de merendolas, mas que, na graa delicada da
lingua franceza, principiavam a ter sabor antes da realidade.

Se fsse em Portugal, dizia eu com os meus botes, estas duas meninas,
ambas de uma mocidade estonteadora, viriam aqui esmagadas pela
auctoridade dictatorial do unico homem que as acompanha; no diriam
palavra ou responderiam com simples monosyllabos, muito acanhadas e
muito hesitantes, s minhas perguntas.

Mr. Bourgoin, a ser portuguez, encarregar-se-ia, algum tanto
constrangido, de fazer todas as despesas da conversao, visto ter a
infelicidade de haver encontrado, contra os estilos do nosso paiz, um
companheiro de viagem tagarella.

Madame Bourgoin to depressa estimulava as esperanas do marido na cura
radical do seu rheumatismo, adiada de anno para anno, como se
intromettia na conversao da irm, e da outra, lembrando a belleza do
_Lac Bleu_, espelhado de aguas limpidas, e contornado de ruinas, dando
assim a entender que, superior  prosa do rheumatismo conjugal, pairava
no seu espirito a poesia dos lagos...

Perguntaram-me as duas amigas se eu me demoraria muito em Cauterets.

Respondi que no havia nada to incerto para um homem de boa saude como
saber quando a sua doena o abandonaria.

As duas francezas riram longo tempo, comprehendendo, com a sua fina
intuio gauleza, que eu principiava a estar indeciso, no meu p de
alferes, entre uma e outra.

Se viajassemos em Portugal, era certo, certissimo, que comeariam a ter
ciumes, a mostrar-se reservadas, um poucochinho azedas, porque uma
portugueza no comprehende facilmente que um homem possa estar ao mesmo
tempo namorado de duas mulheres.

Portugal, a despeito do feliz systema que nos rege, como dizia o
Garrett, , pela tradio, um paiz absolutista... at no amor.

Uma das francezas, M.elle Suzanne, lembrou-me a conveniencia de
encontrar qualquer doena ligeira que me obrigasse a demorar-me um pouco
mais em Cauterets do que a saude.

M.elle Denise foi de parecer que todo o fumista deve soffrer mais ou
menos da garganta.

Achei acertado o alvitre e, uma vez installado em Cauterets, comecei a
tomar as aguas por minha conta e risco, escolhendo a _source_ ao acaso.
Arranjei, como o dr. Serrand pde verificar por meio do laryngoscopo,
uma congesto thermal da larynge, o que me fez convencer de que as aguas
de Cauterets so excellentes, no tanto para dar saude, como para
tiral-a.

Na impossibilidade de continuar cultivando as aguas, comecei a cultivar
o amor--o amor de Cauterets, meu amigo, que parece colorido por um
pintor decorativo n'um fundo de paisagem em que as naiades e as driades
emergem do seio alpestre dos Pyrineus bailando de mos dadas em torno de
ns.

Uma fascinao... em francez.

Consegui ser, dentro em quinze dias, um homem conhecido pelas mulheres,
um millionario do amor... ideal.

No chegava para as encommendas platonicas que de toda a parte me
solicitavam. Palavra de honra: no chegava. Uma vez encontrei-me no Pic
de Gabietou, sem eu saber como, com mademoiselle Rosine Hubert, uma
loira, irm gemea da aurora. Tomei a altura do Pico, e achei que estava
s no mundo com ella. Lembrou-me ento uma certa aventura de Henrique
IV, no alto de uma torre, com a filha do sineiro. Tentei fazer de
Henrique IV, e beijei-a. Mademoiselle Rosine Hubert partiu-me o leque na
cara. Ensaiei nova tentativa. Ella ameaou-me de se despenhar do Pico,
arrastando-me comsigo. O lance pareceu-me tragico de mais para uma
simples aventura de estio. Descemos; eu amparava-a, acudia-lhe quando
ella, rindo, rindo sempre, hesitava na descida.

J de longe olhei para o Pic de Gabietou, e vi n'elle o monumento
informe da minha cobardia ou da minha inepcia.

Mademoiselle Rosine, espanejando-se na sua alegria, parecia no
conservar o menor resentimento da scena de Gabietou. Falava-me com a
mesma graa amavel, sorria-me ainda com a mesma confiana que eu parecia
haver-lhe inspirado antes.

Se Rosine fosse portugueza, ter-se-ia ido queixar  mam, que contaria
tudo ao pap. Haveria em Cauterets um escandalo medonho, e eu teria de
adoptar um de dois extremos violentos: fugir ou casar.

Nada d'isto aconteceu. Rosine no contou a ninguem, decerto, a scena de
Gabietou, em que me fez muita falta um Mephistpheles e um cofre de
joias. Conhecendo que eu a desejava um pouco, procurou, como boa
franceza que era, fazer que a desejasse muito. Sorria-me, attraa-me.

E eu teria talvez queimado as azas, se n'essa noite no houvesse
apparecido no Casino outra franceza mais adoravel ainda que Rosine, a
qual franceza devia ser d'ahi a tres mezes minha legitima mulher.

Fiz-lhe namoro durante mez e meio, at ao fim de setembro. Depois, vesti
a minha casaca, puz a minha gravata branca, e fui pedil-a  me, que
teria quarenta annos, e uma carnao sadia, que no conseguira perder,
sem embargo de tomar as aguas de Cauterets todos os annos. Parece incrivel!

O conde descruzou as pernas, accendeu de novo o charuto, e,
batendo uma palmada com a mo esquerda sobre a perna, disse-me:

--Fui muito feliz aquelle anno em Cauterets. Imagine que de uma vez
combinei com dois portuguezes, que l estavam, com oito francezes, um
allemo e uma ingleza velha, fazermos uma excurso ao Pico de Balatous.
Partimos de madrugada. Na vespera  noite a nossa excurso annunciara-se
no Casino, fizera sensao; a noticia correra todos os grupos.

Ao nascer do sol--uma manh deliciosa dos Pyrineus--quando cheguei 
porta do _hotel_, fiquei encantado de encontrar  janella, esperando por
mim, para me verem partir, todos os meus namoros de Cauterets. Tinham
madrugado sobreposse para me enviar, nas azas d'um sorriso, o seu adeus.
Eu sentia-me feliz, ufano. Imagine que s n'uma das janellas estavam
duas mulheres, impulsionadas pelo mesmo pensamento: o de me verem
partir! Uma d'essas mulheres foi d'ahi a tres mezes minha noiva.

--E a outra? perguntei eu.

--A outra? repetiu o conde com o seu habitual sorriso levemente
malicioso. A outra era minha sogra.

Todos ns conheciamos o conde, o seu genio alegre, o seu viver mundano,
os seus ditos de espirito, a que muitas vezes sacrificava as
conveniencias sociaes, as suas proprias conveniencias at; de modo que
nos foi muito agradavel ouvir mais uma vez a historia do seu
casamento com o sabor picante que elle proprio lhe dava, quando, sem
poupar a sogra, no punha duvida em contal-a.

O Gonallinho Jervis, que tambem era amigo do conde, havia-se levantado,
emquanto o Leotte falava, e encostra-se ao vo de uma janella olhando
para fra.

Dmos por isso.

--O que ests tu ahi fazendo?

--Que bello luar! exclamou elle. Que bella noite de primavera para irmos
ouvir os rouxinoes!

--No seja piegas, atalhou o Vasconcellos. Que bella hora para a gente
ir deitar-se!...




X


Era certo que tinhamos ido a Cintra com o pretexto de ouvir os
rouxinoes. Mas era certo tambem que nenhum de ns, com excepo do
Gonallinho Jervis, estava j n'esse periodo agudo de romanticismo, que
exalta allucinadamente a imaginao.

Parariamos de boa vontade para ouvir um rouxinol, que nos houvesse
surprehendido no caminho. Mas ser-nos-ia pesado qualquer incommodo que,
a no ser por surpresa, isso nos pudesse custar.

O que principalmente ns quizemos gozar indo a Cintra, era a liberdade,
o descanso, que no tinhamos habitualmente. O projecto de ouvir os
rouxinoes lisonjera por momentos a vaga saudade, que todos
alimentavamos, dos annos felizes da vida, passados na provincia. Mas,
uma vez postos a caminho, a doce liberdade, que principiamos a
saborear, bem depressa nos fez esquecer dos rouxinoes, que no pensamos
mais em ouvir.

S o Gonallinho Jervis no podia to facilmente esquecel-os como ns
outros. A idade desculpava-o. Estava ainda na sezo da poesia, era uma
alma em ebulio, um corao em flr, via os rouxinoes atravs do prisma
da lenda que tinha talvez lido em Bernardim Ribeiro, frei Luiz de Sousa
e outros poetas da prosa ou do verso.

Todos ns, mais ou menos, haviamos passado por isso.

Todos ns haviamos tido uma quadra da vida em que nos impressionra o
caso do rouxinol de Bernardim Ribeiro, que morre de cansao cantando.

No tardou muito--diz a novella--que, estando eu assim cuidando, sobre
um verde ramo que por cima da agua se estendia, se veio poisar um
rouxinol; e comeou a cantar to docemente, que de todo me levou aps si
o meu sentido de ouvir.

E elle cada vez crescia mais em seus queixumes, que parecia que, como
cansado, queria acabar, seno quando tornava, como que comeava ento.

Triste da avesinha, que, estando-se assim queixando, no sei como se
cahiu morta sobre aquella agua. Cahindo por entre as ramas, muitas
folhas cahiram tambem com ella.

Na idade do Gonallinho Jervis, toda a alma  pouco mais ou menos
como o rouxinol da novella: esgota-se cantando.

Eu no sei se seriam rouxinoes as aves que na crca do convento de
Bemfica provocaram a desafio os homens, chegando uma d'ellas a morrer
extenuada.

Assim nos tempos que a natureza esperta as linguas das aves, a louvar
com mais harmonia o Creador,  quasi morada continua (a crca) das que
por mais musicas so conhecidas. E  tradio, que juntando-se n'ella
uns seculares de boas vozes, e comeando a cantar ao som de instrumentos
bem accordados, acudiram as que se tinham por senhoras do sitio, a
desafiar a melodia humana, e artificial, com a sua natural. E isto com
tamanha porfia, que vencidas as vozes dos homens no cansaram as pobres
avesinhas de seguir as violas que ficaram supprindo por ellas; e uma se
deixou levar tanto do impeto, e affecto de cantar, que veio a
desfallecer, e  vista de todos cahiu em terra sem alento, como dizendo,
que antes queria perder o bem da vida, que a honra de perseverar cantando.

Deviam, effectivamente, ser rouxinoes, porque frei Luiz de Sousa se
refere _s que por mais musicas so conhecidas_, e o rouxinol , no
mundo alado da Europa, o cantor por excellencia.

Na idade do Gonallinho Jervis, se uma alma responde  nossa n'um
_duetto_ de encantador lyrismo, pouco se nos d de perder a vida
comtanto que possamos morrer exhalando a alma n'um cantico.

Eu proprio j havia prestado tambem o meu culto aos rouxinoes,
principalmente ao de Bernardim Ribeiro. Aos dezoito annos--Deus me
perdoe!--compuz um poema cuja heroina

    Acabra, cantando, o captiveiro
    Tal como  fama ter acontecido
    Ao rouxinol de Bernardim Ribeiro!

Mas, no anno em que fmos a Cintra, j propendia a estimar mais as
perdizes do que os rouxinoes, sobretudo se as perdizes eram temperadas
com molho de villo.

Um bom petisco!

O Gonallinho Jervis, felizmente para elle, amava tanto os rouxinoes
como poeta que era, que at sabia a lenda mythologica d'aquella princeza
que por suas desventuras fra convertida em philomela, nome que os
antigos deram ao rouxinol.

Eu tinha s uma vaga ideia d'essa lenda pag por a haver lido na _Arte
da caa da altenaria_, composta por Diogo Fernandes Ferreira.

