The Project Gutenberg EBook of Memorias de Jos Garibaldi, volume I, by 
Giuseppe Garibaldi

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Title: Memorias de Jos Garibaldi, volume I
       Traduzidas do manuscripto original por Alexandre Dumas

Author: Giuseppe Garibaldi

Translator: Alexandre Dumas

Release Date: August 18, 2016 [EBook #52847]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIAS DE JOSE GARIBALDI, VOL 1 ***




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                               MEMORIAS

                                  DE

                            JOS GARIBALDI

                  TRADUZIDAS DO MANUSCRIPTO ORIGINAL

                                  POR

                            ALEXANDRE DUMAS


                       VOLUME I.--SEGUNDA EDIO


                             LISBOA--1860
                           EDICTOR A. P. C.
                             CHIADO, 83-85




                       [Ilustrao: GARIBALDI.]




                         MEMORIAS DE GARIBALDI




                                PROLOGO


Como todo o presente tem ligao com o passado  impossivel comear
qualquer narrao, ainda que seja a historia de um homem ou de um
successo, sem lanar os olhos para esse mesmo passado.

Obrigados pelo caracter aventureiro do homem de que comeamos hoje a
publicar as memorias, seremos muitas vezes forados a ir ao Piemonte,
patria de Garibaldi. Os homens de aco politica, quando pertencem
ao progresso, teem momentos de desalento, nos quaes como Anteo tem
necessidade para recobrar novas foras de tocar n'essa terra patria
que Bruto na sua fingida loucura beijava como a me commum.  pois mui
importante fazer um estudo rapido dos acontecimentos que tiveram logar
no Piemonte de 1820 a 1834, poca em que comea esta historia.

As guerras da republica e as invases do imperio tinham trazido 
Sardenha dous homens que haviam partido para o exilio ainda jovens e
voltavam velhos; eram dois irmos, nos quaes terminava a posteridade
masculina dos duques de Saboia: fallamos de Victor Manuel I e Carlos
Felix.

Ambos reinaram.

O ramo mais novo da familia Saboia era representado pelo principe
de Carignan, que em 1823 fez como granadeiro do exercito francez a
campanha de Hespanha, tendo-se distinguido principalmente no Trocadro.

Em 1840 n'uma audiencia que me concedeu mostrou-me o seu sabre de
granadeiro, e as dragonas de l encarnada que conservava como reliquias
da mocidade.

Victor Manuel I subindo ao throno, que provavelmente no lhe fora dado
seno com esta condio, havia promettido aos soberanos seus alliados,
o no fazer ao seu povo, fossem quaes fossem as circunstancias, em que
se encontrasse a mais pequena concesso.

Mas o que era facil de prometter em 1815, era difficil de cumprir em
1821.

Desde 1820 os carbonarios haviam-se espalhado em toda a Italia. Em um
livro que  mais uma historia do que um romance, no _Jos Balsamo_
dissemos as origens do illuminismo e da franc-maonaria.

Estes dois temiveis inimigos da realeza de que a divisa era L. P.
D. (_Lilia Pedibus Destrue_) tiveram uma grande parte na revoluo
franceza. Swedenborg, de quem os adeptos assassinaram Gustavo III,
era mago. Quasi todos os jacobinos e grande numero de _cordeliers_
eram maons, Philippe-Egalit era do grande oriente. Napoleo tomou a
maonaria debaixo da sua proteco, mas protegendo-a, desvirtuou-a,
desviando-a dos seus fins, torcendo-a  sua conveniencia e fazendo
d'ella um instrumento de despotismo. No foi esta a unica vez que se
forjaram cadeias com espadas.

Jos Napoleo foi gro-mestre da ordem, o archi-chanceller Cambacres
gro-mestre adjunto. A imperatriz Josephina estando em Strasbourg em
1805, presidiu  festa da adopo da loja dos franc-maons de Paris.
Por este mesmo tempo Eugenio Beauharnais era veneravel honorario da
loja de Santo Eugenio de Paris, e tendo vindo mais tarde  Italia com a
dignidade de vice-rei, o Grande Oriente de Milo o nomeou gro-mestre
e soberano conservador do supremo conselho do gro XXXII, isto ,
concedeu-lhe a maior honra que segundo os estatutos da ordem se pde
dar.

Bernardotte era maon, seu filho o principe Oscar foi gro-mestre
da loja sueca. Em differentes lojas de Paris foram successivamente
iniciados: Alexandre, duque de Wurtemberg, o principe Bernardo de
Saxe-Weimar, e at o embaixador persa Askeri-Khan. O presidente do
senado, conde de Lacpde presidia ao grande Oriente de Frana de que
eram officiaes os generaes Kellermann, Massena, Soult, os principes,
os ministros e os marechaes, os officiaes, os magistrados, emfim todos
os homens notaveis pela sua gloria ou consideraveis pela sua posio
ambicionavam a honra de serem maons. As proprias mulheres quizeram
ter as suas lojas maonicas, nas quaes entraram M.mes de Vaudemont,
de Carignan, de Girardin, de Bosi, de Narbonne, e muitas outras
pertencentes  alta aristocracia franceza. Uma unica foi recebida, no
com o titulo de irm, mas com o de irmo: foi a celebre Xaintrailles, a
quem o primeiro consul tinha dado a patente de chefe de esquadro.[1]
Mas no era s em Frana que n'essa poca florescia a maonaria.

  [1] Giuseppe La Farina, Storia d'Italia.

O rei da Suecia, em 1811 instituiu a ordem civil da maonaria.
Frederico Guilherme III da Prussia tinha, pelos fins do mez de julho
de 1800 approvado a constituio da grande loja de Berlin. O principe
de Galles no cessou de governar a ordem em Inglaterra, seno quando
em 1813 foi nomeado regente. Emfim no mez de fevereiro 1814, o rei da
Hollanda, Frederico Guilherme, declarou-se protector da maonaria,
e permittiu que o principe real, seu filho acceitasse o titulo de
veneravel honorario da loja de Guilherme Frederico de Amsterdam.

Depois da volta dos Bourbons  Frana o marechal Bournonville pediu a
Luiz XVIII para collocar a maonaria debaixo da proteco d'uma pessoa
da familia real; mas como Luiz XVIII era dotado de excellente memoria,
e no havia esquecido a parte que ella tinha tomado na catastrophe de
1793 recusou, dizendo que nunca consentiria que membro algum da familia
real, formasse parte de qualquer sociedade secreta fosse ella qual
fosse.

Na Italia a maonaria cahiu com o dominio francez, mas em seu logar
vieram os carbonarios, que mostravam querer continuar o seu pensamento
libertador.

Duas outras seitas appareceram ao mesmo tempo.

Uma que se chamava a Congregao catholica apostolica romana, e a outra
a Consistorial.

Os socios da Congregao tinham, como signal de reconhecimento, um
cordelinho de seda amarella com cinco ns. Os pertencentes aos gros
inferiores no fallavam seno de actos de piedade e benificencia. Dos
segredos da seita, conhecidos unicamente pelos altos dignatarios, s se
podia fallar quando se achavam presentes dois associados; se por acaso
um terceiro chegava, a conversao cessava immediatamente. A palavra de
passe dos confrades era _leutheria_, isto , _liberdade_, a palavra
secreta era _ode_, isto , _independencia_.

Esta seita creada em Frana, entre os neo-catholicos, e a que
pertenceram muitos dos nossos melhores e mais constantes republicanos,
tinha atravessado os Alpes, chegado ao Piemonte e de l  Lombardia.
Mas aqui foram infelizes, pois obtiveram poucos adeptos, no tardando
muito a extinguir-se, tendo os agentes de policia alcanado em Genova
os diplomas que se entregavam aos adeptos assim como os estatutos e
signaes de reconhecimento.

A consistorial era dirigida principalmente contra os austriacos.  sua
frente se achavam os principaes principes da Italia que no pertenciam
 casa de Kabsbourg e era presidida pelo cardeal Gonsalvi. O unico
principe que no foi excluido foi o duque de Modena. Logo que esta
liga foi conhecida comearam as terriveis perseguies d'este principe
contra os patriotas.  que elle queria obter da Austria o perdo da
sua desero, sendo necessario o sangue de Menotti seu companheiro na
conspirao para o alcanar.

Os consistoriaes queriam tirar a Italia a Francisco II e dividil-a
entre si.

Alm de Roma e da Romania que elle guardava, o papa adquiria a Toscana.
A ilha de Elba e as Marchs passavam para o poder do rei de Napoles;
Parma, Pelazainge, e uma parte da Lombardia, com o titulo de rei ao
duque de Modena; Massa, Carrara, e Luca ao rei da Sardenha. Emfim o
imperador Alexandre da Russia que pela sua averso  Austria protegia
esta conspirao, ou recebia Ancona, Civita-Vecchia, ou Genova para
poder ter um estabelecimento no Mediterraneo. Por esta frma sem
se consultar a vontade dos povos nem as demarcaes territoriaes,
dispunha-se de uma grande poro de almas, negando-se-lhe esse direito
de escolha a que a ultima creatura nascida no solo europeo tem direito.

Por felicidade um unico de todos estes projectos, o dos carbonarios,
parecia emanado de Deus e quasi a realisar-se.

Os carbonarios em quem unicamente havia esperana augmentavam
consideravelmente nas Romanias. Haviam-se reunido  seita dos guelfos
que tinham a sua sde em Ancona, e se apoiavam nos bonapartistas.

Luciano tinha sido elevado  dignidade de gro-mestre da ordem. Nas
reunies secretas mostrava-se a necessidade de tirar aos padres o poder
que haviam alcanado; invocava-se o nome de Bruto e preparavam-se os
animos  revolta.

Em a noute de 24 de junho teve logar a revoluo, obtendo o funesto
resultado que todas as primeiras tentativas d'este genero costumam
alcanar. Toda a religio que deve ter apostolos, comea por ter
martyres. Cinco carbonarios foram fuzilados, outros condemnados s
gals perpetuamente, e alguns julgados menos culpados foram encerrados
por dez annos em uma fortaleza.

Ento a seita tornando-se mais prudente mudou de nome, comeando
a chamar-se a Sociedade Latina. Nesta occasio a mesma sociedade
conspirava na Lombardia, estendendo-se pelas outras provincias da
Italia. No meio d'um baile dado pelo conde Porgia em Rovigo o governo
austriaco fez prender muitas pessoas e declarou no dia seguinte
criminoso d'alta traio todo o individuo que se filiasse nas lojas dos
carbonarios.

Em Napoles foi aonde a rebellio appareceu com mais violencia. Cobetta
affirma na sua historia que o numero dos carbonarios era de 642:000 e
segundo um documento da chancellaria aulica de Vienna este numero ainda
est muito abaixo da verdade. Os carbonarios nas Duas Sicilias diz
este documento contam mais de 800:000 adeptos, e no havendo policia
nem vigilancia possivel para evitar tal alistamento seria loucura
tentar anniquilal-os.[2]

  [2] Storia Italia.--La Farina.

Ao mesmo tempo que a rebellio tinha logar em Napoles, Riego, outro
martyr que deixou um cantico de morte, tornado depois em cano de
victoria, levantava no 1. de janeiro de 1820 a bandeira da liberdade,
e um decreto de Fernando VII annunciou que tendo-se manifestado a
vontade do povo, estava prompto a jurar a constituio proclamada pelas
crtes geraes e extraordinarias de 1812.

As prises abrindo-se deram um ministerio  Hespanha.

Fernando I de Napoles na sua qualidade de principe de Hespanha, devia,
ficando rei absoluto, jurar obediencia  constituio hespanhola.
Teve ento logar uma grande rebellio na Calabria, em Capitanata e em
Palermo. O governo napolitano fraco, indeciso e desconfiado decretou
algumas refrmas insufficientes que no impediram o general Pepe
de fazer uma revoluo. Napoles teve ento como 1798, um governo
provisorio e uma camara de deputados.

Foi algum tempo depois que por sua vez rebentou a revoluo piemonteza.
Na manh de 10 de maro o capito conde Palma dando o grito de o rei e
a constituio hespanhola fez pegar em armas ao regimento de Genova.

No dia seguinte um governo provisorio estava estabelecido, e em nome do
reino de Italia declarava a guerra  Austria.

D'este modo a revoluo partindo d'Ancona tinha chegado a Napoles
voltando a Turim. Tres volces se tinham aberto na Italia sem contar a
Hespanha; agitando-se a Lombardia n'um triangulo de fogo.

O rei Victor Manuel havia promettido, como j dissemos,  santa
alliana no fazer ao seu povo nenhuma concesso.

No dia seguinte para ficar fiel  sua palavra, o rei Victor Manuel
abdicou em favor de seu irmo Carlos Felix que se achava ento em
Modena, e nomeou regente o principe de Carignan, que foi depois o rei
Carlos Alberto.

Para todos os patriotas esta abdicao de um rei dedicado aos italianos
em um principe dominado pela crte de Austria era uma grande desgraa.

Santa Rosa um dos primeiros promotores da rebellio diz:

    A noute de 13 de maro de 1821 foi bem fatal para minha
    patria. Foi n'essa noute que perdemos todas as nossas
    esperanas, foi n'essa noute que milhares de espadas erguidas
    para a defeza da patria se abaixaram. Com o rei Victor Manuel
    a patria estava no rei, ella se personalisava n'esse corao
    leal, e ns fazendo esta revoluo, diziamos: Coragem! O rei
    talvez um dia nos perdoe de o havermos feito senhor de seis
    milhes de italianos.

Com Carlos Felix succedia exactamente o contrario. Estavam outra vez
debaixo do jugo da Austria, e viam-se obrigados a comear de novo os
seus trabalhos.

Comtudo toda a esperana ainda no estava perdida.

No dia 14 de maro o principe de Carignan nomeado regente appareceu 
janella, e no meio dos vivas calorosos do povo proclamou a constituio
de Hespanha.

Como este facto devia ter no futuro grande importancia, como o principe
Carlos Alberto devia um dia desmentir o principe de Carignan, 
necessario no s citar o facto da constituio proclamada em alta voz,
mas tambem dar uma cpia do edital que foi affixado nos muros de Turim.

Eis a traduco fiel:

    Nas circumstancias difficeis em que nos achamos  necessario
    sahir fra dos limites que a nossa qualidade de regente nos
    impe. O nosso respeito e submisso a sua magestade Carlos
    Felix, actual soberano, devia-nos obstar a que fizessemos
    alguma alterao nas leis fundamentaes do estado, at que
    soubessemos as intenes do nosso novo soberano, mas como as
    circumstancias imperiosas porque passamos so conhecidas por
    todos, e como queremos entregar ao novo rei um povo socegado e
    feliz e no despedaado pela guerra civil, decidimos, ouvido
    o nosso conselho e na esperana de que sua magestade levado
    pelas mesmas consideraes, revistir a nossa deliberao da
    sua approvao soberana, que a constituio de Hespanha seja
    reconhecida como lei do estado, fazendo-se as alteraes que o
    rei e a representao nacional entenderem.

Eis o que os carbonarios tinham obtido cinco annos depois do seu
estabelecimento em Italia: uma constituio em Hespanha, outra em
Napoles, e outra no Piemonte.

Mas esta tendo sido a ultima em apparecer, foi a primeira a ser
destruida.

Em logar de voltar a Genova ou a Milo, em logar de approvar as
liberdades concedidas pelo principe de Carignan, o rei Carlos Felix
publicou no dia 3 de abril seguinte o edito que vamos ler:

    _Sendo o dever de todo o subdito fiel sujeitar-se da melhor
    vontade  ordem de cousas estabelecidas por Deus e pelo
    exercicio da soberana authoridade, declaro que emanando o nosso
    poder s de Deus, s a ns pertence escolher os meios que
    julgarmos mais convenientes para chegar a qualquer fim, e que
    em consequencia no teremos como subdito fiel aquelle que se
    atrever a murmurar contra as medidas que julgarmos necessario
    adoptar, ficando conhecidos s como vassallos fieis aquelles
    que se submetterem immediatamente, impondo esta submisso como
    condico para voltarmos aos nossos estados._

Ao mesmo tempo que o rei Carlos Felix publicava este edito modelo de
cegueira e asneira, nomeava uma commisso militar encarregada de tomar
conhecimento dos crimes de traio, rebellio e insubordinao que
tinham sido commettidos.

Felizmente os principaes criminosos, isto , aquelles de que os nomes
so hoje os mais gloriosos do Piemonte, haviam tomado a fuga.

A commisso nomeada por Carlos Felix no perdeu o tempo. Em cinco
mezes, cento e setenta e oito prisioneiros foram julgados. Setenta
e tres foram condemnados  morte e ao fisco, e os outros  priso
e gals. Dos condemnados  morte sessenta eram contumazes e foram
enforcados em effigie.

Julgamos conveniente dizer os nomes d'esses homens para que se conheam
aquelles que feriram esse poder estupidamente absoluto que desde
Tarquino no tem sabido abater seno as cabeas mais intelligentes e
elevadas.

Eram os tenentes Pavia e Ansaldi, o medico Ratazzi, o engenheiro
Appiani, o advogado Dossena, o advogado Lurri, o capito Baroni, o
conde Bianco, o coronel Regis, o major Santa-Rosa, o capito Lesio,
o coronel Caraglio, o major Collegno, o capito Radice, o coronel
Morozzo, o principe della Cisterna, o capito Ferraso, o capito
Pachiarotte, o advogado Marochetti, o segundo tenente Auzzano, e o
advogado Ravina.

Ao todo seis officiaes superiores, trinta officiaes subalternos,
cinco medicos, dez advogados, e um principe, todos notaveis pela
intelligencia e pelas qualidades moraes.

Dois tinham sido presos e executados.

Eram o tenente de carabineiros Joo Baptista Lanari e o capito Jacome
Garelli.

Um foi executado a 21 de julho, e o outro a 25 de agosto.

O principal criminoso era, sem duvida, Carlos Alberto, pois havia
proclamado a constituio, no como dizem os seus partidarios, _salvo a
approvao de Carlos Felix_, mais n'estes termos que esto mui longe de
serem reservados:

    _Nella fiducia che sua Maesta il re, nosso dl eistesse
    considerazioni_ SARA PER RIVESTIRE _questa deliberazione della
    sua socrasia approvazione, la constituzione di Spagna_ SARA
    PROMULGATA ET OSSERVATA COM LEGE DELLO STATO.

Por isso assim que o principe de Carignan recebeu a carta que lhe
participava a recusa do rei Carlos Felix, correu a Modena, mas o rei
recusou recebel-o e o duque mandou-o intimar para deixar os seus
estados.

O principe de Carignan retirou-se para Florena para o lado do gro
duque de Toscana.

Para Carlos Alberto no se tratava unicamente de um simples exilio, ou
d'um desvalimento momentaneo, mas sim da perda do throno do Piemonte.
Espalhou-se ento que Carlos Felix legava a cora ao duque de Modena, e
este que no a havia alcanado na conspirao dos principes italianos
contra a Austria, esperava esta vez realisar a sua ardente ambio.

O principe de Carignan disse ao conde de la Maison-Fort, nosso ministro
em Florena, qual era a sua posio, e este escreveu a Luiz XVIII
relatando-lhe tudo.

Eis um fragmento da carta d'este ministro:

    Para despojar o principe de Carignan da sua herana 
    necessario chamar ao throno a duqueza de Modena, filha mais
    velha do rei Victor Manuel. Esta facilidade em affastar a nobre
    casa da Saboia de um throno por ella creado, esta ingratido,
    exemplo do seculo em que vivemos, no pde ser partilhada
    pelo chefe de uma casa alliada com a Saboia dezoito vezes. A
    Frana pois no pde seguir esta politica, porque tem ao menos
    o direito de exigir a completa independencia do soberano que
    possue a chave da Italia.

Luiz XVIII foi de opinio do seu ministro, e escreveu ao principe
offerecendo-lhe um refugio na crte de Frana. A conducta de Luiz XVIII
era o mesmo que dizer--No tem cousa alguma a receiar, tomo-o debaixo
da minha proteco e no consentirei que outro seja rei do Piemonte.

E na verdade um rei que havia dado a carta ao seu povo, no podia
criminar um principe por ter promettido uma constituio que no havia
reconhecido.

Das tres constituies creadas pelos carbonarios, uma, a do Piemonte
tinha sido logo anniquilada pelo rei Carlos Felix; a de Napoles havia
sido destruida pela invaso austriaca, e a terceira, a unica existente
ia desapparecer com a invaso franceza.

Era, pois, necessario ao principe de Carignan que havia proclamado a
constituio hespanhola em Turim ir combater essa mesma constituio a
Madrid.

Na realidade era uma posio difficil para o principe, mas a cora do
Piemonte tinha muitos attractivos para elle se occupar de bagatellas.

O principe de Carignan occultou a vergonha debaixo da barretina de
granadeiro; fez a campanha de Hespanha e foi um dos vencedores de
Trocadro. D'esta sorte quando Carlos Felix falleceu, 27 de abril de
1851, o principe de Carignan subiu ao throno, com o nome de Carlos
Alberto, tendo a vencer poucas difficuldades. A Austria que antes
queria ver no throno o seu archi-duque de Modena, enfureceu-se
e apresentou aos reis Carlos Alberto como um carbonario, e aos
carbonarios como um traidor.

A Austria mentia.

Carlos Alberto no era carbonario: a proclamao em que concedia a
constituio mostrava que a dava contra sua vontade.

Carlos Alberto no era um traidor, era um principe que ambicionando o
titulo de rei, no havia feito compromissos pessoaes. A vergonha de ir
abolir  Hespanha a constituio que tinha proclamado em Turim, tinha
desapparecido pela coragem do granadeiro: o soldado havia absolvido o
principe.

D'esta sorte a sua acclamao foi saudada com alegria pelos patriotas
italianos.

Del Pozzo escreveu-lhe de Londres aonde se achava refugiado:

    Os meios termos e as medidas incompletas na politica
    no servem para cousa alguma: o Piemonte quer um rei
    constitucional.

Outro patriota que guardou o incognito, escreveu-lhe de Marselha:

    Colloque-se  frente da nao, escreva na sua
    bandeira--_Unio, liberdade e independencia_--declare se
    vingador e interprete dos direitos populares, trate de
    regenerar a Italia, livre-a dos seus inimigos, e cuidando
    no futuro d o seu nome a um seculo, e seja o Napoleo da
    liberdade italiana.

    Atire  Austria com a luva o nome da Italia, e estou certo que
    com este escudo far prodigios. Appelle para tudo o que ha de
    grande e generoso na Peninsula. Uma mocidade ardente e corajosa
    impellida pelas duas paixes que fazem os heroes, o odio e a
    gloria, vive ha muito tempo com um s pensamento, e o seu mais
    ardente desejo  realisal-o.

    Chame essa mocidade s armas, ponha as cidades e fortalezas
    debaixo da guarda dos cidados, e livre por este modo de todo
    e qualquer cuidado que no seja o vencer, reuna em volta de si
    todos aquelles que sendo notaveis pela intelligencia e pelo
    valor estejam isemptos de paixes infames. Inspire confiana
    ao povo, dissipe todas as duvidas sobre as suas intenes,
    chamando para o seu lado os homens livres. Senhor, digo-lhe a
    verdade: os verdadeiros patriotas ho-de avalial-o pelas suas
    aces, mas sejam ellas quaes forem, esteja seguro de que a
    posteridade ver em V. M. o primeiro dos homens ou o ultimo dos
    tyrannos.

    Escolha.

O que na realidade torna os reis os escolhidos do Senhor  que s
a elles se escrevem similhantes cartas. Se Carlos Alberto tivesse
seguido os conselhos do seu mysterioso correspondente, teria sem duvida
comeado por Goita, mas talvez no tivesse finalisado por Novara.

Carlos Alberto despresou estes conselhos, e em logar de entrar no largo
caminho que se lhe apresentava, metteu-se em uma estrada tortuosa
d'onde poucos teem saido incolumes.

Desde este momento o divorcio foi declarado entre o rei da Sardenha e
a joven Italia. A joven Italia! Foi por esta epocha que pela primeira
vez se pronunciaram estas tres palavras. De que se compunha ella ento?
De Jos Mazzini o infatigavel promotor da unio italiana. Jos Mazzini
apenas conhecido n'esta epocha por algumas publicaes politicas
vendo-se perseguido pela policia havia-se refugiado em Marselha aonde
collocava a primeira pedra da sua grande empreza enviando com milhares
de difficuldades para o Piemonte os exemplares da sua _Joven Italia_.

A nobreza e o clero piemontez que se haviam apoderado do espirito de
Carlos Alberto, comearam a receiar pelo seu poder. Havia dois annos
que se tinham estabelecido na crte, e por isso conheciam qual elle
era. Desconfiavam da politica duvidosa de Carlos Alberto, e tinham medo
que um dia lhe apparecesse, no alguma sombra de liberdade, mas sim uma
ida ambiciosa. Sabiam que Carlos Alberto n'essas noites de febre, como
s os reis teem, sonhava com o throno da Italia.

Para alcanar esse throno seria necessario coadjuvar a revoluo. O
throno de Italia no estava  disposio dos reis, mas sim do povo.

Era necessario collocar uma barreira entre elle e os patriotas.

Um dia alguem disse:

 tempo de lhe fazer derramar algum sangue.

No mesmo dia Carlos Alberto foi prevenido de que no exercito uma grande
conspirao se tramava com o fim de lhe tirar o throno.

Os factos foram desnaturados, os perigos exagerados. Attacaram todas as
fibras do homem e do principe para lhe dar esse ressentimento mortal de
que tinham necessidade esses homens que se intitulam os salvadores das
monarchias.

Uma commisso criminal extraordinaria foi creada em Turim para dirigir
todos os supplicios que tivessem logar no Piemonte.

Esta commisso decidiu que todos os accusados militares ou paisanos
seriam sentenciados por ella. Foi a primeira violao do codigo penal.

Por esta occasio  que se deu o facto memoravel que vamos relatar.

Um official que se assentava como juiz no conselho de investigao
fez algumas perguntas sobre principios de direito criminal a um
jurisconsulto. Este respondeu-lhe que a primeira base de toda e
qualquer lei, que a primeira regra de todo o codigo era:

    Que um conselho de investigao militar se devia declarar
    incompetente para julgar cidados.

--Isso  impossivel, disse o official, porque o general ordenou que nos
declarassemos competentes.

D'esta vez a base da lei, a regra do codigo foi a ordem do general.

O primeiro que manchou com o seu sangue o manto do novo rei, foi o cabo
Tamburelli, que foi fuzilado pelas costas, por haver commettido o crime
de lr aos seus soldados a _Joven Italia_. O segundo foi o tenente
Tolla culpado por ter tido em seu poder livros sediciosos, e conhecendo
o author no o haver denunciado. Como Tamburelli foi fuzilado pelas
costas. Era uma engenhosa inveno da magistratura piemonteza para
assemelhar o supplicio do fuzilado ao da forca.

J no era sufficiente matar, era preciso tambem deshonrar. A de 15 de
Junho foram to bem fuzillados _pelas costas_ o sargento Miglio, Jos
Deglia e Antonio Gaortti.

Todos morreram com uma coragem admiravel.

Jacopo Rufini estava encerrado nas prises da torre de Genova. Tentavam
tirar-lhe as foras por todos os meios possiveis: falto de comida e de
somno, sentia que se enfraquecia, no s physicamente, mas moralmente,
por isso resolveu no esperar que o collocassem entre a morte e a
vergonha, e receiando que chegado esse momento no tivesse foras
para escapar  morte, arrancou uma lana de ferro da porta da priso,
afiou-a e degolou-se com ella.

Nas agonias da morte teve foras sufficientes para escrever na muralha
com letras de sangue:

    Lego  Italia a minha vingana.

Quando no dia seguinte entraram na priso acharam-n'o morto.

Em Genova foram fuzilados Luciano Placenzo e Luiz Turfo.

Em Alexandria Domingos Ferrari, Jos Menardi, Jos Rigano, Assani
Costa, Giovanni Marini e depois Andrea Vochieri.

Escreveremos algumas linhas sobre Andrea Vochieri, assim como fizemos
de Jacopo Rufini.

Um condemnado d'Alexandria que escapou s torturas de Fenestrelle,
deixou nas suas memorias a narrao da agonia de Andrea Vochieri:

    Tiraram-me, diz elle, fallando de si, os meus livros que
    se compunham de uma Biblia, de um livro de oraes e de uma
    Historia dos Capuchos illustres do Piemonte. Depois pozeram-me
    ferros aos ps e conduziram-me a outra priso mais humida mais
    escura e mais sordida que primeira. As janellas tinham duas
    ordens de grades e as portas cadas dobradas. Esta priso
    era proxima da do pobre Vochieri. Alguns buracos na parede
    permittiam-me ver tudo quanto ali se passava.

    Estava deitado em um miseravel banco com ferros aos ps, dois
    guardas collocados ao lado com a espada na, e uma sentinella
    armada com uma espingarda se achava  porta. Reinava n'este
    medonho carcere um silencio sepulchral e os soldados pareciam
    mais consternados do que o proprio prisioneiro. Dois frades
    capuchos vinham com curtos intervallos vel-o e exhortal-o.

    Apesar da grande dr que sentia em vr aquelle martyr em
    similhante estado no podia deixar de o contemplar a todos os
    momentos. No fim de oito dias vieram buscal-o para o conduzir 
    morte.

O que este prisioneiro no relata porque no o sabia,  que Vochieri
foi levado ao supplicio pelo caminho mais longo, sendo obrigado a
passar por defronte da casa aonde habitava sua irm, sua esposa e seus
filhos. Esperavam que vendo tudo o que elle tinha de mais cara no mundo
perdesse a coragem e fizesse algumas revelaes.

Vochieri sorriu tristemente:

--Esqueceram, disse elle, que ha no mundo uma coisa que adoro mais do
que esposa, irm e filhos...  a Italia. Viva a Italia!

Voltando-se ento para os guardas que o iam fuzilar, e que eram
condemnados das gals em logar de soldados, disse esta unica palavra:

--Vamos!

Quinze minutos depois cahia atravessado por seis ballas.

Havia n'essa poca em Niza um mancebo de vinte e seis annos que vendo
correr este sangue fazia comsigo mesmo o juramento de consagrar toda a
sua vida ao culto d'essa liberdade pela qual morriam tantos martyres.

Esse mancebo era GARIBALDI.

                                                     =ALEXANDRE DUMAS.=




                         MEMORIAS DE GARIBALDI

                                   I

                               MEUS PAES


Nasci em Niza, a 22 de julho de 1807, no s na casa, mas no proprio
quarto em que nasceu Massna. O illustre marechal era, como ninguem
ignora, filho de um padeiro. Nas lojas d'aquelle predio ainda hoje se
conserva uma padaria.

Antes de fallar a meu respeito seja-me permittido dizer duas palavras
de meus estimados paes de que o excellente caracter e profunda ternura
tanta influencia tiveram na minha educao e disposies physicas.

Meu pae, Domingos Garibaldi, natural de Chiavari, era como meu av
maritimo. Vindo ao mundo o primeiro objecto que seus olhos viram foi o
mar, e era no mar que devia passar quasi toda a sua vida. Estava bem
longe de possuir os conhecimentos que so o apanagio dos homens da sua
classe, e principalmente do nosso seculo. No havia formado a sua
educao em uma escla especial, mas sim nos navios de meu av.

Mais tarde capitaneou uma embarcao com grande felicidade. Soffreu
immensos incidentes uns felizes, outros desgraados, e muitas vezes
ouvi dizer que nos poderia ter deixado mais bens de fortuna do que nos
legou.

Mas que importa isso! Meu pobre pae era livre de gastar como
intendesse um dinheiro to laboriosamente ganho, e eu no lhe sou
menos reconhecido por esse facto. De mais ha uma coisa, de que estou
intimamente convencido e , de que todo o dinheiro que dispendeu n'este
mundo o que gastou com a minha educao foi o que com mais prazer san
das suas algibeiras apesar dos grandes sacrificios que para isso era
obrigado a fazer.

No julguem por isto que a minha educao foi aristocratica. Meu
pae no me mandou ensinar gymnastica, jogo d'armas ou equitao. A
gymnastica apprendi-a trepando pelos cabos dos navios, e deixando-me
escorregar pelas enxarcias; a esgrima defendendo a minha cabea e
tentando o melhor que podia quebrar a dos outros, e a equitao tomando
os exemplos dos primeiros cavalleiros do mundo, isto , dos Gauchos.

O unico exercicio corporal da minha mocidade, para o qual tambem no
tive mestre, foi a natao. No me lembro quando, e como aprendi a
nadar, mas julgo que sempre o soube, pois desconfio que nasci amphibio.
Assim no obstante o pouco prazer que tenho em me prodigalisar elogios,
como sabem todos aquelles que me conhecem, no posso deixar de dizer
que, sou um dos melhores nadadores existentes. Sendo conhecida a
confiana que tenho em mim  escuzado dizer que nunca hesitei em me
atirar  agua quando era necessario salvar um dos similhantes.

Entretanto se meu pae no me mandou ensinar todos estes exercicios a
culpa no foi sua, mas sim da epocha calamitosa porque atravessavamos.
N'estes tempos desgraados o clero era o senhor absoluto do Piemonte,
e todos os seus esforos eram tornar os mancebos em frades inuteis e
mandries em logar de cidados aptos para servirem a nossa desgraada
patria. O amor profundo que me consagrava meu pobre pae, at lhe fazia
receiar que se eu recebesse alguma instruco, isso me fosse funesto
para o futuro.

Rosa Raymundo, minha me, era, digo-o com bastante orgulho, o modelo
das mulheres. Todo o bom filho deve dizer o mesmo de sua me, mas
nenhum o dir com mais justia do que eu.

Um dos remorsos de toda a minha vida, talvez o maior, foi e ser o
ter tornado desgraados os seus ultimos dias! S Deus sabe quanto ella
soffreu com a minha vida aventureira, porque s Deus sabe o immenso
amor que minha me me consagrava. Se em mim existe algum sentimento
bom, confesso-o, e com bastante ufania,  a ella a quem o devo. O seu
caracter angelico devia forosamente deixar-me alguns vestigios. No
ser  sua piedade pelos desgraados,  sua compaixo pelos infelizes,
que eu devo este amor pela patria, amor que me mereceu a affeio e
sympathia dos meus compatriotas?

No sou supersticioso, mas devo dizer que nas circumstancias mais
criticas da minha vida, quando o oceano rugindo erguia o meu navio como
um pedao de cortia, quando as bombas assobiavam a meus ouvidos como
o vento da tempestade, quando as ballas cahiam em volta de mim como a
saraiva, via sempre minha pobre me ajoelhada aos ps do SENHOR orando
pelo filho das suas entranhas. Se algumas vezes mostrei uma coragem
de que muitos se admiraram,  porque estava convencido de que no me
succederia desgraa alguma quando to santa mulher, quando similhante
anjo orava por mim.




                                  II

                        OS MEUS PRIMEIROS ANNOS


Os primeiros annos da minha mocidade foram passados, como so os de
todas as creanas, isto , rindo e chorando sem saber porque, estimando
mais o prazer que o trabalho, os divertimentos que o estudo, e no
aproveitando, como devia ter feito, os sacrificios que meus paes faziam
por meu respeito. Cousa alguma extraordinaria aconteceu durante a minha
infancia. Tinha um excellente corao, sendo este um bem emanado de
Deus e de minha me. Escusado  dizer que os impulsos d'esse corao
eram por mim immediatamente satisfeitos. Tive sempre grande compaixo
por tudo o que era fraco e soffredor. Esta compaixo estendia-se
at aos animaes, ou antes comeava por elles. Lembra-me de que um
dia apanhei um grillo e que levando-o para o meu quarto, ahi passei
alguns momentos brincando com elle, at que com essa inepcia ou antes
brutalidade da infancia lhe arranquei uma perna: a minha dr foi tal,
que passei muitas horas encerrado no meu quarto chorando amargamente.

Outra vez indo a Var  caa com um primo meu, parei ao p d'um profundo
fosso aonde as lavadeiras costumavam lavar a roupa e aonde n'aquelle
momento se achava uma pobre mulher lavando a sua. No sei como, mas
esta desgraada caiu no fosso. Apesar de ser mui novo--tinha ento oito
annos--atirei-me  agua conseguindo salval-a. Conto este caso para
provar quanto  natural em mim um sentimento que me leva a soccorrer o
meu similhante, e para se conhecer o pouco valor que tem o fazel-o.

Entre os professores que tive n'esta epocha da minha vida, contam-se o
padre Giovanni e o senhor Arene, a quem eu conservo um reconhecimento
particular.

Com o primeiro aproveitei pouco, porque, como j disse, tinha mais
disposio para brincar e vadear, do que para trabalhar. Resta-me
sobre tudo o pesar de no haver estudado o inglez, como o teria podido
fazer, porque sendo o padre Giovanni de casa e quasi de familia, as
suas lies resentiam-se da muita familiaridade que entre ns existia.
Todas as vezes que sou obrigado a tractar com inglezes, que no so
poucas, este sentimento renova-se sempre. Ao segundo, optimo professor,
 a quem devo o pouco que sei, mas o que mais lhe agradeo, e porque
lhe serei eternamente grato,  haver-me ensinado a minha lingua materna
pela constante leitura da historia romana.

A grave falta de no ensinar s creanas a lingua e historia patria 
frequentemente commettida em Italia, e principalmente em Niza, onde
a proximidade de Frana influe muitissimo na educao.  pois a esta
primeira leitura da nossa historia, e  persistencia com que meu irmo
mais velho, Angelo, me recommendava o seu estudo, que eu devo o pouco
que sei da sciencia historica e a facilidade de exprimir os meus
pensamentos.

Termino este primeiro periodo da minha juventude narrando um facto que,
apezar da sua pouca importancia dar uma ida da minha disposio para
a vida aventureira.

Fatigado de estudar, e soffrendo muito pela vida sedentaria que era
obrigado a levar, propuz um dia a alguns dos meus companheiros que
fugissemos para Genova. A proposta foi logo approvada e desatando um
barco de pesca fizemo-nos de vla para o Oriente. Estavamos nas alturas
de Monaco quando um pirata, mandado por meu excellente pae nos apanhou
e entregou cheios de vergonha s nossas familias. Um abbade que nos
havia visto foi o denunciante. D'este facto  que provavelmente vem as
poucas sympathias que sinto pelos abbades.

Os meus companheiros n'esta aventura eram, se bem me recordo, Csar
Parodi, Rafael de Andreis e Celestino Dermond.




                                  III

                      AS MINHAS PRIMEIRAS VIAGENS


Oh! primavera, juventude do anno. Oh! juventude, primavera da vida!
disse Metastasio, eu ajuntarei: Como tudo se aformosea ao sol da
juventude e da primavera!

Foi illuminado por esse bello sol que tu linda _Constanza_, primeiro
navio em que sulquei os mares, me appareceste. Os teus robustos
flancos, a tua elevada e ligeira mastreao, a tua espaosa coberta,
e at o busto de mulher que se patenteava soberbo na tua pra,
ficaro eternamente gravados na minha ida! Como os teus marinheiros,
verdadeiros typos dos nossos Ligurios, se inclinavam graciosamente sob
os remos!

Com que alegria me dependurava na amurada para ouvir as suas canes
populares.

Cantavam canes de amor; ninguem ento lhe ensinava outras, e estas
por mais insignificantes que fossem, enterneciam-me e arrebatavam-me.
Se esses cantos tivessem sido pela patria, talvez me enlouquecessem!
Quem lhe diria ento que havia uma Italia? Quem lhe diria que tinhamos
uma patria a vingar e a tornar livre?

Ninguem!

