The Project Gutenberg eBook, O Romance da Rainha Mercedes, by Alberto
Pimentel


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Title: O Romance da Rainha Mercedes


Author: Alberto Pimentel



Release Date: December 26, 2010  [eBook #34755]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1


***START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O ROMANCE DA RAINHA MERCEDES***


E-text prepared by Pedro Saborano



O ROMANCE DA RAINHA MERCEDES

PORTO--TYP. OCCIDENTAL--PICARIA, 54.

A. PIMENTEL
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O ROMANCE DA RAINHA MERCEDES







PORTO
LIVRARIA PORTUENSE--EDITORA
121--Rua do Almada--123
1879



       _... et erunt duo in carne una_
               GENESIS, cap. II, V. 21.





OS REIS




I

OS REIS

Que secreto mobil determina as evolues da humanidade atravez dos
tempos? Que mysteriosa lei regula os destinos das sociedades no
discorrer dos seculos? Eis o grande problema que ha duzentos annos
preoccupa o espirito humano.  a Providencia: diz Bossuet. As naes
teem uma natureza commum; a humanidade  obra de si mesma: sustenta
Giambattista Vico.  a influencia do clima: prope Montesquieu.  a
fatalidade cega: proclama Voltaire.  Sua Magestade o Acaso: teima
Frederico II.  a situao geographica: aventa, por sua vez, Herder, o
philosopho allemo. E todavia o problema ainda no est resolvido, a
grande duvida permanece no obstante os incontestaveis progressos da
philosophia cada vez mais pejada de systemas...

Os acontecimentos succedem-se n'uma variedade caprichosa, que parece
intencionalmente destinada a desorientar os philosophos da humanidade e
da historia.

Hontem os reis eram personalidades sagradas, representavam na terra o
poder divino. D'esta alliana do co com o throno nasceu a cora
encimada pela cruz. O montante real estava ao servio da religio;
dizimava, como um vendaval de morte, os exercitos dos que no tinham a
mesma crena religiosa. Beijava-se a mo dos reis como ainda hoje se
beija a fimbria do vestido de uma santa. Elles eram recebidos, por toda
a parte, debaixo do pallio, como uma reliquia. Os que os viam,
ajoelhavam, como se faz para orar.

Hoje... Hoje os reis, no mesmo dia em que sobem ao throno, sonham com a
via dolorosa do exilio. Sobre os almadraques do aposento real esto os
preparativos indispensaveis para a jornada do desterro: o bordo do
peregrino, e o chapeu do romeiro. No meio dos saraus da crte ou nas
horas silenciosas da meditao, elles ouvem, como um rumor sinistro,
como uma voz presaga, o echo da revoluo que se aproxima, como uma onda
enorme, ameaadora. Olhando para seus filhos, estremecem de horror,
porque se lembram de que talvez um dia aquellas mimosas creanas tero
de sentar-se  mesa do sapateiro Simo. Muitas vezes, contemplando o
perfil melancolico da mulher que com elles comparte os cuidados da
realesa, julgaro talvez que ella est j sob a presso de uma loucura
saudosa, como a viuva de Maximiliano. Um dia, d'entre o povo que
outr'ora os abenoava, ergue-se um brao regicida, o de Hdel ou de
Nobiling, de Moucosi ou Passavante. At a vida dos reis principia a ser
disputada nos clubs secretos, como se fosse de uma fera. As arvores das
alamedas publicas sacodem ao vento umas folhas crestadas e crivadas,
como na _Avenida das tillias_; passou por ellas o fogo que devia
fulminar o rei. Transformao completa!

Cesar Cantu deu por base  Historia as ruinas. Assim  com effeito. Esta
pyramide, que memra os seculos, e que se chama a Historia,  feita
d'escombros. A hora em que desabam os thronos, sobram portanto os
materiaes para historiar, a no ser que alguem os queira aproveitar para
levantar cadafalsos como no tempo de Luiz XVI.

Ns temos pelos reis, n'esta hora to aoitada de paixes politicas, um
respeito melancolico, uma considerao dolorida. Vemos n'elles,
desde que nascem, os escravos de uma cora. Muitas vezes quizeramos
repartir com elles a nossa obscura liberdade de fallar, de trabalhar, de
viver. Desejavamos dar-lhes o nosso direito de se desafrontarem pela
penna, pela palavra, pela espada. Folgavamos de lhes poder pr no peito
um corao para amar, para eleger esposa, como todos ns fazemos--menos
elles. Depois, quando os vemos partir para o exilio, j velhos como
Napoleo III, ainda creanas como Affonso XII, assistimos pela
imaginao aos mais intimos episodios da vida de familia, que para elles
deve de ter ao mesmo tempo o encanto da surpresa e o travor da amargura,
o que faz com que nem no exilio sejam inteiramente felizes os reis.

Affonso XII offerece, na historia das monarchias modernas, um exemplo
notavel: principiou por onde os outros acabam,--pelo exilio. Conheceu-o,
sendo ainda principe. O seu corao formou-se lentamente na saudade
confusa da patria, e no habito de ouvir pronunciar a palavra--destrro.
Ao passo que os mais obscuros collegiaes da provincia fallavam, no
collegio de Theresianaw, em Vienna, nos bosques e nos campos da sua
terra natal, o filho da que havia sido rainha de Hespanha olhava
melancolicamente para as arvores que a Austria lhe emprestava por
compaixo, e no tinha siquer uma recordao da infancia para
acrescentar quelle poema de saudade que os seus condiscipulos estavam
devaneiando.

Mas o principesinho hespanhol pde, sem o suspeitar decerto, tirar do
exilio um grande ensinamento: que um rei deve preparar-se para o exilio.
Como? Obstinando-se em amar livremente. Escolhendo noiva, em vez de
acceitar a que lhe escolheram. Procurando uma mulher que, pelo amor,
possa supprir a patria, quando a rainha desapparea.

Por isso, depois que o golpe de estado de Martinez Campos o chamou ao
throno onde porventura encontraria ainda alguma pallida flr desprendida
das tranas de uma bella italiana, a rainha Maria Victoria, e quando de
repente, no meio das pompas da acclamao, cuidou ler mais uma vez
n'essa flr desbotada a triste verdade da instabilidade das monarchias
modernas, Affonso XII lembrou-se de que se devia preparar para o exilio,
sem mesmo poder ter a certeza de que as petalas que encontrava esparsas
sobre o throno de Hespanha fossem os despojos de uma grinalda da
princeza de Aosta ou da rainha Izabel, sua me...

Desde esse momento a imagem adorada de Mercedes, a neta de um rei
desthronado, fixou-se no seu corao. A imaginao peninsular do rei
idealisou a desgraa do exilio, como se nunca a houvesse conhecido,
tendo aquella mulher ao p de si. Com ella, levaria a familia, para onde
quer que fosse, e a patria, porque ella tambem era hespanhola. Ento
principiou a desdobrar-se aos olhos da Europa o formoso poema da
resurreio dos grandes amores antigos e cavalheirescos.

Como nos romances da idade media, o brao descarnado da morte imprimiu
n'esse poema escripto em folhas de rosa o sllo de uma fatalidade
mysteriosa, extranha. O lucto da viuvez envolveu de repente o throno de
Hespanha e o corao do rei amantissimo.

 a historia d'esse grande amor e d'essa grande fatalidade o que ns
intitulamos, aproveitando o doloroso colorido dos factos, _O romance da
rainha Mercedes_.

      *      *      *      *      *




ELLE




II

ELLE

O rei de Hespanha faz lembrar estas plantas mimosas que, nascendo no
topo de um outeiro batido dos ventos, se tornam fortes. Creado nos
regalos da crte, educado sob a influencia da tradio religiosa do seu
paiz, parecia unicamente destinado a ser algum dia um simples rei
catholico e constitucional, como os seus antecessores. Como elles,
seguindo as praxes da primogenitura, depz o seu vestido branco no altar
da Virgem da Atocha, e vestiu um uniforme militar para cumprir o velho
estylo tradicional, que, desde os primeiros annos da existencia, rouba
toda a originalidade, annulla todas as disposies naturaes aos
principes destinados ao throno.

O sentimento poetico, que tanto dulcifica os costumes, e que prepara a
alma para a concepo do bello, bebeu-o certamente com o leite da
robusta camponeza das Asturias, a quem a sua amamentao foi confiada.
Mas esse germen de poesia, to necessario  alma de todos os homens,
especialmente de um rei, devia aniquilar-se na atmosphera dos paos
reaes, na temperatura abafadia das pragmaticas anachronicas, longe do
espectaculo da natureza, e das grandes correntes do pensamento humano.
Um rei, como uma flr muito resguardada,  um producto meio artificial,
por um vicio de educao, que j seria tempo de banir. Faltam-lhe as
commoes profundas, as eloquentes lies da sociedade, a aprendizagem
casual que robustece o espirito e o torna apto para a lucta. Recebe a
instruco como recebe a luz, o sol, e o ar: em pequenas doses regradas,
systematicamente, para que o no molestem. Podia ser um bello espirito,
mas a tradio faz d'elle um espirito vulgar.  pouco mais ou menos como
seu pai; seu filho ser como elle.

Mas ao rei Affonso estavam reservados acontecimentos que deviam
modificar completamente a aco enervadora da educao palaciana. Passou
os primeiros annos da vida no exilio, para onde a revoluo arrojou
sua me. No viajou como um principe, como o futuro rei de Hespanha, sob
as vistas de aulicos vigilantes e aduladores. Era ento um simples
particular, uma creana que podia vr e ouvir, mediar e fallar, viver,
n'uma palavra. Passando de paiz em paiz, esteve n'um collegio de Frana,
depois n'outro de Vienna, por ultimo no de Sandhurst, em Inglaterra.
Tratou de perto, deixem-me assim dizer, muitas ideias differentes,
porque  foroso convir em que as ideias da Frana no so precisamente
como as da Austria, e as da Austria justamente como as da Inglaterra. A
natureza, variando de contornos de paiz para paiz, varia tambem a sua
lio. As creanas, que so, no fundo, a mais completa manifestao da
natureza, porque so a natureza n'um estado de puresa immaculada, como
que impregnam quem as conversa do espirito das nacionalidades que
representam, sobretudo se quem as conversa  igualmente creana, porque
n'esse caso a sua alma recebe profundamente as impresses, que ficam
gravadas como caracteres alphabeticos sobre uma camada de cera. Ora o
moo Affonso, em qualquer dos tres collegios, viveu sempre entre
creanas, que no s representavam ideias differentes, mas tambem genios
e classes differentes. Magnifica lio para qualquer principe que
tivesse de occupar um throno! Ao p do alumno fidalgo, o alumno burguez:
ao p do pergaminho, a riquesa; o alumno estudioso ao p do alumno
madrao: a fora ao p da inercia; o alumno intelligente ao p do alumno
estupido: a gloria ao p da indifferena. Cada classe e cada genio
equivalia a uma nova lio, porque, por mais estupida que seja uma
creana, ella sabe sempre encontrar argumentos para desculpar o estado
do seu espirito. No sou eu que no aprendo;  o professor que ensina
mal; so os livros que no prestam. O joven filho da rainha exilada
habituou-se, portanto, a conhecer as individualidades atravez de todos
os veus. Estudou os homens nos homens, o que  muito differente de
estudal-os nos cortezos, que so uma contrafaco. No aprendeu
exclusivamente para rei; aprendeu a sciencia da vida, praticamente, como
se fosse um simples vassallo, porque o throno era para elle uma coisa
muito incerta...