Contam as fabulas que Tereo, filho de Marte e de Bistonida, sendo rei
de Thracia, casou com Progne, filha d'el-rei d'Athenas, e a trouxe para
o seu reino. N'ella houve um filho lindissimo, a que chamavam Itns, to
desejado no reino, que o dia que nasceu se festejava como festa
solemne. Teve a rainha Progne saudade de vr a sua irm Filomena:
pediu ao marido licena para a ir vr, ou fsse elle em pessoa para a
trazer, que seu pae e me lhe concederiam licena para a irm vir. Tereo
aprestou naus, partiu, chegou a salvamento, foi bem recebido dos sogros,
rei e rainha e da cunhada Filomena, a qual, em Tereo a vendo, se
incendeu de amores por sua formosura. Ento com mais efficazes palavras
pediu aos paes lhe dessem a licena que pretendia. Fez-se-lhe a vontade.
Embarcados, vieram a salvamento, e, chegados a um porto do reino de
Tereo, sahiram em terra elle e a cunhada, dizendo elle que o fazia para
n'aquella floresta descansar do trabalho do mar. E sendo longe das naus
e gente, no tanto como o elle estava da virtude, trabalhou por
persuadir a cunhada quelle intento que desejava; e vendo que nenhumas
promessas nem palavras bastavam para ella consentir em seu desejo,
acolheu-se  fora e com ella, muito contra vontade da afflicta
princeza, de donzella a tornou dona. Queixando-se ella a Deus e ao mundo
de to grande maldade, que havia de ser pregoeira de tamanha villeza e
traio, e se havia de tomar vingana de tal aleivosia, ordenou elle
outra maior maldade arrancando-lhe a lingua, e assim a levou a casa de
um criado seu e vassallo, no lhe declarando o caso. Aos das naus disse
que as feras a mataram, e chegando a sua casa se fizeram muitas mostras
de tristeza pela morte fingida da cunhada, a qual, estando em
poder do vassallo de Tereo, pediu por acenos lhe dessem hollanda e seda
de cres, que queria entreter-se. Trazida, em letras gregas conta  irm
o caso, e por acenos rogou a uma mulher levasse aquella toalha assim
lavrada  rainha Progne, que lhe havia de ser bem pago o trabalho que
n'isso tomasse. Dada a toalha  rainha, sabida a historia, dissimulou.
N'aquelle tempo se faziam umas festas que de tres annos se celebravam
n'aquelle reino. Disse Progne ao marido que desejava ir a ellas. Ida,
foi aonde a irm estava, a qual achou privada da lingua e falla, e assim
a trouxe para sua casa em trajo demudado. Ambas determinaram a vingana
do marido bem extraordinaria, e foi que tomaram Itns, o principe filho
de entre ambos, e lhe cortaram a cabea, ps e mos, e do corpo mandaram
fazer manjares differentes. E tendo isto ordenado, pediu Progne ao
marido lhe concedesse jantarem ambos, ao modo dos reis de sua terra, que
era comerem ss. Foi-lhe feita a vontade. Partiu Tereo os manjares e
guizados feitos do corpo do filho; depois de comer d'elles, pediu 
mulher lhe mandasse vir o principe Itns, seu filho, que elle muito
amava. Ento sahiu Filomena de uma camara com a cabea, as mos e os ps
do filho, desejando ter lingua para mostrar a ira que contra elle tinha.
Tereo, vendo o caso, deu com a mesa em terra, e lanou mo  espada.
Ellas fugiram, Progne convertida em andorinha, e Filomena em
rouxinol; Itns em avio, e Tereo em poupa.

Esta fabula, copiada dos poetas pagos, fazia trasbordar de poesia a
alma do Gonallinho Jervis, que julgava ouvir na voz do rouxinol toda a
colera tragica da princeza Filomena, a qual princeza, convertida em ave
canora, parecia vingar-se eternamente da falta que no seu tempo lhe
fizera a lingua, cortada pelo cunhado.

Gonallinho ia na esteira de Cames, que dizia nos _Lusiadas_:

    Ao longo da agua o niveo cysne canta,
    Responde-lhe do ramo philomela.

Na varzea de Collares no faltavam agua, verdura, rouxinoes. Por isso
elle tanto desejava que, soltando a sua voz de cysne de _frak_
(certamente mais melodiosa do que aquella de que os cysnes podem dispr)
lhe respondesse de um ramo a princeza atheniense, convertida em rouxinol.

Diogo Fernandes Ferreira explica a razo por que as quatro personagens
da lenda foram metamorphoseadas n'aquellas aves.

Ordenou o poeta esta fabula de vr que o rouxinol quasi no tem lingua,
e a andorinha ser vestida de preto, e no peito ter umas nodoas
vermelhas, e ter o canto triste, como que conta a historia da maldade do
marido, e as pennas rxas como sangue da crueldade que teve em matar
o filho em vingana da irm. E do canto do rouxinol a saudade com
que viveu a vida a forada Filomena, e do avio porque no seu canto
parece que grita como menino, e na poupa pela significao da cora da
cabea, e na formusura das pennas pintadas de que se vestem finge ser
el-rei, porque a poupa, tomada na mo, tem mau cheiro, e o ninho d'ella
o mesmo: em que se d a entender que os maus feitos, ainda que sejam
commettidos por reis e pessoas graves, se ha de fugir d'elles e
virar-lhes o rosto, como coisa abominavel e fedorenta.

Este processo da moralidade pelo fedor no deixa de ser convincente.

Disse isto uma vez ao Gonallinho. E elle, muito despeitado, chamou-me
barbaro.




XII


No dia seguinte, quando recolhemos para jantar, soubemos pelo Leotte,
que tinha ficado de atalaia, tudo o que se passra com relao  chegada
dos dois novos hospedes--o brazileiro e a mulher.

No era o nosso amigo Leotte homem que, em se tratando de uma mulher,
curasse por informaes. Queria vr a brazileira: ficou.

--J no  nova--disse-nos elle--mas considero-a ainda acirrante.
Dou-lhe quarenta annos, pouco mais, e est menos mal conservada. Bonitos
olhos, bons dentes, cabello magnifico. Reforada de carnes, sem se poder
dizer nutrida. Mulher capaz de satisfazer o ideal de um brazileiro, que
a idade principia a tornar decadente. Disse-me a Rosa, que est de
servio  brazileira, que elles iro jantar  mesa redonda.

--Ests n'um sino, Leotte! Pois bem! Veremos isso.

Quando chegamos  mesa, contamos onze talheres. A informao fornecida
pela Rosa era, pois, exacta. D'ahi a pouco tempo, o brazileiro e a
mulher entraram.

O Leotte descrevera com exactido e verdade o typo da brazileira. Era,
effectivamente, o que se costuma chamar--umas bellas ruinas. No dessas
ruinas brutalmente realisadas por um cataclismo, que no deixa pedra
sobre pedra; mas as que o tempo lentamente costuma ir augmentando e
dulcificando com um vago perfume de poesia do passado.

Nos olhos da brazileira, principalmente, brilhavam uns como lampejos de
formoso occaso de outono. A noite negra da velhice, que apaga o claro
das pupillas, estava ainda longe. E sentia-se n'essa organisao de
mulher, que devia ter sido ardentissima, o que quer que fsse de
rescaldo tepido e demorado de um incendio devorador.

A _toilette_ era distincta, gentil, sem ser severa nem petulante.
Denunciava um velho habito de vestir com esmero. O unico defeito que se
poderia notar era um certo excesso de p de arroz nas mos e de anneis
nos dedos.

O brazileiro principiava a resvalar pelo plano inclinado da velhice
cansada. Mas havia na sua face um reflexo de bondade credula, de alma
sincera, capaz de um sacrifcio nobre e de um acto de generosidade
fidalga.

No momento de entrar na casa de jantar, percebeu-se que o contrariou
achar-se com sua mulher no meio de uma sociedade de homens. Mas a breve
trecho o seu sobresalto dissipou-se, reconhecendo que nenhum de ns
ignorava o que era jantar em companhia de uma dama.

E a proposito da dama... Cinco minutos depois d'ella se ter sentado 
mesa, comeou-me a impressionar a sua physionomia, na qual me parecia
encontrar feies de uma mulher que eu j vira no sabia quando nem onde.

Por mais que evocasse as minhas recordaes, por mais que folheasse esse
volumoso livro de biographias que cada pessoa tem archivado no espirito
para o consultar de quando em quando, no me era possivel encontrar um
nome que correspondesse quella physionomia: todavia, eu iria jurar que
j tinha visto algures a mulher do brasileiro, que a havia encontrado,
conversado talvez, mas no sabia, no podia dizer quando isso fosse.

Seria em Lisboa? No, decerto. Visivelmente haviam decorrido muitos
annos, porque, de contrario, a minha memoria no seria to rebelde.

Na provincia? Aonde? Eis a questo. Vel-a-ia eu no Porto? Tel-a-ia visto
em Braga, onde tantas vezes fui passar as frias? No Bom Jesus do Monte,
onde, no vero, abundavam os brazileiros em _villegiatura_? Nas Caldas
das Taipas ou de Vizella, que um anno por outro visitei de passagem?

Deus meu! Era certo que eu tinha visto aquella mulher, mas no podia
lembrar-me onde nem quando.

Dominado por esta preoccupao, passei todo o jantar. Procurava observar
a brasileira sem comtudo offender a susceptibilidade do marido. Elle no
repelliu a conversao em que principalmente o Leotte o queria envolver.
Disse alguma coisa da sua vida, pouco. Estava doente. Ella falou muito
menos do que o marido, mas a sua voz, que conservava ainda vestigios da
accentuao das provincias do norte, augmentou a minha preoccupao.
Decididamente, eu j tinha ouvido falar aquella mulher.

Sem termos sido mutuamente apresentados, estabeleceu-se para o fim do
jantar, graas aos esforos empregados pelo Leotte, um certo convivio de
expansiva camaradagem. Leotte, rindo sempre, contou ao que tinhamos ido
a Cintra: ouvir os rouxinoes.

O brazileiro e a mulher acharam muito graa a esta excentricidade
collectiva.

--Ouvir os rouxinoes! exclamou elle. Na minha terra, por este tempo, os
rouxinoes so aos cardumes!

O Gonallinho Jervis sublinhou com um olhar, que me enviesou, os
_cardumes de rouxinoes_, que tinham sado da bocca do brazileiro.

Mas o Leotte aproveitou logo a occasio para perguntar:

--Ento v. ex.  portuguez?

--Nado e creado na freguezia de Santa Maria de Bouro, concelho de
Amares, comarca de Villa Verde, districto de Braga, respondeu elle.

--Ah! Por ahi, como em toda a provincia do Minho, so abundantissimos os
rouxinoes.

--Que no Brazil, onde estive mais de trinta annos, tambem ha muitos
passaros que cantam bem: o sabi sica, o corrixo, que imita todos os
outros passaros, o bem-te-vi, etc. Mas o que no Brazil ha de mais
notavel  que muitos passaros falam.

--Falam? perguntou o Leotte.

--Eu s sabia do papagaio, observou o Vasconcellos.

--Nada, no sr., continuou o brazileiro. O bem-te-vi, por exemplo, canta
dizendo o seu nome. O tico, que  do tamanho d'um pardal, anda sempre a
dizer--tico, tico. E o curiang, que se pe de noite adeante dos
cavallos, costuma dizer de madrugada: Joo, corta pau!

--Mas os indigenas ho de dar alguma explicao a essa phrase...

--Isso agora  que eu no sei, meu caro sr. L que elle o diz, diz,
porque eu, sendo caixeiro e andando a cobrana, ouvi muitas vezes cantar
o curiang. Punha-se  frente do meu cavallo e, quando o sentia perto,
tornava a voar, e esperava-o dizendo: curiang.

--Ento no diz sempre a mesma coisa?

--No, sr. De noite diz--curiang; e de madrugada--Joo, corta pau.

-- curioso! Pois ns viemos para ouvir os rouxinoes, e a verdade  que
ainda os no ouvimos, com grande magua do nosso amigo Jervis, que tomou
muito a srio o pretexto d'esta digresso. Mas temos passado as noites
to entretidos no _hotel_, que nos tem faltado tempo para irmos ouvir os
rouxinoes.

--Entretidos! Aqui? perguntou ironicamente a mulher do brazileiro.

--Sim, minha senhora, respondeu o Leotte, muito agraciado do semblante.
Entretidos a contar historias.

--Da carochinha? perguntou ella com o mesmo tom de ironia.

Ento o Leotte explicou largamente o compromisso, que todos ns haviamos
tomado, de contar uma historia ao sero para aligeirar as noites de Cintra.

Tanto o brazileiro como a mulher acharam muita graa a mais esta
excentricidade.

--Pois eu, disse ella, vinha com medo s noites de Cintra, que
principalmente n'esta poca do anno devem ser horrorosas de comprimento.
Mas o Araujo tem passado agora peor, e o medico aconselhou-o a que
viesse tomar os ares de Cintra.

--Pois se v. exas. nos quizerem dar essa honra, acrescentou o Leotte
sempre amabilissimo, podero concorrer aos nossos seres.

--Da melhor vontade. Tanto mais que o Araujo precisa muito distrair-se.
V. exas. demoram-se?

--Fazemos teno de ir manh embora, respondeu o Vasconcellos na
qualidade de chefe da caravana.

--No  sangria desatada, minha senhora, atalhou o Leotte. E de mais a
mais ainda nem sequer ouvimos os rouxinoes.

O Vasconcellos, sorrindo, encolheu os hombros.

--Pois ento, disse a mulher do brazileiro levantando-se da mesa, eu e
meu marido faremos parte do auditorio. No  assim, Araujo?

--Sim, filha, como tu quizeres.

O Leotte, despedindo-se:

--Os nossos saraus litterarios principiam depois das oito horas da
noite, na sala de visitas.

--At logo, disse a mulher do brazileiro saindo da sala de jantar,
seguida pelo marido.

Samos tambem, accendemos as nossas cigarrilhas e fomos dar um passeio
at  Praa para fazer o chilo, como sempre dizia o Maldonado.

 claro que o assumpto do passeio, insensivelmente prolongado pela
estrada de Villa Estephania, se circumscreveu ao brazileiro e  sua mulher.