Fomos educados e crescemos como judeus, isto , na crena de que a vida
no tem seno um fim--fazer fortuna.

Em quanto olhava alegre para o navio em que ia embarcar, minha me
preparava, chorando, a minha bagagem.

A minha vocao era a vida aventureira do mar. Meu pae fez todo o
possivel para me tirar similhante ida, a sua vontade era que eu
seguisse, uma carreira pacifica e sem perigos; que fosse padre,
advogado ou medico. Mas a minha persistencia o fez desistir, e o seu
amor cedeu  minha juvenil obstinao. Embarquei ento na _Constanza_
de que era capito Angelo Pesante o mais atrevido maritimo que tenho
conhecido. Se a nossa marinha tivesse tomado as propores que se
podiam esperar, o capito Pesante teria direito ao commando de um dos
nossos navios de guerra, e ninguem o teria excedido. Pesante nunca
commandou uma esquadra, mas que se dirijam a elle, e em breve tempo
j ter arranjado uma, desde as barcas at s naus de tres pontos. Se
elle algum dia obtivesse uma tal commisso, posso assegurar que haveria
proveito e gloria para a patria.

Fiz a minha primeira viagem a Odessa. Estas viagens tornaram-se depois
to communs e faceis que  inutil descrevel-as.

A minha segunda viagem foi a Roma, mas na companhia de meu pae que
tendo na minha primeira ausencia soffrido mortaes inquietaes,
se tinha resolvido visto eu no querer ceder da minha teima, a
acompanhar-me.

Fizemos a viagem na sua tartana a _Santa Reparata_.

A Roma! Com que alegria eu partia! J disse como pelos conselhos de
meu irmo e pelos cuidados do meu digno professor havia estudado,
a historia romana. Roma era para mim, admirador da antiguidade, a
capital do mundo.  verdade que se achava destruida, mas as suas
ruinas eram immensas, gigantescas e d'ellas sae a memoria de tudo
quanto  bello e grandioso. Roma foi no s a capital do mundo, mas
o bero d'essa religio santa que quebrou a cada dos escravos, que
ennobreceu a humanidade, d'essa religio de que os primeiros apostolos
foram os instituidores das naes, os emancipadores dos povos, mas
de que infelizmente os successores degenerados teem sido o flagello
da Italia, vendendo sua me, ou antes nossa me, aos estrangeiros!
No! no! a Roma que eu via nos sonhos da minha mocidade no era s
a Roma do passado, mas tambem a do futuro, abrigando em seu seio a
ida regeneradora de um povo perseguido pela inveja das outras naes,
porque nasceu grande e porque tem sempre marchado  frente dos povos,
guiados por ella  civilisao.

Roma! quando penso na sua desgraa, no seu abatimento, no seu martyrio,
parece-me superior a todo o mundo. Amava-a com todas as foras da
minha alma, no s nos combates soberbos da sua grandeza durante tres
seculos; mas at nos mais pequenos successos que eu recolhia no meu
corao como um precioso deposito.

O meu amor em logar de diminuir, tem augmentado com o desterro. Muitas
vezes, no outro lado dos mares, a tres mil leguas de distancia, pedia
ao SENHOR como uma graa especial o tornar a vl-a. Finalmente, Roma
era para mim a Italia, porque eu no vejo a Italia seno na reunio dos
seus membros dispersos, e Roma  para mim o symbolo da unidade italiana.




                                  IV

                     AS MINHAS PRIMEIRAS AVENTURAS


Durante algum tempo naveguei na companhia de meu pae; depois fui a
Cagliari no bergantim _Etna_, de que era capito Jos Gervino.

N'esta viagem presenciei uma horrivel catastrophe que me deixou
uma eterna recordao. Vindo de Cagliari, na altura do cabo Noli,
navegavamos na companhia de alguns navios, entre os quaes se achava
uma encantadora falua catal. Depois de gosarmos dois ou tres dias de
um bello tempo, comemos a sentir algumas rajadas d'esse vento a que
os nossos marinheiros chamam _Libieno_, por que antes de chegar ao
Mediterraneo passa pelo deserto de Lybia. Impellido por elle o mar no
tardou a enfurecer-se, e to furiosamente que nos arrastou para Vado.

A falua de que j fallei sustentou-se admiravelmente no comeo da
tormenta, e no duvido dizer que todos ns receiando que a tempestade
augmentasse, desejavamos antes estar a bordo da falua, do que dos
nossos navios. Infelizmente a desgraada embarcao estava destinada
a offerecer-nos um doloroso espectaculo: uma vaga horrivel a
cobriu, e em bem poucos instantes todos aquelles desgraados foram
submergidos. A catastrophe tinha logar  nossa direita, e por isso nos
era absolutamente impossivel soccorrel-os. Os outros navios que nos
acompanhavam tambem se achavam na mesma impossibilidade. Nove pessoas
da mesma familia morreram  nossa vista, sem lhe podermos prestar o
mais leve soccorro. Algumas lagrimas appareceram nos olhos dos mais
endurecidos dos nossos marinheiros, mas o perigo proprio era tal que
ellas bem depressa seccaram. A tempestade abrandou, como se estivesse
satisfeita por haver immolado estas victimas; e chegamos a Vado sem
incdente.

De Vado parti para Genova, e de Genova voltei a Niza.

Ento comecei uma serie de viagens ao Levante, durante as quaes fomos
tres vezes tomados e roubados pelos piratas. Duas vezes o fomos na
mesma viagem, o que tornou os segundos piratas mui furiosos, visto que
no nos encontravam cousa alguma para roubar. Foi n'estes ataques que
comecei a familiarisar-me com o perigo, e a vr que sem ser Nelson,
podia como elle perguntar:--O que  o medo?

Foi n'uma destas viagens, no bergantim _Cortese_, capito Barlasemeria,
que fiquei doente em Constantinopla. O navio foi obrigado a fazer-se
de vla, e prolongando-se a minha doena mais do que eu tinha julgado,
achei-me muito falto de recursos.

Como em todas as situaes desgraadas em que me tenho achado, sempre
encontrei alguma alma caridosa que me soccorresse, nunca pensei muito
na falta de dinheiro.

Entre essas almas caridosas encontrei uma que nunca esquecerei:  a
excellente senhora Luiza Sauvaigo, de Niza, que me fez convencer de que
as duas mulheres mais perfeitas do mundo, eram minha me e ella.

Luiza fazia a felicidade de um marido, excellente homem, e tratava com
uma admiravel intelligencia da educao de seus filhos.

Porque razo fallei agora de Luiza?  porque escrevendo para
satisfazer uma necessidade do corao, ella me dictou o que acabo de
lanar ao papel.

A guerra ento existente entre a Porta Ottomana e a Russia contribuiu
a prolongar a minha estada na capital do imperio turco. Durante este
tempo e ignorando ainda como poderia alcanar recursos para viver,
fui admittido como preceptor em casa da viuva Timoni. Este emprego
foi-me dado sob recommendao de M. Diego, doutor em medicina, e a
quem dou aqui um voto de agradecimento pelo servio que me prestou.
Estava, pois, preceptor de tres meninos. Assim fiquei muitos mezes,
at que a vontade de navegar vindo de novo, me embarquei no bergantim
_Notre-Dame-de-Grace_, de que tinha sido capito Casanova.

Foi este o primeiro navio em que embarquei como capito.

No fatigarei o leitor fallando nas minhas viagens, em que nada de
extraordinario me succedeu, direi unicamente que atormentado sempre por
um profundo patriotismo, nunca cessei de perguntar noticias sobre a
ressurreio de Italia, mas infelizmente at  edade de vinte e quatro
annos todo o trabalho foi inutil.

Emfim, n'uma viagem a Taganrog veiu a bordo do meu navio um patriota
italiano, que me deu algumas noticias sob a maneira porque marchavam os
negocios de Italia.

Havia alguma esperana para o nosso desgraado paiz.

Christovo Colombo, no foi mais feliz, quando perdido no meio do
Atlantico, e ameaado pelos seus companheiros a quem havia pedido s
tres dias, ouviu gritar: Terra, do que eu quando ouvi pronunciar a
palavra _patria_, e vi no horisonte o primeiro pharol preparado pela
revoluo franceza de 1830.

Havia ento homens que se occupavam da redempo da Italia!

Em outra viagem, transportei no _Clorinde_, a Constantinopla alguns
_Simoniacos_, conduzidos por Emilio Parrault.

Tinha ouvido fallar pouco na seita de Saint-Simon; sabia unicamente
que estes homens eram os apostolos perseguidos de uma nova religio.

Vendo em Parrault um patriota italiano, dei-lhe parte de todos os meus
pensamentos. Ento durante essas noutes transparentes do Oriente, que,
como diz Chateaubriand, no so as trevas, mas unicamente a ausencia
do dia, debaixo d'esse ceu marchetado de estrellas, sobre esse mar de
que a brisa parecia cheia de inspiraes generosas, discutimos, no s
as mesquinhas questes de nacionalidade nas quaes havia pensado muito,
questes restrictas  Italia, e a cada provincia--mas at a grande
questo da humanidade.

Este apostolo provou-me que o homem que defende a sua patria, ou que
ataca a dos outros,  no primeiro caso um soldado piedoso; injusto no
segundo,--mas o homem que tornando-se cosmopolita, adopta a todas por
patria e vae offerecer a sua espada e o seu sangue ao povo que lucta
contra a tyrannia,  mais que um soldado-- um heroe.

Teve ento logar no meu espirito uma mudana repentina. Pareceu-me vr
em um navio no o vehiculo encarregado de transportar mercadorias entre
os diversos paizes, mas o mensageiro do SENHOR. Havia partido avido
de emoes, e curioso por vr cousas novas, e a mim mesmo perguntava
se esta ida irresistivel que me perseguia no tinha horisontes mais
dilatados e por descobrir. Via esses horisontes atravez o longiquo vo
do futuro.




                                   V

                    OS ACONTECIMENTOS DE S. JULIO


O navio em que desta vez voltei do Oriente destinava-se a Marselha.

Chegando a esta cidade soube da revoluo suffocada no Piemonte e dos
fuzilamentos de Chambry, Alexandria e Genova.

Em Marselha travei relaes intimas com Covi, que me apresentou a
Mazzini.

Ento estava longe de suspeitar a grande communidade de principios
que um dia me uniria a Mazzini. Ninguem conhecia ainda o persistente
e obstinado pensador, que nem a propria ingratido tem feito desistir
da grande obra que emprehendeu. Quando soube da morte de Vocchieri,
Mazzini tinha dado um verdadeiro grito de guerra.

Escreveu na sua _Joven Italia_: Italianos,  tempo de nos juntarmos,
se queremos ficar dignos do nosso nome; e derramar o nosso sangue
amalgamando-o com o dos martyres piemontezes.

Mas em Frana, em 1833, no se diziam impunemente d'estas cousas. Algum
tempo depois de lhe haver sido apresentado, e de lhe ter dito que podia
contar comigo, Mazzini, o eterno proscripto, era obrigado a deixar a
Frana e a retirar-se a Genova.

N'esta occasio o partido republicano parecia completamente morto na
Frana. Era um anno apenas decorrido: estavamos a 5 de junho,--alguns
mezes depois do processo dos combatentes do claustro Saint-Merry.

Mazzini havia escolhido este momento para fazer uma nova tentativa.

Os patriotas tinham respondido que estavam promptos, mas pediam um
chefe.

Pensaram em Romarino, ainda coberto de louros por causa das suas luctas
na Polonia.

Mazzini no approvava esta escolha, o seu espirito activo e profundo
prevenia-o contra os grandes nomes; mas a maioria queria Romarino, e
ento Mazzini cedeu.

Chamado a Genova, Romarino acceitou o commando da expedio. Na
primeira conferencia com Mazzini foi convencionado que duas columnas
republicanas se deviam dirigir ao Piemonte, uma pela Saboia outra por
Genova.

Romarino recebeu quarenta mil francos para fazer face s primeiras
despezas, e partiu com um secretario de Mazzini que ia encarregado de o
vigiar.[3]

  [3] Estes successos que tinham logar em um ponto aonde no
  estava Garibaldi, so aqui referidos unicamente para explicao
  historica, sendo extrahidos de Angelo Brofferio.

Todos estes acontecimentos tiveram logar em setembro de 1833; a
expedio devia ter logar em outubro.

Mas Romarino conduziu tudo de tal modo que a expedio no estava
prompta seno em janeiro de 1834.

Mazzini no obstante todas as tergivergencias do general tinha-se
mostrado firme.

Em fim a 31 de janeiro, Ramorino collocado na ultima extremidade por
Mazzini reuniu-se a elle em Genova, com dois outros generaes e um
ajudante de campo.

A conferencia foi triste, e mal annunciada por pessimos agouros.
Mazzini propoz que se occupasse militarmente a villa de S. Julio, onde
se achavam reunidos os patriotas saboyanos e os republicanos francezes,
que haviam adherido ao movimento.

Era em S. Julio que se devia levantar o grito de rebellio.

Ramorino era da opinio de Mazzini. As duas columnas deviam pr-se
em marcha no mesmo dia: uma partiria de Caronge, e a outra de Nyon,
devendo esta atravessar o lago para se reunir  primeira na estrada de
S. Julio.

Ramorino ficava com o commando da primeira columna: a segunda estava
debaixo das ordens de Graboky.

O governo genovez receioso de se indispor, por um lado com a Frana,
por outro com o Piemonte, viu com maus olhos este movimento. Quiz
oppor-se  partida da columna de Caronge commandada por Romarino, mas o
povo sublevou-se, e o governo foi forado a deixal-a marchar.

No succedeu o mesmo com a que devia partir de Nyon.

Dous barcos se haviam feito de vla, levando um soldados, e o outro
armas.

Mandaram em sua perseguio um navio de guerra a vapor, que trouxe as
armas e aprisionou os soldados.

Ramorino no vendo chegar a tropa que se lhe devia juntar, em logar de
proseguir na sua marcha sobre S. Julio, comeou a costear o lago.

Muito tempo se passou sem saber aonde iam. No se conheciam as
intenes do general: o frio era intenso, e os caminhos estavam em um
estado deploravel.

Exceptuando alguns polacos, a columna era composta de voluntarios
italianos, impacientes pela hora do combate, mas que canavam
facilmente pela extenso e difficuldade do caminho.

A bandeira italiana atravessou algumas pobres villas, nenhuma voz
amiga a saudou, no encontrando por toda a parte seno curiosos ou
indifferentes.

Fatigado pelos seus largos trabalhos, Mazzini que tinha trocado a
penna pela espingarda, seguia a columna: soffrendo uma febre ardente,
arrastava-se por aquelles asperos caminhos com a dr escripta na fronte.

J por varias vezes tinha perguntado a Ramorino quaes eram as suas
intenes, e que caminho seguia.

As respostas do general nunca o haviam satisfeito.

Chegaram a Carra e detiveram-se para ahi passar a noite; Mazzini e
Ramorino achavam-se na mesma camara.

Ramorino estava embrulhado na sua capa; Mazzini fixava sobre elle o seu
olhar sombrio desconfiado.

--No  seguindo este caminho, disse elle com a sua voz sonora, tornada
mais vibrante pela febre, que temos a esperana de encontrar o inimigo.
Devemos ir ao seu encontro, e se a victoria  impossivel, provemos ao
menos  Italia que sabemos morrer.

--No nos faltar nem o tempo, nem a occasio, respondeu o general,
para affrontar perigos inuteis: considero como um crime o expr
inutilmente a flr da mocidade italiana.

--No ha religio sem martyres, respondeu Mazzini, fundemos a nossa,
ainda que seja com o nosso sangue.

Mal acabava de pronunciar estas palavras, que o estrondo da fuzilaria
se ouviu.

Ramorino deu um salto. Mazzini pegou n'uma carabina, agradecendo a Deus
o ter-lhe feito encontrar o inimigo. Mas este era o ultimo esforo da
sua energia: a febre devorava-o; os seus companheiros correndo de noite
pareciam-lhe fantasmas, a fronte escaldava-lhe, e a terra tremia-lhe
debaixo dos ps. Depois de alguns minutos de afflico cau desmaiado.

Quando voltou a si achou-se na Suissa, aonde os seus companheiros o
tinham conduzido com grande trabalho: a fuzilaria de Carra tinha sido
um rebate falso.

Ramorino declarou ento que tudo estava perdido: recusou-se a ir mais
longe e ordenou a retirada.

Durante este tempo uma columna de cem homens, da qual faziam parte
um certo numero de republicanos francezes, partiu para Grenoble, e
atravessou a fronteira da Saboya.

O perfeito francez preveniu as auctoridades sardas: os republicanos
foram attacados de noute e de improviso, ao p das grutas de Cobellos,
e dispersos depois d'um combate que durou uma hora.

N'este combate os soldados sardos fizeram dois prisioneiros. Angelo
Volantieri e Jos Borrel: conduzidos voluntariamente a Chamberg e
condemnados  morte, foram fuzilados na mesma terra aonde ainda estava
fumegante o sangue de Elfico Tolla.

Por este modo terminou aquella expedio.




                                  VI

                            O DEUS DOS BONS


Tinha tambem a minha parte a cumprir no movimento que devia ter tido
logar, e havia-a acceitado sem discutir.

Havia entrado no servio do estado como marinheiro de primeira classe
da fragata _Eurydice_. A minha misso era alcanar proselytos para a
nossa causa, e para conseguir este fim tinha feito tudo quanto me era
possivel.

Dado o caso que o nosso movimento tivesse bom resultado, devia com
os meus companheiros apoderar-me da fragata e pl-a  disposio dos
republicanos.

No havia querido, impellido pelo ardor que sentia, limitar-me a este
papel. Tinha ouvido dizer que um movimento teria logar em Genova,
devendo por esta occasio apoderarem-se do quartel dos gendarmes
situado na praa de Sarzana. Deixei aos meus companheiros o cuidado
de se assenhorearem do navio, e proximo da hora em que devia rebentar
a rebellio de Genova deitei uma cana ao mar e desembarquei na
alfandega, gastando poucos momentos a chegar  praa de Sarzana, onde,
como j disse, estava situado o quartel.

Esperei quasi uma hora, mas nenhum indicio de rebellio appareceu.
Bem depressa ouvi dizer que tudo estava perdido, havendo-se posto os
republicanos em fuga: dizendo-se tambem que varias prises haviam sido
feitas.

Como no me tinha engajado na marinha sarda seno para ajudar o
movimento republicano, julguei inutil voltar a bordo do _Eurydice_,
comeando a pensar nos meios de me pr em fuga.

No momento em que fazia estas reflexes, alguma tropa prevenida sem
duvida do projecto de nos apoderarmos do quartel, comeou a guarnecer a
praa.

Vi ento que no havia tempo a perder. Refugiei-me em casa de uma
vendedeira de fructa e confessei-lhe a situao em que me achava.

A excellente mulher no fez nenhuma reflexo e escondeu-me nos quartos
interiores do seu estabelecimento. No dia seguinte procurou-me um fato
completo de camponez, e pelas oito horas da noite sahi, como se andasse
passeando, de Genova pela porta da Lanterne, comeando ento essa vida
de exilio, luto e perseguio, que, segundo todas as probabilidades,
ainda no finalisou.

Estavamos a 5 de fevereiro de 1834.

Abandonando os caminhos batidos e trilhados dirigi-me por atalhos para
as montanhas. Tinha bastantes jardins que atravessar, e muitos muros
que saltar. Felizmente estava familiarisado com estes exercicios, e
depois de uma hora de gymnastica achava-me fra do ultimo jardim.

Encaminhado-me para Cassiopea, ganhei as montanhas de Sestri, e no fim
de dez dias, ou antes de dez noites; cheguei a Niza, dirigindo-me logo
a casa de minha tia, na praa da Victoria, a fim de que ella prevenindo
minha me lhe tirasse todos os cuidados.

Descancei um dia, e na noite seguinte parti acompanhado por dois
amigos, Jos Jaun, e Engelo Gostavini.

Chegados ao Var, achamol-o innundado pelas chuvas, mas para um nadador
como eu, no era isto um obstaculo. Atravessei-o metade a nado, metade
a vau.

Os meus dois amigos haviam ficado na outra margem. Disse-lhe adeus.

Estava salvo, ou quasi, como se vae vr.

N'esta esperana dirigi-me a um corpo de guardas da alfandega;
disse-lhe quem era, e qual o motivo porque havia deixado Genova.

Os guardas disseram-me que era seu prisioneiro, at nova ordem, e que a
iam mandar pedir a Paris.

Julgando que acharia facilmente occasio de fugir, no fiz nenhuma
resistencia, e deixei-me conduzir a Grasse, e de Grasse a Draguignan.

Em Draguignan metteram-me em um quarto do primeiro andar, cuja janella
sem grades, dava para um jardim.

Aproximei-me d'ella como se quizesse vr o jardim: da janella ao cho
havia a altura de quinze ps. Dei um salto, e em quanto os guardas,
menos ligeiros e estimando mais as pernas do que eu estimava as minhas,
saam pela escada; ganhei-lhe muita dianteira embrenhando-me nas
montanhas.

No conhecia o caminho, mas era marinheiro, e lendo no ceo, n'esse
grande livro, aonde estava habituado a lr, orientei-me e dirigi-me a
Marselha. No dia seguinte de tarde cheguei a uma villa de que nunca
soube o nome, porque nem tive tempo para o perguntar.

Entrei n'uma estalagem. Um mancebo e uma mulher ainda joven estavam 
mesa esperando pela ceia.

Pedi alguma cousa de comer: desde a vespera que no havia tomado nenhum
alimento.

O dono da hospedaria convidou-me para ceiar na sua companhia e de sua
mulher. Acceitei.

A comida era boa, o vinho do paiz agradavel, e o fogo excellente.
Senti ento um d'esses momentos de bem estar e felicidade, como s se
experimentam depois de se haver passado um perigo, e quando se julga
no haver mais nada a receiar.

O dono da hospedaria felicitou-me pelo meu bom appetite, e pelo meu
rosto alegre e prasenteiro.

Disse-lhe que o meu appetite no tinha nada de extraordinario,
porque no tinha comido havia dezoito horas e que o achar-me alegre
e satisfeito era por haver escapado talvez  morte no meu paiz--e em
Frana  priso.

Tendo-me adiantado tanto, no podia fazer segredo do resto. O
estalajadeiro e sua mulher pareciam-me to boas pessoas que lhe contei
tudo.

Ento, com grande espanto meu, o estalajadeiro ficou pensativo.

--Que tem? lhe perguntei.

-- que depois da confisso que acaba de fazer, respondeu elle, no
tenho remedio seno prendel-o.

Dei uma grande gargalhada porque no tomei este dito ao serio, e demais
se o fosse eramos um contra um, e no havia no mundo um unico homem
que eu temesse.

--Bem, disse eu, mas como julgo que no tem muita pressa, peo-lhe que
me deixe ceiar com todo o descano, pois temos muito tempo depois do
_dessert_. E continuei comendo sem mostrar a mais leve inquietao.

Infelizmente vi bem depressa que se o estalajadeiro tivesse necessidade
de ajudantes para realisar os seus projectos, esses ajudantes no lhe
faltavam.

A sua estalagem era o logar aonde toda a mocidade da villa se reunia s
noutes para beber, fumar, e fallar da politica.

A sociedade do costume comeava a reunir-se, e bem depressa estavam na
estalagem mais de doze mancebos, jogando as cartas, bebendo e fumando.

O estalajadeiro no tornou a fallar na minha priso, mas tambem no me
perdia de vista.

 verdade que no tendo eu a mais pequena mala, no tinha cousa alguma
que lhe assegurasse o pagamento da minha despesa.

Como tinha na algibeira alguns escudos, fiz barulho com elles, o que
pareceu socegar o meu homem.

No momento em que um dos bebedores acabava, no meio dos applausos
geraes, de cantar uma cano, ergui o copo que tinha na mo:

--Agora pertence-me, disse eu:

E comecei a cantar o _Deus dos bons_.

Se no tivesse outra vocao teria podido fazer-me cantor, porque tenho
uma voz de tenor que cultivada alcanaria uma certa extenso.

Os versos de Beranger, a franquesa com que eram cantados, a
fraternidade do estribilho, a popularidade do poeta, arrebataram todo o
auditrio.

Fizeram-me repetir dois ou tres couplets e abraando-me todos quando
acabei, gritaram--Viva Beranger! Viva a Frana! Viva a Italia!

Depois de haver obtido tal successo era escusado pensar em prender-me;
o estalajadeiro conheceu isso porque nunca mais me fallou de tal,
ignorando eu por isso se elle fallava seriamente ou se zombava.

Passou-se a noite a cantar, jogar e a beber; e ao romper do dia todos
os meus companheiros da noite se offereceram para me acompanhar, honra
que acceitei sem difficuldade: caminhmos juntos seis milhas.

Com toda a certeza Beranger morreu sem saber o grande servio que me
prestou.




                                  VII

              ENTRO AO SERVIO DA REPUBLICA DO RIO GRANDE


Cheguei a Marselha sem incidente, vinte dias depois de ter deixado
Genova.

Engano-me, um incidente, que li no _Povo Soberano_, me succedeu.

Estava condemnado  morte.

Era a primeira vez que tinha a honra de ver o meu nome impresso em um
jornal.

Como desde ento era perigoso continuar a usar d'elle, comecei a
chamar-me Pane.

Fiquei alguns mezes occioso em Marselha, aproveitando-me da
hospitalidade do meu amigo Jos Paris.

Passado algum tempo consegui ser admittido como segundo commandante no
navio _Union_, capito Gozan.

No domingo seguinte achando-me pelas cinco horas da tarde  janella com
o capito, seguia com a vista um collegial em ferias que se divertia
no caes de Santo Andr a saltar de uma barca para outra, at que
faltando-lhe um p cau ao mar.

Estava vestido  _domingueira_, mas apesar d'isso, ouvindo os gritos
dados pela desgraada creana arrojei-me  agua completamente vestido.
Duas vezes mergulhei inutilmente, mas  terceira fui mais feliz porque
o agarrei por debaixo dos braos, conseguindo trazel-o sem difficuldade
at  praia. Uma grande quantidade de povo ahi estava reunida, sendo eu
recebido no meio dos seus applausos e bravos.

Era um rapaz de quatorze annos que se chamava Jos Bambau. As lagrimas
de alegria e as benos de sua me pagaram-me largamente do banho que
tinha tomado.

Como o salvei debaixo do nome de Jos Pane,  provavel que se  ainda
vivo, nunca soubesse o verdadeiro nome de seu salvador.

Fiz na _Union_ a minha terceira viagem a Odessa, depois  volta
embarquei-me em uma fragata do bey de Tunis. Deixei-a no porto de
Goletta, voltando a Marselha em um brigue turco. Quando cheguei a esta
cidade encontrei-a quasi no mesmo estado que M. de Belzunce a viu em
1720 quando ali grassava a febre negra.

O cholera fazia ento estragos horriveis.

Na cidade s existiam os medicos e as irms da caridade, quasi todo o
resto da populao havia desertado e viviam nas quintas dos arrebaldes.
Marselha tinha o aspecto d'um vasto cemiterio.

Os medicos pediam os benevolos.  assim, como se sabe, que so chamados
nos hospitaes os enfermeiros voluntarios.

Offereci-me ao mesmo tempo que um rapaz de Trieste que voltou de Tunis
comigo. Estabelecemo-nos no hospital, e ahi partilhavamos as vigilias.

Este servio durou quinze dias. No fim d'este tempo, como o cholera
diminuiu de intensidade e achava uma occasio favoravel de ver novos
paizes, embarquei-me, como segundo no brigue _Nantonnier_, de Nantes,
capito Beauregard, que se achava proximo a partir para o Rio de
Janeiro.

Muitos dos meus amigos me teem dito que antes de tudo sou poeta.

Se para ser poeta  necessario escrever a _Iliada_, a _Divina Comedia_,
as _Meditaes de Lamartine_, ou os _Orientaes_, de Victor Hugo, eu
no sou poeta: mas se para o ser  necessario passar horas e horas
a procurar nas aguas asuladas e profundas do mar os mysterios da
vegetao submarina, se  necessario ficar em extase diante da bahia do
Rio de Janeiro, de Napoles ou de Constantinopla, se  preciso pensar no
amor filial, nas recordaes infantis, ou n'um amor juvenil no meio das
ballas e bombas, sem pensar que esse sonho ha-de acabar pela cabea ou
por um brao quebrado--ento sou poeta.

Recordo-me que um dia, durante a ultima guerra, no dormindo havia
quarenta horas, e morto de canasso costeava Urbano e os seus doze mil
homens com os meus quarenta bersaglieri, os meus quarenta cavalleiros e
um milhar de homens armados na sua maioria pessimamente, seguia por um
pequeno atalho do outro lado do monte Orfano com o coronel Turr e cinco
ou seis homens, quando parei repentinamente, esquecendo a fadiga e o
perigo para ouvir um rouxinol.

Era uma noite magnifica. Sonhava ouvindo este amigo de infancia, que
um orvalho benefico e regenerador chovia em torno de mim. Os que me
rodeavam julgaram ou que hesitava no caminho a seguir, ou que ouvia
ao longe troar os canhes, ou os passos da cavallaria inimiga. No!
Escutava um rouxinol que ha mais de dez annos, pde ser, eu no tinha
ouvido. Este extase durou no at que os que me rodeavam me tivessem
repetido duas ou tres vezes General, ahi est o inimigo mas at que
este rompendo o fogo fizesse desapparecer o meu encanto.

Quando depois de ter costeado os rochedos graniticos que occultam a
todas as vistas o porto, que os indios na sua linguagem expressiva
chamam Nelheroky, quer dizer, agua occulta, quando depois de haver
passado a estrada que conduz  nova bahia socegada como um lago; quando
na margem occidental d'esta bahia, vi elevar-se a cidade chamada
_Paus d'Assucar_, immenso rochedo conico que serve no de pharol,
mas de balisa aos navegantes, quando appareceu em volta de mim essa
natureza luxuriante de que a Africa e a Asia s me tinham dado uma
fraca ida, fiquei maravilhado do espectaculo esplendido que meus olhos
contemplavam.

Foi no Rio de Janeiro que a minha boa estrella fez com que eu
encontrasse a coisa mais rara do mundo, isto , um amigo.

No tive necessidade de o procurar, no tivemos necessidade de nos
estudar, para nos conhecermos, encontramo-nos, trocamos um olhar e nada
mais; depois um sorriso, um aperto de mo, e Rossetti e eu eramos dous
irmos.

Mais tarde terei occasio de dizer o que valia esta nobre alma; e no
obstante, eu, o seu maior amigo, seu irmo, o seu companheiro por tanto
tempo inseparavel, morrerei, pde ser, sem ter occasio de plantar uma
cruz no ponto ignorado da terra aonde repousam os restos deste generoso
e valente cidado.

Depois de termos passado algum tempo na _ociosidade_--Chamo ociosidade
o estarmos Rossetti e eu, seguindo um modo de vida para que no
tinhamos disposio alguma--o acaso fez com que travassemos relaes
com Zambecarri, secretario de Bento Gonalves, presidente da republica
do Rio Grande, que se achava ento em guerra com o Brasil. Ambos
estavam prisioneiros de guerra em Santa Cruz n'uma fortaleza que se
eleva  direita  entrada do porto d'onde chamam os navios  falla.
Zambecarri, filho do famoso areonauta perdido n'uma viagem  Syria e de
que nunca mais se ouviu fallar, apresentou-me ao presidente que me deu
a carta para poder piratear os navios brasileiros.

Algum tempo depois Bento Gonalves e Zambecarri fugiram a nado chegando
livres de todo o perigo ao Rio Grande.




                                 VIII

                               CORSARIO


Armmos em guerra o _Mazzini_, pequeno navio de trinta toneladas, e
fizemo-nos ao mar com dezeseis companheiros de aventuras. Finalmente
eramos livres, navegavamos debaixo de um pavilho republicano; emfim
eramos _corsarios_.

Com dezeseis homens de equipagem e um navio eramos capazes de declarar
a guerra a um imperio.

Sahindo do porto dirigi-me para as ilhas Marica, situadas a cinco ou
seis milhas da embocadura da barra. As nossas armas e munies estavam
occultas debaixo das carnes salgadas e da mandioca, unico alimento dos
negros.

Naveguei para a maior d'estas ilhas, que possue um ancuradouro, lancei
a ancora, saltei em terra e subi ao monte mais elevado.

Ahi estendi os braos com um sentimento de felicidade e orgulho
inexplicavel, dando um grito similhante ao da aguia quando paira no
mais alto dos ares.

O Oceano pertencia-me e eu tomava posse do meu imperio.

A occasio de o exercer no se fez esperar.

Em quanto estava como um passaro do mar, debruado sobre o meu
observatorio, vi uma galeota navegando com o pavilho brasileiro.

Mandei apromptar tudo para nos fazermos immediatamente ao mar, e desci
 praia.

Navegmos direitos  galeota que no julgava por certo correr to
grande perigo a tres milhas da barra do Rio de Janeiro.

Abordando-a fizemo-nos conhecer, e intimmos o capito para se render
immediatamente. Para sua justia  necessario dizer que no fizeram a
mais pequena resistencia. Em poucos momentos estavamos a seu bordo.
Vi ento dirigir-se-me um passageiro portuguez, que trazia na mo uma
caixa. Abriu-a, e mostrou-a cheia de diamantes, que me offereceu em
troca da vida.

Fechei a caixa e entreguei-lh'a, dizendo-lhe que a sua vida no corria
perigo algum, e que por consequencia, podia guardar os seus diamantes
para melhor occasio.

No tinhamos tempo a perder, estavamos quasi debaixo do fogo das
baterias do porto. Transportmos as armas e munies para bordo da
galeota e affundmos o _Mazzini_ que como se v, tinha tido uma curta,
mas gloriosa existencia.

A galeota pertencia a um rico negociante austriaco que habitava a ilha
Grande, situada  direita sahindo do porto, a quinze milhas de terra, e
estava carregada de caf que era enviado  Europa.

O navio era para mim, por todos os motivos, uma excellente presa,
porque pertencia a um austriaco a quem eu tinha feito a guerra na
Europa, e a um negociante brasileiro domiciliado no Brasil a quem eu
fazia a guerra na America.

Dei  galeota o nome de _Farropilha_, derivado de _Farrapos_, nome que
no imperio do Brasil se d aos habitantes das republicas da America do
Sul, assim como Filippe II chamava _mendigos de terra ou de mar_, aos
revoltosos dos Paizes Baixos.

At ento a galeota chamava-se _Luiza_.

O nome que lhe havia dado calhava perfeitamente. Os meus companheiros
no eram Rossettis, e devo confessar, que a figura de alguns d'elles,
no era satisfatoria; isto explica a rapida entrega da galeota e o
terror do portuguez que me offereceu os seus diamantes.

Durante todo o tempo que fui corsario dei ordem  minha gente para
a vida, honra e fortuna dos passageiros ser respeitada... ir dizer
debaixo de pena de morte, mas no devo dizer tal, porque no tendo at
hoje ninguem infringindo as minhas ordens, no tenho tido ninguem que
punir.

Depois de concluidos os nossos primeiros arranjos dirigi-me para
o Rio da Prata, e para dar o exemplo de respeito que eu queria se
tivesse no futuro pela vida, liberdade e bens dos passageiros, quando
cheguei  altura da ilha de Santa Catharina, um pouco abaixo do cabo
Itapoya, mandei deitar ao mar a lancha do navio e entregando tudo
quanto pertencia aos passageiros e alguns mantimentos os fiz embarcar
deixando-os livres de se dirigirem para onde quizessem.

Cinco pretos escravos da galeota e a quem eu havia dado a liberdade
engajaram-se como marinheiros.

Quando chegmos ao Rio da Prata, ancormos em Maldonato pertencente 
republica oriental de Uruguay.

Fomos admiravelmente recebidos pela populao e mesmo pelas
auctoridades, o que me pareceu de excellente agouro. Rossetti partiu
pois tranquilamente para Montevideo afim de ahi vender o nosso caf e
apurar algum dinheiro.

Ns ficmos em Maldonato,--quer dizer  entrada d'esse magnifico rio
que na sua embocadura tem trinta leguas de largo--durante oito dias que
se passaram em festas continuas, que infelizmente estiveram para acabar
tragicamente. Oribe, que, na sua qualidade de chefe da republica de
Montevideo no reconhecia as outras republicas, deu ordem ao governador
de Montevideo para me prender e apoderar-se da galeota. Felizmente
o governador de Maldonato era um excellente homem que em logar de
executar a ordem que recebeu, o que no lhe teria sido difficil pela
pouca ou nenhuma desconfiana que eu tinha, mandou-me prevenir para que
levantasse ancora e partisse para o meu destino, se  que o tinha.

Prometti partir na mesma noite, mas antes tinha um negocio pessoal a
tractar em terra.

Tinha vendido, para comprar viveres, a um negociante de Montevideo
algumas saccas de caf e algumas bijouterias, pertencentes ao nosso
austriaco. Mas ou porque o meu comprador fosse mu pagador, ou porque
tendo ouvido dizer que eu talvez fosse preso, julgasse que poderia
passar sem me pagar, ainda no me tinha sido possivel receber o meu
dinheiro. Sendo pois obrigado a partir n'aquella mesma noute, e
querendo entrar de posse do que me pertencia antes de deixar Maldonato,
no tinha tempo a perder.

Por conseguinte s nove horas da noute mandei apparelhar, e mettendo
um par de pistolas na cintura, embrulhei-me na minha capa e dirigi-me
tranquillamente para casa do negociante.

Fazia um luar magnifico. Pouco distante da casa do meu homem vi-o 
porta tomando o fresco, elle tambem me viu e reconheceu, porque me fez
signal de me affastar, indicando-me por este modo que a minha vida
corria risco.

Fiz que no via, fui direito a elle, e por toda a explicao
apresentei-lhe uma pistola aos peitos:

--O meu dinheiro, lhe disse eu.

Quiz responder-me, mas quando lhe repeti pela terceira vez o meu
dinheiro fez-me entrar em sua casa, pagando-me logo os dois mil
pataces que me devia.

Metti de novo a pistola no cinturo, puz o sacco do dinheiro debaixo do
brao, e voltei ao meu navio sem me ter acontecido o menor incidente.

s onze horas da noute levantmos ancora.




                                  IX

                            O RIO DA PRATA


Ao romper do dia, com grande admirao nossa, estavamos no meio dos
cachopos das Pedras Negras.

Como me achava em tal situao  que eu no podera explicar. No havia
dormido um minuto, no tinha deixado de olhar um momento para a costa,
consultando a todos os instantes a bussola, dirigindo-me pelas suas
indicaes, e apezar d'isso achava-me no perigo que queria evitar.

No havia momento a perder: o perigo era enorme: estavamos cercados por
todos os lados de cachopos. Saltei para a verga do traquete, e d'ahi
mandei orar sobre bombordo, e em quanto se executava esta manobra foi
arrebatada pelo vento a nossa pequena gavea.

Do logar onde me achava dominava o navio e os recifes, podendo por
isso indicar o caminho que era necessario fazer seguir  galeota, que
do seu lado parecendo um ente animado, e conhecedora do perigo em
que estavamos, obedecia com toda a docilidade ao leme. No fim de uma
hora, durante a qual estivemos entre a vida e a morte, e em que vi
empallidecer os meus mais valentes marinheiros, estavamos salvos.

Depois de passado o perigo, quiz conhecer qual o motivo porque havia
sido lanado no meio d'esses terriveis cachopos, to conhecidos dos
navegantes, to bem indicados nas cartas maritimas, e a tres milhas dos
quaes julgava estar quando me achava no meio d'elles.