Foi assim que os vendavaes do exilio fortaleceram a planta mimosa. O que
nascra principe fizera-se homem. Teve, portanto, razo o duque de
Miranda, quando photographou Affonso XII com uma simples phrase: _ um
homem._

O maior elogio dos reis est precisamente em serem homens. Assim
pensava uma antiga rainha de Castella, quando, fallando de D. Joo
II de Portugal, dizia que elle havia sido _um homem_. E foi.

Mais do que qualquer outro throno da Europa, o de Hespanha precisa de
reis que sejam homens. Ser rei em Hespanha  luctar. A historia falla
eloquentemente. Carlos IV morreu no exilio; Fernando VII atravessa vinte
annos de revoluo; Izabel II  ainda hoje uma illustre exilada; Amadeu
I deve conservar, como a vaga lembrana de um sonho, a ideia de ter
reinado em Hespanha. N'esta serie de reis falta ainda uma nodoa de
sangue entre Carlos IV e Fernando VII:  Jos Bonaparte. O herdeiro de
to revolta monarchia precisava ser um espirito forte, um homem
perseverante, energico, mesmo audacioso. _Io no soy de los reyes que se
van. De muerte natural  violenta morir sobre el trono._ Estas
palavras de Affonso XII do a medida da justa comprehenso que elle tem
do seu dever. Cesar morreu em pleno senado; Molire agonisou sobre o
palco. Cada um no seu logar. A vida  uma batalha; cada soldado no seu
posto.

Quando Affonso XII entrou em Hespanha para reinar, tinha aproximadamente
vinte annos. Veio por mar, entregue aos caprichos da onda, porque um
rei, desde que principia a sel-o, precisa de se entregar cegamente
ao destino. Mas, logo que desembarcou em solo hespanhol para tomar o
caminho de ferro de Madrid, em vez de uma chuva de flres, esperava-o
uma chuva de balas. O desespero carlista queria enviar a D. Affonso XII
uma saudao de morte. Mas o rei passou impunemente, e o carlismo
continuou a debater-se nas vascas da agonia. Era uma serpente que se
revolvia entre chammas.

Ento a Hespanha viu sobre o throno um rei profundamente hespanhol--no
animo e na physionomia. Um dextro _torero_, um valente caador, um
cavalleiro eximio. Figura esbelta, _salerosa_, rosto moreno, cabellos
pretos, bocca expressiva, dentes alvissimos. Um adolescente de
_serenata_, um trovador de vinte annos sobre um throno de seculos.

Para completar o typo peninsular, um corao amante. Toda a vida de um
hespanhol est no amor ou no ciume. O rei amava. Facto verdadeiramente
extraordinario e ousado: um rei amar! Para um principe de vinte annos,
uma princeza de dezesete. Mercedes, sua prima, era uma creana
idealisada pela formosura. O rei amava-a em segredo, com um culto
sagrado. Adorava-a.

      *      *      *      *      *




ELLA




III

ELLA

A princeza Maria de las Mercedes, filha do duque de Montpensier, Antonio
de Orleans, e da infanta hespanhola Maria Luiza, irm de Izabel II,
realisava, pelo nascimento, uma seductora consubstanciao, o enlace de
duas fascinaes. Por seu pae, francesa, por sua me, hespanhola, ella
reunia em si as duas nacionalidades que maior relevo do aos encantos
femininos. Juntai a graa _francesa_ ao salero hespanhol, a alegria da
Frana  vivacidade da Hespanha, juntai Pariz a Madrid, e tereis uma
figura encantadora: Mercedes.

Ide aos _parterres_ das Tulherias, que foi um jardim de principes,
colhei uma rosa d'aquellas com que outr'ora a imperatriz Eugenia
enflorava os seus bellos cabellos, e deponde-a sobre uma fina jarra de
Triana n'um palacio de Sevilha: havereis conseguido copiar a graciosa
individualidade de Mercedes.

A Frana e a Hespanha comearam a disputar,  beira do bero da
princeza, o direito de lhe conceder dons. Dou-lhe um raio de sol para os
cabellos, disse a Frana. E eu os reflexos sombrios do azeviche,
accrescentou a Hespanha. E da reunio d'estas duas dadivas nasceu a cr
das tranas castanho-claras de Mercedes. Tratou-se de colorir-lhe as
faces. Que faam inveja  perola, disse a Frana. Sim, mas os olhos
pertencem-me, replicou a Hespanha; eu quero que os olhos sejam
hespanhoes. Faces cr de mate; os olhos como os de Affonso, cr de noz.
Era preciso animar a bella estatua. A Frana chamou Pariz, e disse-lhe:
Derrama sobre o corpo d'essa gentil princeza as ondas d'esse fluido
mysterioso a que em toda a parte se chama--a graa pariziense. A
Hespanha chamou Madrid e disse-lhe: Temos n'uma s mulher uma princeza e
uma hespanhola; extrae a mais fina essencia do teu _salero_ e
concede-lh'a. Animada a formosa esculptura, disse a Frana: Pertence-me;
 neta de um rei francez. Perdo, contestou a Hespanha,  neta de um rei
hespanhol.

Quanto a educao, Mercedes havia sido creada como seu primo: no meio da
sociedade. Os habitos democraticos de Luiz Filippe fizeram impresso em
Frana; o rei quiz que seus filhos frequentassem as escholas publicas.
D. Antonio de Orleans seguiu, n'este ponto, a tradio paterna. Como seu
primo, Mercedes foi uma simples collegial. Usava, como as outras
creanas, chapu de palha com grandes abas, vestidos curtos, botinas sem
saltos. Como as suas condiscipulas, associava-se s pequenas rebellies
de classe; como as outras, soffria castigos, os enormes castigos
femininos, passeiar meia hora n'um corredor, para que quem passasse a
visse... Tambem como as outras, ou talvez mais do que as outras,
brincava no _recreio_. Faltava s suas companheiras a vivacidade
hespanhola que a animava a ella, a pujana com que annos depois havia de
fatigar ao _crocket_ um dos mais destros jogadores, o duque de Baos.
N'outra coisa se distinguia ainda: tratavam-n'a por _madame_. Achou a
superintendente do collegio que seria desarrasoado chamar menina a uma
princeza, e princeza a uma menina. Cortou-se o n gordio dando-lhe um
tratamento que representasse uma certa superioridade moral: _madame_. Os
quatorze annos da princesa, que os tinha ento, riam-se alegremente
por entre as velhas arvores da cerca, quando ouviam gritar: _Madame!_

Mas o que  certo  que _madame_ atravessando o collegio, como o
principe das Asturias, adquiriu o conhecimento pratico da sociedade,
aprendeu principalmente o valor que teem as lagrimas, porque as chorou
nas horas de correco ou de saudade pela sua familia, em particular por
seu primo, e porque as viu chorar em circumstancias identicas. Ora uma
boa rainha, para que no deixe de amparar os desgraados, precisa de
saber quanto custa o chorar. Tambem o collegio lhe deu por ventura uma
exacta comprehenso do amor. Quasi todas as collegiaes tinham um primo
ausente, idealisado pela saudade da terra natal e do tecto paterno; um
companheiro de jogos infantis, um Paulo que, por sua vez, pensava
quella mesma hora em Virginia... Por elle choravam, fallavam d'elle
baixinho, umas com outras. N'essas horas de intimidade desapparecia a
_madame_.  Mercedes, tu tambem tens um primo da tua idade... Tenho.
E crava, e sorria.

Era o principe das Asturias.

De repente apparecia a preceptora. Ento as dissimuladas confidentes
modificavam-se: _Madame_ d'aqui; _madame_ d'alli.

E a gentil _madame_ de vestidos curtos afugentava com uma alegre risada
sonora a lembrana saudosa do nobre priminho, e agitava os seus pequenos
braos para suster na queda uma folha solta que vinha descendo do
arvoredo, ou para cortar o vo a uma borboleta iriada.

Quando o duque de Montpensier residiu em Lisboa, Mercedes, com suas
irms, continuou a viver na sociedade, que era a primeira de Portugal, a
gozar, no meio das regalias fidalgas, a desoppresso das etiquetas
cortezs. Ao mesmo tempo ia estudando o mundo atravez da sua ventarola
sevilhana. E quem sabe? quem sabe se este co de Portugal, este bello
co que  naturalmente quem nos faz amorosos, to amorosos que at no
extrangeiro temos fama de o ser, quem sabe se elle no emprestou para os
idyllios de Mercedes os seus reflexos azues e as suas aureas radiaes,
se elle no contribuiu para divinisar na alma da gentil princesazinha a
imagem adorada de seu primo?!

      *      *      *      *      *




O AMOR




IV

O AMOR

A diplomacia moderna annullou o corao dos reis. No  o amor a base
das familias reaes; a diplomacia aconselha os principes reinantes a
procurarem esposa segundo as conveniencias da politica internacional.
Todo o homem tem o direito de escolher a mulher que mais o captivou
pelos encantos ardentes da formosura ou pela serena attraco da
virtude; de preparar o seu ninho conjugal com a doce phantasia de quem
estivesse alfaiando um templosinho para uma divindade adorada; de
antegostar pela imaginao as delicias de uma vida cheia de remano e
conforto, chilreada de palavras meigas, estrellejada com os reflexos
luminosos dos sorrisos leaes e honestos; quer dizer, todos podem
conquistar pela familia a immortalidade do corao, reviver pelo
amor no futuro dos filhos idolatrados, todos--menos os reis. O que se
exige dos monarchas no , em primeiro logar, que constituam familia, 
que constituam dynastia; em segundo logar o que se exige no  que
simplesmente pensem na familia a que vo dar origem, mas que ponderem
reflectidamente se a familia a que a princeza escolhida pertence reune
as condies de riquesa e poderio que, segundo a politica, convm ter em
vista. De modo que um rei no desposa uma mulher; casa com uma nao.
No  uma alliana individual;  uma alliana internacional. Depois que
a diplomacia intendeu nos casamentos dos reis, so vulgares na historia
de todos os povos os tristes romances em que as rainhas dissolutas
perturbam a vida de uma nao inteira por um capricho do corao,
sedento de amar. Dos casamentos diplomaticos resultam escandalos
tamanhos como aquelle a que Portugal assistiu no tempo de Affonso VI.
Ora os exemplos so tanto mais prejudiciaes quanto mais d'alto partem;
parecem-se n'isto com as torrentes: quanto maior  o despenho, tanto
maior  o impeto da agua. Os escandalos que se exhibem nos thronos teem
um publico numeroso, a nao. Portanto, contaminam muita gente.