Todos eram de opinio, quanto  mulher, que ella representava umas
ruinas muito menos antigas que as do convento do Carmo, mas no menos
pittorescas. O Leotte--j era de esperar--exagerava a belleza da
brazileira, como todos lhe chamavamos, e acrescentava que, quem quer que
ella fosse, vinha da escla da experiencia, da escla pratica do mundo.
Era _abelha-mestra_, concluia elle.

Todas as phrases que ella dissra suscitavam-nos commentarios mais ou
menos maliciosos.

Notava-se a facilidade com que acceitra o nosso convite, no sem
disfarar habilmente o seu espirito mundano com a allegao de que o
marido precisava distrair-se. O seu horror pela extenso das noites de
Cintra revelava que ella, todavia, amava mais o mundo que o marido.

Eu insisti na minha preoccupao de a ter j visto algures. Alguns dos
meus amigos, o Vasconcellos por exemplo, riram-se d'isto.

-- que ella tem a phisionomia tipica de todas as mundanas quarentonas
que foram parar s mos de brazileiros. O que tu conheces  o genero,
no  a pessoa.

--Pde ser que seja assim, comtudo eu apostaria que j a vi, no sei onde.

--Mas, lembrou o Gonallinho, ella ouviu dizer o teu appellido sem dar o
menor indicio de conhecer-te.

--Ora! isso  da tabella, tolinho! Ento ella havia de mostrar ao
brazileiro que conhecia alguem n'este mundo alm do seu querido Araujo?

--Que tinha isso? insistiu o Jervis. Pois as mulheres, por mais honestas
que sejam, esto inhibidas de reconhecer um homem que era das
relaes da sua familia?

--O caso  outro, pateta. Uma scena de reconhecimento importaria
explicaes que ella teria de dar ao marido. E quem sabe se elle as
acceitaria sem uma suspeita, justa ou injusta? Aqui tens o busilis.
Decididamente, tu no sabes nada do mundo!

Chegou depois a vez de discutirmos o brazileiro, um bajojo, diziamos,
anesthesiado pelos ultimos prazeres capitosos de uma velhice cansada.
Recordamos a phrase d'elle: Sim, filha, como tu quizeres. Mas, em todo
o caso, boa pessoa, sincero pelo que respeitava  sua biographia:
Natural da freguezia de Santa Maria de Bouro, concelho de Amares, etc.

--Hei-de saber a historia d'este casamento e d'esta mulher. O Pessanha,
que  deputado por Villa Verde, ha-de conhecer o Araujo, se elle
effectivamente  de Amares.

--Ests tolo! Ha l algum deputado que conhea o circulo!

--Mas  que o Pessanha tem casa em Villa Verde.

--N'esse caso j deve dinheiro ao Araujo e dir s o que lhe fizer conta.

--Qual historia! Se lhe deve dinheiro, diz tudo.

O Gonallinho Jervis lembrou a phrase--cardumes de rouxinoes. Outro, no
sei qual, recordou-se do _tico, tico_. O caso do passaro--j
nenhum de ns lhe atinava com o nome--que cosstuma dizer Joo, corta
pau, despertou grande galhofa.

--Mas  que os brazileiros, disse o Athayde, tem a mania de que todos
os passaros dizem alguma coisa.

Gargalhada geral.

-- isto, insistiu elle. O Rodrigues, que vae muito  _Havanesa_, j uma
vez me contou que ha no Brazil uma especie de rla, que diz sempre:
Fogo pagou.

--Pegou,  que ha de ser.

--Elle disse Fogo pagou.

--E ha de ser assim. Julgavas ento que no Brazil eram as rlas que
davam o signal de incendio!

Novas gargalhadas.

O Leotte lembrou que j passava das oito horas. Se no havia de ser elle
que o lembrasse! Desandamos para o _Victor_, porque havia chegado o
momento de comear o nosso sarau litterario--com a assistencia do
brazileiro e de sua esposa.

Devia ter-se sentido em todo o _hotel_, quasi solitario, o ruido da
nossa chegada. Installamo-nos na sala de visitas, como era costume.
D'ahi a pouco, o brazileiro e a mulher entravam na sala.

Madame Araujo tinha feito _toilette_ para o sarau, uma _toilette_ que
envergonhava, pelo esplendor elegante, a nossa humilde academia
de _touristes_. Mas um certo excesso de anneis de preo, enfiados nos
dedos tambem excessivamente jaspeados de ps de arroz, prejudicava um
pouco o bom gosto da _toilette_.

De mim para comigo dizia eu: J vi estas mos e estes anneis, no sei
onde!

A mulher do brazileiro mostrava-se encantada com a surpresa de um sarau,
que a nossa excentricidade, como ella dissra, lhe havia preparado.

O Araujo, muito resignado, parecia dizer com os olhos, explicando a sua
presena ali: Sim, filha, o que tu quizeres.




XIII


Mettemos  bulha o Saavedra, que tinha sido at esse momento um dos mais
silenciosos do grupo, para que se dignasse fazer as honras d'aquella
noite, visto como a sua eloquencia devia achar-se ainda em folha, e a
nossa j ia estando um pouco fatigada.

O Saavedra tinha certa graa natural, era um espirito observador, mas a
sua modestia orava s vezes pela timidez. Felizmente pudemos
convencel-o a contar uma das suas anecdotas.

--Imaginem v. exas., disse elle, que uma respeitavel dona de casa, uma
exemplar me de familia, o que quer que seja de Cornelia romana, tem um
marido cujo oramento domestico  em grande parte absorvido pelas
immensas publicaes, principalmente jornaes, de que o fazem
assignante, s vezes sem elle proprio o saber.

 sempre com uma certa contrariedade que a esposa d'esse cavalheiro v
todos os dias entrar pela porta dentro mais um novo jornal.

Ella, que para os seus Gracchos quereria amealhar todas as economias do
_mnage_, observa ao marido que j vae sendo excessivo o numero de
jornaes que recebem.

Ordinariamente elle responde:

--Que queres, filha? Pediu-me o meu amigo Fulano; no pde deixar de
ser. Mas como tudo n'este mundo tem compensaes,  mais um que podes
mandar vender no fim do mez.

E, accendendo o seu charuto, nunca mais pensa no jornal novo que lhe
mandaram, seno quando o cobrador vem receber a importancia da assignatura.

Todas as noites os jornaes d'aquelle dia so arremessados para o fundo
de um quarto esconso, d'onde, de tempos a tempos, saem s braadas para
a tenda vizinha, na raso de 60 ris o kilo de idas.

Pobres idas! Descomposturas da politica, dissertaes sociologicas,
_sueltos_ mordazes, versos de amor, charadas novissimas, tudo isso, que
custou tantas vezes a engendrar, e que teve talvez a sua hora de
celebridade, l vae ser pesado a kilos na balana como a banha de porco,
o feijo amarello e a manteiga da terra.

Nenhum respeito, nenhuma considerao por essas pobres idas! Do papel 
que se trata apenas: tanto pesa, quanto vale. O papel impresso tem
tambem o seu guano--coisa unica e vil que se lhe pde aproveitar, depois
que o pensamento envelheceu.

A facundia do jornalista, a inspirao do poeta, a graa do
folhetinista, ficam sendo, desde essa hora, um trapo para embrulho no
balco dos tendeiros.

D'ahi por diante, isto , da mercearia por diante,  o toicinho que
desbanca o artigo de fundo,  a manteiga que supplanta o folhetim. _Ceci
tuera cela._ A gordura afoga a poesia. Nos tempos modernos o trapo  a
mortalha do tropo.

Mas, como eu vinha contando, de tempos a tempos o criado da casa ia
vender  tenda vizinha grandes pores de jornaes antigos.

Succedeu porm que nos ultimos tempos, tendo-se despedido o criado, o
moo de padeiro, que servia a casa, recommendou outro.

--Era da sua terra, da Galliza, dizia o padeiro, e vinha para fugir s
_sortes_. No estava costumado a servir; faltava-lhe experiencia. Mas
era muito bom rapaz, honradissimo, filho de uns pequenos lavradores de
Compostella.

Affianava-o. Quanto a pratica de servio, no tinha--repetia o
padeiro--; mas como era esperto e tinha boa vontade de aprender,
desembaraar-se-ia depressa.

Foi admittido o recommendado do padeiro.

Tipo montezinho; intellecto impenetravel, duro como o silex. No
percebendo nada, parecia porm vivamente animado do desejo de perceber
tudo. Tinha sempre boas palavras, falas mansas, muito respeitosas. Mas,
sem embargo, todos estes predicados no chegavam a compensar a estupidez
desastrosa com que tudo fazia.

Estava inteiramente cheio o armario dos jornaes. Era preciso vendel-os,
e a dona da casa, tendo de sair a visitas, recommendou  criada:

--Dize ao Domingos que v vender os jornaes. Mas explica-lhe bem o que
elle tem a fazer, para que no saia tolice.

--Sim, minha senhora; sim, minha senhora.

Mas, ou porque, logo que a senhora saiu, apparecesse  barra o namoro da
criada e comeasse a fazer-lhe signaes semaphoricos, ou porque ella
realmente se esquecesse de que o criado era novo na casa, disse-lhe
simplesmente:

--Domingos, vae vender esses jornaes.

E o Domingos, muito obediente, muito submisso para a criada:

--Sim... senhora Rosa. Vender os jornaes... Eu j vou.

Uma hora depois voltava para casa a senhora. O criado ainda no tinha
chegado!

--Que  do Domingos?

--O Domingos foi vender os jornaes, minha senhora.

--Ha quanto tempo?

--Ha mais de uma hora!

--Ora essa! Tu explicaste-lhe bem?...

--Expliquei, sim, minha senhora...

--Ento fugiria com o dinheiro?!

--Sim... talvez fugisse.

--Mas o padeiro affianou-o!

--Isso no tira.

--No tira! Mas o padeiro  que tem de entregar o valor dos jornaes...

N'isto bate-se  porta da escada.

--Ahi vem elle... diz a Rosa.

Mas, tendo espreitado  porta, reca espavorida.

-- minha senhora!  um policia!

--Um policia! O que quer elle?

--Eu sei l! Deus queira que no sejam alguns trabalhos...

--Ests tola! Vae abrir.

Batem segunda vez.

A criada, antes de abrir a porta, torna a espreitar.

-- minha senhora!

--O que ?!

--O Domingos vem preso com um policia!

--Preso! Mas como seria isso? Vae abrir, j te disse.

A Rosa abriu a porta.

O policia perguntou se aquelle criado era d'ali.

--Que sim, senhor, e que tinha sido affianado pelo moo de padeiro.

Ento o policia contou o seguinte:

--Estando de servio na Avenida, fui avisado por algumas pessoas de que
na rua de S. Jos andava um rapaz impingindo por 10 ris jornaes
antigos. Essas pessoas, tendo caido no logro, reclamaram a interveno
da policia, porque o rapaz, muito descarado, continuava na ladroeira. O
policia teve que intervir; foi  procura do rapaz. No tardou a
encontral-o, justamente na occasio em que elle estava vendendo um
_Diario Popular_ do mez anterior. Foi pois apanhado em flagrante
delicto: com a bocca na botija. O policia perguntara-lhe:

--Tens fiador?

--Fiador! fiador, no tenho, sr. policia.

--Ests ento preso.

--Pois ento estou preso, sim, senhor.

--Quem te deu esses jornaes para vender?

--Quem me deu estes jornar para vender?!...

--Anda l, no te faas tanso, que no ganhas nada com isso.

--No me fao tanso, no, senhor. Quem me deu estes jornaes para vender
foi a sr. Rosa...

N'este ponto, a criada interrompeu abruptamente a narrativa do policia,
dizendo:

--Foi a senhora que mandou. Pois no foi, minha senhora?

O policia:

--Foi a senhora?

A criada:

--Foi, sim, sr. policia.

Mas a dona da casa, apparecendo ento no patamar da escada, disse com
dignidade:

--Faa favor de continuar a dizer como isso foi.

O policia continuou:

--Quem  a sr. Rosa? perguntei-lhe eu.

-- a criada da patroa.

--E quem  a patroa?

-- a mulher do patro.

--Mas como se chama? Irra!

--Chama-se... Isso  que eu no sei muito bem.

--Bom. Vamos l a casa dos teus patres. Quanto dinheiro apuraste tu com
a venda dos jornaes?

--Quanto dinheiro apurei?

--Sim, quanto tens na palma da mo?

--Aqui, na palma da mo, tenho este.

--So setenta ris. D c.

--Isso agora  que eu no dou, no, senhor, porque este dinheiro  para
entregar  sr. Rosa.

--D c o dinheiro, e anda l _p'ra diente_.

Quando o policia estava n'este ponto da narrativa, subia a escada o dono
da casa, que voltava da repartio.

Muito espantado de ver um policia, perguntou o que tudo aquillo
significava.

Ento sua esposa contou o que se passara: o marido riu, o policia riu, a
criada riu. S o Domingos, com os olhos cravados no cho, no ria.

Comtudo, o policia, em razo de ter abandonado o servio, precisava
justificar o seu procedimento.

--Que tivesse o cavalheiro paciencia, mas era preciso acompanhal-o 
esquadra para contar como as coisas se passaram.