Consultei a bussola: continuava a divagar: teria pois naufragado, se
por infelicidade, amanhecendo, no tivesse conhecido o perigo:

Em pouco tempo tudo me foi explicado.

Quando sahi do navio para pedir os dois mil pataces ao meu comprador
do caf, tinha mandado pr no tambadilho os sabres e fuzs, para
estar prevenido no caso de algum ataque: executando a minha ordem, os
marinheiros tinham collocado as armas ao p da bitcola.

Esta massa de ferro tinha attrahido a si a agulha, que como se sabe,
tem iman nas duas extremidades. Mandei pois tirar as armas, e a bussola
continuou a andar regularmente.

Proseguimos a nossa viagem chegando a Jesus-Maria, que do outro lado de
Montevideo est quasi na mesma distancia que Maldonato.

A unica novidade que ali nos succedeu, foi acabarem-se completamente
os viveres, por isso que no tinhamos tido tempo de os comprar antes
da nossa partida. Como no nos era possivel desembarcar, pelas ordens
dadas, era necessario lanar mo de algum expediente para arranjarmos
comestiveis.

Comemos a bordejar, sem comtudo nos affastarmos da costa.

Uma manh descobri na distancia de quasi quatro milhas uma casa, que
pelo seu aspecto me pareceu uma herdade. Mandei ancorar o mais perto
possivel da praia, e como no tinha escaler, porque, como j disse,
havia dado o meu aos individuos que tinham desembarcado em Santa
Catharina, arranjei uma jangada com uma mesa e alguns tonneis, e armado
com um croque, embarquei n'esta embarcao de novo gosto com um unico
marinheiro, que sem ser meu parente tinha comtudo o nome de Garibaldi:
o seu pronome era Mauricio.

O navio estava seguro por duas amarras, em consequencia dos ventos
pampeiros que eram mui violentos.

Eis-me pois no meio dos recifes no navegando, mas sim danando em cima
de uma mesa, arriscado a todos os momentos a ser submergido. Depois
de termos praticado maravilhosos trabalhos de equilibrio, conseguimos
encalhar na praia. Deixei Mauricio encarregado de guardar a jangada, e
desembarquei.




                                   X

                        AS PLANICIES ORIENTAES


O espectaculo que ento se me offereceu  vista, e que admirava pela
primeira vez, teria, para ser dignamente descripto, necessidade da
penna de um poeta ou do pincel de um pintor. Via ondular na minha
frente como as vagas de um mar solidificado os immensos horisontes
das--planicies orientaes--assim chamadas porque esto no lado oriental
do rio Uruguay, que vae lanar-se no rio da Prata, defronte de
Buenos-Ayres, abaixo de Colonia. Era, posso jural-o, um espectaculo
cheio de novidade para um homem chegado do outro lado do Atlantico, e
sobre tudo para um italiano, nascido em um paiz em que  difficultoso
vr um palmo de terra sem encontrar uma casa ou alguma obra dos homens.

Ali pelo contrario existia unicamente a obra de Deus, tal como havia
sahido das suas mos no dia da creao.

Era uma vasta, uma immensa campina, e o seu aspecto que  o de um
tapete de verdura e flores, no muda seno nas margens do ribeiro
Arroga, onde se elevam balanceando ao vento encantadores grupos de
arvores com folhas luxuriantes.

Os cavallos, os bois, as gazellas, as avestruzes so,  falta de
creaturas humanas os habitantes d'essas immensas solides, que s so
atravessadas pelos gauchos, esses centauros do novo mundo, como para
dar a entender a essas turbas de animaes selvagens que Deus lhe deu um
senhor... Mas esse senhor, como o veem passar os touros, as avestruzes,
as gazellas!  a quem protestar primeiro contra a sua supposta
dominao: o touro pelos seus mugidos, a avestruz e a gazella pela fuga.

Esta vista fez-me pensar na patria, onde quando passa o austriaco
que os opprime, os homens, essas creaturas creadas  imagem de Deus,
cumprimentam-no e se curvam, no ousando dar os mesmos signaes de
independencia que os animaes selvagens do  vista do gaucho.

SENHOR, at quando permittireis to grande aviltamento da vossa
creatura!?

Deixemos o velho mundo, to triste e aviltado, e voltemos ao novo, to
joven, e to cheio de esperanas!

Como  bello o cavallo das planicies orientaes, com os seus jarretes
estendidos, com as ventas fumantes, com os seus labios que nunca
sentiram a friesa do ao! Como respiram livremente debaixo do contacto
da sua clina e juba, os seus flancos que nunca foram apertados pelo
joelho dos cavalleiros, nem ensanguentados pelas suas esporas! Como 
soberbo quando reune, chamando pelos seus rinchos a sua horda de eguas
dispersas e que verdadeiro sulto do deserto, evita, fugindo em sua
companhia, a presena dominadora do homem!

Oh! maravilha da natureza! Milagre da creao! Como heide exprimir a
emoo que  vossa vista experimentou esse corsario de vinte e cinco
annos, que pela primeira vez estendia os braos para a immensidade.

Mas como esse corsario estava a p, nem o touro nem o cavallo o
reconheciam por um homem. Nos desertos da America o cavallo 
um complemento do homem, e sem o saber, o ultimo dos animaes.
Primeiramente pararam estupefactos pela minha vista, mas bem depressa
desprezando sem duvida a minha fraqueza, aproximaram-se de mim a tal
ponto que sentia o rosto humedecido pela sua respirao. Ninguem
deve ter receio do cavallo, animal nobre e generoso; mas todos devem
desconfiar do touro, animal dissimulado e traioeiro. As gazellas
e avestruzes depois de terem, como os cavallos e touros, mas mais
circumspectamente, feito o seu reconhecimento, partiram rapidas como a
flecha, e chegando ao alto d'um montezinho voltaram-se para verem se
eram perseguidas.

N'este tempo, isto , pelos fins de 1834 e principios de 1835, esta
parte do terreno oriental estava ainda virgem de toda a guerra; eis o
motivo porque ali se encontrava tanta quantidade de animaes selvagens.




                                  XI

                               A POETISA


Continuei dirigindo-me para uma _estancia_.[4] Ahi encontrei s a
mulher do _capataz_.[5] Como no podia vender-me ou dar um boi sem
consentimento de seu marido, era necessario esperar a sua volta. Demais
era tarde e antes do dia seguinte no se podia conduzir o animal at ao
mar.

  [4] Nome das herdades na America do Sul.

  [5] Dono do estabelecimento.

Ha momentos na vida de que a recordao ao mesmo tempo que elles se
affastam contina vivendo e augmentando na nossa memoria e to bem
que sejam quaes forem os outros successos da nossa existencia, essa
recordao s se apaga com a morte. Era destino meu encontrar no meio
d'este deserto, esposa de um homem quasi selvagem uma mulher de uma
educao cultivada, uma poetiza sabendo pelo corao Dante, Petrarcha e
Tasso.

Depois de ter esgotado toda a minha sciencia na lingua hespanhola,
fiquei agradavelmente surprehendido, ouvindo-a responder-me em
italiano, convidando-me graciosamente a assentar-me, em quanto seu
marido no chegava. No meio da nossa conversao, a minha encantadora
hospedeira, perguntou-me se eu conhecia as poesias de Quintana, e
ouvindo a minha resposta negativa, fez-me presente de um volume d'essas
poesias, dizendo-me que m'o dava para apprender por sua causa o
hespanhol. Perguntei-lhe ento se era poetisa.

--Ha alguem, me respondeu, que diante d'esta natureza no seja poeta?

E sem se fazer rogar recitou-me muitos trechos de poesias suas em que
achei muito sentimento e uma grande harmonia. Teria passado toda a
noite a escutal-a sem me lembrar de Mauricio que me esperava guardando
a meza-jangada, mas a entrada do marido fez cessar o lado poetico para
me chamar ao fim material da minha visita. Disse-lhe o que queria e foi
combinado que no dia seguinte me venderia e levaria  praia um boi.

Ao romper do dia despedi-me da minha bella poetisa e fui ter com
Mauricio. O pobre diabo tinha passado a noite o melhor que poude,
mettido entre os quatro toneis, e muito inquieto por meu respeito,
receiando que eu tivesse sido devorado pelos tigres, muito communs
n'esta parte da America e menos inoffensivos que os cavallos e os
touros.

No fim de alguns momentos appareceu o capataz trazendo um boi ao
lao. Em poucos momentos o animal foi morto e esquartejado, tal  a
habilidade que os homens do sul teem para estas obras de sangue.

Faltava transportar o boi, cortado em pedaos e leval-o para o navio,
isto , a mil passos de distancia, pelo menos, tendo de atravessar os
cachopos onde se despedaavam as ondas furiosas.

Mauricio e eu dmos comeo  nossa empreza.

J sabem como era construida a jangada que nos devia conduzir a bordo:
uma meza com um tonel amarrado a cada p, um pau no centro, que vindo
do navio, tinha servido para suspender os nossos vestidos, e que
voltando devia conduzir os viveres sustentando-os ao de cima da agua.

Deitmos a jangada ao mar, pozemo-nos em cima, e Mauricio com uma vara
na mo, e eu com um croque, comemos a manobrar temdo agua at aos
joelhos, porque o peso que a jangada levava era excessivo.

A nossa manobra executou-se com grandes applausos do americano e da
tripulao da galeota, que fazia ardentes votos, pde ser, no pela
nossa salvao, mas sim pela da carne que conduziamos. A nossa viagem
ao principio foi feliz, mas chegamos a uma linha de cachopos que nos
era necessario atravessar, achmo-nos por duas vezes quasi submergidos.

Felizmente atravessamo-la sem novidade.

Mas livres dos cachopos, estavamos em perigo mais imminente.

No encontravamos o fundo com os nossos croques, e por conseguinte era
impossivel dirigir a embarcao. Alem d'isso a corrente tornando-se
mais violenta,  medida que avanamos no rio, arrojava-nos para longe
da galeota.

Pareceu-me chegado o momento de atravessar o Atlantico parando s em
Santa Helena ou no Cabo da Boa Esperana.

Os nossos companheiros, se nos quizessem apanhar, no tinham seno o
recurso de largarem as velas. Foi o que fizeram, e como o vento estava
de terra a galeota bem depressa nos alcanou.

Passando junto de ns os nossos companheiros, lanaram-nos um cabo.
Amarramos com elle a jangada ao navio, e depois de termos iado todos
os viveres  que Mauricio e eu subimos. Em seguida imos a meza que
foi reintregada no seu logar na casa do jantar, no tardando muito a
exercer as suas funces habituaes.

Vendo o appetite com que os nossos companheiros atacaram a carne, que
com tanto trabalho tinhamos alcanado, consideramo-nos sufficientemente
recompensados das nossas fadigas.

Alguns dias depois comprei por trinta escudos a canoa d'um navio que
cruzava n'estas paragens.

Estivemos ainda este dia  vista do pico de Jesus Maria.




                                  XII

                               O COMBATE


Tinhamos passado a noite ancorados, quasi seis milhas, ao meio dia
do pico de Jesus Maria, em frente dos barrancos de S. Gregorio. Uma
pequena brisa do norte comeava a apparecer quando vimos vir do lado de
Montevideo duas barcas que julgmos serem amigas; mas como no tinham
o pavilho encarnado, signal convenciado entre ns, julguei prudente
o fazer-me de vela em quanto os esperava. Alm d'isso mandei pr no
tombadilho os mosquetes e sabres.

Esta precauo, como se vae vr no foi inutil. A primeira barca
continuava a avanar unicamente com tres homens  vista; chegada
ao alcance do porta-voz, o que nos parecia o chefe disse que nos
rendessemos e ao mesmo tempo o convez da barca encheu-se de homens
armados que sem nos dar o tempo de responder  sua intimao comearam
o fogo. Dei o grito de s armas e agarrei n'um fuzil, depois
respondendo a este cumprimento conforme podia, e como estavamos com
todo o pano mandei.--s vlas de diante.

No sentindo a galeota obedecer ao leme com a docilidade costumada,
voltei-me e vi que a primeira descarga tinha morto o marinheiro que
n'aquella occasio ia ao leme, e que era um dos nossos valentes.
Chamava-se Florentino e tinha nascido em uma das nossas ilhas.

No havia tempo a perder. O combate estava travado com todo o furor. O
lancho,  o nome que do  qualidade dos barcos com que combatiamos, o
lancho tinha-nos abordado pela direita e alguns dos seus marinheiros
haviam j saltado no nosso barco, mas por felicidade alguns golpes de
fuzil e sabre nos livraram d'elles.

Depois de ter coadjuvado os meus companheiros a repellir esta abordagem
agarrei no leme que se achava sem governo por causa da morte de
Florentino. Infelizmente no momento em que o agarrava para executar uma
manobra uma balla atravessou-me o pescoo ferindo-me entre a orelha e a
carotida, fazendo-me cahir sem conhecimento.

O resto do combate que durou uma hora, foi sustentado por Luiz
Carniglia, piloto, e por Pascoal Sodola, Giovani Lamberti, Mauricio
Garibaldi e dous maltezes. Os italianos fizeram prodigios de valor, mas
os estrangeiros e os cinco negros fugiram para o poro. Emfim o inimigo
fatigado de nossa defeza e tendo uma dezena de homens fra de combate
fugiu, em quanto que ns tendo apparecido algum vento continumos a
subir o rio.

Ainda que tivesse tornado a mim, fiquei completamente inerte e inutil
durante o resto do combate.

Confesso, as primeiras impresses que senti abrindo os olhos, foram
deliciosas. Podia dizer que havia sido morto e que tinha resuscitado,
tanto o meu desmaio foi profundo. Entretanto esse sentimento de bem
estar foi bem depressa abafado pelo conhecimento da situao em que
nos achavamos. Ferido mortalmente, no tendo a bordo quem possuisse
o menor conhecimento geographico, mandei buscar a carta, e com muita
difficuldade pois, me achava com a vista coberta com um vo que me
parecia o da morte, indiquei com o dedo Santa F no Rio Parana. S
Mauricio  que uma unica vez tinha feito uma viagem ao rio da Prata;
para todos ns eram pois completamente estranhas aquellas paragens.
Os marinheiros aterrados--os italianos, devo dizel-o, no partilhavam
estes sentimentos ou pelo menos sabiam occultal-os--e receiando serem
presos e considerados como piratas, desertaram na primeira occasio que
se lhe apresentou. Em quanto esperavam por este momento, em cada barco,
em cada canoa, em cada tronco d'arvore fluctuante viam um navio inimigo
enviado em sua perseguio.

O cadaver do nosso desgraado camarada foi deitado ao mar, com as
cerimonias costumadas n'estas occasies, por que durante muitos dias
no podemos desembarcar em parte alguma.

Este genero de enterramento no era muito do meu agrado, e sentia por
elle uma grande repugnancia, talvez por me julgar proximo a ter igual
sorte. Confessei esta averso a Luiz Carniglia.

No momento em que lhe fazia esta confisso vieram-me  lembrana estes
versos de Foscolo:

Uma pedra, um unico signal que difference os meus ossos d'aquelles que
a morte semea todos os dias na terra e no Oceano.

O meu pobre amigo chorava promettendo no me deixar lanar  agua. Quem
sabe se apesar do seu desejo teria podido executar a sua promessa. O
meu cadaver serviria ento para matar a fome a algum lobo marinho, ou
caiman. No tornaria a vr a Italia, no me teria batido por ella, que
era a minha unica esperana!

Quem diria ao meu caro Luiz que antes d'um anno era eu que o veria
rolando pelos cachopos, desapparecer no mar, e que procuraria debalde
o seu cadaver, para cumprir a promessa que elle me havia feito, de
o sepultar na terra e collocar na sua ultima morada uma cruz que o
recommendasse  orao dos viandantes. Pobre Luiz! durante a minha
longa e cruel enfermidade fostes tu que tivestes sempre por mim um
carinho paternal.




                                 XIII

                            LUIZ CARNIGLIA


Vou dizer algumas palavras sobre o meu pobre amigo Luiz. E porque 
um simples marinheiro no lhe hei-de dedicar algumas linhas? Porque
elle no ... Oh! posso assegural-o, a sua alma era bastante nobre
para sustentar em todas as circumstancias a honra italiana: nobre para
affrontar todas as tormentas, nobre emfim para me proteger, e para
cuidar de mim, como se fosse seu filho! Quando estava deitado no meu
leito de agonia, abandonado por todos, e delirava com o delirio da
morte, era Luiz que sentado  cabeceira do meu leito com a dedicao e
paciencia de um anjo no se affastava de mim um instante seno para ir
chorar e occultar as suas lagrimas. Os seus ossos espalhados no Oceano
mereciam um monumento onde o proscripto reconhecido podesse um dia
dizer as suas virtudes aos seus concidados, devolvendo-lhe as lagrimas
piedosas que me consagrou.

Luiz Carniglia era de Deiva, pequeno paiz do Levante. No havia
recebido instruco litteraria, mas suppria esta falta por um
maravilhoso intendimento. Privado de todos os conhecimentos nauticos
que so necessarios aos pilotos, governava os navios at Gualeguay com
a sagacidade e felicidade de um piloto consumado. No combate que acabo
de referir, foi a elle que principalmente devemos o no ter cahido
nas mos do inimigo: armado de um machado estava sempre no logar onde
havia maior perigo sendo por este modo o terror dos assaltantes. De
uma estatura elevada e mui robusta reunia uma grande agilidade a um
extraordinario valor. Dotado de uma grande bondade nas cousas da vida,
possuia o raro dom de se fazer amar por todos. Infelizmente todos os
melhores filhos da nossa desgraada patria teem morrido como este em
terra estrangeira esquecidos e sem ter quem derrame uma lagrima por
elles!




                                  XIV

                              PRISIONEIRO


Fiquei desanove dias recebendo unicamente os cuidados de Luiz Carniglia.

No fim d'este tempo chegmos a Gualeguay.

Tinhamos encontrado na embocadura do Ibiqui, um navio commandado por D.
Lucas Tantalo, excellente homem que teve toda a sorte de cuidados por
mim prestando-me o que julgava ser-me util na minha posio.

Acceitmos os seus presentes com grande prazer, porque no tinhamos a
bordo seno caf que era o nosso unico alimento. Davam-me pois caf
a todos os momentos sem se importarem se isso era ou no conveniente
para a minha doena. Comecei por ter uma febre assustadora acompanhada
por uma grande difficuldade de engolir fosse o que fosse, o que no
admirava, porque a balla atravessando-me o pescoo de lado a lado
tinha passado entre as vertebras cervicaes e a pharinge. Decorridos
oito dias n'este estado afflictivo, a febre havia diminuido, sentindo
grandes melhoras.

D. Lucas tinha feito mais: partindo, deu-me cartas de recommendao
para Gualeguay,--fazendo o mesmo a um seu passageiro chamado Arraigada,
biscainho, que se achava estabelecido na America--e particularmente
para o governador da provincia d'Entre-Rios, D. Paschal Echague, a quem
por ter de fazer uma viagem, deixou o seu proprio medico, D. Romo
Delarea, joven argentino, de muito merito, que examinando a minha
ferida, e tendo sentido a balla do lado opposto quelle por que tinha
entrado, fez a extraco com toda a habilidade, tratando-me durante
algumas semanas, isto  at ao meu completo restabelecimento, com os
cuidados mais affectuosos e desinteressados.

Fiquei seis mezes em Gualeguay em casa de D. Jacintho Andreas, que
teve, bem como a sua familia, por mim os maiores cuidados.

Infelizmente estava quasi prisioneiro. No obstante a boa vontade
do governador Echague, e o interesse que por mim tinha a populao
de Gualeguay, era obrigado a esperar a resoluo do dictador de
Buenos-Ayres que no decidia cousa alguma.

O dictador de Buenos-Ayres era n'esta occasio Rosas, de quem tratando
de Montevideo, terei occasio de fallar mais de vagar.

Curado da minha ferida, comecei a dar alguns passeios, que por ordem
da authoridade eram mui limitados. Em troca do meu navio confiscado
davam-me um escudo por dia, o que na realidade era muito para um paiz
em que sendo tudo mui barato quasi se no gasta dinheiro: mas tudo isto
no valia a minha liberdade.

Provavelmente esta despeza d'um escudo por dia parecia muito elevada ao
governador, porque em differentes occasies me foram feitas offertas de
se me favorecer a fuga, mas as pessoas que me faziam essas offertas,
eram, sem o saberem, agentes provocadores! Diziam-me que o governo
veria a minha fuga sem grande pesar. No era pois necessario fazer
grande violencia para que eu adoptasse uma resoluo de que ja havia
formado o projecto. O governador depois da partida de D. Paschoal, era
um certo Leonardo Millan, que no me havia at quella pocha mostrado
nem interesse, nem odio, no tendo pois o mais pequeno motivo para me
queixar d'elle.

Resolvi ento fugir, comeando logo os meus preparativos, afim de estar
prompto na primeira occasio que se me apresentasse. Uma noute de
tempestade dirigi-me para casa d'um excellente homem que costumava de
quando em quando ir visitar, e que habitava a tres milhas de Gualeguay.

Dei-lhe parte da minha resoluo, pedindo-lhe que me procurasse um
guia e cavallos, esperando chegar a uma estancia pertencente a um
inglez, situada na margem esquerda do Parana, onde eu provavelmente
encontraria algum barco que me transportasse incognito a Buenos-Ayres
ou Montevideo. O guia e os cavallos foram arranjados, e comemos a
andar por meio dos campos para no sermos descobertos. Tinhamos que
caminhar cincoenta e quatro milhas, podendo vencer perfeitamente este
espao em meia noute.

Quando rompeu o dia estavamos  vista de Ibiqui, na distancia de meia
milha do rio. O guia disse-me ento que parasse ali em quanto elle ia
saber que caminho deviamos seguir.

Fiquei pois s.

Apeei-me, amarrei as redeas do cavallo ao tronco de uma arvore e
deitei-me, esperando assim durante duas ou tres horas, at que vendo
que o meu guia no apparecia, levantei-me resolvido a ir pessoalmente
informar-me, quando repentinamente ouvi por detraz de mim um tiro.
Voltei-me e vi um destacamento de cavallaria que me perseguia de sabre
em punho. Estavam j entre o meu cavallo e eu, era pois impossivel
defender-me ou fugir.

Entreguei-me.




                                  XV

                              A APOLEAO


Ligaram-me as mos atraz das costas, pozeram-me a cavallo, e depois
ligaram-me tambem os ps como o haviam feito s mos, sujeitando-os 
cilha do animal.

Foi n'este estado que cheguei a Gualeguay, onde, como se vae vr, me
esperava um peor tratamento.

Ainda hoje, e j so passados bastantes annos, estremeo quando penso
n'esta circumstancia da minha vida.

Conduzido  presena de Leonardo Millan fui intimado por elle para
denunciar quem me havia fornecido os meios de effectuar a minha fuga.
 escusado dizer que no fiz tal confisso, pois declarei que s eu a
tinha arranjado e executado. Ento como me achava ligado e Leonardo no
tinha cousa alguma a temer, aproximou-se de mim e comeou a bater-me
nas faces com o chicote. Depois renovou as suas perguntas, no sendo
mais feliz que da primeira vez.

Mandou-me conduzir  priso, e disse em voz baixa algumas palavras ao
ouvido d'um dos guardas.

Estas palavras eram a ordem de me applicar a tortura.

Chegando  camara que me estava destinada, os guardas deixaram-me as
mos ligadas atraz das costas, collocaram-me nos pulsos uma nova corda,
e passaram a outra extremidade a uma trave, suspendendo-me a quatro ou
cinco ps do cho.

Ento Leonardo entrou na priso e perguntou-me de novo se estava
resolvido a dizer a verdade.

A unica vingana que podia tomar era cuspir-lhe no rosto, e assim o fiz.

--Quando o prisioneiro, disse elle retirando-se, quizer declarar
quem foram os seus cumplices, mandem-me chamar, e depois de fazer a
confisso podem pol-o no cho.

Depois sahiu.

Fiquei duas horas n'esta horrivel posio. O peso do meu corpo
sobrecarregava nos meus punhos ensanguentados e nos meus hombros
deslocados.

Parecia-me estar sobre brasas.

A todos os momentos pedia agua, e os meus guardas mais humanos que
o meu carrasco davam-me, mas ella no me matava a sede devoradora
que soffria. Pode-se fazer uma ida dos meus padecimentos, lendo as
torturas que se inflingiam aos prisioneiros na idade media. No fim de
duas horas os meus guardas tendo piedade do meu estado, ou julgando-me
morto desceram-me.

Cahi no cho sem movimento.

Era uma massa inerte, sem outro sentimento que o de uma profunda e muda
dr--era quasi um cadaver.

N'este estado sem eu saber o que faziam de mim metteram-me nos cepos.

Tinha andado com as mos e ps ligados atravez de pantanos cincoenta
milhas. Os mosquitos numerosos e enraivecidos n'esta estao tinham-me
tornado o rosto e as mos n'uma grande chaga. Havia soffrido durante
duas horas horriveis torturas, e quando tornei a mim achei-me ligado a
um assassino.

Ainda que no tivesse dito uma unica palavra, no meio dos meus atrozes
soffrimentos, D. Jacintho Andreas tinha sido preso. Os habitantes do
paiz estavam cheios de espanto.

Em quanto a mim seno fossem os cuidados de uma mulher que foi para
mim um anjo de caridade teria succumbido a to atrozes soffrimentos.
Despresando todo o perigo, vinha ver-me todos os dias, trazendo-me o
que eu necessitava.

Chamava-se Allemand.

Poucos dias depois o governador vendo que eram inuteis todas as
tentativas que fazia para me obrigar a fallar, e convencido que
eu morreria antes de denunciar um dos meus amigos, no querendo
provavelmente tomar sobre si a responsabilidade da minha morte
mandou-me para a capital da provincia Bagada. Fiquei dois mezes na
priso no fim dos quaes o governador me mandou dizer que me era
permitido sahir livremente da provincia. Ainda que eu tenho opinies
oppostas a Echague e que por mais de uma vez, depois d'esse dia,
tenha combatido contra elle no devo occultar as obrigaes de que
lhe sou devedor e ambicionava hoje ter occasio de lhe provar todo o
reconhecimento que lhe consagro pelos servios que me prestou.

Mais tarde o acaso fez cahir nas minhas mos os chefes militares da
provincia de Gualeguay e todos foram postos em liberdade sem se lhe
fazer a menor offensa, nem a elles nem s suas propriedades.

Em quanto a Leonardo Millan nunca o quiz vr com receio que a sua
presena, fazendo-me recordar do que havia soffrido me obrigasse a
praticar alguma aco indigna de mim.




                                  XVI

                   VIAGEM NA PROVINCIA DO RIO GRANDE


Em Bajada embarquei n'um bergantim italiano, capito Ventura. Este
maritimo homem recommendavel a todos os respeitos, tratou-me sempre
com a maior generosidade e cavalheirismo. Conduziu-me  embocadura
do Iguassu, affluente do Parana, ahi passei para bordo de um barco,
capitaneado por Pascoal Carbone, que se destinava a Montevideo.

Estava ento em mar de ventura; Carbone obsequiou-me tambem
admiravelmente.

A fortuna, assim como as infelicidades vem sempre em grandes pores;
estas haviam finalisado para mim; aquellas comeavam a affluir sem
interrupo.

A minha proscripo continuava em Montevideo. A resistencia que
empregra contra os lanches e a perda que lhes haviamos causado era
para isso pretexto plausivel. Fui ento obrigado a esconder-me em casa
de Pazante aonde me conservei por espao de um mez.

Comtudo a minha recluso tornava-se supportavel, por que era suavisada
pelas visitas de muitos compatriotas, que em tempo de prosperidade e de
paz tinham vindo estabelecer-se no paiz e exerciam para com os amigos
do velho mundo a mais generosa hospitalidade. A guerra, e sobretudo
o cerco de Montevideo veiu mudar a posio da maior parte d'elles e
de feliz que era tornou-l'ha no s m, porm pessima. Pobres homens!
bastantes vezes os deplorei, e desgraadamente no podia fazer mais do
que lamental-os!

Passado um mez, era tempo de seguirmos viagem; parti com Rossetti para
o Rio Grande; a nossa jornada devia ser e foi feita a cavallo, o que me
deu muito prazer. Viajavamos  _escotero_.

Darei uma pequena explicao sobre esta maneira de viajar, que pela sua
rapidez deixa bem longe a posta por mais ligeira que ella seja.

Sejam dois, tres ou quatro os viajantes, vo acompanhados por vinte
cavallos habituados a seguir os que vo montados; quando depois alguns
dos cavalleiros v que o seu cavallo est fatigado, apeia-se, passa o
selim e os arreios para um dos que vem livres, e segue a galope tres
ou quatro leguas; depois toma outro, e assim successivamente os vae
mudando at chegar ao seu destino; os cavallos canados, mesmo tendo
de seguir os outros, recuperam foras, porque vo livres de selim e do
cavalleiro.

O pouco tempo que os cavalleiros gastam n'estas mudas, os cavallos o
aproveitam para comerem alguma herva e beberem agua, se por acaso a
encontram; as verdadeiras raes so duas vezes ao dia, pela manh e 
noite.

D'este modo chegmos a Piratini, sde do governo do Rio Grande; a
capital da provincia  Porto Allegre, porm como estava occupada pelos
imperiaes, o governo republicano estabelecera-se em Piratini.

Piratini  realmente um dos mais bellos paizes do mundo; divide-se em
duas regies; uma de planicies e a outra montanhosa.

As planicies verdadeiramente tropicaes produzem a banana, a cana
d'assucar, e a laranja. Junto aos troncos das suas arvores, e por
entre as plantas arrasta-se a serpente cascavel, a serpente negra, e a
serpente coral; ali, como na India, v-se saltar o tigre, o jaguar, a
puma, e o leo inoffensivo, de dimenses eguaes a qualquer dos enormes
ces do monte de S. Bernardo.

A regio montanhosa  temperada como o meu bello clima de Niza;
colhe-se o bom pecego, a pera, a ameixa, e toda a qualidade de fructos
da Europa, encontram-se as magnificas florestas, das quaes nenhuma pena
seria capaz de fazer exacta descripo, com os seus pinheiros direitos
como os mastros dos navios, e d'altura de duzentos ps, e dos quaes
talvez cinco ou seis homens no podessem abraar o tronco.  sombra
d'esses pinheiros vegetam os taquares, canas gigantescas que chegam a
oitenta ps d'altura, e das quaes na base no excedem a grossura do
corpo d'um homem; existe tambem ali a _barba de pau_, litteralmente
dita a barba das arvores, que entrelaando-se multiplicadamente
frma espeos bosques; nas vastas planicies chamadas campestres
estendem-se cidades inteiras, como Cima da Serra, Vaccaria, Lages; no
tres cidades, mas tres provincias; populao caucasiana, de origem
portugueza, e essencialmente hospitaleira.

O viajante no tem preciso de dizer nem de pedir coisa alguma; entra
em qualquer habitao, vae direito  camara dos hospedes; os criados
apparecem, sem que sejam chamados, descalam-o e lavam-lhe os ps.
Fica ali por quanto tempo quer, e quando lhe appetece retira-se sem
despedir-se nem agradecer; e apesar d'esta descortesia, outro que venha
depois d'elle no  recebido com menos agrado.

 a juventude da natureza, o erguer da humanidade.




                                 XVII

                           A LAGOA DOS PATOS


Chegando a Piratini, fui magnificamente recebido pelo governo da
republica. Bento Gonalves--verdadeiro cavalleiro andante do seculo
de Carlos-Magno, irmo, pelo corao, dos Oliveiros e dos Roldes
vigoroso, agil e leal como elles, verdadeiro centauro, manejando um
cavallo como ainda no vi manejar seno ao general Netto--modelo
completo para um cavalleiro--estava ausente e em marcha com uma brigada
de cavallaria, para atacar Silva Tanaris, chefe imperial, que tendo
atravessado o canal de S. Gonalo, infestava esta parte da provincia
Piratini, sde do governo republicano, e pequena villa encantadora pela
sua posio e cabea de districto do mesmo nome, guarnecida por uma
populao bellicosa e essencialmente dedicada  causa da liberdade.

Na ausencia d'aquelle general, foi o ministro da fazenda quem me fez as
honras da cidade.

Agora uma palavra respectivamente ao Rio Grande, o qual, por este
nome, poderia suppor-se situado ao longo de um grande rio, ou um rio
propriamente dito.

O Rio Grande  o Lago dos Patos, e ter trinta leguas de extenso.
Alm de alguns baixos muito fundos, dos quaes mais tarde fallaremos, 
em toda essa extenso bastante profundo e povoado por caimans; sendo
formado por cinco rios, os quaes vindo terminar na extremidade do
norte, apresentam a disposio de cinco dedos da mo, da qual a palma 
o fim do lago.

Ha um ponto d'onde se descobrem perfeitamente esses cinco rios, e que
por essa razo se chamava _Viamo_--Vi a mo.

Viamo mudara, porm de nome, e chamava-se _Settembrina_ em
commemorao de haver sido em setembro proclamada a republica.

Achava-me em Piratini sem ter em que me occupar; pedi ento para fazer
parte da columna de operaes, que se dirigia sobre S. Gonalo, e era
commandada pelo presidente da republica.

Foi ento que pela primeira vez vi aquelle valente, gosando alguns
dias a sua intimidade. Era realmente o filho querido da natureza--que
lhe havia prodigalisado tudo o que torna o homem um verdadeiro
heroe.--Bento Gonalves teria ento sessenta annos. Alto, esvelto,
montava a cavallo, como j disse, com um garbo e agilidade admiraveis.
N'aquella posio ninguem o julgaria com mais de vinte e cinco
annos.--Valente e feliz, no teria hesitado um momento, como um
cavalleiro de Arioste, em atacar um gigante: tivesse elle a estatura de
Polyphemo ou a armadura de Ferragus.

Fra um dos primeiros a levantar o grito de guerra, no com vistas
de ambio pessoal, mas como qualquer outro belligerante filho
d'aquelle povo. Na campanha passava como o mais infimo habitante das
campinas; isto , com a carne assada e agua pura.--No dia em que nos
encontrmos pela primeira vez, convidou-me para o seu banquete frugal;
e conversmos com tanta familiaridade como se fossemos companheiros de
infancia e eguaes em posio. Com taes dotes naturaes e adquiridos,
Bento Gonalves era o idolo de seus concidados; porm cousa estranha,
foi quasi sempre infeliz nas emprezas guerreiras; o que me faz
acreditar que o acaso  superior ao genio para os successos da guerra,
e para a fortuna dos heroes.

Acompanhei a columna at Camodos,--passagem do canal de S. Gonalo que
liga a laga dos Patos a Meryn.

Silva Tanaris havia-se retirado precipitadamente, logo que soube da
aproximao de uma columna do exercito republicano.

No podendo alcanal-o, o presidente retrocedeu. Fiz outro tanto,
tomando o caminho de Piratini.

N'esta occasio recebemos noticia da batalha de Rio Pardo, na qual o
exercito imperial fra completamente destroado pelos republicanos.




                                 XVIII

                   ARMAMENTO DE LANCHES EM CAMACUA


Fui encarregado do armamento de dois lanches que existiam nas aguas do
Camacua, rio que corre quasi parallelo e a pouca distancia do canal de
S. Gonalo, e que como este vae desaguar no lago dos _Patos_.

Reuni alguns marinheiros vindos de Montevideo a outros que achei no
Piratini, completando ao todo uns trinta homens de diversas naes.
Infelizmente para elle tambem ali se achava o meu caro Luiz Carniglia.
Tinhamos um outro recruta francez de estatura collossal, berto, por
nascimento, a que chamavamos Joo-Grande, e outro por nome Francisco,
verdadeiro corsario, e digno _irmo da costa_.

Chegando a Camacua, encontrmos ahi o americano John Griggs, que
habitando n'uma herdade pertencente a Bento Gonalves estava
encarregado de vigiar o acabamento de dois _sloops_.

Fui nomeado chefe d'essa frota ainda em construco, com o posto de
capito-tenente. Era curioso aquelle methodo de construco que fazia
honra  bem conhecida persistencia dos americanos. Ia procurar-se
 madeira a uma parte e o ferro a outra; dois ou tres carpinteiros
cortavam e apparelhavam aquella, um mulato forjava o ferro. Foi assim
que se fabricaram os dois _sloops_, desde os pregos at aos circulos de
ferro dos mastros.

No fim de dois mezes a esquadrilha estava prompta. Cada um dos vasos
foi armado com duas peas de bronze; quarenta negros ou mulatos foram
aggregados aos trinta europeus, formando d'esse modo duas equipagens
que comprehendiam setenta homens.

O lote dos lanches seria um de dezoito, outro de doze a quinze
tonelladas.

Tomei o commando do mais forte a que puzemos o nome de _Rio-Pardo_.

John Griggs foi encarregado do segundo, que se chamou--_O Republicano_.

Rossetti tinha ficado em Piratini, incumbido da redaco do jornal _O
Povo_.

Comearam ento as nossas correrias pelo lago dos Patos. Passaram-se
alguns dias sem fazermos mais do que prezas insignificantes.

Os imperiaes tinham, para fazer frente aos nossos dois _sloops_, de
vinte e oito tonelladas, trinta navios de guerra e um barco a vapor.

Porm ns tinhamos a nosso favor os baixios das aguas.

O lago no era navegavel para os grandes barcos, se no n'uma especie
de canal que seguia ao longo da sua margem do oriente.

No lado opposto succedia o contrario, porque o solo era cortado em
declive, e ns mesmos viamo-nos s vezes encalhados antes de tocar na
margem.

Os bancos d'areia estendiam-se pela laga  similhana dos dentes de um
pente, e s havia de bom que esses dentes eram bastante affastados uns
dos outros.

Quando eramos forados a encalhar, e os canhes dos navios de guerra ou
do vapor nos incommodavam, dizia:

--vante, meus patos, saltemos  agua.

E os meus patos cahiam n'agua, e  fora de braos erguiam o lancho,
transportando-o para o outro lado do banco de areia.

No meio de todos estes pequenos acontecimentos tommos um barco
ricamente carregado que foi conduzido immediatamente para a costa
occidental do lago, junto a Camacua, aonde o queimamos depois de
havermos tirado tudo o que era aproveitavel.

Foi esta a primeira preza que fizemos, mas que valeu bem o trabalho; e
alegrou a nossa marinha. Todos tiveram a sua parte nos despojos, e com
um fundo reservado mandei fazer uniformes para todos os meus bravos.

Os imperiaes, que at ali nos haviam desprezado, no perdendo
occasio de escarnecer-nos, comearam a comprehender qual era a nossa
importancia no lago, e trataram de empregar grande numero de navios
para protegerem o seu commercio.

A vida que passavamos era laboriosa e cercada de perigos, em razo
da superioridade numerica dos inimigos; mas ao mesmo tempo essa vida
era encantadora, pittoresca, e muito em harmonia com o meu caracter.
No eramos unicamente maritimos, seriamos tambem cavalleiros no caso
de necessidade. No momento de perigo encontrariamos quantos cavallos
quizessemos, e formariamos um esquadro se no elegante, ao menos
temivel.

Nas margens da laga encontravam-se estancias que, pela aproximao
da guerra, tinham sido abandonadas pelos proprietarios, aonde achamos
muita abundancia de gado cavallar e o necessario para o seu sustento;
por outro lado nas herdades existiam terrenos cultivados, aonde
colhiamos abundancia de trigo, batata doce, e muitas vezes excellentes
laranjas; que so as melhores de toda a America do Sul.