No velho codigo indiano de Man, os casamentos de inclinao so
chamados da _musica celeste_. N'esses casamentos de Deus, como diz ainda
o nosso povo, ha com effeito uma harmonia santa, celeste. Sob a benam
da Egreja reunem-se dois coraes em flr, cheios de esperana e de
alegria, de sonhos e de sorrisos. So duas primaveras que se enlaam, e
 certo que no ha primavera que no deixe vr a Providencia por detraz
do vo transparente dos seus jubilos. Aqui est, pois, explicada a
expresso de Man.

Affirma Lichtenstein que entre os cafres koussas no preside ao
casamento o menor sentimento affectuoso. Pois a diplomacia parece tambem
apostada em asselvajar os reis, em tornal-os  barbarie. Culpa da
politica, quasi se poderiam comparar aos algonquinos, em cujo
vocabulario falta um verbo que signifique _amar_; e dizemos quasi,
porque nos lembrou que os reis costumam dizer officialmente: _Minha
muito amada esposa_: existe a palavra, mas falta, as mais das vezes, o
sentimento que ella exprime. O que  muito peior, porque representa uma
falsidade, que as civilisaes toleram.

Os vocabularios algonquinos so n'esse ponto mais sinceros...

Michelet disse n'um dos seus livros historicos que a Hespanha pendia
para barbara, apezar do estreito; _l'Espagne tient  la barbarie, malgr
le detroit._ Pois justamente  hora em que nos paizes mais civilisados
os reis casavam obrigados pelos seus ministros, e nos paizes mais dces,
em que o co e a terra parece deverem embalar a alma em branduras
amorosas, no eram mais felizes nem mais livres; na Hespanha, apezar de
barbara, como disse Michelet, um rei, que subia a um throno em que no
estava ainda firmado, teve a coragem de repartir o seu corao entre a
patria e uma mulher.

Affonso XII comprehendeu, em plena mocidade, a verdadeira misso do
homem. Realmente, por mais brilhante que seja um espirito, por mais
perseverante que seja uma vontade, sempre a vida de qualquer homem ha de
derivar por entre duas religies: a da familia e a da patria. So duas
prises que aferram toda a existencia: preso  familia pelo amor; preso
 patria pelo trabalho. Aos reis, apezar da sua elevada posio, no
cabe menor quinho de trabalho do que aos vassallos; por isso j um
monarcha portuguez, que tinha uma perfeita comprehenso dos seus
deveres, chamou aos encargos de um rei o _officio de reinar_.

Mas o amor de um rei era facto to raras vezes presenciado, que
precisava ser tractado com recatos. Atirai bruscamente com uma flr
delicada, e vel-a-heis desfolhar. Ora nada ha mais delicado do que o
amor, sempre que elle merea este nome. Se D. Affonso XII houvesse feito
alarde do seu amor, corria risco de vr maltratada a pura flr do seu
corao. Um rei da Europa, em pleno seculo XIX, precisava ser cauteloso,
embora perseverante, nas expanses do amor. Importava que a politica e o
paiz se fossem habituando lentamente a vr amar um rei.

Era em verdade para receiar que a interposio de uma cora fosse
obstaculo insuperavel  ardente paixo dos dois primos. Portanto, o
joven rei de Hespanha quiz tranquillisar o animo de Mercedes. Mas, como
poder dizer-lh'o livremente, no meio da crte--a crte, a eterna sombra
dos reis? Era preciso aproveitar o menor incidente; sobretudo, era
preciso sabel-o aproveitar.

D. Affonso triumphou d'esta difficuldade.

Estava a crte em Aranjuez. Passeiavam o rei, sua prima Mercedes, a
infanta Christina, o duque de Sexto, as damas de honor, sob o arvoredo
da Cintra hespanhola. De repente, pela estrada de Toledo, roda uma
carroa, envolta em turbilhes de poeira. Com uma simples palavra, o
rei faz detel-a. Sobe para ella, quer que sua prima suba. A dama de
honor de Mercedes sobe tambem. Parece a todos um capricho de rei, um
brinco de adolescente. Ah! mas no era s isso... D. Affonso, em p,
vigoroso e alegre, solta as bridas  parelha, faz estralejar o chicote.
Parte a carroa n'uma carreira doida. Sobresalta-se a crte com a
imprudencia; gritam, chamam...

O que! Quem pde deter esse vertiginoso vo do Amor, Phaetonte que
parece ir despenhar-se n'um mar de fogo?!

Era o primeiro momento de liberdade, mas ainda assim incompleta, porque
havia dois ouvidos extranhos. A dama de Mercedes no fallava allemo;
foi justamente por essa razo que os dois primos escolheram essa lingua
para as suas confidencias.

E emquanto as nuvens de p se enovelavam sob as patas de duas possantes
mulas hespanholas, e o chicote estralejava elegantemente vibrado,
emquanto pareciam correr para um abysmo, n'uma aventura romantica, dizia
a sua prima Mercedes o rei de Hespanha, em puro idioma teutonico: Deixa
dizer o que disserem, e fazer o que fizerem, has-de ser minha mulher.
Mas guarda segredo.

Mercedes pz o dedo sobre a bocca, e sorriu.

Ento o rei refreou as bridas  parelha. A carroa comeou a rodar
suavemente. A dama de honor agradecia provavelmente a Deus o havel-a
livrado de um perigo, que as palavras mysteriosas do rei lhe fizeram de
certo receiar cada vez mais. E D. Affonso tambem agradecia  Providencia
o presente d'aquella carroa, d'aquelle instante de liberdade.

      *      *      *      *      *




JUBILOS




V

JUBILOS

O rei D. Affonso XII soube vencer, por um trabalho lento, surdo,
perseverante, as difficuldades que a politica naturalmente havia de
levantar contra um casamento de inclinao, especialmente n'um paiz to
desorganisado, to inquieto como a Hespanha. A politica, firme no seu
papel, quereria decerto que o rei casasse ao sabor das paixes
partidarias; cada faco desejava porventura que a nova rainha de
Hespanha representasse no throno as ideias que mais lisonjeassem as suas
ambies. As mulheres so como as flres; diga-se mais uma vez. Teem
muito do paiz em que nasceram: n'um sorriso feminino revela-se a cada
momento uma nacionalidade. Ora a princeza extrangeira que fosse
sentar-se no throno hespanhol, se pertencesse, por exemplo, a uma forte
nao, profundamente monarchica, agradaria especialmente aos
affonsistas, que veriam n'essa alliana uma ancora capaz de aguentar,
contra os mais rebeldes temporaes, a aoitada nau da monarchia hespanhola.

O rei tinha de vencer, portanto, a obstinao dos seus amigos, o que s
vezes  ainda mais difficil do que vencer a pertinacia dos inimigos.
Para conseguir a victoria, era mister um grande trabalho de paciencia,
de tenacidade. Apezar de muito novo, o rei soube aplanar o caminho,
vencer os obstaculos, triumphar.

No dia em que fez vinte annos, a sua obra estava realisada; podia j
declarar  Hespanha, e depois  Europa, que elle procurava no amor a
estabilidade do throno, porque nenhum lao ha ahi mais forte do que o amor.

Quando a minha patria vir, pensava certamente o rei, que a familia real
de Hespanha offerece, como todas as outras, um doce espectaculo de vida
tranquilla e simples, quando reconhecer que somos todos hespanhoes, na
crte e fra da crte, sentir-se-ha cada vez mais identificada com a
monarchia que resuscita em mim, ver na minha familia o espelho da sua,
nos meus filhos uns irmos, ao passo que eu verei nas familias de
Hespanha como que uma reproduco multipla da minha, porque todos sero
meus filhos.

Entrincheirado n'estas nobres convices, havendo vencido pela
perseverana todas as difficuldades politicas, o rei pde emfim fazer
annunciar o seu casamento pelo ministro dos negocios extrangeiros s
crtes da Europa.

Em Portugal, pelo menos, esta noticia foi recebida com profunda
sympathia. Em Lisboa a princesa Mercedes era conhecida, estimada; o rei
D. Affonso tambem. Um casamento por amor chama sempre sobre si as
benos dos que teem corao; especialmente quando os noivos deixaram no
nosso animo uma grata impresso.

Portugal abenoou-os pela bocca da sua imprensa, como se em verdade se
no tratasse de um casamento de principes, mas de dois simples primos
enamorados, que, depois de haverem regressado  patria, iam santificar 
beira do altar as suas alegrias da infancia e as suas tristezas do exilio.

Dez dias depois do vigessimo anniversario do rei, partiram para Sevilha
o marquez de Alcaices, o duque de Sexto, o marquez de Frontera, e D.
Fernando de Mendonza a pedir officialmente a mo da bella princeza.
Era, finalmente, o epilogo do gracioso episodio da estrada de Toledo.
Perto de Aranjuez, o ousado conductor da carroa dissera, fustigando a
parelha, _digam o que disserem, e faam o que fizerem, tu has-de ser
minha mulher; mas guarda segredo_. Mercedes soubera ser discreta como a
estatua do silencio. Mas os emissarios do rei de Hespanha, entrando no
palacio de S. Telmo, aclararam o mysterio d'aquella tarde aventurosa.

A dama de honor da princeza aprendeu talvez n'esse momento a traduzir
allemo...

Dias depois, partia para Roma um enviado a solicitar a dispensa de
parentesco. Roma respondia mandando ao mesmo tempo a dispensa, e a
benam do papa para essa unio celestialmente harmoniosa, como diz a
tradio indiana. Affonso e Mercedes iam finalmente casar, segundo a
expresso catholica, com o osculo de Deus.

Ento, ao passo que a phantasia do rei se comprazia em povoar de
_bijoux_ encantadores o ninho conjugal, a Hespanha preparava-se para uma
grande festa, a festa do amor. A municipalidade de Madrid abria o seu
thesouro para resuscitar as tradies cavalheirescas da Hespanha, os
torneios, as touradas, os jogos floraes; Sevilha escrevia palavras de
felicitao e encerrava o manuscripto dentro de um cofresinho
delicioso, cravejado de brilhantes; Valencia colhia as mais raras, as
mais mimosas flres para enviar  rainha um _bouquet_ colossal;
Barcellona preparava os seus mais delicados artefactos para envial-os
aos noivos, como preito da industria  monarchia; finalmente, estas e
outras provincias queriam assistir  festa, e mandavam a Madrid vinte e
cinco grupos de camponezes, que representassem, em toda a puresa do
trajo popular, a individualidade ethnica de cada uma, de modo que os
reis sentissem que tinham a Hespanha inteira  volta de si...