--No ha duvida nenhuma, respondeu o dono da casa, vamos l.

O chefe da esquadra riu, todos os outros policias riram, mas, como no
estava presente o sr. commissario, o chefe da esquadra disse:

--Tenha o cavalheiro a paciencia de voltar manh, das 10 para as 11
horas, a fim de contar tudo ao sr. commissario.

No dia seguinte, das 10 para as 11 horas, o dono da casa, seguido pelo
Domingos, foi falar com o sr. commissario da respectiva diviso, que era
alis seu conhecido.

O commissario ainda no estava; o chefe da esquadra tornou a rir, s o
Domingos, com os olhos cravados no cho, no ria.

O commissario falou pelo telephone:

--Que ia fazer uma diligencia importante com o commissario geral; que
no contassem com elle.

O chefe da esquadra:

--Que tornasse a ter paciencia, mas que voltasse no dia seguinte para
falar com o sr. commissario.

--Ora essa! Que maada!

E  sada da esquadra, tanto o patro como o Domingos no riam--nem um,
nem outro.

Madame Araujo achou infinita graa  historia dos jornaes, e o
brazileiro, por esta vez ao menos, tambem pareceu achar graa de conta
propria.

O Leotte estava visivelmente picado com o triumpho que o Saavedra
obtivera na presena d'essa mulher, cuja _toilette_ denunciava um certo
habito de existencia mundana, que elle queria explorar.

Foi pois elle mesmo que se offereceu para contar um episodio da sua
viagem a Thomar.

--Tambem j vi Thomar, observou o brazileiro;  bonito, mas no chega
aos calcanhares do Minho!

--Pois isto que vou contar, acrescentou o Leotte, aconteceu no principio
de julho, ha tres annos.

--Ha seis  que eu l estive, ponderou o brazileiro.

--Vamos a ouvir a historia, disse madame Araujo.

--Sim, filha, obedeceu o brazileiro, submisso como sempre.




XIV


A _festa dos taboleiros_ tinha reunido em Thomar muita gente de fra. A
companhia dos caminhos de ferro estabelecra comboios directos a preos
reduzidos. A pittoresca cidadesinha do Nabo, com o seu bello convento
de Christo no topo, tinha um movimento extraordinario, anormal, que a
vitalisava desde o castello dos templarios at  graciosa planicie da
_Varzea grande_, habitualmente s frequentada por alguns soldados de
infantaria 11.

Todas as familias gradas da localidade tratavam de engalanar os
taboleiros com muitas flres e fogaas, alguns d'elles cogulados at 
altura hiperbolica de dois metros. So estes taboleiros que as raparigas
mais bonitas da cidade, entrajadas ao garrido, conduzem  igreja
de Santa Maria, onde a fogaa  benzida por um sacerdote. D'ali seguem
por entre alas de povo, que as applaude, at  igreja da Misericordia. 
noite, a cidade, que  atravessada por uma ponte, illuminava-se com
bales venezianos, que se espelhavam nas aguas do rio. Havia um bazar, e
toirada. Era por tal signal cavalleiro um _amador_, Alfredo Marreca.

Algumas familias das minhas relaes haviam planeado um passeio atravs
da Estremadura. Pretexto, a _festa dos taboleiros_ em Thomar. Eu, que
no gosto nada de viajar com o concurso de uma multido festiva, combati
o projecto, propuz um adiamento para depois da romaria. Procedeu-se 
votao, e a maioria esmagou-me: tal qual como em S. Bento. Para me no
demittir, submetti-me. Fomos por Santarem, onde nos demoramos dois dias.
Depois seguimos para a estao de Paialvo, onde nos apeamos, e entramos
em _char--bancs_ que nos conduziram a Thomar. Estao e estrada
abarrotavam de gente. Irritado dos nervos, o meu desejo era mandar parar
o sol ou... aquella gente toda. Fomos na incerteza de obter _hotel_, e
essa incerteza sorria-me. Mas quiz o acaso que ainda encontrassemos
alojamento no _Hotel Cotrim_,  beira do Nabo. Tudo aquillo seria
delicioso, se no estivessemos em plena romaria. Uma barafunda de todos
os diabos.

Almoamos, e samos. Andamos aos encontres de um lado para o
outro. Comeamos por visitar o convento. Na varanda de pedra o
conservador do monumento dissera-nos: A rainha D. Maria II, quando
visitou o conde de Thomar, gostava de vir bordar para esta janella. Que
tinha bom gosto, concordaram as senhoras.

A cidade, cortada pelo rio, muito arruada e muito varrida, estendia-se
ao sop do castello. E os forasteiros enxameavam cruzando-se em
direces oppostas. Vistos do alto, pareciam lilliputianos. Depois do
castello, fomos visitar a fabrica de fiao, e as fabricas de papel do
Prado e de Mariamaia. O dia estava calmosissimo: um julho abrasador. Os
passaros, se no lograssem abrigar-se no secular arvoredo do _Padro_,
teriam morrido de calma.

 volta das fabricas, uma das senhoras do nosso rancho sentiu-se
subitamente indisposta. Pediu-se um copo de agua. E, como a estao
telegraphica estava proxima, recorremos ao telegraphista.

Encontrei-o sentado ao apparelho--que no era ainda o
Morse--trabalhando. Representava um homem de quarenta e cinco a quarenta
e sete annos de idade: moreno e magro, estatura regular, bigode
levemente grisalho. Muito grave de maneiras, e visivelmente melancolico.
A sua figura impressionou-me e, digo-o francamente, sem querer encarecer
o meu faro de observador, suspeitei n'aquelle homem um romance.
Acreditem: suspeitei. Logo que lhe eu disse ao que ia, chamou
para dentro a pedir um copo de agua. Veiu trazel-o uma rapariguita de
dezeseis annos, picada das bexigas, e descala. Mas eu percebi que
alguem estava espreitando pela porta entreaberta.

Arranquei o copo das mos da rapariga, e sa com elle. A indisposio
no tinha passado ainda. Uma mulher offerecera uma cadeira de pinho, em
que sentaram a doente, que, muito pallida, coberta de um suor frio,
bebeu um gole, e afastou o copo.

--No teimem, disse alguem do lado.

Fui entregar o copo ao telegraphista, que gravemente me perguntou se o
incommodo tinha passado.

Disse-lhe que no. E elle, levantando-se outra vez, lembrou que seria
melhor trazerem a senhora para a estao telegraphica, onde _sua mulher_
lhe poderia offerecer um leito humilde mas asseado.

Sa a dizer isto, e todos approvaram o alvitre. Conduzida em braos a
doente, entramos na estao, e o telegraphista, vendo-nos chegar, chamou
para dentro:

--Clementina!  Clementina!

N'isto appareceu-nos uma creatura que no teria mais de quatro palmos de
altura, vestida muito garridamente com uma saia cr de pombo e um
corpete azul; sobre o corpete, cabeo de rendas brancas com fita preta
e broche de oiro. Cara redonda e cheia, no despicienda. Mas a
cabea, estabelecida a proporo com a altura do corpo, era
excessivamente volumosa. Estava penteada  Maria Stuart, e tinha dois
anneis de Cabello empastados sobre a fronte.

Apesar da seriedade do lance, todos os homens trocaram entre si um olhar
de surpresa e admirao, que, reduzido a palavras, poderia dizer isto:

--Pois este monstrosinho ser a mulher do telegraphista?

E, inclinado o olhar ao telegraphista, o contraste assombrava-nos cada
vez mais.

Pelo meu espirito passou este raciocinio:

Casaria elle por amor? No  possivel. Se no foi por amor, seria por
interesse? Mas ento como diabo  elle telegraphista e vive pobremente?
Arruinar-se-ia no jogo? Oh! aqui ha romance por fora...

As senhoras deitaram a doente, depois de a haverem desapertado, sobre o
leito conjugal do telegraphista. Ns, os homens, ficamos na sala da
estao conversando em voz baixa. O telegraphista fazia-nos, muito
polidamente, as honras da casa. Estavamos encantados com elle, com a
distinco das suas maneiras, com a sua gentileza em que uma intensa
nota melancolica predominava.

--Que era do enfado da viagem, do comer das hospedarias, do calor do
dia. Que, se o incommodo no passasse, offerecia a sua criada
para nos ensinar a casa do medico.

De dentro disseram-nos n'essa occasio que a doente estava melhor.

Para ser amavel, lamentei ao telegraphista que os deveres do seu cargo o
obrigassem a estar ali preso n'um dia de festa em Thomar.

Elle sorriu-se e respondeu:

--Eu nem dou pela festa. Detesto isto, no saio nunca de casa, no
passeio, no ando.

Instantes depois dizia-me ao ouvido um dos nossos companheiros de viagem:

--Pois, sr., tem bom gosto o homem! Prefere estar em casa a contemplar o
monstrosinho das _bellezas_!

E eu respondia-lhe no mesmo tom discreto:

--Aqui ha romance, se ha!

O meu amigo sorriu-se e respondeu:

--O que ha por fora  tolice.

Ao cabo de tres quartos de hora, a doente deu-se como restabelecida.
Amparou-se ao brao de um parente seu, e recolhemos ao _hotel_, depois
de termos agradecido ao telegraphista e a sua esposa os bons servios
que nos haviam dispensado.

Elle disse-nos o seu nome todo, offereceu-nos attenciosamente a sua
casa, pobre e humilde como era.

A mulher, erguida nos bicos dos ps, dava beijos s senhoras e apertou a
mo aos homens, sacudindo-a  ingleza.

--Mas que figura de mulher! diziam as senhoras. Que l bem educada
parece ser.

Depois de jantar, ns os homens samos. As senhoras ficaram em casa. Eu,
francamente o digo, convencido de que havia um romance no casamento do
telegraphista, desejava conhecel-o.  segunda ou terceira pergunta que
fiz, encontrei homem que m'o contasse.

No principio da sua carreira, o telegraphista fra para Sines. Rapaz
muito bem comportado, grave e srio, toda a gente gostava delle. s
vezes os rapazes de Sines iam a funcanatas, bailaricos principalmente,
a Santiago de Cacem. Elle ficava sempre; s dez horas da noite recolhia
a casa. Durante muito tempo no se lhe conheceu qualquer inclinao
amorosa. E no era, como sabemos, porque fosse mal parecido. As
raparigas de Sines no o achavam nada feio.

Passado mais de um anno, alguem disse que o telegraphista namorava a
filha de um maritimo ali conhecido.

--No  possivel! exclamavam alguns.

--Isso s por brincadeira! alvitravam outros. Mas o homem  srio.

No era possivel, diziam uns, porque a filha do maritimo era aquella
creaturinha an que ns vimos em Thomar. S por brincadeira, diziam
outros, porque, comquanto a cara da rapariga no fosse de todo feia, o
corpo no chegava para casar.

Ora a verdade era que D. Clementina estava sempre  janella com o seu
rosto rosado e o seu penteado Stuart expostos  brisa do mar. Mas
trepava-se a uma cadeira muito alta para que o seu collo ficasse, como
n'uma pessoa de estatura regular,  altura do peitoril.

Homem de poucas falas, o telegraphista no conversava com ninguem. E, de
motu proprio, ninguem ousou dizer-lhe que a mulher que elle namorava
tinha apenas a altura de uma boneca.

O telegraphista caiu de cama com uma pneumonia. A solido do seu quarto
de doente levou-o decerto a pensar no casamento. Restabelecido, sem
revelar a ninguem a sua inteno, entrou em casa do maritimo a pedir-lhe
a mo da filha.

Mostrou-se surprehendido o maritimo. Parecia-lhe impossivel aquella boa
fortuna para uma filha an. Disse-lhe que teria muito gosto em
acceital-o como genro, tanto mais que sua filha, como elle acabava de
dizer, estava de accordo no casamento.

E, por cautela, dispensou-se de chamar a filha  conferencia.

Tres dias depois era o telegraphista admittido na intimidade da familia.
Foi ento que viu pela primeira vez sua mulher tal qual ella era, sem o
supplemento da cadeira alta. Um tremor de frio percorreu-lhe a espinha
dorsal, mas, homem de principios honestos, presando acima de tudo a sua
reputao, casou. Outro fosse elle, e teria fugido de Sines
n'essa mesma noite, mandando a noiva e o telegrapho ao diabo. Todas as
pessoas de regular estatura o haveriam desculpado.

Sabida a historia, ficou perfeitamente explicado o melancolico
recolhimento em que o telegraphista vivia, o seu desdem pela festa dos
_taboleiros_, e o seu apgo ao apparelho Brguet, bem mais suave para
elle que o do Hymeneu.

Na infelicidade d'este logro conjugal, uma consolao unica poderia
sorrir ao pobre telegraphista: no tinha filhos, nem esperava tel-os.

--Muito bem sacado logro! exclamou o brazileiro com a despreoccupao de
espirito de quem no suspeita ter cado em algum logro... mais ou menos
bem sacado.

Madame Araujo commentava o caso, ria, falava, estava expansiva, o que
lisonjeava sobremodo o Leotte.

Confessava que no esperava divertir-se tanto em Cintra.