A gente que me acompanhava verdadeira tropa cosmopolita era composta
de homens de todas as cres e de todas as naes. Tratava-os com
uma bondade, de que talvez parecessem pouco dignos, porm posso
affirmar uma coisa:  que nunca tive motivo de arrepender-me d'essa
bondade--todos obedeciam  minha primeira ordem e nunca me fatigaram,
nem me vi na necessidade de os punir.




                                  XIX

                          A ESTANCIA DA BARRA


Sobre o Camacua, aonde tinhamos o nosso pequeno arsenal, e d'onde
sahira a frota republicana, habitavam occupando uma grande extenso de
terreno as familias dos irmos de Bento Gonalves, assim como outros
parentes mais affastados; innumeraveis rebanhos se apascentavam n'esta
magnifica planicie que a guerra havia respeitado, porque se achava ao
abrigo do seu poder destruidor.

As produces agricolas achavam-se ali agglomeradas em tanta
abundancia, como no tenho ida de vr em parte alguma da Europa.

J disse em outra parte que em nenhum logar do mundo se encontra
hospitalidade mais franca e cordeal do que n'este paiz; e foi o que ns
achmos em todas as familias, nas quaes existia por ns a mais decidida
sympathia.

As estancias que por estarem mais proximas ao rio, e por esperarmos
ser ahi mais bem recebidos, procuravamos de preferencia para nos
hospedarmos, eram as de D. Anna e D. Antonia, irms do presidente.
Aquella situada  margem do Camacua, e esta nas do Arroyo Grande.

No sei se por effeito da minha imaginao, ou por um privilegio dos
meus vinte e seis annos, tudo ali era encantador aos meus olhos, e
posso assegurar que nenhuma poca da minha vida est como esta to
ligada ao meu pensamento, e nada se me apresenta mais fascinador do que
este periodo que recordo com prazer.

A casa de D. Anna era para mim um verdadeiro paraiso; posto que j no
fosse joven, esta bella senhora conservava comtudo um caracter alegre.

Tinha em sua companhia uma familia inteira, emigrada de Pelotas,
cidade da provincia, da qual era chefe o doutor Paulo Ferreira; tres
meninas que rivalisavam nos encantos, eram o perfeito ornamento d'este
delicioso recinto. Uma d'essas jovens, Manuela, era a senhora absoluta
do meu corao: sem esperana de poder possuil-a, ainda assim no podia
deixar de a amar. Era desposada de um dos filhos de Bento Gonalves.

Em um momento de perigo tive occasio de conhecer que no era
totalmente indifferente  dama dos meus pensamentos; e a certeza que
obtive da sua sympathia serviu a minorar o desgosto de nunca dever
pertencer-me.

Geralmente as mulheres do Rio Grande so bellas, e os meus
homens tornaram-se facilmente escravos d'essas bellezas; porm
conscienciosamente affirmo que nenhum d'elles tinha pelo seu idolo um
culto to puro e desinteressado como eu por Manuela. Portanto, todas as
vezes que um vento contrario, uma borrasca ou uma expedio nos levava
ao Arroyo Grande ou a Camacua, era para ns dia de festa; o pequeno
bosque de Firiva, que indica a entrada para aquella, ou o pomar das
larangeiras que occulta o caminho para a ultima, eram sempre saudados
por uma triplicada salva de _hourras_, que mostravam a fora do nosso
enthusiasmo amoroso.

Um dia, depois de havermos puchado para terra as nossas embarcaes,
descanavamos na estancia de D. Antonia, irm do presidente, a pouca
distancia de uma d'essas choupanas, aonde salgam e defumam a carne, s
quaes do no paiz o nome de _galpon de chargueada_, quando me vieram
dizer que o coronel Joo Pedro de Abreu, appellidado _Mouringue_, isto
, Foinha, em consequencia de ser muito astucioso, havia desembarcado
a duas ou tres leguas de distancia, com setenta homens de cavallaria e
oitenta de infanteria.

Havia probabilidade para acreditar esta noticia, porque depois da
tomada do barco que haviamos queimado depois de nos assenhorearmos do
mais precioso que elle tinha, sabiamos que Mouringue jurara tirar uma
boa vingana.

Esta noticia encheu-me de alegria.

Os homens commandados pelo coronel Mouringue eram mercenarios allemes
ou austriacos aos quaes ainda eu no estava enfastiado de fazer pagar
a divida que todo o bom italiano tem contrahido com os seus irmos da
Europa.

Eramos sessenta ao todo; porm eu conhecia bem esses sessenta homens,
e com elles era capaz de fazer frente no s a cento e cincoenta
austriacos, mas a trezentos.

Tratei de destacar espias para todos os lados e fiquei com uns
cincoenta homens junto a mim.

Os dez ou doze que enviara a explorar terreno, voltaram, e disseram a
uma voz:

--No vimos cousa alguma,

Havia ento um denso nevoeiro, e foi protegido por elle que o inimigo
poude subtrahir-se s suas pesquisas.

Resolvi no confiar unicamente na intelligencia humana, e quiz
interrogar tambem o instincto dos animaes.

Ordinariamente, quando qualquer expedio d'este genero se aproxima,
e homens d'outros sitios vem preparar uma emboscada junto a alguma
estancia, os animaes que sentem ruido estranho, do signaes de
inquietao, e quem tacitamente os interroga, raras vezes se engana.

Os cavallos espalhados pela minha gente, comearam a andar mui
socegados em torno da estancia, manifestando assim que nada de novo se
passava nas proximidades.

Portanto acreditando que no havia surpreza a temer, ordenei  minha
gente que arrumasse as armas, todavia carregadas, e as munies nos
cabides que mandara construir dentro da arribana, e dei-lhes o exemplo
de segurana, comeando a almoar, e convidando-os a fazer outro tanto.

Por costume, nunca se faziam rogar para este convite.

Graas a Deus, tambem nunca as munies de bocca nos faltavam.

Terminado o almoo, mandei cada um a tratar da sua occupao.

Toda a minha gente trabalhava do mesmo modo que comia; isto , sempre
com boa vontade: no se fazendo rogar: uns foram para os lanches que
estavam sobre a praia, afim de tratarem de algum arranjo de que elles
carecessem, outros dirigiram-se  forja, estes a buscar madeira para
queimar, e aquelles finalmente para a pesca.

Fiquei eu s e o mestre cosinheiro, que havia estabelecido a sua
cosinha  luz do dia, em frente da arribana, e ahi vigiava as nossas
marmitas.

Quanto a mim, saboreava voluptuosamente o meu _mate_, especie de ch do
Paraguay, que se toma de uma cabaa com o auxilio de um canudo de vidro
ou de pau.

Comtudo, no duvidava que o coronel Fuinha, sendo natural do paiz,
tivesse com a sua astucia illudido a vigilancia da minha tropa, no
causando a sua presena sobresalto aos animaes, e que estaria talvez
com os seus cento e cincoenta austriacos deitado em algum bosque a
quinhentos ou seiscentos passos de ns.

Repentinamente, com grande admirao minha, ouvi por detraz de mim,
tocar a carregar.

Voltei-me.

Infanteria e cavallaria carregavam ao gallope; cada cavalleiro trazia
um homem na garupa. Os que no tinham cavallos corriam a p agarrados
s crinas. Dei um salto e achei-me no _galpon_; fui seguido pelo
cosinheiro mas o inimigo estava to proximo de ns que no momento em
que eu transpunha o liminar da porta, senti o chapeu atravessado por
uma lana.

Ja disse que os fuzis estavam carregados na grade da mangedoura. Tinha
sessenta.

Agarrei em um e descarreguei-o, depois um segundo, e um terceiro, com
tanta rapidez, que no se poderia julgar que me achava s, e com tanta
felicidade que tres homens cahiram.

Tres outros tiros se succederam aos primeiros, e como atirava ao grupo,
todos eram funestos.

Se o inimigo, tivesse a ida de assaltar o _galpon_ estaria tudo
acabado, mas o cosinheiro tinha-se-me unido e fazia tambem fogo, de
modo que o coronel Fuinha, apesar de toda a sua esperteza, julgou que
todos ns estavamos reunidos.

Por consequencia retirou-se para uns cem passos de distancia do
alpendre, e comeou a fazer alguns tiros de quando em quando.

Foi o que me salvou.

Como o cosinheiro no era bom atirador, e na nossa situao cada tiro
perdido era uma falta irreparavel, disse-lhe que se entertesse em
carregar os fuzis que eu os iria descarregando.

Estava intimamente convencido de que a minha gente, suspeitando j
que o inimigo tinha desembarcado, e ouvindo o estrondo da fuzilaria,
comprehenderia tudo e viria em meu auxilio.

No me enganava.

O meu bravo Luiz Carniglia foi o primeiro que appareceu atravez as
nuvens de fumo que existiam entre o _galpon_ e a tropa inimiga que
fazia um fogo infernal.

Depois d'elle appareceram Ignacio Bilbao, biscainho, e um italiano
chamado Loureno. N'um momento estavam a meu lado, e comearam a
imitar-me o melhor que poderam; depois chegaram Eduardo Mutru,
Nascimento Raphael e Procopio--estes dois ultimos eram negros--e
Francisco da Silva. Queria em logar de escrever no papel, gravar no
bronze os nomes d'estes valentes companheiros, que no numero de treze
se me reuniram combatendo durante cinco horas cincoenta inimigos.

O inimigo tinha-se apoderado de todas as casas e barracas que nos
rodeavam, fazendo-nos d'ahi um fogo terrivel. Alguns dos seus soldados
haviam subido aos telhados de que tiraram as telhas, disparando-nos
tiros pelos buracos e lanando-nos fachinas accesas. Mas em quanto uns
apagavam as fachinas, e outros respondiam  fuzillaria, dois ou tres
cairam mortos pelo mesmo buraco que haviam feito. Tinhamos praticado
com as nossas bayonetas algumas setteiras na muralha do _galpon_, e por
ahi faziamos fogo quasi cobertos.

Pelas tres horas o negro Procopio deu um tiro que teve um exito feliz:
quebrou um brao ao coronel Moringue. No mesmo momento o coronel tocou
a retirada, e partiu levando os feridos, mas deixando quinze mortos no
campo da batalha.

Dos meus companheiros tive cinco feridos e tres mortos. Custou-me pois
oito homens esta refrega, que foi uma das mais serias em que me tenho
achado.

Estes combates eram tanto mais funestos para ns que no tinhamos
nem medico nem cirurgio. As feridas ligeiras eram pensadas com agua
fresca, renovando-se este medicamento o maior numero de vezes possivel.

Rossetti, que por acaso se achava com os seus companheiros em Camacua,
no se nos pde reunir, com grande pesar seu. Sendo perseguidos e
no tendo armas, foram obrigados uns a passar o rio a nado, outros a
entranharem-se na floresta: um unico foi descoberto e morto.

Este combate to perigoso e que teve to feliz resultado, deu uma
grande confiana aos meus homens e aos habitantes d'este lado do paiz,
expostos ha muito tempo s excurses d'este inimigo aventureiro e
intrepido.

Moringue foi na realidade o chefe mais habilitado que tiveram os
imperiaes. Era muito apto para estas emprezas, e devo dizer que sempre
se tinha conduzido com uma finura que lhe teria merecido o appellido de
_Fuinha_, se j o no tivesse.

Nascido no paiz, que como j disse, conhecia perfeitamente, e dotado de
uma astucia e intrepidez a toda a prova, causou graves prejuizos aos
republicanos, e o imperio do Brazil deve-lhe sem duvida alguma a melhor
parte na submisso d'esta corajosa provincia.

Celebrmos a nossa victoria. D. Antonia deu em nossa honra uma festa na
sua estancia, distante doze milhas do _galpon_, em que tinha tido logar
o combate.

Foi n'esta festa que eu soube que uma linda menina, constando-lhe o
perigo que eu corria, havia impallidecido e perguntado com toda a
anciedade noticias minhas. Esta noticia foi mais agradavel para mim,
do que a victoria sanguinolenta que poucos momentos antes tinha ganho.
Como me achava soberbo e feliz por lhe pertencer, ainda que no fosse
seno pelo pensamento. Devia pertencer a outro, mas a sorte havia-me
destinado essa flor do Brazil, que eternamente chorarei. No era s
nos prazeres e alegrias que a encontrava sempre a meu lado, foi na
adversidade que eu conhecia o quanto valia o nobre corao da me de
meus filhos.

Annita! cara Annita!




                                  XX

                      EXPEDIO A SANTA CATHARINA


Depois d'este successo nada de importante nos succedeu no lago dos
Patos.

Comemos a construco de dois novos lanches. Os elementos primarios
tinham-se achado na preza antecedente, e em quanto  sua confeco
eramos coadjuvados valorosamente pelos habitantes da visinhana.

Tinham-se apenas acabado e armado os dois novos navios de guerra,
quando fomos avisados para nos juntarmos ao exercito republicano que
ento sitiava Porto-Alegre, capital da provincia. O exercito e ns no
fizemos cousa alguma em quanto estivemos n'esta parte do lago.

No obstante este cerco era dirigido por Bento Manuel em quem todos
reconheciam um grande merito como soldado, como general e como
organisador. Foi este que depois trahindo os republicanos se passou aos
imperiaes.

Pensava-se ento na expedico de Santa Catharina. Fui convidado para
tomar parte n'ella, debaixo das ordens do general Canavarro.

Havia no cumprimento d'este projecto uma grande difficuldade que era
o sahirmos da laga, visto que a embocadura estava guardada pelos
imperiaes.

Na margem meridional estava a cidade fortificada do Rio Grande do
Sul, e na margem septentrional S. Jos do Norte, cidade mais pequena,
mas fortificada tambem. Estas duas praas, bem como Porto Alegre,
achavam-se em poder dos imperiaes tornando-se por isso senhores da
entrada e sahida do lago. Possuiam,  verdade, unicamente estas duas
praas, mas ellas eram bastante importantes pela sua posio.

Para homens como os que tinha debaixo das minhas ordens no havia
comtudo coisa alguma impossivel.

Formei ento o seguinte plano de guerra. Os dous mais pequenos lanches
ficavam na laga, sendo seu chefe o excellente maritimo Zeferino
d'Ultra. Eu com os outros dous lanches tendo debaixo das minhas ordens
Griggs e os melhores dos nossos aventureiros acompanharia a expedio
operando por mar em quanto o general Canavarro operava por terra.

Era um bello plano, mas era mui difficil pela sua execuo.

Propuz ento que se construissem duas carretas d'um tamanho e solidez
necessaria para collocar em cada uma d'ellas um lancho, devendo-se
atrelar a cada carreta o numero de cavallos e bois sufficientes para as
poderem puchar.

A minha proposta foi adoptada, e fui encarregado de lhe dar execuo.

Pensando ento maduramente n'este projecto fiz-lhe as seguintes
modificaes.

Mandei construir por um habil carpinteiro chamado Abreu oito enormes
rodas de uma solidez a toda a prova para poderem sustentar o
extraordinario peso que devia supportar.

N'uma das extremidades do lago--a que  opposta ao Rio Grande do
Sul--isto , ao noroeste, existe no fundo de um barranco um pequeno
ribeiro que corre do lago dos Patos ao lago Tramandai, ao qual
tratavamos de transportar os dous lanches.

Fiz descer a este barranco um dos nossos carros, depois levantmos o
lancho at que aquelle estivesse em cima do carro. Cem bois mansos
foram atrelados, e vi ento com grande satisfao o maior dos nossos
lanches caminhar como se fosse uma penna.

O segundo carro desceu por sua vez, e como no primeiro obtivemos um
exito feliz.

Os habitantes gosaram ento d'um espectaculo curioso e desusado, isto
, verem dois navios em cima de duas carretas, e puxados por duzentos
bois, atravessarem cincoenta e quatro milhas, isto , dezoito leguas,
sem a menor difficuldade, sem o mais pequeno incidente.

Chegados  margem do lago Tramandai os lanches foram deitados ao mar
do mesmo modo porque tinham sido embarcados. Necessitavam de alguns
pequenos reparos, que no fim de tres dias estavam concluidos.

O lago Tramandai  formado por aguas que tem a sua fonte nos montes
d'Epinasso, e finalisa-o no Atlantico.  pouco fundo, pois nas maiores
enchentes s tem quatro ou cinco ps d'agua. N'esta parte da costa
reinam sempre grandes tempestades.

O estrondo que o mar faz batendo n'estes rochedos, que os marinheiros
chamam cavallos, por causa da espuma que fazem voar em roda d'elles,
ouve-se a muitas milhas de distancia, e muitas vezes  tomado pelo
rumor da tormenta.




                                  XXI

                          PARTIDA E NAUFRAGIO


Promptos a partir espermos pela mar cheia, sahindo s quatro horas da
tarde.

Foi n'esta occasio que soubemos apreciar o bem que nos resultava
da pratica que tinhamos de navegar entre os rochedos. No obstante
esta pratica, no sei hoje dizer porque audaciosa ou antes porque
habil manobra chegmos a tirar os nossos navios d'entre os rochedos,
ainda que tivessemos, como j disse, escolhido a mar cheia. O fundo
necessario para navegarmos faltava-nos por toda a parte, foi pois s
ao cair da noite que os nossos esforos obtiveram um resultado feliz
conseguindo deitar ancora no Oceano.

Julgo conveniente dizer que os nossos navios foram os primeiros que
sahiram do lago Tramandai.

s oito horas da noite levantmos ancora e comemos a nossa viagem.

No dia seguinte pelas tres horas da tarde tinhamos naufragado na
embocadura do Aserigua, rio que tem a sua nascente na serra Espinasso,
e que se lana ao mar na provincia de Santa Catharina, entre as torres
e Santa Maura.

De trinta homens da equipagem, dezeseis affogaram-se.

Direi em duas palavras como aconteceu esta terrivel catastrophe.

No momento da nossa partida, o vento do meio dia comeava a apparecer.
Corriamos parallelos  costa. O _Rio Pardo_ tinha, como j disse,
trinta homens de equipagem, uma pea de doze, uma grande poro de
caixas, e outros objectos de toda a especie, que tinhamos levado por
precauo, por no sabermos o tempo que estariamos no mar, e a que
praia chegariamos, e qual seriam as circumstancias em que estaria essa
praia no momento em que nos dirigiamos para um paiz inimigo.

O lancho achava-se pois mui subcarregado, e as vagas cobrindo-o de
minuto em minuto, ameaavam submergil-o. Resolvi ento aproximar-me
da costa e tomar terra na parte que me pareceu accessivel; mas o mar
que ia sempre crescendo, no nos deixou escolher a posio que nos
convinha, e uma vaga enorme nos arremeou para a costa.

Estava n'essa occasio na parte mais elevada do mastro do traquete,
d'onde esperava descobrir uma passagem atravez os rochedos. O lancho
inclinou-se sobre o estribordo e eu fui lanado a trinta ps de
distancia.

Ainda que estivesse n'uma posio perigosa, a confiana que tinha nas
minhas foras como nadador, fez com que no pensasse um unico momento
na morte, e tendo comigo alguns companheiros, que no eram marinheiros,
e que momentos antes tinha visto deitados no tombadilho e mui enjoados;
em logar de nadar para a costa, comecei a reunir uma parte dos
objectos, que pela sua ligeireza promettiam conservar-se  superficie,
e comecei a empurral-os para o navio gritando aos meus homens que se
lanassem ao mar e que apanhassem alguns d'aquelles objectos, tratando
de ganhar a costa que se achava na distancia de uma milha. O navio
tinha-se afundado, mas a mastreao conservava-o com os seus flancos de
bombordo fra de agua.

O primeiro que eu vi agarrado s enxarcias foi Eduardo Mutru um
dos meus melhores amigos: atirei-lhe um fragmento da escotilha
recommendando-lhe que o no alargasse.

Este estando quasi salvo, lancei os olhos para o navio.

Vi ento o meu caro e corajoso Luiz Carniglia. Estava ao leme no
momento da catastrophe, e havia ficado agarrado  popa do navio.
Infelizmente estava n'esta occasio vestido com uma jaqueta de uma
enorme roda. No havia tido tempo de a tirar, no podendo por isso
nadar em quanto a tivesse vestida. Vendo que me dirigia para elle
comeou a gritar.

--Agarra-te bem, lhe respondi, que j te dou soccorro.

Subindo ao navio como o teria podido fazer um gato, cheguei ate junto
d'elle; agarrei-me com uma mo a uma borda, e com a outra tirando da
algibeira uma faca que infelizmente cortava pessimamente, comecei
a rasgar as costas da jaleca. Tinha quasi finalisado esta minha
ardua tarefa, e Carniglia estava quasi salvo, quando um golpe de mar
horrivel, envolvendo-nos fez em pedaos o navio e lanou ao mar os
homens que ainda se conservavam a bordo.

Carniglia foi tambem precipitado e no tornou a apparecer.

Lanado ao fundo do mar como um projectil, voltei  superficie todo
aturdido, mas tendo uma unica ida--a de soccorrer ao meu charo Luiz.
Comecei a nadar em volta da carcassa do navio chamando-o em altos
gritos, mas elle no me respondeu. Esse bom amigo que j me tinha salvo
a vida, tinha morrido sem eu o poder soccorrer.

No momento em que abandonava a esperana de salvar Carniglia, lancei
os olhos em volta de mim. Por uma graa especial de Deus, n'este
momento de agonia para todo o mundo, no pensei um unico momento em mim
tratando unicamente dos outros.

Vi ento os meus companheiros nadando para a praia, separados uns dos
outros segundo a sua agilidade ou fora. Alcancei-os em um momento
e animando-os com os meus gritos, passei-lhe adiante, sendo um dos
primeiros a atravessar os rochedos, cortando para isso vagas to altas
como montanhas.

Puz p em terra. Mas a dr por perder o meu pobre Carniglia,
deixando-me indifferente sobre a minha propria sorte, dava-lhe uma
fora invencivel.

Apenas tinha posto p em terra que me voltei movido por uma derradeira
esperana.

Pde ser, ir vr Luiz.

Interroguei todas essas figuras assustadas, mas todas me davam a mesma
resposta. J no me restava esperana alguma.

Vi ento Eduardo Mutru, que depois de Carniglia era quem eu
estimava mais, e a quem tinha passado um fragmento da escotilha
recommendando-lhe que se agarrasse com toda a fora. A violencia das
vagas tinha-lhe, sem duvida, tirado este apoio. Ainda nadava, mas pela
convulso dos seus movimentos indicava a extremidade a que se achava
reduzido. J disse como o amava, era pois o segundo irmo que ia perder
no mesmo dia. No quiz em um momento perder tudo o que mais presava
no mundo. Lancei ao mar os restos do navio que me tinham servido para
ajudar a ganhar a praia, e lancei-me de novo ao mar, indo novamente
affrontar um perigo ao qual tinha poucos momentos antes escapado. No
fim d'um minuto s algumas braas me separavam de Eduardo.

--Coragem... Coragem, lhe disse eu.

V esperana, vos esforos! No momento em que encaminhava para elle o
pedao de madeira salvadora desappareceu.

Dei um grito, e mergulhei. Depois no encontrando o meu pobre amigo
julguei que teria vindo  superficie. Voltei tambem: Ninguem! Mergulhei
de novo e de novo voltei ao cimo d'agua. Dei gritos desesperados, mas
tudo foi em vo. Eduardo Mutru tinha tambem sido engolido por esse
Oceano que elle no tinha tido receio de atravessar para, unindo-se-me,
servir a causa dos povos.

Ainda um martyr da liberdade italiana que no teve um tumulo, uma cruz!

Os cadaveres dos dezeseis afogados que ns contamos n'este desastre,
fieis companheiros das minhas aventuras, foram arremeados pelas vagas
a mais de trinta milhas de distancia para o norte. Procurei ento entre
os quatorze que haviam escapado e que n'este momento estavam na praia,
um rosto amigo, uma figura italiana.

Nenhuma!

Os seis italianos que me acompanhavam estavam mortos. Carniglia, Mutru,
Staderini, Nadonne e Giovanni... No me recordo do nome do sexto.

Peo perdo  patria por o haver esquecido, bem sei que escrevo estas
memorias doze annos depois d'estes successos terem logar, bem sei que
muitos acontecimentos to terriveis como o que acabo de descrever, tem
tido logar na minha vida; bem sei que vi cair uma nao, e que tentei
defender uma cidade; bem sei que perseguido, exilado, e tratado como um
animal feroz, depuz no tumulo a mulher a quem amava mais que a propria
vida, bem sei que depois de fechado o seu tumulo fui obrigado a fugir
como os condemnados de Dante; bem sei que no tenho um asylo, e que do
extremo d'Africa onde me acho, olho para essa Europa que me repelle
como um bandido, apesar de no ter tido at hoje seno um pensamento,
um amor--a patria; sei tudo isto, mas no obstante devia-me lembrar
d'esse nome.

E comtudo no o sei!!

Tanger, maro de 1857.--_G. G._




                                 XXII

                              JOO GRIGGS


Os melhores nadadores tinham succumbido! Sem duvida confiando na
sua habilidade, no se tinham querido apoderar dos restos do navio,
esperando suster-se na agua sem este soccorro, em quanto que ao
contrario, entre os que via sos e salvos estavam alguns americanos que
em muitas occasies tinha visto embaraados, por terem de atravessar um
pequeno rio de dez a doze ps de largo.

Parecia-me isto estranho, e comtudo era a verdade.

O mundo era para mim um deserto.

Assentei-me na praia, e encostando a cabea s mos julguei que ia
chorar.

No meio da minha atonia ouvi um gemido.

Lembrei-me ento que no obstante serem-me esses homens desconhecidos,
visto que eu era seu chefe no combate e no naufragio, devia tambem
sel-o na desgraa.

Ergui a cabea.

--Que tem, perguntei, e quem se queixa?

Duas ou tres vozes me responderam:

--Tenho frio.

Eu que at ento no tinha pensado em tal, comecei tambem a sentil-o.

Levantei-me e enchugei-me. Alguns dos meus companheiros estavam j
assentados ou deitados para nunca mais se levantarem.

Chamei em meu auxilio os mais vigorosos, e obriguei os que se achavam
tolhidos a erguerem-se. Peguei-lhe por uma mo, e disse aos que ainda
no haviam perdido totalmente as foras que fizessem outro tanto,
gritando:

--Corramos!

E dei ao mesmo tempo o exemplo.

No principio sentimos uma grande difficuldade, ou para melhor dizer,
uma grande dr por sermos obrigados a fazer mover os nossos membros
tolhidos pelo frio, mas em pouco tempo comemos a sentir algum calor.

Entregmo-nos durante uma hora a este exercicio. No fim d'este espao,
o nosso sangue aquecendo tinha recomeado a sua circulao.

Estavamos ento perto do rio Aserigue. Dirigimo-nos pela sua margem
direita, e a quatro milhas encontrmos uma estancia, e n'ella a
hospitalidade que existe sempre em todas as casas americanas.

O nosso segundo lancho, commandado por Griggs, chamado o _Seival_,
um pouco maior que o _Rio Pardo_, mas de construco differente, pde
luctar contra a tempestade, seguindo a sua viagem.

 necessario dizer que Griggs era um excellente maritimo.

No sei se manh serei obrigado a deixar o asylo, onde me acho
actualmente. No sei pois se mais tarde terei occasio de dizer d'este
excellente e valeroso mancebo tudo o que penso d'elle, vou pois,
aproveitando esta occasio, pagar o tributo que devo  sua memoria.

Pobre Griggs! tenho apenas dito duas palavras a seu respeito, e comtudo
onde encontrei eu um homem mais corajoso e com melhor caracter?
Nascido d'uma familia rica, tinha vindo offerecer o seu ouro, a sua
intelligencia, e o seu sangue  republica nascente, dando-lhe tudo
quanto havia offerecido. Um dia chegou uma carta d'um dos seus parentes
da America do Norte, convidando-o a ir receber uma herana enorme.
Mas Griggs j havia recebido a mais bella herana que se pde dar a um
homem de convico e f,--a cora do martyrio. Tinha morrido defendendo
um povo desgraado, mas generoso e valente.

E eu que tinha visto tantas mortes gloriosas, vi o corpo do meu
infeliz amigo cortado em dois como o tronco de um carvalho pela hacha
do lenhador. Um tiro de metralha o tinha ferido na distancia de vinte
passos, no dia em que com um dos meus companheiros, largando o fogo 
esquadrilha, por ordem do general Canavarro, subi ao navio de Griggs
que acabava de ser litteralmente fulminado pela esquadra inimiga.

Oh! liberdade! liberdade! que rainha da terra se pde encher de orgulho
por ter um cortejo de heroes como tu tens no ceu!!




                                 XXIII

                            SANTA CATHARINA


Felizmente a parte da provincia de Santa Catharina onde haviamos
naufragado, tinha-se tambem revoltado contra o imperador, logo que
souberam da aproximao das tropas republicanas. Em logar pois de
encontrar inimigos, achamos alliados, em logar de sermos combatidos
fomos festejados, e obtivemos em um momento todos os meios de
transporte de que aquelles pobres habitantes podiam dispr.

O capito Balduino offereceu-me o seu cavallo, e pozemo-nos
immediatamente em marcha para alcanar a guarda avanada do general
Canavarro, commandada pelo coronel Teixeira, que se dirigia a toda a
pressa sobre o lago de Santa Catharina, esperando surprehendel-o.[6]

  [6] A provincia de Santa Catharina foi dada em dote pelo
  imperador a sua irm, quando ella casou com o principe de
  Joinville.

Devo confessar que no tivemos grande difficuldade em nos apoderarmos
da pequena cidade que precede o lago e que por isso tem o seu nome.
A guarnio fugiu precipitadamente, e tres pequenos navios de guerra
renderam-se depois de um fraco combate. Passei ento com os meus
naufragos para bordo da goleta _Itaparika_, que estava armada com sete
canhes.

Durante os primeiros dias d'esta occupao, a fortuna parecia ter feito
um pacto com os republicanos. No temendo uma invaso to repentina
da nossa parte, de quem s tinham noticias de quando em quando, os
imperiaes tinham mandado guarnecer aquella povoao com soldados, armas
e munies. Mas estas cahiram em nosso poder, porque chegaram depois de
estarmos senhores da cidade.

Os habitantes tratavam-nos como irmos e libertadores, titulo que
infelizmente no soubemos justificar em quanto estivemos n'esta
povoao amiga.

Canavarro estabeleceu o seu quartel general em Santa Catharina,
chamada pelos republicanos _Giuliana_, por que tinham ali entrado no
mez de julho. O general permittiu a creao de um governo provincial
de que foi presidente um sacerdote veneravel, que exercia um grande
prestigio no povo. Rossetti com o titulo de secretario do governo era
verdadeiramente a sua alma. Rossetti estava talhado para todos os
empregos!

Tudo marchava s mil maravilhas. O coronel Teixeira com a sua columna
avanada tinha perseguido o inimigo at o encerrar na capital da
provincia, apoderando-se de quasi todo o paiz. Por toda a parte eramos
recebidos com os braos abertos, e todos os dias se nos juntavam
desertores imperiaes.

O general Canavarro traava magnificos planos. Rude na apparencia,
excellente no fundo, tinha o costume de dizer que do lago de Santa
Catharina sahiria a hydra que devoraria o imperio, e talvez tivesse
razo se houvessem olhado para esta expedio com mais juizo e
atteno. Infelizmente as nossas maneiras orgulhosas para com os
habitantes e a insufficiencia dos meios que tinhamos  nossa disposio
fizeram perder o fructo d'esta brilhante campanha.




                                 XXIV

                              UMA MULHER


Nunca havia pensado no casamento, visto que me considerava incapaz de
ser um bom marido por causa da minha grande independencia de caracter
e decidida paixo pelas aventuras. Ter mulher e filhos parecia
humanamente impossivel ao homem que consagrou a sua vida a um principio
de que o successo, por mais completo que seja, no pde deixar nunca
o socego necessario a um chefe de familia. O destino havia decidido o
contrario: depois da morte de Luiz, Eduardo e dos meus outros amigos,
achava-me n'um isolamento completo, parecendo-me existir s no mundo.

No me havia ficado um s d'esses amigos de que o corao tem
necessidade como a vida de alimento. Os que tinham escapado, eram
como j disse, estrangeiros. Eram sem duvida dotados de um excellente
corao, mas conhecia-os  pouco tempo para ter com elles grande
intimidade. N'esse espao enorme que aquella terrivel catastrophe
tinha feito em volta de mim, sentia a necessidade d'uma alma que me
amasse, porque sem essa alma, a existencia era-me insuportavel, quasi
impossivel. Havia,  verdade, encontrado Rossetti, isto , um irmo;
mas Rossetti obrigado pelos deveres do seu emprego no podia viver
comigo, vendo-o apenas uma vez por semana. Tinha pois necessidade
d'alguem que me amasse. A amisade  fructo do tempo, e  por isso
necessario muitos annos para amadurecer, em quanto que o amor  como o
relampago, filho muitas vezes da tempestade. Mas que importava! No sou
eu dos que preferem as tempestades  bonana e socego d'alma.

Era pois uma mulher que se me tornava necessaria, s uma mulher
me podia curar, uma mulher quer diser, o unico refugio, um anjo
consolador, a estrella da tempestade. A mulher  uma divindade que
nunca se implora em vo, especialmente quando se  desgraado.

Era com este incessante pensamento que, do meu camarote a bordo do
_Itarapika_, voltava sem cessar o meu olhar para a terra. D'ahi
descobria formosas meninas occupadas em differentes trabalhos
domesticos. Uma d'ellas, principalmente, attraia-me a atteno.
Mandaram-me desembarcar e immediatamente me encaminhei para a
casa sobre que ha tanto tempo se fixava o meu olhar. O corao
batia-me apressado, mas tinha formado uma d'essas resolues que
uma vez tomadas, nunca mais enfraquecem.--Um homem convidou-me a
entrar,--teria-o feito ainda mesmo que elle o prohibisse--tinha-o
visto uma vez--vi sua filha e disse-lhe: Virgem pertences-me!
Havia por estas simples palavras creado um lao que s a morte podia
quebrar.--Tinha encontrado um thesouro prohibido, mas de tal preo!...
Se houve uma falta commettida, a responsabilidade s a mim pertence;
se foi uma falta, unirem-se dois coraes, despedaando a alma de um
innocente.

Mas ella est morta e elle vingado--Onde conheci a grandeza da minha
falta?--Na embocadura do Cridam no dia em que esperando disputal-a
 morte, lhe apertava convulsivamente o pulso para contar as suas
ultimas pulsaes, absorvendo o seu alento fugitivo...... Beijava os
seus labios muribundos, e apertava nos meus braos um cadaver chorando
lagrimas de desesperao.[7]

  [7] Quando acabei de lr este capitulo fiquei admirado de o vr
  pouco comprehensivel. Voltei-me para Garibaldi, e disse-lhe:

  --L isso, acho ahi uma grande falta.

  Lu, e depois de um momento de silencio, disse-me suspirando:

  -- necessario que isso fique como est.

  Dous dias depois recebi um manuscripto intitulado--_Annita
  Garibaldi_.




                                  XXV

                              O CRUZEIRO


O general tinha determinado que eu sahisse com tres navios armados
para atacar as bandeiras imperiaes que crusavam na costa do Brasil.
Preparei-me para cumprir esta ardua tarefa, reunindo todos os elementos
necessarios ao meu armamento. Os meus tres navios eram o _Rio Pardo_,
commandado por mim--a _Cassapara_, por Griggs, ambos goletas e o
_Seival_ commandado pelo italiano Loureno. A embocadura do lago estava
bloqueada pelos navios de guerra imperiaes, mas apesar d'isso sahimos
de noute e sem ser incommodados.--Annita, ento companhia de toda a
minha vida, e por consequencia, de todos os meus perigos, tinha querido
acompanhar-me.

Chegados  altura de Santos, encontrmos uma corveta imperial,
que durante dois dias, nos deu caa inutilmente. No segundo dia
aproximamo-nos da ilha do _Abrigo_ onde tommos duas sumacas carregadas
de arroz. Continumos o cruzeiro e fizemos mais algumas prezas. Oito
dias depois da nossa partida dirigi-me para o lago.

No sei porque, tinha um sinistro presentimento do que ali se passava,
visto que antes da nossa partida j um certo descontentamento se
manifestava contra ns. Estava alm d'isso prevenido da aproximao
d'um corpo consideravel de tropas, commandadas pelo general Andra a
quem a pacificao do Par, tinha dado uma grande reputao.

Na altura da ilha de Santa Catharina, quando voltavamos, encontrmos
um patacho de guerra brasileiro.--Tinha unicamente comigo dous navios
o _Rio Pardo_ e o _Seival_, porque a _Cassapara_ havia muitos dias
que se tinha separado de ns por causa d'um grande nevoeiro. Quando
descobrimos o navio inimigo estava na nossa pra, por isso no havia
meio de o evitar. Navegmos ento direitos a elle e o atacmol-o
resolutamente. Comemos o fogo e o inimigo respondeu-nos, mas
este combate teve um exito mediocre por causa do muito mar.--O seu
resultado foi a perda de algumas das nossas presas, porque os seus
commandantes assustados pela superioridade do inimigo baixaram os
pavilhes.--Outros deram  costa.

Uma s das nossas presas foi salva. Era capitaneada por Ignacio Bilbo,
o nosso bravo biscainho que o conduzio a Imbituba, que ento se achava
em nosso poder. O _Seival_ tendo a pea desmontada e fazendo agua,
tomou o mesmo caminho, e eu fui obrigado a seguil-os por que estava com
mui poucas foras para andar s no mar.

Entrmos em Imbituba, impellidos pelo nordeste. Com este vento
era-nos impossivel entrar no lago e com certeza os navios imperiaes
estacionados em Santa Catharina, informados pelo _Andorinha_, assim se
chamava o navio de guerra com que tinhamos combatido, no tardariam a
vir atacar-nos; era pois necessario prepararmo-nos para o combate. O
canho desmontado do _Seival_ foi iado n'um promontorio que fechava
a bahia do lado do levante, e ahi construimos uma bateria coberta com
cestes.

Com effeito no dia seguinte ao apparecer da aurora vimos tres navios
dirigindo-se para ns. O _Rio Pardo_, comeou ento um combate mui
desigual, porque os imperiaes nos eram mui superiores em numero.

Havia querido desembarcar Annita, mas ella no tinha consentido, e como
do fundo da minha alma admirava a sua coragem e me achava orgulhoso
pelo seu valor, cedi aos seus rogos.

O inimigo favorecido na sua manobra pelo vento que ento fazia,
manteve-se  vla canhoneando-nos furiosamente. Podia d'esta maneira
aproveitar todos os seus canhes dirigindo todo o seu fogo contra a
nossa goleta. Ns, pelo nosso lado, combatiamos com a mais obstinada
resoluo e como estavamos to perto que nos podiamos servir das nossas
clavinas; as perdas eram de parte a parte importantes. As nossas
comtudo eram mais numerosas em razo da inferioridade numerica, e a
coberta ja se achava cheia de mortos e feridos. Apesar de tudo isto,
apesar do flanco do nosso navio estar crivado de ballas, da nossa
mastreao ter avaria, estavamos resolvidos a no ceder deixando-nos
matar at ao ultimo.  verdade que eramos conservados n'esta resoluo
pela vista da amazona brasileira que estava a bordo. Annita, que, como
ja disse, no havia querido desembarcar, tinha tambem tomado parte no
combate, e com a clavina na mo coadjuva-nos admiravelmente. Eramos
tambem, devo dizel-o, perfeitamente sustentados pelo bravo Manuel
Rodrigues, commandante da nossa bateria de terra.

O inimigo estava mui encarniado especialmente contra a goleta.
Muitas vezes durante este combate, aproximou-se tanto que julguei hia
abordal-a, o que me dava muito prazer, porque estavamos preparados para
tudo.