A Europa tambem no faltou na festa: as crtes extrangeiras mandaram
embaixadores. Uma onda de curiosos, de _touristes_ invadiu Madrid.

Entretanto o rei, com a delicada imaginao de um poeta, com o fino
gosto de um amante, dirigia em pessoa a ornamentao da camara nupcial;
e, perdidamente enamorado, aproveitava uma recente inveno de Edisson,
o telephone, a fim de dialogar de Madrid, onde estava, com Mercedes, que
esperava em Aranjuez o dia da ceremonia nupcial.

O casamento realisou-se em janeiro de 1878; pois, no obstante a
estao, fazia em toda a Hespanha um tempo de primavera.

Mas no meio d'esta festa geral, profundamente hespanhola, alguem que
quizesse procurar dolorosos vaticinios, havia de encontral-os atravez
das alegrias nupciaes que atapetavam de flores de laranjeira o solo da
cavalheiresca Hespanha.

      *      *      *      *      *




PRELUDIOS




VI

PRELUDIOS

De um beijo trocado entre o amor e a elegancia nasceu a ornamentao da
camara nupcial do rei de Hespanha. O amor forneceu as lembranas
delicadas, as apaixonadas galanterias, os objectos symbolicos; a
elegancia, que  tanto maior artista quanto mais desleixada parece,
distribuiu-os sorrindo, lanou-os como ao acaso, dispersou-os como se
tratasse de espalhar uma nuvem de flores: brincando. D'esta allianca
nasceu um idyllio em vez de uma camara, um palaciosinho feito de
maravilhas dentro de um palacio feito de pedra; um ninho tecido de
preciosidades para receber um par enamorado; dirieis que um poeta
omnipotente conseguira realisar um sonho de riquesa e felicidade
architectando aquelles aposentos com pedaos de crystal e raios de sol.

As ideias mais tristes e mais terrenas tomavam alli uma encarnao
phantastica. Nada mais atrozmente positivo que a lembrana de que o
tempo foge com uma velocidade insensivel, de que nem com punhados de
ouro se pde embargar-lhe o passo. Mas o amor, nos aposentos destinados
 rainha Mercedes, at sobre os relogios soube poisar sorrisos, de modo
que o tempo deixou de ser cruel alli. Era o amor quem devia avisar a
rainha de Hespanha das horas que fugiam, mas com tal encanto obrigra o
relogio a fallar, que certamente as horas pareceriam breves, muito
breves. Sobre um pedestal de marmore branco, dois amantes enlaados n'um
beijo longuissimo, estendidas as mos para um livro, que um Cupido de
ouro abria, indicando uma phrase--_Para sempre_: esta graciosa pendula
devia recordar a Mercedes, hora a hora, que o tempo fugia mas que o amor
ficava. _Para sempre_, em vez de ser a cruel ameaa da eternidade,
tornava-se uma promessa de felicidade ininterrompida. O leve rumor da
pendula pareceria, de instante a instante, o rumor de um beijo: olhando
para os dois que se beijavam sobre o pedestal de marmore, a rainha
de Hespanha acreditaria facilmente que o esculptor primoroso soubera
animar o bronze.

A Frana mandra para alli, para aquelle densinho principesco, quanto
de maravilhoso as artes haviam produzido. O que os reinados de Luiz XV e
Luiz XVI viram de mais assombroso, espalhou-o n'aquelles aposentos a mo
de uma fada. A par das grandes obras da arte, as pequenas coisas
galantes. O amor tem o seu tanto ou quanto de selvagem: quer
engalanar-se com constellaes de missangas. Os ramilhetes seccos, uma
luva, um leno eram alli as missangas do amor. Tudo aquillo pertencera a
Mercedes: portanto era justo que tudo aquillo completasse o idyllio.

Na atmosphera, um suave conjuncto de aromas delicadissimos,
subtis;--este perfume tenue mas penetrante que faz lembrar a respirao
das coisas bellas.

A luz, nitida, mas discreta, sem os tons petulantes com que ella invade
as alcovas burguezas.

O que quer que fosse de branda indolencia, de deliciosa preguia na luz,
nos moveis, nos perfumes. Quanto alli estava parecia viver, mas dormir.
Era uma alvorada sem canticos, banhando n'uma serenidade narcotica a sua
formosura.

Fra, a contrastar com esta extranha placidez que esperava alli os
noivos, a anciedade do publico, o rumor das praas, o rodar das
equipagens, o estrepito das fanfarras, o tumultuar de uma cidade em festa.

As damas da primeira sociedade preparando as suas _toilettes_
enormemente ricas: s o vestido da duqueza de Santonia, costurado em
Paris, valia onze contos de reis.

A princeza Mercedes, no palacio de Aranjuez, remirando, n'um
encantamento de felicidade e de surpresa, os brindes maravilhosos que de
toda a parte lhe mandavam: o rei, uma cora de brilhantes, um _pendant_,
de Froment Maurice, um bello camapheu antigo com uma alluso
mythologica; Izabel II, um manto de velludo, estrellejado de ouro,
acolchoado de arminhos; D. Francisco de Assis, uma cora real
constellada de diamantes, um raio de sol cinzelado em diadema.

 volta da formosa hespanhola, que ia ser rainha, as suas novas damas de
honor, as duquezas de Bailen e de Ahumada e a condessa de Villapaterna
acercando-lhe, como n'um sonho ferico, todos esses brindes
encantadores, todas essas maravilhas, que pareciam destinadas a uma
noiva de ballada medivica.

A bazilica da Atocha aberta de par em par para receber os dois que se
amavam. Deante do portico do templo, um arco de triumpho colossal,
construido pelos invalidos, formado de canhes, de armas, de tropheus de
bandeiras conquistadas, um pensamento cavalheiresco a completar a festa
do amor, que ia ser abenoada por Deus.

Ide. Deus vos espera, noivos.

      *      *      *      *      *




A BENO




VII

A BENO

O cortejo nupcial era imponente, magestoso.

A grandesa das velhas crtes europas resuscitou n'aquelle dia sob o co
da formosa Hespanha.

Houve um momento de silencio e de anciedade quando se avistou a
vanguarda do prestito, quando o cavallo do timbaleiro, ricamente
ajaezado ao antigo estylo hespanhol, constellado de brazes, rompeu a
marcha, seguido por um esquadro de cavallaria, pelos arautos, e por
vinte corceis arreiados ao tempo de Carlos V.

Depois comeou a desdobrar-se a longa fila das carruagens, em numero
superior a duzentas. Na frente, as do conde de Paris, da rainha
Christina, dos fidalgos da casa do rei, dos mordomos de semana, das
infantas irms do rei, de D. Francisco de Assis. Emps, o coche
deslumbrante da princesa das Asturias, um antigo coche de tartaruga,
incrustado de ouro, com as arestas cobertas de grinaldas de flres, que
um artista do seculo XVII pintou; interiormente forrado de setim, com
lavores do tempo de Luiz XVI; tirado por oito cavallos emplumados e
ladeado por officiaes da casa real. Dentro d'esta berlinda encantada
destacava o busto gracioso da princeza, que cingia o manto de crte
sobre um vestido de velludo vesuvio, bordado a cravos de varias cres.
Esta viso encantadora, que o sol parecia rodeiar de reflexos
phantasticos, no tinha ainda desapparecido, e j outra, verdadeiramente
ferica, attraa o olhar.

Era a carruagem do rei.

As esplendidas librs  Luiz XVI, ostentando as cres dos Bourbons,
quatro parelhas com jaezes cuja riqueza s podia competir com a das
librs, os homens das maas, os picadores, os criados a p, que se
affiguravam barras de ouro a andar, como disse por esse tempo um
jornalista, eram como que uma muralha transparente, tecida de ouro e de
sol, atravez da qual os procurava com a vista a figura esbelta de rei
dentro da sua carruagem olympica.

Excede tudo o que se possa imaginar esta velha carruagem real, que j
tem dois seculos de existencia, feita de acaj, com ornatos de bronze
dourado, encimada por um grupo de figuras mythologicas, que se
enredemoinham aos abraos n'uma lucta confusa, sob o peso da cora, que
remata esse zimborio de um trabalho cellinesco. A caixa do trem
arquea-se sobre laminas douradas,  similhanca das carruagens de gala da
crte portugueza. O interior, acolchoado de setim, cheio de paizagens,
de figuras bordadas, emmoldurava o perfil do rei, que vestia a sua
grande farda de general, com o toso de ouro sobreposto.

Mais tres carruagens, de um esplendor levantino, completavam o numero
dos coches de gala: uma de bano e de lapis-lazuli marchetada de ouro;
outra de marfim, e a ultima de crystal de rocha, uma especie de
barquinha de vidro, que tremeluzia ao sol, como se se fosse movendo
sobre uma onda azul do mar Jonio.

Uma escolta numerosa encerrava este cortejo phantastico, que passava
deslumbrando como no fundo de um kaleidoscopio.

Tudo havia sido dirigido em to exacta conformidade com o programma, que
a carruagem do rei chegou  bazilica da Atocha ao mesmo tempo que a da
princeza Mercedes.

Sob O arco de triumpho, o cardeal Benevides, patriarcha das Indias,
acompanhado pelo nuncio apostolico e por quinze bispos, esperava os noivos.

Affonso XII foi recebido debaixo do pallio de velludo vermelho bordado a
ouro, ondulante de grandes plumas brancas, que faziam lembrar o adejar
de um bando de pombas irrequietas.

Atraz do rei seguia o conde de Paris, que vestia a farda de
tenente-coronel do exercito hespanhol; os duques de Montpensier,
trajando a duqueza um vestido de setim amarello e preto; as infantas
irms do rei e da rainha, que levavam mantos de crte e vestidos de
_faille_ azul celeste, guarnecidos de crepe liso, estrellejados de
perolas finas, e arregaados por _bouquets_ de rosas brancas e de myosotes.

Emps este coro nupcial que rodeiava Mercedes, este bello grupo de
princezas, e de damas nobres como a duquesa de Sexto, que vestia de
setim vermelho com rendas de Alenon, e a condessa de Guaqui, que
trajava vestido de setim branco guarnecido de pennas de abestruz e
perolas finas, entraram no templo o senado, os deputados, e o corpo
diplomatico.

O rei subiu ao throno, onde a sua gentil figura se conservou de p
alguns momentos, e desceu depois para ir ao encontro da sua noiva,
que vestia de tafet branco, bordado com innumeros _bouquets_ de rosas
nevadas, roagando sobre o tapete do templo, entretecido por cem
senhoras da primeira sociedade hespanhola, a sua immensa cauda.