--Pena tenho eu, disse ella, se isto no durar!

O Vasconcellos respondeu:

--Naturalmente vamos embora manh.

--J?! exclamou madame Araujo. Mas o Leotte deitou agua na fervura:

--Que tanto importava mais um dia como menos um dia.

Os relogios do Victor deram meia noite.

--E que tal! j meia noite! disse o brazileiro.

Se voc concorda, Christina, vamos tratar de recolher-nos, hein?

Ouvindo pronunciar a palavra _Christina_, foi como se eu proprio tivesse
pronunciado _eureka!_ como se houvesse encontrado a soluo de um
problema transcendente.

Despedi-me do brazileiro e da mulher, authomaticamente. Mal que elles
voltaram costas, fiz signal aos outros para que me seguissem. Chegando
ao meu quarto, fechei a porta, e disse-lhes cuidadosamente, como se se
tratasse de um segredo de estado n'um club de conspiradores:

--J sei quem esta mulher !

--Quem ?

--A Christina do Muxagata, sem tirar nem pr!

--A Christina da historia que nos contaste?!

--Acreditem, meus amigos,  a Christina do Muxagata.




XV


A minha revelao causou tanta surpresa e interesse aos meus
companheiros de _villegiature_, como a mim proprio.

Ir eu encontrar, ao cabo de tantos annos, a mesma Christina da rua das
Fontainhas, a quem fra entregar o dinheiro do Muxagata, na occasio em
que ella estava ceando com o Falco do Marco!

Que singular coincidencia a de ter eu comeado por contar, nos nossos
improvisados seres de Cintra, a historia do Muxagata e de ter vindo ao
nosso encontro, no _hotel_ do Victor, essa famosa Christina, que eu
nunca mais tinha visto, e de que nunca mais ouvira falar!

Como, arruinando talvez o Falco do Marco, chegra ella a desposar o
brazileiro Araujo, se  que em verdade o havia desposado mais
canonicamente do que ao Muxagata e ao Falco do Marco?

O que seria feito d'aquella creancinha de dois annos, que fra o
fructo do seu primeiro amor criminoso?

Mas eu no estava sonhando, por mais que o Vasconcellos quizesse
capacitar-me d'isso.

No havia duvida. Era ella, a mesma Christina da rua das Fontainhas, a
bella lamecense raptada pelo Muxagata, com os dedos cheios de anneis e
as mos dealbadas de p de arroz.

O Gonallinho Jervis estava to encantado com esta surpresa, que me
parecia ter ciumes de que fosse eu e no elle que, por um acaso notavel,
encontrasse um verdadeiro assumpto de romance.

Ah! ingenuo Gonallinho! Esse feliz achado representava apenas que eu
era mais velho do que elle. Consolao tristissima. No ha homem vulgar
que, no decurso de alguns annos, no encontre na sua memoria um ou mais
romances de sensao. Esperasse o nosso Gonallinho, vivesse mais algum
tempo, e os assumptos levantar-se-lhe-iam debaixo dos ps, quando menos
os procurasse.

O Leotte, apenas soube que madame Araujo era a Christina da historia do
Muxagata, julgou-se um Csar que tinha chegado, visto e vencido.

O Athayde, o Maldonado e o Vasconcellos eram os que mais reservados se
mostravam perante esta situao inesperada, que viera accidentar
pittorescamente a nossa excurso a Cintra.

As suas duvidas contrariavam-me, pois que eu no podia deixar de estar
plenamente convencido de que madame Araujo era a Christina da rua
das Fontainhas.

Procurei convencel-os, e lembrou-me um alvitre que devia acabar por
deixal-os inteiramente rendidos  verdade dos factos.

--A Christina da rua das Fontainhas, tal como eu a conheci, gostava
immenso de batotear. _Saltava_ nos valetes, e _fazia crco_ s quinas.
Pois bem! experimentemol-a. Adiemos por mais dois ou tres dias o nosso
regresso a Lisboa. Uma d'estas noites armamos uma banca de jogo. Se fr
ella,  natural que sinta renascer em si a paixo de jogar, que a
fascinava no tempo do Muxagata. Observemos se _faz saltos_ nos valetes e
_crcos_ s quinas. Se isto se der, meus amigos, no ha mais que
duvidar:  ella, sem tirar nem pr, a Christina do Muxagata.

Este alvitre agradou geralmente, e resolveu-se que ficariamos para
realisar a experiencia decisiva.

Era porm preciso proceder com boa tactica, no comear logo por falar
no jogo.

Assim se fez. No dia seguinte, madame Araujo, que ia readquirindo entre
ns o seu velho habito de conviver com homens, estava quasi
familiarisada comnosco, interessava-se pelos nossos passeios, pelos
nossos paradoxos, e, sobretudo, mostrava-se deliciada pelos nossos
seres, cheios de novidade para ella.

 noite, como se realmente no tivessemos nenhuma inteno
reservada, principimos por dar a palavra ao Taveira, que ainda no
tinha falado. Contasse elle alguma _partida_ do seu amigo Luiz de Lemos,
com que tantas vezes nos tinha matado o bicho do ouvido.

--A historia da _claque_, por exemplo.

--Vocs esto fartos de ouvil-a! disse elle.

--Mas nem madame Araujo nem seu esposo a conhecem de certo.

--Luiz de Lemos! Eu nunca ouvi falar sequer d'esse nome! disse madame
Araujo.

O Taveira resolveu-se a contar a historia da _claque_ do seu amigo Luiz
de Lemos, que todos ns sabiamos de cr e argumentada.

--Luiz de Lemos chegou a Braga s cinco horas da tarde, sem ser esperado
dos primos do Campo Novo.

Apeteceu-lhe aproveitar os primeiros dias de vero, alegres e quentes, e
a resoluo d'essa pequena jornada ao Minho foi tomada de repente, uma
noite, ao sair do theatro Baquet.

Tinha chegado de Boaas dias antes, apenas com o seu fato de vero e
alguma roupa branca na mala. No contava passar do Porto. Mas, de
subito, n'aquella noite, lembraram-lhe os primos Ozorios de Braga, dois
pandegos, e, ao recolher do theatro, fez a mala e disse ao criado da
_Aguia d'ouro_ que o chamasse ao romper da manh.

--V. ex. retira-se j para Boaas? perguntou o criado, admirado
de que, d'esta vez, o rega-bofes durasse to pouco tempo.

--No. Eu vou a Braga, visitar os primos Ozorios. Ainda hei de ir estar
na Foz alguns dias. Mas por ora  cedo. Vou a Braga.

Ao romper da manh, Luiz de Lemos foi  rua Formosa,  alquilaria do
_Raymundo_, alugar um _coup_ que o levasse a Braga.

Elle tinha um grande horror instinctivo pela diligencia de Entre-Paredes
em especial, e por todas as diligencias em geral. Dizia elle que a
diligencia era a _valla dos vivos_. Uma philosophia como qualquer outra.

A manh estava deliciosa, fresca e lucida, excellente para jornada.
Almoou na Carria, tornou a almoar em Villa Nova de Famalico, e
almoaria terceira vez em Braga, se no preferisse jantar.

Os primos Ozorios do Campo Novo, encantados com a visita do morgado de
Boaas, disseram-lhe que iam para a mesa.

--Vocs ainda jantam? perguntou o morgado.

--Bem vs tu que Braga  uma terra conservadora. Por c ainda se pensa
no jantar e no sr. D. Miguel.

--Pois, meus amigos, eu s almo, mas posso almoar tantas vezes
quantas fr preciso.  pois pela terceira vez que vou hoje almoar.

Sentaram-se  mesa. Alegria e apetite eram de primeira ordem.

--Alm de jantar, o que fazem vocs por c?

--Divertimo-nos.

--Mas como?

--Hoje, por exemplo, temos um baile.

--Um baile! Um baile em Braga  uma coisa to absurda como uma semana
santa em Marrocos. Mas onde  o baile?

--Em casa do Raio.

--Ol! Pois esse baile do Raio  um verdadeiro _raio_ para mim.

--Por que?

--Porque no trouxe casaca.

-- diabo! no trouxeste casaca?! exclamou um dos Ozorios.

--Caso grave! ponderou o outro.

--Trago apenas fato de vero. Eu podia l imaginar um baile em Braga!
Que _raio_ de lembrana!

--Mas ha de arranjar-se uma casaca.

--Sim... uma casaca sempre ha de arranjar-se.

--Se vocs arranjassem isso, teriam cortado o n gordio.

--Ora espera! lembrou um dos Ozorios. Eu tenho duas casacas.

--Uma para usar e outra para alugar? Magnifico! Alugo-te a segunda por
doze vintens.

Os Ozorios riram-se.

--Mas... chapeu? perguntou um dos dois irmos.

--Vou em cabello.

--Constipas-te.

--Irei de cadeirinha, de carroo ou em maca.

--Manda pedir o cavallo emprestado ao Longuinhos do Bom Jesus do Monte.

--Ou isso. Mas vamos a resolver o caso do chapeu.

--Est resolvido, disse o Ozorio mais velho. Eu tenho uma _claque_ e um
chapeu alto. Tu levas a _claque_ e eu o chapeu alto.

--Para encheres de pasteis  melhor do que a _claque_. Tu no te perdes,
magano!

Jantaram pantagruelicamente, comendo bem e bebendo melhor.

s 9 horas davam os tres primos entrada nos sales do commendador Raio,
que estavam deslumbrantes de bellezas bracarenses.

Luiz de Lemos valsou, polkou, namorou, com o prestigio que lhe dava a
sua lenda de morgado rico de Boaas.

Mas, a meio da noite, lembrou-se de que ainda no tinha fumado.

Encontrou um dos primos.

-- tu! onde  que se fuma?

--Ali, respondeu o primo Frederico, indicando-lhe uma pequena sala.

--Bem. Vou fumar. Olha l, s prudente: no digas a ninguem que a minha
casaca...  tua.

O primo riu-se.

Luiz de Lemos entrou na pequena sala, onde muitos cavalheiros de
Braga estavam fumando, incluindo o escrivo de fazenda.

Accendeu o seu charuto, pousou a _claque_ sobre a mesa, conversou com os
conhecidos e os desconhecidos, riu, falou de cavallos e de mulheres, mas
como ouvisse annunciar uma valsa, levantou-se, pegou na _claque_ e
dispunha-se a passar ao salo de baile.

Quando elle j tinha sobraado a _claque_, o escrivo de fazenda, que
estava de p, reparando na outra _claque_ que tinha ficado sobre a mesa,
dirigiu-se ao morgado de Boaas:

--V. ex. enganou-se...

--Enganei-me! Como?

--Essa _claque_ no  de v. ex..

O morgado olhou fito no escrivo de fazenda, voltou-lhe as costas e
dirigiu-se para a porta.

O escrivo de fazenda seguiu-o, e j no corredor, abordou-o:

--Essa _claque_ no  de v. ex..

--No , no sr., mas que tem o cavalheiro com isso?

--Peo perdo a v. ex., mas ha aqui um pequeno engano...

--No ha engano nenhum, replicou o morgado. Acha que a _claque_ no
 minha?

--Parece-me...

--Pois tambem a casaca no . Ora aqui tem.

E, mal humorado, tornou a voltar-lhe as costas.

Encontrando o primo Frederico no salo, o morgado de Boaas
desfechou-lhe com vivacidade:

--Tu s um patife!

--Porque?

--Porque no s capaz de guardar um segredo.

--Que segredo?

--O da _claque_.

--Mas que dizes tu?!

--E o da casaca tambem...

--Mas a quem diabo fui eu contar que te emprestei a _claque_ e a casaca?

--A quem? Ao escrivo de fazenda! E s tolo. Porque, se no dsses com a
lingua nos dentes, talvez fosse eu que tivesse de pagar a contribuio
sumptuaria. Uma casaca em Braga deve ser considerada como objecto de luxo.

N'isto viram aproximar-se o escrivo de fazenda, que se encaminhava
a elles.

--Ahi vem o homem! galhofou o morgado. Vem talvez saber qual dos dois ha
de collectar.

O escrivo de fazenda aproximou-se attenciosamente de Frederico Ozorio.

--Peo desculpa a v. ex., disse elle, mas a respeito d'este cavalheiro
que o trata por primo, deu-se um pequeno engano.

O morgado teve uma sacudidella nervosa:

-- forte embirrao! Eu ja disse ao cavalheiro que no houve engano
nenhum. Nem a casaca nem a _claque_ so minhas.

--Minhas  que so... interveio o Ozorio, querendo deitar agua na fervura.

--Perdo! insistiu o escrivo de fazenda. A casaca ser de v. ex., mas
a _claque_  minha.

--Tem graa! Fui eu que a emprestei a meu primo.

--Torno a pedir perdo. O primo de v. ex., ainda agora, l dentro,
trocou a sua _claque_ com a minha, que tambem estava sobre a mesa.

Foi s ento que o engano se desfez, mas, como dsse muito que rir aos
tres primos, toda a gente quiz saber o que era e toda a gente ficou
sabendo em Braga que o morgado de Boaas tinha ido n'aquella noite ao
baile do commendador Raio com uma casaca emprestada e uma _claque_ que
no era sua.