No fim de cinco horas de uma lucta terrivel, o inimigo, com grande
admirao nossa, retirou-se. Soubemos depois que a morte do capito da
_Bella-Americana_ tinha sido a causa.

Tive durante este combate uma das mais vivas e crueis emoes da minha
vida. Annita achava-se de sabre em punho em cima do tombadilho animando
os meus homens. Repentinamente uma balla a derribou e a dous dos meus
camaradas. Corri para ella, julgando no encontrar mais que um cadaver,
mas Annita levantou-se sa e salva; os dous homens estavam mortos;
suppliquei-lhe ento que descesse para a camara.

--Sim, vou descer, me disse ella, mas  para enxutar os poltres que l
se foram esconder.

E bem depressa tornou a apparecer trazendo adiante de si dous ou tres
marinheiros envergonhados por serem menos bravos que uma mulher.

Passmos o resto do dia a sepultar os mortos e a reparar as avarias,
que no eram pequenas, causadas  goleta pelo fogo do inimigo. No dia
seguinte os imperiaes no appareceram, porque sem duvida se preparavam
para algum novo ataque; vendo isto embarcmos o nosso canho e
levantando ancora pela noite, dirigimo-nos para o lago.

Quando o inimigo deu pela nossa partida, comeou a perseguir-nos, mas
s no dia seguinte  que nos poude enviar algumas ballas que no nos
causaram prejuizo algum. Entrmos, pois, sem outro incidente no lago
onde fomos festejados pelos nossos que se admiravam de termos escapado
a um inimigo to superior em numero.




                                 XXVI

                            SAQUE DE IMERUI


Outros acontecimentos nos esperavam no lago.

Como o inimigo continuava a avanar por terra, e em tal numero que
era loucura o tentar resistir-lhe, e como por outro lado as nossas
tolices e brutalidades nos tinham indisposto com os habitantes de
Santa Catharina que estavam promptos a revoltarem-se e a reunirem-se
aos imperiaes, tendo-se j rebellado a cidade de Imerui, situada na
extremidade do lago, foi-me determinado pelo general Canavarro que
fosse castigar este desgraado paiz, pelo ferro e pelo fogo: vi-me
obrigado obedecer a esta ordem.

Como os habitantes e a guarnio tinham feito preparativos de defeza
pelo lado do mar, desembarquei ento a tres milhas de distancia,
e assaltei-os, no momento em que menos o esperavam, pelo lado da
montanha. Surprehendida e batida a guarnio, foi posta em fuga,
achando-nos senhores da cidade.

Desejo no s para mim, para todos os individuos, o no receber uma
ordem igual  que eu tinha recebido, e que era por tal modo terminante,
que no havia meio de a illudir. Ainda que existam longas e prolixas
relaes de acontecimentos iguaes, julgo impossivel que a mais terrivel
se aproxima da verdade. Deus me perde! mas no tenho em toda a minha
vida, successo que me deixasse to amargas recordaes como o saque
de Imerui. Ninguem pde fazer ida do que soffri para alcanar que,
deixando livre a pilhagem, no se attentasse contra a vida de pessoa
alguma, limitando a destruio s coisas inanimadas, alcancei o que
pertendia, mas emquanto s propriedades foi impossivel evitar a
desordem. Nem a authoridade de commandante, nem os castigos poderam
alcanar coisa alguma. Cheguei a ameaal-os com a volta do inimigo.

Espalhei o boato de que elle tendo recebido reforos vinha atacar-nos;
mas tudo foi inutil, e na verdade, se o inimigo tornasse atraz
achando-nos assim debandados teria-nos, sem muita difficuldade,
anniquillado. Infelizmente, a cidade ainda que pequena, tinha muitos
armazens cheios de vinho e licres, de modo, que exceptuando-me, porque
no bebo seno agua, e alguns officiaes que consegui conservar ao p de
mim, tudo se achava embriagado. Alm d'isso os meus soldados eram na
sua maioria recrutas, homens que eu apenas conhecia, e por conseguinte
indisciplinados. Cincoenta soldados determinados atacando-nos de
improviso teria-nos desbaratado. Emfim  fora de ameaas e esforos
consegui reembarcar estes animaes selvagens.

Conduziram a bordo alguns viveres e objectos salvos da pilhagem,
destinados  diviso e voltamos ao lago.

Durante este tempo o coronel Teixeira com a sua vanguarda retirava-se
diante do inimigo que avanava rapido e vigoroso.

Quando chegmos ao lago, comeavam a conduzir as bagagens  margem
direita, e bem depressa os soldados deviam seguil-as.




                                 XXVII

                            NOVOS COMBATES


Tive muito que fazer no dia em que se effectuou a passagem da diviso
para a margem meridional, porque, se o exercito era pouco numeroso
as bagagens pareciam no ter fim.--Na parte mais estreita do rio a
corrente redobrava de violencia.--Trabalhmos pois desde o nascer do
sol at ao meio dia para fazer passar a diviso.

Pelo meio dia comeou a apparecer a flotilha inimiga, composta de vinte
e duas vlas. Combinavam os seus movimentos com a tropa de terra, e
traziam a bordo alm de equipagem grande numero de soldados. Subi 
montanha mais proxima para observar o inimigo, e vi immediatamente que
o seu plano era reunir as suas foras  entrada do lago. Dei logo parte
ao general Canavarro que no mesmo momento deu as ordens convenientes,
mas no obstante essas ordens os nossos homens no chegaram a tempo
de defender a entrada do lago. Uma bateria que haviamos construido
na embocadura do lago e que era dirigida pelo bravo Capotto resistiu
fracamente, pois no tinha seno peas de pequeno calibre, e alem
d'isso mal servidas por artilheiros inhabeis. Os nossos tres pequenos
navios estavam reduzidos  metade da equipagem, porque a outra metade
tendo sido mandada para terra para coadjuvar a passagem das tropas, no
se nos juntou, deixando-nos ss para combater um to temivel inimigo.

Durante este tempo o inimigo ajudado pelo vento e mare vinha para ns
com toda a fora. Dirigi-me ento a toda a pressa para o meu posto a
bordo do _Rio Pardo_, onde j a minha corajosa Annita tinha comeado
o combate, apontando e dando ella mesmo fogo  pea de que se tinha
encarregado, animando com a voz e o exemplo os meus companheiros um
pouco atemorisados.

O combate foi horrivel e mais mortifero que se poderia julgar. Tive
poucos mortos, porque, como j disse, metade da equipagem estava em
terra, mas dos seis officiaes que estavam nos tres navios s eu escapei
so e salvo.

Todas as nossas peas estavam desmontadas, mas o combale continuou 
clavina e no cessmos de atirar em quanto o inimigo passou por diante
de ns. Durante o combate Annita ficou sempre ao meu lado, no posto
mais perigoso, no querendo nem desembarcar nem aproveitar-se de nenhum
alivio, e despresando mesmo o inclinar-se como faz o homem mais bravo,
quando v a mecha aproximar-se do canho inimigo.

Soffrendo mil cuidados por a vr exposta a tantos perigos, julguei
encontrar um meio de affastar.

Ordenei-lhe, foi necessario uma ordem, para me obedecer que fosse pedir
reforo ao general dando-lhe a minha palavra de que se me enviasse
esse reforo entraria no lago perseguindo os imperiaes e tratando-os
de tal maneira que elles no pensariam em desembarcar, embora tivesse
que largar o fogo  sua flotilha. Obriguei Annita a prometter-me que
ficaria em terra enviando-me a resposta por um homem seguro; mas com
bastante pesar meu foi Annita, que trouxe a resposta do general:

No tinha soldados para me mandar, e ordenava-me que no largasse o
fogo  esquadra inimiga, mas que viesse para a terra salvando as armas
e munies.

Obedeci. Ento debaixo de um fogo que no cessou um momento,
conseguimos fazer transportar a terra as armas e munies. Foi Annita
quem  falta de officiaes dirigiu esta operao em quanto eu passando
de um navio a outro collocava no logar mais inflamavel de cada um
d'elles, o fogo que o devia devorar.

Foi uma misso terrivel que me fez passar uma triplece revista de
mortos e feridos. Era um verdadeiro aougue de carne humana; andava-se
por cima de montes de cadaveres. O commandante do _Itaparika_ Joo
Henriques de la Laguna estava deitado no meio de dous teros da sua
equipagem com uma balla que lhe tinha feito no meio do peito um buraco
por onde podia entrar perfeitamente um brao. O pobre Joo Griggs
tinha, como j disse, o corpo separado em dois por um tiro de metralha.
Fiquei suffocado, com a vista de similhante espectaculo, e perguntei a
mim mesmo como poderia ter escapado.

N'um momento uma nuvem de fumo envolveu os nossos navios e os nossos
bravos tiveram ao menos uma sepultura digna d'elles.

Em quanto tinha comprido a minha obra de destruio, Annita pela sua
parte havia cumprido a sua de salvao. Para transportar  praia todas
as nossas armas e munies fez talvez vinte viagens ao navio passando
constantemente debaixo do fogo do inimigo. Andava n'um pequeno barco
com dois remadores, e os pobres diabos curvavam-se o mais possivel,
para evitar as ballas.

Annita pelo contrario na ppa, no meio da metralha, estava direita e
socegada como uma estatua de Pallas, e Deus que me cobria com uma das
suas mos, estendia-lhe tambem essa proteco.

Era noite fechada quando tendo reunido todos os marinheiros que
haviam escapado, me juntei com a nossa diviso, e nos retirmos para
o Rio Grande seguindo o mesmo caminho que alguns mezes antes tinhamos
atravessado com o corao cheio de esperana e procedidos pela
victoria.




                                XXVIII

                               A CAVALLO


No meio das peripecias da minha aventureira existencia, tenho tido
sempre horas bem agradaveis, e ainda que esta em que me achava no
parecesse  primeira vista fazer parte das que me tem deixado uma grata
lembrana, foi ao menos cheia de emoes.

 testa de alguns homens, resto de tantos combatentes, que tinham com
justa raso merecido o titulo de bravos, caminhava a cavallo, orgulhoso
dos vivos, orgulhoso dos mortos, e quasi orgulhoso de mim mesmo. Ao meu
lado hia a rainha da minha alma, a mulher digna de toda a admirao.
Estava lanado n'uma carreira mais attrahente do que a de marinha: que
me importava pois, como o philosopho grego, no possuir seno o que
tinha comigo? Que me importava servir uma republica pobre, que no
pagava a ninguem, e de que ainda que fosse rica, eu no teria acceitado
cousa alguma? No tinha ao lado um sabre, uma clavina passada atravez
do aro do meu cavallo? No tinha perto de mim Annita, o meu thesouro,
caracter to ardente como o meu pela liberdade dos povos? No encarava
ella os combates como um divertimento, como uma simples distraco? O
futuro sorria-me sempre afortunado, e quanto mais se me apresentavam
selvagens e desertas as solides americanas, mais deliciosas e bellas
me pareciam.

Continumos a retirar para as Torres, limite das duas provincias onde
estabelecemos o nosso acampamento. O inimigo contentou-se em retomar o
lago, no nos perseguindo.

A diviso Cunha que vinha da provincia de S. Paulo, juntando-se com a
diviso Andrea, dirigiam-se para _Cimo da Serra_, provincia da montanha
pertencente ao Rio Grande.

Os montanhezes nossos amigos, pediram soccorro ao general Canavarro,
que mandou em seu auxilio uma expedio s ordens do coronel Teixeira.
Fizemos parte d'esta expedio. Recebidos pelos serraminhos,
commandados pelo coronel Aranha, batemos completamente o inimigo em
Santa Victoria. Cunha affogou-se no rio Pelatos e a maior parte das
suas tropas ficou prisioneira.

Esta victoria poz debaixo do dominio da republica as duas provincias de
Vaccaria e das Lages, e ns entramos em triumpho na principal povoao
d'esta ultima.

A noticia da invaso imperial tinha feito acordar o partido brasileiro,
e Mello, chefe inimigo, tinha enviado a esta provincia o seu corpo de
cavallaria, composto quasi de quinhentos homens.

O general Bento Manoel, encarregado de o atacar no o tinha podido
fazer por causa da sua retirada, contentando-se em enviar o coronel
Portinko em perseguio de Mello que se dirigia sobre S. Paulo.

A posio que occupavamos e as nossas foras, permettia-nos no s
oppor-nos  passagem de Mello, mas tambem de o anniquillar. Mas a
fortuna no o quiz: o coronel Teixeira incerto se o inimigo vinha
por Vaccaria ou por Coritibani, dividiu a sua tropa em dois corpos,
enviando o coronel Aranha a Vaccaria com a melhor cavallaria, em quanto
que ns com a infanteria e s com alguns soldados de cavallaria,
tirados quasi todos dos prisioneiros inimigos, nos dirigimos para
Coritibani. Foi este o caminho que tomou o inimigo.

Esta diviso das nossas foras foi-nos fatal: a recente victoria, o
caracter ardente do nosso chefe, e as noticias que tinhamos do inimigo
fizeram com que o desprezassemos mais do que merecia.

Em tres dias de marcha chegmos a Coritibani, e acampmos a pouca
distancia de Maromba por onde julgavamos que deviam passar os
imperiaes. Collocamos um posto na praia e sentinellas nos sitios que
julgamos convenientes, e ficamos mui descanados.

Em quanto a mim, o habito que tinha d'estas guerras fez com que, como
se costuma dizer, dormisse com um olho aberto e outro fechado.

Pela meia noite o posto que se achava na praia, foi atacado e com tanta
furia que os nossos soldados tiveram apenas tempo de fugir trocando
alguns tiros com o inimigo.

Quando senti o primeiro tiro puz-me logo a p dando o grito de s
armas. Em poucos minutos todos estavamos promptos para o combate.
Algum tempo depois de nascer o dia o inimigo appareceu, e tendo passado
o rio parou a alguma distancia formado em batalha. Vendo o numero
superior do inimigo o coronel Teixeira deveria ter expedido correios
para chamar em seu auxilio a segunda diviso, mas Teixeira temendo
que elle se retirasse sem ter occasio de combater, lanou-se no
combate importando-se pouco da sua inferioridade numerica e da posio
vantajosa que o inimigo occupava.

Este aproveitando-se das irregularidades do terreno tinha estabelecido
a sua linha de batalha n'uma collina mui elevada, diante da qual
existia um vale profundo obstruido por muitos abrolhos tinha alm
d'isso embuscado nos seus flancos alguns pelotes. Teixeira ordenou o
ataque que comeou com todo o vigor. O inimigo ento fingiu retirar-se.
Os nossos soldados comearam a perseguil-os sem cessar a fazillaria,
mas repentinamente foram atacados pelos pelotes embuscados que elles
no tinham visto e que tomando-os pelos flancos os obrigaram a passar
o vale em desordem. Perdemos n'este combate um dos nossos melhores
officiaes, Manoel N...... que era mui estimado pelo chefe. A nossa
linha, bem depressa organisada de novo atacou o inimigo com tal
impetuosidade, que foi posto em retirada.

O numero de mortos e feridos de parte a parte foi pouco numeroso,
porque as tropas que tomaram parte no combate foram diminutas.

O inimigo retirou-se com precipitao e ns fomos em sua perseguio
com grande encarniamento. Infelizmente como tinhamos pouca cavallaria
no podmos perseguir a sua que fugia a todo a galope. Aproximando-se
do _Passo de Maromba_ o chefe da nossa vanguarda o major Jacintho
participou ao coronel que o inimigo fazia passar em uma grande desordem
o rio aos seus bois e cavallos, o que provava de que elle queria
continuar a retirar-se. Teixeira no hesitou um momento; ordenou ao
nosso pequeno esquadro que mettesse a galope, recommendando-me que o
seguisse o mais de perto possivel com a minha infanteria.

A retirada do inimigo no era comtudo seno uma astucia, e infelizmente
esta astucia teve para ns terriveis resultados. Por causa das
irregularidades do terreno e pela precipitao com que o tinha
atravessado o inimigo achou-se fra da nossa vista e chegando ao rio,
havia, como nos tinha participado o major Jacintho, passado para a
outra banda os bois e cavallos, mas os soldados tinham ficado occultos
por detraz de collinas que os escondiam completamente  nossa vista.

Tomadas estas precaues e tendo deixado um peloto para sustentar a
sua linha de atiradores, os imperiaes, sabendo da nossa imprudencia
em deixar a infanteria na retaguarda, fizeram uma contra-marcha e
repentinamente os seus esquadres appareceram no cimo de um valle.

O nosso peloto que perseguia o inimigo na sua fuga simulada, foi o
primeiro a conhecer o lao, mas infelizmente no teve tempo para o
evitar. Atacado pelos flancos foi completamente destroado. Os tres
outros esquadres de cavallaria tiveram a mesma sorte, no obstante a
coragem e resoluo de Teixeira e de alguns de nossos officiaes do Rio
Grande: em alguns momentos a nossa cavallaria estava espalhada em todas
as direces.

Os soldados de cavallaria eram, como j disse, na sua maioria,
prisioneiros de Santa Victoria, e tinhamos feito mal em contar tanto
com elles, porque na realidade no podiam ser muito affeioados 
nossa causa, e alm d'isso sendo soldados novos vindos da provincia,
estavam pouco acostumados a andar a cavallo. Assim logo que teve logar
o primeiro choque, fugiram.

Montado n'um excellente cavallo, depois de ter excitado a minha
infanteria a marchar o mais rapidamente possivel, tinha-lhe tomado a
frente e chegado ao alto de uma collina, d'ahi vi o triste resultado
d'este combate.

Os meus infantes fizeram todo o possivel para chegar a tempo, mas tudo
foi em vo. Do alto da eminencia onde me achava julguei que era muito
tarde para que elles nos podessem dar a victoria, mas muito cedo para
ainda a no julgarmos perdida.--Chamei uma duzia dos meus antigos
companheiros, os mais ligeiros e mais bravos, e deixando o major
Peixoto encarregado dos restantes, tomei com este punhado de valentes,
uma forte posio no cimo d'uma collina fortificada por muitas
arvores.--D'ahi fizemos frente ao inimigo, que conheceu que ainda no
era totalmente vencedor, e servimos de ponto de apoio aquelles dos
nossos que no tinham perdido completamente a coragem.--O coronel veiu
para o nosso lado com alguns cavallos depois de ter obrado milagres de
coragem.--O resto de infanteria uni-se-nos ento e a defeza comeou
terrivel e mortifera.

Fortes na nossa posio e no numero de setenta e tres lutamos com
vantagem. O inimigo tendo falta de infanteria e pouco habituado a
combater contra esta arma dava cargas inutilmente: quinhentos homens de
excellente cavallaria, brilhante e orgulhosa pela victoria canaram-se
inutilmente diante de um punhado de homens sem alcanar vantagem
alguma. Comtudo apesar d'esta vantagem momentanea era necessario no
dar ao inimigo tempo de reunir as suas foras, de que a metade estava
ainda empregada a perseguir os nossos fugitivos, e sobre tudo era
necessario procurar um refugio mais seguro do que aquelle em que nos
achavamos.--Uma floresta se nos apresentava  vista na distancia de
quasi uma milha; comemos ento a nossa retirada dirigindo-nos para
ella.--Em vo o inimigo tentava romper o nosso quadrado, em vo nos
dava repetidas cargas, quando o terreno o permettia, tudo foi inutil.

Foi para ns uma grande fortuna, o estarem os officiaes armados de
clavinas, e como todos eramos homens aguerridos, conservamo-nos unidos
fazendo face ao inimigo por qualquer lado que se apresentava e recuando
em excellente ordem, fazendo um fogo terrivel e bem dirigido, ganhmos
o nosso refugio onde o inimigo no se atreveu a penetrar. Uma vez
na floresta encontrmos um claro e sempre unidos e de fuzil na mo,
espermos pela noute.

O inimigo gritava-nos a todos os momentos--_Rendam-se_, mas ns s lhe
respondiamos com o silencio.




                                 XXIX

                              A RETIRADA


Chegada a noute preparmo-nos para partir, sendo o nosso disignio o
tomar novamente o caminho das Lages. A maior difficuldade que tinhamos
a vencer, era o transportar os feridos. O major Peixoto no nos podia
coadjuvar, porque tinha um p atravessado por uma balla.

Pelas dez horas da noute, estando os feridos accommodados o melhor
possivel, comemos a nossa marcha, abandonando o crado e seguindo
a linha da floresta, que sendo a maior que existe talvez no mundo,
se estende do rio Prata aos Amazonas, coroando os cumes da serra
Espinasso, sobre uma extenso de trinta graus de latitude: no conheo
a sua extenso em longitude, mas deve ser immensa.

As tres provincias de Cima da Serra, Vaccaria e Lages, so segundo
julgo ter j dito situadas no crados d'esta floresta. Coritibani,
especie de colonia, estabelecida pelos habitantes de Coritiba situada
no districto das Lages, provincia de Santa Catharina era o theatro do
episodio que estou contando: costeavamos pois o nosso bosque isolado,
para nos aproximarmos o mais possivel da floresta, tratando de nos
juntarmos  diviso de Aranha, que se havia infelizmente separado de
ns.

 sahida do bosque aconteceu-nos um d'esses successos que provam como
o homem  filho das circumstancias e o poder que tem um terror panico
ainda sobre os mais corajosos. Marchavamos em silencio, como convinha 
nossa situao dispostos a combater o inimigo se se oppozesse  nossa
retirada. Um cavallo que se achava na durela da floresta sentindo a
pouca bulha que faziamos tomou medo e fugiu.

Ouviu-se ento gritar uma voz:

-- o inimigo!

No mesmo momento os setenta e tres homens que tinham resistido a
quinhentos com tanta coragem que se podia dizer que haviam sido os
vencedores, tomram medo e comearam a fugir dispersando-se de tal modo
que foi uma felicidade o no ter algum dos nossos acordado o inimigo
dando-lhe o signal de alarme.

Consegui com muito trabalho reunir alguns d'elles ao qual pouco a pouco
se foi juntando o resto, de modo que ao raiar da aurora estavamos na
aurela da floresta dirigindo-nos para as Lages.

O inimigo que no havia dado pela nossa fuga, procurou-nos inutilmente
no dia seguinte.

No dia do combate o perigo tinha sido grande, a fadiga enorme, a fome
imperiosa, a sede ardente, mas era necessario combater, combater pela
vida e esta ida dominava todas. Mas uma vez na floresta tudo mudou.
Faltavam todas as coisas e a miseria no tendo a distraco do perigo
fez-se sentir terrivel, cruel, insupportavel. A falta de viveres, o
abatimento de todos, as feridas de alguns, e a carencia dos meios de as
tratar, lanaram-nos na desanimao.

Ficmos quatro dias sem encontrar seno raizes e julgo desnecessario
descrever a fadiga que tivemos para achar n'esta floresta um caminho
onde no existia o mais pequeno atalho e onde a natureza mui fecunda
faz a cada passo encontrar barrancos enormes.

Alguns dos meus homens desertaram desesperados e tivemos grande
trabalho para os juntarmos e impor-lhes respeito. No existia seno um
unico recurso para dissipar esta desanimao e fui eu que o encontrei.
Disse a todos que lhe dava a liberdade de se retirarem para onde
quizessem, ou de continuarem a marchar unidos e em corpo, protegendo
os feridos e defendendo-se mutuamente. O remedio foi efficaz. Desde
que cada um foi livre de fazer o que quizesse ninguem pensou mais em
desertar e a confiana voltou a todos.

Cinco dias depois do combate encontrmos uma _picada_, atalho de
largura d'um homem, e raras vezes de dois que nos conduziu a uma casa
onde nos refrescmos matando dois bois.

Continumos o nosso caminho para as Lages onde chegmos n'um dia de
perfeito inverno.




                                  XXX

                   ESTADA NAS LAGES E NOS ARRABALDES


Este bom paiz das Lages que nos tinha festejado tanto, quando eramos
victoriosos, havia quando recebeu a noticia da nossa derrota mudado
de opinio, e alguns dos mais resolutos tinham restabelecido o poder
imperial. Estes fugiram  nossa aproximao, e como a maior parte
d'elles eram negociantes, tinham deixado os seus armazens providos
de muitos objectos. Foi uma providencia, por que julgmos poder sem
remorsos aproveitar-nos das mercadorias dos nossos inimigos, e graas 
variedade do commercio que exerciam melhorar muito a nossa posio.

Entretanto Teixeira escreveu a Aranha ordenando-lhe que se nos unisse,
tendo por este tempo a noticia da chegada do coronel Portinko que tinha
sido enviado por Bento Manoel para seguir esse mesmo corpo de Mello,
encontrado desgraadamente por ns em Coritibani.

Tinha servido sinceramente na America a causa dos povos, e havia l
sido como na Europa o adversario do absolutismo. Tenho algumas vezes
admirado os homens, muitas lamentado, mas nunca odeado. Quando os
tenho encontrado egoistas e tratantes, tenho posto o seu egoismo
e trantantisse de parte, mettendo-o na conta da nossa desgraada
natureza. Como estou afastado duas mil leguas do logar onde estes
acontecimentos tiveram logar, e j so passados doze annos pde-se
por isso acreditar na minha imparcialidade. Digo-o tanto pelos meus
amigos como pelos meus inimigos; eram intrepidos filhos do continente
americano.

Era uma audaciosa empreza o defender Lages contra um inimigo dez vezes
superior, e alm d'isso orgulhoso pela recente victoria. Separados
d'elle pelo rio Canoas, que ns no tinhamos podido guarnecer
sufficientemente, espermos durante muitos dias a junco de Aranha
e Portinko, e durante este periodo o inimigo foi sustentado por um
punhado de homens, atacando-o logo que nos chegaram os reforos, mas
foi elle que se retirou sem acceitar o combate para a provincia visinha
de S. Paulo, aonde esperava encontrar um poderoso soccorro.

Foi n'esta circumstancia que eu verifiquei os vicios geralmente
imputados ao exercito republicano, que se compunha de homens cheios de
patriotismo e coragem, mas que no ficam juntos s bandeiras, seno
quando o inimigo os ameaa, abandonando-as quando este se affasta. Este
costume foi quasi a nossa ruina, e poderia causar a nossa perda n'estas
circumstancias, porque se o inimigo tivesse mais paciencia, teria
podido destruir-nos totalmente.

Os serraminos foram os primeiros a abandonar as fileiras. Os soldados
de Portinko em breve os seguiram. Note-se bem que os desertores no s
levavam os seus cavallos, mas os da diviso. Em poucos dias as nossas
foras se separaram com tanta rapidez que fomos obrigados a abandonar
Lages, retirando-nos para a provincia do Rio Grande, temendo a presena
d'esse inimigo, que tinha sido obrigado a fugir diante de ns, e de que
a fuga nos tinha feito vencedores.

Que estes exemplos sirvam aos povos que querem ser livres, e que
no  com flores, festas e illuminaes que se combatem os soldados
aguerridos do despotismo, mas com soldados mais disciplinados e mais
aguerridos do que elles, no querendo para generaes os que no so
capazes de disciplinar um povo depois de o haver sublevado.

 verdade que tambem ha povos que no merecem a pena de serem
sublevados: a gangrena no tem cura.

O resto das nossas foras assim dissimadas--quando estavam privadas
das cousas mais necessarias e principalmente de vestidos--privao
terrvel na aproximao do inverno sombrio e rude n'estas regies
elevadas,--o resto das nossas foras, comeou a desmoralisar-se e a
pedir para se retirarem para suas casas. Teixeira foi obrigado a ceder
a essa exigencia, e ordenou-me de descer a montanha e de me reunir ao
exercito, em quanto se preparava a fazer outro tanto. Esta retirada
foi rude por causa da escabrosidade dos caminhos e das hostilidades
occultas dos habitantes da floresta, inimigos encarniados dos
republicanos.

Em numero de setenta, pouco mais ou menos, descemos a _Picada di
Peloffo_--j disse o que era uma picada--e tivemos que affrontar
emboscadas repetidas e imprevistas que ns atravessamos com uma
felicidade incrivel devida  resoluo dos homens que eu commandava, e
um pouco  confiana que geralmente inspiro aos que me seguem. O atalho
que atravessavamos era to estreito que unicamente podiam passar dois
homens a par, e como o inimigo era nascido no paiz, por isso conhecedor
do terreno, emboscava-se nos sitios mais favoraveis, rodeando-nos
e dando gritos horriveis, em quanto que um circulo de chammas nos
cercava, sem que ns podessemos vr os atiradores, que felizmente
faziam mais barulho do que obra. De resto a unio que os meus homens
tiveram no perigo foi tal que apenas alguns foram feridos, tendo s um
cavallo morto.

Estes acontecimentos fazem recordar as florestas encantadas de Tasso,
aonde as arvores viviam.

Chegmos ento a _Mala-Casa_ aonde se achava Gonalves, que reunia as
funces de presidente s de general em chefe.




                                 XXXI

                          BATALHA DE TAQUARI


O exercito republicano preparava-se para se pr em marcha. O inimigo
depois da derrota de Rio Pardo, tinha-se refeito em Porto Alegre,
d'onde tinha sahido debaixo das ordens do velho general Georgio, e
havia estabelecido o seu acampamento nas praias de Cah, aonde esperava
a junco do general Calderon, que com um corpo consideravel de
cavallaria se lhe devia reunir.

O grande inconveniente da disperso das tropas republicanas quando
no estavam em face do inimigo, dava-lhe facilidade em tudo que elle
queria emprehender, de modo que no momento em que o general Netto, que
commandava as foras, teve reunido um numero sufficiente de soldados
para bater Calderon, este tinha j reunido no Cahe a maior parte do
exercito imperial.

Era absolutamente indispensavel ao presidente se queria bater o
inimigo, o reunir-se  diviso Netto, e foi por isto que elle levantou
o cerco. Esta manobra e a junco que se lhe seguiu, tiveram um
feliz resultado e fizeram grande honra  capacidade militar de Bento
Gonalves. Partimos de Mala-Casa com o exercito, tomando a direco de
Leopoldo, passando a duas milhas das foras inimigas, e depois de dous
dias e duas noites de marcha continua, nas quaes quasi que no comemos
nem bebemos chegmos perto de Taquari onde encontrmos o general Netto
que nos procurava.

Disse que haviamos passado quasi sem comer, e disse a verdade. Logo que
o inimigo soube da nossa aproximao, marchou resolutamente ao nosso
encontro e muitas vezes nos alcanou em quanto descanavamos um momento
e estavamos occupados a assar alguma carne, nosso unico alimento.
Por dez vezes estando a comida quasi prompta as sentinellas gritavam
s armas, e era por isso necessario ir combater em logar de jantar ou
almoar. Emfim fizemos alto em Pinheirinho a seis milhas de Taquari, e
ahi tommos todas as disposies para o combate.

O exercito republicano forte de mil homens de infanteria e cinco mil
de cavallaria, occupava as alturas do Pinheirinho, montanha coberta
de pinhos, como indica o seu nome, pouco elevada, mas dominando as
montanhas visinhas. A infanteria estava no centro commandada pelo
velho coronel Crezungio. A ala direita obedecia ao general Netto e a
ala esquerda a Canavarro. As duas alas eram compostas unicamente de
cavallaria que sem exaggerao era a melhor do mundo. A infanteria era
tambem excellente, e o desejo de comear o combate era geral.

O coronel Santo Antonio formava a reserva com um corpo de cavallaria.

O inimigo do seu lado tinha quatro mil homens de infanteria, tres mil
de cavallaria e algumas peas. Estava do outro lado da pequena torrente
que nos separava e a sua apparencia era longe de ser miseravel. O
exercito compunha-se das melhores tropas do imperio commandadas por um
general velho e experimentado.

O general inimigo tinha at ento marchado ardentemente em nossa
perseguio, e havia tomado todas as posies para um ataque em quanto
as suas peas metralhavam a nossa cavallaria. Os nossos valentes da
primeira brigada s ordens de Netto, tinham tirado os sabres da bainha
e no esperavam seno pelo signal para se lanarem aos dous batalhes
que tinham atravessado a corrente. Estes bravos estavam convencidos
que ficavam victoriosos porque nunca nem elles nem Netto tinham sido
batidos. A infanteria collocada em divises no alto da colina, e
coberta pelas curvas do terreno, estava anciosa pelo momento do combate.

Os terriveis lanceiros de Canavarro tinham j feito um movimento
envolvendo o flanco direito do inimigo, obrigando-o por isso a mudar de
posio, mudana que se tinha feito em desordem.

Este corpo de lanceiros composto na sua maioria de negros libertos
da republica, e escolhidos entre os melhores domadores de cavallos de
provincia, tinha unicamente os officiaes superiores brancos, e nunca
o inimigo tinha visto as costas d'estes filhos da liberdade. As suas
lanas que eram maiores do que o ordinario, os seus rostos pretos
como azeviche, os seus robustos membros e a sua perfeita disciplina
tornava-os o terror dos inimigos.

A voz animadora do chefe j havia feito tremer todos aquelles coraes.
Que todos combatam como se tivessem quatro corpos para defender a
patria e quatro almas para a amar, havia dito esse valente, que tinha
todas as qualidades de um grande capito menos a felicidade.

Quanto a ns sentiamos, por assim dizer, as palpitaes da batalha,
e tinhamos a certeza de ganhar a victoria. Nunca em minha vida tinha
visto um mais bello, mais magnifico espectaculo. Collocado no centro da
nossa infanteria, no alto da collina descobria todo o campo de batalha.
As planicies sobre as quaes iam ficar tantos cadaveres, estavam
semeadas de plantas baixas e raras, no fazendo pois nenhum obstaculo
nem aos movimentos estrategicos nem ao olhar que os seguia, e podia
dizer que aos meus ps em poucos momentos seriam resolvidos os destinos
da maior parte do continente americano.

Esses corpos to compactos, to unidos uns aos outros vo ser dispersos
e derrotados? Todos esses homens sero em um momento cadaveres? Toda
essa bella e vigorosa mocidade ver destruidas as suas mais bellas
esperanas? Vamos! Tocae fanfarras, troae canhes, e que tudo seja
decidido como em Zama, Pharsale e Actium.

Mas no era ainda n'esta planicie que devia ter logar o combate. O
general inimigo intimidado pela forte posio que occupavamos e pela
nossa firmeza, hesitou e fez repassar o rio aos dois batalhes, tomando
a defensiva em logar da offensiva. O general Caldeira tinha sido morto
no comeo do combate e d'ahi provinha, talvez, a hesitao de Georgio.
No momento em que elle no nos atacava, no deviamos ns atacal-o?
Tal era a opinio da maioria. Seriamos bem succedidos? Travando-se
o combate nas condies primitivas e conservando a nossa excellente
posio todas as probabilidades eram por ns, mas abandonando-as para
seguir um inimigo que nos era quatro vezes superior em infanteria, era
necessario dar a batalha no outro lado da corrente.

Era escabroso, ainda que tentador.

Passmos todo o dia em frente do inimigo, fazendo conjecturas e
disparando alguns tiros.

Tinham-se-nos acabado os comestiveis, e a infanteria principalmente
soffria muito com essa falta. A agua tambem se nos tinha acabado, e
a sua falta era-nos mais sensivel que a dos viveres.  nossa vista
existia uma grande quantidade d'agua, mas que infelizmente se achava em
poder do inimigo. Por fortuna os nossos soldados estavam habituados a
soffrer toda a sorte de privaes, e por isso uma s queixa sahia dos
seus labios--era a demora em comear o combate.

 italianos, italianos, no dia em que sejaes unidos e sobrios, no
dia em que possaes soffrer todas as privaes como os habitantes do
continente americano, o estrangeiro, estae certo, no escravisar a
vossa patria, nem enxovalhar os vossos lares. N'esse dia a Italia
ter retomado o seu logar no s no meio; mas  frente das naes do
universo.

Durante a noite o velho general Georgio tinha desapparecido, e ao raiar
da aurora foi em vo que o procurmos; s s dez horas, quando se
dissipou o forte nevoeiro, foi que o avistmos nas posies de Taquari.

Pouco tempo depois fomos avisados de que a sua cavallaria atravessava
o rio. Os imperiaes estavam pois em completa retirada, era necessario
atacal-os e o nosso general no hesitou.

A cavallaria inimiga havia atravessado o rio, protegida por alguns dos
navios imperiaes, mas a infanteria tinha ficado na margem esquerda,
protegida por esses mesmos navios e pela floresta, sendo por isso a
sua posio a mais vantajosa possivel. A nossa segunda brigada de
infanteria, composta do terceiro e vigessimo batalho, era a destinada
a comear o combate, effectuando-o com a sua costumada bravura. Mas
o inimigo era to superior em numero que estes bravos, depois de
terem praticado prodigios de valor, foram obrigados a retirarem-se,
sustentados pela segunda brigada e primeiro batalho de artilharia--sem
canhes--e de marinha. O combate foi terrivel, especialmente na
floresta onde o estrondo da fuzilaria e arvores despedaadas, no meio
d'um espesso fumo, parecia o d'uma infernal tempestade.

De cada lado no contmos menos de quinhentos mortos e feridos. Os
cadaveres dos nossos valentes republicanos foram at encontrados
na ribanceira do rio, para onde elles tinham arrojado o inimigo.
Infelizmente estas perdas foram sem resultado relativamente  sua
importancia, porque logo que comeou a retirada da segunda brigada a
batalha finalisou.

Tendo chegado a noite o inimigo pde tranquillamente acabar de passar o
rio.

No meio das brilhantes qualidades, das quaes julgo ter j fallado,
citarei alguns dos deffeitos do general Bento Gonalves: o mais
deploravel d'entre elles era uma certa hesitao, razo provavel dos
resultados funestos das suas operaes. Teria sido melhor que em logar
de lanar esses quinhentos homens to inferiores em numero aos que
elles atacavam, tivessem enviado no s toda a infanteria, mas tambem
a sua cavallaria, a p, visto que a difficuldade do terreno no lhe
permittia combater a cavallo: uma tal manobra teria certamente dado em
resultado uma esplendida victoria, e fazendo perder p ao inimigo ns
conseguiriamos lanal-o no rio; mas infelizmente o general teve receios
de aventurar toda a sua infantaria, a unica que elle teve, e que teve a
republica.

Em todo o caso o resultado foi para ns pessimo, porque no sabiamos
como reparar as faltas que havia soffrido a infanteria, arma em que o
inimigo nos era mui superior, e se achava todos os dias recebendo novos
reforos.

O inimigo ficou na margem direita de Taquari, e por isso senhor de todo
o campo. Ns tommos ento o caminho de _Mala-Casa_.

Todas estas falsas manobras peioraram a situao da republica. Voltmos
a S. Leopoldo e a Settembrina e depois ao nosso antigo acampamento de
_Mala-Casa_, que foi abandonado em alguns dias pelo da _Bella-Vista_.

Uma operao concebida n'este tempo pelo general, teria podido pr-nos
em excellente posio, se a fortuna tivesse, como devia, secundado os
esforos d'este homem to superior e to desgraado.




                                 XXXII

                      ASSALTO A S. JOS DO NORTE


O inimigo, para poder fazer as suas correrias pelos campos, havia
sido obrigado a desguarnecer de infanteria as suas praas fortes.
Principalmente S. Jos do Norte tinha um pequeno numero de soldados.

Esta praa, situada na margem septentrional da embocadura da laga dos
Patos, era uma das chaves da provincia, no s commercialmente, mas
politicamente; a sua posse teria mudado completamente a nossa posio,
que n'esta occasio era bem aterradora; a sua tomada tornava-se, pois,
mais que util, era necessaria. A cidade encerrava objectos de toda
a qualidade, indispensaveis para o vestuario dos soldados, que do
nosso lado estavam no mais deploravel estado. No s por esta razo,
mas tambem por dominar o unico porto da provincia, S. Jos do Norte,
merecia que fizessemos todos os esforos para nos apoderarmos d'ella,
mas tambem porque s d'este lado se encontrava a _atalaia_, isto , o
mastro dos signaes dos navios, que servia para lhe indicar a profundura
das aguas na embocadura.