Ento celebrou-se a missa, que foi expressamente escripta pelo
compositor cubano Villate, author da opera _Zilia_, e o patriarcha das
Indias cruzou sobre os noivos a beno nupcial. Este acto foi
acompanhado por uma allocuo do patriarcha, depois da qual, subindo a
rainha ao estrado, o patriarcha fez ouvir esta solemne saudao: A
Egreja sauda-vos rainha de Hespanha.

Cantado o _Te-Deum_, D. Affonso XII e a eleita do seu corao subiram 
carruagem real. O magnificente cortejo atravessou as ruas de Madrid por
entre nuvens de pombas, que, lanadas das janellas, n'um numero
prodigioso, esvoaavam s doidas por sobre as carruagens.

Nos labios do rei desenhava-se um fino, um doce sorriso de felicidade,
cuja expresso se pde traduzir n'uma s palavra: Emfim!

      *      *      *      *      *




FESTAS




VIII

FESTAS

Seguiram-se as festas. Madrid accendeu-se como um s facho phantastico,
cujos largos reflexos prysmaticos e agitados faziam lembrar um enorme
_bouquet_ de luz, osculado pela virao da noite. O Prado affigurava-se
uma montanha de estrellas; as fontes de Neptuno, de Cybele e de Apollo
jorravam scentelhas. Os palacios particulares, entre os quaes avultava o
do marquez de Campos, pareciam feitos de crystal illuminado. Nas ruas, a
multido fremente ondulava como a superficie de um oceano. Fallava-se,
bailava-se, cantava-se ao som dolente da guitarra. Os trovadores
populares recitavam epithalamios no velho estylo romantico, cheios
de pomposa rhetorica: Luz que inundas de fulgres os horisontes da
patria; arco-iris da paz, penhor de felicidade, vive feliz e cumpre a
tua misso. Na praa de la Armeria seiscentos musicos e quatrocentos
cantores entoavam um cro grandioso. Na Porta do Sol tres focos de luz
electrica conservavam uma claridade metallica, prateada. A transio da
noite para a aurora no se sentiria, se o sol no parecesse pallido, um
sol de noivado, alegremente desbotado e malicioso, a todos os que ainda
tinham os olhos habituados aos esplendores das fontes luminosas do Prado.

No dia seguinte, 24 de janeiro, cantou-se na capella real de Santo
Izidro o _Te-Deum_ que as auctoridades de Madrid e a deputao
provincial tinham resolvido mandar celebrar. Este acto religioso fez
despertar a crte, recomear o movimento das carruagens brasonadas. O
rei e a rainha faltaram a esta festa, demasiadamente matutina, mas
appareceram, radiantes de felicidade, na sala do throno,  hora da
recepo: o rei vestido de capito-general, com as suas gran-cruzes
traadas sobre o peito, a rainha em _costume_ de crte, de cr de rosa,
que  a cr predilecta das noivas.

Na tarde d'esse dia, Luiz Godard, areonauta por hereditariedade,
realisou no campo de Mro, em frente do Palacio Real, a asceno de um
enorme balo, que media setecentos metros, e que se elevou desdobrando
as alegres cres hespanholas no seu monstruoso bojo de seda.

Na tarde do dia seguinte, uma festa verdadeiramente hespanhola
despertra o mais vivo enthusiasmo. Dezeseis mil espectadores affluiram
 tourada em que um grupo de moos fidalgos, e outro grupo dos mais
famosos espadas de Hespanha, Frascuelo, Angelo Pastor, Gayetano Sanz,
realisaram proezas de ousadia tauromachica.

O rei e a rainha, depois de haverem recebido vinte e cinco pares de
noivos, que se tinham casado no mesmo dia em que o rei casou, e que
vestiam o trajo pittoresco das provincias a que pertenciam, deram
entrada na tribuna real da _Praa dos Touros_, radiantes de uma franca
alegria juvenil, cheia de scintillaoes e de sorrisos.

Ento comeou a festa, deslumbrante de grandeza, de magestade. Rodaram
na arena os grandes carros que conduziam os toureiros amadores,
acompanhados pelos seus patronos, grandes de Hespanha. Depois entraram
os _espadas_, impvidos, esculpturaes, preparados para a lucta; os
bandarilheiros, traadas as capas de cres vivas sobre o brao direito;
por ultimo os arautos vestidos  Henrique III, e o carro de morte, a
tumba, tirada por cavallos que sacudiam cocres multicores, e fitas
variegadas.

Estava alli a Hespanha, nobremente selvagem, a Hespanha que oppe Tarifa
a Tanger e Algeziras a Ceuta, a Hespanha que por sobre o estreito
estende um brao para a Africa, como para receber de l o que quer que
seja de rude; esta grande e bella Hespanha que se diverte applaudindo um
espectaculo de sangue, como se no sangue ainda quente visse apenas, no
a morte, mas a fora, a vida dos que morrem pelejando, combatendo; esta
ardente e incomprehensivel Hespanha que n'esse mesmo dia, como sempre,
passou d'esta festa de morte, do circo romano para o theatro da Opera,
da tempestade para a bonana, de Frascuelo e de Pastor, para Chapi, a
musica, e para Borghi-Mamo, o canto, da tourada, uma carnificina, para
_Roger di Flor_, uma partitura.

O _Theatro Real_, n'essa noite em que se cantou o _Roger di Flor_, tinha
um aspecto de grandeza oriental, porque uma facha de diamantes, que
scintillavam sobre o peito das damas da crte, formava um circulo de
luz verdadeiramente deslumbrante, phantastico.

No dia seguinte, concerto no theatro Apollo; no dia 27, revista militar
em que trinta mil homens tomaram parte; depois... um diluvio de festas
ruidosas, soberbas, e, no futuro--quem sabe?--talvez uma sombra, uma
grande dr, o reverso d'este quadro maravilhoso...

      *      *      *      *      *




PRESAGIOS




IX

PRESAGIOS

Por entre o resplendor das festas atravessa no raras vezes uma sombra
fugitiva, que deixa no nosso espirito uma ligeira impresso.  a
desgraa que passa agitando subtilmente a sua grande aza negra;
adivinhando-a, nasce em ns o presentimento.

Por entre as enormes lampadas de ouro, que, no dia da beno nupcial,
illuminavam a bazilica da Atocha, adejou essa terrivel ave presaga, e,
demorando-se um momento sobre uma das capellas lateraes, chamou para
aquelle ponto a atteno de quantos alli tinham mais fina sensibilidade.
Comprehendendo, estremeceram esses que viram isto. N'essa capella,
um monumento de estylo antigo, um sarcophago de ferro com embutidos de
ouro, guarda os restos mortaes do general Prim. Haviam escondido o
tumulo para que elle no fizesse ouvir a sua voz sinistra por entre os
canticos religiosos, e os hymnos da festa. Mas, postoque escondido, o
tumulo fallava, e o presentimento chamou a atteno para o que elle
dizia. Era a ideia da morte, do invencivel poder que tudo derruba, que
desfolha todas as grinaldas, que envenena todas as felicidades:
adivinhava-se tudo isto. Involto em tapearias, para que se no deixasse
vr, o gigante, se no podia bracejar, deixava presentir o seu vulto; de
mais a mais aquelle tumulo era o do general Prim: poisavam sobre aquelle
sarcophago dois vaticinios terriveis.

Quem sabe, ai! quem sabe! se Mercedes, a noiva ditosa, ao inclinar a
fronte deante do patriarcha das Indias para ligar o seu destino ao do
rei de Hespanha to moo e to namorado como ella, no relanceara
involuntariamente o olhar para aquella capella que escondia um tumulo, e
no sentira no corao a dr lancinante de uma punhalada vibrada por mo
invisivel! Quem sabe at se uma lagrima, uma lagrima crystallina e
esquiva, no rocira por momentos a face da bella hespanhola,
refrangendo a luz dos lampadarios! Se alguem viu essa lagrima, se o rei
D. Affonso a surprehendeu, tomal-a-ia por uma d'essas perolas em que a
alegria, quando  profunda e immensa, se desentranha, porque a lagrima 
o verbo mudo de todas as grandes commoes.

Mas no paravam aqui os vaticinios; os que os procuravam, at fra de
Hespanha os encontravam. Um rei, dos mais enamorados que teem occupado
os thronos da Europa, o rei _galantuomo_, havia fallecido recentemente.
A Italia, o bello paiz da arte e do amor, chorava ainda a perda
d'aquelle esbelto homem, ao mesmo passo fragoeiro na rudeza das caadas,
e galante no remano das salas; a Italia, poisando a fronte melancolica
sobre a urna vitrea do Adriatico, parecia chorar. E quando a Italia
chora, o corao da Europa solua.

Nas vastas paragens habitadas pelos povos slavos, a guerra estrondejava;
o echo longinquo da carnificina, da lucta tremenda em que dois grandes
imperios rivaes procuram despedaar-se, rumorejava em todos os circulos
de conversao, nas noticias palpitantes de todos os jornaes.

s lagrimas da Italia juntava-se o sangue da Turquia.

Pio IX, o velho pastor do rebanho catholico, abenora o casamento do
rei de Hespanha com a mo senil quasi fria. Hora a hora, a sua vida
atufava-se na grandeza da immortalidade, e os coraes religiosos
assistiam commovidos ao lento declinar d'aquelle astro que parecia
luctar pela vida e pela Egreja j suspenso sobre o poente.

Havia, por toda a Europa, a tristeza d'um occaso, a concentrao de
muitas incertesas: qual seria o desfecho da lucta no Oriente? como
deslisariam os dias da Italia sob o governo de um novo rei? por que
tempestades passaria o orbe catholico quando a velhice de Pio IX
exhalasse o derradeiro alento?

A Europa estava agitada, receiosa, e no era este o scenario mais de
geito para uma festa nupcial. Os representantes das poderosas crtes
extrangeiras, que concorreram a Madrid, pareciam preoccupados:
agitavam-se-lhes na mente os problemas do futuro.

Influencia do estado geral do mundo europeu, ou tibieza de animos
apprehensivos, um facto occorrido em Madrid tomra um caracter presago
para algumas pessoas. Dos fidalgos que se apresentaram a lidar toiros,
um sahira mal-ferido da arena. Uma onda de sangue, jorrando do peito
d'esse fidalgo toireiro, quiz parecer ruim vaticinio.

Entretanto, o rei de Hespanha dava-se por indemnisado de quanto havia
soffrido em to verdes annos. Mercedes era, finalmente, sua. Ao mesmo
passo julgava-se forte para soffrer no futuro. Tinha sobre o seu corao
um escudo de ao: era o amor da rainha.