O brazileiro commentou que no havia nada mais facil de acontecer do que
uma troca de chapeus. Esta observao no era, alis, precisa para o
caracterisar intellectualmente. Salomo, no seu logar, teria dito a
mesma coisa.

D. Christina achou graa ao caso, mas disse, pouco amavelmente para o
Taveira, que era de historias de amor que gostava mais.

E o brazileiro observou por sua vez:

--Eu do que gosto mais  de historias de almas do outro mundo. As velhas
da minha terra crearam-me com essas historias.

--Pois eu contarei ao sr. Araujo, disse eu, uma historia de almas do
outro mundo.

O Vasconcellos interrompeu auctoritariamente:

--Agora no. Isto de historias tambem cansa. Vamos ns inventar outro
divertimento?...

--Qual? perguntaram duas ou tres vozes.

--O que eu receio, disse elle,  desagradar  sr. D. Christina... Mas
l vai! V. ex. aborrecer-se-ia se ns armassemos uma mesa de jogo?

--Ora essa! exclamou o brazileiro. Um berlotesinho?! A Christina pla-se
por isso, e eu no desgsto tambem.

Meia hora depois, D. Christina estava contente como o peixe dentro de
agua. Batoteava de grande e ... portugueza. _Saltava_ em todos os
valetes e _cercava_ todas as quinas.

E como os rios correm para o mar, era ella e o brazileiro que estavam
com sorte.

No havia que duvidar. A experiencia era completa, decisiva.

 alma batoteira do Muxagata! volta por um instante a este mundo para
verificares como a tua Christina de Lamego honra a tua memoria
transitando firmemente pelo caminho que tu lhe traaste em roda de uma
mesa de jogo.




XVI


Todas as baterias da nossa curiosidade se assestaram contra um alvo
unico: descobrir a historia do supposto casamento da Christina do
Muxagata com o brazileiro Araujo.

Felizmente para ns, o bloqueio no durou muito. Foi a propria praa que
se rendeu voluntariamente.

Emquanto D. Christina fazia a sua _toilette_ para o jantar, o brazileiro
contava-me no terrao do _hotel_, com toda a sua ingenuidade bondosa, a
historia do seu casamento--revelao a que eu o conduzi mais ou menos
habilmente.

Tinha vindo a Portugal havia seis annos para matar saudades da patria e
visitar os parentes que viviam em Amares.

Aproveitra a occasio, e fizera algumas excurses tanto no norte do
paiz como na Extremadura.

Foi por essa occasio que encontrra D. Christina no Bom Jesus do Monte.
Tinha ella enviuvado pela segunda vez recentemente e achava-se entregue
a um profundo abatimento moral...

--Ento a esposa de v. ex. j tinha casado duas vezes? perguntei eu.

--J. A primeira com o morgado de Muxagata, que pela m cabea d'elle
dra cabo de tudo.

--E a segunda?

--A segunda com outro fidalgo do Marco de Canavezes, que tambem no
tinha mais juizo. O amigo sabe decerto qual era a vida gastadora dos
antigos morgados.

--Sei muito bem.

--Pois os dois deram cabo de tudo quanto tinham. A Christina estava
reduzida ao pouco que lhe deixou o segundo marido.

--E filhos... no teve?

--No, senhor. Como eu ia dizendo, vi-a no Bom Jesus do Monte. Gostei da
senhora, soube que no tinha muitos meios, e falei-lhe em casamento.
Ella, comquanto no fosse j nova, era bonita, como ainda se v. Estava
boa para mim, que no era nenhum rapazinho, e de mais a mais doente.
Tudo aquillo foi obra de poucos dias. Ella l tratou de mandar tirar os
papeis.

--Quaes papeis? Os banhos?

--Para correr os banhos eram precisas as certides dos dois casamentos e
do obito dos dois maridos. Mas a Christina foi ao Porto, emquanto
eu fui a Amares, tambem por causa dos meus papeis, e l os arranjou.
Juntamo-nos depois em Amares, onde eu quiz casar por ser a minha terra.
Como resolvesse ficar em Portugal, precisei ir liquidar ao Rio de
Janeiro. A Christina, coitadinha! no me quiz deixar ir s; foi tambem.
Estivemos l dezoito mezes, liquidei, e agora por aqui ando sem mais
canseira que a de tratar da minha saude. Vivi a principio em Braga, mas
os medicos, por Braga ser muito fria, aconselharam-me que viesse viver
para Lisboa, por causa do clima.

N'isto chamaram para o jantar.

E eu, francamente, no achei na historia do brazileiro revelao alguma
que me surprehendesse--nem mesmo a dos _papeis_ que D. Christina
arranjra no Porto. Nada ha to facil a uma mulher que vae casar com um
brazileiro como poder cohonestar o seu passado com duas certides de
casamento... falsas. Quanto ao resto, eu havia architetado a historia do
brazileiro. Apenas a minha imaginao tinha mettido mais alguns
_maridos_ no corao de D. Christina. Mas achei natural que ella no
fosse mais verdadeira, no que contra ao marido, do que as duas
certides que o contentaram a elle.

Ter-me-ia ella reconhecido? Certamente que sim. Estava, porm, muito
tranquilla na posse dos quatro documentos que attestavam o seu passado.
Com elles se defenderia, sendo preciso, da inconveniencia de
qualquer mau encontro. Tanto se lhe daria, pois, que eu a reconhecesse
como no. Ella era a viuva documentada do morgado de Muxagata e do
Falco do Marco. O papel sellado livra de muitos embaraos.

 mesa do jantar, D. Christina, que todos os dias mudava de _toilette_
duas e tres vezes, mandou dizer  criada Rosa que lhe trouxesse um leno.

Veio a criada trazer n'uma bandeja o leno de finas rendas que tinha
esquecido a D. Christina.

E o Leotte, quando viu entrar a rapariga, alternou os seus olhares de
guloso entre a brazileira e a criada, parecendo vacillar entre as
cerejas frescas que os labios da rapariga imitavam, e o carmim que
artificialmente coloria a bocca da brazileira, j um pouco fatigada...
de beijar canonicamente tres maridos.

 noite, o Vasconcellos, que desejava a desforra, e D. Christina, que
amava o berlote, queriam comear logo pela jogatina.

O brazileiro, que j tinha tomado p, sustentou que havia tempo para
tudo: acrescentando que eu lhe havia promettido contar uma historia de
almas do outro mundo.

--Pois que se contasse a historia, mas uma s, concordaram.

--De mais a mais a minha historia, disse eu,  de amores, para contentar
a sr. D. Christina; e de almas do outro mundo, para contentar o
sr. Araujo. O peor  que talvez parea um pouco maliciosa...

Fingi-me escrupuloso, comquanto soubesse que os ouvidos de D. Christina
no estranhariam a malicia de qualquer narrativa.

--Ora adeus! respondeu o brazileiro rindo. Se fr preciso, deite um
vosinho por cima da historia, e conte sempre. Ns j no somos nenhumas
creanas innocentes.

--Pois n'esse caso, ahi vae a historia:

Eu estava  janella, de manh cedo--seis horas talvez--a comer um bello
cacho de uvas brancas. Encostado ao peitoril, ia debicando bago a bago,
com um certo prazer de gastronomo, que s me fazem sentir as uvas
brancas e doces. s vezes alongava os olhos pelo horizonte, que as
torres de Mafra recortavam ao longe, esfumando-se como no fundo de um
quadro. Em torno de mim havia uma placidez profunda: as arvores e as
pedras, companheiras unicas do casal, pareciam adormecidas ainda na
frescura cristalina da manh. A estrada de Mafra, que passava sob as
janellas, estirava-se to solitaria, que as andorinhas saltitavam no
macadame, bicando o p. O caseiro tinha sado com o filho n'uma carroa;
a mulher do caseiro accendra o lume para o almoo, como indicava o fumo
que rompia da chamin.

N'isto, sinto o tilintar longinquo de guizos na estrada.  o tenente
Silverio, que vem dar o seu passeio matutino, disse eu com os meus
botes. J lhe conhecia o trotar da egua, que puxava a _charrette_.

Nas terras pequenas sabe-se tudo: o tenente Silverio andava apaixonado
pela Libania, da Murgeira, uma saloia muito animal, de seios turgidos,
que pareciam despenhar-se no tanque, quando ella se curvava para lavar.

Era elle, o tenente.

Fez parar a _charrette_ debaixo da minha janella.

--Ol! gritou. Est, na frma do costume, comendo as suas uvas.

--Pudesse eu, respondi-lhe, e havia de comel-as todo o anno. Que bellas!
Isto de mais a mais  recommendado. Contem principios alcalinos, que
so salutares. E teem um rico assucar, que  nutritivo. Na Allemanha e
na Suissa comem-n'as para curar as doenas gastro-intestinaes.  bom, e
faz bem.

--Diga antes que gosta muito de uvas.

--Ou isso: gsto muito.

--Visto que j saboreou o seu primeiro almoo, venha d'ahi dar um passeio.

--Aonde?

--Ora essa!

-- Murgeira, como sempre, no  verdade?

--Como sempre...  um modo de dizer. J l no vou ha tres dias.

--Que ausencia! Pois irei. Deixe-me procurar o chapeu.

Tres minutos depois a _charrette_ do tenente Silverio rodava para
a Murgeira pela estrada aberta entre pinheiraes. A egua, no seu trote
largo, quebrava o silencio da manh, guizalhando festivamente.

Iamos bem dispostos, dilatando os pulmes no ar fresco dos pinheiraes,
em que j se sentia um gumesinho de brisa do mar, que soprava da
Ericeira. Muito agradavel a manh.

--Isto  bom e faz bem, dizia-me o tenente. So as minhas uvas.

--Perdo, as suas uvas, meu caro tenente, so outras. Vae colhel-as 
Murgeira. Muito brancas no so; mas talvez sejam doces...

O tenente riu-se.

Tinhamos sado da estrada de Mafra, e iamos subindo, a passo, para a
Murgeira.

Avistava-se o mar, de um azul lacteo, esbranquiado e sereno.

Fomos subindo: a egua, de cabea baixa, mettia o largo peito  estrada,
puxando a _charrette_. J conhecia o caminho, e acho que at j conhecia
a Libania.

Chegmos. As creancitas choravam como se tivesse acontecido uma
desgraa. Havia algum caso na Murgeira.

--Ora esta! exclamava o tenente.  a primeira vez que vejo chorar n'esta
terra!

--Ainda que tarde, as lagrimas chegam sempre, observei eu.

--Isso  sentencioso. Mas eu sou curioso: quero saber o que .

O tenente apeou-se; eu apeei-me tambem. Na taverna do sitio falava-se
muito. Falava-se muito, e no se chorava menos.

Soubemos ento o que se tinha passado; morrera o Z Ratinho.

--Quem era? perguntei.

Deram-nos informaes. Z Ratinho era um rapaz da Murgeira, que se
fizera cocheiro dos Gatos. Andra doze annos em Lisboa, batendo, e
aprendra l a tocar guitarra. Por esta prenda foi que elle se tornou
celebre desde Lisboa at Mafra, desde Mafra at  Murgeira. Nas esperas
de toiros, nas patuscadas de Friellas e nas noitadas do Dfundo, Z
Ratinho fazia as delicias dos marialvas e das hespanholas: era um
artista para a guitarra.

Fra em Lisboa que elle ganhra _queixa de peito_, disseram-nos. Viera
muito doente para a Murgeira, tomar ares patrios. Apesar de doente,
entretinha-se  noite com a guitarra, na taverna, tocando para os outros
ouvir. Os saloios da Murgeira, seus patricios, consideravam-n'o um
Orpheu, um Amphion da guitarra. D'aqui o sentimento geral pela morte
d'esse excellente rapaz, que deixava a perder de vista os _harmonios_ da
saloiada patusca.

Todos, rapazes e raparigas, queriam velar o seu cadaver. Tinha funeraes
de principe, o Z Ratinho.

--Acabou-se a guitarra na Murgeira! exclamou um saloio, que
acabava de beber dois decilitros saudosamente.

--Vo os senhores l ver, que elle est catita! exclamou o taverneiro.

Fomos. Casa terrea, pequena, escura: cheia de gente. Quando entrmos, a
chorata dos circumstantes augmentou. Depois foi-se _smorzando_
lentamente: queriam ouvir o que diriamos.

Z Ratinho estava deitado no caixo. Tinham-lhe vestido o seu melhor
fato: calas de bombazina, jaqueta de briche, cinta de l encarnada,
botas de pelle de vacca com floreta. Sem gravata. O barrete pousado
sobre o hombro direito.

 cabeceira, um Christo e duas velas de cra.

Pendurada n'uma trave, n'uma tristeza inconsolavel, a guitarra.

Uma rapariga, que diziam l fra sua namorada, havia entalado nas cordas
da guitarra uma dhalia branca.

O tenente Silverio conheceu que tinha mallogrado o passeio. O luto geral
abrangia a Libania, cujos olhos chorosos contrastavam com os peitos
folies, saltitantes.