N'esta expedio succedeu infelizmente o mesmo que tinha acontecido em
Taquari. Preparada com admiravel sciencia e profundo segredo, perdeu-se
todo o trabalho por se ter hesitado em dar o ultimo golpe.

Uma marcha forada de oito dias, a vinte e cinco milhas por dia, nos
conduziu defronte dos muros da praa.

Era uma d'essas noites de inverno, durante as quaes um abrigo e um
bom fogo so um beneficio da Providencia, e os nossos pobres soldados
da liberdade, esfaimados, vestidos de pedaos, tolhidos pelo frio e
gelados pela chuva d'uma horrivel tempestade, avanavam silenciosos
contra os fortes e trincheiras guarnecidas de soldados.

A pouca distancia das muralhas os cavallos dos chefes foram confiados 
guarda d'um esquadro de cavallaria commandado pelo coronel Amaral, e
todos nos preparmos para o combate.

O _quem vive_ da sentinella foi o signal do assalto, e a resistencia
foi pequena e de pouca durao sobre as muralhas.  hora e meia
da manh dmos o assalto, e as duas horas estavamos senhores das
trincheiras e de tres ou quatro fortes que as guarneciam, e que foram
tomados  bayoneta.

Senhores das trincheiras e dos fortes, tendo entrado na cidade parecia
impossivel que ella nos escapasse. Entretanto ainda esta vez o que
parecia impossivel nos estava reservado.--Uma vez dentro dos muros, uma
vez nas ruas de S. Jos, os nossos soldados julgaram que tudo estava
acabado, e a maior parte se dispersou, arrastada pelo appetite da
pilhagem. Durante este tempo os imperiaes voltando a si da sua surpreza
reuniram-se n'um bairro que se achava fortificado. Ahi os fomos atacar,
mas repelliram-nos. Os chefes procuravam por todos os lados os soldados
para continuar no ataque, mas era inutil, porque se se encontravam
alguns, eram carregados dos despojos, ou bebados, ou tendo quebrado os
fuzis  fora de despedaar as portas das casas.

O inimigo do seu lado no perdia o tempo: muitos navios de guerra que
se achavam no porto tomaram posio, varrendo com o fogo dos seus
canhes as ruas onde nos achavamos. Pediu-se soccorro a Rio Grande do
Sul, cidade situada na margem opposta da embocadura dos Patos, emquanto
um unico forte que haviamos desprezado servia de refugio ao inimigo.
O primeiro d'estes fortes, o do imperador, do qual a tomada nos tinha
custado um glorioso e mortifero assalto, foi destruido por uma exploso
terrivel de polvora, que nos matou bom numero de soldados.--Emfim
o mais glorioso dos triumphos estava mudado, ao meio dia, na mais
vergonhosa retirada, e os verdadeiros amigos da liberdade choravam de
desesperao.

A nossa perda, comparativamente  nossa situao, foi enorme.

Desde este momento a nossa infanteria no foi seno um esqueleto;
emquanto  pouca cavallaria que tinha vindo na expedio serviu para
proteger a retirada.

A diviso entrou nos seus quarteis da Bella-Vista, e eu fiquei em S.
Simo com a marinha.

Todos os meus soldados estavam reduzidos a quarenta homens, contando
tambem os officiaes.




                                XXXIII

                                ANNITA


O motivo da minha partida para S. Simo teve por fim, o mandar fazer
algumas d'essas canas, construidas d'um s tronco d'arvore, com a
ajuda das quaes eu queria abrir communicaes com a outra parte do
lago. Mas durante os mezes que eu ahi fiquei, as arvores promettidas
no chegaram, e o nosso projecto por consequencia no se pde realisar.
Como eu tinha um grande horror pela ociosidade, no podendo construir
barcos, dediquei-me a ensinar cavallos. Em S. Simo havia uma grande
quantidade de poltros que me serviram para fazer cavalleiros dos meus
marinheiros.

S. Simo era uma bella e espaosa herdade, que se achava ento
abandonada. Pertencia ao conde de S. Simo, antigamente exilado, e de
quem os herdeiros estavam tambem exilados como inimigos da republica.
Eu no sei se elle era ainda parente do famoso conde de S. Simo,
fundador d'essa religio de que os adeptos me tinham iniciado na
paternidade universal; mas n'esta occasio, como a familia de S. Simo
era considerada por ns como inimiga, tratmos a sua herdade como uma
conquista; isto , apodermo-nos das casas para ahi habitarmos, e dos
animaes domesticos que ahi havia para fazermos o nosso sustento.

Os nossos unicos divertimentos eram ensinar os nossos poltros, ou, para
melhor dizer, os poltros dos S. Simonnianos.

Foi n'esta occasio que a minha chara Annita deu  luz o primeiro
filho. Em logar de lhe dar o nome d'um santo, dei-lhe o nome d'um
martyr.

Chamou-se Menoti.

Nasceu a 16 de setembro de 1840, exactamente no mesmo dia em que fazia
nove mezes que tinha tido logar o combate de Santa Victoria. A sua
appario n'este mundo sem accidente, era um verdadeiro milagre depois
das privaes e dos perigos soffridos por sua me. Essas privaes e
esses soffrimentos de que eu ainda no fallei, afim de no interromper
a minha narrao, devem aqui achar logar, e  do meu dever fazer
conhecer se no ao mundo, ao menos a alguns amigos que lerem este
jornal a admiravel creatura que perdi.[8]

  [8]  escusado repetir que estas Memorias tinham sido escriptas
  por Garibaldi unicamente para serem lidas por alguns amigos.

Annita, como sempre, tinha querido seguir-me e havia-me acompanhado na
campanha que acabavamos de fazer, e que acabo de contar.

O leitor deve lembrar-se que reunidos aos serraminnos, commandados pelo
coronel Aranha, ns batemos em Santa Victoria o brigadeiro Cunha, e de
tal modo que a diviso inimiga foi completamente destruida. Durante o
combate Annita, a cavallo no meio do fogo, era espectadora da victoria
e derrota dos imperiaes. Foi ella n'esse dia o anjo providencial dos
nossos feridos, porque no tendo ns nem cirurgio nem ambulancia, eram
curados, sabe Deus como, por ns mesmos. Esta victoria submetteu de
novo, pelo menos momentaneamente, as tres provincias, Lages, Vaccaria
e de Cima da Serra  authoridade da republica, e j contei como no fim
d'alguns dias entrmos triumphantes em Lages. O exito do combate de
Coritibani longe esteve de ser egual.

J disse a maneira por que, apesar da bravura de Teixeira, a nossa
cavallaria foi rota, e como com os meus sessenta e tres infantes me vi
cercado por mais de quinhentos homens de cavallaria inimiga. Annita
devia n'este dia assistir s mais terriveis peripecias da guerra. A
muito custo submettendo-se ao papel de simples espectadora do combate,
Annita apressava a marcha das munies receiosa de que os cartuxos
faltassem aos combatentes: com effeito o fogo que nos viamos obrigados
a fazer era to violento que dava margem a suppor-se, com toda a
razo, que se as nossas munies no fossem renovadas bem depressa,
no teriamos um unico cartuxo; com este fito aproximava-se do logar
onde o combate era mais renhido, quando um esquadro de vinte cavallos
inimigos perseguindo alguns dos nossos que fugiam, cairam de improviso
sobre os soldados que conduziam a bagagem.

Excellente cavalleira, e montando um admiravel cavallo, bem poderia
Annita ter fugido; mas dentro d'esse peito de mulher batia o
corao d'um heroe: em logar de fugir animava os nossos soldados a
defenderem-se, e n'um momento se viu cercada pelos imperiaes.

Annita enterrou as esporas no ventre do cavallo, e d'um salto passou
pelo meio do inimigo, no tendo recebido mais do que uma unica balla
que lhe atravessou o chapeo e levou parte dos cabellos, sem lhe
tocar no craneo. Talvez ella podesse fugir se o cavallo no caisse
ferido mortalmente por outra balla, e sendo obrigada a render-se foi
apresentada ao coronel inimigo. Sublime de coragem no perigo, Annita
maior vulto tomava ainda, se  possivel, na adversidade; de sorte que
na presena d'esse estado maior maravilhado do seu arrojo, mas que
no teve o bom gosto de occultar diante de uma mulher o orgulho da
victoria. Annita repelliu com uma rude e desdenhosa altivez algumas
palavras que lhe fizeram antever um tal ou qual despreso pelos
republicanos, e to vigorosamente combateu com a palavra como j o
fizera com as armas. Annita julgava que eu tinha morrido. N'esta
persuaso pediu e obteve licena de ir ao campo de batalha procurar o
meu corpo no meio dos cadaveres. Qual a ventesma infernal passeando
sobre campina ensanguentada, Annita errou s e por muito tempo
procurando aquelle que ella receiava de encontrar, voltando os mortos
que tinham caido de rosto para a terra, e nos quaes pelo fato ou pela
altura ella imaginava terem alguma similhana comigo.

Foram inuteis as suas pesquisas, era a mim pelo contrario que sorte
reservava a dr suprema de banhar com as minhas lagrimas suas faces
gelidas, e quando esse momento de angustia chegou impossivel me foi de
lanar um punhado de terra, uma flor, ao menos sobre a cova onde jazia
a me de meus filhos.

Desde que Annita esteve segura de que eu existia, no teve seno um
pensamento, o de fugir, e a occasio no tardou a apresentar-se-lhe.
Aproveitando-se do delirio do inimigo victorioso, passou para uma
casa perto d'aquella onde a tinham prisioneira, e ahi, sem ser
reconhecida, uma mulher a recebeu e protegeu. O meu capote, que eu
havia abandonado para ter os movimentos mais livres, e que tinha caido
em poder de um soldado inimigo, foi por ella trocado pelo seu, que era
de grande valor. Quando chegou a noute Annita lanou-se na floresta
e desappareceu. Era necessario possuir um corao de leo para assim
se arriscar. S quem j viu as immensas florestas que cobrem os cimos
de Espinasso, com os seus pinheiros seculares que parecem destinados
a sustentar o ceo, e que so as columnas d'esse esplendido templo da
natureza, as gigantescas cannas que povoam os intervallos e que esto
cheias de animaes ferozes e de reptis de que a mordedura  venenosa,
poder fazer uma idea dos perigos que ella correu, e das difficuldades
que teve a vencer. Felizmente Annita ignorava o que era medo. De
Caritibani a Lages so vinte legoas. Como ella atravessou esses bosques
impenetraveis, s, e sem alimentos, s Deus o sabe.

Os poucos habitantes d'esta parte da provincia que ella tinha a
atravessar eram hostis aos republicanos, e logo que souberam da
nossa derrota armaram-se e fizeram emboscadas sobre muitos pontos, e
principalmente nas _picadas_ que os fugitivos tinham a atravessar de
Caritibani s Lages.

Nos _cabecaes_, isto , nos sitios quasi impraticaveis destes atalhos,
teve logar uma horrivel carnagem nos nossos desgraados companheiros.
Annita atravessou de noite estes sitios perigosos, e ou fosse a sua boa
estrella ou a admiravel resoluo com que os atravessou, o seu aspecto
fez sempre fugir os assassinos, que fugiam, diziam elles, perseguidos
por um ser mysterioso!

Na realidade era estranho ver esta valente mulher, montada n'um ardente
cavallo, pedido e obtido n'uma casa onde havia recebido a hospitalidade
durante uma noite de tempestade, galopando por cima dos rochedos 
claridade dos relampagos. Quatro cavalleiros collocados na passagem
do rio Canoas, fugiram  vista d'esta viso, escondendo-se atraz
das moitas que guarnecem o rio. Durante este tempo Annita chegara 
margem do rio, tornado mui tempestuoso por causa das muitas cheias, e
atravessou-o, no como o tinha feito dias antes, n'um excellente barco,
mas sim a vu, animando com a voz o seu magnifico cavallo.

As ondas precipitavam-se furiosas, no n'um estreito espao, mas n'uma
extenso de quinhentos passos, e apesar d'isso Annita chegou sa e
salva  outra margem.

Uma chavena de caf foi o unico alimento que a intrepida viajanta tomou
durante os quatro dias que gastou em alcanar na Vaccaria a tropa do
coronel Aranha.

Foi ahi que nos encontramos, Annita e eu, depois de uma separao de
oito dias e de nos julgarmos mortos.

Que alegria no foi a nossa! Maior foi ainda a que senti no dia em que
Annita, na peninsula que fecha a lagoa dos Patos do lado do Atlantico,
deu  luz n'uma casa que nos dava hospitalidade o meu querido Menotti,
que veiu ao mundo com uma cicatriz na cabea procedida pela queda do
cavallo que tinha dado sua me.

Renovo aqui mais uma vez os meus agradecimentos s excellentes pessoas
que nos deram esta hospitalidade, assegurando-lhe um reconhecimento
eterno. No campo onde nos faltavam todas as cousas mais necessarias,
e onde eu no lhe teria podido dar um unico leno, Annita no teria
podido triumphar n'este momento supremo onde a mulher tem tanta
necessidade de foras e cuidados.

Decidi-me ento a fazer uma viagem a Settembrina para ahi comprar
muitas cousas de maior urgencia que faltavam aos meus entes queridos.
Tinha ali bons amigos, e entre elles um excellente homem chamado
Blingini. Comecei ento a minha viagem atravez os campos innundados,
onde eu tinha a agua at ao ventre do cavallo; passei por meio d'um
campo antigamente cultivado chamado _Rocha velha_, onde encontrei o
capito de lanceiros Maximo, que me recebeu perfeitamente. Acceitei a
sua hospitalidade durante dois dias, por causa do pessimo tempo no me
deixar continuar a jornada.

No fim d'elles quiz partir, apesar de todos os esforos que fez o bom
capito para me conservar na sua companhia.

Mas o fim para que tinha partido era para mim mui sagrado para que me
demorasse mais, e no obstante as observaes d'este bom amigo, puz-me
a caminho por essas planicies que pareciam um vasto lago. Na distancia
de algumas milhas, ouvi do lado que acabava de deixar o estrondo da
fuzilaria, concebi ento algumas suspeitas cheias de angustias, mas no
podia voltar atraz.

Cheguei a Settembrina onde comprei os objectos de que tinha
necessidade, e sempre inquieto por essa fuzilaria que tinha ouvido,
puz-me logo a caminho para So Simo. Descanamos em Rocha Velha, onde
soube a causa d'esse estrondo que tinha ouvido e o triste acontecimento
que tinha tido logar no mesmo dia da minha partida.

Morinque--o mesmo que me havia surprehendido em Camacua e que eu e os
meus quatorze homens tinhamos obrigado a fugir com um brao quebrado,
tinha surprehendido o capito Maximo, todos os seus soldados feitos
prisioneiros, e a maior parte das seus cavallos tambem tomados, e os
mais mortos.

Morinque havia effectuado esta surpreza com alguns navios de guerra e
infanteria. Embarcou depois a infanteria, e dirigiu-se com a cavallaria
para o Rio Grande do Norte, espantando pelo caminho todas as pequenas
guerrilhas republicanas, que julgando-se em segurana se haviam
espalhado pelo territorio; entre elles achavam-se os meus marinheiros
que foram obrigados a refugiar-se na floresta.

O meu primeiro grito foi como se deve julgar: Annita! onde est
Annita?

Annita doze dias depois de ter tido o seu feliz successo, tinha sido
obrigada a montar a cavallo, e meio nua, com o seu pobre filho nos
braos, tinha sido obrigada a refugiar-se na floresta.

No encontrei pois no _rancho_ nem Annita, nem os nossos hospedeiros,
mas alcancei-os na ourela d'um bosque onde elles se conservavam no
sabendo onde se achava o inimigo, nem se ainda tinham alguma cousa a
receiar d'elles.

Voltamos a So Simo, e ahi nos demoramos algum tempo, depois mudamos
o nosso acampamento, estabelecendo-nos na margem esquerda do Capivari,
isto , no mesmo sitio onde um anno antes tinhamos transportado
os nossos lanches em carros para a expedio de Santa Catharina,
expedio que to mau exito teve.

N'essa occasio tinha sentido bastantes esperanas que infelizmente
haviam desapparecido.

O Capivari  formado de differentes riachos que tem a sua nascente nos
lagos numerosos que guarnecem a parte septentrional da provincia do Rio
Grande, sobre as costas do mar e sobre a vertente oriental da cadea de
Espinasso. Toma este nome da _capinara_, especie de cannios muito
communs na America meridional e que nas Colonias se chamam _capineios_.

De Capivari e de Sangrador d'Abreu canal que serve de communicao
entre um charco e um lago onde tinhamos reunidas com muito trabalho
algumas canas, fizemos algumas viagens  costa occidental do lago,
estabelecendo communicaes entre as duas margens e transportando os
passageiros.




                                 XXXIV

                     LEVANTA-SE O CERCO.--ROSSETTI


Comtudo a situao do exercito republicano peiorava de dia para dia;
as suas necessidades augmentavam e os seus recursos diminuiam. Os dois
combates de Taquari e S. Jos do Norte tinham dizimado a infanteria que
apezar de ser pouco numerosa era um poderoso recurso para as operaes
de cerco. As grandes necessidades animavam as deseres, as populaes
como succede n'estas guerras mui prolongadas canavam, e foram atacadas
de uma suprema indifferena, comeando ns ento a conhecer que estava
proximo o momento de tudo se acabar.

N'este estado de cousas os imperiaes fizeram propostas que, ainda que
vantajosas para os republicanos foram por estes recusadas. Esta recusa
augmentou o descontentamento dos mais desgraados, e por conseguinte da
parte mais fatigada do exercito e do povo, sendo decidido que o cerco
seria abandonado e que todos se retirariam.

A diviso Canavarro de que faziam parte os marinheiros foi designada
para comear o movimento e abrir as passagens da serra, occupadas pelo
general Labattue, francez ao servio do imperador. Bento Gonalves com
o resto do exercito formaria a retaguarda.

A guarnio republicana de Settembrina devia seguir-nos, mas no pde
executar este movimento, porque surprehendida pelo famoso Morinque a
cidade foi tomada.

Foi ahi que morreu o meu caro Rossetti.

Tendo caido do cavallo, depois de ter praticado prodigios de valor,
ferido perigosamente, e intimado para se render, preferiu antes que o
matassem do que entregar a sua espada.

Ainda uma outra ferida para o meu corao. J fallei muitas vezes de
Rossetti, sabe-se pois como o amava, seja-me pois permittido dizer
 Italia o que j tenho dito tantas vezes: Oh! Italia, minha me,
acabamos de perder, eu um dos meus irmos mais caros, e tu um dos teus
filhos mais generosos.

Era natural de Genova. Havia sido, por paes que conheciam pouco o
seu caracter, destinado  vida ecclesiastica, quando era um dos mais
ardentes patriotas italianos que tenho conhecido. Inclinado  vida
aventureira e no podendo respirar na Italia, partiu para o Rio de
Janeiro onde foi negociante e corretor; mas no tendo Rossetti nascido
negociante, era uma planta exotica dando-se mal na terra do agio e
calculo, no porque elle no fosse dotado de uma intelligencia fina e
apta a enriquecer-se de todos os conhecimentos, mas porque Rossetti
era o mais italiano de todos os italianos, isto , o mais generoso e
prodigo dos homens, e com taes _vicios_ no se faz fortuna, mas antes
se caminha a grandes passos para a ruina.

Foi o que aconteceu com Rossetti.

Bom para com todos, a sua casa achava-se franca para toda a gente,
e especialmente para os italianos desgraados. No esperava que os
proscriptos o fossem procurar, era elle que os ia encontrar, esgotando
assim em pouco tempo os seus recursos. Bem desgraado, esse corao
do anjo no podia ver soffrer um italiano. Se o no podia soccorrer
immediatamente, fazia-o esperar na sua pobre cabana, e corria as
ruas da cidade, e no entrava em sua casa seno quando trazia algum
soccorro para aquelle ou aquelles que o esperavam.  verdade que a sua
bondade, a sua franqueza e a sua lealdade o tinham tornado estimado de
todos, e por isso quando se achava n'estes piedosos embaraos, todos o
coadjuvavam com prazer.

A batalha de Tarifa teve logar, e os republicanos foram batidos pelos
imperiaes; Bento Gonalves e os principaes chefes feitos prisioneiros,
e conduzidos ao Rio de Janeiro. Entre elles achava-se o nosso capito
Zambecarri, com quem travamos relaes, segundo j disse, nas prises
de Santa Cruz. Fallou-se de nos fazermos corsarios, e desde esse
momento Rossetti e eu no tivemos um minuto de descano em quanto
no nos lanamos no Occeano com a bandeira republicana. Rossetti
encarregou-se de tudo e alcanou o fim que pertendiamos.

Os leitores sabem o resto, porque desde esse momento no nos perdemos
de vista.

Infelizmente no ha um canto da terra onde no descansem os ossos de um
italiano generoso, devendo por isso a Italia cobrir-se de luto e no
encher-se de gloria. Pobre Italia, tu sentirs verdadeiramente a sua
falta no dia em que tentares arrancar o teu cadaver aos corvos que o
devoram.




                                 XXXV

                          A PICADA DAS ANTAS


Esta retirada emprehendida na estao invernosa, por um paiz montanhoso
e debaixo de uma chuva incessante foi a mais terrivel e mais desastrosa
que tenho visto.

Conduziamos por precauo algumas vaccas, sabendo perfeitamente que no
caminho que tinhamos a atravessar no encontrariamos comestiveis alguns.

Retirando-nos, seguiamos a diviso do general Labattue, mas
infelizmente sem a podermos alcanar. S os selvagens manifestavam
as suas sympathias por ns, atacando-lhe a guarda avanada. Tivemos
occasio de vr de perto esses homens da natureza que no nos foram
hostis.

Annita durante esta retirada de tres mezes soffreu toda a casta de
privaes e incommodos com um stoicismo e uma coragem admiravel.

 necessario ter algum conhecimento das florestas d'esta parte do
Brazil para fazer ida das privaes soffridas por uma poro de homens
sem meios de transporte, e tendo unicamente por recurso o _lao_, arma
mui util nas planicies cobertas de animaes, mas perfeitamente inutil
n'essas expessas florestas abundantes em tigres e lees.

Para a nossa desgraa ser ainda maior, os rios muito proximos uns dos
outros n'estas florestas virgens engrossavam cada vez mais. A horrivel
chuva que nos perseguia no cessava de cair, acontecendo muitas vezes
que uma parte dos nossos soldados se achavam entre duas correntes de
agua e ahi ficavam privados de todo o alimento, morrendo muitos de
fome, e principalmente as mulheres e creanas que no podiam supportar
tanto as privaes. Era uma carnagem mais horrivel do que a de uma
sanguinolenta batalha.

A nossa pobre infanteria principalmente soffria muito mais, porque no
tinha como a cavallaria o recurso de matar os cavallos. Poucas mulheres
e menos creanas sairam vivas da floresta. As poucas que escaparam
foram salvas pelos cavalleiros que tendo a felicidade de conservar os
cavallos, tiveram d d'aquelles pequenos entes, abandonados por suas
mes mortas de fome, frio e fadiga.

Annita tremia com a ida de perder o nosso Menoti, que foi salvo
unicamente por milagre. Nos sitios mais perigosos, e na passagem dos
rios, conduzia o nosso pobre filho, de tres annos de edade, suspenso
ao meu pescoo por um leno, podendo aquecel-o d'este modo com o meu
alento. De doze mulas e cavallos com que tinha entrado na floresta, e
que eram destinadas ao meu servio, no tinha podido salvar mais que
duas mulas e dois cavallos, as demais tinham morrido de fome ou de
fadiga. Para completar a nossa desgraa, os guias tinham-se perdido no
caminho, o que foi a causa principal dos nossos sofrimentos na temivel
floresta das Antas.

Quanto mais andavamos, menos viamos chegar o fim d'esta picada maldita.
Fiquei muito longe dos meus companheiros, com duas mulas horrivelmente
fatigadas, e que eu esperava salvar, fazendo-as caminhar mui devagar e
sustentando-as com folhas de taquaras a que Taquari deve o seu nome.
Durante este tempo enviei Annita adiante com um criado e meu filho,
afim de que elle procurasse o fim d'esta interminavel floresta e algum
alimento.

Os dois cavallos que eu havia deixado a Annita e que ella montava
simultaneamente, foi quem nos salvaram. Ella achou o fim da floresta e
ahi encontrou um piquete dos meus bravos soldados assentados a um bello
fogo, o que no era commum pelo tempo que fazia.

Os meus companheiros que por felicidade tinham conservado alguns
vestidos de l, embrulharam n'elles a creana, aquecendo-a e
chamando-a por este modo  vida, quando j a pobre me comeava a
perder todas as esperanas. Mas ainda no  tudo: estes excellentes
rapazes comearam ento a procurar com uma grande sollicitudde alguns
alimentos, que elles no tinham procurado para si, mas que agora
procuravam por minha causa.

O que d'entre todos prestou a minha esposa e filho os primeiros e mais
efficazes soccorros foi Mangio: que o seu nome seja abenoado.

Tinha tido grande difficuldade em salvar os meus dois cavallos, e por
fim vi-me na necessidade de abandonar os dois pobres animaes esfalfados
e aguados, sendo obrigado, apezar do estado miseravel em que me achava,
a atravessar o resto da floresta a p.

No mesmo dia encontrei minha mulher e filho e soube ento o que os meus
companheiros tinham feito por causa d'ella.

Nove dias depois da nossa entrada na floresta conseguimos sair! Poucos
officiaes tinham conseguido salvar os seus cavallos. O inimigo que nos
precedia, fugindo diante de ns, tinha deixado duas peas de artilheria
na picada; mas de que nos serviriam ellas? Faltavam todos os meios de
transporte e pde ser que ellas ainda estejam no mesmo logar em que as
vi.

As tempestades pareciam conscriptas na floresta. Apenas saimos d'ella e
nos aproximamos de Cima da Serra e de Vaccaria que o bom tempo comeou,
caindo ento em nosso poder alguns bois, que indemnisando-nos do nosso
longo jejum nos fizeram esquecer a fadiga, a fome e a chuva.

Ficmos na Vaccaria alguns dias, esperando pela diviso de Bento
Gonalves, que se nos uniu em completa desordem, e com menos um tero
dos soldados.

O infatigavel Morinque sabendo da retirada d'esta diviso, tinha
comeado a perseguil-a, sem descano, atacando-a em todas as occasies,
alliando-se para esta obra de destruio aos montanhezes, sempre hostis
aos republicanos. Todos estes successos deram tempo a Labattue a fazer
a sua retirada, e depois a sua junco com o exercito imperial, tendo
apenas, apezar d'isto, algumas centenas de homens  sua disposio.
Ento as mesmas dificuldades que haviam existido para ns, appareceram
para elles que tiveram alm d'isso a vencer um obstaculo imprevisto, e
que eu noto por causa da sua raridade.

O general Labattue tendo que atravessar no seu caminho dois bosques
chamados de Mattos, ahi encontrou algumas d'essas tribus indigenas
chamadas de _Bragis_, que so as mais selvagens que se conhecem no
Brazil. Estas tribus sabendo da passagem dos imperiaes, armaram-lhe
tres ou quatro emboscadas, fazendo-lhe grande mal. Em quanto a ns no
nos causaram a mais pequena inquietao e ainda que houvesse no caminho
muitos d'esses alapos, que os indios collocam na passagem dos seus
inimigos, todos se achavam descobertos em logar de estarem disfarados
com ramos de arvores, segundo o costume.

Durante a curta paragem que fizemos na ourela de um d'esses bosques
gigantescos, appareceu-nos uma mulher, que na sua mocidade tinha sido
roubada pelos selvagens, e que havia aproveitado a nossa presena para
fugir.

A pobre mulher achava-se n'um deploravel estado.

Como no tinhamos ento nenhum inimigo a atacar ou de quem fugissemos,
continuamos a nossa marcha mui vagarosamente, porque no possuiamos
cavallos, e era necessario ir domando os poltros.

O corpo de lanceiros republicanos, tendo ficado completamente
desmontado, foi tambem obrigado a lanar mo dos poltros.

Era na verdade um explendido espectaculo, sempre novo, ainda que
repetido todos os dias, o vr esses jovens e robustos negros que
mereciam o epitheto de domadores de cavallos que Virgilio d a Pelops.
Era necessario vl-os saltar sobre esses selvagens filhos do deserto,
que no conheciam nem freio, nem selim, agarrando-se s crinas, e
correndo pelas planicies, at que cedendo ao homem o quadrupede se
confessava vencido. Mas a lucta era longa, e o animal no se rendia
seno depois de ter exgotado todas as foras em se desembaraar do seu
tyranno, que do seu lado admiravel de agilidade e coragem, o apertava
entre os joelhos, como entre duas tenazes, no o deixando seno depois
de o ter domado.

Tres dias so sufficientes a um bom domador de cavallos para que o
animal o mais rebelde possa sofrer o freio.

Raramente, comtudo os poltros so bem domesticados pelos soldados,
sobretudo nas marchas onde os muitos afazeres impedem os domadores de
lhe prestar todos os cuidados necessarios.

Tendo passado os _Mattos_ atravessmos a provincia das Misses,
dirigindo-nos para Cruz Alta, capital d'esta pequena provincia, depois
de Cruz Alta dirigimo-nos a S. Gabriel onde se estabeleceu o quartel
general, e edificaram barracas para o acampamento do exercito.

Seis annos d'esta vida de aventuras e perigos no me tinham fatigado
em quanto era s, mas actualmente que tinha uma pequena familia, a
separao de todos os meus antigos conhecimentos, a ignorancia completa
em que me achava ha tantos annos sobre o estado da minha familia,
fizeram nascer o desejo de me aproximar de um ponto onde podesse
receber noticias de meu pae e minha me, porque se tinha por um momento
esquecido essas ternas affeies, ellas appareciam de novo. Tambem no
tinha noticias da minha outra me, da Italia!

Decidi ento ir a Montevideo; ao menos temporariamente. Pedi pois
licena ao presidente, assim como para levar alguns bois, de que a
venda devia servir para me sustentar durante a jornada.




                                 XXXVI

                           CONDUCTOR DE BOIS


Eis-me pois _truppiere_, isto  conductor de bois.

Em consequencia n'uma estancia chamada o _Casal das Pedras_, com a
authorisao do ministro da fazenda, consegui reunir em vinte dias e
com grande difficuldade novecentos bois, quasi todos selvagens. Maiores
dificuldades me esperavam ainda durante o caminho onde encontrei
obstaculos quasi invenciveis. O maior de todos foi o Rio-Negro, onde
tive quasi perdido todo o meu capital. Da passagem do rio, da minha
inexperiencia no meu novo mister, e sobre tudo da rapina de certos
_capatazes_, mercenarios que tinha alugado como conductores, salvei
com muito custo quinhentos bois, que visto o mau sustento e o pessimo
caminho foram julgados incapazes de chegar ao seu destino.

Resolvi em consequencia matal-os e tirar-lhe as pelles, que vendi,
ficando-me livres de toda a despeza uns trezentos escudos que serviram
para fazer face s primeiras necessidades da minha familia.

 aqui que devo mencionar um encontro que me deu um dos meus mais
charos e melhores amigos.

Aproximando-me de S. Gabriel, na retirada que acabavamos de fazer,
tinha ouvido fallar de um official italiano, dotado de grande valor e
intelligencia, que, exilado como carbonario se tinha batido em Frana
no dia 5 de junho de 1832, e depois no Porto durante o cerco que ahi
houve por causa da guerra entre os dois irmos D. Pedro e D. Miguel,
vindo depois offerecer-se ao servio das jovens republicas da America
do Sul.

Contavam-se a seu respeito cousas to extraordinarias que muitas vezes
disse:

--Quando encontrar esse homem, ha-de ser meu amigo.

Chamava-se Anzani.

Chegando  America, tinha-se apresentado com uma carta de recommendao
a dois dos seus compatriotas MM.*** negociantes em S. Gabriel, que
tinham feito d'elle o seu _factotum_.

Anzani exercia todos os empregos, caixeiro, guarda-livros, homem de
confiana, emfim era o bom genio d'esta casa.

Como todos os homens fortes e corajosos, Anzani era socegado e dotado
de um excellente genio.

A casa commercial de que elle se tinha tornado director era uma d'essas
casas como se acham unicamente na America do Sul, isto  vendendo tudo
o que  possivel imaginar.

A villa onde residiam os nossos dois compatriotas era infelizmente
proxima da floresta que servia de refugio a essas tribus de indios de
que j dissemos algumas palavras no capitulo precedente.

Um dos chefes d'estes indios tinha-se tornado o terror d'esta pequena
villa,  qual vinha duas vezes por anno, com a sua tribu, roubando
quanto queria sem encontrar a menor resistencia.

Primeiramente veiu acompanhado por duzentos ou trezentos homens, depois
com cem, depois com cincoenta, segundo elle tinha visto augmentar o
terror estabelecendo o seu poder, e depois sentindo-se o senhor tinha
vindo s, e dava as suas ordens que eram obedecidas, como se por
detraz de si tivesse a sua tribu prompta a assassinar aquelle que lhe
recusasse obedecer.

Anzani tinha ouvido fallar d'este homem e tinha escutado tudo o que
se dizia a seu respeito, sem manifestar a sua opinio sobre a audacia
d'este chefe selvagem e sobre o terror que inspirava a sua ferocidade.

Este terror era tamanho que quando se ouvia dizer o _chefe dos Mattos_
todas as janellas se fechavam, e todas as portas se trancavam como se
na villa andassem alguns ces damnados.

O indio estava habituado a estes signaes de terror, que lisongeavam o
seu orgulho, escolhia a porta que queria vr aberta, batia--abrindo-se
logo com a rapidez do relampago--e roubava tudo sem encontrar a menor
resistencia.

Havia justamente dois mezes que Anzani dirigia a casa de commercio nos
seus maiores como menores detalhes, quando se ouviu o grito terrivel:

--O chefe dos Mattos!

Como o costume, portas e janellas fecharam-se precipitadamente.

Anzani estava s em casa arranjando as contas da semana, e no julgando
que o estrondoso annuncio que acabavam de fazer valesse a pena de se
incommodar ficou assentado  sua mesa, com as janellas e portas abertas.

O indio parou espantado diante d'essa casa que no meio do terror geral
que causava a sua chegada, se conservava indifferente  sua appario.

Entrou e viu encostado ao balco um homem que socegadamente fazia as
suas contas. Parou diante d'elle de braos cruzados e olhando-o com
espanto.

Anzani levantou a cabea.

Anzani era a politica em pessoa.

--Que quer meu amigo? perguntou elle ao indio.

--Como! que quero?! disse este.

--Sem duvida, disse Anzani, quando se entra n'um armazem  que se quer
comprar alguma cousa.

O indio comeou a rir.

--Pelo que vejo no me conheces? perguntou ele a Anzani.

--Como queres que te conhea, se  a primeira vez que te vejo!

--Sou o chefe dos Mattos, replicou o indio, mostrando no seu cinto um
arsenal composto de quatro pistollas e um punhal.

--Ento que queres?

--Beber.

--O que?

--Um copo de agua-ardente.

--No ha nada mais facil; paga primeiro e depois tens a agua-ardente
que quizeres.

O indio comeou a rir de novo.

Anzani franziu as sobrancelhas.

--Em logar de me responder, tornas de novo a rir. No acho isso mui
politico. Previno-te, pois, que se isso succede outra vez ponho-te fra
da porta.

Anzani tinha pronunciado estas palavras com tal firmeza, que outro
qualquer homem que no fosse o indio teria comprehendido com quem tinha
a tratar.

Talvez o selvagem houvesse comprehendido, mas no o deu a conhecer.

--J te disse que me desses um copo de agua-ardente, repetiu elle
batendo com o punho no balco.

--E eu j te disse que o pagasses primeiro, disse Anzani, quando no,
no a bebes.

O indio deitou um olhar colerico a Anzani, mas o olhar d'este encontrou
o seu,--o relampago havia encontrado o relampago.

Anzani dizia muitas vezes:

--A unica fora que existe  a moral. Olhae fixa e obstinadamente o
homem que vos encarar, se elle abaixar os olhos, estaes senhor d'elle,
mas se pelo contrario sois vs que os abaixaes estaes perdido.

O olhar de Anzani tinha um irresistivel poder. Foi o indio que foi
vencido, e conhecendo a sua inferioridade, e furioso d'este poder
desconhecido, quiz ganhar animo bebendo.

--Est bem, disse elle, ahi tens meia piastra, da-me de beber.

-- obrigao minha servir quem me paga, disse tranquilamente Anzani.

E deu ao indio um copo de agua-ardente.

O indio bebeu.

--Outro, disse elle.

Anzani deu-lhe outro copo.

O indio bebeu-o como o primeiro.

--Ainda outro, disse elle.

Em quanto Anzani teve dinheiro suficiente para se pagar da despeza do
indio, no lhe fez nenhuma observao, mas quando o bebedor j no
tinha dinheiro para pagar, cessou de encher-lhe o copo.

--Ento? perguntou o selvagem.

Anzani fez-lhe a sua conta.

--Depois? insistiu o selvagem.

--Depois?... Como no tem dinheiro, no bebe mais agua-ardente,
respondeu Anzani.

O indio tinha formado bem o seu calculo. Os cinco ou seis copos de
agua-ardente que havia bebido, tinham-lhe dado a coragem que havia
perdido com o olhar de Anzani.

--Agua-ardente, disse elle levando a mo a uma das pistollas,
agua-ardente, ou morres.

Anzani que j previa o final d'esta scena, estava preparado. Tinha
cinco ps e nove pollegadas, e era dotado de uma fora e agilidade
pasmosa. Apoiou a mo no balco e saltando para o outro lado deixou-se
cair sobre o indio, agarrando-lhe o punho direito.

O selvagem no poude aguentar o choque e caiu; Anzani no o largou e
poz-lhe o p no peito.

Ento agarrando com a mo esquerda a mo direita do indio, tornando-lhe
por isso inoffensiva a arma, Anzani tirou-lhe do cinto as pistollas
e punhal, que espalhou pelo armazem, e arrancando-lhe a pistolla da
mo, quebrou-lhe o cano na cabea e na cara, e julgando que o selvagem
j se achava bem castigado foi empurrando-o aos pontaps at  porta
deitando-o no meio de um grande lamaal.

O indio levantou-se com muita difficuldade e fugiu, mas em tal estado
que nunca mais tornou a apparecer em S. Gabriel.

Anzani havia feito debaixo do nome de Ferrari a guerra de Portugal.
Com este nome tinha-se conduzido admiravelmente, ganho a patente de
capito e recebido duas graves feridas: uma na testa, outra no peito, e
to graves que no fim de dezeseis annos morreu por causa d'ellas.

A ferida da cabea era um golpe de sabre que lhe tinha aberto o craneo.

A do peito foi uma balla que lhe tinha ficado no pulmo, e de que mais
tarde lhe nasceu uma phtisica pulmonar.

Quando se lhe fallava dos prodigios de coragem que tinha praticado
debaixo do nome de Ferrari, sorria-se e dizia que elle e Ferrari eram
dois entes differentes.

Infelizmente no podia, ao mesmo tempo que attribuia os seus prodigios
de valor a um ente imaginario, trespassar-lhe as duas feridas.