Ento lembrava-se dos seus amigos, dos seus condiscipulos de collegio:
quizera que todos elles presenciassem a sua felicidade. Estando na
familia, esquecia-se de que tambem estava no throno. Por isso escrevia
ao archiduque Frederico de Austria, que estava para desposar a princeza
Izabel de Croy: Prohibo-te que me trates por magestade nas tuas cartas,
trata-me como no tempo do _Teresiano_. Quando te casares vem a Madrid
com tua mulher, a qual travar conhecimento e amisade com a minha,
porque Mercedes  muito boa e amavel. Recordaremos os antigos tempos.
Assim passars uma lua de mel to feliz como a que eu desfructei.
N'estas poucas linhas est um hymno de felicidade;  a voz de um corao
francamente sincero e ditoso--d'um corao em flr.

Que pena que elle no podesse ser completamente feliz!

      *      *      *      *      *




NOIVANDO




X

NOIVANDO

No mais profundo da floresta architectam as avesinhas o seu palacio de
amor: afofam-n'o de plumas soltas, e de folhas verdes. Escondem-se assim
das vistas curiosas, e celebram na profundesa do bosque o idyllio da sua
felicidade.

Em deredor ouve-se s vezes um cantico, uma nota perdida;  uma phrase,
uma estrophe do poema do noivado. Por esse som, que o vento vai levando
de arvore em arvore, comprehende-se a sublimidade do mysterio que se
occulta dentro de quatro musgos entretecidos em abobada.

Tambem o palacio dos reis de Hespanha se convertera em ninho de
amorosos segredos. Alli se escondia o par venturoso, alli vivia no
remanso da sua felicidade

    De dia em pensamentos que voavam,
    De noite em dces snhos que mentiam.

 volta d'esse den de alegrias nupciaes ondejava Madrid, a inquieta.
Rumorejavam os _cafs_, projectando sobre as ruas a sua viva claridade
provocante; estrondeava nos theatros, em exploses de enthusiasmo, a
ardente sensibilidade peninsular, agitada pelas fundas commoes
dramaticas, quando a alegre vivacidade hespanhola no se desatava nas
francas gargalhadas e nos ruidosos applausos de uma comedia, temperada
com o sal malicioso da Hespanha. Nos circulos politicos discutia-se,
apostrophava-se, e envolvia-se no fumo azulado de um bom havano uma
theoria administrativa ou uma questo financeira. No Prado rodavam as
carruagens da velha nobreza, corcoveteavam os finos cavallos andaluzes,
sob o acicate dos nobres cavalleiros. A _manola_ passava agitando o
mundo com a sua ventarola travessa, a mocidade com o seu olhar
magnetico. Canovas del Castillo discursava brilhantemente no parlamento;
Campoamor sonhava _doloras_ encantadoras; Peres Escrich projectava
romances to desejados pelos editores como pelo publico; Echegaray
planeava talvez um bello drama: a Hespanha, especialmente Madrid,
respirava o seu ar subtil, como diz a cano, e espanejava-se sob o seu
formoso sol resplendente.

No pao real, os noivos gorgeiavam as suas dces confidencias. A
primeira familia das Hespanhas vivia na concentrao das familias
obscuras e ditosas. Na camara nupcial, o grupo de bronze, que se
osculava, lia no livro do amor, a cada hora que o relogio marcava,
aquella deliciosa phrase cheia de promessas: _Para sempre_. As flres do
dia das nupcias estavam frescas, rescendentes, quasi orvalhadas: se esse
dia ainda estava a to pequena distancia! De vez em quando, como um
reflexo d'esse sanctuario de luz, partia do palacio real um sorriso da
caridade, que enchia de reconhecidas lagrimas os olhos da pobreza.
Comera a primavera, que  em toda a parte alegria. A formosura das
noites augmenta a felicidade como um microscopio feito de luar. Por
noites embalsamadas e serenas, os mais receiosos do futuro devaneiam
sonhos de vaga, de incomprehensivel esperana; que far quem j se sente
feliz, quem j est no alto, e pde, por isso, vr melhor o co!...

Se D. Affonso XII no fra um rei, mas simplesmente um hespanhol,
divagaria ao luar pelas ruas de Madrid, Mercedes ao lado, os braos
enlaados; procurariam as ruas mais solitarias do Prado, fallariam do
futuro, arrulhariam como dois pombos namorados. Madrid vel-os-hia, e
elles no veriam Madrid. O rumor da inquieta cidade, que parece accordar
 noite, no os incommodaria; porque o amor sabe fazer silencio  volta
de si para se ouvir melhor...

Mas, rodeiado das prises da crte, impedido, como todos os reis, de ser
completamente livre, fechra no seu palacio as suas alegrias. No era
rei seno por amar a Hespanha, que era tudo o que ainda lhe fazia
lembrar do mundo. Mercedes, contemplava a sua cora de larangeiras, e
no se lembrava da outra de rainha. Murillo, se resuscitasse, no
saberia copiar aquella felicidade tranquilla.

Entretanto a aguia negra, que rora a sua aza pelo tumulo de Prim,
trouxera-a de l impregnada de uma poeira de morte, que sacudira sobre o
palacio real das Hespanhas. Essa poeira, como se fra uma chuva de fogo,
crestra lentamente, invisivelmente as flres do _boudoir_ de Mercedes.
Quem sabe se a pobre rainha, ao vr languescer a primeira flr do seu
noivado, no lra nas ptalas desbotadas um vaticinio horrivel! Essa
flr no podia ser por modo algum um symbolo do amor do rei; que esse
amor, to profundo, to ardente, to raro, era indubitavelmente do amor
que fica quando as flres emmurchecem. Mas, como sempre, essa pequenina
flr era a imagem da morte: hontem sorrira ella no _bouquet_ nupcial de
Mercedes, hontem lanra sobre o vestido roagante da rainha o reflexo
colorido da sua formosa corolla. Hoje derramra no ar a sua alma de
aroma, e passra. Porque no seria Mercedes como ella? Flor pela
formosura, tambem vivera hontem, hontem principalmente, no templo, ao
lado de Affonso, e aos ps de Deus. Essa grande commoo bem sentia a
rainha que devia ter consumido uma parte da sua alma; porque as
commoes so de fogo, queimam. Portanto, que lhe restava? Deixar-se
aniquilar como a flr. Dar o seu ultimo olhar a Affonso, a sua
derradeira lagrima  Hespanha, a sua alma ao co. Emquanto o amor e a
morte se digladiavam n'um duello terrivel, sangrento, talvez Mercedes
dissesse comsigo mesma: Ha cinco mezes que ouvi nas ruas a um pobre
trovador popular que me saudava: Vai, rainha, to bella como a flr, sua
irm pelas graas da formosura. Se  verdade o que elle disse, que Deus
receba a minha alma e proteja Affonso. Depois, olhando por ventura
para o relogio da sua camara, pela primeira vez acharia uma significao
horrivel, atroz, n'aquella phrase outr'ora to doce: _Para sempre!_
_Para sempre_, a eternidade, a separao completa, o cerrar dos olhos
nas trevas do sepulchro, o esfriar do corao para no mais aquecer.

De repente, os jornaes de Hespanha annunciram que a rainha Maria de las
Mercedes havia enfermado gravemente.

      *      *      *      *      *




AGONISANDO




XI

AGONISANDO

Era entrado o estio. Os grandes calores iam queimar as ultimas flres
que estrellavam os campos. Uma febre terrvel prostrra effectivamente a
formosa rainha de Hespanha. Nem as flres do throno escapavam ao ardor
da sazo.

A Europa ficou dolorosamente surprehendida, alvoroada com essa triste
noticia. Quando a vida de uma noiva corre perigo, parece que sente a
gente a oppresso de um dia de inverno em plena manh de primavera. E
essa noiva era ao mesmo tempo uma rainha: tinha o triplice prestigio da
sua posio, da sua formosura e da sua virtude. Pertenciam-lhe tres
coras: uma de ouro, porque era rainha; outra de larangeiras, porque
era noiva; a ultima de rosas, porque era bella. Profanar tres coras de
uma s vez, affigurava-se uma impiedade, um crime. A enfermidade que
prostrou a rainha Mercedes pareceu desde logo um attentado da natureza
contra a natureza, um facto horrivelmente extraordinario.

No dia 24 de junho, porm, dia de festa para os povos da peninsula, a
rainha sentiu-se mais alliviada por noite dentro. Supposeram os medicos
vr chegar um periodo de reaco favoravel. Pareceu que a natureza havia
comprehendido que no podiam os reis chorar nos dias assignalados s
festas do povo.

Deslisou tranquilla a noite, e sobre a manh pde a rainha ser
transportada, nos braos dos que mais amava, para outro leito. Rodeiavam
a doente o rei, os duques de Montpensier, a princeza das Asturias, a
infanta Christina, a marqueza de Santa Cruz. Parece que os doentes
querem fugir  morte mudando de leito. O rei comprehendeu o que se
passava n'aquella alma gentil. Luctando pela vida, a rainha pensava mais
nos outros do que em si. Queria salval-os, sabia quo fundo pungiria no
corao da familia real a dr de a vr morrer.

Quando o corpo da rainha pendeu alquebrado sobre os braos de Affonso
XII, quizera o rei ser mais forte do que nunca. No pde. As lagrimas
brotaram em torrente. A rainha viu-as, e disse: _Vamos, Alfonso, no
llores  me enfadar._ Singular coragem do amor! O fraco tornara-se forte.

A doena do corpo e do espirito sopitra a rainha, que adormeceu
serenamente. Sobre o seu bello corpo adormecido pairou o sorriso de uma
esperana. Ento alguns dos seus nobres enfermeiros foram descanar;
ficaram outros, de atalaya ao leito, seguindo com a vista o menor
movimento da physionomia, a menor alterao do semblante. Eram o marido
e a me. No podia haver no mundo mais dedicados enfermeiros.

Um correspondente de Madrid, dando noticia do doloroso alvoroo que a
na camara da rainha, dizia: Os aposentos contiguos pareciam um
acampamento: a princeza das Asturias descanava no quarto de _toilette_
da rainha, o duque de Montpensier no salo carmezim, o cardeal Moreno no
salo amarello, o patriarcha das Indias no gabinete azul; e as pessoas
do servio da crte descanavam por differentes salas em _fauteils_ e
_divans_.

Verdadeiro acampamento assestado contra a invaso da morte. Ao menor
gemido, despertavam os defensores d'aquella vida preciosa. A batalha era
de lagrimas e oraes. Combatia-se pedindo; luctava-se chorando.

Comeou a declinar a tarde, e o estado da rainha pareceu tornar-se
grave. Correu no acampamento a voz de alarme. Acudiu cada soldado ao seu
posto. A gravidade dos symptomas denunciou que era aquella uma lucta a
todo o transe. A cada passo que a morte dava para o leito oppunha-se-lhe
uma barreira de lagrimas, uma muralha de oraes.

Um raio de sol poente doirava a camara real, animava muito a furto o
perfil das estatuetas, e dos retratos. Affigurava-se que tudo tinha
olhos para vr, mas com um olhar nublado, afogado em lagrimas. Uma
photographia de Mercedes, voltada para o leito, parecia chorar a sorte
d'aquella noiva desventurosa, to outra, to demudada, que se no
conhecia a si propria...