Deixamos a Murgeira a prantear o seu Orpheu. O tenente foi almoar
comigo. Investindo com o linguado frito, falamos do Z Ratinho.

--Olhe que a lembrana da flor nas cordas da guitarra no deixa de ter
certa delicadeza! observei eu.

--Qual historia! chalaou o tenente. Mas que flor... uma dhalia!  um
cumulo de delicadeza saloia. E, rindo, acrescentou: Deite c mais
linguado, que est melhor do que a Libania.

Decorridos tres dias,  mesma hora, passa o tenente Silverio.
Encontra-me a comer outro cacho de uvas.

--Venha d'ahi.

--Aquillo ainda ha de estar lutuoso. A morte de um Orpheu pede um triduo
de lagrimas.

--Ora adeus! Isso j lhes havia de passar.

--Quem sabe?

--Sei eu.

--Como sabe?

--De sciencia certa.

--N'esse caso vamos l.

Fomos. Apemos  porta da taverna. O tenente metteu logo por um atalho
para ir ter com a Libania ao lavadoiro. Muito satiro, o tenente. Eu
fiquei na taverna a dar dois dedos de _cavaco_ ao taverneiro.

Ouvi-lhe ainda muitas historias do Z Ratinho. Uma d'ellas,
principalmente, tinha o seu qu de phantastica.

Durante a noite haviam ficado a velar o cadaver os rapazes mais afoitos
da Murgeira. s duas horas da noite, coube a vez ao Joaquim Prado, um
latago forte como um Castello. Estava elle pensando na triste sorte do
Z Ratinho, e na orphandade irreparavel da sua guitarra, quando
de repente principiou a guitarra a tocar um fado muito triste e soluado.

--Ora pelos modos, acrescentou o taverneiro, era a alma de Z Ratinho
que estava tocando guitarra pela ultima vez.

--Ento o Joaquim Prado ouviu isso? Adormeceria elle, e estaria
sonhando?...

--Essa  boa! No ha homem nenhum, por mais afoito que seja, capaz de
dormir ao p de um morto. O Joaquim ouviu mesmo tocar a guitarra, bem
acordado que elle estava, e s com dez ris de aguardente que tinha
bebido ahi n'esse mesmo logar em que vocemec se assentou. Poz-se em p,
logo que a guitarra comeou a tocar, e no viu ninguem. O Z Ratinho
estava morto e bem morto: no se mexia.

N'isto chegava, com um certo ar dominador, o tenente Silverio.

O taverneiro commentava:

--C na Murgeira no  o senhor capaz de tirar da cabea a ninguem que
foi a alma do Z Ratinho que na propria noite em que elle morreu, por
volta das duas horas, esteve tocando guitarra.

--Venha d'ahi, dizia-me o tenente, vamos almoar.

Subimos para a _charrette_. J com as rdeas na mo, o tenente, muito
chalaceador, perguntou-me:

--Ento os saloios ouviram a alma do Z Ratinho tocar guitarra,
na noite em que elle morreu?!

--Ouviram.

--Pois... quem tocava guitarra era eu.

--Voc?!

--Eu, sim. A Libania estava muito triste, e eu vim de Mafra dizer-lhe
coisas. Ficou mais alegre. Quando vinha embora, dei as rdeas ao
_impedido_, e vim tocando guitarra. Mas pensei que elles no tivessem
ouvido...

--Jura que isso  verdade?

O tenente olhou para mim:

--Juro.

--Ento, decididamente, no era a alma do Z Ratinho. Ainda bem! porque
eu j me sentia disposto a acreditar...

--Tambem eu, se isso tivesse acontecido comigo! observou ingenuamente o
brazileiro.

D. Christina, espirito forte, desatou a rir, e como j estivessem sobre
a mesa dois baralhos de cartas, foi ella propria que os abriu, dizendo e
abancando:

--Vamos a isto, meus senhores.




XVII


Leotte arrastava discretamente a aza a D. Christina, mas enganra-se
quanto  presumpo de, como Csar, chegar, ver e vencer.

Teve de conhecer que madame Araujo, muito experimentada no terreno que
pisava, no quereria comprometter-se no pequeno theatro de aco de um
_hotel_, onde o marido s a largava por instantes e onde ns, os oito
companheiros de Leotte, eramos outros tantos olheiros, cheios de malicia
e curiosidade. De mais a mais, entre esses oito havia um que lhe
conhecia a vida. Era eu. E ella estava de certo empenhada em fazer-me
convencer a mim proprio, como tinha convencido o brazileiro, de que era
a viuva authentica e duplicada do morgado Muxagata e do Falco do Marco.

Portanto, o Leotte, que no era tambem um novato inexperiente,
resolveu _rallentar_ o galanteio, appellando para Lisboa. Por esta razo
e, certamente espicaado pela minha feliz descoberta, voltou-se de novo
para a criada, no s por amor das cerejas apetitosas, como pelo desejo
de ver se deslindava o misterio, que fra o primeiro a suspeitar.

E agora  chegado o lance capital d'esta novella, que talvez parea
inverosimil como um antigo romance de Ponson, mas que  to verdadeira,
que ainda hoje pde ser testemunhada por mais de meia duzia de pessoas.

Teve sobeja razo o Leotte para nos communicar cheio de assombro que a
sua descoberta, segundo as ultimas revelaes da Rosa, excedia a que eu
acabava de fazer.

O que iria elle contar? Coisas realmente espantosas.

Dissera-lhe a Rosa que seu pai, D. Alvaro de Alarco, era natural da
Beira Alta.

--Ento a menina nasceu l? perguntra-lhe o Leotte.

--No, senhor. Eu nasci no Porto.

--Como foi ento isso?

--Meu pai, que era morgado...

--Morgado de que?

--De Muxagata.

--De Muxagata?! Est bem certa d'isso!?

--Muito certa. Meu pai fugiu para o Porto com uma fidalga de Lamego.

--E depois?

--Meu pai arruinou-se, e foi morrer ao abandono no seu solar. Minha me
tomou amores com outro homem, que tambem era morgado, e que caiu doente
com uma molestia da espinha, que o poz muito impertinente. Eu tinha
apenas dois annos e, como fizesse barulho brincando, foi preciso
tirarem-me de casa. Mandaram-me ento para Lamego.

--Para casa da familia de sua me?

--Isso sim! A familia de minha me nunca mais lhe perdoou a sua falta.
Mandaram-me para casa de uma pobre mulher, a _tia_ Senhorinha, que era
irm de leite de minha me. Fui crescendo entregue aos cuidados da _tia_
Senhorinha, que era viuva, e que vivia de fazer mandados. Era ella quem
dava todas as voltas em casa do major Gouva, de infantaria 9, que era
muito bom homem, casado com uma santa senhora. Como no tinham filhos,
foram-se-me affeioando, e eu passava l os dias emquanto a _tia_
Senhorinha andava lidando na cozinha ou dando voltas por fra.

--E sua me no mandava mesada nenhuma  _tia_ Senhorinha?

--A principio mandava meia moeda por mez, mas quasi nunca escrevia.
Depois o sr. major Gouva, quando a _tia_ Senhorinha morreu de um grande
resfriamento que a tolhra, tomou conta de mim, mandou dizer a minha me
que guardasse as suas migalhas de dinheiro, e minha me nunca
mais tornou a escrever, no quiz mais saber de mim.

--E o que foi feito de sua me?

--No sei! O sr. major Gouva no queria que se falasse d'ella.

--Mas como foi que a menina veiu parar a Lisboa?

--O sr. major saiu tenente-coronel e foi collocado em Elvas. Eu vivia
muito feliz, porque tanto elle como a mulher, a sr. D. Clara--Deus a
chame l!--me tratavam como se eu fosse sua filha. Tinham muita pena de
mim, davam-me vestidos, chapeus, tudo o que elles podiam dar, e mais do
que podiam dar, porque o sr. tenente-coronel apenas vivia do soldo. A
sr. D. Clara, como era alfacinha, gostava de poder vir para Lisboa; de
mais a mais, em Elvas, o sr. tenente-coronel passava mal de saude. Um
general, que era amigo d'elle, arranjou-lhe a transferencia para Lisboa.
Viemos todos. Mas o sr. tenente-coronel nunca mais tornou a ser o homem
que era em Lamego. Soffria do corao. Anno e meio depois de estarmos em
Lisboa, acamou, soffrendo cada vez mais. Morreu todo inchado, que fazia
d. N'esse dia posso dizer que morreu o meu verdadeiro pae.--E dos olhos
da rapariga rebentavam lagrimas.

--Depois?

--Depois a sr. D. Clara e eu viviamos de uma pequena penso que ella
tinha. Mas a pobre senhora affligiu-se tanto com a morte do
marido, que pegou de fazer-se doente. S durou mais onze mezes. Vieram
ento uns parentes d'ella, sobrinha e marido, tomar conta de tudo o que
havia. E eu achei-me ssinha no mundo, sem ter quem me protegesse. Vi-me
s, desamparada, fiz um annuncio no _Diario de Noticias_, arranjei uma
casa, fui servir.--E os soluos embargavam-lhe a voz.

--Mas por que no tentou procurar sua me?

--Como! Quem sabe l se minha me ainda vive! Se ella quizesse fazer
caso de mim, teria deitado inculcas para me encontrar.

--Diga-me porm uma coisa... Como foi que mudou de nome?

--A primeira casa em que eu servi era na praa dos Romulares. A senhora
chamava-se Maria; a menina tambem. Comearam a embirrar com o meu nome,
que fazia confuso, diziam ellas. Talvez no gostassem que eu tivesse um
nome igual ao seu. Um dia a senhora disse-me que era melhor chamarem-me
Rosa, e desde ento o meu nome tem sido sempre Rosa.

--Mas ento a menina no suspeita que existam ao menos parentes de sua me?

--Elles no me quereriam vr, porque ficaram de mal com minha me.

--Quem sabe...

-- meu senhor! eu nasci para ser desgraada!

--E, se fosse preciso, a menina poderia provar tudo isso que me
tem contado?

--Vive na rua da Padaria a sobrinha da sr. D. Clara, em casa de quem eu
costumo ficar por esmola, quando estou desarrumada. Ella que diga se
isto  verdade ou no.

Como no podia deixar de ser, a revelao d'este dialogo causou-nos
profunda surpresa. Chamamos a rapariga, que repetiu todas as declaraes
anteriores.

--Mas isto  um verdadeiro romance! disse eu.

--Comeado por ti e acabado por mim! observou orgulhosamente o Leotte.

--Tens razo.

--O que eu no sei, disse-me o Vasconcellos,  como tu e os teus
collegas em lettras teem o condo de encontrar sempre um romance em toda
a parte!

--Sempre, no. Poucas vezes at o acaso poder ter fornecido um to
completo romance. Este a mim mesmo me surprehende.

--Sim. D'este no posso eu duvidar, porque estou assistindo a elle.
Mas--continuou o Vasconcellos--tenho corrido todo esse paiz, e nunca
encontrei nenhum romance nem coisa que o parecesse.

--Se tu fosses escriptor terias, por hipothese, feito dez romances;
d'esses dez, nove seriam inventados, e apenas um verdadeiro. Notando
que o mais inverosimil seria talvez o unico verdadeiro.

--A julgar por este, assim .

O Gonallinho Jervis estava visivelmente entregue a dois pensamentos:
um, que dissimulava; outro, que manifestava com vehemencia.

O primeiro adivinhava-lh'o eu: era um intimo desgosto de no ter sido
elle que surprehendesse o romance.

O segundo inspirava-lhe indignadas apostrophes contra a me descaroavel
que abandonra a sua propria filha  miseria, talvez  deshonra.

--Ah! Gonallinho,  d'essa triste verdade que nasceu a creao das
rodas dos expostos, dos asilos, das misericordias, de todas as piedosas
instituies de assistencia publica. Mas parece que tu no vives n'este
mundo! Pois no ls nos jornaes, todos os dias, noticias que te ensinam
que ha mes que expem as filhas, que as matam, que as vendem!... E
pensas que todas essas torpes mes sero desgraadas! S so castigadas
as que caem nas mos da policia. As outras vivero decerto to felizes
como D. Christina.

Mas era preciso abandonarmos philosophias, tomar alguma resoluo pratica.

Duas coisas ficaram logo resolvidas:

1. Que se escreveria ao Callixto, que tinha ficado em Lisboa, para ir 
rua da Padaria procurar a sobrinha de D. Clara Gouva, a fim de
pessoalmente verificar se as declaraes d'ella coincidiam com as
da Rosa. Ficariamos em Cintra esperando a resposta.

2. Que eu inventaria  noite uma historia qualquer que, visando ao
corao das mes descaroaveis, pudesse revelar-nos o arrependimento ou o
cinismo de D. Christina.

Escripta a carta ao Callixto, comecei a pensar no modo de conduzir a
observao psichologica de que tinha sido incumbido.




XVIII


O conto que eu architectei, para contar  noite, foi baseado, devo
confessal-o francamente, n'uma noticia que havia lido em Buffon, e que
para aqui vou transcrever textualmente.