Tal era o homem de quem me haviam fallado, e a quem eu desejava
conhecer e ter por amigo.

Em S. Gabriel soube que tinha ido tratar de alguns negocios a sessenta
milhas de distancia. Montei ento a cavallo para o procurar.

No caminho, na margem de um pequeno rio, encontrei um homem, com o
peito n lavando uma camisa--vi que era este o homem que procurava.

Dirigi-me a elle, estendi-lhe a mo e disse-lhe quem era.

Desde este momento fomos irmos.

J no estava na casa de commercio, e como eu havia entrado ao servio
da republica do Rio Grande. Era commandante de infanteria da diviso de
Joo Antonio, um chefe republicano dos mais conhecidos. Como eu deixava
o servio e dirigia-se aos _saltos_.

Depois de um dia passado juntos, demos os nossos _adresses_ respectivos
e combinmos que no emprehenderiamos movimento algum importante sem o
participarmos mutuamente.

Seja-me permittido narrar um facto que d bem a conhecer a nossa
miseria e a nossa fraternidade.

Achava-me to pobre como Anzani em camisas, em quanto que elle tinha
mais um par de calas.

Dormimos no mesmo quarto, mas Anzani partiu antes de romper o dia e sem
se despedir.

Quando accordei encontrei sobre o meu leito o melhor dos seus dois
pares de calas.

Conhecia apenas Anzani, mas era um d'esses homens que se apreciam 
primeira vista, e tanto que quando entrei ao servio da republica de
Montevideo e fui encarregado de organisar a legio italiana, o meu
primeiro cuidado foi escrever-lhe convidando-o a vir acompanhar-me.

Veiu com effeito e desde esse dia no nos deixamos mais, at que elle
tocando na terra de Italia morreu entre os meus braos.




                                XXXVII

           PROFESSOR DE MATHEMATICA E CORRETOR DE COMMERCIO


Em Montevideo dirigi-me a casa de um dos meus amigos chamado Napoleo
Castellini. Ao seu excellente corao sou devedor de muito, para jmais
me esquecer, assim como a G. D. Cunes,--amigo de toda a minha vida,--e
aos irmos Antoninho e Giovanni Risso.

Gastos os poucos escudos que me tinham produzido as minhas pelles de
bois, e para no ficar com minha mulher e filho s sopas dos meus
amigos, emprehendi duas industrias que, devo confessal-o, chegavam
apenas para satisfazer as minhas necessidades.

A primeira era corretor de fazendas. A segunda era a de professor de
mathematica, na casa do estimavel Paulo Semidei.

Este modo de vida durou at  minha entrada na legio oriental.

Os negocios do Rio Grande comeavam a estabelecer-se e a arranjar-se,
no tendo eu pois nada a esperar d'este lado. A republica oriental--
assim que se chamava a republica de Montevideo--sabendo que me achava
livre no tardou em me offerecer uma occupao mais em harmonia com os
meus meios e com o meu caracter, do que a de professor de mathematica e
corretor.

Offereceram-me e acceitei o commando da corveta--_Constituio_.

A esquadra oriental achava-se debaixo das ordens do coronel Cosse, e a
de Buenos-Ayres s ordens do general Brown.


           [Ilustrao: _Lith. de Castro, Poo Novo N. 33._
                            FRANCISCO 2.]




                              MONTEVIDEO

Quando o viajante chega da Europa n'um d'esses navios, que os primeiros
habitantes do paiz tomavam por casas volantes, o que v--logo que o
marinheiro de vigia grita: Terra so duas montanhas.

Uma que  a cathedral, e a outra ornada de um pharol, que  a montanha
do _Cerro_.

 medida que o viajante se aproxima das torres da cathedral, de que
os ornatos de porcellana brilham ao sol, o viajante v os _mirantes_
sem numero e de frmas variadas que ornam todas as casas, depois essas
mesmas casas, encarnadas ou brancas, com os seus terraos, depois ao p
do Cerro, as _salgadoras_, vastos edificios onde se salgam as carnes;
e emfim ao fundo da bacia,  borda do mar as encantadoras _quintas_,
delicia e orgulho dos habitantes onde elles vo passar todos os
domingos e dias de festa.

Ento se deitaes a ancora, entre o Cerro e a cidade, dominada, por
qualquer ponto de vista que a olheis, pela sua gigantesca cathedral,
se a cana vos leva para a praia, puchada por seis valentes remadores,
se de dia encontraes pelas estradas grupos de encantadoras mulheres
vestidas de amazonas, se de tarde atravez as janellas abertas, deitando
para a rua torrentes de luz e harmonia, ouvis os sons do piano e de
outros instrumentos,  que estaes em Montevideo, a vice-rainha d'esse
rio de prata, de que Buenos-Ayres pretende ser a rainha, e que se lana
no Occeano por uma embocadura de oitenta leguas.

Foi Joo Dias o que no principio de 1516 descobriu as praias da Prata.
A primeira cousa que o marinheiro de quarto avistou foi o Cerro, e
cheio de alegria exclamou em latim:

--_Montem video!_

Sendo este o nome que ficou  republica, de que vamos rapidamente
escrever a historia.

Joo Dias, j com bastante orgulho de haver no anno passado descoberto
o Rio de Janeiro, no gosou por muito tempo da sua gloria.

Tendo deixado na bahia dois dos seus navios, e havendo subido o rio
Prata com o terceiro, confiando nos signaes de amizade que lhe fizeram
os indios, caiu n'uma emboscada sendo morto, despadaado e devorado na
margem do rio, que em memoria d'este triste acontecimento tem o nome de
_Solis_.

Estes indios anthropphagos pertenciam  tribu dos Charruas que era
senhora do paiz, como na extremidade opposta do grande continente o
eram os Hures e os Sioux.

Os hespanhoes foram pois obrigados a edificar Montevideo no meio de
combates, que se renovavam todos os dias e todas as noites, contando
por isso Montevideo apenas cem annos, apezar de ter sido descoberto em
1516.

Pelo fim do ultimo seculo, appareceu um homem que promoveu aos
senhores primitivos da costa uma guerra de exterminao, em que foram
aniquilados.

Tres ultimos combates--em que collocaram entre si suas mulheres e
filhos, e caam sem recuar um passo--viram desapparecer os seus ultimos
restos, e monumentos d'esta derrota suprema; o viajante pde ainda vr
ao p da montanha _Augua_ os ossos dos ultimos Charruas.

Este novo Mario era Jorge Pacheco, pae do general Pacheco e Obes de
quem, como j dissemos, tivemos todos estes promenores.

Mas os selvagens destruidos deixaram a Pacheco inimigos mais ferozes,
mais perigosos, e mais inexterminaveis que os indios, visto que
aquelles eram sustentados, no por uma crena religiosa, que todos
os dias ia enfraquecendo, mas, pelo contrario, por um interesse
material que ia augmentando sensivelmente. Estes inimigos eram os
contrabandistas do Brazil.

O systema prohibitivo era a base do commercio hespanhol. Havia pois
uma guerra encarniada entre o exercito e os contrabandistas, que ou
pela estrategia ou pela fora tentavam introduzir no territorio de
Montevideo as suas sedas e tabaco.

A lucta foi longa, encarniada e mortal. D. Jorge Pacheco dotado de
uma fora herculea, de um talhe gigantesco, e de uma grande finura,
tinha alcanado--pelo menos assim o julgava--no a aniquillar os
contrabandistas, como havia feito aos Charruas, mas a affastal-os da
cidade, quando repentinamente tornaram a apparecer mais atrevidos,
mais activos, e reunidos como nunca em roda de uma vontade unica, to
poderosa, to corajosa, e to intelligente como podia ser a do general
Pacheco.

Pacheco mandou espies por toda a parte a informarem-se do motivo
d'esta reappario.

Todos voltaram pronunciando um unico nome:

--Artigas!

Quem era este Artigas?

Um mancebo de vinte a vinte e cinco annos, bravo como um velho
hespanhol, esperto como um Charrua, e agil como um _gaucho_: tinha tres
raas seno no sangue ao menos no espirito. Comeou ento uma lucta
admiravel de esperteza e fora entre o general e o contrabandista, mas
um era moo e todos os dias a sua fora augmentava, o outro no era
velho, mas estava j canado.

Durante quatro ou cinco annos Pacheco perseguiu Artigas, batendo-o
por toda a parte por onde apparecia; mas Artigas derrotado no era
nem morto, nem feito prisioneiro, e no dia seguinte comeava de novo
a lucta. Pacheco cansou primeiro e como um d'esses romanos da antiga
republica, que sacrificavam o seu orgulho ao bem do paiz, disse ao
governo que resignava os seus poderes com a condio que Artigas
seria nomeado general em seu logar, porque s Artigas podia acabar a
destruio dos contrabandistas.

O governo acceitou, e como esses bandidos romanos que se submettem ao
poder do papa e passeam venerados na cidade de que foram o terror,
Artigas fez a sua entrada triumphal em Montevideo, e comeou a obra de
destruio para que havia sido chamado.

Estes factos tiveram logar cincoenta e oito ou sessenta annos antes
dos acontecimentos em que Garibaldi vae tomar parte, mas como ns
somos author dramatico e no podemos deixar de comear um drama por um
prologo, vamos dar a conhecer aos leitores, homens e terras que lhe so
bem desconhecidos.

Artigas tinha ento vinte e sete ou vinte e oito annos, tendo na poca
em que o general Pacheco me deu estes detalhes noventa e tres annos,
vivendo ignorado n'uma pequena quinta pertencente ao presidente do
Paraguay. Hoje provavelmente j tem morrido.

Era um mancebo bello e bravo, e que representava um dos tres poderes
que reinaram em Montevideo.

Jorge Pacheco era o typo do valor cavalheiresco do velho mundo, que
atravessou os mares com Colombo, Pizarro e Fernando Cortez. Artigas
era o homem do campo, e podia representar, o que chamavam o partido
nacional, collocado entre os portuguezes e hespanhoes, isto  entre os
estrangeiros que se tinham tornado portuguezes e hespanhoes, pela sua
habitao nas cidades onde tudo fazia lembrar os costumes portuguezes e
hespanhoes.

Ainda havia um terceiro typo e mesmo uma terceira potencia que foi o
flagello de todos e de que  necessario dizer duas palavras.

Este terceiro typo  o gaucho, a quem Garibaldi chama o centauro do
novo mundo.

Na Frana chamamos gaucho a tudo quanto vive n'estas vastas planicies,
mas commettemos um erro: o capito Head da marinha ingleza, foi o
primeiro a pr em moda esta mania de confundir o gaucho com o habitante
do campo, que na sua soberba repelle no s a similhana, mas at a
comparao.

O gaucho  o bohemio do novo mundo. Sem terras, sem casa, sem familia,
possue por toda a fortuna um casaco, um cavallo, uma faca e o lao.

A faca  a sua arma, o lao a sua industria.

A nomeao de Artigas foi recebida com satisfao por todos, excepto
pelos contrabandistas, e ainda se achava occupando este alto cargo
quando rebentou a revoluo de 1810, revoluo que tinha por fim, e que
obteve, destruir o dominio hespanhol no novo mundo.

Esta revoluo comeou em 1810 em Buenos-Ayres e acabou em Bolivia na
batalha de Ayacuncho em 1824.

O chefe das foras independentes era ento o general Antonio Jos de
Soure, e tinha cinco mil homens s suas ordens.

O general em chefe das tropas hespanholas era D. Jos de Laserna, o
ultimo vice-rei do Peru, e commandava onze mil homens.

Os patriotas no possuiam seno uma unica pea, eram um contra dois,
e achavam-se completamente desprovidos de munies, e de provises de
boca. No tinham remedio seno esperar, assim o fizeram, e quando foram
atacados ficaram vencedores.

Foi o general patriota Aleixo Cordova que comeou o combate.
Commandava mil e quinhentos homens. Poz a bandeira na ponta da espada e
gritou:

--vante!

--A marche marche, ou no passo ordinario? perguntou um official.

--No passo da victoria, respondeu elle.

N'essa mesma tarde todo o exercito hespanhol tinha capitulado, e
achava-se prisioneiro d'aquelles que o tinham sido seus.

Artigas havia sido um dos primeiros a festejar a revoluo. Tinha-se
posto  testa do movimento, e por sua vez offereceu a Pacheco o
commando, como annos antes elle o havia feito.

Esta troca ia-se talvez operar quando Pacheco foi surprehendido na Casa
branca, no Uruguay, por marinheiros hespanhoes, e ficou seu prisioneiro.

Artigas continuou a sua tarefa libertadora. Em pouco tempo expulsou os
hespanhoes do campo de que se havia tornado rei, reduzindo-os a serem
senhores unicamente de Montevideo, que podia apresentar uma sria
resistencia, visto ser a segunda cidade fortificada da America.

A primeira era S. Joo de Ulloa.

Em Montevideo achavam-se refugiados todos os partidarios dos
hespanhoes, protegidos por um exercito de quatro mil homens. Artigas
sustentado pela alliana de Buenos-Ayres comeou o cerco da cidade, mas
um exercito portuguez veiu em auxilio dos hespanhoes e Artigas teve de
retirar-se. Em 1812 Montevideo soffreu novo cerco. O general Rondeau
commandava as foras de Buenos-Ayres e Artigas as dos patriotas, e
foram estes que de novo cercaram a cidade.

O cerco durou vinte e tres mezes, tendo logar no fim d'este tempo uma
capitulao que entregou a capital da futura republica oriental aos
sitiantes, commandados ento pelo general Alvear.

Porque razo era ento general em chefe Alvear e no Artigas? Vamos
dizel-o.

 que no fim de vinte mezes de cerco, depois de tres annos de contacto
entre os homens de Buenos-Ayres e os de Montevideo, as differenas de
habitos, de costumes, e direi mesmo de raas, que tinham sido causa
de simples desintelligencias, haviam-se tornado em motivos de odios
mortaes.

Artigas, como Achilles havia-se retirado desapparecendo pelos campos
to seus conhecidos no tempo da sua mocidade em que exercia o mister de
contrabandista.

O general Alvear tinha-o substituido, sendo general em chefe dos
_Portenos_, na occasio em que Montevideo se entregou.

_Portenos_  o nome que do aos naturaes de Buenos-Ayres, e _Orientaes_
aos de Montevideo.

Tentaremos explicar as differenas que ha entre os _Portenos_ e os
_Orientaes_.

O habitante de Buenos-Ayres fixado no paiz ha trezentos annos na pessoa
de seus avs, perdeu desde o fim do primeiro seculo da sua existencia
na America, todas as tradices da me patria, isto  da Hespanha.
Os habitantes de Buenos-Ayres so hoje to americanos, como o eram
antigamente os indios que d'ali expulsaram.

O habitante de Montevideo, ao contrario, existindo apenas ha um seculo
no paiz,--sempre na pessoa de seus avs, bem entendido--no teve o
tempo de esquecer que  de raa hespanhola. Tem o sentimento da sua
nova nacionalidade, mas sem ter esquecido as tradices da velha
Europa, em quanto que o de Buenos-Ayres, se affasta todos os dias da
Europa para entrar na barbaria.

O paiz no deixa de ter sua influencia, sobre este movimento retrogrado
de um lado, progressivo do outro.

A populao de Buenos-Ayres, espalhada em areaes immensos, com
habitaes muito affastadas umas das outras, em sitios completamente
desprovidos de agua, e de todos os objectos necessarios, e habitando
cabanas mal construidas, ganha um caracter sombrio, insociavel e
bulhento. As suas tendencias dirigem-se para os indios selvagens
das fronteiras, com os quaes elles negoceiam em todos os objectos
que trazem dos sitios onde a civilisao ainda no penetrou, e so
completamente desconhecidos aos europeus, dos quaes recebem em troca
agua-ardente e tabaco que levam para as grandes planicies dos pampas,
de que tomaram o nome, ou a quem pde ser deram o seu.

A populao de Montevideo, pelo contrario, possue um bello paiz,
cortado por muitos rios. No possue vastos bosques, no tem grandes
florestas, como a America do Norte, mas as margens dos seus rios so
ornadas de bellas e magestosas arvores. Possue alm d'isso bellos
edificios, e a terra produz todo o necessario para o seu sustento. As
suas casas, quintas e herdades so proximas umas das outras, e o seu
caracter franco e hospitaleiro,  inclinado a essa civilisao de que a
aproximao do mar lhe conduz continuamente.

Para a populao de Buenos-Ayres o typo da perfeio  o indio a
cavallo.

Para a de Montevideo  o europeo apertado na sua casaca, na sua gravata
e nas botas de polimento.

Os naturaes de Buenos-Ayres tem a perteno de serem os primeiros da
America em elegancia. Teem mais imaginao que os de Montevideo, e os
primeiros poetas que a America conheceu, nasceram em Buenos-Ayres.
Varela e Lafinur. Domingos e Marmol so poetas portenos.

O habitante de Montevideo  menos poetico, mas mais socegado e mais
firme nas suas resolues e nos seus projectos. Se o seu rival tem
a perteno de ser o primeiro em elegancia, elle tem a de o ser
na coragem. Entre os seus poetas figuram de Hidalgo, de Berro, de
Figueira, e Joo Carlos Gomes.

As mulheres de Buenos-Ayres tambem teem a preteno de serem as mais
bellas da America meridional desde Lemair at ao Amazonas.

Pde ser que na realidade o rosto das mulheres de Montevideo seja menos
formoso que o das suas visinhas, mas as suas frmas so maravilhosas.

Ha pois entre os dois paizes;

Rivalidade de coragem e elegancia, entre os homens;

Rivalidade de belleza e elegancia, entre as mulheres;

Rivalidade de talento entre os poetas, esses hermaphroditas da
sociedade, colericos como os homens, caprichosos como as mulheres e
simples muitas vezes como as creanas mais innocentes.

Havia pois, como se v por tudo que acabamos de dizer, motivos
sufficientes para as relaes serem interrompidas entre Montevideo e
Buenos-Ayres, entre Artigas e Alvear.

No foi unicamente uma separao, que teve logar, mas sim uma guerra.

Todos os elementos de antipathia foram dirigidos contra os homens
de Buenos-Ayres pelo antigo chefe de contrabandistas. Pouco lhe
importavam ento os meios, de que tinha a servir-se, com tanto que
alcanasse o seu fim que era expulsar do paiz os Portenos.

Foi ento que Artigas reunindo todos os recursos que lhe offerecia o
paiz, se poz  testa d'esses bohemios da America que se chamam gauchos.

A guerra que fazia Artigas tinha alguma cousa de santa; assim nada
lhe podia resistir, nem o exercito de Buenos-Ayres, nem o partido
hespanhol, que sabia perfeitamente que a entrada de Artigas em
Montevideo, era a substituio da fora brutal  intelligencia.

Os que tinham previsto esta volta  barbaria no se haviam enganado.
Pela primeira vez homens vagabundos, por civilisar, e sem organisao,
viam-se formando um exercito e com um general. Durante a dictadura de
Artigas teve logar um periodo que tem alguma analogia com o nosso de
1793. Montevideo viu o reinado do homem dos ps ns, dos _casoncillos_
fluctuantes, da _chiripa_ escosseza, do _puncho_ despedaado, e com o
chapeu deitado sobre a orelha seguro pelo _barlipo_.

Ento Montevideo foi testemunha de scenas inauditas grotescas, e
algumas vezes terriveis. Muitas vezes as primeiras classes da sociedade
foram reduzidas  impotencia, Artigas tendo de menos a crueldade e de
mais a coragem, tornou-se ento o que mais tarde devia ser Rosas.

A dictadura de Artigas teve no obstante muitas cousas de brilhante e
nacional. Uma foi a lucta de Montevideo contra Buenos-Ayres, em que
Artigas derrotou sempre as foras d'este paiz e de que fez cessar a
influencia e a resistencia ao exercito portuguez que invadiu o paiz em
1815.

O pretexto d'esta invaso foi a desordem da administrao de Artigas
e a necessidade de salvar os povos visinhos de desordens eguaes, que
podia fazer nascer entre elles o contagio do exemplo. Estas desordens
tinham no mesmo paiz, dobrado a opposio que fazia o partido da
civilisao. As classes elevadas sobre tudo desejavam do corao uma
victoria que substituisse o dominio portuguez a esse dominio nacional
que trazia a brutal tyrannia da fora material. Comtudo no obstante
os ataques portenos e dos portuguezes, Artigas resistiu quatro annos,
dando tres batalhas, e vencido retirou-se para Entre rios, isto
 para o outro lado do Uruguay. Ahi, apezar de se achar fugitivo,
Artigas representava ainda, se no pelas suas foras, ao menos pelo
seu nome, um poder respeitavel, quando Ramiro seu tenente se revoltou,
contra elle, collocando-se  frente da tera parte das suas foras, e
derrotando-o de modo que lhe tirou toda a esperana de reconquistar a
sua posio perdida, obrigando-o a sair d'este paiz aonde como Anteo,
parecia ganhar novas foras todas as vezes que ahi tocava.

Foi ento que, egual a uma d'essas trombas que se evaporam, depois
de ter deixado a desolao e as ruinas na sua passagem, Artigas
desappareceu retirando-se para o Paraguay, onde, como j dissemos, em
1848 na poca em que Garibaldi defendia Montevideo, vivia ainda tendo
noventa e tres ou noventa e quatro annos, gosando de todas as suas
faculdades intellectuaes e de quasi todas as suas foras.

Artigas vencido no fez opposio ao dominio portuguez que se
estabeleceu no paiz, e o baro de Laguna francez de origem foi seu
representante em 1825. N'este anno Montevideo como todas as possesses
portuguezas da America foram cedidas ao Brazil.

Montevideo foi ento occupado por um exercito de oito mil homens e tudo
parecia assegurar ao imperador a sua pacifica posse.

Foi ento que um natural de Montevideo, proscripto, residente em
Buenos-Ayres, reuniu trinta e dois companheiros proscriptos como elle,
e decidiram que dariam a liberdade  patria ou que morreriam.

Este punhado de patriotas embarcou em duas canoas e desembarcou no
Grande Areal.

O chefe chamava-se Joo Antonio Lavalleja.

Lavalleja havia de antecipao tido relaes com um proprietario do
paiz que devia no momento do seu desembarque, ter os cavallos promptos.
Assim logo que desembarcou enviou-lhe um mensageiro, que lhe trouxe
em resposta que tudo estava descoberto, que os cavallos haviam sido
roubados e que Lavalleja e os seus companheiros no tinham outro
partido a tomar seno embarcarem de novo e o mais depressa possivel,
devendo dirigir-se para Buenos-Ayres.

Mas Lavalleja respondeu que no partia, pois no podia, nem queria
recuar, e ordenando aos remadores de voltarem para Buenos-Ayres sem
elle, tomou posse, no dia 19 de abril, de Montevideo em nome da
liberdade.

No dia seguinte os trinta valentes que tinham apanhado alguns cavallos,
com o consentimento de seus donos, pozeram-se em marcha para a capital,
mas foram encontrados por um destacamento de cavalleiros, de que
quarenta eram brazileiros e cento e sessenta orientaes.

Eram commandados por um antigo irmo de armas de Lavalleja, o coronel
Jurien. Lavalleja podia evitar o combate, mas no o quiz e marchou
direito aos duzentos cavalleiros, e pediu uma entrevista ao coronel
antes de entrar em combate.

--Que quer e que vem aqui fazer? perguntou Jurien a Lavalleja.

--Venho libertar Montevideo do dominio estrangeiro, respondeu
Lavalleja, se tem as minhas idas acompanhe-me, se no, entregue-me as
suas armas, ou prepare-se para o combate.

--No comprehendo o que querem dizer essas palavras = _entregue-me as
suas armas_, respondeu o coronel, e espero que ninguem m'as ha-de
explicar.

--Ento tome o commando dos seus soldados, e vamos vr por quem  Deus.

--Veremos, disse Jurien.

E partiu a galope a unir-se aos seus soldados.

Mas no mesmo momento Lavalleja desenrolou a bandeira nacional, azul,
branca e encarnada e immediatamente os cento e sessenta orientaes
passaram para o seu lado.

Os quarenta brazileiros foram feitos prisioneiros.

A marcha de Lavalleja para Montevideo foi uma verdadeira marcha
triumphal, de que o resultado foi que a republica oriental, proclamada
pela vontade e enthusiasmo de um povo inteiro, tomou logar entre as
naes.




                                 ROSAS


Durante estes acontecimentos engrandecia-se um nome que mais tarde
devia ser o terror da federao argentina.

Pouco depois da revoluo de 1810 um mancebo de quinze a dezaseis
annos saa de Buenos-Ayres, abandonando a cidade e dirigindo-se para o
campo. Ia muito perturbado e caminhava apressadamente.

Este mancebo chamava-se Joo Manoel Rosas.

Porque esta creana, este fugitivo abandonava a casa onde havia
nascido? Porque ia pedir um asylo aos habitantes dos montes?  porque
acabava de insultar sua me, como mais tarde devia insultar a sua
patria; ia perseguido pela maldio paterna.

Este successo, sem nenhuma importancia para os acontecimentos d'aquelle
paiz, esqueceu bem depressa no meio de factos mais serios que ento
tiveram logar, e em quanto todos os antigos companheiros do fugitivo
se reuniam debaixo do estandarte da independencia para combater os
hespanhoes, Rosas, andava pelos _pampas_ entregando-se  vida dos
gauchos, adoptando o seu vestuario e costumes, tornando-se um dos
melhores cavalleiros e um dos homens mais habeis d'essas immensas
planicies, no manejo do lao e da bola, de sorte que vendo-o to habil
n'estes exercicios selvagens, quem no o conhecesse no o tomaria por
um habitante da cidade, nem por um _pueblero_ fugitivo, mas por um
verdadeiro gaucho.

Rosas entrou primeiramente como _peon_, isto  jornaleiro, em uma
estancia, depois foi _capataz_,--Garibaldi j nos explicou o que era um
_capataz_--chegando depois a _mayordomo_.

N'esta qualidade governava os bens da poderosa familia Anchorena. 
d'ahi que comea a sua fortuna como proprietario.

Sendo o nosso designio fazer conhecer Rosas debaixo de todos os
aspectos; vamos dizer qual era a situao do seu espirito no meio dos
acontecimentos que ento tinham logar.

Rosas tinha estado em Buenos-Ayres durante os prodigios praticados
pela revoluo contra a Hespanha. Ento quem tinha coragem procurava
a celebridade no campo da batalha, quem tinha instruco procurava-a
nos conselhos. Rosas era ambicioso de celebridade, mas qual era a que
elle poderia esperar? Que nome poderia adquirir, elle que no tinha nem
coragem para se apresentar no campo da batalha, nem instruco alguma
para adquirir um nome entre os homens da sciencia? A todos os momentos
ouvia proferir a seu lado alguns nomes que se haviam tornado celebres.
Eram como ministros, Rivadaria, de Pasos, de Aguerro, como guerreiros,
Saint-Martin, de Balars, de Rodrigues, e de Las Heras.

E todos estes nomes de que o ruido, vindo da cidade, ia achar co nas
solides dos campos, todos estes nomes avivavam o seu odio contra essa
cidade que tendo triumphos para todos, no tinha para elle seno o
exilio.

J n'esta poca Rosas pensava no futuro e preparava-o. Errando pelos
pampas, confundido com os gauchos, fazia-se o companheiro da miseria do
povo, elogiando os prejuizos do homem das planicies, excitando-o contra
os cidados, demonstrando-lhe a superioridade do numero e diligenciando
fazer-lhe comprehender que quando quizessem os habitantes do campo,
seriam senhores da cidade.

Os annos foram passando, at que chegamos a 1820.

Foi ento que Rosas comeou a apparecer, apoiado na influencia que
havia adquirido nos habitantes das planicies.

J vimos o que se passou em Montevideo. Vejamos agora o que se passou
em Buenos-Ayres.

A milicia de Buenos-Ayres rebellou-se contra o governador Rodrigues.
Ento um regimento das milicias do campo, _los colorados de las
Conchas_ entraram na cidade, em 5 de outubro de 1820, tendo  sua
frente um coronel, que era conhecido em Buenos-Ayres, e que conhecia
Buenos Ayres.

Este coronel era Rosas.

No dia seguinte as milicias do campo, e as milicias da cidade vieram s
mos, mas n'esse dia o coronel no estava  frente do regimento.

Uma violenta dr de dentes, que Rosas deixou de soffrer assim que
finalisou o combate, affastava-o, com grande pezar, do campo da
batalha. E porque no teria elle razo? Octavio tambem teve um grande
ataque de febre no dia da batalha de Actium.

Rosas parecia-se muito com Octavio; mas mais tarde Octavio foi Augusto,
o que segundo todas as probabilidades nunca ser Rosas.

Esta entrada em Buenos-Ayres foi a unica expedio guerreira em que
Rosas tomou parte durante toda a sua vida politica.

Foi ento que Rivadavia, j mui conhecido, foi nomeado ministro do
reino, tomando a direco de todos os negocios.

Rivadavia era um d'esses homens de genio, como apparecem no meio das
revolues durante os dias de tormenta. Havia viajado muito na Europa,
possuindo uma instruco universal, e parecendo animado do mais ardente
e puro patriotismo. Infelizmente a vista da civilisao europea, que
tinha estudado em Paris e Londres havia-lhe feito nascer falsas idas
da sua applicao a um povo que no tendo por detraz de si dez seculos
de luctas sociaes, no as podia admittir.

Rivadavia queria dobrar a marcha do tempo e fazer o mesmo pela America
que Pedro o Grande havia feito pela Russia; mas no tendo  sua
disposio os meios de Pedro foi obrigado a desistir das suas intenes.

Pde ser que com mais alguma esperteza Rivadavia as tivesse alcanado,
mas censurava os homens pelos seus habitos e certos habitos so uma
nacionalidade e outros um orgulho. Escarnecia os trajes americanos,
manifestando a sua repugnancia pela _jaqueta_, o seu desprezo pela
_chiripa_, o vestuario do homem dos campos, e como ao mesmo tempo
no occultava a sua preferencia pela casaca e bota de polimento,
despopularisou-se pouco a pouco, e sentiu o poder prestes a escapar-lhe.

E no obstante que de beneficios no fez ao seu paiz em troca d'esses
vestidos ridiculos que lhe queria tirar? A sua administrao foi a mais
prospera que Buenos-Ayres teve. Foi elle que fundou a universidade,
os liceos, e que introduziu nas escolas o ensino mutuo. Durante a sua
administrao, muitos sabios foram chamados da Europa, as artes foram
protegidas, desenvolvendo-se muito, emfim Buenos-Ayres era chamada a
Athenas da America do Sul.

J fallmos da guerra de Buenos-Ayres em 1826. Para sustentar esta
guerra, Buenos-Ayres fez sacrificios enormes, exgotando as suas
finanas, e enfraquecendo por esse motivo muito as molas da sua
administrao.

Exgotadas as finanas, enfraquecido o governo, as revolues comearam.

J dissemos que em Buenos-Ayres como em Montevideo, o campo e a cidade
nunca estavam em harmonias de opinies, como nunca o estavam em
harmonias de interesse.

Buenos-Ayres fez uma revoluo.

Immediatamente o campo fez uma revoluo, e dirigindo-se sobre
Buenos-Ayres, invadiu a cidade e fez o seu chefe governador.

Este chefe era Rosas.

Vamos fechar o parenthesis, aberto algumas paginas atraz.

Em 1830 Rosas foi eleito governador pela influencia dos habitantes do
campo, no obstante a opposio da cidade, que elle encontrou meia
policiada pela administrao de Rivadavia.

Ento Rosas, o gaucho, tentou reconciliar-se com a civilisao,
parecendo querer esquecer os costumes selvagens adoptados por elle at
ento: a serpente queria mudar de pelle.

Mas a cidade resistiu s suas tentativas, e a civilisao recusou
receber o transfuga que se havia passado para o campo da barbaria.
Rosas mostrava-se revestido de um uniforme, e immediatamente os
militares perguntavam em que campo de batalha havia elle ganho aquellas
dragonas. Fallava n'uma reunio, e logo os homens intelligentes
perguntavam entre si onde tinha elle ido aprender aquelle estylo;
quando apparecia n'um passeio, as mulheres designando-o com o dedo
diziam: Ahi vae o gaucho disfarado!

Os tres annos do seu governo passaram-se n'esta lucta mortal para o
seu orgulho, e pde ser que a estas torturas moraes que lhe fizeram
soffrer n'este periodo, seja devida a sua ferocidade. D'esta maneira
quando resignou o poder e desceu a escada do palacio, com a alma cheia
de odio, e o corao de fel, sabendo que desde ento no havia alliana
possivel com a cidade, foi ter de novo com os seus fieis gauchos, e as
suas estancias de que era o senhor, com a inteno de um dia entrar
de novo em Buenos-Ayres, como Scylla, que elle no conhecia e de quem
provavelmente nunca havia ouvido fallar, havia entrado em Roma, com a
espada n'uma mo e uma tocha m outra.

Para alcanar este fim vejamos o que elle fez. Pedia ao governo que lhe
concedesse um commando qualquer no exercito que ia combater os indios
selvagens. O governo que o temia julgou affastal-o concedendo-lhe este
favor, e deu-lhe todas as tropas de que podia dispr, esquecendo que se
enfraquecia mettendo todo o poder nas mos de Rosas.

Este logo que se achou  frente do exercito fez uma revoluo em
Buenos-Ayres, fez-se chamar ao poder que no acceitou seno com grandes
condies, porque tinha s suas ordens todo o exercito, e entrou em
Buenos-Ayres com a dictadura mais absoluta de que se tem conhecimento,
isto  _com toda la suma del poder publico_--com toda a extenso do
poder publico.

O governador que elle fez cair, ou antes que elle precipitou era o
general Joo Romo Baleace, um dos homens que tinha mais trabalhado
na guerra da independencia, e um dos chefes do partido federal de
que Rosas se dizia o sustentaculo. Baleace era um nobre corao e a
sua fidelidade  patria era proverbial. Havia acreditado em Rosas e
tinha trabalhado muito para a sua elevao. Baleace foi o primeiro
sacrificado por Rosas, morrendo proscripto e quando o seu cadaver
repassou a fronteira, protegido pela morte, Rosas recusou  sua
familia, no as honras funebres que eram devidas a um ex-governador,
mas as simples ceremonias a quem todo o cidado tem direito.

Em 1833 foi que comeou o verdadeiro poder de Rosas. No seu primeiro
governo, cheio de dissimulao, no tinha apresentado os seus
instinctos de crueldade, que fizeram depois d'elle uma celebridade
de sangue. Este primeiro periodo no tinha sido marcado seno pelo
fuzilamento do major Monteiro e dos prisioneiros de S. Nicolau. Comtudo
no devemos esquecer que foi n'esta poca que tiveram logar muitas
mortes sombrias e subitas, d'essas mortes de que a historia inscreve a
data com tinta encarnada no livro das naes.

D'esta maneira desappareceram dois chefes de que a influencia poderia
fazer alguma sombra a Rosas. As mortes de Arbolito e de Molina tiveram
logar n'esta poca. O mesmo aconteceu, segundo nos parece, aos dois
consules que acompanharam Octavio na sua primeira batalha contra
Antonio.

Daremos mais alguns detalhes de Rosas que ainda no nos appareceu
seno como dictador, mas tendo j alcanado um poder como poucos homens
tem exercido n'uma nao.

Em 1833, Rosas contava trinta e nove annos. Tinha o aspecto europeo,
cabellos louros, olhos azues, e uma presena soffrivel. No usava
nem de barbas, nem de bigodes. O seu olhar seria bello se se podesse
examinar, mas Rosas havia-se habituado a no olhar de frente, nem os
seus amigos nem os seus inimigos, porque sabia que n'um amigo existe
quasi sempre um inimigo disfarado. A sua voz era doce, e, quando tinha
necessidade de agradar a sua conversao tinha muito de attrahente.
A sua reputao de cobarde  proverbial, e a de esperto  universal.
Adorava as mystificaes, sendo esta a sua grande occupao antes de se
entregar aos negocios serios. Uma vez chegado ao poder, no foi seno
uma distraco, que eram brutaes como a sua natureza.

Citemos um ou dois exemplos:

Uma tarde que devia jantar na companhia de um dos seus amigos, occultou
o vinho destinado a beber-se e deixou unicamente no bofete uma garrafa
do famoso licor de Leroy, que para ser completamente celebre s lhe
falta ser descuberto no tempo de Moliere. O amigo procurando o vinho
s achou a garrafa de Leroy e encontrando-lhe um gosto mui agradavel,
bebeu-a toda. Rosas no bebeu se no agua, e partiu logo que acabou o
jantar para a sua estancia.

Durante a noite o amigo de Rosas soffreu dores infernaes. Rosas riu
muito d'este seu innocente brinquedo, se elle tivesse morrido, Rosas
teria, sem duvida, rido muito mais.

Quando recebia algum cidado em uma das suas estancias, fazia-o montar
em cavallos muito fogosos e a sua alegria era conforme a gravidade da
queda que o cavalleiro dava.

No palacio do governo achava-se sempre rodeado de loucos e de imbecis,
e no meio dos negocios mais serios conservava este singular cortejo.
Quando sitiava Buenos-Ayres, em 1829, tinha a seu lado quatro d'estes
pobres diabos, que havia feito monges, tornando-se em virtude do seu
poder, seu prior. Chamavam-se frei Biqua, frei Chaja, frei Lechuza, e
frei Biscacha. Rosas gostava muito de confeitos, tendo-os sempre de
todas os qualidades na sua tenda.

Os monges que tambem gostavam muito de confeitos, roubavam alguns de
quando em quando. Rosas ento chamava-os a todos e os monges que sabiam
o que lhe custaria a mentir, confessavam o crime.

Immediatamente o culpado era despojado dos vestidos e fustigado pelos
seus tres companheiros.

Todos conheciam em Buenos-Ayres o seu mulato Eusebio, e para isso muito
concorreu Rosas que em um dia de recepo publica, teve a ida de fazer
o mesmo que a condessa Dubarry fazia com o preto Zamora.

Eusebio vestido de governador recebeu os cumprimentos das authoridades,
em logar do seu _senhor_.

No obstante a amizade que Rosas tinha a Eusebio, teve um dia a
lembrana de lhe fazer uma _brincadeira_, como costumavam ser todas
as que esta boa alma inventava. Fingiu que acabava de ser descoberta
uma conspirao, contra elle, de que o chefe era Eusebio. O fim
d'esta conspirao era matar Rosas. Eusebio foi preso apezar dos seus
protestos de innocencia. Rosas dominava os juizes a tal ponto que elles
no se importavam se o accusado era ou no innocente. Rosas accusava, e
elles julgaram e condemnaram Eusebio  morte.

Eusebio soffreu todos os preparativos do supplicio. Confessou-se, e
sendo depois conduzido ao logar do supplicio, ahi encontrou o carrasco
e seus ajudantes, e quando este _brinquedo_ estava quasi a terminar
tragicamente, appareceu Rosas que disse a Eusebio estar sua filha
Manuelita apaixonada por elle, e que por isso lhe perdoava, com a
condio de a desposar.

 inutil dizer que Eusebio no morrendo do supplicio esteve quasi a
morrer de medo.

Vamos agora dizer aos nossos leitores quem era como mulher esta
Manuelita que a Providencia tinha collocado ao p de seu pae como um
bom anjo, de que a principal occupao, durante toda a sua vida, foi
repetir todos os dias a palavra _perdo_, alcanando-o muitas vezes.

Manuelita  hoje uma mulher de quarenta annos que por dedicao por
seu pae, e pde ser, que talvez pela misso que recebeu do ceu, se tem
conservado solteira, pelo menos at 1850, poca em que a perdemos de
vista.