Era aquelle o dia de S. Joo, o dia das trovas, dos risos, dos
vaticinios amorosos. Esse raio de sol era, portanto, como que um
pensamento de amor que penetrava a medo na camara de uma noiva moribunda.

Como se a morte estivesse esperando pela noite para atacar melhor, o
estado da rainha peiorava  medida que as horas passavam. Vem,
combatente traioeiro, pela calada da noite, p ante p, imprime o teu
beijo de gelo na fronte de uma pobre mulher, que tu prostraste no leito.
Fere, mata, s impiedosa  vontade, mas sabe que no entras
despercebida,  morte. Ha muitos olhos a espionarem-te nas trevas,
muitos coraes a adivinharem-te no silencio. O leo de Florena foi
mais clemente do que tu: mostraram-lhe uma creana, e deteve-se. Aqui
tens tambem uma creana, dezoito annos apenas, e no pras, e no te
movem oraes, e no te entristecem as lagrimas!

Nos botiquins, cheios de gente at hora muito avanada da noite, porque
a anciedade era geral, a noticia de que o perigo augmentra, deixra
todos assombrados. Um povo essencialmente poeta, como o de Hespanha, no
pde vr morrer uma noiva com olhos enxutos. Madrid chorava quella hora.

No palacio real, emquanto o conselho de ministros reunia para deliberar
em to grave conjunctura, o patriarcha das Indias ministrava a santa
unco  moribunda, e, fallando-lhe de Deus, perguntava-lhe se lhe
custava morrer: _Si, por Alfonso e por mis queridos padres_, respondia a
rainha. E havia apenas cinco mezes que aquella mesma voz solemne saudava
a noiva, e na noiva a rainha, na grande bazilica da Atocha, cheia de
flres, de canticos, de scintillaes...

A hora extrema pareceu chegada. Os medicos desalentaram. D. Affonso
participava pelo telegrapho a seus pais que a vida da rainha se julgava
perdida; os duques de Montpensier faziam igual participao aos condes
de Paris.

A doente parecia querer luctar contra a escurido que lhe obumbrava o
cerebro. Aproveitava os raros instantes de lucidez para achegar a si a
cabea do rei, para lhe beijar a mo.

E todavia j no podia fallar.

      *      *      *      *      *




MORTA!




XII

MORTA!

Foi demorada, longa, a agonia da rainha. Os laos que a prendiam ao
mundo eram to recentes, que foi preciso um grande esforo da morte para
os fazer estalar. Alem do que, no se vence facilmente o combate travado
com um exercito de affectos. O amor defende-se at  ultima barricada. E
os duques de Montpensier, que eram paes, estavam alli,  beira do leito,
firmes como sentinellas vigilantes; e D. Affonso XII, que era esposo,
estava alli tambem, immobilisado na estupefaco das grandes dres,
tendo a mo direita poisada sobre a fronte da moribunda. As irms do rei
e da rainha faziam das suas lagrimas uma como ultima defeza. Quadro
verdadeiramente grandiosa em sua melancolica e commovente sublimidade!

Alvoreceu no co de Hespanha a manh do dia 26 de junho. Estava escripto
no livro dos destinos humanos, que fosse aquelle o ultimo dia da rainha.
Poucas horas poderia viver ainda, segundo o prognostico dos medicos.
Ento o amor teve de se confessar vencido perante a morte. A esperana
na sciencia fugiu; veio substituil-a a esperana na misericordia de Deus.

A familia real orava de joelhos, n'um recolhimento profundo, solemne. S
o rei no podia orar: a dr paralysara-lhe a intelligencia e
embargra-lhe a voz. Conservou-se de p, pallido e firme como uma
estatua, junto ao leito da rainha. No houve pedidos, instancias, que
conseguissem arrancal-o d'alli. Dir-se-hia que o rei desejava que a
morte, ao vibrar o golpe decisivo, se enganasse na victima, e o
prostrasse a elle...

Entretanto a manh ia seguindo o seu curso, se bem que no interior do
palacio real a manh d'aquelle dia no fosse mais do que a continuao
de uma noite de horrores.

No vestibulo e nas galerias, enxameava silenciosamente um enorme
concurso de pessoas, que desejavam informar-se do estado da rainha. E as
que alli faltavam, tinham sido attrahidas aos templos pela voz plangente
dos campanarios.

Aproximou-se o meio dia, e a vida da rainha declinava rapidamente. Mais
um quarto de hora passado, e a rainha expirou. Ento o rei pareceu
acordar de subito, agitado por uma commoo horrivel. Poisou na fronte
pallida de Mercedes o derradeiro beijo, e tirou-lhe do dedo, com uma
verdadeira delicadeza de noivo, o annel nupcial, que para sempre o
ligar quelle formoso cadaver.

Todas as pessoas da crte o rodeiaram, e piedoramente o obrigaram a
sahir d'alli. O rei deixou-se ir, como um authomato. Entrando nos seus
aposentos, mandou chamar o presidente do conselho de ministros, com quem
se demorou conferenciando largamente.

A esse tempo, o canho annunciava  capital das Hespanhas que a rainha
Maria de las Mercedes era um cadaver.

O telegrapho communicava para Frana,  av e aos paes do rei, a triste
noticia: Roga a Deus pela alma da minha Mercedes, que est no co. Teu
afflictissimo, _Affonso_.

Depois de conferenciar com Canovas del Castillo, o rei quizera
ficar s; as pessoas que de perto o vigiavam ouviam-n'o dizer: Pobre
Mercedes! que rapida felicidade foi a nossa!

Era ainda um dialogo com a rainha atravez do invisivel; as duas almas
viam-se e fallavam-se, to distantes uma da outra!

O cadaver da rainha permaneceu na mesma camara em que ella tinha
expirado: alli havia nascido o rei Affonso, vinte annos antes.
Amortalharam-n'a com o habito de Nossa Senhora das Mercs, como pedira.
Para o triste noivado da sepultura no quiz a rainha outras galas. As
damas de honor fizeram guarda ao cadaver, durante a tarde e a noite.
Eram as mesmas que a tinham acompanhado  bazilica da Atocha, no dia do
casamento. Dir-se-ia que o cortejo das nobres damas s tivera tempo de
mudar de vestido, e que n'um instante se haviam transmudado em lagrimas
de luto as rosas do noivado.

Como que obedecendo a uma horrivel sina de familia, a rainha Maria de
las Mercedes alli estava adormecida no somno eterno, ella, a formosa;
sua irm, a infanta D. Amalia, morrera em 1870, de enfermidade analoga,
e seu irmo, o infante D. Fernando, baloiado sobre o tumulo por
igual motivo, fallecera um anno depois. Um vendaval de morte parece
esperar que a vida dos principes da casa de Montpensier seja chegada 
efflorescencia da mocidade para os revessar impiedosamente ao mysterio
da sepultura.

s duas horas e meia da tarde d'esse mesmo dia, reuniu o congresso
hespanhol na sala das suas sesses, sob a presidencia do snr. Ayala,
que, depois de lida a communicao da morte da rainha, por um dos
secretrios, historiou  camara, com as mais encantadoras tintas que a
saudade sabe temperar, e como testimunha presencial, os pungentes
episodios do passamento de Mercedes. O congresso escutou-o n'um silencio
profundo, religioso.

A dr que essa narrao produziu em todos os animos conseguiu adormecer
todas as paixes politicas. A identidade do sentimento irmanra os
partidos n'essa hora dolorosa. O congresso, nomeando uma commisso que
fosse apresentar  familia real a expresso da magua que essa perda
irreparavel lhe causra, e resolvendo suspender os seus trabalhos, no
fez mais do que interpretar a dr profunda que saltera o corao da
Hespanha.

O senado, que reuniu pouco depois, tomra identicas resolues.

 beira do leito funerario d'aquelle cadaver illustre no havia
outros murmurios que no fossem os das oraes ciciadas por todos os
labios. O gigante da eloquencia parlamentar inclinra a fronte em
lacrimosa mudez. A politica embainhra as armas de combate, e
principira a tecer a capella de rosas brancas que costuma engrinaldar a
cabea das noivas mortas. O throno de S. Fernando cobria-se de longos
crepes. E sobre essa montanha de lucto, que a Hespanha inteira
contemplava, elle, o moo rei, na solido moral da sua dr, seguia ainda
com a vista embaciada de lagrimas a via lactea da saudade que a rainha,
ao voar para regies ignotas, deixra semeada de estrellas, como um
trao luminoso das suas azas. Dil-o-ieis um velho chorando sobre ruinas.
Ruinas do corao, que so as mais tristes de todas ellas.

      *      *      *      *      *




O FUNERAL




XIII

O FUNERAL

O cadaver da rainha de Hespanha foi transportado, na manh do dia 27,
para o salo das Columnas. Depositaram-n'o sobre uma cama imperial, do
tempo de Filippe V, ao meio do salo, e poseram-lhe entre as mos um
crucifixo de ambar.

S a architectura da sala podia denunciar que estava alli a noiva do
rei, to simples era a decorao d'esse quadro funebre.

Cerca das sete horas entrou no salo a familia real para assistir a uma
missa de corpo presente. Finda ella, abriram-se as portas de par em par,
e Madrid invadiu a capella ardente.

Os grupos paravam  beira do feretro, soluantes e lacrimosos. Se a
rainha Mercedes podesse vl-os e ouvil-os, morreria da alegria de vr a
Hespanha identificada com o throno. Que tu,  bella Hespanha das
tradies cavalheirescas, s como um grande oceano cujas ondas se
encapellam chocando-se. Luctas comtigo mesma, Hespanha, e a ti mesma te
dilaceras. s o pelicano das naes, o Saturno da Europa moderna. Se um
brao poderoso conseguisse, por entre sorrisos de brandura, imprimir um
movimento uniforme s tuas correntes revoltas, tu serias completamente
feliz. E esse brao bem poderia ser o de Mercedes, que nos paizes
cavalleirosos como tu, faz mais o sorriso d'uma mulher do que a espada
de um conquistador. Mas essa bella hespanhola que te podera salvar, no
teve tempo siquer de principiar a sua grande obra de ternura. Eil-a
morta, amortalhada como uma pobre freira que baixasse s catacumbas do
seu mosteiro.

Depois das sete horas da manh do dia seguinte, o cortejo funebre
comeou a desfilar pela praa do Oriente, _calle_ de Bailen, e demais
ruas de Madrid que conduzem  estao do caminho de ferro do norte.

O povo de capital das Hespanhas abria respeitosamente longas las
para deixar passar esse prestito da morte. Um piquete de cavallaria, que
o precedia, encontrava passagem franca. Um respeito profundo continha as
impaciencias da multido to frequente n'estes lances.