Diz o sabio naturalista na sua obra monumental:

_Pendant tout le temps de l'incubation, la paone vite soigneusement
le mle, et tche surtout de lui drober sa marche lorsqu'elle
retourne  ses ufs; car dans cette espce, comme dans celle du coq et
de bien d'autres, le mle, plus ardent et moins fidle au vu de la
Nature, est plus occup de son plaisir particulier que de la
multiplication de son espce; et s'il peut surprendre la couveuse sur
ses ufs, il les casse en s'approchant d'elle, et peut-tre y met-il
de l'intention, et cherche-t-il  se dlivrer d'un obstacle qui
l'empche de jouir: quelques-uns ont cru qu'il ne les cassoit que par
son empressement  les couver lui-mme, ce seroit un motif bien
diffrent._

Achado o assumpto, graas s minhas recordaes de Buffon, era facil
oppr a pava  mulher pelo que tocava aos encargos affectuosos da
maternidade.

D. Christina ia accentuando,  medida que a convivencia se estreitava,
uma alegria expansiva, de que alis se mostrava um pouco avara para
comigo, desconfiada talvez de que eu no soubesse ser discreto at ao fim.

Por vontade sua, ter-se-ia comeado logo a jogar. Mas ns, simulando
no querer interromper o tradio das nossas noites de Cintra,
oppuzemo-nos.

Contei, portanto, o meu conto.

--Era n'uma quinta da Beira Alta, uma d'essas quintas nobres do seculo
passado, cheias de estatuetas e de fontes mithologicas, de largas ruas
desenhadas por linhas de buxo alto eriado; uma d'essas quintas em que
havia, por fora, um pombal, um lago e a matta.

Ao fundo alvejava o palacio, de amplas dimenses, com janellas de
sacada, cujos ferros, muito espaados, eram torcidos como o caduceu de
Mercurio.

Aos lados da porta do edificio avultavam duas grandes cascatas,
estrelladas de pequenas conchas, umas brancas, outras roseas; e de
cada gomil, que os Neptunos sobraavam, descia a agua n'uma
crespa meada de cristal, caindo nos tanques, onde peixes doirados nadavam.

Havia na quinta um copioso aviario, uma colleco preciosa de faises,
paves, pers, patos, gallinhas raras do Oriente.

Eu tinha ido visitar o dono da casa, que havia sido meu condiscipulo,
e que fra feito visconde, quando, por ter casado rico, comprou
aquella ultima quinta de um morgado beiro.

Tive a honra de conhecer as pessoas mais gradas da localidade, que se
reuniram a jantar em casa do meu condiscipulo no primeiro domingo que
l passei.

O visconde conservava ainda o mesmo espirito que eu havia conhecido
doze annos antes. Muito sarcastico, um critico implacavel de todos os
ridiculos sociaes, contou-me hilariantemente a historia do seu
viscondado, que elle era o primeiro a no tomar a srio.

--O governo, disse-me rindo, fez-me visconde; no Minho chamaram-me
_bisconde_. Eu adoptei esta ultima verso, por me parecer mais
gloriosa, pois que duplica a minha nobreza. Prefiro o _bis_.

Depois informou-me minuciosamente crca de todas as pessoas, de ambos
os sexos, que eu ia conhecer. Descreveu-me as _toilettes_, que eu
havia de ver, os casacos e colletes dos morgados, os vestidos e
penteados das senhoras. Biographou com incisiva satira uns e outras.
Contou-me o motivo por que certo fidalgo vinha a ser ao mesmo
tempo tio de si mesmo, uma embrulhada genealogica, que eu j no sei
agora deslindar. Historiou-me o caso de duas morgadas beatas, que
tinham perdido o direito de ir  sepultura vestidas de branco, posto
no fssem obrigadas por conveno social a andar sempre vestidas de
preto. Uma d'ellas viria ao jantar, e eu teria occasio de observar a
sua severidade de Lucrecia perante todos os Tarquinios d'este mundo,
sem embargo de ter passado pela roda dos expostos um filho seu, cujo
destino ella propria ignorava.

Eu estava prevenido pelo bom-humor do visconde para todas as
apresentaes que me seriam feitas.

Chegou o dia do jantar, e tive ento ensejo de reconhecer quanto as
suas informaes, apesar de mordazes, eram exactas. Vi, sentada  mesa
do visconde, a melhor nobreza de sete leguas em redor. Quasi todos os
convivas eram descendentes de reis godos, e, por conseguinte,
aparentados. Estranhei porm, e disse-o ao visconde, que no houvesse
ali nenhum primo de Viriato.

--Pois tu no te lembras de que Viriato era pastor?! observou
sentenciosamente o meu condiscipulo.

O jantar foi pantagruelico. Legies de aves passaram por deante de
mim. Era de abarrotar. O visconde disse-me depois que ninguem l
saa de casa para jantar de outro modo. No valia a pena.

Findo o banquete, viemos todos sentar-nos junto das cascatas.
Conversou-se principalmente de assumptos do campo. O visconde ria
galhofeiramente da minha ignorancia agricola. A nobre Lucrecia, que
elle me havia biographado, observou-me angelicamenle que no campo as
conversaes eram mais innocentes do que na sociedade destragada das
cidades. Eu, que no tinha pretenes a Tarquinio, concordei.

Fiz reparo em que muitas aves, principalmente paves, depois que os
criados as chamaram ao pateo da cozinha para lhes dar de comer,
pairavam, a grandes distancias, sobre os ramos das arvores.

O visconde notou o meu reparo, e esclareceu-me:

--So as pavas que procuram desorientar os paves.

Imaginei que elle houvesse entrado n'um assumpto escabroso de zoologia
amorosa. Sorri-me. O visconde, piedosamente, observou:

--No te rias. Estou falando serio.

--Era isso justamente o que eu receava...

-- que me no entendeste. As pavas esto agora chocando os ovos, que
com um grande sentimento de amor maternal escondem dos paves, que
lh'os costumam devorar. Por isso, receosas de que os machos as sigam,
procuram desoriental-os, para que no descubram o sitio em que
ellas deixaram por instantes os ovos, alis muito bem escondidos.

-- exacto, disse do lado um morgado beiro.

--Elle no sabe uma palavra, ponderou com verdade o visconde, d'esta
historia natural, que ns c praticamos.

Segui attentamente com os olhos o que o visconde denominava a _manobra
das pavas_. Voando de ramo em ramo, e a longos intervallos de tempo,
iam desapparecendo, sumindo-se arteiramente na espessura do arvoredo.

Alguns paves levantavam o vo aps ellas, e ento as pavas voltavam,
aproximavam-se do sitio em que estavamos, demoravam-se, disfarando o
melhor que podiam a sua inteno.

--Mas isto  admiravel! exclamei eu, isto  sublime de amor maternal!

--Temos ode! gracejou o visconde. Isto  o que . Isto so as pavas
que no querem que os paves lhes comam os ovos. Nada mais e nada
menos. No tens visto isto por l na sociedade das grandes cidades?
Pois olha que no devem faltar paves...

--Mas faltam as pavas.

--Isso acontece em toda a parte, replicou o visconde, piscando-me um
olho e movendo o queixo na direco da nobre Lucrecia pudibunda.

Comprehendi o seu gesto.

N'esse momento, a fidalga descendente do rei Vamba seguia com
tranquilla curiosidade a _manobra das pavas_, como ns todos. No
parecia envergonhada de confrontar-se moralmente com ellas. De certo
lhe no passava pelo espirito a lembrana de que annos antes tinha
enviado  roda de Vizeu um filho, cujo destino ignorava.

--Pudesse ella aprender com as pavas! disse eu depois ao visconde.

--Ella, respondeu-me elle, tambem as tem em casa, mas no se d ao
trabalho de aprender coisa nenhuma.

--Pois eu aprendi.

--Que aprendeste tu?

--Aprendi a conhecer o cathecismo moral das pavas, livro que muitas
mulheres desconhecem.

--s um ingenuo! exclamou o visconde, desfechando-me na cara uma
ruidosa gargalhada escarninha.

Aqui teem a minha historia.

D. Christina ouviu-a imperturbavel, serena, como se o seu corao
fosse de marmore.

Em contraposio, a bondade do brazileiro revelou-se mais uma vez.

--Parece impossivel, disse elle, como ha pais que despresam os filhos,
quando at as avesinhas ensinam a amal-os! No Brazil vi um passarinho
chamado Joo de Barros, muito estimado l porque annuncia de que lado
ha de soprar o vento todo o anno, que faz com barro o ninho do
feitio de um forno. Se alguma ave de rapina lhe quer ir comer
os filhos, e tenta enfiar a cabea pela porta do ninho, tanto elle
como a femea do-lhe bicadas at que fuja ou morra.

N'outra occasio, ns teriamos rido certamente do passarinho que tem
no Brazil o nome de um historiador portuguez.

Mas o contraste da bondade simples do brazileiro com a crueza glacial
de D. Christina encheu-nos de simpathia e de estima por esse amoravel
velho, que havia ligado o seu destino a uma mulher sem corao.

D. Christina, mostrando-se enfadada com os commentarios do marido,
disse abruptamente, cortando-lhe a palavra:

--Vamos l  nossa partida, que estou hoje com grande raiva aos valetes.

D'onde o Vasconcellos quiz concluir que ella, indignada com a minha
historia, tivera em vista chamar-me valete.




XIX


Veio a resposta do Callixto.

A sobrinha de D. Clara Gouva confirmou plenamente as declaraes da
filha do Muxagata, acrescentando-as com excellentes informaes a
respeito da pobre rapariga.

Disse-me ella, escrevia o Callixto, que tem a pequena na conta de muito
honesta. Sempre mostrou muito juizo. Se a no tem em casa,  porque se
peja de assoldadar como criada uma rapariga fina, filha de um fidalgo;
como pessoa de familia no a pde sustentar, porque tem muitos filhos, o
marido ganha pouco na alfandega, e da tia Clara apenas herdou uma
insignificancia. Diz ella.

Em vista d'esta carta, conferenciamos sobre o que deviamos fazer para
impr a D. Christina o dever de olhar por sua filha. O primeiro alvitre
que nos occorreu foi o de contarmos tudo ao brazileiro. Mas ao
cabo de alguma discusso, rejeitamos o alvitre, porque elle poderia ter
um desfecho tempestuoso. Preferimos, portanto, os meios suaves e
conciliatorios.

Decidiu-se que escreveriamos a D. Christina uma carta, que seria
assignada por todos ns. Essa carta, secca e laconica, quasi imperativa,
dizia assim:

                                                            Exma. Sr.

V. Ex. vive tranquilla e feliz. Sem embargo, sua filha encontra-se
n'uma situao desgraada, to desgraada, que  ella propria quem, no
_hotel Victor_, est ao servio de v. ex.  a sua criada de quarto.

Se v. ex. duvidar d'esta nossa informao, queira dirigir-se  rua da
Padaria n.... 2. andar, e procurar a mulher de M. A. P., empregado na
alfandega.

Esperamos que o corao de v. ex. experimente, ainda que tarde, um
movimento de compaixo por essa pobre creatura, que, segundo nos
informam, tem sabido conservar-se digna de melhor sorte e, digamol-o com
franqueza, de melhor me.

Se V. Ex. despresar o aviso que lhe fazemos, ver-nos-hemos na
necessidade violenta de o repetir a seu marido, cuja alma bondosa se
revoltar decerto contra a dureza de corao de sua mulher.
Portanto acreditamos que v. ex., sem prejuizo da sua actual posio,
conseguir encontrar meio de lhe revelar a existencia de sua filha,
podendo talvez dizer-lhe que at hoje a havia procurado sem comtudo a
poder encontrar.

No seremos ns que, n'esse caso, o desilludiremos denunciando-lhe toda
a verdade na sua nudez hedionda.

Mas se v. ex., pelo contrario, entender que deve zombar do sentimento
de justia a que obedecemos, seremos obrigados a provar-lhe que o seu
corao no merece a compaixo de ninguem.

Escripta esta carta, resolvemos confial-a a Maria de Alarco para que a
entregasse a D. Christina, e partimos immediatamente de Cintra, depois
de ter recommendado que, no caso de D. Christina recusar recebel-a ou
lel-a, nos fosse mandado aviso para Lisboa.

Tanto D. Christina como o brazileiro se mostraram muito contrariados com
a nossa ausencia, especialmente o brazileiro, que nos abraou a cada um
e offereceu a sua casa em Lisboa na rua das Praas.

Oito dias depois noticiava um jornal que o sr. commendador Araujo e sua
esposa acabavam de partir para a sua bella quinta de Amares em companhia
de sua interessante filha, que tinha estado a educar no estrangeiro.

No inverno d'esse anno, appareciam n'um camarote de S. Carlos
tres pessoas muito nossas conhecidas: o commendador Araujo, sua mulher e
D. Maria de Alarco.

O Gonallinho Jervis rememorou algumas vezes, na presena de amigos
nossos, a excentricidade que tivemos de ir a Cintra na primavera
expressamente para ouvir os rouxinoes.

--E ouviram?

--No! respondia elle.


FIM





End of the Project Gutenberg EBook of Noites de Cintra, by Alberto Pimentel

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE CINTRA ***

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