Manuelita no era precisamente uma mulher encantadora, mas era bella,
com uma figura distincta, dotada de um tacto profundo, coquette como
uma parisiense, e muito preoccupada, sobre tudo do effeito que produzia
nos estrangeiros.

Manuelita foi muito calumniada, o que era muito natural por ser filha
de Rosas, isto , do homem sobre o qual convergiam todos os odios. Era
accusada de ter herdado os sentimentos crueis de seu pae, e de ter,
como a filha do papa Borgia, esquecido o amor filial por outro mais
terno e menos christo.

Tudo isto  falso. Manuelita ficou solteira por duas razes: a primeira
porque Rosas sentia muitas vezes a necessidade de ser amado, e sabia
que o unico amor real, dedicado, infinito, sobre que podia contar era
o de sua filha. Manuelita ficou solteira porque, talvez, nos seus
sonhos de realeza, Rosas, hoje simples particular, vivendo num canto da
Inglaterra, via no futuro brilhar para Manuelita alguma alliana mais
aristocratica do que aquellas a que poderia ento aspirar.

Tanto a historia deve ser severa para com Rosas, tanto, a menos de
ser injusta, deve ser cheia de indulgencia para com Manuelita, a quem
todos que a conhecem fazem justia, reconhecendo o que dizemos como uma
verdade. Manuelita foi o dique eterno, que fazia parar a colera de seu
pae. Quando creana tinha um meio muito extravagante para obter d'elle
a graa que pedia.

Fazia despir completamente o mulato Eusebio, arreiando-o como um
cavallo, e calava uns lindos sapatos com esporas. Eusebio punha as
mos no cho, e Manuelita montava-se-lhe nas costas, fazendo caracolar
o seu bucephalo humano diante de seu pae que ria muito d'este singular
brinquedo, concedendo a Manuelita o perdo que implorava.

Mais tarde quando ella comprehendeu que no podia empregar este meio,
apezar de ser to efficaz, comeou a pr em pratica a obra de Mecena ao
p de Augusto, quando elle lhe lanava as suas tabuas nas quaes estava
escripto: _Surge, carnifex_! Mas Manuelita procedia de outra maneira,
porque conhecendo seu pae perfeitamente, sabia as vaidades secretas que
era necessario fazer vibrar, e por isso muitas vezes alcanava o que
pedia.

Manuelita era ao mesmo tempo a rainha e escrava de seu pae.
Administrava a casa, cuidava de Rosas, e encarregada de todas
as relaes diplomaticas era o verdadeiro ministro dos negocios
estrangeiros de Buenos-Ayres.

Assim como Rosas era um ente  parte, que no se confundia com pessoa
alguma na sociedade, Manuelita era tambem uma creatura no s estranha
no meio de todas, mas mesmo estranha a todas, e que viveu n'este mundo
solitaria, longe do amor dos homens e da sympathia das mulheres.

Rosas tambem tinha um filho chamado Joo, mas que nunca seguiu a
politica de seu pae, e uma filha que ainda creana casou, sendo hoje
uma casta esposa e mi feliz, tendo um nome, o de seu marido, honrado e
respeitado por todos.

Tendo alcanado o poder, o grande trabalho de Rosas, foi anniquilar a
federao.

Lopes o seu fundador, cahiu doente. Rosas mandou-o vir para
Buenos-Ayres e tornou-se seu enfermeiro.

Lopes morreu envenenado.

Quiroga, o chefe da federao, que havia escapado so e salvo de
vinte batalhas, e de quem a coragem e lealdade era proverbial, morreu
assassinado.

Cullen, o conselheiro da federao, foi nomeado governador de Santa
F. Rosas improvisou uma revoluo, e Cullen foi entregue a Rosas pelo
governador de So Thiago.

Cullen foi fuzillado.

Todos os homens notaveis no partido federal tiveram a mesma sorte que
tinham tido na Italia os homens de considerao durante o dominio dos
Borgias. Pouco a pouco, Rosas, empregando os mesmos meios que Alexandre
VI e seu filho Cesar, conseguiu reinar na republica argentina, que
apezar de reduzida a uma perfeita unidade, conserva ainda o nome
pomposo de federao, e vae talvez, ser inimiga dos _unitarios_.

Diremos algumas palavras dos homens que acabamos de nomear, fazendo
reviver algum tempo os seus spectros accusadores, o que dar alguma
ida da scena de Shakespeare no _Ricardo 3._, antes do combate.

Havia n'esses homens uma especie de selvajaria politica que  digna de
ser conhecida.

Fallemos primeiramente do general Lopes. Uma unica anedocta, dar no
smente ida d'este chefe, mas far conhecidos os homens com quem elle
tinha a tratar.

Lopes era governador da Santa F, e tinha em Entre Rios um inimigo
pessoal, o coronel Ovando, que em seguida a uma revolta foi conduzido
prisioneiro ao general Lopes.

O general almoava. Recebeu perfeitamente Ovando e convidou-o a
almoar. A conversao travou-se entre elles como entre dois convivas,
aos quaes uma egualdade de condies tivesse ordenado a mais perfeita
cortezia.

Comtudo no meio da conversao, Lopes exclamou:

--Coronel, se eu tivesse cahido nas suas mos, como cahiu nas minhas e
isto no momento em que almoasse, que faria?

--Convidal-o-ia para almoar, como v. ex. acaba de fazer.

--E depois?

--Mandava-o fuzillar.

--Estimo muito que pense do mesmo modo que eu. Acabando de almoar ser
fuzillado.

--Se no se quer demorar muito, pde ser j.

--No, no, acabe de comer descanado, no tenho muita pressa.

E continuaram a almoar com todo o descano, e tendo concluido:

--Julgo ser tempo, disse Ovando.

--Agradeo-lhe o no haver esperado que eu o lembrasse, respondeu Lopes.

Depois chamando o seu camarada.

--O piquete est prompto? perguntou elle.

--Sim, meu general, respondeu o soldado.

Ento voltando-se para Ovando:

--Adeus, coronel, disse Lopes.

--Adeus, no; mas sim at  vista, porque no se vive muito tempo
quando se fazem guerras como as nossas.

E cumprimentando Lopes sahiu. Cinco minutos depois, o estrondo de uma
descarga annunciou a Lopes que o coronel Ovando havia entregue a alma a
Deos.

Passemos a Quiroga.




                               QUIROGA


Este  mais nosso conhecido. A sua reputao atravessando os mares, fez
echo em Paris, e a moda apoderou-se d'elle: de 1820 a 1823 todos tinham
capotes  Quiroga e chapeus  Bolivar.  provavel que nem um nem outro
tivessem usado dos capotes e chapeus que os seus admiradores adoptaram
a duas mil leguas de distancia.

Quiroga, como Rosas, era tambem camponez e havia servido, na sua
mocidade, como sargento no exercito de linha contra os hespanhoes.

Retirado ao seu paiz natal, a Rioja, entrou nos partidos internos, e
tornado-se senhor do paiz, lanou-se na lucta das differentes faces
da republica, e foi n'estas luctas que se mostrou pela primeira vez 
America.

No fim de um anno, Quiroga era a espada do partido federal, e  talvez
o unico homem que tenha obtido similhantes resultados pela simples
applicao do seu valor pessoal. O seu nome tinha alcanado um tal
prestigio que s elle valia muitos exercitos.

A sua grande tactica no meio dos combates, era chamar para o p de si o
maior numero de perigos, e quando repentinamente dava o grito de guerra
brandindo na mo essa longa lana que era a sua arma predilecta, os
mais bravos faziam conhecimento com o medo.

Quiroga era cruel, ou antes feroz, mas na sua ferocidade havia sempre
alguma cousa de grande e generoso. Era a ferocidade do leo e no a do
tigre.

Quando o coronel Pringles, um dos seus maiores inimigos, foi feito
prisioneiro e assassinado, o seu assassino apresentou-se a Quiroga, seu
chefe, julgando ter ganho uma boa recompensa.

Quiroga deixou-lhe contar o seu crime, e mandou-o fuzillar.

Uma outra vez dois officiaes pertencentes ao partido inimigo foram
feitos prisioneiros pelos soldados de Quiroga que lembrando-se do
castigo do seu camarada, os conduziram sos e salvos  presena do seu
chefe.

Quiroga offereceu-lhe abandonar as suas bandeiras, servindo debaixo das
suas ordens.

Um acceitou, outro recusou.

--Est bem, disse elle ao que havia acceitado, montemos a cavallo e
vamos vr fuzillar o seu camarada.

Aquelle sem fazer a menor observao, apressou-se a obedecer, e
conversou todo o caminho alegremente com Quiroga de quem se julgava j
ajudante de campo, em quanto o seu camarada cercado por um piquete, com
as armas carregadas, marchava tranquillamente para a morte.

Chegado ao logar destinado para a execuo, Quiroga mandou ajoelhar o
official que tinha recusado trahir o seu partido, e disse-lhe que se
preparasse para morrer, e quando o viu prompto:

--Vamos, disse Quiroga, ao pobre official que se julgava j morto, s
um bravo.--Monta no cavallo do teu camarada e parte.

E designava o cavallo do renegado.

--E eu? perguntou este.

--Tu, respondeu Quiroga, no precisas cavallo porque vaes morrer.

E apezar das supplicas que lhe fez em favor do seu camarada, aquelle a
quem acabava de dar a vida, mandou-o fuzillar.

Quiroga s foi vencido uma vez, e essa pelo general Paz, o Fabio
americano. Duas vezes destruiu o exercito de Quiroga nas terriveis
batalhas de Tablada e Oncativo. Era um bello espectaculo para esses
jovens republicanos o vr a arte, a tactica e a estrategia em lucta
contra a coragem indomavel e a vontade de ferro de Quiroga. Mas uma vez
o general Paz foi feito prisioneiro, a cem passos do seu exercito, e
desde essa poca Quiroga foi invencivel.

Terminada a guerra entre o partido unitario e o partido federal,
Quiroga emprehendeu uma viagem s provincias interiores sendo na
volta, attacado em Barrancallaco por trinta assassinos, que fizeram
fogo sobre a carroagem. Quiroga que se achava n'esta occasio doente,
estava deitado, na carroagem, tendo-lhe por isso atravessado o peito
uma balla. Apesar d'isso Quiroga levantou-se pallido e ensanguentado e
abriu a portinhola. Vendo-o em p, apezar de estar quasi cadaver, os
assassinos fugiram; mas Santos Peres, seu chefe, dirigiu-se a Quiroga
e dando-lhe um golpe na cabea acabou de o matar.

Ento os assassinos voltaram e acabaram a obra comeada. Eram os irmos
Renaf, commandantes em Cordova que de accordo com Rosas dirigiam esta
expedio. Mas Rosas tinha tido todo o cuidado de affastar de si todas
as suspeitas, de modo que ninguem julgou fosse elle um dos cumplices em
similhante morte, podendo por isso tomar o partido do que tinha feito
assassinar, perseguindo os assassinos que foram presos, julgados, e
fuzillados.

Falta Cullen.

Cullen, que tinha nascido em Hespanha, havia-se estabelecido na
cidade de Santa F, onde se tinha ligado com Lopes, sendo depois seu
ministro e director na politica. A immensa influencia que Lopes teve na
republica argentina, desde 1820 at  sua morte em 1833, fez de Cullen
uma personagem muito importante. Quando nos dias de sua desgraa, Rosas
proscripto emigrou para Santa F, recebeu de Cullen toda a especie
de servios, mas esses servios no poderam fazer esquecer ao futuro
dictador que Cullen era um dos homens que queriam acabar com o reinado
da arbitrariedade na republica argentina. Comtudo soube occultar o seu
odio a Cullen debaixo das apparencias da maior amizade.

Pela morte de Lopes, Cullen foi nomeado governador da Santa F
consagrando-se a fazer grandes melhoramentos na provincia, e em
logar de se mostrar inimigo da Frana, mostrou por esta nao muitas
sympathias, considerando que a sua alliana era um grande passo para
as suas idas civilisadoras. Ento Rosas promoveu uma revoluo, que
appoiou publicamente, sendo coadjuvado por alguma tropa. Cullen vencido
refugiou-se na provincia de Santiago del Estero, que governava o seu
amigo Ibarra. Rosas, que destruindo a federao tinha j declarado
Cullen _selvagem unitario_, entabolou negociaes com Ibarra afim de
lhe entregar Cullen.

Durante muito tempo estas negociaes no obtivero resultado algum,
julgando-se Cullen, seguro pela confiana que tinha no seu amigo, mas
um dia foi preso pelos soldados de Ibarra e conduzido a Rosas que o
mandou assassinar no meio do caminho, porque disse elle n'uma carta
dirigida ao governador de Santa F que tinha succedido a Cullen, o seu
_processo estava feito pelos seus crimes que eram conhecidos por todos_.

Cullen era dotado d'uma conversao agradavel e d'um corao generoso.
A sua influencia sobre Lopes foi sempre empregada a evitar toda a
especie de rigor, e foi em resultado d'esta influencia que o general
Lopes, no obstante as supplicas de Rosas, no consentiu em mandar
fuzillar um unico dos prisioneiros da campanha de 1831, campanha que
poz em seu poder os chefes mais importantes do partido unitario.

Cullen possuia uma instruco superficial e os seus talentos eram
mediocres.

Foi d'esta sorte que Rosas, o unico que talvez no teve nenhuma gloria
militar, entre os chefes do partido federal, se desembaraou dos
chefes d'este partido, ficando desde ento a pessoa mais importante da
republica argentina, e senhor absoluto de Buenos Ayres.

Ento Rosas tendo alcanado todo o poder, commeou a sua vingana
contra as classes elevadas que at ento o tinham despresado. No meio
das personagens mais aristocratas e mais elegantes mostrava-se sempre
vestido de jaqueta, ou sem gravata. Aos seus bailes a que presidia com
sua mulher e filha, no eram convidados seno os carreiros, sapateiros,
etc. Um dia abriu o baile danando com uma escrava, e Manuelita com um
gaucho.

Mas no foi s d'esta maneira que elle puniu a soberba cidade, porque
proclamou o terrivel principio:

    _o que no est comigo  contra mim_

E desde ento todo o homem que lhe desagradava foi classificado de
_selvagem unitario_, e o que uma vez Rosas havia designando por este
nome no tinha mais direito nem  vida nem  honra.

Ento para por em pratica as theorias de Rosas, organisou-se debaixo
dos seus auspicios a famosa sociedade MAS-FORCA, isto , ainda ha
forca. Esta sociedade era composta de tudo quanto havia de peor na
sociedade.

N'ella se achavam filiados por ordem superior o chefe da policia, os
juizes de paz, e todos aquelles que deviam vigiar pela ordem publica.
Por este meio quando os membros d'esta sociedade entravam em casa de
qualquer cidado, para a roubar ou assassinar o seu proprietario, era
escusado chamar em seu auxilio a policia, porque ninguem corria a
soccorrer a desgraada victima. Estas excurses tinham logar quasi
sempre de dia, tanto era o receio dos criminosos.

E quer o leitor alguns exemplos? Vamos dal-os, por que no  costume
nosso fazer uma accusao sem a provar.

Os elegantes de Buenos-Ayres tinham n'esta poca o habito de trazer os
bigodes de modo que pareciam formar um U, e isto era sufficiente para
a sociedade dos MAS-FORCA, debaixo do pretexto de que o U queria dizer
unitario, se apoderar do desgraado, rapando-lhe a cara com navalhas
mal afiadas, de modo que a carne vinha juntamente aos pedaos com os
cabellos. Depois de praticarem esta barbaridade, abandonavam a victima
aos caprichos da populaa, que muitas vezes continuava esta brincadeira
at dar a morte quelle desgraado.

As mulheres do povo comeavam a usar nos cabellos a fita encarnada
chamada _mono_. Um dia a Mas-forca collocada s portas das principaes
egrejas, marcou com um ferro em brasa todas as mulheres que entravam ou
sahiam sem ter a tal fita.

Tambem no era uma cousa extraordinaria o ver uma mulher despojada dos
seus vestidos e aoitada no meio da rua, e isto porque ella trazia
um leno, um vestido um enfeite qualquer, no qual havia a cor azul
ou verde. O mesmo succedia com os homens da mais elevada posio,
sendo apenas necessario para elles correrem os maiores perigos que se
apresentassem em publico de casaca ou com uma gravata.

Ao mesmo tempo que as pessoas, sem duvida designadas  muito, e que
pertenciam s classes superiores da sociedade perseguidas por uma cruel
vingana, eram victimas d'estas violencias, centenas de cidados eram
encarcerados, e isso s porque as suas opinies no estavam em harmonia
com as do dictador. Ninguem conhecia o crime porque era preso, mas isso
tambem era desnecessario, visto ser conhecido de Rosas. Do mesmo modo
que o crime ficava desconhecido, tambem o julgamento era considerado
inutil, e todos os dias as prises para poderem dar entrada a novas
victimas, eram despojadas de algumas d'ellas que ero fuziladas. Estes
fuzilamentos tinham logar de noute, sendo a cidade constantemente
accordada de sobresalto.

De manh, cousa horrivel que nem mesmo em Frana se viu durante os
terriveis dias de 1793, os carreiros apanhavo tranquillamente os
cadaveres dos assassinados e hiam s prises buscar os dos que tinham
sido fuzillados, e conduzindo-os a um grande fosso onde eram todos
lanados, sem que fosse permittido aos parentes das victimas o vir
reconhecel-as e prestar-lhe as ultimas honras funebres.

Ainda no  tudo: os carreiros que conduzio estes restos deploraveis
annunciavam a sua chegada por terriveis gracejos que faziam fechar
todas as portas e fugir a populao. Muitas vezes decepavam a cabea
do tronco, enchendo cestos com ellas, e offerecendo-as depois aos
tranzuentes assustados.

Bem depressa o calculo se juntou  barbaridade, o fisco  morte.

Rosas comprehendeu que o meio de se conservar no poder era crear em
volta de si interesses inseparaveis dos seus.

Ento mostrou a uma parte da sociedade metade da fortuna da outra
dizendo-lhe-- tua.

A partir d'este momento a ruina dos antigos proprietarios de
Buenos-Ayres foi consumada, comeando os amigos de Rosas a obter
grandes fortunas.

O que no tinha ousado pensar nenhum tyranno, o que no tinha vindo 
ida de Nero, foi executado por Rosas: depois de haver assassinado o
pai prohibiu ao filho o deitar luto. A lei que continha esta prohibio
foi proclamada e fixada nas esquinas, e bem necessaria foi, porque
quando no, tudo em Buenos Ayres andaria de luto!

Os excessos d'este despotismo admiraram alguns estrangeiros e sobre
tudo alguns francezes. Rosas cansou a paciencia de Luiz Felippe,
paciencia bem reconhecida, e logo depois teve lugar o primeiro bloqueio
pela esquadra franceza.

Entretanto as classes elevadas to mal tractadas, commearo a fugir
de Buenos Ayres e para encontrar um asylo refugiaram-se no estado
oriental, onde a maioria da cidade proscripta achou hospitalidade.

Foi em vo que a policia de Rosas redobrou de vigilancia, foi em vo
que uma lei prohibio de morte a emigrao, foi em vo que a essa morte
se juntaram os mais crueis detalhes, porque Rosas conheceu bem depressa
que a morte s no era sufficiente; o terror e o odio que inspirava
Rosas eram mais fortes que os meios inventados por elle, e a emigrao
augmentava d'uma maneira espantosa a todos os momentos. Para realisar
a fuga de toda uma familia, era s necessario encontrar um barco que
a podesse transportar. Encontrado elle, pai, me, filhos, irmos, ahi
se lanavam, abandonando casa, bens, fortuna, e todos os dias, se via
chegar ao estado oriental, isto  a Montevideo algumas d'essas barcas
cheias de passageiros tendo por unica fortuna o fato que levavam em
cima de si.

Nenhum d'esses fugitivos teve de se arrepender da confiana que tinham
posto na hospitalidade do povo oriental, pois essa hospitalidade foi
como o teria sido a d'uma republica antiga; hospitalidade como devia
esperar o povo argentino d'amigos, ou antes d'irmos, que tantas vezes
tinham combatido unidos para repellir os inglezes, hespanhoes ou
brasileiros,--inimigos communs, inimigos estrangeiros--menos perigosos
comtudo do que esse que havia nascido no meio d'elles.

Os argentinos chegavo em grande quantidade, e ero esperados no
porto pelos habitantes, que escolhiam em raso dos seus recursos
pecuniarios, ou do tamanho da sua casa os emigrados que podiam
recolher. Ento viveres, dinheiro, fato, tudo era posto  disposio
d'esses desgraados, at que elles tivessem alcanado alguns
recursos, no que todos os coadjuvavo. Elles do seu lado reconhecidos
entregavam-se ao trabalho, afim de alliviar o fardo que impunho aos
seus hospedes, dando-lhe assim os meios de receber novos fugitivos.
Para poderem praticar to nobre aco, as pessoas mais habituadas ao
luxo trabalhavo nos misteres mais infimos, enobrecendo-se tanto mais a
occupao a que se entregavam era em opposio com o seu estado social.

Foi por este modo que os mais bellos nomes da republica argentina
figuram na emigrao.

Lavalle, a espada mais brilhante do seu exercito, Florencio Varella,
o seu mais bello talento, Aguero, um dos seus primeiros homens de
estado; Echaverria, o seu Lamartine; La Vega, o Bayardo do exercito das
Andes; Guttierez, o feliz cantor das glorias nacionaes; Alsina o grande
advogado e illustre cidado, pertencem ao numero dos emigrados, assim
como apparecem Saenz, Valente, Molino, Torres, Ramos, Megia, grandes
proprietarios; como apparecem, Rodrigues, o velho general dos exercitos
da independencia, e unitario; Olozabal, um dos mais bravos d'esse
exercito das Andes de que dissemos ter sido La Vega o Bayardo. Rosas
perseguia igualmente o _unitario_ e o _federal_, no se preocupando
seno de se desembaraar de todos os que podiam ser um obstaculo  sua
dictadura.

  hospitalidade concedida aos homens que elle perseguia que deve ser
attribuido o odio de Rosas ao Estado oriental.

Na pocha a que nos referimos a presidencia da republica era exercida
pelo general Fructuoso Rivera.

Rivera era camponez, como Rosas, como Quiroga; unicamente os seus
instinctos ero humanitarios o que o fazia inimigo de Rosas. Como
homem de guerra, a bravura de Rivera no podia ser excedida; como
chefe de partido a sua generosidade no podia ser igualada. Durante
trinta e cinco annos figurou nas scenas politicas do seu paiz. Quando
a revoluo contra a Espanha comeou, Rivera sacrificou a sua fortuna,
por que no era s generoso, era prodigo.

Do mesmo modo que Rivera era prodigo para com os homens, Deus tinha
sido prodigo para com elle. Era um bello cavalheiro, em todo o sentido
da palavra hespanhola _caballero_, que comprehende ao mesmo tempo o
soldado e o gentilhomem, de estatura elevada, de olhar prescutador,
conversando com graa, e attraindo todos por um gesto particular
que s lhe pertencia, sendo por isso o homem mais popular dos
Estados orientaes. Mas se Rivera como homem era mui apreciavel, como
administrador nunca houve nenhum que desorganisasse mais os recursos
pecuniarios d'uma nao. Assim como havia destruido a sua fortuna
particular, destruiu a fortuna publica, no para se enriquecer, mas
porque homem publico tinha conservado todos os habitos do homem
particular.

Na epocha que descrevemos, essa ruina ainda no se fazia sentir:
Rivera, commeava a sua presidencia, e estava rodeado dos homens mais
notaveis do paiz: Obez, Herrero, Vasques, Alvares, Ellauri, Luiz
Eduardo Peres, ero verdadeiramente seno seus ministros ao menos seus
directores, e com estes homens tudo o que era progresso, liberdade e
prosperidade, estava promettido a este bello paiz.

Obez, o primeiro dos amigos de Rivera era um homem d'um caracter
respeitavel. O seu patriotismo, o seu talento eminente, a sua
instruco profunda o collocaram no numero dos grandes homens da
America, e para que nada faltasse  sua popularidade, morreu no exilio
victima do systema de Rosas no Estado oriental.

Luiz Eduardo Peres, era o Aristides de Montevideo. Republicano severo,
patriota exaltado, consagrou a sua longa existencia  virtude, 
liberdade, e ao seu paiz.

Vasquez, homem de talento e instruco, rendeu os primeiros servios ao
seu paiz no cerco de Montevideo, na guerra contra a Hespanha e acabou a
sua carreira durante o cerco contra Rosas.

Herrera, Alvares, e Ellauri cunhados de Obez, no ficaram atraz dos que
temos nomeado. Foram deffensores dedicados do Estado oriental, e de
toda a causa americana, sendo por isso os seus nomes mui respeitados em
todo o territorio americano.




                             MANUEL ORIBE


A presidencia de Rivera finalisou em 1834. O general Manuel Oribe
foi quem lhe succedeu, por influencia do proprio Rivera que contava
ter n'elle um amigo e continuador do seu systema. Com effeito Manuel
Oribe tinha sido nomeado general por Rivera, e havia feito parte da
precedente administrao, como ministro da guerra.

Oribe pertencia s primeiras familias do paiz. O seu espirito era
fraco, a sua intelligencia acanhada, explicando-se por isso a sua
alliana com Rosas, a quem se entregou totalmente, sem pensar que essa
alliana trazia comsigo a perda d'essa mesma independencia pela qual
tantas vezes havia combatido.

Como general a sua incapacidade era incompleta. As suas paixes tinham
a violencia das organisaes nervosas e arrastavam-n'o  crueldade.
Como particular era um homem honesto.

Como administrador foi mais economico que Rivera e no se lhe pode
censurar o ter augmentado o defficit do thesouro, e comtudo  a
elle que cabe toda a responsabilidade da ruina do Estado oriental.
Esquecendo que para ser chefe de partido, no  sufficiente s o querer
sel-o, recusou o ficar alliado do grande partido nacional de que Rivera
era chefe. Querendo formar um partido seu, excitou a desconfiana de
todos e espantado pela sua fraqueza lanou-se nos braos de Rosas.
Ainda que o tratado tivesse ficado secreto todos conheceram esta
alliana pelas hostilidades secretas do governo contra a emigrao
argentina e como todos detestavo o systema de Rosas, o paiz seguiu
Rivera, quando elle em 1836 se collocou  frente d'uma revoluo contra
Oribe.

No obstante essa revoluo em que tomou parte quasi todo o paiz, Oribe
resistiu at 1838.

Oribe deixou a presidencia por renuncia feita officialmente perante as
camaras e sahiu do paiz tendo pedido s mesmas camaras licena para se
retirar.

Rosas, vendo-o abandonar a sua posio, obrigou-o a protestar contra
essa renuncia, e reconhece-o como chefe do paiz de que havia sido
expulso. Foi o mesmo do que se Luiz Filippe, tivesse em Clermont
reconhecido o duque de Bordeos como vice-rei da republica franceza.

Em Montevideo zombaram ao principio d'essa excentricidade do dictador,
mas elle preparava-se para mudar esses risos em lagrimas.

A consequencia natural da conducta de Rosas era a guerra entre as duas
naes.

Esta guerra foi horrivel.

Oribe, a quem alguns dos nossos jornaes, pagos por Rosas, chamaram o
_illustre_ e o _virtuoso_ Oribe, foi ao mesmo tempo general e carrasco.

Mostremos aos leitores algumas d'essas paginas de sangue publicadas
pela _America do Sul_, e nas quaes vem registados dez mil assassinatos.

Tomemos ao acaso alguns dos relatorios feitos a Rosas pelos seus
agentes e officiaes.

O general D. Marianno Achaque serve no exercito contrario a Rosas,
defende S. Joo e no dia 22 de agosto de 1841 rende se depois de
quarenta e oito horas de resistencia. D. Jos Ramires official de Rosas
transmitte ento ao governo de S. Joo o relatorio official d'este
successo. Copiaremos estas linhas:

    _Tudo se acha em nosso poder, mas com perdo e garantia para
    todos os prisioneiros. Entre elles est um filho de Lamadrid._

Agora leia-se o numero 2067 do _Diario da tarde_ de Buenos Ayres, de
22 de outubro de 1841, e em opposio do documento official de Jos
Ramires, que assegura a vida dos prisioneiros, veja o leitor o seguinte:

                               Desaguedero, 22 de setembro de 1841.

    _O selvagem unitario Marianno Acha foi hontem decapitado e a
    sua cabea exposta ao publico._

                                      Assignado: _Angelo Pacheco._

 necessario no confundir este Pacheco, tenente de Rosas com seu primo
Pacheco y Obes um dos seus inimigos mais encarniados.

O leitor deve lembrar-se que no relatorio de Ramires se acha esta frase.

    _Entre os prisioneiros est um filho de Lamadrid._

Veja-se a _Gazeta Mercantil_, numero 5703, de 20 de abril de 1842 e
ahi se encontrar esta carta escripta por Mazario Benavides a D. Joo
Manoel Rosas:

                                      Miraflore 7 de abril de 1842.

    Em um despacho precedente, dei-lhe parte dos motivos porque
    conservava o selvagem Gyriaco Lamadrid, mas sabendo que
    elle se tinha dirigido a muitos chefes da provincia para os
    resolver a tomar a sua defesa, mandei assim que cheguei a Rioja
    _decapital-o, assim como o salvagem unitario Manoel Julio
    Frias, natural de Santiago_.

                                   Assignado: _Mazario Benavides._

Manoel Oribe  testa dos exercitos de Rosas encarregados de submetter
as provincias Argentinas, derrotou, a 15 de abril de 1842, no
territorio de Santa-F as foras commandadas pelo general Joo Paulo
Lopes.

Entre os prisioneiros encontra-se o general D. Joo Martins.

Lde esse fragmento d'uma carta d'Oribe:

    No quartel general de Banancas de Cosonda 17 de abril de
    1842.--Trinta e tantos mortos e alguns prisioneiros, entre as
    quaes se achava _Joo Martines a quem hontem mandei decepar a
    cabea_.

                                        Assignado: _Manoel Oribe._

Se ainda tendes em vosso poder a _Gazeta mercantil_, vde o numero
5903, de 20 de setembro de 1842, e ahi encontrareis um relatorio
official de Manuel Antonio Saravia, empregado no exercito de Oribe.

Este relatorio contm uma lista de desasete individuos, de que um era
chefe de batalho e outro capito, que foram prisioneiros em Numayan,
soffrendo ahi o _castigo ordinario da pena de morte_.

Voltemos ao _illustre_ e _virtuoso_ Oribe, numero 3007 do _Diario da
tarde_, onde vem o seguinte a proposito da batalha de Monte Grande.

                 Quartel general no Ceibal 14 de setembro de 1841.

    Entre os prisioneiros foi encontrado o traidor selvagem
    unitario, ex-coronel Facundo Borda, que _foi executado
    immediatamente, com outros pertendidos officiaes de cavallaria
    e infanteria_.

                                                   _Manoel Oribe._

Oribe estava feliz; um traidor lhe entregou o governador de Tucuman e
os seus officiaes. Eis como elle annuncia esta noticia a Rosas.

                    Quartel general de Mtau 3 de outubro de 1841.

    Os selvagens unitarios que me entregaram o commandante
    Sandoval e que so Marion, o pertendido governador general
    de Tucuman, Avellanieda, o pertendido coronel J. M. Villela,
    o capito Jos Espejo, e o tenente Leonardo de Sousa, _foram
    immediatamente executados na forma ordinaria_,  excepo
    de Avellanieda a quem ordenei que cortassem a cabea, sendo
    exposta ao publico na praa de Tucuman.

                                                   _Manoel Oribe._

Agora passemos a outro carrasco de Rosas.

    Casamarca 29 do mez de Rosas 1841. A S. Excellencia o senhor
    governador Arredondo.

    Depois de duas horas de fogo a infanteria foi passada 
    espada, e a cavallaria posta na mais completa desordem.

    O general conseguiu escapar-se pela serra de Ambaste com
    trinta homens, mas foi perseguido e apanhado e a sua cabea
    ser bem depressa exposta na praa publica, assim como j o
    esto as dos perteadidos ministros Gonalves Dulce e Espeche.

    Viva a federao!

                                             Assignado: _M. Maza._

    _Lista dos selvagens unitarios pertendidos chefes e officiaes
    que foram executados depois da aco de 29_:

    Coronel: Vicente Mercao.

    Commandantes: Modesto, Villafane, Joo Pedro Ponce, Damasio
    Arias, Manoel Lopes, Pedro Rodrigues.

    Chefes de batalho; Manoel Riso, Santiago da Cruz.

    Capites: Joo de Deus Ponce, Jos Salas, Pedro Araujo,
    Izidoro Ponce, Pedro Barros.

    Ajudantes: Damario Sarmento, Eugenio Novillo, Francisco
    Quinteros Daniel Rodrigues.

    Tenente: Domingos Dias.

                                             Assignado: _M. Maza._

Apresentaremos mais esta carta de Maza, para depois voltarmos a Rosas.

                                 Casamarca, 4 de novembro de 1841.

    J lhe disse que pozemos em completa desordem o selvagem
    unitario Cubas, e que era perseguido, esperando ter em breve
    em meu poder a cabea do bandido. Foi com effeito prisioneiro
    no Cerro das Ambastes, e a sua cabea est exposta na praa
    publica da cidade.

    Depois da aco foram feitos prisioneiros dezenove officiaes
    que seguiam Cubas. _No dei quartel._ O triumpho foi completo.

                                                        _M. Maza._

Vejamos de passagem no _Boletim de Mendona_ n. 12, esta carta
escripta no campo de batalha d'Arroyo Grande e dirigida ao governador
Aldao pelo coronel D. Jeronymo Costa.

    Fizemos prisioneiros mais de cento e cincoenta officiaes que
    foram executados immediatamente.

Todo o fogo de artificio tem o seu ramalhete, terminaremos pelo seu
ramalhete este fogo de artificio de sangue.

Prometti fallar de novo em Rosas, e vou agora cumprir a minha promessa.

O coronel Zelallaran foi morto e a sua cabea offerecida a Rosas que
passou tres horas a dar-lhe pontaps. N'esse momento soube que um
outro coronel, irmo d'armas do primeiro, havia sido feito prisioneiro.
No primeiro momento teve teno de o mandar fuzillar, mas depois
mudou de resoluo, e condemnou-o a ter doze horas por dia, durante
tres dias, essa cabea cortada em cima de uma meza que se devia achar
collocada na sua frente.

Rosas mandou fuzillar na praa de S. Nicolau alguns dos prisioneiros do
general Paz.

Entre elles estava o coronel Vedela antigo governador de S. Luiz; no
meio do supplicio o filho do condemnado lanou-se nos braos de seu pae.

--Fuzillae ambos, disse Rosas.

E o pae e o filho expiraram nos braos um do outro.

Rosas mandou conduzir a uma das praas de Buenos Ayres oitenta
prisioneiros indios, e em pleno dia e na presena de todos os mandou
matar a estocadas.

Camilla O'Gorman menina de dezoito annos e oriunda d'uma das principaes
familias de Buenos-Ayres, foi seduzida por um padre de vinte e quatro,
e fugiram ambos de Buenos-Ayres, refugiando-se n'uma pequena villa de
Corrientes onde passando por esposos, estabeleceram uma pequena escola.
Corrientes cahe em poder de Rosas, e os dous fugitivos reconhecidos
por um padre e denunciados por elle a Rosas, so presos e conduzidos a
Buenos-Ayres, onde sem julgamento Rosas os mandou fuzillar.

--Mas, diz alguem a Rosas, Camilla est gravida!

--Baptisae o ventre, diz Rosas, que como _excellente christo_, quer
salvar a alma do menino.

Esta cerimonia executada, Camilla O'Gorman foi fuzillada.

Tres ballas atravessaram os braos da desgraada me que os havia
estendido para proteger seu filho...

Depois d'isto como diremos que a Frana se pronunciou em favor de Rosas?

E com effeito o tratado de 1840 assignado pelo almirante Mackan, firmou
ento o poder de Rosas, deixando s a republica oriental engagada na
lucta.

Foi ento que appareceu Garibaldi na sua volta do Rio Grande.

D'um lado Rosas e Oribe, isto , a fora, a riqueza, o poder combatendo
pelo despotismo.

Do outro lado, uma pequena republica, uma cidade arruinada, um thesouro
exhausto, um povo sem recursos, no podendo pagar aos seus defensores,
mas combattendo pela liberdade.

Garibaldi no hesitou; e encaminhou-se para os deffensores da liberdade.

Agora abandonamos a penna para lhe deixarmos contar a historia d'esse
cerco, que como o de Troia, durou nove annos.


                        FIM DO PRIMEIRO VOLUME


       *       *       *       *       *


                                NDICE

          PROLOGO                                               5
       I  MEUS PAES                                            25
      II  OS MEUS PRIMEIROS ANNOS                              27
     III  AS MINHAS PRIMEIRAS VIAGENS                          29
      IV  AS MINHAS PRIMEIRAS AVENTURAS                        31
       V  OS ACONTECIMENTOS DE S. JULIO                       34
      VI  O DEUS DOS BONS                                      38
     VII  ENTRO AO SERVIO DA REPUBLICA DO RIO GRANDE          42
    VIII  CORSARIO                                             45
      IX  O RIO DA PRATA                                       48
       X  AS PLANICIES ORIENTAES                               50
      XI  A POETISA                                            52
     XII  O COMBATE                                            55
    XIII  LUIZ CARNIGLIA                                       57
     XIV  PRISIONEIRO                                          58
      XV  A APOLEAO                                          60
     XVI  VIAGEM NA PROVINCIA DO RIO GRANDE                    62
    XVII  A LAGOA DOS PATOS                                    65
   XVIII  ARMAMENTO DE LANCHES EM CAMACUA                     67
     XIX  A ESTANCIA DA BARRA                                  69
      XX  EXPEDIO A SANTA CATHARINA                          75
     XXI  PARTIDA E NAUFRAGIO                                  77
    XXII  JOO GRIGGS                                          81
   XXIII  SANTA CATHARINA                                      83
    XXIV  UMA MULHER                                           85
     XXV  O CRUZEIRO                                           87
    XXVI  SAQUE DE IMERUI                                      90
   XXVII  NOVOS COMBATES                                       91
  XXVIII  A CAVALLO                                            94
    XXIX  A RETIRADA                                           98
     XXX  ESTADA NAS LAGES E NOS ARRABALDES                   100
    XXXI  BATALHA DE TAQUARI                                  103
   XXXII  ASSALTO A S. JOS DO NORTE                          108
  XXXIII  ANNITA                                              110
   XXXIV  LEVANTA-SE O CERCO.--ROSSETTI                       116
    XXXV  A PICADA DAS ANTAS                                  118
   XXXVI  CONDUCTOR DE BOIS                                   122
  XXXVII  PROFESSOR DE MATHEMATICA E CORRETOR DE COMMERCIO    128
          MONTEVIDEO                                          130
          ROSAS                                               139
          QUIROGA                                             150
          MANUEL ORIBE                                        158


       *       *       *       *       *


  Nota do Transcritor


  Pontuao e hifenizao foram normalizados.

  O texto aqui transcrito,  uma cpia integral do livro impresso
  em 1860. A ortografia originais foi mantida com exceo de alguns
  erros bvios.

  Palavras em itlico e frases so apresentados por em torno do
  texto com sublinhados (_itlico_).

  O ndice foi adicionado.








End of the Project Gutenberg EBook of Memorias de Jos Garibaldi, volume I, by 
Giuseppe Garibaldi

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIAS DE JOSE GARIBALDI, VOL 1 ***

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Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
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Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
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The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the
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Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to
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