Emps, uma banda marcial derramava sobre Madrid as notas plangentes de
uma marcha funebre. A musica, como quasi sempre acontece, traduzia em
todas as almas quanto ellas sentiam n'essa hora. E pela effuso das
lagrimas, que era geral, via-se que em todas as almas pungia a mesma dr.

Seguiam-se os timbaleiros e cornetins das regias cavallarias, e os
respectivos criados, e empregados, de grandes fardas, e fumo no brao;
os cavallos de passeio da rainha, roagando crepes; os cavallos de
estado; o estandarte da real irmandade; a cruz da capella real;
capelles, musicos e cantores; gentis-homens e officiaes-mres, oito
grandes de Hespanha, duques de Sexto e de Uceda, marquezes de Salamanca,
de Benemejis, de Malpica, de Valdegrana, de Monistrol, o conde de
Guaque; batedores, correios das cavallarias reaes, e, finalmente,
tirado por quatro parelhas de cavallos negros, o coche funebre, ladeado
pelo capito-general de Madrid, Primo de Rivera, e seguido pelo
marquez de Santa Cruz, mordomo-mr da rainha, pelo notario-mr do reino
e ministro da justia, Calderon Collantes, pelo patriarcha das Indias.
Este coche da morte, rodando vagarosamente, era recebido pelas lagrimas
da multido, cuja commoo subia de ponto, quando os olhos cahiam
involuntariamente sobre o coche rico do rei, tirado por oito cavallos
brancos, o mesmo coche que cinco mezes antes conduzia no regresso da
Atocha o par enamorado atravez de uma chuva de flres.

O corpo de alabardeiros, de uniformes resplendentes, a pittoresca guarda
real, de elmos scintillantes, e uma fora de cavallaria fechavam o
derradeiro cortejo d'essa noiva mallograda.

No Escurial preparou-se dentro em poucos dias, pouco mais de um mez, o
panthon provisorio que devia receber as cinzas mortaes da rainha.

Encantadora simplicidade a d'esse tumulo!

Seis columnas de marmore branco sustentam o sarcophago, em cujas faces
foram insculpidas sentenas biblicas, que relembram o passamento
prematuro da rainha. Este singelo monumento occupa a primeira capella do
corpo central da egreja,  esquerda do altar-mr, e junto  parede
interior. Sobre o altar da capella, uma tela notavel, attribuida a
Zurbaran, representa a imagem de Nossa Senhora das Mercedes. Defronte
d'este quadro, encimando quatro grandes sustentaculos de prata, relevam
as coras que outr'ora ornavam o sumptuoso tumulo de S. Francisco, o
Grande.

Tal , no vasto e sombrio templo do Escurial, a camara morturia da
noiva do rei de Hespanha.

Poucos dias transcorridos aps o funeral, D. Affonso XII sahiu de
Madrid. Seguiu o mesmo caminho que o feretro da rainha percorrera. Um
rastro de lagrimas o guiava para o Escurial. E um discreto segredo
guarda ainda hoje a confidencia das angustias do rei n'essa primeira
entrevista, depois da morte, com a doce companheira do seu ninho de
amor.

      *      *      *      *      *




LUCTO




XIV

LUCTO

Episodio encantador:

Um cego, de apparencia decente,--contram os jornaes,--costuma
postar-se todos os dias na Porta do Sol, em Madrid, tocando flauta e
permanecendo descoberto, mesmo nas estaes mais rigorosas.

Assim que circulou em Madrid a noticia do fallecimento de sua magestade
a rainha D. Mercedes, o pobre cego envolveu a flauta n'um pedao de
_gaze_ preta, e foi collocar-se no mesmo sitio, sem tocar.

Nem por isso foi menos farta a colheita das esmolas. A caridade publica
soube comprehender e recompensar aquella commovente delicadeza.

      *      *      *      *      *




VIUVEZ




XV

VIUVEZ

Quando ao sol-pr, n'uma suave tarde de primavera, nos vamos sentar,
profundamente melancolicos, sobre o fraguedo que domina o horizonte,
onde os longinquos resplendores do occaso fazem lembrar os reflexos de
um palacio aereo illuminado para um sarau cavalheiresco, o nosso olhar
tem o condo de no vr atravez do florido scenario da natureza e do
fundo auriluzente do co mais que o ideial da sua melancolia.

Assim tambem o rei Affonso, atravessando com o seu pensamento maguado as
festas ante-nupciaes do archiduque Frederico de Austria, o companheiro
querido de collegio, s tinha presente a imagem saudosa de
Mercedes, a solido immensa da sua viuvez inconsolavel.

Por isso escrevia:


                                            _Meu querido Frederico._

A rainha Mercedes morreu. Que Deus te conceda no matrimonio a
felicidade que me negou. Nas tuas proximas horas de felicidade,
recorda-te das horas de martyrio e de dr que estou soffrendo.

                                                        _Affonso._


Dr profunda, que uma mulher, tambem rainha, e tambem viuva,
comprehendia chorando. A rainha Victoria enviava ao rei de Hespanha
estas eloquentes palavras:


O meu corao est profundamente ferido pela vossa desdita, meu querido
irmo. Que espantosa desgraa quiz Deus enviar-vos! Que Elle vos d a
fora necessaria para supportar to terrivel perda.

      *      *      *      *      *




A BAZILICA




XVI

A BAZILICA

N'uma deliciosa novella de Octavio Feuillet, que toda a gente conhece,
_Le roman d'un jeunne homme pauvre_, avulta, entre outras, uma nobre
figura de velha fidalga, a snr. Porhoet, que, atravez dos gelos dos
seus oitenta annos, entreve os caprichos architectonicos d'uma sonhada
cathedral, em cuja edificao consumir os fabulosos haveres a que se
habilita por um antigo pleito.

Ha uma doce poesia religiosa n'esta veneranda figura de mulher, em cujos
sonhos se lhe entremostra a esplendida cathedral, arremessando para
o azul os seus corucheos phantasticos, as suas agulhas floreadas, que se
enlabyrintham n'uma aerea floresta de marmore.

Este templo que a pouco e pouco se vai erguendo na sua phantasia senil,
porque todos os dias a snr. Porhoet modifica a direco de uma linha, a
architectura das longas naves magestosas, os finos labores dos ornatos,
resume todo o seu pensamento,  a sua ideia fixa, a sua vida.

Similhantemente  snr. Porhoet, o moo rei de Hespanha principiou a
planear, na solido da sua alma, uma bazilica no menos grandiosa, cujo
phantasioso zimborio cobrisse ao mesmo tempo o altar de Nossa Senhora e
o sarcophago definitivo de Mercedes.

N'esse vasto templo, sonhado pelo rei de Hespanha, o amor e a saudade
entralaaro os longos cordes de pedra que formaro as columnas,
tecero as formosas rendas de marmore que se recortaro em ondulaes
caprichosas, elles ambos architectaro as abobadas, levantaro os
altares, guardaro, como dois anjos lacrimosos, o cinerario de Mercedes.

Ser esse o mais formoso poema que a saudade concebeu at hoje;
poder-se-ha chamar  projectada bazilica de Santa Maria de Almodena
o templo christo do amor, como a Batalha  o templo christo da victoria.

O vento ao perpassar pelas flechas da bazilica suspirar elegias  bella
rainha que alli dorme, sob as azas de Maria; e o sol, o sol formoso da
peninsula, procurar reanimar, com os seus beijos de luz, o cadaver da
noiva mallograda.

Todos os annos sahir da lista civil um milho de reales para a
edificao do templo grandioso. Annualmente, o duque de Montpensier e a
princeza das Asturias auxiliaro com duzentos mil reales cada um a
realisao d'esse religioso sonho do rei. Os diamantes e joias
existentes na egreja da Atocha, que pertencem  me de Affonso XII,
foram por ella cedidos, a pedido do filho, em favor do esplendido
monumento projectado. A carta de cedencia diz assim:


Filho da minha vida. Acabo de abraar o duque de Montpensier, que me
entregou as tuas cartas. Vendo-as, vejo que como rei catholico e como
gentilhomem sentes as tuas dres e pensas em Mercedes, refugiando-te em
Deus, e querendo fazer bem  tua capital; queres sobretudo depr
aquelles restos queridos aos ps da Virgem, n'um grandioso templo.

A tua me, meu filho, no s consente que as joias da Atocha sejam
vendidas, mas ainda te abena, e se associa ao teu projecto digno de um
rei, de um christo, e de um bom esposo.

Para isto como para tudo o mais conta sempre, Affonso, com o immenso
amor, e com a cooperao de tua me, que deseja tornar bem conhecido que
de longe  e ser sempre a mesma para Madrid, para a Hespanha, e para o
seu rei.

Recebe mil beijos, bem como os filhos da minha alma, e para todos vs a
beno da tua affectuosa me

                                                            _Isabel_.


Ser, pois, a bazilica de Santa Maria de Almodena, levantada sobre
columnas de lagrimas e de diamantes, um novo e maravilhoso templo de
Salomo, cujos esplendores deslumbraro a phantasia dos artistas e dos
poetas. Mais feliz do que a velha snr. Porhoet, o moo rei de Hespanha
lograr vr realisado o seu ideal. E esta bazilica assombrosa ser, para
assim dizer, a ultima pagina do melancolico romance da rainha
Mercedes. A arte escrever a palavra final n'este grande poema que o
amor concebeu e que a saudade rociou de uma dce chuva de lagrimas.



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1.B.  "Project Gutenberg" is a registered trademark.  It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement.  There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement.  See
paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D.  The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work.  Copyright laws in most countries are in
a constant state of change.  If you are outside the United States, check
the laws of your country in addition to the terms of this agreement
before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
creating derivative works based on this work or any other Project
Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
the copyright status of any work in any country outside the United
States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
copied or distributed:

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org

1.E.2.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
and distributed to anyone in the United States without paying any fees
or charges.  If you are redistributing or providing access to a work
with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
1.E.9.

1.E.3.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
terms imposed by the copyright holder.  Additional terms will be linked
to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
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1.E.4.  Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
License terms from this work, or any files containing a part of this
work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.

1.E.5.  Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
electronic work, or any part of this electronic work, without
prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
active links or immediate access to the full terms of the Project
Gutenberg-tm License.

1.E.6.  You may convert to and distribute this work in any binary,
compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
word processing or hypertext form.  However, if you provide access to or
distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
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posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
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request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
form.  Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7.  Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
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unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

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that

- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
     the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
     you already use to calculate your applicable taxes.  The fee is
     owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
     has agreed to donate royalties under this paragraph to the
     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
     must be paid within 60 days following each date on which you
     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
     address specified in Section 4, "Information about donations to
     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
your equipment.

1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.gutenberg.org/fundraising/pglaf.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://www.gutenberg.org/about/contact

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org

Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://www.gutenberg.org/fundraising/donate

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit:
http://www.gutenberg.org/fundraising/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.

Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.

Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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